Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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o aCRIME Overdose de encomenda As maiores empresas paraenses, de propriedade familiar, esto em crise. Duas das maiores foram vendidas por seus donos. A Big Ben e a Extrafarma, das famlias Aguilera e Lazera, passaram para corporaes nacionais, pondo fim ao controle local do setor de farmcias, que perdurou ao longo dos ltimos anos. Em pior situao se encontram os grupos Y. Yamada e Viso, em processo de recuperao judicial, dificultada pelas cises internas, mais profundas no caso dos Yamada, que desalugaram os imveis que no eram de sua propriedade, fecharam outros e, se voltarem ao mercado, ser em tamanho mnimo. De menor porte, a Viso, ainda assim, parece condenada ao fim. Em todos os casos, o colapso aconteceu na transio da primeira para a segunda gerao, onerada pela Um crime inusitado na histria mundial, cometido por um traficante de drogas, que matou seu cliente de overdose, por encomenda de no se sabe quem, por motivo desconhecido, abala a famlia Rodrigues, dona do maior grupo de varejo de Belm, os supermercados Lder. Mais uma empresa familiar local em crise.dependncia das empresas de um nmero crescente de agregados famlia nuclear. Todas as grandes rmas paraenses, com a mesma origem, no conseguiram se prossionalizar satisfatoriamente, quando chegaram a substituir a engrenagem familiar pela gesto executiva. O grupo Lder, no topo do ranking do setor supermercadista, ainda que sofrendo os efeitos de famlias numerosas e muito ramicadas, parecia em condies de chegar saudvel terceira gerao. O grupo nunca parou de investir, como vinha fazendo agora. Dava sinais de solidez e prosperidade, se beneciando do eclipse do seu maior concorrente, a Y. Yamada. A reverso dessa aparncia, porm, veio como um furaco. E de uma rea que costuma ser

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2 fatal: o noticirio policial. As divergncias e conitos inter nos, que se agravaram desde a morte do patriarca, Jernimo Rodrigues, explodiram como lava num vulco ativo. A irrupo se deu em 28 de fevereiro, quando Joo de Deus Pinto Rodrigues, de 27 anos, morreu durante uma festa privada na boate Element, em Belm. Ele se sufocou com seu prprio vmito, depois de ter consumido uma quantidade exagerada de uma droga produzida a partir do cido lisrgico, o LSD, atualmente o mais consumido por jovens e pelos que tm condies de pagar de 30 a 40 reais por cada dose.Na poca, o fato foi pouco noticiado pela imprensa, que diariamente explora esse tipo de morte. O motivo: Joo era filho de um dos donos do grupo Lder, que tambm se chama Joo, diretor comercial da companhia. A apurao policial do caso tomou o rumo de Jefferson Michel Miranda Sampaio, de 34 anos, tcnico em transaes imobilirias, que participou da festa e foi apontado como o vendedor da droga usada por Joo de Deus. Ele foi preso dois meses depois da morte do empresrio, flagrado com seis petecas de cocana, 10 comprimidos de ecstasy e vrios pedaos de papel da droga usada como sendo LSD. O acusado passou a responder ao processo de trfico e tambm ao que apurava um eventual homicdio culposo (sem a inteno de matar), por ter sido o responsvel pelo for necimento da droga que provocou a morte do empresrio. Por isso, era decisiva a prova de que ele era realmente traficante de droga e o autor da venda dentro da boate. Alegando ter recebido informao de que Michel estava com droga estocada no seu carro, a polcia montou uma operao para invadir a casa da sua famlia, onde ele mora, num condomnio fechado na avenida Augusto Montenegro. Como ele j estava sendo monitorado, houve tempo para que os policiais obtivessem um mandado do juiz. Mas no portavam a ordem judicial quando chegaram ao porto do condomnio, no dia 24 de abril de 2015. A polcia se justicou dizendo que naquele momento precisava agir de imediato se quisesse agrar a droga no automvel Honda Civic de Michel. Bastaria vasculhar o carro para checar a procedncia ou no da informao. Os quatro policiais que integravam o grupo, um dos quais encapuzado, quebraram o cadeado de acesso residncia, a invadiram e dela trouxeram Michel, sob a ameaa de um revlver. Os pais do rapaz disseram que o carro foi vasculhado ali mesmo, mas nenhuma droga encontrada. Mesmo que esse testemunho no fosse verdadeiro, o procedimento da equipe policial contrariou as normas. Os agentes podiam ter convidado a sndica, com quem conversaram na portaria do condomnio, para testemunhar a vistoria no carro, fazendo-a diante da prpria famlia, sem precisar invadir o domiclio. No tendo promovido o agrante, que dependia da vericao do carro, zeram pior: levaram Michel preso e o carro dele para a seccional do comrcio. S ento procederam busca pela droga e a encontraram. Nesse momento, o agrante perdeu a sua validade e a priso se tornou abusiva. Mas a ao prosseguiu, foi inteiramente acatada pelo Ministrio Pblico do Estado. Seria a repetio do agrante de trco de droga que levou priso dos donos do 8 Bar Bistr, dois meses depois, pela mesma equipe policial, que viria a ser submetida a inqurito disciplinar administrativo e teve seu ato anulado pelo juiz Flvio Leo, por ilegalidade? A dvida alimentada porque a polcia procedeu (e continua a agir da mesma maneira) sem tomar conhecimento de deciso recente do Supremo Tribunal Federal de que s lcita a invaso de domiclio pela polcia para a para busca de drogas, sem mandado judicial, mesmo em perodo noturno, quando amparada em fundadas razes, devidamente justificadas posteriormente. Precisa demonstrar que dentro da casa ocorre situao de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade, e de nulidade dos atos praticados. Esse foi o entendimento denido, por maioria da corte, ao apreciar recurso extraordinrio no qual estava em causa se policiais podem entrar em domiclios para fazer buscas de drogas, sem mandado judicial. O relator do recurso foi o ministro Gilmar Mendes, acompanhado por Celso de Mello, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Edson Fachin, Teori Zavascki, Rosa Weber e Dias Tooli. O ministro Marco Aurlio votou pelo provimento do recurso, em caso que envolvia um homem condenado a sete anos de priso depois que a Polcia Federal apreendeu mais de oito quilos e meio de cocana dentro de um carro estacionado na garagem da casa do acusado. Para o Ministrio Pblico, autor da denncia, cou claro que os pacotes estavam guardados com o propsito de venda. O relator do processo no encontrou no acrdo recorrido, a no ser a palavra do motorista, qualquer elemento probatrio de que havia drogas na casa do condenado. Gilmar Mendes entendeu que os policiais deveriam, antes de fazer buscas na casa, pedir justia autorizao para o procedimento. No entendimento do ministro Marco Aurlio, no havia provas no caso concreto que apontasse para o cometimento permanente de crime. Quanto mais grave a imputao do crime, maior deve ser o cuidado das franquias constitucionais. Caso contrrio, vamos construir, na Praa dos Trs Poderes, um paredo para consertar o Brasil. Estve conforme esse entendimento a sentena do juiz Flvio Snchez Leo sobre o processo instaurado contra Joo Pedro de Sousa Pauperio e Karllana Cordovil de Carvalho, presos em agrante pelo crime de trco de drogas e denunciados pelo Ministrio Pblico. So comuns, quase dirias, essas prises em Belm. Como regra, o MP acata as infor maes da polcia e faz a denncia, que recebida pela justia e resulta

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3 em condenao do acusado. Geralmente o ru pessoa do povo, um annimo ou frequentador dos registros da polcia por crimes iguais, semelhantes ou de qualquer outra natureza. O caso do 8 Bar Bistr destoou desse processo rotineiro no apenas por envolver pessoas de classe mdia, vinculadas a um comrcio frequentado por outras pessoas da mesma relao social, incluindo os que podem fazer ecoar a sua voz e provocar a repercusso que a prtica diria no alcana. O que mais posto em dvida o modo de estabelecer o flagrante na priso das pessoas apontadas como bandidos e sua ligao com o trfico de drogas, um dos crimes registrados com maior abundncia na capital paraense. No caso de a polcia j desconar da ocorrncia de traco na residncia ou no carro do suspeito, o juiz considerou necessrio que algumas diligncias fossem feitas preventivamente, como a inltrao de policiais disfarados como clientes do estabelecimento, a interceptao das comunicaes telefnicas ou a montagem de campana nas proximidades. E tudo culminaria com o necessrio pedido, em tais casos, para que a autoridade judicial expedisse o mandado de busca e apreenso, j convencido o juiz pelas diligncias policiais anteriores de que havia justo motivo para se realizar a busca no endereo dos presos. Na investida sobre o bar, nada disso foi providenciado, constatou o julgador, pela leitura do prprio depoimento dos policiais, que foram logo prendendo Joo assim que chegaram ao local, mesmo antes de iniciar a busca e antes de encontrar qualquer droga ilcita, pois assim os prprios policiais relataram que o detiveram. O magistrado considerou a atitude muito imprudente e que termina por se tornar suspeita, pois prenderam a pessoa antes de qualquer outra evidncia da ocorrncia do crime, o que poderia resultar em agravamento da situao dos policiais, caso no encontrado nenhum entorpecente, pois alm de terem violado o domiclio da pessoa sem mandado judicial estariam efetivando uma priso completamente ilegal e arbitrria. Por circunstncias semelhantes, a priso de Michel foi transformada em domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrnica. Mais de dois anos depois, no entanto, em 8 de agosto deste ano, o promotor