Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a CHACINAFoi a polcia?Um vdeo gravado no ato pode mudar o rumo das investigaes sobre uma chacina que resultou em cinco mortos e 14 feridos, em Belm, no dia 6. As imagens sugerem que os assassinos poderiam integrar uma milcia militar. Trs deles estariam agindo na capital paraense. Quatro chacinas aconteceram em Belm neste ano, com 46 mortes. A ltima foi no dia 6, com cinco mortos e 14 feridos. Uma semana depois, sem qualquer pista concreta, ao menos que tivesse tornado pblica, a polcia estaria trabalhando com duas hipteses: desentendimento pessoal ou briga entre tracantes de drogas. Contra essa linha de investigao foi posta em questo quando o portal do jornal O Estado do Tapajs, de Santarm, divulgou a existncia de um vdeo com 2 minutos e 34 segundos de durao, revelado que as execues foram bem planejadas e contaram com a cobertura de seguranas, bloqueio da rua e deslocamento de viaturas da PM que deveriam estar de prontido naquele bairro da periferia de Belm. Segundo o editor do jornal, Miguel Oliveira, que teve acesso ao documento, no vdeo, um carro preto encosta no meio-o, dele descem trs homens encapuzados j abrindo fogo contra pessoas que se encontravam sentadas ao redor

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2 de mesas colocadas sobre a calada. Os disparos se sucedem, pessoas tombam, outras correm e se atiram no cho. Neste momento, dois homens a p, vindos do outro lado da rua, se aproximam do veculo, montando retaguarda. Os disparos continuam. Relata ainda a reportagem que, na sequncia, chega um segundo car ro que provavelmente foi usado no bloqueio da rua. Atiradores, homens vestindo roupa preta e encapuzados, ocultando os rostos, talvez por serem conhecidos na rea, embarcam em seu porta-malas. Os seguranas continuam rondando o local. Um terceiro veculo se aproxima. Aps 2 minutos e 15 segundos do incio das execues, os veculos deixam o local em arrancada. Os seguranas desaparecem do alcance da cmera que lmou a matana. A fonte que exibiu para a reportagem do jornal as imagens da matana, sob condio de anonimato, acrescentou outra informao explosiva:As duas viaturas da PM que deveriam estar estacionadas s proximidades daquela rea deixaram seus locais de estacionamento minutos antes das execues. Segundo a fonte, a Policia Civil j dispe das informaes do GPS das viaturas para comprovar a movimentao dos veculos naquela noite. Informou ainda a fonte quej foram mapeadas a atuao de, pelo menos,trs grupos de extermnio formados por policiais militares que atuam na grande Belm, com diviso de rea de ao e motivao para execues de suspeitos de cometerem crimes ou em retaliao morte de PMs, em confronto ou no. A fonte assegurou o empenho do governo paraacabar com essas execues promovidas por agentes do estado, sob pena que ns mesmos sejamos os prximos alvos. Para o jornalista, a declarao revela a tenso que reina entre os membros da cpula da segurana pblica do estado do Par. A reportagem garante que apolcia civil no tem mais dvidas que a matana do dia 6 de junho, no bairro da Condor, em Belm, foi executada por policiais militares, mas as investigaes ainda no encontram respaldo do comando da PM, que reluta em admitir que as mortes de cinco pessoas e ferimentos em outras tenham sido executadas por integrantes da tropa. Depois de ver as imagens, o gover nador Simo Jatene teria recomendado ao comandante da Polcia Militar, coronel Hilton Benigno de Souza, que d uma resposta rpida sociedade sob pena do estado perder o comando sobre a tropa, se efetivamente a autoria da chacina tiver a participao de policiais militares. O vdeo desautoriza as duas hipteses informalmente apresentadas pela secretaria de segurana para a nova matana. A primeira, de desentendimento pessoal, inverossmil, ainda que no de todo impossvel. A segunda, atribuindo a autoria a tracantes, se tornou um lugar comum. No s em Belm: em quase todo Brasil. Sem dvida, tem um componente de verdade inquestionvel. Mas a ser inteiramente verdadeira, faz do Brasil o maior consumidor de drogas do mundo. Ou, pelo menos, onde mais mais forte a presena da droga. o posta restante da delinquncia, um costado sucientemente largo para carregar todos os tipos de crimes. As caractersticas da matana do dia 6 chegam a ser desconcertantes. Foi uma ao planejada. Quem a concebeu ou dela participou sabia que aquele determinado grupo de amigos se reuniria naquele bar especco, no bairro da Condor, para assistir pela televiso o jogo do Paissandu. Esse era o alvo. O principal ou nico seria Ricardo Botelho, mestre de bateria do Rancho No Posso Me Amon, a escola de samba do Jurunas. Ele era a mais notria das pessoas assassinadas, o que fortalece essa interpretao. Mas por que matar e ferir tanta gente? As testemunhas dizem que foram muitos os tiros (80, num clculo aleatrio), sados de diferentes tipos de armas (metralhadora, escopeta e revlver, em outra informao annima). A logstica da operao foi profissional: pelo menos oito homens em trs carros, um dos quais foi at o bar, enquanto os outros bloqueavam o acesso ao local. Todos os homens vestindo roupa preta e encapuzados, ocultando os rostos, talvez por serem conhecidos na rea, e calando coturnos. Se o propsito era o de matar o sambista, os atacantes no se sentiram satisfeitos em apenas mat-lo e aos seus acompanhantes. Testemunhas dizem ter ouvido a ordem de matar todos que ali se encontravam. Alguns escaparam se ngindo de mortos. Outros conseguiram fugir correndo. A artilharia passou a ser indiscriminada. Durou o tempo que os assassinos consideraram ser suciente para garantir a fuga. Tudo to bem planejado que, uma semana depois, a polcia nada tinha a oferecer assustada populao de Belm do Par um desempenho minimamente proporcional gravidade do crime, com vtimas em nmero equivalente ao do ltimo atentado terrorista em Londres, que se tornou o fator principal de eventual surpresa na eleio de hoje na Inglaterra e ser o tema dominante na agenda dos prximos dias dos britnicos. No Par, o terror cotidiano, no identificado e no aparece no horizonte dos paraenses, que caminham insensveis e insensatos para um futuro terrvel.

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3 O desjulgamento do TSEO julgamento da chapa DilmaTemer pelo Tribunal Superior Eleitoral, na semana passada, foi um captulo indito de surrealismo, como o de Alice no pas das maravilhas, escrito pelo britnico Lewis Carrol. Como se estivesse se referindo ao desaniversrio da fbula literria, o presidente da corte, Gilmar Mendes, declarou, enftico, que o TSE iria julgar no plano tcnico, judicial e judicirio (primeiro surrealismo), no aceitando resolver os problemas dos polticos. Pois foi exatamente o que o tribunal fez: um julgamento poltico. Parecendo no se dar conta do absurdo que estava dizendo, o presidente do rgo mximo da justia eleitoral desdisse o que dissera e disse o que no devia dizer. O relator das quatro aes do PSDB contra a coligao PT-PMDB, Herman Benjamin (que a fontica colonial trata por Rer manBnjamin), virou do avesso o voto anterior de Mendes, de abril. Ele deferiu o prosseguimento das apuraes sobre os crimes de abuso econmico e de poder poltico imputados chapa. Com essa liberao, Benjamin se valeu de provas adicionadas sobre corrupo pela Odebrecht para mostrar que os vencedores da eleio de 2014 receberam dinheiro ilcito para sua campanha, o que lhes deu condies de favorecimento em relao aos seus concorrentes. Mendes, o voto de Minerva para a vitria, por 4 a 3, da dupla DilmaTemer, explicou, sem ironia involuntria, que sua deciso fora dada em virtude da gravidade dos fatos imputados aos rus, mas no era para cassar a ex-presidente Dilma e o presidente Temer. Aplicar essa sentena seria violar a soberania do voto popular, o fator decisivo do ato poltico, alm de representar um ato de extrema gravidade, j que indito seria a justia eleitoral cassar e de uma s vez dois presidentes da repblica. A deciso significou, n prtica, a renncia do TSE tutela jurisdicional que lhe cabe, um autntico hara-kiri, antecipado de alguns dias, inclusive na exatido quanto ao placar. J que o surrealismo foi sancionado, a melhor definio foi dado pelo criador da UDR (Unio Democrtica Ruralista), o senador goiano e talvez candidato presidencial no prximo ano Ronaldo Caiado: liberou geral, observou ele. Vale tudo agora na eleio para presidente da repblica. A justia foi deixada de lado e as cabeas coroadas foram preservadas, Mas o Brasil afundou mais um pouco com esse festival de absurdos. Os homens que ocupavam o acampamento na fazenda Santa Lcia, em Pau DArco, eram criminosos. J haviam invadido a propriedade, depredado suas instalaes, matado