Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a POLTICAO padrinho e o lobistaOs investigadores da Operao Lava-Jato acreditam que, atravs do lobista Jorge Luz e do seu filho, Bruno, presos em Curitiba, podero chegar aos polticos do PMDB. Dentre eles, Jader Barbalho. O casamento do filho dele, o ministro Helder Barbalho, pode ser o elo entre eles? No dia 25 de fevereiro, o site jornalstico Poder360 revelou que o lobista Jorge Luz, preso pela Polcia Federal sob a acusao de intermediar o pagamento de propinas na Petrobrs, foi padrinho de casamento do ministro Helder Barbalho, realizado em 2006. No mesmo dia a assessoria de imprensa do Ministrio da Integrao Nacional emitiu uma nota, bem curta, para informar que o Jorge Luz padrinho de npcias era um primo da noiva, Daniela Lima. Imediatamente o editor do site excluiu o texto, merecendo a aprovao de Helder: Como todo ser humano, jornalistas tambm se enganam. E os bons jornalistas se corrigem. Obrigado, Fernando Rodrigues, por reparar a verdade, escreveu o ministro no seu Facebook, investido das vestes talares de ouvidor da imprensa, mas cutucando a maledicncia de O Liberal, seu inimigo, que reproduziu o texto do Poder360. E, quem sabe, tentando atingir a fonte que repassou cpia de uma nota sobre o casamento, publicada na coluna social de Walter Guimares (j falecido) no prprio Dirio do Par da famlia Barbalho (estranhamente, a nica referncia do acontecimento).

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2 Desde ento, passados nove dias, at este momento em que escrevo, o ex-prefeito de Ananindeua (cargo que ocupava ao casar) no voltou ao assunto. Na quinta-feira, 2, no entanto, sua assessoria divulgou nova nota telegrca. Encaminhou-a ao site O Estado do Tapajs, do jornalista Miguel Oliveira, de Santarm, a propsito de texto meu. Preferiu se dirigir ao veculo que reproduziu o artigo desse dia do que vir diretamente ao meu blog (www.lucioaviopinto. wordpress.com), sua origem. Provavelmente o ministro no quer dar ao meu espao a honra da sua presena. J a esta altura do campeonato, prefere ignor-lo. pleno direito seu. O que mais causa estranheza desta vez, no reproduzir a nota dos assessores no seu prprio Face. Pode ser porque, no imitando a exemplar a atitude de Fernando Rodrigue, como devia, deixei de simplesmente excluir meu do blog. Fiz outros questionamentos e pedi que eles fossem esclarecidos. At agora no fui atendido. Tambm esta uma prerrogativa do ministro. A minha, como jornalista, continuar a perquirir pelos motivos de no haver um esclarecimento denitivo sobre a questo. A ltima nota da assessoria de imprensa do ministrio arma que o Jorge Luz padrinho, com sua irm, Jssica, primo da esposa de Helder Barbalho. Muito bem. Mas h ainda uma pendncia: o lobista Jorge Luz, mesmo sem ser o padrinho, foi convidado para o casamento? Conforme disseram duas testemunhas, presentes ao ato, pomposo e caro, esse Jorge Luz l estava, conversou com as pessoas ( inteligente e uente, simptico como um autntico lobista) e at teria se referido sua casa em Angra dos Reis, que costuma acolher autoridades e polticos ligados ao seu mtier. Se o mais antigo lobista da Petrobrs esteve no casamento de Helder, seu pai, o senador Jader Barbalho, faltou com a verdade quando disse que seu nico contato com Luz foi o primeiro, em 1983. O ex-governador nada disse, at agra, em seu Facebook. Apesar de ser muito fcil desmentir a informao inicial, o ministro s tomou a iniciativa de apresentar uma foto do padrinho de casamento depois de alguns dias (e aparentando certa relutncia), da forma mais breve que lhe fora possvel: uma foto do padrinho e outra da madrinha, irm dele, e o nome da me de ambos, amigos da noiva. Sem negar a presena do lobista, porm, coloca em questo a posio do senador Jader Barbalho, Ele continua a sustentar que foi apresentado a Jorge Luz em 1983 e nunca mais o encontrou. No entanto, quem fez a ponte do lobista com o vicegovernador Carlos Santos, que ocupou o governo quando Jader precisou se desincompatibilizar para concorrer ao Senado, em 1994? Foi nesse momento que Luz voltou ao Par, onde nasceu, mas do qual se distanciou completamente ao se estabelecer, por longos anos, no Rio de Janeiro. S voltou para ser o agenciador de contratos e negcios, cobrando comisso pela sua participao nessas transaes. Por coincidncia, era primo de uma assessora da ento primeira dama, Elcione Barbalho, na Ao Social do Governo. O casamento de Helder foi em 2006, no mesmo ano em que alguns dos delatores da Operao Lava Jato sustentam que Luz teria se reunido com a cpula do PMDB, no apartamento de Jader, em Braslia. O silncio do principal personagem dessa histria obriga quem quer saber da verdade a aprofundar a investigao dos fatos. Se est limpo, o ministro Helder Barbalho podia servir ao interesse pblico apresentando as provas do que diz. Calar um passo em direo contrria que ele apresenta. Neste caso, o silncio no de ouro. um estorvo.A estreia de Luz no ParO governo tampo de Carlos Santos, completando os nove meses nais do segundo mandato (1991/95) de Jader Barbalho como governador do Par, foi algo entre o barata-voa e o salve-se quem puder. Um estado de caos, anarquia e roubo. A principal base de atuao nesse perodo foi o Hilton Belm (atual Princesa Lou), onde o lobista Jorge Luz dava (e recebia) as cartas. Os negcios formais e os acertos de bastidores eram consumados ali ou em outros locais por onde Luz andava. Muito dinheiro pblico foi desviado para cofres particulares. A responsabilidade pela fora exer cida pelo lobista, nascido paraense, mas criado no Rio de Janeiro, era s do vicegovernador, no exerccio do cargo para que o titular pudesse se desincompatibilizar para se candidatar (e se eleger) ao Senado? Ou tambm Jader Barbalho avalizou a penetrao de Luz, que se tor nou um apndice da administrao pblica estadual? Talvez agora se possa saber dessa e de outras conexas ou autnomas histrias com esse personagem fugidio. Jor ge Luz e o lho dele Bruno Luz j esto presos, em Miami, e amanh devero ser devolvidos ao Brasil, onde permanecero presos. A priso foi possvel graas cooperao internacional da polcia de imigrao americana com a Polcia Federal brasileira, que cumpria mandado judicial na da 38 fase da Operao Lava-Jato. Os dois tambm estariam irregulares nos Estados Unidos. A fora-tarefa apura o pagamento de 40 milhes de dlares (130 milhes de reais) de propinas ao longo de 10 anos, beneciando senadores e outros polticos, alm de diretores e gerentes da Petrobras. Jorge e Bruno Luz so apontados como operadores nanceiros ligados ao PMDB no esquema de corrupo e desvio de dinheiro dentro da Petrobras. Segundo o jornal O Globo a defesa de ambos informou que seus clientes j foram ouvidos em inquritos no Supremo Tribunal Federal por envolverem pessoas com foro privilegiado. Esses depoimentos foram prestados quando eles j estavam fora do Brasil e que permaneciam dispostos a colaborar com as investigaes. A suspeita a de que Jorge e Bruno atuaram em pelo menos cinco episdios, intermediando entre quem queria pagar e quem queria receber propina a partir dos contratos com a Petrobras. As transaes eram feitas atravs de contas no exterior, como na Sua e nas Bahamas. Seu alvo principal era a rea internacional da Petrobras, entregue ao PMDB pelo acordo poltico com o governo Lula, mantido na administrao de Dilma Rousse. A partir de certo momento, ambos passaram a solicitar propina para o PMDB tambm em outras diretoria da Petrobras. A mais recente operao da PF, batizada de Blackout, alm dos dois mandados de priso, teve 16 mandados de busca e apreenso expedidos e cumpridos.

