Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a AMAZNIAA destruio prossegue pessoas para a sua causa e tambm a causa da salvao da Amaznia. Na Amaznia, a selvageria, indiferente a qualquer solidariedade, renasce outra vez. Mais violenta porque agora seu maior agente o crime organizado. Ele continuar a avanar? Foi um impacto quase de agresso quando a primeira ministra da Noruega anunciou o corte de quase 200 milhes de dlares, neste ano, num programa de apoio proteo da natureza na Amaznia. A deciso foi tomada justamente quando o presidente Michel Temer visitava o pas. Pareceu mais do que uma indelicadeza (complementada pela referncia de Erna Solberg crise poltica do Brasil): seria um ato farisaico. A preocupao norueguesa pela natureza amaznica no seria um gesto de altrusmo ou de fervor ecolgico. A Noruega se tornou dona do ciclo completo do alumnio no Par, desde a lavra do minrio, a bauxita, em Paragominas e Oriximin, at a metalurgia (a oitava maior do mundo), em Barcarena, passando pela maior fbrica de alumina do mundo, a Alunorte, tambm em Barcarena. Alm disso, a Noruega est investindo pesado na busca e extrao de petrleo no pr-sal brasileiro. Logo, precisa fazer relaes pblicas. A multinacional brasileira Vale tambm faz propaganda pesada, com o claro propsito de

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2 criar uma boa imagem, desfazer ou silenciar crticos e comprar o apoio da grande imprensa nacional, que tem parceria com a mineradora, a maior vendedora de minrio de ferro do planeta. Por isso mesmo, so raras e s quando realmente inevitveis as restries ex-estatal, cada vez mais prxima do controle estrangeiro. Foi dela que a norueguesa Norsk Hydro adquiriu o ciclo do alumnio do metal para trs. A Hydro era uma mdia empresa do setor, que apenas industrializava o metal. Torn ou-se uma potncia pelo domnio da jazida de Paragominas (e par ticipao na do Trombetas), da Alunorte e da Albrs. Tudo dentro da lei e sem qualquer questionamento, embora o governo da Noruega seja o maior acionista da Hydro.Acautelada, porm, a empresa combinou o ato de boa vontade com a montagem de uma posio progressista. Mesmo podendo ser vista como propaganda, a iniciativa representou o maior programa ecolgico destinado Amaznia, mesmo considerando o que faz o governo federal na regio. A seleo dos projetos e a forma de apoi-los cou por conta do BNDES, o agente nanceiro e administrativo. Foi difcil chegar a 80 projetos relevantes para merecer o nanciamento do Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social, com 90% de 1,2 bilho de dlares (quase quatro bilhes de reais) sendo dinheiro noruegus a fundo perdido, sem retorno. So escassos os empreendimentos ecologicamente sustentveis, economicamente viveis e socialmente adequados, segundo o trinmio das exigncias. Mesmo os 80 projetos, encontrados em pesquisa com lupa poderosa e tolerante, e apresentados como a quintessncia do avano do Brasil em assuntos amaznicos, tm baixa representatividade, apesar de todos os discursos politicamente corretos sobre a maior fronteira nacional.Para os que se diziam convencidos de que a fronteira selvagem e predatria j coisa do passado, um fato indito, acontecido no dia 7, veio a lhes mostrar que a realidade bem outra e ca muito embaixo. Pessoas ainda no identicadas, aproveitando-se da madrugada, atacaram uma carreta-cegonha, estacionada num posto de gasolina na localidade de Cachoeira da Serra, distrito de Altamira, no quilmetro 893 da rodovia Santarm-Cuiab, e tocaram fogo tanto no caminho quanto nos oito carros que ele transportava. Por pouco o fogaru no atingiu o prprio posto. A sabotagem podia terse tornado numa tragdia ainda maior. Tanto por se estender ao posto como se os atacantes tivessem chegado ao segundo caminho do comboio, que tambm carregava oito veculos zerados. O motorista deste outro caminho preferiu a prudncia e voltou para local distante daquele ponto. Foi sabotagem mesmo. A primeira praticada contra o aparato estatal encar regado do meio ambiente no Brasil. Um ato criminoso anunciado. O servio de inteligncia do destinatrio dos carros, o Ibama, tinha informaes sobre o nimo de um grupo de pessoas da rea de impedir uma melhor scalizao sobre o alvo da sua cobia: as terras pblicas e a oresta nativa, que o poder pblico devia proteger, na forma de reservas federais. O alerta, porm, no parece ter sido suciente para impedir o ataque, embora j houvesse antecedentes do agravamento das hostilidades contra qualquer coisa que impea essa intensicada ofensiva sobre o patrimnio natural da nao. No ano passado, um grupo da Polcia Federal foi tocaiado e tiroteado em So Flix do Xingu, o municpio que tem o maior rebanho bovino do pas (inacreditveis quatro milhes de cabeas), graas derrubada de sua portentosa oresta. Algo simplesmente inimaginvel no que era tido como o auge da violncia no meio rural amaznico, seguido do seu suposto ocaso. Ledo engano. O que houve foi o m das categorias humanas perfeitamente identicveis e distinguveis por sua singularidade. No h mais simplesmente posseiros ou pees, de um lado, grileiros, fazendeiros ou madeireiros, do outro, no rgido dualismo do catecismo pastoral da Igreja, protetora dos primeiros personagens, adversria dos segundos. Condenada a um ingnuo voluntarismo esquemtico. Hoje, os papis sociais se embaralharam, as funes se interpenetraram, a realidade cou complexa, multifacetada e explosiva. Principalmente por um avano contnuo e acelerado, ainda que pouco percebido ou revelado, do crime organizado. Suas teias tm sido montadas a partir de indivduos e situaes. Ele criou uma retaguarda que, da passividade, passou atividade, ao protagonismo, conforme o jargo acadmico, cada vez mais renado, cada vez com menor contedo de realidade. O caos, a selvageria e a destruio amaznica no acabaram, como ainda sonham os internautas do desmatamento zero: elas pioraram. Transfor maram-se em criminalidade organizada. Seu maior exemplo justamente o que fazia o Ibama renovar sua frota sobre rodas, substituindo carros com mais de dois anos de uso por veculos novos, a rastrear o ambiente em tor no da sua providncia e a ser golpeado pelo ataque de madrugada. Se no houve propriamente surpresa, tambm a informao prvia no impediu que o dano se consumasse. O Estado cou aqum os bandidos. Dano menor, reagiu a direo do Ibama. Os carros no eram de propriedade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis. Estavam sendo locados de uma empresa particular. Havendo seguro, o prejuzo material ser cober to. O atentado, no entanto, cumpriu o seu principal objetivo: simbolizar enfaticamente uma declarao de guerra contra os que se colocam contra os interesses dos personagens ocultos pela madrugada, mas conhecidos pelos que atuam no front. uma cornucpia de gente, parte dela conhecida e com sua histria repetida h pelo menos meio sculo na Amaznia. So pessoas humildes, mas determinadas. Querem um lote para chamar de seu, no qual possam trabalhar e manter a famlia pelo seu esforo honesto e digno. A busca pela propriedade rural as leva a aceitar qualquer aventura que possa resultar no dom-

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3 nio de uma rea ao alcance da sua capacidade pela nica forma aquisitiva que tm: o trabalho. Hoje, grupos organizados promovem essa migrao e atraem os seus aderentes com promessa de assent-los num bom pedao de terra. Tudo de graa, desde que estejam dispostos a defender seu torro. Mesmo que esse lote esteja dentro de unidades de conservao do governo federal. Eles so a cabea de ponte desse avano belicoso e a bucha de canho quando a plvora explode, como aconteceu no dia 7 num territrio de conagrao que envolve os municpios de Altamira, Itaituba e suas extenses, como o violentssimo distrito de Castelo dos Sonhos. O novo captulo de uma velha novela comeou com o bloqueio da rodovia por centenas de manifestantes. O motivo declarado da manifestao o repdio ao veto do presidente Michel Temer s medidas provisrias 756 e 758, de 2016, que alteravam os limites da Floresta Nacional do Jamanxim, nos municpios de Novo Progresso, Itaituba e Trairo. Tambm querem a emancipao poltica de Cachoeira da Serra e Castelo dos Sonhos, hoje distritos de Altamira, e a legalizao de todas as ocupaes, a qualquer ttulo.Em passeatas, os manifestantes cobraram a promessa do governo de enviar ao Congresso um projeto de lei liberando para que sejam entregues aos produtores. E acusam a imprensa, sobretudo a rede Globo. Ela estaria mancomunada com ONGs ambientalistas, tendo por trs multinacionais e mesmo governos interessados em se apossar da Amaznia. O objetivo teria sido forar Temer a voltar atrs e manter a proteo integral oresta, prejudicando a economia da regio. O que os manifestantes querem reduzir em um tero a extenso da Floresta Nacional do Jamanxim. O territrio a ser abandado continuaria a ser usado para a extrao de madeira, a implantao de fazendas e plantio de soja, com a liberao geral do desmatamento. Uma vez esgotado esse primeiro talho, outra guerra, outra excluso e mais desmatamento. At que a paisagem amaznica vire serto, na mesma progresso de sempre. Porque assim impe a doutrina de segurana nacional. Ela tem legitimado a destruio da Amaznia manejando o fantasma da cobia internacional. Empresas e naes