Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a TERRASA chacina de Pau dArcoMais uma vez o governo do Par mostra insensibilidade e incompetncia no trato de um dos problemas mais graves do Estado: os conflitos de terras. Depois de Eldorado dos Carajs, 21 anos atrs, nova chacina acontece sob um governo do PSDB. Os tucanos emudecem. O secretrio de segurana pblica do Par, general JeannotJansen, fez a primeira declarao sobre o conito em Pau DArco, no sul do Par, poucas horas depois do acontecimento, na manh do dia 24, que resultou em 10 mortes, nove de homens e de uma mulher. Sua maior preocupao foi ressaltar que a polcia civil e militar no cumpria mandado de reintegrao de posse. Ou seja: no ia desalojar os ocupantes da fazenda Santa Lcia, como acontecera em duas situaes anteriores. A fazenda, de 3,5 mil hectares, motivo de disputa entre os seus proprietrios e posseiros desde 2012. Desta vez, a polcia cumpriria 16 mandados judiciais de priso contra quatro pessoas, que teriam participado do assassinato de um vigilante da fazenda, ocorrido um ms antes, e de busca e apreenso de armas e documentos, e que acabaram sendo mortas durante o ataque. Na explicao do secretrio, a presuno era de que a operao resultara da constatao de que o alvo eram delinquentes comuns e no posseiros.

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2 Havia antecedentes. Uma reintegrao de posse executada um ms antes retirara os ocupantes da rea, mas eles voltaram ao local logo depois. No dia 30 de abril eles mataram Marcos Montenegro, vigilante da fazenda. Duas semanas depois, atacaram a sede da fazenda, queimando algumas instalaes e depredando outras. No dia 22 a polcia no conseguiu cumprir os mandados judiciais de priso dos responsveis pelos danos porque o acesso ao acampamento foi bloqueado por uma barricada. Decidiram voltar, na madrugada do dia 24, para assim surpreender os ocupantes da rea. Mas eles receberam a tropa a tiros. A verso ocial coerente com essa tese. Com um contingente com 25 a 30 pessoas, os posseiros se beneciaram do fato de estarem numa rea conhecida e a partir de uma trincheira que podem ter montado. Tinham arsenal para essa deciso: 11 armas de grosso calibre, incluindo espingardas, um fuzil 763 e uma potente pistola Glock. Mas quem j acompanhou esse tipo de situao, sabe que o tiroteio costuma se generalizar. quase impossvel que s haja baixa de um lado e do lado que estava melhor posicionado no que os combatentes chamam de teatro de operaes. Essa expectativa, ao contrrio do que proclamou o delegado licenciado e deputado federal der Mauro (do PSD), contumaz nesse tipo de operao, na sua reao corporativa e par cial, no signica que se deseje a morte ou ferimento de policiais. hiptese coerente com a verso da secretaria de segurana pblica. Se a tropa foi vtima dos primeiros disparos ao entrar na rea porque foi surpreendida por essa reao. At encontrar um lugar para se proteger, se defender e reagir, inevitavelmente teria sofrido alguma baixa, mesmo que sem vtima fatal. O tiroteio pesado deixaria marcas claras do combate, o que, nas vistorias posteriores ao local, no foi constatado. Mas se os policiais s atiraram por que foram alvejados antes, sua maior preocupao seria preservar a integridade do local para us-lo como prova da sua verso, logo posta em questo, ouimediatamente desacreditada. No entanto, a expedio retirou os cadveres, arrecadou as armas e limpou o ambiente, prejudicando ou at inviabilizando o trabalho dos peritos. Novamente na sua manifestao utilitria, para ganhar a pronta aprovao dos seus pares e das pessoas que encaram o problema por uma tica simplista e radical, o deputado der Mauro desdenha esse argumento. Disse que a ao foi humanitria. Anal, os policiais no iam deixar os cadveres expostos. A gravidade do acontecimento, com 10 mortes s de um lado (e, talvez, mais oito feridos que escaparam do tiroteio pelo mato), reforaria o cumprimento do dever prossional dos policiais de preservar a cena do crime, com os cor pos dilacerados pelas balas, o sangue espalhado e, sobretudo, a prova denitiva de que houve mesmo um combate e no uma matana deliberada, planejada, cumprida para atender uma das partes do conito fundirio. Chegando de madrugada, sob chuva, os 29 homens da operao (21 da Polcia Militar e oito da polcia civil) pareciam ter o propsito de matar, se prender no fosse possvel. A tropa era da prpria regio e j estava afetada emocionalmente pelas tentativas de retirada dos ocupantes da fazenda e priso dos que participaram do ataque sede da propriedade. Poderiam tambm estar querendo vingar o vigilante assassinado, ainda mais se ele fosse um policial? Suscitar essas hipteses, de slida consistncia, no signica levar ao absurdo a defesa dos direitos humanos, como se apenas uma das partes, a falsamente (ou verdadeiramente) mais fraca, tivesse direitos, enquanto a outra, a dos policiais e fazendeiros, totalmente ignorada. O maniquesmo se mostra deturpador em mais este exemplo. Se houve um momento em que o conito de terras na Amaznia era claramente entre duas partes, a dos donos (por justo ttulo ou mera grilagem) da terra e os posseiros, que s dispunham do seu trabalho para exercer seus direitos, hoje esse dualismo desapareceu. tal o fracasso do governo como r go regulador de litgio, acompanhante dos fatos e repressor de ilcitos que os atores em cena se diversicaram muito. Em meio a posseiros h pistoleiros, grileiros, desmatadores, intermedirios de fazendeiros e um universo humano que se desenvolveu sobre a incompetncia da administrao pblica. Ainda assim, o caso de Pau DArco tem uma violncia e um ntido sentido de parcialidade que torna difcil se no impossvel absorver as explicaes do governo, formuladas mais uma vez com incompetncia pelo ablico secretrio de segurana pblica. A gura inexpressiva do general Jansen parece s se manter diante da criminosa omisso do governador Simo Jatene. Mais uma vez, diante de novo escndalo, que devolve o Par ao pior noticirio nacional e internacional, o governador sumiu. Nesses momentos, o tucano parece renunciar condio de comandante-em-chefe da fora policial, que s exerce em momentos festivos, com hinos, dobrados e medalhas. O Par que trate suas dores por si prprio, dentre as quais matanas como esta, 21 anos depois de Eldorado dos Carajs, o atestado da continuidade de uma marca que tanto mal lhe faz: a selvageria.O vero amaznico promete ser sangrentoA verso logo se revelou primria, totalmente falha, inverossmil. Mas a Secretaria de Segurana Pblica do Estado tentou fazer acreditar que o acampamento atacado era constitudo por pistoleiros. Vericou-se, porm, que os nove homens e a mulher mor tos formavam famlias entrelaadas, a maior delas dos Milhomem, do Maranho, com seus parentes, Nao h, na histria da pistolagem na Amaznia, nenhum caso de pistoleiros que atuam em famlia. Os acampados integram um dos grupos organizados de posseiros, com vinculaes polticas. No meio deles tm surgido pistoleiros infiltrados, vendedores de terras e outros personagens incompatveis com a causa. Ainda assim, a abordagem policial, alm de desastrada, deixou, com sua violncia, a suspeita de que servia a um dos lados do litgio, o dos fazendeiros. O desprezo por todos os componentes humanos que no integrem o mundo dominante dos donos da terra

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3 Brasil: quem sabe que pas este?Que pas este? Quem saber a resposta com honestidade, convico e segurana? Nos ltimos trs anos, com a Operao Lava-Jato, o Brasil entrou numa catarse coletiva, num processo de lavagem intestinal. Ningum, ao incio do levantamento da corrupo na Petrobrs, podia imaginar a amplitude dos seus desdobramentos. A cada ms, semana ou dia, nova surpresa. No uma surpresa comum, at previsvel: uma novidade de arrasar quarteiro. Quando parecia que a Odebrecht afundara o pas num poo profundo de sujeiras, surgiram os cnicos irmos Batista da JBS com sua cartola de mgicos. Dela puxaram vcios, falcatruas, leviandades, abusos e tudo mais que nenhuma enciclopdia mundial da corrupo conseguiu registrar. No h limites para a canalhice com o dinheiro pblico, o abuso de poder, a promiscuidade entre a burocracia estatal e o topo da iniciativa privada. Tudo porque as riquezas da nao esto sendo exauridas por uma explorao selvagem, sem limites, desavergonhada. Nunca circulou tanto dinheiro no pas. Nunca se roubou tanto. Desde 1985, o melhor que a redemocratizao fez foi o Plano Real, vivo at hoje. Mas parece que a criao de uma nova e verdadeira moeda serviu de biombo para um assalto sem igual ao errio, a partir das privatizaes negociadas mais nos bastidores do que luz do dia, como fez o PSDB. A social-democracia brasileira se tor nou uma vergonha. O PT, que a sucedeu, deu sua clientela, o povo pobre, uma frao do que concedeu aos muito ricos. Todos os indicadores sociais positivos, mesmo quando mais manobra estatstica do que realidade concreta, so esmaecidos pelo enriquecimento no alto da pirmide. Quando os militares deixaram o poder, havia trs bilionrios no Brasil: Sebastio Camargo, Antonio Ermrio de Moraes e Roberto Marinho. Com FHC surgiram oito. Com Lula, 48. O mais notvel deles, Eike Batista, solto da cadeia por Gilmar Mendes, chegou a ser o stimo mais rico do planeta. Hoje pede o desbloqueio de bens para pagar a multa e continuar fora das grades. Quando Lula e Dilma, em atos pblicos, apontaram para Eike e o celebraram como o modelo do empresrio que queriam criar, no sabiam das falcatruas por trs dos seus negcios? E nas muitas viagens pelo exterior com os campees nacionais, no se aper cebeu de que o dinheiro desse enriquecimento vinha de bancos estatais, via dinheiro barato, quando pago? Roubar o errio virou vcio dourado para essa elite. Ela no conseguiu interromper seus procedimentos ilcitos mesmo com a fora-tarefa anticorrupo nos seus