Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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o a POLTICAFarinha do mesmo sacoSe a justia no punir seus principais lderes, PSDB e PMDB sero os grandes adversrios na eleio do prximo ano. Ser mais uma reedio da velha bipolaridade da poltica paraense: quando um grupo cai, o outro sobe. E nada muda de verdade. A poltica no Par como, de resto, no Brasil feita de compromissos, alianas, acertos, continuidade, conser vao. Excepcionalmente h rupturas. Raramente, porm, delas resultam mudanas efetivas. A disputa, em regra, bipolar: o grupo que sai sucedido pelo grupo que a ele se opunha, mesmo dele sendo derivado. Os dois grupos se hostilizam e a hostilidade pode ser duradoura. O que os distingue deve-se a uma realidade fsica: o poder pequeno demais para ser partilhado por mais de um grupo ou, s vezes, quadrilha, expresso mais usada em nosso tempo, do crime organizado, no mais aleatrio, bagunado, isolado. Quem sobe ao poder traz consigo os seus acompanhantes, vrios deles parentes e dependentes. No sobra tempo nem espao para aplicar alguma poltica programtica. Na repblica, poucas foram as rupturas, todas sob a regra de que tudo muda para nada mudar. Ou, na mais expressiva frase francesa, plus a change, plus cest la mme chose (quanto

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2 mais muda, mais igual ca). Em 1912 o lemismo (de Antnio Lemos) foi substitudo violentamente pelo laurismo (de Lauro Sodr). Em 1930 caiu a repblica velha e comeou o baratismo, de Magalhes Barata, o maior dos caudilhos, Derrotado em 1950, o baratismo renasceu em 1955, sobreviveu morte do lder, em 1959, mas foi destroado pelo golpe militar de 1964. O domnio dos dois novos coronis, de verdade, iniciado em 1964, acabou em 1982, quando um (Alacid Nunes) traiu o outro (Jarbas Passarinho) para eleger o oposicionista Jader Barbalho, mais baratista do que verdadeiramente oposicionista. O poder de Jader sofreu um golpe em 1998, com a ascenso do seu ex-correligionrio, o mdico Almir Gabriel, fundador do PSDB no Par, e com a continuidade dos tucanos por 16 anos, com a ligeira passagem da petista Ana Jlia Carepa pelo poder, entre 2011 e 2013. Essa rotina de mudana para no mudar dever continuar em 2018, colocando o PSDB e o PMDB novamente na gangorra do poder, se acontecimentos nacionais no impedirem o gover nador Simo Jatene de ser um grande eleitor na eleio do prximo ano e o ministro Helder Barbalho de ser o candidato favorito. Um arranca-rabo, daqueles nos quais a linguagem violenta prevalece, disfar ando a falta de programas pelos ataques pessoais mtuos, entre o candidato do governador (ainda mais se Jatene per manecer no cargo at o m, deixando de ser candidato ao Senado) e o lho de Jader ,s no acontecer se ambos forem alcanados pela justia federal, em algumas das suas instncias pelas quais ambos esto sendo processados. O governador est ameaado por denncias de corrupo, crime eleitoral e improbidade administrativa, enquanto o ministro da Integrao Nacional, mais o pai, esto sob a mira da Operao Lava-Jato por corrupo, como benecirios de propinas pagas por empreiteiras. A possibilidade de serem punidos antes da eleio de 2018 no a mais factvel. No porm, impossvel. Se um dos principais contendores previsveis ou ambos forem punidos, poder se abrir perspectiva para uma das mudanas que nada mudam, tanto por falta de lideranas como de algum sinal de preocupao real e competncia provada das elites locais com os desaos do Par. A hiptese mais provvel, ou, ao menos, aquela mais considerada pelos prprios lderes, de que novamente eles mediro foras no prximo ano. Preparando-se para esse momento, Simo Jatene comeou seu terceiro e ltimo mandato como governador acrescentando ao topo da extensa cpula da administrao pblica estadual trs secretarias extraordinrias, dentro de uma estratgia de longo prazo para se manter no poder, mesmo que indiretamente. Uma nova secretaria de integrao de polticas sociais o governador deu lha, Izabela Jatene de Souza. Outra secretaria, encarregada de coordenar o programa municpios verdes, cou com Justiniano de Queiroz Neto. A ter ceira, incumbida de tratar do governo e assuntos institucionais, foi reservada ao ex-vice-governador (no segundo mandato) Helenilson Pontes. Embora os indicados ostentassem currculos que os credenciavam a tratar, em tese, dos assuntos de cada pasta, o ponto em comum entre esses rgos era o o condutor da poltica. Helenilson teria uma ncora para servir continuidade da sua carreira poltica. Izabela podia comear a se preparar para reivindicar uma cadeira na Cmara Federal. E Justiniano era o representante da repblica de Paragominas, com o candidato potencial sucesso de Jatene: o secretrio de desenvolvimento econmico, minerao e energia, Adnan Demachki. O extraordinrio nessas secretarias estaria no propriamente na nfase ou prioridade s suas especializaes, mas possibilidade de serem criadas para o m poltico desejado e serem extintas quando o objetivo fosse atingido. Essa frouxido (e certo relaxamento institucional e programtico) teve a sua comprovao reforada pela deciso que Jatene ps em prtica no dia 25. Sua lha deixou a secretaria extraordinria de integrao de polticas sociais para ocupar uma nova secretaria, a dos municpios sustentveis. Heitor Pinheiro a substituiu no rgo original. Como Justiniano permaneceu onde estava, o governo Jatene passou a ser o mais municipalista da histria republicana do pas. Izabela cuidando dos municpios sustentveis e Justiniano dos municpios verdes. O tucano-mor poderia ter apresentado todas as suas contumazes justicativas para a dualidade, mas dicilmente convenceria qualquer auditrio, mesmo o embandeirado para a nova partilha de secretarias, de que no h redundncia e superposio. A indita prioridade aos municpios, sublinhada no convescote realizado para o anncio da nova ofensiva, sobreviver eleio do prximo ano, planos e programas lustrosos parte? Mais um indicativo: a secretaria que foi de Helenilson Pontes desapareceu. Seria porque o tributarista santareno saiu do redil tucano ou os assuntos de governo e institucionais caram fora de moda? Em qualquer resposta, o sentido utilitrio da criao desse quisto no escalo superior da administrao pblica estadual ca provado. Quem est no poder se sente no direito de us-lo conforme lhe aprouver para no perder o que conquistou: esse mesmo poder. o que tambm faz, no mbito da administrao federal, o candidato potencial do PMDB e seu patrono, o pai, senador Jader Barbalho. So duas mquinas pblicas a servio de interesses privados, duas faces da mesma moeda, dois iguais em confronto agressivo e vazio, de nvel cada vez mais baixo e personalizado. Essa diferena apenas aparente se manifestou no artigo que Jatene assinou na edio do dia 24 de O Liberal para atacar a famlia Barbalho com acusaes e expresses agressivas. No dia seguinte, o Dirio do Par publicou sua resposta a um governador desgovernado. Um acusou o outro de agir por desespero, ambos na iminncia de verem suas car reiras e pretenses polticas frustradas por decises da justia, onde so rus. O Par j teve polmicas melhores e causas mais nobres. Se realmente escreveu o que o jornal da famlia Maiorana acolheu, ento melhorJatene procurar um professor de portugus. Porque escreve muito mal. Se a obra de um assessor, melhor dispens-lo. incompetente. Apesar das palavras duras que usou, como ao chamar os adversrios de canalhas, o governador no deu nome aos bois. Contraditoriamente, diz que distingue a famlia Barbalho de alguns

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3 de seus membros, nos quais centrou seu ataque, mas em nenhum momento cita os dois nomes que alveja: o senador Jader Barbalho e seu lho, o ministro Helder Barbalho. Falar de Jader no lustra o currculo de Simo Robison Jatene. Ele foi secretrio de planejamento ao longo de todos os quatro anos (1983/87) do primeiro mandato de Jader como governador do Par. Nesse perodo estouraram alguns escndalos, resultantes do uso ou do desvio de recursos pblicos, o mais famoso dos quais o escndalo do Aur, mas Jatene permaneceu quedo e mudo. No disse uma nica palavra. No lhe convinha. Quando Jader assumiu os ministrios da reforma agrria e da previdncia social na administrao Sarney, Jatene o acompanhou como secretriogeral. Continuou rouco de tanto ouvir, como seu guia e padrinho a partir de 1988, Almir Gabriel, que acompanhou na fundao do PSDB, depois de ambos serem jaderistas de conana. Jatene s comeou um tatibitate anti-Jader em 1994, em funo da candidatura de Almir ao governo do Estado. Nada, porm, que impedisse a consumao de alianas eleitorais convenientes e oportunistas, at que Jatene se entregou completamente aos interesses da sua parceria com o grupo Liberal. No seu artigo, ele fustiga as fortunas mal explicadas e imprios construdos sobre pntanos dos Barbalhos. Jatene teve a possibilidade de denunciar esse captulo nebuloso e cabuloso da biograa do lder do PSDB no Par. Jader se tornou dono da RBA em 1989, logo depois da morte do fundador da emissora, o empresrio Jair Bernardino, em acidente de aviao. Diz-se que a transao custou 13 milhes de dlares da poca. Na verdade, custou muito pouco. Jader assumiu a dvida da televiso, que era grande com a Receita Federal e, sobretudo, com a previdncia social. Sopa no mel: Jader era, naquele momento, justamente ministro da previdncia social e Jatene era o seu el secretrio-geral. As acusaes contra Jader e seu modo de enriquecer misteriosamente no usufruto de cargos pblicos antiga e se renova pelo silncio do acusado a respeito. O mutismo estratgico, mas sobre ele incide o ditado popular de que quem cala, consente. Ao contrrio do que proclama no seu texto errtico, porm, Jatene no o outro lado da poltica, da tica e da moral a servir de