Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a CORRUPONa rua da amarguraO tsunami da corrupo, que atingiu seu nvel mais alto e violento com a delao de Joesley Batista, especialmente pela gravao secreta da sua conversa com o presidente Michel Temer, chegou ao prtico da mais alta corte de justia do Brasil. As instituies esto sendo arrastadas para a rua da amargura. Todas. O ministro Edson Fachin pode at ser considerado o grande vencedor com a deciso do Supremo Tribunal Federal [por necessidade de na lizao desta edio, no foi considerada a sesso de encerramento da votao, agendada para o dia 28]. Ele foi conrmado como relator do processo instaurado a partir da delao do empresrio Joesley Batista e referendado o seu ato de homologao do acordo entre o dono da JBS e a Procuradoria Geral da Repblica. J foram revelados os votos de sete ministros que levaram a esse resultado por unanimidade. Os quatro restantes sero divulgados nesta quarta-feira, Podem apenas quebrar a unanimidade, mas j no interferem na deciso. Se o relator da Operao Lava-Jato no STF pode ser tido como vencedor, esta matria para controvrsias. Quem perdeu mesmo foi a alta corte de justia do Brasil, com o desgaste da sua credibilidade e respeito. Ningum precisava ser adivinho se antecipasse o desfecho do julgamento. Os pares apoiariam o colega ao menos por

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2 corporativismo. Assim entender a maioria dos que acompanharam a deliberao. A apreciao da questo pelo colegiado foi um erro, que Fachin poderia ter evitado se mantivesse a sua posio, que foi de homologar monocraticamente o acordo entre a PGR e o principal dono do grupo J&F. A maioria da corte concluiu que a apreciao sobre os termos da delao s ser possvel no exame de mrito da questo, ao m do julgamento, e no na sua instruo processual, que ainda est em curso. Logo, conrmaram o que Fachin j devia saber. Mas ele preferiu ser fortalecido pelos pares. O Supremo se exps ao entendimento pelo pblico de se tratar de um jogo de cartas marcadas. Mas houve divergncia interna, abrindo amis um anco para ser explorado no futuro. A pea que motivou o julgamento, formulada pelos defensores do governador de Mato Grosso do Sul, canhestra para o tamanho do desao que ela se propunha enfrentar. Para o leigo, porm, foi motivo suciente para dvidas e inquietaes uma pergunta: se Edson Fachin o juiz prevento para tudo que diga respeito, se assemelhe ou tenha cheiro de LavaJato, por que Joesley Batista no foi ao juiz natural do caso, que Srgio Moro, da 1 instncia, j que o empresrio no tinha e aindano tem (ao menos formalmente) foro privilegiado? A resposta fcil est na ponta da lngua: porque ele estava denunciando crimes praticados pelo presidente da repblica e outros polticos com o foro decorrente de funo. Foi arrastado para esse privilgio pela companhia em que estava. Entretanto, a prola da coroa oferecida pelo empresrio foi a gravao clandestina de uma conversa notur na e soturna com Michel Temer. Sem ela, Batista no conseguiria a delao, muito menos os benefcios hipertroados que Janot pediu para ele e Fachin sancionou. Mantida a correlao entre todas as delaes at aquele momento sacramentadas, se Joesley apresentasse apenas as demais acusaes que fez, o agente da aprovao do acordo se veria obrigado a lhe impor sanes, nivelan do-o a gente do mesmo porte ou aproximado como Marcelo Odebrecht e Lo Pinheiro. Joesley contudo, recebeu o carro de sena da histria ainda recente das delaes feitas no Brasil para prender criminoso de colarinho branco. Sem Temer, ele seria mais um delator frente de Moro. Com a cabea do presidente da repblica na bandeja da gravao, foi direto ao procurador geral da repblica e ao ministro do STF. O problema que esse valor especial no podia servir de etiqueta de criminoso para colar em Temer. Com a gravao oculta, o empresrio criou um fato. Grave e escandaloso, passvel de severa punio, mas jamais com liquidez e transparncia para servir de prova de que Temer mesmo o chefe de uma organizao criminosa, a mais perigosa do pas (acusao, alis, que s foi feita no primeiro depoimento ps-delao). Mas se Temer fosse mesmo o capo dessa ma, Joesley seria o seu caixa. Logo, tambm criminoso. Logo, impedido de ter a sua delao homologada, j que a vinculao a uma or ganizao criminosa a inviabiliza, na forma da lei. Contra todas essas evidncias, poderosas e elementares, ele se declarou ru confesso, o maior corruptor da histria do Brasil. Com seu dinheiro, mas tambm com dinheiro pblico, principalmente do BNDES, a juros abaixo dos de mercado, subsidiados pela nao, colocou no bolso 1.800 polticos, alm de burocratas e tcnicos de rgos do governo. Ainda assim, saiu das tratativas pela porta da frente. De l, imune a qualquer ao penal, autorizado a viajar para o exterior e de l, como se acionasse uma bomba de efeito retardado, comeou a desfazer os seus negcios no Brasil para se estabelecer fora do Brasil, com o carimbo do autorize-se do poder judicirio, por deciso isolada de Luiz Edson Fachin. Tambm com a providencial e fundamental ajuda de muita gente, incluindo dois procuradores com acesso direto ao chefe, Rodrigo Janot, Joesley Batista foi o autor do enredo. Tecido como uma teia de aranha, com os quase invisveis, porm rmes, atou a cpula da instncia superior da justia brasileira e do Ministrio Pblico Federal. Com a sua deciso da semana passada, o STF tentou se desvencilhar desses elos, mas pode ter se encalacrado ainda mais, mesmo tendo tomado a deciso tecnicamente certa. Embora j na undcima hora, quando a trama tecida pelo poderoso empresrio comea a ser desfeita e se volta contra ele, no s no Brasil, mas tambm no exterior, principalmente nos Estados Unidos, que ele pensava tomar por seu domiclio denitivo. Se esse reuxo do tsunami que ele desencadeou prosseguir, quantos sero arrastados pela nova onda gigantesca, que no para de se avolumar, atingindo refgios que pareciam seguros e indevassveis? O Brasil volta rua da amargura, que se tornou o local de domiclio das suas instituies.

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3 Temer versus Joesley Bandido contra bandidoNenhum autor de romances de espionagem conseguiria criar um enredo to complicado e intrigante quanto os brasileiros, que produziram a maior crise de sua to crtica histria. Quem se der ao trabalho de reconstituir cada captulo dessa rocambolesca trama, que j descambou denitivamente para o absurdo e o surreal, haver de concluir que nela agem apenas bandidos. O mocinho ainda no se apresentou. Talvez nem exista. A crise de homens (e mulheres, naturalmente, conforme requer a retrica igualitria) desde os comuns, na base da pirmide demogrca, at a cpula, a mais alta nessa Sodoma de concreto que atende pelo nome de Braslia. Que lideranas sero capazes de se livrar do fogo da corrupo para conduzir o pas a um novo patamar de decncia e dignidade, ao menos mnimas? O presidirio Eduardo Cunha, que foi presidente da Cmara dos Deputados e, por isso, o segundo na linha sucessria do presidente da repblica, ajuizou da sua cela, em Curitiba, um indito recurso ao Supremo Tribunal Federal, O ex-deputado quer anular a delao bilionariamente premiada do empresrio Joesley Batista, acertada a quatro mos por Edson Fachin, ministro do mesmo STF, e o procurador geral da repblica, Rodrigo Janot. Com nfase e ironia, o cidado processado por corrupo quer mais ou menos o que a vov Zulmira, criao ccional de Stanislaw Ponte Preta, reivindicava: ou restaure-se a moral ou todos nos locupletemos. No h inocentes no Leblon. Se os principais implicados em ilcitos pela Operao Lava-Jato esto na cadeia, em priso aberta ou domiciliar, envergando vistosas tornozeleiras eletrnicas e outras digamos assim punies, por que os bandidos da JBS desfrutam dos seus bilionrios bens vista, graas mais inslita e mesmo inacreditvel delao de toda a LavaJato, ainda uma caixa de Pandora a desaguar quem a devasse? Com evidente conhecimento de causa, Cunha indica os objetivos escusos de Joesley Batista ao montar a sua delao e v-la endossada principalmente por Janot, de cuja companhia tirou o mais prximo dos procuradores em Braslia, contratando-o para preparar tecnicamente a delao do empresrio da carne. Mas tambm traz para a ribalta o ex-presidente Lula, argumentando ser ele e no Michel Temer o principal parceiro de Joesley na organizao criminosa por ele descrita. Cunha diz que num encontro com Joesley e Lula, a pedido do ex-presidente, na residncia do dono da JBS, realizado no dia 26 de maro de 2016 (omitido pelo empresrio na sua delao e na sua recente entrevista revista poca), pde constatar a relao entre eles e os constantes encontros que mantinham. Como consequncia desse entendimento, sur giram os supostos benefcios concedidos pelo governo JBS, como a medida provisria de renanciamento de dvidas, que possibilitou empresa pagar bilhes de reais devidos previdncia em 15 anos, com descontos e o uso de moedas podres. E um acordo de lenincia privilegiado com o Banco Central. Eduardo Cunha faz o jogo de Temer, agora em desatada ofensiva, quase louca para tentar sobreviver? Pode ser. Mas sua incrvel ao j est na mais alta corte do pas, em busca de explicao. melhor assim. Com tanto circo montado no Brasil, um pouco e po bem melhor. Como presidente da repblica (ser vidor pblico, portanto), Temer podia ter representado ao Ministrio Pblico para que promovesse a ao que props contra o empresrio Joesley Batista. De caso pensado, no quis. Se agisse de outra maneira, teria a vantagem de no precisar contratar advogado. Como est em conito com o MP, seria um risco. Preferiu ser o autor da ao, protocolada em Braslia no dia 19. a observao que se pode fazer j na abertura da pea. Ela no tratou propriamente da defesa do presidente. Com objetividade tcnica, se limitou a extrair trechos da entrevista que o dono da JBS concedeu revista poca divulgada na semana anterior, enquadrando-as nos tipos criminais de calnia, difamao e injuria. A calnia resulta da classicao que Joesley fez do presidente como chefe de uma organizao criminosa, a mais perigosa do pas, com seus ilcitos. So fatos objetivos, que o empresrio teria que provar. As ofensas so mais de natureza subjetiva, envolvendo a denio do nimo de difamar e injuriar, que evidente na entrevista. A busca pela objetividade no impediu Temer de introduzir componentes polticos na ao. Ele acusou Joesley de ter medido suas denncias de tal maneira a ocultar seus parceiros no enriquecimento vertiginoso do seu grupo durante as administraes do PT, com o generoso dinheiro do BNDES. Seu objetivo seria atacar o presidente e seus aliados em detrimento (ou em favor) dos petistas. Mesmo que essas consideraes no se desenvolvam na instruo da ao, caso a instncia superior a mantenha, o recado foi dado. Tudo que Temer faz agora parte da sua batalha pela sobrevivncia poltica. A primeira reao de um delatado ao ataque de um delator pode vir a ser uma novidade positiva para que o debate em torno da investigao da corrupo no Brasil se torne mais dialtica e, pelo confronto dos contrrios, aproxime mais os discursos da realidade. Por que parece que todos mentem muito ou pouco. At agora, sem exceo.

