Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a LAVA-JATOJader, o prximo? A Polcia Federal no prendeu ningum na mais recente operao desdobrada da LavaJato, para apurar corrupo na obra da hidreltrica de Belo Monte. O objetivo foi s coletar provas. Para fortalecer a prxima investida, contra alvos maiores? No dia 16 a Polcia Federal avanou em mais uma etapa de desdobramento da Operao Lava-Jato, que investiga um esquema de pagamento de propinas ao PMDB e ao PT, no valor de 1% sobre o total das obras que realizaram empresas integrantes do consrcio construtor da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. Todas elas as mesmas empreiteiras do esquema de corrupo na Petrobrs que deu origem s investigaes. Os policiais cumpriram seis mandados de busca e apreenso, expedidos pelo ministro Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal, que substituiu Teori Zavascki como relator da LavaJato. Os mandados foram executados nas residncias dos investigados e escritrio de trabalho no Rio de Janeiro, Braslia/DF e Belm. Os principais alvos da operao, denominada de Leviat, foram Mrcio Lobo, lho do senador dison Lobo, do Maranho, e o ex-senador paraense Luiz Otvio Campos, intimamente ligado ao senador Jader Barbalho e ao seu grupo poltico, ambos do PMDB. Por causa do segredo de justia do processo, a PF se

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2 limitou a informar que eles, na medida de suas participaes, podero responder pelos crimes de corrupo, lavagem de dinheiro e organizao criminosa. Nenhum foi preso, ao contrrio do que aconteceu na maioria das operaes. O crime teria sido o de favorecer o consrcio para faz-lo vencer o leilo da usina. O percentual seria o mesmo adotado em relao estatal do petrleo: pagamento aos intermedirios de 1% do valor da obra. Na poca, ela foi estimada em 19 bilhes de reais. Seu custo atual seria de R$ 33 bilhes. A propina, portanto, alcanaria R$ 190 milhes. Se fosse hoje, sairia por R$ 330 milhes. Luiz Otvio, conhecido popular mente por Pepeca, foi ligado ao governador Hlio Gueiros, sendo secretrio de transporte na sua gesto (1987/1991). Depois aderiu ao senador Jader Barbalho, que o mandara prender ao suceder Gueiros (1991/1994), sob a acusao de corrupo. Mesmo assim, Pepeca se tornou um dos principais auxiliares de Jader em Braslia. Acompanhou Jader Barbalho como seu secretrio nos cargos que ocupou nos governos Dilma e Temer. As investigaes se basearam em delaes premiadas de presos na Lava-Jato, que se transformaram em inqurito, em tramitao no STF. Delm Netto, ex-ministro dos governos militares e ex-deputado federal por So Paulo, tambm est sendo investigado. Ele foi o principal conselheiro econmico tanto de Lula quanto de Dilma Rousse, de quem se afastou em 2014, durante a campanha pela reeleio da presidente. Delm apontado como inspirador dos detalhes do edital de licitao que dirigiram o resultado para beneciar o vencedor. O leilo foi realizado justamente quando Dilma era eleita para suceder Lula, em 2010. A hidreltrica, projetada para ser a terceira maior do mundo, se tornou a principal obra do Programa de Acelerao do Crescimento, o PAC, que teve a ento ministra de Minas e Energia como a gestora. Quando ela assumiu a presidncia, chamou o senador Lobo para comandar o ministrio das Minas e Energia. Lobo aliado do ex-presidente Jos Sarney, que mandava na Eletronorte, a criadora de Belo Monte. As aparncias indicam que a Operao Leviat, sem prises, foi apenas para a busca de documentos. Os prximos alvos da Polcia Federal, seriam os principais lderes do PMDB. Desde o ex-presidente Jos Sarney at os senadores Renan Calheiros, Romero Juc, dison Lobo e Jader Barbalho. Todos so suspeitos de receber propina. H muitos anos, Sarney, em primeiro lugar, e Jader, depois dele, so os polticos com maior inuncia na Eletronorte, a estatal do sistema Eletrobrs que comanda o setor energtico na Amaznia. A maioria dos diretores da empresa foi por eles indicada. Sarney e Jader usaram vrios prepostos, dentro e fora da Eletronorte, que foi criada em 1973 para construir a hidreltrica de Tucuru, no rio Tocantins, tambm no Par, que a quarta maior do mundo. H alguns anos, Luiz Otvio o principal intermedirio de Jader, para todos os assuntos polticos e para questes deles derivadas. Ele apontado em vrios depoimentos como a pessoa autorizada a receber a parcela de 0,5% sobre o valor da obra para o PMDB (outros 0,5% iriam para o PT, por isso podendo envolver os ex-presidentes Lula e Dilma). Na mais ingnua das probabilidades, o ex-senador jamais desempenharia essa funo sem autorizao de Jader. Se o intermedirio recebeu propina e no a repassou ao destinatrio nal, outra questo, que os investigadores da Lava-Jato devem estar empenhados em esclarecer ou provar. Se o ex-governador do Par no recebeu um tosto sequer, tendo o dinheiro sido usado em campanhas do PMDB, com prestao de contas aprovada pela justia eleitoral, outra conversa, que agora vai car clara. Em nada ajudou a defesa do ex-ministro de Sarney o seu jornal, o Dirio do Par ter minimizado como pde a operao polcia, como se ela no tivesse qualquer importncia (enquanto o adversrio, O Liberal a ela dedicava trs pginas). Publicou uma nota minscula, em lugar quase invisvel, como para no deixar de registrar o fato, mas sem lhe dar a ateno devida. O Dirio do Par padece das limitaes s quais sempre est sujeito um jornal de propriedade de um poltico. Os problemas se complicam ainda mais quando o poltico, dono do jor nal, polmico como o senador Jader Barbalho, frequentemente acusado de se apropriar de recursos pblicos. O senador do PMDB nega peremptoriamente todas as acusaes que lhe foram feitas desde certo momento das apuraes pelo grupo-tarefa da Lava-Jato, agora com interjeies de irritao. Como as informaes dos delatores se avolumam, observa-se que a Polcia Federal se acerca dele. A lentido desse avano e ela no ter at agora se dirigido diretamente a ele, indicador de que no h ainda provas robustas para confirmar as acusaes e autorizar uma investida sobre o exgovernador do Par. Nada, porm, seguro. Por isso, o jornal tateia entre a obrigao de manter o seu leitor bem informado e a estratgia do dono nesse co-e-gato em que se acha envolvido h meses. uma situao extremamente delicada. Dela faz prova o noticirio do Dirio do dia 15 sobre a ao, na vspera, da PF atrs de provas sobre o pagamento de propina a intermedirio do favorecimento de empreiteiras na licitao da hidreltrica de Belo Monte. Foi omitida qualquer referncia aos nomes dos polticos visados, como o ex-senador Luiz Otvio Campos, estreitamente vinculado ao grupo poltico de Jader, seu padrinho em Braslia. De modo contrrio, o jornal foi fartssimo ao noticiar a recente priso do lho do governador Simo Jatene, do PSDB, seu principal adver srio poltico (at que se prove a falsidade das aparncias sobre um acordo entre eles). A questo agora saber se realmente h um esquema de proteo e acobertamento dos principais polticos citados ou se, em funo do peso do senador, a PF est sendo mais cautelosa do que nunca, s partindo para a priso com provas sucientes para que elas no venham a ser revogadas. Da no prender, para no revelar o contedo das provas que j acumulou. Logo se saber qual a verdade.

