Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a CARAJS Meio sculoMeio sculo se passou. Neste ano, Carajs comea a contagem regressiva para o seu primeiro sculo de funcionamento. uma provncia mineral nica no conjunto do planeta. To rica que um chins a considerou presente de Deus ao Par. E os paraenses nem ligam. A China liga e muito. Na semana passada, a Vale comeou a divulgar no seu site uma srie de matrias sobre os 50 anos de Carajs citando uma frase do primeiroministro da China, ZhaoZiyang dirigida aos brasileiros: Seus antepassados devem ter agradado a Deus para que Ele lhes tenha dado tanto, disse ele, durante visita que fez Serra dos Carajs, no Par, em 1985, ano do incio da produo da maior provncia mineral do planeta. A reportagem registra as comemoraes no dia xado para a descoberta da primeira riqueza de Carajs, o minrio de ferro, em 31 de julho de 1967, com o pouco do gelogo Breno Augusto dos Santos na clareia de uma das serras do conjunto de elevaes, a Arqueada. A Vale lembra que Ziyang era ento o segundo homem na hierarquia do governo chins e responsvel pela internacionalizao econmica do pas. E que tinha razo: Carajs s pode ser um presente divino, tal a sua singularidade no universo do subsolo do mundo inteiro. Eu desconhecia essa frase na boca do dirigente chins. Mas j a ouvi em muitas outras bocas, que serviram e ainda servem de instru-

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2 mento para a expresso em lngua nacional por brasileiros. Outras pessoas, bem antes do proftico Ziyang, j haviam escrito vrias vezes essa armativa, por criao prpria ou reproduzindo observao alheia. De estrangeiros, as primeiras dessas observaes que testemunhei foram ditas por japoneses. Antes dos chineses e bem antes de os brasileiros tomarem conscincia do que Carajs representava, eles expressavam com o olhar o seu reconhecimento excepcionalidade das riquezas existentes naquela paisagem maravilhosa de ser ras e rios, orestas e animais. A exuberncia de Carajs, hoje uma ilha de natureza ainda conservada num oceano de selvagem desmatamento, contrastava imensamente com a aridez da Austrlia. Era onde os japoneses iam buscar o minrio de ferro por ser um pas muito mais prximo do deles do que o Brasil (e, principalmente, a Amaznia). Podia-se dizer que em Carajs eles arregalavam os olhos diante do que viam ao chegar nas excurses de vericao da mer cadoria que iriam levar. Combinar imensos depsitos de rochas ricamente mineralizadas (em fer ro, mangans, cobre, nquel, ouro e o que ainda est por ser descoberto, possibilidade real, por incrvel que parea) no topo de serras acima de 300 metros do nvel do mar (at quase 700 metros), s podia mesmo ser obra divina. Dilapidada desde ento sem trgua pelos homens que para l foram. Como os japoneses se tornaram os maiores compradores do minrio de Carajs, a Vale dona de toda provncia mineral trocou o nome do hospital da vila residencial dos seus funcionrios, que homenageava a padroeira dos paraenses, Nossa Senhora de Nazar, para Yutaka Takeda, o presidente da Misui, a maior cliente individual da mineradora, que era estatal naquele momento. A Mitsui tambm dona de Carajs, embora as normas da privatizao, consumada em 1997, proibissem cliente de ser scio. A Vale fez a troca sem sutileza ou medo de remorso. De reao, no haveria de ter receio. O paraense passivo, ou bonzinho, como eles mesmos reconhecem, coloniais que so. Agora que o maior comprador a China, compradora de 60% da produo de Carajs, a Vale se lembrou da bela frase do chins, trazendo-a de um passado j longnquo, quando a mina de Serra Norte comeou a produzir, 32 anos atrs, para o presente, com uma projeo para o futuro que parece ar mar: o futuro a China ou da China. E a Vale sua vassala. Num Brasil em crise, com um governo de caixa vazio, Cana dos Carajs comemorou a maior arrecadao da sua histria no primeiro semestre deste ano. Uma histria ainda curta: a cidade foi fundada h 35 anos e se tornou municpio do sul do Par (a 760 quilmetros da capital, Belm) h 22, com populao de 35 mil pessoas, distribudas por 3,2 mil quilmetros quadrados. Sua grandeza deixou de ser municipal ou estadual: j nacional e ser cada vez mais internacional. No nal deste ano Cana dever se tornar o maior arrecadador de royalty mineral do Brasil. Tambm o municpio de maior produo de minrios. Igualmente, o maior exportador nacional e o que mais divisas ir proporcionar ao pas. Podendo crescer mais se a elevao na alquota da compensao nanceira for mantida. A responsvel por tantos ttulos em to pouco tempo a melhor mina de minrio de ferro do planeta, a S11D, que comeou a produzir em janeiro deste ano. Ela consolidar Carajs como o mais importante centro de extrao do minrio que mais o homem utiliza. Vai quase dobrar a produo da nica mina em atividade no local, a Serra Norte, de 130 milhes para 230 milhes de toneladas anuais. Serra Norte apareceu como a segunda mina mais valiosa do mundo, com valor de 7,90 bilhes de dlares, abaixo apenas de Hamersley, na Austrlia, que vale US$ 10,83. Esse valor foi calculado pela S & P Global Market Intelligence multiplicando o volume de minrio produzido (185 milhes de toneladas, no caso da mina australiana da BHP, lder do ranking) pelo preo mdio do minrio (US$ 58,3 a tonelada). A escala de Serra Norte, que entrou em operao em 1985, muito depois das jazidas australianas, bem menor, de 135 milhes de toneladas, mas com um teor mais rico de hematita do que o da sua concorrente, o que a torna mais valiosa. Mas S11D a supera. Supera, alis, todas as demais fontes de minrio de ferro que existem na Terra. nica, singular. Das 50 minas mais valiosas inventariadas, nove pertenciam no ano passado Vale, que dona exclusiva de Carajs. Sero 10 neste ano, com a operao de S11D. Serra Norte e Serra Sul, ambas em Carajs, valero mais do que as de todas as outras multinacionais concorrentes da mineradora brasileira, com suas minas australianas, indonsias, chilenas ou em outros pases. Num mercado que sempre foi muito competitivo, a grandeza combinada com a riqueza do subsolo do Par, em vias de se tornar o principal Estado minerador do Brasil, superando Minas gerais, signicaro uma mudana indita. Com a vantagem de que ali no existe apenas uma substncia. O cobre, com valor unitrio imensamente superior ao do ferro, e j numa escala de transformao para o catodo e o concentrado, tem importncia cada vez maior. H ainda o nquel, o ouro e o mangans em produo. S a receita de minrio de ferro dobrar nos prximos dois anos: de 25 bilhes para 50 bilhes de reais (valor s um pouco inferior ao investimento em S11D e acima do que j foi gasto na hidreltrica de Belo Monte). Na escala atual, a era mineral per mitiu a Cana ter a maior receita de royalty da sua histria: 15 milhes de reais no primeiro semestre. A receita total de 2016da compensao nanceira pela explorao mineral foi de R$ 19,4 milhes, inferior de 2015, de R$ 24,5 milhes. algo como 1% do valor bruto do minrio. No meio da comemorao pela faanha em um perodo de vacas magrssimas, d uma ideia de grandeza na correlao entre a riqueza que vai e a riqueza que ca.

