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Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a VIOLNCIAO Estado o crimeAs penitencirias se tornaram as bases a partir das quais os principais lderes do crime organizado comandam estruturas que movimentam milhares de pessoas pelo submundo, s vezes com a cobertura do mundo oficial. Como impedir que cresa e se imponha? Depois da rebelio no Complexo Penitencirio Ansio Jobim, em Manaus, que irrompeu no dia 1 e provocou a morte de 56 presos (mais quatro na unidade prisional vizinha), 38 deles decapitados, uma onda de brbaras execues em penitencirias elevou para 138 as vtimas no primeiro ms de 2017. Na sucesso de acontecimentos desse tipo, nunca houve nada to selvagem e sangrento em to pouco tempo. Talvez nem na histria mundial em tempo de paz. Depois de um tempo preocupante na inrcia, a principal autoridade pblica nalmente reagiu. No com uma providncia altura da gravidade dos fatos, mas com as medidas de sempre, que, repetidas, em nada alteraram a sequncia de violncia em grau espantosamente crescente no Brasil.O presidente Michel Temer simplesmente anunciou o repasse de verba extra aos Estados, deslocou inexpressivo contingente da Fora Nacional, autorizou o uso das Foras Armadas e anunciou a construo de novos presdios.

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2 Ou seja: passada a emergncia, que tanto impacto teve, tudo voltar situao normal, que a traduo omissa, conveniente e conivente da anormalidade. Ela atingiu uma escala tal que desaa o poder pblico e ameaa todos os cidados. As rebelies, seguidas de chacinas em trs presdios (dois no Norte e um no Nordeste), podem ser um estopim descontrolado nos locais de reteno de criminosos (provados ou no, sentenciados ou ainda espera de julgamento, primrios ou extremamente periculosos). Provavelmente se estendero para as ruas e, na escala de evoluo, o interior das residncias, dos estabelecimentos comerciais, das fbricas, dos rios e tudo mais da vida em coletividade. Nada ameaa mais a ordem pblica brasileira no momento do que o crime organizado, que j se tornou um Estado dentro do Estado. Milhares de integrantes so recrutados permanentemente, mantidos, remunerados, ar mados e comandados graas, principalmente, a todas as foras de assalto e a uma fonte principal: o trco de drogas. um negcio de bilhes e bilhes de reais, em condies de suportar uma estrutura paralela mais eciente e agressiva do que a do Estado, em todas as suas gradaes: do poder central aos ncleos municipais. Por seu poder, o crime organizado j penetrou na engrenagem ocial e produtiva do pas, confundindo-se com criminosos de colarinho branco que lhe do uma feio de respeitabilidade falsa e o camuam, quando necessrio. A corrupo brasileira, j reconhecida como a maior do mundo, produto desse fenmeno. Ele no mais uma intruso, mas uma penetrao que se inltrou pelos corpos da sociedade. O prximo passo ser um desastre nacional sem precedentes. No pode ser tratado com a medocre viso dos que no enxergam essa dimenso excepcionalmente ameaadora, como faz o governo Temer. Segundo as estatsticas disponveis, dos 622.202 detentos que constituem a populao carcerria do Brasil, a quar ta maior do mundo, 174.216 (ou 28%) foram condenados por vender entor pecentes. Uns so tracantes de peso, outros fornecedores de papeluchos de maconha, em doses que servem apenas ao consumo individual. A posio ocial trata-los por igual da mesma forma: pelo encarceramento. Do outro lado, h uma vasta pluralidade de diagnsticos e solues. O governo e as entidades representativas da sociedade deviam tratar de estimular um debate intenso para dele extrair uma poltica pblica efetiva mas imediata, urgente e ecaz. No pode continuar a simplesmente repetir o passado, de desastrosa tradio, ou se imobilizar num debate acadmico sem objetividade. Nesse terreno rido para a fruticao de um combate altura da importncia que o crime organizado assumiu, ganhou destaque o juiz da vara de execuo penal de Manaus, Lus Carlos Honrio de Valois Coelho. Ele se tornou nacionalmente (e talvez internacionalmente) conhecido ao inter mediar a liberao dos refns dos presos que se rebelaram na penitenciria de Manaus, a pedido da Secretaria de Segurana Pblica, por ser o responsvel pelos presos de justia. Logo em seguida, o jornal O Esta do de S. Paulopublicou reportagem relembrando investigaes realizadas pela Polcia Federal na segunda fase da operao La Muralla sobre a suposta ligao de juzes da capital amazonense com integrantes da faco criminosa Famlia do Norte (FDN), que controla o trco de drogas no Estado e foi o responsvel pelas matanas no complexo penitencirio amotinado. De fato, h sete meses a casa e o gabinete do juiz foram revistados pela PF, cumprindo mandado judicial, depois que o nome dele apareceu em conver sas de advogados de presos gravadas no curso das investigaes. Valois considerado autoridade em questes de trco e de sistema prisional, com doutorado em direito penal pela Universidade de So Paulo e trs livros publicados, o que pode ter servido de estmulo a uma investida. Mas ele rebate frontalmente a acusao. Em entrevista revista eletrnica Pblica destacou que continua trabalhando normalmente, ao contrrio ressalta a publicao da desembargadora Encarnao das Graas Salgado, afastada desde junho do ano passado, por determinao do Superior Tribunal de Justia por suspeita de ligao com a FDN. Suas opinies lhe renderam ameaas de morte pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), rival