monitorariam permanentemente essa regio, que ocupa dois teros do territrio brasileiro, o quinto maior pas do mundo. Viveriam a planejar formas de penetrar disfaradamente nessa vasta fronteira. Sem uma vigilncia constante e ecaz, j teriam tomado conta da Amaznia. Integrar para no entregar! foi o grito de guerra dos sacerdotes da doutrina. Eles investiram sobre a mata, promovendo a maior derrubada de orestas da histria da humanidade, que j passou de 700 mil quilmetros quadrados. No importava. O que importava era acabar com os espaos vazios. Vazios de gente (baixa densidade populacional), ausncia de obras vlidas de gente (cidades, estradas, lavouras, hidreltricas, minas, etc.), que tomaria forma positiva atravs do critrio de vericao de benfeitoria, o VTN (Valor da Terra Nua ou seja, sem a imaginria oresta, ainda que tenha a maior concentrao de espcies botnicas variadas do planeta). O exerccio da soberania nacional contra a ameaa de internacionalizao, conforme o catecismo da doutrina, que tomou forma de livro impresso em 1960, com A Amaznia e a cobia inter nacional do historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, que tambm foi governador indireto (o primeiro depois do golpe militar de 1964, que ps m ao agora insepulto populismo) do seu Estado natal, o Amazonas. Um ilustre dspota esclarecido, mas nem tanto. Exemplos vrios de como a tenacidade guerreira dos colonizadores por tugueses, afastando os piratas estrangeiros, criou esse vasto territrio de vazio densamente orestado e falta de inteligncia criadora. E como os guerreiros nacionais mantiveram os domnios do novo pas, pondo m aos elementos que favoreciam a cobia dos imperialistas.Da Inglaterra, por exemplo. O ilustre baro de Guajar testemunhou condncia que lhe fez o ltimo e mais importante presidente cabano. O cearense Eduardo Nogueira Angelim lhe teria dito que um comandante ingls lhe props que separasse a Amaznia do Brasil. O imprio britnico, que se estendia por toda a superfcie terrestre, o garantiria. Documentos ociais, at recentemente inditos, da armada inglesa, a mais poderosa dos sete mares, e do ministrio das Relaes Exteriores da Inglaterra desmentem a verso. As foras navais estrangeiras foram autorizadas pelo regente Diogo Feij, que gover nava o Brasil em nome do imperador Pedro II, ainda menor, a invadir o Par e matar tantos cabanos quanto fosse necessrio para submeter os rebeldes ao imprio brasileiro. A Inglaterra recusou. No por respeito soberania brasileira. Por clculo econmico: era mais rentvel explorar a Amaznia sob o governo do Rio de Janeiro do que por um vice-rei, como na ndia, onde o povo reagia ao dominador metropolitano. No por acaso, o primeiro banco a se estabelecer para nanciar a borracha foi ingls, no brasileiro. Outro episdio de apetite imperialista incontrolvel teria sido o do Instituto Internacional da Hileia Amaznica. Seria a cunha para a penetrao do imprio americano, bradou aos sete ventos o ex-presidente (que governou sob estado de stio, por ele decretado para reprimir os indesejados) Artur Bernardes. Pois bem: os Estados Unidos foram contra o projeto. Nem subscreveram a ata de criao da Hileia. Ela era um sonho utpico de intelectuais que sonhavam com uma humanidade mais solidria entre o m da Segunda Guerra Mundial e o incio da Guerra Fria. Dentre eles, dois notveis brasileiros: Paulo Berredo Carneiro e Helosa Alberto Torres. Mais o sbio ingls Julien Huxley. Um exemplo mais prximo. Os Estados Unidos, que iam controlar a Colmbia, planejavam invadir militar mente a Amaznia a partir da guiana, ex-inglesa, ex-quase-futura comunista, na viso da doutrina de segurana nacional dos militares (avalizada, na passagem para a democracia, pelo ma-

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4 ranhense Jos Sarney, logo depois de assumir a presidncia da repblica). O fantasma da invaso, que sequer fora cogitada (o Brasil foi convidado para participar da operao conjunta e recusou), avalizou o Sivam, um sistema de vigilncia da Amaznia criado e implantado a toque de caixa, atropelando normas legais e a correo no servio pblico, para barrar os novos invasores.Ao m e ao cabo, como se diz na antiga sede ultramarina, a Amaznia continua plenamente brasileira e cada vez menos amaznica, graas ao desmatamento em massa e todos os seus derivativos de desnaturao da regio. Para tambm se servir do banquete de recursos naturais, sem regras de civilidade, nenhum estrangeiro preciso recorrer a tropas de ocupao. Bastou cumprir as lenientes e permissivas regras nacionais criadas para enfrentar a jungle hostil, a selva selvagem, o bugre ignorante, o primitivo incapaz. Est a a Noruega com seu polo de alumnio, por exemplo. J esto aqui os chineses, donos de todas as grandes linhas de transmisso de energia e agora aambarcando as enormes hidreltricas. Na empresa norueguesa capitalista como na empresa capitalista chinesa, o scio controlador o Estado. Sem o Estado nativo para atrapalhar. Se atrapalhar, noruegueses tratam de aplainar as resistncias com propaganda e relaes pblicas, para eles a melhor maneira de fazer amigos e inuenciar pessoas. Se atrapalhar, o brasileiro vestido de caubi, de madeireiro, de grileiro, de bandido a atrapalhao vai ser resolvida no grito e no tiro. Com fria suciente para afastar quem queira se solidarizar com a causa da Amaznia. H, no mundo, muita gente escusa e sinuosa de olho gordo na regio. Esta a gente que comanda os uxos de commodities que saem da Amaznia ou por ela passam at ganhar o mundo, mantendo os sistemas coloniais de troca de mercadorias e de perpetuao das desigualdades. A solidariedade internacional, como a da Hileia, inibida, combatida e destruda, a pretexto de garantir a soberania nacional sobre a mais tardia das regies brasileiras (e a mais internacionalizada delas): a Amaznia.Violncia no futebol paraense para o mundoA famosa BBC de Londres deu a importncia devida, que a imprensa local ignorou, noticiando o fato, do dia 6, com o destaque devido. Talvez pela primeira vez na histria do mais do que centenrio nobre esporte breto, inventado pelos ingleses, um dirigente de futebol foi ameaado de morte por um torcedor. No no ardor de um estdio de futebol, sada de um jogo, numa bebedeira ou num momento de descontrole qualquer. O quase assassino, com o rosto semiencoberto, desceu de uma moto, dirigida por seu comparsa, em rua movimentada da cidade. Atravessou a calada e, diante de todos, num ambiente pblico, puxou um revlver, colocou-o no rosto da sua anunciada vtima e lhe fez a ameaa de morte: se o Paissandu, de Belm do Par, descesse da srie B do campeonato brasileiro de futebol para a srie imediatamente abaixo, voltaria e o mataria, a ele e famlia, composta pela mulher e um lho de 14 anos, ali presentes, estupefatos e imobilizados. O Paissandu descer para o mesmo nvel em que est o grande rival, o Clube do Remo, na srie C, seria humilhao, inaceitvel para o torcedor. O assassinato seria a soluo. No h dvida da condio do homem: realmente torcedor do clube. Conhece to bem o ex-presidente que se referiu ao lho dele como maluco. Sabia da condio mental do jovem, um autista, e o tratou com a mesma selvageria diante da famlia. No se trata de caso isolado no medocre futebol paraense, nem mesmo na cidade. uma face nova de uma violncia que j no guarda limites para seu alcance nem para o grau cada vez maior de desprezo pela condio humana. A deciso de Srgio Serra teve que ser respeitada. Mas uma resposta tambm teria que ser dada imediatamente pelas autoridades da segurana pblica para estancar essa hemorragia de barbrie, que transformou a vida humana em Belm e no Par num lance de loteria biruta. No h mais ttica ou ardil para se proteger da exposio soa azares da morte. Os dois homens poderiam ser identicados rapidamente, se houvesse um empenho reforado na investigao, como precisava haver (e, trs dias depois, no momento em que escrevo, no houve). No s para dizer a todos que esse tipo de atitude vai ser combatido com o mximo mas com o mximo mesmo de rigor que a tolerncia da lei permitir. Rigor e energia contra criminosos, ainda mais os que integram quadrilhas numerosas, fanticas e brbaras, como as que pululam nos estdios de futebol da capital paraense. Mas como esperar essa providncia se a chacina do bairro da Condor completou um ms, no mesmo dia 6. Foram mortas cinco pessoas e pelo menos 14 caram feridas. Os assassinos integravam um grupo de oito homens em dois carros. Agiram como grupo coeso, bem treinado, com ar mas potentes. Pareciam policiais. Devem ter sido. Foi a quarta execuo em massa em Belm. Sem que os bandidos estejam atrs das grades. Quem est nessa situao a populao. O governador Simo Jatene o maior responsvel por esses crimes. Simplesmente porque seu imobilismo incompatvel com o agravamento dessas matanas impunes. Sabemos que s mudar pessoas no resolve. Mas manter quem j revelou toda sua incompetncia na abordagem do problema, como os atuais responsveis pela segurana pblica no Par, conivncia com o abuso. tambm comportamento criminoso. O governo Jatene perdeu toda legitimidade e credibilidade em matria de segurana pblica. Porque nada faz, a no ser responder com evasivas e palavras vazias. No h mais pacincia: ou faz alguma coisa concreta e efetiva ou pede para sair. Para pescar, talvez seja melhor.