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3 O fracasso dos projetos coloniais na AmazniaDuas das maiores epopeias da histria da Amaznia em todos os tempos, comandadas por dois dos maiores capitalistas da nao mais poderosa do mundo, completam suas marcas histricas em 2017. So os 90 anos de Fordlndia, a cidade de Henry Ford no vale do rio Tapajs, no Par, e os 50 anos do projeto de Daniel Ludwig, no Jari, a parte maior dele tambm no Par, e ainda no Amap. Ambas fracassaram. Ford, o homem mais rico e dos mais poderosos da poca, nunca chegou a ver o empreendimento que criara no meio da selva, distante 110 quilmetros em linha reta da cidade de apoio, Santarm (e 820 km da capital do Estado, Belm). Se desse cer to, garantiria a produo de borracha necessria para a maior indstria do mundo, que fabricava o mais famoso e mais vendido modelo de automvel do mercado, o simplicado modelo T. O projeto exigiu investimento pesado (50 milhes de dlares de 1945, no m da histria do negcio, uns 5 bilhes de reais em atualizao bem tosca), mas sua concepo era simples. A principal fonte de ltex era a seringueira, nativa da Amaznia. Levada para a sia pelos ingleses, ela se adaptou to bem que rapidamente os pases asiticos superaram a produo amaznica e praticamente a eliminaram. A enriquecida economia amaznica desabou bruscamente, lanando a regio numa espcie de Idade Mdia (falsa, na verdade, mas caracterizada dessa forma por uma perspectiva colonial, da permanente associao da regio ao exterior, do qual sempre estava dependente). que os plantios artificiais multiplicaram a densidade de rvores por hectare, incrementando a produtividade da extrao da sua seiva. As seringueiras se espalhavam por grandes distncias no ambiente nativo. Cort-las era um trabalho penoso e de baixo rendimento. Mas se os seringais fossem transformados em densos plantios homogneos da espcie, eles tambm poderiam ter a produo asitica e tornar a Ford autossuficiente dessa matria prima estratgica para os pneus e vrios componentes dos veculos. As sementes que os ingleses obtiveram na mesma regio na qual Ford se instalou tinham todas as qualidades do seu ambiente original. Mas no estavam sujeitas ao que cava alm as rvores: insetos, fungos e mofo. Esses predadores eram contidos pela inigualvel diversidade de espcies orestais da Amaznia, que funcionava como tela de proteo. Derrubada a mata nativa e expostas as seringueiras em ambiente aberto, eles as atacaram com fora letal. O enorme seringal que Ford pretendia plantar foi fulminado pelo seu principal inimigo natural, o mal das folhas, favorecido pela supresso da biodiversidade. Em 1945, depois de 18 anos de tentativas (1927/45), ele entregou os pontos e se retirou da Amaznia vencido e para sempre. Quarenta anos depois que ele comeou a sua histria em torno de uma autntica cidade americana que construiu nos trpicos, Fordlndia, o milionrio extravagante (um dos ltimostycoons dos Estados Unidos) Daniel Keith Ludwig, do alto dos seus 70 anos, iria empreender iniciativa bastante semelhante, que duraria menos: 15 anos (1967/82). Com capital intensivo, tecnologia de ponta e diretriz bem estabelecida, ele comprou uma empresa extrativista paraense que lhe daria acesso a pelo menos 1,6 milho de hectares no vale do rio Jari (chegou a pensar em 3,6 milhes), a maior propriedade rural do Brasil. Nela, produziria o bastante para saciar o que previa que viria a se tornar duas das maiores fomes mundiais, por bras e gros. Iria bater recordes mundiais de produo e produtividade de duas delas, celulose e arroz. Para dar o pulo do gato sobre os concorrentes em matria de bras, ele inovaria: processaria uma rvore asitica, a gmelina, nunca antes utilizada como fonte de celulose. Ela permitia o primeiro corte bem cedo e ofereceria ganho maior por unidade. Era o caminho inverso ao da seringueira: da sia para a Amaznia, com uma escala de adaptao na Nigria. Para o grande investidor capitalista, mesmo o de ponta, ontem como ainda hoje, ao menos na sua face imperial e colonial, tudo sobre os trpicos igual. Uma vez descober ta na sia e aclimatada na frica, a rvore do milagre daria os mesmos resultados na Amaznia. Ele nem se deu ao trabalho de mandar estudar a qualidade dos solos no Jari. A pedologia veio depois, quando a sentena dagmelina j estava lavrada. Ludwig no utilizaria o fogo, como fez a turma de Ford para destruir centenas de milhares de rvores (escaparam apenas aquelas que foram usadas para madeira slida na mais moderna serraria em atividade na Amrica do Sul dos anos 1930). Recorrendo a tratores com potncia 100 vezes superior do seu antecessor, ele de imediato colocou abaixo quatro mil hectares de mata densa por corte mecnico (era o maior comprador de motosserras do continente). A gmelina plantada, no entanto, no se desenvolveu como na sua origem. Por um motivo: exigia solos mais ricos do que a mdia da terra local. Ao invs de crescer robusta, no formava galhos, era atacada pelo mal do rabo de raposa. Foi preciso ento retirar a rvore asitica. A surgiu um problema grave: ela se tornava uma praga, difcil de erradicar. Era preciso de tempo, produtos qumicos e mais dinheiro ainda. O pulo do gato de Ludwig foi no vcuo. Ele se desinteressou pelo projeto e obrigou o governo a substitu-lo para

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4 que algum pagasse o pesado nanciamento feito no Japo para montar a indstria de transformao. A quitao da dvida acabou sendo feita pelo Banco do Brasil e o BNDES, que jamais tiveram seu dinheiro (algo como 500 milhes de dlares) devolvido. O arrozal tambm teve o mesmo destino. O local de plantio devia car prximo sede do empreendimento. No interessou no primeiro momento que a necessidade de irrigao e fertilizao o obrigasse a instal-lo na calha do rio Amazonas, a maior adubao natural (e gratuita) de terras do planta, nas ignoradas vrzeas (com 150 quilmetros quadrados de solos ricos). A adubao seria com produtos qumicos, espalhados por avies. A colheita seria toda mecanizada. A irrigao e drenagem pelos canais seria com bombas. Tudo base de petrleo. Quando o primeiro choque do petrleo elevou abusivamente os preos e os juros internacionais os acompanharam, Ludwig tentou utilizar a fer tilizao natural do Amazonas. Mas os nutrientes que ele arrasta desde suas nascentes, nos Andes, no podiam chegar at o arrozal, que cava distante do leito do rio. Resultado: os quatro mil hectares plantados acabaram abandonados, O sonho de produzir tanto arroz quanto na sia chegara ao m. Culpa da selvageria da Amaznia, na qual o homem um intruso em pleno inferno verde? Ford e Ludwig, como outros pioneiros, preferiam acreditar que, acima dessa situao real de complexidade e diculdade, havia outra que desaava a suas vontades: aquela imensa bacia, abarcando um tero do territrio da Amrica do Sul, podia ser o celeiro do mundo, como previra o sbio alemo Humboldt. O problema est e continua a estar no caminho para sair de uma condio de insalubridade e hostilidade para uma situao de fecundidade e abastana, mas que seja perene ou, como se diz, autossustentvel. Henry Ford estava convencido que o sucesso do plantio de seringueira levaria ao estgio seguinte: o cultivo de soja. Em 1929 ele comeou a apoiar pesquisas sobre a soja nos Estados Unidos e investiu pesado para transform-la em plstico, com propsitos industriais, em complementos automotivos, alm de fonte de alimentos. Depois do fracasso dele e de Ludwig, que deixou o Brasil definitivamente em 1982, nem a maior capacidade proftica do filsofo do capitalismo concorrencial (tendo no sucessor um grande apstolo), como Ford era considerado, poderia antever que a soja acabaria por penetrar no territrio amaznico, expandindo-se a uma taxa anual equivalente das propriedades dos dois milionrios americanos, com uma diferena fundamental: os dois americanos s derrubaram uma frao dela (com mais de um milho de hectares em cada um dos dois casos), enquanto os sojeiros pem tudo abaixo. No para produzir plsticos ou fomentar a escala de industrializao da matria prima at o seu bem mais nobre, mas para exportar commodities, de tal maneira que o Brasil superou os Estados Unidos, fazendo com que, para o mesmo vale o Tapajs, fosse atrada a Cargill, a maior empresa privada americana. Desta vez, para ficar. E arrasar. O passo definitivo para o fim do inferno verde, do deserto vermelho, do celeiro do mundo da Amaznia. Comparando os projetos de Ford e Ludwig com os que se estabelecem nas frentes econmicas da regio, fica a sensao de que a Amaznia caminha para o futuro andando para trs. As grandezas da produo atual superam em muito as anteriores. Mas a qualidade igual nos erros e pior nos acertos. Desse jeito, quando chegar o futuro, o futuro anunciado ser uma miragem ou uma iluso.A pera tucanaA Secretaria de Cultura do Estado dever gastar quase meio milho de reais com passagens e hospedagem para os participantes do XVI Festival de pera do Par trazidos de fora. Os cachs esto altura da principal atrao do festival, a pera Don Giovanni de Mozart. O festival comeou no dia 8 e ir at 23 de setembro, em Belm. Fbio HitoshiNamatame receber 98 mil reais como desenvolvedor de Projetos de Figurino e Confeco das Peas e Assessrios [sic acessrios ] de caracterizao dos personagens da pera Don Giovanni e do Concerto de Encerramento. Far a intermediao do pagamento a empresa Chiquita Bacana Servios Artsticos (cuja sede no indicada, ao contrrio do que deter mina a norma legal). Ela tambm empresaria Glaucivam Gomes Gurgel, produtor executivo e maestro de luz no espetculo de aber tura e diretor de palco da pera, que ter direito a cach de R$ 33 mil. J Anbal Camargo Xavier Mancini ter direito a R$ 10 mil como solista da Don Giovanni e Antonio Wilson Eutrpio Azevedo de Souza receber R$ 7,4 mil para participar do concerto lrico de encerramento. Numa poca em que a Orquestra Sinfnica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro vive da caridade alheia, um osis para valorosos artistas vir a Belm do Par receber boa remunerao. Mas o Estado pode bancar um festival desse porte? O secretrio Paulo Chaves Fer nandes nem deve se fazer esse tipo de pergunta. Ele toma a deciso e pronto. Anal, no pagou R$ 40 mil para Ar naldo Antunes apresentar o show musical Ao vivo em Lisboa, durante a Feira Pan-Amaznica do Livro deste ano? Alm de pagar 40 mil reais pelo show de Arnaldo Antunes, a Secretaria de Cultura do Estado pagou 11 mil reais pela palestra de Eduardo Dutra Villa-Lobos na XXI Feira Pan-Amaznica do Livro. Como a denio desses valores? H um rgo colegiado do setor, o Conselho Estadual de Cultura. Ele foi ouvido ou deciso monocrtica do secretrio Paulo Roberto Chaves Fer nandes? Como um rei, o secretrio deve achar que hora de fazer tudo isso e o mais que puder. Depois, o dilvio.