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3 BR-163: por acaso, uma estrada no ParParecia que os acontecimentos transcorriam em outro Estado. No s pela desinformao ou pouca informao no noticirio como pela sensao de impotncia diante dos fatos demonstrada pela opinio pblica paraense, sobretudo a que ca acantonada na capital. Belm parece incapaz de chegar at o eixo da BR-163, onde trs mil caminhes foram se enleirando ao longo de trs semanas, retidos na estrada pelas fortes chuvas que sobre ela desabaram, tornando-a intransitvel. A Santarm-Cuiab, que na verdade devia ser Cuiab-Santarm, para ser coerente com a direo dominante do uxo de carga (no sentido sul-norte), o segundo principal eixo de escoamento do segundo maior produto de exportao do Brasil, a soja (alm de outros gros, como o milho), originria do planalto central, em especial do norte de Mato Grosso. Quase 95% da carga que sai de Mato Grosso em direo ao Par ca em Miritituba, a cidade vizinha a Itaituba, na margem do rio Tapajs, de onde reembarcada para seu destino principal: o porto de Santarm, controlado pela Cargill, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo. A interdio da BR-163 pelas chuvas, como acontece todos os anos, desta vez reteve a maior frota de caminhes j registrada. Quantas toneladas eles tinham desse gro? Talvez s os caminhoneiros e os produtores saibam. No encontrei nenhuma informao sobre a atividade de balanas ao longo da rodovia (nem da Polcia Rodoviria Federal), a partir de Lucas do Rio Verde, que um dos municpios que mais produz soja no Brasil e o maior supridor do produto na direo do Par. Se considerarmos uma mdia de 40 toneladas por caminho, chegaremos ao fabuloso total de 120 mil toneladas. A um preo mnimo de 60 reais a saca, na origem, d mais de 120 milhes de reais. Preo interno de custo. O de venda se multiplica algumas vezes, acrescido dos carssimos fretes. Pode ir alm de um bilho de reais. Qual foi o prejuzo da nao pelo estado intransitvel da estrada federal, das medidas de urgncia para restabelecer-lhe o trfego e do tempo de paralisao dos caminhoneiros, que s na quinta-feira comearam a sair da armadilha de lama? Antes do pleno restabelecimento do trfego, no nal da semana passada, o presidente da associao de exportadores e indstrias, Carlo Lovatelli, o calculava em 350 milhes de reais, provavelmente com certo exagero. Na sua contabilidade estavam computados fatores como os contratos renegociados, cargas desviadas para os portos do sul e sudeste, multas por atrasos nos navios que aguardam os produtos nos portos do norte e o prejuzo imagem de um pas que no honra os prazos contratuais. Essa conta, mais do que cara, ultrajante. Atingido por uma surpresa que no tem razo alguma de ser, j que a chuva forte anual, tanto quanto o crescente escoamento de soja, o segundo produto brasileiro de exportao, depois do minrio de ferro (do qual o Par lder), o governo mobiliza gente e mquinas para colocar a pista em condies mnimas de passagem. E repete a ladainha: faltam s 190 quilmetros (menos de 10% do total, 20% do trecho paraense) para a Cuiab-Santarm estar plenamente asfaltada. Os 190 quilmetros que restam, custariam menos do que R$ 400 milhes, valor equivalente ao prejuzo que os produtores j consideram consumado. Promessa que pode ser repetida na prxima chuvarada, sem que os paraenses se deem conta de que isso tambm Par e no Marte ou Vnus.China substitui EUA na Amrica Latina?A China emprestou 21,2 bilhes de dlares para a Amrica do Sul no ano passado. Embora tenha sido um montante ligeiramente inferior ao valor concedido em 2015, que foi de US$ 24,6 bilhes, mais do que a soma (US$ 19,8 bilhes) do total de nanciamentos do Banco Mundial (US$ 8,2 bilhes) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (US$ 11,6 bilhes). Os emprstimos foram concedidos atravs do Banco de Desenvolvimento da China e do Banco Chins de Expor taes e Importaes, ambos estatais. Desde 2005, o fluxo de financiamento chins na Amrica Latina superou US$ 141 bilhes (o equivalente a quase 550 bilhes de reais, 10% do PIB do Brasil). O Brasil, alis, foi de longe o pas que mais recebeu dinheiro chins no ano passado (US$ 15 bilhes), destinado principalmente para a Petrobras, em troca de petrleo. Os outros maiores emprestadores foram Venezuela e Equador, que fecharam 2016 com agudas recesses econmicas, o que ressalta a importncia do uxo de crdito da China para a regio. Os trs pases receberam 92% do total, segundo estudo do Centro de Estudos Dilogo Interamericano, realizado em par ceria com a Universidade de Boston. As duas instituies coletam dados sobre a China no continente desde 2005. O relatrio observa que a Argentina, que ocupava as primeiras posies do ranking anteriormente, no registrou nenhum emprstimo em 2016. Relaciona o fato mudana de governo, com a substituio de Cristina Kirchner pelo oposicionista Mauricio Macri na presidncia da repblica. Seria indicador do componente poltico nas regras tcnicas dos emprstimos. O novo governo j fez algumas mudanas na poltica econmica, mas j seu sinais de que pode recorrer China para nanciar seu ambicioso plano de infraestrutura. A China uma fonte fundamental de nanciamento, especialmente para pases como Venezuela, Equador, Brasil e Ar gentina, que tiveram um acesso relativamente limitado aos mercados de capital internacionais nos ltimos anos, apontou o relatrio. Ele prev que Pequim continuar sendo um salva-vidas para as economias mais frgeis da regio.

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4 Belo Sun se defende: a culpa a antecedeuApesar dos impactos e da celeuma, as obras da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, evoluram com reduzida participao da opinio pblica e conhecimento reduzido (ou distorcido) da maioria dos interessados na questo. Houve muito debate e conflito, mas raro dilogo, atividade dialtica que impe o processo de ouvir, falar e debater, na busca pelo melhor conhecimento. Foi um confronto barulhento, cada parte falando sem ouvir. Venceu quem gritou mais alto ou pde fazer seus gritos ecoarem mais. A usina de Belo Monte ainda est em fase de motorizao e, a pouca distncia, outro grande empreendimento provoca as mesmas situaes. Depois de escrever criticamente sobre o projeto, cedo vez para que a dona desse projeto, a canadense Belo Sun, apresente suas razes. Ela as exps em entrevista concedida pgina do Instituto Socioambiental de So Paulo (o ISA) na internet. Fiz alguns ajustes e correes no texto original para facilitar a leitura. A entrevista antecedida por uma apresentao.O maior projeto de minerao de ouro do pas, foi como reportagens chamaram o ambicioso plano da empresa canadense Belo Sun Minerao de instalar um projeto de extrao na regio de Volta Grande do Xingu, no Par. Com um investimento de US$ 1,076 bilho, e uma estimativa de produo de4,6 toneladas de ouro por ano, o empreendimento recebeu no dia 2 de fevereiro a Licena de Instalao e agora planeja os prximos passos. Criticado por ambientalistas, movimentos indgenas e com aes na justia que pedem melhores anlises sobre os impactos ambientais e sociais na regio que j sofre com a inuncia da construo da usina hidreltrica de Belo Monte, a assessoria da empresa concedeu entrevista ao site Amaznia. org.br para explicar o projeto. Questionada sobre as crticas ao projeto, a empresa arma que a reper cusso negativa se deve as diversas alteraes que a regio j sofreu no decorrer dos anos, primeiramente com a explorao de ilegal de madeira, lavra ilegal de minrio e por m a hidreltrica [de Belo Monte ]. Segundo informaes doInstituto Socioambiental (ISA),a preocupao vlida, j que a rea prevista para a mina j seriamente impactada pela hidreltrica: a reduo de mais de 80% da vazo da gua em 100 quilmetros do rio Xingu causou mortandade de peixes, piora da qualidade da gua e alteraes drsticas no modo de vida de populaes indgenas e ribeirinhas. A Belo Sun informou que os impactos identicados sero mitigados e executados nas fases de instalao e operao do Projeto Volta Grande. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos, aps misso na regio do empreendimento, criticou o projeto por falta de transparncia e recomendou que a licena de instalao fosse suspensa at que o Estudo de Impacto Ambiental do Componente Indgena seja revisado pela Fundao Nacional do ndio (Funai), para avaliar os impactos sobre os povos indgenas. As Terras indgenas mais prximas so TI [Terra Indgena] Paquiamba e TI Arara da Volta Grande do Xingu, cerca de 10 quilmetros de distncia de onde ser instalada a mineradora. Segundo Belo Sun, as duas etnias estiveram representadas em consultas pblicas convocadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Considerado como pblico de relacionamento do projeto Volta Grande, os indgenas da regio e a Funai foram convidados pela Belo Sun Minerao para participarem das audincias pblicas de apresentao dos Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e do Relatrio de Impactos Ambientais (RIMA), tendo comparecido no evento de janeiro de 2013, na Vila da Ressaca. A Funai enviou um relatrio tcnico no qual solicita esclarecimentos em relao aos pontos especcos do ECI. A Belo Sun Minerao j respondeu a todos os questionamentos da anlise do rgo indigenista, mas ressaltou que de acordo com a legislao vigente, a Belo Sun Minerao no obrigada a realizar estudos de impactos dentro dessas reas.. A liberao da licena de instalao foi divulgada no dia 2 de fevereiro, primeiro pelo site da prpria mineradora e s depois ocializado pelos rgos ambientais brasileiros, por volta das 18 horas do mesmo dia. A Belo Sun infor mou que optou pela transparncia e boa-f junto ao mercado e ao pblico em geral, e informou no seu site sobre a deciso logo aps reunio que aconteceu com representantes de rgos ambientais e equipe tcnica que ar maram que a licena seria liberada no mesmo dia. A ntegra da entrevista: Em que fase est o projeto Volta Grande do Xingu atualmente e o que ele compreende? Belo Sun O Projeto Volta Grande acaba de receber a Licena de Instalao (LI) da Semas, no dia 2 de fevereiro. As atividades previstas para esta fase incluem todo o planejamento para a preparao da rea industrial, que tem inicio previsto setembro de 2017, trs meses aps o vero na regio, assim como a continuidade da negociao com moradores das reas de inuncia do empreendimento. A expectativa que a instalao do empreendimento nalize em dois anos. O perodo seco ser aproveitado para monitoramentos e aes ambientais, como a instalao do centro de triagem de fauna, do viveiro de mudas e do banco de germoplasma, assim como afugentamento da fauna. Essas etapas so fundamentais para comear a obra na rea do Projeto, efetivamente. Em paralelo, sero contratados os principais gestores de equipes e assinados os convnios com as instituies parceiras para execuo dos