pblico Jos Rui de Almeida Barboza, em petio aberta, denunciou Jeferson Michel de Almeida Barbosa por homicdio qualicado, cometido na boate Element, no bair ro do Reduto, durante a festa de aniversrio de Leonardo Redig. Joo, seu amigo, que pagou todas as despesas, como fazia regularmente, chegou quase meia noite. Teria sido logo abordado por Michel. O promotor garante, na denncia, que Michel j estava com um plano srdido, de ceifar a vida de Joo. Primeiramente colocou drogas nas caixas de sucos de frutas. Uma das convidadas viu a cena e avisou a todos os presentes, que tentaram expulsar da festa o tracante, de todas elas conhecido, por contatos anteriores. Joo, porm, apaziguou a situao, permitindo que Michel continuasse na boate. O empresrio teve essa atitude apesar de, um ms antes, Michel haver tentado agir da mesma maneira. Foi numa festa na casa da famlia Rodrigues em Salinas, em 4 de janeiro de 2015. Michel tentava convencer Joo a tomar uma dose da gota quando Maria Clara Hage o afastou, sem impedir, entretanto, que Joo ingerisse par te da droga, levando-o a passar mal, recebendo atendimento dos amigos e conseguindo se recuperar, segundo a reconstituio do promotor. O representante do Ministrio Pblico arma que Michel, apesar da reao dos convidados na festa de um ms depois, em Belm, colocou substncia de grande potencial alucingeno nas bebidas na festa de aniversrio para que os convidados cassem entorpecidos e no tivessem discernimento necessrio para prestar socorro vtima. Imobilizadas as testemunhas potenciais, Michel levou Joo ao seu prprio carro, estacionado no local, e colocou na boca do cliente as gotas do produto qumico, derivado do cido lisrgico, conhecido como LSD ou bala, em dose excessiva, com o propsito de mat-lo. Michel teria enganado Joo, fazendo-o aceitar o uso da droga. Alegou que seria uma droga comum, como outras que costumava fornecer ao empresrio (nesse ponto, o promotor desmente a armativa do pai de Joo de Deus, de que ele s usava maconha). Logo depois de tomar a gota, Joo passou a ter convulses e vomitar, no conseguindo respirar e sofrendo parada cardiorrespiratria, que o matou. Na denncia, o promotor declara que Michel agiu de forma dissimulada e com dolo dirigido ao resultado morte. A necrpsia, contudo, foi inconclusiva porque o aparelho utilizado pelo IML para identificar mais de 300 substncias qumicas estava inoperante e aguardava manuteno tcnica. Mas anlises feitas em laboratrios particulares, devidamente autorizadas, e pareceres tcnicos levaram concluso que a morte ocorreu por ingesto de mltiplas drogas, dentre elas a GHD. Na dose localizada no corpo de Joo e associada a outras drogas, que lhe teriam sido fornecidas por Michel, as substncias provocariam a morte, exceto se houvesse pronto atendimento, o que no aconteceu porque os demais convidados no estavam em condies de perceber de imediato o que acontecera. Das provas, o promotor diz ter se convencido que Michel, nalmente, executou o srdido plano para matar Joo. Mesmo que a investigao no haja conseguido identicar mandante ou mandantes do crime, ele estaria caracterizado, como se a tese da morte por encomenda, de uma forma inteiramente nova, fosse pressuposto da denncia. O promotor simplesmente no diz como chegou a essa deduo, j que no h qualquer prova material ou mesmo suposio nos autos. Jos Rui Barbosa pediu apenas a citao de Michel Miranda para se defender da denncia no prazo de 10 anos. J a promotora Rosana Cordovil Corra dos Santos, que retomou a titularidade da 3 promoto-

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4 ria do tribunal do jri, ocupada interinamente pelo seu colega, enquanto ela convalescia de um acidente, requereu (em sigilo) a priso preventiva do denunciado, que o juiz Moiss Flexa concedeu. Em 32 anos como promotora no Ministrio Pblico do Estado do Par, Rosana Cordovil fez denncias de todos os tipos. A que anunciou no dia 19 indita, talvez at no mundo. Ela acusou Michel de ser tracante e de ter assassinado Joo de Deus com uma overdose letal de GHB, substncia qumica conhecida popularmente como gota. Segundo a acusao, que repetiu boa parte da denncia anterior, antes de consumar o assassinato, Michel tentara matar Joo em Salinas. O atentado s no se efetivou porque uma amiga no deixou Joo usar a droga. Outra pessoa tentou evitar o mesmo gesto na festa de aniversrio e vrios dos presentes quiseram expulsar Michel do local. O prprio aniversariante, porm, no permitiu. A promotora admite que, aps a intensa investigao, ainda no sabe quem foi o mandante do crime de encomenda nem qual a sua motivao. Sugere que pode ser em funo de disputa interna no grupo Lder, que se tem agravado entre os herdeiros diretos e indiretos. Joo de Deus teria sido ameaado de morte vrias vezes. Por quem, no foi dito numa talvez tambm indita entrevista coletiva imprensa convocada por Rosana Cordovil para anunciar a acusao e o futuro julgamento do ru pelo Tribunal do Jri, ao lado de dois advogados da famlia de Joo Rodrigues, o pai. Foi por iniciativa dele que a investigao foi retomada pela polcia, atravs da delegada Socorro Bezerra, e pela titular da 3 promotoria do jri. Como o IML paraense no teve condies de analisar a substncia usada pelo empresrio, o material foi enviado Frana, onde a famlia conseguiu o resultado, s suas prprias custas, e o forneceu aos investigadores. Rosana Cordovil se sentiu segura para formular a acusao indita. Apesar da gravidade do crime que passou a lhe ser imputado, Michel Sampaio se apresentou espontaneamente justia para ser preso preventivamente, no dia 18, por deciso do juiz Moiss Flexa, da 2 vara do jri. O ru constituiu advogado, insistindo novamente na sua inocncia. Ele argumenta que as provas foram plantadas pela polcia. O contraditrio, que ainda vai se estabelecer, permitir esclarecer as dvidas sobre a concluso da promotora e da polcia. Joo de Deus morreu por overdose ou por manipulao de uma nica dose, feita por Michel? Ele ingeriu a substncia vrias vezes, o que caracterizaria over dose voluntria, ou uma nica dose o levou morte, por envenenamento? Ele era apenas usurio de maconha, como diz a famlia, ou recorria a drogas mais pesadas, como cocana, LSD e a gota? Se Michel, como tracante conhecido, frequentador constante das baladas dos grupos que gravitavam em torno de Joo de Deus, generoso no patrocnio de eventos e festeiro contumaz, forneceu vrias drogas a quase todos os presentes, por que s o aniversariante morreu? Por que os tantos amigos que estavam com ele demoraram para socorr-lo e deixaram de fazer um atendimento elementar, recomendado para quem estava vomitando, o que, talvez, pudesse t-lo salvado, impedindo que morresse sufocado pelo prprio vmito? Os testemunhos unssonos de acusao a Michel so a manifestao da verdade, a que chegou a investigao, ou uma forma de maquiar o que realmente aconteceu naquela noite? Com a verso ocial, o Par pode ter se tornado o primeiro lugar do mundo a abrigar um crime de encomenda com o uso de droga. O inusitado da histria que Michel, sendo um tracante de drogas, assassinou o empresrio dando-lhe uma overdose da substncia qumica. Joo seria cliente do tracante e um bom cliente da mesma forma que outros jovens do seu crculo de amizade. No dia em que Joo morreu, houve farto consumo de drogas na boate, todas fornecidas por Michel, segundo a concluso da promotora, apresentada quando tinha ao seu lado dois advogados da famlia da vtima, que a ajudaram na investigao, at produzindo prova, como a anlise da substncia qumica. No seria mais simples, convencional e eciente que o crime de encomenda fosse executado com um tiro, um atropelamento ou um afogamento, por exemplo, ao invs de seguir pela tortuosa e singular via da overdose? Um tracante se prestaria a essa encomenda matando um grande cliente, assustando e colocando contra si os demais, que tambm atendia ainda de acordo com as informaes fornecidas pela promotora Cordovil? Ele preparou uma dose de alguma maneira manipulada para ter o efeito de um veneno (o que a percia precisa ter estabelecido) ou induziu a sua vtima a tomar vrias doses da droga at provocar-lhe a morte? E quem recorreria a esse servio complicado para matar o empresrio? Qual seria a sua motivao? Onde est o nexo entre ele e o suposto tracante, que no admite essa condio, nega ter praticado o crime, se considera bode expiatrio, acusa a polcia de forjar provas contra si e, mesmo com priso preventiva decretada, no fugiu, continuando com sua residncia xa, atividade regular, famlia (de classe mdia)? E como o juizno caso, Moiss Flexa recebe uma denncia apresentada sem que essas questes fundamentais estejam esclarecidas, dispondo-se a convocar, com base nessa investigao inconclusa, o tribunal do jri para tratar desse alegado homicdio? Com a prova pericial produzida pela parte, a promotora passou a acusar o at ento apenas tracante no delito de homicdio qualicado (embora em alguns mandados seja citado o homicdio simples), no que ela chamou de crime de encomenda por overdose. A partir do recebimento da denncia, no dia 29 de agosto, tudo foi muito rpido. No dia 18, o juiz Moiss Flexa decretou a priso pre-