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4 Corrupo a doisO jeito tucano BRT: choque de realidadeBelo Monte: chinesa?Em fevereiro do prximo ano a hidreltrica e Belo Monte, no rio Xingu, estar em condies de gerar 5,5 mil megawatts atravs de nove maquinas. Ser metade da sua potncia total, que, quando alcanada, a tornar a quar ta maior hidreltrica do mundo. Nesse ms a usina deveria ser conectada a uma linha de transmisso de mais de dois mil quilmetros, at So Paulo. A obra est em andamento, mas h trechos que nem foram iniciados. Eles estavam conados espanhola Abengoa, que quebrou nanceiramente. Se o atraso no for superado, Belo Monte poder sofrer prejuzo de 1,5 bilho de reais em 2018. O dinheiro todos sabem ter que ser bancado pela soluo de sempre: tarifa mais alta a ser paga pelo consumidor. O paquiderme levantado no Xingu car ainda maior. Enquanto isso, os chineses atuam sobre a infraestrutura logstica do Brasil como aquele velho jogo de videogame, o Pac-Man. Esto engolindo tudo. Com suas sete estaes na avenida Almirante Barroso iluminadas e livres dos tapumes metlicos que bloqueavam irracionalmente sua visibilidade, o BRT poder virar um point numa cidade sem alternativas de passeio? Indivduos ou famlias circularo pela principal via de entrada e sada de Belm para ver a novidade. Mesmo inadequadas ao clima de Belm, as estaes so bonitas e atrativas como decorao urbana. Mas por quanto tempo persistir o encantamento pela aparncia e pela viso paradisaca da propaganda municipal? H um enorme desao de cor rees e aditivos para que o sistema apresente os resultados trombeteados pela retrica ocial, se vier a apresent-los mesmo. Do Mangueiro at Icoaraci ainda h um difcil deserto a atravessar. A prefeitura se apresenta como guia seguro, convel e competente. Mas as informaes oferecidas sociedade ainda so escassas e incompletas, quando existem. Para atualizar a populao obra, antes que ela se consume sem enfrentar o debate em profundidade, melhor mesmo seria o Ministrio Pblico convocar os responsveis pela obra para a prestao de contas sociedade em audincias pblicas setoriais e uma geral. Para todas as partes, se o interesse servir sociedade, seria muito bom. Os governos tucanos no Par, desde Almir Gabriel, primam pelo equilbrio scal e pela seriedade na compatibilizao da receita aos gastos, especialmente quanto folha de pessoal. Sempre esteve entre as excees em meio a administraes estaduais perdulrias e irresponsveis no trato das contas pblicas, principalmente nos ltimos anos. Alguns Estados se encontram em emergncia ou mesmo calamidade nanceira. O maior exemplo o Rio de Janeiro, de Srgio Cabral e seu sucessor, que atende pelo sugestivo apelido de Pezo. Essa tambm uma marca do PSDB. No por acaso, do seu nico presidente da repblica, o socilogo Fernando Henrique Cardoso, a Lei de Responsabilidade Fiscal, que xou limites decentes para o comprometimento da receita com as despesas de pessoal. Embora ela seja frequentemente desrespeitada, a ponto de causar a insolvncia pela reiterao do abuso, foi um marco na gesto pblica. No caso paraense, essa preocupao louvvel tem um lado negativo. o prejuzo para a qualidade da mquina pblica, o encolhimento da funo estatal e o achatamento salarial. Pode-se dizer que o balano dos prs e contras favorvel? Com as respostas, os leitores. O presidente Michel Temer prometeu, no dia 21, em Moscou, ao lado de Vladimir Putin, que Brasil e Rssia daro prioridade ao combate corrupo nos dois pases. Brasil e Rssia esto entre os pases mais corruptos do mundo. A prtica centenria se agravou com a venda de valiosos itens do patrimnio pblico a preo de banana e por critrios duvidosos em programas de privatizao. No leilo desses ativos cresceu a intermediao de integrantes do aparato estatal e de aliados polticos, numa escala jamais vista. A apurao, desvendamento e punio da corrupo promovida nos dois pases no por iniciativa dos chefes dos trs poderes, sobretudo o executivo. Transformados em rus, eles se empenham mais em apagar rastros e criar muros de proteo do que em ter participao ativa nesse saneamento tico e moral. A indiferena de Putin verdade pblica no tem por matriz apenas a sua origem, na engrenagem secreta estatal: ele segue a tradio autocrtica dos czares. Talvez seja, em ordem inversa, um novo Pedro, o Grande. J Temer, que no tem esse arcabouo histrico, parece estar criando uma bolha articial na qual circula, se protege e se isola da realidade concreta de todos os dias de novas delaes que o incriminam. Sua muralha era o Congresso. A derrota da semana passada, na votao da reforma trabalhista, sugere que essa bar reira est trincando. Mesmo que seja reparada, o presidente caminha para um m cruel: a esquizofrenia.

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5 Como car a quadrilha que Joesley denunciou?Companheiro EikeEm 21 de dezembro de 2009 Lula foi a Nova York receber um prmio concedido por empresrios e lderes cvicos americanos, no suntuoso hotel Waldorf Astoria. O salo estava cheio. No seu discurso, Lula s cumprimentou e citou trs pessoas: o petista Luiz Dulci, o americano Rex Tiller e o nosso companheiro Eike Batista, smbolo do capitalista moda do PT no poder, que gerou tambm Joesley Batista e Marcelo Odebrecht. O que aconteceu oito anos depois? A entrevista que o empresrio Joesley Batista deu revista poca duas semanas atrs, tinha poder destrutivo suciente para ejetar Michel Temer da cadeira de presidente da repblica. Na atual conjuntura, porm, na qual aparncias so desmascaradas e respeitabilidades so estraalhadas diariamente, no chegou a ter exatamente esse efeito. Sem dvida, foi bem sucedida ao descortinar de vez a melanclica dimenso criminal de um professor de direito constitucional e jurista de nomeada. Mas tambm abala as instituies brasileiras envolvidas nas denncias de um dos donos do grupo J&F. Joesley apimentou ao mximo as declaraes que j zera na delao premiada ao Ministrio Pbico Federal. O objetivo era bvio: valorizar o que disse e se prevenir contra os efeitos danosos para ele, mas no para as pessoas citadas ou por trs das citaes, eventualmente ainda no anonimato, mas suas conhecidas do desdobramento da sua iniciativa. Assumiu uma chantagem explcita, radical. Por isso mesmo, o homem que voltou ao palco nacional para uma edio ampliada e agravada da sua pea inicial j no merecia a menor considerao. Se Temer o chefe da maior e mais perigosa quadrilha em atividade no Brasil, o empresrio, que sacava (principalmente dos cofres pblicos, que lhe foram abertos) dezenas de milhes de reais a cada chamada do chefe, integrante confesso e destacado da mesma quadrilha. o homem do caixa sujo, da consumao das ilicitudes. Passvel, por tanto, de enquadramento nos crimes de corrupo ativa, formao de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros itens mais que uma boa investigao apontar. O empresrio acabou. Resta o bandido muito perigoso, alis, porque refratrio a qualquer limite tico, moral ou legal. Gngster de alto cacife por sua proximidade com outros chefes, da mesma estirpe, incluindo os ocupantes do mais alto nvel do poder pblico. Um verdadeiro homem bomba. Joesley Batista j era bandido quando se apresentou, em Braslia, ao chefe do Ministrio Pblico Federal. No foi limpo presena de Rodrigo Janot. No momento em que se encontraram, Joesley mantinha com propina um subordinado do procurador geral da repblica para informa-lo do que lhe interessava junto ao MPF (que precisou ser preso por isso) e atrara outro procurador, ainda mais prximo, para advogar seus interesses e preparar a delao (a quatro ou mais mos). Minara o centro da principal mquina de combate corrupo no pas. Joesley negociou com essa cpula o mais favorvel, surpreendente e suspeito acordo de delao de toda histria da Operao Lava-Jato. No s no foi preso nem submetido a controle atravs de tornozeleira eletrnica como ganhou imunidade penal e pde transferir seu domicilio para os Estados Unidos, a pretexto de que estava sendo ameaado de morte, mesmo quando suas acusaes ainda estavam sob sigilo. So muitos os defensores de Janot e de Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, que homologou integralmente a delao, em compasso anado com o planejamento do delator para possibilitar a especulao nanceira antes da revelao do que disse (que lhe teria rendido 800 milhes de reais) e sua fuga para os Estados Unidos. Eles acham que a preciosidade das informaes justicou os benefcios concedidos a Joesley. Seria um preo compatvel com a qualidade do produto oferecido. uma tese frgil demais para suportar a incrvel coleo de privilgios deferidos ao delator. Anal, ele mesmo disse que corrompeu 1.800 polticos. Com a reprise j debochada, na qual Joesley escancarou o que revelara e chegou aos mnimos detalhes, omitidos na primeira delao (a nica efetivamente realizada at agora, j que a prxima ainda est por acontecer), o lgico seria que o primeiro acordo fosse cancelado. No s isso. O ru confesso de integrar uma quadrilha de corrupo, a maior e mais profunda, talvez, da histria da humanidade, teria que ser preso, como foram os outros delatores, inclusive de alto coturno, como Marcelo Odebrecht, comandante de outra mquina corruptora, no cr cere at hoje. Michel Temer tem imunidade. Como ele diz que no renunciar, um processo contra ele ter que passar pela Cmara dos Deputados. Temer estima dispor de votos sucientes para barrar qualquer ao contra si. Tantas vezes quantos forem os pedidos de licena para process-lo? Duvide-se. E quanto a Joesley?