calcanhares. Propina continuou a ser paga e recebida, falcatruas montadas, contratos superfaturados. A proximidade do perigo no serviu de intimidao ou conteno. Um exemplo dessa histeria do roubo a mala dos 500 mil reais da JBS para o deputado federal Rodrigo Loures. Flagrado com a mo na botija, ele devolveu a mala. Faltavam 35 mil reais. Os brasileiros atnitos devem ter se perguntado: ele no sabe contar? Estava nervoso ao preparar a devoluo? Cobrou uma comisso sobre ele mesmo? Ou algum resolveu partilhar o botim, mesmo custa de ser descoberto? Logo em seguida l reaparece o deputado paranaense para avisar ao Supremo Tribunal Federal que depositara os R$ 35 mil desaparecidos. Fato indito, talvez, na histria da malandragem mundial: o ladro vira arrependido e tenta ser mocinho, mesmo que isso implique em assumir a condio de ru confesso. Nessa voragem do absurdo, tivemos os ataques aos prdios dos ministrios em Braslia. Vendo as imagens da destruio impossvel no voltar quatro sculos, at o incio da industrializao na Inglaterra. Para se libertar da explorao, os trabalhadores destruam as mquinas, no nvel de conscincia que conseguiam ter naquele momento. S que, no caso, a selvageria foi programada, teve apoio poltico de quem, com desfaatez, foi ao governador do Distrito Federal pedir para que os 900 nibus contratados para transportar os manifestantes fossem isentados de vistoria. Assim, evitariam o agrante de armas e outros objetos utilizados nos atos de vandalismo paralelos (ou seguintes) aos protestos democrticos. O governador disse que no aceitou a proposta, mas tambm no explicou como esses objetos passaram pela revista. Nem explicou tambm a m inteligncia que deixou a fora policial recrutada para impedir os atos agressivos e proteger os prdios pblicos foi insuficiente para realizar sua misso, chegando a uma violncia chocante, com o uso de armas de fogo contra os manifestantes, sem deixar de ser intil diante da destruio do patrimnio pblico. Quando o mal j estava feito, o presidente Michel Temer decretou a convocao das foras armadas, gerando tanto impacto quanto a violncia dos grupos de protesto mais radicais (ou prossionais). O que o obrigou a voltar atrs logo no amanhecer do dia seguinte, num vai-e-vem ruim para a repblica e a democracia brasileira. O Brasil diante de ns parece um animal enfurecido e desnorteado. Tanta sujeira lhe causa indignao e revolta, mas sua conscincia do que est vivendo parece primitiva. Pode acabar estourando a boiada. se manifestou no tratamento dado aos corpos das vtimas, levados a Marab e Parauapebas para percia, de l devolvidos a Redeno e Pau DArco como se fossem animais. As centenas de quilmetros per corridos na ida e volta, mais o intenso calor uma regio, aceleraram a decomposio dos corpos, que no foram preservados. Ao nal da tarefa prossional, eles foram devolvidos s suas famlias como se fossem restos animais apodrecidos e no a representao fsica de seres humanos. Ao incio do vero, que costuma ser sangrento nas frentes pioneiras da Amaznia, o episdio se insere numa escalada de conitos que atesta a volta do interesse sobre a propriedade de terras na Amaznia. Numa poca de incerteza econmica e poltica, um imvel rural ou uma fazenda no so apenas unidades produtivas: so tambm reserva de valor. Protegem contra os riscos de perdas. O problema fundirio dever voltar a se agravar. Com muito sangue.

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4 Delaes da JBS: processo secretoO cidado brasileiro conseguir ter acesso, de imediato (em tempo de intervir na histria e no apenas tomar conhecimento do seu relato), cronologia das tratativas iniciadas pelos donos do grupo JBS que resultaram na maior crise poltica brasileira desde o incio da Operao Lava-Jato, mais de trs anos atrs? Aparentemente, tudo comeou em fevereiro. Permaneceu em sigilo quase completo at o vazamento do contedo das sete delaes do pessoal da JBS, incluindo seus dois proprietrios, pelas matrias do jornal O Globo Assim, em menos de trs meses, Joesley Batista, o principal agente desse enredo, secundado pelo irmo, Wesley, prestou sete depoimentos, entregou documentos e produziu provas sem que a imprensa zesse qualquer registro de um fato que veio a superar o impacto das delaes de donos e executivos da Odebrecht. Essa incrvel faanha, de sustentar segredo to devastador por trs meses, prossegue at hoje. A imprensa j produziu um material vastssimo sobre as acusaes do pessoal da JBS contra o presidente Michel Temer, o senador Acio Neves e vrios outros polticos notveis, alm de ministros e outros servidores graduados da administrao federal, mas faltam detalhes essenciais para compreender o que houve. As informaes j conhecidas criam no observador ou analista que as recebe uma sensao profundamente desagradvel: de que o verdadeiro condutor dos acontecimentos o empresrio Joesley Batista. Os vdeos o mostram revelando os piores crimes contra a administrao pbica de forma natural, fria, irnica, cnica ou debochada, a partir de uma postura superior, arrogante, de verdadeiro dono da situao. Depois de horas assistindo os vdeos, ao escrever pela primeira vez sobre o tema mal consegui segurar a minha revolta pela postura dos procuradores que o ouviam. Leigo, mas cidado consciente, eu reagiria de outra maneira quele espetculo de pilhagem do dinheiro do povo, da honra das pessoas, dos crimes confessados com total amoralidade. Se fosse um daqueles procuradores, deixaria que o criminoso confessasse seus crimes. Em seguida, lhe comunicaria que ele estava detido. Aguardaria naquele mesmo local eu preparar a ao penal contra ele, levando-a instncia judicial competente. Uma vez protocolada, eu levaria a pea em mos ao juiz sorteado. Em nome do mais alto interesse pblico, o consultaria sobre a possibilidade de ser decretada de pronto a priso preventiva de Joesley Batista. Movimentaria a secretaria da vara para expedir o mandado de priso, buscaria um ocial de justia e o levaria para cumprir a ordem judicial no local onde o empresrio per manecia sob deteno. E o mandaria para a penitenciria, o lugar no qual deveria comear a pagar pelos gravssimos crimes que cometeu contra o pas. Ao invs de algo parecido a isso, os procuradores se comportavam amigavelmente, solcitos, tratando aquele perigoso criminoso at com o coloquial voc, que talvez no reservassem a um desprezvel ladro de galinhas. Pareciam terceiros no envolvidos (ou envolvveis) com as mais escabrosas histrias j relatada de viva voz pelo personagem que lhes deu causa. Nunca um cidado declarou com tal nfase e riqueza de detalhes como corrompera, em srie, o presidente da repblica, o ex-candidato a presidente (que, por mnimos 3% dos votos, no venceu a eleio), senador e presidente do terceiro maior partido poltico do pas, e, em cascata, centenas de pessoas com algum tipo de poder sobre os negcios pblicos e o caixa do errio. Uma vez confessados todos os crimes, por que afastar a lmina da lei punitiva e negociar, como num aougue, um preo que o criminoso deveria pagar por seus delitos e as vantagens que teria por confessar a ao corrosiva que exer ceu ao longo de tantos anos de acesso forado ao poder pblico pela eciente e mals via do pagamento de propina? Autor confesso dos crimes, cujos efeitos se estenderam por sobre os 200 milhes de brasileiros, o criminoso est a salvo de tudo em Nova York, a principal cidade do pas no qual o empresrio tem agora mais negcios do que no prprio Brasil, mas no qual seagigantou por receber de banco estatal o dinheiro mais barato do mercado, receber infor mao privilegiada para fazer negcios rentveis, conseguir a aprovao no executivo e no legislativo (e no judicirio tambm, ainda que pouco lembrado) o melhor para os seus negcios tudo isso transferido para os Estados Unidos, onde jamais desfrutaria ou desfrutar dos mesmos privilgios.. To assustador constatar que, depois dos primeiros contatos com o MPF (de qual Estado? com quem? seguindo qual circuito?), oferecendo a delao, Joesley Batista continuou a cometer os crimes graves de corromper agentes pblicos, obstruir a justia (silenciando, ao custo de milhes de reais, dois presos privilegiados, o ex-deputado Eduardo Cunha e o doleiro Lcio Funaro), fazer gravaes ou lmagens clandestinas contra o presidente da repblica e o senador Acio Neves, alm de outros polticos e assessores ou parentes, de efeito desagregador sobre a repblica, mas abrindo o anco deum agrante forjado (a pretexto de ao controlada pela Polcia Federal, comandada pelo prprio Joesley) como prova ilcita. Tudo isso para ter as provas e conseguir o ressarcimento de uma parte menor do que a JBS roubou do gover no e do contribuinte (porque raramente usou recurso prprio, no mximo como antecipao pelo faturamento obtido em superfaturamento e outros ganhos por meios ilcitos). Num primeiro acordo, 225 milhes de reais. Num outro, que acabou no vigorando, pela recusa do delator em aceita-lo, equivalente a 5,8% do patrimnio da corporao no ano passado, valor que podia ir de um mnimo de 0,1% at um mximo de 20%. Sinceramente diante da enormidade do prejuzo que o dono do grupo JBS causou ao Brasil, ninharia, embora pudesse ser o maior acordo de lenincia do mundo, 50% maior do que o da Odebrecht, a empreiteira cujo departamento de propinas (operaes estruturadas) s se revela superior ao da JBS por seus mtodos rigorosos de gesto, mas inferior em audcia, cupidez e virulncia. E na quantidade de polticos que agrilhoou pela armadilha do dinheiro fcil e muito que consolidou a maior corrupo da histria no s no Brasil: no mundo. O Brasil vai continuar diante do drama com a passividade e frieza dos procuradores que ouviram a consso de crimes de um gngster maior do que todos os outros registrados pela histria? Um novo conde Drcula, que, ao invs de chupar o sangue das suas vtimas, nelas inocula o vrus da completa desonra, da vilania e da torpeza.

