Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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o a CORRUPOE agora, Lula?O depoimento de Lula ao juiz Srgio Moro no foi a hecatombe anunciada. O juiz pde perguntar o que quis e o ru responder livremente, ou se calar, assistido por quatro advogados. Os confrontos temidos no se concretizaram. A justia prossegue. A histria se realiza. O juiz Srgio Moro procurou se manter frio, calmo e tcnico. O ex-presidente Lula no conseguiu conter seu nervosismo, tenso e irritao. Essa agitada condio no lhe permitiu reprimir um palavro (quei puto) durante o seu depoimento de cinco horas, justia federal, no dia 10, em Curitiba, no Paran. A ironia, os blagues, a busca por metforas fceis, a coloquialidade e o sarcasmo, que Lula usou algumas vezes, foram cedendo a uma tenso que consumiu a tranquilidade com que ele iniciou o seu depoimento como ru no processo da Lava-Jato, que apura se ele recebeu propina da construtora OAS na forma de um apartamento trplex na praia do Guaruj, em So Paulo, alm do pagamento do depsito de itens do acervo formado ao longo de oito anos de Lula como presidente da repblica. Ele se viu numa situao indita. Foi obrigado a enfrentar cinco horas de questionamento, sem a prerrogativa de encerrar o dilogo quando

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2 se sentisse desconfortvel ou contestado, no mais na condio de dono das iniciativas. No curso do interrogatrio duro e sistemtico, foi perdendo o domnio de cena, exaurindo os seus conhecidos recursos de oratria e raciocnio, deixando-se acuar. A tal ponto que se contradisse vrias vezes. Numa delas, ao admitir que sua esposa lhe comunicara sobre uma segunda visita que fez, s com o lho, e no mais com o marido, como foi na primeira incurso ao local. Antes, Lula dissera que no sabia dessa segunda visita porque no conversara com Marisa Letcia, falecida neste ano, nem nunca mais voltara ao assunto. O lho que lhe falara sobre a visita. Caiu em contradio ao armar e rearmar que j nessa primeira visita deixara claro ao seu amigo Lo Pinheiro, dono da OAS, encarnando o papel de mero corretor de imveis, que o apar tamento no lhe interessava, que tinha defeitos e que o descartava. Tambm por outro motivo acessrio: sua esposa no gostava de praia. E ele prprio no teria a oportunidade de sair pela orla porque multides o impediriam, exceto, talvez, na quarta-feira de cinzas. Entretanto, Marisa Letcia decidiu, por iniciativa prpria, voltar ao trplex, mesmo ciente de que o marido detestara o imvel, indiferente sua prpria rejeio pela praia, ressaltada por Lula no depoimento, para ver se se convencia a car com o apartamento, apenas para investimento, segundo o ex-presidente. Enquanto o convencimento no chegava, ia mandando fazer obras no local (e, ao mesmo tempo, no stio de Atibaia). difcil acreditar que o todo poderoso presidente, no auge do seu prestgio, tenha se vendido por um msero (embora trplex) apartamento, com outras gentilezas acompanhantes. Mas essa apenas uma das evidncias da relao promscua de Lula com empresrios investigadas pela fora-tarefa. H outras, que multiplicam o valor do toma-l-d-c. Por enquanto, as provas tornadas pblicas para sustentar a acusao contra o ex-presidente no estabeleceram um nexo material entre o comprovado favorecimento do seu governo a essas empresas e as alegadas propinas que recebeu. Nisso, Lula tem razo. Cad DEBATEO texto acima foi o primeiro que produzi sobre o depoimento de Lula. O artigo provocou fortes reaes dos defensores do ex-presidente. Reproduzo algumas das crticas que me zeram na internet. S intervi nos comentrios quando alguns erros pudessem prejudicar a compreenso pelo leitor.Jos Arlindo Siqueira Silva O L cio Flvio Pinto sempre foi um jor nalista alternativo mdia corporativa, de quem sofreu alhures at agresso fsica. No tenho nem ideia de como isso o afetou, mas ele tambm no tem como alcanar a dimenso do massacre sofrido por Lula e sua famlia, durante esses 3 anos de Lava-jato, e de como isso afetou sua condio fsica, emocional e psicolgica e de seus familiares. Mas, arrisco em armar que o sofrimento de Lcio Flvio, sob o poder da mdia paraense, nem se compara ao massacre nacional que sofre Lula por conta dessa gente perversa: os que corroboram com o seu linchamento pblico cotidiano, consciente ou inconscientemente, so cmplices dessa gente. Tenho formao em Histria, e so poucas vezes que vi algo to abominvel, levando-se em conta os contextos histricos. Os apoiadores do projeto Lava-Jato (chamo-a de projeto porque isso o que signica seu propsito) so uma abominao cognitiva, parodiando Marilena Chau! O que Lcio Flvio escreveu so impresses como qualquer outro cidado teve a respeito do depoimento do Lula; inclusive, a minha impresso de que o Lula esteve acima das expectativas para uma pessoa que vem sendo acuada (palavra utilizada no ttulo) ininterruptamente h anos, sem trgua, e forma abominvel. Mesmo assim, achei-o sereno e combativo, simultaneamente. Por meu lado, no concordo com as impresses de Lcio Flvio. Certamente, devem com ele concordar a direita fascista que est ganhando espao neste pas. Interessante que ele relata o depoimento como se l estivesse, e assumindo claramente sua opo diante desse processo sob regime de exceo. Pelo menos, a minha impresso, caro Lcio! A propsito, com a palavra, JOO VALADARES, sobre a verso corrente de que, neste ltimo interrogatrio, Lula jogou sobre a nada Mariza a responsabilidade sobre os fatos relacionados com o triplex: H uma desonestidade de anlise de informao quando se diz que, no interrogatrio, Lula jogou pra Marisa as questes do apartamento pq ela t morta e no pode mais falar. No concordo, mas at entendo que, na briga das torcidas partidrias, esse argumento escape de alguma maneira. Mas o que no pode um jornalista, que tem a funo de informar com preciso, independente do seu campo poltico e preferncias partidrias, abraar essa tese. O motivo muito simples: Lula disse exatamente a mesma coisa quando foi conduzido coercitivamente pela Polcia Federal. A verso exatamente a mesma. No h uma vrgula de diferena. Naquela poca, quando prestou depoimento, Marisa estava viva. Aqui, no analiso o mrito e a veracidade da verso do ex-presidente. Pode ser mentirosa? Pode. Apenas atento para um preceito bsico do jor a escritura de compra e venda e o registro em cartrio do imvel em nome dele ou dos seus? No existe ou ainda no foi apresentado. Nem o ser nunca. Um dos crimes atribudos ao ex -presidente de lavagem de dinheiro. Quem o comete no produz provas materiais. No h contratos nem quaisquer outros documentos formais, de registro pblico, como transao de compra e venda, registro ou matrcula de imvel. Mas h outros elementos de prova que, bem evidenciados, podem substituir esse tipo de prova. Dentre eles, o modo como Lula deps diante de Moro. Nervoso, intranquilo, acuado, hesitante, gaguejante e contraditrio, ele deixou a impresso de que no estava sendo armativo, claro e contundente como quem possui a verdade. Deu a impresso, em alguns momentos, de mentir. Com seu interrogatrio sistemtico e agressivo, talvez esse tenha sido o objetivo do juiz Srgio Moro: tirar a capa de inocncia de que Lula sempre se valeu at o dia 10.

