Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o aMINRIO A histeria positiva EDIO DOS 30 ANOSO senador Ranolfe Rodrigues, da Rede Solidariedade, subiu tribuna no dia 23 para denunciar o maior crime contra a floresta amaznica desde 1970, quando foi iniciada a construo da rodovia Transamaznica. Sua palavra tinha tudo para ser acreditada. Ele foi eleito pelo Amap, fulminado por esse crime, junto com o Par. Por isso, seu grito de guerra ecoou pelo pas e ser viu de convocao para a batalha contra o maior atentado cometido contra a Amaznia em quase meio sculo. O inimigo era o decreto 9.142, que o presidente Michel Temer sancionara apenas horas antes do pronunciamento do senador, como uma iniciativa sorrateira, mals e de traio aos interesses nacionais, concebida nos pores do poder federal, executado pelo comandante ilegtimo.A extino de uma reserva mineral criada em 1984 no Par e no Amap causaria o maior crime contra a floresta amaznica desde 1970, segundo o senador Ranolfe Rodrigues. No era nada disso. Mas a gritaria mal informada poder ter um efeito benfico, se cessar e ceder lugar argumentao inteligente.Seguiu-se uma srie de manifestaes e matrias pelas redes sociais, em atos pblicos e pela imprensa, com destaque para a Folha de S. Paulo. O jornal desencadeou uma campanha junto opinio pblica, para protestar contra a iniciativa do governo golpista de Temer, o mais impopular da histria republicana, e a ameaa da invaso por novos brbaros de uma rea de 4,6 milhes de hectares, entre os dois Estados, por multinacionais e garimpeiros cata de ouro, cobre, mangans, ferro e tantos minrios quanto os de Carajs, do outro lado do rio Amazonas, a maior provncia mineral do planeta. A simples existncia do decreto seria motivo para colocar em grave risco nove unidades de conser vao e duas terras de grupos in-

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2 dgenas espalhadas por essa rea, que at ento pareciam viver num paraso intocvel, a dar-se crdito s descries dos que atacaram a medida como autntico ato de lesa-ptria ou mesmo lesa-humanidade, por sua dimenso catastrca. A forte reao, que atraiu personagens famosos do mundo dos espetculos e levou a cenas de choro, fez o governo recuar. Um novo decreto tentou acalmar os nimos e oferecer garantias de que a malignidade potencial do ato estava contida. No foi o suciente. A justia federal, acionada, suspendeu o efeito da medida. O governo se disps a rediscutir o assunto ao longo dos prximos 120 dias para conquistar a conana dos crticos e retomar o caminho que comeou a percorrer. O decreto maligno extinguiu a Reserva Nacional de Cobre e Associados. Ela foi criada em 1984, ltimo ano do derradeiro governo da ditadura militar, cheado pelo ablico general Joo Batista Figueiredo. Antes de chegar presidncia da repblica, ele foi chefe do SNI e integrante destacado da comunidade de informaes, subordinada ao Conselho de Segurana Nacional, a voz categrica no coro entoado no alto do poder sobre temas amaznicos. CRIAO DA SEGURANA NACIONAL A paternidade da reserva foi do contra-almirante Roberto Gama e Silva. Ele tambm cheou o SNI, na agncia de Manaus. Em 1980, foi colocado frente do Gebam (Grupo Executivo do Baixo-Amazonas),ir mo siams, na margem esquerda do grande rio, do Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins), do lado oposto. Ao Getat cabia a ao executiva do governo militar, sob o imprio da doutrina de segurana nacional, nos conitos fundirios e tenses sociais na expanso da fronteira econmica nacional pelo serto amaznico. O Gebam devia impedir que as multinacionais se apossassem das abundantes riquezas minerais do outro lado de Carajs, como acontecera com o mangans de Serra do Navio, um dos mais ricos depsitos de mangans do mundo. A Bethlehem Steel, atravs da Icomi, uma empresa nacional de Augusto Antunes, o explorara at s deixar o osso, na forma do minrio mais pobre, depois de quatro dcadas de atividade, exportando para os Estados Unidos o melhor mangans. Isso no podia mais se repetir. E j se repetira em Carajs, a princpio de propriedade exclusiva de outra grande siderr gica americana, a United States Steel. O perigo agora era o milionrio americano Daniel Ludwig. Em 1967 ele comprou uma empresa extrativista paraense, a Jari, que se dizia proprietria de 3,6 milhes de hectares entre o Par e o Amap, justamente em rea parcialmente superposta Renca. Nacionalista duro e intransigente, Gama e Silva teve experincia desastrosa na sua primeira visita imensa propriedade onde Ludwig plantara oresta, produziria celulose, extrairia caulim, cultivava arroz e criava bfalos. Ao chegar ao aeroporto da empresa, divisou a bandeira brasileira de cabea para baixo. Exigiu a reparao da ofensa com o hasteamento correto do pendo nacional. Mas no perdoou o erro, para ele deliberado. Quando Ludwig quis explorar sua grande jazida de bauxita (minrio do alumnio), a oeste da futura reserva de cobre, o Gebam no permitiu. Com o veto, o milionrio acabou por vender a jazida para a Alcoa, a maior produtora de alumnio do mundo, que com esse trunfo imps a sua posio no circuito do alumnio na Amaznia. A descoberta, em Carajs, do maior depsito de minrio de ferro de alto teor da Terra, um dos mais notveis feitos da geologia em todos os tempos, aparentemente to fcil que sugeria a existncia de uma conspirao internacional, acionou o alerta no Conselho de Segurana Nacional. Era preciso impedir o saque internacional da maior fronteira de recursos naturais do pas e do globo. Dizia-se que uma grande rea no Amap, entre a concesso da Bethlehem, a leste, e os domnios de Ludwig, a oeste, seria uma nova Carajs. Gama e Silva mobilizou o CSN e conseguiu a criao da reserva em 1984. Antes, induziu a Companhia Vale do Rio Doce, ainda estatal, a requerer a rea, preservando os direitos adquiridos antes da decretao da reserva. Com isso, nenhuma mineradora poderia nela penetrar. O interesse nacional estava assegurado. O problema que nenhuma amostra de cobre foi encontrada na ampla pesquisa realizada pela tambm estatal Companhia de Recursos Minerais. Outros minrios realmente h, mas ainda sem dimensionamento fsico e comer cial. Quanto a ouro, no h dvida. Calcula o DNPM (Departamento Nacional da Produo Mineral) que 28 garimpos tenham sido abertos por mais de mil garimpeiros ao longo dos anos. Nesses mais de 30 anos, a atividade dos garimpeiros foi ininterrupta. Ningum pediu que eles fossem impedidos de entrar nesses locais enquanto eram criadas as nove unidades de conservao, de vrios tipos e duas reas indgenas. Mas nenhuma mineradora, nacional ou estrangeira, se apresentou com um projeto, mesmo porque os direitos minerrios continuam a ser da Vale, agora como empresa privada. A BP (British Petroleum), que parecia em vias de se instalar, desistiu. QUEM A AMEAA? Com a extino da condio de reserva, essa enorme rea ser invadida por multinacionais, que esto nos bastidores, com apetite voraz, desta vez dispostas e investir na prospeco de minrios para extrao? Pode ser. o que o governo Temer pretende, carente que se encontra de novos recursos privados para tentar reanimar a economia, a mineral em particular, que estava em compasso de espera. Mas pouco provvel que haja um boom imediato de novos minrios, em funo de mapas da mina em mos poderosas, nem que as reservas de proteo da natureza sejam destrudas. Carajs exemplo oposto. O que resta de vegetao nativa se concentra nos plats onde esto depositados os minrios que a Vale explora desde 1985. Toda rea em torno foi devastada por fazendeiros, agricultores, madeireiros e projetos de assentamento. E ningum protestou, ao menos com a veemncia atual.

