Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a CORRUPOA mfia brasileiraNo Brasil, um dos pases mais corruptos do mundo, a Odebrecht criou uma organizao mafiosa sem paralelo na histria. Sua sombra paralela desviou bilhes de reais para corromper autoridades pblicas e tirar mais dinheiro do tesouro nacional. Se alguma dvida ainda havia de que o Brasil est no topo dos pases mais cor ruptos do mundo, ela deixou de existir na semana passada, quando o relator da Operao Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal autorizou a instaurao de inqurito contra oito ministros, trs governadores, 29 senadores e 42 deputados federais, num total de 108 autoridades pblicas, incluindo os presidentes da Cmara e do Senado, que chefiam o poder legislativo. O ministro Edson Fachin decidiu ainda enviar para instncias inferiores da justia 201 pedidos de investigao de pessoas citadas sem o chamado foro privilegiado relativo ao STF. Mas manteve outros 25 pedidos sob sigilo, para no atrapalhar as investigaes em curso. Toda essa indita e quase inacreditvel ofensiva teve por base exclusivamente as delaes de 78 ex-executivos da empreiteira Odebrecht. O que se pode esperar com a ampliao e o aprofundamento das informaes? O m do mundo

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2 poltico brasileiro? A extirpao de boa parte da cpula da administrao pblica nacional? A eliminao das principais (no quer dizer as melhores) lideranas regionais? Essas respostas devero ser respondidas no curso das investigaes, que apenas comeam. Diante do ritmo de andamento dos processos no STF sobre os inquritos j autorizados e nos desdobramentos que eles tero, de esperar que alguns anos ainda se passaro antes das sentenas transitarem em julgado, j sem a possibilidade de recurso. O Ministrio Pblico o federal perante a corte suprema e nas instncias federais da justia, e os estaduais nas unidades federativas ainda examinar as provas para fazer as denncias e submet-las ao poder judicirio, a quem caber decidir sobre o incio da ao. A partir da, as equipes do setor pblico se defrontaro com alguns dos principais escritrios de advocacia do pas, provavelmente com carncia de recursos e de pessoal para essas batalhas. O campo da pugna poder ser alterado pela reao conjunta dos ameaados nos poderes executivo e legislativo. Eles tm a possibilidade de mudar as regras do jogo, criando normas que os protejam ou desviem da ao punitiva da justia. Ou at retaliem, j que, em todo esse universo de acusaes, apenas um elemento de uma extenso duvidosa do poder judicirio, o tribunal de contas, foi apanhada. Demonstrao da inocncia alvar da justia ou o meio correto de chegar magistratura no foi usado? A no ser por raras excees, os futuros acusados ou rus, se quiserem, disputaro a eleio do prximo ano, mesmo que a m fama prejudique ou impea suas reeleies. Alguma depurao haver de acontecer, mas esse inacreditvel sistema cor rupto no ir desaparecer. Mesmo no atual momento de tenso, com os olhos de todos atentos, servidores pblicos e seus comparsas continuam a roubar o errio, como se um atavismo histrico (mas crescente) tivesse desligado seus mecanismos de conteno, qualquer que seja o risco a ser assumido. Ainda mais porque a indulgente legislao penal, os hbitos e os costumes e a exagerada tolerncia e valorizao do arrependimento dos bandidos sugerem que o crime compensa os transtornos transitrios e muitas vezes efmeros. Mas se o escndalo da semana passada apenas conrmou uma liderana negativa do Brasil no universo da cor rupo, as delaes dos donos e executivos da maior empresa de construo do Brasil, com projeo internacional, revelou uma contribuio indita dos corruptos nacionais aos congneres do mundo todo, especialmente s mas, no pice do crime organizado. Ao longo de um quarto de sculo, o grupo Odebrecht passou do modo operacional comum na prtica da corrupo para um modelo totalmente novo e nico, de fazer inveja s famiglias ou Yakuza. o Setor de Operaes Estruturadas. No vernculo empresarial, esse setor podia ser visto como um grupamento tcnico encarregado de analisar detidamente os melhores negcios e oportunidades de negcios no mercado para receberem investimentos da corporao com o mximo de garantia de retorno. Era uma boa camuagem, a camuagem derradeira numa sucesso de codicaes que deram ao ato de cor romper sosticao sem igual e de cinismo tambm. Dezenas, talvez centenas de pessoas foram mobilizadas para que as transaes de compra e venda de pessoas se realizassem com naturalidade, ainda que seu objeto fosse comprar apoios para aumentar o ganho ilcito de ambos, o corruptor, principalmente, e o corrompido, tambm. O novo mago da corrupo mundial se chama Marcelo Bahia Odebrecht. Filho do dono da cada vez mais gigantesca corporao, neto do seu fundador, ele entrou na engrenagem empresarial em 1992. Parecia destinado a ser um eciente empresrio. O que ele mais desenvolveria a partir da no seria a competncia tcnica, mas o despudor dos seus antepassados, em especial do pai, Emlio Odebrecht. Os depoimentos gravados e exibidos, com a autorizao de Fachin de Emlio fora-tarefa da Lava-Jato so de um cinismo revoltante. Falando sobre os destinatrios das propinas pagas por sua empresa, ele os tratou com desprezo, ironia, sarcasmo olhando-os a partir de cima, mesmo quando tratava do ex-presidente da repblica, Luiz Incio Lula da Silva. A arrogncia parece derivada dos anos em que o plutocrata baiano tratou seus interlocutores, mesmo os de mais alta envergadura, como extenses dos seus bolsos fornidos. No h quem no tenha um preo e eu comprei todos os que quis devia estar pensando enquanto se divertia a falar, como se os temas no envolvessem milhes ou bilhes de reais ilcitos, roubados, quase sempre dos cofres pblicos. Seu lho, um jovem yuppie, com passagem por universidade americana, tirou os ingredientes subjetivos do negcio sujo, limpou, cinzelou e envernizou sua superfcie, e o transformou na maior expertise da empresa, dona da maior coleo de corruptos de grande quilate do planeta. Mais energia foi dedicada para a Odebrecht agir sombra dos poderosos do que frente dos seus inmeros canteiros de obras. Nenhuma outra empresa mundial forjou uma empresa cover, para agir margem das leis, no universo da sujeira, lado a lado. Quanto mais contratos a Odebrecht vencia, mais ela ousava e investia para viciar tudo em que tocava. Da seu crescimento recorde. O mecanismo funcionava com padres denidos pela cpula. Cada diretor ou gerente tinha autorizao para tratar com pessoas de interesse para seus negcios tanto no mundo legal quanto no ilcito. Podia acertar o pagamento de propina, desde que tivesse como justicar o gasto escuso e escondido contabilmente. Por exemplo: um executivo da construtora ou de qualquer outra empresa do grupo acertou pagar 2 milhes de reais a determinado intermedirio das vantagens que a rma obteria. Esse executivo devia se informar sobre disponibilidade de caixa da empresa que comandava ou de outras da corporao. Esse dinheiro seria ento movimentado por alguma rubrica convencional, recebendo cobertura da contabilidade ocial da empresa. Paralelamente, o dinheiro real seria colocado disposio do corrupto no exterior, em alguma o -shore em parasos scais ou, se ele no