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5 ventiva do ru e ele foi recolhido cadeia como o primeiro assassino que executou uma encomenda de assassinato usando no de revlver ou faca, no numa simulao de assalto ou num atentado utilizando carro ou motocicleta, mas fazendo a sua vtima tomar uma overdose de droga sinttica, ou envenenando-a. Talvez ele logo estivesse sendo submetido ao tribunal do jri, como j anunciava o seu pai. Joo Rodrigues postou uma mensagem no seu Facebook, assinada tambm pela esposa, os lhos e netos, consagrando essa verso, dizendo (reproduzo o texto conforme o original): Com relao priso de Jeer son Michel Miranda Sampaio, pelo assassinato de meu lho, Joo de Deus pinto Rodrigues, largamente noticiada pela imprensa, gostaria de enfatizar que o meu sentimento no de alegria. A priso e punio dos responsveis pela morte do meu amado lho no o trar de volta, tampouco colocar m saudade, que sei ser eterna. Contudo, a justia se faz necessria, at para que outras famlias no venham a amargar a perda de um lho. Sempre conei na justia de Deus e tambm na dos homens, que comea a ser feita. No poderia deixar de agradecer aos rgos da persecuo penal, notadamente ao ministrio pblico e ao meritssimo juzo pelo empenho na busca da verdade. Agradeo tambm o carinho, apoio e solidariedade de todos aqueles que sempre estiveram conosco nessa longa caminhada. Em memria de meu lho, prossigo na luta e na conana que este crime no reste impune!OS IRMOS Final da histria? Surpreendentemente, no. Oscar Rodrigues, tio da vtima e irmo do pai dele, principal executivo do grupo Lder, declarou que Joo de Deus no foi assassinado: morreu acidentalmente por overdose, a segunda ou terceira que sofreu, por que era viciado. A tese do assassinato obsesso de Joo, diz Oscar. Ele acusa o irmo de usar dinheiro da empresa para contratar advogados e tentar convencer a justia do que considera ser uma loucura. Joo reagiu atacando Oscar, ameaando revelar segredos da empresa e acusando o irmo de tirar benefcio pessoal de retirada de dinheiro praticada pelo lho, Joo Augusto. Como a troca de mensagens extremamente duras pela internet se tornou pblica e traz tona a grave crise que ameaa a empresa, como resultado da ciso interna na famlia, reproduzo a polmica entre os irmos, travada atravs de Facebook, por ter passado a ser de interesse pblico, em funo do signicado do grupo Lder para a economia paraense. O risco de uma imploso pela desunio familiar pode repetir, agravada, o que aconteceu com o grupo Yamada, servindo de advertncia para os irmos Rodrigues e seus herdeiros. Tambm reproduzo na ntegra o texto conforme Oscar Rodrigues o escreveu, por seu valor de documento para a instruo do processo judicial: Meu nome Oscar Rodrigues, estou usando o telefone de outra pessoa porque no sou amigo deste elemento. Joo Rodrigues est louco, Cai na real cara, e no envolve o nome do LDER, nestas tuas loucuras, ningum matou teu lho, teu lho morreu de Over dose, porque era viciado, e foi desde muito jovem, comeou com maconha, e terminou como terminou, no segundo ou terceiro ataque de Over dose, toda a nossa familia sabe disso, e vc ao inves de gastar milhoes como ests fazendo, saqueando a empresa pra pagar Advogados pra convencer a justia desta tua loucura, devias era vir trabalhar, o que no fazes a muitos anos, a irias saber quanto custa pra manter uma empresa desta, com todos seus compromissos, e onde s apareces pra vir buscar dinheiro, cada vez em maior quantidade, assim que se acabam as empresas, mas aqui vai ser difcil porque eu estou atento, defendendo ela e o emprego de mais de 13.000 funcionrios, o culpado pela morte do seu lho foi vc mesmo que no soube impor limites, deu dinheiro de mais, e dinheiro no resolve tudo, o que resolve disciplina e trabalho, coisa que seu lho nunca gostou de fazer, porque vc no o ensinou, ensinou a inresponsabilidade, que a prova a est, nos lhos que que ele foi deixando por onde ia passando, e vc est criando e que nem sabia que existiam, estou lhe processando por todas as calnias que vc fala sobre eu e meus lhos, e vc fugindo da justia como seu feitio, mas a condenao vai chegar, a justia tarda mas um dia chega, ja lhe afastei uma vez da empresa e vou afastar de novo, porque vc no vai com suas loucuras acabar com ela, enquanto eu tiver vida pra trabalhar e lutar, coisa que a anos vc no faz eu estarei a postos, nossa cunhada mulher de nosso irmo que faleceu a poucos meses, passou a noite passada toda no hospital, se recuperando dos ataques que vc lhe desferiu, por que uma de suas netas reslveu publicar, que seu lho morreu de overdose numa festa regada a drogas, e vc sabia de tudo e nada fez pra impedir, como a justica pode acreditar numa asneira destas??? Que loucura, no vales nada Joo Rodrigues. A resposta de Joo Rodrigues: Meu lho amado viveu muito pouco tempo no plano terrestre. Partiu por maldade de terceiros. No deixou nem um caso desonesto. Enquanto OSCAR RODRI-

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6 A cobertura da imprensa: jornalismo ou cumplicidade? O suposto assassinato de um dos herdeiros do grupo Lder e sua contribuio para a crise interna da empresa no topo do comrcio varejista do Par esto fora do noticirio da imprensa h uma semana. inacreditvel que O Liberal e o Dirio do Par (ao menos por razes jornalsticas) tenham absorvido a verso ocial de que Joo de Deus Pinto Rodrigues foi vtima de um crime de encomenda por over dose, cometido em fevereiro de 2015, A verso no resiste ao mais simples questionamento, que os jornais costumam fazer quando envolve pessoas sem o destaque dos donos do grupo Lder. A promotora Rosana Cordovil no apresentou qualquer prova da materialidade do delito atribudo a Jeferson Michel de Almeida Barbosa, ao pedir a sua priso preventiva. Ele teria matado Joo de Deus dandolhe uma dose letal de uma substncia qumica produzida a partir do LSD, a mais agressiva em uso por quem pode assumir seu alto custo. Algo inconcebvel para um tracante de drogas, que tinha na vtima do seu atentado, talvez, o seu principal cliente, ao lado de outros jovens do mesmo crculo de amizade, que, a partir desse episdio, passaram a denunci-lo. O incrvel assassinato se explicaria porque Michel agiu como matador de aluguel. Algum teria encomendado (a dinheiro, certamente) a morte. Quem? A promotora admite que no sabe. Com qual motivao? Menos ainda. Mesmo assim, sem o cumprimento de regra elementar da lei penal, a denncia foi feita pelo seu substituto interino, Jos Rui de Almeida Barboza. A prpria Rosana Cordovil, assumindo a vara, pediu a priso do acusado por homicdio qualicado e o juiz Moiss Flexa a concedeu. Michel, que estava sendo processado por trco, se apresentou espontaneamente. Agora ser submetido ao tribunal do jri. No bastasse a tosca denncia, cheia de falhas e incorrees, o tio de Joo de Deus, Oscar Rodrigues, o principal executivo do grupo Lder, armou em seu Facebook que no houve homicdio, mas sim morte acidental por overdose. E que o irmo, Joo Rodrigues, estava forando a justia a assumir a tese inverossmil, talvez com o propsito de limpar a ndoa da morte do lho, viciado em mais drogas do que simplesmente a maconha, segundo o tio, ou agravar a crise da famlia na empresa. So elementos sucientes para derrubar a verso ocial e provocar uma nova reabertura do caso, ampliado do alegado homicdio por overdose (registro indito nos anais criminolgicos mundiais) a irregularidades administrativas do grupo Lder. O silncio da grande imprensa persiste. No primeiro e nico dia em que noticiou o fato, o Dirio do Par anunciou que Jeferson Michel j tinha sido detido anteriormente por envolvimento com trco de drogas. Essa deteno ocorreu em abril de 2015. O jornal no esclareceu que essa priso resultou da morte de Joo, dois meses antes, e por ela Michel foi apontado como tracante de drogas, suspeito de fornecer uma delas, a gota, da qual o herdeiro do grupo Lider fez overdose. Michel, promotor de eventos, no possua at ento antecedentes criminais. O outro registro citado pelo Di rio o de homicdio qualicado, resultante de denncia feita pela promotora de justia Rosana Cordovil. O jornal o cita como se dissesse respeito a outro caso, quando o mesmo. Com base no incidente que vitimou Joo Rodrigues, o jornal diz que GUES teu lho Joo Augusto lobato Rodrigues nos roubou milhes de reais no carto Liderzan constatado por auditoria da PGR (processos e gerenciamento de risco). Passou os bens para teu nome, at hoje no nos ressarciste o prejuzo que sofremos!! Essa ao encontrasse na justia aguardando desfecho!! Na prxima postagem encaminharei tais denncias. No tenho medo de ti!! Tu s capaz de tudo, te conheo bastante, no me provocas tenho mais denncias a fazer vc sabe muito bem.. minhas mos so limpas! Ato imediatamente contnuo, Joo Rodrigues viajou para So Paulo e contratou o escritrio Paschoal advogados, (comandado Janaina, Nohara e Luana Paschoal), para acompanhar conjuntamente com outros advogados de Belm Imbiriba, Godinho & Tocantins, e Dr Daniel Castilho, processo que envolve o fraude na Lider Fomento Mercantil no valor de 10 milhes de reais. Explodia dessa maneira o mais grave desdobramento do conito familiar. Talvez antevendo os desdobramentos, imprevisveis e graves, Oscar Rodrigues recuou e postoiu nova mensagem na internet: Meus Amigos, Funcionarios do GRUPO LIDER minha familia e pblico em Geral que acessa o facebook, estou aqui para humildemente pedir perdo e desculpas, por ter perdido o controle emocional e ter publicado coisas to terrveis que jamais um dia imaginei que iria publicar. S tenho uma desculpa para este gesto insensato, por trs de minha aparente alegria carrego diariamente um fardo muito pesado. Sou um ser humano igual a todos, tenho minhas fraquezas, mas tudo tem limites, a presso enorme e chega um momento que, por mais que queiramos segurar, o descontrole nos domina. Peo a Deus que d a paz ao meu irmo, e o per doe por todas as maldades e calnias que me acusa. Deus entrego tudo, e peo a Ele que no me tire a f e a coragem. Joo tambm se calou, assim como todos na famlia Rodrigues, e a polcia, o Ministrio Pblico e a justia. S Jeferson Michel continuou preso. Assim se chegar verdade e justia em Belm do Par?