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3 verdade que as unidades de conservao de Carajs surgiram como cordo de proteo institucional das jazidas. As reservas so pblicas, mas sob gesto privada. Ainda assim, ali est a ltima concentrao da mata original do que j foi um verdadeiro den. E os ndios xikrin do Catet convivem amistosamente com a mineradora. No poderis vir a ser assim na extinta reserva? Feita a gritaria em torno de um fantasma remanescente da era da doutrina de segurana nacional na conduo dos assuntos amaznicos (embora ela continue em vigor), o momento agora de reexo. Ela inevitavelmente afastar os absurdos e todo besteirol que surgiu em torno dessa histeria sobre a maior ameaa oresta amaznica. Ou ento os que combateram essa geopoltica vesga e infrutfera, quando ela foi aplicada, endoidaro de vez com esta reinterpretao absurda em plena democracia. A questo exige um debate srio, com as informaes corretas e propsitos claros. Ou mais uma vez a vtima ser a Amaznia e, mais ume vez, de pessoas to bem intencionadas quanto desinformadas sobre a sua histria. A Reserva Nacional de Cobre e Associados foi criada por haver indcios de boa concentrao de minrios nesses 4,6 milhes de hectares. Talvez os mesmos da Serra do Navio, bem ao lado, onde, quase trs dcadas antes, fora iniciada a primeira lavra empresarial da Amaznia, com uma multinacional no comando. Alm do mangans, ferro, ouro e outras substncias. Menos o cobre. O detalhe no tinha importncia. Mesmo a legislao permite que se requeiram direitos sobre um minrio e se encontre outro. O objetivo do rgo mximo da comunidade de informaes do regime era impedir que multinacionais avanassem sobre essa rea, onde j estava ncado um enorme empreendimento do milionrio americano Daniel Ludwig, um dos mais famosos integrantes do capitalismo mundial de ento. Algumas pesquisas geolgicas foram feitas desde ento, nenhuma delas conseguindo alcanar o cobre. Requerimentos foram protocolados no DNPM. Mas nenhuma atividade empresarial se estabeleceu a partir do subsolo da reserva, que a vedava. Graas a essa porteira fechada, surgiram no perodo nove unidades de conser vao da natureza e das terras indgenas. Elas tiveram de conviver com a nica presena externa: a de centenas de garimpeiros circulando entre quase trs dezenas de garimpos. Sem problema algum. Anal, o alvo eram as multinacionais. INTERDITO MINERAO A deciso do governo federal de extinguir a reserva tem um objetivo claro: estimular a presena das mineradoras numa rea com potencial para a atividade econmica. E s isso, ou tudo isso. Se o desejo do povo brasileiro, que seja bem esclarecido e denido. Nenhuma reserva foi atingida tanto na sua integridade territorial quanto na sua dinmica prpria. Ainda assim, possvel que sofram com essa nova presso humana? claro que sim. A reao a esse mero abre -alas foi positiva. Seu efeito foi um novo decreto, esclarecendo as intenes e reforando o compromisso legal com a integridade dessas unidades ambientais e tnicas. Pela primeira vez foi criado um Comit de Acompanhamento da Extinta Renca Interministerial. O comit precisa contar com controle externo da sociedade civil, do Ministrio Pblico e das universidades para ter credibilidade. Mas foi um corretivo adequado. Ainda assim, muitos grupos o consideraram insatisfatrio. Com o clamor nacional, a justia federal de primeira instncia acolheu uma ao popular e restabeleceu a vigncia da Renca. Seu efeito concreto continuar a bloquear a minerao atravs de empresas, no mais pela diretriz da segurana nacional, eixo da ditadura militar, mas por uma ameaa natureza e aos habitantes primitivos. Tudo bem. Quanto garimpagem real e ativa e, eventualmente, a pecuria, a extrao de madeira, os assentamentos rurais, o plantio de soja e outras atividades, nenhuma iniciativa e nenhum interdito. A boa inteno de defender a Amaznia est posicionada para outra direo. O EFEITO DO EXAGERO Em 1976 o satlite americano Skylab, que orbitava a 930 quilmetros da Terra, registrou o maior incndio causado pelo homem que o prprio homem registrou documentalmente. Espantados, os cientistas da Nasa, a agncia espacial dos Estados Unidos, enviaram as imagens para o Brasil.O fogaru ardia no sul do Par. Um milho de hectares (ou 10 mil quilmetros quadrados, quase 10 vezes o tamanho do municpio de Belm, a capital do Estado) tinham pegado fogo, denunciou o ento diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia, de Manaus), ao anunciar a existncia das imagens, durante reunio do Conselho Deliberativo da Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia. A Sudam era, em grande parte, a responsvel por aquele gravssimo crime ecolgico. Ela aprovara, dois anos antes, o projeto agropecurio da fazenda Vale do Rio Cristalino, com 139 mil hectares, no municpio de Redeno, sob a inuncia do rio Araguaia. A dona do projeto era a Volkswagen. Foi a primeira (e viria ser tambm a nica) vez em que a multinacional alem deixava de montar veculos automotores, sua especialidade para criar boi, atividade na qual era totalmente neta. Mas s fazia isso porque a maior parcela do capital necessrio para implantar o que deveria ser uma moder na unidade de criao e abate de gado, com industrializao da carne, vinha de incentivos scais administrados pela Sudam. Por se instalar na Amaznia, podia abater at 25% do imposto de renda que devia e aplicar esse dinheiro no novo empreendimento, at o limite de 75% do total necessrio. Ao invs disso, a Volks usava o fogo para eliminar a oresta nativa e em seu lugar formar pastos articiais, sem falar nas acusaes de recorrer a empreiteiros individuais (os gatos), que submetiam os seus contratados a trabalho escravo. Queimar um milho de hectares da mata amaznica seria o maior crime ecolgico de todos os tempos no planeta.

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4 A queimada, no entanto, fora de apenas 10 mil hectares, ou 1% do valor denunciado. Logo, no tinha a gravidade apontada. E o assunto saiu da pauta e virou arquivo, s reaber to nos ltimos meses, depois de um longo silncio da opinio pblica nacional e internacional. No entanto, se o nmero usado fosse o correto, o escndalo teria que ser o mesmo. Para quem conhecia a Amaznia de fato, no apenas por teorias ou em visitas espordicas e rpidas, aqueles 10 mil hectares queimados de uma s vez eram, recorde regional, volume de assombrar. O milho de hectares era pura fantasia, tecnicamente impossvel de ser executado. Se a ateno tivesse perdurado, talvez se tivesse podido esclarecer uma dvida que perdura at hoje: para poder queimar tanta massa vegetal de uma s vez, a Volkswagen teria recorrido ao agente laranja, uma pasta qumica, espcie de fsforo, muito usado pelos Estados Unidos na guerra do Vietnam para desfolhar as rvores e assim revelar o inimigo oculto debaixo das suas copas. AO INFERNO, COM BOA INTENO O caminho para o inferno est pavimentado por boas intenes, diz um ditado popular. A histria da Amaznia tambm. Como ela um dos temas que mais interessa e apaixona a humanidade, tem defensores por todos os lugares, embora nem tanto, quanto se podia esperar, dentro dos seus prprios limites. Mesmo aqueles que vivem na regio e tm a obrigao de conhec-la melhor, s vezes se deixam levar pela boa inteno ou singram na onda de reaes emocionais (quando no oportunistas) vindas de fora. Foi o caso da febre de indignao desencadeada pela extino da Renca, com 40% do tamanho atribudo ao incndio da Volkswagen. Desta vez o escndalo foi provocado pelo senador Randolfe Rodrigues, que do partido dirigido pela acreana (e no acriana, como impe o vocbulo em uso agora, sem raiz histrica) Marina Silva. A rigor, o ataque no existe, ou ainda no existe, hipottico. Pode vir a acontecer por efeito indireto da volta da atividade mineraria dentro da rea da reserva, que se tornou proibida em 1984, nos estertores do regime militar, por obra e graa do seu principal rgo geopoltico, o Conselho de Segurana Nacional (o mesmo que sacramentou os atos institucionais, que conduziram o Brasil a uma ditadura). A reao ruidosa fez Temer determinar a paralisao de todos os procedimentos relativos a eventuais direitos minerrios na rea, em respeito s legtimas manifestaes da sociedade e a necessidade de esclarecer e discutir as condies que levaram deciso de extino da Renca. Nenhuma empresa estrangeira, porm, desrespeitou a interdio da reserva, nem por isso deixando de atuar em vrios Estados brasileiros com toda desenvoltura que a legislao e a poltica do governo lhes permitiam e ainda permitem, sob a gide do Cdigo de Minerao, de 1967, o ano da descoberta da provncia de Carajs, a maior do mundo. Se a suspenso da extino da reserva for mantida pela justia, que a determinou em carter liminar, at a melhor vericao do assunto, o que acontecer que nenhuma empresa poder atuar na rea. Mas nela continuaro ativos centenas de garimpeiros e muitos extratores de madeira. Mas nem eles, que simplesmente ignoram as regras legais, atuam dentro das nove reas protegidas, entre unidades de preservao ambiental e terras indgenas, que no foram alcanadas pelo decreto de extino da reserva mineral. Essa rea, que permanece bloqueada, representa mais de 70% da Renca, ou 2,8 milhes de hectares. Ela continuar a existir, no papel, com suas deformidades de origem, numa rea de 1,8 milho de hectares, interditada inclusive a pesquisas para definir o que h de verdade por trs de tanta especulao em tese. Podia-se aproveitar que o governo reviu o decreto original e criou um Comit de Acompanhamento das reas Ambientais da Extinta Renca, que ser consultado sobre a concesso de outorgas para a explorao mineral na rea. Por enquanto, o rgo, que indito, ter apenas representantes de ministrios, da Funai, Agncia Nacional de Minerao e dos governos do Amap e do Par. Essa vitria tem que ser completada pela participao do Ministrio Pblico e da sociedade civil, para poder atuar com iseno e prevenir os efeitos indiretos danosos da implantao de qualquer empreendimento econmico em reas pioneiras da Amaznia. Se no, as frentes de desmatamento muito mais ativas e concretas continuaro sua destruio constante e, na maioria das situaes, irremedivel. DivulgueO LEITOR QUEM FAZ O JORNAL PESSOALCorreoUma falha diablica de digitao na matria A cultura deles, no ltimo Jornal Pessoal transformou o Enriquecem em Enriquessem. Parece at que escrevi s como dono de jornal e no, ao mesmo tempo, como jornalista. Antecipo aqui o pedido de desculpa aos leitores. Alis, eles esto emudecendo. No s no jornal impresso em papel, mas pela internet. Parece que a sociedade se cansou justamente quando devia participar como nunca.