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3 PMDB e PSDB juntos em aliana para 2018?A opinio pblica foi surpreendida pela imagem inesperada: o ministro da Integrao Nacional, Helder Bar balho, e seu pai, o senador Jader Bar balho, ambos do PMDB, caminhando alegremente com o prefeito Zenaldo Coutinho, do PSB, pelo Mosqueiro, na sexta-feira, 17. At a vspera a cena era considerada impossvel. Helder est em plena campanha, mal disfarada, para o governo do Par em 2018. Aproveita sua agenda ministerial para atrair polticos, cabos eleitorais e fazer propaganda do seu nome. Graas ao trnsito que seu pai tem na cpula do governo federal, carrega verba para distribuir entre os que se dispuserem a aderir. O PSDB, que tem nos Barbalhos os seus principais adversrios, tambm possui pretenses amplas para 2018. Por isso, estava fora da cogitao qualquer aproximao com o PMDB, inimigo mortal do principal abre-alas dos tucanos, o grupo de comunicao da famlia Maiorana. Os ataques mtuos, s vezes raivosos, por serem constantes, demonstrariam a completa inviabilidade de uma aliana entre os dois partidos mais fortes do Estado. Naturalmente, Jader, Helder e Zenaldo no se encontraram por acaso no Mosqueiro. Tudo deve ter sido acertado, talvez ao longo de alguns dias. O prefeito pedira 25 milhes de reais ao ministrio comandado pelo ex-prefeito de Ananindeua (hoje com o PSDB, atravs de Manoel Pioneiro) para proteger a orla da ilha, ameaada pela eroso. A assessoria do prefeito deu a entender que foi uma solicitao neutra, de fundo tcnico, acima das contingncias polticas. E que Zenaldo compareceu caminhada com seus adver srios porque a administrao pblica e o benefcio social lhe impunham passar por cima das divergncias. Era inevitvel diante da aprovao do dinheiro pelo ministro, que fez questo de entregar pessoalmente o recurso. Mas logo surgiram interpretaes polticas. A reaproximao dos inimigos tradicionais seria efeito de acordo nacional entre o PSDB e o PMDB, a partir da entrega de quatro ministrios do governo Temer aos tucanos.O PSDB no apenas decidiu participar da administrao peemedebista: teria denido uma aliana para tentar proteger Temer em troca do seu apoio para a eleio do prximo ano. Por ser uma aliana verticalizada, pretendendo muito mais do que uma sada conjuntural, ela se imporia, a par tir de Braslia, a todos os Estados, que precisariam se enquadrar nova situao. Segundo esse raciocnio, j haveria at acordos locais, como no Par, com a formao de uma chapa nica, frente da qual estaria Helder Barbalho para o governo. difcil conrmar uma ou outra verso, a segunda mais frtil na imaginao do que sustentada nos fatos. A imprensa diria de Belm no se interessa por esclarecer a verdade e infor mar sobre o que acontece nos bastidores. O Liberal s quer saber de atacar os Barbalhos e tentar furar a nau de Helder para ela no atracar no governo do Estado. O Dirio do Par fustiga diariamente o governador Simo Jatene e o prefeito Zenaldo Coutinho. Como, ento, Zenaldo aprontou seu melhor sorriso para caminhar ao lado de Helder e Jader? No devia ser mais formal e menos extrovertido? Uma fonte tucana diz que no. Se ele no fosse, iria deixar que o faturamento do ato fosse todo ele em benefcio dos Barbalhos, que poderiam ainda criticar a ausncia do mais interessado no benefcio, que o prefeito. Ele tinha que ir e foi. Prova disso foi o texto discreto, seco e centrado em Zenaldo preparado pela sua assessoria de imprensa. Ele deu o crdito devido ao ministro, mas no citou Jader. Na foto distribuda, o senador do PMDB aparece mais atrs de Zenaldo e Helder, falando ao celular. O prefeito se justicou, dizendo que sempre buscou parcerias junto ao governo federal, estadual, e com as prprias comunidades, pois quem ganha a populao e os recursos so de todos, j que so provenientes de impostos pagos pelo povo brasileiro. A nfase tcnica acima da poltica e dos interesses pessoais, numa obra de 25 milhes de reais, foi ressaltada pelo secretrio municipal de Urbanismo, Adnaldo Oliveira. O prefeito foi pessoalmente a Braslia apresentar nosso projeto para o ministrio da Integrao, e tambm para o ministrio das Cidades, pois uma obra importante para o estado como um todo, e que o Municpio no conseguiria realizar sozinho. Foi a partir da, que originou esta visita de hoje, disse ele. O episdio pode no ter passado de uma trgua na guerra poltica travada entre o PSDB e o PMDB. Os prximos passos que esclarecero sobre o que est por trs da visita conjunta.

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4 O governo Temer e a utopia brasileiraControle da inao, reduo drstica do dcit pblico e reforma da previdncia so as trs principais medidas adotadas pelo governo Temer para restabelecer a credibilidade no governo federal e dar um rumo desajustada economia que herdou de Dilma Rousse. Pode-se discordar do tratamento, mas ele tcnico, o que caberia fazer sem mudar o sistema capitalista adotado pelo Brasil. Nem, talvez, tirar o Brasil do rumo do desastre. a face amarga, mas necessria. To amarga e polmica que s se sustentaria politicamente em um governo de transio, sem a preocupao de continuar alm do nal do mandato que lhe coube pelo impeachment da sua antecessora. Ela foi afastada da presidncia da repblica no pelo descumprimento da lei de responsabilidade scal, que realmente violou, cometendo o crime de responsabilidade (sem desonestidade pessoal, at hoje no provada), mas porque as elites no acreditavam mais na conduo que dava ao pas. S os fanticos so capazes de ainda negar (tambm sem provar essa alegao) que Dilma comprometeu a sade do Brasil para se reeleger, contra os efeitos da sua incompetncia e at mesmo a vontade do seu padrinho, Lula. Desaou tudo em troca de nada. Por isso perdeu o rumo, o prumo, a credibilidade e a legitimidade. No mnimo, faria to mal ao pas quanto Temer, sem qualquer possibilidade de evitar a tragdia. Diante do caos que deixou, no h milagre possvel. preciso cortar na carne da nao, que, sangrando, reage, grita, esperneia e no aceita. Um governo com tal programa no pode aspirar a um novo mandato, atravs da eleio direta. Vai ser derrotado. Tem que se imbuir da conscincia na oportunidade histrica nica, que lhe caiu no colo por um acidente poltico, e cumprir a misso que lhe cabe nessa circunstncia: ajeitar o pas para o seu sucessor, como fez Fernando Henrique Cardoso com todos os erros de percurso e finalizao para Lula. Quem possui olhos de ver e conscincia para constatar, h de notar que h duas marcas nos oito anos de Lula como presidente. Ele aprofundou e expandiu a abertura para o investimento social do governo FHC. O tucano muito tmido nesse setor, mesmo tendo ao seu lado uma gura de peso, sua esposa, a antroploga Ruth Cardoso. Com tradio esquerda, ela tentou incrementar essas aes, atravs do programa Comunidade Solidria (nome que lembra o sindicato polons de Lech Walesa, que contribuiu como o Lula do leste europeu, ou mais do que isso para a derrocada do tal socialismo real).Ruth foi voz sufocada perante a social-democracia paulistana, de alvos colarinhos brancos e vis nanceiro. A continuidade veio com Lula, cuja clientela ele atendeu sua maneira, por impulso populista e evocao biogrfica. Mas no metendo o bedelho na cozinha econmica, comandada pelo chef, o banqueiro internacional (com seu pice na presidncia mundial do Banco Boston), Henrique Meirelles. Foi ele quem, na via paralela ao social, deu prosseguimento a tudo que os tucanos faziam e at os excedendo no uso dos ingredientes do modelo de ao econmica avalizado por instituies nanceiras internacionais, como o FMI (o Fundo Monetrio Internacional, de Washington). Nunca antes o Brasil teve tantos bilionrios, tantas supostas multinacionais brasileiras, tanto dinheiro circulando pelo territrio nacional. Enquanto Lula gastava, Meirelles arrecadava. E assim seus erros e excessos, praticados sob uma conjuntura mundial extremamente favorvel (ao contrrio do que acontecera com FHC), foram absorvidos. Qual o ato mais importante de Dilma nesse setor, que ela aprofundou no curso de quatro anos, no indo alm por ter dissipado todo seu capital e iniciado a queda no maior buraco j experimentado pela economia brasileira? Trocou Meirelles pelo acadmico (como ela, em certa medida) Guido Mantega. Mantega no tinha a menor competncia para fazer para o bem ou para o mal o que Meirelles fazia, no timo da economia atravs do seu gabinete no Banco Central, por quase oito anos. O que Dilma mais queria era um ministro fantoche, executor de uma poltica mais ortodoxa de guinada esquerda (o que omite um artigo de Vladimir Safatle, reproduzido nesta edio para fazer o contracanto voz ocial, ao alegar que essa alter nativa nem foi tentada) para executar suas ordens, muitas dadas aos gritos. Quem no sabia acreditou na farofagem de Lula: de que ela era quem mais sabia, a gerentona, a condutora do PAC (Programa de Acelerao do Crescimento), que, agora sabemos, estava todo bichado. Essa terra arrasada s pode voltar a dar os frutos necessrios para sustentar a volta do rendimento saudvel da economia se for retrabalhada, revolvida, submetida ao arado, posta para a reciclagem dos seus nutrientes. O esquema adotado outra vez por Meirelles, de volta ao centro do poder com Temer, pode ser combatido e substitudo por outro. Mas ele tem coerncia, Guarda certa identidade com o Plano Real, to criticado pela esquerda (e, em particular, por Lula, sempre incapaz de ver alm da conjuntura) e o mais eciente tratamento inacionrio j experimentado em todo mundo.