um vigilante e baleado outro, resistido a uma ordem judicial de reintegrao do fazendeiro na propriedade do imvel. Eles estavam bem armados. Montaram trincheiras ao redor do acampamento e instalaram ar madilhas contra intrusos. Iriam resistir a qualquer tentativa de desalojamento. Sabendo de tudo isso (ou dizendo saber), a fora organizada para cumprir mandados de priso de alguns dos integrantes desse grupo foi com apenas 29 homens, 21 PMs e oito policiais civis, um efetivo equivalente ao dos integrantes do bando armado que promovia invases de propriedades no sul do Par. Numa manh chuvosa, em 24 de maio, foram surpreendidos ao chegar ao local e recebidos com tiros. Naturalmente, os alvos da expedio no s sabiam que o contingente policial ia aparecer ali como se prepararam para atac-lo de surpresa. Os criminosos estavam numa rea que conheciam bem, com a retaguar da do acampamento, bem armados, dispostos a atacar e se valendo de um fator fundamental num confronto: o fator surpresa. No esperaram pela iniciativa da tropa, antecipando-se a ela. Mesmo com todos esses fatores, no feriram nenhum dos 29 homens encar regados do cumprimento do mandado judicial. Eles se dispersaram, depois se reagruparam e partiram contra os inimigos. Mataram 10 deles, pondo os outros em fuga. Nenhum dos policiais sofreu qualquer arranho. Duvidar dessa verso absurda no signica querer que os policiais tivessem sido feridos ou mortos. Quer dizer apenas que ningum, em s conscincia, aceitaria como verdadeira essa reconstituio dos fatos. No precisa condenar antecipadamente a polcia ou colocar acima de tudo direitos humanos previamente estabelecidos para questionar o relato da polcia. bastante raciocinar. Um pouco de raciocnio confrontando a verso que a Secretara de Segurana Pblica apresentou no mesmo dia seria suciente para no acreditar no que foi dito. Desde ento, as infor maes que foram se sucedendo conrmaram o ceticismo inicial. Mas se p que a secretaria e seus porta-vozes disseram fosse verdade, e a tropa no tivesse simplesmente feito uma execuo em massa, o episdio seria denido como um desastre operacional, um erro tcnico monumental, gravssimo. Com os dados que o secretrio JeannotJansen disse que a tropa tinha, o ingresso na rea da fazenda devia ter sido feito com tropa muito mais numerosa, aparelhada com todas as armas de intimidao do adversrio, seguindo uma logstica preparada com o cuidado necessrio da inteligncia para inibir resistncias. A ao, porm, foi executada contrariando todas essas premissas, coerentes com o que est se consolidando na apurao dos fatos: uma execuo deliberada dos membros do acampamento. Chegar a essa concluso no negao da funo da polcia ou defesa leviana dos direitos humanos, como proclamou a marcha corporativa de hoje: apreo pela verdade e desejo de que o Estado seja realmente um agente a servio da sociedade e no de eventuais parceiros,Chacina: verso inacreditvel

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4 Jader Barbalho mentiu: foi para se preservar?O senador Jader Barbalho mentiu sobre seu envolvimento no esquema de corrupo na Petrobrs investigado pela Operao Lava-Jato. A questo agora saber qual a profundidade e a extenso dessa mentira. Pela primeira vez, na semana passada, ele admitiu ter tido mais de um contato com o lobista Jorge Luz, depois de sustentar, durante quatro meses, que se limitara a encontrar Luz uma nica vez, apenas socialmente, porque ele prestava servio de consultoria companhia de gua do Estado, a Cosanpa, durante seu primeiro mandato como governador, entre 1883 e 1987. Ao depor perante o juiz Sergio Moro, por videoconferncia, o senador admitiu que viu outras vezes Luz, sem se referir ao casamento do lho, Helder Barbalho, ento prefeito de Ananindeua, em 2006. O ministro da Integrao Social chegou a distribuir uma nota ocial negando que Luz tivesse sido seu padrinho, ao contrrio do que noticiara o jornalista Fernando Rodrigues, de Braslia. De fato, o lobista no fora padrinho, mas estivera presente ao casamento, na condio de convidado. Cir culou com desenvoltura pela recepo. Nesse mesmo ano de 2006, Jader reconheceu que participou de reunio com Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da Petrobrs, na casa de Renan Calheiros, ento presidente do Senado. No para tratar da propina que lhe caberia na parte do PMDB, confor me reiteradas acusaes feitas contra ele, mas para discutir temas relacionados produo de biodiesel e correlatos produo de energticos. Seu interesse era fomentar o plantio do dend por meio de emprstimos no Par. No mesmo jantar, Jader tambm conheceu Nestor Cerver, diretor da rea internacional da Petrobrs, mas disse no se lembrar do que teria conversado com ele. O senador acusado acusam de participar dessa reunio para tratar da partilha das propinas para o PMDB. Ele teria recebido um total de quatro milhes de reais, em diversas entregas, intermediadas por Fernando Baiano, que ele disse nunca ter conhecido. O senador chegou ao ponto de declarar que s se apercebeu do interesse poltico pela direo da Petrobrs em 2005, quando ouviuo ento presidente da Cmara dos Deputados, Severino Cavalcante, dizer que estava interessado em indicar um diretor para a Petrobras para aquela rea que furava poo. Foi a que tomei conhecimento que havia interesse em relao ao car go de dirigente da Petrobras, acrescentou. Mas armou que jamais fez qualquer indicao para a estatal, nem para porteiro da empresa. Jader foi ouvido como testemunha de defesa de Jorge Luz, que est preso h quatro meses em Curitiba, no Par, juntamente com o filho, Bruno, como o principal agenciador de propinas na Petrobrs. Agora, ser a vez de ele falar. O futuro do senador e dos planos do seu filho para o gover no do Par podero depender do que Jorge e Bruno disserem. de espantar o tempo que decorre entre um crime de grandes propores e uma tentativa de resposta pelo aparato policial do Estado. Quando a resposta imediata, ela inacreditvel de to tosca, como no caso das execues na fazenda Pau DArco, no sul do Estado. A verso ocial caiu em descrdito quase ao mesmo tempo em que o secretrio de segurana, general Jeannot Jansen, a apresentava: de que os 29 policiais civis e militares que entraram na rea do acampamento de posseiros (ou pistoleiros) foram recebidos a tiros, reagiram, mataram 10 pessoas e no sofreram qualquer baixa, nem mesmo um ferimento leve. A gravidade desse caso se deve tanto quantidade de mortos quanto m qualidade tcnica (se admitida a incrvel verso ocial) da operao para o cumprimento de mandados judiciais. Sem um elementar trabalho de inteligncia (ou por falha imperdovel ou por se tratar de uma misso de execuo), a operao teria sido vergonhosamente falha, se o que o secretrio disse sobre o que teria ocorrido fosse verdadeiro. De tudo que se possa dizer em favor ou contra a ao policial, uma coisa inquestionvel: a incompetncia tcnica do aparato estatal. Do que resultou um episdio mais grave at do que o de Eldorado dos Carajs, em 1997, pela ao direta e dirigida da polcia contra os seus alvos, sem confronto. A m inteligncia policial se revela outra vez no novo massacre, de ontem noite, agora em plena capital do Estado, com um saldo de cinco mortos e 9 ou 15 feridos. Um dia depois do fato, o que aconteceu permanece sob uma bruma de desinformao. Os matadores somariam de um mnimo de 8 a um mximo de 15 indivduos. Eles teriam disparado algo como 80 tiros, a partir de diversas armas (escopeta, metralhadora, revlver) aleatoriamente. Estavam ali para atirar a esmo em quem aparecesse pela frente. Uma selvagem maldade. No entanto, ocupavam dois ou trs veculos, dois dos quais bloquearam as duas vias de acesso rua, no bairro da Condor, numa operao planejada. Atiraram muito, mas pareciam ter como alvo previamente denido um bar, no qual estavam juntos trs amigos, que morreram no local e outro no hospital. As demais vtimas entraram na conta de um acerto de contas? Por uma milcia? Por policiais disfarados, todos vestindo roupa preta e capuz, em funo de constiturem uma unidade? A polcia diz que no tem pistas ainda porque todas as eventuais testemunhas se calaram, com medo de represlias. Mas uma boa inteligncia est empenhada sempre em antecipar informaes para que a espantosa frequncia de execues que massacra Belm no seja mais um fato isolado e surpreendente no cotidiano de uma cidade que se choca, se intimida e se sente impotente para evitar essa rotina de massacres.Cidade intimidada e impotente