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5 Uma moral ruimJoesley Batista um dos donos e principal executivo de uma corporao que no ano passado faturou em torno de 300 bilhes de reais, como a segunda maior produtora de alimentos do mundo. Ele precisa negociar constantemente com o governo. Tem acesso direto cpula da administrao pblica, o que at normal, considerado o seu peso econmico, que garante 250 mil empregos no Brasil e no exterior. Na interlocuo, o empresrio reser va parte do seu tempo para apresentar argumentos e razes tcnicas. Mas isso apenas a cereja do bolo. Em essncia, a negociao decidida num toma l d c: o empresrio paga propinas milionrias a polticos, dirigentes de estatais e outros agentes, indo at o topo da hierarquia. Joesley pode conversar com o presidente da repblica em horrios nada or todoxos. Na ltima vez, o dono do grupo JBS entrou na residncia particular de Michel Temer s 10 e meia da noite de uma tera-feira, pelo poro, para sua presena no ser registrada ocialmente. Tratou de temas nada decentes e morais sem ser interrompido pela maior autoridade pblica do pas. No dilogo ntimo, Temer se exps ao enquadramento em vrios crimes, que comearo a ser apurados em inqurito conduzido pelo Supremo Tribunal Federal. Esse o componente mais grave da srie de danos que Joesley, seu irmo, Wesley, e mais cinco integrantes da cor porao causaram ao Brasil com a divulgao de documentos que entregaram ao Ministrio Pblico Federal, complementados por sO pas entrou em estado de choque. No se recuperou at hoje. Tenta identicar todos os bandidos, seus crimes, a extenso dos danos, a extenso da lama moral. Enquanto isso, a atividade econmica mnima. O prejuzo dirio pode ser medida em bilhes de reais. O presidente da repblica vai responder a inqurito, pode ser cassado, punido criminalmente ou obrigado a renunciar. O senador Acio Neves est a caminho da priso, aonde se juntar irm, o centro de uma famlia que herdou sua fama por Tancredo Neves. Muitas cabeas no mundo poltico ainda cairo. Espera-se que, desta vez, a limpeza seja completa para que o pas possa recomear do zero. O detonador de toda essa tragdia nacional est em Nova York, depois de ter conseguido evitar a priso numa penitenciria, a priso domiciliar, a tornozeleira eletrnica e at o domiclio no prprio pas. Negocia o pagamento do acordo de lenincia, que pode chegar a mais de 11 bilhes de reais, superando o da Odebrecht, de R$ 7 bilhes, que era o maior do mundo. Joesley conversou coloquialmente com quatro procuradores federais, que o trataram com toda cordialidade e respeito, mesmo quando relatava propinas de muitos milhes de reais, pagos na hora, com cinismo de quem acha que pode comprar o mundo inteiro porque todos so desonestos, tm seu preo. O empresrio que mantm o seu negcio, a despeito da massacrante burocracia estatal e da m f de agentes pblicos, um autntico heri. Mas Joesley Batista o pior dos personagens dessa nova histria de indignidades e abusos. O Ministrio Pblico e a justia, que negociam com o dono da JBS, deviam consider-lo pelo que ele : um gngster, agente extremamente nocivo do organismo nacional.Um crime perfeito?No dia 12, a Polcia Federal conduziu Wesley Batista para depor sobre denncia de que a empresa da qual ele um dos donos fora beneciada com aportes irregulares da BNDESPar, subsidiria do BNDES. Outro mandado judicial era para a conduo coercitiva do irmo dele e principal executivo da corporao. Mas Joesley estava em Nova York. As medidas faziam parte da Operao Bullish, criada para investigar os repasses feitos companhia depois que a empresa de consultoria do exministro da Fazenda, o petista Antonio Palocci foi contratada. As operaes teriam causado prejuzo aos cofres pblicos, calculados pela Polcia Federal em 1,2 bilho de reais, pela compra de aes a um preo supostamente superior ao de mercado. Para capitalizar a empresa, tornando-a competitiva no mercado internacional, a partir do primeiro mandato de Lula como presidente da repblica, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social se tornou scio minoritrio da JBS (com 21% das aes). Nada mandava, mas colocou disposio muito dinheiro. S para a JBS adquirir o frigorco americano Pilgrims, foram 3,5 bilhes de reais, aplicados na compra de debntures, aes sem direito a voto. Com a operao, Palocci mudou de ideia e resolveu negociar um acordo de delao com os investigadores da Operao Lava-Jato. O anncio fez o mercado nanceiro tremer ento tanto quanto hoje. O ex-ministro da Fazenda possui informaes privilegiadas sobre um setor ainda no alcanado pelas investigaes da Lava Jato: os grandes bancos. Cinco dias depois da Bullish, O Globo vazou os segredos das delaes dos dois irmos, posicionados entre os maiores bilionrios do pas e do mundo. Desta vez, no era s Joesley que estava no seu suntuoso apartamento em Nova York: Wesley o acompanhava. Ambos fora do alcance geral, graas liberao dada pelo Supremo Tribunal Federal. Boa hora. Alm da Bullish, outras quatro operaes da Polcia Federal visaram empresas da holding do grupo JBS, a J&F. Em julho do ano passado, a Operao Spsis, investigou pagamentode propinas para obteno de recur sos do FGTS. Em setembro do mesmo ano, a Operao Greeneld foi em cima do recebimento irregular de fundos de penso por parte da Eldorado Celulose. Em janeiro deste ano, a J&F foi investigada pela Operao Cui Bono?. Ela teria sido beneciada pela concesso de crditos pela Caixa Econmica Federal em um esquema que envolveria o ex-deputado Eduardo Cunha (que, agora se sabe, recebia mesada mensal da empresa) e o ministro Geddel Vieira Lima. Dois meses depois a Operao Carne Fraca apurou o pagamento de propinas para que carnes irregulares da JBS fossem vendidas. Quando tudo indicava que em nova investida a Polcia Federal prenderia os dois irmos, eles se anteciparam, conseguindo imunidade penal do ministro Edson Fachin, do STF, em virtude das provas que que apresentaram cpntra notveis da repblica. Um crime perfeito?

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6 ANTOLOGIAO castigo vem do cu(Artigo publicado no Jornal Pessoal 165, de junho de 1997, mostra a repercusso local da venda da Vale, em especial sobre o projeto de cobre de Carajs. E o estranho papel que o primeiro presidente da ex-estatal desempenhou nesse primeiro momento.)O governador Almir Gabriel no um leitor contumaz da Bblia, ao contrrio do seu periclitante aliado poltico, o ex-prefeito Hlio Gueiros. Se se permitisse leitu ras bblicas, poderia ter interpretado os graves incmodos da semana passada como castigos do cu ou do ainda desconhecido. Governador do Estado da federao mais importante para a Companhia Vale do Rio Doce, Almir procurou o mais alto muro para acomodar a sua omisso diante do aceso debate sobre a privatizao da empresa, interrompido antes do tempo pelo ato consumado da venda aodada. Todos os que o conhecem melhor e de mais tempo sabiam que o pensamento do governador era contra a privatizao, mas ele silenciou oportunisticamente para no complicar os propsitos do tucano maior, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Em troca, ganharia a disputa para instalar a metalrgica de cobre do Salobo em Marab. O prprio presidente da repblica telefonara de Braslia para o governador anunciando-lhe, informalmente, que todo investimento, de 1,5 bilho Estranhamente, porm, Fernando Henrique no marcou a data para o anncio participar de uma solenidade que seria tem sido sua norma de conduta (em vspera de eleio, poltico se sujeita at a inaugurar qualquer coisa que renda votos). O ato foi agendado para o ltimo dia 14, depois de um primeiro adiamento, graas a uma iniciativa da anti ga diretoria da CVRD (ainda no cargo, mas j sem poder decisrio), que aproantes da privatizao da estatal. O ato se revelou precipitado, ou em descompasso com o processo de venda, que a CVRD, ainda que a contragosto, acabou aceitando. No dia acertado para a celebrao da festa, o presidente do conselho de administrao da nova Vale, Benjamin Steinbruch, que acumula de fato a prpria presidncia executiva, apesar da presena nominal de Francisco Schettino no cargo, veio a Belm com um tonel de gua gelada: a execuo do projeto Salobo est suspensa por 90 ou 180 dias, segundo os dois diferentes prazos que apresentou para reexame, sujeito a duas hipteses: manuteno tal como est ou cancelamento. Qualquer que venha a ser a hipte se concretizada (e na verdade h mais alternativas do que admitiu o novo messias do empresariado nacional), do episdio foi o governador Almir Gabriel. Ele no conseguiu fazer respeitar um protocolo de intenes assinado um ms antes, que ainda estava para ser encaminhado Assembleia Legislativa. Mais uma vez teve que se submeter a uma deciso unilateral do parceiro, sem qualquer poder de antecipao. E ao invs de ser premido naquela forma categrica de castigo que a moral bblica costuma reservar aos omissos. Renunciando voluntariamente ao no conjunto dos interesses da CVRD lhe conferia, o governador o primeiro a sofrer as consequncias do novo modus operandi da ex-estatal. O boss(ou capo?) Benjamin Steinbruch, at recentemente um desconhecido playboy, no encarna a possui 51% do controle acionrio. A parte de Steinbruch na nova Vale no chega a 2%, mas ele invadiu a sede da empresa, no Rio de Janeiro, como um dspota esclarecido, com o chicote dos nmeros nas mos para contrapor aosapparatchicks do Estado brasileiro (uma categoria tcnica em mutao e, em algumas instncias, em extino). Dentre as vrias perguntas consideradas inconvenientes que fez aos antecessores, uma foi: o que o Maranho ofereceu Salobo Metais para a instalao da metalrgica de cobre em Rosrio (que era a alternativa preferida bas e Marab da CVRD)? Dizem as fontes que fez-se silncio. Os tcnicos que estudaram as hipteses avaliaram cada uma delas, mas negociao para valer sobre vantagens e compensaes, Quando conseguiu benefcios no valor de 75 milhes de dlares, equali zando as trs hipteses (e assim elimi nando a possibilidade de perdas para a Salobo), a diretoria da Vale fechou Foi uma deciso poltica, mas no colidiu com os critrios tcnicos e eco com certa relutncia aceitou, mantendo a associao. Esse sempre foi o modo de atuao da estatal, que lhe garantia a condio de representante brasileira (do governo e tambm da nao), mesmo quando envolvida em negcios com multinacionais, sem perder o contato que caracterizam a empresa privada (a Vale, por isso, era nica, o que deixou de ser). Mas no esse o raciocnio de Steinbruch e do ainda obscuro consr cio por ele liderado. O novo condutor mado que o governo do Maranho no fora contatado para apresentar a sua proposta. Considerou essa hiptese indispensvel no reexame do projeto. Quer reduzir ao mximo o investi mento prprio da Salobo, avanando