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6 O sacrifcio de Olga PrestesNo chegou s mos de Olga o romance Iracema o clssico de Jos de Alencar, que sua sogra lhe enviou do Brasil para sua cela, em Berlim, onde os nazistas a mantinham presa, na segunda metade dos anos 1930. Juntamente com a revista francesa LIllustration o livro foi vetado pela censura da polcia secreta alem, a Gestapo, com base nas seguintes consideraes: O romance Iracema Lenda do Cear, escrito em lngua portuguesa, assim como a revista francesa, no devem de maneira alguma ser entregues prisioneira Olga Benrio. O livro por tugus [sic] descreve a vida de luta de um condenado brasileiro pela liberdade e difama em grande medida a forma de governo ordeira. Observao interessante. Do outro lado do Atlntico, na mesma poca, a histria da morena com lbios de mel circulava livremente, mesmo estando o Brasil sob uma ditadura, a do Estado Novo de Getlio Vargas, responsvel pelo fato de a esposa de Luiz Carlos Prestes, judia e comunista, ter sido extraditada para o pas que mais per seguia judeus e comunistas. Ou seja: entregue Gestapo para que o rgo de represso mais selvagem do planeta a executasse. No Brasil, o romance de Alencar sempre foi apresentado aos iniciados como uma obra romntica e ingnua, uma viso cor de rosa das coisas. Para o Terceiro Reich de Adolfo Hitler era uma exortao liberdade e um libelo contra a ordem pblica sob forma totalitria. Esse paralelo pode agra ser aprofundado, graas a Olga Benario Prestes Uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, So Paulo, 136 pginas), escrita por Anita Leocdia Prestes, lha do cavaleiro da esperana com a militante alem que se tornou um quadro da Internacional Socialista, com base em Moscou, na ento Unio Sovitica. um livro pequeno, mas valioso, que incorpora novidades s biografias de Olga. Sua filha o escreveu com base nos arquivos da prpria Gestapo, apreendidos pelos russos em 1945, vitoriosos ao final da Segunda Guerra Mundial. Esses arquivos comearam a ser abertos para consulta pblica em abril de 2015. Dos seus 2,5 milhes de folhas, formando 28 mil dossis, 2 mil foram dedicadas a uma nica pessoa: Olga. Na apresentao, a filha, com 81 anos, acha que esse dossi pode ser a coleo mais abrangente de documentos sobre uma nica pessoa do fascismo. Essa histria, de amor e tragdia, comeou quando Olga e Prestes saram de Moscou no nal de 1934. No longo caminho at o Brasil eles iniciaram uma convivncia amorosa que durou apenas 15 meses. Apesar dessa curta histria em comum, ela formou elos afetivos e polticos fortssimos, que nem a tortura sob priso enfraqueceu. A correspondncia que sobreviveu revela a intensidade dessa relao, perfeita para uma exaltao amorosa e uma gloricao militncia poltica, defesa de uma ideia. Durante seis anos, Olga foi mantida pelos nazistas em priso preventiva, expediente usado para deteno por tempo indenido e sem instaurao de processo judicial. No era prevista a atuao de advogado. Quando seus carcereiros concluram que nada podiam arrancar dela, a transferiram da priso em Berlim para campos de concentrao. Ela foi assassinada numa cmara de gs do campo de concentrao de Ravensbrck, em maio de 1942. Tinha 34 anos. Sua comovente histria serve de motivo de reexo no Brasil e na Alemanha, com signicao universal. Assinala um dos momentos mais negros e vis da carreira de Getlio Vargas. Presa juntamente com Prestes, logo depois da malograda tentativa de desencadear a revoluo no Brasil atravs de um movimento armado, ela podia ser mantida em crcere nacional, ao invs de ser entregue, grvida, barbrie antissemita e anticomunista de Hitler. A ditadura se recusou a reconhecer mritos e direitos do adversrio, direta e indiretamente. Essa intolerncia pode reetir as convices polticas totalitrias do ditador, mas tem a assinatura do chefe da polcia secreta brasileira, ironicamente cheada por um descendente de alemes, Felinto Mller (que viria a ser senador pelo partido ocial de outra ditadura, a de 1964), Olga tentou se registrar na embaixada do Brasil em Berlim. Sua solicitao foi recusada tanto pela Gestapo quanto pelo Itamaraty. O Supremo Tribunal Federal rejeitou o habeas corpus em favor dela, quando ainda no Brasil, impetrado pelo advogado Heitor Lima. Defensor de Prestes por designao ocial (o defensor dativo), Sobral Pinto conseguiu vencer as enormes resistncias do Itamaraty e do governo brasileiro para permitir que o prisioneiro assinasse a declarao de pater nidade de Anita Leocdia. Ela s foi entregue pela Gestapo av paterna e tia quando estava com 14 meses de idade (nasceu em novembro de 1836, na enfermaria da priso). Essa deciso e o tratamento positivo dado criana pelo perodo em que esteve sob os cuidados dos nazistas resultou indiscutivelmente da inuncia e da repercusso mundial da Campanha Prestes uma grande vitria da solidariedade internacional. A me de Olga, que morava em Munique, se recusou a receber a me de Prestes e a delegao inglesa que se empenhava pela soltura da sua lha. Praticamente enxotou as senhoras inglesas, que saram de Londres mobilizadas pela sorte de Olga. Ela se recusou a assinar a guarda de Anita. Por crueldade ou pnico de ser alcanada pela temida Gestapo. Ou as duas coisas. Os documentos inditos da polcia secreta ainda no so sucientes para esclarecer de vez alguns pontos ainda no totalmente iluminados, embora j apontados insistentemente, sobre a permanncia de Olga na priso em Berlim e nos campos de concentrao ao longo de seis anos. Os nazistas no a liquidaram logo ou deixaram de dar um destino nal sua lha, como zeram em numerosos casos assemelhados, porque esperavam muito da consso que ela podia fazer. Continuaram a insistir, a agravar suas condies na priso e a tortur-la porque a tinham como conhecida esperteza

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7 Quando guarda morre, a vingana imediatadessa comunista fantica, pessoa plenamente judia e uma comunista obstinada e astuta, comunista inteligente e perigosa. Anita Leocdia assegura que sua me jamais se prestou a delatar quem quer que fosse nem a confessar suas atividades na Juventude Comunista Internacional ou no Comintern. A atitude de resistncia e insubmisso da prisioneira foi de certa maneira tolerada, o que no aconteceu com outras vtimas dos nazistas, porque eles deviam entender que essa fora no era proveniente apenas do seu carter e doutrinao, mas da sua importncia como agente internacional de Moscou. Sua lha considera evidente que a Gestapo s concordaria com a sada de Olga caso ela se decidisse a confessar suas atividades comunistas. Ela atuara intensamente na Alemanha, desde jovem, antes de se transferir para a Unio Sovitica, e esse seu passado poltico era considerado prejudicial ao interesse vital alemo. Alm disso, com uma eventual libertao de Olga, haveria uma nova ao propagandstica, o surgimento de numerosos requerimentos a favor de Benario, assim como uma nova campanha difamatria contra o Imprio de parte da imprensa. Em virtude da sua inteligncia, ela certamente iria dedicar-se, no exterior, de maneira excepcional, propaganda difamatria contra a Alemanha. Concluram de tudo com uma sentena de morte: No vale a pena gastar mais tempo com ela. Tudo que fez Prestes e Olga atravessarem o mundo de volta ao Brasil no se consumou. O projeto de revoluo iminente foi um fracasso. O visionrio e combatente heroico, que convenceu Moscou a colocar sob sua direo quadros valiosos, como Olga, para uma transformao radical na Amrica do Sul, se revelou incapaz de compreender o prprio pas e de ser um lder poltico altura do chefe militar que fora. O sacrifcio de Olga Benrio Prestes foi em vo. O guarda municipalJadson Teixeira, 33 anos, inspetor da guarda municipal de Ananindeua, foi morto a tiros no dia 20, quando perseguia um assaltante no bairro das guas Lindas, na regio metropolitana de Belm. Na madrugada