da FDN, e a pecha de defensor de bandidos em setores da imprensa e das redes sociais. Valois, no entanto, no acusa a polcia de perseguio. Prero acreditar que foi um equvoco, disse, mas observando que as ameaas contra ele se intensicaram depois da reportagem doEstado que no lhe deu o direito de resposta, embora o magistrado tenha concedido entrevista de mais de 20 minutos quando a reportagem foi publicada. Nas quase seis horas no Compaj, Valois conseguiu a libertao de trs dos 10 refns, alm da promessa de que outros dois seriam soltos. O juiz ento foi para casa e voltou no horrio combinado. Mas quando entrou no presdio, viu que j no havia mais nada para mediar. As galerias estavam apinhadas dos restos da barbrie braos, pernas, corpos sem cabea ecor pos carbonizados. Transcrevo trecho, para mim signicativo, da entrevista revista eletrnica especializadaConjur Para ele, a crise carcerria e a criminalidade s sero efetivamente resolvidas quando o uso e o comrcio de drogas forem regulamentados. Com isso, as faces se enfraqueceriam sem o dinheiro ilegal vindo do trcoe a polcia poderia se concentrar em prevenir crimes mais violentos, como roubo e homicdio, acredita o juiz.Como o senhor avalia as medidas anunciadas pelo governo para combater a crise carcerria, como a construo de novos presdios federais, repasses para criao de novas prises estaduais e bloqueio de sinal de celular nas cadeias? Tudo isso paliativo. H duas opes: construir mais presdios, e prender mais gente, ou prender menos gente. Para prender menos, vai deixar de prender quem? Os que praticaram pequenos furtos? O impacto vai ser muito pequeno, fora que o conceito do que pequeno furto muito sub-

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3 jetivo. Vai prender menos que praticaram roubo? A sociedade no vai aceitar. Ento, o nico caminho que eu vejo para diminuir o encarceramento em massa que h no Brasil repensar a poltica de drogas. O mercado de drogas trata de relaes comerciais voluntrias. A pessoa vai l e compra a droga, no h violncia. Com o uso e comrcio de drogas regulamentados, sobra dinheiro para o Estado investir em sade, educao, e na polcia, que poderia se concentrar em evitar crimes mais graves. E, alis, nesse sentido, legtimo e constitucional o Estado proibir que uma pessoa use uma substncia que vai prejudicar ela mesma? Eu concordo com a [juza aposentada ] Maria Lcia Karam: inconstitucional proibir o uso de drogas. Em um Estado democrtico, onde as liberdades pessoais esto acima de qualquer coisa, no deve ser considerada legtima essa proibio. Mas eu no digo s do uso. Se a gente s descriminalizar o uso, o que o usurio vai consumir? Droga suja? Droga misturada? As overdoses sempre ocorrem porque a pessoa no sabe o que est consumindo seja por que a droga misturada com outras substncias e a pessoa no sabe, seja porque ela pura, mas a pessoa acha que misturada e usa mais. Ns vivemos em uma sociedade de livre mercado, onde a livre concorrncia estimulada, onde o lucro estimulado, e a criminalizamos uma relao comercial como a das drogas? Isso um contrassenso. Que medidas poderiam ser tomadas para desarticular faces criminosas? Os presdios federais falharam nessa misso? Tenho certeza disso os presdios federais at estimularam o crescimento das faces. Aqui em Manaus, por exemplo, no existiam faces at criarem o presdio federal. O primeiro preso que foi para a penitenciria federal voltou com status elevado no meio carcerrio, dizendo que ele era lder e tal, e a esses grupos comearam a se organizar. Agora, acabar com isso impossvel, porque lder de pavilho, lder de uma penitenciria especca, sempre existiu. S que agora a gente permitiu que eles tivessem nome, passou a legitim-los s falta a gente registrar o Primeiro Comando da Capital no car trio. Se a imprensa est legitimando, se o Estado est legitimando a faco criminosa, est negociando com a faco, est chamando preso de lder, a, sinceramente, pode comear a escrever sobre Direito Penal tudo de novo. E isso tambm passa pela regulamentao das drogas, porque as drogas que nanciam essas organizaes. O que o senhor tem a dizer das acusaes da Polcia Federal de que teria ligaes com a Famlia do Nor te, pois foi citado em uma conversa entre integrantes da faco? A Polcia Federal normalmente formada por pessoas de fora do Amazonas que passaram em um concurso e vieram para c. Quem me conhece sabe do meu trabalho, sabe que eu sou respeitado pelos presos porque fao um bom trabalho no sistema penitencirio. Mas a polcia est na guerra, no combate do dia a dia, ento ela v um juiz sendo elogiado por um preso, natural que ache que o cara suspeito, e at que o investigue. Mas claro que foi um equvoco eles acharem que eu tinha ligao com a FDN. Eu no tenho conivncia com faco e nem legitimo isso. S trato todos os presos com respeito, como eles tm que ser tratados. Por isso eu tenho a considerao deles. O senhor acha que h uma certa perseguio a juzes mais garantistas ou defensores dos direitos humanos? Sim, porque o discurso de dio que tem prevalecido tornou o cumprimento da lei irrelevante. As pessoas no esto mais preocupadas com o cumprimento da lei, desde que a pessoa seja punida, que presa. As pessoas falam com orgulho que os presos tm que morrer. Olhe as declaraes depois dessa rebelio: gente comemorando mortes de seres humanos, estimulando, inclusive, a morte de mais presos. O secretrio nacional de Juventude, Bruno Jlio, disse que tinha era que matar mais, tinha que fazer uma chacina por semana. Como pode