contraste aos malfeitos dos Barbalhos, de todos conhecidos. No a banda sadia no saco de laranjas nem o trigo perdido no meio do joio. poltico do mesmo tipo, um tipo de poltico, com toda sua fauna acompanhante, familiar ou de turma, que tem feito muito mal a este sofrido Par. Com seus atos e com tristes e pobres polmicas, como a que resultou do artigo do governador, respondido por um editorial do lder do imprio mal explicado da famlia Barbalho. Mais uma vez, os dois lados s tem razo quando acusam.Carajs bate recorde (quem ganha com isso?)Carajs bateu o recorde de produo em um trimestre: produziu 36 milhes de toneladas de minrio de ferro nos trs primeiros meses deste ano, graas entrada em operao da jazida de Serra Sul. O Sistema Norte, integrado por Carajs, Serra Leste e S11D, contribuiu assim para que a Vale, dona de toda a provncia mineral, tambm batesse seu recorde de produo geral, com 86,2 milhes de toneladas. O resultado foi 11,1% maior do que o registrado no primeiro trimestre do ano passado, principalmente pelo incio da explorao comercial em Serra Sul. Se mantida essa mdia, Carajs chegar ao nal do ano com mais de 140 milhes de toneladas, recorde absoluto na sua histria. Antes do nal da dcada atingir 230 milhes. Graas a esse volume maior, a mineradora Vale obteve lucro lquido de quase 7,9 bilhes de reais no primeiro trimestre de 2017. O lucro operacional, obtido sem incluir juros, impostos, depreciao e amortizao, foi de R$ 13,52 bilhes. A receita lquida da companhia somou R$ 26,7 bilhes J a dvida lquida da empresa baixou de 25 bilhes de dlares (quase 90 bilhes de reais), no nal do ano passado, para US$ 22,77 bilhes em maro. Uma questo constantemente suscitada em torno da minerao, a atividade produtiva mais importante (e menos conhecida) do Par. Anal, o beneciamento do minrio de ferro feito pela Vale em Carajs industrializao? Uma base factual para a resposta pode ser encontrada em 1998. Em dezembro desse ano, o Conselho Deliberativo da Sudam (Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia) concedeu iseno de imposto de renda aos projetos de extrao de mangans e ferro da Companhia Vale do Rio Doce na Serra de Carajs, no Par, por considerar que eles promoviam a industrializao da matria prima. No perodo de 10 anos da durao do benefcio, a renncia scal equivaleria a 1,2 bilho de reais (valor da poca): R$ 80 milhes anuais do projeto fer ro e R$ 40 milhes do projeto mangans. O DNPM (Departamento Nacional da Produo Mineral) contestou a caracterizao do processo como beneciamento, ressaltando que se tratava de mera extrao mineral, ainda que mecanizada. Idntico entendimento teve a Procuradoria Regional da Repblica e a Receita Federal, que no concordaram com a medida. Mas ela foi adotada. Fantasia virtualQuase todos os dias a informtica do Banco do Estado do Par para de funcionar. Segundo os funcionrios do Banpar, isso o que geralmente acontece em dia de pagamento dos servidores pblicos estaduais, todos obrigados a ter conta na instituio para receber os seus vencimentos. O sistema ca congestionado, entra em colapso e sai do ar, para desespero de todos os envolvidos nas operaes, clientes e funcionrios. Reclamaes e apelos tm sido feitos, mas at agora no foram sucientes para que a rede se torne capaz de suportar a intensicao da demanda. O jeito ir para frente da televiso e esperar pela bela pea de propaganda do banco, estrelada (ao custo de 200 mil reais) por Marcelo Ts. Ao menos na agncia virtual do Shopping Boulevard, o sistema no cai.

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4 Mangueiras, Belo Monte e SunA questo das belas mangueiras (Mangifera indica L.) que ornamentam considervel parte de nossa antiga cidade de dupla funo: ao mesmo tempo em que oferecem o clima ameno, resguardando-nos da ao direta dos raios solares, de temperatura escaldante de 35 graus na sombra, acrescido da umidade relativa do ar na faixa de 90%, produzem frutos que vo saciar a fome e so, em certas fases do ano, receita adicional de centenas de nativos que praticam a sua colheita de forma amadora a despeito do ar reganho da autoridade scalizadora ocasional. So responsveis pelas sombras acolhedoras para abrigar nossos carros e casas, ao mesmo tempo em que os destruiro na eventualidade de suas quedas, acossadas por ventos e chuvas torrenciais. Tambm ameaam a rede de eletricao, impondo-nos passageiras falta de energia, mas podem ser a razo de a concessionria substitu-la por um sistema eltrico mais moderno, o subterrneo, por exemplo. So incontveis os problemas acarretados, sobretudo pela ausncia de assistncia tcnica especializada e consistente, o que leva ao seu extermnio consentido, conforme assinalou, com muita propriedade, a matria com o ttulo As mangueiras de Belm: um presente ou um estorvo?, do Jornal Pessoal n.627, pgina 14. Temos muitas incertezas com as nossas mangueiras de origem africanas, porm no insolveis para chegarse ao ponto de optar-se troc-las por outro tipo de vegetao de porte mais apropriado infraestrutura urbana moderna, como sugere o ilustre mestre Jonas Veiga (citado na matria). Sem a inteno de polemizar, deve-se insistir na manuteno do universo atual de rvores e cuidar de pesquisar outras espcies ou variedades (no sei se os termos se equivalem na taxionomia vegetal) de menor porte, com razes laterais e pivotantes menos agressivas, de modo que convivam harmoniosamente com a infraestrutura existente. No bairro da Pedreira j foram plantadas indivduos com essas caractersticas, e a populao espera que a iniciativa no se restrinja a este logradouro, a ao deve se expandir por toda a cidade, especialmente nos bairros que se expandiram no eixo da Rodovia Augusto Monte Negro e BR-316. Quanto instalao de grandes projetos no territrio amaznico, independente de sua natureza, j temos a idade, maturao e j devamos possuir planejamento a altura de enfrentar todas as vicissitudes mostradas pela reportagem de um jornal de So Paulo, comentando o trabalho de pesquisa dos professores da UFPA, sobre segurana pblica em ter ritrio de vanguarda (JP j citado). Todo esforo intelectual nesse sentido bem-vindo, porm preciso que o Estado se sensibilize para aditar sua plataforma de mobilidade social e segurana pblica as recomendaes de estudos acadmicos. No entanto, no isso que se v, ao contrrio, por conta da chegada de forasteiros em busca de ocupao ou simplesmente migrao espontnea e a apatia governamental, as reas de fronteira sofrem o que os entendidos chamam esgaramento social, congurando todo o tipo de violaes legais possveis. Como exemplos signicativos de passado recente, podemos citar a construo da Usina Hidreltrica de Tucurui, os garimpos ao longo do curso do Rio Tapajs (Santarm, Itaituba); formao da ento corrutela Castelo dos Sonhos, na BR-163, Distrito de Altamira, que produziu a gura do Rambo do Par, na pessoa de Mrcio Martins. No momento temos as atenes voltadas para o projeto de extrao de ouro, nas proximidades do complexo hidreltrico de Belo Monte, da Belo Sun, tambm na regio do Rio Xingu, com processo de assentamento j liberado pela SEMAS-PA. Vale lembrar que a Belo Sun Minerao Ltda., a subsidiaria brasileira da Empresa canadense Belo Mining Corporation, que pertence ao grupo maior Forbes & Manhattan Inc. Banco Mercantil privado com projetos de minerao em todo o mundo. Para no perder mais tempo e espao informa-se que esse caso est rolando desde 1980/90. H muitas controvrsias, mas a principal saber-se por que a Secretaria do Meio Ambiente e Sustentabilidade SEMAS expediu o licenciamento de explorao, quando por lei deveria ter sido pelo IBAMA. bom frisar que o irrequieto ex-milionrio Eike Batista esteve envolvido na tramitao desse negcio desde os tratamentos iniciais em 1980. Mais informaes podem ser encontradas na matria de Telma Monteiro, intitulada Belo Monte a forma de viabilizar denitivamente a minerao em terras indgenas, que, salvo engano, na poca (2012), passei a notcia para o editor desse Jornal Pessoal. Vamos ao Aproveitamento Hidreltrico de Belo Monte AHE. Neste caso, no se pode simplesmente projetar receitas/despesas e extrair o resultado (lucro/prejuzo). Aqui prevalecem outras variveis, muitas prdigas e inerentes aos indivduos que militam nos aglomerados dos grandes negcios. Estamos sentido esse efeito nos desdobramentos da Operao Lava Jato. Portanto, superada esta fase, com os prejuzos passageiros, chegar o momento que ela comear a dar resultados positivos continuadamente, a menos que, por catstrofe natural, o Rio Xingu seque. No devemos trabalhar com esta hiptese. verdade que o projeto enfrentou e vem enfrentando muitas diculdades, desde protestos e campanhas nacionais/internacionais movidas com o intuito de defenderem o meio ambiente e as repercusses negativas sobre comunidades indgenas at criticas infundadas na concepo do projeto tcnico, cujo impacto no desempenho da planta original foi muito signicativo. Rero-me sobre o tamanho do lago (reservatrio) para movimentar as turbinas que cou restrito a uma dimenso incompatvel com as exigncias tcnicas iniciais e o comportamento anual do uxo de guas do rio Xingu, o que ocasionou uma sensvel reduo na produo de energia. Deixo claro que os comentrios precedentes so interpretaes de tcnicos com reconhecida experincia nessa rea. O encarecimento da obra tambm devido s inmeras paralisaes no decorrer de sua execuo, seja por parte da populao indgena, seja pela mobilizao da procuradoria da repblica,