do dia seguinte, dois primos, que cresceram como irmos, foram executados a pouca distncia do local do assalto e do assassinato do agente pblico. Dez homens encapuzados, que chegaram em dois carros, arrombaram a porta de madeira de uma precria casa de alvenaria, onde estavam todos os cinco integrantes da famlia. Entraram j sabendo o que iam fazer. Dispunham das informaes necessrias para invadir o local e cumprir o que planejaram. Breno Ferreira Gonalves, de 20 anos, foi retirado da cama, ainda no desperto, e arrastado para a lateral da residncia. Recebeu um nico tiro, no rosto. Foi fatal: a bala saiu de uma escopeta e lhe destruiu a cabea. Alexandre Ferreira Gonalves, de 22 anos, tentou escapar. Recebeu trs tiros de pistola ponto 40. A me protegeu os outros lhos, um menino de 14 anos e uma menina de nove. Ambos foram poupados. A ao durou menos de cinco minutos. Quando os assassinos se retiraram, toda vizinhana permanecia dentro de suas casas, com medo. Ningum admitiu ter ouvido os tiros. As duas mortes tm todas as caractersticas de vingana pela morte do guarda municipal. O alvo seria Breno, dependente qumico com ficha criminal, que j lhe valera priso de quatro meses. Ele poderia no ser o assaltante que matou o guarda, mas provavelmente o conhece e seria do bando. Alexandre foi morto por tentar fugir ou porque a retaliao extrapolou a conta. Ele era pedreiro e ia receber o seguro desemprego por estar sem trabalho. No tinha antecedente algum. A vingana pelas prprias mos no honrou a memria de Jadson, inspetor da guarda municipal de Ananindeua. Seus colegas garantem que ele era um excelente prossional. Deu prova desse conceito quando se colocou a servio de uma mulher que fora assaltada e lhe pediu que a ajudasse. Jadson estava indo para o servio, no incio da manh, mas se desviou do seu destino para atender a vtima. Per seguiu o assaltante, que o surpreendeu com um tiro, matando-o. O guarda usava o colete balstico da corporao, mas a bala penetrou em seu corpo pela axila esquerda, que no protegida. A imprensa no conseguiu saber se ele estava armado. Embora a guarda municipal de Ananindeua j tenha recebido autorizao para armar seus integrantes, os guardas ainda trabalham desarmados. Por qu? Essa atitude pode estar submetendo a uma exposio demasiada de cidados que agem como policiais, sujeitos a confrontos armados, sem ter a plena capacidade de defesa no exer ccio de funo de alto risco? Prender os matadores do guarda e esclarecer as circunstncias da sua morte seria a resposta adequada a essa violncia e no mais violncia por parte de pessoas sem condies de desempenhar a funo que lhes cabe na segurana pblica.

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8 Animais e pessoasOito gatos e dois cachorros foram encontrados mortos por envenenamento na rea da feira da Pedreira, no dia 15. Dois dias depois, dezenas de ativistas zeram uma justa manifestao de protesto contra essa matana. Tentaram alertar os eventuais interessados na eliminao dos animais, sobretudo os feirantes, e chamar a ateno das autoridades para o problema. Podiam ter aproveitado a energia e a indignao para incluir no protesto os cinco mortos e 14 feridos, seres humanos, na chacina do dia 6, em outro birro, ainda mais perifrico, a Condor. At agora, quase trs semanas depois, as autoridades da segurana pblica ainda no apresentaram qualquer prova concreta sobre os assassinos, embora tenham colocado nas ruas, em Belm e no interior do Estado, 1.600 homens em operaes ostensivas sem resultados altura dessa indita mobilizao de fora. Quem sabe, apontem os responsveis pelo envenenamento dos ces e gatos, assim satisfazendo os dignos ativistas.Cadveres nas ruasConcretamente, ao que parece, o que menos emociona, indigna ou mesmo interessa a matana diria de gente em Belm. E no s por imediatismo, a sensibilidade or da pele em relao apenas ao mais prximo. O estupro da jovem do Rio de Janeiro provocou uma catarse contra mim no blog que mantenho. O estupro de uma menina de 16 anos na capital paraense passou quase em silncio. A rotina das mortes nesta que uma das cidades mais violentas do mundo parece ter entorpecido o pblico. Ele mais ativo na leitura das pginas policiais dos jornais, nos programas barra pesada da televiso ou na contemplao dos cadveres deixados nas ruas. No futuro, o que sero essas crianas entregues aos azares do dia na periferia de Belm? Acostumadas aos assassinatos, a ver cadveres expostos serem transformados numa atrao, como se comportaro quando puderem dispor sobre a vida alheia? Os insensveis de hoje tero direito de ser os juzes de amanh, condenando e sentenciando pelo cometimento de crimes que podiam ter prevenido?Santarm: valeu a pena?Como sempre acontece, o editor do portal O Estadonet Miguel Oliveira, ne pediu um artigo de anlise da realidade santarena para a mais nova edio de aniversrio do municpio. Pensei sobre o desao e decidi que no teria condies de atender rigorosamente o pedido. Tenho ido pouco minha terra natal nos ltimos anos. As viagens costumam ser rpidas e absorvidas por compromissos pessoais. Acho-me em relativa desatualizao com a conjuntura local. Esta limitao acabou por me conduzir a uma abordagem distinta da encomenda. Aos 67 anos, j posso fazer uma reexo genrica e, digamos assim, losca sobre o que vi e observei durante todo esse tempo. No incio dos anos 1950, Santarm era nica no Par e na Amaznia: uma cidade litornea a quase mil quilmetros do mar, no mdio Amazonas (na perspectiva regional), a terceira maior da regio, a meio caminho entre Belm e Manaus. O trao principal do seu perl eram as praias de areia na e alva, com gua transparente, que acompanhavam a borda da cidade e se estendiam por 40 quilmetros rio Tapajs acima. Uma cidade muito mais litornea do que Belm, a poucos quilmetros do Oceano Atlntico e com uma costa entremeada por balnerios. A praia denia a vida do santareno. Tanto nos ns de semana, com excurses s localidades mais distantes, como no dia a dia. Nos seis meses de vero (e de vazante dos rios), Santarm parecia uma Copacabana na selva. Jovens e adultos sempre presentes nos jogos na areia, moas e senhoras transitando pelas ruas em trajes completos de banho, todos caminhando na mesma direo, uma leveza e um esprito ldico inexistentes na capital do Estado. Uma mentalidade colonial de macaqueao impediu os santarenos de tentar um caminho alternativo para o seu desenvolvimento. Outras atividades poderiam ser desenvolvidas, mas a principal deveria ter sido o turismo. O turismo ecolgico e cultural, capaz de impedir a degradao das praias da frente, como se dizia, e estimular tudo que pudesse continuar a se harmonizar com essa paisagem nica, num autntico e portentoso esturio uvial. Ao invs disso, Santarm imitou Belm. Em quatro sculos, a capital fechou o acesso baa do Guajar e ao rio Guam, emparedando o que s agora restitudo aos belenenses como medocres janelas para o rio, respiradouros do ser amaznico. Portos e mais portos, em regra precrios e feios, construes pobres, desvalorizao e desnaturao. A cidade em que nasci e qual voltava todos os anos, sentindo o contraste que a elevava em relao ao meu domiclio belenense, desapareceu ou desaparece um pouco a cada novo ano. No por saudosismo vazio que lamento esse processo erosivo. por tentar avaliar o que o desenvolvimento no qual vivemos proporcionou a Santarm e do que a privou. Uma cidade de beira de rio, maravilhosamente amaznica e litornea, virou um aglomerado catico de beira de estrada. Quanto mais se desenvolve, mais se descaracteriza. E se afasta de um modelo de progresso em harmonia com o que ela deveria ser, no com o que Talvez por isso cada novo retorno minha querida terra natal acrescenta em mais um grau a dor de v-la outra vez. A realidade diante dos olhos, com fora maior do que os nmeros do desenvolvimentismo, me impe o questionamento: valeu a pena?