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5 Os bandidos e o maior deles: o que os compraLcio Funaro foi contratado, em 2012, para intermediar um financiamento de R$ 930 milhes junto Caixa Econmica Federal para a Eldorado Celulose, a maior empresa do setor no Brasil. A operao foi aprovada e Funaro cobrou a comisso prevista no contrato com a empresa, no valor de 44 milhes de reais (em torno de 5% do total, uma alta comisso para o valor da operao). O prometido, porm, no foi pago at hoje. Ao saber que a Eldorado est venda, Funaro ajuizou uma ao para bloquear todos os bens da J&F, dona da Eldorado, da JBS, a maior produtora de carne do mundo, e de um conglomerado de empesas, como garantia de que ir honrar o compromisso de cinco anos atrs. Na semana passada, a juza Luciana Bassi de Melo, da 5 vara cvel de So Paulo, determinou o bloqueio dos bens, mas apenas da Eldorado, no limite do valor da dvida com o credor, e no todo seu patrimnio. A magistrada deferiu a antecipao da tutela de urgncia postulada por Funaro, aceitando a alegao do risco de ele no ver a cor do dinheiro. Suas alegaes se mostraram suficientes para convencer a respeito da plausibilidade do direito invocado pela autora em relao executada. Por que a poderosa empresa dos poderosos irmos Joesley e Wesley Batista recorreram a um mero doleiro para atuar como lobista do emprstimo? Por que no foram diretamente Caixa e realizaram uma transao normal, conforme as regras do mercado e as normas da instituio nanceira? Por que a opo deliberada pelo jogo sujo? Funaro apontado pelo Ministrio Pblico Federal como um dos operadores financeiros do ex-presidente da Cmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Por isso, foi preso pela Operao Lava-Jato. Tambm est envolvido em outras negociatas no meio de capo entre dirigentes pblicos, empresrios e polticos. Os Batista, que acusaram 1,8 mil polticos como corruptos, por eles mesmos corrompidos, nada falaram sobe essa transao junto Caixa. Quantos outros casos omitiram? Quantas pessoas usaram e quanta manipulao zeram? Qual o valor do que eles arrecadaram, em condies vantajosas e fraudando os nmeros apresentados, eles obtiveram? Quantos bandidos do mesmo quilate eles utilizaram nas suas investidas? J hora de uma CPI ou uma comisso especial no Congresso Nacional para medir o tamanho real dos maiores corruptores da histria do Brasil. Os parlamentares certamente aproveitariam para acertar as contas com seus compradores, mas, da lavagem de roupa suja (sujssima), os brasileiros se aproveitariam para atacar esse imenso foco maligno que lanceta a moral pblica e saqueia o errio. Esse caso demonstra que a benevolncia de quem concede e seus interesses marginais causa pblica tornaram suspeita a delao premiada. Ela uma arma poderosa para chegar aos corruptos porque eles no passam recibo (ou no passavam) e agem na clandestinidade. As pistas s surgem por ciso, rompimento ou traio. Mas a palavra do delator no a palavra final, o veredito e a ver dade. preciso investiga-la com o mximo de rigor, sem perder a conscincia da condio que ele ostenta: de bandido. A Lava-Jato deixou bem claro para todos que querem ver: na pilhagem do dinheiro do povo no h mocinhos nem mesmo pessoas bem intencionadas. tudo ladro.Rominho candidato: para levar a srio? Com chamada na primeira pgina, o Reprter 70 da edio dominical do ltimo dia 30 de O Liberalanunciou que o patro, Romulo Maiorana Jnior, dever se afastar da direo do conglomerado de comunicao para se dedicar poltica, onde ser candidato ao Governo ou ao Senado. Acrescenta que o partido e o cargo ainda sero denidos em reunio com o governador Simo Jatene. O empresrio acha que hora de pr seu nome aprovao da populao do Estado, como empresrio vitorioso que para fazer frente a tantos anos de corrupo e bandidagem no Estado do Par. O candidato a messias primeiro se anuncia, em seu prprio jornal. Depois que ir ao governador para com ele acertar a qual dos dois cargos majoritrios se candidatar e por qual partido. A presuno trata-se de presuno mesmo de que o lugar do j escolhido estar disposio dele, seja l por qual partido for. Se o seu decadente jornal continua a se proclamar o maior e o melhor, contra todas as evidncias contrrias, por que no ele tambm? Para Narciso, o espelho o que basta. A tarefa a que ele se impe numa nota singular de coluna de jornal acabar com anos de corrupo e bandidagem no Par. Romulo Jr. o principal executivo do grupo Liberal h 30 anos, a partir da morte do pai, em 1986. Desde ento, acompanhou o nal do primeiro governo de Jader Barbalho, seguido por mais quatro anos. Outros quatro de Hlio Gueiros. Mais oito de Almir Gabriel e quase 12 de Simo Jatene, mais os quatro anos de intervalo com Ana Jlia Carepa, do PT. Somando-se, quase 20 anos de PSDB, cinco do PMDB, quatro do PFL e quatro do PT. Somados, os trs partidos tiveram 13 anos para dilapidar o Par. O PSDB, quase 19. ao PSDB que o pretenso heri se dirige e ao seu governador se alia. No foram os tucanos os campees na corrupo e bandidagem, a se considerar o conceito publicado em seu jornal por Romulo Jr.? Ele tentou a carreira poltica em 1983. Foi ao Palcio Lauro Sodr com seu amigo Vic Pires Franco para se

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6 Priso de Bendine derruba boa fama de um executivoA revista poca considerou Aldemir Bendine o 32 brasileiro mais inuente em 2009. Ele acabara de assumir a presidncia do Banco do Brasil, onde trabalhava h 31 anos. O presidente Lula (no cargo havia seis anos) lhe deu a misso de recuperar a mais antiga instituio nanceira do pas. Na poca, ainda o maior banco brasileiro (perdeu a posio a seguir para o Ita). Bendine se saiu to bem que, quatro anos depois, o portal iG o elevou para a 11 posio dentre os mais poderosos. J a revista Isto Dinheiro lhe deu o ttulo de empreendedor do ano nas nanas nacionais. Dois anos depois, a presidente Dilma Rousse o designou para a maior empresa do Brasil, a Petrobrs. Na poca, ele teria que fechar o balano do segundo semestre de 2014, que a PriceWaterhouse se recusara a avalizar sem a incluso do prejuzo de 6,2 bilhes de reais causado pela corrupo dentro da companhia, que resultara no incio da Operao Lava-Jato, em maro de 2014. Bendine fechou as contas, com o maior prejuzo da histria, de R$ 21 bilhes. Fez um emocionado e emocionante discurso saudando a nova fase, que voltava a dar dignidade empresa e aos seus funcionrios. A fase negra passara, assegurou ele, do alto dos seus 50 anos e 37 vida pblica como tcnico, formado em administrao pela PUC do Rio. Teria continuado frente da Petrobrs se a presidente Dilma Rousseff no tivesse sido derrubada pelo processo de impeachment. Saiu da Petrobrs quando Michel Temer assumiu a presidncia da repblica. Ainda assim, Bendine podia ter se aposentado com uma biografia brilhante e digna. Ao invs disso, no final do ms passado ele foi preso pela Polcia Federal, por ordem do juiz Srgio Moro, no 42 captulo da Lava-Jato. Uma verso inteiramente oposta da histria oficial de Bendine circulava pela fora-tarefa da LJ havia mais de dois anos. A histria se baseava nos depoimentos de Marcelo Odebrecht e de um importante executivo da sua empresa, Fer nando Reis. Em delao premiada, eles admitiram que pagaram propina a Bendine, depois de tentarem resistir a investidas que ele vinha fazendo para receber dinheiro ilcito. Primeiro, se oferecendo para facilitar o renanciamento de dvida de subsidiria da empreiteira. Depois, no golpe mortal, ameaando prejudicar a empresa junto Petrobrs, com quem ela mantinha alguns dos seus maiores contratos. Bendine comeou a receber o pagamento parcelado (de 15 em 15 dias) dos trs milhes que a Odebrecht nalmente aceitou lhe fazer um ms depois de assumir a presidncia da estatal do petrleo e antes da cena armada para demarcar a volta da Petrobrs a um padro de decncia. Nessa poca, o nome dele j estava na agenda das investigaes. Era certo que a polcia chegaria a ele. Chegou ontem pelo receio de que ele fugisse para o exterior, aproveitando-se da condio de lho de italianos (como outro integrante do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato). Bendine estava com passagem marcada para Portugal hoje. Ser que um cidado com a trajetria do ex-presidente de duas instituies to poderosas como a Petrobrs e o Banco do Brasil, que decide sobre centenas de milhes ou mesmo bilhes de reais, capaz de se sujar por frao desse volume de dinheiro e pr a perder o conceito (mesmo que falso, mas com aceitao pblica) criado ao longo de quase quatro dcadas de vida? Impressionante e assustadora se tor nou a corrupo no Brasil. Espantosa, se a verso que levou Bendine cadeia for mesmo a verdadeira. Uma corrupo cujo fundo no tem dim. Quanto mais se cava, mais fundo surge. Nesse ritmo, at onde ir o Brasil para identic-la e coloc-la sob um padro de dignidade autntico, no a simulao de Bendine& Cia?liar ao PMDB. A cha foi abonada pelo governador Jader Barbalho, no seu primeiro mandato, o mesmo Jader que, depois, apontado como o maior corrupto do Par. Desde essa filiao frustrada, Romulo Jr. sempre quis ser senador ou governador do Par. O que atrapalha que esses cargos s se pode conseguir atravs do voto popular. O que exige comcio, ida ao interior, conversa com eleitor e tudo mais que no figura na agenda do big-boss ultimamente mais presente em Miami do que em Belm. Sempre que lhe relembram que s este caminho, que o diploma no pode lhe ser entregue em seu gabinete, de mo beijada, Romulo Maiorana Jnior desiste do projeto. Vamos ver se a srie histrica de meia-volta-volver prossegue para o bem do Par. Em um ano e meio, trs prefeitos foram assassinados no Par. Eles comandavam municpios que cam na regio do lago da hidreltrica de Tucuru. O que poderia ser visto como crimes em srie comeou em janeiro do ano passado, com a execuo do prefeito de Goiansia do Par, Joo Gomes da Silva, do PR. Em maio foi a vez do prefeito de Breu Branco, Diego Kolling, do PSD. A srie se completou anteontem, 25, com a maior e mais violenta das execues: o prefeito de Tucuru, a cidade mais importante da regio, Jones William da Silva Galvo, do PMDB, recebeu oito tiros. Sozinho (o segurana de todos os dias faltou), ele scalizava obras.A droga no BrasilEm abril, a Polcia Federal apreendeu 38 toneladas de maconha e mais de 160 quilos de cocana no Paran e em Mato Grosso do Sul, na regio de fronteira com o Paraguai. Foram presas 29 pessoas, incluindo polticos e policiais envolvidos no esquema. Um nico carregamento levava 24 toneladas de maconha, a maior apreenso individual de maconha da histria nacional. A PF apreendeu ainda carros de luxo, barcos, imveis e at animais. A complexidade do caso, bem fundamentada no processo policial, levou o vice-presidentedo Superior Tribunal de Justia, ministro Humberto Martins, no exerccio da Presidncia, a indeferir p pedido de liberdade feito por um homem preso desde abril. Ele alegou excesso de prazo da priso preventiva. A defesa armou que o ru primrio, tem residncia xa e trabalho lcito, condies que autorizariam a adoo de medidas cautelares diversas da priso. O juiz lembrou, porm, que as condies pessoais favorveis ao ru, por si s, no bastam para afastar a necessidade da priso preventiva, quando esta devidamente justicada. justamente o caso. O conhecimento dessa apreenso d uma medida adequada do volume de drogas que entram no Brasil, desencadeando um roteiro de dramas, tragdias, infelicidades, crimes e danos ao patrimnio pblico e individual. Exige uma ao do governo mais intensa e ecaz, que no existe.