um negcio desses? Esse discurso, um discurso pr-violao da lei, faz com que as pessoas que sejam legalistas aparentem ser progressistas. Antigamente, o progressista era aquele cara que queria algo a mais que a lei, garantias a mais do que a lei previa, Justia alm da lei. Hoje em dia, quem cumpre a lei progressista, parece que de esquerda. E esse discurso de dio tambm atinge o Judicirio. Cumprir a lei hoje em dia perigoso. Aqueles que so contrrios regulamentao das drogas alegam que haveria uma exploso no uso de entorpecentes, aumentando consideravelmente os gastos com sade pblica. O senhor concorda com esse argumento? Eu no sei quem so essas pessoas que esto doidas para fumar maconha, mas esto esperando ela ser legalizada para fazer isso. Eu no conheo ningum assim.No sei quem so os ingnuos. Que outras medidas poderiam ser tomadas para melhorar o sistema prisional a curto e a longo prazo? o que eu falei: ou constri mais penitencirias ou desencarcera. A cur to prazo, o caminho construir vrias penitencirias, no ? A longo prazo repensar a poltica de drogas. E a longo, longo, longo prazo inclusive, extinguir a pena de priso. No acredito que daqui a 200, 300anos, a gente ainda esteja punindo o ser humano com esse tipo de punio. A pena de priso no funciona? No, no funciona. Voc no vai ensinar uma pessoa a viver em liberdade enquanto ela est encarcerada. Ningum aprende a nadar fora da piscina. Imagine uma aula audiovisual de natao por mais que voc assista a vdeos e palestras, na hora que entrar na gua, vai morrer afogado. E que outras penas poderiam ser aplicadas em vez da priso? Temos um grande leque de penas alternativas, que inclui prestao de servios comunidade, limitao de ns de semana, monitoramento eletrnico... Se o monitoramento eletrnico evoluir tecnicamente, a pessoa poder car presa em casa, sem a gente car pagando para reunir presos. Nas prises, a gente paga para os criminosos se reunirem. Isso muito ir racional. Quanto menos pessoas presas, melhor para a sociedade. A priso crimingena.

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4 O sistema penal brasileiro muito rgido? H crimes punidos com priso que poderiam ter penas alternativas? Com certeza h. Crimes de menor potencial ofensivo, como injria, calnia, difamao e porte de arma e delitos de trnsito poderiam ser resolvidos na delegacia. Mas o Judicirio ainda muito preso a uma viso que considera a priso como nica forma de punio. O ensino jurdico um ensino altamente tcnico, fraco de Filosoa, Cincia Poltica, Psicologia... Ou seja, voc forma um profissional em Direito Tcnico. E por ser tcnico, qualquer discurso ideolgico encaixa nele. O tcnico do Direito no consegue discernir que o discur so geral, o discurso de dio, est tendo um efeito na sua conduta, no seu trabalho, ento ele acaba sendo um tcnico com dio. Ns formamos prossionais sem capacidade de fazer reexo sobre princpios do Direito, sobre a Filosoa do Direito, at sobre como aquele dio est inuenciando a sua prtica jurdica. E muitos desses tcnicos acabam ingressando na magistratura, e s veem a priso como um mecanismo. Muitos juzes no conseguem per ceber, por exemplo, que os seus rus so s negros e pobres; para eles, se ru, se cometeu o crime, merece a priso. Eles no conseguem perceber a desigualdade social nos prprios trabalhos deles, eles acham que esto fazendo uma atividade tcnico-cientca, e continuam prendendo gente. Ento, o Judicirio um obstculo s penas alternativas. Ento o Judicirio tambm responsvel pela superlotao do sistema penitencirio? Com certeza absoluta. O Judicirio tem uma reserva de poder muito grande, e nunca est disposto a abrir mo dele. Por exemplo, no h necessidade de a execuo penal car concentrada no Judicirio. Para um preso progredir para o regime semiaberto, ele precisa cumprir uma parcela da pena e ter bom comportamento. Quem atesta o bom comportamento o diretor do presdio, e a progresso da pena qualquer um pode calcular. Ento por que a prpria administrao penitenciria j no pode mandar esse preso para o semiaberto? Nesse cenrio, seria possvel at pensar na extino das varas de execues penais. A recente deciso do STF de per mitir a execuo da pena aps condenao em segunda instncia agrava o quadro carcerrio? Agrava, com certeza. Qualquer pessoa a mais agrava o sistema carcerrio. Em uma cela onde cabem oito pessoas e h 30, se voc colocar uma a mais, a situao vai piorar. Aquela pessoa extra pode fazer com que o pessoal daquela cela resolva matar outra dentro para ter espao. Isso acontece no Brasil. a ciranda da morte. Aumentar penas reduz a criminalidade? Est mais do que comprovado que aumentar penas no reduz a criminalidade. Todos os livros de criminologia dizem isso. O criminoso no sai para cometer crime com uma calculadora: Isso eu vou cometer porque d, no mximo, dois anos; isso eu no vou cometer porque aumentou a pena na semana passada. Quando a pessoa comete um crime, ela o faz achando que no vai ser pega, que no vai ser presa. O que estimula a criminalidade a impunidade, no o tamanho da pena. Se voc acha que vai ser preso, se voc tem certeza de que vai ser preso, a pena pode ser de 30 dias que voc no comete o crime. S que a cr iminalidade aumenta porque as pessoas comeam a desacreditar no Estado. E nisso o aumento de penas, na verdade, um estmulo criminalidade, porque quanto mais voc cria crimes e aumenta a pena, mais as pessoas que esto cometendo crimes tm a sensao de impunidade. E como diminuir essa impunidade? Para diminuir a impunidade, precisa aumentar os