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9 A capoclasse segundo o capo Delm NettoO mais poderoso instrumento de oposio s reformas a alta burocracia federal, uma elite extrativista que se apropriou do poder em Braslia graas covardia dos governos e ao descuidado conformismo escandaloso dos trabalhadores e dos sindicatos que a sustentam. a capoclasse, diagnosticou o ex-ministro Delm Netto, em artigo da semana passada na Folha de S. Paulo. Algum poder reagir a esse ataque direto e sarcstico com o argumento de que o ex-todo-poderoso da ditadura militar se empenha em encontrar uma sada para quem est na mira da Operao Lava-Jato. O prprio Delm um deles. A acusao que lhe foi endereada a de receber propina para preparar o leilo da concesso da hidreltrica de Belo Monte, como conselheiro de Lula e Dilma. uma hiptese to possvel quanto procedente a sua crtica ao aparato burocrtico federal encastelado em Braslia. Ainda mais por sua condio de capo durante grande parte dos 21 anos do regime militar. Entre 2003 e 2016, 313 mil novos servidores foram incorporados ao quadro de pessoal na Unio, incluindo todos os trs poderes (executivo, legislativo e judicirio). Quase 220 mil deles foram lotados no executivo civil (mais 80 mil no militar). No ano passado, a soma ultrapassou 2 milhes de pessoas. Nos oitos anos do governo Lula (2003/2010), o aumento do efetivo da Unio em relao a 2002 (m do gover no Fernando Henrique Cardoso) foi de 171 mil servidores. Em cinco anos dos governo Dilma e Temer (2011/2016), comparado com dezembro de 2010, o incremento foi de 142 mil. Em 2016 o salrio mdio/ms dos trabalhadores formais das empresas privadas foi de dois mil reais por ms (ou, para ser exato, R$ 2.052, segundo o IBGE). Esse valor 90,01% menor do que o maior salrio mdio dos servidores da Unio e 63,95% menor do que a mdia do menor desses salrios. No ano passado, o salrio mdio/ ms dos aposentados e pensionistas do Regime Geral de Previdncia Social (INSS) foi de R$ 1.285,80, valor 93,74% menor do que o maior salrio mdio dos servidores da Unio e 77,41% menor do que o menor salrio mdio do poder pblico federal. um poderoso exrcito de mo de obra, cujo peso no pode ser ignorado. Pelo contrrio, tem que ser analisado como uma nova velha classe, que surgiu, como tal, nos pases comunistas, denunciada por um ex-comunista, o iugoslavo Milovan Djilas. Claro que no se trata da mesma coisa. O Brasil capitalista, sem um Estado absoluto nem partido nico e outros componentes de uma autocracia ou tirania. Mas o peso da tecnoburocracia tal que d consistncia ao alerta de Delm sobre a interferncia dessa nova organizao criminosa que com a conivncia dos ltimos poderes incumbentes assaltou o patrimnio nacional e escafedeuse brilhantemente. Seu reduto a capital federal, dona do maior PIB per capita do pas, embora no resulte de atividades diretamente produtivas, mas do exerccio do poder, realizado em grande medida para proveito prprio. Mesmo um estadista, como JK foi, dos poucos que ocuparam o poder mximo no Brasil, pode cometer erros e monumentais. Adstritos realidade histrica de cada poca, temos que atenuar um pouco esses erros porque fazer andar esse paquiderme chamado Brasil uma epopeia no realizada at hoje. Braslia foi concedida para ser uma arquitetura plstica, bonita, audaciosa, inovadora, nada funcional, que maltrata o indivduo e esmaga a massa. Um patamar acima do socialismo realista, mas na mesma escada. Um stalinismo brasileira, com a assinatura do grande artista dos espaos vazios Oscar Niemeyer.Barbrie na praa (In)segurana pblicaMriam Leito uma das maiores jor nalistas no Brasil atual. Costuma provocar reaes passionais, a favor e contra. Muitos a apoiam achando que gente do PSDB. Outros a detestam por tom-la como inimiga fantica do PT e pau mandado da Globo. Muitas pessoas isentas devem discordar dela ou aplaudi-la incondicionalmente. Se forem mesmo isentas, agradecero por terem a oportunidade de receber informaes e anlises por ela produzidas em volume impressionante. impossvel descortinar o pas dos nossos dias sem incluir Mriam Leito no cenrio. Alm de grande jornalista, ela e sempre foi personagem da histria dos nossos dias, que procura registrar e interpretar. No dia 13, Mriam foi selvagemente hostilizada no aeroporto de Braslia e durante o voo para o Rio de Janeiro. Pessoas que participaram de um encontro do PT na capital nacional a agrediram verbalmente e a xingaram com palavras e gestos. Ningum tomou qualquer atitude contra os atos abusivos dos passageiros, nem o comandante do avio da Avianca, autoridade mxima naquele espao. Mriam se manteve calma e tentou ficar indiferente a tudo. A nada revidou. Carregou a ofensa no seu interior. No clima de irracionalismo e fanatismo dos nossos dias, todos esto sujeitos a esses constrangimentos pbicos se no integram as hordas polticas (quanto s criminosas, a elas todos j esto sujeitos, indignados e impotentes). Mas no se pode deixar que elas ajam impunemente. Todos tm o direito de manifestar crticas e discordncias, mesmo de forma enftica e ate mal-educada. Mas no se pode reduzir essas polmicas lei da selva. Ela consagra truculentos e brbaros. No dia 15 a secretaria de segurana pblica iniciou uma operao de ostensivo e intensivo combate ao crime e tentativa de preveno de homicdios. Duas semanas depois, qual o balano dessa ofensiva? Ocialmente, nada foi apresentado. No foi concluda a investigao sobre a chacina da fazenda Santa Lcia, em Pau DArco, nem anunciado um nome sequer dos 10 homens encapuzados que mataram cinco pessoas e feriram outras 14, em Belm. Na realidade, a criminalidade continuou to alta quanto o medo das pessoas. A insegurana pblica no parece ter sido perturbada.

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10 Amaznia: uma colniaNo dia 14, um avio monomotor de uma empresa de txi-areo caiu no rio Catrimani, em Roraima. O piloto, que levava um enfermeiro para a aldeia dos ndios yanomami, conseguiu pousar na gua e se salvar, junto com o passageiro, nadando para a margem. Pouco depois um helicptero da empresa Panamaznia chegou para fazer o resgate. O enfer meiro conseguiu subir na corda que lhe foi atrada e ser salvo. O piloto no supor tou o esforo, caiu e morreu afogado. O enfermeiro lmou tudo, desde que o piloto Elcides Pereira decidiu desligar o motor, depois de comunicar o pouso for ado que faria sobre o rio, at o choque com as guas turbulentas do Catrimani. A exibio do vdeo provocou debates, principalmente sobre a desastrada iniciativa da empresa de tentar sozinha o resgate, sem comunicar o acidente aos bombeiros, treinados para esse tipo de ao. Eles jamais aprovariam a tentativa de retirar os dois homens atravs de uma simples corda. Os bombeiros que encontraram o corpo do piloto, trs dias depois do acidente. O leitor Eduardo Muzzolon reagiu exibio do lme com um comentrio que vale a pena transcrever. Disse ele: Total falta de discernimento do pessoal do helicptero! Simplesmente lanar uma corda para que os sobreviventes se virem de uma incompetncia amaznica! Custava atar ponta da corda uma cadeirinha (daquelas usadas em rapel, escalada) para o conforto e segurana das vtimas? Improviso, incompetncia, falta de preparo, de conhecimento, de sensatez nunca deram certo, ainda mais quando est em risco um idoso em situao debilitada. E se os dois estivessem feridos? Vai car barato assim? A observao me faz lembrar de um encontro de que participei, anos atrs, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, sobre desigualdades regionais no Brasil. Srgio Besserman, irmo do humorista Bussunda (j falecido), respeitado como economista competente, se a um programa que o banco criaria para apoiar as atividades empresariais na regio. Argumentou que no havia pessoas com a verdadeira mentalidade empresarial na Amaznia. Concordei em parte com a crtica. Mas observei que o maior emprstimo feito pelo BNDES na Amaznia foi em favor de um empresrio americano, Daniel Ludwig, que nunca devolveu os 250 milhes de dlares que lhe foram concedidos (valor da poca) para implantar uma fbrica de celulose e uma usina de energia no Jari. Talvez fosse mais do que a soma das aplicaes industriais do banco na regio. Besserman no retornou ao assunto. Observo que tem se incrementado recentemente o preconceito contra a Amaznia, induzido pela ignorncia nacional de fato sobre a regio. Tanto nos julgamentos no Supremo Tribunal Federal quanto em pronunciamentos de polticos e em obser vaes de comentaristas, o recurso palavra Amaznia depreciativo. Seu habitante seria um primitivo, abaixo do nvel mdio da populao nas regies mais desenvolvidas. Uma autntica colnia. A inteligncia seria menor na linha do Equador. Talvez porque o sol amolea o crebro, diria um Cecil Rhodes brasileiro.Jatene: a explicaoSou da mesma gerao do governador Simo Jatene. Na juventude vivida em co-mum, partilhamos interesses semelhantes e circulamos por alguns dos mesmos am-bientes. Em encontros descontrados, j conversamos agradavelmente, acho que em proveito mtuo. As crticas que lhe fao, s vezes de forma mais contunden-te, no interferem no apreo pessoal que lhe dedico, sem me importar se h ou no reciprocidade. Espero que continuemos a nos tratar sempre com civilidade, em especial quando descer do poder, com a responsabilidade de ter sido o governador que por mais vezes chegou ao topo pelo voto dos paraenses. Por isso, toro pela sade de Jatene, de-sejando-lhe longa vida. Acompanhei com interesse jornalstico, mas tambm pessoal, sua ltima hospitalizao, pelos problemas que o acompanham j h algum tempo, a circulao coronariana. Fiquei aliviado por v-lo retornar a Belm e sua agenda nor-mal, depois de uma permanncia em So Paulo mais prolongada do que a anunciado pelos porta-vozes do governo. No entanto, estranhei o silncio na volta. Achei que ele se manifestaria sobre uma questo de ordem pblica, margem da sade do cidado Simo Jatene. A ques-to, manipulaes polticas parte, : por que o governador, aps iniciar em Belm o tratamento da elevao da sua presso arterial, no o concluiu no hospital onde se internou, com a instalao do quinto stent para permitir a circulao de sangue pela artria obstruda? Ao invs disso, ele viajou para So Paulo e se internou no hospital Srio Li-bans, em So Paulo, o mesmo no qual foi procedida a instalao dos quatro stents anteriore. O procedimento foi bem suce-dido. Por ser a maior autoridade pblica do Estado, a Jatene foram concedidos pri-vilgios como o voo em jatinho particular e a internao num dos melhores e mais caros hospitais particulares do Brasil. O mesmo aconteceu quando ele sofreu feri-mento no olho durante uma pescaria e foi ser operado em Goinia. Se o tratamento especial se justica por se tratar do governador, ainda assim o ho-mem comum deve se perguntar se a neces-sidade de transferir Jatene para So Paulo, para a colocao de um stent que j proce-dimento rotineiro em unidades hospitalares especializadas, no revela o fosso que separa os hospitais de Belm dos de So Paulo ou de outras grandes cidades brasileiras? No seria de interesse pblico que o governador justicasse ao contribuinte estadual a razo da sua transferncia para a capital paulista, sem que isso parea como parece des-crena na rede hospitalar de Belm? A observao, dita s vezes como pia-da, de que os melhores hospitais da cidade so as companhias areas, ao invs de ser enfrentada com fatos, alimentada por bo-atos que circulam pelos ambientes quando algum com possibilidades de ir para outro centro viaja em busca da sua sade. Parece no acreditar que a encontre por aqui.