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3 nalismo: apurao. E, neste caso, uma apurao relativamente simples. s confrontar os dois depoimentos. So pblicos. Um prestado quando Marisa estava viva e outro quando ela estava morta. So absolutamente idnticos. fcil de entender. A cota estava no nome dela. Isso, ele j havia dito. Tambm j havia dito que no queria car com o apartamento, que achou ruim para um velho como ele. Basta ler. Valeria todos os ataques se o ex -presidente tivesse contado uma histria l atrs e outra agora, depois da morte de sua companheira. O jogo pesado, mas no enterrem o jornalismo assim. Nem em nome do que vcs realmente acreditam. LFP Est registrada e respeitada a sua divergncia e as crticas. O Joo Valadares esqueceu uma coisa fundamental: a maior contradio do Lula no foi em relao ao depoimento anterior, na conduo coercitiva. Foi no curso do depoimento de ontem. Disse uma coisa e depois disse outra, conforme assinalei no texto. Primeiro que a esposa no falou com ele sobre a segunda visita; que s soube depois, pelo lho; que Marisa no gosta de praia e esse foi um dos motivos para rejeitar o apartamento do Guaruj. Depois disse que a esposa conversou com ele, mas no entrou em detalhes. Marisa frequentava praia. Se no, teria desistido, junto com o marido, na primeira visita. A direita fascista nunca gostou de mim, muito pelo contrrio. Fui processado pela Lei de Segurana Nacional em 1976 (voc j tinha nascido?). E eu nunca gostei de fascismos, de direita e (o menos enfatizado) de esquerda. Paul Nan Bond Voc seletivo. Tambm deve ser um pssimo professor de histria, aleijando a cabea dos nossos jovens ao ensinar que fascismo de direita, uma aberrao dessas. Acuse-os do que voc faz, chame-os do que voc . V ler ao menos um George Orwell, um Jos Ortega y Gasset, um Olavo de Carvalho, para ver se abre um pouco essa fenda de burca na frente dos seus olhos j fechados. Pobre de cognio, incapaz de aprender com a histria do mundo, nem se d conta de que tambm foi vtima de outros professores de estria. Seletivo, pega apenas o que lhe convm. Limitado, no v o conjunto da obra do seu guru. Dimenso do massacre sofrido por Lula?, ora, ao menos se poupe de causar a si prprio constrangimento pblico. Massacre conosco, ns, povo brasileiro, tendo de aguentar na misria ver essa gente toda ao redor do seu guru inocente enriquecer aos tubos, saquear o pas, vendo essa roubalheira toda debaixo das barbas dele e negar absolutamente tudo, um cego deliberado, mas voc e uma horda de doentes mentais que acreditam no que o crpula diz. Rbula, defensor de bandido! Ora, v estudar histria, professor de estria. Lcio Flvio Pinto o deus da histria perto de voc, garas a Deus por no ter tido um professor de estria como voc. Sairia dbil da escola. Avie o Jornal Pessoal na sua mente todo ms, que talvez ajude. Pessoal, no se vence essa gente com delicadezas; s com p na cara, mesmo. Bando de sem-vergonhas. Jonathan Cheguei a concluso de que a esquerda brasileira no se importa nenhum pouco com a ideologia que diz defender. Ela gosta mesmo de poltico. No importa nenhum pouco o que ele faa ou deixe de fazer. Ela est l o defendendo. Como um falou a em cima, Lula pode at cometer um crime ao vivo que no vo ligar. Um caso engraado o de FHC. Antes de chegar ao poder era visto como esquerdista. Depois que assumiu, a esquerda toda o julgou traidor e o odeiam at hoje. Por que no fazem o mesmo com Lula? Ele tambm se enquadraria entre os traidores. Mas ele pode fazer o que quiser porque dele que a esquerda gosta. Ele que era pobre, teve vida difcil e lutou como ningum para chegar presidncia. Como se isso tudo o alijasse de culpa pelos crimes que cometeu. Lula o culto de personalidade como cantava o grupo de rock Living Colour nos anos Avelino do Carmo Lima Quero observar, por enquanto, apenas a questo da propriedade formal do imvel o triplex Claro que o bem no est e nem seria conveniente em nome de Lula. No h escriturao, tampouco registro imobilirio. Porm, a acusao justamente, de lavagem de dinheiro oriundo de propina e, por isso mesmo, seria ingenuidade do concussivo for malizar s compra e venda. O CC refere que a compra e venda, quando pura, considerar-seperfeita e acabada desde que acertado o objeto e o preo. So os fatores intrnsecos do negcio jurdico que se ultima com a tradio (a entrega da coisa). Ou seja, feito o pagamento, sob qualquer forma, e entregue a coisa, acaba a compra e venda. Escriturao e registro so aspectos extrnsecos e formais que declaram e publicam o negcio. A no se ter essa externao, com a forja do negcio por laranjas; mas comprovado o pagamento e a entrega da coisa por sujeitos denidos, d-se a gura da simulao, ato ilcito que se eiva de nulidade absoluta. Portanto, o fato de o imvel no estar em nome de Lula no excludente da culpabilidade do ru, ainda porque o que se quer provar, justamente, essa trapaa toda para ocultar a corrupo j evidente. Quanto singeleza do objeto, em face dos bilhes surrupiados da nao, lembre-se da Elba de Collor LFP Que aula, Avelino. Obrigado. Quantos contratos vultosos e importantes dormitam em gavetas de poderosos, os tristemente famosos contratos de gaveta? Romulo Maiorana, pai, teve que fazer um com cinco dos seus empregados para poder receber a concesso da atual TV Liberal, contor nando o veto que o SNI lhe fazia, por causa do seu passado de contrabandista. Transformando o processo dos irmos Maiorana contra mim, atravs da exceo da verdade, provei tudo que tinha escrito no Jornal Pessoal. Apresentei cpia do contrato de gaveta e a cha de Romulo com o veto do SNI. Sem raiva nem indignao. Apenas para mostrar para os autores, que mudaram de polo por causa da exceo da verdade, que tudo que eu disse era verdade. Kleber Ponzi Lula nem familiar seu tem a propriedade formal do apar tamento. Lula nem familiar seu recebeu por eventuais aluguel ou venda do imvel (ainda que por contrato de gaveta). Lula nem familiar seu nunca morou ou sequer pernoitou uma nica vez no imvel. Lula ou seu familiar no so apontados por nenhuma testemunha como moradores do apartamento. Ento esse imvel no de Lula ou

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4 de familiar seu. Ah mas ia ser. Mas no Mas ele, como ex Presidente ou Presidente favoreceu a OAS em 3 contratos pblicos em troca da promessa da doao do apartamento pela OAS. Bem, a caria mais fcil provar materialmente. Quais foram os contratos, quais os valores dos contratos (propor cionais ao valor da suposta propina?) e quais as evidncias de fraudes nos contratos que beneciaram a OAS? No depoimento, nada foi apresentado pelo Ministrio Pblico ou pelo Juiz. Ao longo do processo, tambm no. Ento, por falta de provas, Lula deve ser absolvido. Impossvel, no ponto em que est e com a atmosfera criada em torno do caso, Moro no tem como absolver Lula. Mas tambm no tem como condenar. Da que junta outros processos, vaza, divulga outras delaes que no tm a ver com o trplex, como a pedir: posso condenar pelo conjunto da obra? Lucio Flavio Pinto, do mesmo modo que a maioria da mdia tradicional, responde em seus textos: sim, claro que sim. Lula ladro e dissimulado. Uma condenao a mais no far diferena signicativa no conjunto da obra LFP No coloque no meu texto o que no escrevi. Quero ser criticado com coerncia. No disse que Lula ladro. Disse que mentiu. Logo, dissimulado. No disse que mentiu por esconder as provas da propriedade do imvel, mas por tentar se isentar das tratativas que estavam em andamento (no trplex como no stio de Atibaia, onde ai, sim ele e sua famlia estiveram muitas vezes, e onde o suposto dono, nunca esteve), segundo ele, pela falecida esposa, com ningum menos do que o dono da OAS para transfor mar o conjunto de trs casas do Minha Casa, Minha Vida, uma em cima da outra, num trplex, sem os 500 defeitos iniciais apontados por Lula, mas no incorporados por dona Marisa Letcia, que ainda tentava car com o imvel, apesar de no ir praia, por no gostar, segundo o marido, que no iria, por no querer se expor a multides, conforme a tortuosa exposio do ex-presidente). Lembre-se que o crime em questo que se apura o de lavagem de dinheiro. Ou seja: gast-lo de tal maneira que no aparea, por sua origem ilcita, mas que o amigo Lo Pinheiro tratava de escriturar na sua conta do caixa 2, documento concreto, junto com outros e com os testemunhos, para a apurao do delito apontado na denncia do MPF.Depoimento revela a estatura de LulaA Petrobrs a maior empresa do Brasil, atuando num setor vital para o pas. Quando presidente da repblica, Lula ouviu falar que estava havendo corrupo na estatal. Denncia divulgada pela imprensa se referia a dinheiro transferido para o exterior pelo diretor de servios.Renato Duque fora indicado pelo PT, apadrinhado por Jos Dirceu e nomeado por Lula em 2004, no segundo ano do primeiro mandato como presidente. Lula pediu para Joo Vaccari Neto, tesoureiro do partido e 2 suplente de senador (de Aloysio Mercadante), chamar Duque para uma conversa. O encontro do presidente da repblica com um dos diretores da Petrobrs aconteceu num hangar do aeroporto de Congonhas, em So Paulo, fora da agenda e sem testemunhas. Lula perguntou se a notcia de jor nal era verdadeira. Duque negou. Lula acreditou e encerrou o assunto. No voltou mais ao tema, nem com o homem da cota do PT na direo da petrolfera nem com qualquer outro dos dirigentes nas cotas dos partidos aliados do governo, com destaque para o PMDB. Duque cou 10 anos no cargo. Seus colegas de diretoria tambm no foram incomodados. Roubando estavam, roubando continuaram, at pelo menos 2014, o ano da reeleio de Dilma Rousse. Anal, metade do que roubavam cava para eles e metade ia para os partidos que os apadrinhavam. Tanto que, primeira presso da Lava-Jato, Pedro Barusco devolveu 220 milhes de reais, sem pestanejar. Lula contou essa histria inverossmil no seu depoimento da semana passada ao juiz Srgio Moro, em Curitiba. Sem se lembrar que declara com nfase, pouco antes, que nenhum ladro confessa ser ladro, assim como um filho no chega da escola na casa dos pais anunciando a nota ruim que tirou. Mas Lula acreditou no mentiroso e fez f na sua histria mirabolante. Ela, entretanto, o acusa. Primeiro porque, embora aponte a imprensa como integrante de uma conspirao para prend-lo, buscando vingana pelo que ele fez pelos pobres durante o seu governo, e num ajuste de contas com o odiado PT, s soube que podia estar havendo corrupo na Petrobrs atravs da imprensa. Informado, planejou encontro ntimo com um cidado que nomeara sem o conhecer (como a nenhum outro que atravs dele ocuparam a direo da empresa estatal), nada sabendo sobre ele, apenas que se enquadrava num esquema tradicional de preenchimento de cargos de conana na Petrobrs para o governo conquistar apoio no Congresso. Mesmo assim, encontrouse com o acusado de corrupto num ambiente privado, sem agendamento nem testemunha, quase ocultamente, para no deixar prova. Expondo-se dessa forma, forneceu o cenrio para a verso que Duque apresentou a Moro, ias antes, no mesmo local: de que Lula s queria saber se ele realmente tinha uma conta secreta no exterior para receber o dinheiro da propina; se tivesse, que a encerrasse, para no deixar rastro do ilcito. Procedimento no da maior autoridade do pas, mas de um chefe de quadrilha, de um maoso.

