Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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o a VIOLNCIAAt onde ela ir?A violncia usada nos homicdios supera todas as escalas de medio, se aprofunda e cria uma incgnita sobre o futuro. A sociedade est enfrentando eficientemente esse agravamento da barbrie, que ocorre nas grandes cidades e no mais longnquo serto? Os dois saram juntos da escola e seguiram at um terreno baldio afastado. Quando l chegaram, o mais velho pegou um pedao de pau e golpeou o outro na cabea, deixando-o desacordado. Em seguida, abusou sexualmente da vtima inerte. Foi na sua casa, voltou com uma pequena faca com lmina de serra e com ela rasgou o pescoo do companheiro at quase decapit-lo. Cansado, abandonou o corpo no meio da mata rala. Quando o cadver foi encontrado, no dia seguinte, pouco restava da sua cabea. Porcos de uma criao domstica prxima, atrados pelo sangue, tinham comido parte da cabea, praticamente a seccionando de vez. Havia perfuraes de faca pelo corpo da vtima. Seu matador foi localizado e ainda identicado com vestgios de sangue na roupa. A arma do crime continuava em seu poder. Confessou espontaneamente o crime para o delegado da polcia civil Jos Casemiro Beltro. Descreveu o que fez como se no fosse ato seu. O municpio de Novo Progresso, no sul do Par, cresceu em meio a assassinatos violentos.

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2 Mas esse, que ocorreu exatamente 10 anos atrs, causou tanta revolta que pessoas se juntaram com o propsito de tirar o assassino da cadeia e linch -lo, mesmo sendo uma criana, um menino de oito anos de idade. Sua vtima, que estudava na mesma escola, tinha trs anos. O delegado levou imediatamente o menor ao juiz Celso Marra Gomes, que o interrogou. O menino disse que matou o colega porque no gostava dele. No foi explcito em indicar um motivo para o crime, mas sugeriu que o outro se recusava a brincar com ele. Reconstituiu seu procedimento sem alterar a voz, como se descrevesse um fato corriqueiro, diante de pessoas que testemunharam o seu depoimento. A frieza chocou a populao. Quando quase mil pessoas foram em passeata para a porta do frum pedir justia, o delegado e o juiz se anteciparam e transferiram o menor para a cidade mais importante da regio, Santarm, a 700 quilmetros de distncia, na companhia de um integrante do Conselho Tutelar local. Depois de passar por uma unidade da Fundao da Criana e do Adolescente do Par, o garoto seguiu para destino desconhecido. Dez anos depois do dia 17 de mar o de 2007, por certo prisma o mais trgico, individualmente, na histria de Novo Progresso, o assassino atinge sua maioridade. Sua famlia e as autoridades que poderiam saber do seu paradeiro ou o desconhecem ou preferem no dar qualquer informao a respeito. Este no o nico mistrio numa histria de selvageria rara nos registros mundiais. Por que o assassino, com apenas oito anos de idade, decidiu matar seu colega, cinco anos mais novo, usando um pedao de pau para golpe-lo na cabea, desacord-lo, violent-lo sexualmente, serrar o seu pescoo e deix-lo largado na mata, voltando vida normal at ser descoberto e reconstituir tudo que fez sem demonstrar vacilao ou emoo? A pedido do juiz, contou o que fez: Dei uma paulada na cabea. Ele caiu e nem chorou. Fui em casa, peguei uma faca e cortei a cabea dele Os mais escandalizados tentaram encontrar uma explicao racional. Algum adulto, ou pelo menos pessoa mais velha, zera tudo aquilo e incriminara o garoto. Mas a famlia dele cou imediatamente em estado de choque, sem encontrar explicao para atitude to agressiva. Sua me teve que ser logo socorrida. O menino, apesar de to novo, era mau, disseram alguns dos seus colegas da escola. Ele tinha um comportamento agressivo dentro da sala de aula. Batia nas crianas menores e dizia palavres para os professores. Uma vocao de rara precocidade para o crime? Talvez, mas a agressividade relatada no discrepa muito de algumas personalidades mais violentas do que a mdia. Talvez o cenrio tenha inudo muito mais do que essa aplicao tardia de teorias lombrosianas. A uma pessoa que conver sou com ele na poca, logo depois do crime, o garoto disse que j estava acostumado a ver crimes sendo praticados e cadveres aparecerem em ruas de Novo Progresso. uma histria para arquivar e esquecer de vez ou reconstitu-la, agora que o assassino atingiu a maioridade e pode responder pelos seus atos, enquanto a sociedade est mais atenta espiral de barbaridade nos homicdios, cada vez mais frequente e mais rotineira? Talvez porque tambm esteja sendo demasiadamente tolerada, empurrada para debaixo do tapete do comportamento politicamente correto, demar cado por uma conscincia histrica pesada h sculos. A criana assassina chega maioridade sem ter sido responsabilizada pelo crime que cometeu. Segundo a informao fornecida por um jornalista de Santarm, do jornal eletrnico O Estado net, o agora rapaz mora com o pai, em Itaituba, cidade mais antiga, a segunda principal no vale do Tapajs. Como as demais, de origem recente, a partir da abertura da BR-163, ela se formou pela explorao da borracha e prosseguiu com outro tipo de extrativismo, o da garimpagem de ouro, completado por outra forma de extrativismo, a da retirada de madeira, combinado com pecuria, vrtices de um crescimento acelerado da migrao, das atividades econmicas, do crime e da violncia. Como o Estatuto da Criana e do Adolescente probe revelar detalhes da vida do menor, do que ele fez, h 10 anos, o que resta a faca que usou para degolar o colega. A arma guardada pela conselheira tutelar Ceiza Pantoja, ainda em Novo Progresso. Nenhuma fonte quis conrmar ocialmente se um inqurito policial foi instaurado para apurar o homicdio. O fato virou histria. Em geral, na selvagem fronteira amaznica, mais uma desmemoria. Mas no s a 1.200 quilmetros da capital paraense. Aiko Willy Costa Cruz tinha 35 anos. Era homossexual e trabalhava como cabeleireiro, em Ananindeua, na regio metropolitana de Belm. Ele foi morto a facadas, no dia 16, o 7 homossexual morto com selvageria no Par s neste ano. Os dois assassinos, depois de o esfaquearem seguidas vezes, arrancaram os seus olhos e o seu rgo sexual, e cortarem-lhe o pescoo. Marcelo Jos Souza Sacramento, de 18 anos, foi um dos criminosos. Com ele estava um adolescente de 16 anos. Por ser menor, conforme manda o estatuto legal, seu nome no foi revelado. Diante dos policiais, o adolescente infrator (conforme a terminologia) sustentou a mesma declarao do par ceiro: se tivesse que cometer de novo o crime, o faria ainda melhor. Os dois foram presos em agrante, priso transformada em preventiva pela juza Janana Fernandes Aranha Lins, respondendo pela vara do Tribunal do Jri de Ananindeua, durante a audincia de custdia, mas s em relao a Marcelo. A medida foi adotada porque o crime foi praticado com requintes de crueldade extrema. A mesma do menor.