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3 tivesse conta fora do Brasil, recebendo a propina atravs de doleiro. Tudo era escriturado. Tanto a movimentao legal quanto a ilegal. A legal, atravs dos setores respectivos no organograma da empresa. A ilcita, por meio do Setor de Operaes Estruturadas, de forma to detalhada e formal que resultou na maior coleo de provas geradas a partir das entranhas desse monstro corruptor de toda histria mundial da corrupo. A Odebrecht continha em si o mdico e o monstro. O setor da corrupo se agigantou de tal maneira, com a autonomia concedida aos executivos, verdadeiro senhores medievais da propina, que comeou a criar receios de que o cor ruptor virasse tambm corrupto, desviando para os prprios bolsos dinheiro da torrente da ilicitude, que chegou a 10 bilhes de reais em oito anos e se tornou quase uma parania de imoralidades. Foi ento, a partir de 2006, que a autonomia dos operadores intermedirios foi reduzida, passando a haver maior controle centralizado. At que ponto essa concentrao impediu a formao de sub-quadrilhas no Setor de Operaes Estruturadas e, depois, combateu esse desvio secundrio do desvio principal? A liberao dos depoimentos gravados dos executivos que zeram delao premiada est comeando a mostrar, aos obser vadores mais atentos, que os delatores esto muito longe de ser os anjos vingadores da moral celestial. Eles so to sujos quanto os polticos, servidores pblicos e tcnicos que compraram. Essa classicao no deve desmerecer em nada o valor da contribuio que esto tando para tirar o tapete que encobria a sujeira moral da vida nacional. Sem as delaes, a Lava-Jato avanaria pouco e estaria patinando porta dos ambientes que guardavam as provas dos ilcitos. Mas preciso nunca esquecer quem o delator, na linguagem policial ou poltica: o dedo duro. O que eles dizem elemento de prova, no a prova em si. Recobertos pela poeira do reconhecimento e o tratamento mais do que dalgo que alguns receberam dos seus interrogadores, esses delatores passaram a tratar da corrupo como se ela fosse to natural quanto uma construtora tratar das obras da sua competncia tcnica. Falam de milhes e mais milhes tirados daqui e passados para ali sem jamais se referir origem verdadeira desse dinheiro: os sangrados cofres pblicos. Se, em princpio, a Odebrecht adiantou recursos prprios para for mar o fundo de nanciamento cor rupo, a renovao desse fundo s foi possvel porque ela passou a superfaturar obras pblicas ou tirar vantagens de benefcios recebidos do governo, graas intermediao comprada de senadores, deputados federais e estaduais, governadores, prefeitos e at de presidentes da repblica. Como um viciado em cocana, a Odebrecht se viciou em corromper. Vcio altamente lucrativo. Pagava de propina de 1% a 3% sobre o valor da obra conseguida, superfaturada em 20% ou 30%, mesmo com o lucro lquido embutido no preo nal legal, legtimo, de mercado (como proclama o mercado). Os maus homens pblicos que avalizaram ou mesmo engendraram essas tramoias gravosas sobre o interesse pblico precisam ser exemplarmente punidos. A partir dessa prolaxia pessoal, o povo brasileiro espera inaugurar uma nova era no pas. Mas no pode passar sem o mesmo tratamento a empresa que se tornou a maior ma do mundo. Ou no haver justia, a verdade ser escamoteada e o Brasil continuar, em essncia, o mesmo de antes dessa sujeira toda.A bolsa da corrupo da Odebrecht no ParQuem est mentindo: os executivos da Odebrecht que delataram Helder Barbalho ou o ministro da Integrao Nacional do governo Temer? Luiz Reis, diretor, e Mrio Amaro da Silveira, gerente da Odebrecht Ambiental, ar mam terem dado 1,5 milho de reais, em trs parcelas sucessivas, em menos de um ms, a pedido de Helder, para a campanha eleitoral dele ao governo do Par, em 2014. No sendo contabilizado, o dinheiro foi para o caixa 2. O ministro diz que recebeu at mais. Teriam sido R$ 2,2 milhes, sendo R$ 1,2 milho da Construtora Norberto Odebrecht e R$ 1 milho da Braskem, que atua na rea de leo e gs. E que o dinheiro no s foi contabilizado como apresentado em prestao de contas ao TRE, que o aprovou. uma contradio estranha. O benecirio do dinheiro ilcito garante que a doao foi legal, mas o valor R$ 700 mail maior do que o que os executivos da empreiteira dizem que foi pago. Os primeiros R$ 500 mil teriam sido pagos, em dinheiro vivo, e entregues ao intermedirio, o ex-senador Luiz Otvio Campos, em 15 de setembro de 2014. A segunda parcela foi entregue em 25 de setembro e a ltima, em 2 de outubro. Na sua defesa, Helder mostrou comprovante da sua prestao de consta, segundo o qual o R$ 1,2 milho foi pago no dia seguinte, 3 de outubro. Se a histria dos executivos da empreiteira verdadeira, R$ 300 mil foram embolsados por algum. Mas se houve esse desvio, por que Helder acrescenta o milho de reais da Braskem e os executivos o ignoram? Com base em que fonte eles armam convictamente que o dinheiro foi pedido para o caixa 2 e concedido j com essa direo determinada? O tirocnio da corruptora se tor nou duvidoso quando ela decidiu investir muito mais (R$ 1,5 milho) na campanha do candidato da oposio, atrapalhado pelo polmico sobrenome, do que na reeleio do governador, ao qual destinou R$ 650 mil (ao menos na contabilidade ocial, a nica fonte de informaes disponvel at agora). So valores desconcertantes por que, na verso dos delatores, Helder Barbalho teria pedido R$ 30 milhes, contentando-se, anal, com 5% da pretenso. E isso para que, em eventual governo que conquistaria, favorecer a empreiteira a ir alm das 12 concesses de gua e saneamento que j possui no interior do Estado. Alm de, eventualmente, car com a Cosanpa, j com sua venda autorizada pelo governo federal.

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4 Um dos pontos ainda no esclarecido pela delao sobre o destino dos R$ 1,5 milho, que deveriam ser partilhados com o senador Paulo Rocha, do PT, e o ento prefeito de Marab, Joo Salame. Com essa propina, paga pelo Setor de Operaes Estruturadas do grupo Odebrecht, a empresa esperava que os benecirios cuidassem dos seus interesses no Par, notadamente em rea de saneamento bsico, espao em que a empresa almejava atuar como concessionria, segundo o despacho do ministro Edson Fachin, que autorizou a instaurao de inqurito para apurar a prtica dos crimes de corrupo passiva e lavagem de dinheiro de Helder e Rocha, que tm foro privilegiado. Na primeira nota em que se defendeu, o ministro da Integrao Nacional procurou desqualicar a acusao. Salientou que no tenho ou tive qualquer ingerncia sobre a rea de saneamento do Par, de responsabilidade da Cosanpa, ligada ao Governo do Estado, que j manifestou publicamente sua inteno de privatiz-la. A sutil mas primria inteno de Barbalho era desviar o tiro para outro alvo. Alm de ser o chefe da Cosanpa e pretender vend-la, com isso harmonizando sua inteno da Odebrecht, interessada no negcio, outro elemento reforaria a suspeita sobre Jatene: ele usa cavanhaque. E cavanhaque foi o codinome aplicado pelo setor de corrupo da Odebrecht para camuar o verdadeiro nome do poltico que corrompeu. Mas h evidncias de que o prefeito Joo Salame entrou no circuito por que ele tambm pretendia privatizar o servio de gua e esgoto de Marab, o quarto municpio mais populoso do Par, e reforaria a aliana junto ao governo Dilma, que ento se reelegia. Nesse caso, se explicaria sua presena ao lado de Helder Barbalho e de Paulo Rocha, aliados polticos, com acesso direto presidente, podendo usar essa inuncia em favor da Odebrecht. Esticando a interpretao, o cavanhaque podia ser referncia a Rocha, que ostenta o seu, uma associao com o Barbalho de Helder (barbudo) ou at com Salame, tambm portador do adereo facial. Ser possvel decifrar o enigma pelo acesso a todas as informaes contidas nas delaes premiadas dos 78 executivos e ex-executivos da empreiteira baiana. Como arma sua inocncia e diz acreditar na justia, o ministro e o senador podero prov-la, demonstrando a sinceridade das suas notas de ontem. Do contrrio, sero facilmente desmascarados. A apurao da verdade pode abrir uma nova vereda na vericao das delaes dos executivos da Odebrecht em confronto com a defesa dos delatados e a prova dos nove, com a exibio de provas concretas e o questionamento rigoroso sobre elas. Como sair do buraco?Como o Brasil poder sair do atoleiro em que afunda cada vez que, do ventre da baleia mitolgica, saem golfadas de novas informaes sobre a corrupo larvar abissal e seminal da vida pblica nacional? No acho que seja o m do mundo ou que devamos entregar a cabea dos polticos a falsos Messias e tresloucados heris, como Bolsonaro. Saqueado, pilhado, enganado, sangrado, vilipendiado ainda assim o Brasil tem grandeza maior do que toda essa lama espessa e ptrida que emerge, sobretudo, de Braslia ou em Braslia, a partir de quase todos os pontos do territrio nacional. Quando em So Paulo, z um teste: percorri a avenida Paulista em praticamente toda sua extenso, indo e vindo. Ela o microcosmo el da gigantesca cidade, a mais populosa do continente e das maiores do mundo, a nica ver dadeiramente cosmopolita no Brasil. H de tudo nela. Tanta diversidade, porm, tem um denominador: o povo, a gente de rua, trabalha. Trabalha para sobreviver, claro. Mas tambm porque acredita que h algo ao m do seu trabalho que vai alm do seu destino individual. A nica esperana de que o Brasil ainda tenha jeito est nessa disposio para o trabalho e no trabalho efetivamente realizado por essas pessoas annimas. Elas precisam de um programa poltico para destravar os mecanismos que a limitam, condicionam e travam, os mecanismos do sistema poltico completamente falido, exaurido, falecido. Ao m dealgumas reexes, cheguei a algumas concluses estritamente pessoais, mas que podem ter alguma utilidade coletiva. A primeira delas que o pas precisa antecipar as eleies gerais previstas para outubro do prximo ano, nelas incluindo a escolha de novos prefeitos e vereadores tudo de uma vez s, pela primeira vez na nossa histria. A antecipao poder ser promovida pelo legislativo, atravs de um projeto de lei ou emenda constitucional o meio legal que for adequado. Ou por plebiscito, a ser convocado ainda neste primeiro semestre. Os mandatos dos atuais ocupantes de cargos eletivos ser tambm encurtado, de tal maneira que os eleitos tomem posse imediatamente depois da apresentao do resultado nal da votao, sem intervalo. Os detentores de mandato s podero concorrer disputa pelos mesmos cargos no legislativo. No executivo, ser extinta a reeleio, ampliando-se o mandato de quatro para cinco anos. No legislativo, s mais uma vez. No podero se candidatar presidncia da repblica, aos governos dos Estados, ao Congresso Nacional, s Assembleias Legislativas e Cmaras Municipais pessoas com qualquer sentena condenatria em vigor, mesmo que sujeita ainda a recurso. Os atuais legisladores no podero decidir sobre a reforma poltica, que caber aos eleitos agora. O rumo dessa reforma ser denido por meio de um plebiscito, no qual o povo se manifestar sobre a composio de um fundo partidrio pblico e a participao de nanciadores particulares pessoas fsicas, alm de decidir sobre a votao em lista fechada ou aberta. Os resultados do plebiscito constituiro clusula ptrea, sem possibilidade de alterao. O Congresso votar lei criando recursos nanceiros para que o Supremo Tribunal Federal crie uma assessoria tcnica especial para dar andamento clere aos processos de rus com foro privilegiado, com supresso de todas as formalidades burocrticas normalmente impostas a esse tipo de procedimento.