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5 Quando comeou a se romper a barragem de conteno das sujeiras praticadas na Petrobrs (e em praticamente todas as estatais, sob o controle de governos corruptos), a sucessora de Lula, que fora ministra das Minas e Energia e tinha lugar de destaque no conselho de administrao da petrolfera, comeou a demitir os corruptos, sem chegar, porm, aos corruptores. Dilma tentava preservar o esquema tradicional em uso na Petrobrs desde tempos imemoriais (o que no exatamente verdade; a origem mais recente do que o proclamado). No depoimento de Lula, o que menos impressiona o detalhe detalhe mesmo do apartamento trplex do Guaruj, que pode ser creditado ao excesso de cortesia da OAS (toda ela escriturada no sacrossanto caixa 2, erigido condio de um departamento na estrutura da Odebrecht) e de tolerncia do benecirio, que se lixa para esses detalhes ticos ou morais. Nesse detalhe menor de um enredo imenso, o que enoja o procedimento de um chefe de governo, de partido, de famlia que sempre renuncia sua responsabilidade, nada vendo, nada sabendo, nada fazendo, enquanto transfere aos demais (e, quando melhor, aos mortos) o que lhe cabia assumir por sua posio de mando, de liderana. Lula lavou as mos ao dizer que o prosseguimento das tratativas com a OAS sobre o trplex se deveu insistncia e teimosia da sua falecida esposa. Ele mesmo encerrou o episdio na primeira e nica visita que fez ao imvel, eliminando-o das suas cogitaes. Mas como mulher assim mesmo, nunca contando tudo ao marido, Marisa Letcia ainda prosseguiu. Talvez por isso tenha tratado de reformas no apartamento e outras coisas mais. Eventos domsticos ou menores parte, pela primeira vez um obser vador atento e isento pde estudar o modo lulista de expresso, sua linguagem, seus modos, seu mtodo. Tudo muito eciente em palanque, muito impressionante e convincente sem um confronto seguido e prolongado, como o que lhe imps o juiz Srgio Moro. Aparando as arestas e suprimindo os excessos, Moro apertou Lula, numa dialtica rigorosa. Fez o poltico se ex-DEBATEVitor Castro At Reinaldo Azevedo achou que Moro feriu a lei . Pra alguns sites (poucos simpticos lula) houve um 0x0, que indica que Lula se saiu bem . Vi o depoimento, pra mim quem saiu menor foi o juiz. Encontrei muitas anlises boas na Internet. Graas a Deus pessoas que ainda mantm a lucidez intacta sem se deixar levar pela emoo. Claro que a populao no geral vai ver a verso da Globo e outros canais mas s vamos saber nas prximas pesquisas Enm quem ca menor sempre vai ser quem no consegue fazer mais anlises isentas. LFP Claro que o Moro no tem o registro ou a escritura do imvel nem o contrato de compra e venda. Se houve papel nessa transao, foi contrato de gaveta. Mas ele tem depoimentos que reconstituram a origem e a transferncia do bem. No foi objeto do interrogatrio obter a consso de Lula ou que ele entregasse a transao. Mas est fora da realidade a concluso de Reinaldo Azevedo, padecente do excesso de iconoclastia, de que Moro transformou em picadinho o devido processo legal. Lula teve amplo direito de defesa, inclusive podendo se calar para no produzir provas contra ele. Pelo menos trs advogados o acompanhavam, um deles indo alm do seu ofcio. Reinaldo no citou um nico artigo do Cdigo de Processo Penal que o juiz violou. Posso lhe dizer, como ru de 18 processos penais, promovidos por gente poderosa, que no vi qualquer abuso por parte do juiz. O que ele quis, obteve: revelar o Lula que a poltica vinha ocultando. Desde que e sentei numa cadeira de redao de jornal, 51 anos atrs, me expus ao escrever. J em 1966 comecei a participar de polmicas. Algumas foram muito duras e desgastantes. Oponentes como Jarbas Passarinho, Oliveira Bastos, Nelito Pinto da Silva ou Acyr Castro me exigiam muito. Mas sempre lhes fui grato. Foi assim que mais aprendi. Tanto a raciocinar como a coletar informaes e a me exprimir. Sinto imensa nostalgia dessas polmicas. Elas acabaram. O que sobrou est a embaixo, manifestaes (todas contrrias) de leitores do Facebook que Miguel Oliveira edita para mim com meus textos. A resposta dos leitores ao artigo de ontem sobre o depoimento de Lula quase sempre no passa de ofensa e agresso. Quase nada que se possa aproveitar para um debate til e positivo. Aprendi que aquele leitor que me elogia quando o que penso coincide com o que ele pensa pode se transformar num detrator implacvel se divergimos. O que se quer o pensamento nico, direita ou esquerda. Quem no se enquadra nesse ambiente de seita, de dogmatismo e de intolerncia se torna inimigo de ambos os extremos. Pois bem: nessa posio que continuarei, como sempre z. A ofensa no me desviar do princpio jornalstico de buscar os fatos e, com eles, levantar anlises e interpretaes. Fora deles, as tribos selvagens que continuaro para sempre tribais e selvagens. Vejamos as prolas dos leitores do Face, que reproduzo tal como foram escritas, devendo ser lidas de baixo para cima. Mary Cohen No concordo, Lcio Flvio Pinto o que vi apontam numa outra direo, vi que Lula se imps muito bem. Edson PalhetaDesculpa Lcio mas voc viu outro depoimento. Jerry Nerisdesculpa o karaleo Edson PalhetaKkkkkkkkkkkkkkk Luis PonziO juiz Srgio Moro tentou se manter frio, calmo e tcnico. Ele muito bem pago pra isso. Imagine um por quando os circunlquios, a metfora rasteira, o raciocnio rstico e a pobreza de argumentos no lhe permitiram mais comandar o discurso. Ele no estava diante de um interlocutor inerte ou despreparado, manobrado por sua torrente verbal, to brilhante e rpida quanto supercial. Ao nal, ca-se com a sensao de que o que de bom Lula fez em oito anos se deveu menos a ele do que a circunstncias favorveis, sua estrela, ao seu carisma, sua competncia em matria de poltica brasileira. O que teve de ruim nesses dois mandatos, porm, obra direta dele. Lula entrou na 13 vara criminal da justia federal em Curitiba, talvez a melhor do Brasil, como um estadista. Saiu como um pigmeu.

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6 cirurgio nervoso ao fazer uma cirurgia. incrvel como colocam o juiz como um adversrio, ele deve julgar e no duelar. Pedrosa NetoNo acredito que te prestes a isso. O que est em jogo aqui muito mais do que tuas decepes ou dissabores com o PT e s vezes que ele esteve no poder e eventualmente no te beneciou. triste que estejas to decadente a esse ponto. Todas as crticas ao PT, mas que seja cumprido o rito processual. Elogiando juizeco de merda que quer descer a escada do judicirio pra fazer palanque. Que merda! Jerry Nerisque decepo: Frio calmo e tcnico foi o Maiorana que te sentou a porrada, sabes sempre achei que ele estava errado, mas, hoje vejo que talvez ele tenha antecipado uma reao que espero, no encontres nas ruas, de verdade, espero mesmo! Pois se as pessoas tiverem um pingo de respeito por si prprias, o que fatalmente, vai te acontecer. Ridculo! Sergio NunesSeu comentrio parece malicioso e armado, de quem perdeu a imparcialidade. Karina SantosRidculo mesmo... fazme rir Lula acuado kkkk onde vc viu isso? Jerry Nerisconcordas? Q declarao lha da puta. Geovane GrangeiroPelo jeito, muitos tentam pegar carona no enxovalhamento pblico de Lula. Basta convico para condenar. No precisa de provas. Jerry Nerisfala Miro, esse sujeito gosta de mo na cara ou de do no c.. Miro CantoKkkkkk Arthur Cezar Anaissi d e Moraes AnaissiPra mim cou ntido o desconforto do ex-presidente. Sem dvida, o nus da prova de quem acusa, premissa bsica em direito penal. Realmente, cad o farto material que o liga a propriedade do imvel, a escritura de posse? No entanto, Lcio, continuas energicamente fabuloso em tuas escritas analticas. Deixemos de lado o vis ideolgico e procuremos nos focar na verdade nua e crua dos fatos. Netto Santos Onde ests chegando, jornalista? A cegueira ideolgica est lhe guiando? Pedrosa NetoEsts pleiteando alguma cadeira no Liberal?! Ana Maria HassDesculpa, mas voc no assistiu o vdeo... Emilia VasconcelosVc est sendo pattico! Laurenir PenicheDiscordo de vc, Lcio. Nilma BahiaDiscordo Heliana FeitosaSe sujou todo nas fraldas.... Carlos QuadrosNo concordo com voc Lcio Flvio Pinto As agresses continuam pela internet. A impresso que se tem que elas resultam de leitura apressada e supercial do texto criticado. Se ele comea com ideias ou fatos considerados desagradveis ou divergentes, o leitor reage batendo o tambor para o fuzilamento do inel, incru, ser demonaco. Essa intolerncia poltica obrigou o Miguel Oliveira a tentar explicar que ele no o autor dos textos do Facebook que leva o meu nome. Reproduz os artigos deste blog, conforme mostra o link da reproduo. O que ele faz administrar o espao, ao qual no sou afeito e ao qual me afeioo cada vez menos, em vias de me despedir desse meio fantstico e alucinado. Lamento que Mary Cohen, a quem admiro e respeito, altere seu conceito a meu respeito conforme as variaes do entendimento