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5 Mais uma batalha Esta uma modesta edio sobre uma data signicativa. Talvez, com esta edio, o Jornal Pessoaltenha se tornado uma das mais duradouras publicaes alternativas do Brasil. Talvez, no nosso mundo contemporneo, a mais longeva e a mais singular. um jornal escrito por uma nica pessoa, com o suporte do irmo, o Luiz, na retaguarda grca e artstica, numa atuao de dupla que tambm no deixa de ser incomum, tanto pela durao como pela complementaridade das partes. um jornal que recusou ter acesso receita de publicidade desde o seu primeiro nmero, mantendo esse compromisso at hoje. Foi uma atitude de protesto diante da prtica comum, hipertroada entre os paraenses, de condicionamento da veiculao de anncios a certo grau de compromisso editorial do veculo, num toma l d c promscuo. E da ao nefasta da publicidade ocial, dosada e dirigida conforme os interesses do plantonista no poder, que costuma usar e abusar do dinheiro pblico para proveito pessoal e partidrio. Como agora acontece, num dos perodos de maior gravidade dessa prtica, sob administrao tucana do economista Simo Jatene, que se declara vestal, um Cato de bico longo, o modelo oposto de Jader Barbalho, apontado como exemplo do rouba e (nem sempre) faz populista, que anestesia as massas e causa repulsa classe mdia. O Jornal Pessoalno renunciou a ser impresso em papel, contra todos os augrios e vaticnios do m da imprensa antiga, anacrnica, ferida de morte pelas novas tecnologias. Com alguns incidentes de percurso, este jornal tem ido quinzenalmente s bancas, em nmero cada vez menor, desaar o marketing e os hbitos e costumes, espera de que o leitor v atrs do seu exemplar e pague por ele um valor que muitas pessoas consideram alto. Elas no valorizam a singularidade desta publicao. Ela no tem adornos e os atrativos comuns da cultura pela imagem, pela elipse, pelos cdigos cada vez mais irracionais, rompedores da herana humanstica que o livro e o prprio jornal impresso em papel representam. Numa era de informao farta, barata ou mesmo grtis, este jornal investe na qualidade de um conhecimento que no oferecido por qualquer outro, seja por qual linguagem e formato adote. Numa era de democracia, o JP conti nua plenamente alter nativo porque parte considervel do que contm no est disponvel em nenhuma outra fonte. No se trata de assunto cabalstico ou esotrico: da pauta constam os temas mais importantes e urgentes do momento no Par, na Amaznia e, s vezes, no Brasil. O desaparecimento deste jornal talvez provocasse a supresso desses temas da agenda dos cidados, com danos para o bem social, para as necessidades coletivas. Manter princpios e compromisso ao longo de 639 edies, sem contar os nmeros especiais e os dossis publicados, custou caro e permanece sendo extremamente oneroso para o responsvel solitrio por este jor nal. Sem a adeso, a confiana e o apoio dos leitores, esta guerra de um exrcito de um homem s j teria sido perdida. Para que o combate subsista, preciso travar uma batalha a cada novo nmero e venc-la. Chegar a estes 30 anos ter conscincia do caminho percorrido e, ainda assim, ou por isso, acreditar que vale a pena acreditar no futuro.30+15Luiz PintoVivemos tempos difceis e no estou falando de Brasil. No temos bomba atmica ou de hidrognio, mas temos nossos poderes republicanos atolados na corrupo, metidos com o empresariado bandido, agarrados como car rapatos s tetas da viva. uma bomba invisvel, mas que vem matando milhares de brasileiros por anos e anos. Aqui no nosso rinco amaznico, fronteira de povo ignorado e maltratado, a coisa ca mais dramtica. Em 1987 eu passava pelos meus 33 anos e fazia a charge diria dO Liberal desde 83/84, por a. Nosso pai havia mor rido em 1985, o Romulo no ano seguinte. Os lhos do Maiorana j estavam rompidos com o Lcio, quando ele lanou o JP e em 89 fui demitido dO Liberal. A partir da passei a fazer toda a parte grca do JP. e sobreviver como autnomo. Comecei na publicidade e fui pro jor nalismo graas ao Lcio, seguindo a tradio de pai pra lho. Mas a msica, herana das cantorias da me, compe a minha outra parte. Vem do comeo de 1970 a nossa parceria e devo muito do que sou a ele. Minha progresso prossional est mostra nesses trinta anos de JP, mais quinze de parceria jornalstica. No por ser irmo dele e tambm, digo que meto a mo no fogo por esse cara. A histria sobre a Amaznia no prescinde dos registros dele, fazendo uma caricatura, seria o chicomendes do jornalismo amaznico. A luta desse pinto solitrio s ser reconhecida pela posteridade da nossa histria, mas pouqussimos sabero da vida privada do Lcio pra manter esse Jornal Pessoal por 30 anos como eu. O JP, assim como eu, no de direita ou de esquerda, de frente, do front Foi fazendo quadrinhos, l pelos 5 anos que comecei a desenhar e pelos 10, descobrir meu talento copiando as gravuras de Rugenda e Debret com lpis de cera para capas de trabalhos escolares e a minha paixo pela Histria. Hoje, assim como o Lcio, lamento muito a possibilidade de o JP acabar, mas co feliz e orgulhoso de comemorar trs dcadas deste jornal que, como dizia aquela propaganda antiga: quem no o maior tem que ser o melhor.

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6 JP: 30 anos de luta pela causa pblica Clia Regina Trindade Chagas Amorim*Quando fui convidada pela Rede Justia nos Trilhos e pelo Comit Nacional em Defesa dos Territrios Frente Minerao, para participar do evento Do Rio que era Doce ao outro lado dos Trilhos: os danos irreversveis da minerao, que trouxe como tema o modelo de minerao no Brasil e o que ficou conhecido como a tragdia de Mariana, resolvi apresentar um pouco da histria do Jornal Pessoal nos seus trinta anos de existncia. O evento foi realizado de 7 a 11 de agosto de 2017, em Belm, no Mirante do Rio, da Universidade Federal do Par. Mas por que revisitar a histria do JP nesse evento? Qual a relao da existncia do Jornal Pessoal com o que ocorreu em Mariana, um dos temas centrais da programao? Se levarmos em considerao que a tragdia de Mariana, como ficou conhecida, no deve ser demar cada historicamente dessa forma, mas sim como a tragdia das empresas transnacionais que operam no Brasil e na Amaznia (Samarco, Vale S.A., BHP Biliton) em Mariana, penso que podemos estabelecer pontos relevantes de reflexo, a partir do Jornal Pessoal, mesmo reconhecendo que tal proposta no contempla, na sua integralidade, a escritura alternativa do JP, tampouco o modus operandi dessas empresas nesses anos todos. O Jornal Pessoal nasce no ano de 1987, ps-ditadura militar, exigindo direito de comunicao na Amaznia. H, no lanamento do Jornal Pessoal, datado da segunda quinzena de setembro de 1987, um duplo movimento alternativo, radical: lutar veementemente pelo sagrado direito de comunicao e lutar por uma Amaznia mais justa para todos, mas fundamentalmente para ns, os amaznidas. Esse duplo movimento, que a essncia do JP, mantido a ferro e a fogo h trinta anos. Mas que Amaznia o Jornal Pessoal narra em suas pginas? Que Amaznia essa que nos choca tanto? Que Amaznia essa que nos causa uma sensao de estranhamento, de no pertencimento? Cer tamente que no uma Amaznia fabricada pelo poder dos grandes conglomerados miditicos e seus inmeros chaves, lugares comuns, que habitam, a partir disso, o imaginrio coletivo local/global. Apesar de essa Amaznia ser conhecida e reconhecida por todos ns, nela no h espao para ns, amaznidas! A Amaznia revelada por Lcio Flvio Pinto, nas pginas do Jornal Pessoal, uma Amaznia dilacerada historicamente, uma Amaznia violentada pelo poder do capital industrial-nanceiro globalizado e, sobretudo, com a convenincia e o aval do Estado brasileiro; esse mesmo poder foi o responsvel pelo maior crime da histria da minerao na regio de Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. O cenrio trgico em Mariana, de autoria das empresas transnacionais Samarco, Vale S.A., BHP Biliton, denunciou, entre outros fatores j expostos que no existe um controle por parte dos responsveis, para se evitar crimes como o do dia 05 de novembro de 2015, publicado no espao comunicacional global. Isso faz parte do modus operandi dessas empresas. Acontece que esses fatos s vm a pblico quando se constituem como tragdias humanas: dezenove mortes, desaparecimento provocado pela lama da minerao de comunidades do entorno, contaminao gravssima do meio ambiente de dois estados brasileiros, Minas e Esprito Santo. A histria do alternativo a histria do desvelamento dessa estrutura maqunica, estrategicamente organizada, em nossa regio e no pas. O alternativo no espera as tragdias que afetam a todos, como foi o caso de Mariana e dos impactos socioambientais, cotidianos, causados pelo trem da Vale S.A., que corta vinte e sete municpios espalhados pelos Estados do Par e Maranho, levando o nosso melhor minrio de ferro para o mer cado internacional e deixando apenas desigualdades e conitos sociais. Outro tema do evento. H trinta anos, o Jornal Pessoal questiona esse modelo de minerao, com perguntas como Vale. Um cavalo de Troia?. Essa a manchete de capa do JP de nmero 210, de 1999. Nessa edio, o nosso Estado aparece como o responsvel por a Vale ser uma potncia no ramo da minerao no pas e no mundo, e a Vale como a responsvel pelo subdesenvolvimento paraense. So trinta anos expondo a nudez de uma Amaznia que insistimos em no enxergar. No JP, comum encontrarmos os grandiosos nmeros, sempre lucrativos, dos megaempreendimentos que so instalados em nosso territrio, isso a grande mdia tambm faz. Porm, o jornalismo praticado no alternativo aquele que retira a blindagem quantitativa do progresso, dos grandes nmeros econmicos desse modelo de minerao que insiste em excluir o homem que aqui vive e o seu meio ambiente dos processos de desenvolvimento do pas. Eis a grande diferena de um jornalismo cidado! A edio de julho de 2017, a mais recente, por exemplo, a de nmero 635, da primeira quinzena, apresenta a capa: Amaznia: A destruio prossegue. No texto, o jornalista chama a ateno para a poderosa propaganda e relaes pblicas do neocapitalismo globalizado (Noruega e Vale S.A), em defesa de seus interesses e da chamada causa amaznica. O alternativo denuncia que o cor te de quase duzentos milhes de dlares neste ano, num programa de apoio proteo da natureza na Amaznia, no foi obra s da ecologia, ao contr-