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5 Altamira: a grande obra e os seus efeitos danososEm 2015, Altamira era o municpio mais violento do Brasil, com uma taxa de homicdio calculada em 107 pontos, quase 10 a mais do que Lauro de Freitas, na Bahia, que cou em segundo lugar, segundo o Atlas da Violncia de 2017, divulgado na semana passada pelo Ipea, instituto de pesquisa do governo federal. Altamira era o municpio com a menor populao (105 mil habitantes) dentre os dez mais violentos Do ranking dos 10 municpios mais violentos do pas, oito esto situados no Nordeste. Ampliando o mbito para 30 municpios, o Norte e o Nordeste possuam 22 municpios neste ranking. O estudo considera os dados mais recentes do Ministrio da Sade, utilizando como critrio para a pontuao a soma das taxas de homicdio e de mortes violentas com causa indeterminada (o ndice MVCI). So consideradas apenas as cidades que possuem populao superior a 100 mil habitantes. O levantamento conclui que os homicdios cresceram 22,7% em 10 anos no Brasil. No estudo, os pesquisadores afir mam que a violncia cresce medida que as transformaes urbanas e sociais acontecem rapidamente e sem as devidas polticas pblicas preventivas e de controle, no apenas no campo da segurana pblica, mas tambm do ordenamento urbano e preveno social. Ou seja, a qualidade da poltica pblica umdos elementos cruciais que podem conduzir diminuio das dinmicas criminais. Certamente, a inglria liderana de Altamira tem relao direta com a migrao para o municpio de milhares de pessoas atradas pelas obras da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, o mais caro projeto includo no Plano de Acelerao do Crescimento dos governos do PT. Esse resultado negativo certamente no apareceu nas planilhas de realizaes da usina. No s pela forma adotada para viabilizar esses empreendimentos, que subestima os seus impactos ecolgicos e, principalmente, sociais, como pela ineficincia e leviandade do poder pblico municipal na aplicao dos recursos que os donos desses projetos so obrigados a reservar para as compensao e mitigao dos malefcios. As pessoas recrutadas para as obras se vo, mas o municpio continua com seus problemas, ampliados e agravados.Ministrio Pblico: um silncio acusadorO Ministrio Pblico do Estado no pode se manifestar sobre a chacina do dia 6 em Belm. Nem sobre as trs matanas anteriores deste ano, com 46 mortes. Pode, quando muito, falar dos assassinatos em massa cometidos at 2015, segundo a TV Liberal, que procurou ouvir o MPE para uma excelente matria divulgada na primeira edio do seu telejornal, na semana passada. A emissora no se referiu s razes alegadas para o silncio do scal da lei e autor da ao penal pblica. O MPE manteve silncio. espantoso e revoltante. O Ministrio Pblico no s devia estar em condies de se manifestar imediatamente sobre questes de ordem pblica da sua competncia legal como devia ir alm: teria que acompanhar as aes da polcia, civil e militar, em relao s quais encarregado do controle externo. A sociedade estaria muito mais segura se promotores ou mesmo procuradores pbicos acompanhassem operaes de envergadura da polcia, sobre as quais deveria ser noticado previamente. Como scal da lei, o MPE evitaria a transgresso das nor mas legais e o cumprimento da misso repressora estatal, nos seus limites e deveres. Ao invs disso, os integrantes da rea penal do MPE costumam se manter na extrema retaguarda, em seus gabinetes refrigerados. Quando muito, exceto pelas honrosas excees j de todos conhecidas, se limitam a agir ps-fato, s vezes de forma enftica e cobrando responsabilidades, com o rigor que falta sua prpria avaliao. Sem dar sua preciosa contribuio para evitar as graves, constantes e, em regra, impunes agresses vida, quando praticadas pela polcia, ou em cima dos acontecimentos imprevistos, como nos massacres deste ano na capital paraense. A declarao da jornalista da TV Liberal, de que o MPE se recusou a se manifestar sobre a chacina da Condor, com cinco mortos e 14 feridos, talvez porque o fato ainda esteja quente demais, o epitfio do MPE diante da barbrie estabelecida na cidade e no Estado.

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6 A violncia no parlamentoA comisso externa da Cmara Federal criada com a misso de apurar a morte de 10 pessoas no sul do Par por policiais civis e militares, no dia 24, sem fazer qualquer investigao nem se deslocar da sede da Assembleia Legislativa do Estado, em Belm, onde se instalou na semana passada para uma sesso especial, constatou o quanto grave a violncia no Estado. Mal comeou a sesso, o deputado federal e delegado da polcia civil der Mauro, do PDS, discutiu asperamente com o deputado estadual Carlos Bordalo, do PT, inviabilizando o prosseguimento das atividades dos parlamentares.der queria questionar o relatrio assinado por Bordalo, presidente da comisso de direitos humanos da Assembleia, um dos trs autores do trabalho. A concluso do documento de que no houve confronto entre os policiais, que teriam sido recebidos a bala quando cumpriam mandados de priso, e os posseiros (ou criminosos, na verso ocial). Os policiais teriam simplesmente executado as pessoas que encontraram no acampamento montado no interior da fazenda Santa Lcia, em Pau DArco, objeto de um violento e longo conito fundirio. O delegado-deputado cou irritado ao ouvir que Bordalo leria o relatrio e sairia da sala dos presidentes do legislativo, onde se realizava a reunio, porque queria question-lo. Aos gritos, der Mauro chamou Bordalo de covarde e bandido. O petista reagiu chamando o candidato derrotado prefeitura de Belm de fascista. Foi quando o delegado-parlamentar tentou agredir Bordalo, sendo contido por pessoas presentes. Os deputado federais da comisso externa esperavam obter o mximo de informaes, orais ou em documentos, com as quais deveriam produzir um relatrio sobre o caso para encaminh-lo ao governo federal. No seria uma audincia pblica e sim uma reunio tcnica. der Mauro liderou um grupo que defende os policiais, formado pelo deputado estadual coronel Neil, vereador sargento Silvano, delegados e representantes de associaes de policiais, No Par violento, at a busca por informaes sobre o tema acaba em mais violncia.A histria acontece, o governador se calaO governador Simo Jatene demorou toda uma semana para se manifestar publicamente sobre a matana do dia 24 na fazenda Santa Lcia, em Pau DArco, no sul do Par. Mas no o fez atravs de entrevista coletiva imprensa ou por uma cadeia de emissoras de rdio e televiso. Seu pronunciamento foi na forma de um vdeo, eciente meio de comunicao, mas tosco e inadequado diante da gravidade do caso. Como tem sido a regra do seu comportamento diante de situaes explosivas e dramticas, o governador, aquele que por mais vezes (trs) foi eleito pelo povo para o cargo, prefere a solido, que o preserva de questionamentos imediatos. Quer falar sem contradita, como se fosse um juiz e no o detentor de funo poltica, tendo que prestar contas e no sentenciar. No seu pronunciamento, Jatene deixou de lado o caso especco da execuo de 10 pessoas pela tropa da polcia militar e da polcia civil para proclamar que j h uma tradio de interveno eciente e pacca da fora repressiva do Estado nos conitos agrrios e fundirios, dos quais o Par tristemente lder nacional. O governador se referiu a seis mil mandados judiciais de priso que a polcia cumpriu pacicamente e a centenas (deixou de lado a preciso estatstica) de reintegraes de posse cumpridas pela polcia, sem que qualquer incidente ocorresse (a checagem s poder ser feita quando a lista completa for fornecida ao Ministrio Pblico para anlise). Jatene destacou dois casos exemplares: os assassinatos da missionria Dorothy Stang, em 2005, e do casal de ativistas ambientais Cludio e Maria do Esprito Santo, em 2011, nos quais a Polcia cumpriu rigorosamente seu papel, com apurao, identificao, priso e entrega justia dos responsveis. verdade. A questo que, nos dois casos, os assassinos foram pistoleiros prossionais, a mando de fazendeiros e madeireiros incomodados pela ao da freira americana e dos dois lderes locais. O gravssimo no caso de Pau DArco a volta da ao direta da polcia quase como milcia a servio de terceiros interessados na eliminao do grupo atacado pela fora policial. Independentemente das informaes que ainda precisam ser produzidas, o que recomenda a prudncia, a cautela e a honestidade apontadas pelo governador, para evitar juzos prvios e precipitados, j no h mais dvida de que as mortes ocorreram por execuo deliberada. Se as vtimas eram bandidos e se havia motivo para a polcia se prevenir, nada justica a ao violenta, incompetente e talvez de m f da polcia. Como no justica as divagaes abstratas e os circunlquios em torno da essncia da questo do governador no seu pronunciamento atravs de vdeo difundido pelas redes sociais. A histria, mais uma vez, bate porta de Simo Jatene e ele manda dizer que no est.

