Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a CARNE FRACAA montanha e o ratoOs consumidores brasileiros so beneficiados pela maior operao que a Polcia Federal j realizou em toda a sua histria. Foi trs vezes maior do que a Lava-Jato. Mas foi essa a melhor abordagem de um problema to grave? Os benefcios sero maiores do que os prejuzos? Que o povo responda. A montanha pariu um rato e o boi foi pro brejo. Esta seria uma boa charada para decifrar o signicado da maior operao da histria da Polcia Federal, desencadeada numa sexta-feira, 17 (menos quatro dias e a charada estaria completa). A Operao Carne Fraca colocou 1.100 homens nas ruas, efetivo quase trs vezes maior do que do que os 400 que deram ecloso Operao Lava-Jato, comeando neste ms seu terceiro ano contnuo de atividades. Eles atuaram em seis Estados (Paran, So Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Gois) e no Distrito Federal. A montanha foi a prpria operao, que parecia ter levado a srio a simbologia de que se o homem no vai montanha, cabe montanha se achegar ao homem. Ao encontr-lo, a montanha exibiu opinio pblica um rato. Ele existe, nocivo, mas poderia ser combatido e eliminado sem que a natureza precisasse recorrer a dotes mgicos. de qualidade questionvel parte expresivas dos alimentos que chegam mesa do consumidor nal, passando por uma cadeia de inter

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2 medirios, a partir de produtores em condies dspares e frequentemente muito desiguais entre si. Essa sucesso de problemas se deve mais ao e inao do governo do que a mazelas do mercado, sempre tendente a abusar se no submetido a controle externo, por iniciativa das pessoas ou pela ao competente do governo.Uma verdadeira guerra?A PF colocou o bloco na rua depois de dois anos investigando esquemas de propinas relacionados a 32 empresas. Elas corrompiam scais do servio de vigilncia e anexos do governo federal para liberar carnes adulteradas ou estragadas. Foram cumpridos 27 mandados de priso preventiva, 11 de temporria (vlida por cinco dias) e 194 buscas e apreenses. A PF chegou concluso que os principais frigorcos do pas integravam a organizao criminosa, extensa e tentacular. Por causa dessa articulao, carne adulterada era servida a estudantes como merenda escolar. Produtos com substncias potencialmente cancergenas eram usados na maquiagem de carne manipulada criminosamente. O povo estava sendo envenenado, no pas e no exterior. Qualquer que seja o resultado da investida, a vaca foi pro brejo porque o prejuzo j causado, e o que ainda vai acontecer pelos prximos anos, mensurvel em centenas de milhes de dlares (talvez em bilhes de dlares), irrecupervel. No aodamento e, quem sabe, na busca pela partilha da notoriedade e do herosmo acumulados pela Lava-Jato, os organizadores da caa ao boi e ao seu criador e aproveitador, a Polcia Federal parece ter deixado de adotar algumas cautelas elementares e de fazer questionamentos primrios. No fez a adequao dos objetivos ao mtodo adotado. O mais grave ainda: no submeteu suas provas a um teste de consistncia. O que comea errado, como sabe o povo, no tem jeito: acaba errado. Uma vertente mais simples, mas capaz de conviver por mais tempo com uma investigao criteriosa e competente, era a corrupo. A PF chegou a corruptos (agentes do governo) e cor ruptores (empresrios). Este pode ser a matriz de vrios desdobramentos, por meio dos quais a polcia pode ir do bagre ao tubaro, de pessoas a empresas, de unidades concorrenciais a cartis, de locais isolados a uma teia de conexes. Com to pouca matria prima de valor legal, porm, a PF avanou nas dedues, como se a rastre-la houvesse provas incontestveis e arrasadoras. Irregularidades de tal magnitude que o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14 vara federal do Paran, que determinou as prises, classicou a situao como de realismo mgico. Os frigorcos tinham acesso direto no Ministrio da Agricultura, escolhendo os servidores que iriam efetuar as scalizaes na empresa, graas distribuio de propina entre eles. Roney dos Santos, executivo da BRF, tinha acesso inclusive ao login e senha do sistema de processos administrativos do rgo, de uso interno. A Receita Federal, uma das participantes da investigao, disse que os scais se valiam da distribuio de lucros e dividendos de empresas fantasmas, da montagem de redes de fast food em nome de testas de ferro e da compra de imveis em nome de terceiros para esconder o aumento de patrimnio. A PF apontou como lder do esquema o scal Daniel Gonalves Filho, ex-superintendente do escritrio do Ministrio da Agricultura no Paran entre 2007 e 2016, que tinha a proteo do PMDB do Paran, junto com outros diretores. um cenrio desolador. Resta claro o poderio de intimidao, de inuncia e de uso abusivo dos cargos pblicos que ostentam para se locupletarem, recebendo somas variveis de dinheiro e benesses in natura das empresas que deveriam scalizar com iseno e prossionalismo, assinalou o juiz, ao dar sua autorizao para a ao. Os canhes, porm, foram disparados com o auxlio de um nico laudo pericial, incapaz de dar robustez a uma autntica operao de guerra, como a PF no executou nem na poca em que era um dos braos violentos da ditadura. Havia mais magia do que realismo na composio dos processos. O errio pode absorver o assalto de servidores pblicos e empresrios durante o tempo que a PF utilizou para identicar os alvos iniciais, a partir dos quais, embalada pela rotina das delaes premiadas e dos acordos de lenincia praticados pela Lava-Jato, espera chegar a gigantescas corporaes, como a JBS e a BRF, lderes do setor no mercado mundial. Mas dois anos de envenenamento dirio por alimentos estragados ou sem condies saudveis de consumo foi prazo demasiado, um absurdo. Parece que as polcias brasileiras (e, na extenso, tambm o judicirio) continuam a dar mais ateno ao dano material, especialmente o patrimonial, do que condio humana, aos direitos da pessoa. Foram tantos os erros e as besteiras ditas para defender a Operao Carne Fraca que imediatamente as empresas e o governo metralharam propaganda no lugar de fatos e defesa ao invs de esclarecimento completo dos fatos junto opinio pblica. Foi o boi de piranha oferecido em imolao para que uma manada de situaes e problemas passasse do outro lado da arena pblica. A Associao Brasileira de Protena Animal declarou que todos os produtos exportados pelo pas so scalizados por tcnicos nacionais e estrangeiros. O Brasil reconhecido internacionalmente pela qualidade e status sanitrio de seus produtos, que so auditados no apenas pelos rgos brasileiros como tambm por tcnicos sanitrios dos mais de 160 pases para os quais exporta, disse a ABPA em nota. A entidade ainda admitiu falhas no sistema produtivo, mas argumentou que so eventuais e excees. So questes pontuais, que no reetem todo o trabalho desenvolvido pelas empresas brasileiras durante dcadas de pesquisas e investimentos, para ofertar produtos de alta qualidade. Talvez, se empenhando ao mximo para corrigir seus erros e agir com ecincia equiparvel da Lava-Jato, a Carne Fraca consiga apresentar resultados convincentes e contribuir para modicar o mercado de alimentos no Brasil. duvidoso, porm, que obtenha um saldo positivo no balano entre os danos que j causou e os benefcios que pode propiciar. No h dvida que a montanha pariu um rato.Poltico pelo meioNo entanto, a expectativa inicial era enorme. A PF foi luta mirando alguns dos principais frigorcos do pas, como a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigo, e o JBS, que tem as marcas Seara e Big Frango. A justia federal do Paran mandou o bloquear um bilho de reais das 32 rmas investigadas. Haveria um peixe grande metido nas conversas suspeitas monitoradas: o ministro da Justia, Osmar Serraglio, deputado federal pelo PMDB paranaense na poca dos grampos. Ele aparece em dilogo grampeado com o suposto lder do esquema criminoso, a quem trata por grande chefe, embora sem qualquer indcio de ilegalidade (e por isso no estava sendo investigado). Tambm foram citados outros par lamentares do partido, como os depu-

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3 tados federais Srgio Souza, integrante da Frente Parlamentar Agropecuria, e Joo Arruda, que se tornou suspeito ao apelidar um scal rigoroso de capeta, e o deputado estadual Stephanes Junior, lho do ex-ministro da Agricultura Reinhold Stephanes. Seu assessor tambm conversava com um dos scais investigados. Entre os 27 mandados de priso estavam o gerente de relaes institucionais da BRF, Roney Nogueira dos Santos, e Andr Baldissera, diretor da empresa para o Centro-Oeste, alm de funcionrios do Ministrio da Agricultura e da Seara e do frigorco Peccin, dos que mais irregularidades praticava, como uso de carnes podres. Estes podem ser considerados os pontos bons da operao. O problema que ela provocou repercusses negativas ao produto brasileiro nos 150 ou 160 pases em que o agronegcio conseguiu penetrar. Aos poucos, as barreiras criadas ou as simples interdies comearam a ser revistas e canceladas. Mas qual o efeito sobre o comprador na ponta da linha? Foi muita onda para efeitos que, se no forem adequadamente aprofundados, deixaro a sensao de que as falhas na investigao podem no ser acidentais. Anal, os casos constatados se reduziram a dois Estados, o Paran, principalmente, e Gois, secundariamente. Ser menor, como em muitos casos, no era mais recomendvel para ser eciente?Um caso exemplarA prova mais impressionante da PF foi obtida em relao a um carregamento de carnes do frigorco da BRF em Mineiros (Gois) barrado em um por to da Itlia por conter indcios de salmonella, bactria comum em produtos alimentcios de origem animal ou vegetal. Ao ser ingerida, causa infeco, provocando vmitos e fortes diarreias. A bactria foi identicada em pelo menos quatro contineres. Apesar disso, a fbrica da empresa continuou em operao, provavelmente por interferncia ilcita de scais do Ministrio da Agricultura, que recebiam propina da empresa. A empresa observou que todos os tipos so facilmente eliminados com o cozimento adequado dos alimentos. A BRF sustentou que no houve irregularidade no caso da Itlia. Em 2011, a Unio Europeia deniu um novo regulamento para controle de salmonella