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5 O corruptor e o procuradorO empresrio Joesley Batista pode reivindicar o ttulo de o maior corruptor individual da histria da humanidade. Destaque merecido por essa fama lhe foi dado em relao ao mundo poltico. Ele mesmo declarou, sob compromisso com a verdade, que lhe valeu a melhor delao premiada da histria de quatro anos (a completar no prximo ms) des-te instituto jurdico no Brasil: comprou 1.800 polticos. A razo de um milho de reais per capita (muito abaixo do va-lor real), foram R$ 18 bilho investidos na corrupo poltica. um autntico exrcito qualicado, equivalente a trs vezes todo o contin-gente da Cmara dos Deputados, que tem 513 cadeiras. Incrvel. Tambm incrvel a situao do procurador Angelo Goulart Villela. Ele est preso h mais de 50 dias. Villela foi detido em 18 de maio, acu-sado de vender informaes de inves-tigaes em andamento para a JBS, na Operao Patmos. Todos os demais fo-ram soltos: a irm, a prima e o operador do senador Acio Neves (que recuperou o seu mandato, por deciso do Supremo Tribunal Federal), alm do ex-deputado Rodrigo da Rocha Loures. Na cadeia -caram s o procurador federal e o advo-gado Willer Tomaz, da J&F, O advogado Gustavo Righi Ivahy Ba-dar. Observa que seu cliente est preso h 50 dias. S veio a ser ouvido pela pri-meira vez sobre a priso no dia 4. Mas apenas por procuradores designados para o processo administrativo. No na audincia de custdia em juzo, que tem prazo de 24 horas para ser realizada, a partir da priso. Ele nem sequer foi ouvido. No teve a oportunidade de mostrar a sua verso sobre os fatos ressaltou Badar, em en-trevista Folha de S. Paulo da semana passada. Para o advogado, o fato de Goulart ter a mesma ocupao do procurador-geral da repblica fez com que ele se tornasse pea importante para rebater aqueles que apontam perseguio de Rodrigo Janot a Michel Temer. Ele acabou sendo um ino-cente til, para que no fosse colocado que o Janot s queria perseguir o Temer, sustenta Badar. Procurado pelo jornal paulista, o Tri-bunal Regional Federal da 3 regio, com sede em Osasco (So Paulo) informou que, no caso de Goulart, no havia ins-truo para a audincia de custdia, j que a sua priso no foi feita em agran-te, mas sob deciso do ministro Fachin a partir de pedido da Procuradoria Geral da Repblica. Mas Badar citou resoluo do Con-selho Nacional de Justia, que determina a audincia tambm nos casos de deten-es por mandado. Ressaltou que o TRF marcou a audincia para amanh, em Braslia, onde seu constituinte se encon-tra, no presdio da Papuda. Segundo a denncia, Joesley Batista corrompeu o procurador ngelo Villela para obter, atravs dele, informaes da Operao Greeneld, que investiga fun-dos de investimentos privados em cone-xo com fundos de penso de servidores pblicos, um dos quais envolve a Eldora-do, a maior indstria de celulose do pas, controlado pela J&F. Lotado na Procuradoria-Geral Eleito-ral, Goulart foi deslocado como reforar a a fora-tarefa da Lava-Jato em maro. Seus colegas comearam a desconar dele quando a defesa da JBS repetia argumen-tos que ele apresentava ao grupo. Goulart passou ento a ser alvo de uma ao con-trolada da Polcia Federal autorizada pelo STF a pedido de Rodrigo Janot. A conclu-so da vigilncia foi de que o procurador passava informaes discutidas na foratarefa da Greeneld por meio de udios. As investigaes foram realizadas si-multaneamente negociao da delao premiada dos irmos Batista. Joesley ar-mou, em depoimento gravado, que o pro-curador era orientado a obter informaes. Ele nega ter recebido ou oferecido qualquer valor. Ele nega que tenha ten-tado obstruir a investigao. O objetivo era viabilizao da delao premiada [dos donos da JBS]. Ele conrma que gravou aquela reunio. Ele gravou para entender como era o processo. Ele resolveu mos-trar para o Willer [Tomaz, da J&F, hol-ding da JBS] para que o cliente quisesse ser o delator, e no o delatado, armou o advogado Folha Segundo Badar, no havia docu-mentos secretos de reunies, conforme diz o processo, porque o contedo dos relatrios que preparava, a chamada memria da reunio, foi repassado para todos os procuradores. Ele queria viabi-lizar os acordos [de delao ]. Tinha dez empresas, e uma delas era a Eldorado. Ele nunca pegou o processo inteiro. No tinha nada de corrupo nem de obstru-o, acrescentou o advogado Aps a priso, Goulart foi afastado da fora-tarefa e do cargo de diretor de As-suntos Legislativos da Associao Nacio-nal dos Procuradores da Repblica. Janot pediu que ele fosse exonerado do car-go. Na poca da priso, Janot disse que aquela etapa da Operao Lava Jatotinha um gosto amargopor ter envolvido um procurador da repblica. Um gosto amargo institucional ou pessoal? O que se pode armar agora que o procurador, to cioso da sua condio de Cato da honra nacional, foi condescen-dente ao ouvir os relatos e as gravaes clandestinas do bando da JBS. Embora tenha se declarado nauseado diante de tanta sujeira, deixou passar uma manada de bfalos enquanto se engasgava com um camaro. No parece ter se impressionado ao constatar que Joesley sacava com de-senvoltura e intimidade milhes de re-ais para pequenas despesas de compra de pessoas. Puxa da ponta do leno seis milhes para pagar um camarote de fr-mula 1 em So Paulo. Debochadamente, admite que foi isso mesmo, mas, claro, jamais podia chegar a esse valor exorbi-tante, mesmo para os padres do mais caro esporte da humanidade. Assim como pagou R$ 2,1 milhes Projeto Consultoria Empresarial e Finan-ceira, de Antonio Palocci, entre dezembro de 2008 e junho de 2010. Foi nessa poca, em 2009, que a JBS comprou a concorrente americana Pilgrims por 2,8 bilhes de d-lares, dos quais US$ 2 bilhes (mais de R$ 6 bilhes) saram dos cofres do BNDES. O empresrio omitiu na sua delao esse negcio, que no sairia sem a inter-mediao do ex-ministro dos governos Lula e Dilma. No total, foram R$ 11 bi-lhes, que saram do cofre do banco, mas tambm diretamente do tesouro nacio-nal, que subsidiou os juros. A poupana do brasileiro foi dilapidada para que Jo-esley corrompesse quem fosse do inte-resse dos seus negcios, no importando a condio do seu alvo. Valia tudo. Para ele, do prprio bolso, quase nada. Mesmo assim, mereceu a admirao do procurador geral da repblica, enoja-do com o comportamento do interlocu-tor de Joesley, ningum menos do que o presidente da repblica do Brasil, oitava potncia mundial.

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6 Um dirio inditoO cientista na linha de frenteEste foi o texto que escrevi em 2010 como introduo ao dirio de Paul Le Cointe. Sete anos depois, decidi public-lo para no deix-lo indito talvez para sempre. Em 1929, quando tinha apenas 18 anos de idade, Clara Martins (tambm Pandolfo ao se casar) graduou-se pela antiga Escola de Qumica Industrial do Par. Pela idade e por ser a primeira mulher a conquistar o ttulo de qumica inustrial (dentre nove alunos que tambm se formaram, em 10 anos de funcionamento da escola, todos homens), ela atraiu a ateno do naturalista francs Paul Le Cointe, um dos maiores pesquisadores da ora amaznica do sculo XX. A inuncia do mestre foi decisiva para a combinao de humanismo com rigor tcnico na longa e frtil carreira no servio pblico, com maior destaque para o perodo em que cheou o Departamento de Recursos Naturais da Sudam. Alm das atividades do seu ofcio, ela exerceu intensa pesquisa e escreveu livros. Defendia com entusiasmo suas ideias e sabia dialogar. Tornou-se uma referncia na interpretao da Amaznia e foi uma pioneira na emancipao da mulher no Par. A qumica foi a base cientca para voos mais altos e amplos da sua inteligncia, que se acantonou na SPVEA, em 1953, e se manteve no rgo substituto, a Sudam, em 1966. Ao longo de 40 anos a voz da doutora Clara se manteve rme, respeitada e temida. Ela no devia sua posio a nenhum pistolo. Podia exigir que a convencessem atravs de argumentos. Se no, defenderia sua prpria posio. Nos ltimos anos da sua vida tentei convencer a Universidade Federal do Par a homenage-la com um ttulo de doutor honoris causa ou equivalente. Consegui apoio importante, mas no foi o suciente. Temia o que acabou acontecendo: doutora Clara morreu sem receber o reconhecimento devido ao seu valor e contribuio Amaznia. Uma homenagem, como a que sugeri na poca, talvez pudesse t-la tirado do abatimento que a deixou prostrada pela ltima dcada, com a agravante da perda progressiva da viso. Por que a universidade foi indiferente ao clamor da histria? Seria por uma estreiteza de quem no reconhecia nela ttulos ou rigor cientco? Ou por no ser par na ciranda acadmica? Clara Pandolfo no tinha currculo adornado por mestrados, doutorados e outros penduricalhos ps-graduados. Mas possua um conhecimento vasto e ntimo da Amaznia, que qualquer um podia checar. Alguns superintendentes da Sudam devem ter tido o mpeto inicial de retir-la do DRN, mas acabaram recuando. Nomes clebres da bibliograa amaznica torciam o nariz sua referncia, talvez por despeito e inveja. Tudo que foi na vida, Clara Pandolfo o deveu sua inteligncia e ao seu trabalho. E no foi pouca coisa. O que fez est documentado em vrios trabalhos que escreveu e nas obras que realizou. O Par podia ter enterrado Clara Pandolfo com todas as glrias de que ela se tornou merecedora. Infelizmente, porm, vai ter que reparar a omisso ps-morte. Como de regra. Ruim foi tambm o destino dado a um dos mais preciosos documentos que ela guardou por toda vida: o dirio que Paul Le Cointe escreveu, manuscrito, com desenhos de prprio