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7 sobre o tesouro pblico, primeiro para abocanhar mais vantagens e isenes Dizem algumas fontes que o inte resse no apenas de poupar capital no Banco do Brasil, o mais rico dos funprincipal controlador da Companhia Brasileira de Metais No-Ferrosos, uma superempresa que surgiu no incio do ano passado, a partir da absoro da buna Metais e Eluma. A CBMNF passou a ser a segunda maior empresa de minerao e metalurgia do pas, abaixo apenas da prpria Vale, agora, obliqua mente, tambm sob seu controle. A holding dona da nica metalr gica de cobre do pas, a Caraba Metais, instalada na Bahia. Segundo alguassociar o projeto Salobo Caraba, ampliando-a para receber o concen trado extrado de Carajs e consolidando-a como a monopolista do cobre metlico no Brasil, para desespero de 150 compradores nacionais do produto, sujeitos aos seus humores. Essa hiptese j foi estudada. Anglo American e CVRD decidiram pela verticalizao da produo na regio da mina em funo de um detalhe tcnico: nenhuma outra metalrgica em operao no mundo, inclusive a Caraba, tem um design industrial apropriado para tratar o minrio de cobre de Carajs. excepcionalmente alto, causando problemas principalmente na limpeza de gases na meo problema, a fbrica da Salobo foi projetada com uma torre de limpeza. Outras fbricas que viessem a usar o concentrado de Carajs teriam que consumir mais energia e reagentes qumicos para eliminar o produo e prejudicando sua competitividade. Esse o problema tecnolgico que pode vir a ser resolvido, mas por causa dele os donos da Salobo decidiram que a produo seria verticalizada, englobando a minerao, a concentrao e a metalurgia. A deciso, evidentemente, foi tcnica, deixando pendente apenas ao longo da ferrovia de Carajs. Salobo, em 1985, apenas por apostar que nele poderia obter para a Caraba, onde tinha (e tem) muito dinheiro enterrado, o concentrado de cobre que trazido, com nus cambial, do Chile e da Bolvia (apenas 20% da necessida de da empresa so atendidos pela sua prpria mina, no serto baiano). zir 200 mil toneladas de metal, a Salobo ter que gerar 500 mil toneladas de concentrado, acima do que precisar a caraba se continuar utilizando sua mina. O que se far do excedente: export-lo? Seria um negcio sem atrativo para a prpria Salobo, exceto se ela for imediatamente vendida Caraba, que poderia ter prejuzo no processo minerao-concentrao, mas compensaria essa perda na metalurgia. E ainda economizaria grande parte dos US$ 700 milhes reservados do investimento total para a fbrica, j que precisaria j possui. Seria o primeiro retalhamento da CVRD depois da venda. pendendo de uma nica metalrgica de cobre, atada a esquemas logsticos complicados a partir do desmoronamento do artificial clculo de viabilidade da Caraba, feita pelo forma um antecessor de Steinbruch, que o BNDES foi chamado a viabilizar, custa de sangria desatada nos cofres pblicos? Quaisquer que sejam as presses e orientaes das quais Benjamin Steinbruch se tornou o porta-voz, ele escondeu o jogo nos contatos que manteve em Belm e simplificou a situao que envolve o projeto Salobo. Mas o bom e desapaixonado observador pode ter medido, pelos fatos da semana passada, a profundidade das transformaes que j ocorreram e ainda iro acontecer no vcuo da CVRD, exatamente quando a empresa est iniciando, 30 anos depois da descoberta original, um novo ciclo, muito mais importante do que o primeiro, de aproveitamento da provncia mineral de Carajs. A preo de banana e ainda sem conseguir sequer identificar quem realmente est por trs dos intermedirios que fizeram os lances no leilo, o Brasil por seu prncipe presuntivo renunciou ao seu principal instrumento de gerao de riqueza. Se os grupos que deram a Steinbruch o poder que seu controle acionrio no avaliza esto interessados apenas no lucro das aplicaes, o que ir se seguir ser um jogo de barganha avanando sobre os cofres pblicos para reduzir ao mximo o tamanho do capital prprio envolvido. Se a desenvoltura do executivo se ata a novelos ainda mais enrolados, que esto acelerando um acelerado processo de oligopolizao e cartelizao do setor minero-metalrgico da economia brasileira, favorecido pela eliminao da agncia governamental que a Vale sempre foi na prtica, desde a sua criao, com a transferncia do poder decisrio para alm das fronteiras nacionais, ento pode-se temer pelo pior. Um pior tornado inevitvel pela ausncia de de contrapartida nas mos do poder pblico, devolvendo ao pas os ricos de manipulao que estavam minimizados antes da onda neoliberalizante na qual o governo embarcou pior apenas comeou.

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8 BNDES: caixa preta de tamanho giganteMaria Silvia Bastos nem chegou a completar um ano como presidente do Banco nacional de desenvolvimento Econmico e Social. Na semana passada ela entregou o cargo ao presidente Michel Temer, sem comunicar a sua deciso ao seu chefe, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. A sada foi rpida, assim como a sua substituio, pelo at ento presidente do IBGE, Paulo de Castro Rabello. A queda e Maria Silvia, porm, sempre foi tema de especulaes. Mal assumiu, ela iniciou uma profunda reviso das prticas do principal banco de fomento do pas. No fez escndalo nem devassa. Simplesmente foi mudando os procedimentos, tentando salvar da contaminao com a desastrada administrao anterior, mais do ministro Guido Mantega do que do presidente Luciano Coutinho, o corpo tcnico da instituio financeira. Mas tambm comeou a provocar as reaes costumeiras dos velhos clientes das linhas de crdito subsidiado do banco, principalmente os empresrios paulistas. Eles reclamavam das novas exigncias que a presidente imps para conceder financiamentos, com os quais no esto acostumados. Na conversa secreta com Temer, Joesley Batista, da JBS, transmitiu o coro dos descontentes. Dentre eles tambm se acham os petistas, em cuja gesto surgiram os maiores escndalos. Todos esses casos reforaram o consenso de que o BNDES uma das principais se no o principal fontes de enriquecimento de empresrios que se especializaram em pagar propinas para roubar o governo. Na parte do depoimento que concedeu Procuradoria Geral da Repblica, em 7 de abril, Joesley conta como conseguiu 13 bilhes de reais do banco para expandir os seus negcios. Comprou o ministro da Fazenda Guido Mantega. Deu dinheiro para Dilma e Lula, informando-os pessoalmente sobre as contas secretas que chegaram a armazenar 150 milhes de dlares para o partido e aliados. E que se tornou interlocutor semanal do ministro durante certo tempo. Infelizmente, apenas alguns trechos desse depoimento foram divulgados pela imprensa. Para abrir um pouco mais a porta do BNDES, reproduzo-o na ntegra Fiz modificaes para que a linguagem forense se tornasse mais agradvel e inteligvel para o leitor. Afora isso, tudo de responsabilidade (ou irresponsabilidade) do dono da JBS. Espertamente, ele trata de se safar da sujeira dizendo que ela era apenas para poupar a empesa das complicaes burocrticas, no para permitir negcios ilcitos. o santo Joesley. Depois de relatar tantas ilicitudes, ele tenta fazer crer que recebeu a dinheirama de forma legal.Joesley Batista foi apresentado, em meados de 2004, porintermdio do advogado Gonalo S, a Victor Garcia Sandri, conhecido como Vic, empresrio e amigo ntimo de Guido Mantega, ento Ministro do Planejamento. Vic se ofereceu para conseguir para o empresrio facilidades com Mantega, cobrando 50 mil mensais para tanto e armando que o dinheiro seria dividido com o ministro. Quando Guido Mantega se tornou presidente do BNDES, Joesley conseguiu, por intermdio de Vic, no incio de 2005, marcar reunio, no BNDES, com o prprio Guido e toda a diretoria do banco. A nalidade da reunio era apresentar o plano de expanso da JBS, a m de iniciar o processo de convencimento do BNDES a apoiar esse plano. Depois da reunio, a JBS apresentou ao BNDES, em junho e agosto de 2005, duas cartas-consulta que, juntas, pleiteavam nanciamento no valor de 80 milhes de dlares para suportar o plano de expanso daquele ano. Vic solicitou, para si e para Guido Mantega, pagamento de 4% do valor do nanciamento, em troca de facilidades com Mantega, inclusive a marcao de reunies e a aprovao da operao nanceira. Joesley prometeu realizar o pagamento. A operao foi