sobre quem o autor do texto do qual diverge e condena. Continuo a admir-la e a respeit-la, mesmo quando divergimos e, pelo jeito, divergiremos ainda bastante. Miguel tambm se viu na contingncia de responder a Miro Canto, que emprestou sua ofensa ofensa de quem, alm disso, gostaria de me ver novamente agredido sicamente. Primeiro o dilogo de Miguel com Canto: Miro Canto L Flavio, ests caduco rapaz. Ou o q andaste cheirando estragado? Lcio Flvio Pinto Aqui o administrador deste perl do Lcio Flvio Pinto O Miguel Nogueira de Oliveira que tu bem conheces. Raramente me manifesto neste espao, pois apenas publico os textos do LFP. Lamento que tu embarques nesse jogo sujo de ofensas ao Lcio, um jornalista que tu bem sabes muito bem que no se vendeu aos donos do poder, aps mais de 50 anos de jornalismo, sejam estes de que matizes ideolgicas forem. Discordar salutar, enriquece o debate. Faz parte da democracia. Mas insinuar jocosamente que o Lcio usa entorpecentes, no se faz nem de brincadeira. Outra coisa: fazes coro em comentrio de algum que incita e justica a violncia fsica contra o Lcio, atitude abominvel. O que lamentvel duplamente. Espero que reitas e corrija este seu posicionamento. Estes comentrios j esto printados, caso acontea alguma coisa que atente contra vida do Lcio Flvio Pinto mesmo que ele no me autorize, levarei o caso espero que isso no ocorra s autoridades da segurana pblica. Agora o contencioso de Miguel com Mary Cohen: Maria Cludia Rocha No propriamente a opinio do Lcio Flvio Pinto mas sim, do administrador (Miguel Nogueira de Oliveira) do perl dele, como ele bem explica para sr. Miro Canto. Miguel Oliveira Maria Cludia Rocha. Escrevo agora de meu perl pessoal para esclarecer que voc interpretou equivocadamente meu comentrio. Como administrador do perl do Lcio Flvio Pinto no Facebook, cabe a mim apenas publicar o que ele escreve. Isso deixei bem claro ao Miro, pois somos conterrneos. Ento, de onde voc tirou essa informao de que o texto de minha autoria? Assino embaixo, mas todos os textos do perl do Lcio so de autoria dele. Mary Cohen S uma perguntinha : Miguel Nogueira de Oliveira ento no foi o Lcio Flvio Pinto que escreveu a postagem? Me conrme, pois se for assim peo mil desculpas a ele e restauro o conceito que tenho como um dos maiores jornalistas da atualidade. Bjus Miguel Oliveira Que pergunta estranha? Escrevi que administro o perl do Lcio Flvio Pinto Pblico os textos de autoria dele no perl que dele. Alis, leia isso: https://lucioflaviopinto.wordpress. com/.../agressoes-por.../ Mary Cohen Ok Miguel Nogueira de Oliveira estranhei a postagem, pois sempre achei Lcio um prossional que primava pela iseno nas anlises, embora saiba dos seus problemas com o PT, inclusive na poca que Edmilson foi prefeito. Desculpe a vc, achei que ao administrar o perl tb publicavas texto, obviamente autorizados por ele. Discordo e abomino quaisquer agresses, sejam verbais ou fsicas, acho que reetem um despreparo para o debate, onde deve prevalecer o confronto das idias, mantendo o respeito e a cordialidade. Grande abrao e que venham dias melhores. #foraTemer

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7 Dilma e Lula: outra vez criatura contra o criadorLula s escolheu Dilma como sua sucessora, em 2010, porque ela, embora sendo um poste poltico, incapaz de se eleger vereadora, era uma tima gerente, capaz de manter o pas crescendo, em clima otimista, formando multinacionais brasileiras e bilionrios nacionais, para espanto do mundo, incluindo mais pobres na economia formal, engordando a classe mdia e tirando milhes do crculo da fome. A sua tima realizao na presidncia da repblica lhe dava o direito de se candidatar reeleio, como fez, com o decidido apoio de Lula. Quem se colocasse contra esse cantocho poltico era criticado, atacado e sujeito a desmoralizao pelos petistas. Eles rejeitavam, como heresia diablica, que Lula s tivesse escolhido Dilma porque ela lhe iria dever gratido e obedincia, reconhecendo que jamais chegaria to longe se no fosse sombra do grande lder. Lula s no seguiu para o terceiro mandato porque o Brasil no igual Venezuela de Chvez (cuja morte interrompeu o colecionamento de mandatos e fez Maduro emergir). Sem essa possibilidade, escolheu Dilma a dedo: ela fazia cara feia, era autoritria e arrogante, no tinha um currculo real para abonar a fama de competente, estava presa ao compromisso do chefe. Reabriria caminho para ele voltar ao poder em 2014. Como acontece invariavelmente com a criatura, ela se voltou contra o criador. Lula se viu na situao imprevista de ser contrariado, mas no tinha alternativa. Uma ciso aberta prejudicaria a ambos, ameaando o reinado do PT. Esse destino, que parecia improvvel, se revelou real com o tempo. Pela descoberta de que foi a eleio mais cara da histria brasileira, cuja exigncia de caixa acabou descambando para a cor rupo desenfreada, como nunca fora antes de 2014. O caixa da campanha cresceu monstruosamente para poder eleger Dilma. Mesmo assim, sua vantagem sobre o seu principal competidor, o tucano Acio Neves, tambm participante do mesmo jogo, s foi obtida no segundo turno, restrita a 3%. A verdade, que acaba com todas as fantasias e mentiras utilitrias, foi arrematada pela empresria Mnica Moura, mulher e scia do marqueteiro Joo Santana, na sua delao premiada. Ela traz para a luz do dia informaes que estavam restritas ao submundo da poltica. Mais uma vez, a militncia petista, tendo frente Lula e Dilma, reage com furor, buscando descredenciar a autora das revelaes como o seu marido. No podem, entretanto, desfazer a histria, que d credibilidade ao que foi dito justia em delao premiada. O casal trabalhouem diversas campanhas do PT, como a de Lula, em 2006, e as duas de Dilma, em 2010 e 2014. Marido e mulher so das entranhas do poder e a ele se ataram. Foram presos em fevereiro do ano passado pela Operao Lava-Jato, sob a suspeita de receber pagamentos com origem em dinheiro desviado da Petrobras. Foram soltos seis meses depois. Mnica, a ltima a depor, disse que Lula da Silva queria ser candidato nas eleies presidenciais de 2014, mas Dilma no aceitou abrir mo da reeleio. A publicitria disse que na poca o marido lhe falou sobre esse desentendimento. Por causa da posio assumida por Dilma, Lula se afastou da campanha, recusando-se inclusive a tentar resolver os atrasos no pagamento dos valores relativos ao caixa 2 da campanha ao casal por parte da construtora Odebrecht. Em 2014, o Lula no entrou em relao a dinheiro. Na verdade, em 2014, houve um certo estremecimento entre o Lula e a Dilma,acho queisso do conhecimento de todos. Os jornais especulavam bastante na poca, eles negavam, mas verdade.Porqueo Lula queria ser candidato e a Dilma no aceitou. Segundo Mnica, Dilma queria a reeleio dela. Ela se sentia forte.Isso era conversadela com o Joo, eu nunca tive esse tipo de conversa com a Dilma. Depois que o Joo me contava. O Lula queria ser candidato em 2014, voltar. Era tipo assim: em 2010 ele sai, bota a apadrinhada dele l, mas em 2014 ele volta para ser o candidato. E a houve um certo estremecimento. A empresria contou ainda que Lula ia de vez em quando produtoragravar mensagens de apoio a Dilma, para no colocar em risco a eleio dela, que afetaria muito o PT e a ele mesmo. Mas ele no se envolveu com dinheiro dessa vez, no. Foi totalmente com a Dilma, tudo com a Dilma. Falei com ela todas as vezes. Na sua delao, Joo Santana tambm declarou que o controle das nanas da campanha eleitoral de 2014 cou sob controle exclusivo de Dilma. Para atrair o publicitrio, a presidente lhe garantiu que a arrecadao de dinheiro seria gerenciada pelo ento ministro da Fazenda, Guido Mantega, excluindo o ento tesoureiro do PT, Joo Vaccari Neto, que atuara na eleio anterior. Seria um novo sistema, que voc pela primeira vez poder ser pago at antecipadamente, relatou Santana. A empresria disse ter dado por per dido o pagamento da Odebrecht em meados de 2015, quando a Operao Lava Jato prendeu o ento presidente da construtora, Marcelo Odebrecht. Essa campanha no nos deu um real de lucro.Porquetodo lucro que a gente teria para receber depois cou travado. Dilma me pedia pacincia, [dizia] que eles iam resolver. Acabaram no resolvendo nunca. Era exasperador para mim, porque a gente trabalhou o ano inteiro sem descanso, porque campanha de domingo a domingo, no tem parada de feriado, no tem horrio, a gente sai todo dia meia-noite, 1h da manh. Sem eu ver meus lhos, minha famlia... Foi um ano tenso para no ganhar um tosto. Se Joo e Mnica mentiram, como dizem Lula e Dilma, o tempo, com a concluso das investigaes e o pronunciamento da justia, responder. Mas uma coisa certa: veio de dentro da engrenagem poltica do poder, revelada por personagens vitais dessa estrutura, a conrmao de tudo que diziam aqueles que os petistas apontam como par ticipantes de uma conspirao contra o partido e os seus principais lderes.