em carne de aves produzidas localmente ou importadas. produtos in natura no poderiam mais conter dois tipos da bactria. Um deles foi encontrado em alguns lotes dos quatro contineres, que seria tolerado pela legislao europeia para carnes in natura e, portanto, no justicaria a proibio de entrada na Itlia. A empresa informou ainda que decidiu encaminhar a mercadoria para o porto de Roterd, na Holanda, o maior do mundo e um dos mais rigorosos, onde ela passaria por todos os testes exigidos, com os mesmos padres tcnicos, permitindo-lhe responder aos questionamentos no mais breve tempo possvel. A PF pediu a paralisao imediata da fbrica. O juiz autorizou a intimao do Ministrio da Agricultura para que adote as providncias administrativas e scalize a fbrica da BRF em Mineiros. Imediatamente a BRF informou que a unidade foi interditada, de forma preventiva e temporria, pelo Ministrio da Agricultura, at a empresa prestar as informaes que atestem a segurana e a qualidade dos seus produtos. A companhia previu que isso deve acontecer em breve. Disse ter conana em seus processos e padres, que esto entre os mais rigorosos do mundo. A BRF assegura a qualidade e a segurana de seus produtos e garante que no h nenhum risco para seus consumidores, armou a empresa. Por ora, acreditar desconando. A prova dos nove s via pelo acompanhamento rigoroso dos desdobramentos desse novo encontro da sociedade brasileira com suas entranhas.Cad a voz do dono?A Polcia Federal e o Ibama, autores de ofensivas contra a indstria da carne, certamente sabem que o BNDES e a Caixa Econmica tm 26,24% do capital da JBS. E que o fundo dos funcionrios da Petrobras, a Petros (com 11,4% das aes), e o fundo de penso do Banco do Brasil, a Previ (com 10,7%), se reunidos, tm o controle acionrio da BRF. No entanto, o governo, dono das duas instituies nanceiras e o controlador dos fundos federais, no se sentiu no dever de vir a pblico dizer o que acha da situao e prestar contas da sua participao nessa empresa, que se declara a maior produtora de protena animal do mundo, agora sob dupla scalizao e dupla autuao. A obrigao de Michel Temer, por ser presidente da repblica. Mas tambm de Luiz Incio Lula da Silva e de Dilma Rousse. Foi no governo deles (por suas ordens?) que o BNDES e a Caixa desviaram dinheiro do setor pblico para a iniciativa privada. Fizeram de Eike Batista o brasileiro mais rico do mundo. E da JBS a maior indstria de carne do planeta.Carne: alm de fraca tambm pode ser friaCinco dias depois da Operao Carne Fraca da Polcia Federal, foi a vez da Operao Carne Fria do Ibama ter a indstria da carne brasileira como alvo. No dia 22, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis autuou 14 frigorcos no Par, Bahia e Tocantins. Eles foram noticados por comprarem 58 mil cabeas de gado produzidas em 26 fazendas com reas embargadas pelo Ibama por desmatamento ilegal na Amaznia. Os frigorcos da JBS em Redeno e Santana do Araguaia, no sul do Par, estavam entre as unidades autuadas. Ao contrrio do seu procedimento usual, porm, o Ibama no apresentou os resultados da operao, causando estranheza entre alguns observadores da ao, considerada uma das mais bem-sucedidas em agrar grandes infratores, segundo o Poder360, de Braslia, o primeiro a notici-la. JBS _________________ Receita lquida (2016) R$170,3 bilhes Lucro lquido (2016) R$ 626,4 milhes PRINCIP AIS EMPRE S AS INVE S TIGADAS BRF ________________ Receita lquida (2016) R$ 33,7 bilhes Prejuzo lquido (2016) R$ 372,4 milhes

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4 Segundo o site, a razo para atrasar a divulgao da operao do Ibama a enorme repercusso nacional e inter nacional que a operao Carne Fraca causou, produzindo danos reputao do pas e da indstria da carne. Acrescentou que se carnes deterioradas provocaram reao da comunidade internacional, o efeito poderia ser desastroso numa repetio desse episdio. Ele demonstraria que o Brasil exporta protena animal produzida a partir de reas desmatadas ilegalmente. Relatou o Brasil360 e mais O Eco, que a Operao Carne Fria comeou a ser planejada mais de um ano antes. Ela se baseou no em scalizao em campo, mas no cruzamento de dados para pegar os infratores. A sua primeira etapa ocor reu em janeiro de 2016, quando o Ibama noticou os frigorcos a entregar ao r go os documentos que mostram a procedncia do gado que adquirem. Relatou ainda o site: O documento mais importante o chamado GTA (Guia de Trnsito Animal), usado para controle sanitrio, em especial febre aosa. De posse do GTA possvel saber qual o percurso do gado at chegar porta do frigorco. Os dados dos frigorcos foram comparados com os fornecidos pela Adepar (Agncia Estadual de Defesa Agropecuria do Estado do Par). A partir dessa anlise, o Ibama agrou os crimes ambientais. Outra consequncia da operao do Ibama, segundo apurou O Eco, foi a queda do superintendente interino do instituto no Par, Luiz Paulo Printes, um dos responsveis por preparar a Carne Fria. No lugar dele, estava previsto para entrar Hildemberg Cruz, considerado um quadro tcnico. Masacabou entrando Arthur Valinoto. O site informou que o Ibama nega ter minimizado a operao, que ainda dever durar cerca de 15 dias. S ento divulgar nota com informaes ociais.Os resultados ainda seriam parciais. J a JBS negou ter comprado de for necedores irregulares. Forneceu ao Po der360 a seguinte nota: A JBS esclarece que no comprou animais de reas embargadas pelo Ibama e vem cumprindo integralmente o TAC assinado com o Ministrio Pblico Federal. Para garantir a origem responsvel de sua matria-prima, a JBS: com base em critrios socioambientais; envolvidas com desmatamento de orestas nativas, invases de terras indgenas ou de conservao ambiental e que estejam embargadas pelo Ibama. As informaes de movimentao dos animais entre fazendas so registradas na Guia de Trnsito Animal (GTA) responsabilidade dos rgos governamentais; bloqueio de fornecedores que mantenham qualquer relao com violncia no campo e conitos agrrios ou que faam uso de trabalho anlogo ao escravo ou infantil. Adicionalmente, e com o objetivo de identicar e bloquear fornecedores irregulares, a JBS realiza, diariamente, o download de todas as informaes contidas na lista de reas embargadas pelo Ibama e da lista suja do trabalho escravo do Ministrio do Trabalho (na ausncia da publicao da lista do MTE, utilizamos a lista publicada pelo Instituto pela Erradicao do Trabalho Escravo InPacto), para confrontao dos CPFs/CNPJs contidos nas listas pblicas com o cadastro de fornecedores de gado da companhia. O Ministrio da Agricultura infor mou no ter conhecimento da operao Carne Fria. A operao foi suspensa pelo ministro Sarney Filho, que dela nada sabia, e os autores se recolheram, enquanto se esperavam as informaes dos atingidos. O problema srio, existe, se mantm pela conivncia do poder pblico, mas ca outra vez a pergunta: foi a maneira correta de enfrent-lo?Uma tortura chamada BRTO novo chefe do Ministrio Pblico do Estado poder assumir o cargo, no prximo ms, tomando uma providncia na qual o seu assessor parece nunca ter pensado: forar a prefeitura de Belm a completar as obras em andamento do BRT, o sistema de transporte do nibus rpido. Para que isso acontea, obrigaro governo do Estado a suspender as obras do BRT Metropolitano at Ananindeua, uma extenso do atual, para que essa concluso se d o mais rapidamente possvel. um desao para o prefeito Zenaldo Coutinho, nas condies em que se encontra a prefeitura, concluir o BRT at o nal do seu mandato, em 2020. Como ento o scal da lei, autor da ao penal pblica e defensor dos direitos difusos da coletividade continuar a observar, impassvel, o tormento dirio imposto aos cidados pelo ritmo absurdamente lento das obras e, ao mesmo tempo, permitir que um novo BRT seja construdo sem que o servio em curso se conclua? Um visitante da capital paraense mais atento dever se escandalizar com a ver so local desse sistema de transporte pretensamente mais rpido. Pela plataforma de concreto, mais elevada do que as pistas vizinhas, circulam poucos nibus. Apenas quatro deles so realmente do tipo do BRT. Os outros so as velhas ou novas charangas que, para cumprir a nova misso, receberam apenas um acrscimo: uma placa os anunciando como nibus expressos. Esses nibus tm apenas quatro estaes em uso. A de origem, na avenida Augusto Montenegro, de to grande e bem dotada, parece mais um terminal aeroporturio. E assusta seus clientes mais humildes e desacostumados com estrutura e servio de melhor qualidade. Esses BRTs saem a cada 20 minutos, nunca lotados. Na maioria das vezes, com raros passageiros. Mesmo com ar condicionado e a mesma tarifa (o que, cer tamente, no interessa aos donos de nibus da frota ordinria e quanto ordinria ela sabe bem o usurio). Todas as estaes ao longo da nica via direta de sada (e entrada) de Belm, a avenida Almirante Barroso, exceto duas, esto fechadas. Aparentemente, teriam condies de uso. Algumas at permanecem feericamente iluminadas noite embora inativas. As pistas tambm, ainda que o mato comece a crescer em torno delas, isoladas por tapumes metlicos. Assim, os quatro BRTs e os expressos mambembes tm que descer da plataforma e se incorporar s pistas de uxo normal, que nesses trechos passam a ser apenas duplas.Congestionam ainda mais o diablico trnsito. Em outro trecho, a tarefa voltar plataforma concretada (nos BRTs de outras cidades o isolamento feito apenas por uma faixa pintada no cho), bloqueando a passagem dos que vm atrs.J em So Braz, o ponto de cruzamento est afunilado pelo tapume que circunda a estao maior da avenida, s proximidades do j muito mal localizado terminal rodovirio da cidade. Sem falar nos absurdos de esta linha tronco entrar em funcionamento sem as estaes e sem o bilhete nico, h o transtorno causado s pessoas por essa obra que, segundo o prprio prefeito, seu grande propagandista na sua campanha de reeleio, talvez ainda por fazer em 2020. Se o MP do Estado continuar omisso, a populao poder dividir com ele as crticas justas e furiosas que dirige a um dos piores prefeitos que Belm j teve, conquistando esse destaque em meio a tantas mediocridades que os paraenses escolheram para dirigi-los nos ltimos anos. Belm merece o castigo, mas a dose se tornou excessiva.