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5 A apreciao e deliberao sobre a formao dessa assessoria extra ser delegada a um grupo executivo integrado por representantes do poder judicirio, do legislativo, do executivo, do ministrio pblico, da OAB e das universidades pblicas federais. O grupo ter 30 dias, sem prorrogao, para fazer o exame de mrito dos candidatos capaz de fundamentar a inexigibilidade de licitao. Ser que essas ideias ajudam. Cinco tiros: o m da senhorita AndrezaOs piratas brasileirosEm mil contas de brasileiros abertas na Sua foram depositados, em dois anos (2015 e 2016), 1,8 bilho de dlares (em torno de 4 bilhes de reais). D, em mdia, R$ 1,8 milho por conta. dinheiro resultante de propinas pagas por empresas a polticos, executivos e servidores pblicos em torno de contratos realizados com a Petrobrs ao longo de 10 anos, entre 2004 e 2014. Todo esse dinheiro j foi apreendido. Os dados foram divulgados em Zurique pelo procurador-geral da Sua, Michael Lauber que promoveu o consco, em ao conjunta com o grupo-tarefa da Operao Lava-Jato. Os depsitos em 2015 somaram US$ 800 milhes. No ano seguinte subiram para US$ 1 bilho. A quanto chegariam sem a Lava-Jato? Eram oito horas da noite, dia 13. A senhorita Andreza caminhava com uma prima pela avenida Independncia, na Cabanagem, bairro limtrofe entre Belm e Ananindeua, com 40 mil habitantes. Uma motocicleta com dois homens, sem capacete nem capuz, se aproximam. Andreza comea a correr, procurando fugir. Est prxima da sua casa, numa das muitas vielas da regio metropolitana da capital paraense. Correndo recebe na perna o primeiro tiro e cai. Est acuada, sem sada, em frente a um lava-jato. O carona desce e faz mais disparos. O ltimo, a pouca distncia, na cabea, para arrematar o servio. Com um pouco mais de sor te, ela teria chegado delegacia de polcia, bem perto dali. Andreza Ariani Castro de Souza tinha 22 anos. Ela se tornou famosa nas redes sociais ao postar um vdeo, que ela mesma gravou em sele. Com voz e expresses caractersticas do mundo do crime, ela convidou quem se interesse por uma festa. Mesmo sugerindo bebida e droga vontade para quem aceitasse o convite, garantia que no ia haver embaamento. Sem o risco de ser embaada, a festa estaria livre da polcia. A senhorita Andreza, seu nome de guerra, tinha realmente motivos para dar essa garantia, ou era apenas um recurso de marketing, digamos assim para atrair frequncia, companhia e alguma renda? A segunda hiptese foi conrmada dias depois, em janeiro do ano passado. A polcia invadiu a casa que ela dividia com o marido e uma lha, na poca com pouco mais de um ano, no violento bairro da Cabanagem, classicao redundante na periferia de Belm. Os policiais apreenderam 34 papelotes de maconha, quatro munies de dois revlveres distintos (um 32 e um 38) intactas (no disparadas), cinco celulares, joias, bolsas e carteiras. Era o ativo de roubos e assaltos de Huander son Ferreira Ramos, de 25 anos, companheiro da senhorita, que vivia com ela em unio estvel, e pai da sua lha. Solta com o marido, Andreza resolveu aproveitar a vasta difuso da sua mensagem. Filiou-se Unio da juventude Socialista e foi aceita pelo Partido Comunista do Brasil (um dos partidos relacionados pela Operao Lava-Jato na lista de favorecidos por recursos ilcitos para nanciamento de campanha eleitoral pela Odebrecht). No conseguiu o mandato de vereadora, na eleio de outubro do ano passado, mas recebeu 789 votos. Boa parte deles, talvez, de jovens que curtiram seu vdeo. Andreza continuou a tentar usar esse capital, mas dois meses depois seu marido foi executado, com 10 tiros, prximo casa onde moravam. Ela passou a receber ameaas pelo seu celular. No dia 13, as ameaas se materializaram em cinco tiros. Da famlia, que desapareceu em quatro meses, sobreviveu a lha, de 3 anos. O noticirio da imprensa de Belm continuaria a ser andino, como na abordagem da maioria dos crimes praticados diariamente numa das cidades mais violentas e perigosas do mundo. Mas a senhorita Andreza teve um ano e meio de vida pblica. Foi famosa, maneira dos BigBrother platinados. Sua biograa incluiu ser pobre, vida marginal, nem bonita nem feia. Perl tpico da periferia: roupa sumria, cabelos tingidos, rosto fortemente pintado. Uso de drogas, participao no mundo da criminalidade, linguagem estereotipada do submundo, me precoce, vida em comum com um criminoso, sem emprego, instruo primria mas desembarao, inteligncia, raciocnio rpido, oportunismo, nenhum preconceito, nem moral, muito menos tico. Com essas caractersticas, no sur preende que no tenha conseguido sair do crime nem escapar s suas regras selvagens, que desprezam a vida dos marcados para morrer por alguma violao s regras desse crculo feroz. claro que Andreza quis tirar vantagem da fama efmera. Mas no podia ter tido outro caminho se as pessoas que procurou ou dela se aproximaram lhe oferecessem opo? Como reagiria se, depois do vdeo desembaado, algum lhe oferecesse tratamento mdico, psiquitrico, um trabalho, bolsa escolar, creche para a lha e alguns servios essenciais do Estado, saqueado por sua elite de nariz empinado e olhar condenatrio a tudo que esteja fora do prprio umbigo dourado? Ela voltaria ao crime? uma resposta que Andreza j no pode dar. Numa cidade, num Estado e num pas que fecham as portas solenemente e de imediato a esses desafios, a essas vidas, que se entortaram na luta por um espao mnimo, roubado pelos atletas da alta corrupo no Brasil, melhor esconder esses dramas num arquivo inativo, tor nando-os arquivo morto.

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6 Os donos do poder e suas desavenasA posse no dia 10 do novo procurador geral de justia do Estado, Gilberto Valente Martins, serviu para mostrar como agem as autoridades do Par no uso do poder que a sociedade lhes conferiu. A foto ocial do ato, que revela os personagens de frente, um ao lado do outro, d a impresso de harmonia. Oculta a verdadeira guerra que eles travaram at ento. Tudo comeou quando o governador Simo Jatene escolheu o segundo candidato mais votado e no do primeiro na eleio para a chea do Ministrio Pblico do Par. Justicou surpreendente deciso pelo critrio docurrculo. O de Gilberto Martins era muito mais rico do que o de Csar Mattar. No s por ttulos, mas pelo trabalho realizado. De fato, dicilmente se encontraria, nos quadros do Ministrio Pblico do Estado, com seus 416 procuradores e promotores, algum com a biograa do novo chefe. Mesmo no tendo subido de promotor para procurador de justia, em 27 anos de carreira, ele no precisou dessa ascenso funcional para integrar, por duas vezes seguidas, o Conselho Nacional de Justia (que teve apenas dois paraenses como seus efetivos, o outro sendo o desembargador Milton Nobre) e ir ao topo da carreira, podendo encerr-la ao m do seu mandato de dois anos como procurador-geral. Por ironia, a possibilidade de um promotor chear o MP, cargo at ento exclusivo dos procuradores, foi aberta por um projeto do procurador que ontem deixou o cargo, Marcos Antnio das Neves, da Assembleia legislativa e do prprio Jatene, que sancionou a lei. O enredo parecia montado para que Marcos Antonio entregasse a funo ao seu candidato, que era promotor, fechando o circuito do entendimento que sempre manteve com o governador. Usando a mquina que montou, o ex-procurador geral conseguiu tornar Csar Mattar o mais votado pelos seus pares, encabeando a lista trplice encaminhada a Jatene. A houve a traio, ou ento o procurador no percebeu que a aliana mudara de endereo e o acordo at ento mantido perdera a vigncia. Tambm no h quem discorde da fraqueza de Mattar, embora tenha sido o vitorioso na prova das urnas. A opo por um candidato inexpressivo se devia a dois critrios: Marcos Antnio estava convicto da sua fora junto ao governador, que avalizaria seu protegido, qualquer que fosse, caso ele casse na cabea da lista; e Mattar seria um instrumento para manter sua inuncia atravs do sucessor malevel. Sem possibilidade de impedir que o resultado se lhe tornasse adverso, o ex -procurador-geral se vingou mudando subitamente, na undcima hora, a posio que sustentou durante toda a sua gesto, de aliana com o governador e defesa dos interesses dele. Suspendeu o bloqueio que mantinha ao contra Jatene por improbidade administrativa, praticada para beneciar o lho, Alberto, e autorizou o procurador Nelson Medrado e o promotor Armando Brasil a denunciarem o governador. Ambos tm juzo formado: o crime foi realmente cometido. A denncia logo chegar justia, ou o novo procurador encontrar um meio de sust-la, por alguma inconsistncia tcnica do procedimento ou, mesmo sem essa fundamentao, para retribuir ao ato do governador de nome-lo? Esta a primeira questo e grave na pauta de Gilberto Martins. Se ele s deve a sua escolha a mritos pessoais, no tem por que se considerar devedor de uma gentileza, favor ou esperteza de Simo Jatene. Procedendo dentro da estrita norma legal, que, aplicada, resistir a qualquer contestao e ao teste da transparncia, ele realmente far da sua gesto um mar co na acidentada trajetria do Ministrio Pblico do Par: o momento de independncia e autonomia em relao aos demais poderes, em defesa dos interesses da sociedade, conforme a jura que Gilberto Martins fez na sua posse, engalanada por uma plateia de 300 convidados. Embora os crticos do novo procurador-geral temam sua vaidade, que realmente existe, ela nunca foi fator impeditivo para Gilberto Martins fazer o que fez, lustrando como poucos o seu currculo. Ele pode se lembrar de um exemplo expressivo de quase meio sculo atrs. Cercado por todos os lados, principalmente pelo Congresso e a Suprema Corte, em virtude dos crimes que praticara, o ento presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, nomeou um procurador especial para atuar nos casos que o envolviam. Mas teve que demiti-lo porque Leon Jaworski (se que me lembro de memria do seu nome) deu prosseguimento denncia do homem mais poderoso do mundo. quando se defrontam com homens ou interesses poderosos em conito que as instituies se engrandecem, distanciando-se dos delinquentes e malversadores do dinheiro pblico e se aproximando do povo. Gilberto Valente Martins disse que far isso. Os paraenses esperam que, enm, uma autoridade pblica do Estado honre a palavra empenhada. J Marcos Antnio das Neves encer rou melancolicamente o seu mandato como chefe do Ministrio Pblico do Par. Desfecho triste, sim, mas no incongruente com o que fez o procuradorgeral de justia do Estado. Como tem sido a regra na repblica brasileira, o chefe faz da instituio um instrumento do seu projeto pessoal. Neves queria que o seu sucessor fosse o promotor Csar Mattar. Parecia que ia conseguir esse objetivo. Foi ao governador para acertarem a escolha. Numa agrante afronta independncia entre os poderes da repblica, o chefe do poder executivoque nomeia todos os chefes dos demais poderes e dos quase-poderes, mas cheios de cargos a dispor sem concurso pblico e verba nem sempre sujeita ao devido controle. Simo Jatene ouviu tudo que Marcos Antnio tinha a lhe dizer. Segundo uma fonte palaciana, cou rouco de tanto ouvir, sem gastar saliva com aceitao ou promessa. Mas o chefe do MP saiu do encontro certo de que se o seu delm vencesse a eleio, na qual, pela primeira vez os promotores puderam votar e ser votados, ele seria sacramentado. Csar Mattar ganhou por boa diferena de votos sobre Martins. A festa da vitria foi calorosa. Um dia antes de decidir o contrrio, Jatene chamou Marcos Antnio e lhe disse que, infelizmente, ia escolher o candidato da oposio, segundo colocado na eleio geral. A razo: Mattar no tinha currculo para assumir a funo. O do seu oponente era brilhante. Ia prevalecer o mrito. O j ex-aliado ainda insistiu demoradamente. Durante mais de duas horas