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7 rio, a Noruega se tornou a dona do ciclo completo do alumnio no Par, atuando em Paragominas, Oriximin e Barcarena. A Noruega, destaca o JP, est investindo na busca e extrao de petrleo no pr-sal brasileiro. Da mesma forma a multinacional brasileira Vale S.A, a maior vendedora de minrio de ferro do planeta (Jornal Pessoal, n. 635, jul. 2017). Ento, entre propaganda e marketing, a Amaznia colonizada, geradora de riquezas para o mercado internacional, torna-se cada vez mais selvagem, brbara! Alis a barbrie tema do nmero inaugural do Jornal Pessoal (que teve sua existncia no seio de uma empresa de comunicao hegemnica, o jornal O Liberal, utilizando inclusive a grca dessa empresa). A selvageria na Amaznia s faz crescer. Todos os que ousam contestar essa estrutura hegemnica tm suas vidas ceifadas, como Paulo Fonteles, advogado de posseiros e camponeses no Sul do Par, que foi assassinado por latifundirios e agentes do Estado, assunto da primeira capa do Jornal Pessoal. A lista das vtimas enorme e dela fazem parte ativistas como Chico Mendes, a missionria Dorothy e tantos outros que no chegam s estatsticas ociais porque incomodam os detentores do poder do capital e do Estado em nossa regio. Esse, alis, um tema sempre recorrente nas pginas do alternativo. dessa forma que o poder do capital se manifesta no territrio e transforma tudo e todos em mercadoria, ou seja, nanceiriza o meio ambiente e a vida nele contida, sempre com a imagem da sustentabilidade da Amaznia. Todos aqueles que no aceitam a lama txica da minerao deixada em Mariana, Minas Gerais, a qual chegou at o Esprito Santo, ou as crateras, como as deixadas na Serra do Navio, no Amap, so punidos, de forma anloga ao que ocorre em outras reas impactadas no Par e no Maranho. No caso especco de Lcio Flvio Pinto, optar pelo metajornalismo crtico no tem sido fcil para ele. Em vinte e cinco anos, dos trinta do JP, Lcio Flvio Pinto se defende no Tribunal de Justia do Estado: j chegou a computar trinta e trs processos contra ele na Justia do Estado do Par desde 1992, impetrados por empresrios da comunicao (famlia Maiorana), grileiro de terra (Ceclio do Rego Almeida), polticos, delegado de polcia e juzes. O jornalista tambm j sofreu espancamento pblico em 2005, por um dos Maiorana.Lcio Flvio Pinto foi condenado pela justia do Estado do Par porque desvendou uma das maiores grilagens de terra do mundo, no Xingu, Par, do falecido empresrio Ceclio do Rego Almeida. Provou que as terras eram de domnio pblico e o Estado reconheceu que de fato as terras eram da Unio, mas condenou o jornalista. Essa uma das tcnicas para calar a voz e destruir a vida de Lcio Flvio Pinto. Em contrapartida, nenhuma das pessoas que acionou o jornalista na Justia exer ceu o direito de resposta concedido pelo Jornal Pessoal. Lcio Flvio Pinto insiste, resiste, como um defensor da causa pblica da Amaznia, por isso coleciona no currculo diversas premiaes, como a da Itlia, o Colombe doro per la pace, de 1997, do Arachivio Disarmo. Trata-se de uma Organizao No Governamental liderada pelo senador socialista Luigi Anderlini. O jornalista paraense foi o primeiro no europeu e o primeiro latino-americano a receber to importante premiao, com indicao de Maurizio Chierici, enviado especial do jornal italiano Corriere della Sera. No evento Do Rio que era Doce ao outro lado dos Trilhos: os danos ir reversveis da minerao a equipe do Academia Amaznia, da Faculdade de Comunicao, por meio do projeto de Extenso Documentrios Biogrcos da Amaznia (DocBio), coordenado por esta pesquisadora e pela professora Alda Costa, lanou o DocBio Lcio Flvio Pinto, documentrio que teve a proposta de marcar os trinta anos do Jornal Pessoal como uma das mais radicais e longevas publicaes alternativas da histria do Jornalismo Brasileiro e da Amaznia (AMORIM, 2008). Teve tambm a dupla nalidade de demarcar uma memria, que no pode ser apagada, porque ela visibiliza as estruturas de dominao que operam na Amaznia, e propalar o quanto Lcio Flvio Pinto foi e perseguido por esses poderosos. No documentrio h uma frase central do jornalista que gostaria de recuperar neste texto: Se algum [quiser] colocar uma lpide na minha sepultura, eu peo que coloquem: Ele incomodou os poderosos! (Pinto, 2017b). E como o tema do evento destacou uma tragdia, ou vrias, no s em Mariana como na Amaznia, gostaria de nalizar este texto, que foi apresentado em formato de palestra por mim, no dia 11 de agosto de 2017, com uma breve citao de Walter Benjamim: Nunca houve um documento da cultura que no fosse tambm um monumento da barbrie (2012, p. 245). ___________________________* Prof. Dr. do PPGCOM/Facom Coordenadora do Grupo de Pesquisa Mdias Alternativas na Amaznia (CNPq-UFPa)Referncias ServioO documentrio tem quase uma hora de durao, possui trs blocos, foi lanado no referido evento, dia 11 de agosto de 2017. Pode ser localizado no site do Academia Amaznia, https://www.academiaamazoniaufpa.com/, na pgina do projeto DocBio. AMORIM. Clia Regina Trindade Chagas. Jornal Pessoal. O metajornalismo cidado. Bol. Mus. Para. Emlio Goeldi. Cinc. hum.v. 3n. 3,Belm,Sept./Dec.,2008. Disponvel em:. BENJAMIN, Walter. Magia e tcnica, arte e poltica: ensaios sobre literatura e histria da cultura. So Paulo: Brasiliense, 2012. PINTO, Lcio Flvio. Jornal Pessoal. n. 1. 1 Quinzena de Setembro, 1987. ______. Jornal Pessoal. Ano XII. N 210. 1 Quinzena de Maio, 1999. ______. Jornal Pessoal. Agenda Amaznica. Ano XXXI. n. 635. 1 Quinzena de Julho, 2017a. ______. Entrevista. Documentrios Biogrcos da Amaznia. Academia Amaznia: Faculdade de Comunicao, Programa de PsGraduao em Comunicao (PPGCOM), Universidade Federal do Par, ago. 2017b.

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8 O JP me deu rgua e compassoPaulo de Faria Minhas primeiras imagens de menino solto na cidade se deram por um triangulo escaleno da minha iniciao na escrita e no desenho, na esquina da travessa Campos Sales com a rua 13 de Maio. Levado pelos irmos jornalistas, lembro de ficar desenhando e escrevendo palavras soltas na redao de A Provncia do Par. Adorava subir as longas, altas escadas que davam na redao. Janelas com paisagens de telhados de barro e o asfalto longe dos olhos pssaros, com uma trilha de tic-tac de mquina de escrever ao fundo. Outra memria era ir para um escritrio no edifico em frente ao Arquivo e Biblioteca Pblica, biblioteca onde era obrigado a fazer pesquisas, mas que adorava ficar ali lendo histrias e imagens que no serviam para nada. Ficava fazendo cpias das frases e dos desenhos que gostava. Sempre tive inclinao e talento pra copista. Nos trs espaos sentia aquele agradvel e enjoativo cheiro de papel e umidade. No escritrio do 8 andar, do mesmo lado de A Provncia cava a sala de trabalho do jornalista Lcio Flavio Pinto, correspondente de O Estado de S. Paulona Amaznia, juntamente com outro irmo, o Raimundo, j falecido. Tinha uma placa numa das portas dos dois cmodos que davam pro corredor, e que se ligavam por dentro. Tinha ainda um banheiro no escritrio. Quando saia do elevador, um corredor comprido, cheio de por tas e uma janela ao final. Bem no meio do corredor, esquerda, era o meu paraso. Ficava horas ali, um silncio de moscas, cortando dos cadernos do Estado o que estava marcado com caneta ou lpis de cor. E colando em folhas brancas com o cabealho do jornal. E, logo, fui aprendendo a ligar o telefone embutido naquela mquina, que parecia um painel de carro, onde discava um nmero. Era o telex. Atendiam em So Paulo, davam um sinal e eu colocava a ta j picotada pelo texto do Lcio, quando ele datilografava, e eu tinha a misso de enviar. E cava vendo e ouvindo aquela ta. Como um rolo de lme. Ou cava l para atender no horrio o telefone de So Paulo, e fazia o ser vio contrrio, me certicando que havia ta virgem na mquina. Jornal Estado de So Paulo, Amaznia, boa tarde. E aps o sinal que eu dava, a ta era picotada e a mquina escrevia sozinha o texto no papel como num cinema. Era um longo tempo mgico. As bolinhas amarelas do picote caiam numa caixinha de acrlico. ramos proibidos de usar como confete no carnaval, porque era txica. Podia cegar. Nunca fiquei cego. Atrs da mquina tinha uma janela enorme que dava para ver muitos mais telhados, e l longe a igreja da S, depois o rio, e o outro lado da margem. A terceira margem. E foi nessa mar gem que comecei a escrever fico e fazer teatro. Sempre vi o meu irmo e padrinho como uma biblioteca. Uma enciclopdia. Um dicionrio. No tinha nada que ele no soubesse. E gostava, tinha enorme prazer em responder a coisa certa. Eu perguntava para ele questes que podiam cair na prova. Fazia a pergunta como um comentrio para que ele achasse que eu queria compartilhar um conhecimento. E batata, ele respondia, sem perceber que eu estava copiando a sua resposta na minha cabea. Era o meu exer ccio de coeso, de sntese, de brevidade. No precisava ler aquele livro. Eu era a orelha dos livros que ele me descrevia. Ele era o meu google. E na prova sempre acertei. mesmo quando errava. Mas as provas de respostas escritas foram acabando e entrou a moda de marcar. Essa at era mais fcil pra colar. Mas no tinha graa. Assim, repeti uma srie. Ainda em Belm, vi o Lcio se demitir do Estado, no tempo em que parei de ir Biblioteca e a subir nas escadas dA Provncia Estava com 16 anos, quando, num domingo acompanhei um colunista social em sua lancha no Iate Clube. Depois fui com ele at a redao levar a sua coluna que saia nas segundas. Subi as escadas de camiseta e sunga, incio dos de 1980. Levei um susto com meu irmo Raimundo, o Zez, ali em pleno domingo. Me viu chegar com o namorado. Como j gaguejava, cou mudo. Acho que foi a ltima vez que fui Provncia Desde a infncia constru naquela esquina o desejo de escrever histrias num jornal. Criei um personagem assim, o Hemineu, em Os Crimes de Preto Amaral. Suas falas, constru do que copiei de uma edio do Jornal Pessoal, sobre Belm, escrita pelo velho Maranho na Folha do Norte que o meu irmo citou. Passei muito tempo em redao de jornais. Da meu desejo em trazer a crnica em meus textos. Quando eu j tinha 20 anos, o Lcio se demitiu do Estado nessa poca ele criou este jornaleco subversivo e realmente comprometido com o jornalismo, que no deveria durar tanto. Trinta anos. Lembro bem da primeira edio sobre o crime que matou o deputado do PC do B, Paulo Fonteles. E rodado dentro de O Liberal.Numa histria que hoje parece surreal. Lembro quando o jornal foi premiado e teve um palanque em frente do Teatro da Paz, ao lado do Bar do Parque, onde o Lcio foi homenageado. Isso tambm hoje parece surreal. Guardo com carinho a camiseta branca de gola e punhos amarelo e com a marca do JP no peito. A experincia idealista do Lcio em busca da verdade me inspirou a ter uma companhia de teatro, onde escrevo, produzo, atuo, e a direo de arte est dentro da direo geral, como a sua rotina em seu ocio no seu jornal, e ao lado do grande talento do outro irmo, o Luiz, que desenha