aprovada com grande rapidez. O crdito relativo primeira carta-consulta cou disponvel em agosto de 2005, e o relativo segunda, dias depois da respectiva apresentao; Joesley pagou, ento, a vantagem prometida a Vic por meio de conta de oshore que controlava para conta no exterior indicada por Vic.Mesmo depois de 2006, quando Guido Mantega se tornou ministro da Fazenda, foram fechadas duas operaes entre a JBS e o BNDES com intermediao de Vic. A primeira operao foi realizada em junho de 2007 e consistiu na aquisio, pelo BNDES, de 12,94% do capital social da JBS, por 580 milhes de dlares, para apoio ao plano de expanso daquele ano. A segunda operao foi realizada no primeiro semestre de 2008 e consistiu na aquisio, pelo BNDES, de 12,99% do capital da JBS, por 500 milhes de dlares, em operao conjunta com FUNCEF e PETROS [fundos de penso da Caixa e da Petrobrs], para apoio ao plano de expanso do ano de 2008. Ao longo desse perodo, Joesley per cebeu, em seus contatos diretos com Guido Mantega, que a intermediao de Vic era real. Ele efetivamente conseguiu marcar mais de dez reunies com Mantega. Quando encontrava o empresrio, o ministro estava informado dos assuntos que Joesley indicava a Vic que queria discutir. No nal de 200S, Vic pediu que oempresrio custeasse cesta de Natal no valor de 17 mil reais para Guido Mantega, que, em encontro com Joesley, pouco tempo depois, agradeceu a cesta. Nessas reunies, o dono da JBS indicava a Guido Mantega com clareza suas demandas junto ao BNDES.A PROPINA DO MINISTROMantega ressalvava que Luciano Coutinho, ento presidente do Banco, era pessoa difcil, mas que ouvia as demandas, e ao nal, o BNDES as atendia. Ao chegar o ano de 2009, Joesley entendeu j ter proximidade suciente com

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9 Mantega para prescindir da intermediao de Vic, passando a marcar reunio diretamente com o ministro [aquele que por mais tempo permaneceu frente da pasta da Fazenda em todos os tempos], tendo explicado, na reunio, que, por motivos pessoais, preferia no mais utilizar a intermediao de Vic. Na mesma reunio, ocorreu, ainda, dilogo que Joesley se recorda de ter perguntado a Guido Mantega como deveria acertar o valor da propina, ao que ele teria respondido: ca com voc; cono em voc. Em seguida indagou qual seria o percentual, ressaltando que, quando as tratativas eram realizadas por intermdio de Vic, era combinado um valor certo, ao que Guido Mantega respondeu que deveriam ver caso a caso. Joesley entendeu que deveria discutir valores de propina por cada negcio emque Guido Mantega interviesse em seu favor e que custodiaria, ele prprio, os valores. quela altura, o empresrio entendia que estava pagando propina para o prprio Guido Mantega. Esse formato foi aplicado a duas operaes realizadas no mbito do BNDES. A primeira foi a aquisio, em dezembro de 2009, pelo BNDES, de debntures da JBS, convertidas em aes, no valor de 2 bilhes de dlares, para apoio do plano de expanso do ano de 2009. Nesse negcio, Guido Mantega interveio junto a Luciano Coutinho, inclusive em reunies a que o empresrio estava presente, para que o negcio sasse, sempre contornando as objees do presidente do Banco. No entanto, embora a negociao das operaes tenha sido bastante dura, acabaram sendo realizadas sem que fossem praticadas irregularidades e sem que a instituio nanceira tenha tido prejuzo; Em vrias ocasies, Joesley percebeu, inclusive, a surpresa e o desconforto de Luciano Coutinho com sua presena.O depoente escriturou em favor de Guida Mantega, por conta desse negcio, crdito de 50 milhes de dlares e abriu conta no exterior, em nome de oshore que controlava, na qual depositou o valor. Em reunio com Mantega ocorrida no nal de 2010, este pediu ao empresrio que abrisse uma nova conta, que se destinaria a Dilma. Joesley perguntou se a conta j existente no seria suciente para os depsitos dos valores a serem provisionados, ao que Guido respondeu que esta era de Lula, fato que s ento passou a ser do conhecimento do depoente. Joesley indagou se Lula e Dilma sabiam do esquema, e Guido conrmou que sim. O negcio subsequente foi o nanciamento de 2 bilhes de reais, em maio de 2011, para a construo da planta de celulose da Eldorado [negcio que est sendo investigado pela Polcia Federal ]. Tambm nesse negcio, Guido Mantega interveio junto a Luciano Coutinho para que o negcio sasse. A operao foi realizada aps cumpridas as exigncias legais. Joesley sempre percebeu que os pagamentos de propina no se destinavam a garantir a realizao de operaes ilegais, mas sim de evitar que se criassem diculdades injusticadas para a realizao de operaes legai. Ele depositou, a pedido de Guido Mantega, por conta desse negcio, crdito de 30 milhes de dlares em nova conta no exterior. Nesse momento, j sabia que esse valor se destinava a Dilma. Os saldos das contas vinculadas a Lula e Dilma eram formados pelos ajustes sucessivos de propina do esquema BNDES e do esquema-gmeo, que funcionava no mbito dos fundos PETROS e FUNCEF. Esses saldos somavam, em 2014, cerca de 150 milhes de dlares.A partir de julho de 2014, Mantega passou a chamar o depoente quase semanalmente ao Ministrio da Fazenda, em Braslia, ou na sede do Banco do Brasil em So Paulo, para reunies a que s estavam presentes os dois, nas quais lhe apresentou mltiplas listas de polticos e partidos polticos que deveriam receber doaes de campanha a partir dos saldos das contas. A primeira lista foi apresentada em 04.07.2014 por Guido, no gabinete do Ministro da Fazenda no 15 andar da sede do Banco do Brasil em So Paulo, e se destinava a pagamentos para polticos do PMDB. A interlocuo com polticos e partidos polticos para organizar a distribuio de dinheiro coube a Ricardo Saud, Diretor de Relaes Institucionais da J&F, exceo feita a duas ocasies. Em uma delas, ocorrida em outubro de 2014 no Instituto Lula, Joesley encontrou-se com Lula e relatou a ele que as doaes ociais da IBS j tinham ultrapassado 300 milhes de reais e indagou se ele percebia o risco de exposio que isso atraa, com base na premissa implcita de que no havia plataforma ideolgica que explicasse tamanho montante. O ex-presidente olhou nos olhos do depoente, mas nada disse, Na outra, ocorrida tambm em novembro de 2014, depois de receber solicitaes insistentes para o pagamento de 30 milhes de reais para Fernando Pimentel, governador eleito de Minas Gerais, veiculadas por Edinho Silva, e de receber de Guido Mantega a infor mao de que isso com ela, solicitou audincia com Dilma. Recebido no Palcio do Planalto, Joesley relatou a Dilma que o governador eleito de MG, Fernando Pimentel, estava solicitando, por intermdio de Edinho Silva, 30 milhes de reais, mas que, atendida essa solicitao, o saldo das duas contas se esgotaria. Dilma conrmou a necessidade e pediu que o depoente procurasse Pimentel. No mesmo dia, Joesley encontrou Pimentel no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, disse que havia conversado com Dilma e que ela havia indicado que os 30 milhes deveriam ser pagos. Pimentel orientou o empresrio a fazer o pagamento por meio da compra de participao de 3% na empresa que detm a concesso do Estdio Mineiro. Fora essas duas ocasies, Edinho Silva, ento tesoureiro da campanha do PT, encontrava-se, no perodo da campanha de 2014, semanalmente com Ricardo Saud e apresentava as demandas de distribuio de dinheiro. Ricardo Saud submetia essas demandas ao chefe, que, depois de veric-las com Guido Mantega, autorizava o que efetivamente estivesse ajustado com o ento ministro da Fazenda. Ricardo Saud ento procurava Edinho e lhe dava o aceno positivo. Saud era, logo depois, procurado por Manoel, ento chefe de gabinete de Edinho, que lhe apresentava escritos com os pedidos. O ajuste mais amplo consistia

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10 em direcionar grande parte do dinheiro para a campanha de Dilma Rousse, tanto para o PT nacional quanto para os diretrios estaduais do PT. Joesley deveria custear a compra dos partidos da coligao, conforme o PT fosse fechando os negcios e orientando o depoente e Ricardo Saud. Esse ajuste mais amplo abrangeu no s o esquema do BNDES aqui descrito, como tambm outro esquema de for mato semelhante interveno para a liberao de nanciamentos em troca de propinas, calculadas como porcentagens das liberaes em que o depoente teve participao, e que envolveu Guida Mantega e os presidentes dos fundos fechados de previdncia complementar PETROS e FUNCEF. Guido Mantega determinava, para os dois esquemas, em interlocuo com Joesley, a destinao das propinas, embora o esquema dos fundos envolvesse tambm parte das propinas para os respectivos presidentes. No ano de 2012, Mantega solicitou ao empresrio um emprstimo, conversvel em participao societria, na empresa Pedala Equipamentos Esportivos Ltda. Joesley aceitou conceder o emprstimo, no valor de cinco milhes de dlares, depositado por meio de sua empresa Antgua InvestmentsLLC.. QUE o empreendimento da Pedala no resultou frutfero, mas o empresrio perdoou a dvida e a empresa encerrou suas atividades. Em outra oportunidade, Mantega solicitou um investimento de 20 milhes de dlares, debitado da contacorrente do PT, em uma conta no exterior. Joesley consentiu e determinou fosse realizada a transferncia. Aps um ano, o investimento foi devolvido para a conta-corrente do PT, em igual valor, no sabendo este qual o destino ou a nalidade do investimento. A cocana financeiraEm dezembro de 2016, os bancos brasileiros emprestaram 1,5 trilho de reais cobrando juro mdio