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3 Lula no poder: a corrupo S/ACostuma-se comparar Lula a Getlio Vargas, ambos tidos por pais dos pobres. Paralelo mais elucidativo, no entanto, pode ser traado com Juscelino Kubitscheck, que sucedeu a Vargas na presidncia da repblica. Getlio mudou a relao entre o capital e o trabalho, protegendo o trabalhador com a legislao social e o maior poder de compra da histria do salrio mnimo, que ele criou (certamente por sua condio de ditador, que lhe permitia impor o leo de rcino goela adentro da recalcitrante burguesia nacional, incensada pelo Partido Comunista como a parceira da revoluo). Alm disso, criou empregos como nunca, ao desencadear a industrializao num pas que ainda era majoritariamente rural. O que aproxima Lula de JK que, embora o lder do PT tenha realizado uma poltica social (mais assistencialista e circunstancial, pela induo ao consumo atravs do endividamento e, agora, a inadimplncia), ele passar histria como aquele que deu estrutura e organizao corporativa corrupo no Brasil. No por mera perseguio poltica e conspirao contra ele pelas elites nacionais que o ex-dirigente sindical, o mais famoso de todos, se tornou o primeiro presidente da repblica brasileira condenado por cor rupo passiva e lavagem de dinheiro, ato seguido pelo bloqueio de bens pessoais em valor superior a 10 milhes de reais. Corrupo sempre houve no Brasil. Juscelino nela introduziu as empreiteiras, contratadas para construir toda uma cidade, justamente a nova capital federal, Braslia, no maior conjunto de contratos assinados pelo governo federal com a iniciativa privada da histria do pas. Essa conjuntura deu poder a Marcos Paulo Rabello, o principal empreiteiro das obras de Braslia. To poderoso que chegou a ser apontado como scio do prprio Kubitschek. Parecem estar nessa fase histrica as razes da cornucpia de Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Cor rea et caterva Soa agora muito prximo dos nossos dias o relato que o jornalista Samuel Wainer fez em busca de apoio nanceiro para o seu jornal ltima Hora: Fui ao encontro de Juscelino, relatei-lhe os problemas nanceiros que enfrentava e tirei minha carta da manga, lembrando que Rabello poderia resolver a questo. O presidente emudeceu, ensaiando uma expresso de quem jamais ouvira aquele nome. Impassvel, reiterei que seria uma boa ideia apresentar-me a Rabello como algum recomendado pelo presidente. JK ainda tentou negar qualquer ligao entre ambos, mas anal baixou a guarda: Procure-o e diga que pergunto se pode ajudar concedeu JK. O empreiteiro ajudou. Um petista pode retrucar que a cena se parece muito mais com o encontro noturno e soturno do empresrio Joesley Batista, dono da JBS, com o presidente Michel Temer. verdade, com a ressalva de que Wainer contou a histria no seu livro de memrias (Mi nha razo de viver) e no recorrendo a gravao clandestina (o que serve de medida para o nvel da corrupo contempornea no Brasil). No entanto, Michel Temer pode ser o chefe de um grupo de corrupo dentre outros no PMDB, o que tambm torna nada ocasional ser ele o primeiro presidente da repblica denunciado por crime de corrupo no exerccio do cargo. Havia (e parece continuar a haver) outros esquemas independentes de propina no partido, que na verdade, uma confederao (ou confraternizao) de siologismos. Com Lula, um partido se tornou uma engrenagem de corrupo, azeitada pelo leo da defesa de uma causa social e pblica, pela necessidade de primeiro tomar o poder para s depois reformar o pas. O segundo momento nunca veio. O PT virou um PRI brasileiro, to desejoso de hegemonia quanto de dinheiro para compr-la, como seu antecessor mexicano. A utopia patolgica de um sistema de partido nico em um regime democrtico pluripartidrio. Antes de Lula, a corrupo era como um laissez-faire, no contato individual, na anarquia do toma-l-d-c de cada caso de corrupo. Esse passado mudou com o esquema poltico de nanciamento do PT, que o prefeito de Santo Andr (SP), Celso Daniel, tentou brecar (quando o dinheiro ia tanto para o caixa 2 de campanha eleitoral quanto para bolsos pessoais) e acabou morto, exatamente no ano da eleio de Lula, cujas nanas iria coordenar. No novo contexto, os corruptores tiveram que se organizar de outra maneira. Pela primeira vez, depois de tantos anos a pagar propina sem qualquer punio concreta e, em regra, no maior sigilo, as empreiteiras criaram um setor na sua administrao para tratar s da compra de polticos e das falcatruas que precisaria engendrar para gerar recursos, com os quais manteria esse sistema de compra de vontades, adeses e cumplicidades. Essa inovao na corrupo mundial, to antiga quanto a sociedade humana, foi levada ao seu extremo de audcia e cinismo pela corporao empresarial que mais cresceu sob os governos do PT, cevada por dinheiro sem igual do BNDES, por ironia tendo sua principal origem no desconto compulsrio sobre o salrio dos trabalhadores (o que Getlio nunca fez). Diante do inerte, abobalhado e conspcuo procurador-geral da repblica, Joesley Batista declarou que tinha 1.800 polticos brasileiros no bolso. Rodrigo Janot selecionou desse saco de gatos o que lhe interessava, bem poucos, porm os mais poderosos, a comear pelo presidente, com quem mede foras (num vale-tudo sem antecedentes nos anais do pas) desde ento. Os outros corruptos talvez no viessem a ser incomodados se o excesso de vilania da JBS, antes, durante e depois da delao premiada e do acordo de lenincia, no a expusesse aos tiros de outros bandidos, de menor calibre, mas perigosos, como Eduardo Cunha e Lcio Funaro. Agora, os irmos Batista prometem entregar a cha completa da compra desses 1.800 polticos, o equivalente a trs vezes o contingente da Cmara dos Deputados. Para se salvarem, fornecendo provas mais robustas do que as entregues em troca do perdo generoso e paternal da dupla Janot-Fachin, esto dispostos a enterrar ainda mais a repblica. O francs mile Zola se espantaria ainda mais com essa canalha, de padro (se o possui) muito abaixo daquela que, na Frana, condenou Dreyfuss. Se sobreviver, o que s ser possvel se a Operao Lava-Jaro prosseguir na sua trajetria, ainda que cometendo er ros, o Brasil talvez venha a se tornar um pas diferente quem sabe, melhor.

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4 Condenao: que a justia decidaA condenao do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva foi um ato poltico, no um processo jurdico. Para no variar, os petistas garantem ser o mais grave processo poltico de toda histria do Brasil. Ofendem a memria de muitos inclusive alguns futuros petistas que morreram, foram condenados ou cumpriram penas por atos verdadeiramente polticos: combatiam o regime numa poca em que ser da oposio podia ser crime grave, enquadrado como subverso e terrorismo pela draconiana Lei de Segurana Nacional, a espada aada que pendia sobre a cabea da inteligncia nacional. Tais agentes polticos no foram sentenciados por corrupo ou suspeita de corrupo. Mesmo os grandes lderes polticos at o m da democracia de 1946, apenas 18 anos depois que ela comeou, acusados de corrupo num momento em que deixaram de ter vigncia as garantias e os direitos individuais, sujeitos a ritos de investigao sumarssima, saram ilesos dessa acusao, como os ex-presidentes Juscelino Kubitscheck e Joo Goulart, os mais visados e esmiuados dentre os integrantes da cpula do poder. Lula foi condenado a nove anos e meio de priso, em regime fechado, por corrupo passiva e lavagem de dinheiro no por executar algum programa de governo subversivo ou ilegal. muito diferente. Mas seus defensores alegam que ele no tinha como escapar a um destino manifesto: aquele que o juiz federal Sr gio Moro traou desde o incio da ao. O juiz teria sido parcial, impulsivo, tendencioso, agindo de m f, praticando atos ilegais, abusando da sua autoridade, tornando sua jurisdio ilegtima. No entanto, fracassaram as vrias tentativas da defesa de Lula de provocar a suspeio do juiz ou v-la reconhecida na instncia recursal, para a qual sempre apelaram. Os recursos segunda instncia, aonde a deciso colegiada, com trs votos, ou em plenrios maiores, foram indeferidos. Todos. Mera conspirao? As decises interlocutrias do juiz, em mais de dois anos de instruo do processo, foram conrmadas pelos magistrados do segundo grau na sua esmagadora maioria. Logo, ilegal e ilegtima a sua atuao no foi. Exceto no mbito do tribunal de exceo, que o PT costuma montar quando desagradado, contrariado ou punido. Derrotado nos confrontos com o juiz e incapaz de faz-lo resvalar para a objetiva retaliao, que o tornaria passvel de impugnao, os petistas reagiram deciso nal praticando o que atribuem ao juiz da causa: desconhecendo o contedo dos autos. Duvido que os veementes e s vezes agressivos parlamentares que imediatamente condenaram Moro ao quinto dos infernos tenham lido sua sentena, de 218 pginas. Eu a li duas vezes, na ntegra. A primeira leitura, de reconhecimento. A segunda, com mais vagar e anotaes margem do texto na reviso, para checar o contedo da deliberao. A sentena pode ser combatida e o ser, por ambas as partes. A defesa de Lula tentar provar o que j disse e repetiu ad nauseam sem convencer o julgador individual: o ex-presidente inocente. O Ministrio Pblico Federal se empenhar, sobretudo, em agravar o prazo da pena de priso, que o juiz dosou pelo mnimo previsto na lei processual penal. Ningum que tenha procurado ler com iseno o trabalho de Moro e equipe, entretanto, deixar de ter material suciente para afastar as hipteses de subjetividade no pronunciamento do magistrado. Ele e seus assessores produziram uma pea dentro dos melhores padres da tcnica jurdica. Seu relatrio enumera, debate e combate cada um dos argumentos apresentados pela defesa do ru. No passou por cima de nenhum dos questionamentos, inclusive as preliminares, abrangendo todos os incidentes processuais. Enfrentou-os de forma objetiva e com ampla fundamentao. A sentena no se tornou longa, excepcionalmente longa para o padro de redao de juzes brasileiros, para encher linguia ou tergiversar. Foi para resistir anlise de outros julgadores, convencendo-os. Para ser conrmada, portanto. Pode no ser, mas isso exigir contra-argumentos de grande solidez. Moro no foi apoiado pela segunda instncia no caso da condenao do tesoureiro do PT, Joo Vaccari Neto. Mas a reviso foi decidida porque no houve a comprovao suciente do crime a ele atribudo pelo acusador, o MPF (como aconteceu na armazenagem dos presentes presidenciais de Lula, insucincia reconhecida por Moro). O caso ainda vai subir at a instncia nal. Mesmo que no prevalea a deciso do juiz singular, no entanto, o caso Vaccari no serve de parmetro automtico para o caso Lula. Seus defensores podem voltar atrs no que disseram ontem e encarar a sentena como uma pea formidavelmente consistente. Tero que trabalhar muito para modic-la ou revog-la. Se quiserem continuar na estratgia atual, se exporo a um grande risco: no convencer a sociedade brasileira que se trata de mero expediente da elite para impedir Lula de novamente se eleger presidente no prximo ano. Pouca gente foi s ruas no dia do anncio da sentena. No h indcio de que essa abstinncia poder mudar pelos prximos dias. Ou o povo se cansou ou, quando um lder condenado por corrupo, deixando de ser apenas acusado, o clima muda. Retomar o ambiente anterior ser to difcil quanto continuar a martelar no ter espacial que Lula o maior perseguido poltico da histria do Brasil.