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5 Os mandarins da repblica A justia corporativaobrigando o consrcio construtor a cumprir com as clusulas contidas nos EIA/RIMA. A situao ca mais constrangedora quando um juiz, atendendo demanda dos procuradores, manda suspender as atividades e logo em seguida, por convenincia ou interesse da Unio ou recurso do prprio Consrcio, um magistrado da hierarquia superior suspende a sentena (como est acontecendo neste momento em que escrevo), criando um clima de insegurana jurdica, com reexo negativo, inclusive, nos cumprimentos dos prazos do cronograma de execuo da obra. Apesar de estar j na fase de motorizao das turbinas, o projeto orado inicialmente em cerca de R$ 20,3 bilhes, hoje seu preo ultrapassa R$ 35 bilhes. Um investimento com essa grandeza monetria no d para ser conduzido na base do amadorismo inconsequente. Como vimos, h prejuzo no processamento da AHE de Belo Monte, mas no com a conotao que encontramos em certas matrias veiculadas na imprensa falada e escrita. Em 2014, menos de 20% dos Estados que integram a federao brasileira abocanharam quase dois teros (65%) da riqueza nacional. Foram So Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paran. O PIBper capitado pas nesse ano foi de 28,5 mil reais. Mas no Distrito Federal, capital do pas e sede de uma das maiores burocracias do mundo, o PIB individual era mais do que o dobro da mdia nacional: R$ 69,2 mil. Bem atrs, com 36% a menos, cou o Estado mais industrializado e, em termos absolutos, o mais rico do pas, So Paulo, com PIB per capita de R$ 42,2 mil. Em seguida, a ex-capital, o Rio de Janeiro, com R$ 40,7 mil. No rabo da la, o Maranho do ex-presidente da repblica, Jos Sarney, com R$ 11,2 mil, atrs mesmo do lendrio Piau, com seus R$ 11,8 mil de PIB per capita. Cada cidado do Estado campeo de pobreza, tradicional vizinho do Par, ganhava em 2014 83,80% menos do que o habitante de Braslia. preciso levar na devida considerao esse contraste brutal nas anlises polticas sobre o peso do Estado, que o brasileiro comum carrega nas costas, e os argumentos insinuantes e sinuosos de que se valem de alguns grupos de presso para manter esses absurdos. O funcionalismo pblico tem um poder de persuaso, manipulao e presso maior do que de qualquer outro grupamento social. Basta lembrar que a mdia do vencimento de um servidor pblico trs vezes maior do que o salrio mdio de um trabalhador em empresa privada. Sem considerar as vantagens funcionais e seus privilgios. A burocracia pblica se tornou uma verdadeira nova classe capitalista, embora com feio socialista, apenas formal. Suas teses podem coincidir com as da sociedade, mas preciso examin-las com rigor e profundidade para chegar a uma concluso lgica e justa. No uma anidade automtica. So corpos sociais distontos e, em vrias circunstncias, opostos.Ao escrever e publicar determinados textos, o jornalista tem a expectativa de provocar a manifestao do seu leitor. Tive essa esperana ao divulgar no meu blog um registro curto e significativo sobre uma demonstrao do corporativismo do poder judicirio. No entanto, apenas trs pessoas se manifestaram, e de forma sumria. Por entender que a questo deve se tornar de conhecimento mais amplo e atrair o interesse, reproduzo a nota com seus trs comentrios.O Tribunal de Justia do Par cometeu uma faanha: censurou a pena por ele prprio aplicada. Em sesso realizada hoje, o Pleno aplicou a pena de censura a um juiz j submetido a outros processos administrativos disciplinares. Quem ele ? O tribunal se recusa a infor mar aos jurisdicionados. Trata-o apenas pelas suas iniciais: C. D. F. L. A punio, adotada por maioria de votos, foi porque o juiz infringiu o princpio da imparcialidade, ao dispensar tratamento diferenciado a partes e advogados, beneciando-os ou prejudicando -os no exerccio da funo judicante. No mesmo PAD foi includa a magistrada M. A. S. P., que foi absolvida da acusao de suposto conluio ou favorecimento de advogados. No houve qualquer comprovao nos autos do processo de que a dona dessas iniciais tenha infringindo a legislao vigente, em deciso unnime dos desembargadores. Espera-se que um dia o judicirio paraense no se vexe de dizer quem so os maus juzes, merecedores de punio. Nesse dia, provar que o esprito pblico j predomina sobre o esprito corporativo.Deusdedith Brasil Ilegalidade. E o princpio da transparncia? Lcio Flvio Pinto No seguido nem pelo judicirio nem pela OAB, que adota o mesmo procedimento no conselho de tica. Mas quando o punido o Joo da Silva, s faltam colocar o CPF e o fator RH. Alm de violar os princpios da transparncia e do interesse pblico, ignoram a igualdade de todos perante a lei. Jose Silva Aparentemente a transparncia somente vlida para os Q.N.P.J. Tvora Dessa vez no indicaram nem em qual comarca o Juiz estaria lotado. Pelas iniciais tenho ideia de quem seja, mas como no tenho certeza no registrarei.

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6 Lava-Jato: ningum acima das suspeiesA Operao Lava-Jato como um tsunami moral, que agora desce ladeira abaixo sem resguardar ningum. Sancionou o princpio popular de que quem, atingido por ela, for podre, que se quebre. Todos os citados devem sociedade uma explicao. Acabou a presuno de inocncia. Todos so culpados at prova em contrrio. A inverso do brocardo jurdico no vale para os processos judiciais, que precisam respeitar a letra da lei. Mas est em vigor no julgamento popular. Aos poucos, duas entidades mantidas sombra esto emergindo: o poder judicirio (o que natural: seus integrantes, com a palavra nal sobre os litgios e contenciosos, podem manejar a espada de Dmocles sobre as cabeas alheias) e a imprensa. O quarto poder comeou a ser iluminado nas edies de hoje da imprensa nacional. Todos os jornais infor maram que delator Benedicto Jnior, ex-presidente da Odebrecht, teria entregado aos investigadores da Lava-Jato uma planilha relacionando o custeio das obras da linha 2 (de cor verde) do Metr de So Paulo a um pagamento de dois milhes de reais para a GW Comunicao. Um dos donos da empresa era o marqueteiro Luiz Gonzles, responsvel por campanhas eleitorais do PSDB dos tucanos, de Mrio Covas, Jos Serra e Geraldo Alckmin, dentre os tucanos de maior plumagem, tanto para a prefeitura quanto para o governo do Estado e a presidncia da repblica. Eleitos seus clientes, a GW, junto com a Lua Branca, que atuava como seu scio, cavam com aconta publicitria desses governos. Um dos fundadoresda GW foio jornalista Gilnei Rampazzo (junto com Wianey Pinheiro e Woile Guimares). Gilney casado h 30 anos com Eliane Catanhde, comentarista da Globo News e articulista de O Estado de S. Paulo. Gilney atuava na GW em 2004, poca referida na planilha da Odebrecht sobre o pagamento de propina, segundo o noticirio sobre a delao do dirigente da empreiteira. Ele no detalhou, porm, nem a forma e nem como os valores foram repassados agencia. Apenas informou que foram localizados pagamentos para a empresa GW. Mas um relatrio produzido pela Polcia Federal a partir do mesmo material reproduz troca de e-mail entre Benedicto Jnior, Marcelo Odebrecht e Fabio Gandolfo, ento diretor da Odebrecht em So Paulo. A mensagem, de 30 de agosto de 2004, trata da programao de pagamento de R$ 2 milhes relacionados obra da linha 2 do metr com as expresses comunicao=GW, careca=amigo PN. Amigo PN e careca seriam a mesma pessoa: Jos Serra, ento vizinho de Pedro Novis (PN), ex-presidente da Odebrecht. O elo entre a GW, Gilney e Eliane ainda muito tnue e inconsistente. Marido e mulher podem manter suas independncias profissionais e ter respeito pela opinio um do outro. Mas a atuao de Eliane Cantanhde na cobertura dos fatos da Lava-Jato no lhe permitem guardar silncio sobre o assunto. No por lhe dizerem respeito de alguma forma, a mais indireta que seja. Mas porque um fato relevante. Pode ser a primeira brecha aberta na barragem de conteno do noticirio sobre a participao da imprensa na enorme e densa sujeira que j enlameou polticos, empresrios, executivos e tcnicos. O silncio, neste caso, incomoda. Mais do que isso: di. Digo isso como jornalista, como conhecido ou amigo dos personagens envolvidos na trama e como admirador de alguns deles ou de quase todos. Gostaria de continuar a admir-los.O poltico de togaO boquirroto ministro Gilmar Mendes apregoou que o juiz Sergio Moro passou dos limites e o Supremo Tribunal Federal deixou isso claro ao conceder habeas corpus a dois rus presos pela Operao Lava-Jato, na semana retrasada. O STF no iria mais tolerar a farra das prises preventivas, que duram longos perodos, sem justicativa comemoraram os advogados dos presos e os que os seguem. Mendes explicou que a priso preventiva deve ser excepcional. S deve ser decretada quando os pressupostos exigidos pelo Cdigo Penal forem preenchidos e quandono for cabvel medida alternativa. Na viso do ministro adecisodo STF foium sinal importante para os abusos que podem estar sendo cometidos. No entanto, a deciso da segunda tur ma do Supremo no foi unnime. O relator, Edson Fachin, foi voto vencido nos julgamentos de Joo Carlos Genu (ex-assessor do PP) e do pecuarista Jos Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula. Ele tambm foi contra o recebimento pelo STF do pedido de liberdade provisria do ex-ministro Jos Dirceu, mas prevaleceu a posio os colegas. Reagindo, Fachin antecipou seu voto em relao ao mrito da questo, as ser analisado pelos outros ministros s depois da manifestao do Ministrio Pblico. Para Fachin, Dirceu deve continuar preso porque j foi condenado duas vezes pelo juiz Sergio Moro. O petista est preso desde agosto de 2015. apontado como um dos responsveis por criar o esquema de corrupo na Petrobras quando era ministro da Casa Civil, no primeiro governo Lula, comandando nesse esquema. A deciso de um dia e o comentrio de outro parecem materializar uma previso feita em fevereiro por Gilmar Mendes. Ele disse que o Supremo teria um encontro marcado com as alongadas prises que se determinam em Curitiba. O encontro aconteceu. E vai se repetir cada vez mais, como sujere a libertao de Eike Matista, na semana passada, pelo mesmo Gilmar Mendes.