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11 O descobridor de CarajsEm dezembro do ano passado, o Sindicato das Indstrias Minerais do Estado do Par concedeu ao gelogo Breno Augusto dos Santos o ttulo honorico de minerador destaque. O ttulo foi conferido personalidade que mais se destacou pelo apoio e incentivo ao setor mineral do Par e do Brasil. A outorga foi em Belm, durante a solenidade de lanamento do 5 Anurio Mineral do Par 2016. Essa homenagem, segundo a direo do sindicato patronal, simboliza para todos ns que fazemos parte do setor mineral o reconhecimento e o nosso agradecimento. Breno foi escolhido por votao de um colgio eleitoral integrado pela diretoria, membros do conselho scal e empresas associadas ao Simineral. Na ocasio, escrevi uma nota no meu blog. Lembrei que Breno considerado o descobridor das jazidas de Carajs, as mais ricas em um dos maiores depsitos de minrio de ferro do mundo, em julho de 1967, quando iniciava as operaes de campo no sul do Par como funcionrio da Companhia Meridional de Minerao, subsidiria da United States Steel, que era, ento, a maior siderrgica do mundo. Depois Breno passou para a Companhia Vale do Rio Doce, ainda estatal, que indenizou a USS e se tornou a nica dona das jazidas, em explorao desde 1985. Aposentado, Breno mora atualmente com a famlia em Niteri, mas continua em atividade, prestando assessoria especializada. Por muitos anos morou em Belm. Alm de artigos e livros sobre minerao, sempre manifestou preocupao e interesse pelo desenvolvimento do Par. Nasceu em So Paulo, mas adotou o Par como o Estado do seu corao. Os comentrios que se seguiram revelam certo ceticismo e mesmo contestao quanto ao papel de Breno na histria de Carajs, em comentrios de bastidores que raramente se tornam pblicos. Como poucas pessoas tomaram conhecimento dos comentrios, decidi reproduzi-los. um complemento matria da antologia, que est na pgina 14.O poeta JesusHaroldo Lisboa Lucio, ao que parece Breno descobriu sem querer, querendo. o mesmo da histria do avio? Ou estou confundindo tudo?! Haroldo Lisboa Desculpa, Lcio. Parece que realmente misturei as montanhas, o do avio relacionado Serra Pelada.. LFP Ele chegou ao topo da Serra dos Carajs de helicptero, enquanto os pesquisadores nacionais faziam suas expedies de barco, sem condies de chegar aonde estava o minrio, 400 metros acima. Waldir Alencar de Souza Lucio Flvio, voc esqueceu do descobridor intelectual de Carajs, o gelogo Gene Tolbert, sem o qual nada teria sido descoberto? O prprio Breno deve ter lamentado! LFP No esqueci. O Tolbert forneceu a base tcnica, gerencial e administrativa para o Breno chegar ao topo de Carajs. Mas a Steel estava mesmo caa de mangans e no exatamente de minrio de ferro. Ganhou na loteria mineral graas ao Tolbert, que deniu o alvo. Depois, jogou fora o bilhete premiado. Ainda bem. Embora depois o Brasil tambm tenha comeado a dilapid-lo, como faz agora. Joo de Jesus Paes Loureiro um dos mais fecundos poetas brasileiros. Seu lti-mo livro (Encantarias da palavra Edufpa, 269 pginas) acaba de sair. A tiragem au-daciosa para um livro de poesia: dois mil exemplares. No excesso de cortesia: Je-sus tem um pblico el e at ardoroso, aqui e em outros lugares, que mantm cativado com sua produo, uente e intensa como um rio amaznico, que constitui um dos temas essenciais da sua vasta obra. Aos 78 anos, quantos livros JJ Paes Loureiro j escreveu? No encontrei uma bibliograa completa. E co a me pergun-tar se ele tem o nmero exato. Se tiver, ter sido por obra e graa da esposa e compa-nheira que o acompanha h mais de meio sculo, a sociloga e professora Violeta Refskalefsky Loureiro. Intelectual tam-bm prolca e respeitada no seu setor, Violeta sempre empenhou sua capacidade de organizao e realizao na causa do marido, colocando-o em primeiro plano. Formaram um casal harmonioso e admi-rado, s vezes (bem) invejado. O decidido apoio da mulher sempre foi uma das bases para a admiravelmente constante atividade criadora de Jesus. Seu primeiro livro, Tarefa (por coincidncia, o mesmo ttulo de livro de Geir Campos, outro poeta de verso militante, no outro lado do pas, igualmente punido pelo re-gime militar de 1964), surgiu quando ele tinha 25 anos. Em 53 anos, este Cantares a publicao de qual nmero na obra do eterno lho de Abaetetuba, estabele-cido em Belm em 1951? Meu conhecimento do poeta tambm remonta a mais de meio sculo. Recm-ad-mitido redao de A Provncia do Par, em 1966, logo consegui publicar uma coluna dominical sobre arte e cultura. A segunda foi dedicada a Jesus. Continha um texto meu de apresentao, resultado da nossa primeira conversa, e um poema indito dele. Preso e perseguido, o nome do poeta ainda provocava receios e vetos. Precisei gastar meu latim para fazer o jornal admiti-lo. Nesse mesmo ano, Altino Pinheiro, res-ponsvel pela edio de Tarefa apreendido pela Polcia Federal, publicou o segundo li-vro de Jesus, Cantigas de amar de amor e de paz ao qual se seguiria o meu ento favori-to, Epstolas e baladas de 1968, igualmente com o selo do sempre generoso Altino. Em 1967 consegui abrir outra frente, criando um caderno dominical de cultu-ra em A Provncia Editei umas duas ou trs primeiras pginas do caderno com poesias de Jesus, usando espaos brancos (novidade em matria de diagramao) e fotograas como ilustrao. O poeta j tomara um rumo que o leva a mais um livro, com um toque mais robusto de ino-vao: aos poemas longos, discursivos e declamatrios, versos curtos originrios de observaes simples e sutis do coti-diano. O poeta, no prtico dos 80 anos, continua ativo e novo.

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12 1963trio (que deu origem ao bairro da Cremao) estava parado, todo lixo da cidade estava sendo jogado na baixa da Timb. o do Teatro da Paz tinham o mesmo destino: paradas. gua e Esgoto (atual Cosanpa) instalou os primeiros hidrmetros em algumas casas. A inovao no foi aprovada pelo prprio governo. Alegou que o Estado passou a ter srios prejuzos com o uso do aparelho. O que fez ento? Passou a cobrar uma taxa extra. tas criou problemas para a inaugurao da iluminao na avenida Tito Franco (atual Almirante Barroso). O governador Aurlio do Carmo e o prefeito Moura Carvalho, ambos do PSD (o Partido Social Democrtico de Magalhes Barata), queriam uma data que lhes fosse conveniente. Era para assumir a paternidade da obra. O diretor industrial da Fora e Luz, porm, decidiu antecipar por cinco dias a festa. Ningum daria barretada s custas da empresa. ao volante: os motoristas de nibus decidiram dirigir calando sandlias japonesas. O produto inundou a praa, trazido por contrabando. tinha dois nomes alternativos: para uns era a cubana (homenagem revoluo de Fidel Castro); para outros, cosmonauta, lembrando a intensicao da corrida especial, captulo da guerra fria (entre Estados Unidos e Unio Sovitica) travada nos cus. Na hora da dor, pratique a caridade dizia. Em 1963, era a propaganda do servio funerrio da Santa Casa de Misericrdia do Par, que funcionava na rua 28 de setembro. A receita seria em favor dos indigentes do hospital. O servio realizava tanto funerais simples quanto os de luxo. Em dupla, os estudantes (do curso clssico) Jader Barbalho e Frederico Coelho de Souza, na acusao, superaram Milton Nobre e Zeno Veloso, na defesa, no jri simulado sobre a pena de morte, realizado pelo Centro Cvico Honorato Filgueiras do Colgio Estadual Paes de Carvalho, em 1964. Convidado, o governador Jarbas Passarinho mandou para representa-lo o ocial de gabinete Haroldo Maus de Faria. Nilza Maranho Pires Franco, uma das mulheres mais bonitas do seu tempo, era lha de Joao Maranho, o gerente, e neta de Paulo Maranho, o dono e principal redator da Folha do Nor te o maior jornal do Par e do norte do Brasil. Por isso, o aniversrio do lho de Nilza com o comerciante Victor Pires Franco (dos altos crculos nanceiros da cidade) teve direito a um registro especial no jornal. O menino era Vic Pires Franco Neto, o Vic, que seguiria carreira poltica at se tornar deputado federal (e a abandon-la sbita denitivamente). A recepo foi no palacete do pai, cuja beleza sempre cou meio escondida porque deslocada no antigo centro comercial, na travessa Frutuoso Guimares. Hoje, o palacete per tence Y. Yamada. Para lembrar um pouco a topograa da cidade. A Cruzeiro do Sul, que em 1963 era uma das principais empresas de aviao do Brasil, tinha a sua agncia de passagens no trreo do edifcio Dias Paes, na avenida Presidente Vargas. A seo de cargas cava bem perto, na Manoel Barata, logo depois do prdio (em abandono criminoso nos nossos dias) do IAPI, que era um dos institutos de previdncia (no caso, dos industririos), Y. Yamada: uma potnciaEste anncio de Y. Yamada tem exatamente 60 anos. Foi criado pela SM (agncia precursora da Mendes Publicidade) em 1957, quando a empresa tinha uma nica loja, na Manoel Barata, que se tornaria a sede da maior rede de varejo do Par. Hoje, essa rede se esgarou e a empresa est sob regime de recuperao judicial.