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5 programas de qualicao de mo de obra e de desenvolvimento de fornecedores. Ser o momento de fazer a triagem de mo de obra disponvel e de fornecedores potenciais, com base no critrio de priorizao estabelecido pela empresa: Vila Ressaca e entorno, Senador Jos Porfrio e Altamira.Ao que atribuem tanta reper cusso negativa em relao ao projeto de minerao na regio do Xingu e a ausncia de apoio de organizaes sociais e ambientais? A Volta Grande do Xingu uma regio que j sofreu diversas alteraes de outras atividades no decorrer dos anos, primeiramente com a explorao de ilegal de madeira, lavra ilegal de minrio e por m a hidroeltrica. A Belo Sun Minerao analisou os impactos sinrgicos de sua atividade neste contexto (captulo especco do licenciamento) e est disposta a mitigar queles decorrentes da instalao do Projeto Volta Grande, alm de contribuir para o desenvolvimento local e o fortalecimento do territrio. Ressaltamos tambm que com a ampliao dos espaos de dilogo e construo participativa de proposies, o projeto tem se fortalecido junto s comunidades locais e sociedade civil organizada, fato este conrmado nas Ocinas Participativas ocorridas neste janeiro deste ano.Gostaria de saber sobre as consultas prvias e principalmente se houve consulta aos povos indgenas e ribeirinhos que vivem na regio. A principal crtica ao projeto a ausncia de consulta aos povos tradicionais, tendo relatos que a audincia de 11 de outubro, na Vila Ressaca, no contemplou essas populaes, alm da ausncia de um componente Indgena aprovado pela Funai. Considerado como pblico de relacionamento do projeto Volta Grande, os indgenas da regio e a Funai foram convidados pela Belo Sun Minerao para participarem das audincias pblicas de apresentao dos Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e do Relatrio de Impactos Ambientais (RIMA), tendo comparecido no evento de janeiro de 2013, na Vila da Ressaca. Ou seja, as duas etnias estiveram representadas nesta consulta populao, convocada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Alm disso, foram realizadas diversas reunies com indgenas e Funai em diferentes eventos. O Projeto Volta Grande est localizado a mais de 10 quilmetros das ter ras indgenas Paquiamba e Arara da Volta Grande. De acordo com a legislao vigente, a Belo Sun Minerao no obrigada a realizar estudos de impactos dentro dessas reas. Entretanto, de forma voluntria ainda em 2012, a empresa solicitou um Termo de Referncia (TR) e autorizao da Fundao Nacional do ndio (Funai) para estudos do componente indgena do EIA. Paralelamente, o Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema) deniu, em condicionante da Licena Prvia (LP), que deveria ser elaborado um Estudo de Componente Indgena (ECI), o qual j foi protocolado na Funai e na Semas, em abril de 2016. A Funai enviou um relatrio tcnico no qual solicita esclarecimentos em relao aos pontos especcos do ECI. A Belo Sun Minerao j respondeu a todos os questionamentos da anlise do rgo indigenista. Alm disso, uma das condicionantes da Licena de Instalao (LI), emitida pela Semas, determina que a empresa d continuidade s tratativas junto Funai.Foi causada estranheza que a empresa tenha anunciado a liberao da licena antes mesmo que os rgos ambientais no Brasil soubessem da informao. Poderiam comentar o caso? No dia 2 de fevereiro de 2017, aproximadamente s 12h, a diretoria da Belo Sun Minerao Ltda participou de reunio com o secretrio de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), equipe tcnica da SEMAS, secretrio de Desenvolvimento, Minerao e Energia do Estado, membros da Secretaria de Comunicao do Estado, bem como representantes de entidades de classe diretamente interessadas no licenciamento do Projeto Volta Grande, como Simineral e Fiepa. Nesta reunio, foi informada que a Licena de Instalao seria emitida naquele dia. Por volta das 14h, a reunio terminou, com os participantes voltando s suas atividades dirias. Por dever de compliance e transparncia junto Bolsa de Valores de Toronto, bem como a fim de evitar o risco de uso indevido de informao privilegiada (insider trading ), considerando que a reunio havia terminado e participantes j teriam contato com outros pblicos, a Belo Mapa realizado pela Belo Sun para apresentao do projeto em audincia pblica de Senador Jos Porfrio. ADA se refere a rea Diretamente Afetada e como as terras indgenas estariam a mais de 10 km de distncia a empresa

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6 Sun Mining Corp. optou pela transparncia e boa-f junto ao mercado e ao pblico em geral, e informou no seu site sobre a deciso de emisso da LI. A LI do Projeto Volta Grande em si foi recebida s 18h22 do dia 2 de fevereiro de 2017.H relatos de processo de deslocamento da populao afetada antes mesmo do inicioda obteno da licena de instalao. Gostaria de saber mais sobre como est sendo o dilogo com as populaes que vivem na rea do projeto. Iniciou-se um cadastramento e transferncia dos moradores da regio? A Belo Sun Minerao j realizou contratos de compra e venda de posses com os ocupantes de lotes e/ou fazendas de interesse para instalao do Projeto Volta Grande, seguindo todos os parmetros legais necessrios e avaliaes independentes de valores das reas e benfeitorias. Alm disso, no curso do licenciamento ambiental, a Belo Sun Minerao preparou um Programa de Realocao, Negociao e Incluso Social, voltado s Vilas Ressaca e Galo, tendo em vista que fazem parte da rea Diretamente Afetada (ADA) do empreendimento. Este programa foi submetido avaliao do rgo ambiental e as autoridades envolvidas nesse processo so constantemente informadas a respeito das aes da empresa, inclusive o Ministrio Pblico, Incra, Governo do Estado e Prefeitura de Senador Jos Porfrio. Seguindo as melhores prticas relacionadas s realocaes (Padro n. 5 do Banco Mundial), as famlias dessas reas foram cadastradas em duas campanhas censitrias, em 2012, durante a fase de Licena Prvia (LP), com o acompanhamento de representante da Prefeitura de Senador Jos Porfrio e comisso de moradores. Aps o cadastramento, a empresa manteve dilogo profundo com essas comunidades. Ainda em 2017, a empresa atualizar o cadastro socioeconmico e discutir o planejamento da realocao com os moradores.Existe dilogo com as obras de Belo Monte seja com as empresas, pessoas que monitoram os impactos, governo, etc para que a atividade de minerao no agrave ainda mais os j existentes impactos da usina hidreltrica na regio? A partir da observao sobre os empreendimentos de minerao e o hidreltrico, uma das condicionantes da Licena Prvia (LP) concedida a Belo Sun Minerao foi a elaborao de uma matriz de impacto ambiental consolidada, sinrgica e cumulativa atualizada, em funo da dinmica da regio com a instalao e operao da UHE Belo Monte. Os impactos identificados sero mitigados pelas medidas de controle e programas socioambientais propostos pela Belo Sun Minerao, que sero executados nas fases de instalao e operao do Projeto Volta Grande. A empresa tambm considerou o potencial de aumento da presena de atores institucionais, ausentes ou de pouca atuao no territrio, como secretarias de Estado e organizaes sociais, que podero apoiar o dilogo entre a empresa e a populao sobre as alternativas de fomento ao desenvolvimento local.No Brasil assistimos recentemente a um desastre ambiental em Mariana, Minas Gerais, com o rompimento de uma barragem que impactou severamente uma cidade e ameaou a vida do rio Doce. Como garantir que o mesmo no acontea na regio? O Projeto Volta Grande ter apenas uma barragem de rejeitos e sua capacidade, aps 12 anos de operao, ser de 35,43 milhes de metros cbicos, o que equivale a 1/3 da barragem de Fundo, de Mariana (MG). A altura da barragem do Projeto Volta Grande, aps 12 anos de operao, ser de 44 metros, enquanto a barragem da Samarco era de 110 metros. A barragem de rejeitos da Belo Sun Minerao ser construda para per manecer estvel durante toda a vida til do empreendimento e aps o encerramento das operaes. Alm disso, a caracterstica geolgica da rea prevista para construo dessa bar ragem (rea de rocha extremamente slida ou competente), bem como a topograa (vale natural) e seu sistema de alteamento, a jusante, lhe daro maior estabilidade e segurana.Mapa realizado pelo Instituto Socioambiental mostra que o projeto se encontra 9,5 km de distncia da Terra Indgena (TI) Paquiamba, a 13,7 km da TI Arara da Volta Grande do Xingu. Organizao tambm cita TI Ituna/