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7 Greve do dia 28: um apelo vazioA mais importante e mais grave notcia do dia 28 no se originou nas manifestaes de protesto realizadas em todo pas contra as reformas trabalhista e da previdncia social. Foi o crescimento do desemprego no Brasil, medido pelos rgos ociais. A la dos excludos da economia chegou a 14,2 milhes de cidados, taxa de 13,7%. A uma mdia simples de trs dependentes per capita, seriam quase 50 milhes de pessoas (um quar to de toda populao) atiradas rua da amargura. o maior volume de desempregados da histria nacional. A combinao dos dois fatores devia produzir um resultado explosivo: drenar para os protestos coletivos o combustvel do desemprego, numa mistura de raiva, indignao e revolta. Mas as manifestaes caram aqum do que seus organizadores esperavam. Talvez no tenham os resultados pretendidos: de sustar a tramitao e a aprovao das duas iniciativas do governo Michel Temer. Quem sabe essa frustrao se deva ao fato de que a rejeio s reformas se centra nos componentes de futuro da condio trabalhista: penso, aposentadoria, regulao jurdica da relao entre o capital e o trabalho, enquanto aquilo de que o brasileiro mais precisa neste momento ter onde trabalhar para conseguir seu sustento e o dos seus dependentes. O efeito mais evidente das manifestaes da semana passada foi impedir que cidados com emprego certo chegassem aos seus locais de trabalho. O empenho demonstrado impressiona. Gente esperando por longo tempo pelo aparecimento de um meio de locomoo, em muitos casos desistindo depois de horas de imobilizao para voltar s suas casas. S os dogmticos e fanticos no conseguiro perceber o esforo de milhes de homens e mulheres comuns de chegar de qualquer maneira ao ponto da realizao dos seus compromissos e tarefas cotidianos. Impedidos de seguir, naquilo que se revelou o maior objetivo da greve, eles se expuseram a ter o ponto cortado, a no obter os ganhos extras, que s o exerccio dos seus cargos permite (como as gorjetas e comisses) ou deixar de realizar alguma tarefa que deveria ter sido cumprida impreterivelmente naquele dia. A conjuno dos dramas pessoais com os seus efeitos coletivos resultou em um dia de prejuzo numa economia que precisa trabalhar cada vez mais para encontrar, pela via de criao de riquezas atravs do trabalho, a soluo mais positiva e saudvel para a crise brasileira. Se a j complicada luta pela sobrevivncia no estivesse delimitada, sujeita ou condicionada por um monstro chamado disputa poltica pelo poder, busca da hegemonia e explorao do patrimnio pblico, seria menos difcil encontrar uma maneira de conduzir o pas para longe do precipcio do qual se avizinha. Mas at a racionalidade na busca por respostas est sendo bloqueada por pressupostos polticos ou ideolgicos. Se as manifestaes tivessem sido concebidas e programadas considerando a situao real do pas, os manifestantes podiam se concentrar em pontos estratgicos da cidade, preparar o ambiente adequado para um enorme comcio, selecionando pessoas capazes de orientar os participantes do ato para tomar as decises mais bem informados. Produziriam melhor impacto poltico do que bloqueando ruas, estradas, pontos de embarque e equivalentes, cujo resultado parar as cidades, interromper a circulao, impedir as pessoas de cumprir suas obrigaes. Aquele que deveria ser o destinatrio da iniciativa se torna o maior prejudicado por ela. A principal restrio reforma da previdncia social tem um tamanho homrico. Enquanto o governo se alarma por sangrias no errio de dezenas de bilhes de reais para cobrir o dcit previdencirio crescente, que vai exaurir o caixa nos prximos anos, os crticos dizem que se a receita destinada previdncia no fosse desviada para outros ns, o saldo atual seria de R$ 28 bilhes. Logo, a reforma proposta para estancar a hemorragia e tirar o governo de um dcit scal crnico, voragem que tritura a riqueza nacional, balela, conversa para boi dormir, misticao. H a questo real do envelhecimento acelerado da populao brasileira, que conspira contra o equilbrio nas contas de dever e haver da previdncia, mas o governo Temer ilegtimo sustentam os que o negam. Por que no deixar momentaneamente de lado essa questo jurdico-poltica, sem esquec-la jamais, e partir para uma discusso tcnica mais ampla? O legislativo poderia at contratar, atravs de projeto de lei e concorrncia pblica, uma auditagem internacional independente para denir em nmeros os impasses elementares dessa polmica. A denio legitimidade viria em seguida. Os petistas podem ter razo de colocar acima de tudo o afastamento de Temer da presidncia e a preser vao de Lula para 2018. Mas eles no podem impedir que se propaguem os dados sobre os governos, os do PT, que mais desviaram recursos de fundos de penso, do tesouro nacional e de outras fontes com outra serventia para criar bilionrios e multinacionais brasileiras, resultando no maior esquema de corrupo j revelado em toda histria, daqui e de qualquer outro lugar do planeta. Como as mais recentes manifestaes pblicas, pr ou contra, a da semana passada seguiu-lhes a tendncia declinante, apesar de convocada por todas as centrais sindicais, um olho no cliente e outro na preservao desse nojento imposto sindical, inspirao fascista, travestida de democrtica, para atrelar ao Estado a direo sindical. Se faltou gente nos atos de protesto de hoje para que a voz das ruas soasse soberana e impressionante, restou um murmrio unssono nos pontos de nibus, nas estaes de trem, nas ruas desertas. O povo brasileiro quer trabalhar. S pelo trabalho o pas ir se recuperar. E o que mais falta a cada dia ele: o trabalho.

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8 Moro erra: Lava-Jato pode se enfraquecerO juiz Sergio Moro cometeu a primeira srie de erros crassos na instruo dos processos da Operao Lava-Jato, trs anos depois de t-los recebido. Primeiro, ele exigiu a presena do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, como ru que em todas as audincias para ouvir as 87 testemunhas que ele ar rolou em sua defesa. faculdade do juiz dispensar ou no o comparecimento do ru a essas audincias. A praxe adotada por Moro era a dispensa. Mudou de procedimento por achar com toda razo que o extenso rol medida protelatria, visando prolongar a durao do processo. Se car caracterizada a protelao, a parte adversa pode arguir a litigncia de m f e pedir a condenao de Lula ao pagamento de multa por obstruir a fruio da ao. O que no pode o juiz rmar esse entendimento de ofcio, sem provocao das partes. O segundo erro foi cometido ontem: Moro concordou em dispensar Lula se ele reduzisse a quantidade de testemunhas. O julgador no pode ter esse comportamento. evidente a tentativa de obstruo porque os depoimentos de testemunhas que j foram ouvias em outros processos poderiam ser supridos atravs de provas emprestadas. Mas novamente essa iniciativa da competncia da parte contrrio, cabendo ao juiz deferir ou no o pedido. Esses dois erros elementares indicam que Srgio Moro est perdendo o domnio objetivo da instruo processual, deixando-a ser contaminada por elementos deletrios de subjetividade, que podem se tornar em sadas de emergncia para frustrar as esperanas dos que esperam uma produo honesta, objetiva e competente da verdade dos fatos. Qualquer que ela seja, tem que ser sucientemente slida para resistir a todos os questionamentos e ardis. A pressa, o aodamento e a irreexo podem botar tudo a perder, se no que se acredita que, ao m da produo de provas, o tudo a realizao da justia, com a punio dos culpados.O advogado Aury Lopes Jr. e Alexandre Morais da Rosa, juiz de direito em Santa Catarina, assinaram um artigo sob o ttulo Por que Lula e nenhum acusado precisa ir a oitiva de testemunha, publicado no site Conjur, especializado em direito. Apesar de bem exposto e sustentado, o artigo provocou polmica. Em meu ponto de vista, por tentar transformar em norma positiva, regra objetiva e categrica, um entendimento que interpretativo, tanto o deles quanto o do juiz Srgio Moro, sobre as testemunhas de defesa do ex-presidente Lula e o comparecimento dele,q eu ru no processo, audincia na qual essas testemunhas sero ouvidas, em Curitiba. Os dois autores criticam o juiz da Operao Lava-Jato, armando que ele violou a lei. Outros entendem que Moro fez uma interpretao diferente, aproveitando-se de lacuna da regra processual a respeito do comparecimento de Lula, que ele inicialmente exigiu como resposta a iniciativa que entendeu protelatria, para alongar a durao do processo e, talvez, alcanar a prescrio ou dar maior peso poltico ao, em favor de Lula. Reproduzo o artigo e os comentrios para proveito dos leitores.O juiz Sergio Moro determinou que o ex-presidente Lula compareaao depoimento das 87 testemunhas de defesa. A deciso ilegal e demonstraremos o motivo. Em primeiro lugar, cabe deixar claro que qualquer ru, assim como a acusao, pode arrolar, em nome da ampla defesa e do contraditrio, at oitotestemunhas para cada imputao. O nmero de testemunhas assusta porque o Ministrio Pblico Federal deu essa possibilidade ao cumular diversas imputaes. Logo, no foi invenonem abuso do acusado. Est na regra do CPP: artigo. Em segundo lugar, o exerccio do direito de defesa se d pela possibilidade de estar presente para contraditar as testemunhas, especialmente as de acusao. O direito ao confronto est previsto na Conveno