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8 A elite l foraA Polcia Federal foi rua, no dia 13, em Braslia, executando a Operao Bullish, que investiga possveis fraudes e irregularidades em nanciamentos concedidos pelo BNDES ao grupo JBS, um dos maiores processadores de protena animal do mundo, com trs mandados de conduo coercitiva concedidos pela justia federal de Braslia. Cumpriu um mandado, levando para depor um dos donos da empresa, Wesley Batista. Seu irmo e scio, Joesley Batista, porm, est no exterior. Pelo mesmo motivo, no foi conduzido para prestar depoimento o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social, o economista Luciano Coutinho. Ele deveria esclarecer sobre supostas irregularidades na concesso de apoio nanceiros pela BNDESPAr, subsidiria do BNDES, JBS a partir de junho de 2007, no incio do segundo mandato do presidente Lula. A elite brasileira viaja muito ao exterior, com toda desenvoltura que lhe possibilita sua fortuna e, em especial, as contas que mantm ao redor do mundo. Tambm deve ter um sexto sentido para o melhor momento de se ausentar do pas. So cada vez mais frequentes as coincidncias entre essas sadas e algum movimento da polcia atrs desses homens e mulheres de colarinho branco.Viso de fantasia: o Chvez do PTNo discurso de 50 minutos que pronunciou durante o 6 congresso nacional do PT, no dia 5, em So Paulo, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva fez demorada citao dos presidentes de esquerda na Amrica Latina que foram seus contemporneos no topo do poder. Declarou-se honrado pela companhia. Sua citao mais ovacionada foi ao ex-presidente da Venezuela, Hugo Chvez, j falecido. O eco tonitruante referncia referendou a aprovao de Lula e do seu auditrio gesto de Chvez e interpretao de que suas diculdades resultaram no dele mesmo, mas de uma conspirao internacional, liderada pelos Estados Unidos, contra a revoluo bolivariana do presidente cujos sucessivos mandatos s a morte interrompeu. Se os correligionrios de Lula acreditam na justeza de suas teses bolivarianas e do destaque a Chvez, a mais comovente demonstrao da incompetncia do governo do coronel primariamente bonapartista est sendo apresentada em territrio brasileiro pela legio de venezuelanos que fogem do seu pas e vo se acumulando nos Estados mais prximos da fronteira da Venezuela: Roraima e Amazonas. A prefeitura de Manaus declarou hoje emergncia social no municpio. Reconhece que j no tem condies de abrigar, manter e encaminhar a uma atividade de sobrevivncia as centenas de cidados venezuelanos que chegam mais populosa cidade da Amaznia. Quer a ajuda dos governos federal e estadual. A situao dos fugitivos se assemelha de refugiados de guerra. Eles no deixaram a terra natal por discordar do bolivarianismo ou por qualquer outro motivo poltico. Saram porque a sobrevivncia em seu prprio pas se tornou impossvel. Viver debaixo de coberturas de lona, em ambientes abertos, sem qualquer infraestrutura, lhes parece melhor do que na Venezuela, onde no tm comida ou emprego. Mas j no tm, sobretudo, esperana. O futuro venezuelano acabou para eles. Os sectrios do tosco discurso de Lula, cheio de inverdades e manipulaes, embora de apelo carismtico e de arguta apresentao, devero continuar a aplaudir Chvez. Seus critrios ideolgicos os tornam insensveis, indiferentes e cegos para o drama humano dos venezuelanos em fuga. Pretendem fazer uma histria cheia de jarges e lugares comuns, ar rogantemente triunfalista. Mas com ralo ingrediente humano.Toga na roupa sujaA Operao Lava-Jato e as operaes dela derivadas contra a cor rupo podem estar comeando a bater na porta do poder judicirio. A expectativa (e a surpresa) era de que isso j tivesse acontecido. Os poderes executivo e legislativo esto sendo profundamente devassados. A justia estaria inclume, livre do vrus da corrupo no servio pblico? Por enquanto, os primeiros sinais so revelados internamente. No confronto nas cortes superiores, sobretudo na mais excelsa delas, o Supremo Tribunal Federal, a opinio pblica sabe agora que lhos e lhas dos magistrados (e tambm de procuradores) atuam na linha fronteiria entre o per mitido e tolerado e o vedado, em escritrios particulares de advocacia.Devem ter qualidades, mas ca implcito, ao menos como suspeita, o trco de inuncia. O principal incidente envolveu o ministro Gilmar Mendes e o procurador-geral da repblica. Rodrigo Janot pediu o afastamento de Mendes dos processos tendo o exbilionrioEike Batista como parte porque a mulher do ministro do STF atua no escritrio de Srgio Bermudes, defensor de Eike. Mendes mandou publicar, em represlia, que a filha de Janot advoga para a principal empreiteira da Lava-Jato, a Odebrecht. e ainda para a OAS, do amigo de Lula, Lo Pinheiro. E o chefe do Ministrio Pblico Federal no se deu por impedido de atuar nos processos envolvendo as duas empresas. A sociedade ser bem servida se os gures continuarem nessa lavagem de roupa. Sujeira, ao que parece, no falta. A dose, por enquanto, ainda pequena.

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9 Lula depe normalmente e a democracia prossegueDepois da revoluo de 1930 e at o nal do regime militar, em 1985, apenas dois presidentes da repblica sofreram constrangimentos quando submetidos a acusaes de corrupo. Em nenhum desses dois casos, atravs de um processo judicial regular. O primeiro foi Getlio Vargas, nos momentos nais dos seus 18 anos no cargo, em 15 deles ocupado por vias marginais (eleito indiretamente depois da revoluo e transformado em ditador por um golpe de Estado). A acusao de corrupo no era dirigida ao prprio Vargas, mas a integrante de sua famlia, o lho mais velho, Lutero, e ao chefe da guarda pessoal, Gregrio Fortunato. Ainda assim, um tribunal anmalo, comandado por ociais da Aeronutica, se outorgou poderes de justia paralela e montou a repblica do Galeo, centro inquisitorial instalado na rea militar do aeroporto da ilha do Rio de Janeiro. Getlio deu a resposta nal crise poltica desencadeada por essa inquisio militar se suicidando. A histria comprovou a sua honestidade exemplar. O outro foi Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito a muito contragosto pelos lderes militares sucessor de Getlio. J como ex-presidente e candidato novamente ao cargo em 1965, JK foi submetido a humilhantes depoimentos que prestou ao grupo de militares incumbido de dar forma concreta a suspeitas de cor rupo de Juscelino, na era dos IPMs e outras devassas marginais lei. A principal acusao era relativa construo da nova capital. Braslia teria sido o maior pasto at ento entregue a empreiteiras. A partir da elas se cevariam em obras pblicas de tal forma que sua ao acabou no escndalo do petrolo. O IPM e a devassa da CGI, porm, no encontraram as provas para incriminar JK, embora ele depusesse sozinho, entrando e saindo da arena privada na surdina, e em estado profundamente depressivo. Na redemocratizao, Jos Sarney conseguiu chegar ao nal do mandato manobrando a repblica, como faz at agora, diante das suspeitas e acusaes de corrupo, como na licitao de uma das suas maiores obras, a ferrovia Norte-Sul (ainda inacabada). J o caso de Fernando Collor de Mello foi to escabroso que ele foi apeado da presidncia da repblica pelo impeachment. Itamar Franco foi um vcuo e FHC conseguiu escapar ao tiroteio moral e tico apenas com escoriaes generalizadas, mas que enodoaram a sua biograa. Ou Lula realmente inocente, ou foi medocre na prtica de crimes como corrupo e lavagem de dinheiro. O pessoal da Petrobrs devia ter-lhe dado um treinamento melhor. Essa premissa no leva concluso automtica de que o lder petista est sendo vtima de uma conspirao (ar mada pela imprensa e a justia, segundo ele rearmou no discurso do dia 5, no congresso nacional do PT), ou que absolutamente inocente. O PT criou uma tal organizao de corrupo, trco de inunciae siologismo, com edulcorao ideolgica, que tornou tudo possvel, do zero ao innito, emprestando-se a expresso de Koestler, que entendia muito do assunto, ligado a fantasias ideolgicas que encobrem como glac dourado muita vilania a patifaria. O processamento do ex-presidente assumiu uma dimenso indita na histria republicana brasileira por vrios motivos. O mais bvio de que ele est sendo processado numa democracia, com garantias ao menos na letra da lei e em tese raras em qualquer parte do mundo. O outro componente controverso. Um processo que o instrutor procurou manter numa bitola tcnica e com orientao competente, transbordou politicamente. Em parte, por erros, alguns deles graves, cometidos pela fora-tarefa da Operao Lava-Jato, principalmente o Ministrio Pblico Federal, a Polcia Federal e, nos ltimos tempos, o prprio juiz Srgio Moro. Ainda assim, eventuais tropelias contra Lula no impediriam a sua defesa de se empenhar tecnicamente em provar a sua inocncia. medida que as provas contra o ex-presidente foram se adensando e multiplicando, a ttica dos advogados foi se tornando bvia: provocar incidentes para deles gerar uma falha formal que possa anular todo processo, desde o incio. No ardor de processos que passaram a ser medio de foras, ferindo a integridade da justia, providncias factveis se tornaram impossveis. Como a exigncia da defesa de uma gravao independente da lmagem ocial do depoimento que Lula prestou a Moro. A defesa quis poder dispor de mar gem autnoma na montagem de uma base em imagens para uso em seguida, conforme lhe aprouvesse. O pretexto era que uma cmera focada apenas no depoente o constrange e o coloca em situao de inferioridade em relao ao juiz. Queriam poder lmar todo ambiente. A exigncia foi negada por Moro, rejeio mantida pela instncia seguinte, o Tribunal Regional Federal da 4 regio. Com sede em Porto Alegre, de forma justa e fundamentada. Como se viu no dia 10, a sesso foi normal, seguindo o rito do processo penal, e os temidos incidentes no se concretizaram. O Brasil deu mais um passo na busca pela verdade.