investimentos na polcia, em investigao. Mas a o que eu disse: a guerra s drogas atrapalha, porque a polcia vai para a esquina, pega cinco, seis, com duas, trs trouxinhas de droga, volta para a delegacia e no investiga roubo, no investiga homicdio. O senhor favorvel reduo da maioridade penal? Claro que eu sou contra. Primeiro que o menor j punido to ou mais gravemente que o maior. Por exemplo, o Champinha [que assassinou o casal de adolescentes Felipe Ca e Liana Friedenbach em 2003, na Grande So Paulo ], se tivesse sido preso como adulto, j estava solto. Eu no sei que pena essa que ele est cumprindo, porque na legislao de menores o princpio da legalidade parece que no respeitado. Em segundo lugar, no Brasil no tem nenhuma separao entre os presos por idade. Ou seja, um jovem de 18 anos ca na cela com um de 30. E um jovem de 16, isso qualquer pessoa sabe, no tem a fora fsica de um homem de 25, 30 anos. Assim, um jovem de 16 anos ou vai morrer, ou vai ter que servir de soldado ou vai ser violentado. Fora que aumentaria a populao car cerria em 31% de um dia para o outro.Selecionei algumas manifestaes de leiores sobre a declarao do juiz. Costa Assuno (Procurador de Justia de 2. Instncia) O magistrado juiz da vara de execuo penal em Manaus. Na entrevista alega merecer a considerao dos presos e diz ser elogiado porque, a seu juzo, executa um bom trabalho no sistema penitencirio. Contudo, termina defendendo, a longo prazo, a extino da pena de priso! Acredita que a priso muito irracional! Que menos pessoas presas, melhor para a sociedade (sic). Para ele, os presdios federais at estimularam o crescimento das faces e no acredita que essas deixem de existir, pois seus lderes nunca se acabaro.O magistrado defende a regulamentao das drogas por entender ser inconstitucional sua proibio. contra a reduo da maioridade penal. Esse mesmo magistrado est sendo investigado pelo STJ, a pedido do MPF, que ingressou com pedido de busca e apreenso contra o juiz, acusado de ligaes com a faco Famlia do Norte (FDN). H fortes indcios de participao do magistrado no ajuste criminoso destinado liberao de presos integrantes do grupo FDN. O ministro Raul Arajo, do STJ, autorizando diligncias contra o juiz, apontou como relevante a informao de que em momento de crise institucional no sistema prisional do Estado do Amazonas, o mencionado magistrado teria solicitado apoio dos presos para permanecer na funo.

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5 De frisar, alm do mais, que considero decepcionante a posio do magistrado em defesa da legalizao das drogas. Nosso pas no tem estrutura e organizao sucientes (caso da Holanda) para scalizar o consumo e uso de drogas. Tampouco aceitvel liberar drogas na suposio de que s far mal ao prprio usurio. Droga problema de sade pblica, causa serssima dependncia. Seus malefcios deixam muitas sequelas, alm de fomentarem aes criminosas. SerpicoViscardi(professor) Pssimas observaes! Emplacar a viso esquerdista mencionada s iria agravar ainda mais o problema. O que pregado nunca foi utilizado com sucesso em qualquer lugar do mundo! O que o Brasil precisa acabar com impunidade;penas proporcionais gravidade dos crimes; tratamento diferenciado entre criminosos eventuais e bandidos de carreira! O plano simples! Complicado colocar em prtica! No Brasil, o problema que todo mundo tem sua opinio e ningum respeita a lei. Juiz progressista est longe de ser legalista. Na verdade so contra a priso, e agem como sabotadores dentro do sistema, contribuindo diretamente para o fracasso dele, para depois critic-lo. Juzes como o de Manaus, no parecem ser maioria, mas onde atuam, causam grande estrago, contribuindo diretamente para o aumento da criminalidade! Observador(economista) H mais de dcada que certas teorias esto frente, ditando as regras de compor tamento da nao, e a tudo inuenciando.Inclusive o Direito. Mas o pas faz gua por todos os lados.Estamos claramente afundando. Agora que, por causa do naufrgio, surgem discursos tentando mostrar outros caminhos, outras vises, vemos os mesmos que nos levaram ao naufrgio apontando estes novos discursos, e seus agentes, como causadores do afundamento do S.S Bruzundanga.... um pas realmente surreal. Do alto dos nossos 60.000 homicdios/ano, falam em discursos de dio. No fundo, qualquer um sabe que no so, em sua maioria, discursos de dio. Sim, tentativas desesperadas da sociedade de ser ouvida em seu medo de morrer ou de ver um ente querido ter a vida ceifada por muito pouco. Pois assim que a vida em nossas cidades. H muitos marginais que tratam o cidado comum (j nem o chamarei de cidado de bem, pois isto tambm visto como um rtulo inexistente e fruto de uma ideologia de Direita), como um nada. A sociedade est cansada de ser morta nas ruas. A reao, que apelidaram de dio, no fundo, um grito de desespero e de medo. Muitos no querem compreender ou no se importam. Luiz Fernando Cabeda(juiz do Trabalho de 2. Instncia) O juiz de execues de Manaus merece respeito porque estava l na priso, em uma situao de grande crise e tomou a iniciativa de agir o que foi profcuo quando se sabe que vivemos no pas das omisses e dos fatos consumados. Entretanto, emite juzos que enquadram mal esses fatos, tm conotao em uma ideologia difusa, que no permite identicao se libertria, propositiva de um outro sistema ou simplesmente ingnua, e assim no conduz a lugar nenhum. At agora, s quem tem pleno domnio do fato (para dar um sentido mais experiencial expresso hermenutica) so as faces