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5 PM: depois do protesto, qual o prximo passo?Esse esquema aceitvel, mesmo no sendo sagrado nem puro, muito menos imunizado contra aproveitamentos laterais ou mesmo esprios (para cujo sucesso um acompanhamento srio, honesto e competente da opinio pblica, sobretudo da imprensa, fundamental). Mas s pode dar certo se avalizado por um estadista, um presidente que no lance mo de siologismo, no tenha pecados mor tais a esconder, no seja suscetvel a chantagens, no precise negociar nos bastidores uma salvao pecaminosa nem se ache impedido de ir s ltimas consequncias por estar atado a compromissos esprios. Em suma: no esteja sem condies de sustentar o que necessrio fazer nas condies em que o Brasil se encontra, no o que lhe mais conveniente. Infelizmente, o advogado constitucionalista e antigo poltico Michel Temer no se enquadra nessas premissas. Logo, no um estadista. Podia se tor nar um, apesar dele mesmo, se assumisse formalmente o compromisso de no tentar disputar a reeleio, fazer um mea culpa e conclamar os brasileiros a trabalhar para que as eleies gerais de 2018 escolham quem melhor se apresentar para repor o Brasil na trilha de uma histria melhor e mais justa. Mas reconhecendo ao povo o direito de dizer no ao que prope, a proposta exposta de forma clara e honesta, aberta ao debate. Isto se tornou impossvel ou ainda uma utopia? A manifestao de protesto or ganizada pelas esposas dos policiais militares, que acamparem em frente a algumas unidades da corporao e sede do comando para cobrar melhores condies de trabalho e mais dinheiro no m do ms do soldo dos maridos, terminou de forma inslita na semana passada, depois de alguns dias de resistncia, Foram recebidas inicialmente sem obter, depois, qualquer resposta das autoridades na hierarquia de comando: do vice-governador, que respondia pelo cargo na ausncia do governador, do secretrio de segurana pblica ou do comandante da Polcia Militar. Talvez sua estratgia tenha sido a de deixar o movimento se esvair por ele mesmo, diante da precariedade da sua infraestrutura e do pequeno nmero de adeses. O promotor Armando Brasil, porm, decidiu intervir no processo e apresentar uma sada honrosa: prometeu proteger os PMs de represlias, que podem caber na letra fria da lei, mas tambm podem ser atenuadas pelo carter pacco do protesto. Se fez isso aps consultar quem pode aplicar as penas ou de moto prprio, s o tempo poder responder. O tempo e a reincidncia dos problemas que inspiraram a iniciativa das esposas dos miliares. Eles continuam latentes e urgentes. Em todo pas os PMs se queixam de ms condies de trabalho, salrio baixo e atrasado, desvalorizao da carreira, exposio excessiva ao risco de morte e outros fatores que criam um ambiente de tenso nos quartis e nas ruas, onde a populao no sabe se sada ou lamenta a presena dos policiais, No Esprito Santo, os cidados puderam experimentar, em grau extremo, o lado bom e ruim da PM. Acantonada nos quartis, a polcia abandonou a sua misso. Sua ausncia provocou a maior onda de violncia j registrada na Grande Vitria. Tudo parou e ocorreram mais de 100 mor tes violentas. Asegurana pblica do Estado ainda est sob controle federal. Mais de 700 policiais foram indiciados pelo crime militar de revolta por estarem armados e aquartelados nos batalhes. Neste ms, no vo receber salrio. Podem ser condenados a penas que variam de 8 a 20 anos de deteno em um presdio militar e expulso da corporao. A constituio probe que militares grevem. Por isso, a execuo do protesto pelas esposas em frentes aos quartis, impedindo os maridos de sair, teve a inteno de forar a suspenso das atividades policiais sem exp-los a punies. Toda controvrsia em torno de desmilitarizar a PM para permitir que os integrantes da corporao se sindicalizem e participem da atividade poltica, libertando-os dos grilhes da militarizao que lhes foi imposta durante a ditadura, precisa ser refeita em funo dos acontecimentos no Esprito Santo. Eles demonstraram que a ao da polcia civil, como instrumento do poder judicirio, na instruo dos processos criminais, em conjunto com o Ministrio Pblico, no suciente para tratar da violncia nas ruas, em escala assustadora. Mas se a PM um mal necessrio, a ao pblica deve se preocupar em combater os aspectos ruins de uma polcia extremamente violenta, cor porativa e tendente a abusar do seu poder, atentando para a necessidade que a sociedade tem dela. A necessidade deve impulsionar iniciativas para atender as justas reivindicaes dos PMs, dando-lhes a prioridade que elas precisam realmente ter. S assim ser imposto um pressuposto sem o qual a PM se torna descartvel: seu compromisso atender a sociedade, que lhe delegou um poder nico dentre todos os servidores pblicos, o de andar armada e poder usar a fora no desempenho das suas tarefas profissionais. Esse princpio no se concilia com o direito de greve. No seu exerccio, o grevista, por estar armado, pode abusar do seu direito e ameaar a sociedade. O PM deve dispor de condies satisfatrias de trabalho para que se conscientize de que acima dele est a lei e o seu destinatrio: o povo.

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6 A receita para destruir um pas(Artigo de Vladimir Safatle, professor livre-docente da Universidade de S. Paulo, publicado na Folha de S. Paulo da semana passada.)H trs formas de destruir um pas. As duas primeiras so por meio da guerra e de catstrofes naturais. A terceira, a mais segura e certa de todas, entregando seu pas para economistas liberais amigos de operadores do sistema nanceiro. Em todos os pases onde eles aplicaram suas receitas de austeridade, a recompensa foi a pobreza, a desigualdade e a precarizao. Alguns pases, como a Letnia, vendido por alguns como modelo de recuperao bem-sucedida, viu sua populao diminuir em quase 10% em cinco anos, algo que apenas as guerras so capazes de fazer. Ou seja, o preo para essa peculiar noo de sucesso foi expulsar quase 10% da populao para refazer suas vidas em outros pases. No Brasil, no faltou economista a eleger, meses atrs, o Esprito Santo como um modelo de ajuste econmico e responsabilidade scal. O mesmo Esprito Santo que tem nmeros piores do que mdia nacional (retrao de 13,8% at o terceiro trimestre de 2016) e que h algumas semanas simplesmente entrou em colapso, virando uma zona de anomia em meio greve de policiais. No poderia ser diferente. No mundo desses senhores no existe gente, no se levam em conta reaes populares a medidas econmicas, muito menos experincias de sofrimento social e revoltas polticas contra processos de pauperizao vendidos como remdios amargos, porm necessrios. Outros tantos desses economistas encheram as pginas de jornais e tempo de televiso para levar a sociedade brasileira a acreditar que, conduzindo Michel Miguel Presidncia, a conana dos mercados daria o ar de sua graa e, com ela, viria a estabilidade. Bem, nos ltimos dias, o Banco Mundial divulgou uma anlise segundo a qual espera que, at o nal do ano, 3,6 milhes de pessoas voltem pobreza no Brasil. Para ser mais claro, 3,6 milhes de pessoas vero seus rendimentos carem para menos de R$ 140 por ms. Isso em um cenrio no qual o Brasil tem a maior taxa de capacidade ociosa da indstria dos ltimos 70 anos, j que no h mais compradores para seus produtos. Se somarmos a isso a reforma da Previdncia, a limitao de investimentos estatais para guardar dinheiro a m de pagar os mais de R$ 400 bilhes em servios da dvida pblica, a proposta de terceirizao irrestrita e o colapso do sistema brasileiro de servios pblicos teremos um cenrio simples: o Brasil foi destrudo pelas polticas implementadas desde a guinada neoliberal do governo Dilma. O prximo passo ser a imigrao em massa dos que puderem, normalmente os mais bem formados. claro que haver aqueles que diro que isso herana maldita de polticas econmicas esquerdistas. Mas chamar governos que nunca foram capazes de propor a taxao progressiva de rendas e riquezas, a transferncia paulatina da deteno dos meios de produo para as mos dos trabalhadores e a limitao dos ganhos do sistema nanceiro de esquerdista algo da ordem do simples jogo de palavras. Enquanto isso, uma parcela da populao aplaude tudo, j que acredita ficar imune degradao econmica nacional. Essa mesma parcela julga-se hoje detentora de alguma forma de superioridade moral que faria calar os descontentes com este governo. No entanto, que as coisas sejam ditas de forma clara: eles nunca estiveram nem esto, de fato, preocupados com julgamentos morais. Os mesmos que gritam contra corruptos do antigo governo sempre votaram e continuaram votando em polticos notoriamente corruptos, continuaram calados diante de casos gritantes de corrupo neste governo, como caram calados quando, nesta semana, o STF publicou uma deciso inacreditvel e criminosa para permitir o gato Angor, vulgo Moreira Franco, com suas citaes na Lava Jato, ocupar um ministrio. Nada estranho, j que o problema deles nunca foi a corrupo, e sim a luta contra polticos com os quais eles no se identificam. O discurso contra a corrupo era apenas uma grande farsa, seno produziria aes simtricas contra toda a classe poltica brasileira. Julgamentos morais no aceitam usos estratgicos. Quem usa moral de forma estratgica um moralista da imoralidade. Na verdade, essas pessoas so atualmente cmplices de um governo cuja nica preocupao se blindar e escapar da cadeia. At porque, Michel Miguel e os seus no governam, eles tm coisas mais ur gentes para fazer. Enquanto tentam salvar a prpria pele, terceirizaram o Brasil para gestores da catstrofe.