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7 Por que a corrupo ainda no diminuiu?A Lei Anticorrupo introduziu no Brasil, quatro anos atrs, o acordo de lenincia para situaes de improbidade administrativa, quando o interesse pblico deslocada por interesse particular, com nus para o errio. Empresas que denunciassem a existncia de esquemas com essas caractersticas seriam favorecidas na aplicao da lei, ao mesmo tempo que se comprometeriam a criarum programa de integridade, a compliance em ingls (ou a confor midade, em traduo literal). No dia 9 de julho deste ano, o primeiro acordo foi formalizado. A construtora UTC, uma das acusadas de participar do cartel de empreiteiras para fraudar licitaes e superfaturar contratos com a Petrobras, fechou uma lenincia com a Controladoria Geral da Unio. A questo muito nova, mas j se mostrou extremamente complexa. Apesar dos avanos recentes num ataque mais frontal corrupo que campeia pelo Brasil inteiro, essa ofensiva no parece ter impedido que a atividade ilcita, que saqueia os cofres pblicos, prosseguisse quase inalterada. A priso, no ms passado, do ex -presidente do Banco do Brasil e da Petrobrs. Revelou esse surpreendente paradoxo. Depois de comandar por quase 10 anos duas das maiores empresas pblicas do pas e da economia brasileira em geral, Aldemir Bendine foi preso pela Polcia Federal por cobrar propina quando as atenes nacionais estavam em estado de alerta para as atividades ilcitas dentro da administrao pblica. Por isso, merece ser lida a longa entrevista que o advogado da UTC,Sebastio Botto de Barros Tojal, concedeu revista eletrnica Conjur Mesmo defendendo a posio da cliente, suas observaes apontam para o efeito danoso de processos muito demorados, como os que foram iniciados e ainda no consumados, mesmo no mbito da maior iniciativa de combate corrupo no pas, a Operao Lava Jato, que j dura 40 meses. Por causa da lentido no fechamento de um acordo, muito do que poderia ter sido evitado, na medida em que as informaes pudessem ser mais rapidamente processadas e utilizadas, acabam se consumando, no permitindo que os acordos tenham esse papel de preveno. No caso da UTC, as negociaes, iniciadas de fato em agosto de 2015, duraram dois anos, portanto. Ele no pde dar detalhes, porque o acordo ainda est protegido pelo sigilo, mas foi um tempo bastante longo para fechar tudo. O resultado queo pas perde, a sociedade perde, errio perde e assim por diante. O tempo da atividade econmica muito rpido, ento quanto mais cedo o Estado se municiar de todo esse ferramental, mais cedo se coibiro prticas ilcitas. Ningum ganha com as indenies, com a demora. O advogado entende que h tambm um fator de inibio dos acordos quando os termos acertados entre as partes no integralmente cumprido por ambas ou uma delas. Tojal aponta para o lado da Unio, que no estaria observando a regra de que as informaes prestadas contrrias aos interesses das empresas, no podem ser usadas contra elas, incriminando-as (a vedao constitucional autoincriminao) e as expondo a questionamentos em juzo pelo mesmo governo, mesmo que sob o argumento de que valores no foram adequadamente apurados. Esses valores sustenta Tojal no so estabelecidos levianamente,apurados sem absolutamente nenhum critrio. Ele considera necessriogarantir que esses acordos possam prover as empresas da segurana necessria para, inclusive, cumprir com as obrigaes. Os acordos de lenincia tm que ser a materializao de uma poltica de Estado, no de governo. Eles no podem depender das circunstncias polticas de momento. Argumenta o advogado que o Brasil investiu tanto num processo de scalizao, criando uma srie de rgos, que, por lhes faltar sentido organizacional, acabam num processo de autofagia, um inviabilizando o outro. Estaria havendo entre esses rgos uma busca por protagonismo, fazendo com que o interesse pblico seja relegado ao ltimo plano:Quando o MP prope uma ao de improbidade, o faz como substituto processual da Unio. A AGU e a CGU, quando assinam um acordo, o fazem como representantes da Unio. Soa absolutamente desarrazoado que um terceiro rgo pretenda enxergar nesses acor dos a contratao de valores supostamente aqum de danos. Mais do que desarrazoado, absolutamente ilegal e inconstitucional essa disputa entre r gos. Na prtica, eles vulneram o instituto da lenincia e as empresas. O advogado se refere interveno do Tribunal de Contas da Unio no processo, atribuindo-se a misso de vericar o dano aos cofres pblicos, impugnando os valores do acordo, quando necessrio, ainda quando os danos que ainda no estejam comprovados. Alm disso, Tojal observa que a metodologia de apreciao do TCU no raro foge totalmente ao bom senso me rero a questes de sobrepreo e metodologias totalmente desarrazoadas, reutilizadas para seu emprego. preciso pensar que o Estado um s, e no temos vrios centros de gravidade no aparelho estatal. Temos s um. Portanto, tudo h de gravitar em torno desse nico centro. Ningum est falando em deixar de lado a responsabilizao criminal dos eventuais responsveis, uma empresa no se confunde com seu controlador. Mas tudo isso colocado em segundo plano nessa disputa insana entre rgos, aponta Tojal. Para ele, dois objetivos devem ser visados nos acordos de lenincia: O primeiro buscar uma indenizao, ressarcimento pelos danos causados pelo cometimento de atos ilcitos pelos representantes da empresa. O outro, to importante quanto o primeiro, permitir administrao reunir subsdios que possam alavancar outras investigaes. Isso quer dizer, portanto, que as infor maes aportadas pela empresa so to importantes quanto o ressarcimento. E a para compreender essa dimenso, preciso ter clareza, historicamente, de qual tem sido a produtividade dos mecanismos tradicionais colocados disposio do poder pblico.

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8 Assassinato de menor por menor: um silncio possvel uma criana de oito anos retirar um colega de trs anos da sala de aula, que ambos frequentavam, lev-lo para um terreno baldio, golpe-lo na cabea com um pedao de madeira, deixando-o desacordado, abusar sexualmente dele, deixar o corpo no local, ir sua casa, voltar de l com uma faca de cozinha dotada de serra, cortar o pescoo do menino at deix-lo quase decapitado e voltar para sua casa, sem parecer afetado? No dia seguinte, com a descoberta do cadver, j sem a cabea (provavelmente comida por porcos de um chiqueiro prximo), ser procurado pela polcia, admitir a autoria do crime, reconstituir o que fez em todos os detalhes, sem perturbao aparente, e at entregar a faca que usou e que mantinha guardada, dando como nica explicao para o que fez sua irritao porque o colega no queria brincar com ele? Quando se deixa um pouco de lado o impacto emocional causado por essa descrio e se pensa na mecnica, no modus operandi do assassino, o que vem essa pergunta inicial: uma criana de oito anos mesmo capaz de praticar todos esses atos, desde conceber o que fez at deixar o corpo sem vida de um ser com menos da metade da sua idade, ela prpria ainda de uma criana? Para fazer o que fez, algo inteiramente imprevisto e at inimaginvel, que criana esta? Tem mesmo as condies que lhe conferem legalmente a inimputabilidade? A sociedade no se tornou cega e irracional ao estabelecer regras que asseguram ao autor de crime to selvagem sequer ser enquadrado numa punio que o prepare para assumir integralmente as consequncias do maior de todos os crimes na vida em sociedades, que tirar a vida de um ser humano? Coloquei o assunto na primeira pgina da edio anterior deste jornal para que os leitores, sensibilizados para essa tragdia, refletissem sobre estas e vrias outras questes. O silncio quase absoluto, agravado por algumas condenaes, que sugeriram se tratar de jornalismo sensacionalista e de mau gosto da minha parte por obrigar o leitor a tomar conhecimento de coisa to desagradvel, me chocou. O desinteresse pblico to revoltante quanto o fato monstruoso que deveria tirar as pessoas da sua indiferena, omisso ou conivncia com a situao que engendrou o fato espantoso em Novo Progresso, numa das mais ativas e violentas frentes pioneiras do Par. Surpreso e triste pela ausncia de repercusso, ainda assim no me deixo abater por completo. Insisto em ressaltar: o garoto, que tinha oito anos quando, em 2007, matou seu colega de 3, acaba de completar 18 anos. Chegou, portanto, maioridade. Como ele se chama? Mora atualmente com o pai em Itaituba, como se diz? Continuar mesmo impune? Merece no ser punido porque se tornou pessoa recuperada? Mas como comprovar essa mutao (tambm surpreendente) se no h nenhum assentamento oficial, nenhum inqurito, nenhum registro, nenhum processo na justia? Nenhuma responsabilidade recaiu sobre os pais? Tudo voltou anormal normalidade? No se pode continuar a confinar o que aconteceu em Novo Progresso tnue memria de um passado que parece no ter mais nenhum sentido prtico, nenhum valor social. O contexto de crescente violncia, livre de controles convenientes, e uma legislao de altrusmo permissivo e at indutor dessa violncia brutal, exigem mudanas srias, eficazes e corajosas. Mas parece que a esmagadora maioria prefere o que cmodo e tem aparncia de glorioso: deixar como est para ver como que fica. Consolidar a incua diretriz politicamente correta. No concordo com isso. Registro meu desacordo retomando o acontecimento. Voltando ao seu primeiro registro por escrito, num texto escrito por Alailson Muniz, da Agncia Amaznia, e publicado pela Folha de Novo Progresso, no dia 17 de maro de 2017:A morte de uma criana chocou ontem a populao do municpio de Novo Progresso, situado s margens da rodovia Santarm-Cuiab, a BR163, no oeste do Estado, a 1.639 km de Belm. Kau Damsio Peres, de 3 anos de idade, foi assassinado por um menino de oito anos. Os dois eram amigos e brincavam todos os dias nas ruas do bairro do mesmo nome da cidade. Ontem pela manh, a Polcia Civil do municpio encontrou o corpo de Kau em um terreno baldio. Ele foi degolado. Porcos que vivem no local devoravam parte da cabea da vtima. A criana estava desaparecida desde as 8 horas da manh de quarta-feira passada. A me do menor, Eliana Gregrio Damsio, foi escola onde o garoto estudava para busc-lo. L, foi infor mada de que o menino j havia ido para casa. Muito preocupada, Eliana compareceu unidade do Conselho Tutelar da cidade para comunicar o sumio. Desde ento, a Polcia iniciou as busca ao menino. Segundo o investigador Arajo, o garoto acusado do crime disse, em seu depoimento, que havia sequestrado Kau ao sair da escola. Ele levou o amiguinho para um lugar, a esmo,