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10 Imprensa amaznica age em plena ditaduraPor paradoxal que parea, os anos da ditadura foram poca de vacas gordas para a cobertura jornalstica na Amaznia. O governo militar promovia ento a maior empreitada de abertura de fronteiras da histria do Brasil. Eram longas estradas, assentamento de colonos, venda de grandes lotes de terras, minerao, incio da construo de hidreltricas, novas cidades e desmatamento, muito desmatamento, muita confuso, o caos. Felizmente eu estava em O Estado de S. Paulo, que se tornaria a principal fonte de informaes sobre a histria da ocupao recente e definitiva da Amaznia. Raul Martins Bastos e eu montamos uma rede de bons cor respondentes por toda regio. O jornal topava custear todas as viagens que se propunha. E no precioso esperar o tempo passar quando espocava um conflito: logo estava no local, podendo permanecer ali os dias que fossem necessrios para ter um desfecho do acontecimento. Com meus contatos no governo, principalmente nos setores tecnocrata e militar, pude avaliar o seu grau de carncia de informaes. A Amaznia lhes era um tema muito caro, uma causa. Mas as decises eram tomadas em circuito fechado e os negcios montados por grupos exclusivistas. Esses servidores precisavam de um canal de divulgao. Mesmo sendo partes integrantes do governo, estavam excludos do centro do poder. Por isso, davam sua aprovao a uma margem maior de liberdade de imprensa em temas amaznicos. Matrias extremamente crticas e denncias graves escapavam tesoura do censor, feroz em relao a outros assuntos, especialmente os polticos e os econmicos da gente de colarinho branco. O socilogo Fernando Henrique Cardoso usou e abusou das reportagens do Estado no seu livro de 1977 sobre a expanso do capitalismo na fronteira amaznica. Praticamente se limitou a salpicar teoria sociolgica sobre fatos extrados do jornalismo, mtodo abominado pelos acadmicos de hoje (o que tem alguma coisa a ver com suas teorias metafsicas). Gente poderosa em Braslia se irritava com as matrias do Esta do porque elas eram bem escritas e competentemente apuradas. No s nem principalmente em fontes secundrias. Era porque o reprter ia ao teatro dos acontecimentos, conversando com os atores, observando o cenrio especfico. O material era muito rico. Mas nem sempre tinha consequncias. O autor do milagre brasileiro do regime militar, o superministro Delm Netto (super-assessor de Lula e Dilma, nos bastidores), carimbou a (anti)tica da ocupao: era o momento de deixar o bandido se instalar na fronteira para amansar a terra da forma mais rpida e rme. O mocinho viria, um dia se viesse. Sangue, mor te, tiros, portanto, estavam liberados. Da que os conflitos estouravam, causavam mortes, davam prejuzo, se tornavam humanamente insuportveis, mas Braslia no se mexia, So Paulo no estava nem a, o Rio de Janeiro ia para a praia. Eles (os bugres primitivos) so selvagens. Eles que se matem, se esfolem e se acalmem era a filosofia do se o estupro inevitvel, relaxe e aproveite. Estas reflexes e reminiscncias me veem a propsito do bloqueio de duas emanas atrs na BR-230, a famosa Transamaznica (ou Transamargura, na sofrida ironia nativa). Uma fila com 10 quilmetros de extenso, formada por dezenas de caminhes carregados de soja, drenando a maior de todas as safras desse gro, se estendeu a partir de um bloqueio na estrada armado por quase 200 ndios munduruku. Os caminhoneiros no podiam seguir mais um pouco para transferir sua carga para o porto de Miritituba, no rio Tapajs. O que querem os ndios de to importante para lev-los a um ato que causa grandes prejuzos? Eles reivindicam Funai algumas providncias. A mais importante a designao de um coordenador regional. O cargo est vago desde maro. A Funai, um dos rgos mais burocratizados, incompetente e precrios da administrao pblica federal, diz que os mundurukus querem a nomeao de Almir Macedo da Silva e mais recursos para a sade. Alguma m vontade, desconfiana ou lerdeza impede a consumao do ato. Pouco importa. A Amaznia est a para isso mesmo: ser destruda ou se autodestruir enquanto os deuses burocratas decidem. Eles moram no outro Brasil.Mangans: meio sculoA jazida de Serra do Navio, no Amap, comeou a produzir mangans no dia 5 de janeiro de 1957, nove anos depois do incio das atividades de pesquisa no local. Em 1934 um tcnico do DNPM registrou a presena do mangans na rea. Mas s em 1945 um canoeiro do rio Amapari, Mrio Cruz, encontrou amostras do minrio e o levou para o governador do Amap (transformado em territrio federal com parte do territrio do Par, em 1943). Janary Nunes criara um programa de estmulo a descobertas de minrios, premiando quem lhe entregasse pedaos de rocha. O incio da utilizao em escala empresarial do subsolo da Amaznia completou, portanto, 60 anos. A concesso para a utilizao da jazida amapaense foi de 50 anos. Antes desse prazo, porm, a Icomi encerrou suas atividades, por ter exaurido o minrio de interesse comer cial. At hoje, a herana ingrata: buracos estreis e rejeitos contaminados. Ainda assim, parece que desde ento a lavra mineral no mudou para melhor. O imposto sobre a extrao era de 5% sobre o valor da retirada do minrio (85% O de exportao, 5% at o limite de 500 mil toneladas e 10% acima desse volume. Hoje, a exportao livre de imposto, havendo apenas a compensao nanceira.

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11 Exrcito americano atuar na AmazniaO Exrcito brasileiro vai realizar du-rante 10 dias, em novembro, um exer-ccio indito no mbito da Amrica do Sul. Pela primeira vez montar uma base logstica internacional em Tabatin-ga, no Estado do Amazonas. Essa localizao permitir a atua-o em conjunto com as foras armadas dos dois pases vizinhos, a Colmbia e o Peru. Mas ter tambm a participao dos Estados Unidos como convidado, alm de observadores militares de ou-tras naes amigas e diversas agncias e rgos governamentais. Um dos objetivos fazer uma s-calizao maior na regio e criar uma doutrina de emprego para combater os crimes transfronteirios, que afetam aquela regio na famosa guerra de fron-teira que hoje alimenta a nossa guerra urbana existente nos grandes centros, explica o general eolo Gaspar de Oliveira, responsvel pelo Comando Logstico da Fora, em Braslia, e um dos organizadores do AmazonLog, em vdeo promocional do evento. As operaes envolvero itens de lo-gstica como munio, aparato de dis-paros e transporte e equipamentos de comunicao, alm das tropas. Elas in-tegram o AmazonLog, exerccio militar criado pelo Exrcito brasileiro a partir de um atividade feita em 2015 pela Otan (Organizao do Tratado do Atlntico Norte) na Hungria, da qual o Brasil par-ticipou como observador. BBC Brasil, que divulgou o fato, o Exrcito negou que a atividade sirva como embrio para uma possvel base multinacional na Amaznia, semelhan-a do que aconteceu aps o exerccio da Otan citado como base para a atividade. Relata a BBC que, apesar do ineditis-mo do comando multinacional na regio amaznica, esse no o primeiro exer-ccio mtuo entre as foras armadas de Brasil e EUA no pas. No ano passado, por exemplo, as Marinhas das duas naes -zeram uma atividade preparatria para a Olimpada no Rio de Janeiro, envolvendo treinamentos com foco antiterrorismo. Entre as metas da operao previs-ta para novembro, segundo o Exrcito brasileiro, esto o aumento da capaci-dade de pronta resposta multinacional, sobretudo nos campos da logstica hu-manitria e apoio ao enfrentamento de ilcitos transnacionais. A operao integra uma srie de no-vos acordos militares pelas foras arma-das de Brasil e Estados Unidos e visitas de autoridades americanas a instalaes brasileiras com o objetivo de reaproxi-mar e estreitar as relaes militares entre os dois pases. Questionada pela BBC sobre como as foras armadas americanas poderiam apoiar o Brasil em reas como violncia e trco de drogas, armas e pessoas, a embaixada americana armou que o Brasil um parceiro convel e respei-tvel, que as foras armadas dos dois pases tm reas de conhecimento e experincia que compartilham rotinei-ramente umas com as outras e que a maioria das atividades bilaterais de co-operao em defesa entre nossas foras armadas so trocas entre especialistas. Para o lsofo Hctor Luis Saint Pier-re, fundador e lder do Grupo de Estudos de Defesa e Segurana Internacional da Unesp e coordenador de Segurana In-ternacional, Defesa e Estratgia da Asso-ciao Brasileira de Relaes Internacio-nais, uma alternativa a ser pensada sobre essa reaproximao seria uma inteno dos EUA de quebrar a expectativa de uma parceria sul-americana neste mo-mento poltico, diz. A Venezuela uma problema quase de honra para os Esta-dos Unidos.O especialista tambm cita o crescimento da China como produtor de equipamentos militares e armamento. H uma grave preocupao nos EUA com o incremento do comrcio da China com a Amrica Latina tambm em termos de armamento. Os EUA gastaram US$ 650 bilhes com defesa a China gastou me-nos de 10% disso, mas ainda assim j est produzindo porta-avies com bom nvel tecnolgico. Se os Estados Unidos conse-guem se aproximar o Brasil para sua zona de inuncia, eles estancam este prejuzo. Para o professor, a aproximao ame-ricana tambm poderia ser motivada por interesses econmicos.Hoje a questo estratgica est subordinada ao negcio. A indstria do armamento a que mais oresce no mundo. No preciso uma guerra: a ameaa de guerra j suciente para mover este tipo de negcio. Muitas atividades militares, inclusive, so muito mais guiadas pelos negcios militares do que por uma lgica poltica.BNDES, o alvoMichel Temer decidiu demitir a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques. O motivo: at mesmo os empresrios que apoiaram o golpe pediram sua cabea, alegando que ela trancou os cofres do banco estatal. Segundo informa Murilo Ramos, na coluna Expresso, Temer deu trs meses a Moreira Franco para encontrar um substituto. Esta notcia, que se apresenta como informao de bastidores, foi divulgada no dia 6 pelo site Planto Brasil, com o ttulo Temer demite presidente do BNDES que negou R$ 50 bilhes em emprstimos a amigos de deputados, emprstimos quebrariam o BNDES. A informao no foi conrmada. Nada sugere que ela realmente exista. Maria Silva foi colocada no Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social por alguma indicao, mas sua nomeao foi um dos primeiros atos de Temer na presidncia da repblica. Se quisesse tir-la, no iria pedir a intermediao de Moreira Franco. Na semana passada mesmo a presidente do banco fez uma palestra e deu declaraes de conana na poltica adotada pelo governo federal e no incio de fato da recuperao da economia brasileira. Num tom que nada sugere estar ela demissionria ou sendo fritada. Pelo contrrio: sua presena frente do banco estatal um indicador positivo para Temer. Tir-la o enfraqueceria. Maria Slvia considerada uma executiva sria e competente, no gurino necessrio para mudar a prtica e a imagem do banco. A notcia um tpico balo de ensaio, uma falta informao, que encontra na internet seu terreno mais fecundo para brotar e se desenvolver. A inteno parece ser a de desviar as atenes do foco no BNDES revela: foi a pea principal de alavancagem (de alavanca mesmo) de negcios especiais dos governos Lula e Dilma para a formao de bilionrios e multinacionais brasileiras, Justamente agora, nalmente, parece que a caixa preta est sendo aberta. Com a perspectiva de conter muito mais dinamite do que a da Petrobrs.