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7 Mais um passo para Carajs car chinesaA notcia chegou grande imprensa nacional: os acionistas da Vale decidiram extinguir a Valepar, a holding que controla a ex-estatal, maior produtora de minrio ferro do Brasil e terceira maior do mundo. A deciso, tomada durante as negociaes para renovar o acordo de acionistas, que vencer em abril, permitir que cada um scio controle diretamente suas aes na Vale e decida individualmente seus votos, segundo a nota de Lauro Jardim na sua coluna em O Globo de domingo, 19. No dia seguinte, o que se previa desde bem antes aconteceu. A Vale anunciou um novo acordo de acionistas, com o qual se tornar uma sociedade sem controle denido. A mudana seria para aumentar a transparncia e a igualdade de direitos para todos os detentores de ao. O novo modelo societrio ainda ser submetido aos scios para aprovao. Mera formalidade, j que a deciso foi tomada pelos controladores do capital da companhia. Bastar que contem com a adeso dos detentores de 20% do controle acionrio. Ao nal da transio que ser agora iniciada, a Vale desaparecer. Os principais acionistas da maior mineradora brasileira e a terceira do mundo, que foi estatal at 1997, vo renovar, por mais trs anos e meio (a vigorar a partir de 10 de maio), o atual acordo, que lhes assegura o controle do capital e, portanto, das decises. A transao parece ser uma vitria para os acionistas controladores e minoritrios, disse Reuters Rodolfo de Angele, analista da JPMorgan Securities. As mudanas na Vale foram acertadas pelos maiores acionistas da companhia: Litel Participaes (que rene os fundos de penso Funcef e Petros, sob o comando da Previ, do Banco do Brasil), Litela Participaes, Bradespar (do Bradesco), a japonesa Mitsui e o BNDES Participaes. O acordo prev a converso voluntria (se o acionista assim desejar) das aes preferenciais classe A da Vale em aes ordinrias, na relao de 0,9342 ao ordinria por ao preferencial. O valor das aes ser denido com base no preo de fechamento das aes ordinrias e preferenciais. A apurao ter por base a mdia dos ltimos 30 preges na bolsa de valores de So Paulo anteriores a 17 de fevereiro, ponderada pelo volume de aes negociado nesses preges. Cumprida essa etapa, a Vale incorporar a sua controladora, a Valepar, e pagar aos seus proprietrios um prmio de 10% por suas aes. Essa iniciativa diluir os acionistas minoritrios ao limite de 3% do capital, considerada condio prvia para o restante do processo de transformao da estrutura da Vale. Tudo realizado, a empresa deixar de existir em novembro de 2020. Fontes familiarizadas com o assunto disseram Reuters em janeiro que a Bradespar e o Previ, fundo de penso dos empregados do Banco do Brasil, buscaram o plano para aumentar o apelo da Vale entre os investidores. Uma vez que o acordo expirar, nenhum acionista poder ter mais de 25% da Vale, sob pena de ter que realizar Oferta Pblica de Aquisio (Opa) para os demais acionistas titulares de aes ordinrias. A proposta prev ainda que 20% dos integrantes do Conselho de Administrao sero conselheiros independentes. Para analistas ouvidos pela agncia inglesa de notcias, o plano tambm ajudar a limitar as interferncias do governo na empresa. A melhoria da governana decorrente da mudana poderia ajudar as aes da Vale a reduzirem o gap de valorizao em relao aos seus pares globais de minerao, declararam. Na surdina, os controladores da Vale querem se livrar da companhia do governo, beneficiar os investidores estrangeiros e abrir caminho para o que pode vir a ser a maior transao da histria da minerao no Brasil: a transferncia da Vale aos chineses. A imprensa apenas divulgou as informaes, sem procurar as razes para a mudana. Mas h uma maneira de interpret-la: os scios privados esto interessados em vender suas aes, sem submeter a deciso ao colegiado. Para facilitar, pulverizar o capital da empresa e ainda convertero aes preferenciais em ordinrias. O gio se tornar fonte de receita para nanciar o prejuizo aos acionitas minoritrios. A oferta interessante para os compradores das aes, que j ganharam muitos dividendos, mas agora esto em mar baixa por causa da queda do preo do minrio e do perodo de investimentos pesados que a Vale fez para colocar em atividade o seu maior projeto, o S11D, que quase duplicar a produo de Carajs. Libertos das amarras societrias, os controladores da mineradora podero negociar diretamente com os eventuais interessados. O maior e j identicado a China. Assumindo o controle acionrio da Vale, os chineses, que compram 60% da produo de Carajs, estariam nas duas pontas do processo: na mina e no beneciamento. Depois de ter entregado Norsk Hydro (controlada pelo governo da Noruega) todo o ciclo do alumnio, do minrio de bauxita ao metal, passando pela alumina, o Brasil vai fazer o mesmo com o precioso minrio de ferro de Carajs. Alm de desestatizar, desnacionalizar a antiga Companhia Vale do Rio Doce. E ningum diz nada.

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8 Zavascki, Esteves,Filgueiras e os elos de uma relaoTeori: amigo scio do BTG investigado pela Lava-JatoEm novembro de 2015, o banqueiro Andr Esteves, que o principal acionista do banco de investimentos BTG Pactual, foi preso pela Operao Lava Jato. Ele foi acusado de participar de uma negociao para impedir que o diretor da rea internacional da Petrobrs, Nestor Cerver, assinasse acordo de delao premiada. O ex-senador Delcdio do Amaral, do PT, que participou da articulao, tambm foi preso. Ambos enquadrados no crime de obstruo da justia. Delcdio continuou preso, assim como outros trs indiciados na trama. Menos de um ms depois das prises pela Polcia Federal,o ministro do Supremo Tribunal Federal,Teori Zavascki, mandou soltar o banqueiro, a quem concedeu a priso domiciliar. Aceitou o argumento da defesa, de que a priso fora decretada com base apenas nas declaraes do lder do governo no Congresso Nacional. Os argumentos no prevaleceram em relao aos demais envolvidos. Outros indiciamentos, acusaes e prises se basearam nas mesmas informaes prestadas por Delcdio, Quatro meses depois, em abril do ano passado, Teori revogou a priso domiciliar e permitiu que o executivodo BTG voltasse a trabalhar. Andr Esteves nunca mais voltou a ser pertur bado pela Lava-Jato. Voltou agora, mas por outros motivos. Um dos seus scios no BTG, Marco Gonalves, que atuava na rea de fuses e aquisies, foi processado por uma casa noturna no cir cuito VIP de Manhattan, em Nova York. Ele no pagou uma conta de 340 mil dlares (mais de um milho de reais), por duas noites consumindo as bebidas mais caras do mundo, segundo notcia do jornal Daily News. O dbito s foi quitado oito meses depois, quando o fato se tornou pblico e a questo j estava na justia. Gonalves foi demitido, no ltimo dia 6, quatro dias depois que a informao se tornou de domnio pblico e 10 meses aps o incidente acontecer, por determinao da direo do banco. O BTG se limitara a aceitara o pedido de licena de Esteves, quando ele foi preso. No demonstrando qualquer abalo, o ex-scio est abrindo um escritrio na avenida Faria Lima, zona nobre de So Paulo, onde ter sua prpria consultora de fuses e aquisies. Enquanto o espantoso acontecimento se espalhava pelo mundo, no Brasil, o BTG se limitou a divulgar uma nota curta, assinada pelo prprio Marco Gonalves, que dizia: Em relao reportagem publicada pelo New York Daily News, repercutida por alguns veculos de comunicao do Brasil, informo que desconheo os fatos ali narrados e que no possuo nenhum tipo de pendncia com o estabelecimento comercial mencionado no texto. A primeira parte da declarao, de desconhecimento dos fatos, parece ser mentirosa. J a segunda no passa de sosma: de fato, a pendncia no existe mais, apenas porque foi resolvida, por presso da reper cusso extremamente negativa para um banco que lida com papeis comercializados em bolsa, tendo que merecer a conana dos seus clientes e da ao da justia. Essas histrias cheias de ns e laos remetem a informaes que circularam, sem maior destaque, margem da morte de Teori Zavascki, quando novamente, por vias transversas, apareceu o BTG Pactual.O do no do avio que caiu em Parati pertencia ao amigo do ministro, empresrio Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, um dos donos do hotel Emiliano de So Paulo, um dos mais caros do pas, onde o relator da Operao Lava-Jato passou a hospedar em 2013, para acompanhar o tratamento se cncer da esposa, que viria a morrer. A par tir da, eles se tornaram amigos. Filgueira seria dono daJ. Filgueiras Empreendimentos e Negcios Ltda. A empresaprojetava construir um complexo hoteleiro na Fazenda Itatinga, em Paraty, mas teve a licena prvia indeferida pela secretaria de Meio Ambiente do Rio de Janeiro em outubro de 2016. De acordo com a revista Frum ( ver artigo reproduzido abaixo), o empresrio era ru no Supremo, acusado de crime ambienta. Ele estaria fazendo construes irregulares na ilha das Almas, onde ca a fazenda.Continuava como ru quando levou o ministro no seu avio para Parati, onde o hospedaria em sua prpria casa. Em 2009 o procurador da Repblica, Fer nando Amorim Lavieri, investigoupossveis danos ambientais na regio da fazenda, localizada na rea de Proteo AmbientalCairuu, para a preservao dos seus manguezais, de jurisdio federal. Filgueiras era scio (com 10% das aes) de Carlos Daniel Rizzo da Fonseca (com 90%) na empresa Forte Mar Empreendimentos e Participaes S.A.Segundo o jornal O Globo a empesa era proprietria do prdio ocupado pelo Hotel Emiliano na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Fonseca um dos scios do BTG. O ministro desconhecia essas teias, nas quais se enredou, ao menos por os ticos e morais? (Artigo de Alceu Lus Castilho)A Forte Mar Empreendimentos e Participaes, uma das empresas de Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, tem 90% de seu capital social em nome do DevelopmentFundWarehouse, um fundo de investimentos do BTG Pactual. O banco investigado na LavaJato e teve seu presidente, Andr Esteves, preso na operao. O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal que morreu com Filgueiras no avio do empresrio e amigo, em Paraty julgou no STF casos relativos ao BTG. Em abril, revogou priso de Esteves. Os outros 10% da Forte Mar pertencem J. Filgueiras Empreendimentos e Negcios Ltda. essa empresa de Filgueiras que pretende fazer um complexo hoteleiro na Fazenda Itatinga, em Paraty (RJ), cuja licena prvia foi indeferida, em outubro, pela Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro. O empresrio era ru no STF, acusado de crime ambiental, por causa de construes irregulares na Ilha das Almas, onde ca a fazenda. Filgueiras era o diretor da Forte Mar Empreendimentos. Uma das pessoas fsicas que aparecem como scios da empresa Carlos Daniel Rizzo da Fonseca, ex-presidente do Conselho de Administrao do BTG Pactual, scio de 23 empresas (entre elas o prprio BTG) e atual presidente do Conselho de Administrao ele foi eleito em abril da Brasil Pharma, o brao farmacutico do BTG. Teori Zavascki julgou casos relativos ao BTG. Em dezembro de 2015, revogou a priso preventiva de Andr Esteves, enviando-o priso domiciliar. Em abril de 2016, revogou a priso domiciliar. O banqueiro acusado de pagamento de propina famlia de Nestor Cerver, ex-diretor da Petrobras, para tentar obstruir a Lava-Jato. Outros acusados no mesmo caso, como o senador Delcdio do Amaral (sem partido-MS), ainda esto presos. Zavascki tambm tirou da Lava-Jato um inqurito que apurava ligao do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) com o BTG. Empresrio efazendeiro Carlos Filgueiras no era apenas dono do hotel Emiliano, como descrito muitas vezes aps o acidente desta quinta-feira. E sim um empresrio multimilionrio, com vrias atividades no ramo imobilirio e agropecurio. Ele era dono da Tuagro Agrcola, produtora de caf, dona da fazenda Diamante, em Patrocnio (MG). A Emiliano Empreendimentos e Participaes nem era a empresa mais valiosa de Filgueiras, com capital social de R$ 8,1 milhes. A J. Filgueiras (R$ 17,2 milhes) e a Forte Mar (R$ 117 milhes) aparecem frente. A Forte Mar j teve vrios nomes, como Forte Rio Empreendimentos e Participaes e CMNPAR Twenty-Seven Participaes. A CMNPAR, por sua vez, j sem o nome de Filgueiras, multiplica sua sigla a partir de vrios nomes intermedirios para as holdings depois da Twenty-Seven vieram irty-Eight, Fiy-Four, Sixty-Five, Seventy-Four, Seventy-Six, Eighty, Eight-Two, Ninety, Ninety-Six -, com repetio de scios, mas diferentes CNPJs. Filgueiras era dono tambm da Fazenda Itatinga, em Paraty (RJ). Em 2009 o procurador da Repblica Fernando Amorim Lavieri investigou possveis danos ambientais na fazenda, localizada em rea de manguezal. A fazenda ca na rea de Proteo Ambiental (APA) Cairuu, de preservao federal. E, segundo ele, est situado na faixa de marinha, pertencente Unio Federal. A fazenda est no nome da Ama Empreendimentos, tambm de Filgueiras.