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7 Os mitos em torno do dcit da previdnciaOriginalmente, este texto era uma carta do leitor Elias Granhen Tavaressobre a evoluo da estrutura etria da populao brasileira e suas implicaes sobre decises estratgicas do poder pblico (por exemplo: dficit da previdncia versus gerao de novos postos de trabalho). Mas o trabalho de tal envergadura (da a sua extenso), que decidi transform-lo em artigo. Denso e penetrante, o bastante para mudar a viso corrente sobre o problema e abrir nova perspectiva de entendimento.A populao brasileira est em acelerado processo de envelhecimento. a cantilena recorrentemente recitada pelos governos brasileiros, sempre que eles decidem esculhambar ainda mais com a Previdncia Social, is a duas tradies genuinamente nacionais: uma delas a de que, neste pas infeliz, nada to ruim que no possa ser piorado; a outra aquela que diz que, quando as coisas vo mal, quem tem que pagar a conta o pessoal dos andares de baixo. Na dcada de 1980, Delm Netto usou e abusou desse mantra. No modo abuso dentre outros mimos altamente danosos ao trabalhador, o balofo todo poderoso Ministro do Planejamento do general Figueiredo reduziu o teto contributivo do Regime Geral de Previdncia, de 20 para 10 salrios mnimos. Como algum direta e grandemente prejudicado por essa medida, jamais deixarei de maldizer o adiposo tecnocrata do regime militar. Durante quase duas dcadas, contribu para a previdncia pelo teto de 20 salrios mnimos. A o Delm quebrou esse teto para metade. Junto com o teto contributivo, tambm caiu o teto de remunerao do aposentado, de 20 para 10 salrios mnimos. Quando me aposentei, meu benefcio (benefcio?) foi calculado pelo teto (na verdade, um subteto) de 10 salrios mnimos, j que se leva em considerao somente a contribuio dos ltimos 3 anos que antecedem a aposentadoria. As quase duas dcadas em que contribu pelo antigo teto foram solenemente ignoradas no clculo. Depois da queda, o coice: no me devolveram a contribuio a maior que recolhi ao longo desses quase 20 anos. Ou seja: pura roubalheira governamental! A veio o Temer, ferrar ainda mais com as geraes posteriores minha. E, para ocupar, com justo mrito (leiase: com a maior cara-de-pau), o lugar que merece, entre os mais destacados vigaristas verde-amarelos, o despencante sucessor de Dilma Rousse nem tentou inventar uma lorota mais criativa. Foi direto ao ponto: ressuscitou a mesma falcia com que Delm Netto e Figueiredo sodomizaram o trabalhador brasileiro, h mais de 30 anos: a populao brasileira est em acelerado processo de envelhecimento. Tanto que esse lero -lero vem sendo repetido, e h tanto tempo, que, se houvesse algo verdadeiro nele, o brasileiro j deveria estar vivendo pelo menos uns 130 anos. O que h de verdade nessa histria que, pelas medies do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro saltou de medocres 43,3 anos em 1950, para 70,4 anos em 2000. Nada menos que 27,1 anos em 50 anos. Mas, antes de tirar concluses apressadas desses dados, bom levar em conta pelo menos trs pontos fundamentais. O primeiro desses trs pontos que essa acentuada elevao da expectativa de vida do brasileiro aconteceu mais intensamente entre o incio dos anos 1950 e o m dos anos 1980. Nesse perodo, a expectativa de vida do brasileiro passou de 43,3 anos para 66,6 anos. Aumento de 23,3 anos, ou seja, 85,9% do aumento total registrado em meio sculo. A partir do incio dos anos 1990 o processo desacelerou. De 2000 a 2010, por exemplo, a expectativa de vida do brasileiro passou de 70,4 anos, para 73,4 anos. Apenas 3 anos em uma dcada. Segundo as projees do IBGE, o Brasil dever fechar 2020, com a expectativa mdia de vida batendo em 76,1 anos, o que equivale a um incremento de 2,7 anos, isto menos ainda que o aumento ocorrido na dcada anterior. De cara, o que as sries estatsticas do IBGE demonstram que no est ocorrendo uma acelerao, e sim uma desacelerao na evoluo da expectativa de vida do brasileiro. A expectativa de vida continua crescendo, porm a taxas decrescentes; cada vez mais lentamente, menos intensamente. Exatamente o oposto do que diz o governo Temer, que apresenta como grande novidade dos nossos dias, um fenmeno que se encerrou h quase 30 anos. O pessoal que vende o le gtimo usque escocs fabricado no Paraguai mais honesto. E bom que se diga, tambm, que, com toda a melhoria ocorrida nas ltimas dcadas, a expectativa de vida do brasileiro no l esse chocolate todo. Em 2009, p.ex., a expectativa de vida na Frana era 84,5 anos; na Sua, 84,2 anos; no Japo, 83,6 anos. No mesmo 2009, o Brasil cambaleava em 80 lugar no ranking da ONU, com uma expectativa de vida de 72,8 anos. Abaixo de Cingapura (79,7 anos), e da Argentina (75 anos), para car em apenas dois exemplos de

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8 pases que no formam no peloto dos desenvolvidos mas que exibem indicadores sociais melhores que os do Brasil. De acordo com as projees do IBGE, apenas em 2020 o Brasil alcanar a expectativa de vida de 76,1 anos, marca que a Argentina j estava prestes a alcanar em 2009, nada menos que 11 anos antes. Ainda segundo o IBGE, somente no longnquo 2100, que o Brasil alcanar a expectativa de vida registrada na Sua em 2009. Para alcanar a marca que a Frana j exibia em 2009, o Brasil ter que esperar pelo Sculo XXII. Num quadro como esse, falar no aumento da expectativa de vida do brasileiro como se isso fosse algum problema, canalhice em alto grau. Velhacaria! O segundo ponto a destacar, que, em universos mar cadamente heterogneos, as medidas de tendncia central, como a mdia, perdem muito de sua representatividade. o caso, no Brasil, de indicadores como renda ou PIB per capita, expectativa mdia de vida, etc. Exemplicando: em 2009, quando a expectativa mdia de vida do brasileiro era 72,8 anos, a mdia registrada no Distrito Federal era de 76,5 anos. Acima da mdia nacional, por tanto. J no Maranho, essa mdia no passava dos 68 anos. Pior, ainda, era a mdia alagoana: 67,2 anos. Em pleno 2009, a expectativa mdia de vida em Alagoas era praticamente igual mdia brasileira de vinte anos antes, no incio dos anos 1990. Em pases como o Brasil, uma poltica de proteo social minimamente digna desse nome, jamais poder se assentar exclusivamente, ou mesmo principalmente, nesses indicadores mdios, porque isso excluir, automtica e inevitavelmente, as parcelas mais fragilizadas da populao... exatamente aquelas que mais necessitam de proteo, e que, por isso mesmo, devem estar no centro do foco das aes de proteo social. socialmente injusto estruturar a poltica de benefcio previdencirio tomando por base a expectativa mdia de vida de mais ou menos 80 anos, p.ex., num pas em que quase todas as pessoas que mais dependem desse benefcio para sobreviver dicilmente passam dos 75 anos. Quando se tem em conta as desigualdades sociais e regionais que caracterizam nosso pas, aparecem com evidncia ainda maior a crueldade e a insensibilidade social com que o governo Temer trata a questo previdenciria. quase uma condenao morte em larga escala. O terceiro ponto a se ter em conta o fato de que o aumento na expectativa de vida no implica, necessariamente, o aumento na longevidade das pessoas adultas. Pelo menos, no na mesma proporo. A expectativa de vida calculada com base nos bitos ocorridos ao longo de um dado perodo, em todas as faixas etrias. O resultado, como dito h pouco, uma mdia, ou seja, uma medida de tendncia central. Uma elevada taxa de mortalidade infantil, puxa a expectativa mdia de vida para baixo. Reciprocamente, uma reduo na taxa de mor talidade infantil empurra a expectativa mdia de vida para cima. Se um pas desenvolve polticas pblicas capazes de reduzir a mortalidade infantil, a expectativa mdia de vida da populao aumenta, no porque os adultos estejam vivendo mais, e sim porque as crianas esto morrendo menos. Foi, precisamente, o que ocorreu no Brasil. A partir da dcada de 1950, o pas realizou um amplo conjunto de investimentos em servios de sade, com destaque para as vacinaes em massa e o uso de antibiticos. Esse processo de acentuou nos anos 1970, com a intensicao das aes de sade materno-infantil, em especial as relativas ao prnatal, parto e puerprio, direcionadas aos extratos de baixa renda. Tambm ocorreu a expanso das redes de gua encanada e de esgoto, assim como se intensicou o saneamento de lagoas e pntanos dentro dos espaos urbanos. A consequncia disso foi um declnio acentuado da taxa de mortalidade infantil. O estudo Evoluo e Perspectivas da Mortalidade Infantil no Brasil, elaborado pelo Departamento de Populao e Indicadores Sociais do Ministrio do Planejamento, e publicado em 1999, demonstra o processo: em 1950, a taxa brasileira de mortalidade infantil era de 135 por mil nascidos vivos; passadas quatro dcadas, em 1990, essa taxa havia despencado para 48,3 por mil. Declnio de nada menos que 64,2%! E a est a principal causa da elevao da expectativa mdia de vida da populao brasileira. E tambm a a proverbial desigualdade brasileira mostrou servio. Em 1980, quando a mdia nacional de mortalidade infantil j se reduzira para 82,8, na Regio Nordeste essa mdia ainda era de 117,6 taxa maior que a mdia brasileira de 1965 (116,0). No mesmo ano de 1980, nas demais regies, a situao era a seguinte: Norte, 79,4; Sudeste, 57,0; Sul, 58,9; Centro Oeste, 69,6. Uma das tendncias na evoluo da populao brasileira o declnio da taxa de natalidade (o que, em princpio, concorre para o envelhecimento geral da populao). Mas, para apreender o que essa tendncia realmente signica em nosso pas, preciso levar em conta sua conexo com a queda da taxa de mortalidade infantil. Nas sociedades onde houve declnio da taxa de mortalidade infantil, tambm ocorreu, concomitantemente, a queda da taxa de natalidade. O antigo dito popular explica: Filhos? Quem tem um, no tem nenhum; quem tem dois, tem um.... A praxe era gerar muitos lhos, porque no se dispunha de mtodos contraceptivos ecazes, e porque alguns lhos quase que certamente no sobreviveriam. bem verdade que, em 1950, a populao de 0 a 14 anos representava 41,8% da populao. Mas, ao se considerar a taxa de mortalidade infantil da poca (135), deve-se ter em mente o fato de que uma parcela expressiva das crianas ali computadas no chegaria, como de fato no chegou, idade adulta.