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5 O Estado no Lula (mas Lula pensava ser)Em 2011 a Granero transportou e armazenou em So Paulo os presentes que Lula recebeu durante os oito anos em que ocupou o cargo de presidente da repblica. A conta da despesa de armazenagem, apurada at 2016, quando o fato se tornou pblico, somou 1,3 milho de reais. Foi paga pela Construtora OAS. Paulo Okamoto, que cuida das nanas do ex-presidente e tambm presidente do Instituto Lula, no nega esse fato, mas sustenta que ele no congura vantagem indevida (ausncia de dolo que levou Srgio Moro a excluir esse episdio do mbito da condenao). A empreiteira pagou a incrvel conta de armazenagem como medida de proteo ao patrimnio cultural brasileiro. No entanto, Lula no transferiu esse patrimnio ao povo brasileiro. Guar dou-o para si, ao custo da maior taxa de armazenagem da histria do Brasil. Se sempre pensou nessa destinao, por que deixou a construtora, que realizou tantas obras caras durante o seu governo, assumir a despesa, que sua negligncia fez multiplicar o valor? O caso exemplica perfeio a confuso (ou promiscuidade) que Lula sempre fez entre o que dele e o que pblico. Entre a sua moralidade par ticular e a moralidade coletiva. Entre sua concepo particularista de tica e o que dene as relaes entre quem exerce um cargo delegado pelo povo e a populao diretamente considerada. Ao fazer essa confuso e colocar todas as coisas no mesmo balaio, o ex-presidente acabaria por se dar mal. Do caso de armazenagem ele se livrou (junto com Okamoto) por falta de provas. Mas deu-se mal com a sentena que lhe aplicou Moro, por corrupo passiva e lavagem de dinheiro, aplicando-lhe a pena de nove anos e meio de priso. uma deciso slida, que se estende argumentativamente por 218 pginas macias. O juiz reconhece que no h materialidade do crime. A escritura do imvel que deu causa ao delito, o famoso triplex do Guaruj, em So Paulo, ainda est em nome da OAS. Adverte Moro: a ao no cvel, criminal. Ela no foi instaurada para arguir sobre a existncia ou no de dominialidade do bem. Existe para apurar criminalmente se houve corrupo e lavagem de dinheiro. E isto o julgador demonstra exaustivamente que houve. Como a relao em causa de criminalidade complexa, tem valor maior a prova indiciria. Ela difusa e profusa no processo. Exigiu uma investigao meticulosa e hbil. Foram muitas as manobras para ocultar a transao ilcita da empreiteira com a autoridade mxima do pas. Um pequeno exemplo: Lula utilizava o celular de um dos seus seguranas, o 1 tenente Valmir Moraes da Silva, para escapar ao monitoramento do qual ele tinha plena cincia que sofria. E assim se comportou sempre, compartimentando a sua vida para quebrar todas as conexes com ele e manter-se numa redoma, enquanto seus amigos e aliados caam pelo caminho, sem contar sequer com a solidariedade do chefe, especialista em se livrar de responsabilidades, inclusive as inerentes ao cargo pblico que exerceu. O problema que o esquema era similar em todas as empreiteiras. Na OAS, o departamento de operaes estruturadas da Odebrecht era a rea de gerao ou controladoria, responsvel pelo repasse de vantagens indevidas. As destinadas a Lula, segundo o endosso do julgador, a partir das acusaes do Ministrio Pblico Federal, somaram 2,3 milhes de reais, ou quase 3% dos quase R$ 90 milhes que constituam a conta corrente geral de propinas aberta em nome do PT. Era preciso mant-la, sustentou outro condenado, Agenor Medeiros, diretor de leo e gs da OAS, porque a empresa tinha que realizar negcios com um governo corrupto. Condenado em 1 grau, Lula ainda tem trs instncias do poder judicirio a que recorrer para provar que no verdade, para dessa maneira poder assegurar a ameaada continuidade da sua carreira poltica, que pode chegar ao m com a conrmao da sentena do juiz singular pelo primeiro colegiado que receber a apelao de Lula. Assim na democracia. Ao contrrio de ser atingida pela sentena de Moro, ela foi conrmada. Est sendo.O ex-presidente e Temer: companheirosDesde o anncio da sentena do juiz Srgio Moro condenando Lula, os petistas se empenham em distinguir o caso do seu lder da situao do presidente Michel Temer. Moro se baseou em meras ilaes. No h a materializao dos crimes que atribui ao ex-presidente. Logo, no h crimes. J contra Temer so robustas (expresso em moda) as provas de corrupo. No exatamente assim. A defesa de Temer nega a existncia de qualquer prova de corrupo do cliente. Os 500 mil reais da propina paga por Joesley Batista cou com o ex-deputado Rodrigo Loures, que j devolveu integralmente o dinheiro Polcia Federal e no se pronunciou sobre o destino desse dinheiro. Logo, inexiste conexo. Sem o elo fsico, que seria o dinheiro, no h prova de que seu destinatrio seria Temer. A no ser com a consso do portador da grana. No h prova material de que Lula seja o dono do triplex do Guaruj. O registro do imvel continua em nome da OAS. Mas este era justamente o ar dil criado para esconder o dono de fato do patrimnio. No s porque confessaram os dirigentes da empreiteira, assumindo sua culpa na transao ilcita. O juiz aponta vrias provas contidas nos autos que estabelecem a relao da OAS com Lula, da mesma maneira como das JBS com Temer. Testemunhos, documentos escritos, vdeos, grampos telefnicos, conexes lgicas e outros fortes indcios apontam para o verdadeiro dono do imvel. Da mesma maneira como esse mesmo tipo de prova associa Loures a Temer, a partir de Joesley. Todos, portanto, esto no mesmo barco.

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6 O antiparlamentarismo das nobres companheirasPadro Globo de democraciaSempre fui um apaixonado por debates parlamentares. Testemunhei alguns enquanto meu pai foi deputado estadual (pelo PTB de Getlio Vargas, que presidia em Santarm), entre 1955 e 1958. Infelizmente, papai me levou poucas vezes ao prdio da Assembleia Legislativa, derrubado para ser substitudo pelo monstrengo atual, aperfeioado por um puxadinho do arquiteto-mor da cidade, Paulo Chaves Fernandes. Ainda era menino quando Jess Feitosa me apanhava em casa e me levava para as galerias do parlamento e as sesses do Instituto Histrico e Geogrco do Par, ao lado, no casaro do baro de Guajar, a mais bela das antigas edicaes particulares de Belm. Como reprter, assisti a inmeras sesses na AL (rebatizada para Alepa). No eram as exibies oratrias que eu prezava, mas superavam em muito os andinos e irrelevantes discursos de hoje. Ganha-se muito ignorando-os S uma vez estive no palcio Tiradentes em funcionamento, no Rio de Janeiro. Mas foi o bastante para nunca deixar de dar uma passada por ele, agora na funo de museu (com todos os sentidos que essa funo lhe impe). Passada demorada, conforme julgo necessrio. Graas a uma gravao em CD, pude ter acesso aos pronunciamentos de alguns dos mais notveis oradores brasileiros. Apesar das minhas imensas restries a esse orador em particular, no posso deixar de colocar Carlos Frederico Werneck de Lacerda como o maior tribuno de que j tive conhecimento. Reduzido s transcries por escrito, ele perde um tanto da sua fora. Ainda assim, sobra o bastante para lhe garantir essa posio. Era indigesto enfrent-lo. Mas ele no reinou sozinho. A banda de msica da UDN tinha excelentes personagens. O PSD, o maior de todos os partidos polticos de antes de 1964, tambm. Quando eles subiam tribuna, plenrio e galerias emudeciam, por prazer e aprendizado. Foi assim que a minha gerao aprendeu a cultivar e valorizar a democracia, que permitia grandes entreveros entre tribunos que sabiam falar e pensar. Esse patrimnio foi ofendido pela atitude das senadoras da oposio, no dia 11. Durante sete horas, o gesto de intolerncia e penria intelectual que adotaram trancou a mesa da cmara alta sua sesso regular. Sem impedir, ao nal dessa ginkana de pura teimosia e obscurantismo, fcil vitria no voto de um governo considerado em nal de festa sobre matria to controversa quanto a reforma da legislao trabalhista (necessitada realmente de refor ma, na presuno de ser uma mudana para melhor). Queriam promover uma insubmisso cidad, uma resistncia maneira de oureau. Que zessem ento uma reedio adaptada do sermao das trs horas da agonia, na sexta-feira santa. A que fez o ento padre Carlos Coimbra foi antolgica. Fizessem longos e ininterruptos discursos margem do ocialismo. Ao invs disso, querendo combater um alegado fascismo, praticaram um ato fascista, como fazem aqueles que, sem argumento, recorrem fora para impor seus objetivos e interesses. O espetculo do dia 11 das senadores foi triste, melanclico, pattico. Uma ofensa instituio e inteligncia, delas e de todos. Que esta pgina da histria destes dias de intolerncia seja logo virada. Os carros que chegaram para o almoo de domingo, dia 16, a uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Braslia estavam todos descaracterizados. Conduziram cinco deputados federais, inclusive o presidente da Cmara, Rodrigo Maia, o novo presidente da repblica se Michel Temer cair agora, e um ministro do prprio Temer. Todos atenderam a um convite do vice-presidente de relaes institucionais do grupo Globo, Paulo Tonet, uma eminncia parda no planalto central do Brasil (e bota parda nisso). Todos os carros entraram pela garagem da suntuosa residncia. Nenhum deles se identicou por seu nome. J tinham a senha de entrada. O assunto que os levou ao almoo foi sucientemente rico para mant -los sob aquelas quatro paredes por cinco horas. Saram apressados e no prestaram contas do que trataram. Segundo as interpretaes, preparavam o caminho para que o lho do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, suba as escadarias do Palcio do Planalto se Temer descer. A Globo quer que Temer renuncie. um direito dos seus donos, os trs irmos Marinho. Podem proclamar esse desejo em seus editoriais. Mas no podem entrar em cena, como fizeram, atravs de seu testa de ferro, um lobista junto ao poder central. A, sim, deixa de ser posio editorial. Vira conspirao ineditorial. Ruim para o jornalismo. Pssimo para a democracia.