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5 Uma arma chamada imprensa: o caso Liberal versus UnimedEntre 2007 e 2014, a Unimed acumulou quase 16 milhes de reais de passivo na sua relao com os dois maiores grupos de comunicao do Par. Com O Liberal perdeu 11,3 milhes de reais ao longo desses sete anos. Com a RBA foram R$ 4,4 milhes. A Unimed prestava o servio, mas nada recebia. A contrapartida seria a veiculao de publicidade nos veculos de comunicao das duas corporaes. A direo da cooperativa mdica que tomou posse depois desse perodo, ao assumir decidiu encerrar os dois contratos, como parte das medidas de correo dos erros administrativos e reequilbrio econmico-nanceiro da entidade, que estava em fase de insolvncia. Conseguiu refazer a relao com o grupo RBA, da famlia Barbalho, em bases equiparveis dos demais clientes. Mas no com o grupo Liberal, que foi justia para tentar manter o contrato leonino em seu favor e desastroso para a Unimed. A cooperativa se livrou desse peso nas suas contas, mas tem sentido os efeitos dessa atitude, atravs de um noticirio tendencioso do jornal da famlia Maiorana, que busca atingir sua imagem e credibilidade. Apesar de noticiar inverdades, O Libera no aceita corrigi-las, nem concede o direito de resposta Unimed. Por isso, na semana passada, sua diretoria decidiu divulgar uma nota, em funo da ntida inuncia que o jornal parecia querer exercer sobe a eleio da cooperativa, realizada no dia 26, queterminou com a reeleio do atual presidente, Wilson Niwa. O ttulo da nota j dizia muito sobre o seu contedo: Quanto custa uma boa relao com a imprensa?. A entidade se declarava marcadaa ferro e fogo, em especial nos ltimos doze meses, por razes bvias para o cooperado. Relata a direo da cooperativa que, ao assumira gesto, identicou os dois contratos de prestao de ser vios de assistncia sade, em vigor desde 2007, que estabeleciam o pagamento do plano de sade em troca de utilizao de mdia (atravs de per muta), relao esta que resultou acmulo de prejuzo que poderia ser direcionado para outras prioridades ou investimentos, mas que ao contrrio ajudaram a aprofundar o dcit das contas aps a interveno da ANS, a Agncia Nacional de Sade. Imediatamente procurou negociar uma soluo boa para todas as par tes. S o grupo RBA se disps a emitir cartas de crdito para lanamento nos balancetes da entidade. O documento foi considerado hbil reverso dos expurgos que devia fazer para regularizar as pendncias. O grupo RBA tambm rmou novo contrato, que a Unimed Belm classicou de vantajoso. Como a fatura do contratante sempre vai ser o valor gasto, acrescido de uma taxa de administrao, no h o risco de prejuzo. J as Organizaes Romulo Maiorana,alm de no lanar mo da relao de permuta, no aceitou emitir cartas de crdito para dar suporte ao crdito junto contabilidade e assim atender s exigncias da ento Diretora Fiscal, como tambm no rmou qualquer contrato. As ORM decidiram ingressar em juzo contra a Unimed para restabelecer a nefasta relao herdada. Inicialmente obteve medida liminar, mas a cooperativa conseguiu reverter todas as decises e por isso hoje no mais prestamos servios quele grupo. Na nota, a direo da entidade enfatiza que, nos ltimos dias tm sido fuzilantes os ataques da imprensa, o que particularmente ganha notoriedade em razo do processo eleitoral em curso, pois se a inteno da Grande Mdia desestabilizar a gesto, o efeito adverso apenas recai sobre a moral e a imagem da empresa no mercado.Ponto por pontoA partir da, a nota desmente cada uma das denncias feitas pelo jornal ( ver matria a seguir). Reproduzo essa parte, pelo grande interesse que tem para dezenas de milhares de pessoas vinculadas cooperativa ou seus clientes: Foi dito por determinado veculo que os aparelhos de Raio X da Unimed nas unidades Doca e Batista Campos no esto funcionando; que melhor seria procurar uma UPA: MENTIRA!! Todos esto em perfeito funcionamento! Tambm foi propagado pelo Jornal O Liberal que uma deciso do Juiz de Dom Eliseu, iago Escrcio, deter minara que a Unimed deveria restabelecer o atendimento aos servidores da Prefeitura daquela Comarca, o que desencadearia uma avalanche de aes judiciais contra a Cooperativa, uma vez que os contratos com o Poder Pblico estariam eivados de irregularidades. Embora a matria no cite diretamente a Unimed Belm, esta capciosa em no identicar qual singular do sistema Unimed a responsvel por esse contrato. Mas de uma coisa podemos asseverar. No se trata da Unimed Belm e no temos contrato coletivo em Dom Eliseu, rea de atuao de outra co-irm. Determinado blog veicula que continuaria calamitosa a Unimed, apondo uma foto da Unimed Doca, o que indica se tratar da Unimed Belm sua referncia. Segundo o factoide faltaria esparadrapo na Unidade da Almirante e dia desses o Raio-X no funcionava em duas unidades: MENTIRA! No ltimo domingo, matria de O Liberal, e ontem (21.03.2017) veiculao na TV do programa Balano Geral noticiaram que haveria supostas irregularidades na contratao da empresa Medcare, responsvel pela gesto do prdio Belm Health Center, onde funciona a Policlnica Unimed. Ressaltamos que a escolha do local se deu em razo da sua sede na Almirante Barroso car em posio estratgica para nossos clientes, e, na celebrao do contrato de dois andares do prdio, foram apresentados e avaliados pelo departamento jurdico da Unimed

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6 Belm todos os documentos necessrios, sem quaisquer vcios. O local dispe de infraestrutura hidrossanitria e acesso adequados para o projeto, sem necessidade de qualquer investimento inicial da Unimed Belm, nem obras, tendo a Cooperativa recebido o prdio em perfeitas condies de uso, padronizado, incluindo mo de obra qualicada, estacionamento prprio, fornecimento de luz e gua, alm de mobilirios adequados. A Unimed Belm apenas inquilina de dois andares do referido prdio, onde diversas outras empresas locatrias se utilizam, de modo que eventual presena de interposta pessoa no registro de propriedade ou no contrato social no compete a apurao a nenhum dos inquilinos daquele prdio, muito menos Unimed Belm, mas sim s autoridades, at porque esse tipo de prtica no afervel mediante os documentos necessrios para uma locao para ns comerciais. Como de praxe, os contratos da empresa foram objeto de anlise pelo Conselho Fiscal da Unimed Belm, conforme suas atribuies de acompanhar os atos da Diretoria Executiva. Aps o exame dos documentos foi constatada a regularidade da documentao. A Unimed Belm no promoveu a abertura de investigao na esfera policial e desconhece qualquer queixa-crime apresentada em juzo ou representao perante a autoridade policial, antes da referida matria ser veiculada. A Unimed Belm tomou conhecimento da representao criminal formulada pela Sra. Rosngela Maria Serra Neves, uma das scias da empresa Medcare (gestora do prdio Belm Health Center, onde est instalada a Policlnica) por meio da intimao expedida pelo delegado Aurlio Walcyr Rodrigues de Paiva, da Delegacia de Ordem Administrativa e Diviso de Investigaes e Operaes Especiais (DOA/DIOE), para apurar a conduta de um terceiro que, estaria supostamente investigando sua residncia, e fora conrmado se tratar do Sr. Jos Luiz Faillace, mdico cooperado e um dos membros do Conselho Fiscal da Unimed Belm. Por sua vez, o Conselho Fiscal intimado pela autoridade policial para manifestar-se quanto referida diligncia, os trs Conselheiros foram unnimes em esclarecer que a ao partiu de deliberao pessoal do Dr. Jos Luiz Faillace, sem a anuncia e conhecimento dos demais Conselheiros. Rearmamos que no h por parte da Unimed Belm ou de quaisquer de seus rgos, participao em apurao na esfera criminal, mas sempre que for chamada colaborar com eventuais investigaes, posto que no tem nada a esconder. Nesse caso o nico investigado o referido conselheiro scal por conduta adotada em seu prprio nome, o que restou inclusive por ele reconhecido perante as autoridades.Como lidar com a imprensaA partir desses episdios, a diretoria da Unimed observa que uma alterao particularmente se impe ao seu estatuto:a de que veculos da imprensa que infundadamente se utilizem de inverdades para atingir a cooperativa, sem direito de defesa, no podem contratar com a Unimed Belm, porque se alguma esperana estes maus jornalistas, que constrangem sua prosso, esperam ter espao dentro da Cooperativa, estes dias tm nos ensinado a lio de que uma relao boa com a imprensa aquela que no se pauta pelo toma l d c, mas sim uma relao de respeito recproco e compromisso com a verdade. Para a direo da entidade,esse o verdadeiro valor e sentido da liber dade de imprensa, jamais esconder os problemas, mas checagem da fonte e das provas, preceito basilar do jornalismo srio.Medcare se explicaNo dia 17, O Liberal noticiou que uma investigao interna da Unimed virou caso de polcia na Diviso de Investigao e Operaes Especiais da polcia civil. O jornal disse ter tido acesso a uma queixa-crime protocolada na DIOE solicitando abertura de inqurito para verificar possveis irregularidades em contratos da cooperativa de mdicos com empresas e pessoas fsicas. Segundo o jornal, um contrato de alocao do espao onde funciona a Policlnica da Unimed, localizada na avenida Almirante Barroso, poderia ter indcios de fraudes. A cooperativa dos mdicos fez um contrato com a empresa Medcare Comrcio e Servios Hospitalares Ltda., proprietria do prdio. A denncia era de que os nomes das pessoas que constam como proprietrios da Medcare na Junta Comercial do Par (Jucepa) talvez no sejam dos verdadeiros donos da empresa, que atua no comrcio varejista de artigos mdicos e ortopdicos e aluga equipamentos cientcos, mdicos e hospitalares. Suas proprietrias so Rosngela Maria Serra Neves e Amlia Silva da Silva. A Unimed pagaria aluguel mensal de 80 mil reais para sua policlnica funcionar em dois andares do prdio da Medcare, ou R$ 960 mil por ano. A queixa-crime aponta que uma investigao interna na Unimed constatou que a proprietria da empresa Medcare, Rosngela Maria Serra Neves, que tem, portanto, um grande contrato de alocao, tem como residncia uma pequena casa no Jardim Ananindeua. O padro no se adequaria a algum que ganha aproximadamente um milho de reais por ano. A reportagem esteve na casa de Rosngela Neves, no Jardim Ananindeua, mas o local estava fechado. Vizinhos informaram que raro ver movimentao na residncia, relatou o jornal da famlia Maiorana. O Liberal cita a queixa-crime para levantar a suspeita de que a scia da Medcare teria cometido crime de sonegao scal, se car comprovada a fraude no caso da policlnica, por prestar declarao falsa ou omitir, total ou parcialmente, informao que deva ser produzida a agentes das pessoas jurdicas de direito pblico inter no, com a inteno de eximir-se, total ou parcialmente, do pagamento de