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12 Vale a pena reproduzir na ntegra a notcia publicada em 1959 pela Folha Vespertina Ela contm os ingredientes da frmula que mantinha o contrabando no Par, centrados na gura do juiz conivente, Era ele que mandava liberar os produtos contrabandeados, inutilizando o trabalho de apreenso feito pela alfndega e a Marinha, o que provocava indignao, desnimo ou adeso engrenagem de poder mais forte no Estado. Belm se ornou famosa como a capital brasileira do contrabando. Diz a notcia: De ordem do juiz Olavo Guimares Nunes, titular dos feitos da Fazenda Nacional [a justia federal ainda no existia], foram liberados na manh de hoje, fora da hora do expediente [ o grifo meu], que na Alfndega tem incio s 11 horas, vrios produtos apreendidos como contrabando. A apreenso se dera h mais ou menos 8 meses, na estrada de Icoaraci, s proximidades do lugar denominado Mata Fome, tendo sido usados para o servio 15 scais da Aduana, alm do pessoal da Marinha para isso requisitado. So, ao todo, 11 fardos de organdi suo, num valor aproximado de 2 milhes de cruzeiros, avaliado cada fardo bae mnima de Cr$ 120,000,00. A entrega foi assistida pelo promotor pblico Lobato Torres, no interior de um moderno cutia [auto mvel americano contra bandeado ] de chapa 4107, funcionando como advogado da parte o dr. Paulo Ricci. Outra mercadoria apreendida, miudezas e per fumes, de propriedade da sra. Raquel Azulay, e 16 veculos guardados no ptio da Guardamoria tero o mesmo destino? Impe-se a pergunta, visto que d. Raquel assegurou que tarde iria retirar de qualquer for ma seus produtos. Em 1960 a Pgina Artstica da Folha do Norte re alizou, na sede social do Clube do Remo, na avenida Nazar, a 1 exposio de pintura abstracionista do Par. Como a mostra teve carter didtico, as peas no foram colocadas venda para o pblico, apesar dos insistentes pedidos, juravam seus organizadores. Em seguida a pgina, editada por Elliston Altman, realizaria uma exposio de poesia concreta. Eram temas de vanguarda ento. Em 1960 os proprietrios de nibus de Belm apresentaram ao Conselho Regional de Trnsito uma planilha de custos para o reajuste das tarifas considerada abusiva.Segundo os crticos, os empresrios previam que cada quilmetro percorrido consumia um litro de combustvel, quando a propor o correta era de um litro de gasolina para 2,5 quilmetros. Calcularam os preos dos pneus pelo mercado negro. No comrcio os preos eram muito inferiores. Nesse ano, o governo calculava que cada um dos mais de 20 proprietrios de nibus tinha lucro superior a 700 cruzeiros (a moeda da poca) por dia. Uma passagem para nibus de trajeto curto era de Cr$ 4,80. Para linhas longas era de R$ 5,00. E para Icoaraci era de 10 cruzeiros. O representante do DNER (atual DNIT) no Conselho, que no aceitou a planilha das empresas, recomendou reajustes de 60%, 100% e 100% para os trs diferentes percursos.Em 1969, no ltimo suspiro de industrializao no Par,o Idesp publicou edital na imprensa anunciando que seis empresas pediram ao governo do Estado iseno do ICM (atual ICMS). A Par Industrial Nosso guaranEm 1952 a indstria local ainda era a principal fonte dos refrigerantes locais, base do guaran. O da Globo era respeitado e apreciado.

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13 queria ser isentada do pagamento de imposto para produzir artefatos de alumnio para uso domstico e sacos de papel. A Laminao Metal Norte queria o mesmo benefcio para a laminao de metais no ferrosos, acessrios para artefatos de alumnio e ar tefatos de paquelite. A Cata (Companhia Amaznia Txtil de Aniagem) requereu igualmente cobertura para o, telas e sacaria de aniagem, enquanto a Perfumarias Phebo pediu para produtos de perfumaria em geral. A Produtos Vitria pleiteou o mesmo para os seus refrigerantes e a Fosnor para os seus fsforos de segurana. As impugnaes podiam ser apresentados pelos 15 dias posteriores divulgao do edital.Isto, em plena ditadura militar. Hoje, o mesmo processo tramita apenas dentro do governo. A opinio pblica mantida distncia. No surpreende a suspeita de irregularidade que incide sobre essa concesso.No ms de junho de 1969 o Departamento Municipal de Limpeza Pblica recolheu em Belm quase cinco mil toneladas de lixo, um tero do volume de um nico dia na regio metropolitana da capital paraense atualmente. Quase trs mil toneladas foram incineradas no crematrio pblico, no bairro da Cremao. O restante foi jogado como ater ro na baixada do Curi: 900 toneladas de lixo domiciliar, 170 de lixo hospitalar, 156 da varrio noturna da cidade e 508 das feiras. Valor santarenoAt serem atacados pelo vrus da importao de jogadores de outros lugares, atravs de suspeitos atravessadores, os maiores clubes de futebol do Par valorizavam a prata da casa. To boa que tornava muito raro o uso de atletas estranhos. Em 9 de julho de 1969 o Paissandu apresentou ao pblico, na Curuzu, seu novo lateral direito, o jovem santareno Cristovam Sena. Ele honraria a tradio de qualidade do futebol mocorongo no time bicolor, genuinamente nativo e bom. Hoje, Cristovam defende as cores da sua terra atravs do ICBS, uma instituio privada que faz pela memria do Tapajs o que os governos locais nunca fizeram. Bom de bola e de cultura.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Vale: privatizao completa duas dcadasA privatizao da antiga Companhia Vale do Rio Doce completa neste ms duas dcadas. Vou reproduzir nesta seo alguns artigos que escrevi sobre o tema. O primeiro, na mesma semana em que a venda foi concretizada, em leilo na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em maio de 1997. Traduziu o gosto de cabo de guarda-chuva a que se referem os bebedores no dia seguinte ao porre. Esse gosto ruim no passou at hoje.A sensao ps-privatizao da Companhia Vale do Rio Doce a de uma ressaca. Nestes momentos, no a razo a melhor fonte de informao, mas a impresso, o instinto, a intuio. Vendo, no dia seguinte,e o empresrio Benjamin Steinbruch ser incensado pela grande imprensa e posar de playboy convertido, veio minha memria a imagem de Baby Pignatary. Nas dcadas de 50 a 70, Pignatary construiu a imagem de empreendedor que sara do farniente dourado para a atividade responsvel, criativa, inovadora. Acabou entregando ao general Geisel [o quarto presidente da repblica do ciclo militar ] a Caraba Metais, um mico que custou ao pas, por baixo, o equivalente a 500 milhes de dlares, consolidando a dependncia brasileira das importaes de cobre. A diferena talvez seja, talvez, de que enquanto por trs de Pignatary s havia Pignatary, agora temos a sensao de que uma longa sombra escura se projeta por trs do perl de Steinbruch. O lado mais visvel dessa sombra que ele substitui uma multinacional brasileira comandada pelo Estado (criao de uma faceta modernizadora do nosso inevitvel patrimonialismo estatal) por uma empresa familiar, se acreditamos na histria ocial. Se descendemos de So Tom, algoz da f religiosa e ascendente remoto do experimentalismo cientco, a corporao familiar que nos assusta, enquanto regresso na organizao empresarial, apenas uma moldura dentro da qual a tela ainda no foi colocada. Mas qual ser a tela? Steinbruch, quando muito, no ambiente carnavalesco em que o leilo de privatizao da Vale acabou se transformando, ser apenas o abre-alas da comisso de frente. A dor que ca latejando na cabea nesse day-aer de que zemos alguma coisa de muito errado no embalo do porre cvico servido nao por nosso augusto presidente. Apesar do esforo de reconstituio do que aconteceu ao impulso dos vapores etlicos neoliberais, provavelmente s teremos uma completa noo do que praticamos quando, j a razo atuando sobre informaes completas, a remisso da culpa ter-setornado impossvel. No somente por ser inaceitvel a privatizao, mas pelo tipo de privatizao que o governo praticou. Se a esmagadora maioria dos crticos da venda da CVRD teve um comportamento ditado por orientao ideolgica, tambm foi maciamente ideolgico o argumento dos que conceberam e consumaram o ato. A Vale especial o bastante para no se acomodar ao modelo de privatizao, seja eele qualquer dos modelos idealizados e executados em todo mundo at agora. Nenhum governo privatizou uma multinacional, muito menos uma empresa estratgica, que tem no seu ativo como componente mais precioso o patrimnio logstico. De forma negativa, o Brasil inovou por completo e pensa que cumpriu um receiturio rotineiro. Deixou de entregar diretamente ao seu povo uma multinacional que lhe per tencia indiretamente (e pela problemtica via da sociedade poltica), per mitindo que cada cidado arrematasse pedaos de participao societria de uma gigante que, nesses parmetros, caria com tamanho justo. Por isso o discurso pragmtico e tcnico dos privatizadores se tornou to ideolgico quanto o do PC do B, o que mais se destacou nas trincheiras (quando o combate principal foi ou deveria ter sido de estado -maior, preparatrio para o confronto aberto e direto). Ou seja: faltou ao pas a dimenso histrica do prprio ato. Se no foi supinamente maquiavlico, nosso presidente pecou no que deveria ser seu maior bem prossional: a compreenso do contexto. Vai arder nas chamas da sociologia para sempre, ainda que brilhe nos retratos ociais. Se a privatizao era o que de melhor o Brasil poderia fazer pela Vale, o dia da ressaca nos informa que no realizamos essa melhor privatizao anunciada, que cedemos espao estratgico a uma combinao de esperteza & especulao e que perdemos um dos melhores momentos que a histria nos concedeu para demonstrar nossa competncia como civilizao. O Brasil que bateu, exultante, o martelo na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, transferindo o controle da Vale para um Pignatary globalizado, de si mesmo, o que tem prevalecido nas horas decisivas: uma caricatura.