punho, de uma viagem que fez pelo rio Madeira, em 1900. O dirio preciosssimo por ser o ltimo relato de viagem de um naturalista estrangeiro pelo interior da Amaznia ainda indito. Por ser uma descrio minuciosa, valorizada pelos excelentes desenhos a bico de pena (e sua bela letra), de um rio que agora abriga duas das maiores hidreltricas do Brasil e do mundo. Doutora Clara disse a mim e a seus familiares que aquele dirio era meu. Depois de sua morte, fui chamado para ajudar na busca pelo documento. Anal, o encontramos. Com desprendimento raro, lhos e parentes da falecida me entregaram o dirio. Eu podia fazer dele o que quisesse. At vend-lo. No exterior, principalmente na Frana, ganharia alto valor. Preferi, no entanto, faz-lo publicar no Brasil, sem qualquer exigncia em meu proveito. Apenas para divulg-lo, na melhor edio que fosse possvel. Por isso o entreguei aos cuidados do Museu Goeldi. Passados tantos anos, nada da publicao. um dano memria da Amaznia. Por isso cobro, de quem estiver responsvel pela publicao do dirio de Le Cointe: o que sucede?Ricardo Borges acrescentou um pos-t-scriptum ao artigo que escreveu em A Provncia do Par sobre Paul Le Cointe, provavelmente o ltimo que se referiu ao cientista francs na grande imprensa para-ense. Foi para fazer um apelo candente: A quem, na posse da preciosa monograa de Le Cointe, Voyage Circulare Tropical, o nos-so apelo sua conscincia, de devoluo do notvel trabalho, utilssimo Amaznia, para a necessria edio e divulgao; hoje [ h ] muitos rgos pblicos em Belm, de-dicados publicao de obras desse valor amaznico. E persuadimo-nos de atendi-mento a to justo e honesto apelo. Quarenta anos depois, o pedido de Ricardo Borges Ferreira e Silva est sen-do atendido: nalmente, um sculo de-pois, publica-se o dirio da viagem que Le Cointe empreendeu, em 1900, pelo rio Madeira, at o rio Madolo, na Bolvia, onde iria administrar os vastos seringais da rma Deves & Cia. Perdido e indito por tanto tempo, as anotaes e desenhos de Le Cointe no perderam o valor, muito pelo contrrio. Alm de ser o ltimo grande docu-mento do ciclo dos viajantes naturalistas da Amaznia, a importncia da sua divul-gao realada pela investida de outro tipo de personagem sobre a bacia do Ma-deira, o maior dos auentes do rio Ama-zonas, o que mais sedimentos deposita na calha do maior curso dgua do planeta, que arrasta essa massa em suspenso at jog-la no Oceano Atlntico: o construtor dos grandes projetos. Empresas privadas, com forte apoio de dinheiro pblico, comearam a cons-

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7 truir duas barragens que iro possibili-tar duas das maiores usinas de energia do mundo: Jirau (que saiu na frente) e Santo Antnio, a maior das hidreltricas j construdas na borda de uma capital amaznica, Porto Velho, em Rondnia (o prximo alvo ser uma cidade menor, Altamira, no Par, vizinha daquela que foi projetada para ser a maior de todas as hidreltricas, Belo Monte). A divulgao do dirio perdido de Le Cointe no s propiciar o prazer da lei-tura, graas a uma edio preciosa, que preserva o cpntedo iconogrco do docu-mento, como porque acalenta uma das uto-pias ainda frustradas dos que sonham com uma presena humana verdadeiramente inteligente e racional na maior de todas as fronteiras de recursos naturais da Terra, a sua fonte vital de biodiversidade. Por que no mandar cientistas para a ponta das ensaiadas, imaginadas ou imi-nentes frentes pioneiras de ocupao? Por que no os porta-vozes do saber em contato com a natureza e as populaes nativas, absorvendo o conhecimento pro-duzido por essa interao e estabelecendo parmetros, padres e paradigmas atravs dos quais o homem possa deixar de ser o intruso destruir dos nossos dias? Por que, antes de dilapidar o que nem sequer iden-ticado, no dar tempo para aprendermos como marcar presena sem que a marca humana seja o sinete da devastao? Pode-se contra-argumentar que a ci-ncia no neutra e os cientistas so se-res de carne e osso, interesses, pessoais ou corporativos, multinacionais ou geopolti-cos. Paul Aim Georges Le Cointe, o fran-cs que nasceu em Tournon, na Ardche, em 1887, podia at ser apontado como um exemplo ( semelhana de outros via-jantes e naturalistas estrangeiros, antes ou depois dele, que usavam suas pesquisas como biombo para propsitos ocultos). muito fcil aplicar a teoria conspirativa nos conns (cada vez mais sertes) ama-znicos. To fcil que desprezada a ne-cessidade de demonstr-la, a m de que no se torne instrumento daquele tipo de nacionalismo j classicado como o redu-to dos canalhas. Qualquer enredo aceito por esse papel autocolante. Paul Le Cointe chegou Amaznia em 1892, quando, aos 22 anos apenas, j era graduado em cincias, matemtica e qumica. A partir da combinaria funes que, mesmo (ou, sobretudo) hoje andam dissociadas: foi verdadeiro cientista, pes-quisador rigoroso, tcnico competente em agrimensura e cartograa, homem de negcios, representante diplomtico, burocrata e mero empregado. Sempre in-tercalando perodos de permanncia em gabinetes e laboratrios com longas jor-nadas pelo interior da Amaznia, em ex-pedies demoradas e meticulosas, com uma rara capacidade de observao da gente e da natureza, combinada com uma virtude ainda mais rara: o talento para a confeco de mapas. Durante muitos anos a planta que traou do Baixo Amazonas, na segunda dcada do sculo XX, foi a mais valiosa fonte cartogrca sobre a re-gio. Uma obra de arte. Conrmando as ilaes geopolticas, Le Cointe recebeu as maiores distines con-cedidas pelo governo francs, inclusive a Legio de Honra (conferida tambm, mui-to tempo depois, a outro personagem seu conterrneo do drama amaznico, este, nosso contemporneo, o padre Henri de Rosires, que defende posseiros espoliados no sul do Par). Mas Le Cointe tambm re-cebeu ttulos e medalhas do governo brasi-leiro, grato pelas contribuies que prestou em diversos segmentos do conhecimento sobre as riquezas da Amaznia, da borra-cha aos leos vegetais, das madeiras aos animais, e, com destaque, numa amplitude maior, sobre o esturio do rio Par, que ele revelou aos cida-dos de uma terra to desco-nhecida quanto incompreen-dida, mesmo pelos moradores da capital do Estado, de cujo cenrio essa convergncia de guas elemento denidor. Mais importante do que tudo: Le Cointe permaneceu na Amaznia por 64 anos, morrendo em Belm, aos 86 anos, em 1956, pobre e aban-donado. Seu amigo e colega de trabalho Ricardo Borges o salvou do nal na indi-gncia e melancolia ao visit-lo, na humilde casa em que vivia, no Largo da Trindade, com a mulher, e dar o brado de alerta dian-te da misria que viu. Rapidamente, mas na undcima hora, as autoridades se mobiliza-ram para dar ao personagem to famoso os ltimos dias recolhido a um hospital e uma sepultura no cemitrio de Santa Izabel. Poucos, porm, o acompanharam ltima morada. Ningum mais o visita. Raros ain-da falam dele. Nos ltimos anos de sua vida, sofria de distrbios mentais. Sua mulher, Ma-ria Correia Pinto, com quem se casara, em bidos, em 1895, apesar de sua ab-negao, no podia atend-lo como de-via ser, por falta de adequada instruo, testemunhou Ricardo Borges. Tambm estava incapacitada para defender o pa-trimnio do marido, acumulado na casa simples, dos estrangeiros e nacionais que o visitavam e se apropriavam, no raro, dos inmeros trabalhos cientcos que o naturalista escreveu e que jamais foram publicados ou se tornaram conhecidos (talvez, quem sabe, com outra assinatura). Declara Ricardo Borges no artigo afetuoso sobre o amigo que outras preciosidades, dos estudos e coletas de dados da Ama-znia, por Le Cointe, sumiram-se dos ar-quivos do venerando mestre nos ltimos anos de sua vida. Ao ler o artigo do advogado por for-mao (e economista por vocao, alm de poltico e administrador pblico), me interessei pela sorte do dirio de viagem ao Madeira. Mas s poucos anos atrs me dei conta de um fato bvio que me passara despercebido. Quem sabe Le Cointe no dera essa agenda, na qual zera anotaes e desenhos, sua melhor discpula na Es-cola de Qumica Industrial, por ele funda-da em 1919? Depois de tantas conversas com Clara Martins Pandolfo, s fui men-cionar o dirio num dos ltimos contatos que tivemos antes de sua morte, em 2009, aos 97 anos. Doutora Clara conrmou que tinha o dirio, mas no conseguiu localiz-lo na sua biblioteca. Outras vezes ainda nos en-contramos, mas o documen-to continuava perdido. S depois de sua morte, o dirio foi encontrado. A fa-mlia decidiu premiar meu interesse e persistncia, alm da relao de afeto, respeito e amizade que mantinha com a mestra de tantas geraes, fossem ou no seus alunos: doou-me o documento. Ma-ravilhado com o que vi, tratei de repass-lo a Ima Vieira, que ento dirigia o Museu Pa-raense Emlio Goeldi. E agora o seu suces-sor, Nilson Gabas Jnior, entrega a obra sociedade, nalizando o labor e esforo de tanta gente envolvida neste projeto. Espero que ele desencadeie a recupera-o da obra e da vida de Paul Le Cointe, re-publicando-se ou divulgando-se sua obra, vasta e mltipla. Talvez assim tambm se possam eliminar duas outras injustias cometidas contra o papel desempenhado pela paraense Clara Martins Pandolfo e o baiano Ricardo Borges, os dois princi-pais amigos e colaboradores do cientista francs, que o acompanharam em grande parte da sua vivncia no Par, no s -sicamente, mas tambm intelectualmente. Assim se honrar o passado e se dignica-r o futuro, incorporando a grande con-tribuio que os trs personagens deram para que a Amaznia deixe de ser tratada como um deserto de inteligncias.