Americana sobre os Direitos Humanos (artigo8, 2, f: direito da defesa de inquirir as testemunhas presentes no tribunal e de obter o comparecimento, como testemunhas ou peritos, de outras pessoas que possam lanar luz sobre os fatos), pelo qual o acusado precisa saber o que foi produzido contra si para poder exercer, na plenitude, a sua defesa direta. No caso de testemunhas de defesa, a questo diversa. Em terceiro lugar, mesmo o acusado em liberdade provisriano pode ser obrigado a comparecer em oitiva de testemunhas que foram arroladas porque faz parte de sua ttica defensiva. Por tanto, a deciso peca ainda pelo rano autoritrio, na medida em que coloca o acusado na situao de objetode prova, e no de sujeito do processo. Ressalve-se que, se o acusado estiver em liberdade provisria, tendo assumido o compromisso de comparecer a todos os atos do processo, ento sua ausncia poder causar-lhe prejuzo (revogao da liberdade provisria e decretao da priso). Mas essa uma situao excepcional, que no se constitui no caso em anlise. Em quarto lugar, em casos anteriores de acusados presos pelos mais variados motivos, mesmo em se tratando de testemunhas defensivas, no se determinou a obrigatoriedade de comparecimento pessoal do acusado preso, como, alis, a tnica dos processos brasileiros em que, no caso de carta precatria, no se conduz o acusado ao ato. Em quinto lugar, a revelia no processo penal, quando pensada nos moldes do processo civil, causa estragos assustadores. A defesa tcnica estando presente pode realizar a nalidade do ato de oitiva de testemunhas de defesa. Alis, a ciso da audincia em duas partes, justicada pela quantidade de pessoas a se ouvir, autoriza a deliberao defensiva sobre a necessidade/pertinncia do comparecimento ou permanncia do acusado nas respectivas oitivas. No demais recordar, portanto, que a reveliano produz nenhum efeito no processo penal, na medida em que o acusado segue protegido pela presuno de inocncia (logo, no se presume a veracidade dos fatos no contestados, como no processo civil), a defesa tcnica ser obrigatoriamente intimada de todos os atos, e o ru ser, se comparecer, inter rogado ao nal. Em sexto lugar, existem mecanismos hbeis para que o juiz determine o esclarecimento sobre a denio de quais testemunhas deporo sobre que imputaes, controlando abusos, e, ainda sim, na hiptese de testemunha abonatria, a limitao por impertinncia, irrelevncia ou carter protelatrio (CPP, artigo400, pargrafo1)poderia ser realizada. Mas no foi. O juiz tambm poderia determinar que a defesa denisse quais testemunhas iro depor sobre que fatos, para controle do limite legal de oito testemunhas por fato imputado. Eventual argumentao acerca de manobras protelatrias, abusos ou chicanas processuaispodee deveser coibidade outra forma, mas no atravs da criao de um dever de comparecimento completamente inexistente. H um erro em pretender estabelecer uma relao de causa e efeito (nmero elevado de testemunhas e dever de com-

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9 parecer) entre situaes completamente diferentes e que no se vinculam. Logo, a determinao no encontra respaldo no CPP e na orientao dos tribunais, tratando-se de mais uma leitura isolada do processo penal formulada pelo juiz Sergio Moro, que respeitamos e que, como qualquer juiz, pode estar errado. A gravidade das condutas imputadas no transforma o processo penal brasileiro conforme as convenincias, nem pode servir como mecanismo para restrio do direito de defesa. Por isso, a determinao de comparecimento de qualquer acusado oitiva das testemunhas defensivas abusiva. Mas quando as regras so inovadas constantemente, no se sabe o que pode acontecer. A criao de uma condio presena fsica do acusado para que sua defesa possa ser exercida na plenitude abusiva.Quantidade por falta de qualidade? Valentin(Advogado Scio de Escritrio Internacional) Quem espera que advogados criminalistas no sigam o precedente do absurdo nmero de testemunhas em todos os futuros julgamentos, paralisando a Justia Criminal, simplrio em acreditar piamente na lealdade processual. Quem (Tribunais Superiores) relativizou o nmero mximo de testemunhas, generoso e sabiamente xado em lei, que produza a soluo! O juiz Moro deu a sua deciso salomnica. Enquanto isso, doutores esparramem sua sabedoria rumo catstrofe judiciria no pas da Justia protelatria. Ir para qu ? Francisco Lobo da Costa Ruiz advocacia criminal(Advogado Autnomo Criminal) melhor no ir mesmo ... E qual a soluo? Amanda Stoppa(Juiz Federal de 1. Instncia) Realmente possvel pedir que a parte explique se a testemunha para o fato ou se s abonatria. Normalmente, porm, o advogado simplesmente arma que testemunha para o fato X, mas no dia da oitiva a testemunha diz no saber absolutamente nada sobre os fatos. Isso ocorre em quase todos os processos e notrio entre juzes e advogados. Nesses casos, o que os autores propem: multa por litigncia de m-f? Dirigida contra o advogado ou contra o representado? Ou simplesmente seguir aceitando que atuem protelatoriamente? Lamentvel.... Daiane Schroder(Advogado Autnomo Civil) Lamentvel mesmo ver um Juiz se prestar escrever um artigo direcionado criticar um colega, ao que parece no conhece seus deveres, descritos de forma taxativa na Loman (talvez seja o efeito cascata Gilmar Mendes, ou apenas um meio de tentar chamar a ateno: Art. 36 vedado ao magistrado: [...] III manifestar, por qualquer meio de comunicao, opinio sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juzo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenas, de rgos judiciais, ressalvada a crtica nos autos e em obras tcnicas ou no exerccio do magistrio. Surreal Z Machado(Advogado Autnomo Trabalhista) O exercito brasileiro que assaltou o povo por mais de 20 anos disse que esse juiz que foi complacente no caso BANESTADO, esta a seu servio e o condecorou. o m da picada; realmente tudo no pais est sem moral alguma. A impunidade impera e a desmoralizao geral. O Lula est sofrendo a perseguio do tpico Sindrio e no nenhum santo, ou seja, no do PSDB. Acho um erro ttico Observador..(Economista) Alm de uma falha grave de estratgia, partir para um confronto direto com o ex-PR Lula, que, gostemos ou no, um ex-PR da Repblica; um dos mais carismticos (tanto aqui, como mundo afora) que o Brasil j teve. Mesmo para quem no labuta na rea do Direito, cou claro que o chamamento do ex-PR mais para mostrar quem manda, do que por exigncia das regras do Direito. Se no fosse assim, no haveriam tantas surpresas com tal convocao. Algo que fosse regra cristalina no geraria dvidas. No transformem o ex-PR em mrtir.Tenham sagacidade. Lembrem-se que a roda da histria muda repentinamente neste nosso confuso pas. Que se tenha serenidade para renascermos como uma nao melhor e no com novos Salvadores da Ptria. O Brasil no merece viver assim.De crise em crise.De messianismo em messianismo.Entre Santos e Pecadores. Tenham mais apreo pelo povo brasileiro. Em alguma instncia algum tomar as devidas providncias Rejane Guimares Amarante(Advogado Autnomo Criminal) Dr. Aury e Dr. Alexandre, congratulaes por registrar mais essa ilegalidade do juiz da 13 Vara Federal de Curitiba. Tambm fao questo de deixar registrado mais esse repdio. Maria Bonita. adeu de New(Administrador) Brilhantes as colocaes. Qualquer atuao diferente do que o aqui colocado demonstraria um novo cangao, algo semelhante aos que vem ocorrendo com os bancos, no Brasil. Por mais puras sejam as intenes a Maria Bonita h que ser aquela representada pela Deusa emis. Reconsiderao. S Chopana(Administrador) O Juiz Srgio Moro j reconsiderou uma deciso, no caso do blogueiro. E reconsiderou bem. Talvez seja oportuno reconsiderar mais essa. O Gran Circus Brasilis sauda a distinta Plateia hammer eduardo(Consultor) Palavra que Me emociono ao ver palavras to candentes oriundas da lavra de prossionais altamente qualicados como esta dupla no-sertaneja que campeia livre nas paragens do Sul maravilha do Brasil. Hoje em paralelo ao verdadeiro CIR CO da esculhambao e desordem de toda a espcie que rola solta no Brasil temos tambm a gura dos ditos garantistas que adoram um p de pagina e procuram com auxilio de microscpio eletrnico o velho e conhecido pelo em ovo. Na outra ponta temos um Juiz que esta tentando mostrar ao Pais que no precisamos continuar ad aeternum neste eterno chiqueiro jurdico nos fundos do grande Lupanar verde e amarelo. Sergio Moro quando desejam desqualicar chamam de Juiz de piso e outras bobagens do gnero tudo com objetivos bem obscuros por sinal para ser mos econmicos com as palavras. O presente artigo aqui exibido sofre da infeliz coincidncia de data no dia em que o tal Leo Pinheiro da OAS deu detalhes que EM TESE para os juristas do sul j deveriam ser suficientes para envia-lo sem prognostico de volta para o Moro Hilton la em Curitiba e alias j estou dando um desconto padro Ricardo Eletro do inicio de delao do paloffi lngua plesa que deve explodir tudo de vez e ai veremos a cara dos garantistas de ocasio. Provavelmente no prximo artigo de lavra dividida sugeriro por certo que faamos a inverso dos papeis colocando o Juiz Moro no banco dos rus e o apedeuta nojento na cadeira de Juiz de repente para eles o que bastaria para o resgate das filigranas de boteco que entendem como Lei. Acordem Doutores com seus trocentos ttulos bonitos, estamos prximos de uma guerra civil!