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9 e diagrama. O Luiz que me levou pro teatro. Eu dei sorte, herdei um pouco de cada um, mais a sensibilidade artstica de minha me e o desejo poltico de meu pai. O Lcio me fez entender minha vocao para atuar num ativismo por direitos humanos, atravs do teatro,na Cracolndia, Boca do Lixo, So Paulo. Se ele pode fazer isso no jornal, eu quero fazer isso no teatro. Pensei. Pessoal. E assim foi essa histria. Estou h 27 anos em So Paulo, e fico feliz que o Lcio consiga seguir com seu o rumo para ser gauche na vida, ser Quixote, sem eira nem beira, a troncos e barrancos, e fiel ao que ele idealizou. H 3 anos montei uma pea aqui em So Paulo para falar disso tudo. TempoNorteExtremo. Esse Tempo, esse Norte, esse Extremo desejo pela verdade e pela justia. Amaznia que existe em mim bate no corao do Lcio. A So Paulo que existe em mim, bate na cabea dele. E isso tudo corre em minhas veias. Misturado. Amalgamado. Parabns, Belm, Par, Amaznia pelo jornal que mais defende essa regio to rota de tantos crimes, numa declarao de amor impressa, como agora a minha aqui, por esse irmo to brilhante que fez esse danado do Jornal Pessoal. Vida longa e continue inspirando tantas e tantos jovens em busca da verdade, da informao, do conhecimento. Evo!Quatro dcadas em livros Quarenta anos atrs foi publicado o meu primeiro livro: Amaznia, o anteato da destruio em outubro de 1977, em pleno clima de Crio. Reuniu 104 artigos, em 372 pginas (no formato grande), em torno de 10 temas: terras, ndios, minrios, ecologia, economia, urbanismo, polmica, gua, estradas & ambiente. O livro, com dois mil exemplares em duas edies, est esgotado. Na Estante Virtual, site que congrega os sebos do Brasil, h dois exemplares em oferta. O sebo Luzes da Cidade Botafogo, do Rio de Janeiro, que vendeu um exemplar autografado (para quem?) por 90 reais, tem outro, pelo mesmo preo. O Sebo Em Busca do Saber, de So Bernardo do Campo (So Paulo), quer R$ 300 pelo exemplar que possui. Dois outros foram vendidos por R$ 450. um preo excessivo, que a Estante Virtual costuma inacionar por ser primeira edio. O livro no vale tanto, seja pelo contedo como pelo fato de que suas pginas descolam facilmente por causa do volume, que exigiria que fossem costuradas. Para garantir a durabilidade do livro, recomendvel encadern-lo. Em 1977 eu tinha 28 anos, quase 12 de jornalismo, seis como reprter de O Estado de S. Paulo(nele caria por mais 12 anos) e quatro em O Li beral Viajava muito por toda Amaznia. Onde quer que houvesse um acontecimento importante, eu l estava. Primeiro acompanhado por um fotgrafo. Depois, sozinho. Eu mesmo passei a fazer as fotos. Como a da capa do livro, criao do meu irmo, Luiz, que me acompanha desde 1972 (mesma poca do comeo do trabalho em comum com outro irmo, o Raimundo Jos, que se foi muito antes da hora devida) e meu indispensvel companheiro neste jornal. Enquadrei uma posseira do PIC (Projeto Integrado de Colonizao) Gy-Paran, em Rondnia. Seu drama era caracterstico da poca. Era 1976. Ela recebeu um carto de identicao do Incra, que a autorizou a invadir a rea dos Suru. Os ndios reagiram e atacaram os colonos, matando dois deles. A possira, que j fora expulsa de Mato Grosso por fazendeiros, julgava que o documento do Incra era garantido. No era. Ela continuaria a migrar pela Amaznia, novamente expulsa de onde se estabelecera. Ela exibia o documento emitido pelo Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria, usando as duas mos. Uma delas tambm segurava uma propaganda das pilhas Rayovac com uma foto de Pel. Estava suja, vestia uma roupa pobre e simples, um leno cobrindo a cabea para proteg-la do sol. Ao fundo, restos de uma queimada, com touceira de capim, sobras de rvores, o terreno desnudo, pronto para ser lavado e lixiviado pelas chuvas fortes, sem a proteo da cobertura vegetal. Eu trazia as vrias Amaznias para as pginas dos dois jornais, que me nanciavam as expedies. Estava empenhado em ver tudo com meus prprios olhos e no Quando tudo comeouPedro PintoEstava ainda atordoado pelo casamento, tentando entender o que havia feito, quando o Lcio me chamou para ajud-lo. Ele estava muito agoniado e queria fazer um jornal para apresentar ao pblico as investigaes sobre o assassinato do deputado Paulo Fonteles. E o jornal saiu na marra. E esta foi a melhor maneira de fazer o JP. Na improvisao. E quando estvamos nos recuperando daqueles dias de corre-corre que antecederam o lanamento, veio a convocao pro segundo nmero. Mas como? No era s para aquele caso do deputado assassinado? Nada! Faltava o caso de desvio de recursos do Basa. E assim o trabalho foi seguindo. Como eu era bancrio, pois j havia abandonado a carreira profissional da famlia, no pude prosseguir com a ajuda. O ano de 1988 amanhecera e o JP sobrevivera. O Lcio conseguiu superar a experincia do Bandeira 3, onde fui oce boy. Realmente, ningum esperava por essa longevidade. Nada nos dava pelo menos a expectativa de que aquele passaria a ser o seu principal empreendimento. O JP sobreviveu porque o pblico queria exatamente aquilo. A verdade dos fatos.

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10 ANTEATO DA DESTRUIOO prefcio do livro, de outubro de 1977.Estes artigos foram escritos em cima dos acontecimentos, como uma resposta, uma denncia ou um esclarecimento sobre o dia a dia. So, por tanto, essencialmente jornalsticos. O reprter que os produziu no teve flego para chegar a uma interpretao sistemtica: se restringiu a levantar e checar informaes, percorrer inter minveis gabinetes, ouvir histrias incrveis em contnuas andanas por todos os pontos da Amaznia. Segundo o tortuoso rastro da verdade, haveria de cometer erros. Mas a prpria reexo sobre o cotidiano talvez ajude a situar e compreender a poca de que esses artigos trataram. me deixar embromar ou seduzir. Iria sustentar a verdade com os abundantes fatos que coletava e sua checagem em fontes conveis e legtimas. Foi o que destacou o advogado Otvio Mendona, amigo e parceiro de polmicas, na saudao que me fez no dia do lanamento do livro. Escolhi a ocina de O Liberal para a noite de autgrafos. Muitos dos convidados entraram pela primeira vez nesse dia nas entranhas do jornal, vendo os operrios preparar a edio do dia seguinte. Alguns socialites se sujaram nas tintas da impressora, em pleno funcionamento. Oliveira Bastos registrou o detalhe na sua coluna em O Estado do Par, dizendo que eu fomentava a luta de classes. No sem alguma razo. Da, esposa do patrocinador da festa, Romulo Maiorana, com um generoso coquetel, era quem anotava os nomes das pessoas que iam para uma longa la receber o autgrafo, numa ordem democrtica e igualitria. Na hora dos discursos estavam altas autoridades, intelectuais, crticos e criticados, e o povo em geral. Discreto, Altino Pinheiro, que se dispusera a produzir e imprimir o livro por sua conta, el sua legendria generosidade. A sesso durou mais de quatro horas. Quase toda edio acabou nesse dia, exigindo logo uma segunda fornada. Romulo estava feliz, Este livro no passa de uma soma de matria prima disposio dos que, depois, se dispuserem a escrever a histria mais real desta lendria regio. Fazer jornalismo aqui tem sido muito difcil. E mesmo um produto to limitado como este livro resulta de um esforo penoso, muitas vezes amargo. Para suport-lo, preciso mais do que disciplina e conscincia: necessrio amar o tema. Em outubro do ano passado, escrevia numa das minhas colunas: descono que a melhor coisa que os jornalistas podem fazer depor sobre o que ocorre em seu tempo. A anlise, em geral, exige mais flego e no estamos preparados para essas grandes caminhadas. Contudo, uma srie de circunstncias me levou objetividade e a uma certa obtusidade temtica. Existe por trs desta sentindo-se um verdadeiro mecenas. Quando fui cumpriment-lo, ao me retirar, ele me abraou afetuosamente e me agradeceu, emocionado ele e eu. Foi um autntico happening cultural. Para registrar o momento, reproduzo em seguida o prefcio que escrevi. Trs anos depois, em 1980, saiu meu segundo livro. S existiu por obra e graa do paulista Jos de Souza Martins. J ento considerado um dos maiores socilogos brasileiros, ele chegara a mim atrado por uma das reportagens de viagem que fizera. Foi sobre a grilagem de terras na divisa do Par com o Maranho e a tentativa de matar um povoado, So Pedro da gua Branca, e a sua gente. Martins estava comeando a incursionar pela Amaznia, depois de ter escrito um dos mais importantes estudos sobre a cafeicultura do interior de So Paulo. Conversamos longamente. Apresentei-lhe minhas ideias e z-lhe sugestes de pesquisa. Reconhecido, ele convenceu a Hucitec, editora de So Paulo, a publicar Amaznia: no rastro do saque (219 pginas), dedicado aos problemas de terras e seu contexto econmico (h dois exemplares na Estante Virtual, a R$ 70 e R$ 100). Martins escreveu a orelha do livro (transcrevo-a tambm), num ato de generosidade, sem favor, porm, que desapareceu quando, em suas memrias ( A sociologia como aventura), no meio de tantos agradecimentos e citaes, nenhuma referncia fez a mim. Senti o impacto da omisso, mesmo quando ele tratou de pesquisa que fez por mim indicada. Mas j me acostumei a esse tratamento, que me do muitos acadmicos. Eles consideram que meu jornalismo no tem valor cientco e no ilustra suas bibliograas. No passado, quando eu tambm era um acadmico, parecia que esse preconceito (em parte, com motivao procedente) no se estabeleceria. Minhas reportagens e meus livros eram muito citados. A partir de certo momento, meu nome comeou a ser suprimido, at sumir do circuito, fato exemplicado pela atitude de Jos de Souza Martins. Incomoda um pouco, mas no abala. Considero-me predestinado ao jornalismo. Se s isso que sei fazer, continuarei a faz-lo. Empenho a capacidade que tenho na cobertura diria dos acontecimentos. Os livros so uma decorrncia desse trabalho. De tal maneira que quando eles passaram da segunda dezena, deixei de acompanh -los. Passaram a ter existncia autnoma. E assim La nave va Eu atrs dela, no meu casco de caboclo branquelo. coluna o observador sisudo, preso formalidade das coisas. uma posio mais exigente para quem escreve, talvez menos interessante 30 ANOS dependente do leitor 30 ANOS dependente do leitor 30 ANOS dependente do leitor