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7 tributos, taxas e quaisquer adicionais devidos por lei, segundo um dos enquadramentos legais. A denncia alega que os fatos seriam de conhecimento do atual presidente da Unimed, Wilson Yoshimitsu Niwa. E sustenta que os fatos que podem gerar danos para a cooperativa de mdicos. A outra scia da Medcare, Amlia Silva da Silva, tambm proprietria da Gesto e Assessoria em Medicina Segurana e Sade Ocupacional Ltda. (Gamso), seria acusada pelo Ministrio Pblico do Estado do Par de subtrao de verbas que eram destinadas ao hospital pblico Ophir Loyola, referncia no tratamento de cncer. O Liberal diz ter procurado fontes internas da Unimed. Pedindo para no serem identicadas, elas teriam declarado que enquanto a Unimed aluga e paga por um espao para sua policlnica que est com suspeitas de fraudes, o Hospital Geral da Unimed est abandonado, na travessa Castelo Branco, no bairro do Guam. O espao, que deveria se transformar em uma referncia de atendimento mdico na regio, hoje um grande depsito de arquivos e objetos sem uso. H pelo menos sete ambulncias velhas do lado de fora na rea externa do prdio. J na parte interna possvel ver cadeiras, mesas e muitas caixas de arquivos jogados no cho. O prdio mostra sinais claros de abandono. Depois de resposta apresentada pela direo da Unimed, j aqui reproduzida, hoje foi a vez da Medcare Hospitalar se manifestar, atravs de nota publicada no Dirio do Par Antes de abordar os fatos, ressalvando que no participa, sob nenhum aspecto, do processo eleitoral em curso da Unimed Belm, com a qual a sua relao exclusivamente empresarial. A eleio est sendo realizada hoje. Argumenta que a relao contratual benca s duas partes. Informa que s passou a receber o aluguel nove meses depois de ter realizado investimentos na policlnica, inclusive em mveis e equipamentos. Corrige o jornal, garantindo que a ocorrncia policial na DIOE foi de autoria da prpria Rosngela Neves. Procurou a polcia assustada por vericar que um veculo preto rondava a sua antiga residncia, levando medo e preocupao aos moradores da vizinhana. Igor Faillace foi identicado pela polcia como o dono do carro, mas quem se apresentou para depor foi o ir mo dele. O mdico Jos Luiz Faillace, que foi candidato da oposio direo da Unimed, teria admitido ser o responsvel pelas rondas no local, onde ele supunha morar scia da Medcare. O objetivo talvez fosse o de ter acesso a informaes dos contratos rmados com a Unimed Belm, o que ele podia obter por meios legais, observa a nota da Medcare. A scia da empresa, sem saber o que de fato ocorria, teve receio de que o seu marido, gerente de uma instituio bancria, pudesse ser alvo de sequestradores. Por isso, foi se abrigar na casa de parentes at saber quem era o autor das rondas. A Medcare diz dispor de certides fornecidas pelo Tribunal de Justia do Estado comprovando que nem a Sra, Amlia e nenhum outro membro da Medcare responde a ao judicial. A empresa informa ter acionado o seu departamento jurdico para adotar todas as providncias cabveis. A Unimed declarou que o noticirio de O Liberal tendencioso e serve de retaliao por parte do jornal cooperativa, que insiste em cobrar dvida de 11,3 milhes de reais do jor nal, ainda no paga. A preocupao da Medcare em destacar sua iseno em relao eleio da nova diretoria da cooperativa, dona do maior plano privado de sade do Par, revela a quanto desceu o processo eleitoral desceu. Virou caso de polcia. E de m f jornalstica.Liberal e Dirio se excedem. o jornalismo que terminaO jornal Dirio do Par e o seu gerente comercial, Nilton Lobato, anunciaram na semana passada que iro propor vrias aes na justia interpelao, pedido de indenizao e responsabilizao criminal contra O Liberal. A autorizao para a ida justia, o mais rpido possvel, foi anunciada em editorial de destaque na edio do dia 24 do matutino da famlia Barbalho. O motivo da reao foi uma nota publicada na vspera pelo jornal da famlia Maiorana informando que o gerente comercial do concorrente teria procurado o prefeito de Belm pedindo que a Prefeitura zesse publicidade no jornal com valor equivalente a 1% da verba liberada pelo Ministrio da Integrao para a recuperao das praias de Mosqueiro. O valor foi de 27 milhes de reais. O objetivo da nota, segundo o Di rio foi atingir a imagem do jornal e do ministro Helder Barbalho, um dos scios da empresa. Mas ela seria completamente mentirosa: ningum do Dirio procurou o prefeito ou seus assessores para tratar desse ou de qualquer outro assunto. A forma enftica do desmentido, associado ao em juzo, sugeria que se tratava realmente de mentira. Apesar do nvel baixo da polmica que os dois principais grupos de comunicao do Par vm travando, era inacreditvel que O Liberalse dispusesse a publicar notcia sabidamente falsa. Os Maioranas tm acesso direto ao prefeito Zenaldo Coutinho e aos assessores dele. Podiam consult-los sobre a informao. Se o zeram (e os Bar balhos no tenham tambm mentido), caram sabendo que a notcia no tinha procedncia. Se, mesmo assim, lhe deram divulgao, das duas uma: ou foi por mera molecagem, para desgastar os inimigos, ou para tambm deixar mal o (ainda?) aliado, o tucano Zenaldo Coutinho.

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8 Tentando salpicar veneno nas relaes ultimamente amistosas que o prefeito vem tendo com os Barbalhos, em funo dos recursos para obras (e sem contrapartida) que os adversrios (ex-inimigos) lhe ofereceram. No por ter aderido a eles, mas por um pragmatismo de sobrevivncia: o caixa municipal est zerado assim como o prestgio do alcaide da capital.O ataque como defesaNo dia seguinte, o Reprter 70, de Liberal dedicou quase metade do seu espao, em seis notas sucessivas, para responder ao editorial da vspera do Dirio. Em apenas uma das notas havia alguma preocupao com os fatos e o leitor. Todo resto era uma algaravia de ataques e ofensas aos Barbalhos, muito usado pela imprensa dcadas atrs, quando, na batalha entre baratistas e antibaratistas (a favor ou contra o caudilho Magalhes Barata), s no valia perder. Ao invs de apontar fatos e ouvir fontes identicveis, a partir do prprio prefeito, O Libe ral se defendeu apenas atacando o concorrente e seus donos, que recriaram em Belm uma rplica feroz, grosseira e rstica da rivalidade de Montecchio e Capuletto, imortalizada por Shakespeare em Romeu e Julieta. A verso paraense ultrajante. Na nica das seis notas aproveitveis, disse o Reprter 70: Esta coluna, que revelou a informao, acredita em sua veracidade, porque veraz a fonte que a transmitiu. Da ser resvel, ridculo e despropositado ver o papelucho de mentiras dirias dos Barbalhos dizer que a infor mao falsa. Que moral tm eles para negar as barbalhices que propagam, j que so cones da corrupo? Est a Jader Barbalho, esse provecto espertalho, cada vez mais esperto e metido em todos os esquemas de corrupo, como Banpar, Sudam e agora Lava Jato, na qual est sendo investigado. O jornal pode atacar como quiser seus inimigos, respondendo pelo que dizem deles. Mas ao tratar de matria de interesse pblico, seu primeiro compromisso com a veracidade dos fatos. Se o Par ainda estivesse afeito ao signicado dos fatos, o jornal deveria ter ouvido o prefeito. Zenaldo podia conrmar a histria, desmenti-la ou se omitir. Mas teria que ser procurado e teria que ser obrigado a fazer qualquer declarao. Se no quisessem dar aos seus inimigos mortais o direito de resposta, ouvindo o personagem citado, o gerente comercial Nilton Lobato, os Maioranas tambm poderiam procurar os tais assessores para um o detalhado: o dia do encontro, sua durao, o teor da conversa e, talvez, at, uma gravao clandestina. Anal, em plena poca de caa aos corruptos e de defesa dos cofres pblicos, um ministrodo governo federal estaria dando oportunidade prtica de extorso a partir de recursos do errio, em proveito de uma empresa da qual scio. Se verdadeira a nota de O Liberal, Helder Barbalho teria que pedir demisso ou ser demitido do cargo que ocupa. At agora, nada indica que a infor mao tenha procedncia. A no ser que o prefeito Zenaldo Coutinho seja a fonte secreta de O Liberal, usando o jornal para plantar a informao. Se for assim, o prefeito tem que ser chamado ordem para esclarecer esse fato, que, se verdadeiro, muito grave. Como O Liberal preferiu lanar echas envenenadas na direo dos inimigos, ao invs de esclarecer a opinio pblica, incorpora a carapua de sempre, que partilha com o Dirio: de mentir descaradamente para a populao e se lixar para o jornalismo. No h limites para esse ultraje. Falta apenas mandar rezar o rquiem para que a alma penada dos dois principais grupos de comunicao do Par tenham uma boa morte. Ao proceder de forma to leviana e arrogante, eles se suicidam como instituies que meream respeito e credibilidade.Maior e menorNo editorial no qual desmente O Liberal, o Dirio do Par diz que o concorrente est incomodado com a liderana absoluta que o jornal dos Barbalhos diz ter assumido, conrmada h anos pelo Instituto Vericador de Circulao (IVC) e pelo Ibope. H anos o IVC mudou de nome: agora se chama Instituto Vericador de Comunicao. At agora, o Di rio no divulgou a sua tiragem auditada pelo IVC, a fonte de maior credibilidade no assunto no Brasil, que cobra caro pelo servio. Tendo o IVC sob contrato, o Dirio tem recorrido ao Ibope para pesquisas de audincia, o que de estranhar. Os grandes jornais no utilizam o Ibope para esse m, mas para audincia das emissoras de rdio e televiso. Na listagem da Associao Nacional de Jornais, o Dirio do Par est em 34 lugar, com tiragem vendida de 22.114 exemplares. O Dez Minutos, de Manaus, o mais vendido da regio norte, em 19 no ranking nacional, com tiragem de 39.243 exemplares. O dado ainda de 2015, o mais recente divulgado pela ANJ. Mesmo associado entidade. O Liberal no gura entre os 50 maiores jornais do pas.