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7 Michel era fornecedor de droga em boates da Regio Metropolitana de Belm, e vendia droga do tipo sinttica como ecstasy e LSD. Acrescenta que na poca ele foi autuado em agrante pelo crime de trco de entor pecentes, mas liberado dias depois. Novamente o jornal dos Barbalho parecia querer induzir o leitor a acreditar que Michel tracante notrio e que foi agrado em casos anteriores. Mas o nico registro o da morte de Joo de Deus, que resultou em dois processos contra o suspeito de, inicialmente, ter-lhe fornecido a droga e, posteriormente, com a reviso do processo, de t-lo assassinado por encomenda de algum, ainda no identicado. Na verso do jornal, Michel foi preso aps a investigao da polcia, pois vinha sendo considerado como uma overdose acidental a morte de Joo de Deus, mas a 3 Promotoria de Justia do Tribunal do Jri instaurou um Procedimento Investigatrio Criminal (PIC) e chegou concluso de que foi uma overdose encomendada, e por isso foi solicitada a priso preventiva do acusado. E assim o caso vai se complicando cada vez mais, a imprensa nele j envolvida.Violncia: tolerncia zero Belm precisa impor tolerncia zero ao crime, em particular o homicdio. Todas as formas e variaes de violncia se sucedem diariamente, em escala crescente e intensidade espantosa. No h mais cidado que se sinta seguro na cidade, em qualquer ponto do seu espao metropolitano, em qualquer horrio. No h mais regras. Tudo se tornou possvel. A tolerncia zero no autorizao para matar nem conivncia com a justia particular das milcias, que devem continuar a ser combatidas com o mesmo rigor aplicado aos alvos desse exerccio da justia pelas prprias mos. Tolerncia zero signica usar o maior rigor que a lei permite contra os criminosos, com nfase nos que destroem o maior patrimnio na Terra: a vida. Os rgos de segurana deviam promover uma ampla reunio pblica das lideranas policiais em todos os nveis e instncias com os representantes da sociedade para denir um plano de ao detalhado e objetivo sobre como proceder diante do crime com o mximo rigor legal, explorando ao mximo a autorizao repressiva da legislao. Um objetivo imediato, por exemplo, seria acabar com a tomada de refns, que virou acontecimento rotineiro. Preservando a integridade das vtimas desses bandidos, a polcia adestraria atiradores de elite nos melhores centros de formao desse prossional qualicado e colocaria disposio dos grupos encarregados de tratar desse crime as ferramentas mais modernas de abordagem e ataque aos que fazem refns. Eles saberiam que a fase de tolerncia a esse abuso acabou. A sociedade, tendo aprovado o mtodo, ter que acompanhar a sua execuo para avali-la, atravs de uma comisso designada na sesso inicial. Encontros peridicos seriam realizados para renovar a legitimidade da ao da polcia. DivulgueO LEITOR QUEM FAZ O JORNAL PESSOALSem a Renca O governo Temer acabou voltando atrs integralmente e revogou o decreto que extinguiu a Reserva nacional de Cobre, a Renca. O recuo foi atribudo reao da sociedade, com repercusso nacional e internacional, que viu no ato uma ameaa s unidades de conservao e terras indgenas, As atividades econmicas continuam proibidas na rea. A repulsa iniciativa do governo federal foi desinformada, exagerada e deturpada. Mas cou claro que Braslia agiu desarvoradamente, apenas para atender ao interesse das empresas pelo potencial mineral da regio, que real, sem ser denido. Os crticos mais bem informados no querem que as coisas simplesmente voltem ao status quo anterior. Cobram iniciativas do governo para proteger a reserva. Implcito est o reconhecimento que j h muita atividade ilegal. Umas, as da garimpagem, visveis. Outras ainda pouco perceptveis, como a extrao de madeira e o avano da agricultura. Talvez de todas as ameaas, a menos grave fosse a da minerao, desde que acompanhada e scalizada com rigor. O futuro imediato responder.

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8 A Universidade do Tapajs e o mundo em torno delaSantarm, a terceira maior cidade do Par e o centro gravitacional de uma vasta regio que aspira a autonomia para deliberar sobre os seus graves problemas. A Ufopa no surgiu para ser mais um centro convencional de ensino superior. Dentre as sete unidades que compem a sua estrutura acadmica, uma delas voltada para a graduao de estudantes, h seis institutos, dois dos quais tm grande relevncia para o vale do Tapajs e o Baixo Amazonas: os institutos de biodiversidade e orestas e o de cincias e tecnologia das guas. Junto com os demais, esses institutos deveriam estar mais atentos aos acontecimentos externos e prontos a traduzir o seu signicado para a sociedade. A Ufopa tinha que produzir um estudo sobre os oito anos de atividade produtiva e 17 de presena fsica da Alcoa em Juruti. Nada fez a respeito. Suas pesquisas no so divulgadas ou no tm a divulgao adequada pela assessoria de imprensa, talvez pela diculdade que os jornalistas costumam ter para convencer os pesquisadores a submeter o que fazem ao povo, o responsvel pelo emprego deles em instituies pblicas. Alm de aprimorar esse servio, a univer sidade devia fornecer links, junto com as matrias jornalsticas, para o acesso dos interessados integra dos trabalhos. Isso no favor: obrigao. E demonstrao de segurana na qualidade do que faz, efetivando na prtica o que foi compromisso de fazer feito no papel. Quem sabe, no 9 ano de funcionamento da Alcoa em Juruti a Ufopa j esteja cumprindo a sua funo mais nobre: ser uma fonte de conhecimento sobre os saberes que maneja e uma fonte de referncia para a histria j escrita da regio sob a sua jurisdio e a histria que ainda se est escrevendo, mascarada pela aparncia de cotidiano, entregue ao trato do jornalismo. Fiquei feliz por este meu artigo ter proocado um bom debate entre dois leitores Paulo Lima e Alailson Muniz sobre o tema no blog OEstadonet, do jornalista Miguel Oliveira. Reproduzo -o como convite a mais participantes entrarem na roda de debate. Paulo Lima Caro Miguel, voc, de nossos papos, sabe o quanto eu admiro o Lcio Flvio Pinto. Esse, sim, um baluarte do jornalismo brasileiro. O texto dele me pareceu muito, mas muito oportuno mesmo. No conhecemos bem os resultados, a partir de um olhar externo e de uma pesquisa cientca, os resultados dos nove [oito ] anos de Alcoa em Juruti. Mas tem dois pontos que eu queria comentar e que talvez seja interessante do LFP reetir. O primeiro e mais de fundo a viso do artigo sobre a Universidade. A Universidade deve estimular sim pesquisas sobre objeto ou territrio X ou Y, mas no existe a palavra da UFOPA ou o estudo da UFOPA, o estudo tem a chancela de ser realizado dentro da Universidade por um pesquisador ou grupo de pesquisadores. E i. Eu no li a tese, assisti a defesa, quei um pouco confuso sobre os resultados, mas espero a publicao do texto nal. Sobre a assessoria de imprensa acho que ele faz o contraponto cor reto, o problema est na conscientizao do pesquisador sobre os resultados de seu trabalho circularem fora da Universidade. Mas me parece, sim, um tema estimulante para um debate, esse sim organizado pela UFOPA e a presena do LPF seria fundamental para assegurar sua qualidade. Alailson Muniz Eu sempre per gunto, Paulo, durante todos esses anos de royalties, qual a obra municipal construda com esse recurso? Paulo Lima Provavelmente lhe diro que parte foi para o saneamenA Universidade Federal do Oeste do Par foi criada em 2009. No mesmo ano, a mina de bauxita da Alcoa comeou a produzir em Juruti, o ltimo municpio, a leste de Santarm, antes da divisa com o Estado do Amazonas. Ontem, a multinacional americana, a maior no mundo no seu setor de atuao, comemorou nove anos de funcionamento, considerando positivo o saldo da sua presena na regio. Destacou sua ao voluntria na execuo de uma agenda de realizaes que vo alm da gerao de renda, emprego, compensaes nanceiras e outros itens legais. Garante que inovou, promovendo um efetivo desenvolvimento sustentvel, que deu sua minerao em Juruti a condio de vitrine dos bons procedimentos econmicos, sociais e ambientais. verdade? De fato, a Alcoa mudou ao chegar a Juruti, em 2000, e obter sua primeira licena ambiental, cinco anos depois. Foram nove anos de preparativos para comear a atividade comercial. Teve que lidar com a forte resistncia sua presena pelas comunidades nativas, enfrentando crticas e conitos. Superou o desao: por sua prpria fora, que vai alm do convencimento pela palavra, ou pela aceitao das comunidades de Juruti Velho, em funo das vantagens obtidas, algumas delas j contaminadas por velhos vcios do exerccio do poder, mesmo quando microscpico, e do acesso a dinheiro mais farto, mesmo quando de ponta de leno comparativamente ao circuito do capital envolvido na operao Por mais que a Alcoa tenha razo em se considerar realizada, esses oito anos exigem uma anlise externa, o mais imparcial e objetiva possvel, capaz de esclarecer a populao local e a opinio pblica em geral. Ningum mais habilitado para desempenhar esse papel do que a Ufopa. A universidade reconhece a importncia da sua localizao, com base em