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11 para quem l, necessria para quem, depois, precisar registrar com maior rigor os dias atuais. O principal dos artigos selecionados para este livro saiu numa coluna diria que vem sendo publicada com certa regularidade h mais de trs anos nas pginas de O Liberal,jornal de Belm. Mas h tambm artigos de O Estado de S. Paulo, Opinio, Movimento e A Provncia do Par. Procu rei dividi-los por assuntos, obedecendo sequncia cronolgica. Certos temas se tornaram mais extensos por fora da sua importncia, mas alguns foram excludos porque, por feliz acaso, esto saindo outras duas publicaes. Numa delas rene-se a srie sobre a venda de terras da Serra dos Carajs Amaznia Minerao: foi no Informe Amaznico [minha primeira coluna em O Liberal, iniciada em 1973] que se denunciou a ilegalidade da transao. Em outra publicao, sero reunidas reportagens sobre questes fundirias. Dedico este livro ao interesse de Altino Pinheiro, que insistiu na sua publicao. Sem essa insistncia, eu jamais teria completado a seleo. Quero testemunhar meu reconhecimento a todos os companheiros de prosso, que me acompanham e me ajudaram muito a aprender o que sei e a fazer o que z. E tambm aos amigos, poucos porm vitais, e parentes. Mas, sobretudo, a Lenil, Lvio e Juliana: sem o amor que tenho por eles seria impossvel amar esta regio. Como necessrio. Espero apenas que este livro sirva para demonstrar que na Amaznia vive-se o antiato da criao, o anteato da destruio.NO RASTRO DO SAQUEApresentao desse livro por Jos de Souza Martins.A Amaznia entrou na ordem do dia das discusses polticas e econmicas da mesma forma que entrou no circuito do capital, que foi mais profundamente envolvida pela diviso social do trabalho e pela diviso internacional do trabalho. Por isso, tem crescido o debate nos jor nais, nas universidades, nas associaes profissionais dos grandes centros urbanos, no Brasil e fora deste, sobre a ocupao da Amaznia. Muito do que se tem escrito e falado demasiadamente fantasioso. O que importa descobrir a alterao na forma com que o processo do capital sujeita os homens e a natureza para se reproduzir ampliadamente.O que se observa no mundo amaznico uma trans formaono processo do capital, transformao essa que devasta a relao entre os homens do mesmo modo que devasta a natureza. A escala em que se d hoje esse processo constitui um verdadeiro saque. Lcio Flvio Pinto, o autor deste livro, um dos pesquisadores que com mais competncia se lanou no rastro desse saque. Socilogo diplomado pela Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo, tambm jornalista de O Libe ral, de Belm, e correspondente do jor nal O Estado de S. Paulonaquela cidade. tido, com justa razo, como um dos melhores conhecedores dos problemas sociais, polticos e econmicos e escreve diariamente h vrios anos. O seu conhecimento do mundo amaznico intimo, pessoal, direto. Ele esteve presente em todos os acontecimentos relacionados com a Amaznia desde que comeou o saque a que se refere, seja nas instituies governamentais, na grande cidade, seja em modestos redutos do serto. Lcio Flvio Pinto desenvolve uma modalidade de jornalismo que poderia ser definida de jornalismo social, o jornalismo que envolve um certo dimensionamento sociolgico da notcia, do fato, do acontecimento. Com frequncia ele tem documentado acontecimentos que ficariam fora do registro historiogrfico elitista que provm da nossa herana colonial e que ainda nos sufoca. Muitas vezes ele tem levado para o texto escrito e a pgina impressa a voz e a situao dos subalternos, dos lavradores pobres do serto, dos pees vendidos e comprados como escravos. Por trs do seu trabalho existe uma viva concepo de Histria. Por isso os conflitos que expressam o acontecer histrico permeiam todas as suas anlises. A perspectiva que amarra os vrios temas e planos deste livro de tal maneira rica e slida que ao l-los descobrimos que no estamos lendo um livro sobre a Amaznia, mas um livro sobre o Brasil, suas situaes sociais, seus processos processos que engendram o saque do mundo amaznico. 30 ANOS dependente do leitor 30 ANOS dependente do leitor 30 ANOS dependente do leitor Em famliaConsidero-me privilegiado por poder dividir esta edio com meus irmos Luiz, Pedro e Paulo. Elias e Eliaci no puderam responder presente. Completariam a festa, engalanada pelos brilhantes e comoventes textos dos meus irmos. A ausncia do Raimundo, o irmo que morreu, dolorosa. penoso no poder dividir esta alegria com Elias e Iraci, meus pais. Mame, em particular, vibraria com o que foi seu maior sonho: ver os lhos em unio. Papai bem poderia, jornalista que foi, o texto principal do Jornal Pessoal, nesta edio comemorativa dos 30 anos.

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12 ESTUDANTES Em 1953, cinco chapas apresentaram 86 candidatos ao parlamento da Uecsp (Unio dos Estudantes dos Cursos Secundaristas do Par), disputando votos dos alunos de 28 escolas em Belm, Santarm, Bragana e Camet. A chapa mais numerosa era a do Movimento Estudantil Cristo, com 20 candidatos, dentre os quais Gerson Peres, Pricles Oliveira, Manoel Leite Car neiro, Laurnio Miranda da Rocha, Srgio Negro Franco e Jovelino Leo Filho. A segunda maior chapa era a da Unio Estudantil Independente, com 19 nomes, como Raimundo Albuquerque, Elias Haber, Antnio Olyntho Contente, Jos Figueiredo de Sousa, Antnio Villar Pantoja, Hiram Rollo, Joaquim Lassance Maia e Raimundo Holanda Guimares. Pelo Movimento Democrtico Estudantil eram 17, com Irawaldyr Rocha, Rui Zacarias Mrtires, Itair Silva, Rosomiro Arrais, Gabriel Kalume e Hlio Zahluth. A Frente Democrtica Estudantil tinha, entre seus 16 candidatos, Benedito Alvarenga, Manoel Pompeu Filho, Gilberto Danin, Maria de Lourdes Beckman e Edson Jinkings. J entre os 14 candidatos da Liga Estudantil Independente apareciam Amilcar Tupiass, Evandro Diniz Soares, Jos Miguel Alves, Ramiro Bentes, Sebastio Platinha. Verdadeira escola de homens pblicos, que acabou.CHICO Caf Carioca, o caf mais chic de Belm, na avenida 15 de Agosto (hoje, Presidente Vargas), anunciava ao pblico que, no Crio de 1953, estava preparado para receber qualquer pessoa que admire o asseio e a ordem, motivos de sua fama na cidade. Mas tambm se destacava pela prontido com que atende queles que lhe do o prazer da visita, pelo sortimento notvel de biscoitos finos e bom-bons, lanches deliciosos e aperitivos sem igual. Lembrava ainda que os melhores sorvetes da cidade so servidos a qualquer hora. O anncio tinha um aviso de ltima hora para oferecer queijos de cuia, bom-bons Lacta, Sonho de Valsa e Rosemarie.ARTEEm outubro de 1953 o gover nador Alexandre Zacharias de Assumpo sancionou a lei que criava a Pinacoteca do Estado, com a finalidade de reunir, conservar e expor as obras de artes plsticas do Estado. A pinacoteca ficaria subordinada Secretaria de Educao e Cultura e seria dirigida por um tcnico em pintura de comprovado merecimento, o qual ter o encargo de restaurar e conservar as obras artsticas incorporadas ao seu patrimnio. A lei tambm previa que o governo providenciaria para que a obra em bronze, baseada e estilizada em motivos puramente paraenses, denominada Jarro Marajoara, duas vezes premiada com medalhas de ouro, criao excepcional do professor Manoel Pastana, e que vem de ser exibido no Par, passe a pertencer ao patrimnio artstico do Estado, enriquecendo o nosso acervo histrico. A direo da pinacoteca teria que organizar anualmente, no perodo de 7 de setembro a 15 de novembro, no Teatro da Paz, em Belm, o Salo Oficial de Belas Artes. Os melhores trabalhos originais exibidos receberiam prmios do Estado.MODAA Modas Seduo era a esquina da elegncia, na avenida Presidente Vargas 116. Em 1956 ela anunciava ternos, palets, calas, camisas, bluses e silaques das marcas famosas de ento (antes da era das griffes ): Saragossy, Epson, Ban-Tan, Fischer, Confex, Prist, Tecsport e Pirmides. Quantas sobreviveram? A Sedu o no.METAO programa Nova Iorque o fim, transmitido semanalmente pela Rdio Clube do Par, com o patrocnio de SM Publicidade (da qual a Mendes Publicidade derivou), era o su em 1957, antes de a televiso inocular sua presena. No programa de 17 de outubro, Ronald Arajo de Andrade acertou as trs perguntas sobre a vida de Abraham Lincoln, o tema do programa, garantindo seu prmio: uma viagem a Manaus. PROPAGANDAO grande cinemaEm 1963, o Cine Teatro Palcio era um dos melhores cinemas de Belm, oferecendo aos seus frequentadores ar condicionado, luxo, conforto, poltronas estofados, A propaganda traduzia a verdade. Virou templo da Igreja Universal, no trreo do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas.