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9 com ajuda de outros dois irmos dele. As investigaes feitas pelo delegado Jos Casemiro Beltro apontavam, no entanto, para a participao apenas do menino de oito anos. Depois, ele confessou que praticou o crime sozinho, disse Arajo. A criana de trs anos foi levada para um terreno baldio afastado de sua casa. No local, o acusado desferiu um golpe com uma pedao de madeira em sua cabea, causando-lhe a perda de conscincia. Desmaiado, Kau ainda foi violentado sexualmente. Depois, o assassino sacou de uma pequena faca que portava e degolou Kau. Na delegacia, o acusado disse que no retirou totalmente cabea de Kau de seu corpo. Como no local existe uma criao de porcos, a Polcia suspeita de que os animais, atrados pelo sangue, teriam comido parte da cabea de Kau, afastando-a totalmente de seu corpo. O corpo tambm apresentava vrias perfuraes de faca. O criminoso usou uma faca de serra para assassinar a criana. Com vestgios de sangue pelo corpo e a arma do crime em mos, o menino foi pego em agrante pela Polcia e levado presena do juiz Celso Marra Gomes. Ao ser questionado pelo juiz sobre o motivo do crime, o menino disse que no gostava da vtima, mas no especificou o motivo. Sobre o crime, ele narrou: Eu dei uma paulada na cabea dele. E, a, ele caiu, nem chorou. Fui em casa, peguei a faca e cor tei a cabea dele. As testemunhas que presenciaram a cena diante do juiz caram estarrecidas ao ver a frieza do garoto. A populao local cou em pnico e revoltada com o crime. Eles esboaram uma revolta para atentar contra a vida do garoto assassino. Temendo que as ameaas se concretizassem, delegado e o juiz se anteciparam e transferiram o menor ontem mesmo para Santarm. Ele viajou acompanhado de um membro do Conselho Tutelar. O garoto est em uma unidade da Fundao da Criana e do Adolescente do Par (Funcap). A famlia do menor est em estado de choque e ainda no conseguiu entender o que aconteceu com seu lho. A me teve de receber primeiros socorros. A populao de Novo Progresso, no Oeste do Par, est chocada com a morte do menino Kau Damsio Peres, de 3 anos. Ele foi levado de dentro da escola por outro aluno, um garoto de 8 anos, para um terreno baldio. Kau foi violentado, morto a pauladas e depois decapitado com uma faca. O corpo foi encontrado na manh de quarta-feira (14) e,no dia seguinte,cerca de mil pessoas foram em passeata para a porta do frum da comarca pedir justia. O juiz Celso Marra Gomes ouviu o menor em depoimento e depois, por medida de segurana, determinou a transferncia dele para Santarm, onde se encontra sob proteo do Conselho Tutelar. A perversidade do crime sur preendeu at o delegado Jos Casemiro Beltro, um homem acostumado a lidarcomcrimes violentos que dominam Novo Progresso. Estou abalado, nunca vi uma coisa dessas entre duas crianas, desabafou o delegado. Foi Beltro quem deteve o menino com a arma do crime nas mos e vestgios de sangue da vtima pelo corpo. Ao ser questionado pelo juiz sobre o motivo do crime, o menino disse apenas que no gostava de Kau. Dei uma paulada na cabea. Ele caiu e nem chorou. Fui em casa, peguei uma faca e cortei a cabea dele, relatou, deixando estar recidas as testemunhas que ouviram a consso. Na escola, colegas do menino que, segundo a polcia,cometeu o crime disseram que ele sempre apresentou um comportamento agressivo dentro da sala de aula. Batia nas crianas menores e dizia palavres para os professores. Eliana Gregrio Damsio, me de Kau, contou ter ido escola onde o garoto estudava para busc-lo. L, foi informada que o menino j havia ido para casa. Soube horas depois que a polcia havia localizado o corpo no ter reno baldio. Muito abalada, ela desabafou: Meu Deus, que mundo este em que vivemos?. O fundamento legal, segundo matria publicada em O Liberal, que, como toda imprensa local, no voltou ao assunto, embora todos os jornais (principalmente o Dirio do Par) explorem sensacionalisticamente o crime: A advogada do Centro de Defesa da Criana e do Adolescente (Cedeca-Emas) Wanaia Tom, disse ontem que os garotos que praticaram aes desse tipo no podem ser punidos de nenhuma forma, j que o Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA) prev que menores de 12 anos no cometem atos infracionais e muito menos crimes e por isso no so passveis de nenhuma punio. Crianas no tm o discernimento necessrio, ento devem ser tratadas exclusivamente com medidas de proteo, segundo estabelece o ECA, explicou a especialista. Wanaiaresssaltou que os meninos devem ser atendidos pelo Conselho Tutelar do municpio ou por outro rgo de garantia dos direitos das crianas. Eles devem receber apoio psicolgico. Segundo ela, quando crianas cometem atos como esse porque esto reproduzindo algum tipo de violncia que elas vivenciaram ou vivenciam, seja na famlia, na escola, na comunidade. Nesse caso, preciso haver uma investigao para saber as causas. Se o problema for com os pais ou outros parentes, a famlia tambm deve ser tratada, disse, adiantando que os pais ou responsveis tambm no sofrem nenhuma punio. Todos devem ser encaminhados para tratamento e programas de incluso.

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10 O psicanalista Nelcy Colares, que trabalha no Tribunal de Justia do Estado, diz que o pequeno assassino pode apresentar o que a psicologia chama de comportamento anti-social, o desprezo s normas da sociedade. Esse comportamento pode se manifestar tanto atravs de uma simples mentira como de uma atitude extremamente violenta, semelhante que o menino parece ter praticado. O comportamento antisocial pode estar ou no ligado a um transtorno mental. Segundo o especialista, esse tipo de anomalia mais comum na zona urbana do que na zona rural, onde as crianas esto mais expostas violncia em todas as suas formas. So muitos os fatores que podem ter levado essa criana a cometer o crime. Normalmente, as crianas que apresentam esse comportamento so aquelas que vm de um lar violento, que tm pais criminosos ou que j sofreram abuso sexual. Para elas, a violncia passa a ser o modelo, explica. Colares diz que caso o menor no receba o tratamento adequado o que s pode ser feito aps o diagnstico da equipe mdica e psicolgica que vai atend-lo , ele tem grandes chances de tornar-se um psicopata no futuro. A gente s pode denir um quadro de psicopatia na vida adulta.DEBATEecidi tambm montar um debate a partir de uma seleo das reaes de leitores que tiveram acesso notcia uma dcada atrs e se manifestaram em blogs e outros espaos virtuais. A incredulidade no que foi noticiado uma das caractersticas. As pessoas relutam a acreditar que uma criana de oito anos seja capaz de fazer o que lhe foi atribudo. Suspeitam de uma trama, hiptese descartada nas investigaes imediatas e na reao da populao de Novo Progresso. Ao transcrever as mensagens, ignorei a identicao dos autores (muitos deles annimos ou com pseudnimo. Corrigi gramaticalmente os textos e evitei os cdigos. Baixa pra 8 anos a maioridade penal? No, mas fazer como os EUA, deixar o guri preso at atingir idade de ser indiciado. Vai fazer o qu com um garoto desses? chamar a ateno, proibir de ver TV e dar palmadinha no bumbum? Tem que ter alguma punio. Cara essas notcias esto cando normais pra mim... Nem co to chocado, acho um absurdo, mas aquele impacto e a revolta nem sinto mais. Simples, um cara muito mais vio do que 8 anos fez isso e ameaou a famlia da criana e a prpria criana de morte, caso ela no zesse o que ele mandasse. Ento, ele mandou a criancinha assumir a culpa... E esses porcos at parecem os por cos do lme Hannibal! Totalmente doente... como raios um menino de 8 anos violenta uma pessoa? Sempre acontece, a mdia sensacionalista que no tinha chegado at esses ns de mundo ainda Duvido que um moleque de 8 anos teria abusado sexualmente do outro. Os irmos do infeliz participaram do assassinato tambm com certeza Primeiro morto a pauladas... Depois estuprado.... Depois degolado... Nesta ordem os fatos cam na ordem correta e enfatizam mais o caso, outra coisa, no culpo o garoto, culpo os pais e as inuncias dele... Um garoto de 8 anos no tem nem personalidade formada. Esse menino t possudo pelo capeta. Imagina como essa criana vai ser quando tiver mais velha. Claro que tem inuncia dos pais, mas tambm tem inuncia do ambiente em que ele vive!!!!! Se na escola dele ele v os meninos grandes batendo nos pequenos isso que ele vai fazer! Cara o mundo todo t dando medo j! Guerras... Terrorismo, drogas.A gente j cou chocado com o caso da menina que foi estuprada e o corpo encontrado na pia batismal da igreja! E agora essa! O menino tem 8 anos e j comete isso! No RJ t uma matana de policiais e tal! E esse monte de crime brbaro, que resulta em espancamento e estupro! Eu co pensando: ser que um dia eu chego a aproveitar minha vida? Do jeito que o mundo est, acho difcil eu sair para alguma balada e conseguir voltar! Eu quando tinha 8 anos nem sabia o que era uma faca... Mas vamos pensar ... ultimamente t acontecendo cada tipo de crime em cidade pequena! Vem se alastrando cada vez mais! Mas tambm no motivo de pnico pra os que moram em cidade pequena! Aqui em Rp[Ribeiro Preto?] tem em mdia de mais de 5 mortes por semana! Por causa de crime! Mas tambm no do jeito que esse de 8 anos matou o outro! As nossas crianas esto j crescendo e vendo um mundo violento! A maioria aqui do TF j tem cabea e sabe que caminho seguir! mas a criana se deixa levar pela inocncia e vendo tanto crime pode cometer alguns! T ai o problema... as pessoas mais velhas se queixam que a maioria dos bandidos so menores sem perceber que quem educou esses menores foram eles. Isso um problema crnico muito difcil de ser resolvido. Cada dia eu co mais convencido a no ter lhos. Antes fosse s isso a violncia no futuro do mundo, espero no estar aqui... O que dizer: pais os responsveis? O que ser responsvel por um menor? Fornecer-lhe alimento e teto? Isto tambm fornecemos para nossos ces, porm caso um deles morder algum, o responsvel o dono do co. O co no tem responsabilidade civil. Um menor de idade tambm no tem tal responsabilidade. No se nasce com moral. Ela nos ensinada pelos nossos responsveis. Quanto menor a criana, menos ela tem noo de seus atos. A Inocncia pode ser muito perigosa. Deste modo, no co surpreendida com a idade das crianas e sim com os pais das mesmas. Lamentvel! Eu acho que a maior culpa sempre dos pais. Uma criana no nasce ruim, sua personalidade se forma a partir dos 6 anos de idade. Antes desse tempo, com certeza ele presenciou algo na famlia, ou em casa, que o faz D