criminosas, pois desencadearam uma percepo de VERTIGEM no pas atravs de seu barbarismo. Expresses como cultura do punitivismo, precarizao dos pobres e juiz combatente podem estar na moda, mas no tm nexo para o m que foram utilizadas. So shitstorms. A abordagem no contexto da operao Lava Jato foi completamente demaggica, despropositada e invade a seara grosseira e empiricamente, seja reconhecido da psicologia social, da antropologia e da sociologia, reas em que o entrevistado no est habilitado. Precariado uma palavra inventada pelo professor da Universidade de Londres Guy Standing e se refere s camadas sociais que vinham gozando de uma certa estabilidade e a perderam, tornaram-se declasss, como j diziam os franceses h muito (perderam sua classe social). Ora, isso no ocorre com os pobres, especialmente no Brasil. O juiz de Manaus precisa ordenar sua realidade (Heisenberg) de imediato, sob o risco de no entend-la.As cadeias do ParJos Carlos da Cruz Gonalves foi condenado a 14 anos de priso na vara criminal (nica) de Igarap Miri, em 2007. Mas na guia do seu recolhimento ao Centro de Recuperao Penitenciria do Par CRPP II, em Ananindeua, foi anotado que o regime era o aberto. S depois que a Superintendncia do Sistema Penal informou justia que ele estava cumprindo a pena em regime fechado. A defensora pblica do Estado, Rosineide Miranda Machado se insur giu contra a inexistncia do devido processo de execuo de Jos Carlos, acionando a corregedoria metropolitana do tribunal atrs de esclarecimento. Ao receber a petio, a corregedora Diracy Nunes Alves mandou encaminhar os autos corregedoria do interior para os devidos esclarecimentos, j que a comarca de origem de Igarap Miri. Talvez se saiba, anal, se o preso est na cadeia, se cumpre a condenao em regime aberto, se a anotao errada foi um lapso, se a Susipe o corrigiu de imediato ou o que mais a defensora tenha suscitado em seu ofcio. Ele deixa no ar a sensao de que alguma coisa est errada. Ou muita coisa. Memria do Cotidiano chega ao seu 8 volumeO leitor j encontra em bancas e livrarias o oitavo volume da Memria do Cotidiano a verso em livro da seo deste jornal.

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6 Juiz manda foragido voltar para casaIgarap Miri, a 80 quilmetros de Belm, no Par, o municpio que mais produz e exporta aa no mundo. tambm conhecido como um lugar cada vez mais violento, em contraste com seu passado ribeirinho, marcado pela vida em ritmo lento, ao sabor dos rios amaznicos, que ali sobem e descem todos os dias, conforme a mar. Tornou-se violento por causa da intensicao do trco e do consumo de drogas, desde que passou a se ligar com o mundo por estradas de rodagem, no mais pelas guas. Em 2012, Ailson Santa Maria do Amaral, solteiro, com curso fundamental incompleto, agora com 44 anos, se elegeu prefeito, com 54% dos votos, pela legenda do DEM (e a adeso de sete partidos, includo o PSDB do governador, o economista Simo Jatene). Nenhum dos outros ttulos que podia apresentar seria capaz de eleger Ailson. Com o apelido de P de Boto ele no s mais conhecido: tambm o mais temido dentre os 60 mil habitantes de Igarap Miri. Ele tido no municpio como o chefe da mais violenta milcia local e do trco de drogas. Com muito dinheiro, compra, intimida ou mata pessoas. Mesmo assim, foi eleito. Apesar do aa, Igarap Miri pobre, Seu PIB no chega a 500 milhes de reais. Seu IDH (ndice de Desenvolvimento Humano), de 0,574 (num mximo de um) est muito abaixo da mdia nacional, de 0,755. No foi difcil para P de Boto comprar votos. De forma to escancarada que acabou sendo cassado. Tambm foi denunciado justia pelo Ministrio Pblico do Estado, em 2015. Foram lhe atribudos os crimes de participao em organizao criminosa; trs manobras de obstruo ou embarao no curso de investigao; oito tentativas de homicdio; 15 homicdios consumados em atividade de extermnio. Tudo isso entre 2012 e 2014, quando foi o senhor absoluto do municpio, com poder de vida e morte. Liderava um grupo de extermnio, com 12 pessoas, dos quais seis policiais militares, que executava desafetos e perseguidos pelo ex-prefeito. Em junho de 2015 a denncia do MP foi recebida pelo juiz da nica vara que funciona na comarca. Imediatamente foi decretada a sua priso preventiva e de mais 11 denunciados. A de oito deles foi cumprida. Mas P de Boto fugiu, junto com o irmo e quatro dos PMs. Permanecia em lugar certo e sabido de todos, mas sem ser perturbado pela polcia. Enquanto isso, o processo se alongava. Em 31 de dezembro do ano passado, na vspera das rebelies nos presdios de Manaus, que levaram morte de 60 detentos, o juiz Lauro Alexandrino Santos, recm-instalado no local, decidiu aceitar o pedido que o ex-prefeito zera pouco mais de um ms antes: converteu a priso preventiva em priso domiciliar, mesmo P de Boto estando na condio de foragido havia dois anos e sem preencher qualquer das exigncias do Cdigo de Processo Penal para a concesso desse benefcio. Ele aceitou os argumentos do advogado de P de Boto de que a populao carcerria tem repugnncia pelos delitos dos quais foi acusado. Por isso, ele temia pela violao de sua integridade fsica e por sua vida caso seja submetido ao regime carcerrio, ainda que preventivamente. Sua fuga, quando da decretao da priso preventiva, no foi uma manobra para tumultuar o processo ou causar qualquer tipo de dano instruo, mas sim como forma de exercer legtima defesa prpria e por questo de estado de necessidade. Como o caso de P de Boto ganhou repercusso por meio de jornais, revistas