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9 Para as nalidades deste texto, vale a pena lembrar que, quando a expectativa mdia de vida se eleva por causa da reduo da mortalidade infantil, a consequncia direta no o aumento da presso sobre o sistema de aposentadoria. A consequncia direta da reduo da mortalidade infantil o aumento da demanda por postos de trabalho, porque uma proporo maior da populao passa a atingir a idade adulta. Aumenta a quantidade de pessoas que chegam idade de trabalhar. Essa consequncia facilmente perceptvel, ao se analisar a evoluo da estrutura etria da populao brasileira. De 1872 a 2010, as mais significativas alteraes e oscilaes na estrutura etria da populao brasileira, ocorreram na faixa dos 20 aos 59 anos (faixa etria em que as pessoas participam mais intensamente do processo produtivo). Segundo o IBGE, em 1872, as pessoas na faixa dos 20 aos 59 anos representavam 47,1% da populao. Essa par ticipao relativa despencou nas dcadas seguintes: 44,0% em 1890; 41,2% em 1900; e 39,3% em 1920 (do nal do sculo XIX, at s primeiras dcadas do sculo XX, a alta taxa de mortalidade infantil, em decorrncia, sobretudo, de epidemias, repercutiu fortemente na formao do contingente populacional que conseguia chegar idade adulta). A partir dos anos 1940, comeou uma lenta recuperao da participao relativa dos adultos na faixa dos 20 aos 59 anos, no conjunto da populao brasileira. O processo se intensicou a partir dos anos 1950, mas somente em 1991 que as pessoas nessa faixa etria voltaram a representar 47,7% da populao total (i.., retornaram participao relativa existente 119 anos antes). Nas dcadas seguintes, esse processo se acentuou: em 2000, adultos na faixa dos 20 aos 59 anos constituram 51,3% da populao brasileira; 56,2% em 2010, isso correspondendo a nada menos que 107,2 milhes de pessoas. Mas a populao brasileira est ou no envelhecendo? Claro que est, e esse um fenmeno mundial. Avanos na tecnologia mdica, desenvolvimento de novos medicamentos, maior nfase em cuidados preventivos, alimentao mais saudvel, e um amplo etc. respondem por isso. E tambm aqui o Brasil desla na ala dos retardatrios: pelas estimativas do IBGE, somente daqui a 33 anos, em 2050, que nosso pas ter uma estrutura demogrca mais ou menos parecida com a da Sua de hoje, em termos etrios. Alm do mais, o aumento da longevidade no innito. Atravessada no caminho, h a clssica barreira dos 100 anos. no mnimo, remotssima, a chance de que essa bar reira seja superada nas prximas dcadas. A populao em torno dessa idade, em especial acima dela, e continuar sendo, pelas prximas dcadas, uma escassa minoria, em todo o mundo. No Brasil no nem ser diferente, antes pelo contrrio. O coeciente de mortalidade tanto mais elevado, quanto mais as faixas etrias se aproximam da barreira dos 100 anos. Em 2000, segundo o censo realizado pelo IBGE, havia no Brasil 1,8 milho de pessoas na faixa dos 75 aos 79 anos. Dez anos depois, o censo de 2010 localizou 819,5 mil pessoas com idade entre 85 e 89 anos. Haviam sobrevivido somente 45,5% menos da metade das pessoas que, no censo anterior, contavam 10 anos menos. Ainda em 2000, foram contadas 520,3 mil pessoas com idade de 85 a 89 anos. J o censo de 2010 encontrou 98,3 mil pessoas na faixa dos 95 a 99 anos. Haviam morrido nada menos que 422 mil (81,1%) do contingente de 520,3 mil. Somente 19% dessas pessoas conseguiram passar faixa etria imediatamente superior. E assim por diante. De acordo com os censos do IBGE, de 2000 para 2010, a populao brasileira com mais de 60 anos aumentou de 14,5 milhes para 20,6 milhes. Aumento de 6,1 milhes, portanto. No mesmo perodo, a populao na faixa de 20 a 59 anos passou de 87,1 milhes para 107,2 milhes. Aumento de 20,1 milhes de pessoas. A relao entre esses volumes clara: para cada pessoa a mais, potencialmente apta a se aposentar, surgiram 3,3 pessoas potencialmente aptas a trabalhar. Para o governo, isso deveria significar que a gerao de novos postos de trabalho no mercado formal pelo menos, 3,3 vezes mais importante e urgente que o dficit da previdncia. Os dados sobre a evoluo da estrutura etria da populao brasileira demonstram, fartura, que a prioridade estratgica do pas, neste momento, deve ser a gerao de novos postos de trabalho no mercado formal. Dezenas de milhes de novos postos de trabalho, para proporcionar meios de vida a um contingente de mais da metade da populao (de acordo com a PNAD/IBGE, em 2015, a populao brasileira com idade entre 20 e 59 anos, j totalizava 114,9 milhes de pessoas, quantitativo maior do que as populaes da Colmbia, Argentina, Chile e Paraguai, somadas, em 2014). Os esforos aplicados no enfrentamento do dficit previdencirio em nada contribuem para a gerao de novos postos de trabalho no mercado formal. Apenas satisfazem a ganncia de empresrios que querem fazer o pas regredir socialmente s condies existentes na primeira metade do sculo passado. Inversamente, o aumento do emprego formal concorre para a reduo do dficit da previdncia, via elevao da receita de contribuio para o fundo. Uma vez enfrentado o problema da gerao de postos de trabalho, com a seriedade devida, a questo da viabilidade econmica do sistema previdencirio mudar de escala, para menor, porque a criao de novos postos de trabalho automaticamente aumenta a receita do Fundo de Previdncia. O que hoje impulsiona o dficit previdencirio para o alto no a longevidade do aposentado, e sim o desemprego formal. Quando o desemprego aumenta, a consequncia imediata a reduo da receita do Fundo de Previdncia. A receita cai, mas no a despesa, j que ningum se desaposenta s porque o desemprego aumentou. Essa uma das mazelas da previdncia pblica brasileira, estruturada em regime de repartio; uma espcie de Esquema Ponzi estatal. outro aspecto da crise previdenciria que gostaria de debater numa prxima oportunidade.