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11 to agressivo assim. Os pais no exigiam limites a essa criana. Televiso tambm incentiva muito. Tenho um lho, e tenho muito medo do futuro. Est cada dia pior! Na cidade onde morava, em Gois, houve um caso de um rapaz (15 anos), seu irmo(13 anos), que violentaram seu primo de apenas 3 anos tambm. Os que cometeram o crime foram meus alunos, h 5 anos. Tambm j dei aula particular para eles. Se comportavam muito bem! Foi uma mudana radical! No sei o que aconteceu! Fiquei com muito medo. Vou criar meu lho como uma galinha choca.Proteger mesmo! Fazer ele ter medo das pessoas, no conar em ningum! E esse garoto de 8 anos? Nunca mais ser uma pessoa normal! O que os pais dizem? Ah, concordo com a Camila. Ele vai para a Febem, porque no Brasil no tem justia, e esse indivduo voltar pior!!! Provavelmente houve vrias falhas no caso. Da famlia, que no soube educar e nem perceber que o menino assassino precisava de tratamento. Falhou a escola, que tambm no per cebeu a necessidade de tratamento especial para o menino assassino e ainda no deu a segurana necessria para a vtima, tambm seu aluno. Falhou a sociedade, e por ltimo o pas. O assassino precoce no m tambm vtima, pois sua vida tambm est perdida doravante. No tem nem por onde comear. Este um caso atpico que, em minha opinio, no pode ser explicado pelos discursos tradicionais. Creio que o menino possui uma personalidade psicoptica, estando o caso, portanto, no mbito psiquitrico. Porm, acho conveniente aproveitar o ensejo para dizer que a banalizao da violncia ajuda a explicar este tipo de coisa que tem sido comum em nosso pas. A permissividade em nossa sociedade pode ser vista em lmes violentos, desenhos violentos, novelas onde toda imoralidade vista, jogos violentos, leis inadequadas e um judicirio legislando em causa prpria ou ideologicamente. Esta promiscuidade em grande medida, disseminada pelas esquerdas, pois assim seu modo de operao, querem a liberao de tudo at chegarem ao poder, ao chegarem l perseguem, enquadram ou matam os diferentes. Algum j fui uma foto de um punk na China? De uma passeata gay em Cuba? De um movimento ecolgico na antiga URSS ou na RDA? Nosso presidente disse que s vezes um pobre precisa matar (por ocasio da morte do menino Joo Hlio). Algum moralmente ntegro cr nisto? At aceito que algum premido pela fome roube, mas matar. Veja o caso da priso do ter rorista CESARE BATTISTI, no Brasil, as esquerdas (capitaneada pelo Gabeira), que nanciavam sua estadia aqui, fugindo da polcia italiana, esto se movendo para evitar a extradio. Este criminoso participou de diversos ataques terroristas que causaram vrias mortes. Gabeira diz que ele um escritor inter nacionalmente reconhecido. Pergunto eu: e por isso ele imune lei?! Bem, enquanto a sociedade car achando uma barbrie como esta apenas lamentvel, e no questionar o que este menino assistia na televiso diariamente nada vai mudar. Ele matou estupidamente, deveria ser executado da mesma forma, em rede nacional na hora da novelas das 20:00h para que todos vissem e soubessem o m que dado a quem faz este tipo de coisas. Regredir no tempo e impor a LEI DE TALIO ( olho por olho dente por dente), o nico remdio para esta sociedade que apenas acha lamentvel tamanha barbrie. Se a vtima fosse meu lho, nem todos o corpo policial do mundo me impediria de pegar este moleque e retalh-lo em pedacinhos, jogando seus restos aos ces. Ou voc, que pai, caria esperando pela justia brasileira para resolver este tipo de coisas??????????????A derrapagem do MPFO Ministrio Pblico Federal no ajudou em nada a causa do combate corrupo, que lidera no aparato ocial, ao pedir, em unssono, no ms passado, um aumento de 16,7% para os seus procuradores, ndice trs vezes acima da inao ocial. O reajuste acrescentaria 116 milhes de reais folha de pessoal, numa instituio com oramento de 3,8 bilhes de reais. O mais temerrio que o salrio mdio superior deles (de mais de R$ 20 mil para incio de carreira) ultrapassaria os R$ 33,7 mil de um ministro do Supremo Tribunal, que o teto para o ser vio pblico federal, incluindo a maior autoridade, o presidente da repblica. O STF no aprovou qualquer aumento para os seus integrantes. Com isso, fechou a porta da legalidade e da moralidade para o reajuste no MPF, aprovado tanto pelo chefe que sair como pela que entrar, em setembro, mais todo conselho nacional. E abriu as comportas para manifestaes de protesto da sociedade, arrochada por salrio que no cresce (e ainda diminui) e falta de emprego. As crticas, elevando o tom, comearam a fustigar os excessos dos procuradores da Operao Lava-Jato e derivadas.Serviram de arrimo para as decises das cortes, que parecem iniciar o reuxo de restrio, desaprovao e conteno ao uxo de apoio majoritrio ao da fora-tarefa de Curitiba e de outras capitais por onde ela se desdobrou. Erros e abusos tm sido cometidos, mas podem ser corrigidos sem desviar a linha de conduta da Lava-Jato, que vai aos extremos limtrofes da lei (s vezes derrapando para alm dela) para processar, sentenciar e mandar para a cadeia alguns dos colarinhos mais brancos da elite nacional, geralmente no s inimputvel como impune e imune. A iniciativa de pedir mais salrio, mesmo que viesse a ser justa, nem foi oportuna nem fundamentada em necessidade to premente que levasse os procuradores a se expor reprovao da opinio pblica nacional. Eles ganham bem, dispem de boas condies de trabalho e contam com vantagens que no se estendem a outros servidores pblicos. Foi o mais grave erro que j cometeram. Podem pagar muito caro por isso. A sociedade brasileira, mais do que eles.

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12 Com o ttulo Sr. gatuno, a Folha do Norte de 30 de janeiro de 1952 publicou o seguinte anncio: Pedimos ao gatuno que roubou um palet de tropical cinza, de cima do balco da Alfaiataria Pinto, o obsquio de mandar entreg-lo nas Lojas Salevy, que ser graticado. Garantimos que no ser denunciado. Tratase de uma fazenda que no h mais na praa. Da a questo que fazemos de reav-lo. Se V. S, sr.gatuno, tem que vend-lo a algum, venda-o ao prprio dono, nas Lojas Salevy. Caso no lhe seja possvel atender ao nosso apelo, queira fazer a gentileza de roubar a cala tambm. Na sua visita s Lojas Salevy, como qualquer outra pessoa, V. S. receber um talo numerado, absolutamente grtis, para concorrer ao sorteio de um poderoso rdio Telefunken, a correr pela primeira extrao de fevereiro da Loteria do Estado. No nal de 1952, Belm ganhou, nalmente, a boi te elegante que tanto vinha reclamando: Um grupo de guras prestigiosas nos cr culos sociais e industriais de nossa terra, compreendendo a necessidade de um ponto de reunio noturna para o nosso grandmond[ sic ], idealizou a criao da boite e Nagib Homci, de pronto, cedeu o palacete de sua residncia, para ser instalado o novo centro de diverses, anunciava o noticirio da imprensa. Assim nascia a boate Osis, na avenida Nazar, sem exagero a mais linda do Brasil, segundo o anncio da inaugurao, que prometia: Artistas dos mais renoma dos do rdio e do teatro, no somente nacionais mas centro-americanos, j esto contratados e uma [siz ] jazz das mais brilhantes da metrpole, a que atuava na boite Nightandday [sic ], do Rio, aqui estar.PRDIO No dia 1 de maro de 1952, os privilegiados proprietrios de apartamentos no edifcio Renascena, o mais sosticado de Belm na poca, com 10 andares, em plena avenida Presidente Vargas (ainda 15 de Agosto), na esquina da praa da Repblica, no centro da cidade, recebiam seus imveis. Para registrar a data, um discreto anncio na Folha do Nor te insinuava razes para no haver festas, mas cava num contido protesto: Foi ontem entregue aos seus proprietrios, o Edifcio Renascena, construdo pelo Engenheiro J. E. LEVY [Judah Eliezer Levy ] e de incorporao da Imobiliria Sul Americana Ltda. O ato foi ntimo, no tendo havido festa, visto a Imobiliria no mais querer construir em Belm, por motivos alheios sua vontade. justo salientar que o Edifcio Renascena um prdio que honra os seus idealizadores e a nossa capital.Benedito Nunes, ainda acadmico de direito, aos 22 anos, foi a principal atrao das comemoraes em torno de So Toms de Aquino, o padroeiro dos estudantes, em Belm, em 7 de maro de 1952. Pela primeira vez as homenagens no seriam realizadas sob a responsabilidade do seminrio arquidiocesano (onde est agora o museu de arte sacra, ao lado da igreja de Santo Alexandre), como nos anos anteriores. A JUC (Juventude Univer sitria Catlica) e a JEC (Juventude Estudantil Catlica) assumiram o comando, ampliando a programao para o lado mais secular e no apenas religioso. Ela comearia com a tradicional missa solene, celebrada pelo arcebispo, dom Mrio de Miranda Vilas Ao vivo em auditrioEm 1962, a TV Marajoara realizava shows ao vivo em seu auditrio (a princpio, s da rdio Marajoara), na praa de Nazar. Este foi o do compositor, cantor e violonista nordes tino Luiz Vieira, complementado pela revista A Festa Nossa. Patrocnio da multinacional Swi (antes da JBS), Ja O Camiseiro, Y. Yamada e A. F. Coelho.