e outros meios de comunicao social de grande difuso, tornando-se tambm de pleno conhecimento na populao carcerria, o ex-prefeito no teria dvidas do dio que tais pessoas teriam contra ele, o que levaria a sofrer todo tipo de violncia e tortura, caso este seja custodiado em estabelecimento prisional comum. Seria um destino certo e inevitvel, uma vez que notrio que os estabelecimentos prisionais no tm estrutura para resguardar a integridade do autor, bem como de qualquer outra pessoa, conforme j foi reconhecido pelo prprio Supremo Tribunal Federal, argumentou o advogado. Seu cndido cliente jamais causou qualquer prejuzo ao bom andamento da ao penal; sempre manifestou seu desejo de exercer sua autodefesa em audincia, contudo no podia o fazer, visto que poderia sair preso da sala de audincias. Na defesa do pedido, o advogado no deixou de ressaltar que P de Boto no utilizou de sua situao econmica para fugir, bem como no agiu de qualquer forma que pudesse desrespeitar a ordem pblica, a instruo criminal ou a aplicao da lei penal; aps um ms em liberdade liminarmente, esteve perante a Secretaria criminal deste juzo para assinar e informar suas atividades laborais. Que no incluram, naturalmente, homicdios e venda de drogas, que continuou a fazer do seu esconderijo, em uma das ilhas do rio Tocantins. Do lado do criminoso foragido, o juiz Lauro Alexandrino Santos, embora admitindo que o tribunal tenha revogado a liberdade provisria, reconheceu a necessidade de proteo do acusado, deixando a cargo deste juzo que tome as providncias necessrias para tal. Generoso e dcil, o magistrado, tomando por base os fatos narrados pelo advogado, no pode descartar a hiptese de aplicao da priso domiciliar ao autor dos homicdios apontados pelo Ministrio Pblico, uma vez que a mesma atingir todos os ns a que se destina a priso do ru; isto o mesmo ter sua integridade resguardada, bem como a manuteno da dignidade da pessoa humana do acusado; e o Estado ter total acesso ao requerente, podendo realizar vistorias a qualquer momento na rea reservada ao acautelamento domiciliar indicada o requerente estar sob a tutela e o controle do Estado com sua dignidade humana preservada e, consequentemente, sua integridade fsica e a sua vida. Essa providncia, alm de se mostrar mais proporcional ao presente caso, possibilitar ao acusado seu interrogatrio, para exercer seu direito de defesa, sem ter que se submeter s mazelas que o esperam no regime penitencirio. Se depender de juzes como o de Igarap Miri, que o nico numa comarca com jurisdio sobre rea de dois mil quilmetros quadrados, os criminosos no iro mais para os presdios: per manecero em suas casas, devidamente custodiados pelo poder pblico. Apesar de provocado, o tribunal de justia do Par se mantm calado sobre a atitude do juiz.

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7 Para dar uma ideia mais aproximada sobre a gravidade da deciso do titular da vara nica da justia em Igarap Miri, selecionei os trechos mais representativos da sua sentena: Pleito que merece maior ateno o de priso domiciliar em favor do denunciado Ailson Santa Maria do Amaral. Os fundamentos ftico-jurdicos apresentados pelo requerente se alinham da seguinte forma: reconhecendo a gravidade dos de litos aos quais est sendo acusado, bem como sabendo da repugnncia que existe pela populao carcerria, alm de temer pela violao de sua integridade fsica e por sua vida caso seja submetido ao regime carcerrio, ainda que preventivamente precisou foragir-se, no como uma manobra para tumultuar o processo ou causar qualquer tipo de dano instruo, mas sim como forma de exercer legtima defesa prpria e por questo de estado de necessidade; o caso ganhou repercusso por meio de jornais, revistas e outros meios de comunicao social de grande difuso; cer tamente tambm de pleno conhecimento na populao carcerria, motivo pelo qual no h dvidas do dio que tais pessoas tem contra o ru, o que levaria a sofrer todo tipo de violncia e tortura, caso este seja custodiado em estabelecimento prisional comum, o que impossvel de ser evitado, uma vez que notrio que os estabelecimentos prisionais no tem estrutura para resguardar a integridade do autor, bem como de qualquer outra pessoa, conforme j foi reconhecido pelo prprio Supremo Tribunal Federal; jamais causou qualquer prejuzo ao bom andamento da ao penal; sempre manifestou seu desejo de exercer sua autodefesa em audincia, contudo no podia o fazer, visto que poderia sair preso da sala de audincias; tendo sido concedida liminar em habeas corpus, imediatamente apresentouse a este juzo, colocando-se disposio para a aplicao das medidas cautelares diversas da priso aplicadas pela relatora do writ; no utilizou de sua situao econmica para fugir, bem como no agiu de qualquer forma que pudesse desrespeitar a ordem pblica, a instruo criminal ou a aplicao da lei penal; aps um ms em liberdade liminarmente, esteve perante a Secretaria criminal deste juzo para assinar e informar suas atividades laborais; embora o Tribunal tenha revogado a liminar, o mesmo reconhece a necessi dade de proteo do acusado, deixando a cargo deste juzo que tome as providncias necessrias para tal; tomando por base os fatos acima narrados, no pode descartar a hip tese de aplicao da priso domiciliar ao requerente, uma vez que a mesma atingir todos os ns a que se destina a priso do ru; isto o mesmo ter sua integridade resguardada, bem como a manuteno da dignidade da pessoa humana do acusado; e o Estado ter total acesso ao