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9 A poltica guiada pelas circunstncias Que delcia de marketingQuanto o Banco do Estado do Par pagou para Marcelo Tas vir a Belm comandar a festa de lanamento da maior campanha publicitria da sua histria e anunciar que o seu banco digital o que h de mais avanado e melhor no mercado? Deve ter sido muito dinheiro. Anal, Tas proclama possuir 12 milhes de seguidores e seguidores que o Banpar diz ser o seu objetivo, mais do que obter clientes. Como marketing, foi brilhante. Como prestao de servio, de se duvidar. A maravilha da tecnologia funciona no primeiro andar do Boulevard Shopping, beira de um antigo igarap que foi pavimentado e se tornou ponto nobre da cidade em torno de um esgoto no tratado a cu aberto, abastecido a partir de algumas moradias que nem fossa negra possuem. Quem quiser usufruir vantagens derivadas da plena digitalizao vai ter que se deslocar at o shopping supostamente classe A, que no faz parte da agenda normal de parte substancial da clientela do banco. Clientela cativa quando se trata de funcionrios pbicos do Estado, que, pelo banco estatal, recebe os seus pagamentos. Este cliente vai continuar a recorrer a tecnologia que est longe de ser de ponta, em agncias sem o menor glamour, sujeito a variaes de velocidade no atendimento, variaes que o pssimo atendimento pela internet provoca. Nem esse cliente nem essa rede aparecem na propaganda massiva que o Banpar patrocina. um mundo virtual a tentar substituir a realidade das aparncias e da manipulao. Dualismo que constitui uma das marcas do modo tucano de gesto da coisa pblica. Por isso e a propsito: com quanto dinheiro do Banpar Marcelo Tas e seus mais prximos seguidores em terra paraense saiu daqui?Lava-Jato chega de vez regioO governo decidiuque o suprimento de ener gia para atender as necessidades do pas ser feito principalmente pela Amaznia. Duas das trs maiores, todas j em operao, todas construdas sob os governos de Lula e Dilma, entraram na lista das obras em investigao pela Operao Lava-Jato. Belo Monte, no Par,e Santo Antnio, em Rondnia,representam, em conjunto, mais de 50 bilhes de reais. Se Juru, tambm em Rondnia,entrar tambm na mira, a soma passar de R$ 70 bilhes. So trs dos mais caros e importantes projetos dos governos petistas. Polticos, tecnocratas, burocratas e executivos podem ter formado uma organizao paralela para gerar fundos ilcitos e destin-los a intermedirios, que teriam agido para inuenciar o resultado das licitaes ou superfaturar os servios. Os dois presidentes petistas podem jurar inocncia e at no terem relao direta com a corrupo, mas coisa grossa demais para no responsabiliz-los. Nesse caso, chegando at a oposio, com a suspeita de que o senador Acio Neves pode ter recebido recursos para um caixa 2. A Amaznia pode passar a ser local de grande importncia na geograa da Lava-Jato. Infelizmente, como de regra, de forma danosa. Em menos de um ms, foram dois encontros de Jader e Helder Barbalho, os dois maiores nomes do PMDB no Par, com Zenaldo Coutinho, uma das lideranas do PSDB. Os dois partidos deixaram de ser os principais adversrios na poltica do Par? Conrma-se a informao de que, por ordem superior, partida de Braslia, peemedebistas e tucanos locais tero que se dar mos em benefcio de uma aliana nacional para a eleio de 2018? Cabem no raciocnio estas e vrias outras interpretaes sobre os dois fatos inslitos, que at um ms atrs pareciam impossveis. S uma coisa, porm, cer ta: o prefeito de Belm decidiu se desgarrar do bloco tucano e aceitar a oferta dos seus at recentemente inimigos para usarem um palco comum em proveito de seus prprios interesses. Desta vez, o jogo no s escondidas e turvo. A luz do interesse pblico ilumina os cenrios dos dois encontros: o primeiro, atravs de uma inspeo direta s praias do maltratado distrito de Mosqueiro, prejudicado por isso em sua funo de balnerio; o segundo, em pleno palcio Antnio Lemos, sede do poder municipal, no dia 17, com pompa e circunstncia. O mvel da iniciativa foi a oferta, pelo ministro da Integrao Nacional, Helder Barbalho, de 27 milhes de reais, dinheiro federal, sem a necessidade de contrapartida pela prefeitura, para aplicao imediata. Zenaldo ter a prerrogativa de lanar a concorrncia e denir o vencedor para cumprir um plano de obras (destinadas recomposio da orla de Mosqueiro) por ele mesmo elaborado. man diante da inanio nanceira da prefeitura, que mal consegue pagar a folha de pessoal. Zenaldo pode apresentar um resultado concreto no panorama vazio de realizaes do seu primeiro mandato, vcuo acentuado com a reeleio problemtica, ainda carente de conrmao pela justia. Para os Barbalho, a prova de que pai e lho trabalham pelo interesse superior do Estado, sem ver a cor partidria daqueles aos quais se juntam para servir populao. Um passo a mais na campanha de Helder pelo governo do Par no prximo ano. A presena do tucano, que podia ser constrangedora em outra cir cunstncia, passou a ser favorvel. Cercado de barbalhistas (de novo alvoroados) em pleno gabinete, o prefeito passou a ser garoto propaganda do PMDB. Pragmtico por necessidade, Zenaldo no teve como procurar alternativa. Decidiu pagar o preo que seus correligionrios tucanos, incluindo o governador Simo Jatene (que os Barbalhos continuam a tratar por preguioso, o Rolando Lero), e o furioso grupo Liberal, dos Maioranas vo lhe cobrar. Talvez usando o velho bor do: se s tem tu, vai tu mesmo.

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10 A hora de ter cabelos no coraoNo meu blog estou reproduzindo textos do passado, mas que j estavam disponveis no mundo digital, ao menos alguns deles. Nesta nova seo vou introduzir no mundo da internet textos que existem apenas em alguns arquivos de impressos em papel. Minha esperana que, acessveis a mais gente, comprovem a sua utilidade pela leitura. Como este primeiro texto, publicado em setembro de 1990, em A Provncia do Par. A primeira resenha de um livro importante, hoje esgotado e esquecido, a obra mxima de Haroldo Maranho.Haroldo Maranho autografar hoje para os paraenses (ou parauaras) o romance mais importante da literatura brasileira desde que apareceu, h quase 40 anos, Gran de Joo Guimares Rosa. (Rio Fundo Editora, Rio de Janeiro, 447 pginas, Cr$ 1.700,00) sobre a vida de Filippe Alberto Martins Maciel Parente, a mais dramtica personalidade do Par no sculo dezenove. O leitor certamente ter no livro informaes preciosas sobre a vida do fundador do primeiro jornal do Estado, e de muitas faanhas praticadas ao longo de meio sculo de polmica atuao. Mas no apenas nem sobretudo a biograa romanceada de Patroni, para a maioria esmagadora dos paraenses de hoje no mais do que a tristinha Praa Filippe Patroni de um cinema s, alis, j extinto (o Guarani, na Cidade Velha). Como extintas sistematicamente tm sido as marcas da memria (e a memria mesmo) dos que j no passam de verso deteriorada do revolucionrio porque nico. S vai ser entendido completamente a apreciado com o tempo. o destino de obras do mesmo porte, como o ou de James Joyce. O romance de Haroldo Maranho paraense, amaznico e brasileiro, mas ser internacional quando algum conseguir traduzi-lo para uma lngua mais universal do que o nosso maravilhoso e emparedado portugus. Publicado na ltima dcada deste sculo, s conquistar o seu lugar, que a crtica brasileira no parece capaz de perceber no momento, quando entrarmos no sculo 21. claro que h no livro produtos da melhor qualidade para todos os gostos e qualquer leitura. No se trata de um romance difcil, Nele h o melhor do humor, do erotismo, da narrativa picaresca, da uidez do texto e do prazer que a reunio renada de palavras pode proporcionar a quem gosta de ler livros, papis almao organizados como uma obra. Mas s quando o silncio e a incompreenso crtica, mesmo aquela praticada por amigos do autor, forem alm do tema do livro e das suas eventuais circunstncias, Ca decantar a sua condio de opera mxima, princpio de uma nova vertente da literatura brasileira de alcance planetrio. Os contemporneos tero seus motivos para achar que se trata de um romance clf. Anal, por ele deslam pessoas facilmente identicveis, como Giorgio Falangola, Paulo Evaristo Arns, Polnio Doyle, ou ligeiramente recobertas por verniz, como Hoeidor phe (Eidorfe) Moreira, Simo Bitar Bacamarte, El-Kaayat (um dos que superintendeu o apoio ocial a largussimas fazendas no deserto do Sud), Hulices Guimares, o grande physico Filardus Bassalorum (e sua legendria rede cearense), o sapientssimo Baro das Cotijubas e outras Baas e Baas Sussuaranas, Sinimbus, Ipiabinas, cocozes e saiolzes. Se h biograas reais por detrs desses nomes, eles so apenas inspirao para a superior recriao de Haroldo Maranho. Se Guimares Rosa reinventou o serto, localizando a alma deste pas, Haroldo recriou uma lngua de falar, de escrever e de ouvir que no denida nos manuais. Ela coisa viva e do passado, dos livros e dos falares de gente que se nou ou ainda respira. Mas agora ela est inscrita num livro como criao do esprito, autnoma, nova, sem igual. revolucionrio (anos-luz frente de experimentos como os de Osman Lins, ou dos pastiches de Paulo Jacob) porque um texto sobre o qual temos diculdade para denir ou submeter anlise lgica. Algum leitor ser tentado a fazer restries, a mudar a ordem das frases (criando novas) para obter melhor entendimento, ou dar-lhes sequncia cronolgica, harmonia. Pode at achar que o autor cometeu erros gramaticais ou de graa de deter minadas palavras. A grande literatura supera essas questinculas e passa por sobre as barreiras do estabelecido, se consolidando pelo prazer que propor ciona, pelo livre curso da imaginao. Depois de romances ainda presos de alguma maneira aos referenciais da realidade, Haroldo Maranho irrompe como um vulco, um possesso. Faz o que quer da (e com a) lngua. Usa diabolicamente a imaginao, passa por sobre a poca com o ltego de uma prosa alada em quase todo o livro dimenso de poesia. Pela primeira vez, o ganha a letra de forma, misturado e magnicamente combinado com a lngua portuguesa arcaica, de sintaxe latina. O ambiente da cultura matriz, na penncula ibrica (no por acaso, Haroldo como um Cervantes, ou um Gongora, um Gil Vicente ou um poeta das cantigas de senhora), alm de ressonncias de outras lnguas ncadas na origem mais remota do escrever e do falar: o grego, o africano, a lngua doc Haroldo Maranho andou por almanaques, alfarrbios, manuscritos e, como babalorix das letras, ouviu o que falaria no escreveria o paroara, lngua mais vizinha do Geral do que da rom. Como Patroni, pensava em paraense, e as palavras saam-lhe