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13 Boas, de manh bem cedo. No nal da tarde, Benedito Nunes faria sua palestra, sob o tema A atualidade de So Toms de Aquino, na sede da Ao Catlica (o prdio que abriga a arquidiocese, na avenida governador Jos Malcher). noite, haveria sesso solene no seminrio de Belm, com nmeros de msica e discursos do padre pio Campos (depois cnego e hoje professor aposentado), de Rui Coutinho, em nome dos seminaristas, e do ento acadmico de direito Rober to Santos, pela JUC. A igreja estava, ento, na linha de frente. Ou, como se dizia mais prosaicamente, na crista da onda. DIREITOO ponto alto da comemorao, em 11 de agosto de 1960, da instituio (133 anos antes) dos cursos jurdicos no Brasil, no prdio da Faculdade de Direito do Par (no largo da Trindade), foi a passagem da chave por um bacharelando prestes a se formar a um aluno de srie anterior. Por isso mesmo, a comemorao se chamava de festa da chave, simbolizando a transferncia do patrimnio da instituio e das normas de conduta estabelecidas nas relaes entre os alunos e a direo da faculdade de alunos que saam para os que continuavam. Em 1960 o bacharelando Antnio Cndido Monteiro de Brito entregou a chave, em tamanho ampliado, ao acadmico da 4 srie Mar al Marcelino da Silva Filho (depois diretor do Banco da Amaznia). Alm dos dois estudantes, falou na ocasio o representante da congregao, Edgar Viana (j falecido). O diretor da Faculdade era Aloysio Chaves, que viria a ser governador do Estado, entre outras funes pblicas.Os moradores mais antigos de Belm no se cansam de lamentar o desaparecimento dos coretos da Praa Justo Chermont, o popular largo de Nazar. Um dos prefeitos que baixou sobre a cidade, trazido pelos ventos intervencionistas dos tecnocratas e burocratas de Braslia, teria levado consigo pelo menos um desses coretos e o instalado nos jardins de sua residncia, em Petrpolis. Ao lembrar essa histria, todos suspiram pela perda. Sem levar em considerao as explicaes que o ento prefeito, Mauro Porto, j deu: de que os coretos foram retirados pelos prprios padres barnabitas e colocados no poro da igreja. Em 1958, a polmica travada em torno dos coretos foi se deviam ser restaurados e mantidos na praa ou demolidos. Rodrigues de Sousa estava no segundo grupo. Numa carta Folha do Nor te ele investiu sobre os coretos e o Pavilho de Vesta, acusando a este (de grandes propores, nas partes baixas e nas linhas superiores parecia uma agigantada marquise sobre um redondel) de roubar a perspectiva do majestoso templo, a baslica de Nossa Senhora de Nazar. A praa precisaria adquirir novo aspecto com a retirada dos monstrengos que tanto a desmerecem: os coretos inexpressivos e inteis, o bojudo cliper e, nalmente, o Pavilho de Vesta!. Por linhas tortas, essa esttica torta acabou por ser atendida tortuosamente, claro. Para proteger os lagos ar ticiais existentes nas praas Batista Campos e do Palcio (este, j completamente seco) da ao dos vndalos, o prefeito Lopo de Castro decidiu recorrer, em 1958, a uma providncia radical: mandou buscar 150 poraqus. A misso dos peixes eltricos era impedir que qualquer pessoa viesse a se banhar nos lagos, construdos unicamente com o objetivo de embelezar os nossos logradouros pblicos e no para servir de piscina Carro nacional em BelmEm janeiro de 1960, a Importadora Braga recebeu os primeiros veculos utilitrios fabricados pela Vemag do Brasil, da qual era distribuidora em Belm. Os carros foram trazidos pela recm-inaugurada rodovia BelmBraslia e exibidos porta da loja, que cava no trreo do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas. O dono da rma, Carlos Braga, posou no jipe da Vemag, junto aos tcnicos que transportaram a valiosa carga. A Vemag logo desapareceria, absorvida por outra multinacional alem mais poderosa, a Volkswagen. Comeava, na capital do contrabando de automveis americanos importados, a era da fabricao nacional, criada pelo governode Juscelino Kubitscheck, que chegava ao m nesse ano.a marmanjos. O choque de um poraqu, se no mata, seria suciente para desestimular qualquer banho no sancionado pela autoridade municipal. Dois anos depois, a ao do prefeito era contra os donos de capinzais e vacarias, que se utilizavam de carroas com rodas de ferro. Trafegando pela cidade, elas causavam srios estragos em vrias artrias da cidade, principalmente naquelas que estavam sendo asfaltadas. A ordem era apreend-las. Assim, seus proprietrios se veriam obrigados a modernizar suas carroas, substituindo as antigas rodas de ferro por pneumticos.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Morte de prefeitos:crimes em srie? No dia 16 de maio, o prefeito de Breu Branco, Diego Kolling, do PSD, foi morto a tiros. No dia 27 do ms passado, foi a vez do prefeito de Tucuru, Jones William Galvo, do PMDB. Com a execuo do prefeito de Goiansia, Joo Gomes da Silva, do PR, em janeiro do ano passado, foram trs os prefeitos assassinados no Par em um ano e meio. Trata-se de crime em srie, com conexo lgica, ou a frequncia mero acaso? A Secretaria de Segurana Pblica do Estado montou imediatamente um esquema mais ostensivo de investigao e reuniu os outros dois prefeitos de municpios que tambm foram atingidos pelo represamento do reservatrio da hidreltrica de Tucuru, a quarta maior do mundo, formando um lago articial de trs mil quilmetros quadrados (300 mil hectares). O prefeito de Novo Repartimento Deusivaldo Silva Pimental e o de Pacaj Chico Tozetti, ambos do PMDB. Por causa do royalty sobre o uso da gua para a produo de energia, Tucuru um dos municpios que mais arrecadam no Par. Os outros quatro tambm recebem sua parte da compensao. As administraes municipais tm problemas com suas prestaes de contas. O prefeito de Tucuru, por exemplo, estava com seus bens indisponveis por causa de uma ao que o denunciava pelo favorecimento de uma empresa local que executava obras pblicas. Como esses problemas existem em quase todos os municpios, a ameaa de novos acontecimentos violentos pode no car restrita regio dos lagos de Tucuru. A disputa pelo controle dos seus oramentos extrapolou a seara da poltica e se tornou caso de polcia. O delegado-geral da polcia civil, Rilmar Firmino, fez uma previso sobre o assassinato de Diego Kolling, que tem todas possibilidades de ser verdadeira, embora possa parecer contraditria com os resultados da investigao, que j identicou e prendeu seis envolvidos no crime. Firmino observou que esse o tipo de crime de difcil resoluo: os que matam, so os que vo chorar com os familiares. A riqueza de provas testemunhais e periciais levaram a polcia a concluir que houve dupla motivao para o assassinato do prefeito: tanto poltica quanto econmica. Quem nanciou a candidatura de Diego, dando continuidade a um esquema que j funcionava na prefeitura de Breu Branco, queria continuar a deter contratos superfaturados e dispor de licitaes viciadas. Segundo o delegado, o principal suspeito, Ricardo Lauria, criou uma empresa de fachada (ou laranja) para participar (e vencer) concorrncia para realizar o transporte escolar. Surpreendentemente, porm, o prefeito revogou a licitao, por considerar muito baixo o preo oferecido. Foi ento que o empresrio decidiu mandar matar Diego Kolling. Se verdadeira a verso, o prefeito de Breu Branco se tornou um caso raro de gestor pblico que no aceitou a cor rupo, mesmo ela sendo gerada em torno dele, com base em acerto poltico que lhe permitiu se eleger, como candidato do PSD. Da o delegado apontar para o crculo em torno da famlia como a origem do crime. Ele sabe que haver resistncias ao avano da ao policial. Por isso mesmo, ela se torna ainda mais importante. Se todo o esquema montado para manter a elao promscua entre prefeito e o sistema nanceiro que o viabiliza politicamente for desvendado e os envolvidos devidamente presos, talvez se consiga conter a onda de assassinatos de polticos, que j atingiu trs municpios da regio do lago da hidreltrica de Tucuru. O caso de Breu Branco parece diferir no s em relao ao de Goiansia e Tucuru, onde foram presos os participantes do compl, como da situao de tenso crescente que cresce nos bastidores das administraes pblicas do interior do Par. Provavelmente se os atentados no tivessem chegado a Tucuru, um dos municpios que mais arrecada no Estado, a Secretaria de Segurana Pblica no teria montado um esquema de apurao com 40 homens, entre policiais civis e militares, para apresentar resultados imediatos sobre a morte de Kolling e Jones. E conseguido, nalmente, desvendar ao menos parcialmente o atentado ao prefeito de Breu Branco, prendendo todos os seus integrantes. Agora, a polcia precisa seguir as pistas at onde elas realmente vo, sem estancar em ambientes nos quais os mandantes das mortes estejam a chorar junto com os parentes das suas vtimas, como deve estar acontecendo em Breu Branco.