requerente, podendo realizar vistorias a qualquer momento na rea reservada ao acautelamento domiciliar indicada o requerente estar sob a tutela e o controle do Estado com sua dignidade humana preservada e, consequentemente, sua integridade fsica e a sua vida; a medida, alm de se mostrar mais proporcional ao presente caso, possibili tar ao acusado seu interrogatrio, para exercer seu direito de defesa, sem ter que se submeter s mazelas que o esperam no regime penitencirio. O representante do Ministrio Pbli co, por seu turno, se manifestou pelo indeferimento do pedido, baseando-se nos seguintes argumentos: o requerente no preso, no junta ao presente pedido quaisquer documentos expedidos por prossionais da rea mdica, como prova de eventual debilidade por motivo de doena grave, pelo que no se reconhece, em princpio, a necessidade de tratamento mdico do mes mo; de igual modo no demonstra sua imprescindibilidade aos cuidados espe ciais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade, ou com decincia, ou ainda que seja o nico responsvel pelos cuidados do lho de at 12 (doze) anos de idade incompletos; considerando a ausncia de prova da necessidade de garantir a sade do preso, o requerente, que no se encontra preso, no apresenta provas idneas a justicar uma manifestao favor vel ao pedido de priso domiciliar, e na hiptese de cumprimento do mandado de priso preventiva, que se adote as medidas necessrias para proteger a incolumidade fsica do preso, durante a execuo da custdia cautelar, confor me recomendao do Egrgio Tribunal de Justia do Estado do Par, ao julgar o mrito de Habeas Corpus Preventivo impetrado em favor do paciente, ora requerente. O representante do Ministrio Pbli co naliza sua manifestao aduzindo que o requerente no se encontra preso e no apresentou prova idnea de que preenche algum dos requisitos elencados no art. 318 do Cdigo de Processo Penal. Verico que o magistrado que me antecedeu, em deciso proferida no dia 12/08/2016, reconheceu que, de fato, o sistema penal no possui condies para abrigar custodiados acusados de grupos de extermnio com segurana, uma vez que estes presos so perseguidos pelos de mais detentos (. 14056). Note-se que em deciso liminarmente proferida nos autos do Habeas Corpus 0010009-98.2016.8.14.0064, a eminente Desembargadora Relatora, entendeu que, apesar de estarem presentes os requisitos para decretao da priso preventiva, analisando de forma sumria as alegaes do impetrante sobretudo de risco de vida do paciente, a imposio da segregao cautelar no se revela ade quada no caso concreto. Os estados do Norte e Nordeste con centram os maiores ndices de mortalidade prisional, destacando-se o estado do Maranho, com 75 casos para cada dez mil pessoas privadas de liberdade. (...) O Infopen traz tona com esses nmeros uma verdade incmoda e, por isso, escondida: a incapacidade do Estado de zelar pela vida bem mais bsico e valioso das pessoas que esto sob sua custdia parte integrante do sistema carcerrio nacional, o que evidencia a brutalidade e inecincia de nossas instituies. (...) a aplicao da priso domiciliar ao requerente atingir todos os ns a que se destina a priso do ru, isto o mesmo ter sua integridade resguardada, bem como a manuteno da dignidade da pessoa humana do acusado, e o Estado ter total acesso ao requerente, podendo realizar vistorias a qualquer momento na rea reservada ao acautelamento domiciliar indicada o requerente estar sob a tutela e o controle do Estado com sua dignidade humana preservada e, consequentemente, sua integridade fsica e a sua vida. Estou, pois, convencido de que a soluo apontada pelo requerente Ailson Santa Maria do Amaral atende aos postulados convencionais, constitucionais e legais atinentes ordem pblica, instruo penal, aplicao da lei penal, dignidade da pessoa humana, sua inte gridade fsica, segurana e ao respeito dos seus direitos fundamentais do acusado, sobretudo o direito vida.

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8 Violncia para todosRafael Farias de Oliveira devia ter voltado ao presdio no dia 2 para cumprir o compromisso que assumiu ao ser beneficiado pelo indulto natalino. Duas semanas depois,ele andava por uma rua do conjunto Cidade Nova VI, em Ananindeua, quando foi atacado por trs homens, que dispararam vrios tiros contra ele. Trs balas o acertaram na parte superior do corpo. Ele morreu na hora. Rafael foi preso pelo crime de roubo. Nmero crescente de criminosos esto sendo enquadrados nesse delito. Parte significativa deles tem um objetivo: gerar renda para pagar o consumo de droga. Quando o objetivo no alcanado ou o dinheiro no suficiente, mantendo o usurio em dbito com os traficantes, eles o matam. Pode parecer por motivo ftil superfcie, mas no A punio desproporcional ao crime, mas a regra que prevalece a dos traficantes, no a do mundo legal. Tanto nos presdios quanto nas ruas. Quem manda o bandido. E o bandido cada vez mais cruel, implacvel, abusado. Menos sujeitas as ruas esto barbrie das decapitaes, esquartejamentos e outras insanidades, que vigoram nos lugares de confinamento de criminosos. Mas as ruas tm um componente que est criando tenso em tal escala que comea a explodir na forma de linchamentos de criminosos por pessoas comuns: o carter aleatrio das agresses. Rompendo com todas as regras e procedimentos, a violncia se tor nou sistemtica, diria, imprevisvel, insondvel, sem limites. Em uma palavra: intolervel. A vida est sendo reduzida a um lance de dados, dependente do incer to e no sabido. O carimbo