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7 tentou convencer o governador a voltar atrs e cumprir o que o chefe do MP entendeu ter sido um acordo, em retribuio aos servios que prestara ao tucano. O maior deles: no autorizar o procurador Nelson Medrado e o promotor militar Armando Brasil denunciarem o governador por improbidade administrativa. Jatene seria e foi acusado de favorecer o lho, Alberto, dando-lhe o fornecimento de combustvel para a Polcia Militar e o Corpo de Bombeiros. Beto teria faturado cinco milhes de reais com o presente. Saindo furioso da frustrante conver sa, o procurador-geral de justia deixou para os ltimos dias do seu mandato a reverso vingativa: se antes protegera o governador se recusando a autorizar o procedimento, agora iria autoriz-lo, o que fez na quarta-feira passada. Automaticamente, Medrado e Brasil se veriam livres do inqurito administrativo instaurado contra eles no MP paraense e poderiam suprir a exigncia da juza responsvel pelo processo. Ktia Parente queria extinguir a ao porque os dois autores no seriam competentes para instaurar o processo contra o governador, que tem privilgio de foro. Por isso mesmo Jatene questionou a presena de ambos frente da ao perante o Conselho Nacional do Ministrio Pblico, que ainda no deliberou a respeito. O novo procurador-geral assumiu o cargo com essa batata quente inaugural. Se retirar a autorizao, se desmoralizar. Mantendo-a, desagradar quem o nomeou. Os palacianos certamente diro que ele apunhalou seu padrinho, tornando-se um trara. O desao ser timo. As pessoas passam, as instituies cam. O rei-sol da Frana achava que o Estado era ele. Parece que os chefes dos poderes no Par ainda no se convenceram de que a monarquia acabou no Brasil, substituda por essa repblica que est a. Devem, pois, ser lembrados pelo per sonagem para cujo benefcio deviam se empenhar os que respondem pelas instituies: o povo.A hidreltrica para. A conta vai crescerO Tribunal Regional Federal da 1 Regio determinou, na semana passada, a suspenso da licena de operao da usina hidreltrica de Belo Monte. A Cor te Especial acatou recurso do Ministrio Pblico Federal por nove votos a cinco, seguindo o relator. A justia federal do Par j determinou a suspenso da licena de operao da usina, emitida pelo Ibama, at que fossem integralmente cumpridas as obrigaes relacionadas ao saneamento bsico, atendendo parcialmente o pedido do MPF, apresentado em ao civil pblica. O projeto deveria ter sido implementado em julho de 2014, para evitar a contaminao do lenol fretico de Altamira pelo afogamento das fossas rudimentares da cidade, devido ao barramento do rio Xingu. Mas o presidente do TRF1 entendeu que a paralisao de Belo Monte traria prejuzo ordem e economia pblicas, ocasionando suspenso de fornecimento de energia eltrica, elevao das tarifas de energia e prejuzos ambientais pelo uso de termeltricas. Para o MPF, o enchimento do reser vatrio sem o cumprimento da condicionante do saneamento, que j deveria ter sido realizada h trs anos, coloca a populao de Altamira em risco de doenas pela contaminao das guas superciais e profundas, alegaram os procuradores regionais da repblica Raquel Branquinho, Felcio Pontes e Bruno Calabrich. Outro argumento, segundo nota da assessoria de imprensa do MPF, foi de que a linha de transmisso principal, que levaria energia do Xingu ao Sudeste, no est construda, o que impede dano economia pblica. Ao reformar a deciso do presidente, a Corte Especial do TRF1 decidiu que o reservatrio da usina no pode ser formado at que seja realizado o saneamento bsico de toda a cidade de Altamira, conforme determinava a condicionante da licena de operao concedida pelo Ibama. A providncia, embora ainda sujeita a novo recurso da Norte Energia, a concessionria da usina, na guerra judicial que trava com o Ministrio Pblico, pode ser necessria para a adoo de providncias que j tardam. No entanto, as informaes contidas na nota so incorretas. Belo Monte j colocou em operao comercial 10 turbinas. Cada uma das maiores, da casa de fora principal, tem potncia nominal (de 611 megawatts) capaz de atender todo consumo da regio abastecida pela linha de transmisso conhecida por Tramoeste. Embora a linha no sentido sul ainda esteja em construo, e com cronograma atrasado, sob a responsabilidade da chinesa State Grid, no sentido norte Belo Monte abastece o Amap e Manaus, valendo-se da linha (tambm concedida State Grid) recentemente construda. Atravs do Ambiente de Contratao Regular, denido em eleio realizado em 2010, Belo Monte tem prazo para suprir 17 Estados. Quase 30% do que gerar ir para So Paulo e 14,6% para Minas Gerais. Ao Par sero destinados 3,22%. Quanto ao reservatrio, que apenas 40% do que estava inicialmente previsto, ele est plenamente formado. Com a pequena acumulao, Belo Monte considerada, apesar da sua dimenso, de quarta maior hidreltrica do mundo, uma usina a o dgua. Mais uma dessas coisas de Brasil.

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8 A carne do JBS forte no ParNo cardpio que ofereceu ao Ministrio Pblico Federal para ter acolhida sua delao premiada, o empresrio Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS, teria se comprometido a revelar as fraudes no ICMS praticadas pela empresa, maior produtora de carne do mundo. O esquema consiste no pagamento de propina a governadores que oferecem uma reduo na alquota do imposto. Rio e Mato Grosso seriam exemplos, garantiu a Veja da semana passada. Podia ter citado tambm o Par. O grupo JBS, um dos visados pela Operao Carne Fraca, da Polcia Federal, que tem praticamente o monoplio do processamento de carne no Par, fechou trs frigorcos no Estado (em Altamira, Novo Progresso e Eldorado de Carajs), demitindo centenas de empregados. Diante da situao, o governo estadual assinou um protocolo com a empresa, comprometendo-se a lhe conceder incentivos scais para a operao de um porto, baixando a alquota de ICMS de 17% para 1%. Mas o protocolo acabou sendo cancelado porque a empresa no cumpriu a sua parte no acordo. Por isso, o secretrio de Desenvolvimento Econmico, Mineral e Energia, Adnan Demachki, pediu vistas de dois processos da JBS/Friboi no Conselho Estadual do Meio Ambiente, em dezembro do ano passado. A empresa foi autuada por despejar resduos provenientes do processo produtivo diretamente no solo sem autorizao do r go ambiental competente. O voto do relator era para prover o recurso que ela apresentou e anular o auto de infrao lavrado pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Quando o pedido de vistas foi apresentado, o representante da JBS, Luiz Gustavo, interveio para ressalvar que a questo destacada pelo secretrio era comercial, no devendo ser usada como razo de decidir ou no da for mao do convencimento para a manifestao do voto de cada um sobre outra questo, relativa ao meio ambiente. Ele queria que, nesse caso especco, os conselheiros do Coema deveriam ater-se apenas s questes tcnicas que envolvem um dos procedimentos de licenciamento ambiental. Demachki admitiu ser necessrio que se abra um dilogo com a JBS para elencar esses fatores. Defendeu o pedido de vistas dos processos, por ser seu direito, mas que, a partir desse procedimento de dilogo, d-se as boas vindas ao empreendimento no Estado. Ou seja: a posio do Estado poder mudar, dependendo dessa conversa, certamente a ser travada em ambiente fechado. O assunto no voltou mais pauta do Coema.Pedido recordeEm outubro do ano passado, Adnan Demachki, fez ao Conselho Estadual de Meio Ambiente, do qual integrante, o maior pedido de vistas da sua histria: por solicitao dele, foram retirados de pauta 90 processos nos quais a secretaria de Meio Ambiente autuou vrios empresas por dano ecolgico. Dois meses depois, Adnan os devolveu, provocando ainda maior impacto do que na primeira iniciativa. Em relao a 12 dos 90 processos sugeriu a elevao da pena, por consider-los como os casos graves. Quanto a outros 29 processos, recomendou que fossem considerados prescritos. Pediu a manuteno da pena aplicada em 32 processos e a reduzi-la em 15. Considerou-se suspeito em relao a dois processos, por envolverem dois conhecidos seus. O conselheiro Marco Antnio Car rera, representante dos servidores da secretaria,questionou a razo das diferenas entre as multas, j que as infraes eram as mesmas em relao aos ltimos processos deliberados na reunio. Adnan lembrou que atenuantes e agravantes so analisadas em cada processo. O secretrio adjunto da Semas, Tales Belo, tambm secretrio executivo do conselho, questionou a alterao do valor da infrao e a sua determinao, realizada no mbito do Coema, atravs de uma simples resoluo, que eliminaria a possibilidade de um novo recurso ao prprio conselho. AdnaDemachki alegou que no deve ser o scal que deve aplicar a pena, de absolutamente nenhum r go, ele deve informar a infrao e o rgo responsvel denir a pena. Nste caso, o rgo de segunda instncia e ele pode restabelecer a pena, para cima ou para baixo. Tales Belo insistiu: no so os scais que aplicam as multas, mas sim a Consultoria Jurdica. Modicada a deciso, o interessado ou prejudicado pela resoluo do conselho caria sem a possibilidade de recorrer. Um auto de infrao foi arquivado pelo conselho, dispensando o pagamento da multa, por consider-la exor bitante e aplicada de forma arbitrria.Ita fica maiorO Ita, o maior banco do pas, vai poder ignorar os 25 bilhes de reais que a Receita Federal lhe cobrava como impostos obrigatrios no processo de fuso com o Unibanco. Por 5 votos contra 3, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministrio da Fazenda decidiu, na semana passada, que a cobrana indevida. Ela se referia a imposto de renda e contribuio social sobre o lucro lquido por ganhos de capital. Joo Carlos Figueiredo Neto era o relator do processo at ser preso por cobrar propina para proferir voto favorvel ao banco.Foi afastado do conselho e, por consequncia, do caso. O Carf, vinculado Receita Federal, julga recursos contra a cobrana de multas e tributos. Est com 19 cadeiras vagas segundo o ltimo levantamento.