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7 Depois, o dilvio(Este artigo, de maro de 1991, publicado em A Provncia do Par, um quarto de sculo atrs, atesta que ningum pode se dar por surpreendido pela violncia espantosa na Amaznia. Era previsvel. Talvez evitvel.)O cartorrio Antonio Santis, sequestrado na noite de segunda-feira passada, em Marab, antes de receber vrios tiros teve os olhos perfurados e os testculos estourados. Embora os assassinos tenham levado alguns objetos que estavam no carro da vtima, cou claro que se tratava mais do que um assalto. As selvagerias so praticadas tanto para fazer a vtima sofrer como para transmitir um recado aos que iam. O principal objetivo intimidar. Uns se intimidam. Outros se revoltam. Em junho de 1989, a populao de Rio Maria linchou o pistoleiro Sebastio, conhecido por Tinhozo. Com dois cmplices, ele matou um mdio fazendeiro muito estimado na regio para roubar-lhe o carro. Depois, cinicamente, voltou cidade para dar a notcia do crime, como se nada tivesse a ver. Endossou ainda a revolta do velho Vicente: disse que mataria o assassino. Descoberta a trama, Sebastio foi retirado da cadeia, recebeu pontaps e teve os olhos arrancados a mordidas. Adultos e crianas cantaram e gritaram em torno do cadver. Foi uma exploso de protesto de pessoas massacradas pelo ambiente de constante violncia de uma das mais terrveis cidades do serto brasileiro. Ali, matadores famosos so apontados nas ruas, pelas quais transitam com desenvoltura, como se fossem cidados acima de qualquer suspeita. Nas esquinas, nos bares e nos pontos de encontro, comentam-se diariamente os crimes cometidos, raramente prises, quase nunca punies. A natural indignao de todos manipulada por alguns. Diz-se que um ex-dirigente e lder poltico local insuou o linchamento do pistoleiro Sebastio para queima de arquivo.Os dois outros assassinos no foram presos nem perseguidos. No interessava.O personagem conseguiu reaver o vdeo de uma gravao feita por um amador das cenas do linchamento. A vida nessas reas de beira da estrada do sul do Par vale apenas pouco mais do que uma rvore, que vale quase nada. Em maio de 1989, o posseiro Cear estava sentado diante da porta da sua casa, em plena cidade de Rio Maria, com os dois lhinhos nos braos. Dois pistoleiros (que teriam sido contratados por um dos maiores fazendeiros do municpio) chegaram diante de Cear, deram-lhe dois tiros no pescoo. Antes de fugir, empurraram a esposa do posseiro, que viu tudo. As crianas caram ao cho, chorando. A polcia alegou no ter conseguido pistas dos criminosos. No ano passado, a Polcia Federal encontrou ossadas humanas no chiqueiro de uma fazenda em Marab. Foi a primeira comprovao ocial de denncias que vm se repetindo na regio. Corpos de vtimas de crimes de encomenda esto sendo atirados aos animais. Em Rio Maria, circulou histria ainda mais macabra: um pistoleiro retalhou a faca o corpo de um peo que matou, o cozeu e o deu aos porcos. Outro matou a porretadas um peo que se aproximou da sua mulher e retalhou-lhe a pele do rosto, colocando-o na cerca do porto de entrada da fazenda. Outros corpos so retalhados e enterrados para adubar a terra.Pees so torrados em queimadas de orestas, amarrados a rvores. Raimundo Nonato Pereira da Silva trabalhava como motorista de uma empresa de nibus de Xinguara, transportando lavradores e pees para uma colnia agrcola. Fez esse servio durante dois meses, sem carteira assinada. Foi despedido sem indenizao. Tentou receber o que lhe era devido. Depois de vrias tentativas em vo, nalmente foi recebido no escritrio da empresa. L dentro, foi morto com seis tiros e 12 facadas. Os assassinos, parentes do dono da rma, no foram incomodados. A populao j pouco espera da polcia ou da justia. Tem mais do que justicados motivos para essa descrena. Em junho de 1989, parentes do garimpeiro Josias deram trs tiros em Renato, que matara Josias com um tiro na nuca enquanto ele se abaixava para tomar gua num crrego, roubandolhe 430 gramas de ouro. Os dois haviam sado juntos do garimpo Fogo Queimado, em Ourilndia. Josias era amigo de Renato. No ano anterior, outro garimpeiro, Nonato, foi morto na rodoviria de Rio Maria a facadas pelos irmos do garimpeiro que ele assassinara. Uma violncia depois da outra insensibiliza. A morte vira coisa comum, natural. J no suciente matar o desafeto ou o apontado. preciso bar bariz-lo. Governo, justia, polticos fecham os olhos porque no querem ou no conseguem ver. s vezes so mesmo cmplices ou autores de alguns desses crimes. Selvagerias como as praticadas contra o cartorrio de Marab mostram que, na Amaznia, a escalada da violncia est prestes a s e tornar incontrolvel, sem retorno, uma barbrie s.

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8 DOCUMENTOUma viso condencial do polmico Mr. Link polmico personagem do incio da histria da Petrobrs e da prpria histria do petrleo no Brasil. Durante cinco anos, entre 1956 e 1961, ele chefiou a diretoria de explorao aps a criao do monoplio estatal do petrleo e um ano depois da descoberta de leo na Amaznia: em maro de 1955 jorrou proximidades de Manaus, no Amazonas. Quatro mil barris chegaram a ser produzidos (outros 1.800 barris em Auts-Mirim). nada menos do que um milho de quilmetros quadrados de bacia sedimentar aluvional, considerada um alvo preferencial para a acumulao de hidrocarbonetos. Se finalmente o leo irrompeu do subsolo era porque em breve a regio estaria produzindo tanto quanto as principais zonas petrolferas do mundo. seguintes, todas as esperanas de surgir um campo comercial de petrleo se frustraram. Muitos no estavam dispostos a aceitar que geolgicas da Amaznia, repletas de surpresas. Estavam convencidos que os fracassos derivavam Magalhes, primeiro presidente da Petrobrs, comandou a busca do precioso energtico, sempre um peso excessivo na frgil balana comercial brasileira, o americano no teria literalmente de ouro (seu salrio era de 100 mil dlares ao ano, em valores do final da dcada de 50). Na verdade, seria um espio da nas reservas brasileiras. de sua atuao na Petrobrs justificariam essas desconfianas, realimentadas pelo xito que a Petrobrs obteve no Recncavo Baiano logo aps mesmo um espio, um sabotador, um tcnico de m-f, ou seus erros tinham raiz mais simples: sua arrogncia, sua vinculao aos amigos que deixara nos Estados Unidos e a falta de do Brasil? no havia petrleo no Acre, apesar da confiana nacional em sentido contrrio, e de que a rea mais propcia a acumulaes era o Mdio Amazonas, onde foi encontrado o primeiro campo de leo em escala de produo comercial da regio, o Urucu, que viria a ser a maior fonte de leo para o pas em terra. na historiografia brasileira. Para enriquecla,republico a partir desta edio, em duas partes, um documento que era absolutamente Agenda Amaznica, publicao mensal que durou pouco mais de dois anos. escreveu em 1958, dirigido ao seu superior imediato, o superintendente regional da uma conversa que Passarinho, adjunto da uma excurso ao extremo noroeste do Acre. As opinies do gelogo americano impressionaram tanto ao militar que ele decidiu repass-las aos escales mais altos da Petrobrs. Esse documento no havia sido publicado at este momento. mesma gravidade de quem o produziu, quando tinha apenas um ano de empresa, no se sabe. a superintendncia um pouco depois, sendo substitudo pelo prprio Passarinho. poltica, o ex-superior chegando a prefeito de Belm e a deputado federal, enquanto Passarinho acumulou mais cargos do que no parece ter-se importado em ver sua conversa transformada em relatrio. Suas relaes com Passarinho no mudaram. E como chegou ao que j no era o mesmo.