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8 A economia se recupera, mas os nmeros assustamOs ratos se atiram, Delm d o avisoO dcit do setor pblico consolidado no ms passado foi recorde para meses de maio desde 2001, quando o Banco Central iniciou a srie histrica. O saldo negativo foi de 30,736 bilhes de reais. Um ano antes, o resultado fora de R$ 18 bilhes. Um tero desse valor se deveu ao pagamento de R$ 10 bilhes em precatrios, que so papis da dvida pbica. J o dficit na conta do INSS aumentou R$ 5,8 bilhes sobre maio de 2016. Nos primeiros cinco meses de 2017, o resultado foi decitrio em R$ 15,6 bilhes, contra um resultado negativo de R$ 13,7 bilhes no mesmo perodo do ano passado. Nos 12 meses at maio, o dcit primrio somou R$ 157,7 bilhes, ou 2,47% do Produto Interno Bruto. Superou os 2,28% vistos at abril. O dcit fechou 2016 em 2,49% do PIB. Em 2015 foi de 1,85% O desempenho do setor pblico at agora est abaixo da meta de dficit consolidado para 2017, que de R$ 143,1 bilhes, sendo R$ 139 bilhes do governo central, R$ 3 bilhes de estatais e R$ 1,1 bilho dos entes subnacionais. No conceito nominal de resultado fiscal, que inclui os gastos com juros, houve dficit de R$ 67 bilhes em maio, acima do registrado ano antes, de R$ 60,6 bilhes. De janeiro a maio, foi apurado dficit de R$ 190,7 bilhes, contra R$ 165 bilhes um ano antes. O resultado do ms decorre de um dcit primrio de R$ 30,7 bilhes e do pagamento de juros de R$ 36,2 bilhes. Nos 12 meses at maio, o dcit nominal foi de R$ 588,605 bilhes, ou 9,22% do PIB, aps marcar 9,13% em abril e 8,98% no encerramento de 2016. A conta de juros, em 12 meses at maio absorveu chegou a R$ 431 bilhes, ou 6,75% do PIB, aps 6,85% em abril e 6,49% no m de 2016. Mas esses nmeros assustadores no incluem a Petrobrs e a Eletrobrs, nem os bancos estatais.Chega de losoa!, proclama o ex-ministro e ex-deputado federal Delm Netto no seu artigo da semana passada na Folha de S. Paulo. Isto posto, adere ao governo de Michel temer, como aderira ao de Lula e ao de Dilma. No de forma simplesmente siolgica, como muitos que se achegaram ao presidente depois da derrubada da petista e dele se afastaram ratuinamente. Delm tem programa. O dele apoiar a excelente equipe econmica de Temer. Ela, no entendimento do ex-czar da economia da ditadura, conduz o pas para fora do turbilho deixado por Dilma. Mesmo com a gravssima crise scal e a alta do pior dos indicadores, o desemprego (dando sinais de que comea a ceder), o rumo correto. Delm sugere o aumento da Cide para cobrir o dcit entre a receita pblica, com desempenho abaixo do esperado, e os gastos, que no se contiveram. Delm alerta que o tributo sobre a gasolina o nico que pode aumentar o PIB: porque estimula a produo de etanol, ajuda o meio ambiente e recupera a situao do setor alcooleiro, alm de ter efeito insignicante sobre a inao neste momento. Quanto situao do senhor presidente, tratado assim mesmo, com toda deferncia, Delm desdenha: Temer foi denunciado por conta de ilaes que precisam, necessariamente, de provas materiais. A denncia resultou de uma armadilha habilmente construda pelo capo di tutti capi de uma gigantesca organizao criminosa, criada pelo incesto altamente lucrativo entre o governo e o setor privado, pago pela sociedade brasileira miseravelmente trada, sentencia Delm. O chega de losoa! no foi em vo.Lula e Eike ombreadosS depois de publicar, na edio passada, uma nota lembrando que em 2009 Eike Batista era O empresrio brasileiro para o presidente Lula, encontrei a foto dos dois juntos no Waldorf Astoria, em Nova York, na solenidade de entrega de prmios. Lula, que aparece ouvindo a traduo simultnea de um pronunciamento em ingls, citou nominalmente Eike, uma das trs nicas referncias que ele fez na ocasio. Estavam ombro no ombro. Quantos segredos ambos no guar dam dessa relao?

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9 Monstro fora das grades vira acontecimento trivialJader Barbalho busca sobrevida na ousadiaJader Barbalho deixou os bastidores do Senado duas semanas atrs, trocando o confinamento pelo combate de peito aberto e plena luz do dia. Seu pronunciamento, de 15 minutos, foi ouvido em silncio pelos seus pares. O ex-governador do Par deu um lance de audcia surpreendente. Exps a sua cabea, pedida a prmio por algumas Saloms da repblica, no mais veemente e contundente discurso que o Senado acolheu nos ltimos tempos. Ao defender dois dos polticos com mais votos no pas, o ex-presidente Lula, do PT, e o senador Acio Neves, do PSDB (que se elegeu por Minas Gerais com sete milhes de votos), Jader assumiu a liderana de um movimento pelo fortalecimento da poltica base da sua principal arma: a adeso do povo. algo que no possuem os integrantes do poder judicirio, em cujas mos se encontram os destinos de pelo menos uma centena de parlamentares. Falando com veemncia, Jader salientou que no est no Senado por uma deferncia do imperador, para exercer um cargo honorfico. Sua investidura s foi possvel por se ter submetido ao teste do voto popular e ser por ele aprovado. Essa a base da democracia, que o ex-governador considerou ameaada porque o poder judicirio se investiu no papel usurpador de poder moderador. O ex-ministro criticou o Senado por se curvar a esse poder a partir da priso do senador Delcdio Amaral, que era lder do PT e do governo. No havia flagrante, logo o Supremo Tribunal no podia destitu-lo do mandato. Isso vagabundagem jurdica, Jader quase gritou. a ditadura do poder judicirio. Se a justia pode usar a delao de um bandido para punir um par lamentar, o brao direito do procurador geral da repblica atravessou a praa dos Trs poderes para defender o delator. Isso no corrupo?. Jader se disse feliz por esses juzes e ministros no terem vivido em 1964 ou 1970 como coronis ou generais, porque abusariam do poder. Ainda assim, lhes deu uma definio spera e agressiva: so Mdicis togados, referindo-se a Garrastazu Mdici, o militar que governou o Brasil na fase mais dura do regime de exceo. A agressividade de Jader Barbalho pode ser um ato de desespero diante do risco de ser alcanado pela Operao Lava Jato, acusado de corrupo? Talvez. Mas o movimento que fez em pea-chave no tabuleiro do xadrez do poder um toque de reunir do populismo, unindo pelo menos os trs maiores partidos PMDB, PSDB e PT numa aliana surpreendente em torno dos seus principais lderes, incluindo Michel Temer. Dar certo? impossvel dizer sem uma rigorosa base do que acontece nas entranhas do poder. Mas o gesto de Jader foi de um senso da oportunidade que constitui a maior das ferramentas especficas dos polticos. Sua sorte e a dos demais polticos est lanada. H, no Brasil, uma Associao das Vtimas de Roger Abdelmassih. Ela formada por 37 pacientes que o mdico estuprou 48 vezes em sua clnica, especializada em reproduo humana. Por esse crime hediondo, j destitudo da condio de mdico, o autor das violncias foi condenado a 278 anos de priso. Cumpriu apenas 1% da pena e agora est solto novamente, depois de um entra e sai da cadeia, durante trs dias, que desdenha da justia (com sua prpria contribuio) e vilipendia as vtimas, que se expuseram em pblico para no deixar o seu algoz escapar, como parecia que iria acontecer e ainda parece. A juza de Taubat, em So Paulo, concedeu priso domiciliar ao criminoso, que estava preso num presdio do interior paulista. O Ministrio Pblico do Estado recorreu. Um dos desembargadores do Tribunal de Justia do Estado restabeleceu a pena em regime fechado. Agora, a presidente do Superior Tribunal de Justia, em deciso solitria, em funo das frias forenses, negou o recurso. A ministra Laurita Vaz alegou que a concesso do mandado de segurana impetrado pelo MPE iria configurar constrangimento ilegal, j que o recurso utilizado, o mandado de segurana, no cabvel para restabelecer priso na pendncia do recurso que o prprio Ministrio Pblico interps. Mas a Procuradoria Geral de Justia de So Paulo negou ter cometido o erro processual que a ministra lhe atribuiu. Explicou que o mandado de segurana foi para dar efeito suspensivo ao agravo, recurso que no tem efeito suspensivo, em virtude da urgncia e gravidade do caso. Ou seja: a concesso da liberdade ao ex-mdico seria suspensa liminarmente, como cautela, inclusive contra uma segunda fuga dele do Brasil (na primeira, morou por anos no Paraguai), at o exame do mrito da questo. A presidente do STJ, diante da controvrsia diante de uma formalidade, mandou soltar o monstro. E lanou mais um bocado de descrdito sobre a justia brasileira.