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11 em portugus, traduzindo os pensamentos em lngua nem de se ouvir mas de se ler. No se trata, entretanto, de um mero burilar (ou fornicar) lolgico. A lngua de sur preendentemente nica. Um dos seus exemplos mais brilhantes surge no elogio do autor ao intelectual ntegro, produtor de vida e no de fantasmagorias acadmicas. A ode dedicada ao sbio Bassalus (cujo ttulo, Paraensibus et Paraensibas! uma ironia mais do que clara ao homem encasacado que nos governou por obra do acaso, elemento mais decisivo na histria dos brasileiros do que sua prpria vontade) foi escrita em latim amaznico, lngua imaginria, com referncia a coisas concretas (como o Augustus palacius Coelhorum, do intelectual Inocncio Machado Coelho e sua corte). Pode-se usufruir o prazer de ler um romance de Haroldo Maranho sem precisar de notas de p de pgina ou qualquer consulta (como elas so dispensveis na primeira aproximao da Divina Comdia de Dante). Mas ser necessrio recolher ao Aurlio e ao velho Moraes para absorver toda a base cultural que sustenta o romance, de quem no frequenta a academia, mas passa a vida lendo e escrevendo, assentado na banca onde recolho as alegrias do trabalho. No livro podem-se encontrar denies histricas. maneira de Handelmann, Haroldo diz da cabanagem: Foi pobre guerra a guerra dos bem pobres. Critica a ferocidade do presidente Andreas: matar muito para no haver mataes. Lembra que o militar se ps de ccoras em face do estrangeiro, atrevidissimo. Classica o frum chicana forense do Direito. E assim deixa emergirem os conceitos que formou ao longo da slida pesquisa preparatria ao romance. Mas isso apenas pano de fundo, embora da melhor qualidade: o autor penetra no texto, ena atualidade no passado, deixa brotar o dialeto paraense, os ditos locais e da ptria-me, produz novo lxico ou nova ortograa nesse ir e vir criativo (zapt, ple, balacobaco, phophoca, morticado boom -boom, sineangyochoronographia, grinfeis, petystha, cidade do Ynkor) de tal maneira que qualquer tentativa de datar o livro e acorrent-lo a uma matriz concreta ser v. Ainda quando o resultado seja brilhante, o autor no est se entregando a um simples exerccio formal, a um criar sem regras (a partir do completo e exaustivo domnio delas) que assinala uma obra efetivamente original. Fiel tradio desses grandes autores, Haroldo escreveu sobre o que pensa, e pensa no destino dos homens. Reconstituindo a poca de Patroni, marcada pela cabanagem, percebeu que a cupidez proprietria ilegitimou a sufocao da guerra dos muito pequenos. O traado marcante do passado, como do presente, a prepotncia de uns e a submisso de muitos, uns por aceitao, a maioria por represso. Pela voz de Patroni, Haroldo declara: Foi preciso e ser preciso sempre uma guerra assim ou maior quando a prepotncia se alevanta. A prepotncia ou deslavadamente fardada ou se oculta atrs de ratunos paisanos que amam o contedo das reinas dos estados-maiores. Do alto da cultura que formou, como Bassalo ou Baallo, Maranho sorri dos risveis conselheiros acacssimos, historiadores historinicissimoos, elaboradores de Actas Impagabilssimas, de Votos Congratulatrios jocosssimos, de Comunicaes cientco-literrias irresistibilssimas, que imprimem em volumes de contedos franciscanssimos, que efetuam conferncias comiqussimas, poposssimos eles todssimos, solenssimos, inscientssimos de tudssimo, incapacssimos de aguentarssimo qualquerssima conversssima nem sequerssima serssima pela sua sacramentalssima jumentice, o que tudssimo, ao nzssimo e ao cabssimo, engraadssimo, senhorssimos parvssimos a brincarem de cultssimos. Esta oca mas no sem propsito superlatividade cultural (a crtica cotijubense no literria mas ideolgica) tanto mais indigna quanto todos sabem que palavras lesam mais que chumbos, e aos contrrios pem despidos de roupa e razes. Falando de si e de Batista Campos, Patroni-Maranho est convencido de que imprimir ideias adiantadas foi dos moveis que zeram de mim e dele, homem e no sub-homem. Nesta poca em que os autopresumidos cabanos no passam de cabanos ad-hoc Haroldo traz de volta aos paraenses um personagem de cabelos no corao, a levar de arrasto o que se lhes arrostar, smbolo da brava gente do Acar, de heomens passadssimos na casca do alho. Patroni no morreu. Viva o Maranho que sobreviveu das runas da Folha do Norte .

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12 Em 1947, a Escola de Engenharia do Par, uma unidade isolada, estava ameaada de fechar por falta de dinheiro. Por isso, a sua direo pediu para ser transformada em Estabelecimento Estadual de Ensino Superior. O processo foi formado e receber parecer favorvel do Conselho Administrativo. Mas o governador Moura Carvalho mandou arquiv-lo. S 13 anos depois a escola se tornaria pblica, integrando a Universidade Federal do Par.Talvez ajude bastante a ter uma ideia do que foi e do que a poltica paraense relacionando a composio da Assembleia Legislativa do Estado em 1952. O gover no, cheado pelo marechal Zacarias de Assuno, tinha maioria atravs da Coligao Democrtica, formada (principalmente pela UDN e o PSP) para a eleio de 1950. Graas a essa unio, Magalhes Barata, o candidato oponente e o maior caudilho da repblica paraense, do PSD, foi derrotado. Da CDP faziam parte Abel Figueiredo (presidente do legislativo), Wilson Amanajs (secretrio), Abel Martins, Armando Mendes, Augusto Corra, Carlos Menezes, Clo Bernardo, Clvis Ferro Costa, Fernando Magalhes, Francisco Bordalo, Humberto Vasconcelos. Jos Maria Chaves, J. J. Aben-A thar, Mendona Vergolino, Licurgo Peixoto, Paulo Itagua, Rui Barata e Slvio Braga (irmo de Clo). Eram do PTB, que tambm apoiava o governo, Cunha Coimbra, Efraim Bentes, Romeu Santos e Reis Ferreira. Do PSD: Acindino Campos, Amrico Lima, Clio Lobato, Ismael Arajo, Dionsio Bentes de Carvalho, Joo Camargo, Joo Menezes, Lbero Luxardo, Lobo da Silveira, Pereira Brasil, Rui Mendona, Sandoval Oliveira e Slvio Meira. Imbiriba da Rocha, ocialmente sem legenda (o que era ento possvel), na verdade pertencia ao Partido Comunista Brasileiro.Em outubro de 1952, a Fora e Luz do Par lanou edital para a compra de uma usina termeltrica, composta por duas unidades turbogeradoras, movidas a leo diesel, pra abastecer Belm. Na poca a capital paraense sofria racionamentos e desligamentos de energia devido baixa oferta. A nova usina teria capacidade para 15 mil quilowatts. Para se ter uma ideia do que isso representa, a potncia dessa trmica equivale a 10% de uma nica das 21 turbinas instaladas na hidreltrica de Tucuru. Na presidncia da Forluz, que era a sigla da empesa estadual de energia, Jos Dias da Costa Paes. Antnio Martins Jnior era o diretor comercial e Camilo Pedro Nasser o diretor industrial.Um advogado, Flvio Moreira, que tambm era poltico, transmitiu a outro advogado, Francisco Lima Filho, o cargo de chefe de polcia, que, em 1954, equivalia a secretrio de segurana pblica, j no nal do governo Assuno. A polcia era uma das principais ferramentas de ao poltica, da, na ausncia da carreira, atrair auxiliares diretos do governador. A prtica se estendia aos delegados, sempre de palet, comumente branco. Dava para identicar visualmente o policial.Falando para o mundoQuem queria telefonar para fora de Belm ou passar telegramas precisava ir loja da Radional, no trreo do edifcio Bern, na avenida Presidente Vargas. O telegrama podia ser expedido imediatamente. J a ligao telefnica tinha durao imprevisvel para sair. Convinha ter pacincia e esperana. Ainda assim, ao completar 25 anos de funcionamento, em 1956, a Radional se orgulhava da sua modernssima rede telegrfica e telefnica, que possibilitava ligao com todos os pases do mundo. A nossa Radional era de propriedade da Cia. Rdio Internacional do Brasil, subsidiria da poderosa multinacional americana IT & T, que se tornaria clebre pelo apoio dado ao golpe de Pinochet no Chile, em 1973.