de 52,0% ao ano. Nessa mesma data, os bancos estatais (principalmente Banco do Brasil, BNDES e Caixa) emprestaram o mesmo volume de dinheiro, ou R$ 1,5 trilho, com juro mdio de 10,7% ao ano. A bruta diferena foi paga pelo contribuinte para que clientes privilegiados recebessem esse formidvel subsdio, talvez sem paralelo no mundo capitalista. Os sucessivos escndalos produzidos em escalada crescente pela Operao Lava-Jato zeram a populao brasileira calcular melhor o tamanho desse rombo, identicar os processos para a seleo dos beneciados por esse subsdio e conhecer todos os viles dessa histria imoral. Polticos e burocratas s puderam valorizar a venda dos seus servios pela existncia dessa poltica de crdito. Empresrios inescrupulosos s tiveram acesso ao tesouro porque, tendo dinheiro para comear o jogo, realimentaram seus caixas em evoluo exponencial porque avanavam sobre o patrimnio pblico. Em nmeros mais detalhados, o crdito no mercado livre somou R$ 1 trilho 557 bilhes. O crdito subsidiado, R$ 1 trilho 550 bilhes. Menor, portanto, apenas R$ 7 bilhes. Num clculo simples, quem recebeu dinheiro dos bancos estatais pagou pouco mais de R$ 150 bilhes de juro. Se fosse para o mercado livre, teria que desembolsar R$ 600 bilhes. Os amigos do rei lucraram, portanto, R$ 450 bilhes. Assim, onerando o povo, que precisa trabalhar para se manter, os nababos da repblica das Odebrecht, JBS, Andrade Gutierrez, Camargo Correa et caterva, podiam pagar seus 300, 400, 500 milhes de reais em propinas ao setor pblico. ala corrupta e venal do setor pblico. Concluso bvia: preciso acabar com essa poltica de juro especial. Quem defende essa medida, autenticamente de salva-ptria? Um varo da repblicaRodrigo Janot, procurador geral da repblica desceu das suas tamancas para escrever um artigo para o portal UOL, com um texto melodramtico que demarcou o aprofundamento da sua participao na vida poltica do pas. Parecia escrito no pelo scal da lei e dono da ao penal pblica, mas por um jornalista. Mais do que isso: por um tribuno. Ou por um poltico. O chefe do Ministrio Pblico Federal tentava provar que no se excedera. Pelo contrrio: devia ser louvado pela atitude que tomou, em defesa do Brasil. Janot talvez se julgue com direito a ser includo entre os vares da repblica (no caso, a brasileira, no a romana), selecionados por Plutarco. Ele se indigna que o foco do debate sobre as revelaes estupefacientes dos donos do grupo JBS tenha sido surpreendentemente deturpado. O importante seria concluir dos fatos o estado de putrefao de nosso sistema de representao poltica. No entanto, a sociedade foi conduzida para ponto secundrio do problema os benefcios concedidos aos colaboradores. Com a espada de fogo do anjo Gabriel, que expulsou Ado e Eva do paraso, o procurador-chefe aponta para o senador Acio Neves (cujo nome em nenhum momento escreve), que se apresentava como a principal alternativa presidencial de 2014, criticando a cor rupo dos adversrios enquanto recebia propina do esquema que aparentava combater e ainda tramava na sorrelfa para inviabilizar as investigaes. J o presidente da repblica tem que ser investigado por receber, s onze horas da noite, fora da agenda ocial, em sua residncia, pessoa investigada por vrios crimes, para com ela travar dilogo nada republicano. Impondo-se a heroica misso de responder a todas as perguntas que se fez sobre as provas de corrupo geral na repblica, na solido do meu cargo, o procurador no atenta para a circunstncia de que dialogou com o mesmo empresrio investigado, autorizou os agrantes montados que ele produziu, negociou delao premiada sem paralelo na histria desse instituto e, com a par ceria do ministro Edson Fachin, atendeu todos os desejos do criminoso confesso. At o direito de ir embora do pas levando consigo o gravador no qual fez os registros clandestinos, nos quais s ele mesmo sabia que a conversa estava sendo gravada, podendo dar-lhe o comando das aes. No mpeto de mostrar a corrupo da repblica e, no isolamento da sua certeza, com a prerrogativa que se conferiu, ultrapassar os limites da prudncia, do bom senso, da tica, da moral e do direito, para agir como um heri, Janot deixou de se acautelar para o risco de estar ajudando a produzir provas ilcitas. Como heri de si mesmo, Janot no tem dvida que as provas entregues pe-

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11 Campo em chamasEste artigo publicado no Jornal Pessoal 310, de outubro de 2003, mostra que acontecimentos como o comparasse ao massacre de Pau dArco, so repeties quase idnticas de uma causa que no muda. A Amaznia parece condenada a se esvair em sangue na insolvel questo fundiriaUm dos exerccios intelectuais a que frequentemente me dedico imaginar como teria evoludo a Rssia czarista se os nobres tivessem dado crdito de conana ao Conde Stolypin. Convencido de que a razo da letargia de seu poderoso pas estava aamarrada ao imobilismo no campo, o conde quis fazer uma reforma agrria para valer, capaz de modernizar a agricultura russa. Mas foi sabotado pelos seus pares. Eles certamente perderiam os anis com Stolypin, mas perderam muito mais com os bolcheviques (sinceramente preocupados com os camponeses, verdade, mas incapazes de entend-los no seu projeto autoritrio de reforma agrria, que resultaria na destruio dos mujiques e no malogro das fazendas coletivas). O conde russo me veio memria enquanto lia as estatsticas divulgadas pela Comisso Pastoral da Terra duas semanas atrs. H quem questione o rigor dos nmeros e dos conceitos usados pela CPT, sempre sujeitos a inconsistncia metodolgica. Mas no me darei a esse trabalho: vou aceit -los como esto. O que eles sugerem? Indicam que pap Lula recebe de braos abertos os sem-terra, enverga-lhes o bon, promete-lhes cumprir a reforma agrria includa como item de programa eleitoral, mas o governo do PT limita-se, no bsico, a no reprimir essa energia liberada. Isto no pouco se lembrarmos da ferocidade de outros governos, agrantemente parciais a favor dos proprietrios rurais. Mas isso tambm brincar com o fogo dos outros, naturalmente. No muito propensos a metforas, os donos da terra inter pretam a simpatia presidencial como cumplicidade maliciosa. Tratam, ento, de colocar os cachor ros na rua, a maioria deles portando pistolas ou espingardas. A ampliao do confronto e seu crescente saldo de sangue so previsveis. J esto ocorrendo. Segundo a CPT, at setembro, as ocupaes cresceram quase 75% e o nmero de acampamentos quase triplicou. Em compensao, houve 84% mais despejos, 41% mais prises e 100% mais assassinatos, sendo o Par o campeo, com quase dois teros dos casos registrados, 80% a mais do que em 2002. Vai voltar a lei da selva, com o mocinho homiziado em Braslia, ou sabese l onde? los irmos Joesley& Wesley valeram a pena. Superaram em muito as imunidades que lhes conferiu. Alm do mais, dentre os ganhos para o pas, o procurador geral aponta a multa de 11 bilhes de reais imposta J&F, holding do grupo, que at agora se mostra disposta a pagar apenas 15% desse valor. Desde ento, a reviso a que a delao tem sido submetida lana dvidas sobre a legalidade do processo e a sua honorabilidade. To diferente ela foi em relao a todos os acordos realizados no mbito da Operao Lava-Jato que seus autores prosseguem fora do Brasil e com todos os seus direitos.O dono da palavraOs guardies das instituies esto destruindo, como nunca antes, as instituies brasileiras. Nesse processo no h inocentes nem ingnuos. O que h muita violao das regras legais e das normas ticas e morais. O interesse superior do povo, o destinatrio das aes institucionais, no conta nessas tramoias. Como e quando elas comearam? Quem lhes deu partida? De que maneira elas conduziram o pas crise das crises sucessivas que tem vivido desde o comeo da Operao Lava-Jato, trs anos atrs? Quem colocou o bode na sala foi Joesley Batista. Ele queria fazer delao premiada. Mas no queria ser preso. Nem devolver o que roubou. Nem sofrer qualquer prejuzo. Como conseguiria essa faanha se o principal dos delatores at ento estava na cadeira, Marcelo, o terceiro dos Odebrecht frente daquela que, sob o PT, Lula em particular, se tornou a maior empreiteira do pas? Como no ter prejuzo se a construtora aceitou pagar 7 bilhes de reais em 23 anos, no maior acordo de lenincia da histria mundial, colocando no chinelo empresas dos Estados Unidos, do Japo, da Inglaterra ou da Frana? Para conseguir a delao realmente premiada, Joesley no foi a Curitiba, base da fora-tarefa da lava-Jato, nem a So Paulo, sede da sua empresa. Foi ao gabinete do chefe do Ministrio Pblico Federal em Braslia. Rodrigo Janot endossou o plano que lhe foi apresentado pelo empresrio. As provas que iria produzir, sob as bnos do Procurador Geral da Repblica, abalariam os alicerces da repblica com mais intensidade do que os documentos de que ele j dispunha. Em maro, dois meses depois de comear as tratativas para a delao, o dono do grupo JBS comeou a produzir provas contra os seus alvos, com o acompanhamento do ministro Edson Fachin e do procurador Rodrigo Janot. Completou o trabalho com a aliana da Polcia Federal, atravs da ao controlada, que agrou a entrega de dinheiro de propina, induzida pelo prprio empresrio. Produzido o material, ele cou livre para viajar para os Estados Unidos, deixando atrs de si o maior questionamento j feito na era da Lava-Jato. Tudo porque a delao da gangue da JBS diferiu totalmente de todas as anteriores, margem de tudo, inclusive da lei. Por que esse absurdo se tornou possvel? a questo que cabe ao povo cobrar, j.