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10 Ramiro Nazar e o alvorecer de uma nova gerao paraenseMeus colegas economistas do Conselho Regional de Economia PA/AP, na pessoa de seu presidente Raul Paulo Sarmento, me pediram para que falasse sobre Ramiro Fernandes Nazar. Misso aparentemente fcil para quem como eu privava de sua intimidade, a ponto de nos considerar mos irmos. Entretanto, alm da barreira emocional, provocada pela perda e separao irreparveis, falar de quem viveu 85 anos bem vividos, no tarefa fcil. Tem que haver rigorosa disciplina narrativa, pois faclimo comear mas difcil terminar. Por isso escolhi palavras como inteligncia, dignidade, humor, capacidade, dedicao e coleguismo, que julgo as mais signicativas para sintetizar a existncia desse querido colega economista, nascido em 14 de janeiro de 1932. Ramiro era uma pessoa que impressionava, logo primeira vista, pelo seu perl elegante, gestos expansivos, inteligncia fulgurante e tratamento cordial com quaisquer pessoas que dele se aproximasse. Momentos aps de conversa, percebia-se um homem franco, honesto e digno, defensor de princpios claros inabalveis criticando com muita verve, ironia e bom humor o que julgasse errado ou inconsistente mas propondo solues viveis e exequveis, visando o bem-estar da sociedade, baseadas nas potencialidades extraordinrias para o desenvolvimento da paixo maior da sua vida prossional e acadmica: a regio amaznica. Seus argumentos, sempre bem fundamentados, vinham de uma slida formao iniciada em Belm onde logo aps os estudos primrios, fez cursos mdios em contabilidade e administrao, para que depois se formasse em Cincias Econmicas, em 1958, pela Universidade Federal do Par. Para se consolidar como economista competente e renomado, fez dois cursos de especializao no extinto Conselho Nacional de Economia na Cidade do Rio de Janeiro, onde tambm iniciou suas atividades prossionais como membro da equipe de Renda Nacional do Instituto Brasileiro de Economia da Fundao Getlio Vargas. Foi da que trouxe suas maiores inuncias tericas, acadmicas e prossionais, dadas pela convivncia e aprendizado com seu grande amigo e guru Mrio Henrique Simonsen. No regresso Belm, foi convidado para integrar uma entusistica e qualicada equipe tecno-po-A derrota do caudilho Magalhes Barata na eleio para o governo do Par, em 1950, serviu de oxigenao poltica, intelectual e tcnica no Estado. Uma gerao pde desabrochar ao ser desfeito um esquema de poder totalitrio, policialesco e repressor montado em torno da liderana do tenente Barata. Continuou a haver ingerncia poltica na formao dos quadros dirigentes e da elite, mas sem o monolitismo anterior. Pelo tempo suficiente para a renovao de hbitos, costumes e prticas. Jovens advogados, engenheiros, administradores e integrantes de outras categorias puderam desenvolver suas aptides e intervir na gesto da coisa pblica e do debate de ideias; No topo da pirmide, junto ao governador Zacarias de Assuno e do prefeito Celso Malcher. Mas tambm em instncias do poder nacional, principalmente no Banco da Amaznia e na SPVEA (hoje Sudam), sob a liderana de personalidades distanciadas das paixes locais, como o historiador Arthur Cezar Ferreira Reis. Um desses novos personagens foi Ramiro Nazar, que morreu no dia 26, aos 85 anos. Sua trajetria reconstituda pelo tambm economista e seu fraterno amigo, Joo Tertuliano Lins, em texto que reproduzo a seguir. Lamentando o silncio da imprensa sobre o personagem. Aproveito para registrar dois momentos em que meu caminho se cruzou com o de Ramiro. O primeiro, talvez em 1968. Ele convocou a imprensa para a apresentao do seu projeto de plantio de castanha de caju em Salinas, da Agrisal, na sede do Tnis Clube. Assistimos brilhante exposio e fizemos algumas perguntas. Fomos convidados ento para o almoo. Nossos motoristas estavam no salo, mas no foram includos no convite. Adolescente impetuoso, exigi que eles tambm fossem servidos. O assessor foi a Ramiro, que, gentil e atencioso como sempre, chamou os motoristas mesa. Alguns anos depois, escrevi na minha coluna, em O Liberal, uma crtica ao projeto da Agrisal, apresentado Sudam para receber incentivos fiscais. Romulo Maiorana (o pai) me chamou ao seu gabinete. Lcio, a doutora Yaci toma caf todos os dias com a Da, sua esposa, disse o dono do jornal, me pedindo para evitar o constrangimento matinal entre as vizinhas de casa, na praa Batista Campos. Para surpresa dele, peguei de volta o artigo e voltei redao. De l voltei com um novo texto. Ao entrega-lo, perguntei: A dona Ruth toma caf da manh com a dona Da?. Era uma crtica a Jarbas Passarinho, de muito maior cacife de poder do que Ramiro. Romulo riu e aprovou a publicao. Depois de alguns pegas sobre ideias em conflito, nos tornamos amigos e pude desfrutar a inteligncia e a perspiccia desse Ramiro que Tertuliano to bem descreve.

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11 ltica para alavancar a antiga SPVEA, dentro da concepo Amaznia Brasil, mas seus planos e dos demais tcnicos foram por guas abaixo com a desastrosa renncia do Presidente Jnio Quadros. Sempre seguindo em frente com seus ideais inabalveis, exerceu diversos cargos e funes pblicas e privadas, teve diversos livros e trabalhos publicados, elaborou inmeros relatrios tcnicos para empresas e entidades governamentais abordando, principalmente questes de transportes hidrovirios no Brasil, a partir da bacia amaznica. Como um dos maiores especialistas em transpor tes aquavirios na Amaznia, deixou seu livro mais recente, o notvel Tijoca Porto da Discrdia. Foi professor adjunto concursado do Centro Socioeconmico da UFPA, exercendo vrias funes acadmico-administrativas integrando inclusive, a equipe de criao e estruturao do NAEA Ncleo de Altos Estudos Amaznicos juntamente com grandes amigos e companheiros professores, tais como, Armando Dias Mendes e Jos Marcelino Monteiro da Costa, dentre outros. Alm dessa sua extraordinria capacidade de trabalho, Ramiro se distinguia pelo coleguismo e pelo constante esforo de valorizao da categoria profissional dos Economistas. Mesmo aposentado, era um dos mais assduos frequentadores e colaboradores do CORECON. Foi com sua ajuda inestimvel, que conseguimos, aps o falecimento do Professor Armando Mendes, concluir em 2012, o livro sobre o Centenrio da Crise da Borracha Amaznica. Toda essa vida esplendorosa de Ramiro, s foi possvel graas a um amor e dedicao dessa magnfica criatura humana, esposa e companheira de todas as horas que a Dra. Iacy de Nazar Pina, juntamente com seus filhos. A essa extraordinria famlia, solidria e exemplar, apresento aqui, em meu nome, em nome do CORECON-PA/AP e de todos os colegas e amigos do querido Ramiro, alm dos pesares, os sinceros agradecimentos por terem nos legado e repartido conosco essa figura humana incomensurvel que foi o grande economista paraense Ramiro Fernandes Nazar. O estupro invisvelA menor, de 16 anos, foi convidada pessoalmente para participar da festa na casa de Jackson, no conjunto Jader Barbalho, no Aur, em Ananindeua. Chegou na hora, s trs e meia da tarde do dia 26 de maio. Ia ficar at as cinco e depois seguiria para a aula noturna do 1 ano do ensino mdio numa escola pblica. Por isso, levava o uniforme na mochila. Mas ela nem foi escola nem apareceu na sua casa. Uma irm mais nova, de 15 anos, saiu atrs dela e a encontrou na casa de Jackson. Quando conseguiu entrar na casa, forando uma das portas, todas trancadas, viu vrios homens bebendo, que se assustaram pela sua presena. Em seguida apareceu a irm, que estava nua, apenas com os seios cobertos por um top. Estava tonta, desorientada. Aceitou ser levada. Alarmada, a famlia fez um boletim de ocorrncia na Seccional da Cidade Nova. Policiais foram at o local da festa, j abandonado. A famlia se queixa de que havia preservativos espalhados pelo cho.Podiam servir de prova para a denncia da menor, de que provavelmente oito homens a estupraram seguidamente, depois de a terem drogado, deixando-a inconsciente. Na mesma noite ela foi submetida percia no IML (o laudo dever ser divulgado em um ms).Trs dias depois o BO foi encaminhado delegacia do Aur, mas somente no dia 2 chegou ao setor competente, a Delegacia Especializada de Atendimento Criana e o Adolescente. At agora ningum foi preso. A identidade da menor est sendo mantida em sigilo. A famlia se queixa de estar recebendo ameaas annimas de morte. O caso impressiona por vrios motivos. Primeiro, pela pouca ateno que lhe foi dispensado. O Dirio do Par lhe deu maior destaque por motivo bvio: a campanha que faz contra o governo do Estado. Mas o noticirio fraco em informaes. J O Liberalo minimizou por outro motivo bvio: seu apoio ao gover nador Simo Jatene, que s falha quando a verba ocial diminui. Assim, no se sabe se realmente a polcia se viu impossibilitada de fazer o agrante ou no o consumou por no ter dado a importncia que esse tipo de crime lhe impe. Como outros locais semelhantes espalhados pela periferia de Belm e a regio metropolitana, a casa de Jackson um covil, que atrai adolescentes com promessa de festa e diverso. No desconhecido pela polcia. A estrutura permanente do aparato de segurana pblica extremamente limitada e deciente para agir imediatamente em seguida ao recebimento de denncia de crimes contra crianas e adolescentes, especialmente quando submetidos a abusos sexuais. Devia ser uma polcia bem adestrada para prevenir o que aconteceu: a fuga do principal responsvel pelo estupro coletivo que, desta vez, ao contrrio do que aconteceu com uma adolescente da mesma idade, no Rio de Janeiro, no provocou clamor pblico.