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13 Em 1957, a Folha do Norte pedia aos seus assinantes que avisassem o jornal (pelos telefones 3302 e 3305) quando seu exemplar lhes fosse entregue com atraso ou os deixassem de receber na devida oportunidade, para que a empresa providenciasse imediatamente. E hoje?H, sim, contrabando em Belm, disse o delegado da Ordem Poltica e Social, Orlando Souza, a um pedido de infor maes que lhe fez, em 1959, o deputado federal Souto Maior, presidente de uma Comisso Parlamentar de Inqurito criada para apurar a questo. O policial conrmou a entrada ilcita de mercadorias como bebidas, perfumes e automveis, E tambm a sada de produtos locais, como caf, cacau, cera de carnaba e pau-rosa. Nessa poca, a imprensa nacional descobriu Belm como a capital nacional do contrabando, provocando repercusso no parlamento.REMOEm 1959, o Clube do Remo inaugurou uma nova dependncia na sua sede social, na avenida Nazar: o Sacy Bar. A maior atrao do espao era o aparelho de ar condicionado, alm do mobilirio confortvel e o bom servio de atendimento. Compareceram colunveis como Alcyr Meira, AldebaroKlautau Filho, Klaus Winkler, Felipe Farah, Luiz Barbalho, Domingos Silva (com a lha, Maria do Car mo), Alberto (e Miriam) Bendahan, Nelson Souza, Nestor Bastos, Roberto Jares Martins, Moacir Calandrini e Ubiratan de Aguiar, o colunista social Pierre Beltrand, ainda em plena atividade.A Estncia de Lenha Valha-me Deus, a rainha das telhas, de Carmona, Moutinho & Cia., funcionava em plena rua Dom Romualdo de Seixas, no Umarizal, em 1962. O local era descrito na propaganda como sendo Beira-Mar do Igarap das Almas. Alm de telhas de todos os ipos, oferecia tijolos, tbuas, pernas mancas, ripas e lenha.Nos nibusEm 1947, todo motorista (mais o cobrador) de nibus ou caminho teria que trabalhar uniformizado. Conforme portaria baixada pelo inspetor estadual de trnsito, Joo Jorge Corra, o uniforme de motorista e cobrador seria em fazenda cqui (kaki, no texto) ou cor cinza, com a identificao especfica escrita na blusa. O complemento era o quepe mole, com o distintivo da profisso: um pneu com asas. O motorista de caminho usaria o mesmo modelo, em mescla azul. J o motorista de carros de praa (o nosso txi) deveria se apresentar convenientemente trajado, usando palet e gravata. A violao norma imporia multa. O cobrador, que transitava entre os passageiros, no possuindo um ponto fixo no nibus, como agora, devia tratar a todos de maneira corts e delicada. Deveria atrair a ateno das pessoas com a frase passagem, por favor, e nunca pelo clssico e indelicado bater de moedas ou sacudir de cdulas no rosto do passageiro. Este, por sua vez, no dever discutir com o cobrador ou motorista, trazendo sempre os casos ao conhecimento desta Inspetoria, para as providncias necessrias. Cobradores e motoristas deveriam ter sempre consigo as carteras de habilitao, identidade e de quitao com o seu instituto de previdncia (no caso, o quilomtrico (IAPRTC). Eram vrios, unificados pelo regime militar institudo em 1964. Ser que o transporte coletivo no melhoraria se essa portaria, velha de 70 anos, fosse aplicada? Andamos para trs em matria de civilidade desde ento. A principal via pblica da Pedreira, o bairro do samba e do amor, a avenida Pedro Miranda, tem iluminao pblica h apenas pouco mais de meio sculo. Ela foi instalada em 1964, no incio da administrao do major Alacid Nunes como prefeito, em substituio ao coronel Moura Carvalho, que fora deposto e cassado pelo regime militar.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: CartaA Vale, Eliezer e Eike BatistaPara tonar mais produtivo o debate com o autor da carta a seguir transcrita, que possibilita um bom debate, fiz minhas observaes entre colchetes e em itlico no curso do seu prprio texto; alm disso, a editei como uma matria.No sabemos quem o consagrou no sistema industrial e minerrio brasileiro, chegando a ser considerado por alguns comentaristas econmicos como o Engenheiro do Brasil [Eliezeer recebeu realmente o ttulo, que lhe foi concedido pelos seus pares]. Contudo, na sua trajetria tem muita coisa para ser desvendada e explicada aos brasileiros da atualidade, como por exemplo: a histria do nibio nacional, envolto em mistrio inacessvel para os no iniciados; a corrupo no perodo militar envolvendo os cls Sarney, Magalhes, o prprio Batista, Maluf, etc. Se o seu empreendedorismo e sua viso de negcios forem positivados e serviram de exemplo para a formao de seu visionrio lho (Eike), teremos que concordar que esse extrapolou todos os limites do nonsense e acabou preso um dia desses do ano em curso, mas acredita-se que ser libertado no curto prazo [as aparncias sugerem que Eliezer no aprovava as iniciativas do lho, por consider-las temerria; no est provado que o pai forneceu informaes privilegiadas ao lho; o que se pode apontar contra Eliezer que ele se calou; por qual motivo, se por causa da esposa, que apoiava o lho, ou por razo mais relevante, ainda nos e sabe]. Como informao adicional da aprendizagem e traquejo do seu rebento, temos que, num garimpo de ouro em Alta Floresta-MT, no incio de sua fascinante trajetria, teve um entrevero com um garimpeiro que lhe disparou um tiro sem acert-lo, e o agressor foi morto por um de seus capangas, sem registrar ocorrncia policial [o episdio pode revelar o outro lado da personalidade de Eike, mas tambm ser mera inveno de algum que fantasiava para criar sua imagem de Indiana Jones ]. Para quem se interessar, esses informes constam do livro da jornalista Malu Gaspar, com o ttulo Tudo ou nada a verdadeira histria do grupo X. Editora Record 2014545 pgs. [o livro merece ser lido; uma excelente reportagem]. Mas, voltando ao pai, Eliezer, os amaznidas, principalmente os paraenses, em minha modesta opinio, no devem perdoar-lhe o fato de ter se omitido, por ocasio da privatizao ou doao da antiga Vale do Rio Doce, sendo ele o principal condutor da poltica de minrios, encabeada pela estatal. Pelos dados existentes, no foi s o presidente ocial desde 1953, mas na realidade, foi o dono absoluto da empresa, tanto que assumiu a direo de outras companhias, como CAEMI, Mineraes Reunidas Brasileiras (Caemi/Bethlehm Steel), Itabira International Company (Nova Iorque), Itabira Eisenerz Gmbh(Dusselfor/ Alemanha Ocidental), etc, e depois retornava e reassumia s rdeas da ento Vale do Rio Doce, sem ser questionado por presidentes ou ditadores brasileiros de planto, revelando o padro administrativo dessa poca. [ Eliezer assumiu a presidncia da Vale em 1961. No ano seguinte foi ministro das minas e energia no gabinete de Hermes Lima, no curto intervalo de parlamentarismo, que foi alter nativa presidncia de Joo Goulart. Com o golpe militar de 1964 foi demitido da presidncia da Vale, para onde voltara. S a partir da trabalhou nas empresas privadas. Logo foi comandar a Vale na Europa, retornando ao Brasil para ocupar de novo a presidncia da estatal nos cinco anos do ltimo general-presidente, Joo Figueiredo. Ainda foi chefe da secretaria de Assuntos Estratgicos de Collor, sua ltima funo na administrao pblica. Quanto Caemi, era de propriedade apenas de Augusto Antunes. Associou-se Bethlehem Steel na Icomi, para explorar o mangans do Amap.] Realmente muito nebuloso o seu envolvimento (entrosamento caria melhor) com autoridades brasileiras e internacionais, dizse comumente que o seu charme foi a razo da fcil formao de sua fortuna de bens e da exclusividade em grandes reas ermas devidamente prospectadas e disponveis para serem exploradas economicamente. A ascenso e queda do seu lho Eike parece conrmar o que poderia ser apenas uma suposta maledicncia [Pois continua a ser maledicncia. Eliezer procura seduzir as pessoas. Mas se imps mesmo por suas qualidades prossionais. Digo isso com respeito, mesmo criticando duramente sua atuao na Vale e particularmente em Carajs. No exatamente pelo que fez, mas como fez ou deixou de fazer. Levou-nos dependncia do mercado asitico, embora talvez no tivesse imaginado como ela seria grande.]. A verdade que o todo poderoso Eliezer no s foi descuidado, como conivente nas tratativas nais que aprovaram a frmula esquisita indicando o Bradesco e a Mitsui (scios minoritrios) para conduzirem a administrao da terceira maior mineradora do mundo. Detalhe: o Bradesco nem poderia participar porque foi o autor do processo de privatizao. Ningum protestou, nem tampouco o senhor Eliezer [eu denunciei e protestei, por vrias vezes]. A sociedade civil se movimentou, porm as aes dormem h 30 anos nos escaninhos dos Tribunais do Estado brasileiro, conr mando a inecincia e a passividade de seus membros. Como era de se esperar, com um produto elaborado na gula exacerbada do capital privado, j teve inicio o processo da privatizao completa do controle da Vale, em favor do Bradesco e da Mitsui, mediante a fuso das aes ordinrias e preferenciais a ser realizada em breve, conforme explica com detalhes a matria com o ttulo Vale ser internacionalizada?, do n.625. No acredito que esses abusos cometidos nos negcios da Vale ao longo de sua vida sejam investigados como o que est sendo feito com a Petrobrs, atravs da Operao Lava Jato. Enquanto isso, o descaso das autoridades locais e nacionais com os desmandos cometidos pelos enclaves econmicos no que diz respeito explorao do nosso territrio, sem quaisquer retornos compensatrios, so notrios e passivos. O minrio embarcado no porto do Maranho; a usina siderrgica nunca vingou; nossas orestas foram abatidas e transformadas em carvo vegetal para alimentar os fornos das guseiras; a Lei Kandir nos impediu de abocanhar, segundo clculos modestos, cerca 25 bilhes de reais. Continuamos quietos e amordaados. A Vale deve seguir o mesmo destino da Petrobrs, desta o governo (?) j anunciou a drstica reduo de poltica de contedo nacional na cadeia de produo do petrleo e gs. O pior que, sob o pretexto de criar receita para atender as necessidades de investimentos programados, esto vendendo ativos da petroleira, numa assombrosa ao lesa-ptria. Atos lesivos esto sendo cogitados, tambm, para socorrer a OI, atualmente em recuperao judicial, no valor de 65 bilhes de reais, porm, este outro ramo dessa repugnante histria. Como a Vale no tm problemas na cadeia de produo, porque j desenvolveu as mais sosticadas formas de trabalho minerrio, a prova est no avanado projeto SD11 em execuo, vamos entreg-lo prontinho aos nossos amigos desenvolvidos. O governo Trump vocifera que a prioridade so os valores nacionais, e nos aqui abrimos mos dessas ninharias ...