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9 A m de representar a SRAZ [Su-perintendncia Regional da Ama-znia ] nos estudos que a Depex [ Diretoria de Explorao ], atravs de seu prprio Chefe, Mr. Walter Link, ia reali-zar no Acre, a partir de 12 do corrente, dirigi-me para Cruzeiro do Sul, l che-gando a 11 deste ms. No dia seguinte, recebi no Aeroporto o Sr. Link, que se fazia acompanhar do sr. Richard Blaken-nagel, Supervisor de Geologia de Campo. J se encontravam na mesma cidade o sr. Phillip Paris, Chefe de Sec da SRAZ, e o Gelogo Dirceu Leite, Chefe da TG-1. A viagem para o rio Moa Poucas horas depois de chegar a Cruzeiro do Sul, o sr. Link iniciava a su-bida do Rio Moa. Acompanhavam-no todas as pessoas anteriormente citadas neste relatrio e mais o Gelogo Darcy Germani, assistente da TG-1. Fizemos a viagem nos botes de alu-mnio, dotados de motor de popa. Des-de logo foi fcil vericar que mesmo o Rio Juru, que percorremos at a con-uncia com o Rio Moa, apresentava guas to raras que no permite, a esta poca do ano, navegao de embarca-es de calado superior a 4 ps. A nalidade da viagem do sr. Link era estudar, no local, as possibilidades oleferas da regio do Moa, inclusive a Serra do mesmo nome. Aps dia e meio de viagem, atingi-mos o local denominado Acampamen-to, ou P da Serra, onde est montada a organizao de base de apoio da TG-1. No dia imediato iniciou-se o traba-lho de geologia de superfcie. Inicial-mente zemos o percurso ainda utili-zando os botes. Os gelogos estudavam certos trechos do rio, j agora com a as-sistncia do gelogo Bouman, chefe da TG-2, que se incorporara comitiva a partir de certo trecho do rio Moa, no dia anterior. Na mesma jornada estivemos ainda nos locais onde o Conselho Na-cional de Petrleo fez perfuraes pio-neiras, tendo que, a partir do local Pe-dernal, onde a navegao do Moa sofre soluo de continuidade por presena de cachoeira, penetrar na mata e percor-rer cerca de 4 km at o local onde ainda se encontra erguida a torre da sonda de percusso, utilizada pelo Conselho Na-cional de Petrleo e posteriormente l abandonada. Em todas essas ocasies o sr. Link trocava ideias com os gelogos e fazia comentrios. Regressando, ao m da jornada, base de operaes no P da Serra, assisti, nessa noite, planejamento feito pelo ge-logo Dirceu Leite, da viagem, atravs da selva, para estudo da Serra do Moa e alguns dos cursos dgua l existentes. Por quatro dias estivemos palmilhando trilhas, escalando morros, vadeando e explorando igaraps, no trabalho cor-respondente ao programa traado pelo gelogo Dirceu Leite. No quinto dia zemos marcha de cerca de 20 km, re-gressando base de P da Serra. As observaes estavam concludas, e os trs dias restantes foram consumidos com a viagem de regresso a Cruzeiro do Sul e Manaus, que atingimos a 23, retor-nando a Belm a 25. A 29, aps as confe-rncias realizadas pela equipe da Depex, aqui chegada a 25, em conjunto com os tcnicos do SEO a respeito do oramento de 59, o sr. Link fez uma exposio, presi-dida por V. S., para a nossa Comisso de Coordenao, na qual tratou, principal-mente, do problema do Acre. As concluses e observaes mais minuciosas da viagem, estudo das con-dies para apoio logstico s operaes no Acre, inspeo das Turmas de Geolo-gia e da EG-8, constam de um relatrio ostensivo, que passarei, em curto prazo, s mos de V. S. No presente documen-to, de carter condencial, pretendo expor V. S. e Administrao Central da Empreas, por seu intermdio, o que ouvi do sr. Link e as concluses que tirei dos seus comentrios e mesmo das suas conversas pessoais comigo. O caso do AcreDurante as conferncias de geolo-gia, nas vrias fases do estafante trabalho realizado no Moa, o sr. Link tornava cada vez mais enftico o seu ponto de vista de que o Acre no ofere-ce grandes possibilidades oleferas. Fre-quentemente, interpelava-me a respeito das condies logsticas para suporte de uma operao naquele ponto do territ-rio nacional e dizia que s uma reserva de bilhes de barris de leo justicaria a explorao naquele local, dadas as tre-mendas diculdades a vencer. Analisando as locaes das torres pioneiras do CNP [ Conselho Nacional do Petrleo], particu-larmente a que se encontra adentrada na oresta, chegou, num instante de falta de comedimento, a dizer que aquilo s era possvel como fruto de deciso [de ] ns-cios (dull). Foi sarcstico na apreciao que em seguida fez, referindo-se gua sulfurosa e tpica que emana dos furos re-alizados pelo CNP, qualicando o resulta-do obtido de excelente para a montagem de um hotel de turismo, que sugeria se denominasse Hotel de la Frontera. Piada essa que, alis, repetiu na exposio feita na sede da SRAZ [Superintendncia Regio-nal da Amaznia], no dia 29 de corrente [ dois dias antes]. Incidentalmente, fez comentrios de-preciativos sobre a deciso de furar no Acre, h 20 anos atrs, ao tempo do CNP. Sobre o trabalho do gelogo Pedro de Moura, disse discordar da classicao de carbonfero que este deu a uma rocha sedimentar colhi-da no Moa e no rio Capanaua. Sustenta que no se trata de carbonfero. Atribui, pelo que viu, ser rocha pr-paleozica, ou pale-ozico inferior. Foram colhidas amostras, que o gelogo Dirceu Leite cou encarre-gado de remeter para os laboratrios de pa-leontologia, para anlise e esclarecimento denitivo. Essa controvrsia importante, uma vez que essas foram as nicas incidn-cias vericadas de rochas possivelmente geradoras de leo. Se como o sr. Link sa-lientou para a Comisso de Coordenao no for carbonfero, ento que as pos-sibilidades no Acre se tornam ainda mais remotas e duvidosas. Para o sr. Link, o Acre o ltimo lu-gar, no mundo, onde ele inverteria dinhei-ro prprio para pesquisar petrleo. Disseme isso algumas vezes, acompanhando essa frase de comentrios mordazes a respeito da deciso, h duas dcadas atrs, do CNP, explorando no Moa. Acha que o valor do trabalho pioneiro dos srs. Moura, Wanderley e Neiva inegvel, como tra-balho preparatrio, de explorao. Mas acha de uma estupidez sem par defenderse o ponto de vista da certeza do leo no Acre, estribado nesse trabalho ou, pior ainda, pelo simples fato de haver leo a 70 km da fronteira, no Peru... Diz que no toa que as concessionrias, no Peru, se desinteressaram da regio fronteiria com o Brasil. que no seu entender a es-pessura da camada de sedimentos mari-nhos do cretceo, responsvel pelo leo de Ganzo Azul e Contamana, estreita-se e reduz-se, proporo que o mergulho caminha para leste. Firma-se, para isso, na presena, inclu-sive, de aoramentos de embasamento en-contrados pelas TG (Turmas de Geofsica] em operao no Moa, Capanama, etc. e, muito particularmente, no conhecimen-to que tem da regio adjacente peruana, onde fez geologia para a Standard [Oil ]. Conclui dizendo que, achando-se leo no mdio Amazonas, no se justicaria fu-rar no Acre nem dentro de 100 anos...

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10 O sertanista morre no serto que arde um cncer contra o qual lutou durante alguns anos. Ele foi um dos maiores sertanistas do pas. Nos necrolgios, foi tratado por indigenista, um conceito menos apropriado, mas cabvel. Remexendo papis numa arrumao compulsria, encontrei um artigo de 13 anos atrs, no qual tratei de Porfrio. Reproduzo-o para conhecimento dos mais novos ou de quem no leu o jornal na poca.Um terrvel sonho recorrente me ataca de tempos em tempos: um pivete me assalta e me mata, indiferente s minhas tentativas de convenc-lo que sou uma pessoa til sociedade, inclusive a marginais como ele. O pesadelo simboliza uma das minhas preocupaes com crimes banais envolvendo personalidades pblicas, o desperdcio de talentos dedicados a causas coletivas em acontecimentos menores. A memria do sonho me veio no domingo passado, mal abri, na tela do computador, a notcia da morte, na vspera, do sertanista Apoena Meireles. Ele recebeu dois dos trs tiros que um homem disparou contra ele, ao tentar assalt-lo, sada do caixa eletrnico de uma agncia do Banco do Brasil em Porto Velho, capital de Rondnia. Apoena tentara reagir ao assalto, segundo a verso apresentada pelas autoridades. O crime seria comum, de latrocnio, como nos meus sonhos, embora sua vtima pudesse ter sido alvo de um atentado poltico, mais um desses crimes de encomenda j to frequentes em todo pas. Apesar das evidncias em favor da primeira verso, ainda relutvamos em aceit-la. Apoena tinha sido deslocado para Rondnia pela Funai (Fundao Nacional do ndio) para impedir a continuao da garimpagem de diamante na Reserva Roosevelt, dos ndios Cintas-Largas. Centenas de milhes de reais estavam saindo do territrio indgena na forma de pedras preciosas. Muito dinheiro envolvido numa questo polmica. Poderosos interesses foram e continuariam a ser contrariados. Abriam-se, portanto, veredas para qualquer hiptese. Como o sertanista era tambm assessor especial da Presidncia da Repblica, o veio do crime de encomenda (e no de um infeliz incidente de crime comum) no podia ser logo abandonado. A Polcia Federal est testando-o neste momento em que escrevo. Alguns anos atrs eu (junto com outros enviados especiais da grande imprensa nacional) j estaria em Porto Velho, ponto de encontro que tinha, nessa poca, com personagens de linha frente dos acontecimentos amaznicos, como Apoena. Fomos juntos, quase 30 anos atrs, para uma das duas aldeias dos ndios Suru, no meio de um dos muitos fogarus sociais que vivem irrompendo no interior da Amaznia, chagas humanas de um incndio real que parece nunca ter m. Colonos sulistas, muitos deles descendentes de europeus, haviam se apossado de 10% dos 220 mil hectares do Parque Indgena Aripuan, vizinho do Roosevelt, umbilicalmente a ele vinculado por idas e vindas de Surus e Cintas-Largas. Foi Apoena quem deu esse nome, de Suru, aos ndios que se distribuam pelas duas aldeias. Um gesto de amizade e solidariedade, mas equivocado. Os ndios mesmo se apresentavam como Pater, expresso atravs da qual reivindicavam o direito de ser tratados como gente. Erro parecido haviam cometido os Villas-Bas com os ndios que contataram a leste dali, no rio Peixoto de Azevedo, os Kreenakarore, que na verdade eram Panar. Apoena e seu pai, Chico Meireles, talvez o maior dos sertanistas lato senso, assim como os trs irmos Vilas-Boas, foram pessoas respeitveis, de uma herica dedicao s causas que assumiram. Mas estavam sujeitos a misrias pessoais e circunstncias externas. Antnio Callado retratou suas divergncias em Quarup, romance que todas as pessoas interessadas em conhecer este gigante adormecido deviam tratar de ler. co clf. Per sonagens reais aparecem com outros nomes, no muito diferentes. Chico Meireles Chico Fontoura. Os VillasBas so Vilas-Verdes. Esses sertanistas sempre foram mandados s pressas fazer contato com tribos isoladas quando uma estrada, uma hidreltrica ou um projeto de colonizao deparava com elas. Aceitavam a or dem superior com a esperana de salvar os ndios. Depois de algum tempo, porm, cava difcil no chegar concluso de que foram amansar a destruio, amaciar o golpe, dourar a plula fatal. Mas j no conseguiam viver de outra maneira, numa relao pendular entre o bom e o mau, o certo e o errado, o claro e o escuro, a mata e a cidade, uma mulher urbanizada e intelectualizada esperando-os em casa e a selvageria do serto, os ndios e os brancos. Aguentavam a barra, pesadssima, atravs de derivativos. O lcool tem sido o mais comum. J bebi com vrios deles no meio da mata, entre Suru ou Gavio, Kayap ou Xavante. Quando o lcool libera a voz, sua fala de amargura, tristeza, frustrao. De dia costumam recuperar o lan, o vio, a conana. Trabalham como animais. Depois anoitece e volta o ciclo. Callado foi feliz na reconstituio do processo, centrado em Francisco Meireles, ou Chico Fontoura. Bbado, Chico dizia que um dia desceria no Rio de Janeiro, ento capital federal, e ajudaria os ndios a echar todos os burocratas do SPI (hoje, Funai) e associados para vingar tanta morte de ndios e morte inglria. Meses atrs deparei numa livraria com um desses grandes sertanistas, Jos Porfrio de Carvalho. Conhecemo-nos atravs dos Waimiri-Atroari, dos quais se tornou o maior especialista e, ento, porta-voz. Hoje se dedica a ajud-los atravs de um projeto patrocinado pela Eletronorte, tambm aplicado aos Parakan. Os port-folios dos resultados so coloridos e inconvincentes. Mas nunca mais voltei a conversar sob o toque de uma garrafa de lcool. J no bebo h tempos. Esse sertanista, acho que tambm no.