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9 O grande projeto: grande agressoA mineradora canadense Belo Sun Mining Corporation projetou instalar no Par a maior mina de ouro do Brasil, lugar ocupado h quase dois sculos pela mina de Morro Velho, em Minas Gerais, com a diferena de ser feita atravs de lavra subterrnea e no a cu aberto. A empresa, controlada pela For bes&Manhattan, pretende extrair 60 toneladas de ouro em 12 anos.O local s margens de um dos maiores rios do planeta, o Xingu, no Par. A jazida ca vizinha da quarta maior hidreltrica do mundo, a de Belo Monte, j em operao. Apesar da grandiosidade do projeto, a Belo Sun no conseguiu inici-lo at hoje porque no apresentou estudos vlidos sobre o impacto da sua minerao sobre os povos indgenas da regio.Na semana passada, o Tribunal Regional Federal da 1 Regio, em Braslia, suspendeu a licena de instalao concedida pelo governo do Par, a pedido do Ministrio Pblico Federal. A multinacional voltou a ser contida por ter desobedecido deciso anterior do prprio TRF1, segundo a deciso do desembargador federal JirairMeguerian. O tribunal permitiu a continuidade dos licenciamentos, com a expressa orientao de que fosse analisado o impacto sobre os ndios. A Belo Sun at apresentou o estudo, mas a Funai (Fundao Nacional do ndio) o considerou inapto por no conter nenhum dado coletado dentro das reas indgenas e por no ter sido realizada consulta prvia aos ndios das etnias arara e juruna, que devero ser afetados. A secretaria de meio ambiente do Par, no entanto, deu prazo de trs anos para que a empresa fazer tratativas dos estudos. O desembargador federal que mandou suspender a licena entendeu que o prazo de mil dias para tratativas, condues e execues junto Funai no que tange ao Estudo de Componente Indgena evidente descumprimento de deciso judicial, no podendo ser tolerada pelo Poder Judicirio. Alm da deliberao do Tribunal Regional Federal, motivado pela questo indgena, o Tribunal de Justia do Estado do Par tambm sustou a licena para o funcionamento da empresa por causa de irregularidades fundirias cometidas na aquisio de terras ocupadas pela Belo Sun. A mineradora canadense responde a cinco processos na justia, movidos pelo MPF, pela Defensoria Pblica do Par e pela Defensoria Pblica da Unio, por diversas irregularidades. perseguio poltica, atavismo ideolgico, atraso cultural ou mero desconhecimento das pessoas, grupos e instituies que combatem o empreendimento, incapazes de vencer as limitaes do provincianismo nativo diante de uma iniciativa internacional? Essas suspeitas teriam procedncia se a Belo Sun enfrentasse a batalha de convencimento da sociedade e vencesse os seus opositores num debate aber to, franco e honesto. Mas a empresa sequer enviou representante para uma audincia pblica promovida pelo MPF em Altamira, a maior cidade da regio, recusando dialogar com a populao e aqueles que devero ser atingidos pelo projeto. Na audincia foi destacada a severidade prevista do impacto da lavra industrial de ouro, em seguida desorganizao do espao e da vida humana provocada pela Hidreltrica de Belo Monte, que comeou a funcionar no ano passado. A fragilidade doo meio ambiente levou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis), a condicionar a concesso da licena para a usina de energia a um perodo de testes durante seis anos, para vericar a capacidade de sobrevivncia dos moradores da rea construo da barragem e seca permanente. A lavra de ouro no seguiu esse caminho, o que provocou a preocupao pelo futuro da regio. Esse choque tem sido inevitvel quando um grande projeto externo comea a se instalar na Amaznia. O potencial de inovao, racionalidade e avano desses empreendimentos econmicos parece refratrio s tentativas de concili-los com a histria e a ecologia de uma regio com tanta diversidade, peculiaridades e fragilidades. Acaba se impondo a lei do mais forte, no confronto dos oponentes em batalha, que nunca favorece a Amaznia.Um homem corretoO engenheiro Antnio Dias Leite foi ministro de Minas e Energia no pior perodo da ditadura militar, o governo do general Mdici, entre 1969 e 1974, mas ao morrer na semana passada, no Rio de Janeiro, aos 97 anos, suas mos estavam limpas. Como esse aparente paradoxo possvel? S encontro uma explicao: no havia ningum mais brilhante do que ele no setor. No s de uma inteligncia excepcional: tambm por uma rara capacidade de trabalho. Estava em plena atividade na idade avanada e podia ter continuado assim por mais alguns anos se uma queda ao caminhar no tivesse antecipado o seu m. Dias Leite foi um marco na histria da minerao e da energia na Amaznia. Patrocinou o Projeto Radam, o mais avanado levantamento do at ento desconhecido subsolo da regio. Participou da presso que resultou no ingresso da Companhia Vale do Rio Doce em Carajs, at ento reduto da multinacional americana United States Steel. Estimulou o aproveitamento hidreltrico dos rios amaznicos e a abertura da minerao a empresas nacionais e estrangeiras. Uma obra polmica, certo, sujeita a crticas, mas concebida com profundidade e slido conhecimento de causa, que mudou de verdade a situao onde ele atuou. uma pena que no esteja vivo para ver a repercusso do seu livro ps-morte, Meu sculo: O Brasil em que vivi cujo lanamento est previsto para maio. Para os leitores, ser o testemunho e o testamento de uma poca.

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10 Histria trgica brasileiros, morreu em 1976, ainda novo, com 55 anos. Seus mais amargurados do que quando o golpe militar de 1964 o puniu com o afastamento da Universidade de Braslia, junto com 300 aceitar a chefia de um grupo que ia acompanhar os contatos com os ndios alcanados pela Transamaznica, em construo nos anos 1970/72. Arrependeu-se amargamente. Os ndios iam ser sacrificados pelos projetos de integrao da Amaznia que o governo realizava. profissional) de participar da ao do governo. As idas e vindas antropologia e se perguntava se ela no teria, na Amaznia, o papel arara, tema do artigo que a seguir reproduzo, publicado em O Liberal a flechadas, ele saiu em defesa dos araras, vendo-os por uma tica gravidade, que no mudou tanto com a evoluo decorrente dos anos.Pobres ndios arara. Boa parte da opinio pblica os deve estar condenando como sanguinrios. Alguns at pediro suas cabeas. Felizmente, esta no parece ser a opinio do sertanista Joo Car valho, ferido pelos ndios e em recuperao no Hospital Belm. Pelo que disse imprensa esse sertanista, de grande passado, os culpados pelos ataques no so os ndios. Eles apenas esto reagindo a uma situao que nenhum civilizado suportaria sem antes causar grandes tragdias. Nos seis ataques que realizaram a partir do momento em que a Transamaznica atravessou as suas terras e os desalojou das suas aldeias, os arara mataram cinco pessoas (trs funcionrios da CPRM [Companhia de Pes era, para eles, um limite sagrado a respeitar. Infelizmente, os brancos no tinham conceito de honra semelhante. Os milhares de parakan que se espalhavam entre o Tocantins e o Xingu se restringem hoje a poucas centenas, se muito. A histria dos arara, embora pouco conhecida, geralmente trgica (e haver, para os ndios, histria que no seja trgica neste pas e em quase todos os demais das Amricas?). Eles conseguiram fugir da ofensiva desencadeada pelo SPI [Servio de Proteo aos ndios, que antecedeu a Funai] entre 1952 e 1960 para pacicar diversas tribos dos vales do Tocantins, Xingu e Tapajs, consideradas ameaadoras economia regional por defenderem suas terras, que continham seringais ou castanhais cobiados pelos brancos. Fugindo dos seringalistas e donos de castanhais e tambm do SPI os arara penetraram ainda mais no interior da floresta, arrasados por doenas, falta de alimentos e mudana de ambiente. Fizeram sua nova aladeia a aproximadamente 100 quilmetros de Altamira e reiniciaram a vida. Foram surpreendidos pelas pesadas mquinas que abriam, em 1970, a Transamaznica. Suas habitaes, roas e pertences foram abandonados na fuga s pressas. Continuaram a fugir no rumo sul. No incio de 1971, um grupo de trabalho formado na Funai (chefiado pelo falecido antroplogo Eduardo Galvo, com a participao de mais trs antroplogos do Museu Goeldi) reconheceu que os grupos ainda no pacificados que se encontravam na rota da estrada, alm de constiturem minoria, parecem no possuir a fora agressiva ento demonstrada pelos kayap. Destacava que, naquele momento, no se pode dizer que a economia tradicional da regio e as novas frentes colonizadoras possam ainda ser seriamente perturbadas pela ao de grupos tribais. Inversamente, pode-se dizer que maior a necessidade de encontrarem-se meios capazes de pelo menos atenuar os impactos que esses grupos provavelmente iro sofrer, em consequncia do novo uxo de penetrao. quisa de Recursos Minerais, do governo federal ], um colono e um peo) e feriram quatro, todos eles funcionrios da Funai [Fundao Nacional do n dio ]. Mas centenas deles foram mortos neste sculo, em autnticos massacres, comandados pelos exploradores de seringais, que pagavam queles que lhes levassem orelhas secas de ndios. ndio no ataca gratuitamente. Qualquer sertanista sabe disso. Os parakan reagiram ferrovia que ligava Tucuru (ento Alcobaa) a Jatobal, porque ela cortava seus campos de caa, de pesca, de alimentos. Foram mortos dezenas de ndios por tropas da Polcia Militar, comandadas por um sargento reformado que odiava os parakans, mas os ndios nunca atravessaram o leito da ferrovia. Este