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10 O massacre kayapVou fazer a recuperao de textos mais antigos do que os do Jornal Pessoal, iniciado em 1987. Este artigo foi publicado no Informe Amaznico, em 1980. O Informe foi um embrio do JP. Tinha um formato ainda menor, com 12 pginas. Durou 12 edies, impressas na velha tipografia a quente. Eu o escrevia todo, como agora. Mas no possua ilustraes. Por seu pequeno tamanho, circulou apenas entre assinantes.Foram apenas 10 minutos, tempo suciente para modicar as relaes entre brancos e ndios na Amaznia, ou, ao menos, no Par. Pouco depois das 16 horas do dia 8 [de setembro de 1980], 103 ndios gorotire, um subgrupo kayap, chegou sede da fazenda Espadilha, que ca a 155 quilmetros de Redeno e a 255 de Conceio do Araguaia, no extremo sul do Estado. Os ndios vinham pintados de preto, armados de arcos, echas e bordunas, alguns provavelmente com espingardas, cocares na cabea uma tpica expedio guerreira, como h mais de 30 anos os ju-j-tukti (arcos pretos), conforme os gorotire se denominam. E mataram 20 pessoas. As causas dessa agressividade da parte de ndios que aps a pacicao, desde 1952, vinham aceitando docilmente a tutela da Funai [Fundao Nacional do ndio ], podiam ser identicadas num passado mais remoto, mas tambm nos ltimos anos. Desde 1972 um dos temas mais constantes na vida de todos os dois mil ndios kayaps espalhados entre os vales dos rios Xingu e Araguaia a demarcao de sua reserva, que abrigam vastas terras de incomum fertilidade, ricas em minrio e madeira de lei, pesca abundante, parte dela coberta por densa oresta.Os gorotire, como o prprio nome diz em lngua j, so povos antiqussimos, que vieram de longe. A parte meridional do territrio dessa grande nao desapareceu no incio deste sculo [XX ], esmagada pela expanso das frentes nacionais no noroeste de So Paulo, Tringulo Mineiro, sul de Gois e sudoeste de Mato Grosso. A metade setentrional caminhou centenas de quilmetros at chegar ao sul do Par. No h registros histricos, mas alguns viajantes dizem que os gorotire deviam ser 150 mil nessa poca. De qualquer maneira, quando um religioso messinico chegou regio, em 1897, j encontrou dois mil ndios kayap no local onde comeou a formar a cidade de Conceio do Araguaia. Frei Gil Vilanova prometeu aos ndios que a nova cidade seria inteiramente deles. Mas o missionrio morreu em 1905 e os ndios logo comearam a ser atacados e mortos. Decidiram fugir para reas mais isoladas, j na direo do Xingu. As migraes e as lutas internas separaram os kayaps em vrios grupos, mas todos eles foram alcanados pelas novas frentes, a dos caucheiros e dos seringueiros, que entravam na mata buscando borracha. Encontrando os ndios, os matavam. Simplesmente reagindo ou atrados pelas armas dos seringueiros, os ndios passaram a atacar tambm. As mortes dos dois lados se sucediam. No incio da dcada de 1950, o SPI (Servio de Proteo ao ndio) comeou a agir na rea. Com ndios selvagens seria difcil uma produo estvel de borracha. Era preciso amans-los. Quinhentos kayap apareceram em 1950 em Nova Olinda procura de auxlio. A tribo sofrera forte reduo em 1940: 12 kayaps foram mortos a tiros de rie enquanto dormiam em um bar raco margem da estrada de Altamira a Vitria. Prximo dali, uma aldeia foi atacada de surpresa por 25 pistoleiros contratados pelo seringalista Antonio Coelho da Silva. Em seguida, mais nove kayaps foram tambm assassinados. A proteo do SPI diminuiu as mor tes, mas no as eliminou. Poucos meses depois de terem sido pacicados, em 1957, 50 kuben-kran-noty morreram de gripe. Alguns anos depois a mesma doena, naturalmente transmitida pelos brancos, matou mais 44. Em 1969 foi a vez do sarampo liquidar outros 40. Em 12 anos o grupo foi reduzido de 144 para 10 membros.A borracha entrou em crise e os ndios puderam voltar a viver em cer ta paz. No nal dos anos 1960 comearam os estudos para demarcar uma rea para todos os kayaps, divididos em quatro aldeias. Em 1972, depois que os caciques sobrevoaram toda a rea, juntamente com tcnicos da Funai, a reserva foi delimitada, com 2.738.850 hectares, a maior do pas. A minuta do decreto, porm, dormiu sono solto durante cinco anos na gaveta do ministro do Interior. Nessa poca, uma nova frente j comeava a se avizinhar do territrio kayap. No foi sem alvio que os ndios assistiram ao incio da demarcao da reserva, em 1978. Ao sul j estava instalada uma grande fazenda de 180 mil hectares da Volkswagen, do Bradesco e de outros grupos econmicos, a Vale do Rio Dourado. Ao norte, a Construtora Andrade Gutierrez estava para conseguir (o que depois se concretizou) 400 mil hectares para o seu projeto de colonizao. E a leste avanavam mdias fazendas, serrarias e garimpeiros. Foi na demarcao dessa parte que os ndios comearam a se irritar. A linha seca da topograa, vinda do norte, ao chegar ao igarap Inaj, inetia para sudoeste, acompanhando esse curso dgua, formando assim um arco inver tido. Os ndios, ao contrrio, queriam que a linha zesse um balo, abrangendo todo o castanhal que fora deixado de fora pelos topgrafos. Mas no conseguiram que seus ar gumentos prevalecessem. O pior foi que logo depois a rma responsvel pelos trabalhos, a Patrato, depois de fazer subempreitada ilegal e assumir dvidas

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11 em nome da Funai, faliu, A demarcao foi ento suspensa. Os kayaps passaram a fazer seguidas incurses nessa rea leste para scalizar a divisa e tambm, segundo algumas verses, para pedir comida aos brancos. Encontraram muitos fazendeiros e um movimento constante, no s de ida e vinda pelo interior da reserva, como de compra e venda de propriedades. As sedes das fazendas cam fora da reserva, mas as derrubadas penetram nas terras dos ndios. Metade do castanhal que eles exploram est em poder dos fazendeiros por causa da linha. Os interesses se tornaram antagnicos. Como as queimadas aumentaram ao longo do igarap Inaj e do rio da Ponte, que passa pela aldeia, os ndios comearam a expulsar todos os brancos que encontravam na rea. Mas eles sempre voltavam. Num desses retor nos, os pees queimaram pertences deixados pelos ndios. Quatro dias antes do ataque do dia 8, dois fazendeiros Chico Bigode e Z Castro teriam dito aos ndios que os proprietrios da fazenda Espadilha estavam trazendo 1.800 braais para derrubarem mata na reserva. O incndio dos pertences e essa informao parecem ter sido decisivos para a deciso de organizar a expedio guerreira.A verso ocial de que um incidente entre os colonos e os ndios precipitou o ataque. Dois dos chefes da expedio foram feridos por uma mulher e um braal quando tentavam cortar o cabelo do capataz, um homem grosseiro que no gostava dos kayaps. Os ndios perderam o controle e mataram 12 homens, 5 crianas e 3 mulheres. A reconstituio integral e dedigna dos 10 minutos em que transcorreu o massacre ainda no foi realizada e dever demorar, inclusive porque a Funai no permite que os jornalistas conversem com os ndios. Mas pode-se dizer que foi uma das aes mais ferozes dos kayaps. Mesmo sem violentar sexualmente as mulheres, como chegou a ser noticiado (eles quiseram provocar aborto, prtica adotada em outros ataques), os ndios no zeram refns, preferindo matar todos. Um experimentado sertanista diz que os ndios, ao reagirem a um ataque, per dem completamente o domnio do que fazem e so capazes de tudo. A advertncia dos maiores conhecedores dos ndios, que viveram com eles durante muitos anos, para a ferocidade dos kayaps, quando atacados, no seria suciente para atenuar a reao aos ndios. O major Marco Antonio Luchini [que adotou esse nome falso para esconder a sua verdadeira identidade, de Sebastio Rodrigues de Moura ], o major Curi, que, sintomaticamente, comandou as investigaes em nome do Conselho de Segurana Nacional, admitia a participao de fazendeiros no incitamento dos ndios. Falava-se que um desses fazendeiros, o primeiro a chegar fazenda Espadilha depois do ataque, teria arranjado o ambiente para aumentar o grau de selvageria, espalhando a verso do estupro. O episdio teve duas consequncias imediatas: introduziu os ndios na guerra fundiria que se trava no Araguaia entre proprietrios, grileiros e posseiros; alm disso, acirrou os nimos dos brancos contra os ndios. Em Redeno, Rio Maria e Xinguara alguns fazendeiros anunciavam que iriam se armar para esperar os kayaps ou iriam em incurses aldeia para vingana. Um deles props segundo uma fonte fretar um avio e jogar uma bomba de fsforo na aldeia. Ao longo da divisa h preparativos para novos confrontos.O mais iminente parece se localizar no rio Trairo, no limite norte da reser va. Da os ndios do kikretum, comandados pelo cacique Pombo, j expulsaram 300 garimpeiros. Mas a Jamisa, empresa recm-formada, com sede em Belm, acusada de ter grilado 80 mil hectares com base em um ttulo falso (a questo est na justia porque a empresa apresentou mandado de segurana contra uma ao de anulao e cancelamento do registro do imvel), continua na rea com serraria, pastagem e, sobretudo, garimpagem de ouro. A empresa teria algumas dezenas de homens bem armados e com a orientao de reagir a qualquer presena indgena. Mais ao norte os xikrin, outro grupo kayap, j prenderam duas turmas de desmatamento que penetraram em suas terras. Investiram contra a fazenda Gran Reata e saquearam a fazenda Catet. O maior problema para esses ndios a Gran Reata, de propriedade do grupo Pau dArco, que se apossou de 30 mil hectares dentro da reserva. Em menos de dois anos desmatou 4,5 mil hectares para pastagem, derrubou mais de trs mil rvores de mogno, abriu 90 quilmetros de estrada, colocou mil cabeas de gado e construiu uma pista de pouso, com investimento de 25 milhes de cruzeiros, segundo o fazendeiro Laudelino Hanemann. A Funai, apoiada pela Polcia Federal e IBDF [Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, antecessor do Ibama ], fechou a fazenda, permitindo a permanncia de trs vaqueiros, identicados pelos ndios. O fazendeiro ameaa voltar e resistir se tentarem tir-lo da rea. Os ndios avisaram que qualquer pessoa alm dos trs vaqueiros que aparecer ser morta. Dentro da reserva h 440 mil hectares de terras frteis, madeira de lei em abundncia, minrio e dizem que muito mais ouro do que em Serra Pelada. Mas os 240 xikrins garantem que no aceitaro novas invases. Esta parece ser tambm a disposio de outras comunidades indgenas. At mesmo os tolerantes e pacientes tembs, que tiveram a maior parte da sua reserva invadida (400 mil hectares, na divisa do Par com o Maranho), no aceitam mais car connados em uma pequena parcela. A causa dessa reao est sendo estudada ou investigada pelo governo. Uma das suas concluses: a comunicao entre os ndios atravs do noticirio da imprensa, principalmente das emissoras de rdio, ou nos encontros intertribais um poderoso de inquietao, segundo as autoridades,ou de conscientizao, de acordo com os antroplogos. O problema, ou a questo, de qualquer maneira, est posta em dimenses muito mais graves do que at recentemente. Os kayaps, por exemplo, no esquecem que o rio Vermelho, situado a oeste da aldeia Gorotire, ganhou esse nome por causa de sangue que por ele escorreu. Quantos rios Vermelhos ainda aparecero na Amaznia?