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11 Os vorazes predadores e a carnia da PetrobrsContinuo a respeit-lo. Quanto aos resultados, so outros 500. Foi dele que tive as mais recentes notcias sobre Apoena. Estava retirado, amargurado, bebia um pouco alm da conta. Quando vi a imagem de Apoena no Fantstico do dia seguinte ao do seu assassinato no conseguia mais associ-lo ao sertanista que acompanhei em alguns episdios dessa sanguinolenta colonizao da Amaznia, estrito senso, da minha idade, um homem calado, desconado, arguto, inteligente, gil, longilneo um ndio colocado do outro lado do balco da sociedade. Do lado dos vencedores, dos autores do enredo, dos colonizadores. Com os quais, porm, Apoena Meireles jamais se identicou. Inclusive quando, meio a contragosto, sem jamais perder a conscincia, os serviu. Nessas horas, ele bem sabia, estava errando. Mas errar humano. E foi como um personagem demasiado humano que, anal, ele se foi, num episdio de estupidez e barbrie, como o que lhe serviu de cenrio derradeiro, na Por to Velho dos nossos dias. Velhssima, apesar de to nova. Uma plataforma de petrleo no custa menos de um bilho de reais. Com a descoberta e as revelaes sobre o volume de leo do Pr-Sal, o gover no Lula concebeu um vasto programa de explorao, que colocaria o Brasil no topo do ranking dos produtores mundiais. Seriam mais de 30 novas sondas. Investimento de magnitude rara, que atrairia para o pas empresas de todo mundo, alm de dinamizar a economia nacional. Tudo estudado de forma sria e competente, bem planejado? Depois de ver o depoimento do lobista Jorge Luz ao juiz federal Srgio Moro, em Curitiba, no dia 19, impossvel no ter uma sensao de perplexidade e de der rota. Luz entrou na Operao Lava-Jato e est preso desde fevereiro, em Curitiba, junto com o lho, Bruno, graas a uma histria simplesmente inverossmil. Inacreditvel mesmo se o caso fosse de pequena monta. Chocante quando sua par ticipao relacionada ao que a motivou. Paraense criado no Rio de Janeiro, Jorge Luz engenheiro, dono de uma empresa de engenharia. O que ele menos faz, porm, obra. Sua funo essencial a de lobista intermedirio ou, quando necessrio, laranja til para negcios escusos ou ilcitos, desde que lhe rendam o bastante. Em 2005 ele conheceu Fernando Soares, que tambm atende por Fernando Baiano. Na Lava-Jato, ele denido como sendo o operador do PMDB junto s empreiteiras que prestam servios Petrobrs, a maior empresa do Brasil, das maiores do mundo, ainda estatal, mas com aes negociados em bolsa. S que Fernando no estava operando para o partido. No estava conseguindo segurar em seus respectivos car gos dois diretores da Petrobrs: Paulo Roberto Costa, de distribuio, e Nestor Cerver, da rea internacional. Diretores corruptos, que talvez estivessem na mira de algum interessado em brecar o que eles vinham fazendo a velha e individual corrupo brasileira, na qual cada um pode agir por si. Jorge Luz se ofereceu para aproximar os dois diretores de polticos de peemedebistas que poderiam mant-los onde estavam. Um deles seria Jader Barbalho. Colocando o ex-governador paraense no fogo, ainda assim o lobista conr ma o que Jader armara: s se encontraram uma vez, em 1983. Em 2006, 23 anos depois, no entanto, voltaram a se encontrar em uma reunio na casa dos senador, no Lago Sul, em Braslia. L estavam tambm os peemedebistas que iriam assegurar a permanncia dos diretores corruptos da Petrobrs: o senador Renan Calheiros, seu aliado, o deputado federal Anbal Gomes, e o maranhense Silas Rondeau, alhado do ex-presidente Jos Sarney, que presidia a Eletrobrs depois de haver comandado a Eletronorte. A proteo custaria 11,5 milhes de reais, que seriam pagos em parcelas e teriam sido integralmente quitados, segundo Luz, que teve o cuidado, porm, de enfatizar: no participara dessas liberaes. Sua propina era pessoal, diretamente com as empresas privadas favorecidas. Como que um grupo to restrito de polticos do PMDB poderia levantar uma muralha de proteo dos dois importantes diretores, que j deviam estar sob suspeita, assegurando que eles poderiam continuar a praticar suas falcatruas sem o risco de serem demitidos? Qual era o canal de contato com a cpula da Petrobrs, ou melhor, com a cpula do governo federal (na era Lula), o patro da estatal do petrleo? Lula nada sabe sobre isso. Ele deve ter tido tempo suciente para preparar o seu testemunho, de modo a restringir o seu delito cobrana de propina pela ao de lobista, como intermedirio entre as partes, que, a partir da, agiram em outra rbita. libi esperto o bastante para tambm minimizar a parte que caberia ao lho, reduzido condio de mero cumpridor de ordens do pai, sempre preocupado com a preservao do lho (e sua boa educao, claro). Jorge Luz se permitiu gastar seus 50 minutos de depoimento com tiradas loscas sobre a corrupo, como se no tivesse nada a ver com sujeiras. um lobista, anal. Assegurou para Moro que poltico algum tem conta no exterior. O circuito entre a empresa que paga (sobre a origem desse dinheiro ele nada disse) e o operador, que abre as contas, recebe e paga. Uma investigao bem feita pode at chegar a Jader, Renan, Anbal ou Rondeau. Mas estabelecer a conexo material vai ser muito difcil. A no ser que Luz esteja escondendo alguma carta de maior valor na manga para a delao premiada. O material que exibiu no lhe garante nada, embora ele tenha se incriminado, de forma venial, porque no tem santo nessa histria, porque so as regras do jogo, porque ningum paga no para nada receber, e mais algumas das prolas do seu repertrio. Tudo varejo. A questo do atacado : quem conferiu aos polticos do PMDB, como aos demais da base aliada do governo, o poder de deciso sobre a administrao da Petrobrs? Poder concedido gratuitamente, de tal forma a dar grandeza vil a personagens liliputianos, como os predadores da Petrobrs, ratos a atazanar uma gigante?