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11 A observao tinha contedo proftico. Nenhuma das medidas sugeridas pelo grupo, mesmo as de carter geral, foram cumpridas pela Funai. O grupo sugeriu, por exemplo, que a frente de atrao da Funai deveria se antecipar ao contato entre ndios e o pessoal da estrada, no sentido de que os trabalhos de atrao dos grupos sejam feitos sem perturbao. Pediu tambm garantia e reserva de terras aos grupos indgenas, que deveriam ser imediatamente demar cadas e registradas, a m de evitar conitos futuros sobre a posse das mesmas. Recomendou que o deslocamento de grupos tribais somente dever ser feito quando atingidos os aldeamentos desses grupos pelo percurso da estrada. Eles deveriam ser alocados em terras adequadas ao tipo da economia desses grupos, seja agrcola ou coletora, de modo que a nova localizao esteja de acordo com seus meios de subsistncia. Reivindicaram o estabelecimento de postos de atrao que permitam uma assistncia permanente pela Funai a esses grupos. Ler todo documento signica vericar tudo o que no foi feito. E constatar que o realizado sempre foi contra os interesses dos ndios. Nem do elementar, que seriam informaes atualizadas e permanentes sobre as tribos da estrada, a Funai dispunha. Sequer pode a fundao garantir que seja realmente arara o grupo com o qual est buscando contato. Tudo indica que sejam os arara mesmo. Mas podem ser juruna. S isso suciente para demonstrar a precariedade dessa busca de aproximao. Os arara so vtimas de aes criminosas deliberadas, como as do passado, de m f e de incompetncia. Pelo menos metade dos 400 mil hectares que o Incra [Instituto Nacional de Coloni zao e Reforma Agrria ] entregou Cotriju, cooperativa que assentaria nessas terras duas mil famlias de colonos gachos trazidos de Iju, no Rio Grande do Sul, pertencem aos ndios, de fato e de direito. Mas o territrio indgena pode abranger toda a rea, porque se sabe pouqussimo sobre os araras. Ainda assim, a transao Incra-Cotriju foi assistida de camarote pela Funai. Reconhecido o erro, tentou-se remedi-lo. De um lado, interditando 160 mil hectares, depois de reduo decidida pelo presidente da Funai. Ele verificou que a usina de acar Abraham Lincoln, lotes de colonos e a agrovila Brasil Novo foram consideradas territrios indgenas no primeiro decreto de interdio. De outro lado, intensificando as investidas das frentes de atrao. Pressionado de todas as formas, os ndios iniciaram um ciclo de migraes, mudando constantemente de local para fugir do contato. De 1976 para c for maram nove roas e 10 acampamentos, numa indicao do seu completo desespero. No esto podendo caar, pescam pouco e no produzem os alimentos necessrios sua sobrevivncia. Esto literalmente famintos. O que a civilizao espera que eles faam? At este ataque, os araras estavam reagindo a agresses. Mas se realmente eles estavam pintados para a guerra ao se encontrarem inesperadamente com a equipe da Funai, ento mudaram de atitude: vo tomar a iniciativa de atacar tambm. E quem os pode condenar? O que os ndios parecem querer mesmo so suas terras e car distncia dos brancos. Por que a Funai, ao invs de insistir em pacic -los, simplesmente os deixa em paz e procura evitar que o seu territrio seja invadido? Talvez seja menos custoso fazer o patrulhamento dos limites desse ter ritrio pela Transamaznica, pelo rio Iriri e laterais. Seguramente, mais justo, mais hu mano, mais civilizado sem aspas. Uma poderosa gralha pousou no texto da pgina oito da edio anterior, bicando o i de risvel e metendo na palavra, com seu bico longo, um e absurdo. Mas a gralha desastrada foi espantada pelo leitor Rodolfo Lisboa Cerveira, que ajudou a corrigir o erro. Espero pela graa do leitor, que me dispensar certamente de provar-lhe que no cometeria essa falha se a pressa, o dedilhar errado, a presso, a pssima reviso e o traioeiro computador no me tivessem preparado essa pea, por um involuntrio paragrama, sempre cometido pelo HortelinoTrocaletra, o namorado da Pafncia. De qualquer maneira, perdo, leitores

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12 MATADOUROO Curro do Maguari, onde hoje funciona o centro cultural Curro Velho, entre a avenida Pedro lvares Cabral e a baa de Guajar, era o fornecedor de carne para o consumo de Belm e da vila do Pinheiro (atual Icoaraci). Num dia de 1914 foram abatidos 114 bois, 25 vacas, quatro vitelas, cinco carneiros e 95 sunos. Existiam ento no matadouro 621 bois, 136 vacas, 10 vitelas, oito cabras, 18 carneiros e 345 sunos.IAPI (1)Intenso debate foi suscitado em Belm durante o ano de 1947: parte da rea do largo deveria ser destinada a um conjunto residencial? Em janeiro de 1948 o debate foi encerrado pela deciso da prefeitura de Belm de doar a rea, atravs de lei, ao Instituto de Aposentadoria e Penso dos Industririos. Para tentar encerrar a polmica, o IAPI publicou na imprensa uma pgina de matria, na semana seguinte doao, para defender o seu projeto. Ele previa a construo de 192 moradias, dividida, em 24 grupos de edifcios de dois andares, cada um deles com oito residncias, a serem ocupadas pelos associados do instituto de previdncia social, que, na poca, tinha 10 anos de funcionamento no Par. Inclua tambm uma escola, com seu play-ground, e um ambulatrio.IAPI (2)O largo de So Braz tinha, ento, rea de 100 mil metros quadrados, dos quais 24 mil foram doados ao IAPI. Boa parte do espao da praa ainda estava dominado por capim, o que levava os defensores do projeto a consider-lo uma maneira de melhorar a paisagem e dar-lhe um formato mais racional, ur banizando-o. Ficariam dois retngulos ajardinados e um terceiro com o bloco de residncias, em traado inovador (com alinhamentos exter nos alternados, o que ser executado pela primeira vez no Par), testemunhou Dilermando Menescal, um dos engenheiros ouvidos na matria. Alm do conjunto residencial, que se mantm com alguma identidade, apesar de muitas alteraes, o IAPI recebeu por doao um terreno baldio, na esquina da Presidente Vargas (15 de Agosto de ento) com a Manoel Barata. Comprando a vizinha Casa da Itlia, que pertencia aos chamados sditos do eixo (o Ministrio das Relaes Exteriores brasileiro teve que aprovar a transao, efetuada trs anos depois do nal da Segunda Guerra Mundial), o IAPI levantou sua sede, em 12 andares, que seria o mais alto edifcio da Belm do seu tempo. Quanto a So Braz, a interveno do IAPI no ambiente foi a ltima ao inteligente no espao que devia ser uma espcie de Arco do Triunfo belenense, entre grandes avenidas e com um enorme espao de quase 80 mil metros quadrados para a circulao de pessoas. Seria quase do tamanho da praa da Repblica e duas vezes maior do que a praa Batista Campos. Hoje um caos afunilado.Anncios de jornal que testemunham a vida em Belm no incio de 1948: Algum embarcou num nibus da linha circular, no trajeto entre a Conselheiro Furtado e a Joo Alfredo, usando um broche com uma prola cravejado de brilhantes e o perdeu. Mas teve a iniciativa (ou audcia) de solicitar a quem o encontrasse a gentileza de entreg-lo no ponto de par tida do transporte, na Conselheiro, onde seria generosamente graticado. Quem quisesse energia com os princpios ativos do guaran podia procurar o Guaran Sorblis, que voltara a ser vendido nas confeitarias Palace, Nazar (que tambm era botequim) e Aveirense; nos cafs Manduca, Elite, Cachimbo de Ao e Glria; nos bares Guarani, Unio e Brasileiro; e nos botequins SantAna e Nascimento. A Casa Fluminense (na 13 de Maio) dizia estar revolucionando os preos do comrcio com a venda de linhos irlandeses e nacionais, casimiras, tropicais e tubares. Aconselhava as pessoas a no comprar seu corte de tecido antes de consultar-lhe os preos. Uma famlia da Frutuoso Guimares precisava de uma pequena de bons costumes para ser ama de uma menina de trs anos. Dispunha-se a pagar quanto quiser a pequena. Ia a leilo um slido e importante prdios de trs pavimentos e um mirante, no centro do comrcio, na avenida Castilhos Frana, entre Campos Sales e Padre Eutquio, com trs portas de frente e assoalho de acapu e pau amarelo. Da varanda, segue uma escada que se comunica com um mirante, com vrias janelas, por onde se descortina uma vista admirvel do Guajar e mata verdejante. Aquele era o melhor ponto para comrcio, escritrio, moradias, etc..Em 1948 os SNAPP (Servios de Navegao da Amaznia e Administrao do Porto do Par), autar