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12 O prefeito Lopo de Castro instalou a primeira feira livre de Belm na praa Batista Campos, em novembro de 1951. As feiras seguintes passaram a funcionar na praa Brasil, Cremao, Guam, Canudos, Bandeira Branca, Pedreira, Sacramenta e Marambaia. O apoio da administrao, atravs do Departamento Municipal de Agricultura, era dado por meio de caminhes, que transportavam os produtos da estao de trem, em So Braz, at cada feira. A prefeitura tambm pagava semanalmente o frete do trem que transportava, aos sbados e domingos, os colonos donos dos produtos a serem vendidos.Em 1957 havia seis colunistas sociais na imprensa paraense: Regina Pesce (da Folha do Norte), Maria Dolores (Flash), Edgar Proena (Rdio Clube do Par), Ro mulo Maiorana (O Liberal), Pierre Beltrand (O Estado do Par) e Jos Barra (da revista Amaznia). Vivo e ainda em plena atividade, s Pierre, o nome de fantasia de Ubiratan de Aguiar.Alguns dos empresrios mais destacados do Par em 1964: Waldomiro Gomes, Jos Fonseca, Antonio Farah, Joo Cunha, Mrio Meeireles, Joaquim Borges Gomes, Antonio Marques, Fausto Soares, Antonio Ramos neto, Roglio Fernandez, Bernardino Henriques, Antonio Assmar, Emanuel Resque, Antonio Farias Coelho, Carlos Braga e Junichiro Yamada. Algumas indstrias: a Laranjada Garoto, de Emanuel Resque, instalada no Porto do Sal. A Nasser & Cia., produzindo os sabes Cacique e Jacy na Estrada Nova. A Kanebo do Brasil, de Amrico Vespcio da Silva, para a industrializao da pimenta do reino e sua exportao para o exterior.A Universidade de Samba Bomios da Campina foi a vencedora do Campeonato de Carnaval Marajoara de 1964, promovido pelos Dirios e Emissoras Associados, que tinham a TV e a Rdio Marajoara, alm do jornal A Provncia do Par. No segundo lugar cou a Embaixada de Samba Imprio Pedreirense, seguindo-se o Cidade de Belm, o Rancho No Posso me Amon e o Quem So Eles na lanterna.Nara Leo, a musa da Bossa Nova, mas j se transferindo para a MPB (Msica Popular Brasileira), que valorizou os grandes sambistas (como Car tola, Nelson Cavaquinho e Z Ketti), veio pela primeira vez a Belm em outubro de 1964. Para se apresentar na festa do Top Set, de Alberto |Mota e sua orquestra, no ltimo andar do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas. Festa lotada naquele domingo noite de anos ainda dourados. Eu tambm estava na boate do Iate Clube, 25 anos depois. Foi sua ltima apresentao. Ela morreria pouco depois, de um tumor no crebro, aos 47 anos. Autorizado por ela, beijei-lhe a face com a mesma admirao juvenil de um quarto de sculo antes. Como a de at hoje, quase 30 anos depois da sua morte.O governador Plnio Coelho, sucessor do polmico Gilberto Mestrinho (o Boto Tucuxi do tambm amazonense Mrcio Souza), discursava durante uma festa folclrica em Manaus, em junho de 1964. Um ocial do Exrcito se aproximou dele e lhe cochichou ao ouvido: o general Jurandir Bizarria Mamede, comandante militar da regio, acabara Na era dos tecidosEm 1962 ainda havia muitas lojas de tecidos na principal via do comrcio de Belm, a Joo Alfredo (com sua extenso, a Santo Antonio). Uma delas era a Massoud, lanando em junho as novidades para o vero em plena queima junina de preos.

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13 de chegar cidade com a cassao do governador. Plnio ouviu, respirou fundo, cou pensativo por algum tempo e retomou o discurso. Comunicou que fora cassado por ato do presidente da repblica, marechal Castelo Branco, e se despediu dos presentes. No dia seguinte assumiu o novo governador, sob as bnos dos novos donos do poder.Se Plnio Coelho foi punido cirurgicamente, o governador do Par, Aurlio do Carmo, foi intimado a depor perante a Comisso de Investigao Sumria, o brao, nos Estados, da Comisso Geral de Investigao, cheada pelo marechal Taurino Resende, que cassava corruptos e subversivos pelo pas. Aurlio recusou a intimao. Alegou no se julgar ru de nenhum ato que possa ser considerado objeto de investigao criminal. S prestava contas dos seus atos Assembleia Legislativa. Foi uma mudana de atitude. Antes, o governador baratista apoiou o golpe que derrubou o presidente Joo Goulart, como muitos lderes do PSD, que se imaginavam, com isso, protegidos (inclusive o ex-presidente Juscelino Kubitschek). No estavam. Aurlio foi cassado logo depois.Texto do convite para a posse de Jarbas Passarinho e Agostinho Monteiro como governador e vice-governador do Par, logo depois da cassao de Aurlio: Os lares cristos de nossa terra devero enfeitarse com bandeiras, em suas sacadas, integrando-se, de maneira marcante, no sentimento de jbilo que domina todos os coraes diante da investidura de to insignes homens pblicos. Fbricas e navios ancorados no porto faro soar suas sirenas, no instante em que o Coronel Jarbas Gonalves Passarinho e o Dr. Agostinho Monteiro estiverem recebendo a Chea do Executivo estadual. Do ptio externo do Palcio Lauro Sodr o governador Jarbas Passarinho, momentos aps sua posse, falar ao povo, dando-lhe conta de seus planos de Governo. Indstria nicaO advogado e economista Armando Mendes ficou por pouco tempo frente do Banco de Crdito da Amaznia, indicado pelo novo chefe poltico do Par, o governador Jarbas Passarinho. Pediu demisso, por se sentir mal acomodado num regime de exceo. Nesta foto, de dezembro de 1965, ele foi ver a implantao da Facepa, a Fbrica de Celulose e Papel do Par. Estava acompanhado pelos diretores do BCA Camilo Montenegro Duarte e Elias Zumero. Foi recebido por Antonio Farah e Mrio Meireles, scios no empreendimento. Farah continua frente da operosa Facepa, numa carreira nica na indstria paraense.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Cart @ O texto do prof. Elias Tavares, publicado no Jornal Pessoal 633, em termos demogrcos, desvenda os mistrios existentes na fala governamental sobre certa reforma da Previdncia. salutar que pessoas detentoras do conhecimento da cincia da demograa venham a pblico deslindar os empulhamentos contidos nos projetos preparados pela tecnocracia ocial. Sendo o objetivo principal esclarecer leigos e incautos, gregos e troianos que no tm acesso aos labirintos de to tormentoso assunto. Como no tenho conhecimento para abordar o problema nessa rea mas me vejo na obrigao de colaborar, como cidado vou fazer uma breve apreciao com enfoque diferente, mas condizente com a importncia do tema. De igual modo como o mantra A populao brasileira.... em acelerado processo de envelhecimento, o governo esprio promove nos meios de circulao um alarido ensur decedor em torno do dcit da Previdncia para justicar as medidas que prope, segundo ele, com o m de estancar esse sangramento. A ltima notcia, de 23.06.17, diz que o TCU Tribunal de Contas da Unio, concluiu o pente-no nas contas e apresentou um rombo de R$ 200 bilhes em 2016 e sublinhou que apenas com as desoneraes da Seguridade Social o tesouro deixou de arrecadar R$ 143 bilhes. Ocorre que muito especialistas no concordam que haja um descompasso nessa rubrica oramentria e armam que isso s acontece porque se isola a Previdncia Social da Seguridade Social, como rubricas distintas, isto s considera a receita anual dos contribuintes: empregadores e empregados. A Constituio de 1988, que criou o Oramento da Seguridade Social, formado pela receita de patres e trabalhadores, dispe tambm do que arrecadado com a Contribuio Social Sobre o Lucro Lquido (CSLL), a Contribuio para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), a contribuio ao PIS/PASEP, para nanciar o Programa do Seguro/Desemprego, e,, para nalizar, teria ainda as receitas das Loterias Federais. O DIEESE Departamento Intersindical de Estatsticas e Estudos Socioeconmicos e a ANFIP Associao Nacional dos Auditores da Receita Federal do Brasil zeram um recente estudo que mostra entre outras coisas importantes, que o suposto rombo de 85,8 bilhes apurado pelo governo em 2015 poderia ter sido coberto com parte dos R$ 202 bilhes arrecadados pela COFINS, dos R$ 61 bilhes pela CSLL e dos R$ 53 bilhes do PIS/PASEP. Porm o mais ridculo de tudo isso o governo fazer vista grossa para a desonerao e renncia scal tendenciosa; a dvida das empresas com a Previdncia chega a um patamar astronmico e, segundo arma a prpria autoridade, noventa por cento dela impagvel. A sonegao scal atingiu at agosto de 2016, a soma de R$ 339 bilhes, o dobro do dcit das contas pblicas. Este valor foi conferido pelo SINPROFAZ Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Uma tal de DRU Desvinculao das Receitas da Unio, verba que o governo usa para comprar os votos dos legisladores na aprovao de seus projetos, abocanhou um naco de R$ 63 bilhes da Seguridade Social. Uma vergonha insanvel !!! Agora, o mais perverso suprimir os direitos sociais de milhes de brasileiros e manter no oramento um dcit primrio de R$ 139 bilhes (excludos os bilhes 500?), dos juros da dvida, que sero destinados a satisfazer a ganncia insacivel dos banqueiros, rentistas prossionais e outros intermedirios nanceiros todos essencialmente improdutivos. obvio que muitos no aceitam as explicaes precedentes sobre o dcit e iro contraditar com explicaes as mais diver sas, como j vem acontecendo numa esfera maior. Contudo, suponho ser este o caminho para se chegar a uma concluso condigna. H muitos problemas que devem ser examinados e propostos reparos, como por exemplo, na aposentadoria rural. Existem trabalhadores rurais desfrutando da aposentadoria, mas no sabem distinguir um p de couve de um p de alface, assim como tem sujeito que recebe o seguro da pesca e nunca foi pescador. Para encerrar, um comentrio sobre a dinmica da sociedade na viso do erudito francs mile Durkhein, considerado o precursor da sociologia moderna: A sociedade existe para o benefcio de seus membros, os membros no existem para o benefcio da sociedade. Os direitos do cor po poltico no so nada em si mesmos, s podem vir a ser alguma coisa se encarnarem os direitos dos indivduos que a constituem. Rodolfo Lisboa Cerveira E por aqui? AnurioA maior contribuio do Dirio do Par sociedade o anurio que edita. A publicao chegou em 2017 sua stima edio, sem descontinuidade. uma faanha, realizada por uma equipe liderada por Emiliana Costa. Tornou-se fonte de referncia sobre o Estado. O anurio secontaminada pelo partidarismo do jornal. A cada ano corrige falhas e aperfeioa ndios, s unidades de conservao e ao setor fundirio, ainda acanhadas. Finalmente a polcia parece disposta a penetrar na caixa preta dos donos de nibus, uma das mais slidas e robustas do pas. Por enquanto, em apenas trs das 27 unidades da federao, a partir do Rio de Janeiro, em operao desencadeada na semana passada. Propinas milionrias pagas a polticos e autoridades j levaram empresrios do transporte coletivo urbano e associados cadeia. Um dos detidos, Jacob Barata Filho, est vinculado a empresa com concesso em Belm. Motivo suficiente para uma verificao, sempre poster gada, apesar de o negcio ser ato derivado do poder pblico municipal.