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9 Os discursosComo noticiar quando vtima um jornalistaNa sua rotina de sensacionalismo, aproveitando-se do noticirio policial para manter ou conquistar leitores, o Dirio do Par ocupou dois espaos da sua capa com as fotos de mais duas vtimas da assustadora violncia cotidiana em Belm. Numa, o corpo do soldado Moiss Jesus, mais uma vtima da Polcia Militar, morto pela manh durante um assalto. Na outra foto, a jornalista Dandara de Almeida, esfaqueada noite pelo ex-marido, Roberto Baima. Ele a procurou na casa dela, no bairro do Una. Houve uma discusso e ele a golpeou na garganta com uma faca. A jornalista conseguiu fugir. Roberto teria tentado se matar em seguida, sendo contido por familiares dela e vizinhos, alguns dos quais o agrediram. Ambos foram internados no Hospital Metropolitano, ele j algemado, sob vigilncia policial, preso em agrante por tentativa de homicdio e violncia domstica. Ela sob tratamento mdico. Protestos e declaraes sobre o segundo episdio passaram a circular pelas redes sociais, culminando com uma nota do sindicato dos jornalistas. Para o Sinjor, no foi uma violncia qualquer, foi uma tentativa de feminicdio, uma agresso de natureza domstica e familiar e de gnero. Mais um episdio do sexismo e do machismo em nosso Pas., com a revitimizao em manchetes da imprensa. Substituir o rosto do agressor pelo da vtima em capa de jornal para estampar que ela reprter do jornal concorrente, expondo seu nome e sobrenome, fez com que a prosso e o emprego dela ganhassem mais importncia do que o crime ocorrido. Da mesma forma, expor a imagem da vtima em portal de notcias, mesmo que ao lado do criminoso, mas fazendo o uso da tarja preta no passa de tica de aougue. A tarja no esconde nada e, historicamente, foi usada para supostamente preservar a imagem de adolescentes em conito com a lei. Anal, que crime a vtima cometeu, nesse caso? O de ser mulher? Ser jornalista? O sindicato lamenta que os jornalistas, empregados de grupos de comunicao que se digladiam no cotidiano, somos instrumento dessa disputa no trabalho e at quando somos vtimas. necessrio reavaliar a nossa conduta de trabalho, focar a tica na prosso, o coleguismo e a autopreservao de uma categoria j massacrada por assdio, injustias e precarizao. Lembra que, em situao anterior, em que a vtima de tentativa de feminicdio foi reprter do grupo adversrio, o mesmo que estampou agora o rosto da nova vtima, a postura dos colegas de imprensa foi completamente distinta. O nome e a imagem da jornalista foram preservados, causando surpresa a reao adversa, agora, o que s contribui para o desentendimento entre a classe. Da mesma forma, postagens em redes sociais que expem a vtima tambm s contribuem para rearmar a falta de tica e de solidariedade. Felizmente, nem todos os jornalistas partilham da mesma opinio e, pautados na tica e na defesa dos Direitos Humanos, se manifestam publicamente em repdio situao colocada. O sindicato diz que j vinha acompanhando a jornalista, devido a per seguies que estava sofrendo, prometendo continuar atento s posturas de veculos e jornalistas sobre o episdio, no estando descartadas providncias jurdicas futuras, bem como estamos empenhados que o criminoso seja punido e a segurana da jornalista seja garantida. Convocou os interessados pela questo a participarem de uma reunio na quarta-feira, 22, para integrarem a sua Comisso de Direitos Humanos. De fato, lamentvel e condenvel a agresso jornalista, vtima de violncia por ser mulher e estar sujeita a esse tipo de agresso, qualquer que tenha sido o pretexto do seu ex-marido. Foi tambm indigna a forma adotada pelo Dirio do Par na divulgao dos fatos, usando o noticirio no mbito da sua guerra com o jornal dos Maioranas. Mas se Dandara no fosse jornalista e se no houvesse a rivalidade selvagem entre os dois grupos de comunicao, o sindicato e os participantes da discusso do caso pelas redes sociais teriam sado das suas tocas para se manifestar? O que zeram no curso de tanto sensacionalismo de lado a lado, ano aps ano, que massacra diariamente pessoas annimas, pobres, humildes, de bairros perifricos, sem relaes com o mundo do poder, suas extenses e aderncias? Quem se interessou pelo soldado, que morreu no mesmo dia, mais uma vtima de uma violncia j sem padres ou limites, como no dia a dia de sangue, silncio, omisso ou conivncia? Admiro tanto os textos caudalosos quanto os que so concisos. Talvez mais a estes, que rompem com a tradio de verbosidade dos latinos em geral e dos brasileiros em particular. Admiro muito Raduan Nassar, o paulista que escreveu dois livros profundos sem precisar escrever muito: Lavoura Arcaica e Um copo de clera Raduan foi el ao seu estilo ao receber, no dia 17, o Prmio Cames de 2016, no museu Lasar Segall, em So Paulo. Agradeceu pela inesperada honraria e sapecou crticas ao governo de Michel Temer. No foi interrompido. No nal, recebeu as palmas de que se tornara credor, por sua condio de escritor e cidado. Mas o ministro da Cultura, o poltico (ex-comunista?) pernambucano Roberto Freire, o contraditou e defendeu a administrao a que est vinculado, mas quase no pde falar. Foi interrompido por vaias e apupos. Os desagradados pelo que ele disse deviam ser coerentes com a atitude dos desagrados pela manifestao de Raduan Nassar, que o ouviram at o m do seu discurso curto e grosso, como do seu estilo e do seu direito. difcil ser educado e civilizado. Mais difcil ainda ser democrtico. Para cer ta esquerda, praticamente impossvel.