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12 Apenas quatro dias depois que o presidente Getlio Vargas se suicidou, em agosto de 1954, chegou a Belm o Leopoldo Peres, o primeiro dos 12 navios da frota branca, construda na Holanda para os SNAPP, a empresa federal de navegao e administrao de portos. A encomenda fora feita na administrao de Vargas. A embarcao levou o nome do deputado federal amazonense Leopoldo Peres (j falecido na poca), autor da emenda constitucional de 1946, que previu a aplicao de 3% dos recursos oramentrios da Unio para a valorizao econmica da Amaznia atravs da SPVEA (atual Sudam). O navio foi a primeira unidade uvial nova entrada na Amaznia nos ltimos 42 anos, observou o economista Scrates Bonm, da SPVEA, que comeara a funcionar no ano anterior. O navio, com capacidade para 396 passageiros(99 na primeira classe e 300 na terceira), dispunha de 30 camarotes, quatro deles de luxo, com banheiro interno. Sua primeira viagem foi para Soure, levando convidados para assistir terceira exposio de animais do Maraj. Passou a fazer a linha BelmManaus.Por causa de versos, o poeta Raul Bopp quase duelou com o latinista e poeta Remgio Fernandes, em 1926. Bopp chegou a Belm para cursar o quarto ano da faculdade de direito. Iniciou o curso no Rio Grande do Sul, sua terra natal. Para melhor conhecer o pas, trocava de cidade a cada novo ano no curso. Em Belm, comeou a publicar poesias, crnicas e crticas, impressionando pela qualidade do que produzia. Teria se sentido ofendido porque Remgio no lhe enviou seu livro Sol de outono > Revidou com uma crtica dura, iniciando-se uma feroz polmica, que s no terminou em duelo porque os amigos interferiram e no deixaram. Bopp deu aulas no Colgio Estadual Paes de Carvalho, do qual Remgio era professor. Da sua estada em Belm e em viagens (em barcos de vela) a Bragana e Caiena reuniu material para o seu famoso livro Cobra Norato. De volta a Porto Alegre diplomou-se. Em 1932, ingressou na carreira diplomtica.Uma lembrana para animar a maltratada torcida do Clube do Remo. Em 1968 o time empatou com o Benca, que era bicampeo portugus e vice-campeo da Europa. Os portugueses vieram completos, incluindo seu maior craque, Eusbio, para entregar aos azulinos a faixa de campeo e foram surpreendidos por dois componentes que faltam agora aos jogadores: qualidade tcnica e disposio de luta. Torres fez o gol do Benca e Amoroso empatou. O Remo se apresentou no seu estdio com Jorge (depois Franois), China, Alemo (Z Maria), Casemiro e Edilson; Celso (Angelo) e Iris; Z Ildio Pela verticalizaoEm 1967, o crescimento urbano de Belm pela verticalizao j se incrementava, com a multiplicao dos negcios imobilirios no centro da cidade, de que prova o edifcio de escritrios na rua de Almeida.

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13 (Jorginho), Rubilota, Amoroso (Julio) e Zequinha.O conjunto musical e Kings foi o primeiro grupo artstico paraense a assinar contrato com uma gravadora nacional, a Phillips, em 1968, pela qual lanaram o seu primeiro disco, O conjunto de rock era integrado por Jos Bernardo, Roberto Freitas, Joo Moreira e Jos Arcngelo. O maestro Adelermo Matos era o supervisor musical da banda.Em 1974, o jato da PanAm para os Estados Unidos saa de Belm s 4:35 da manh de segundafeira. Seu destino nal era Miami, s 14:15. O almoo era servido a bordo, antes da escala em San Juan de Porto Rico, onde era feita a scalizao pela alfndega americana. E onde o passageiro poderia embarcar no maior avio de ento, o Jumbo 747, para Nova York e outras cidades americanas, ou fazer conexes para qualquer parte da Europa. D inveja, 43 anos depois.A atividade de guardador de carro comeou em outubro de 1962. A ideia de criar esse servio foi do Lions Clube, na poca presidido por Oswaldo Nasser Tuma. Foram selecionados os primeiros trs guardadores por sua comprovada boa conduta. A Secretaria de Segurana Pblica e a Delegacia Estadual de Trnsito lhes entregaram suas carteiras. Dois deles atuariam na avenida Nazar e o outro na travessa 14 de Maro. Eles viveriam da graticao que os motoristas espontaneamente lhes dessem. Em 1955 a Frente Municipalista de Santarm foi organizada para dar apoio candidatura do deputado federal Eplogo de Campos ao governo do Estado contra Magalhes Barata, do PSD, que voltava ao poder, depois de ter governado o Par por duas vezes (nenhuma delas atravs de eleio direta). Foi a maior organizao poltica do interior do Estado, segundo os seus prprios idealizadores. Certamente porque pretendia desalojar os baratistas do poder municipal, que controlaram durante a maior parte do tempo de permanncia do chefe no comando poltico do Estado. A frente era presidida pelo ex-prefeito Aderbal Tapajs Caetano Correa e secretariada por Nestor Orlando Milo. O tesoureiro era o vereador Jos da Costa Pereira e dela faziam parte os vereadores Alberto Campos de Castro e Jos Maria de Abreu Matos, mais Ambrsio Caetano Correa e Moacir Bastos Miranda, que participaram intensamente da vida pblica santarena durante vrios anos. O clipper da DuqueMeio sculo atrs era assim a paisagem da avenida Duque de Caxias com a travessa Vileta, no bairro do Marco, em Belm. Piso de terra, mato rasteiro, rvores e um dos ltimos quiosques e clippers da cidade, que a prefeitura demoliu em 1966. Ao contrrio dos demais, que eram pblicos, este era particular. Servia, ao mesmo tempo, como parada de nibus. O proprietrio, que estava h seis anos com a concesso, prevista para 15 anos, cobrou indenizao. Com a remoo da construo, a avenida foi asfaltada e recebeu canteiro central. uma das melhores de Belm.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: A CVRD est ameaada de ser desnacionalizada?Artigo publicado no Jornal Pessoal 313, de dezembro de 2003. Continua a srie sobre a privatizao da Vale. Ele traz os germes do que desembocaria na escandalosa formao dos campees brasileiros atravs do BNDES.Maior mineradora e principal exportadora do Brasil, a Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada, em 1997, tendo por parmetro um valor de referncia to baixo que acabou sendo arrematada com um gio de 77%, pago sem titubeios pelo consrcio Valepar. A desestatizao da CVRD foi estabelecida com duas medidas preventivas: na nova empresa no poderiam participar os japoneses, que eram seus maiores clientes, ou os australianos, mais diretos concorrentes, nem os que participaram da modelagem da venda. Esta ltima restrio foi logo tangenciado pelo Bradesco, que, aproveitando-se de ligranas jurdicas, acabou se tornando o segundo maior acionista do controlador da Vale. Esse mesmo Bradesco vinha servindo de rampa de acesso Mitsui, a maior compradora individual de minrio de ferro da CVRD. A empresa japonesa conseguiu 18% das aes da mineradora brasileira, adquirindo-as do Bradesco (atravs de sua subsidiria, a Bradespar). E estava se preparando para chegar a 25% do controle acionrio, atravs da compra das aes do fundo de investimentos dos funcionrios da Vale, InvestVale. Se conseguisse, transformaria a CVRD numa empresa nipo-brasileira. A manobra foi abortada pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social). Depois de um rpido entendimento com os dirigentes do InvestVale, Carlos Lessa, presidente do banco, fez o lance vencedor: 1,5 bilho de reais pelos 8,5% que o fundo detinha no capital da Valepar, equivalentes a 2,5% do capital votante da CVRD, da qual a Valepar a controladora. Foi um escndalo na grande imprensa e nos meios nanceiros nacionais. O alucinado Carlos Lessa estaria reestatizando a CVRD. A compra teria sido efetuada sem consulta ao superior dele, o ministro do desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que tambm integra o conselho de administrao do BNDES, ao ministro da fazenda, Cart @Transformei em carta o comentrio a seguir, que Paloma postou no seu Face. O Jornal Pessoal completar em 2017 trinta anos de idade. Desde a adolescncia eu o acompanho. O Lcio Flvio Pinto, seu editor, reprter, pesquisador, faz-tudo, sempre foi uma referncia para minha famlia como um verdadeiro defensor da Amaznia e de um jornalismo comprometido com a verdade. Minha irm se tornou jor nalista de formao e eu tambm, no de formao, mas por experincia de escrita em O Liberal, norteada sempre pelo Edir Gaya, meu primeiro editor. H aproximadamente dois anos o Lcio me escreveu um e-mail dizendo ser leitor de minhas crnicas e eu quase no acredi tei. Logo em seguida fui a Belm e nos encontramos, depois disso nossa amizade se desdobrou distncia e respeitosamente, apesar das divergncias polticas sempre manifestas em opinies por e-mail ou nos fruns de debate virtual muitas vezes acaloradas. Hoje recebi em casa minha edio do Jornal Pessoal e qual foi minha alegria e emoo quando vi publicado no tabloide o prefcio que Lcio escreveu para o meu livro? Alm disso o comentrio afetuoso sobre meu trabalho como escritora demonstra sua profunda sensibilidade algo que falta a tantos jor nalistas e intelectuais. Nesse mesmo nmero do JP consta anlise do Lcio sobre o massacre de Pau Darco, em Redeno, e o silenciamento do Governo do Estado sobre o ocorrido. Pensar nisso mais importante que pensar em meu livro. Ignorar a atual situao do estado do Par um verdadeiro crime. A barbrie nessas horas engole toda a poesia. Paloma Franca AmorimAos leitoresPor problemas de sade, que ainda no consegui superar, esta edio foi prejudicada. Espero contar com a compreenso dos leitores.