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15 As datas que passam como o trem da histriaUma sucesso de fatos importantes para a histria da Amaznia completou datas redondas neste ano. O esquecimento no foi apenas uma falha na memria da regio, uma simples perda cronolgica. Pode ser um desperdcio de lies extremamente teis para os dias atuais. Em particular, para a minerao, atravs da qual o Brasil obtm a segunda maior receita com as suas exportaes. A primeira das datas completou 70 anos. Refere-se assinatura do contrato do governo brasileiro com a Icomi, em 1947, para a primeira minerao empresarial da regio: a explorao da jazida de mangans do Amap, uma das mais ricas j descobertas no mundo. A segunda data chegou agora a 60 anos: tem por origem o primeiro car regamento do precioso minrio, em janeiro de 1957, para os Estados Unidos, o principal destino da produo. Vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, os EUA no dispunham de reservas sucientes para ocompleto suprimento do seu parque siderrgico. Iam buscar na frica o mangans necessrio para atender a fome dos seus altos fornos. Logo depois da guerra, as principais siderrgicas americanas iniciaram a prospeco de mangans na Amaznia. At ento, a atividade mineral era mnima na regio, limitando-se extrao de ouro aluvionar e diamante, atravs da garimpagem. Os desinfor mados deduziam da vasta bacia sedimentar, a terra mais nova do planeta, que no fosse compatvel com um subsolo rico em jazimentos. No era o entendimento das grandes corporaes americanas. Elas procuraram as faixas de pr-cambriano, as formaes mais antigas da Terra. Uma das mais promissoras estava no Amap. O alvo respondeu rapidamente investida. Em 1943 surgiu o territrio federal, desmembrado do Par. Dois anos depois, o coronel Janary Nunes, inter ventor federal, abriu uma corrida ao minrio de ferro. No ano seguinte, um nativo apareceu com pedras pretas, que recolhia para dar lastro sua embarcao. Recebeu um prmio porque, levadas a anlise, as amostras se revelaram de alto teor de mangans. O governo Dutra decidiu criar uma unidade com todas as ocorrncias do minrio, incluindo-as numa nica concesso. Duas empresas americanas, a United States Steel e a Hanna, participaram do leilo, mas uma empresa nacional, ainda sem tradio no setor, foi a vencedora. Mero arranjo para tangenciar a resistncia dos nacionalistas a estrangeiros. A Icomi, do empresrio Augusto Antunes, de Minas Gerais, logo se associou Bethlehem Steel, ento a maior compradora de mangans do mundo, que nanciou o projeto. O prazo da concesso era de 50 anos. A mina se exauriu cinco anos antes. A Bethlehem se afastou antecipadamente, quando o minrio cou mais pobre. A intensa extrao e exportao in natura abreviaram o tempo de vida til da jazida de Serra do Navio. O balano de quase meio sculo do mangans costuma ser considerado negativo. Mesmo transformado em Estado, o Amap no se desenvolveu. Continua a ser uma das unidades mais pobres da federao. Foi, at o esgotamento da mina, mero exportador de matria prima, parte dela ainda mantida como reserva nos Estados Unidos. A tentativa de verticalizao da produo, com uma usina de ferro liga, no deu certo. Ao menos em tese, porm, havia condies para tomar o minrio como impulso para fazer a cadeia produtiva avanar. A Icomi pagava 5% do valor da produo como compensao nanceira. Tinha ainda a obrigao de aplicar 20% do lucro lquido na diversicao econmica do Amap, atravs de uma agncia local de desenvolvimento. D-se como certo que o dinheiro que realmente entrou nos cofres pblicos no foi o declarado. Muito deve ter sido desviado, conforme hoje se sabe muito bem, graas anlise mais profunda da corrupo brasileira. O fator humano pesa mais do que os intrpretes que reduzem os fatos ao econmico esto dispostos a admitir. A prpria empresa tentou novas alternativas. Implantou a primeira usina de pelotizao de mangans do mundo, para aproveitar o minrio no, antes despejado nas drenagens prximas mina. Montou uma moderna indstria madeireira e plantou 80 mil hectares de reorestamento. Nada resistiu ao m da atividade principal, exceto um subproduto letal da acumulao do resduo do mangans, o arsnio, considerado cancergeno. O ndice de cncer ao redor do por to de embarque, em Santana, um dos mais altos do pas. Apesar de tudo isso, quando se compara a minerao do mangans do Amap com as lavras atuais de minrio de ferro, nquel, cobre, bauxita e mesmo mangans, em Carajs e em outros municpios do Par, que se tornou o 2 maior Estado minerador do Brasil, ca-se com a impresso de que o avano foi para trs. As marcas colonialistas desse sistema de explorao permanecem as mesmas. A reteno da receita gerada, porm, menor. Na poca da Icomi, o governo no inventou algo como a lei Kandir, que isentou de impostos a exportao de matrias primas e semi-elaborados, criando uma compensao que no compensa corretamente essa sangria tributria e scal. A minerao se mantm como um enclave, beneciando apenas um exguo territrio em torno da sua base de operaes. Com o avano tecnolgico, a exausto das riquezas mais rpida. To rpida que a histria se realiza e o nativo nem se apercebe disso o que explica o silncio sobre o mangans do Amap, o incio de um ciclo econmico muito maior, mais pungente e menos conhecido do que o da borracha, que acabou um sculo atrs.

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O meu DrummondTerra de ningum?Conheci poesia atravs de Carlos Drummond de Andrade. um convvio que est chegando aos 60 anos. es e distanciamentos; nunca, porm, indiferena. Na mocidade engajada e militante, o poeta me pareceu omisso demais. Ou apequenado ao ignorar o prprio conselho, de no escrever sobre acontecimentos, num momento em que Manuel Bandeira, outro companheiro de sempre, fazia versos para um coronel sndico de prdio, depois de nos ter deleitado com a singeleza do porquinho da ndia (ou seria da ndia?). indiferena do poeta diante do mundo vasto mundo. Ele no era um ensasta nem um crtico, como tambm foram Octavio Paz e Jorge Lus Borges. Vivia no meio burocrtico, com maliciosas escapadelas ao erotismo e de olho nas saias esvoaantes das mulheres, o que o redimia da indiferena, na verdade ocultando o sonso por trs dos culos reno como ns, conforme brincara Mrio de Andrade, o moinho intelectual paulista de ventos fecundos. O capeta brincando de querubim, na alta maturidade mas, sobretudo, na velhice de volta aos primeiros instintos, cultivados sombra, onde entes celestiais e infernais, mesmo negros, parecem pardos, como o brasileiro natural, esperana de redeno, algum dia, qualso do Colgio Anchieta, na aristocrtica ro. O motivo: insubordinao mental. Santa insubordinao, mesmo quando cultivada para dentro, mineiramente. Drummond foi a presena maior na poesia brasileira. Publicou o primeiro livro, quando tinha 28 anos, que abre com um clssico, o Poema de sete faces com a primeira estrofe modernista, tolstoionamente sinttica e absoluta como no prtico de Ana Karenina: Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Car los! ser gauche na vida. Ser que algum outro poeta brasilei ro escreveu mais do que Drummond? A ltima edio de todas as poesias dele, pela Aguilar, de 2007 (tenho todas at esta), possui 1.500 pginas, em letra mida, espaamento curto, poema atrs do outro, sem intervalo maior. Sucesso desde o incio, inclusive pelo impacto da pedra que colocou incomo damente no meio do caminho dos bem pensantes e acadmicos (que ele nunca Muito pelo contrrio. Num dedepois pelo vento do Atlntico), ele tirou dinheiro do prprio bolso para inventar uma editora (Edies Pindopor essa edio) e custear a tiragem vro, hoje uma raridade em antiqurios (Haroldo Maranho tinha o dele, trazido para c quando sua biblioteca foi adquirida pela Secretaria de Cultura, com dinheiro da Vale, ento mineira de Itabira, onde o poeta nasceu e, por horror, colocou a cidade numa moldura na parede para sofrer com a visualizao do morro escavado para gerar minrio de ferro, o itabirito, e escrever um poema que cabe como luva a Carajs, espera de algum com alma de ferro e mo resoluta). O segundo livro, com o encantador ttulo (jornalista, Drummond era um Brejo das almas, foi ainda pior: apenas 200 poupado (como seria quase sempre): bancou a empreitada a cooperativa Os Amigos do Livro. O terceiro livro, o incrvel Senti mento do mundo (Tenho apenas duas mos/ e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos,/ minhas lem branas escorrem/ e o corpo transige/ ceria um degrau da escada: teve 150 cpias, que no foram alm do crculo nha trocado a montanhosa e conser vadorssima Belo Horizonte pelo lito ainda era um escndalo sem rima. S conseguiu que uma editora for mal se interessasse por ele, a Jos Olympio, quando completou 40 anos e gerou Poesias. A Drummond virou poeta federal (empregado no Ministrio da Educao), a dialogar epistolarmente, de preferncia (respondia todas as car tas recebidas) com a turba de poetas municipais, tirando ou1ro do nariz. Sim, mas por que estou escrevendo Apenas uma divagao pela ilha, enquanto seu Elias no vem. O setor dele. Mas esse Drummond meu. Derrapei na curva da estrada de Santos, como o Erasmo (no Par, tambm de maior tenso, tem rea de mais de 300 mil populao inferior a 300 mil habitantes (menos de 5% do total). formada pelos dois maiores municpios (Itaituba e Altamira) e dois dos seus apndices (Jacareacanga e Novo Progresso). tros de Belm, com fraca presena governamental e mesmo terras vista como coisa de outro mundo a partir da capital. sobre essa parte do todo. como se fora terra de ningum o que quer dizer, na prtica, de quem quiser conquist-la no grito e no tiro.