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9 Da interveno ao golpe militarAo defender uma soluo militar para a crise brasileira, o general Antonio Hamilton Mouro, secretrio de nanas do Exrcito, no luntico ou extravagante, nem est s. Milhares ou milhes de pessoas ainda pensam no uso das foras armadas para desfazer o Brasil atual, manchado de corrupo em todos os nveis do poder pblico, e refazer um pas mais saudvel e positivo. No por acaso que o capito reformado e deputado federal Jair Bolsonaro presidencivel. Essa soluo foi tentada diver sas vezes e nunca deu certo. Mesmo quando realmente mudou o Brasil, como em 1930, o preo foi alto: abriu caminho para um militarismo que at ento no conseguira se estabelecer. Ele se originou em uma manobra de bastidores que derrubou o imperador Pedro II atravs de um golpe de mo surdina noturna, que se repetiria desde ento, em diversos horrios. S quem j passou por uma ditadura, sejam as nossas, militares e de direita, ou de esquerda,as asiticas, no leste europeu ou as caribenhas, est vacinado contra novas aventuras. Elas desestabilizam o pas, geram processos autofgicos e violenta o esprito de liberdade, criatividade e ousadia sem o qual uma nao, que pode at crescer, nunca dar certo como civilizao. Em palestra numa loja manica em Braslia, cenrio talvez adequado para a sua perorao, o general sugeriu que pode haver interveno militar caso o judicirio no consiga resolver o problema poltico causado pela corrupo endmica revelada pela Operao Lava-Jato. Os militares podiam impor essa interveno, mesmo sabendo que essa imposio no ser fcil. O general tem todo direito de pensar assim, mas a legislao militar veda a ociais manifestaes sobre o quadro poltico-partidrio sem autorizao expressa do Comando do Exrcito. ato de indisciplina e quebra de hierarquia, o mesmo em que se basearam os responsveis pelo golpe de 1964 para depor o presidente Joo Goulart, depois que ele radicalizou o apoio institucional a uma greve de soldados e marinheiros, culminando uma srie de erros polticos graves ou infantis que cometeu. O general no parece ter grande inuncia nem representar de uma corrente preponderante no exrcito, embora a posio de um ocial de quatro estrelas, no mximo da carreira, d eco s suas declaraes. Talvez ele queira se projetar em m de carreira para algum projeto pessoal. Em 2015, fez duras crticas classe poltica e exaltou a luta patritica Por isso, foi destitudo do comando da regio Sul. Desde ento, cou sem ligao com a tropa, em cargo burocrtico. Mas um mau pressgio. Quem colocou as tropas nas ruas para der rubar Goulart, sem esperar pela voz de comando dos lderes da conspirao contra o presidente, o regime e a democracia, foi o general Olympio Mouro Filho. Ele acreditava em astros e foras do alm. Precipitou a sada da sua fora de Minas Gerais para o Rio de Janeiro porque a lua estava favorvel. to do centro de Juruti e citaro hospital e outros equipamentos pblicos. Mas no h transparncia sobre a execuo dos recursos. No Canad, por exemplo, existem as Agncias de Desenvolvimento Local, que so entidades da sociedade civil, com representao multissetorial que so responsveis pela gesto de todo o tipo de recurso oriundo de compensao ou reparo de dano ambiental ou social. Alailson Muniz Manso e fazenda no vale. Rsss. Hospital, delegacia e frum foram doaes da Alcoa, no? E o prefeito no quis gastar e doou ao governo estadual. Paulo Lima Com certeza no. Mas lembre-se que pode ser caixa dois. O que no apareceria na prestao de contas ocial. Eles contabilizam como benefcios dos 9 anos da Alcoa. Alailson Muniz Tinha que ter um Conselho para administrar esses royalties como ocorre em algum a pases. A populao decide em que gastar Paulo Lima A informao sobre o quanto pago pblica, est nos sistemas do DNPM. Temos o agravante da Lei Kandir, que faz com que no se pague parte dos impostos para o Estado do Par (o segundo em arrecadao de CEFEM depois de MG). Por isso defendo um amplo debate e acho que o artigo do LFP podia promover o debate. A Alcoa est querendo expandir a explorao para outras reas, inclusive o Lago Grande e possivelmente dentro do Municpio de Santarm. Portal OEstadonet Meu prezado Paulo. Que bom t-lo de volta aos debates. O artigo do Lcio deve provocar polmica, o que saudvel. Por isso inseri o email dele para que as crticas e opinies sejam encaminhados diretamente a ele. Contudo, considero que o cerne da crtica a UFOPA no ser referncia para esse tipo de estudo e acompanhamento. Sobre assessoria, a instituio cou manchada aps o episdio da divulgao de uma pesquisa sobre a qualidade da gua para banho em Alter do Cho, em desacordo com os mtodos e parmetros exigidos pela legislao ambiental. Como diz o ditado, cesteiro que faz um cesto faz um cento...rsrs

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10 Bauxita: pausa ou brequeEste artigo foi publicado no Informe Amaznico, minha terceira publicao alternativa, em novembro de 1980. Reproduzo-o porque contm informaes pouco conhecidas sobre o incio da minerao empresarial na Amaznia, com o primeiro dos projetos que entrou em operao, da Minerao Rio do Norte, um ano antes. Tambm porque mostra as disputas de bastidores que levaram consolidao do domnio estrangeiro do subsolo amaznico. Neste caso, a Alcoa acabou se tornando dona de uma das maiores jazidas de bauxita do mundo, apoderando-se de direitos minerrios do milionrio americano Daniel Ludwig, mesmo numa poca de regime militar que se dizia nacionalista. Constitui ainda parte do contexto no qual resultou a criao da Reserva Nacional de Cobre, a Renca, to discutida e to mal conhecida nestes nossos dias.No dia 5 [de novembro de 1980], o ministro das Minas e Ener gia, Cesar Cals, declarou aos jornalistas no ver qualquer tipo de inconvenincia na venda das jazidas de bauxita da Minerao Santa Patrcia, empresa de propriedade do milionrio Daniel Ludwig, para a Alcoa, transao anunciada um dia antes. No dia 17, o ministro distribuiu uma lacnica nota ocial, dizendo que a operao fora sustada at que o governo dispusesse de melhores informaes. O que aconteceu nesses 12 dias para forar uma mudana to drstica na atitude do ministro, no se sabe ainda, mas seguramente o Conselho de Segurana Nacional tem algo a ver com a metamorfose de Cals. Suspender a negociao por carncia de informaes ou informaes desencontradas no contudo, uma boa desculpa. O prprio Cals assegurou, no dia 5, que o governo aprovara um protocolo preliminar rmado entre Ludwig e a Alcoa, acordo que classicou de muito normal entre empresas de minerao. Por isso, dava como consumado o negcio, isto a transferncia Alcoa dos direitos que a Santa Patrcia possua sobre os 300 milhes de bauxita metlica localizadas no municpio de Oriximin, no extremo noroeste do Par.A informao certamente deve ter causado escndalo entre as pessoas que acompanham o setor mineral no pas. A partir de 1973, a Minerao Santa Patrcia obteve alguns decretos de lavra junto ao DNPM (Departamento nacional da Produo Mineral) para fazer a explorao da bauxita de Oriximin. Segundo o plano de lavra aprovado pelo DNPM, a minerao deveria ser iniciada em 1978, mas a Santa Patrcia simplesmente solicitou que o seu projeto fosse sobrestado, alegando diculdades de mercado. No incio deste ano, a empresa pediu ao DNPM a prorrogao do prazo para o incio da lavra. O depar tamento em Belm no concordou e enviou o processo para Brasilia, a m de que fosse declarada a caducidade da concesso. Nesse caso, o rgo publicaria edital convocando os interessados a se habilitar, atravs de leilo, para receber a concesso. A Santa Patrcia no teria direito a qualquer indenizao pelos investimentos at ento realizados. O processo est no DNPM em Braslia desde junho, tendo sido encaminhado ao ministro Cesar Cals para exame. Nesse meio tempo, Daniel Ludwig iniciou uma srie de contatos para motivar um comprador para a jazida, cuja explorao ele no parece em condies de realizar individualmente. A Alcoa logo se interessou pelo negcio. A Aluminium Company of America, atravs de uma subsidiria, a Companhia de Minerao de Santarm, dona de uma jazida contgua de Ludwig, com 260 milhes de toneladas. Ambas se situam do outro lado dos depsitos que a Minerao Rio do Norte comeou a lavrar no ano passado, onde h 450 milhes de toneladas. Os entendimentos foram conduzidos no Rio de Janeiro pela Entrerios, a holding de Ludwig no Brasil. As duas empresas assinaram um contrato de fornecimento de bauxita contra o pagamento de royalties, pelo qual a Santa Patrcia cedia seus direitos sobre a jazida para que a Alcoa a explorasse. Em troca, receberia uma percentagem sobre o valor da tonelada comercializada (fala-se em 8% ou um dlar por tonelada). Para que o negcio pudesse ter valor legal, porm, era necessrio que recebesse o aval do DNPM. Se o ministro Cesar Cals considerou a transferncia, isto signicaria qeue o DNPM a autorizara? As aparncias indicam que sim. Mas como, ento, o DNPM iniciou o processo para a declarao da caducidade da concesso, depois de se ter negado a prorrogar por mais tempo o prazo de validade do decreto de lavra? Este o fulcro do enigma. Autorizando a transao, o DNPM estava permitindo Santa Patrcia auferir um elevado lucro atravs da comerializao de simples direitos sobre uma jazida. certo que a empresa j investiu na pesquisa e no pr-projeto, mas, considerando-se 2,5 bilhes de dlares como o valor das jazidas, Ludwig ir faturar R$ 250 milhes se car apenas com os royalties. No deve ter gastado mais do que 1% desse valor. No dando a autorizao e, ao contrrio, declarando a caducidade da concesso, o governo poderia retomar o controle de uma jazida estratgica e destin-la a grupos que realmente estivessem dispostos a desenvolv-la e no apenas sentar sobre a mina. Alm do que, teria de graa as infor maes sobre a geologia da rea e a viabilidade econmica da extrao.No s isso, porm, A consumao da transao coloca sob o controle de duas multinacionais, a Rio Tinto Zinc e a Alcoa, 1,4 bilho dos 2,5 bilhes de toneladas de bauxita metlica existentes no Brasil, quase integralmente no interior do Par. O