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15 STF: quem minoria? Senado aprova MP 759 que trata da egularizao fundiriaA crise no Supremo Tribunal Federal se agravou e est com um ritmo de evoluo acelerado, a ponto de provocar uma ciso interna indita. Como relator de todos os processos da Lava-Jato, o ministro Edson Fachin foi voto vencido e no conseguiu impedir que a maioria da 2 turma do Supremo Tribunal Federal mandasse soltar, em srie sucessiva, Jos Car los Bumlai, Joo Cludio Genu, Eike Batista e, por fim (ou por ora), Jos Dirceu, o crebro do PT do mensalo e do petrolo. Na vez de julgar outro mentor da organizao, o ex-ministro Antonio Palocci, Fachinsustentou o seu voto pela manuteno da priso preventiva, mas no quis mais se submeter a uma nova derrota diante do trio previsvel (Lewandowski, Tooli e Gilmar Mendes). Usou sua prerrogativa de relator e sua legitimidade para, ao invs da tur ma, submeter o habeas corpus de Palocci ao plenrio da corte, com seus 10 votos mais o voto de minerva da presidente, Crmen Lcia. Parece claro que dos cinco votos da turma, trs devero ser sempre contra Fachin: os dos ministros Ricardo Lewandowski, Dias Tooli e Gilmar Mendes. A favor, s o decano da corte, Celso de Mello. A maioria j deniu uma posio: relaxar a priso preventiva de todos os indiciados pela operao que identicou e combate corrupo dentro da Petrobrs e alm. Todos tero o direito, a partir de agora, de responder s aes em liberdade, com as cautelas denidas pelo juiz do feito, na primeira instncia, de deciso isolada. Os trs integrantes da 2 turma atingidos reagiram criticando a atitude do colega e colocando em dvida a condio de Fachin de ser relator, j que no admite ser derrotado. Os advogados de Antonio Palocci foram mais longe. Imediatamente, apresentaram um agravo regimental ao prprioFachin, solicitando que o habeas corpus em que pedem a libertao do ex-ministro volte 2 turma. Alegaram que o relator no fundamentou sua deciso de levar o HC ao plenrio do tribunal. Com ironia, obser varam que numa repblica toda deciso deve ser explicada e fundamentada. S reis e soberanos tm a liberdade de fazer o que quiserem, sem dar maiores explicaes, sob um regime imperial. Mas o prprio Palocci mudou de estratgia: decidiu negociar sua delao premiada para a fora-tarefa da Lava-Jato. E demitiu seus advogados, que queriam seguir por outro caminho. A deciso dever mesmo caber ao plenrio do STF. S ento se comprovar se o trio liberal minoritrio ou no. No caso de um empate, o provvel que a presidente com o voto de minerva, faa o que sugeriu que Fachin zesse. Nesse caso, os libertados voltaro cadeia, de onde foram tirados por Mendes, Tooli&Lewandowski. O Senado aprovou, no dia 3, por 16votos a 4,o relatrio favorvel Medida Provisria 759, que agora ser submetida Cmara Federal. Seu contedo polmico, mas ainda no posso avali-la por completo porque no cheguei a concluir a leitura e anlise de todo texto. Os senadores andaram bem mais rpido, j que a MP de dezembro do ano passado. O que me espanta ver, em to pouco tempo, ser aprovada, quase na surdina, uma MP que trata, de uma s vez, da regularizao fundiria rural e urbana no Brasil, e revoga mais de 10leis essenciais regularizao fundiria e as substitui por normas que ainda sero definidas pelo poder executivo, segundo asubprocuradora-geral da repblica, Deborah Duprat, Um processo legislativo extenso ser substitudo por um ato exclusivo do executivo, na regulamentao dos dispositivos da MP. Duprat assinou um parecer da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidado contrrio medida, que, no seu entendimento, acabaria por intensificar o grave problema da regularizao de terras no Brasil. Seria ainda um incentivo grilagem. Essa tentativa de regularizar grilagem e desmatamento tem se mostrado ineficaz, porque ela nodiminui nem a grilagem nem o desmatamento, observa. Em relao Amaznia, o objetivo bem claro: permitir que os ocupantes de terras da Unio regularizem sua situao para receber ttulos de propriedade das terras que ocupam. O responsvel pelo relatrio, senador Romero Juc, que apoiou as grilagens de terras em Roraima, onde foi governador, e dos ndios, quando presidiu a Funai, disse que se trata de uma pacificao do campo, das reas urbanas e das famliasbrasileiras, que muitas vezes passam anos em cima de processos judiciais que o poder pblico no consegue concluir. Ele cativou seus pares e os polticos estaduais e municipais garantindo que a aprovao da MP permitir ao governo arrecadar mais 105 milhes de reais em impostos a serem cobrados sobre as novas propriedades regularizadas no prximo ano. Mas esse dinheiro insignificante diante dos efeitos da concesso acelerada de ttulos de propriedade sem maior questionamento sobre a ocupao das terras, sobretudo nas reas maiores. Em 1976 o general Ernesto Geisel, que presidia o Brasil, fez igual ofensiva atravs de meras exposies de motivos que assinou, a 005 e a 006. Esta atendia os pequenos ocupantes. A outra, os grandes grileiros. Ganha um lote quem adivinhar qual dos beneficiados se saiu melhor.

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O m de Antonio Candido e dos intelectuais pblicosEmbora Antonio Candido tenha morrido aos 98 anos, no dia 12, foi com surpresa que recebi a notcia. S depois me dei conta do aparente despropsito da minha reao. Ele vivera muito, bem alm da mdia mxima mesmo para pases de alto desenvolvimento. Logo me dei conta que a causa dessa surpresa era pela constncia da presena do crtico literrio, ensasta, professor e socilogo, na sequncia das suas preferncias pelo uso das suas primorosas faculdades intelectuais. A idade no tirara a vitalidade criativa de Antonio Candido. Alm disso, a sua produo tinha um frescor de iniciante, de algum que a passagem do tempo no tirara a capacidade de se surpreender, de ser receptivo ao novo e de se superar. Parecia que o antigo professor e sempre professor seria imortal. Seus familiares informaram imprensa que a crise gstrica, que o levara ao internamento no hospital Albert Einstein, em So Paulo, no o impediu de continuar a pensar e se expressar, nem lhe causou dor. Ele morreu em paz, no meio da madrugada. Num gesto que diz muito sobre a sua personalidade, Candido orientou sua famlia a misturar as suas cinzas s de sua mulher e maior companheira intelectual, ao longo de 62 anos, Gilda de Mello e Souza, morta em 2005. Juntas, as cinzas sero depositadas em um jardim. Antonio Candido pertenceu a uma das mais brilhantes e fecundas geraes de pensadores brasileiros, que, sem ter sucessores altura, parece condenada a ser extinta pelo passar do tempo. Muitos desses intelectuais eram autodidatas, mesmo aqueles que, em minoria, tiveram atividade universitria, como o prprio Candido. Eles gostavam muito de ler, tinham um acentuado gosto esttico no exer ccio da leitura e participavam cotidianamente do mundo. No conseguiam nem podiam car isolados em estufas, como ores raras, que s prosperam nesses ambientes fechados, alimentadas pelo ar rarefeito de suposta erudio, murchando em ambientes abertos. O principal local de expresso para muitos desses intelectuais eram as revistas, invariavelmente de curta durao, mas, principalmente, os suplementos literrios ou dominicais dos jornais da grande imprensa. Muitos escreviam bissextamente, mas outros chegavam a ter colunas dirias de vasta densidade cultural, como Srgio Milliet e lvaro Lins, para citar dois dos mais expressivos dentre vrios outros. Nas pginas de publicaes de grande tiragem e alcance geral de pblico, os escritores estavam expostos curiosidade, s cobranas, s crticas e a uma exigncia que crescia confor me sua aceitao pelo grande pblico. Eram testados sistematicamente. Precisavam se aprimorar, evoluir, responder a debates constantes e intensos. Tinham vida humana porque riqueza cultural era cotidianamente posta em questo, o que os levava a ter e cultivar razes sociais, ouvir a rua. Em cada Estado do Brasil nessa poca, sobretudo nos intervalos de democracia no pas, mas fecunda mesmo sob a ditadura, esses intelectuais atuavam. As dostoivskianas Memrias do Crcere de Graciliano Ramos, no existiriam sem o Estado Novo, ao qual acabou prestando servios na Cultu ra Poltica revista ocial do regime, comandada por outro tipo de intelectual, Almir de Andrade. O tambm comunista Nelson Werneck Sodr, foi outro colaborador. A turma de Candido era integrada por gente como Dcio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho e a prpria mulher. Essa relao constante com o mundo real foi terreno frtil para a generosidade e o mpeto igualitrio de Candido, que seria um socialista fabiano se morasse na Europa, e entre ns se situou como socialista, uma denio poltica difusa que, mais por critrios ticos e morais do que ideolgicos, o levou a passar Esquerda Democrtica. O grupo daria origem em 1947 ao Partido Socialista Brasileiro, pelo qual Candido foi candidato a deputado estadual, com pouco mais de 500 votos. E, nalmente, a ser fundador do PT, em 1980, que se transformou numa crena quase religiosa, impondolhe um silncio obsequioso. Silncio que incomodou mesmo admiradores de Candido. Paulo Francis, que no era um deles, o fustigou cruelmente, mas no despido de certa razo. Um contemporneo dele, Hlio Bicudo, que tambm esteve na origem do Partido dos Trabalhadores, dele se desligou em protesto contra os erros dos petistas (passando a ser tratado como traidor e inel, na costumeira reao fantica dos militantes do PT). Numa prova de que cavaleiro sem jaa e sem macula s na mitologia. Nada, porm, por ser acessrio, tira a grandeza de Antonio Candido de Mello e Silva, o quase centenrio per sonagem nico e denitivo na histria cultural do Brasil.