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12 No incio de 1945, o Ipase (Instituto de Previdncia e Assistncia dos Servidores do Estado) comunicou a quem interessar possa que comprara o Edifcio Bern (com cinco andares), na ento avenida 15 de Agosto (Presidente Vargas) do casal William Bern. O imvel j estava registrado em car trio do Rio de Janeiro. E se encontra atualmente em pssimo estado de conser vao, como, do mesmo lado da rua, est o muito maior prdio do antigo IAPI. Para vergonha da cidade.A instalao da nova sede do colgio do Carmo no ter reno do cemitrio da Soledade chegou a ser cogitada, em 1954, mesmo com o absurdo da destruio do chamado campo santo, que sobrevive at hoje, apesar da incria. A ideia surgiu porque a Arquidiocese anunciou a inteno de retomar as instalaes, que lhe pertenciam, e onde os salesianos se instalaram, 25 anos antes. Show Nazareno na Condor original e o sincrtico, sempre andaram de mos dadas na cultura popular, reprimida rei da noite (Belm eestava cheia de reis sem trono), realizava o seu show nazareno, boemia paraense. Eram as vedetes do sul ou internacionais. Os prprios salesianos admitiram a mudana, por considerarem limitada a rea de que dispunham na Cidade Velha, que ento abrigava 800 alunos. Felizmente, o projeto no foi avante. (1)Em 1957, o Globo publi cou uma srie de matrias escritas pelo seu enviado especial, Jos Leal, sobre o contrabando no Brasil. O destaque foi para Belm, considerada a capital nacional do contrabando e apresentada nessa condio opinio pblica na capital federal. O impacto causado por vrias pginas com texto e fotos foi grande. Joo Malato, que escrevia uma crnica diria na Folha do Norte ento o jor nal de maior circulao e inuncia no norte do pas, repercutiu a s denncias, reproduzidas pelo prprio jornal paraense. Com ironia, ele se declara surpreendido pela citao, como contrabandistas, de guras obrigatrias do caf-society, com palacetes de paredes de cristal na avenida Nazar e que costumam deitar pregaes morais e cvicas nos almoos do Rotary Clube. (2)Os citados pela repor tagem (usando expresses que marcaram para sempre, como ferro em brasa) na condio de contrabandistas e apontados por Malato eram Arnaldo Paula, Paulo Bezerra, Guerreiro Marques, Fernando Teixeira, Zacarias Neves, Arnaldo Giesta, Raimundo Miranda, Jorge Resque, Jos Alves, Messody Azulay, Manoel Rodrigues, scio do famigerado trust do Caf Sculo XX, Jorge Age, Oscar Salame, Ari Marques, Jaime Soares e o prprio Guarda-Mor Jorge Arajo e sua esposa. O contrabandista nmero um, Enas Barbosa, narra causos que estarrecem pela audcia, pela impunidade e pela degradao em que camos em matria poltico-partidria, ao ponto das autoridades aduaneiras e consulares no Par e na Caiena serem nomeadas por indicao desse marginal. Finaliza Malato: E enquanto a corrente sem m do contrabando prossegue, com o gado marajoara que vai e os automveis que vm indenidamente e consentidamente h um Estado que se desonra e um povo que passa fome. Era e ainda a elite paraense.A primeira turma diplomada j pela Universidade Federal do Par e no mais pela Faculdade de Medicina, como unidade isolada de ensino superior, colou grau em 1957 (h 60 anos,portanto). Dela participaram 27 alunos (19 homens e 8 mulheres): Alcides da Costa Gallo, Agostinho

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13 da Cruz Marques, Albanyr Leal, Alcyr da Costa Arajo, Augusto Barbosa Bordalo, Altair Ro Ferreira de Lemos, Arival Cardoso de Brito, Carlos Alberto Salgado Borges, Carlos Jos Rodrigues da Cunha, Carlos Pinto de Almeida, Cheker Rauda Naim, Clara Augusta Martins Ventura, Jacy de Nazar pina, Jos Lurine Guimares Jnior, Jos da Cruz Cmara, Jos Hyran Soares, Maria Jos Pond Chaves, Mrio Ernesto de Serra Barbosa Rodrigues, Neida Lopes Rocha, Neide Silveira Brito, Neusa Lima Dillon, Neusa Rodrigues Carneiro, Oziel Rodrigues Carneiro e Reynaldo Silveira de Oliveira. O orador foi o futuro empresrio e poltico Oziel Car neiro. O paraninfo, Gervsio de Britto Mello.As 10 mais elegantes de 1957 foram, na verdade, nove, sete delas casadas e Uma mquina de escrever Braslia, para fazer compras na nota fiscal foi sorteada e ele recebeu o brinde do ms: uma bela mquina de escrever das mos de um dos donos da loja, o empresrio Altino mandou represent-lo um amigo, que Deve ser um estranho objeto para os jovens de hoje. duas solteiras: Edith, casada com Nicolau da Costa; Maria de Nazar (Dilermando Menescal), Eunice (Deusdedith Moura Ribeiro), Darclia (Joaquim Nores e Souza)., Neusa (Raymundo Dias), Sulamita (Elias Ferreira da Silva) e La (Leandro Tocantins), mais as senhoritas Francy Brasil (depois Meira) e Norma Arajo. Os jurados foram os colunistas sociais Pierre Beltrand (ainda na ativa), Edgar Proena, Romulo Maiorana, Maria Dolores e Regina Pesce.COMANDANTEEm 1929, o piloto americano V. A. Wright fez escala em Belm no primeiro voo da Pan American com destino ao Brasil. Em 1962, 33 anos depois, o comandante realizou sua ltima viagem antes da aposentadoria, a bordo do avio mais usado na rota entre os dois pases at ento, o Constellation, que tinha na capital paraense um ponto importante da viagem. Wright escalou novamente em Belm, onde foi recepcionado por uma equipe da empresa, frente o gerente local, Ren Watrin. Belm ainda estava no mapa da aviao internacional.Em 1973, o coronel Nlio Lobato, prefeito de Belm, provocou grande polmica ao lamentar, em entrevista, que a imprensa local estivesse fazendo campanha contra a sua administrao. Nada do que enviava aos jornais era publicado. Seus assessores lhe teriam transmitido uma velada proposta de diretores de jornais paraenses, sugerindo que a Prefeitura, de vez em quando, fornecesse matria paga imprensa, para compensar o noticirio gratuito veiculado pelos matutinos da capital. Os polticos saram em defesa da imprensa e condenaram os assessores do prefeito. Eles lhe teriam mentido.O nome de Stlio Maroja foi esquecido por duas vezes em 1973, quando foram inauguradas as avenidas Pedro lvares Cabral, que ele abriu e asfaltou integralmente, com recursos prprios da municipalidade, e Duque de Caxias, por ele projetada. Poltico da oposio ao caudilho Magalhes Barata, Stlio foi o ltimo poltico a se eleger prefeito de Belm pelo voto direto, em 1966, depois do golpe militar de dois anos antes. Renunciou ao primeiro mandato de deputado federal e cou frente da comuna de 1966 a 1970, tratado discretamente. Mas se elegeu de novo deputado federal, graas sua boa administrao. e cumpriu um mandato, quando se afastou da poltica. Morreu aos 64 anos, em 1978. Foi esquecido de novo, imerecidamente. Depois dele, nenhum prefeito da capital paraense o superou.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Jornalismo e internetNa semana passada postei o texto de nmero trs mil no meu blog (www. lucioaviopinto.wordpress.com). Com ele, dei por concludo o projeto que me levou a cri-lo, quase trs anos atrs: de tentar transferir para a internet o jornalismo que se fazia e ainda se faz na verso impressa em papel. At o formato do blog foi concebido com esse propsito, imagem e semelhana deste Jornal Pessoal, meu papel impresso. Sem, imagens, textos curtos (ou mnimos), cores, rulas. Tudo para no dar certo. No deu, claro. Mas foi uma excelente experincia para mim. Acho que pude mostrar algumas vezes que possvel reagir instantaneamente aos fatos sem estar sujeito bitola das consultas a banco de dados, principalmente ao Google, que homogeneza quase tudo. Houve dias com mais de 10 textos em cima dos acontecimentos, situados em seu contexto e analisados. O mais impor tante (e trgico): sem seguimento pela grande imprensa, apesar da relevncia do tema. Como na verso impressa, cou provado, na edio digital, que certos dados so deliberadamente escondidos, mantidos distncia da opinio pblica para assim poder manipul-la. Ainda assim, os 3 mil posts provocaram 15 mil comentrios. Afora uma dzia de improprios e ataques vis, foram intervenes ponderadas e positivas dos leitores do blog. Com suas participaes, eles contriburam com a parte melhor do espao. Com o tempo, pela limitao da par ticipao, criou-se uma quadratura no crculo. Cad os outros? Onde se esconderam os grandes nomes da intelectualidade paraense? Por que silenciam? No estou reivindicando qualquer ttulo de sucesso. Meu blog jamais pretendeu ser um campeo de audincia. Queria ser, como o JP, no mximo, um espao da inteligncia, da reexo, da controvrsia criadora. Conseguiu ser em alguns momentos. Da seu modesto resultado ser tambm uma boa conquista. A internet, porm, e parece condenada a esse destino, um espao do desatino (se permitem o jogo de palavras), da frigidez, do espasmo (muitas vezes histrinico), refratrio troca de ideias, consagrador do mnimo eu, cir cunscrita ao espao entre o nariz que aponta para o alto e o umbigo em for ma de caracol. um maravilhoso instrumento de conclamao, mobilizao, arregimentao, alerta e denncia. Uma vez cumprida essa misso, se exaure. Mal comparando, mas j comparando, um estado ps-coito do macho dominante, ao qual se submete a fmea dominada (com todas as razes para se insurgir contra essa posio coadjuvante, mas necessitada de esgotar a compreenso siolgica e histrica). At o post derradeiro no abri mo de escrever conforme aprendi e, ao longo de meio sculo, testei. Quando, recentemente, um conjunto de enfer midades me alertou para o desgaste denitivo do corpo, resolvi que era hora de aplicar as minhas energias a outros projetos e desistir deste jornal em cima do lance, o mais abrangente que eu consegui fazer, sacando contra o meu j reduzido capital de sade. Na internet vou prosseguir com os outros blogs, sobretudo o Amaznia Hoje minha tentativa de criar uma enciclopdia viva, uma ferramenta para a histria do dia a dia, em qualquer dia, o da cabanagem e o da Vale. Espero que, se essa empreitada tiver realmente valor, um dia os seus destinatrios a descubram. Fora da internet, voltarei o meu empenho para encontrar uma soluo para o Jornal Pessoal. Se resistirmos, ele e eu, o JP chegar aos 30 anos em setembro, quando completarei meus 68 anos. No uma data qualquer para um jornal to alternativo como ele Esgotando os recursos captados pelas vaquinhas lideradas por Paloma Amorim e Lucas Figueiredo, haver ainda condies para o jornal prosseguir? a resposta que vou perseguir, voltando a me dedicar mais ao jornal, que, h vrios nmeros, roda no vermelho. Este blog no morrer. Continuar a publicar a seo A Histria na Chapa Quente, se o leitor a desejar manter. Se houver comentrios, continuarei a respond-los. Tambm servir de abrigo para o anncio das novas edies do Jornal Pessoal, enquanto ele existir. A vida prossegue e prosseguimos com ela, observou Carlos Drummond de Andrade: Lutar com palavras a luta mais v. Entretanto lutamos mal rompe a amanh.Sobral & Cia. IlimitadaNo prtico dos 80 anos, Raymundo Mrio Sobral lana seu 10 livro, o Ver-o -Peso de bolso (196 pginas em formato pequeno, editado por ele mesmo, com a colaborao de amigos). Saiu tambm o 103 nmero da revista Ch de cadeira (nesta edio dedicada s frias de julho). uma inveno do comendador, que est completando 17 anos a bem circular por consultrios, escritrios, gabinetes, antessalas e espaos equivalentes, com distribuio gratuita. J fora do ar cou o PQP mensrio que se propunha anrquico-construtivo e assim foi por 23 anos, sob a batuta de Sobral. Ele diz que encerrar agora a carreira de escritor. Deve ter tido esse desejo algumas vezes, mas a energia que continua a aliment-lo dicilmente deixar. Longa vida a Sobral e suas criaturas.