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11 Brasil possui atualmente 14,4% das reservas mundiais de bauxita, vindo apenas atrs da Guin e da Austrlia. Mais do que qualquer um desses dois pases,entretanto, o Brasil e particularmente a Amaznia dispe de numerosas fontes hidrulicas de ener gia o principal insumo do alumnio, o que aumenta a sua importncia na economia internacional. A Amaznia ainda mais atraente para os Estados Unidos, que precisam importar da Jamaica quase metade dos 15 milhes de toneladas anuais que o pas consome. Uma dependncia que torna os EUA (e suas grandes empresas do setor, como a Alcoa) vulnerveis face a qualquer transformao poltica. A Jamaica, alis, participa com os demais grandes produtores de bauxita (Austrlia, Guin, Gana, Repblica Dominicana e Suriname) da Associao Internacional de Bauxita, um car tel que visa proteger os produtores da voracidade de um mercado controlado pelos compradores. O Brasil, apesar da sua posio privilegiada, se recusou a fazer parte dessa associao. No por coincidncia, para ele que correram as multinacionais. Elas trataram de fazer bons contratos e ameaar despejar grande quantidade de minrio no mercado, a baixo preo. Impondo condies, a Alcan, embora minoritria na Minerao Rio do norte (onde a Vale do Rio Doce tem 46% e o grupo Ermrio de Moraes, 10%), consegue, junto com a Shell, manter o preo da tonelada a 25 dlares, quando o custo de produo de cada tonelada de US$ 32. Ambas preferem ter prejuzo (pequeno, naturalmente) como mineradoras para aumentar seus lucros (enormes, evidentemente) como beneciadoras do metal. Por isso, agem contra a MRN, pensando apenas nas vantagens das suas matrizes. Se a situao essa, impondo Rio do Norte um prejuzo de 1,4 bilho de cruzeiros no exerccio de 1979, imagine-se quando o controle, alm da via indireta, atingir diretamente 60% das jazidas do pas. A Alcoa, que comear em 1983ba renar 100 mil toneladas de alumnio na sua renaria de So Lus do Maranho, chegando a 500 mil toneladas na etapa nal, ter uma jazida das mesmas dimenses da MRN: bastar que venda o seu minrio aos baixos preos praticados atualmente. No sentir o prejuzo:a minerao apenas aumentar os lucros da indstria. Atualmente h um excesso de bauxita metalrgica entre 20 e 23 milhes de toneladas/ano sendo ofertada no mercado internacional. Mas dentro de quatro anos, acreditam os tcnicos que j haver um dcit de sete milhes de toneladas, principalmente por causa da constante elevao do preo do petrleo. Os carros precisaro ser mais leves para consumir menos combustvel. Nesse caso, que comeamos a viver, muitas peas, at o motor, passaro a ser fabricados com alumnio. O Brasil poder usufruir dessa poca. Se no estiver inteiramente amarrado ao cartel das seis irms, naturalmente. Como isso deixar de acontecer, a dvida. A inglesa rio Tinto Zinc, que possui um bilho de toneladas em Paragominas, est reativando o seu projeto, juntamente com a Shell (fantasticamente capitalizada pelos lucros do petrleo). E a Alcoa se expande, pagando royalties. A no ser que a sbita mudana de comportamento em 12 dias tenha algo mais do que uma mera pausa, uma dessas comuns em poca em que se abre controladamente o pas curiosidade e sindicncia da opinio pblica.Beyond, FordlndiaBeyond Fordlndia lanado em pr-estreia em Belm, em agosto,, depois de ser exibido em Manaus, um dos mais importantes documentrios j realizados sobre a Amaznia. Por incrvel que parea, o primeiro trabalho desse tipo de Marcos Coln, americano de me brasileira, que professor do Departamento de Espanhol e Portugus e associado de ps-graduao do Centro de Cultura, Histria e Meio Ambiente do Instituto Nelson de Estudos Ambientais da Universidade de Madison, nos Estados Unidos, onde reside. O documentrio, de longa durao, parte da pesquisa de doutorado de Marcos,que analisa questes de meio ambiente a partir da literatura, mas sem uma viso romantizada. O filme bonito, denso e profundo pelas tomadas de cena, pela seleo de locaes, pelas entrevistas que realizou e, sobretudo, por desenvolver uma tese sobre o que foi a aventura de Henry Ford no vale do Tapajs, entre 1927 e 1945, e o que ela significa at hoje para a Amaznia. Marcos mostra que, ao longo da tentativa de produzir sua prpria borracha, integrando completamente as atividades da sua indstria de automveis, Ford tinha um objetivo paralelo, complementar e, talvez, ainda mais relevante do que formar um imenso plantio de seringueiras no local de onde ela saiu para a economia mundial, com as sementes que os ingleses coletaram e transportaram para a sia, acabando com o monoplio, a hegemonia e mesmo a relevncia da Amaznia na economia da borracha. Ford estava de olho na soja, como um produto de maior amplitude do que a borracha. Muito adiante do seu tempo, ele acabou no consumando esse projeto, em implantao no Tapajs agora, meio sculo depois, de forma irracional e destrutiva. O documentrio devia ser exibido em escolas, universidades e em todos os lugares possveis para mostrar uma lio de busca pela conexo entre o passado, o presente e o futuro da vinculao da Amaznia ao mundo infelizmente, em condies sempre desfavorveis regio.

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12 Um fundo de 4,5 milhes de cruzeiros (valor da poca) foi formado para nanciar os prmios para os melhores do desle carnavalesco de Belm, em 1966. Com cotas de 500 mil cruzeiros entraram o governo do Estado, escritrio Alberto Bendahan, Joias Laura e Sabino Oliveira, Produtos Vitria (Guarasuco e Pepsi), Nelson Souza (leo Dora), RM Magazine (de Romulo Maiorana), Importadora de Ferragens e Banco Moreira Gomes. Cotas de 250 mil cruzeiros foram de Caf Puro e Transjomar. O maior prmio de escola de samba era de Cr$ 1,5 milho, para a de primeira categoria, e de Cr$ 750 mil para a de segunda categoria. Os prmios individuais eram de Cr$ 50 mil (porta-bandeira, sambista, passista, mestre sala e porta estandarte). Como as escolas erram pequenas, dava para observar todos os seus brincantes e avali-los.Em 1966, Alberto Mota, lder do mais famoso conjunto musical de Belm na poca, se transferiu para Fortaleza. Mas antes lanou seu quarto disco, em homenagem aos 350 anos da fundao da capital paraense, que ento se comemorava. O long-play se intitulava Top-set, em homenagem s festas (tertlias, era o nome oficial) que o maestro comandava no domingo noite, no ltimo andar do edifcio Palcio do Rdio, sede do Automvel Clube, reunindo a juventude.RUSSOEm janeiro de 1966, o Ishevki foi o segundo cargueiro russo a aportar em Belm, um ms depois da embarcao pioneira. Ele descarregou 250 toneladas de adubo qumico, trazido desde Riga, na ento Unio Sovitica, numa viagem de 13 dias, com duas escalas na Europa. Levou para a Rssia 50 tambores com 30 toneladas de essncia de pau rosa, usada como fixador de perfume, que o gaiola Ajuricaba trouxe do interior para Belm (o preo da essncia foi a quase extino da rvore, abatida sem pena). Enquanto o navio permaneceu no porto, agentes da Ordem Poltica e Social fizeram vigilncia no ostensiva embarcao, considerada suspeita por sua bandeira naqueles tempos repressivos. Em 1968, o matadouro do Maguari abateu quase 500 mil reses, resultando em 150 mil toneladas de carne, para o abastecimento de Belm. Como a populao da capital paraense estava chegando a 600 mil habitantes, dava praticamente um boi por ano per capita ou 250 quilos anuais para cada papachib (to papa carne quanto), um consumo de dar inveja a qualquer gacho. Das 485.608 reses abatidas, 282.366 tinham vindo do Maraj, 67.772 do Baixo Amazonas, 135.293 da Belm-Braslia e 177 do Tocantins.Ao comemorar, em 1965, seu quarto aniversrio como a primeira e ainda ento a mais importante emissora de televiso do norte do pas, indo ao ar apenas uma dcada depois do feito pioneiro da TV Tupi, em So Paulo, a TV Marajoara da cadeia dos Dirios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand fazia jus aos slogans da campanha promocional. Uma das peas de propaganda declarava que a Marajoara tinha a imagem perfeita dos acontecimentos, captando uma nova dimenso O papo no CorujoEm 1969 o Corujo era o point de Belm, na Quintino Bocaiva, no trreo do edifcio Albem Almy. No anncio, prometia o melhor: ambiente, bar e cozinha, alm da bebida mais gelada. O principal, porm, era o papo. Com o combustvel da fofoca e do detalhe que s os mais bem informados podiam fornecer, atravessava a madrugada. Era mesmo a onda mxima em Belm.