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10 Mina de ouro do Xingu: mais uma v promessa?Talvez a Belo Sun tenha sido a primeira mineradora de ouro da Amaznia (ou mesmo do Brasil) a publicar um grande anncio na imprensa. Em meia pgina nos jornais de Belm, ela comemorou a obteno da licena de instalao para implantar o primeiro projeto exclusivamente de ouro no Par, que j uma realidade. A licena denitiva foi concedida no dia 2 pela secretaria estadual do meio ambiente, dois anos depois da expedio da licena prvia. A secretaria garante que todos os estudos necessrios para a aprovao do empreendimento foram realizados, inclusive com audincias pblicas nos locais onde a mina de ouro ser desenvolvida. A Belo Sun prev o incio das obras para setembro, trs meses depois do vero na regio. No, se depender do Conselho de Direitos Humanos, da Funai, do Ibama e de entidades de representao da sociedade civil que defendem os ndios e a populao nativa. Uma semana depois da expedio da licena, o conselho pediu a sua suspenso. Todos que questionam o projeto alegam no dispor de informaes sucientes para medir a profundidade e a extenso do seu impacto, por falta de maior divulgao dos dados. A medio de foras se assemelha verdadeira guerra travada ao longo de um quarto de sculo para impedir a construo da hidreltrica de Belo Monte, num trecho do rio Xingu mais acima de onde ser implantada a lavra de ouro. Houve conitos, greves de trabalhadores, depredaes no canteiro de obras, denncias sobre fraudes e cor rupo (que acabaram transbordando para a Operao Lava-Jato), alm de outros atritos e tenses, mas a usina projetada para ser a terceira maior do mundo comeou a funcionar no ano passado. At 2019 todas as suas 18 gigantescas turbinas devero estar em operao, ao custo de 33 bilhes de reais. Uma nova queda de brao est havendo com a Belo Sun. O primeiro ar gumento contra a sua iniciativa que s agora houve o represamento do Xingu, um dos mais volumosos e extensos rios do Brasil. Seria necessrio aguar dar por pelo menos seis anos para vericar o comportamento do rio abaixo da barragem. Sua vazo vai car menor justamente na chamada Volta Grande, uma extensa curva, com leito acidentado e complexidade ambiental, onde moram dois grupos indgenas. A Belo Sun e a secretaria estadual retrucam. Dizem que a mina car distante dois quilmetros da margem do rio. E que sequer usar a gua do Xingu. Far a coleta das chuvas, armazenando-a em dois lagos articiais, devidamente protegidos. Quanto aos dois grupos indgenas, esto distantes 12 e 16 quilmetros da mina. A lei s obriga a empresa a fazer os estudos do componente indgena a partir de distncia inferior a 10 quilmetros. Mesmo assim, o trabalho foi realizado, embora a Funai, que dele participou, agora o conteste. A fundao entende que no houve uma ver dadeira consulta aos ndios. A empresa alega que s caberia a incluso da Funai se a lavra fosse em territrio indgena, o que no acontece. Os opositores do projeto querem que o Ibama seja integrado ao licenciamento, do qual cou ausente, porque embora a mina se localize no Par, o rio tem origem em Mato Grosso, o que obrigaria a participao do governo federal. A secretaria estadual nega validade pretenso. Pode ser que esse contencioso acabe como em Belo Monte, Juru, Santo Antonio ou Tucuru, as grandes hidreltricas amaznicas e brasileiras, todas em funcionamento depois de um per curso tortuoso e acidentado. A lei do mais forte prevaleceu nos casos delas e o fato consumado foi atingido antes que houvesse resistncia suciente para inviabilizar as obras. O que mais impressiona neste novo captulo de grandes projetos, implantados na lei ou na marra, a pressa em concretiz-lo. Para o Faber Mahnattan o banco canadense de capital fechado que desenvolve projetos de minerao ao redor do mundo, o interesse pelo ouro do Xingu se materializou em 2010, quando adquiriu uma empresa de minerao de Altamira, a Verena, transformando-a em Belo Sun Minning. A Verena era uma das empresas locais que tentaram introduzir a lavra mecanizada na Volta Grande do Xingu, onde s garimpeiros atuavam, desde o incio do sculo XX. A Oca Minerao foi a que mais avanou nessa direo. Chegou a montar e colocar em funcionamento uma usina semelhante prevista pela Belo Sun, embora em escala muito menor. Mas teve conitos com garimpeiros e pistoleiros, Suas instalaes foram destrudas e a empresa desistiu. A escala dos canadenses muito maior. Seu investimento de 1,22 bilho de reais, um dos cinco maiores empreendimentos de minerao de ouro do Brasil. Com ele, o municpio de Senador Jos Porfrio arrecadar cinco milhes de reais. Mas apenas por 12 anos. Nesse tempo de vida til, a Belo Sun espera retirar 160

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11 toneladas de ouro. pura e simples extrao primria. A empresa diz que pode evoluir para um produto de muito maior valor, atravs do reno do minrio. O investimento pequeno, de R$ 100 milhes, menos de 12% do que vai investir na mina. Mas s se tornar vivel se dispuser de oferta maior de matria prima. A jazida do Xingu no seria suciente, embora o detalhamento geolgico tenha revelado riqueza maior do que a inicialmente prevista. A Vale instalou uma renaria de ouro em Carajs, tambm no Par, nos anos 1990, desmentindo a armativa propagandstica dos canadenses, que tambm esqueceram a produo de ouro a partir do cobre, ainda em Carajs, pela mesma Vale. O igarap Bahia chegou a produzir mais do que a mina de Morro Velho, em Minas Gerais, que h mais de 150 anos a maior fonte do minrio no Brasil. Mas no foi alm das barras de ouro. O depsito se exauriu, desfazendo os sonhos de um polo de joias no Estado. O passivo de Belo Sun muito maior. Para produzir 160 toneladas de ouro (mais do que a famosa Serra Pelada), vai retirar mais de 25 milhes de metros cbicos de terra, que sero empilhados em dois montes de rejeitos. Com altura mdia de 150 metros, equivalero a um prdio de 50 andares e tero um tero da altura do Po de Acar. E um tero da barragem de Fundo, em Mariana, em Minas, cujo rompimento provocou o maior acidente ecolgico da minerao mundial em todos os tempos. A empresa usa essa proporo em sua defesa, omitindo que o famoso carto postal carioca obra da natureza, o que no acontece com os rejeitos produzidos pelo homem. Assegura que o material descartado ter apenas terra e rocha, sem ouro e sem produto qumico. No chega a ser explcita nesse aspecto, presumindo-se, porm, que reutilizar todo cianeto aplicado para separar o minrio. O processo mesmo seguro? Nada ela diz a respeito. Os buracos que a lavra a cu aberto vai provocar no local tero 220 metros de profundidade, correspondendo a um prdio de 73 andares. A empresa promete encher os buracos com ter ra e matria orgnica, recobrindo-os com vegetao e restabelecendo a paisagem natural. Ser que a evidente rapidez do processo de lavra ser correspondida pela dinmica da restaurao do ambiente ecolgico, ou o descompasso inevitvel? Nesse caso, quanto tempo depois que cessar a produo ser preciso para as compensaes e correes necessrias? Ou a exausto ser um bom motivo para a empresa se retirar e descartar a responsabilidade, como em numerosos casos da histria da minerao? Os prs e contras mostram que poder ser v a promessa da Belo Sun de iniciar a industrializao de ouro num Estado que, tanto o produzindo, sempre cou como uma provncia mineral, sem avanar no beneciamento da matria prima. Se essa perspectiva tnue demais para um projeto de existncia to curta, pela produo intensiva que adotar, os efeitos negativos sero concretos e duradouros. Melhor, portanto, ir devagar com esse andor dourado porque o santo, na verdade, de barro.Corrupo no BRT: ainda faltam as provasO Dirio do Par de tera-feira, 14, abriu a sua principal coluna, o Reprter Dirio, com uma notcia que classicou de exclusiva. Disse que o resultado da licitao para o BRT Metropolitano, que far a ligao de Belm com Ananindeua, gerou grande desconana. A obra, em valor estimado de 500 milhes de reais, foi arrematada por construtora paulista. O que mais chamou ateno, garantiu o jornal do senador Jader Barbalho, foi que sem alarde, em uma sexta-feira [dia 10], o governo do tucano Simo Jatene consagrou vencedora a nica participante do certame. O jornal estranhou uma coincidncia: a vencedora por WO a mesma que j fez o BRT de Belm, do prefeito cassado e empossado Zenaldo Coutinho, a Ala Viria, o Hangar Centro de Convenes, o restauro da Casa das Onze Janelas e a reforma da ponte do Moju. Relata o Dirio : A empresa paulista, junto com outras scias sempre paulistas, apresentou seu envelope na sexta-feira, novamente, coincidentemente, a nica proposta da licitao. Acrescenta o jornal: Quem entende, diz que o edital foi feito por alfaiate, no servindo mais ningum e afastado at mesmo as parcerias paraenses. Observa que editais desse tipo so os mais visados pelo Ministrio Pblico, quando estranhamente resultam em licitao de uma empresa s. O jornal questiona o que far a Jica, a agncia de cooperao internacional do governo japons, que projetou e nancia o BRT. E arremata com veneno e mistrio: O alfaiate terno 45 [nmero da sigla do PSDB] teria deixado tudo sob medida, excluindo qualquer outro de tentar, especialmente os paraenses, tudo para a paulistana, sua menina dos olhos. Estranho tambm o procedimento do jornal: no deu o nome da construtora paulistana, a Paulitec, nem o das suas scias no consrcio, a Companhia Ferreira Guedes e a Tiisa Infraestrutura e Investimento. At agora a sua proposta, a nica apresentada e recebida, no foi aberta nem publicada a ata da sesso de recebimento. Nem mais nada. Se a denncia de corrupo que o senador Jader Barbalho fez, duas semanas antes, se materializou na nota do Reprter Dirio, ento ele precisa voltar ao assunto com mais informaes. A estranheza, de qualquer maneira, procede. E se a prefeitura nada teme, convm que esclarea a questo.