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15 O Estado paga artistas e favorece politicagemVrios milhes de reais do caixa do tesouro estadual so sacados com uma generosidade incompatvel com as exigncias da gesto de dinheiro pblico, incluindo a devida explicao ao pblico externo sobre as razes da aplicao da verba, distribuda a rodo aos escolhidos por um squito exclusivista. O Estado no empresrio de shows nem mesmo de cultura particularista. Ou assim e vai continuar assim na provncia do Gro-Par? A cultura ocial virou um verdadeiro caso de polcia. De uma s vez, numa nica edio do Dirio Ocial, do dia 18, o governo gastou 621 mil reais para promover 10 espetculos musicais, realizados por 25 artistas individuais e (ou) bandas, em cinco municpios paraenses. Quatro desses shows em Belm e trs em Ananindeua, redutos do PSDB do governador Simo Jatene, atravs dos prefeitos Zenaldo Coutinho e Manoel Pioneiro. Foram 127 mil reais para Belm e 181 mil para Ananindeua. Chaves, municpio pobre da pobre ilha de Maraj, teve um nico show com verba ocial. Mas foram R$ 100 mil, o mais caro de todos, para alegria do prefeito Bira Barbosa, que tambm tucano. Trs bandas tocaram por trs dias para receber quase R$ 34 mil cada uma, mais de R$ 10 mil por noite. Os outros espetculos foram em Curu (R$ 79 mil) e Camet(R$ 34 mil), que tm prefeitos do DEM. Os contratos foram assinados diretamente pela Fundao Cultural do Parcom os empresrios dos artistas. Neury Monteiro Augustin Jr. foi presenteado com quatro contratos. Tryce Pantoja Produo e Eventos, com trs. A fundao deixou de fornecer os endereos dos os contratados, desrespeitando assim a exigncia legal. Os termos tero que ser republicados para no serem invalidados. A inexigibilidade de licitao foi adotada porque pblica e notria a qualidade dos contratados, que so: Rosemary (contratada trs vezes), Ivana e Kssio, Recorda Som, Danny Lucio, Renan Sanches, Alta Frequncia ee Rober ta Brito (duas vezes cada um). E mais (um contrato): Madeirada, Arrocha, Tubares do Forr, Pedrinho Calado, Tamarock, Anacelma, Acordalice, Kim Marques, Edilson Moreno, Esdras, Balada Mil, Serginho Nbrega, Zona Rural, Ranilson, Banda Puro Desejo, Jorginho e Banda II Via e Banda 007. Como tanto dinheiro foi parar nas mos desses famosos artistas? Atravs de emendas parlamentares. O deputado estadual designa quem quiser para receber cachs que no costumam ser pagos nem em praas muito mais abastadas e a Fundao de Cultura do Par manda pagar. O dinheiro vai mesmo integralmente para os artistas? Eles cumprem a agenda? H algum critrio de seleo? H scalizao posterior? Os rgos de controle externo acompanham a destinao do dinheiro pblico? Ou, por vias transversais, a verba acaba tendo um uso poltico e outros usos? E assim, usando como biombo o nome da cultura, um errio carente nancia esse esquema siolgico na cara de todo mundo e ningum diz nada? Nem os artistas? Nem os representantes da cultura?Enchentes: tragdia natural ou humana?Em 2014 o nvel do Madeira chegou aos 19,69 metros. Foi a maior cheia j registrada no rio, que o que mais contribui em vazo lquida e em sedimentos para o Amazonas. Superou em mais de dois metros o recorde anterior, de 1997, e em mais de trs metros a cota mdia de enchente, de 16,5 metros. A explicao ocial para essa cheia excepcional: as chuvas mais intensas nas cabeceiras do Madeira. Para os moradores de suas comunidades, dentre as mais de 150 mil pessoas atingidas, representando um tero dos 512 mil habitantes de Porto Velho, Candeias do Jamari, Guajar-Mirim e Nova Mamor, os municpios afetados pela cheia, a culpa foi das hidreltricas de Santo Antnio e Jirau. Passados trs anos do desastre (natural ou provocado pelo homem), eles continuam convencidos de que a evoluo acelerada da enchente foi provocada pela abertura das comportas das usinas, que cam distantes 150 quilmetros uma da outra, Santo Antnio a apenas sete quilmetros de Porto Velho, rio acima. A ao do Madeira em 2014 foi sem igual: no s as casas foram destrudas e arrastadas, juntamente com os cultivos agrcolas, como a eroso foi intensa, desbarrancando reas que at ento eram consideradas rmes. Os que quisessem voltar teriam que recomear do zero. Sem a indenizao que reivindicam, no conseguem. A maioria teve que se restabelecer em Porto Velho, mas em condies de vida muito piores do que as da beira do rio. Os poucos que insistem em retomar suas colocaes na margem do Madeira j sentiram que as condies se alteraram. O peixe se tornou escasso e incer to. Moradores antigos se dizem completamente desnorteados. Antes sabiam quando o rio subia e descia. Agora as oscilaes entre cheia e vazante se tor naram constantes. Exige que se adaptem. Mas o peixe no tem essa alternativa. Pode estar fugindo do local. O que verdade e o que mera especulao? O que a cincia pode conr mar e o que nem isso possvel? Uma resposta exige que se conhea perfeitamente a operao dos reservatrios. Uma exigncia ainda maior no Madeira, que abriga duas das maiores hidreltricas do pas (e do mundo), um rio capaz de produzir energia rme em volume maior do que Belo Monte, projetada no Xingu para ser a quarta maior do mundo, mas que tem energia rme o ano inteiro inferior a Santo Antnio e Jirau. Alguma universidade da Amaznia podia se interessar pela organizao de um seminrio especicamente para tratar da operao dos reservatrios das grandes hidreltricas em atividade na regio. O povo, penhorado, agradeceria pela iniciativa.

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Lula e a corrupo O maior desao para os que apostam novamente em Lula como opo de futuro para o Brasil livr-lo da mancha de corrupto. Como bandeira de esperana e smbolo de mudana, Lula no pode aparecer em pblico associado a assaltantes do errio e benecirio de medias que pareciam ter sido adotadas em benefcio do povo, que o elegeu por duas vezes presidente da repblica e referendou a estranha escolha que fez para a sua sucesso. Ele no pode aparecer como fraude. A sada voltar a insistir na tese do golpe, j no mais apenas nem principalmente contra Dilma Rousse: agora seria diretamente contra ele, para impedir articialmente, pela fora de uma manobra parlamentar que o povo lhe d um indito terceiro mandato presidencial. Os autores da conspirao anti-Lula (e, secundariamente, como sempre, anti-PT) so os endinheirados e candidatos a endinheirados, na interpretao do economista Luiz Gongaza Belluzzo, professor aposentado da Universidade de Campinas, em So Paulo. Em entrevista ao Jornal da Unicamp ele rearma sua condio de idelogo do petismo, com um apoio to decidido que compareceu a uma das sesses do processo de impeachment de Dilma para fazer a defesa da ex-presidente. Ela exercia um mandato comprometido com um certo projeto de sociedade, com um projeto de avano social, que os ricos j no estavam dispostos a tolerar, como toleraram os oito anos de Lula. Indiferentes aos bons resultados da economia diante do relativismo da crise internacional e de outras presses (o fator externo como um eterno bode expiatrio), os ricos tramaram para golpear a dona do principal mandato popular do pas. Ignoraram que os efeitos negativos de 2014 foram resultado da tentativa da petista de atender aos reclamos do mercado, frente do qual esto os insaciveis bancos. Belluzzo sosma. De forma sosticada, mas sosma. De fato, a elite aceitou Lula sem tom-lo como seu. Mas Lula fez o possvel e o impossvel para ser um igual elite, que, ao contrrio do que sustenta o economista, sempre teve um projeto de poder, s vezes bem articulado, s que favorvel apenas a ela mesma. Bitolado por sua viso de curto prazo, sempre deambulante ou ao sabor das ondas da conjuntura (da se denir como uma contradio ambulante), desligada das razes histricas do cotidiano (nunca ningum o viu lendo um livro atrs delas, tarefa necessria, j que nem a sua poderosa intuio poderia fornec-las), Lula procurou ingressar nesse mundo, que no era o dele. Incorporou a cultura dessa elite (o que inclui tentar se tornar um gour met e um enlogo, a, sim, de forma to falsa ou postia quanto muito dos endinheirados arrivistas de coluna social). Deu-lhe o dinheiro mais barato da praa, com juros pagos pelo tesouro, e mesmo o principal por ele fornecido, para ser competitiva no mundo. Conseguiu a faanha de tornar o Ita maior do que o Banco do Brasil (com a retribuio ideolgica dos lhos do banqueiro Walther Moreira Salles na edulcorao da biograa do grande timoneiro nacional, atitude tambm adotada pelos donos da Andrade Gutierrez). Pagou o pedgio social com o bolsa famlia e equivalentes, sossegando o leo (que manso), embora o drago do crime organizado s tenha crescido e a violncia transformado o Brasil num campo de guerra no ocializada. Fabricou a maior quantidade de bilionrios brasileiros de todos os tempos, inclusive o 8 homem mais rico do planeta. Criou mercado para eles atravs do crdito ao consumo base de dvida e tendo na extenso a maior inadimplncia familiar j registrada. Colocou as commodities no topo da exportao, fazendo o pas retroagir quase meio sculo nas relaes de troca, resultado camuado temporariamente pelos preos elevados das matrias primas. Nesse mundo de tratativas de bastidores e negociao de pores obscuros, no qual a corrupo passou a ser veculo de um projeto de poder (que conseguiu durar 13 anos, tempo demais para se achar que a poderosa e desalmada elite brasileira a toleraria se executasse o projeto inventado por Belluzzo), inevitavelmente a bandidagem prosperaria e os mal feitos se tornaria rotineiro. Foi um choque para o povo, O efeito? Lula ter o mais alto ndice de rejeio entre todos os aspirantes presidncia na eleio do prximo ano. um nmero gordo demais para a elite nele caber, mesmo com sua ao miditica atravs da TV Globo, seu dinheiro, sua audcia. Quase 60% de rejeio produto tambm de uma realidade que os inimigos de Lula no conseguem agravar to exageradamente quanto diz Belluzzo nem os correligionrios do ex-presidente no so capazes de desfazer de fato. Tratam ento de voltar a histrias da carochinha, reapresentando a realidade complexa e desnorteadora sob a roupagem de uma teoria pronta e acabada, rgida e dogmtica, de aparncia to coerente quanto frgil a sua substncia. Com esta realidade, Lula capaz de vencer o 1 turno em 20, mas sua situao se inverter num 2 turno, quando a escolha ser plebiscitria e o eleitor, infelizmente, mas como sempre, ter que decidir entre o ruim e o menor ruim se no for entre o pior e o menos pior. No ser culpa do eleitor. O Brasil mudou de fato, embora ningum parece ser ainda capaz de decifrar a nova criatura (ou as novas, j que a unidimensionalidade acabou). Nem aqueles que querem domar o potro pelas mesmas tcnicas, a seu servio, como Lula e seus adversrios potenciais, ou fantasia-la desnaturando os fatos, como Belluzzo.SilncioNa edio 635 deste jornal cobrei da direo do Museu Goeldi uma informao sobre o destino dos dirios de Paul Le Cointe, cujos originais entreguei instituio para sua publicao. Nenhum retorno. Nada. Como se tornou hbito na incivilizada Belm do Par. A importncia da obra exigia alguma explicao. Ou no?