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13 antes da unicao feita no ano seguinte pelo marechal Castelo Branco, primeiro presidente depois do golpe que derrubou Joo Goulart. Em 1964, Haroldo Haber comandava as obras da sede do Clube Monte Lbano, com ponto alto na sua majestosa piscina, que era ento um bem acessvel a poucos. Haber era o dono da Joias Laura, que marcou poca, e da fbrica de sabo Pintax. Parecia que o Par ia se industrializar. O embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gor don, regressou de uma visita a Belm, em 1964, levando consigo Terra encharcada, o romance que o ento governador Jarbas Passarinho escrevera e a Academia Paraense de Letras premiou, quando o autor ainda exer cia a carreira militar. Na dedicatria, Passarinho se deniu como aprendiz de escritor. Gordon, que teve papel importante na conspirao para depor Goulart, retribuiu com um exemplar do relatrio da comisso Warren, criada para investigar o assassinato do presidente John Kennedy, no ano anterior. Em abril de 1964 Oliveira Salazar 75 anos de idade, 34 deles como ditador de Por tugal. Como sempre desde ento, a extensa colnia por tuguesa em Belm prestou sua sincera homenagem ao insigne aniversariante, com uma pgina de anncios dos estabelecimentos comerciais lusitanos da cidade. Numerosos ainda. TOP-SET Jos Cludio Pinheiro, que morreu neste ms, foi um dos organizadores da festa em comemorao aos quatro anos do Top-Set, que aconteceu em 1964. Era um baile realizado aos domingos, das 20 horas meianoite, no ltimo andar do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas, ao som da orquestra de Alberto Mota. Jos Cludio, alegre, divertido e camarada, trouxe o cantor de fados Francisco Carlos como convidado especial e incentivou os artistas locais a entrar na dana, cm o patrocnio de Moda Imperatriz, Casas do Linho Puro, Marlet Modas e Paris Londres. Por ser uma data especial, quem quisesse entrar teria que comprar mesa. Ingressos no seriam vendidos. Uma observao pessoal: a pedido de Jos Cludio, quando estudante do CEPC, escrevi um artigo para o jor nal dos estudantes que ele editava, em 1965. Foi sobre o lsofo ingls Bertrand Russell. Perdi o exemplar, mas Z Cludio me cedeu o dele, que era lho nico. Atencioso como sempre foi. O aniversrioComo prova dos noves da beleza de Nilza Pires Franco, uma foto da mesa de frios e salgados armada para comemorar o aniversrio do filho, ao lado do marido, Victor Pires Franco. Compondo a cena, os palhaos Nequinho e Alecrim (que tinham programa na TV Marajoara) e a decorao da poca: as bandeirinhas de So Joo.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Carajs As lies de 30 anosCom este artigo, publicado na edio da 2 quinzena de julho de 1997 do Jornal Pessoal, dou sequncia a textos sobre a histria de Carajs e a privatizao da Vale. A primeira data, com meio sculo. A segunda, com 20 anos.A provncia mineral de Carajs, a maior do mundo, est completando 30 anos. Pode-se tomar como referencial o dia 30 de julho de 1967, quando o jovem gelogo paulista Breno Augusto dos Santos, hoje presidente da Docegeo (a subsidiaria da Companhia Vale do Rio Doce para pesquisa geolgica), pousou com seu helicptero ao lado da bela lagoa perene, na Serra Sul. A aterrissagem foi involuntria, provocada por um problema no aparelho. Mas Breno aproveitou para fazer um reconhecimento da rea e coletar amostras de rocha. Quando os resultados vieram, a Companhia Meridional de Minerao, controlada pela United States Steel, a maior siderrgica do planeta, cou sabendo que era dona do melhor minrio de ferro que se conhecia. Esta a data ocial de uma das mais notveis faanhas da geologia em todos os tempos. Mas outro parmetros podem ser adotados, como o do ano anterior, quando outra multinacional, a Codim, fez a primeira descoberta de Carajs: os depsitos de mangans de Buritirama. Ou, avanando no tempo e chegando a 14 de maro de 1968, quando um primeiro empregado da CVRD, Jos Eduardo Machado, chegou a Carajs para avaliar o que a USS passara a controlar, iniciando um jogo de presses que resultaria na sada da multinacional americana, em 1977, cando o controle da jazida em mos nacionais, como queriam os militares (e os japoneses?). Qualquer que seja o ponto de par tida, entretanto o ponto de chegada o dos 30 anos de revelao da maior concentrao de recursos minerais existentes em territrio paraense, o acontecimento que mudou os rumos da histria regional. De Carajs, no ano passado [1996], a Vale extraiu o equivalente a 800 milhes de dlares em ferro, ouro e mangans, mas seu faturamento global no Par chegou a US$ 2,6 bilhes, contribuindo com dois ter os da pauta de exportao do Par. Esses nmeros tero rpida multiplicao nos prximos anos, tanto no ncleo de Carajs quanto nos outros empreendimentos da CVRD. A receita poder bater em US$ 4 bilhes na metade da primeira dcada do novo sculo. Mas o que isso realmente signica para o Par? Quando a corrida para Carajs estava apenas comeando, o gelogo Jos do Patrocnio Motta, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, escreveu um monumental trabalho, em trs volumes, sobre a economia mineral. Avaliando com toda parcimnia possvel a poltica minera do incio da dcada de 1970, Motta observou: Realmente, a exportao de qualquer minrio bruto ou semielaborado implica no empobrecimento do pas de origem e o proveito colhido pelo pas importador. A constatao evidente, mas parece inevitvel na Amaznia. O ciclo do extrativismo mineral, que sucedeu o vegetal, tem sido to ou mais nocivo do que seu antecessor, a borracha. A regio no consegue responder ao seu grande desao: evitar a exportao de matrias primas ou semielaborados, agregando-lhes o maior valor possvel no beneciamento. Justamente por continuar a ser uma colnia de produtos bsicos (incluindo a energia), o Par o Estado mais prejudicado pela desonerao das exportaes dos produtos no-industrializados, uma iniciativa do governo federal (para tentar reequilibrar as decitrias contas externas). Esse mecanismo est agindo como uma bomba de suco sobre o errio estadual, sem compensar adequadamente suas perdas. Prev-se uma queda tributria de R$ 100 milhes neste ano, mas j no ano passado os efeitos danosos sobre a economia primria exportadora como a nossa foram registrados. A contribuio tributria da Vale, que foi de R$ 95 milhes em 1995, baixou para R$ 78 milhes no ano passado. Dever cair a um valor inexpressivo em 1997. No apenas o Estado no consegue beneciar suas riquezas naturais como nada pode fazer para sustentar os preos dos seus produtos primrios. No ano passado, caram todos os preos relativos da pauta mnero-metalrgica das exportaes paraenses, que chegam a quase 80% do total, fazendo do Par o stimo Estado exportador da federao. Mas como os cofres pblicos esto sentindo, esse ttulo nada signica de vantajoso. Quando a viabilidade do projeto Carajs foi denida, cada tonelada de minrio valia entre 25 e 28 dlares. Hoje, o preo mdio est em torno de 15/16 dlares. Exceto no caso da bauxita, a utuao tem seguido essa tendncia declinante em relao a quase todos os bens da exportao paraense, que apresentam a caracterstica de ser eletrointensivas (ou seja: exigem uma grande demanda de energia). Uma apurao na das consequncias dessa deteriorao relativa dos preos dos produtos, combinada com as perdas nas relaes de troca decor rentes do no beneciamento do pro-