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7 Gostaria de conhecer melhor o plano de tratamento de rejeitos do empreendimento e como iro garantir a segurana do rio Xingu. O Projeto Volta Grande no far utilizao de gua do rio Xingu, por tanto, no haver interferncia por parte dele na vazo do rio. A gua da chuva suciente, com exceo de pequena quantidade de gua de servios e uso geral e da gua potvel, que viro de outras fontes. A gua que ser utilizada no processo do Projeto Volta Grande ser obtida atravs da coleta e armazenamento de gua da chuva em dois lagos de conteno, que serviro como lagos de gerenciamento de guas pluviais. Essa gua ser utilizada e recirculada entre a planta de beneciamento e a barragem de rejeitos. Na Licena de Instalao (LI) emitida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Par (Semas/PA), as condicionantes de n 20, 48, 56 determinam que a empresa realize o monitoramento hidrolgico, com periodicidade mensal e anual visando avaliar os nveis do rio Xingu, no trecho onde ser implantado o projeto, considerando cenrio atual e futuro da usina de Belo Monte.A situao poltica atual do Brasil tem influenciado ou preocupado as decises da empresa, j que quase todas as investigaes tinham envolvidas construtoras e grandes empreendimentos? Possuem uma poltica anticorrupo, j que at mesmo Belo Monte est entre as obras investigadas? Sim, a Belo Sun Minerao, por ser uma empresa com aes cotadas na Bolsa, tem uma poltica de adequao s normas legais e ticas, onde se enquadram as disposies anticorrupo. H um departamento especco (Jurdico e Compliance) para cuidar desses temas. A Belo Sun Minerao sempre se portou com transparncia e disponibilidade para que todos os cidados fossem informados sobre seu empreendimento, inclusive durante os quase cinco anos do processo das licenas Prvia e de Instalao, provendo inmeros estudos, esclarecimentos e atendendo a todos os questionamentos de forma profissional e proativa e assim continuar a agir tambm nas questes que se apresentarem frente.Sob gua e lixo, Belm submergeMenos de dois anos depois de ter concedido a licena ambiental para o funcionamento de uma que seria moderna central de processamento e tratamento de resduos em Marituba, que substituiria, com enormes ganhos para todos, o lixo do Aur, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabi lidade admitiu, na semana passada, desativ-la. Foi no auge de uma manifestao de protesto dos moradores de Marituba, que bloquearam a entrada do aterro sanitria, no permitindo a sada ou a entrada de caminhes.Com isso, quase quatro mil toneladas de lixo se acumularam pelas ruas de Belm. A situao se agravou de tal maneira que o prefeito, Zenaldo Coutinho, impotente para fazer outra coisa, apelou atravs de vdeo nas redes sociais pelo m imediato do bloqueio, por causa do grave problema de sade pblica criado. A Revita foi licenciada para operar o aterro sanitrio de Marituba por 15 anos. Seu trabalho ainda no completou dois anos e o governo do Estado j admite fechar o novo lixo, criado justamente para acabar com o despejo a cu aberto, sem qualquer forma de tratamento, que funcionava no Aur, em Ananindeua. Os moradores de Marituba queriam o fechamento imediato, mas isso impraticvel. A desativao ser gradual, graduao essa ainda no denida. A empresa tenta sobreviver argumentando que j identicou duas tecnologias para reduo do mau cheiro, empregando lavagem de altssima presso ou com produtos qumicos que neutralizam as substncias odorcas. Prometeu ainda intensicar o contato com os moradores para recebimento de dvidas, reclamaes e prestao de esclarecimentos, com o compromisso de oferecer solues para assegurar o conforto de todos e a destinao ambientalmente adequada para os resduos gerados na regio. Os moradores, porm, s aceitaram encerrar o bloqueio do acesso ao aterro em troca de uma srie de reunies, em alguma delas com a presena do gover nador, para acabar com a agresso do lixo. Ao contrrio do que estava previsto, ele exala um odor to forte quanto o do Aur, com a grave diferena de estar mais prximo do ncleo urbano. Para os moradores, no h alternativa: ser curta a trgua que deram, com a qual foi retomado o recolhimento do lixo acumulado em Belm, porque querem se livrar do problema que ator menta suas vidas o mais rapidamente possvel. Nem que seja criando problema semelhante para os municpios da regio metropolitana. Muito lixo cou exposto s enxurradas das chuvas, acondicionado em depsitos especcos e em sacos plsticos. Mas a maioria cou solta e dispersa, depois de dois dias sem coleta. Mesmo os cegos puderam ver o quanto a capital do Par suja. E quanto nem se importa com isso. A culpa maior da prefeitura, mas a fatia dos moradores nesse bolo podre cada vez maior. Lixo atirado sem d nas ruas. Muito lixo. As pessoas agem irracionalmente, como se a natureza pudesse ser a grande catadora de lixo. Como ela vtima, o que acontecer se e quando desabar uma enxurrada? Talvez como nunca antes (parafraseando Lula), as drenagens caro entupidas, as guas transbordaro e a cidade ser completamentealagada. Ao contrrio das outras vezes, porm, o volume, por ser recorde, no se dissipar. Belm poder submergir sob as guas e a sujeira. Enm, uma composio paisagstica coerente com o seu estado doentio. Se a licena de operao for revogada, quem arbitrar a causa e quem pagar o prejuzo? Se novo local for encontrado, quem garante que ele no prosseguir a novela de Aur e Marituba? J est na hora de algum agente de controle externo, administrativo ou poltico, cobrar respostas e exigir medidas.

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8 O que o Par ganha com grande projeto?As grandes obras em reas pioneiras sempre sugerem a imagem da omelete, que no pode ser preparada sem que se quebrem os ovos. Por provocarem mudanas sbitas e de efeitos profundos, esses empreendimentos de maior magnitude inevitavelmente acarretaro problemas. Eles s tero menor signicado se aes preventivas se consolidarem antes de comearem as obras. No curso da execuo, o acompanhamento constante vital para que a herana deixada pelo grande projeto no tenha continuidade ou mesmo se acentue. Do contrrio, como tem sido a regra, quem permaneceu depois que o pique da construo se consumou, arcar com os danos e prejuzos, sobretudo os imateriais, que so simplesmente ignorados na concepo dessas aes. No houve tal antecipao em Belo Monte, a segunda maior obra da histria recente da Amaznia, depois da ampliao de Carajs. A quebra de ovos foi desproporcional omelete, mesmo sendo gigantesca. Ao menos para quem, morando em Altamira quando comeou a construo da usina, em 2011, nela permanece e continuar ali. No tendo sido incorporado aos benefcios da obra, o nativo padro v o seu modo de vida destrudo, agora que a usina entrou na fase de produo. O futuro no chegou para ele. O passado virou miragem, fantasia, o leite derramado. Pode-se apontar a concessionria da hidreltrica de 33 bilhes de reais, a Norte Energia, atribuindo-lhe parte dos erros. Mas no aspecto especco da segurana, a imprevidncia e at a incria do poder pblico, como se pode concluir de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal do Par, que serviu de base para reportagem publicada na semana passada pelo portal de notcias UOL, escrita por Carlos Madero. Reproduzo-a, com ligeiros ajustes, para estimular o debate sobre a questo. Tambm transcrevo trechos do artigo dos dois pesquisadores, editando-os para que se tornem mais agradveis e pertinentes para um leitor de jornal, sem alterar o contedo do texto. Segue-se, primeiro, a reportagem. Nos anos 2000, em Altamira, cidade pacata no centro do Par, havia paz s margens do rio Xingu. A rotina de calmaria, porm, foi terminando ao mesmo tempo em que era erguida a usina de Belo Monte. Desde o anncio da obra, o municpio passou a viver uma exploso de violncia que o fez ingressar na lista das dez cidades com maiores taxas de homicdios do pas. Segundo dados do Datasus, em 2015, o municpio registrou 135 homicdios --o que d uma mdia de 124 mortes por 100 mil habitantes. Para efeito de comparao, a taxa 37% maior que Honduras, pas com maior taxa de homicdios do mundo, segundo aONU(Organizao das Naes Unidas). No Brasil, essa mdia no chega a um quarto disso: 29 por 100 mil. Para imaginar a mudana de vida, basta voltar ao ano de 2000, quando Altamira registrou apenas oito homicdios e mdia de 9,1 mortes por 100 mil habitantes. Em 2009 --quando a Eletrobrs j solicitava a licena prvia de Belo Monte--, a taxa j era de 50,6 mortes por 100 mil pessoas. Seis anos depois, essa mdia saltou 147%. Os resultados indicaram, a partir do incio da construo da usina, um vigoroso crescimento da violncia, que atinge a populao nos cinco municpios diretamente afetados pelo projeto em dimenses proporcionalmente muito maiores do que acontece em outras sub-regies do Estado do Par, aponta o artigo A Hidreltrica de Belo Monte e Seus Efeitos na Segurana Pblica, dos pesquisadores Joo Francisco Garcia Reis e Jaime Luiz Cunha de Souza Professor, da UFPA (Universidade Federal do Par). Tais municpios tiveram sua estrutura social, econmica e ambiental profundamente alterada com a chegada das empreiteiras encarregadas da construo e a migrao de grandes contingentes de pessoas oriundas de todas as partes do Brasil, complementa.Causas e efeitosSegundo especialistas ouvidos peloUOL, os nmeros da violncia esto ligados chegada das obras e recursos ao maior municpio em territrio do pas (159 mil km, o equivalente ao Estado do Cear), somada falta de investimentos pblicos no local. Altamira tinha problemas de segurana, sim, mas no da forma gigante como chegou, arma Antnia Melo, coordenadora do movimento Xingu Vivo para Sempre, que congrega vrias entidades da regio. Um dos exemplos da violncia foi o assassinato, em outubro de 2016, do ento secretrio de Meio Ambiente e Turismo da cidade de Altamira, Lus Alberto Arajo, 54. Ele era conhecido pela atuao rgida contra a explorao mineral e o desmatamento. Aps a morte, houve protesto na cidade que cobrou apurao do caso --mas at hoje o crime no foi elucidado. L no tem nada, uma desgraa Segundo Melo, a rotina da cidade hoje de medo. Todos aqui dizem que perderam a paz. Hoje assalto em todo canto, mortes. Virou um verdadeiro campo de guerra civil, no s violncia fsica, mas da ausncia de direitos das pessoas, arma. Para Melo, desde a chegada de Belo Monte, o desenvolvimento propagado pelo governo trouxe consigo as drogas. A juventude a principal vtima disso. Em Altamira, no h mais um espao de lazer para jovens. Antes, tinha a beira do rio, que no era poludo, para as pessoas tomarem banho. Pessoas foram transferidas de suas margens aos novos assentamentos, e l no tem nada. uma desgraa, no tem outra palavra, explica. O professor de direitos humanos do curso de etnodesenvolvimento da UFPA, Assis Oliveira, lembra que, alm das mortes, o Relatrio de Vulnerabilidade Juvenil Violncia de 2015 apontou Altamira como o terceiro pior ndice entre todos os municpios do Brasil com mais de 100 mil habitantes.