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13 da notcia graas a sete isso mesmo, sete programas jornalsticos: Primeira Edio, Reprter Marajoara, Utilidade Pblica, Todos os Esportes, Mundo Feminino, Notcia a Rigor, ltimas Notcias e Imagem do Dia. Tambm oferecia o mais vivo entretenimento, vivo mesmo. Eram programas criados e executados em Belm mesmo: Pierre Show, Motomsica, S s Quintas, Grande Teatro e RM o espetculo. Era o ar tista da terra que Canal 2 prestigia, estimula, promove. O espetculo podia at apresentar deficincias tcnicas e formais, era pobre dos recursos especiais que enchem os olhos do telespectador atual, mas era uma senhora realizao, um empreendimento de larga repercusso, mobilizador de inteligncia e criatividade, fecundador da terra nativa. Mas o regime militar, ao trocar de aliado, promovendo Roberto Marinho no lugar de Chat e a TV Globo onde se encontrava a Tupi, sufocou arbitrariamente e matou a TV Marajoara quando ela ainda era a lder local de audincia e de faturamento. Foi arrastada pela submerso do maior imprio jornalstico j construdo no Brasil, proporcionalmente sua poca. Os coveiros parecem ter conseguido at anestesiar a memria coletiva, fazendo com a mais paraense das emissoras de televiso o que os romanos fizeram com Car tago. O sal permanece cobrindo a histria da Marajoara at hoje. Em 1953 os jornais ainda funcionavam como uma espcie de mural para a elite local. As notas mundanas da Folha do Norte eram a melhor opo para essas comunicaes aos pares e ao pblico em geral.docotidiano A casa que ruiuEm 1962 ainda estava de p a casa onde morou o compositor Carlos Gomes, na sua passagem meterica por Belm, no final da sua vida, na esquina da Quintino com a Tiradentes (hoje, no local h um prdio residencial). Mas desabou sem merecer a ateno devida. Nem poder sustentar um roteiro turstico na cidade, que destri constantemente a sua histria.Anncio publicado em 14 de janeiro de 1953: Otvio Mendona, viajando pelo Constellation de hoje, para o Rio, em ausncia de pequena demora, despede-se de amigos e clientes, aos quais, previne que o escritrio de advocacia, dirigido em conjunto com o dr. Orlando Bitar, continua incumbido de todas as tarefas profissionais que vinha pessoalmente encaminhando. Outro anncio na mesma edio: No dia 2 do corrente, foi pelo dr. Eugnio Soares, solicitada em casamento, para seu filho, sr. Jorge Soarees, a gentil senhorinha Ana Lcia Rodrigues, filha do casal Lcia-Mrio Rodrigues. O pedido foi aceito, com agrado, devendo o enlace realizar-se brevemente.Foi concorridssimo o leilo da alfndega de Belm de 17 de outubro de 1953, o mais vultoso dos realizados at ento. Milhares de canetas e lapiseiras Parker foram vendidas para cidados belenenses vidos por produtos da vitoriosa e florescente indstria americana do ps-guer ra. Os principais arrematantes dos lotes de canetas foram a Importadora e Exportadora de Tecidos, que adquiriu mais de Cr$ 1,3 milho de produtos, Victor C. Portela (Cr$ 554 mil) e a Importadora de Ferragens (Cr$ 396 mil). O rendimento final do leilo foi de Cr$ 2,2 milhes.O mais puro e delicioso caf que se vende no Par podia ser encontrado na Confeitaria Bar Sor veteria Caf Santos, que fazia importao direta e dava descontos a revendedores, conforme anunciava pea de propaganda do incio de 1953. O Caf Santos, uma instituio belenense, continua resistindo na Padre Eutquio, cercado de camels por todos os lados. J a casa mais barateira de Belm era a Casa Guerra, de Marcos Guerra & Ltda., uma famosa loja de moda, na rua Santo Antnio, 4.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: -dpress.com Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com O que eu posso dizer sobre o Jor nal Pessoal, que foi a minha companhia durante muito tempo, principalmente em Algodoal, e me fez conhecer esta nossa Amaznia, de ns to desconhecida? E A Memria do Cotidiano, que nos fazia relembrar velhas historias e lugares que a gente guarda na memria? Eliaci Pinto BarbierParabenizo-te pelos trinta anos de intensa produo frente do nosso Jornal Pessoal. Digo nosso porque faz muitos anos que bebo dessa fonte. Na verdade, fui apresentada ao JP pela minha irm, que o recebia na empresa (Estacon) em que trabalhava e com ele me presenteava. Depois, j apaixonada, passei a compr-lo e divulg-lo entre os amigos. Quero agradecer-te por todos esses anos de luta, de insistncia e persistncia para manter o JP vivo. Por colocares a tua vida e o teu trabalho em favor do combate cotidiana destruio da Amaznia. Por mostrares que esta no um universo distante de ns, como muitas vezes somos levados a crer; que a Amaznia aqui e que tambm nosso o dever de, enquanto amaznidas, defend-la. Quero agradecer por no desistires nem nos piores momentos, como quando sofreste agresso inominvel de um Maiorana; ou quando foste obrigado pela (in-)justia a pagar indenizao por dizeres o que muitos j sabiam, mas faziam vista grossa: que o empresrio Ceclio do Rego Almeida era grileiro. Por escreveres mesmo quando alguns, que no me parecem teus leitores contumazes, te agridem vergonhosamente atravs do facebook (meno feita no JP 631/2017). Como podem ser to miseravelmente medocres e incivilizados! Contudo, para cada agresso sofrida, apresente-se o texto da Prof Clia Regina Trindade: JP: 30 anos de luta pela causa pblica (JP639/2017), que, alm de ser um reconhecimento ao teu trabalho, expressa exatamente quem s tu, Lcio Flvio, um profissional ntegro, corajoso e competente; algum que no aceita ser enquadrado pelo poder de ocasio. E, aqueles que no sabem ou no conseguem ver isso em ti, que se danem. Parabns, meu caro! E vida longa para o JP e para o seu criador! Maria Helena Macedo dos Reis Felicitaes especiais por esses teus trinta anos de dedicao e luta em prol de um direito de informar mais democrtico, isento de sectarismos de toda a espcie. Minha admirao por teu modo de ser vem de tempos ainda dos meus agora longnquos anos acadmicos l na UFPA, e s tem aumentado com os teus passos audaciosos, e num deles, criaste o Jornal Pessoal, sinnimo de compromisso com os fatos que palpitam e corroboram um determinado acontecimento, sem a tentao das tintas de retoque, que podem at ser chamativas, pormfcil se desbotam ante as evidncias daqueles fatos. A nossa regio bem que merece o teu desafio quinzenal, s vezes incompreendido, porm lutando contra esse conformismo secular de nossa sociedade desagregada e, ao mesmo tempo, hipnotizada por um colonialismo (ou melhor, neocolonialismo) sob vestimentas mais sedutoras a disfarar as suas iniquidades No toa que incomodas tanto os que se sentem no topo do Olimpo, achando que dali jamais sero chamados a descer, nem que sejam mseros degraus abaixo, pois que j se consideram elesprprios deuses. Porm, o abalo j se faz sentir com todos esses acontecimentos que diuturnamente esto fazendo Pindorama tremer e corar como nunca antes em sua ainda jovem histria quando aqueles deuses esto se tornando cada vez mais desnudos pelas circunstncias. Mas bem sabe-se que esse processo de incmodo demorado, ainda nos vai custar o suor e sangue de muitas geraes, um longo per curso cheio de armadilhas plantadas pela nossa prpria incria atravs dos tempos, e to s competir a ns desativ-las, isso com a devida ateno que se exige ser um dever nosso, indelegvel e imprescritvel. At l, suportaremos a tudo isso passivamente? E, para nalizar, s posso desejar a ti e ao teu bravo JP que continuem a dar conta do recado, precioso recado que deve ressoar com insistncia em nossos ouvidos para que desper temos de umaletargia que nos corri e inexoravelmente nos levar morte por falncia mltipla de nosso tecido social, e este quando morre, sinal de extino da humanidade. Vida longa, pois! PS: Li na obra Viver em Paz para Morrer em Paz Mario S. Cortella(filsofo e educador) um captulo interessante (captulo 14, a partir do dcimo pargrafo), algo que bem ilustra, acredito eu, um poucodaquela tua preocupao (e de quem tem a perseguir o fio da histria) sobre a perda da memria coletiva em relao ao passado como reforador de uma identidade. quando, em uma determinadasociedade,preponderem as classes populares (aquelas de baixa renda e percepo cultural), onde tais estaro procura de coisas que brilham, indicadores de futuro, da luz no fim do tnel. Ou seja, veem aquele passado sem nenhum resqucio de saudosismo ou nostalgia, pois que nunca o viveram de fato, aqui no sentido de que nunca se sentiram integrados quela ordem das coisas de carter excludente, onde no mximo orbitavam em sua periferia, e somente em rarssimas excees e condies podiam ir um pouco mais alm. J as classes mais burguesas sentiriam a necessidade desse passado, traz-lo superfcie, poisseria o seu referencial de vida, aquilo que passou, mas podia ter ficado, e isso se materializaria atravs da preser vao da histria da sua histria. Luiz Otvio M Cardoso c @ rtas ...