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13 Aluisio Lins de Vasconcellos Chaves, que era ento diretor da Carteira Hipotecria da Caixa Econmica Federal do Par, tambm deu conta das suas trs perguntas. O ltimo candidato foi o jovem Sebastio Saldanha, que, demonstrando memria privilegiada, venceu a etapa que lhe garantia uma viagem at o Rio de Janeiro, dizendo aos ouvintes que seguiria, pois seu objetivo Nova Iorque. [Reproduzi do por ter sado com erro.]VESTIBULARO Curso Vestibular de Direito e Filosofia, talvez o mais antigo de Belm, foi fundado em 1955. dson Franco e Francisco Guzzo estavam frente da empreitada em 1966, quando iniciou seu 11 ano de atividade, funcionando no Colgio Santa Rosa, em Batista Campos. Eram seus professores: os prprios Guzzo (lngua portuguesa) e dson Franco (literatura brasileira), mais Isidoro Cabral (literatura por tuguesa), Fernanda Braga (francs), Carlos Agrcola (ingls) e Luiz Paschoal (histria do Brasil e geral). Bem perto dali, em outro colgio religioso (o Santa Maria, hoje rede pblica de ensino), funcionava o Cur so Vestibular Ruy Barbosa. A aula inaugural de 1066 foi dada por Jarbas Passarinho, ento na condio de exgovernador (substitudo por Alacid Nunes, eleito no ano anterior).TROTENuma poca em que as faculdades se espalhavam pela cidade, um pouco antes do confinamento no campus do Guam, os estudantes universitrios faziam o trote com passeatas pelo centro de Belm, sempre parando em frente aos jor nais para serem anotadas as placas que carregavam. Em 1966, quando o regime militar ainda no endurecera de todo, os dizeres de alguns dos cartazes dos calouros de geologia, farmcia e engenharia eram: TV universit-docotidiano FOTOGRAFIABelm menos ParisEm 1966, Belm comemorou seus 350 anos. Um dos itens principais do programa foi a construo de um monumento ao bandeirante Pedro Teixeira, prximo ao cais do porto. A paisagem foi alterada. Uma das perdas foi a do belo quiosque, semelhante ao do Bar do Parque, na praa da Repblica. Um elemento da Paris tropical que desapareceu. Mais ao fundo, uma presena em expanso: o arranha-cu, que fez a cidade crescer para cima.ria apresenta: viagem ao fundo do Gua...mar (referncia a um seriado da televiso: viagem ao fundo do mar); Macacos me mordam se no h liberdade no Brasil; Z Reitor comanda: Vagas pra ingls ver e pau para quem correr; Piada: j raiou a liberdade no horizonte do Brasil; Como dizia Fcrates: engenharia SODA; Os 4 B do smbolo de Belm: Belm, Besteira, burrice, bandalheira (ironia com a logomarca dos 350 anos da cidade). Na parada em frente sede do governo, o calouro de geologia Edsio Maria Buenana Macambira fez um discurso.SUBVERSOEm fevereiro de 1966 o tenente Orlando Bezerra de Souza e alguns investigadores da Delegacia Poltica e Social mereceram elogios do secretrio de segurana pblica, major Jos Magalhes, por realizarem uma misso exitosa: atendendo a um chamado da gerncia local da Vasp, apreenderam cinco pacotes enviados de So Paulo pela Editora Fulgor para o coronel Jocelyn Brasil, que morava na rua Dom Romualdo de Seixas. Os pacotes continham centenas de exemplares do livro Miguel Arraes, o homem da liberdade, que deveriam ser distribudos entre os vermelhos militantes em Belm, segundo o noticirio da Folha do Nor te Jocelyn, oficial da Aeronutica, foi preso em 1964, sob a acusao de subversivo, idntica dos livros.TOALETEClia Leite foi premiada com uma passagem area Belm-Rio-Belm, em um dos luxuosos Caravelles dos Servios Areos Cruzeiro do Sul, por haver ostentado a melhor toalete do rveillon Trs Sculos e Meio de Carnaval, realizado na Assembleia Paraense. Alice Serruya entregou o prmio. O Caravelle, um raro e lindo jato aerodinmico, saiu de linha. A Cruzeiro foi engolida pela Varig, que foi extinta. Ningum repara mais nas toaletes. Clia Leite foi exibir a sua por outras paragens.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: -dpress.com Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com c @ rtas ... Jornal (1)Na eleio para governador, em 2006, Almir Gabriel se reapresentava ao eleitorado paraense. Nos corredores da administrao pblica estadual no se falava outra coisa. O doutor Almir seria eleito pela terceira vez. Ousei em debater a possibilidade de Ana Jlia surpreender. Antes do primeiro turno, a senadora era vista como azaro. Alertava meus colegas de debates que a candidata do PT tinha sim muitas chances de aposentar Almir Gabriel. Com o resultado nal, alguns me procuraram para conversas isoladas. Estavam surpresos com a eleio da ex-vereadora e queriam entender o que tinha acontecido. Aproveitava a oportunidade para apresentar o Jornal Pessoal. Lcio cobriu vrias eleies no Par. Principalmente, a partir de 1982 com a redemocratizao. E o Jornal Pessoal aborda a cena eleitoral no naquilo que est visvel. Por isso, o tema da eleio costuma entrar na pauta um ano antes de ela se realizar. Nesses 30 anos de existncia, o peridico retratou com magnitude a histria mais recente da poltica paraense. Pedro PintoJornal (2)Contrariando o vaticnio exibido no prembulo da matria Jornalismo dos 25 anos: uma opo de resistncia, Jornal Pessoal n. 520, da 1 quinzena de setembro/2012, edio do vigsimo quinto aniversrio, o nosso JP completar outra data redonda a dos trinta anos. Avante, Jornal Pessoal! Rodolfo Lisboa CerveirA face do Brasil brancoAs rocambolescas novelas da TV Globo viraram contos de fadas diante do enredo real do folhetim da cor rupo brasileira. Os desdobramentos inesperados da trama engenhosa de cada captulo das novelas da Globo viraram discurso cartesiano na comparao com os efeitos de cada nova operao da Lava-Jato. Mas esses efeitos no se comparam aos antecedentes e consequentes da movimentao dos prprios bandidos caados pelos centuries da justia. No h semana em que a nao seja poupado de revelaes bombsticas, de congelar o sangue, pisotear o corao ou indignar a alma. A maior investida institucional sobre a corrupo brasileira, das maiores e mais engenhosas deste ameaado planeta, assusta, causa perplexidade e revolta ao distinto pbico. Aos malfeitores, no entanto, parece no atingir, mesmo quando so agrados e presos. Eles continuam a delinquir, como se fossem invisveis. Nem mesmo parecem se acautelar na prtica do cotidiano roubo do tesouro. O que fazem aprimorar a engenhosidade e a audcia no modus operandi. O baiano Geddel Vieira, um dos analfabetos discpulos retardatrios (ou retardados) de Nicoll Machiavelli, foi s ruas em passeata contra a corrupo.Fisgado como corrupto, portou-se diante do juiz-pai (pelo modelo de Sigmund Freud) como um beb choro. Garantiu que seu lho continuaria a usar seu sobrenome com orgulho e dignidade. Foi mandado para a gaiola dourada do seu imenso apartamento de luxo em bairro nobre da capital baiana (domiclio de quase todos os personagens que j apareceram na trama, sempre a ostentar seus ganhos criminosos). Sem tornozeleira eletrnica, produto que no se acha nas prateleiras de Salvador, podia circular pelos seus domnios sem restrio. E at suspirar pelas oito malas e sete caixas fornidas de notas de 50 e 100 reais at o montante de quase R$ 51 milhes, que estavam a um quilmetro, sem qualquer proteo, como se Geddel tivesse acreditado na prpria mentira: de que continham as coisas do pai morto. Talvez a maior jazida de dinheiro vivo domiciliar da histria do Brasil (e do mundo?), depois registrada como a maior apreenso em espcie da cnica policial de Pindorama, que Oswald de Andrade transformaria em vaudeville epigramtica. O ex-multiministro, de Lula a Temer, passando por Dilma, irmanados no lamaal da concupiscncia e da incompetncia, mantendose em cima da carne seca, foi para a penitenciria da Papuda, em Braslia, transformada em hotel cinco estrelas pela frequncia dos ltimos tempos, agora na companhia Joesley Batista & Cia Ilimitada, um dos campees do capitalismo nacional, projetado para ser multinacional pelo crdito subsidiado do BNDES, que transferiu poupanas locais para o mundo. O destino de justia. Como se compusesse um rock forense, o ministro Luiz Fux discursou no auditrio de estilo discretamente stalinista, por inspirao de Oscar (ou Oskar?) Niemeyer do Supremo Tribunal Federal. Arriscou o que talvez pretendesse ser uma redondilha maior, na entonao do carioqus, no qual ele e seu colega Marco Aurlio Mello so os mais versados. E mandou ver a prosopopeia: que o indigitado passe imediatamente da curtio manhattiana para a papudiana.