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9 A violncia social, e no somente a de homicdio, aumentou drasticamente a partir do ano de 2010, e isto se reete em todos os outros ndices que tenho apurado, da violncia sexual, dos conitos familiares, da violncia contra a mulher e do trco de drogas, arma. Oliveira explica que essa alta uma soma de duas equaes: o grande aumento populacional em curto perodo de tempo e a falta de uma preparao do territrio e das polticas pblicas para atender s novas demandas. Isso tem no setor de segurana pblica uma questo emblemtica, pois ele no entra como parte dos investimentos das condicionantes socioambientais. Somente em 2011, portanto j no processo agudo de aumento da violncia, faz-se um Termo de Cooperao entre aNorte Energia e o governo do Estado do Par, para realizar o investimento em algumas medidas estratgicas de segurana pblica, arma. Para o professor, a violncia na regio tambm tem causas mais profundas, que vm do aumento da desigualdade socioeconmica causada pela obra. Esta desigualdade socioeconmica s tende a crescer ao longo das etapas da obra, pois justamente agora, no perodo da chamada desmobilizao dos trabalhadores e vigncia da Licena de Operao de Belo Monte, que ocorre uma reduo demogrca e um forte baque na economia local, com maior desemprego, trabalho informal e precarizao das condies de vida, conclui.Outro ladoA Norte Energia informou que o Projeto Bsico Ambiental de Belo Monte no previa investimentos para a segurana pblica na rea de inuncia da usina. Mesmo assim, a empresa diz que rmou um convnio com o gover no do Par e investiu R$ 110 milhes nos cinco municpios da rea de inuncia direta. No caso de Altamira, a Norte Ener gia arma que os recursos serviram para compra com helicptero, implantao de um sistema de videomonitoramento e reforma das sedes das polcias Civil e Militar e do prdio do Instituto Mdico Legal. Em nota, enviada aps apublicao da reportagem, a Secretaria de Estado de Segurana Pblica e Defesa Social do Parcontestou com veemncia as metodologias de pesquisas que utilizam como fonte de dados o Sistema de Infor maes sobre Mortalidade (SIM), criado pelo Datasus. Segundo a pasta, foram 63 homicdios na cidade em 2015. Para chegar ao nmero de 135, em 2015, oUOLusou o dado de mortes por agresses intencionais cometidas por terceiros. Os dados do Datasus so atualizados pelas causas da morte contidas nas certides de bito. Por isso, o dado internacionalmente usado como parmetro. O ranking criado pela metodologia merece uma discusso, a fim de que sejam respeitadas as diferentes formas de captao de dados dos Estados brasileiros, a exemplo do Par, que coleta informaes referente criminalidade a partir de boletins de ocorrncia. A necessidade de discusso to necessria que, em outubro de 2015, o governo baiano questionou, oficialmente, o Ministrio da Justia por conta do uso da metodologia SIM, empregada pelo Senasp no trabalho Diagnstico dos Homicdios do Brasil daquele ano, diz o comunicado. A secretaria ainda diz que aes de preveno e combate criminalidade na regio, no segundo semestre de 2016, reduziram os ndices de homicdios, latrocnios e roubos a residncias. Foram apreendidas quase 150 armas de fogo, efetuadas 28 prises e cumpridos 39 mandados de priso. Em 2016, a Polcia Civil prendeu todos os envolvidos no assassinato de um casal e um filho da famlia Buchinger, crime de grande repercusso na cidade de Altamira.Como todo grande projeto, Belo Monte deixa prejuzoSegue-se a verso que editei de Grandes projetos na Amaznia: a hidreltrica de Belo Monte e seus efeitos na segurana pblica, de autoria de Joo Francisco Garcia Reis (doutorando da Universidade Federal do Par) e Jaime Luiz Cunha de Souza (professor da UFPA).A demanda por segurana pblica gerada nos municpios prximos UHE Belo Monte consolidou-se antes mesmo do incio das obras. Somente com a notcia do leilo, da formao do consrcio construtor e, posteriormente, da concesso da licena prvia para o incio da construo, um uxo considervel de pessoas se dirigiu para os municpios localizados nas proximidades do projeto, o que causou um crescimento populacional abrupto e uma demanda gigantesca por policiamento. A absoro dessa demanda encontra-se inibida principalmente pelas diculdades de adequao das estruturas necessrias, visto que os recursos nanceiros, alm de escassos, precisam de um tempo considervel para serem alocados e denitivamente disponibilizados. O mesmo ocorre com os recursos humanos, os quais necessitam de, no mnimo, dois anos para o recrutamento, a seleo e a formao de pessoal, sem contar com a aquisio de equipamentos e a formulao de estratgias operacionais e de logstica.Investimento irrisrioQuando o consrcio responsvel pelo projeto negociou com o governo do estado do Par as compensaes para fazer frente aos problemas sociais

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10 decorrentes da implantao do projeto Belo Monte, a demanda de recursos proposta pelo governo do Par foi or ada em cerca de 1,2 bilho de reais. Para o sistema de segurana pblica, no entanto, a contraproposta feita pelo consrcio encarregado da construo da usina foi de menos de 10% do valor, ou seja, cerca de 20 milhes anuais durante cinco anos, totalizando 100 milhes de reais. Vale ressaltar que, segundo dados fornecidos pela Norte Energia, a estimativa de receita a ser obtida pela UHE Belo Monte com a comercializao anual de 39.089.748 MWh, a uma tarifa de R$ 68,34/MWh, prev um faturamento da ordem de R$ 2.671.393.378,32, ou seja, mais de 2,5 bilhes de reais por ano. Assim, a contrapartida oferecida pela Norte Energia para fazer frente a todos os impactos negativos relativos a todo o perodo de faturamento previsto no projeto (30 anos) corresponde a 3,74% do valor previsto para ser arrecadado em um ano. Isso demonstra que o valor a ser repassado para nanciar essas despesas sociais relativas aos impactos sociais e ambientais da implantao do projeto (100 milhes de reais) uma quantia irrisria se comparada ao faturamento previsto e dimenso dos problemas que permanecero na regio por muitas dcadas aps o trmino da construo. Para ajustar as aes do governo do estado do Par a esse limite de recursos contidos na contraproposta da Norte Energia, foram excludas obras de grande relevncia para a atuao da segurana pblica na regio de Belo Monte: o Centro Integrado de Operaes e toda a infraestrutura e o sistema de telecomunicaes; o Centro Regional de Inteligncia e Anlise Criminal; as bases aerouviais, que representariam a capacidade de mobilizao das foras de segurana, em virtude da geograa do terreno; as bases integradas terrestres, que seriam estruturas integradas dos rgos do sistema de segurana pblica, assim como as estruturas de preveno e de interveno e reinsero, que, respectivamente, so representadas pelo Programa por uma Cultura de Paz (Propaz) e pela Fbrica Esperana, alm da construo de residncias funcionais, necessrias em funo da grande especulao imobiliria na regio, cuja nalidade seria viabilizar o acesso moradia dos agentes de segurana que sero removidos para aquela localidade.12 Ao estado do Par caber como herana administrar os impactos ambientais e os problemas sociais com os poucos recursos de que dispe. Isso, inevitavelmente, forar o remanejamento de recursos que poderiam ser empregados no atendimento de outras carncias operacionais experimentadas pelo sistema de segurana nas demais localidades que no esto e no sero diretamente afetadas pelo projeto Belo Monte. Assim, a populao de todo o estado do Par ser penalizada com o aumento da violncia e dos ndices de criminalidade, uma vez que o estado ter muitos e novos compromissos a assumir na rea de segurana e ser obrigado a realocar os j escassos recursos eventualmente existentes para concentr-los na rea de Belo Monte. A apropriao invisvelEsse prognstico conrma o que diversos pesquisadores do desenvolvimento da regio tm mostrado h tempos quando alertam que o avano do capital na Amaznia apropria-se das adversidades sociais, culturais e geogrcas para valorizar basicamente a si mesmo, j que a quase totalidade da energia eltrica produzida ser utilizada para atender outros estados da federao, sem grandes preocupaes com a regio impactada pela construo da usina. Resultados encontrados Como possvel vericar, houve um aumento no total de registros por 100 mil habitantes realizados nas delegacias que atendem s demandas da regio: o nmero passa de 3.034 para 6.064 no perodo considerado, de 2007 a 2013. Quanto s ameaas, houve um crescimento no mesmo perodo, de 186 para 542 a cada 100 mil habitantes. Os dados mostram um crescimento das demandas por registros nas delegacias quando comparadas com o total de registros, o que indica um signicativo avano do nmero de ameaas registradas quando comparadas com o total.O nmero de ameaas cresceu 192%, e o total de registros, aproximadamente 100%, o que indica um acir ramento das rusgas, brigas, atritos, desentendimentos na populao da rea. O efeito perversoTal fenmeno permite estimar a magnitude da presso experimentada pelos servios pblicos em geral, sobretudo, pelo sistema de segurana-pblica: (a) nos cinco municpios impactados diretamente pela construo da usina hidreltrica de Belo Monte. Os dados mostram que o maior crescimento no total de registros da regio ocorreu entre 2010 e 2011, com o acrscimo de 791 registros a cada 100 mil habitantes, perodo que coincide com os anos de anncio do empreendimento, leilo, licena prvia, assim como do incio da seleo de mo de obra e da construo. No mesmo perodo observa-se tambm o maior crescimento no registro de ameaas 195 a cada 100 mil habitantes. Em Altamira, o total de registros relacionados com a populao bem maior que o das outras cidades em todos os anos analisados; e comportamento anlogo observado nos registros das ameaas, que, nesse municpio, so bem maiores em todos os anos. Essas observaes indicam que o municpio sofre uma presso por demandas na rea de segurana pblica muito maior do que os outros pesquisados, j que enquanto na regio a relao de registros cresce de 3.034 para 6.064, em Altamira, ela passa de 4.695 para 7.570. As ameaas na regio aumentam de 186 para 542, ao passo que em Altamira crescem de 275 para 698, fragilizando a capacidade de atendimento da demanda do municpio.