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10 A revolta de TucuruEscolhi este texto por vrios motivos. Ele foi publicado em O Liberal em abril de 1980, quando comeava o mandato de cinco anos do ltimo presidente do regime militar, o general Joo Figueiredo. Ele prometeu prender e arrebentar quem se colocasse contra o seu projeto de abertura poltica sob total controle dele e do seu aparato pessoal. Um ano depois comeariam atentados terroristas da direita, com exploses de bombas. Apesar do ambiente de tenso e violncia, o texto extremamente crtico atuao do governo e da ento maior empreiteira do pas na execuo da maior obra que estava emem andamento no Brasil, a hidreltrica de Tucuru. O artigo foi publicado na coluna diria que eu mantinha no jornal de Romulo Maiorana pai, no sendo vetado nem censurado. Alm disso, trata de um tema que, apesar de constante na expanso do capitalismo pelas frentes pioneiras, escamoteado do registro oficial: as revoltas dos trabalhadores contra sua explorao. Esses protestos recrudesceram nos ltimos anos em trs canteiros de grandes hidreltricas na Amaznia (Belo Monte, Juru e Santo Antnio), como se fossem novidades. Por fim, atesta que nessa poca a imprensa mesmo a local era mais receptiva ao cotidiano dos grandes acontecimentos e se permitia fazer investigao prpria dos fatos, sem ficar inteiramente atrelada verso oficial.Certamente a opinio pblica ainda est perplexa diante do motim ocorrido no nal da semana passada [ o artigo foi publicado na tera-feira da semana seguinte], no canteiro da hidreltrica de Tucuru, a maior obra da Amaznia em todos os tempos. A nota ocial distribuda pela Eletronorte e pela Camargo Cor ra, praticamente 48 horas depois dos acontecimentos, esclareceu menos do que intencionavam seus prprios autores, tornando ainda mais polmica a interpretao dos fatos. A nota das duas empresas se alicer a em alguns pontos bsicos, justamente os mais controversos da questo: 1 Que no houve mortos durante os choques entre pees e policiais. 2 Que os incidentes no se originaram de reivindicaes salariais ou reclamaes quanto s condies de residncia e alimentao. 3 Que a represso foi motivada pelo desrespeito moral pblica, tranquilidade e aos princpios religiosos do povo. Como quase sempre ocorre nesses casos, as duas empresas dizem que os fatos foram divulgados despropor cionalmente pela imprensa, que teria divulgado falsas informaes, transmitidas por pessoas interessadas em comprometer a imagem das empresas. Para avaliar a nota ocial, necessrio reconstituir os acontecimentos. No sbado de manh, os jornais de Belm receberam a informao, proveniente de Tucuru, sobre um levante de trabalhadores no acampamento da Camargo Corra. Rapidamente foram acionadas algumas fontes em Belm e na prpria cidade interiorana. Essas fontes no apenas conrmaram a primeira infor mao como deram graves dimenses ao ocorrido. Vrias pessoas diziam ter ouvido depoimentos dando conta de que um mnimo de quatro e um mximo de 18 pessoas teriam sido mortas. Jornalistas foram ento deslocados para Tucuru. Um deles, que fez planto no aeroporto espera de um voo da Votec proveniente de Tucuru, tentou obter informaes junto a um funcionrio graduado da Camargo Corra. O funcionrio disse que esperava a sogra e que desconhecia completamente o que acontecera em Tucuru. J um funcionrio da Infraero, contatado no aeroporto logo em seguida, informou que aquele mesmo cidado fora quem fretara um DC-3 da Votec para transportar 12 soldados da Polcia Militar para Tucuru. Estava ali justamente espera do contingente. Naquele momento, portanto, a empresa por seu funcionrio qualicado ainda no estava interessada em esclarecer a opinio pblica. Logo depois chegou o avio procedente de Tucuru. Nele vinham funcionrios de uma empresa de Santa Catarina, a Tupiniquim, que j trabalhara em Tucuru. Eles estavam no acampamento quando irromperam os atritos. Seus depoimentos foram coincidentes em vrios pontos. Disseram que a grande maioria dos trabalhadores de nvel um e dois, que so braais, criaram um boneco para o malharem como Judas e o vestiram com o unifor me da vigilncia interna. Queriam protestar contra a violncia dos seguranas. Embora andando desarmados no acampamento, prendem qualquer trabalhador que tenha bebido, que esteja se comportando descontraidamente ou com os quais simplesmente no simpatizem, numa disciplina bastante rgida. Todos conrmaram tambm que os trabalhadores contratados pela Camar go Corra esto sempre irritados pelos descontos nos seus baixos salrios (h sete descontos, desde a alimentao e o alojamento, at fronhas, lenis e travesseiros). Os descontos chegam a ser de at 70% do que deveriam ganhar. A alimentao quase sempre ruim. Nos dormitrios de madeira cam de 800 a mil trabalhadores, mal acomodados. Como esto sempre endividados, s saem do acampamento quando so demitidos. E alguns, sem alternativa, foram a dispensa para irem embora. De outro modo, nem teriam dinheiro para custear a viagem. Na manifestao organizada da sexta-feira realmente houve gestos obscenos, mas seguramente foram atitudes secundrias. Depois, quem so a Camargo Corra e a Eletronorte para decidirem sobre questes to controver sas como moral e princpios religiosos, principalmente quando se colocam na posio dos prprios trabalhadores? Ser que assumem atitude semelhante quando h problemas desse tipo na vila residencial dos tcnicos e dirigentes? De qualquer maneira, todos dizem que o protesto era claramente contra as condies de trabalho, a segurana e a alimentao. Naquele dia, os braais comeram arroz, ovo e feijo. Do nvel trs em dia, no cardpio havia bacalhoada. O conito se originou na deciso de dois vigilantes de despirem o Judas uniformizado como agente de segu-

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11 O lixo de Marituba: como desinvent-lo?Tanta foi a presso da sofrida populao de Marituba que no dia 22 de maro a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado, nalmente, determinou que a Guam Tratamento de Resduos Slidos adotasse 25 medidas emergenciais destinadas a eliminar os impactos ambientais da usina de tratamento de resduos slidos em bom portugus, do seu lixo, verso adaptada do lixo do Aur, que foi interditado. Menos de dois anos antes a empresa, controlada pela Revita, comeara a operar com uma licena da mesma secretaria. Ora, se seu projeto foi aprovado, ele devia incluir a previso dos efeitos da deposio do lixo da regio metropolitana de Belm, que seriam certos e sabidos. Em to pouco tempo de atividade, porm, cou clara a impossibilidade de convivncia entre o novo lixo, um anacronismo para a vida atual, e a comunidade em torno dele, que vizinho direto da rea urbana de Marituba. A prpria Semas reconheceu que nenhuma das 25 recomendaes foi cumprida. Impotente e agrada no erro, recorreu via judicial. No dia 20, a juza Aldineia Maria Martins Barros, no exerccio da 1 vara cvel e empresarial de Marituba, concedeu liminar para que o governo do Estado nomeie um administrador judicial para o ater ro sanitrio instalado no municpio, em especial a central de processamento de resduos slidos. A juza admitiu que aos danos j causados ao ambiente e populao, atormentada pelo mau cheiro, se acrescentaro outros, quando o chorume produzido pelo lixo mal tratado chegar aos lenis freticos. Logo, a empresa descumpre as normas legais. A interveno judicial ter a nalidade especca de adotar as medidas corretivas e preventivas apontadas pela secretaria para a soluo dos problemas. Mas qual o custo material e imaterial para isso? E em quanto tempo os moradores de Marituba tero que esperar por essa soluo? Ao realizarem nova manifestao de protesto, eles constataram mais uma vez que precisam continuar a pressionar o governo. Ao menos neste caso, ele s se mexe obrigado, no por vontade prpria. Deve saber bem o motivo dessa indisposio.A Revita divulgou uma nota ocial logo depois da invaso das suas instalaes e depredao de alguns dos equipamentos utilizados na operao do lixo sanitrio de Marituba. A empresa disse na nota que estava conante de que seus esforos de regularizao do empreendimento sero reconhecidos pelo Governo, justia e sociedade. Graas a essa iniciativa, poder continuar no ritmo acelerado de execuo das obras de melhorias no empreendimento. de estranhar. A secretaria de meio ambiente do Estado concedeu, em 2013, a licena de instalao para a Guam Tratamento de Resduos Slidos, subsidiria da Revita. A operao comeou no ano seguinte. Tendo que corrigir o que fazia em to pouco tempo, e apenas em virtude da presso da populao, profundamente prejudicada pelo mau cheiro exalado do lixo, a concluso de que a empresa j comeou errada e prosseguiu de forma errada at o dia 10. Foi quando apresentou Semas proposta de tecnologia para minimizao de odores. Ou seja: corrigir seus erros, que ela no admitia at ento e em relao aos quais o governo estadual era omisso e conivente. Agora, o governo promete ser transparente e fazer-se acompanhar por um representante da comunidade. A justia, que autorizou essa interveno, podia designar um perito independente, indicado por uma universidade pblica, para monitorar o servio. rana. O que se seguiu ainda ter que ser apurado adequadamente, inclusive as mortes (e, nesse ponto, a imprensa deve continuar sua apurao prpria). Mas ca demonstrada, desde logo, a intransigncia dos funcionrios da empreiteira responsvel pela obra. No mnimo, houve falta de sensibilidade na represso ao desrespeito moral pblica, tranquilidade e aos princpios religiosos do povo, se que merecia represso o rompimento da aleluia dos pees. Depois, ca mais uma vez demonstrado o tratamento cruel e diferenciado que as empresas dispensam s legies de trabalhadores braais utilizados nos empreendimentos ou nos projetos que se constituem na Amaznia (como, de resto, no pas inteiro). A Camargo Corra parece considerar que pagar 2.800 cruzeiros a uma pessoa que trabalha de sol a sol, em condies adversas, em reas pioneiras, descontando-lhe todos os servios prestados (ainda que a preo de custo), tudo quanto pode oferecer. E que no importa muito a qualidade da comida ou da dormida para pessoas rudes, pobres, que vm de todos os lugares, mas especialmente dos mais necessitados, para trabalhar nessas grandes obras. As condies especiais de conforto, de assistncia e de vida em geral so concedidas apenas aos trabalhadores especializados (todas realmente justas), que vm das cidades, deixando atrs de si um padro de vida mais elevado. Aos demais, a dureza. Alm de injusto, este um raciocnio tecnicamente errado. Nenhum ser humano, por mais brutalizado que esteja, aceita passivamente, o tempo todo, trabalhar o dia inteiro numa tarefa r dua, comer mal e comer desacomodado. Um dia explode. A Eletronorte e a Camargo Corra no podem exigir tambm que a opinio pblica aceite suas explicaes quando, no passado, tem-se tantos casos na Jari do coronel Jos Jlio de Andrade, na dcada de 1920, ou no Trombetas da Minerao Rio do Norte, na dcada de 1970 demonstrando o contrrio. Isto : que manifestaes aparentemente irracionais e violentas tm motivao absolutamente lgica, embora igualmente violenta na origem, uma violncia diluda no cotidiano. E, nalmente, se era para esclarecer a verdade, por que noa dotar essa postura desde o incio? Ou as empresas acham que o depoimento pessoal dos jornalistas que estiveram em Tucuru e tiveram seu trabalho bloqueado fantasioso ou de m f.