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15 Belm na co universalDois anos depois da edio em portugus, de responsabilidade da Boitempo (editora paulista dirigida pela paraense Ivana Jinkings), Pssi ca o livro mais recente da j vasta obra de Edyr Augusto Proena, ganhou traduo em francs, pela Asphalte, de Paris, a quarta na lngua, em edio mais bem cuidada do que a brasileira. Edyr est incorporando Belm s capitais de co eltrica, a linguagem a servio do relato e denncia de uma violncia que no tem mais explicao convencional. Desaando teorias e violentando certezas, ela s encontra melhor enquadramento na co, que se ampara em fatos reais, dando-lhes o cenrio adequado. Um realismo mais profundo que transborda para a narrativa simblica, por isso universal. Da o interesse europeu pela obra de Edyr Augusto, perseverante no seu labor cotidiano.Rui e Drummond Era 18 de agosto de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. Em Belm do Par, Francisco Paulo do Nascimento Mendes, ento com 32 anos (viria a morrer em 1999), que trs anos antes iniciara uma longa carreira de professor e crtico literrio, dedicou um volume de Poesias reunio dos quatro primeiros livros de Carlos Drummond de Andrade, ao poeta e tambm professor Rui Guilherme Paranatinga Barata, na poca com 22 anos (morreria em 1990). A dedicatria era singela: Para o Rui com um abrao do Mendes. Letra quase infantil, linha na, trao ligeiro, como o dono da letra, tambm conhecido pelo apelido de Ratinho. O livro era do mesmo ano, 1942. Fora impresso apenas dois meses antes, na grca da Revista dos Tribunais (em 220 pginas, formato pequeno, papel de baixa qualidade por causa do bloqueio nazista ao comrcio pelo Atlntico) para a editora Jos Olympio, da capital federal, que ainda era o Rio de Janeiro. Chico Mendes (seu outro nome) era gil na encomenda de livros novos, nacionais ou estrangeiros. Mandava buscar at em Paris, que tanto amou e nunca conheceu pessoalmente. Assim gastava o suado dinheiro que ganhava lecionando em tantas escolas, de manh noite, pblicas e particulares, e, por m, na Universidade Federal do Par. Mas o volume de Poesias ele o comprou na Livraria Bittencourt, na rua Joo Alfredo (junto com seu prolongamento, a Santo Antonio, ela abrigava diversas livrarias; hoje, resta uma, as Paulinas). Recentemente resgatei num sebo do Rio o volume, soterrado sob uma montanha de papeis. Rui mandou encader n-lo e na lombada imprimiu suas iniciais (R. B.). O exemplar vale tanto por ser a 1 edio como pelo dilogo que Rui entreteve com Drummond, anotando seus prprios versos margem das poesias do autor. Como, por exemplo, em Cidadezi nha qualquer : Casas entre bananeiras/ mulheres entre laranjeiras/ pomar amor cantar./ Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um bur ro vai devagar/ Devagar... as janelas olham/ Eta vida besta, meu Deus. Comentrio potico de Rui: E devagar tambm eu vou/ E olhos olham tudo devagar!. Rui acresce todo um poema seu Indeciso do Meyer, de Drummond. Os versos de CDA: Teus dois cinemas, um ao p do outro, porque no se afastam/ para no criar, todas as noites, o problema da opo/ e evitar a humilde perplexidade dos moradores?/ Ambos com a melhor artista e a bilheteria mais bela,/ que tortura lanam no Meyer. Rui: Oh! Rio de to rico de cinemas e de quimeras/ deixa a alma indecisa/ ou isto ou aquilo./ Mas ah! nem dentro de mim/ a ta sonora e multicor/ da vida em sua primavera/ e passearei pelo meio do Meier [com i no original ]/ sem ver cinemas/ mas vendo nas coisas suas belas veras!/ ou suas belas almas!

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Nossa Lindanor, francesa como nsNo seria inteiramente justo nem correto dizer que a maior obra de Lindanor Celina foi a sua prpria vida. Mas quase isso. Nasceu em Castanhal, se criou em Bragana, desabrochou em Belm e se reencontrou com sua origem na Frana, onde morou a maior parte da sua vida. Introduziu sua cidade de domiclio, Clamart, no universo dos que liam as suas crnicas ou recebiam as suas cartas maravilhosas. Trouxe-nos a cultura francesa, que amava e dominava como uma nativa. Mas foi l que aperfeioou sua forma de escrever em prosa e verso como se estivesse contando um causo e dando uma gaitada, a nica forma de expressar o nosso gua e o eras-de-ti, mano. Na Frana, Lindanor encontrou o ideal de amor num poeta e crtico literrio francs, por ela moldado e que por ela tudo fazia, dando-lhe a fora de que sempre precisou para continuar a ser alegre, disposta, enrgica e otimista, apesar de tantos tudos de ruim da vida. Pobre na origem, Lindanor cresceu e subiu por seus mritos, mesmo que, s vezes, de lagartixa encarapichada em uma haste qualquer de sustentao do ao avano. Fez tudo que quis e morreu feliz. Uma rima rica e rara na biograa de pessoas como ela, saturniana e voraz. Em 2004, o arquiteto Paulo Chaves Fernandes, como secretrio de cultura, patrocinou a edio de um lbum dedicado a Lindanor (a menina que veio de Itaiara), cuja falha no ter anexado uma cronologia da homenageada e uma antologia do tanto que escreveu (e publicou, ao longo de quase meio sculo de atividade intelectual). A pedido, z um texto, que se perdeu misteriosamente. Dele no guardei cpia, infelizmente. Lamentei muito. Tinha o que falar da minha querida amiga. Ela foi quase minha me no tempo em que eu estudava com seu lho do meio, Fernando, o Arara, (os outros foram Henrique, acima, e Cludio, abaixo), na casa cheada por Durval Machado, seu marido, na Frei Gil de Vila Nova, ao lado do consulado dos Estados Unidos. Ela chegava com o bonacho Durval, outro que lhe fazia todos os mimos, noite alta. Espalhafatosa, distribua barulhos e voltava com um lanche para nos manter ativos. Fui reencontr-la em So Paulo, na casa da inesquecvel amiga comum, Eilah Gentil Vieira. Sempre com Durval, saamos pela noite paulistana atrs de boa comida e boa bebida para as esticadas de conversas e risos sem m. Lindanor era o que Lindanor queria que fosse. S de vez em quanto, entre um cheiro cheiroso e outro, um beijo maternal e amigo, ela se abria mais, rapidamente. Logo recomposta, retornava sua obra: ela. Se meu artigo sumiu no ter do acaso, reencontrei um dos bilhetes que ela mandava, entre algumas cartas, a mim dirigidas principalmente quando fui presidente do sindicato dos jornalistas (19878/80) e renovava sua indispensvel carteira de jornalista (utilssima para ingresso em teatros, cinemas e quetais parisienses), expedindo-a de imediato ansiosa destinatria. Como meu texto desapareceu, reproduzo o carto (bem Lindanor), oriundo de Clamart, em janeiro de 1992. Ao lado de uma paisagem de inverno no campo, os ditos em francs desejando um ano feliz (da linda). Do outro, sua mensagem: Tome este anelzinho/ guarde bem guardadinho/ no diga nada a ningum... Ache a Porta, ache a Chave com o chaveirinho que te mando, descubra um cofre cheio de tudo o que bom, belo, BEM, na doida vida. Amor que no cansa, da Lindanor. Lindo, no? Lindanor era assim: inesquecvel.