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11 O ndice de criminalidade (IC) na regio passa de 27,5 para 45,1, o que indica um crescimento de 17,6 no perodo considerado, de 2007 a 2013, representando um aumento de 64%. Esse crescimento regional maior que o vericado no estado do Par e na capital paraense, onde houve respectivamente no mesmo perodo um aumento de 30,4 para 41,7 (37,2%) e de 34,2 para 45,6 (33,3%). Pode-se constatar que o crescimento do IC absoluto e percentual nos municpios que compem a regio foi maior que a mdia no estado do Par. Em Altamira, o nmero de homicdios relacionados com a populao decresceu no perodo de 2007 a 2009 e voltou a crescer em 2010, incio da construo da UHE Belo Monte. Esses dados indicam que h no municpio uma presso das taxas de homicdios maior do que a que afeta os demais municpios da regio pesquisada, uma vez que enquanto na regio a relao de registros cresce de 27,5 para 45,1, s no municpio de Altamira a taxa variou de 39 para 59, por 100.000 habitantes. O estouro da droga e do estuproPodemos vericar que no mesmo perodo, o nmero de registros de ocorrncias de trco de drogas por 100 mil habitantes na regio salta de 2,6 para 107,2, um acrscimo de 104,6 que indica um aumento de 4.015%. Constata-se, claramente, portanto, o crescimento expressivo desse tipo de crime, sendo importante ressaltar que em nenhuma outra regio do estado do Par houve tamanho aumento. Em Altamira, o nmero de registros de trco de drogas passou de 4, em 2007, para 165 por 100.000 habitantes, em 2013, o que representa um acrscimo de 4.025%, indicando que esse municpio sofre a maior presso do trco de drogas quando comparado aos demais pesquisados na mesma regio. Embora o nmero proporcional de registros em Altamira seja maior que o da regio, verica-se que o crescimento percentual muito prximo, indicando que a ocupao da regio e do municpio de Altamira sofreu um assdio avassalador do trco de drogas. Nos registros de estupros, houve uma alterao na regio: o nmero passou de 8,5 para 53,2 por 100.000 habitantes, o que indica um crescimento de 44,7 (525,9%) no perodo considerado, de 2007 a 2013. O crescimento na regio observada maior que o vericado em todo o estado do Par e em sua capital, quando analisados em separado: de 30,4, o nmero passou para 41,7, e de 34,2, para 45,6, respectivamente. Isso nos leva a inferir que a regio observada apresentou o maior crescimento do IC no estado do Par. Em Altamira, os registros de estupros relacionados com a populao aumentaram de 13, em 2007, para 65 por 100.000 habitantes em 2013, atingindo sua maior marca em 2012, quando esse nmero chegou a 70, o que indica o aumento acentuado desse tipo de crime no municpio com a implantao do projeto. Observa-se tambm o expressivo crescimento de mortes no trnsito por 100 mil habitantes: de 7,9 em 2007, passaram para 22,5 em 2013 um aumento de 184,8%. Os dados conr mam um claro crescimento aps 2010: de 9,7, chega-se a 22,5. Em Altamira, o nmero de mortes no trnsito por 100.000 habitantes tambm cresceu signicativamente, deslocando-se de 12 para 25. A partir de 2011, seu crescimento ainda mais expressivo, passando de 13 para 25, quase dobrando em trs anos.Quando se compara Altamira com a regio, o municpio supera-a nos anos de 2007 e de 2013, cando abaixo dos registros nos demais perodos. O IBGE previu um crescimento na regio de 17.782 habitantes no perodo de 2007 a 2013. A Nessa [Norte Ener gia ], por sua vez, estimou uma quantidade bem maior: previu o crescimento de 69.292 habitantes aps a implantao da UHE Belo Monte, o que representa um signicativo impacto para a regio. importante registrar que o aumento populacional no determinou um signicativo aumento nas matrculas nas escolas nos nveis mdio e fundamental (c), que de 2007 a 2013 absor veram 888 indivduos, representando um acrscimo de 2%. No registro de veculos (d), observa-se um acrscimo de 45.086 veculos, o que representa 245,3% de expanso, a partir de 2007. Todos esses fatores podem ser considerados variveis importantes para o crescimento do crime na regio onde foi inserido o projeto da UHE Belo Monte, deixando evidente a vinculao do aumento da violncia com as dinmicas que envolveram a implantao da usina. Os dados, mais uma vez, demonstram que os grandes projetos de investimentos (GPI) como o da UHE de Belo Monte, embora movimentem grandes somas de recursos para a regio, normalmente, no contribuem para a reduo das desigualdades locais, favorecendo, ao contrrio, o acirramento de problemas sociais e ambientais nas regies onde se instalam. Mais uma vez se conrma, nesse empreendimento, a costumeira falta de preocupao com a populao local, sobretudo, com suas consequncias sociais. A exemplo do que j aconteceu em outros projetos, tambm possvel prever para este que a concluso da fase de construo intensicar ainda mais os conitos agrrios da regio, ao mesmo tempo em que tender a consolidar um mercado de drogas cuja mo de obra abundante e barata vir exatamente das populaes desassistidas, que no tero lugar na fase de operao da usina. Os dados apresentados permitemnos concluir que os retornos e compensaes para o estado do Par, de forma a possibilitar o atendimento das novas demandas que surgiram com a construo da UHE Belo Monte, sobretudo aqueles destinados segurana pblica, so insignicantes diante da magnitude dos novos e graves problemas sociais e ambientais que precisaro ser enfrentados. Os dilemas enfrentados pela populao local e o caos instalado no sistema de segurana pblica do estado do Par permitem-nos resumir toda essa discusso em poucas palavras: projeto novo, erros antigos.

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12 Os 50 anos do Colgio Nossa Senhora de Nazar, em 1953, teriam que ter comemorao altura. Por isso, o diretor, irmo Fidelis, mandou uma comisso de alunos ao governador Zacarias de Assuno pedir a cesso do Teatro da Paz. O grupo era integrado por Mrio Raimundo Fidalgo, Augusto Ferreira Filho, Luiz Mendes da Fonseca e Ablio Diogo Carneiro. Como abre-alas, o deputado estadual (depois federal) Slvio Braga, presidente da associao dos ex-alunos do colgio.Em 1955, o negcio de Romulo Maiorana era a Duplex Publicidade, que fabricava mulas com tintas luminosas com preo a par tir de seis cruzeiros. Funcionava na rua 28 de Setembro, no centro comercial antigo.Clo Bernardo e Leonam Cruz (pai do atual desembargador com o mesmo nome) dividiam um escritrio de advocacia, em duas salas na Gaspar Viana. Lidavam com questes trabalhistas, criminais, cveis e comerciais. Clo, irmo do deputado Slvio Braga, tambm fazia poltica.Kalume & Tomaz, da Casa Rdio Eletrnica do Par, anunciavam aos catlicos que acabavam de receber em gravao o hino do XXXVI Congresso Eucarstico Internacional. Era a nica edio integral, autorizada pelo car deal do Rio, Jaime Cmara.J A. F. Coelho trombeteava que seus armazns estavam com cal! Cal! Cal!.Os obiturios foram deixados de lado. At passado recente, e ainda nos melhores jornais do mundo, era pea destacada na imprensa. Algumas vezes continham informaes que, de outro modo, no seriam registradas para a posteridade. Tambm reetiam o estilo da poca, como neste, publicado pela Folha do Norte em 1955, do mdico Juliano Pinheiro Lira Sozinho. Durante muitos anos exerceu a clnica mdica. Foi tambm catedrtico da Faculdade de Medicina (ainda isolada, sem a Universidade Federal do Par, que s passaria a existir trs anos depois) e professor em escolas particulares, como o Colgio Moderno, o Progresso Paraense e a Escola Prtica. Foi um dos fundadores da Escola de Agronomia (transfor mada mais recentemente na Universidade Federal Rural da Amaznia, a Ufra). Vale a transcrio do trecho nal. A linguagem revela a poca e a famlia: Contava 71 anos de idade. Deixa viva a sra. Hayde dos Santos Lira Sozinho, e 12 lhos, todos maiores. O dr. Sozinho, que era muito estimado e conceituado pelas suas boas qualidades, sucumbiu em consequncia de uma operao de prstata a que se submeteu [ quatro dias antes de morrer]. Os funerais realizam-se amanh, s 8 horas, saindo os seus despojos do necrotrio do hospital [D. Luiz I, da Benecente Portuguesa] onde ocorreu o bito.Ao beatle Edgar AugustoEm homenagem ao meio sculo de carreira jornalstica que Edgar Augusto Proena completa neste ano, junto com incrveis 45 anos fazendo sem parar um programa de rdio (o Feira do Som, agora na Cultura), o anncio de estreia do filme Socorro (Help) dos Beatles. Foi em quatro sesses do Cine Teatro Palcio, na avenida Presidente Vargas (onde hoje est uma das filias da Igreja Universal do Reino de Deus S/A, no trreo do Palcio do Rdio), em 25 de outubro de 1968. Edgar, um dos maiores beatlemanacos do mundo (e certamente o que mais coloca a banda inglesa para tocar no rdio), j estava diante de um microfone com sua voz em bom timbre, como a do pai, Edyr Proena, um dos melhores locutores que o Par j ouviu.