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13 quia federal com sede em Belm, possua uma frota de 100 unidades, entre navios, rebocadores e alvarengas (a maioria com mais de 30 anos de uso), quando decidiu substituir as mquinas a vapor por motores a leo diesel. Muitos estranharo que, em plena oresta tropical, a lenha seja obrigada a ceder lugar a um combustvel estrangeiro. Mas que a substituio determinar uma grande economia nos gastos, explicou o presidente da instituio, comandante Magno de Carvalho. Alm de ser mais cara, a lenha tinha um inconveniente; nos locais de suprimento ao longo da rota, geralmente cas e encharcadas. Alm disso, sendo um co mbustvel volumoso, ocupa um grande espao, prejudicando a admisso da carga que paga frete e exigindo paradas a curtos intervalos para a renovao dos suprimentos. Apesar da modernizao, os SNAPP (depois Enasa) no conseguiu resistir e morreu.No incio de 1948, o Banco de Crdito da Borracha comeou a vender todo material recebido do acervo da Rubber Development Corporation, criada pelos Estados Unidos, junto com o BCA, dois anos antes, para extrair borracha dos seringais amaznicos para as tropas aliadas que combatiam o eixo (Alemanha, Itlia e Japo) na Segunda Guerra Mundial. O acervo, espalhado por vrios depsitos em Belm, era numeroso e diversicado. Inclua lanchas, tratores, motores, peas e equipamentos. O governo brasileiro tinha 55% do capital do BCA, o governo americano 40% e o pblico, 5%.Um joia de Belm No dia 4, um acidente, com o desabamento de parte do forro da entrada da instituio, apontou a desativao do hospital em proveito da edificao. Mas no foi. O episdio, que no causou vitima

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: O m do tnel: onde est?Elias Granhem Tavares me demasiadamente a leitura, me reservo para replicar em relevante: provocar o debate sobre o tema, to decisivo para o Brasil de hoje.Na matria O governo Temer e a utopia brasileira ( JP 626), referindo-se conduo da poltica econmica brasileira, dizes: O esquema adotado outra vez por Meirelles, de volta ao centro do poder com Temer, pode ser combatido e substitudo por outro. Mas ele tem coerncia. Guarda certa identidade com o Plano Real, to criticado pela esquerda (e, em particular, por Lula, sempre incapaz de ver alm da conjuntura), e o mais eciente tratamento inacionrio j experimentado em todo mundo. Mas, adiante, dizes que esse esquema, embora aceitvel, s pode dar certo, se avalizado por um estadista, e que, infelizmente, Temer no satisfaz esse perl. Logo, se a poltica econmica do Meirelles no der certo, a culpa do Temer, com seu perl bichado. Nossa! A poltica econmica do Meirelles guarda certa identidade com o Plano Real ? Discordo! At onde lembro e sei, o Plano Real foi implantado em quatro etapas: (i) o Programa de Ao Imediata PAI, de julho de 1993; (ii) a Emenda Constitucional de Reviso ECR n 1, de maro de 1994; (iii) a criao da Unidade Real de Valor URV, tambm em maro de 1994; e (iv) o Plano Real propriamente dito, pela MP 542, de 30-6-1994, convertida na Lei n 9.069, de 29-6-1995. A rigor, o Plano Real teve ainda uma quinta etapa: a MP 1053, de 30-6-1995, convertida na Lei n 10.192, de 14-2-2001. Essa etapa ser ignorada aqui, porque apenas complementou as medidas anteriores, sem acrescentar novidade, em termos de poltica econmica. As principais medidas prticas do Plano Real foram implantadas nas trs primeiras etapas. Comeou com o Pro grama de Ao Imediata PAI que: (a) reduziu a despesa da Unio em US$ 6 bilhes (corte no oramento); (b) aumentou a receita da Unio, com a criao do Imposto Provisrio sobre Movimentao Financeira IPMF, e a cobrana da dvida de US$ 40 bilhes, dos Estados e Municpios; e (c) reforou o caixa da Unio, com a acelerao do programa de desestatizao. A segunda etapa a ECR n 1 desafogou ainda mais o caixa da Unio, ao desvincular receitas; o dinheiro que, por fora dessa Emenda Constitucional, deixou de ser repassado a Estados e Municpios, foi mobilizado para o custeio do Sistema de Sade e para o pagamento de benefcios previdencirios e auxlios de assistncia de prestao continuada. A terceira etapa instituiu a URV ndice que, por 4 meses de 1 de maro a 30 de junho de 1994 funcionou como uma moeda escritural atrelada ao dlar, sacramentando o fato de que, em moeda forte, a inao brasileira deixara de existir, e impedindo que a inao passada fosse injetada no futuro. Com a inao sob controle veio a quarta etapa, o Plano Real propriamente dito, que, alm de outras medidas menos impactantes, aboliu a desmilinguida e desacreditada moeda manual at ento vigente o Cruzeiro Real (CR$) e converteu a URV no Real (R$), a atual moeda manual brasileira. Ou seja, o Plano Real reorganizou as nanas da Unio, aumentando as recei tas e reduzindo as despesas. O aumento da receita foi obtido: (a) elevando a carga tributria ; (b) cobrando dvidas dos Estados e Municpios; (c) desvinculando receitas, i.., reduzindo a participao de Estados e Municpios na partilha do bolo tributrio ; e (d) torrando o patrimnio estatal. J a reduo da despesa bastante modesta, por sinal foi realizada por meio do corte de US$ 6 bilhes no Or amento da Unio. Na verdade, o Plano Real mais aumentou receitas do que cor tou despesas S a cobrana da dvida de Estados e Municpios (US$ 40 bilhes), foi vrias vezes maior que o corte de despesas (US$ 6 bilhes). No mbito do Oramento Geral da Unio, as medidas do Plano Real foram estruturadas para produzir resultados no curto prazo. Em um ano de julho de 1993 a julho de 1994 ele deu o recado. Nesse perodo, as principais medidas foram implantadas e produziram o resultado que delas se esperava. No por acaso, o programa que deagrou o processo tinha o nome de Ao Imediata Para atingir os objetivos do plano, alm de aumentar a carga tributria, FHC ferrou com Estados e Municpios, seja pela cobrana da dvida de US$ 40 bilhes, seja pela desvinculao de receitas, instituda pela ECR n 1. Mais adiante, ainda viria a municipalizao : a transferncia de encargos mas no de receitas aos municpios. A privatizao coroou o processo, mandando para o sacrifcio boa parte do patrimnio estatal. Mas a desestatizao cumpriu seu papel, em especial porque tornou possvel a transferncia de toneladas de dinheiro dos ento abarrotados cofres dos fundos de penso para as burras da Unio. Sem a privatizao, o governo federal no teria como colocar as patas naquela grana toda... que foi imediatamente enterrada na vala comum do Oramento Geral da Unio. (A claque neolib gosta de dizer que a privatizao foi feita para modernizar o Estado brasileiro, e bl, bl, bl... Pura atulncia mental! A privatizao foi feita para fazer caixa. Juntar dinheiro pra cobrir rombo do caixa da Unio, e, na passagem, fazer a felicidade de uns e outros, que ningum de ferro... O Estado brasileiro continuou to ou mais anacrnico, perdulrio e ineciente como sempre foi). O que a atual poltica econmica do Meirelles tem a ver com isso? Nada, n? A poltica econmica do Meirelles est mais para os roteiros da dupla Dilma Roussef/ Joaquim Levy, e da trinca Castelo Branco/Octavio Gouveia de Bulhes/Rober to Campos, do que para o Plano Real Principalmente nos resultados, alis... Nem duvido que Meirelles gostaria de fazer algo parecido com o Plano Real, mas... o qu? (1) Aumentar ainda mais a carga tributria? Claro que ele vai fazer isso. Agora mesmo, Meirelles vive falando em aumentar alquotas de impostos, provavelmente PIS e COFINS, pra ajudar a cobrir o arrombamento do rombo or amentrio previsto para 2017 (Meirelles previu o rombo de R$ 139 bilhes em 2017, mas j antev a ultrapassagem dessa meta em R$ 58,2 bilhes, o que elevaria o dcit para estonteantes R$ 197,2 bilhes). S que, com Meirelles, o aumento