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15 Antnio Palocci, que comanda a equipe econmica, e ao prprio presidente Luiz Incio Lula da Silva. Todos teriam sido surpreendidos pelo anncio da consumao do negcio. Por isso, Lessa seria demitido do BNDES. Sua cabea j estaria colocada sobre a bandeja de prata da reforma ministerial, com data prevista, agora, para janeiro. Se realmente a iniciativa foi da exclusiva responsabilidade de Carlos Lessa ou se ele a partilhou com seus chefes (cumprindo ordens deles ou obtendo sua aprovao), a rigor, ainda no se sabe. As duas hipteses esto colocadas, com possibilidades semelhantes quanto sua veracidade. Qualquer que seja a alternativa certa, porm, ningum contestou a fundamentao do presidente do BNDES, mesmo porque toda a imprensa preferiu ignor-la: a Companhia Vale do Rio Doce, a maior vendedora mundial de minrio de ferro, esteve realmente ameaada de desnacionalizao? E, se o risco representado pela Mitsui foi contornado, ele no poder ressurgir sob outra forma ou outra via? Reconhecida como empresa estratgica, responsvel por dois de cada 10 dlares lquidos obtidos pelo Brasil em seu comrcio exterior, a Vale est cada vez mais forte como multinacional e cada vez mais exposta como corporao brasileira. Para garantir os assustados empresrios locais, Lessa se declarou imediatamente disposto a passar em frente os 8,5% da Valepar que adquiriu, em condies aparentemente satisfatrias para os envolvidos no negcio (o gio, de 3,5%, foi menor do que o pago em todas as operaes anteriores, embora incidente sobre aes que no pararam de se valorizar desde a privatizao, propiciando, dessa for ma, aprecivel ganho individual para os vendedores dos papis). Far a venda, desde que a empresas nacionais, foi sua condio. Cabe Comisso de Valores Mobilirios, ao parlamento e justia, se provocada, averiguar se houve uso de informao privilegiada ou dano ao patrimnio pblico. Mas a opinio pblica podia aproveitar com mais inteligncia o episdio para a reavaliao da Companhia Vale do Rio Doce, s vsperas de completar sete anos como empresa privatizada. Seu foco de negcio parece estar mais ntido, porm as teias do seu comando se tornam mais intrincadas, tornando-a vulnervel a um golpe, como o que o BNDES diz haver estancado. A anlise ter maior nitidez poltica nos prximos dias, quando o governo decidir se capitaliza o BNDES (numa quantia entre um mnimo de 5 bilhes, se a posio dos monetaristas for seguida, e um mximo de 15 bilhes de reais, se os desenvolvimentistas do banco prevalecerem) para que ele possa incrementar, em quase 40%, sua linha de crdito em 2004, chegando a um realizvel de quase R$ 200 bilhes em carteira, e mantm Lessa na conduo dessa que seria o principal mecanismo de ativao do tal espetculo do crescimento, to precipitadamente antecipado pelo presidente Lula. Um dos picadeiros do espetculo o setor siderrgico. Ele tem crescido pouco. S agora parece ter-se dado conta do reordenamento da siderur gia mundial, a partir da especializao dessa atividade nos Estados Unidos e o acelerado incremento na China. A Companhia Siderrgica de Tubaro, que planeja expandir sua produo para 7,5 milhes de toneladas de ao, a sustentao da siderurgia brasileira, a espinha dorsal do futuro, voltado tanto para o atendimento da demanda inter na quanto para o vcuo que surgir nos EUA e as novas necessidades chinesas. O problema que a Vale, alegando a busca da sua especializao em minerao, pretende transferir o bloco de controle da CST para o grupo europeu Arcelor, o maior produtor siderrgico do mundo e um dos principais clientes da prpria CVRD, que pretende investir um bilho de dlares na fbrica capixaba a partir de 2006. A Arcelor tambm participa do maior projeto de ferro-gusa de Carajs, ao lado da Vale. Para ser coerente com o que j fez, o BNDES estaria disposto a no deixar que a Vale seja substituda pela Arcelor na CST. Como agir, ento, o governo? Como tudo que slido desmancha no ar, preciso car atento para o prximo captulo. Talvez a grande imprensa no lhe d o destaque devido.Ao entre amigosDeputados estaduais formulam emendas em benefcio de grupos culturais, em especial conjuntos musicais, cantores e instrumentistas. A Fundao Cultural do Estado obrigada a cumprir as determinaes do legislativo, repassando o dinheiro xado na emenda parlamentar. Numa s edio do Dirio Ocial, do dia 2, a fundao repassou mais de 230 mil reais a artistas que se apresentaram em cinco espetculos e, Belm, Icoaraci e Ananindeua, O pagamento feito com inexigibilidade de licitao. Mas precisaria haver algum critrio tcnico que justicasse a contratao direta em funo da notria especializao, do valor pblico e notrio dos artistas, da sua comprovada qualidade. Critrios a serem avaliados por uma comisso designada pela fundao. Alm da vericao do resultado da aplicao do recurso pblico. O ideal, porm, seria que as emendas parlamentares se restringissem a iniciativas de efetivo interesse pblico. Jamais deveriam servir a indivduos, ainda mais com essa falta de critrios, que gera a desconana de a emenda no passar de uma ao entre amigos.

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Salvar a Carioca O cotidiano em BelmTodas as vezes em que volto ao Rio de Janeiro, no deixo de passar pela rua da Carioca, num roteiro que sigo pelo centro da antiga capital federal com mais constncia e prazer do que ir praia. Adoro o que resta do ncleo mais antigo e mais atraente, para mim, da cidade maravilhosa. Circulo pela Biblioteca Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, Pao Imperial, Real Gabinete de Leitura e vrios outros pontos. Sempre lentamente, para sentir as ruas. Parando em todos os sebos que conheo ou ainda vou conhecer. Os mais constantes localizados na rua da Carioca. Numa crnica publicada na semana passada pela Folha de S. Paulo, Alberto Costa e Silva certifica o fim da rua da Carioca, como de todo centro, cada vez mais silencioso, com menos gente nas ruas, transfor mado em cemitrio. A notcia mais me surpreende do que entristece. Ou no tive o vislumbre necessrio a paisagem ou o jornalista exagera. Talvez a causa principal do esvaziamento do centro seja a falta de segurana em pontos mais isolados, como a prpria rua da Carioca. Duas semanas atrs houve um arrasto violento na praa Tiradentes, causado, principalmente, pela extino de uma unidade policial no local, que atraiu os assaltantes. Como o centro do Rio patrimnio nacional e afetivo, interessa a todo pas. Daqui deste quintal requeiro s autoridades da cidade para salvar o centro, fonte da histria do Brasil e do prazer dos seus frequentadores, se a ameaa de se transformar em cemitrio for real e iminente. Meio dia e meia. A cancula de derreter os ossos. Sol a pino. O nibus NSL 9160 da linha Eduardo AngelimVer-o-Peso est no prego bem no alto do viaduto do Entroncamento. Os passageiros no podem descer: o viaduto no tem acostamento. Descer signica expor a vida ao perigo, que pode ser letal. Vo ter que esperar pela chegada de um outro veculo da mesma empresa para serem retirados daquela cmara ardente. O nibus velho, sambado, anunciando o que acontece todos os dias com a precria frota do transpor te coletivo em Belm: entrar em pane. Circulam inclumes. Ningum sabe, ningum v. Belm isso.O tema foi debatido, mas, com per do da abusiva expresso, esfriou. Estuda-se se a introduo da refrigerao nos nibus ordinrios (ou ordinarssimos) de Belm dever avalizar um aumento no valor da tarifa. Pela linha do BRT, os (quatro) nibus so confortveis, espaosos, novinhos, tm ar condicionado, circulam em faixa exclusiva, saem de uma grande estao e custam R$ 3,10. Qual a dvida?A avenida Almirante Barroso tinha seis pistas. Uma de cada lado foi abocanhada pelo BRT, deixando apenas duas para o uxo que antes congestionava tudo nos momentos de pico do trnsito. A partir de hoje noite, mais uma pista ser bloqueada por um tapume, deixando uma nica pista, ao longo de 70 metros, na direo Belm -Ananindeua. Os BRTs e os (supostamente) expressos so obrigados a disputar as duas pistas que restaram em cada sentido da avenida quando tapumes metlicos avanam sobre a via paralela especial. No espao que eles protegem deveriam as obras do BRT estar em andamento, se no acelerado (o que seria pedir demais prefeitura), pelo menos constante. Mas h meses nada h por detrs do tapume. frete dele, um caos sobre rodas atormentando os motoristas e agravando o sofrimento dos passageiros de nibus. E ningum toma uma providncia. O BRT o retrato de uma cidade incompetente, acomodada, irracional, catica e entregue prpria sorte.Belm possui trs viadutos (ou ter mais?). Um, o tobog do Edmilson, s comporta um carro de cada vez. Ocupa uma das faixas da avenida Almirante Barroso, onde desemboca. Outros so mais largos, mas no possuem rea de livre acesso para quem quer neles entrar. O motorista precisa aguardar por uma oportunidade. Um no tem acostamento. O acostamento dos demais insuciente. E por a vai, explicando a razo de ser dessa coisa que o BRT ao tucupi.