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15 MP do Estado: tudo muda para que nada se modique? So os chineses que vm chegandoQuem manda na ValeNo incio deste ms, a Vale ter trs ou cinco nomes dentre os quais escolher seu novo presidente, que no ms seguinte suceder Murilo Ferreira, atualmente no cargo. Por coincidncia, em maio a antiga estatal completar 20 anos como empresa privada e apresentar seu novo contrato de gesto, em vigor desde maio de 1997. A multinacional de headhuntig Spen cer Stuart, quem selecionar os nomes de peso, dentre os quais os controladores da mineradora, a terceira maior do mundo, escolhero o novo presidente. A condio para os possveis candidatos que tenham experincia como presidente-executivo em grandes empresas internacionais. Assim, a Vale espera se proteger de injunes polticas e convenincias regionais para se projetar como uma autntica multinacional, sepultando seu passado de relao com o perfil estatal. Depois de privatizada, estar em condies de se internacionalizar por inteiro. A relao dos pr-selecionados pela Spencer Stuart ser encaminhada a Paulo Caffarelli e a Luiz Carlos Trabuco, presidentes do Banco do Brasil e do Bradesco, que esto frente do processo pelo lado dos dois maiores acionistas da mineradora, informa o Valor Econmico Mas tero que ser ouvidos os outros requerimentos grandes acionistas da Vale: o Previ, o fundo de penso dos funcionrios do Banco do Brasil, e o BNDES, que so o brao do governo na corporao, e a multinacional japonesa Mitsui, a nica estrangeira no controle da Vale. um processo de elevado interesse pblico, mas em relao ao qual a sociedade se mantm e mantida ao largo.O governador Simo Jatene contrariou a maioria das expectativas, na semana passada, ao deixar de seguir o resultado da eleio para a chefia do Ministrio Pblico do Estado. Ao invs de nomear Csar Mattar, o mais votado, escolheu o segundo colocado, Gilberto Valente Martins, que teve 71 votos a menos. Rompeu com a regra que ele prprio vinha seguindo. Foi um ato poltico e uma sagaz movimentao de pea no tabuleiro do poder. Parecia que tudo estava certo para a sagrao de Mattar. Ele era o candidato do atual procurador-geral de justia, Marco Antonio das Neves, que apostou nele suas chas, muitas delas carimbadas pelo prprio Jatene. E conseguiu colocar Mattar frente de Valente, que se apresentou como candidato de oposio ao comando do MPE. Mas no ao governo em geral ou ao governador em particular. Parece ter sido uma diferena sutil, que o adversrio no percebeu. Ou no a levou em considerao. Anal, o atual procurador-geral se cobriu de reconhecimentos do governador, a quem serviu de tal forma que se incompatibilizou com parte da instituio, mas a parte minoritria, conforme o resultado da eleio atestou. Prevaleceram favorecimentos e benefcios concedidos pela chea aos que a apoiaram. Parece que Jatene preferiu deserdar Marco Antonio e o seu candidato em troca do currculo mais rico de Gilber to Valente, com muito maior atuao e um crculo mais amplo de relaes, inclusive fora do Par. O promotor militar j fez parte do Conselho Nacional de Justia, por duas vezes, e tem contatos em reas polticas e empresariais locais, que faltam a Mattar, de biograa mais do que discreta. Certamente o rompimento da linha sucessria no MP pode acarretar alguma dor de cabea imediata ao governador, se o padrinho e o candidato situacionista resolverem retaliar, retirando alguma coisa mantida at agora na gaveta. Mas ser risco de curta durao. Logo, o novo procurador-geral, que, pela primeira vez, ser um promotor pblico, assumir com um dbito de reconhecimento ao gesto de Simo Jatene. O governador, dessa maneira, trocar de companhia, se mantendo, porm, sob a cobertura do Ministrio Pblico. Ou a situao realmente mudar? Se os negcios continuarem a evoluir como esto evoluindo, os chineses sero os donos da infraestrutura da Amaznia na passagem para a prxima dcada. Eles j controlam as linhas de transmisso de energia que saem da maior hidreltrica inteiramente nacional (e a terceira do mundo), Belo Monte, tanto para o sul quanto para o norte do pas. Podem assumir o controle da prpria usina, porque seus atuais controladores dicilmente vo continuar a manter-lhe o controle. Os chineses tambm esto na outra extensa linha (todas com mais de dois mil quilmetros de extenso) que conduz a energia das duas usinas do rio Madeira, em Rondnia, tambm das maiores do Brasil, para o sul. Agora se empenham em comprar uma delas, a de Santo Antnio. A maior empresa de infraestrutura da China participa da empresa que vai construir um porto multimodal em Cajueiro, o novo e mais amplo terminal de So Lus do Maranho, que recebe a produo de minrio de ferro de Carajs, o segundo produto de expor tao do Brasil. Para esse porto, os chineses querem fazer convergir as ferrovias Norte-Sul e Transnordestina. J cobiam a chamada Transgro, que levar soja e outros gros do Centro-Oeste para os portos paraenses e do Amap. Estudam outra ferrovia, que lhes dar acesso ao Pacco pela Amaznia. Talvez retomem o projeto de uma siderrgica para seguir por essa via. A China pretende investir neste ano tanto quanto aplicou no Brasil em 2015 e 2016, ou 20 bilhes de dlares, mais de 60 bilhes de reais. J no motivo suciente para analisar o conjunto desses negcios e interpretar-lhe o signicado? Ou vamos continuar a nos contentar com o apito dos trens?

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O off coletivo do MPF: anomalia da democraciaA primeira informao sobre o contedo da chamada segunda lista do Janot, preparada com base em denncias de propinas pagas por empreiteiras investigadas pela Operao Lava-Jato, foi transmitida por representantes do Ministrio Pblico Federal em um o coletivo com jornalistas, adredemente convocados pelos servidores pblicos. Os chamados e escolhidos se comprometeram a manter o anonimato da fonte e divulgar exatamente o que ela lhes informou. Por isso a abordagem do dia seguinte dos jornais que participaram da anmala conversa foi inteiramente igual. S a partir do dia seguinte os repr teres comearam a descobrir, por acesso a outras fontes, que a lista continha mais polticos, ministros e outros per sonagens do que a relao apresentada no o depravado. Enriqueceram o seu noticirio, mas j haviam servido de mensageiros, pregoeiros ou moleques de recado, conforme a funo que se ajustar inspirao que tiveram e o objetivo que pretenderam os integrantes do MPF autores da convocao. um fato lamentvel, mesmo com todas as ressalvas em funo dadiculdade em obter informaes nessa rea,tanto para a Lava-Jato quanto para a imprensa. Os procuradores no podiam nem deviam ter quebrado o sigiloque inda prevalecia e continua vigente sobre o contedo dos autos. Deviam se manter em silncio at o oferecimento da denncia, que s acontecer depois de processado o inqurito perante a justia. Com seu procedimento, deram motivo aos que investem contra o combate corrupo alegando que ela direcionada e viciada, ainda que se baseiem apenas em aparncias. J os jornalistas no podiam servir de instrumento a uma manipulao de informao, agindo como grupo de interesse ou mesmo bando. frequente a cobertura de um assunto por grupo de jornalistas que seforma como corporao, acertando regras informais prprias, geralmente contrrias s normas de procedimento da prosso. Um deles a individualizao das iniciativas e uma abordagempessoal.Serve justamente para prevenir ou conter tentativas de manipulao. Esse grave caso, infelizmente, s foi abordado por Paula Cesarino Costa,ombudsman da Folha de S. Paulo, na edio do dia 19 do jornal. Ela foi tica ao no revelar os nomes dos procuradores que participaram da inusitada (mas no singular, ao que agora se pode temer)coletiva, mas podia ter apurado mais informaes para, com seu registro, execrar o episdio e desestimular a sua repetio. Divulgar o mximo de informaes a respeito o melhor antdotocontra esses escorreges. Espera-se que a imprensa em geral e os jornalistas em particular prestem mais ateno e dediquem maior respeito aos seus princpios e deveres para no se exporem a esse canto de sereia. Quanto sua abertura ao o coletivo, diz que teve uma razo nobre: tentei quebrar o ao de silncio que se formou entre as redaes e as ruas no acompanhamento da penetrao do trco internacional de drogas na economia subterrnea e criminosa de Belm. Mesmo quando eu lhes passava informaes exclusivas a respeito, colegas se recusavam a transform-las em notcias na grande imprensa. Eu procurava diminuir os meus riscos por noticiar sozinho fatos to perigosos, verdade. Mas minha principal inteno era alertar a sociedade sobre o que estava acontecendo nos subterrneos.Esta a misso mais nobre da imprensa.Reao do chefe uma mentira, que beira a irresponsabilidade, armar que realizamos, na Procuradoria-Geral da Repblica, coletiva de imprensa para vazar nomes da Odebrecht, reagiu notcia o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot. S posso atribuir tal ideia a mentes ociosas e dadas a devaneios, mas, infelizmente, com meios para distorcer fatos e desvirtuar instrumentos legtimos de comunicao institucional. O desmentido exigiria que a ombudsman voltasse ao assunto para rearmar o que publicou ou se retratar. Mas para o noticirio do dia, Janot quis atingir Gilmar Mendes quando disse que a revelao uma disenteria ver bal. Foi o ministro do Supremo Tribunal Federal quem comentou, na vspera, a informao do jornal, durante sesso da 2 turma do STF, responsvel pela Operao Lava Jato. Mendes cobrou explicaes a respeito da Procuradoria Geral da Repblica. J o procurador reagiu durante reunio de avaliao das eleies de 2016, na Escola Superior do Ministrio Pblico da Unio, em Braslia. Na plateia havia procuradores e jornalistas. A ombudsman rearmou as infor maes que publicou, conrmadas por mais de trs fontes independentes, como requer a boa prtica jornalstica. Declarou-seprossional com atuao independente e isolada da Redao da Folha . Garantiu que vericou a informao, em nome da transparncia e da defesa do bom jornalismo que o leitor merece. E losofou: H crises que so saudveis por gerar a necessidade de reviso de procedimentos e comportamentos. A operao Lava Jato se coaduna com esse esprito em muitos dos seus principais movimentos. O turbilho que involuntariamente provoquei tambm tem esse potencial. Os defensores da independncia, da transparncia e da acuidade da informao tm aqui uma aliada, onde os obscurantistas por certo vero uma adversria.