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12 Ao morrer, aos 87 anos, em 1952, o coronel Luiz Dias da Silva tinha trs lhos, 24 netos e 26 bisnetos. Alm de ter sido vereador de Belm, era um dos destacados vultos do comrcio paraense. Era o nico dos dirigentes da Associao Comercial do Par fundadores da Escola de Comrcio ainda vivo.Haroldo Maranho, um dos maiores escritores paraenses, autor de uma extensa obra, em 1957 era funcionrio da Caixa Econmica. Era tambm scio do lsofo Benedito Nunes num escritrio de advocacia. Por isso, publicou anncio no jornal do av, a Folha do norte. Era para alugar uma casa recentemente reformada. Trav. Vileta n 1.126, prximo Ac. Tito Franco, que a atual Almirante Bar roso. Sem constrangimento, colocava-se disposio dos interessados na Caixa, entre 8 e 11 horas. Haroldo era um ativssimo corretor de imveis.TEATRONo final de 1957, a direo do Grande hotel avisava: depois da festa do Acordeon Clube, a entrada para o Palace Theatre, que era feita por dentro do hotel, passaria a ser pela rua Silva Santos, ao lado do Cinema Olmpia. Teatro e hotel desapareceram. No lugar surgiu o Hilton e est agora o Princesa Lou.MESTRINHOEm maro de 1963, o apartamento do banqueiro e corretor de aes Alberto Bendahan era sucientemente espaoso para acolher 300 pessoas, que foram convidadas e compareceram para um coquetel em homenagem a Gilberto Mestrinho. Foi o aair so cial de maior gabarito destes ltimos tempos, segundo Regina Pesce, colunista social da Folha do Norte O encontro foi para homenagear o poltico amazonense, que tambm atuava intensamente no Par, sendo presidente do Banco Comercial do Par. Os principais personagens da poltica, governo e negcios respondeu presente. Um ano depois Mestrinho foi cassado pelos militares.Em 1964 os Estados Unidos tinham uma for te presena em Belm. Por isso, o USIS, seu servio de divulgao e relaes culturais, fez uma prvia entre os paraenses sobre a eleio de 3 de novembro, na qual disputariam a presidncia da repblica Lyndon Johnson (que estava no cargo, depois do assassinato de John Kennedy, do qual era vice) e o senador Barry Goldwater. Nas trs representaes americanas, todas situadas na avenida Nazar (o consulado, o USIS e o Centro Cultural Brasil-Estados Unidos), era possvel obter formulrios e coloc-los em urnas, preenchendo os campos com as indicaes dos Estados americanos em que os candidatos PROPAGANDADe Belm para o NordesteTrs vezes por semana o passageiro podia ir de Belm para So Luiz, Fortaleza e Recife (e a natal, uma vez por semana) pelo Super-Convair da Real, que tinha seu escritrio em Belm em consrcio com a Aeronorte.Talvez hoje no se tenha essa frequncia.

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13 seriam vencedores. Quem acertasse integralmente receberia uma coleo de livros. Fui um dos que apresentaram seu voto e acompanhei a transmisso da eleio at alta noite, na sede do USIS, quando o resultado foi anunciado. Acertei o vencedor, mas no a totalidade dos Estados em que ganhou. Mesmo assim, por liberalidade dos promotores, recebi uma coleo de livros, dentre os quais havia alguns muito bons. Os americanos ainda cultivavam a boa vizinhana, ao menos com muita ao cultural.Em setembro de 1968, 11 dos 14 projetos aprovados pela Sudam eram agropecurios, indicando a tendncia de apoiar a implantao de fazendas com recursos dos incentivos scais. Quatro meses antes fora criada, em So Paulo, a Associao dos Empresrios Agropecurios da Amaznia. Era a aplicao da terrvel losoa da ocupao da Amaznia pela pata do boi, que levou ao maior desmatamento da histria da humanidade.MARAJOARASeu necrolgio ressaltava: aos 86 anos, o coronel Lusignan de Figueiredo Dias mor reu, em 1968, dedicado exclusivamente prosso para a qual nascera: fazendeiro. Nasceu em Chaves, na ilha do Maraj, e se orgulhava de ser, ao mesmo tempo, fazendeiro e vaqueiro. Montou seus cavalos e rodeou seus gados at aos 80 anos, atestou a Folha do Norte Mas teve uma carreira diversificada: marchante em Camet, seringalista no Anajs, chefe poltico em Camet e Chaves, scio da firma Dias & Cia. Ltda., em Belm, que negociava com castanha, vereador na capital. Quando morreu, era vivo de Lcia Dias, pai de Altair Morelli (casada com Armando Morelli), Cludio Dias (Arlete Dias), Maria Amlia Dias da Costa (viva de Orlando Costa) e Raimundo Dias (Neusa Dias). Seus netos: Paulo Dias Morelli (Solange Morelli), Fernando Dias da Costa (Rosalba Costa), Vera Lcia Morelli Acatauassu (Ronaldo Acatauassu), Analcia da Costa Franco (Srgio Franco), Lcia, Selma, Lusignan, La, Cludio e Nelson (solteiros).AVENIDAO ltimo trecho da avenida Pedro lvares Cabral a receber asfalto foi aterrado por 65 metros cbicos de areia dragados em 1971 da doca da Marechal Hermes, conhecida por bacia, no porto de Belm. A dragagem aprofundou o leito da baa em dois metros e meio de profundidade. Ao ser depositado no trecho inundvel da avenida, entre o igarap das Almas e a rua Soares Carneiro, o material elevou em quase um metro o nvel da via, que, em seguida, foi asfaltada. A paisagem mudou completamente. FOTOGRAFIACentral HotelDurante vrios anos o Central Hotel foi o segundo mais importante hotel de Belm, abaixo apenas do Grande Hotel. Esta foto, dos anos 1950, mostra o seu restaurante, usado para uma confraternizao. O mezanino, no qual se apresentava um conjunto musical, no aparece. Mas se pode observar o cho, em acapu e pau amarelo. Tudo desapareceu quando a C&A, que comprou o prdio, modificou completamente o seu interior para transform-lo numa loja de departamento. O prdio foi salvo por um movimento em defesa do Central organizado por um grupo de intelectuais.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: As conversas de jornalistas: prova de qualquer gravaoAndrea, irm do senador Acio Neves, afastado do cargo pelo ministro Edson Fachin, do STF, e sua principal auxiliar, encontra-se presa numa penitenciria em Minas Gerais. A Polcia Federal a grampeava, com autorizao judicial, para produzir provas de corrupo do ex-presidente do PSDB. Uma das conversas gravadas foi a que ela teve com o jor nalista Reinaldo Azevedo. A conversa mais do que o contato de um jornalista com sua fonte. H certa conivncia de Reinaldo com Andrea e crticas revista Veja, que abrigava o seu concorrido blog, virulento contra o PT, agora amparado pela Rede TV. Reinaldo rompeu o contrato que tinha com a revista (e a rdio Jovem Pan), que concordou em encerrar a relao profissional. Foi reao imediata divulgao do contedo da conversa (veja abaixo). Tem razo o jornalista quando diz que Andrea e no ele era quem estava sendo monitorada. Sustenta que a divulgao obra do procurador geral da repblica, Rodrigo Janot. O vazamento sustenta o jornalista seria um escndalo em qualquer pas do mundo porque viola o sigilo da fonte, o que verdade. No Brasil, o Estado autoritrio no o respeita e as autoridades fazem o que querem do seu poder. O ato de vazamento tem que ser apurado e identificado o autor da divulgao, conforme solicitou o jornalista. Trata-se realmente de um crime. Mas a conversa entre Reinaldo e Andrea um ato de interesse pblico e depe contra o jornalista. Um bom profissional da imprensa deve conversar em off da mesma maneira como se manifesta publicamente. Seguindo essa regra, nada pode incrimin-lo, mesmo que seja manobra ilegal. Episdio semelhante aconteceu, em 2012, com Ricardo Boechat. Foi gravada uma conversa ntima demais e contrria tica jornalstica que ele teve com Paulo Marinho, assessor do empresrio Nelson Tanure, que cresceu favorecido pelo governo Collor. Com a divulgao da fita, Boechat foi demitido de O Globo e da TV Globo. A situao no rara no jornalismo, infelizmente. Andrea NevesAgora, que est acontecendo na Veja, o que o pessoal fez Reinaldo AzevedoAh, eu vi. nojento, nojento. Eu vi. Andrea NevesAssinaram todos os jornalistas e vo pegar a loucura desse cara para esquentar a maluquice contra mim. Reinaldo AzevedoTanto que logo no primeiro pargrafo, a Veja publicou no comeo de abril que no sei o que, na conta de Andrea Neves. Como se o depoimento do cara endossasse isso. E ele no fala isso. Andrea NevesComo se agora tivesse uma coleo de contas l fora e a minha uma delas. Reinaldo AzevedoEu vou ter de entrar nessa histria porque j haviam me enchido o saco. Vou entrar evidentemente com o meu texto e no com o deles. Pergunto: essas questes que voc levantou para mim, posso colocar como se fosse resposta do Acio? Andrea NevesNs mandamos agora para a Veja uma nota para botar nessa matria. Reinaldo AzevedoNo quer mandar para mim tambm? Andrea NevesMando. POR REINALDO Andrea Neves, Acio Neves e perto de uma centena de outros polticos so minhas fontes. Trechos de duas conversas que mantive com Andrea, que estava grampeada, foram tornadas pblicas. Numa delas, fao uma crtica a uma reportagem da VEJA e armo que Rodrigo Janot pr-candidato ao governo de Minas e que estava apurando essa informao. Em outro, falamos dos poetas Cludio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Fiz o que deveria fazer: pedi demisso na verdade, mantenho um contrato com a VEJA e pedi o rompimento, com o que concordou a direo da revista. Abaixo, segue a resposta que enviei ao BuzzFeed, que vai fazer ou j fez uma reportagem a respeito. Volto para encerrar. Mesmo! Comecemos pelas consequncias. Pedi demisso da VEJA. Na verdade, temos um contrato, que est sendo rompido a meu pedido. E a direo da revista concordou. 1: no sou investigado; 2: a transcrio da conversa privada, entre jornalista e sua fonte, no guarda relao com o objeto da investigao; 3: tornar pblico esse tipo de conversa s uma maneira de intimidar jornalistas; 4: como Andrea e Acio so minhas fontes, achei, num primeiro momento, que pudessem fazer isso; depois, pensei que seria de tal sorte absurdo que no aconteceria; 5: mas me ocorreu em seguida: se estimulam que se grave ilegalmente o presidente, por que no fariam isso com um jornalista que crtico ao trabalho da patota? 6: em qualquer democracia do