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15 Diante dele, com cara de tacho, o nobre Procurador-Geral da Repblica, assim em maiscula, cometendo uma das suas, na reviso da sabedoria popular, que pode demorar, mas no falha: branco, quando no suja na entrada, suja na sada. O quase Robin Hood virou aquele que s sabe por ltimo, admitindo-se sua inacreditvel ingenuidade e fantstica ingenuidade. Quando a armadilha lhe foi apresentada, Rodrigo Janot se lanou a ela com fria e sofreguido. Finalmente ia pegar o levantino Michel Temer, despejando-o da cadeira mxima do poder nacional com oprobio, o humilhando. Era a gravao da conversa noturna e soturna de Temer com Joesley, como se fossem parceiros de turma, de quadrilha, de ma, de or ganizao criminosa. Essa ta (sem falar nas demais provas) no tinha preo. Valia uma indita, em acordos de delao, indita imunidade penal e cumplicidade legal. O papai noel travestido de heri podia fazer o que quisesse depois de entregar o presente rgio ao scalmor da lei: mandar seu monumental iate para os Estados Unidos, embar car no seu jatinho para Nova York, anar como dndi sertanejo pela 5 avenida e, antes, ganhar um bilho de reais com lance especulativo na bolsa de valores brasileira. Continuar a tomar seu usque, mascar improprios entre generosos e constantes goles, ser devasso, primrio, grosseiro e, ainda assim, zombar de todos, juzes do STF, polticos ou o gigante Janot (ao menos pelo que ele v no espelho de Caetano Veloso). O bilionrio da noite para o dia, o nico corrupto confesso que desmoralizou todos os smbolos da honra e da dignidade nacional, especialmente a Lava-Jato, to conante estava do seu poder que cou cego e burro, levou a audcia ao nvel do vituprio. Chamou Michel Temer de ladro geral do pas. Pode-se at concordar, aceitando-se o testemunho de Joesley de que o Temer que vemos em pblico uma farsa; que o verdadeiro Temer aquele bandido com o qual o empresrio se encontrou na surdina no palcio do Jaburu. Entretanto, apesar de Temer, Temer o presidente da repblica. Uma nao no pode aceitar que um criminoso confesso chegue to alto. Mas Joesley prosseguiu na sua bebedeira, mesmo quando sem o aditivo alcolico. De patamar em patamar, desprovido do guia que no faltou a Dante, o poeta romano Vir glio, o dono da JBS chegou ao ltimo crculo do inferno. Foi quando os peritos recuperaram quatro horas de conversa etlica entre ele e seu Sancho Pana pervertido, o executivo Ricardo Saud. O movimento para o xeque-mate fora dado. O comando da histria mudou de mos. Ao invs de induzir a farsa, usando como arete um cavalo de Troia, o traidor mximo dessa histria, Marcelo Miller, inltrado no exrcito Brancaleone de Janot pelo prprio Janot, ele agora tinha que sair atrs do prejuzo. O problema que o prejuzo tem pernas mais velozes do que seu per seguidor. Essas quatro horas tm que ser editadas em vdeo e publicadas em livro. Talvez seja a prova denitiva, incontestvel, dos malefcios de uma elite cevada pelo poder ou sombra dele, vivendo num jardim de autossucincia mais vasto do que o dos Finzi-Contini, Sua dramaticidade e vilania superam em muito as tas de Richard Nixon, que era o homem mais poderoso do planeta e se destruiu por suas gravaes secretas no salo oval da Casa Branca. No Brasil, a casa dos brancos. Enquanto brancos, acabavam por se entender. Essa cumplicidade chegou ao m e no pode voltar, ao menos se os brasileiros, chocados e enojados de tanta sujeita, deem um basta e, com coragem, exijam que a realidade seja apresentada por completo. Como diz a Bblia, s a verdade nos salvar sem profetas nem pastores que aprisionam seus rebanhos. Provada a culpa de cidados que causaram prejuzos avaliados em bilhes de reais, cada um deve receber sentena com pena proporcional ao dano que causaram ao pas e ao mximo previsto em lei para aqueles que, mesmo quando individualmente ou em grupos reduzidos, lanam seu veneno sobre tantas pessoas, privando-as dos benefcios que os recursos pblicos lhes proporcionariam se no fossem roubados. O procurador federal Marcelo Miller devia ter pensado nisso. Agora, exige, se for preso, ter um tratamento especial. Argumenta que pode ser alvo de violncia por detentos em vir tude da sua condio de integrante do Ministrio Pblico Federal. Direito que lhe teria sido conferido pela sua prpria natureza, de homem branco, mais bem nascido, favorecido pela condio de servidor pblico. Este Brasil tem que acabar.

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ANTOLOGIADesafio da AlbrsEscolhi para reproduzir este artigo, publicado na minha coluna diria em O Liberal de 25 de outubro de 1985, por vrios motivos. Em primeiro lugar, pela relevncia do tema: o comeo do funcionamento da oitava maior fbrica de alumnio do mundo, em Barcarena. Em segundo lugar, por assinalar um momento mais expressivo das contradies da Nova Repblica, com a qual o Brasil voltou democracia, aps 21 anos de regime de exceo. Uma festa com tons de grandiosidade semelhantes ao da era dos generais. Em terceiro lugar, por provar que possvel fazer jornalismo decente na cobertura cotidiana dos acontecimentos. Fui de manh cedo para Barcarena, cobri toda a festa de inaugurao, voltei tarde, escrevi uma longa matria para O Estado de S. Paulo e, depois dela, noite avanando, meu artigo dirio para O Liberal. O dia a dia com preocupao pela histria. Por que se ricana e por no haver cadeiras no salo) no foi exuberante, embora farta, como foi tambm a bebida (cerveja e usque 12 anos). O monumental churrasco prea 15 mil pessoas era uma contingncia do desejo de associar os trabalhadores fes-ta (se bem que poderiam escolher outro local menos exposto predao dos con-vivas do que a praia do Caripi). E houve duas caravanas, transportadas em dois navios, porque eram duas as festas: uma para o porto, outra para a fbrica. Um assessor admitiu que o presiden-te Jos Sarney teria preferido algo mais frugal, de acordo com a orientao que expediu para as empresas estatais. Mas a mesma fonte garantiu que os japoneses zeram questo fechada em torno da festa, uma tradio deles, e que todas as comunidades envolvidas num traba-lho rduo, anal compensado por uma das mais suaves partidas experimentadas por uma fbrica de alumnio no Brasil, exigia algo marcante para o incio ocial das atividades. E apontava uma motiva-o nal: a economia de 650 milhes de dlares conseguida na implantao do empreendimento em relao ao custo inicialmente previsto. Comparado a essa economia, o gasto na festa some: repre-senta 0,3%. Quem vem de fora pode achar que um pouco mais de austeridade combi-naria melhor com a imagem exigida da Nova Repblica. Quem vive o processo de dentro ver a festa com absoluta tran-quilidade, como expresso de um justo reconhecimento. Qualquer que seja a tica, h dimenses incomparavelmente mais importantes a destacar no evento de ontem, fazendo da contabilidade da fes-ta detalhe secundrio ou at mesquinho aos olhos dos que a tornaram possvel. Lidos com ateno e levados a srio, os discursos pronunciados, embora li-geiros (ou justamente por isso), permi-tem amplos e profundos desdobramen-tos. O presidente Jos Sarney prometeu apoiar a industrializao da bauxita no Par, poupando o Estado de assistir ao melanclico espetculo de ver a sua bauxita ser exportada para o exterior, enquanto a fbrica de alumnio instala-da em seu territrio importa do Surina-me alumina, produto intermedirio en-tre o minrio e o metal. No discurso em que reivindicou a abolio dessa contra-dio, o governador Jader Barbalho dis-se que deixamos de ganhar 70 milhes de dlares porque no fabricamos ns mesmos a alumina. Uma posio governamental decidi-da e consequente em favor da produo de alumina ser fundamental para via-bilizar a Alunorte. Dependendo da ex-tenso dos propsitos, impedir que em Barcarena se constitua uma fbrica cativa do comprador japons, ao invs de efe-tivo polo de desenvolvimento industrial. verdade que todos os discursos fo-ram harmnicos, prometendo coopera-o no rumo de uma ao comum. Um inuente membro do governo japons trouxe mensagem do primeiro ministro Nakasone, assegurando a continuidade do interesse do seu pas pelo programa de cooperao com o Brasil. Mas entre a retrica e a realidade h um conjunto de problemas a superar e de divergncias a acertar, que ainda ame-aam o futuro da Albrs-Alunorte, ou ao menos protelam uma denio mais adequada aos interesses nacionais. A melhor perspectiva para esse em-preendimento surge sob a tica de um projeto de desenvolvimento com o rme apoio governamental e no pelo limita-do enfoque dos interesses comerciais de uma empresa. Na hiptese de atingir 320 mil toneladas, a Albrs no pode ser f-brica cativa de um nico comprador. Ela deve abrir novos mercados para um pro-dutor independente como o Brasil, com possibilidades reais de atingir a China, por exemplo. Tambm no se deve mais admitir que todo investimento em infraestrutura social sirva de instrumento para a mo-nocultura do lingote de alumnio, sem desenvolver todo um distrito industrial. Num momento em que os cartis se ver-ticalizam completamente, desde a mina cativa at o produto nal mais elaborado, car no incio do processo um anacro-nismo. E no se deve fazer uma grande festa para comemorar um anacronismo.deixou de fazer isso?)A inaugurao da Albrs foi uma grande festa. Dizem fontes ociosas que custou 1,3 mi-lho de dlares. equivalente a 1.300 toneladas de alumnio, 60% do que a fbrica conseguiu produzir at agora [uns oito milhes de reais de hoje]. Pro-vavelmente superou as festas que mar-caram as inauguraes da hidreltrica de Tucuru (ao redor de dois bilhes de cruzeiros da pocas, novembro do ano passado) e do Projeto Ferro Carajs (quatro bilhes de cruzeiros, ao valor da data, fevereiro deste ano). No seria orgia, mas generosidade. Provavelmente j prevendo comen-trios escandalizados, um assessor da empresa procurava ponderar e relativi-zar a impressionante soma consumida com a festa. Um dos itens mais onerosos foi o enorme palanque ocial, de cinco mil metros quadrados, recoberto por uma estrutura de alumnio. Um colecio-nador de recordes certamente o registra-ria como o maior e melhor palanque j levantado na Amaznia, se no lhe desse mesmo primeira grandeza nacional. Mas a fonte explicava que quase toda aquela estrutura ser reaproveitada para um almoxarifado, o que atenuaria o seu custo. Com as devidas excees, o gros-so dos convidados pagou suas passagens atravs de um esquema j adotado em outras ocasies: o patrocinador da festa agencia o voo charter (alugado) e cobra dos convidados o valor rateado da passa-gem, que sai bem mais barata. A comida servida no almoo (disfar-ado de coquetel porque servida ame-