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13 Em 1957, o Rio de Janeiro vivia seus ltimos trs anos como capital da repblica. Ainda era a Meca de habitantes de outros Estados, o Par includo. A meta era ir ou morar na cidade maravilhosa. Topava-se com paraenses por todo lado, principalmente em Copacabana. A agenda era intensa. Recm-eleito prefeito de Belm, o ainda deputado federal Lopo de Castro anunciava sua disposio de ir ao Rio de Janeiro todo ms para rever suas lhas, amigos e seus projetos em tramitao na Cmara Federal.O lugar de Lopo foi assumido, simples e sem discurso, pelo poeta Ruy Barata. O jornalista Waldyr Carvalho anotou na sua coluna (Rodo... Piando, na Folha do Norte ): Como acontece com toda bancada paraense, o novo deputado cou mudo. Depois de apresentado na tribuna, desceu ao plenrio e se sentou ao lado do colega Virgnio Santa Rosa.Oclio de Medeiros, representante da SPVEA (a antecessora da Suam) foi ao aeroporto receber a artista Vanja Orico, lha do embaixador (e seu amigo) Osvaldo Orico. Vanja talvez tenha sido a maior realizao do pai.Darcy Carvalho, diretor da empresa estatal de navegao da bacia amaznica (os SNAPP), j decidira: iria passar as festas de m de ano com a famlia no seu reduto carioca.Com boa altura e covinhas nos dois lados do rosto (alm de ter um it), em vspera de completar 15 anos, Lina Maria Barbo-gua: sempre difcilA lata dgua na cabea era uma cena comum em vrios bairros perifricos de Belm apenas 50 anos atrs. Em 1967, adultos e crianas faziam ponto nas torneiras pblicas espalhadas por essas reas. A gua tratada no chegava s casas humildes. O jeito era se munir de pacincia e disposio para esperar a lata encher e carreg-la pela distncia necessria. Para as crianas, recipientes menores. A labuta, porm, era a mesma. Hoje, as redes de tubulaes so extensas. O problema a falta de gua para circular por elas.sa foi eleita rainha dos brotinhos no baile de carnaval da Assembleia Paraense de 1963. Trajou tambm a melhor fantasia, de bailarina de circo. Seu prmio foi uma gargantilha de ouro, artisticamente trabalha da. O 2 lugar foi de Maria Clara Marques, com a fantasia ndia, e o terceiro de Selma Dias, vestida de Prncipe. No Par Clube, a rainha foi Ana Maria Anaissi. No Auto mvel Clube, Edna Azevedo. J Iolita Meireles foi considerada a jovem mais animada do baile no reinado de Lcifer, realizado pelo colunista social Wilkens nos sales do Automvel Clube, no ltimo andar do Palcio do Rdio.Em 1974, dois bairros de Belm ainda no tinham rede de gua: a Marambaia e o Una (alm do Ipasep, em |Outeiro), que se abasteciam em poos artesianos. O estranho que um bairro mais recente, justamente a Nova Marambaia, j dispunha do servio, embora nem sempre constante. Nesse ano, a Cosanpa comeou a implantar 17 quilmetros de tubulao numa rea da velha Marambaia entre a avenida Almirante Barroso, avenida Dalva, rua Getlio Vargas e o bairro do Atalaia. O fornecimento 24 horas por dia se estenderia ao Marco, Sacramenta, Pedreira e parte do Telgrafo. Os moradores desses bair ros sofriam pela falta de gua. Continuam a sofrer, alis.

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14 Jornal Pessoal Editor: Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: As mangueiras de Belm: um presente ou um estorvo?Em menos de dois meses, oito mangueiras j caram na rea central de Belm. O principal causador dessas quedas, a chuva, com seu vento acompanhante, vai atingir agora o seu perodo crtico. H trs mil rvores centenrias concentradas em trechos de intenso trfego de pessoas e pedestres. Cada uma pesa, em mdia, trs toneladas, com um raio de abrangncia expressivo, em funo de suas copas densas. uma ameaa grave. No entanto, o tratamento arborizao da cidade no guarda a menor relao com a expresso da questo. Talvez o problema esteja se revelando mais srio por algumas circunstncias especcas. visvel o esforo de ltima hora para prevenir novos acidentes. Pela regra das probabilidades, um novo desabamento dicilmente continuar a se restringir a danos materiais. Talvez s quando houver morte, algum poder maior se alevante para obrigar a prefeitura e seus auxiliares, principalmente a podadora-mor (e, geralmente, m), a Celpa, a um esfor o excepcional e concentrado para agir na medida das exigncias para impedir danos materiais e humanos. Acabar com as mangueiras?O cotidiano da cidade j no ajuda, mas na temporada de chuvas a viso se torna ainda mais tendenciosa: as mangueiras no so a arborizao recomendvel para Belm. Elas so pesadas altas, de copas frondosas. Sujam as ruas, prejudicam a ao de energia, bloqueiam ou dicultam a sada de carros das moradias, seus frutos atingem pessoas e veculos, causando prejuzos e ferimentos e todos os anos desabam. Melhor extermin-las. E elas so sistematicamente exterminadas. uma guerra silenciosa, mas efetiva. Mesmo pessoas capacitadas e inteligentes acabam se deixando levar por essa perspectiva comodista, de curto prazo e viciada pelo bitolamento da questo urbana. Como o engenheiro agrnomo Jonas Veiga, por quem tenho apreo e admirao. Ele escreveu no meu Facebook: A prefeitura de Belm tem que urgentemente fazer um servio srio de abate de todas as mangueiras que ameaam a populao, principalmente na estao chuvosa que este ano est sendo muito rigorosa. A mdio-longo prazo, tem que fazer um esforo amplo prasubstituir a arborizao da cidade usando outro tipo de rvore, de porte mais apropriado infraestrutura urbana moderna. A fama de Belm de ser a cidade das mangueiras poderia ser preservado, mantendo essa arborizao em alguns poucos logradouros no centro de Belm, com um constante trabalho de controle e manuteno.Extermnio silenciosoO quadriltero das mangueiras no aumenta h muitos anos. Para mim, Belm ficar ainda mais insuportvel do que j est sem elas. O que precisamos fazer alguma adaptao da nossa vida predatria s maravilhosas rvores, que nos do clorofila, sombra, temperatura mais agradvel, cor, odor e frutos o ano inteiro. No basta pod-las de vez em quando, combater parasitas e predadores, eliminar as que esto condenadas (nunca esquecendo o replantio necessrio) se suas razes no so protegidas, seu espao vital preservado e seu monitoramento se tornado constante, atravs de um servio florestal especfico. J sugeri um projeto a respeito inmeras vezes, repetindo a proposta nesta temporada de inverno com oito quedas de rvores. Nenhuma resposta. A ttica oficial pelo silncio, ir pondo abaixo as indesejveis rvores. Para essa manobra contribui a conivncia, a omisso e a viso mope dos belenenses. Uma cidade que ficou conhecida pela sua exuberante e tpica vegetao e dispensa esse patrimnio merece mesmo ficar exposta completamente ao sol e selvageria disfarada de esperteza da vida urbana.