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15 mundo, a divulgao da conversa de um jornalista com sua fonte seria considerada um escndalo. Por aqui, no; 7: tratem, senhores jornalistas, de s falar bem da Lava Jato, de incensar seus comandantes; 8: Andrea estava grampeada, eu no. A divulgao dessa conversa me tem como foco, no a ela; 9: Bem, o blog est fora da VEJA. Se conseguir hosped-lo em algum outro lugar, vocs caro sabendo; 10: O que se tem a caracteriza um estado policial. Uma garantia constitucional de um indivduo est sendo agredida por algo que nada tem a ver com a investigao; 11: e tambm h uma agresso a uma das garantias que tem a prosso. A menos que um crime esteja sendo cometido, o sigilo da conversa de um jornalista com sua fonte um dos pilares do jornalismo. Encerro. No prximo 24 de junho, meu blog completa 12 anos. Todo esse tempo, na VEJA. Foram muitos os enfrentamentos e me orgulho de todos eles. E tambm sou grato revista por esses anos. Nesse tempo, sob a direo de Eurpedes Alcntara ou de Andr Petry, sempre escrevi o que quis. Nunca houve interferncia. O saldo extremamente positivo. A luta continua.A Globo conspirou?s 18h30 do dia 17, o site do jornal O Globo do Rio de Janeiro, divulgou o maior furo da imprensa brasileira em muitos anos: o contedo de uma gravao secreta que o empresrio Joesley Batista fez de uma conversa condencial com o presidente Michel Temer, um ms antes, na residncia ocial da vice-presidncia da repblica, em Braslia. A repblica foi abalada e entrou num transe do qual at hoje no conseguiu sair. A exclusividade fora conseguida pelo colunista Lauro Jardim, completada pela redao do jornal da famlia Marinho. Segundo o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, s ento a emissora foi informada e s s 19h20 recebeu o texto da reportagem, que divulgou porque os colegas garantiram estar seguros, sem chance de erro. Signica que a fonte dos dados era segura, inteiramente convel. Deduziu-se que a proximidade que tinha com Jardim tornava o procurador geral da repblica, Rodrigo Janot, o primeiro a receber o material das mos do dono do grupo JBS, suspeito de ter promovido o vazamento. Sem eliminar essa hiptese, outra se tornou mais factvel: o responsvel pelo vazamento era o prprio empresrio, que planejara tudo, assumindo o comando das aes. Conseguira a homologao da sua delao premiada, mais a do irmo, Wesley, e cinco executivos da empresa, a imunidade penal, que livraria a todos de qualquer punio, e a autorizao para viajar para os Estados Unidos, onde ainda se encontra, levando at mesmo o gravador, pea chave para a percia do pen-drive que entregou a Janot.O vazamento permitiria aos Batista ganhar na bolsa com a alta imediata do dlar e se acautelar contra a queda do valor das aes da empresa, que venderam antes em volume suciente para cobrir o prejuzo. Na negociao da incondncia, havia uma moeda de troca: a exclusividade deu s Organizaes Roberto Marinho o poder de inuncia sobre a sociedade. Como s os reprteres do jornal carioca tinham acesso ao teor das gravaes, com o atestado de garantia do prprio autor, Joesley Batista, a repercusso do fato dependia da transcrio de O Globo e da interpretao que fez das conversas e demais provas. O jornal foi alm: no editorial da edio do dia seguinte, pediu logo a renncia do presidente. A partir dessa iniciativa, que tambm foi nica, se exps a vrias interpretaes e teorias conspiratrias. Os Marinhos decidiram aproveitar a exclusividade para intervir na poltica nacional. Sem conar na capacidade de Temer de promover as refor mas que ele mesmo props ao Congresso, a partir do projeto formulado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, os donos de O Globo queriam troc-lo por um nome novo, que podia ser do prprio Meirelles ou at da presidente do STF, Crmen Lcia. Deixando em estado de choque a sociedade, O Globo seria o personagem principal desse enredo. Mas para isso a mudana teria que ser imediata, antes que as ideias alheias se reorganizassem para reagir. Esse tempo resultou tambm do comportamento do ministro Edson Fachin, relator no STF da Operao Lava-Jato. Ele determinou o afastamento do senador Acio Neves, do PSDB de Minas, e do deputado federal Rodrigo Rocha Loures, do PMDB do Paran, do exerccio dos seus cargos.Mandou prender pessoas supostamente do esquema de corrupo do ex-governador mineiro, e a apreenso de documentos. Faltou, porm, uma medida complementar e essencial a essas decises: a retirada do sigilo em torno da delao premiada dos dirigentes do grupo JBS e, de forma indita e inusitada, do advogado que, em nome deles, negociava as suas delaes premiadas na justia. Foi uma tratativa clere e feita com o maior dos sigilos at agora no mbito da Lava-Jato. A quebra do sigilo s veio num segundo momento, quando j era insustentvel. Kamelescreveu um artigo na Folha de S. Paulo para negar as acusaes contra a empresa. Mas um observador mais atento deve ter percebido a orientao da cobertura da Globo para crticas abertas e extremadas a Temer, contrastando com a cobertura mais discreta mantida at ento. Mas se a empresa tentou alguma coisa, no conseguiu o resultado desejado.

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Anal, uma grande escritora: PalomaA escritora, cronista e professora paraense Paloma Franca Amorim lanou, em So Paulo, seu primeiro livro. Eu preferia ter perdido um olho, publicado pela editora paulista Alameda, rene as crnicas que escreve semanalmente em O Liberal. Por coincidncia, ela tem a mesma idade deste jornal, nascida que foi em Belm, em 1987. Por isso, foi com dupla honra que aceitei o seu convite para escrever o prefcio do livro.Clarice Lispector teve que arrombar a porta do gosto estabelecido no Brasil da segunda metade do sculo passado para fazer parte da literatura nacional. Seu estilo intimista e sua escrita apurada a obrigaram a uma batalha pela publicao e aceitao do seu primeiro livro. Com o passar dos anos e da obra, porm, e de forma sur preendente, ela se tornou um sucesso. Mesmo que sob um andamento mais lento do que o dos fugazes best-sellers, novas edies dos seus livros surgem quase todos os anos. Encontrando sempre um pblico receptivo, devoto, el. Este um dos paradoxos de Clarice. Mas ela farta na matria. Tudo que escreveu agrantemente autobiogrco. Mas pouco provvel que algum consiga em sua obra infor maes sucientes para um bom relato da sua vida. Ela escassa na revelao de dados objetivos sobre si. No entanto, grande parte dos leitores a adota por ver no espelho da alma da autora um reexo de si. A biograa vira matria de co na literatura de Clarice, abstrao e profundidade, aldeia e universalidade como em toda grande literatura. A de Paloma Franca faz parte dessa tradio. Escrevendo sobre ela mesma nas crnicas/contos deste livro, ela fala sobre o mundo e transforma suas obser vaes e personagens em arqutipos e tipos ideais das cincias humanas e sociais, a verso acadmica e cientca do universo da co (e menos precisa do que ela, apesar da pretenso de objetividade e verdade). Um exemplo ajuda a esclarecer essa viso. Vibrei quando li a crnica de Paloma sobre a sesso da Cmara Federal que recebeu o processo do impeachment da presidente Dilma Rousse. Era a mais criativa das abordagens do episdio. Paloma organizou uma antologia das declaraes de voto dos parlamentares que retratava com exatido a algaravia e barafunda daquela sesso. Para mim, jornalista, faltava a identicao dos autores daquelas frases. Para o leitor dos grandes autores, no faltava nada. No falta nada aos textos deste livro. obra da melhor literatura. Serenamente espicaadora, provocadora e reveladora. Abro alas ao leitor para que usufrua desse prazer e privilgio, como eu, sem mais delongas. Em frente, pois. Paloma a aldeia universal de cada um de ns.Jornalismo de resultadosEm novembro de 2014, o jornalista Cludio Humberto publicou uma nota no seu site (e coluna, reproduzida em vrios jornais) que se revelaria proftica. Disse que Joesley [Batista] fez de Ricardo Saud o homem da mala. Seu amigo, senador Renan Calheiros, mente a fonte da informao. Nas delaes premiadas, o diretor de relaes institucionais do grupo J&F que controla a empresa JBS foi o principal agente de negociao e pagamento de propinas pela empresa a polticos e burocratas do governo, sempre carregando grandes quantidades de dinheiro em malas. Saud disse, no depoimento que blico Federal, que procurou Renan logo depois de ler a notcia e foi aconselhado pelo senador alagoano (integrante do grupo mais prximo de Collor, como o jornalista) a negociar: Ele fez isso para chamar vocs l para um acerto. Vai l e d um dinheirinho para ele que resolve. Ele vive disso. Cludio Humberto montou a coluna a partir da notoriedade que teve como assessor de imprensa e porta-voz de Fernando Collor na presidncia da Repblica, entre 1990 e 1992). Com acesso a uma rede de jornais em todo pas (incluindo O Liberal, em Belm), ele teria cobrado, inicialmente, 30 mil reais mensais pela no veiculao das notcias. Aps negociao com 18 mil por ms. Saud disse que h dois anos o jor nalista pago para parar de falar mal da J&F, proprietria da JBS. Se no pagar no dia, ele vai l e fala mal. Se faz isso comigo, deve estar fazendo com muita gente, disse o representan te do grupo. Cludio Humberto reagiu dizendo que Ricardo Saud mentiu na delao para se vingar, porque foi o primeiro a revelar suas atividades criminosas, tentando arrast-lo para o seu lama que teria sido vtima de chantagem. No entanto, no apresentou provas adotar contra o lobista as medidas judiciais cabveis. Mas no negou que recebia dinhei ro da JBS. Segundo ele, os R$18 mil foram referentes a contrato de veicu lao publicitria, assinado em 5 de fevereiro de 2015, pelo prazo de um ano.As abordagens da empresa para anunciar no portal comearam em setembro de 2013, mais de um ano antes da publicao das notcias denuncian do as atividades criminosas do lobista Ricardo Saud. Um princpio tico elementar, porm, seria o de no aceitar qualquer forma de pagamento de uma empresa que criticara. Embora Humberto diga que a aproximao da JBS tenha comeado em setembro de 2013, o contrato foi assinado dois meses depois da nota sobre a mala recheada de dinheiro que Saud mandava entregar s pessoas que corrompia. a prova cabal do crime de certo jornalismo de chantagem, que se desnuda quando cala depois de uma dar nota sobre fato to grave. A falta de continuidade a prova dos nove.