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15 O uso poltico de verba culturalO governo do Estado gastou mais de 1,2 milho de reais em apenas 16 dezenas de eventos musicais realizados na regio metropolitana de Belm e no interior, com seu patrocnio compulsrio. O pagamento efetuado com inexigibilidade de licitao, mas a esmagadora maioria dos artistas e conjuntos contratados no possui qualquer notoriedade, capaz de justicar ofavorecimento concedido. So ilustres desconhecidos do grande pblico. O dinheiro lhes garantido por emenda parlamentar, de auto-aplicao. O executivo reserva um oramento para uso discricionrio dos 41 deputados estaduais, num agrante toma-l-d-c do clientelismo poltico. O agente repassador da verba, a Fundao Cultural do Par, pode apenas scalizar a aplicao. No possui maior possibilidade de vericao nem qualquer poder de inter ferncia sobre a designao dos recur sos e do benecirio. hemorragia de dinheiro pblico em circuito fechado, entre o parlamentar e a quem favorece. Com o risco de desvio ou m aplicao do dinheiro do povo. Apenas dois exemplos mais prximos da sede administrativa do Estado. Sete bandas e artistas que participaram dos dois dias do evento Versos Cantando, em Belm, ganharam R$ 78 mil. D R$ 5,5 mil per capita. Os mesmos R$ 78 mil foram gastos com o Arrastap do Complexo, mas com cinco patrocinados, cada um deles recebendo R$ 7,8 mil. O Estado despejou R$ 300 mil na Festa em Tucuru, um arraial de cores, com 15 patrocinados, que cantaram e tocaram durante 11 dias. Os valores esto muito acima dos padres do mercado, quando h mer cado. No funo do Estado sustentar espetculos de ntido sentido comercial, que cabe iniciativa privada. Muito menos endossar o que pode ser um projeto de compadrio e clientelismo poltico com o dinheiro do povo, repassado sem seguir as normas da aplicao regulamentar. Apesar disso, o uso dessas emendas parlamentares se mantm h vrios anos, sem qualquer efeito positivo para a cultura popular. O Estado como promotor cultural costuma se transformar em biombo para aproveitadores e predadores. Como os rgos de controle exter no at hoje no manifestaram qualquer interesse pelo assunto, cabe sociedade reagir e por m a emendas parlamentares que no sejam destinadas sade, educao, segurana pblica, infraestrutura e setores de direto interesse pblico. preciso estancar essa sangria. duto at o grau mximo de transfor mao na cadeia produtiva, chegar a resultados assustadores. Uma pitada de desespero poder ser acrescida se, a esses termos de troca, forem aditadas as perdas nanceiras, resultantes da amortizao de emprstimos e do pagamento dos encargos do principal, um uxo que, talvez, at seja pior do que o prejuzo da atividade diretamente produtiva. A concluso desses estudos comparativos certamente ser de que uma regio pobre como a Amaznia est contribuindo para aumentar o enriquecimento das regies ricas com as quais ela comercia (se a esse massacre econmico-financeiro for aplicado com propriedade o conceito de comrcio). Valeu a pena ter incorporado Carajs e todo modelo em relao ao qual um emblema ao mercado internacional, da perspectiva dos paraenses? Hoje, a pergunta v, mas no to ociosa assim. Ao contrrio: sur preende que at hoje falte uma reconstituio histrica rigorosa e ampla do que foi esse importante captulo de 30 anos da vida brasileira. Muitas questes decisivas de Carajs permanecem sem resposta e vrias questes sequer foram formuladas. Alguns exemplos podem ser citados aleatoriamente. Por que, realmente, a USS saiu do projeto? Quando comearam as escaramuas da Steel com a Vale e quais as suas razes? At que ponto foi relevante a vontade categrica (mas invariavelmente voluntarista mesmo) dos militares e sua geopoltica? Quando comeou o deslocamento do eixo de inuncia dos EUA para o Japo? Como o mercado mundial se rearrumou para receber o minrio de Carajs? Qual o ganho japons com seu ingresso em Carajs? A recente privatizao pode signicar a volta da inuncia americana em Carajs? As dvidas podem se enleirar, mas sair atrs delas uma tarefa digna, compatvel com a histria de trs dcadas de Carajs. Muito provavelmente, ao m desse inventrio, pode-se acabar com um gosto travo na boca. Ao longo das duas ltimas dcadas, nas quais os grandes projetos iniciaram sua atividade produtiva, deixando de ser projetos (sem nunca essa classicao nas velhas e recorrentes discusses acadmicas), uma gerao no conseguiu tirar o Par da sua triste condio de produtor primrio de minrios e semielaborados, como na verdade, o lingote de alumnio, o produto de maior valor nominal de toda cadeia para trs da industrializao. Uma gerao falhou. Um desao maior est sendo colocado diante de uma nova gerao, agora que parece comear um ciclo de bens mais nobres, como cobre, zinco, nquel, ouro, nibio e terras raras, enquanto a madeira amaznica tem maior participao no mercado mundial. Nesse tempo que passou, a sensao que ca a de que, ao invs de avanar para o futuro, a Amaznia (e, nela, particularmente, o Par) caminhou foi para trs, sem per ceber, indo se agasalhar num tempo e num espao reservados aos que foram derrotados. A derrota ainda no denitiva, ou e denitiva em alguns setores (como o alumnio e a energia), mas no global ainda.

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O teatro na CracolndiaA fumaa das bombas que penetrava pelas portas e janelas do teatro interrompeu, mais uma vez, os ensaios da nova pea do Pessoal do Faroeste, na Luz. Desde o domingo da Virada Cultural, a regio da Cracolndia tem sido palco da interveno policial e da gesto que armava que iria acabar com a venda e o trco de drogas na regio. O gs lacrimogneo que incomodava quem estava nas ruas no foi a nica coisa que atingiu o elenco de Curare, espetculo em cartaz na sede da companhia que completa 19 anos. Inspirado no conto de O Alienista, de Machado de Assis, o diretor Paulo Faria criou uma co cientca cuja gura do mdico Simo Bacamarte ganha verso feminina e negra, a dra. Joana. A pea acontece no ano de 2084, momento em que o Brasil o maior exportador de canabis e petrleo e lidera o ramo de medicina toterpica, explica Faria. Entre os estudos com plantas medicinais, a mdica acompanhada por quatro cavaleiras do Apocalipse Fome, Peste, Guerra e Morte que vm anunciar o m da dor para mulheres vtimas do machismo. A despeito da narrativa fantstica, o diretor arma que existem coisas bem reais como a atuao da Platafor ma Brasileira de Poltica de Drogas, entidade que questiona a poltica de internao compulsria para viciados em crack na regio da Cracolndia. Na noite em que foi entrevistado, Faria participava de uma mesa de debates no Largo General Osrio, centro da cidade, sobre o tema. A pea foi construda nessa vivncia na qual a polcia jogava bombas e prendia pessoas, enquanto tentvamos pensar em outras solues para ns e para eles. Quem vai assistir pea precisa, antes, se dirigir ao Largo General Osrio, onde um grupo de atores faz um prlogo inspirado em Romeu e Julieta. Sempre quei me perguntando a razo de tanto dio entre as duas famlias, diz Faria. A explicao no importa para a histria, s que se trata de um dio histrico, que atravessa o tempo. Queremos alcanar essas origens aqui e entender os desdobramentos na sociedade. Em seguida, o pblico escolhe uma das quatro cavaleiras para acompanhar pelo teatro e pelo Amarelinho, prdio mantido pela companhia que serve de ocupao cultural para artistas. uma forma de denunciar que essa violncia no soluo para as pessoas que esto na Cracolndia, acrescenta. ____________________CURARE. Pessoal do Faroeste. Rua do Triunfo, 301. Tel.: 3362-8883. Sb., 20h, 22h30, dom., 19h. Pague quanto puder. At 8/10.Paulo Roberto de Faria Pinto o ltimo dos sete filhos (seis homens, um deles j falecido) de Elias e Iraci (de Faria) Pinto. tambm o artista da famlia, junto com o Luiz, editor grfico e ilustrador do JP. Desde Paulo cedo se interessou por literatura, em particular, por teatro. Comeou a carreira em Belm. H mais de 20 anos atua em So Paulo, onde criou um grupo teatral. O Pessoal do Faroeste no apenas uma companhia teatral: uma proposta cultural e poltica para So Paulo e o Brasil. Paulo se estabeleceu numa das reas outrora mais lindas e hoje mais deterioradas da capital paulista. Acompanhou desde o seu incio a formao de um gueto social incrvel, a Cracolndia. O desafio da vizinhana, seguida pela convivncia, era enorme, mas Paulo o enfrentou. Seu teatro voltado para os excludos, os de hoje e os do passado: negros, mulheres, pobres, as vtimas da sociedade massacrante. A militncia pioneira e audaciosa de Paulo lhe valeu o reconhecimento de quem tambm atua nessa rea de So Paulo ou se interessa pelos excludos e invisveis sociais da cidade, uma das maiores e mais problemticas do mundo. Paulo fincou uma bandeira e conquistou o lugar de porta-estandarte. No foi uma trajetria fcil. Continua no sendo. Mas ele j no pode mais ser ignorado, ainda que na contramo do teatro bem estabelecido na ex-capital da garoa (at ela est sendo destruda). No sem merecimento. Paulo Faria ator, autor, diretor, cengrafo, produtor teatral. Mas exerce todas as funes por trs de uma encenao. uma posio nica nas artes paulistanas (e nacionais). Agindo no palco e fora dele, numa das reas mais perigosas de uma das mais hostis cidades do mundo. Quem for ver a sua mais recente obra, Curare, encenada no centro da Cracolndia, poder testemunhar o que um projeto cultural, social e poltico que no aceita os seus limites e ingressa na realidade em ebulio, no momento em que a ao estatal se confronta com o caos criado em So Paulo. O jornalista Leandro Nunes, de O Estado de S. Paulo, foi ver e deu seu testemunho pelas pginas do jornal.