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15 da carga tributria apenas um modesto e insuciente tapa-buraco. mais o reconhecimento tcito de um fracasso do que uma alavanca para o sucesso. (2) Sangrar ainda mais Estados e Municpios? Fedi dos e mal pegos como eles j esto? Difcil! Com a ossada que sobrou no d mais pra fazer sopa... (3) Privatizar? S se for a Petrobras, porque a melhor parte do l j foi devorada pelo FHC (que, provavelmente, s no vendeu a Petrobras, porque isso tabu pros militares). Mas claro que a privatizao vai continuar, mesmo sem render a baba rme que rendeu no passado. Nem de longe ter o impacto que a privataria teve para o Plano Real, por falta de despojos pra vender. O estoque est acabando... Alm do mais, para a privatizao do Temer deslanchar, ele ter que arranjar um ministro da privatizao que privatize, porque o atual, Moreira Franco, ocupa a maior parte do seu tempo tentando evitar mergulhos inesperados do passaralho da Lava Jato. (Mesmo assim j conseguiram vender quatro aeropor tos. Parece que vo torrar outros mais. Da pode ser que vendam os portos que ainda restam. Depois, podero vender o mar, como o Patriarca do Garcia Mar quez... at que no sobre mais nada que se possa vender, por falta de quem queira comprar. Como o Patriarca...). Enquanto isso, restou ao Meirelles manter e acentuar a mesma linha adotada pelo Joaquim Levy, em 2015. Cortar despesa pblica. Deu no que deu: Meirelles trambolhou um dcit ainda maior que o que foi gestado e parido pelo Levy. Um rombo de rombudos R$ 155,8 bilhes em 2016! que o Estado est para o capitalismo brasileiro assim como o oxignio est para a vida. Sem o gasto estatal, a economia para. Com a economia parando, a arrecadao tributria despenca. Com a arrecadao tributria despencando, o dcit pblico explode (porque, amar rada em disposies legais e constitucionais, a despesa pblica no cai na mesma proporo da queda da receita). E a se estabelece o crculo vicioso: pra encarar o dcit, o governo corta mais despesas. S que isso reduz ainda mais a arrecadao tributria, o que aumenta o dcit, tornando necessrio mais cortes na despesa, que novamente reduziro a arrecadao, etc. Um corte acentuado no gasto pblico brasileiro tem chance funcionar num quadro de expanso das exportaes, porque estas, pelo menos em tese, podem compensar o efeito recessivo que a reduo na despesa pblica exerce sobre o mercado interno. S que as exportaes brasileiras h muito esto levando farelo... Mas o governo, Meirelles incluso, passou a dizer que o pior j passou, e que a economia brasileira j comeou a se recuperar. mesmo? Que bom! Folgo em sab-lo, mas... cumqui mesmo? No diziam os plantonistas neolibs, Meirelles entre eles, que a recuperao econmica s seria possvel se e quando o dcit pblico fosse zerado? E o dcit pblico foi zerado, ou pelo menos, foi posto sob controle? Foi? Ento, que histria essa de dcit pblico de R$ 155,8 bilhes em 2016? E que histria essa de aumentar carga tributria, pra cobrir o arrombamento do rombo em 2017, e, assim, evitar que o buraco se aproxime dos R$ 200 bilhes? Ou a recuperao econmica no depende tanto, assim, de zerar dcit, ou ela depende, e, portanto, no est acontecendo lhufas de recuperao econmica! Vale dizer: somente se Meirelles estiver totalmente errado, que ele estar minimamente certo. Lgica e reciprocamente, estando minimamente certo, Meirelles estar totalmente errado. Isso nas palavras deles, no minhas, que no tenho como nem por qu gurar em to altas cavalarias. E no tem estadista que mude isso. O que as evidncias parecem demonstrar, mais uma vez, que, ao contrrio do que dizem Meirelles e o governo, no est havendo recuperao econmica, coisa nenhuma; e que a recuperao econmica no depende de se zerar dcit, coisa nenhuma (ou que o certo o inverso: a recuperao econmica que zera o dcit, at porque um dos primeiros e mais consistentes indcios de que a economia est se recuperando exatamente, o aumento da arrecadao tributria, mesmo sem elevao da carga). Assim como a poltica econmica do Meirelles no tem identidade com o Plano Real, coisa nenhuma (embora talvez ele bem desejasse isso...). Por ora, o que se tem de certo que o PIB brasileiro recuou 3,6% em 2016, com agravamento no quarto trimestre. A coisa lembra muito mais os resultados obtidos pela dupla Octavio Gouveia de Bulhes/Roberto Campos, logo aps o golpe militar de 1964. S que pior! Naqueles tempos longnquos, o pas mergulhou numa recesso braba, como agora, e quase quebrou. Houve inquietao nos quartis, onde ganhou corpo a candidatura desenvolvimentista do marechal Costa e Silva. De olho na Presidncia da Repblica, sua obsesso, Carlos Lacerda rompeu com o regime. Lacerda aproveitou o fato de que Roberto Campos lanara um Plano Nacional de Desenvolvimento que partia do prin cpio de que a produo mineral e a siderurgia no tinham futuro no Brasil, e se desdobrava em projetar a produo de dzias de ovos de galinha e de centos de cachos de banana. O Corvo chamou Roberto Campos de vigarista pra baixo, e o desaou para um debate na tev (claro que Bob Fields no encarou a parada). Lacerda teve o apoio dos generais Justino Mendes (ento comandante do III Exr cito) e Amaury Kruel (ento comandante do II Exrcito). Castelo Branco aparou a grama rs ao cho. Cassou o Corvo e JK, que tambm apoiara o golpe militar, mas, agora, queria tanto o mesmo que Lacerda e Costa e Silva tanto queriam: a Presidncia da Repblica. Como trs corpos no podem ocupar o mesmo lugar no espao, foram para o espao as pretenses presidenciais de Lacerda e JK. Castelo tambm fulminou Justino e Kruel, que, de quebra, queriam ser governadores do RS e SP respectivamente. Os dois generais perderam o comando e foram mandados pro pijama (no Carnaval seguinte, foi muito cantada a marchinha que dizia: Macaco que mui to pula / Quer chumbo! Quer chumbo!). Antes, porm, Amaury Kruel ainda foi obrigado a cumprir sua ltima misso revolucionria : derrubar Adhemar de Barros, o velho delinquente rouba-masfaz que se julgava blindado pelo decidido e decisivo! apoio que dera ao golpe militar). Mas Castelo perdeu a queda de brao para Costa e Silva, o desenvolvi mentista que emplacou a Presidncia da Repblica. Para tirar o pas da recesso, o governo militar teve que meter dinheiro pblico a rodo na economia, principalmente com um paquidrmico programa habitacional via BNH que chegou a cravar mais de um milho de novas unidades habitacionais por ano. Escaldados, os militares nunca mais permitiram que Bob Fields chegasse pelo menos perto da formulao da poltica econmica brasileira (Ernesto Geisel deixou isso bem claro, na clebre entrevista que virou livro). Longe dos gabinetes decisrios, Bob Fields continuaria a recitar sua monocrdica, exagerada e muito doida simplicao da teoria econmica liberal, at encerrar sua longa (para muitos, longa demais) existncia, como uma quase apagada, tediosa e intil lamparina de popa... de se ver no que vai dar, com Meirelles, esse repeteco revisto e piorado do lero-lero de Bob Fields, que, no tendo dado certo com Bob/Bulhes, deu muito errado com Dilma/Levy. Meirelles tem, agora, a chance de demonstrar que possvel fazer muito mais do mesmo, e conseguir resultados totalmente diferentes. At aqui, para o mal de quase todos e infelicidade geral da Nao, s conseguiu ser muito pior do que seus funestos precedentes. Elias Granhen Tavares

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As imagens do invisvelQual deve ser o impacto da mudana climtica nas populaes tradicionais da Amaznia? a pergunta feita pela exposio fotogrca itinerante Ama znia | Os Extremos, aberta como parte do Dia Mundial da gua, na Galeria de Artes do ICBEU, em Manaus. A agncia de jornalismo independente Amaznia Real responsvel por este site, promove a mostra, que pode ser visitada pelo pblico at o dia 6 de abril. O prprio ttulo dado s imagens, produzidas por fotgrafos residentes na regio ou que a visitam frequentemente, j aponta para a resposta. O equilbrio e a harmonia que a natureza construiu ao longo de muitos milnios, at oferecer ao homem um organismo nico na Terra, foram substitudos por extremos de escassez e excesso de chuvas, secas e enchentes nos rios. A penetrao do homem em reas at ento indevassadas, atravs de queimadas e desmatamentos, com a tecnologia mais primitiva, o fogo, ou mais sosticada, a motosserra, por abordagem emprica ou orientao proporcionada por mquinas, est documentada em 40 fotograas de 12 autores. Um roteiro de imagens em vdeo apresenta aos desavisados a seca do lago do Puraquequara, em Presidente Figueiredo, na regio metropolitana de Manaus. H outro documentrio com os depoimentos de ribeirinhos que sofreram com a seca na Floresta Nacional do Tapajs e na Reserva Extrativista do Arapiuns, em Santarm, no Par. E uma entrevista em vdeo do curador Alberto Csar Arajo concedida Magdalena Gutierrez e Pablo La Rosa do Centro de Fotograa de Montevidu, do Uruguai. Quem patrocina a exposio a Misso Diplomtica dos Estados Unidos no Brasil. Do-lhe apoio instituies americanas, como a Fundao Ford, o Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e o WCS Brasil, alm do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia), onde a mostra ser inaugurada no dia 9 de abril, em Manaus. signicativo que, em pleno governo Trump, ainda iniciante, mas j marcado por sua hostilidade s questes ambientais, a presena de representao do governo americano e de agncia como a Ford deem sua contribuio para que seja destacada uma repercusso geralmente esquecida ou deliberadamente omitida nas discusses sobre a agresso natureza pelo homem: a posio do nativo, do habitante tradicional da regio. Ele no cliente da ao pblica, sobretudo daquela que mais profundamente penetra no organismo amaznico, promovida pelo governo federal, geralmente em associao com grandes empresas, nacionais ou internacionais. No apenas o amaznida no o destinatrio dos maiores investimentos feitos na regio. Ele simplesmente ignorado, como se no existisse, fosse invisvel vista de Braslia, avalista da grande transfor mao que ocorre na maior fronteira de recursos naturais do planeta. A concepo estratgica dessas frentes avanadas da economia ainda a mesma diretriz da doutrina de segurana nacional, que os militares formularam a partir do golpe de 1964. A Amaznia considerada um anecmeno, um vazio demogrco. A falta de gente representa uma ameaa soberania do pas sobre um territrio grande demais. Os dois elementos ser vem de estmulo cobia imperialista internacional. Para evit-la, a palavra de ordem dos generais foi integrar para no entregar. Induo de fluxos migratrios de gente, capital e tecnologia para levar o homem aos extremos da regio. O que devia fazer? Substituir a floresta por pasto, cultivos agrcolas, estradas, cidades, garimpos, hidreltricas. Acabando, dessa forma, por romper e, em seguida, destruir o habitat dos nativos. No importa. O que interessa criar produtos de exportao, que gerem divisas para o pas no mais curto prazo. Como no haveria gente (nem inteligncia) suciente na regio, foi como se a sua histria tivesse comeado com as estradas pioneiras e sua mirade de penduricalhos. Para essa lenda se estabelecer, evitou-se considerar os milhares de anos de presena humana anterior na vastido continental da Amaznia. O conhecimento acumulado na relao desses habitantes com o meio foi descartado. Mais do que isso: o nativo foi submetido a condies adversas sua subsistncia. Era para desistir e desaparecer. No entanto, ele resiste. Felizmente, com a simpatia, a solidariedade e as imagens dos fotgrafos reunidos nessa oportuna exposio. Talvez imitando o que aconteceu em 1998, na exposio sobre outras imagens, produzidas dois sculos e meio antes pelos integrantes da viagem losca do naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira. As peas do acervo da expedio foram trazidas de Portugal, pela primeira vez, ndios do rio Negro foram trazidos para ver os desenhos e objetos, como urnas funerrias. Contemplando com os prprios olhos o que sabiam pela tradio oral dos antepassados, foi uma catarse. Incorporaram os elementos perdidos da sua histria e os levaram na memria de volta s suas terras. Pode-se fazer o mesmo com ribeirinhos e varzeiros. Talvez se consiga ajud-los a escrever outra histria da Amaznia, capaz de preserv-la como no transformada no que o colonizador quer que ela seja ______________________ Amaznia Real)