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15 Protesto sempre um ato legtimo?Sair das grandes cidades em feriados terrvel. Fica pior ainda quando qualquer manifestao de protesto fecha o trnsito, como ocorreu no incio de carnaval na sada da capital paraense. Numa via pblica, como e federal a BR-316, o principal direito do transeunte o de ir e vir desimpedido, que a constituio tambm federal lhe assegura. Os manifestantes devem ser mantidos margem porque o direito deles inferior ao direito coletivo de milhares de pessoas com sua circulao impedida. preciso acabar com essa folia de protestos por qualquer pretexto. A atitude da autoridade responsvel pela ordem pblica deve ser ainda mais rigorosa se o nmero de manifestantes inexpressivo e a causa da manifestao questionvel, como era o caso daquela que levou ao fechamento da rodovia, em Marituba, na sexta-feira passada. O protesto era de associados de uma cooperativa que distribui gua dita mineral (ou adicionada de sal, na nomenclatura da entidade), na verdade, nada mais do que (e quando) potvel. Eles no querem que um projeto de lei aprovado em dezembro do ano passado pela Assembleia Legislativa entre em vigor. O projeto, de autoria do presidente do legislativo, deputado Mrcio Miranda, impe o uso de garrafes de 15 litros na embalagem rosa. Em consequncia, devero ser retirados de circulao os garrafes de 10 e 20 litros de cor azul, que so os mais usados. Alm disso (e o detalhe pode revelar o dedo do gigante), so as embalagens de uso exclusivo de marcas especcas de guas minerais. A causa muito particular. No autoriza nem legitima o que zeram os manifestantes. Alm disso, tudo indica que h uma disputa comercial por trs dessa guerrinha. A padronizao geral pode ser iniciativa saudvel. Mas por trs dela pode estar um deslocamento de mercado. Ser que algum novo grupo vai entrar nesse segmento? Ser que h uma disputa acir rada entre os que j esto instalados? Muitas perguntas podem ser feitas at o completo esclarecimento da situao, mas uma questo as transcende: a medida evitar que o consumidor continue sujeito a receber um produto de baixa qualidade e alto preo? a caracterstica principal desse setor. Alm de outra: o desrespeito aos direitos do cidado numa terra em que a lei continua a ser potoca. Mesmo os juristas mais vanguardistas na defesa do direito a manifestaes de protesto ou greves admitem que elas se tornam abusivas quando h perigo concreto ou leso a bens jurdicos constitucionalmente assegurados, como o direito vida, o direito sade e o direito liber dade de locomoo. Nesse caso, a reao penal necessria, racional, legal e constitucional. Logo, esse direito de protestar deve ser relativizado e ponderado. Os manifestantes de Marituba no estavam defendendo nenhum direito legtimo ou legal que estivesse sendo violado nem um constrangimento ilegal a que estivessem sendo submetidos. Protestavam contra uma lei. Ou seja: um projeto legislativo j aprovado e sancionado, que no os impedia de trabalhar. Seu objetivo foi regulamentar uma atividade econmica. No havia direito lquido e certo na argumentao dos autores do protesto. Eles defendiam sua atividade comercial sob a prpria tica e interesses setoriais. No tendo conseguido evitar a aprovao da lei, o que deviam fazer era continuar a combat-la pelos meios legais e polticos, no pelo evidente abuso de direito. Eu, por exemplo, sou contra os mototxis, que considero um meio absurdo de transporte. Pelo menos duas mil pessoas vivem diretamente dessa atividade, nmero que vai dobrar com a recente inovao legal praticada pela cmara municipal de Belm. Se dependesse de mim, os mototxis seriam extintos, ainda que causassem desemprego e provocassem manifestaes de protesto e reaes at violentas dos prejudicados. A higiene, a segurana e a prpria economia dos clientes e da populao em geral esto muito acima dessa situao, gerada pelo baixo nvel de uma cidade como Belm, em quase todos os aspectos da vida social. Claro: o poder pblico deveria oferecer compensaes e vantagens adicionais para extinguir essa anomalia belenense no conjunto urbano nacional. Mas teria que combat-lo.Ao embaixador do ParOs sebos cariocas contm provas da estima do paraense pelo Rio de Janeiro. Pesquisando com ateno e vagar, localizam-se livros que fizeram parte de bibliotecas de paraenses que se transferiram para o Rio, principalmente quando era a capital do Brasil, nela morando at morrerem. A partir desse fato, muitas bibliotecas foram desfeitas e grande parte dos livros foi levada s vezes com a volpia do acer to de contas pelas vivas. Ou seguiram caminhos tortuosos, insondveis, surpreendentes e nem sempre em condies de serem refeitos. Foi o caso de Os senhores do mundo, talvez o primeiro, escrito (com 175 pginas) pelo jornalista e escritor Luiz Beltro, publicadas ainda em Recife, pelas Edies Folha da Manh, em 1950. Com o valioso frontispcio do poeta tambm pernambucano Manuel Bandeira, o mais simbolista dos modernistas brasileiros, com ilustrao de Reinaldo Fonseca. Beltro dedicou o livro, quando estava em Belm, em maro de 1954, ao Edgar Proena, embaixador do Brasil no Par, com a admirao do confrade. Alm da intimidade, a dedicatria revela a viso aguada de Beltro, ao considerar o Par um pas parte do Brasil, com o qual, nessa poca, tinha poucos vnculos. As comunicaes eram atravs da navegao pelo litoral ou por avio, ambas caras ou, pelo menos, custosas. S no ano seguinte, o mineiro Juscelino Kubitscheck, eleito presidente da repblica, comearia a aventura de Braslia e a ligao da nova capital federal por terra com a capital paraense. Depois disso nada seria igual, dando razo ao igualmente poeta (grande sonetista, apesar de moderno) Ruy Barata. Ele se considerava habitante de um pas chamado Par, morador de uma rua que era rio antes das terrveis estradas de rodagem, nada poticas.

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Jornalista livre da Lava-JatoNo dia 4, o jornalista Breno Altman se manifestou sobre a deciso do juiz Srgio Moro de exclu-lo de uma das aes resultantes da Operao Lava-Jato. Depois de um ano de processo, ele foi considerado inocente da apurao sobre eventual vnculo entre atos de corrupo e o assassinato do ex-prefeito de Santo Andr, Celso Daniel. As denncias sobre a participao de Breno no foram comprovadas. No significa que inexista um elo entre o assassinato de Daniel e o PT, num crime poltico. O texto de Breno surpreendeu e at chocou os mais impulsivos. Foi escrito em tom sereno, sem qualquer indcio de revolta. Por isso, merece ser lido pelas pessoas com disposio de ver a realidade multifacetada dessa ao histrica contra a corrupo endmica no Brasil, com seus acertos e falhas. E, especificamente, sobre a participao do juiz Srgio Moro. Escreveu Breno:A juza Clarice Maria de Andrade Rocha j reassumiu a titularidade da 1 vara criminal de Belm, devendo a mesma retornar s atividades perante a da qual titular. A autorizao foi dada pelo presidente do Tribunal de Justia do Estado, Ricardo Nunes, cumprindo determinao do Conselho Nacional de Justia, que cumpriu deciso do Supremo Tribunal Federal. O STF concedeu liminarmente a suspenso dos efeitos do ato de disponibilidade da juza aplicada pelo CNJ, deferiu, at o julgamento nal do mandado de segurana, que seus advogados impetraram. A punio foi aplicada depois de processo administrativo disciplinar que apontou grave erro da magistrada ao ignorar que uma menor permanecera presa numa cela da delegacia de polcia de Abaetetuba, sendo agredida e estuprada seguidas vezes. O TJE punira a juza colocando-a em disponibilidade com proventos proporcionais ao seu tempo de servio.A juza de voltaO juiz Srgio Moro, nessa ltima quinta-feira [2 ], nalmente exarou a sentena relativa ao processo no qual eu era ru, oriundo do 27 episdio da Operao Lava Jato, denominado Operao Carbono 14. Diz a deciso, a meu respeito: Breno Altman apontado por trs pessoas como envolvido no crime, Mar cos Valrio de Souza, Alberto Youssef e Ronan Maria Pinto. Mas so todos depoimentos problemticos, provenientes de pessoas envolvidas em crimes. Diferentemente dos demais, no h nos documentos qualquer elemento que o relacione s operaes, nem os valores passaram por sua empresa, nem h uma vinculao necessria entre ele e a gesto nanceira do Partido dos Trabalhadores. Por falta suciente de prova, deve ser absolvido. Aps quase um ano sob investigao e processo, o magistrado responsvel pela 13 Vara Federal do Paran reconhece minha inocncia. No mar de irregularidades e abusos que inunda a vida poltico-judiciria do pas, minha absolvio uma pequena e modesta vitria daqueles que tm compromisso com a Constituio, a democracia e o Estado de Direito. Mas esse momento de alegria no anula a gravidade dos fatos que o antecederam e a preservao do ambiente de perseguio poltica que dita a conduta de muitos atores do sistema judicial. Lembremos que esse processo foi iniciado com o Ministrio Pblico Federal anunciando que o objetivo central das investigaes era comprovar o vnculo entre atos de corrupo e o assassinato do ex-prefeito de Santo Andr, Celso Daniel. Durante dias, promotores e veculos de informao expuseram os rus execrao pblica, vinculando-os a uma srdida hiptese que mesclava sangue e lama. Com a decretao de prises preventivas e condues coercitivas, alimentou-se um espetculo miditico cujo nico propsito era celebrar mais uma bala de prata contra o Partido dos Trabalhadores. Aps um ano, a denncia do MPF simplesmente desapareceu com qualquer referncia ao homicdio do ex-prefeito e extorso que estaria sendo praticada contra dirigentes petistas para esconder sua alegada relao com o delito de morte. A pea acusatria nal se resumiu a 36 pginas, das quais apenas seis linhas dedicadas a mim, pedindo a condenao dos rus por lavagem de dinheiro, sem qualquer preocupao em apresentar provas de dolo ou ir alm de testemunhas com duvidosa credibilidade, como reconhece o prprio juiz. Caso no prevalecesse o aparelhamento da Justia como trincheira ideolgica, caberia honradamente ao prprio MPF tomar as devidas cautelas antes de lanar cidados ao Coliseu da opinio pblica, agindo com menos aodamento e mais zelo pelos direitos constitucionais. Mesmo declarado inocente, paguei uma pena severa e irreparvel por crime jamais cometido. O espetculo processual atingiu frontalmente minha imagem e levou ruptura dos contratos publicitrios do site que dirijo, eliminando postos de trabalho e golpeando um dos veculos de maior prestigio da imprensa independente. Como jornalista, tampouco posso car indiferente s injustias que se mantm, como a condenao sem provas contra Delbio Soares, reforando suspeitas de quem acusa a Operao Lava Jato por ser centralmente orientada para abalar e destruir o principal partido da esquerda brasileira. Por m, agradeo o incrvel trabalho de meus advogados, bem como a solidariedade inquebrantvel de meus familiares, amigos e companheiros. Espero que minha absolvio sirva, de alguma maneira, como motivo de nimo aos que lutam, nas ruas e nas instituies, contra a escalada antidemocrtica que machuca nosso pas.