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12 Quem queria ser assinante da Folha do Norte ti nha que ir at os escritrios do jornal, dentro do expediente normal, das 8 s 11 e das 15 s 17 horas. Mas deviam ir com a devida antecedncia, a m de evitar os atropelos que as providncias de ltima hora sempre acarretam. No havia corretores da empresa atrs de assinantes. Os grandes jornais no precisavam usar esse recurso. As pessoas que os procuravam, deles necessitadas para se informar melhor. No s os leitores como tambm os anunciantes. No havia marketing nem promoes. Era a fase urea da imprensa em papel impresso.Quem no pagava as suas dvidas do jornal era chamado atravs das suas pginas. Eram bem conhecidos os chamados da Folha do Norte. Num deles, o jor nal precisa falar com Francisco Lima, proprietrio da Casa Lontrinha, que cava na Ocidental do Mercado (de carne), no Ver-o-Peso, e com Estanislau Vasconcelos, na 13 de Maio. Os nominados tratavam de ir sede do jornal, na Gaspar Viana (onde depois se instalou O Liberal, antes de se transferir para a 25 de Setembro, que virou Romulo Maiorana). Quem recalcitrava, era intimado de novo. Havia 15 pontos de txi (sem taxmetro) em Belm, frequentados pelos famosos automveis americanos contrabandeados: Aliados, So Francisco, Camaleo, Central, do Comrcio, Jabuti, Palcio, Pescadinha, Pontiac, So Cristvo, Brasil, Avenida, Moderna, Posto Universal e Jurunense. Os carros de aluguel, como se dizia, no circulavam aleatoriamente pela cidade. Ficavam acantonados nos seus pontos espera de chamadas, feitas pelo telefone. Todos possuam um aparelho, tambm conhecido como de automtico.Anncios publicados na imprensa reetindo a poca, idois anos depois de nda a Segunda Guerra Mundial: *Explodiu a bomba atmica na Flor da Primavera. Sedas, linhos, tropicais e algodo por preos abaixo do custo, diferente de todas as outras casas que esto fazendo queimas [liquidaes ] na cidade. Esse formidvel incndio comear dia 4, sexta-feira. Aguardem e no percam a oportunidade de boas compras. Joo Alfredo, 33. Fone 1970. *Notcia de ltima hora. Paraenses amigos: a to esperada baixa de 10, 20 e 30% chegou. Preos baixos acessveis a todos. Visitem a Boa Fama, a cooperativa do bolso em calados. Por preos iguais, Jamais! *Gato de Botas e Quinado Borges. Experimentem estes deliciosos vinhos por tugueses de S. V. Borges& Ir mo Ltda. venda em todos os Armazns e Bares. Agentes em Belm: Higson&Co.Compraram passagens para Portugal no paquete Hilary os comerciantes da praa de Belm Antnio Rodrigues Santiago, Jaime Nunes Alves, Ildefonso Paes de Figueiredo (com a famlia), Joaquim Tavares Nogueira, Adriano Tavares da Costa (ex-presidente da Tuna Luso, que ainda era Comercial) e Sabino de Matos. Mais uma excurso terrinha.Aniversariava Sara Rof Lemos, quintanista da Faculdade de Medicina do Par, filha do dr. Ferreira de Lemos, conceituado ofColcho duradouroO colcho de molas Imperador, fabricado no Par mesmo, devia ser realmente durvel. A garantia era por nada menos do que 10 anos. S tinha dois pontos de venda: na loja prpria, na avenida Independncia (atual Magalhes Barata) e na Casa Bibelot, na 13 de Maio.EM 1947

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13 talmologista paraense, e de Sol Rof de Lemos. Tambm era dia de anos de Letcia Lavina Rego, lha de Carlos (Maria) Morais Rego. Palmira da Silva Brito completava 14 risonhas primaveras, numa existncia perfumada de rosas. O registro garantia que no lhe faltaro, de certo, os beijinhos de suas amiguinhas e os parabns dos que lhe estimam.Belm contava ento com 11 cinemas: Olmpia, Iracema, Poeira, Moderno, Guarani, Universal, Independncia, ris, S. Joo, Popular e Vitria. Para todos eles o juiz de menores, Joo Tertuliano de Almeida Lins, designou comissrios de polcia e ociais de justia.Eram comissrios de polcia nessa poca personagens pblicos, como Igal Caetano Sarmanho, Agostinho de Oli-Natal com GuaraSucoComemorao do natal de 1965 na Rdio Marajoara, dos Dirios e Emissoras Associados, junto com a TV Marajoara e o jornal A Provncia do Par De palet, os dirigentes da rede de veculos de comunicao de Assis Chateaubriand (o Roberto Marinho dos anos 1950/60) no Par, da direita para a esquerda: Agostinho Monteiro (que era vice do governador Jarbas Passarinho), Milton Trindade (suplente de senador do mesmo Passarinho, um ano depois), o carioca Alfredo Sade e Roberto Jares Martins, que superintendia as emissoras de rdio e televiso, sempre o mais elegante. mesa, o guaran GuaraSuco, aquele que estava em todas. veira Viegas, Expedito Castelo Branco Leo, Osvaldo Sampaio de Melo (que viria a ser prefeito de Belm, secretrio de governo deputado estadual e deputado federal), Evandro Rodrigues do Carmo, Artemio de Almeida Lins e Edgar Maia Lassance Cunha (futuro desembargador).Como dependiam da fracassada Companhia de Eletricidade Paraense, os moradores de Icoaraci, na maioria das vezes sem luz, dependem de lanternas para se locomover. Sua luz era focada imprudentemente nos rostos dos transeuntes, sujeitando-os a vexames e possveis atentados a sua integridade fsica. A situao estava mudando, graas instalao de dois geradores conjugados de energia, que seriam seguidos por mais um par. Com esse grande melhoramento, a populao j podia colocar para funcionar os seus rdios e frigidaires, integrando-se assim numa relativa fase de progresso E guardar as lanternas.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Os preferidos dos paraensesPor uma educao melhor: escola particular ou pblica?A maioria dos estudantes que chegam s instituies particulares de ensino superior tem um perl triste: um aluno malformado em escolas pblicas, com graves decincias de aprendizado e falta de domnio da Lngua Portuguesa e de Matemtica. Tambm no pode pagar as mensalidades e depende de programas sociais do Governo. O diagnstico, com base nos dados do Censo da Educao Superior, na sua ltima verso, de 2015, do mestre e doutor em direito Jangui Diniz, em artigo publicado em O Liberal. Ele prprio aponta a soluo, j na condio de reitor da Uninassau, de Per nambuco, e da Unama, do Par, alm de presidente do conselho de administrao do grupo Ser Educacional: nanciar os estudantes para que eles possam frequentar alguma das mais de duas mil faculdades, centros universitrios e universidades da iniciativa privada, claro. Graas aos empresrios da educao, a populao universitria representa 4% da populao do pas. Antes do golpe militar de 1964, o Centro Popular de Cultura da Une criou e montou o Auto dos 99%, para lamentar que os universitrios fossem apenas 1% da populao nacional. Em mais de meio sculo, com o concurso das instituies da iniciativa privada, nanciada pelo poder pblico, atravs dos seus alunos apoiados por bolsas, a populao universitria cresceu 400%. D para se alegrar e comemorar? Se no fosse empresrio do segmento educacional, o mestre e doutor em direito talvez conclusse do seu diagnstico que o melhor para a nao seria bons investimentos do ensino fundamental e mdio. Fazer com que, dentro de escolas pblicas, a criana e o adolescente dispusessem dos melhores recursos pedaggicos e educacionais para concorrer ao ensino gratuito, hoje reservado aos mais abonados. Eles seguem caminho inverso. Estudam em escolas particulares, que se tornaram ainda melhores (porque com maior demanda por parte de famlias com maior poder aquisitivo) do que a decadente escola pblica, vtima de m gesto, demagogia, politicagem e abandono dos critrios de qualidade. Por isso, os filhos dos mais ricos ocupam a maioria dos lugares nas escolas pblicas, enquanto os mais pobres tm que se pendurar em dvidas para frequentar escolas particulares, cuja qualidade, descontada as constantes greves dos professores, servidores e mesmo de alunos (por iniciativa prpria ou como adeso), muito inferior. Continuar assim se a soluo do mestre e doutor Jangui Diniz for a adotada. Ou melhor: voltar a ser adotada, como j foi sob os dois governos do PT, que, por sua incompetncia at nesse mtier, afundou quando os recursos escassearam e a inadimplncia. O mestre e doutor no est atrs de uma sada para o sofrido e mal formado Brasil, mas para ele mesmo e sua empresa. A Unama j no a instituio de ensino superior privado preferida pelo consumidor de Belm. Ficou com 19,22%, enquanto o Cesupa alcanou 19,22%, segundo a ltima pesquisa Top de Negcios, que o Bureau de Marketing e Pesquisa fez para o caderno de negcios do Dirio do Par. Bem atrs, a Fibra cou em terceiro lugar, com 7,87%, em ligeira vantagem sobre a Estcio e a Esamaz, com os mesmos 7,04%. Mas j h tanta faculdade que as outras instituies, no individualizadas, somaram 38,38% das preferncias.. No segmento hotis, o Grand Mercure (antigo Crowne), com 14,19%, e o Regente (12,79%) superaram o ex-Hilton, atual Princesa lou, que cou empatado com o Vila Rica. Quase metade das indicaes (46,84%) foram feitas para outros hotis, indicando um nivelamento por baixo. Liderana incontestvel a do grupo Lder no supermercado de varejo, com quase o dobro (34,58%) do Formosa (16,45%), que tem prximo o Atacado (11,45%) e o Armazm (10,83%). O Nazar est mais distante: 5,71%. A Yamada desapareceu. O segmento de maior dinamismo, que ameaa ocupar espaos das lojas de varejo, o chamado atacarejo, misto de varejo e atacado. A liderana do Atacado (24,92%), com a boa distncia do Lder (16,66%). O mais novo do setor, o Assa, do grupo Po de Acar, j tem 6,08%, na quinta posio. Veio com disposio, estacionamento e preo baixo. Errata A edio anterior deste jornal saiu com muito mais erros do que o tolervel. At repetio de incio de matria ocor reu: a do cheiro ruim no sorteio do novo relator da Lava-Jato no STF no p do texto sobre a ao da polcia paraense nos casos de massacre. Mais uma vez, per do, leitores.