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12 MERCEARIASA pgina de classicados de uma edio da Folha do Norte de 1952 anunciava, de uma s vez, a venda de sete mercearias nos subrbios de Belm: a So Benedito, na avenida Duque de Caxias; a Tuxaua da Baro (Marqus com a Baro do Triunfo); a Casa Jesus, na Marqus de Herval canto com a Alferes Costa. Sobre duas, o dono no quis dar o nome, mas garantia ser em timo local. Estavam tambm venda a Casa Concessa, no Acampamento com a Timb (sem nmero); e outra, de canto, tambm na Marqus, que o proprietrio dizia ser timo negcio, mas no para ele: com outros negcios, no podia estar testa do movimento. Um vendedor justicava-se dizendo que ia mudar de negcio. Outros dois prometeram se explicar quando o interessado na transao os procurasse.Era constituda por gente grada a diretoria que, em 1952, se elegeu para o Sindicato dos Corretores de Mercadorias e de Navios do Estado do Par, presidido por Raul de Souza Coutinho, com Hlio Motta de Castro como secretrio e Luiz Frazo como tesoureiro. Participavam ainda da diretoria Lenidas Castro, Hermnio Mesquita, Samuel, Eugnio e Jorge Soares, Ruben Mesquita, Orlando Motta, Raymundo Angelim e Humberto Mercs.Em 1953, 11 alunas se tornaram professoras de corte geomtrico, concluindo o curso na Escola de Cor te Geomtrico Santa Rita, que funcionava na avenida Cear, em Canudos. Com direito a solenidade de colao e foto de todas as novas professoras em meia pgina de jornal.Era praxe, no Par, que juzes se tornassem chefes de polcia e, ao nal do exerccio do cargo, fossem promovidos ao desembargo, o cargo mais elevado da car reira jurdica. Mariano Antunes de Sousa seguiu esse caminho quando Dionsio Bentes de Carvalho, ao assumir o governo do Estado, o nomeou chefe de polcia. Alm disso, o governador se comprometeu a no designar interventor para Bragana, terra de origem da famlia do juiz, sem consult -lo. No dia em que no cumpriu a promessa, Mariano lhe enviou um ofcio, no qual anunciava sua deciso: Mariano Antunes de Sousa d, no pede a sua demisso de Chefe de Polcia do Estado. Mandou o papel pelo contnuo, foi embora do seu gabinete e l nunca mais voltou. Quando Mariano mor reu, em 1960, Paulo Maranho, seu amigo, lembrou dos anos 1930, o juiz se preparava para presidir uma sesso do tribunal do jri quando um enviado do interventor Magalhes Barata, com a ordem de que devia suspender a sesso. Mariano lhe respondeu: Diga ao senhor interventor que a justiano recebe ordens de um poder que lhe deve respeito e obedincia. Quem manda aqui sou eu, no ele. No dia seguinte, Barata o demitiu.No nal de 1960 o governo do Estado enviara Assembleia Legislativa 1.045 processos de venda de ter -A energia da cervejaA Brahma tentava, em 1945, convencer neste anncio que o pacato cidado poderia evitar a perda imperdovel se, s refeies, tomasse a sua cerveja Malzbier. Com mais malte, a bebida, alm de deliciosa e ligeiramente doce, era altamente nutritiva, proporcionando mais energias, talvez suficientes para atrair a ateno da sua linda acompanhante, impedindo-a de se distrair digamos assim com um transeunte mais cheio de si. Ou mais cheio de Malzbier da Brahma, a cerveja do lar, dado seu baixo teor alcolico e assim, como alertava Shakespeare, sem prejudicar o desempenho.

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13 ras, que estavam paralisados para exame. Foi o perodo em que mais houve alienao do patrimnio fundirio paraense. Cada rea podia chegar a 4.356 hectares.O barbeiro, com seu salo ao lado da Casa Quaresma, na Domingos Marreiros, entre a Alcindo Cacela e a 9 de Janeiro, tinha um hbito que submetia seus vizinhos a certo vexame que a moral condena. Ele costumava ir via pblicasomente de cuecas, pela parte da noite. O ato, segundo a queixa de um morador, acolhida pela imprensa, constitua uma falta de respeito s pessoas que ali residem ou que por ali transitam. Sugeria que alguma autoridade poderia dar uma volta no permetro apontado, levando o prossional da tesoura para o posto policial mais prximo.Foi em 1962 que desapareceu o calamento com pedras de granito de todas as ruas do percurso do Crio de Nazar. Nesse ano a prefeitura de Belm cobriu os paraleleppedos com asfalto, desde a avenida Nazar at o Boulevard Castilhos Frana, passando pela Presidente Vargas e contornando a praa da Repblica. Tambm cou coberto o trilho de ao dos antigos bondes. O prefeito era o coronel Moura Carvalho e o vice, o futuro colunista social Isaac Soares, ambos do PSD, ambos cassados pelos militares dois anos depois.CINEMASOs cinemas Art (na praa Brasil), Moderno e pera (na praa de Nazar), e Independncia (na atual avenida Magalhes Barata) recebiam os lmes distribudos pela Lvio Bruni e Pelmex (mexicana), que tambm forneciam para o Cine Art Palcio, na Presidente Vargas. Em 1962 eles comunicavam ao distinto pblico que os ingressos passariam a custar 50 e 25 cruzeiros.Fernando Gabeira era apenas um destacado reprter do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, ento um dos mais influentes jornais do pas, quando, em 1965, passou por Belm. O futuro participante do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Burke Elbrick, estava a caminho de Macap, onde faria reportagem sobre a Icomi, que explorava a jazida de mangans de Serra do Navio, no Amap. O Palma Cavalo paraenseO pintor Dionorte Drummond Nogueira tinha toda razo em dedicar sua ateno a esse retrato do jornalista Paulo Maranho, o terrvel dono do jornal Folha do Norte, numa exposio de 1968. Armando Baloni, autor da tela, foi feliz ao dar ao modelo sua expresso severa, angustiada e feroz, que certamente era a que tinha ao escrever seus artigos mais sulfurosos, contra seu maior inimigo, o caudilho Magalhes Barata. Maranho bem que podia servir de inspirao para o furioso Palma cavalo, criado por Ea de Queiroz. O quadro pertencia ao neto, tambm jornalista, Ivan Maranho e foi doado ao Conselho Estadual de Cultura pelo irmo dele, Haroldo, igualmente jornalista e escritor, que herdara a obra. De vez em quando deviam exp-la. C ORRE OAo contrrio do que foi informado na edio anterior, a Belo Sun Minerao estava presente mesa da audincia pblica convocada pelo Ministrio Pblico Federal em Altamira no dia 21 de maro. A mineradora canadense foi representada pela sua gerente de Desenvolvimento Social, Juliana Magalhes. Alm disso, tambm compareceram o diretor da empresa no Brasil, Mauro Barros, o gerente jurdico, Fbio Martinelli, advogados e tcnicos envolvidos no processo de licenciamento, alm da assessoria de comunicao da empresa, formando um grupo de aproximadamente 15 pessoas. Ao nal da audincia, a empresa teve alguns minutos para fazer breve apresentao e protocolou um documento junto mesa, com esclarecimentos sobre os diversos questionamentos que surgiram durante a audincia. Fiz a correo no meu blog, mas no houve tempo para a reticao no jornal, feita agora.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Nos subterrneos do quartel O gelogo Breno Augusto dos Santos, paraense de corao, acumulou vastssimo repertrio de histrias e informaes sobre mais de meio sculo em frentes de pesquisa de minerais na Amaznia. O ponto culminante foi a descoberta da provncia de Carajs, de que ele considerado o autor. Reproduzo um dos seus textos, que registra a convivncia nada fcil entre o trabalho tcnico e eo envolvimento poltico em plena ditadura.)Eram tempos difceis... Em Belm, no tnhamos contato direto com a violncia e com o autoritarismo da ditadura militar, como acontecia diariamente com os cidados dos grandes centros do sudeste do Pas, mas sentamos o medo no ar. Embora na Amaznia, as mos da ditadura militar se tornassem visveis, quase que exclusivamente, nas agressivas e prepotentes revistas da Polcia Federal durante os embarques nos aeroportos, mesmo assim no estvamos totalmente imunes aos seus desmandos. Pior que isso, as prticas de exceo ganhavam fora na Polcia Militar do Par, assim como acontecia em outros estados, no escapando de seus atos de violncia nem mesmo os inocentes empregados da Docegeo [empresa de pesquisa geolgica da Companhia Vale do Rio Doce ]. Na emergente cidade de Rio Maria, um empregado braal da Docegeo, contratado na regio, encontrava-se em gozo completo de seu perodo de folga na zona bomia, quando foi surpreendido pelo arrombamento da porta de seu quarto por um soldado da Polcia Militar. O soldado entrou atirando, sem dar qualquer chance de defesa ao inocente amante, que sequer desconava que sua companheira estivesse amancebada com o criminoso. O tempo passava como se o assassinato por motivo to ftil no houvesse acontecido, nada sendo feito pela justia e pela polcia da regio. Ingenuamente, solicitei ao responsvel administrativo da base da Docegeo em Rio Maria, que fosse ao posto da Polcia Militar, a m de me atualizar sobre o andamento do inqurito dentro da corporao. Pouco depois, o radiotelegrasta chamou-me apavorado, para informar que o nosso administrador estava sendo torturado com uma palmatria. J haviam destrudo seu relgio e ferido gravemente suas mos. A punio era devida ao fato de que nenhum cidado tinha o direito de questionar o que a Polcia Militar fazia ou deixava de fazer. A sorte foi a amizade que tnhamos com o gerente da Ser raria Maginco, em cujas terras surgira a cidade de Rio Maria. Ante minha solicitao desesperada, via rdio, fez a devida interveno, interrompendo a dolorosa tortura. A vtima foi imediatamente removida para Belm para o necessrio tratamento hospitalar. Felizmente os ferimentos no deixaram sequelas fsicas, mas o trauma psicolgico e emocional motivou a sua transferncia para outro projeto. Em Belm, competente gelogo gacho encontrava-se trabalhando na sede da Docegeo, enquanto recuperava-se de uma malria contrada no Xingu. Toda tarde, ao deixar seu trabalho, caminhava duas quadras pela Avenida Almirante Barroso at o Instituto Evandro Chagas, para tomar sua dose de Aralen. Numa dessas tardes, ao passar pela calada do Quartel General da Polcia Militar, que estava de prontido pelo simples fato de ser o perodo eleitoral de 1976, ouviu da sentinela: Passe ao largo!... Como bom gacho, sabendo que naqueles tempos mandava quem podia e obedecia quem tinha juzo, afastou-se do muro do quartel, passando a caminhar pela beirada da calada, mas antes dirigindo um leve sorriso irnico ao soldado. Ao passar pelo porto principal do quartel, uma voz o chamou: Voc a!...Me acompanhe que est detido por desacato sentinela... Foi levado para uma sala e l esquecido. Como anoitecesse, ao rever o sargento, solicitou o seu nome para pelo menos poder informar, se necessrio, quem o havia colocado l. O bigodudo PM, com a prepotncia da poca que infelizmente ainda persiste como herana at os dias de hoje , respondeu, mostrando o seu nome na farda: Minha cha est limpa!... Mas pelo teu atrevimento, vou te transferir para a Delegacia de So Braz. L foi colocado numa cela com presos comuns, a maioria simples bbados, e novamente esquecido. O delegado deu ordens para que no fosse solto de forma alguma, pois se tratava de prisioneiro da Polcia Militar. noite, quando a esposa de um dos presos foi levar o jantar, conseguiu, atravs dela, enviar um recado para a sua mulher. Os amigos da Docegeo se mobilizaram, mas mesmo com a ajuda de outro delegado, sogro de um dos gelogos da empresa, s conseguiu ser solto na manh do dia seguinte. Mas antes teve que deixar como taxa todo o dinheiro que tinha nos bolsos, e que j havia sido conscado logo na sua entrada. Eram tempos difceis... Mas na verdade, embora atussemos nas proximidades dos campos de combate da Guerrilha do Araguaia em Carajs, Conceio do Araguaia e Rio Maria , nossos projetos no chegaram a ser diretamente afetados, quer pela guerrilha, quer pela represso no incio, do Exrcito, e, depois, de agentes do SNI.