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15 A Amaznia depois do gritoNa surdina, o governo Temer decretou o fim de uma das maiores reservas da Amaznia para ampliar a minerao. Esse pode ser o fim da floresta. Vamos impedi-lo! Mineradoras canadenses foram alertadas 5 meses antes do pblico sobre isso. Mas o que o presidente no esperava era a revolta que essa notcia iria gerar, e se usarmos esse momento para mostrar nossa indignao, podemos pressionar o presidente a revogar o decreto. Se criarmos um movimento gigantesco contra minerao na Amaznia agora, somando as nossas vozes, podemos interromper esse retrocesso que ameaa a floresta! Assine a petio para proteger a Amaznia.Quem, de boa f, deixaria de subscrever um abaixo-assinado proposto com este texto de apresentao? A lista puxada pela Avaaz, instituio que se apresenta como uma comunidade de mobilizao online que leva a voz da sociedade civil para a poltica global, congregando milhes de liados em todo mundo. A conclamao tem sido to convincente que j est chegando a dois milhes de assinaturas. As adeses so motivadas tanto pelo tom dramtico e catastrco do texto como e, talvez, principalmente pelo sur gimento de apoios de impacto, como os das atrizes Suzana Vieira e Cristiane Torloni, e as cantoras Ivete Sangalo e Faf de Belm. Os famosos so sempre catalisadores poderosos. No seriam tanto se no recebessem o tratamento preferencial da TV Globo, qual esto ligados. H um evidente componente comercial na parceria. Mas existe tambm a empatia da classe mdia com a Amaznia, smbolo da conscincia ecolgica mundial, o segundo tema mundial quando se fala em ecologia depois do aquecimento global, ao qual tambm se relaciona a maior fronteira de recursos naturais e a maior oresta tropical do planeta, ao mesmo tempo, dentre outros ttulos de impacto. Os trs irmos Marinho, donos da rede Globo ,se consideram defensores do meio ambiente e dois deles j estiveram algumas vezes na regio (ao contrrio de numerosos amazonlogos de ocasio), de forma bastante discreta. A ltima incurso coincidiu com os atos pblicos nos quais os famosos se acrescentaram a ativistas de maior currculo nesse tipo de ao. A incorporao da opinio pblica nacional e internacional sempre foi reforo poderoso, s vezes decisivo, defesa das causas amaznicas. Durante a ditadura, a conscincia crtica internacional foi mais ativa e importante do que as manifestaes da sociedade brasileira, que estavam amordaadas pela censura ou alienadas dos grandes problemas do pas pela represso aos crticos. Foi quando o banco Mundial fez, por iniciativa prpria, duas intervenes em programas amaznicos de grande relevncia. Exigiu que o Polonoroeste, criado pelo governo para desenvolver mais aceleradamente Rondnia, inclusse um captulo relacionado ao meio ambiente, que no estava includo no planejamento regional. O BIRD tambm imps estatal Companhia Vale do Rio Doce tratar dos povos indgenas instalados s margens da ferrovia de Carajs, que foram esquecidos pela minerao. As mobilizaes no perodo democrtico se incrementaram. Esta ltima teve efeito imediato. Temer voltou atrs, prometeu ouvir a comunidade nacional e internacional e ofereceu garantias de que a oresta seria preservada, assim como as terras indgenas. No foi o suciente. Provocada, a justia federal revogou a causa de tanta gritaria e emoo: a Reserva Nacional do Cobre e Associados ressuscitou. A Amaznia est salva? No exatamente. Mesmo que a Renca tivesse deixado de existir, as unidades de conservao, que ocupam 2,8 milhes dos 4,6 milhes da reserva no estariam diretamente afetadas. A minerao teria que se concentrar nos 1,8 milhes que seriam liberados. Claro que o efeito indireto de uma ofensiva de empresas sobre esse territrio seria preocupante, com elevado potencial destrutivo. Mas no inevitvel nem mais extensivo do que a ao de garimpeiros e madeireiros que j estavam e continuam presentes na regio. O que aumentaria a letalidade do ato de Temer seria a sua natureza venal. As empresas estrangeiras foram comunicadas sobre a extino da Renca antes dos brasileiros, que sequer foram ouvidos. No verdade. O DNPM promoveu um debate em fevereiro no Brasil e em abril no exterior. Mas existe uma extensa massa de informaes acumuladas desde a criao da reserva, em 1984, com posio majoritariamente contrria, sobretudo pelos crticos do modelo de ocupao e desenvolvimento da Amaznia imposto pelo regime militar. A Renca foi avalizada pelo Conselho de Segurana Nacional no ltimo ano da ditadura. Levado s ltimas consequncias do texto de abertura, o abaixo-assinado acarretaria um veto denitivo e completo minerao na Amaznia. uma meta to vivel quanto tem sido a busca pelo desmatamento zero ou a hipoteca da soja. excepcionalmente rico o subsolo da regio, em especial o do Par, cuja estrutura geolgica se assemelha da frica do Sul. Essas jazidas sustentam das maiores mineraes de ferro, bauxita, caulim e mangans do mundo, alm de seus desdobramentos em alumina, alumnio, nquel, cobre e ouro. De fato, so atividades intensas e de impacto, carentes de um tratamento mais rigoroso e de um controle mais eciente. Sem o que rendero pouco para a regio. Podia-se impedir o surgimento de novas mineraes, ao nal de uma profunda e lcida reexo sobre o signicado da atividade primria e as suas perspectivas. A anlise, contudo, teria que chegar a outro patamar: pode-se mudar a forma colonial, de puro enclave, da grande minerao na Amaznia, ou ela um inevitvel legado colonial para as novas fronteiras de riquezas naturais? Os movimentos de solidariedade, como os que levam a essa nova onda de abaixo-assinados, so sempre positivos. Mas como reao a uma iniciativa nociva do poder pblico e seus satlites e como provocao ao aprofundamento do conhecimento acompanhado de decises. Como este segundo momento costuma ser deixado de lado, a episdica mobilizao acaba sendo um espasmo de conscincia pesada sobre o que tem sido constante na histria recente da Amaznia: a caravana das boas intenes e das adeses apaixonadas passa e a destruio prossegue.

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Maiorana: dois irmos tentam derrubar Rominho Guerra judicial em Belo MonteO Tribunal Regional Federal da 1 regio, em Braslia, voltou a determinar, no dia 13, a suspenso da licena de instalao da hidreltrica de Belo Monte, com imediata paralisao das obras de construo do referido empreendimento hidreltrico. A suspenso se manter at que sejam corrigidas as irregularidades constatadas na construo de casas destinadas aos atingidos pelo represamento do rio Xingu, no Par. Essas falhas caracterizariam o descumprimento da condicionante imposta no respectivo licenciamento ambiental da obra. Para o cumprimento da sua deciso, o tribunal admitiu agora a utilizao de fora policial, se necessrio for, cabendo ao Ibama scalizar e avaliar o seu el cumprimento, sob pena de multa pecuniria no valor de100 mil reais por dia de atraso. O tribunal constatou a desconfor midade entre os projetos de construo de casas, para ns de reassentamento urbano coletivo das populaes afetadas pelo empreendimento hidreltrico UHE Belo Monte e a oferta inicialmente levada a efeito pela empresa responsvel pela sua implementao, bem assim, a sua inadequao s normas da ABNT e ao cdigo municipal de obras, resta caracterizado o descumprimento da condicionante imposta no respectivo licenciamento ambiental. Nesse contexto, concluiu ser imperiosa a suspenso da execuo das obras de construo das casas e da licena de instalao da usina, at que sejam integralmente cumpridas as obrigaes decorrentes da referida condicionante, assim constatado em regular percia tcnica, em homenagem aos princpios dirigentes da precauo, da preveno, da responsabilidade social e do desenvolvimento sustentvel, ambiente ecologicamente equilibrado, essencial sadia qualidade de vida das presentes e futuras geraes. Os irmos Maiorana podem estar iniciando um novo confronto pelo poder no grupo Liberal. No dia 22, Ronaldo Maiorana, diretor jurdico, e Rosngela Maiorana Kzan, diretora administrativa, convocaram duas assembleias gerais extraordinrias para deliberar, no dia 30, sobre mudanas na estrutura tanto do jornal quanto da TV Liberal, revelia do irmo, Romulo Maiorana Jnior, principal executivo da corporao. Um dos objetivos afast-lo do topo da administrao das empresas, a partir da qual decide solitariamente sobre tudo, ignorando os demais irmos. E submeter a auditagem suas contas e sua gesto. Dois editais para a assembleia geral extraordinria de Delta Publicidade, proprietria do jornal, assinados por Ronaldo e Rosngela (tambm conhecida por Loloca) tm como itens a reforma do estatuto social da companhia, com alteraes no captulo das disposies acerca da composio, funcionamento, mandato, e matrias de competncia do Conselho de Administrao; na da composio e nmero de cargos da diretoria, com a incluso de regra com prazo e forma para pagamento; incluso de clusula arbitral e eventuais ajustes de numerao e referncia cruzada no Estatuto Social decorrente das alteraes. Um segundo edital acrescentou a esses temas a eventual propositura de ao de responsabilidade em face di diretor presidente da Companhia, que Romulo Maiorana Jnior. J a ordem do dia para a assembleia da TV Liberal, assinada exclusivamente por Ronaldo Maiorana, na condio de vice-presidente da emissora, a ser realizada uma hora e meia depois da reunio do jornal, s 15 horas, no mesmo dia 30, em pleno sbado, ser: a transformao do tipo jurdico da sociedade, de sociedade empresria limitada, para sociedade annima, com a alterao da denominao social e aprovao e adoo do estatuto social e demais alteraes decorrentes da transformao do tipo jurdico; eventual propositura de ao de responsabilidade, em face do diretor presidente da sociedade; eleio dos novos administradores e xao do valor da remunerao edil;o a ser paga aos administradores eleitos; contratao de empresa auditoria independente; contratao de empresa de consultoria estratgica, e discusso e aprovao de outras medidas relativas reviso de prticas de governana cor porativa da sociedade. Pode ser o incio do m do reinado de Romulo Maiorana Jnior na imprensa paraense, por iniciativa dos seus prprios irmos. Ele e Rosngela mantinham uma disputa de longos anos. A nova posio assumida por Ronaldo, porm, uma surpresa. Antes, ele cava sempre ao lado do irmo mais velho e mais poderoso. Mais um captulo dessa novela de suspende e reativa usina, leva constatao bvia: qual o sentido da nova deciso, mesmo com o acrscimo do uso de fora? Destinatria da ordem judicial, a Norte Energia reagiu dizendo que no haver efeito algum porque a deciso se refere Licena de Instalao e a empresa j se encontra no estgio seguinte, com a obteno da Licena de Operao (a LO), que substitui em sua integralidade os termos da LI. Numa interpretao extensiva, a nica paralisao que poderia haver na instalao das turbinas na casa de fora da usina. Cinco das 18 maiores mquinas (e todas as seis de menor porte) j esto funcionando, gerando 3,2 mil megawatts de energia. A obra dessas turbinas ainda por instalar que poder ser suspensa? Ainda que seja, a racionalidade e a eccia da sentena dependero de chamar lide o principal personagem a esta altura da instalao da usina: as prefeituras dos municpios localizados na regio a ser servida pelas compensaes a que a empreiteira se obrigou realizar para conseguir o licenciamento ambiental. Se no, continuar essa desgastante disputa de gato com rato.