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15 De Passarinho a CloA dedicatria de Jarbas Passarinho, datada de Braslia, em 1973, ao velho Clo, a quem chama de bom e leal amigo. Ao advogado, ex-deputado estadual e lder poltico em Santarm, Clo Bernardo de Macambira Braga, o ento ministro oferecia este exerccio literrio em homenagem ao seu insupervel amor pelo Homem. O exerccio literrio o romance Terra encharcada com o qual o ento major do Exrcito ganhou o prmio Samuel Wallace Mac Dowell de 1959 da Academia Paraense de Letras, da qual era associado. Passarinho escreveu o livro em 1948, quando era tenente instrutor da academia militar. Alterou ligeiramente o texto original para concorrer ao prmio. Os jurados que o declararam vencedor disseram que a histria mostra a reao de dois seres humanos cada um em um plano diferente diante da degradao e da misria. um protesto contra a sociedade, contra a indiferena dos poderes pblicos, contra a corrupo e o poder dos grupos plutocratas. Passarinho se inspirou num fato real dos anos 1920: a revolta dos trabalhadores braais do imprio do coronel Jos Jlio de Andrade no vale do rio Jari (onde, depois, se instalaria o milionrio americano Daniel Ludwig). Liderados por um retirante cearense, um arig, Gensio, os seringueiros, extratores de castanha, caadores, pescadores e outros trabalhadores fugiram das condies de autntica escravizao, chocando Belm quando surgiram no porto famintos e doentes. A dedicatria muito expressiva porque Passarinho servia ditadura militar, que cassou o mandato e suspendeu os direitos polticos de Clo Bernardo, em 1964. A edio, de 236 pginas, foi publicada pela editora por tuguesa Livros do Brasil, na coleo Livros do Brasil, com um bonito desenho de Dorindo de Carvalho na capa. No h qualquer sinal indicando que Clo leu oo romance, que Passarinho dedicou sua mulher, Ruth.Raymundo Moraes foi um comandante de gaiola, navio que fazia a ligao das principais cidades ribeirinhas da Amaznia e era o principal transportador de cargas na regio. No timo, percorreu muitas vezes os rios, parando em todos os locais da linha. Acumulou histrias numerosas e ricas, que usou em 14 livros de sucesso na poca, ainda com bom preo e vendagem em sebos espalhados pelo pas. O valor desses livros irregular. Meu dicionrio de coisas da Amaznia, em dois volumes, uma preciosa fonte de informaes sobre a histria, o folclore e a geograa da regio. Outros, com pretenso cientca, perderam o interesse. H um que a beaticao de um per sonagem que no merecia tantos louvores sem sustentao, o coronel Jos Jlio de Andrade, o dono do rio Jari (e um dos livros mais difceis de encontrar, talvez porque o homenageado comprou toda a edio ou o homenageador se ar rependeu do cometimento, retirando-o at da sua bibliograa). O livro de Raymundo Moraes mais bem sucedido foi Na plancie amaznica A edio mais recente que tenho, dentre todas que comprei em sebos, principalmente em So Paulo, a 6, de 1960, que j no teve mais prefcio do autor (o ltimo que escreveu foi o da 5 edio, de 1938). A edio, em 232 pginas, da Conquista, do Rio de Janeiro, com ilustraes de Israel Cysneiros. A leitura desse volume til, mas o que mais me interessou neste registro foram as dedicatrias, que demonstram certo servilismo de Raymundo Moraes pelos poderosos. Exatamente por isso, as referncias so um quem quem das pessoas inuentes na Repblica Velha no Par e na Amaznia, acrescidos de trs personagens nacionais: Pedro Calmon, Gustavo Barroso e Cndido Mariano Rondon. So citados por Raymundo Moraes Dorval Porto, Santana Marques, Dejard de Mendona, o irmo marista Pedro de Alcntara, Acilino de Leo, Artur Virglio, Jaime Aben-Athar, S Peixoto, Carlos Fernandes, Paulo Emlio, Caio Valadares, Otvio Oliva, Alberto Autran, Aristides Rocha, Oscar de Carvalho, Adriano Jorge, Edgard Chermont, Alves de Sousa, Agnello Bittencourt, Henrique Santa Rosa, Deodoro de Mendona. Valia a pena reeditar as obras de Raymundo Moraes, anotadas e corrigidas. Ou pelo menos montar as biograas de todas as pessoas s quais dedicou seus livros. Seria um rol de personagens da I Repblica, sob a tica do autor.

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O eco de UmbertoUmberto Eco, cujo primeiro ano de morte foi lembrado no dia 19, o melhor modelo, para mim, do intelectual que transitou da era do humanismo, da sabedoria muitas vezes enclausurada em bibliotecas e gabinetes, para o combate de rua do nosso tempo, sem perder a herana da cultura constituda nem se deixar fascinar pelos meios de expresso postos disposio pelo mais acelerado processo de inovao tecnolgica da histria da humanidade. Li quase todos os seus livros, inclusive e principalmente o que lhe deu fama e dinheiro, sem desnatur-lo: O nome da Rosa, de 1980. Li e reli a trama criminosa, transplantada da Idade Mdia como um noir do nosso gosto de admiradores de Chandler, Stout, Hammet ou Simenon, dentre tantos mestres subestimados de uma literatura nica. Vi e revi a primorosa verso cinematogrfica, criada com maestria para quem gosta de aventura e de inteligncia, de ao e livros. De livros, principalmente. Mas o que mais li o menos citado deles: o Dirio Mnimo conciso, culto, espirituoso e muito pedaggico make-off de O Nome da Rosa, que passou inclume pelos leitores brasileiros. Graas intensa vendagem dos seus livros, Eco construiu uma verso dos fascinantes mosteiros europeus, guardies do acervo de conhecimentos durante a sempre mal conhecida Idade Mdia: a sua biblioteca em Milo, onde morava. Uma verso prpria do que foi a biblioteca de Jos Mindlin em So Paulo, o sbio paulista mais bem sucedido ainda nesse labor do que o intelectual italiano. A frase um chavo, mas nele tem vida: Umberto Eco deixou um buraco enorme no nosso mundo, que ningum preencher. Pode-se dizer melhor do gnero humano que sempre morre? O crculo quadrado da educaoVai completar exatamente 70 anos o artigo a seguir reproduzido. Guilherme Ferreira o escreveu na Folha do Norte, de julho de 1947, em resposta a outro artigo, assinado por um certo Rivato. Mas pode ser lido hoje com enorme proveito e a sensao de que tudo mudou para tudo continuar como antes, o debate dito avanado girando pela quadratura do crculo a um ponto anterior. E como escrevia bem o Guilherme! Caracterstica cada vez mais difcil nos nossos dias.Meu distinto confrade: Estou contra v. Rivato e lano o meu protesto contra o apelo que v. faz ao Departamento de Educao para que intervenha no caso das professoras datilgrafas, forando os dirigentes das escolas a s dar diploma a quem tiver o curso secundrio. o cmulo exigir curso de humanidades para quem deseja apenas ser datilgrafo. Estudar sete anos, fazer um curso clssico [variao do que hoje o ensino mdio] para conseguir um diploma de datilgrafo demais. desumano. Depois, cada qual no seu ofcio. O datilgrafo tem o dever de bater muito bem a mquina que lhe entregam. datilgrafo e no escrevente ou securitrio. O mal da burrice que est contaminando a cabea dos moos no deles, nem nossa, nem da falta do curso secundrio. do Gustavo Capanema e do Estado Novo, exclusivamente. Reformaram muito o ensino e sempre para pior. Atrapalharam tudo, empenhados em que ningum sentisse o mal da predestinao do ditador para o Brasil. Estudar hoje em dia um martrio dos maiores. Passa-se mais tempo aprendendo do que praticando. O mal do ensino capaneano. Abriram a car tilha do ABC. Inventaram as imagens. O soletrar para aprender depressa e melhor tambm aboliram. Querem que o raciocnio trabalhe e produza antes da luz do analfabetismo nele penetrar. Coisas do Estado Novo, meu velho. H dias foi publicado um telegrama do sul, no qual se prova que os humanistas de hoje estudam 90 horas por semana, o que crime. O que se torna necessrio ensinar portugus, mas ensinar mesmo, nos grupos e nas escolas primrias, vericando antes se as professoras o sabem... Uma casa s pode oferecer segurana se tiver um slido alicerce. O alicerce da inteligncia humana o ensino primrio [o atu al fundamental ]. Voltemos ao mtodo antigo e a coisa ser outra. Sabe v. que existem doutores por este Brasil afora que com anel, diploma e cartaz, no sabem escrever um requerimento nem redigir uma carta... Perdoemos, portanto, os datilgrafos que queriam ser jornalistas e ganhar honestamente o po nosso de cada dia na mais desgraada de todas as prosses, enquanto Ditadura for Democracia e a Democracia necessitar de Ditadura para no desaparecer...