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15 Em raros casos, alguns gelogos e tcnicos de minerao chegaram a ser importunados por uma revista mais severa, nos aeroportos de Marab ou de Conceio do Araguaia, apenas pelo fato de estarem de barba e cabelos compridos, moda comum dos jovens da dcada de 70, naqueles tempos de Beatles e Rolling Stones. Como veremos mais adiante, no chegamos a ser importunados pelo simples fato de que, tanto o Exrcito como os rgos de informao desconheciam totalmente as atividades da Docegeo, e talvez da prpria Vale, na regio sudeste do Par. Mas no sudeste e no leste do Pas as foras de represso eram bem mais atuantes. Eliminados os principais lderes da esquerda, no nal dos anos 60 e incio dos 70, como os dois Carlos Marighella e Lamarca , a busca obsessiva de agentes de Cuba e do comunismo internacional vitimava muitos inocentes. Morria Vladimir Herzog... Enquanto isso, buscvamos jazidas minerais na Amaznia, para diversificao dos negcios da estatal Vale do Rio Doce, que, em ltima anlise, era comandada pelo mesmo governo cuja atuao nos incomodava e atormentava. Contribuamos para o sucesso tecnolgico e econmico do governo que reprovvamos nos campos poltico e social. Sublimvamos essa contradio com a certeza de que estvamos contribuindo para o desenvolvimento do Pas, e no para o sucesso do governo que estava de planto. Entre os xitos da poca, estava a descoberta, em 1976, da primeira ocorrncia de ouro no sudeste do Par, na serra das Andorinhas. A revelao pblica do ouro de Andorinhas, no ano seguinte, devido invaso garimpeira em reas prximas a Rio Maria, motivou no s notcias fantasiosas na imprensa nacional, mas at em publicaes internacionais, como a revista Newsweek. Tanta fantasia provocou uma grande corrida garimpeira na regio, que culminou no garimpo de Serra Pelada, e motivou o surgimento de localidades como Tucum e Curionpolis antigo garimpo do Km 30 da rodovia de acesso a Carajs , que hoje so municpios. Como o ouro estava associado a uma faixa de greensto nes na base de uma sequncia de quartzitos com formao ferrfera associada, levantamos a hiptese de que as estruturas de Xambio e da outra serra das Andorinhas, ou dos Martrios, pudessem corresponder a ambiente geolgico semelhante. No sabamos ainda que a serra das Andorinhas, em frente Xambio, correspondia verdadeira Serra dos Martrios, da lenda de Parauapava, dos tempos dos bandeirantes. Para apressar a obteno das informaes de campo, resolvemos colocar, ainda em 1976, uma fora tarefa na regio, com vrios gelogos e apoiada por helicptero, sob o comando do saudoso amigo Thomaz Cheney. Mas seria muito temeroso deslocar para essa conturbada regio, pouco tempo depois do aniquilamento da Guerrilha do Araguaia, alguns gelogos cabeludos e barbudos, ainda mais apoiados por helicptero. Assim, numa ensolarada manh de Belm, tirei meu terno e gravata do armrio, para uma reunio previamente marcada com o General Comandante da 8 Regio Militar. Esse general [Euclides Figueiredo ] era irmo do tambm general [Joo Figueiredo, ambos filhos de outro general, tambm Euclides] que sucederia o presidente Geisel, e cuja indicao j era tida como certa na corrida sucessria Ao entrar no quartel, felizmente como voluntrio, brinquei com o motorista da empresa: Se desaparecer, comunique minha famlia... Surpreendentemente, fui muito bem recebido na principal sala do quartel. Apresentei-me, descrevi as atividades da Docegeo e expus as razes da minha visita. O general entusiasmou-se pelo fato de haver uma estatal federal atuando na regio, com helicpteros e uma bem distribuda rede de rdio. Eventualmente poderia passar a dar apoio ao Exrcito e aos rgos de informao. Interessava-se particularmente pela atividade dos padres no sudeste do Par. Passou a assediar-me, dizendo que ser agente de informao era muito mais apaixonante do que ser gelogo. Sugeriu que cada gelogo poderia ser transformado em informante do Exrcito. Pensava comigo na fria em que havia entrado, e tentava, com muito cuidado, dissuadi-lo de tal ideia. No satisfeito com a nossa conversa, chamou todo o seu estado maior, inclusive o coronel que chefiava a seo de informao, para expor o seu achado. Felizmente, o coronel de informao comeou a ficar enciumado com a simplificao de seu trabalho. Explorei esse fato, reforando com argumentos de que tal misso era de muita responsabilidade, e s deveria ser exercida por profissionais especialmente treinados. O general acabou concordando com nossos questionamentos, e no criou obstculos ao nosso projeto de Xambio. Entretanto, solicitou que retornasse, para informar a localizao das bases operacionais da Docegeo, para possvel utilizao do sistema de rdio para apoio do exrcito o que felizmente nunca chegou a acontecer.

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O Trump de Roraima O vice-governador de Roraima, Paulo Csar Quartiero, do partido Democratas, comemorou sua maneira, de vspera, o dia do ndio, que transcorreu no dia 19. Ao assumir o comando, no dia 17, demitiu o titular da Secretaria do ndio, Dilson Ingarik. Roraima o nico Estado brasileiro a ter essa secretaria ou era, se Quartiero prosseguir na escalada punitiva. o dono do segundo maior contingente indgena do pas: 10% de sua populao, de 450 mil habitantes, de ndios. Ele demitiu Ingarik porque ele defende novas demarcaes de reas indgenas na unidade federativa mais meridional do Brasil, que avana entre Venezuela e a Guiana, quase apartando dois pases do continente da sua histrica rivalidade. O papel diplomtico do Brasil tem sido exatamente esse: impedir uma disputa territorial entre os dois pases, a Venezuela sempre cobiando a parte leste a mais rica da Guiana. Esse clima de tenso belicosa latente parece ter inudo no nimo do empresrio-governador. Se fosse em situao de guerra, Quartiero disse que teria mandado fuzilar o seu auxiliar. Mas como temos democracia, ele foi demitido. A disposio por chegar ao extremo foi manifestada mesmo o vice estando apenas no exerccio do cargo, que per tence ao titular, o nico que foi realmente votado (Quartiero foi o seu companheiro de chapa, ascendendo por impulso automtico). O governador interino, que ocuparia a posio por apenas uma semana, no teve meio termo: quem apoia a criao de novas reas indgenas em Roraima contra os interesses de desenvolvimento do Estado. Vira inimigo, a ser combatido e derrotado. Ele disse isso em plena entrevista coletiva imprensa na sede do governo, que carrega no ttulo o nome de um ex-gover nador e senador Hlio Campos. Talvez o tom da declarao tenha assustado, mas ela era previsvel. Quartiero se tornou adversrio intransigente e feroz da delimitao de terras indgenas em Roraima desde que, em 2008, foi retirado da reserva indgena da Raposa Serra do Sol, uma das maiores do Brasil, com 1,7 milho de hectares. Ele era dono de extensos plantios de arroz., alcanados pela deciso do gover no federal de fazer a demarcao das terras dos ndios de forma contnua, formando territrio nico, e no por partes, como sendo um conjunto de ilhas, conforme pressionavam polticos e proprietrios rurais. O fazendeiro, gacho, de 64 anos, foi preso, acusado de mandar atirar contra os ndios Makuxi, beneciados pela demarcao. Foi rapidamente solto pela polcia de Roraima. Apesar de responder a vrios processos na justia, iniciou carreira poltica em 2010, se elegendo deputado federal. Transferiu seus arrozais para a ilha do Maraj, no Par, ocupando quase 13 mil hectares e provocando crticas dos nativos pelo uso de produtos qumicos numa regio de extensas drenagens naturais, e por avanar sobre terra alheia, cercando a sede do municpio de Cachoeira do Arari. Em entrevista dada por telefone ao portal G1, Ingarik manteve a sua posio: Eu defendo o Estado e os direitos dos indgenas. Em nenhum momento o Estado brasileiro diz que no pode ter demarcao indgena. Pelo contrrio, o Estado tem que cumprir com a Constituio Federal no que diz respeito demarcao e scalizao das terras indgenas. Alm de investir contra os ndios, Quartiero defende um tratamento mais duro e hostil aos venezuelanos, que tm migrado em massa para Roraima. Informou na entrevista que determinou Polcia Militar o reforo da segurana na fronteira. Sua inteno evitar que mais venezuelanos entrem no Estado atravs de Pacaraima, municpio do qual foi prefeito, que faz fronteira com o pas vizinho. Numa linguagem que parece copiada do presidente americano Donald Trump, Quartiero se justica: A nossa prioridade Roraima, o habitante de Roraima. Esse que paga nosso salrio. Ns temos que atender ele. A questo humanitria tem a ONU, tem naes ricas que podem ajudar. Ns estamos no limite. Estive com as for as de segurana, eles falaram da diculdade de frear essa vinda. Acho que a populao tinha que se conscientizar e parar de dar alimentos, apoio, porque isso a vai nos levar desgraa. Quanto mais d, mais vai vir gente e ns vamos chegar ao limite de car pior que eles. Em abril de 2015 ele se declarou insatisfeito com o governo e disposto a abandonar a base aliada. Mas acabou cando, a pretexto de que seu desejo contribuir com o melhor possvel para que esse Estado tenha melhora, autoridade. A oportunidade veio em boa hora, com a deciso da gover nadora Suely Campos, do PP, de se licenciar do cargo por uma semana, sem dar qualquer informao sobre o motivo do seu afastamento. A resposta, talvez quem a deu foi o prprio Quartiero. No podia ter sido mais ameaadora para ndios e venezuelanos.