desse absurdo dado pela incompetncia do poder pblico, pela sua incapacidade de cumprir o principal mandamento constitucional: assegurar a sade e a vida dos cidados. A lei de Talio, combinada com o mais selvagem darwinismo social, est destroando a segurana pblica. Tempestades se formam no j plmbeo horizonte nacional. E esse fenmeno de violncia descontrolada independe do sucesso ou insucesso da recuperao da economia nacional. O fotgrafo Tarso Sarraf captou a estupefao, o desespero, a indignao e a revolta do homem comum, cuja vida vale nada, ao registrar o flagrante da irm debruada sobre o corpo ensanguentado de Rafael, com a parte baleada encoberta por um pano. Merecidamente, a fotografia foi para a primeira pgina da edio dominical do dia seguinte do Ama znia e tambm para uma pgina interna da seo policial. Qual o nome da moa, sua idade, como soube da morte do irmo, o que fazia Rafael, onde est a sua famlia estas e muitas outras infor maes inexistem na rpida, desinteressada e pobre matria. O texto insosso e burocrtico contrasta com a sensibilidade do fotgrafo, autor da mais impressionante imagem deste incio de ano na imprensa paraense, ao meu olhar. o que salva a edio comercial e pobre do jornal, como de todos os demais na cobertura de acontecimentos que tm um significado maior do que lhe concede o aproveitamento sensacionalista da imprensa, se aproveitando do leitor da mesma maneira que o bandido se aproveita do transeunte incauto e at do cidado recolhido intimidade do lar, outrora sagrado. Quantos dos sentenciados por crimes que no voltaram do gozo das festas de fim de ano, graas ao indulto natalino, retornaro aos seus locais de origem? Quantos, rompendo o compromisso, no voltaro aos presdios, no voltando mais prpria vida? Ao Estado as respostas, embora se saiba que ele pouco ou nada responde.Corrupo atrs de tudoJ viajei pelo pas todo, sei do que estou falando: de norte a sul, no tem nada que funcione no Brasil sem corrupo. A concluso do empresrio Hugo Gabrich. Em entrevista Folha de S. Paulo, ele admitiu ter usado uma empresa sua, de fachada, para emitir notas frias a fim de justificar um pagamento no declarado de uma fabricante mineira de mveis a polticos, como o senador Magno Malta, do PR do Esprito Santo. Experincia no lhe falta para fazer a declarao. Alm de corrupo, aos 50 anos, ele se envolveu com uma amante com passado na prostituio, cometeu e sofreu traio, foi intimado a priso por falta de pagamento de penso aos dois filhos, de um casamento de 24 anos, que abandonou ao se envolver com Edna Amaralina da Silveira, de 28 anos, numa relao conflituosa que acabou na justia. Depressivo, a matou com quatro tiros, no apartamento dela. Atirou tambm no outro amante que ela tinha, um dos inimigos de Hugo. Para manter a amante, ele gastou fortunas com carro de luxo para ela, cirurgias estticas e mensalidade para evitar que trabalhasse em boate. Circulou por vrios Estados, de Minas a Esprito Santo, Rio Grande do Sul, Paran, Gois e So Paulo, fazendo negcios, fundando empresa, ganhando e gastando dinheiro a rodo. Agora est preso no Centro de Deteno Provisria de Pinheiros. Ficou foragido por uma semana aps o crime, internou-se numa clnica psiquitrica e se entregou. Ele dever ir a jri popular. Em dezembro, apresentou suas alegaes. O Ministrio Pblico o denunciou por homicdio e tentativa de homicdio o processo est sob sigilo. Uma histria em 3 x 4 do Brasil em crise

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9 O aumento dos nibus com o enredo de sempreQuase sempre a histria termina assim: o prefeito aprova um valor menor (3,10 reais) ou igual menor opo de reajuste que lhe oferece o Conselho Municipal de Transporte, entre o valor denido pelo Dieese (R$ 3,15), o representante tcnico dos trabalhadores, e os donos de nibus (R$ 3,40). Depois de sancionar o reajuste, o prefeito proclama: a tarifa do transporte pblico urbano na capital paraense ainda o menor do Brasil, como fez ontem Zenaldo Coutinho. No verdade. No ano passado, por exemplo, em seis cidades a tarifa era inferior aos 2,7o reais da passagem em Belm, de uma base em R$ 2,40: Porto Velho, So Lus do Maranho, Natal, Recife, Teresina e Vitria. Com passagens entre R$ 2,45 e R$ 2,65. Ainda que a declarao fosse verdadeira, porm, a tarifa menor no compensa o pssimo servio prestado pelas empresas aos seus clientes: nibus velhos, que entram em pane durante o percurso; falta de regularidade na frequncia; pssima instalaes nas paradas; queima constante de paradas pelos motoristas, e por a em frente. Mas no s a m qualidade do ser vio que anula a vantagem de um valor da passagem mais baixo. O usurio no tem bilhete nico nem conexes. uma viagem e s. Em itinerrios defasados da geograa da cidade. Por isso e por muito mais, simplesmente reajustar as tarifas minimizar o papel do poder pblico no controle e regulamentao de um servio vital para a populao. continuar a desagradar a populao e ser alvo de suspeitas quando se trata de decidir sobre nibus em Belm.De que serve a Semob? De cada 10 infraes de trnsito cometidas no ano passado em Belm pelos motoristas, trs foram por avano do sinal vermelho, que somaram mais de 135 mil (mais de 10 mil por ms) num total de 400 mil, segundo os dados da Semob. Isto, apenas do que foi documentado pela presena de cmeras e a quase sempre metafsica ou sobrenatural atuao dos guardas. O motorista belenense tpico aboliu o vermelho da sua viso, embora o desrespeito seja infrao gravssima, com multa de quase 300 reais. Essa irresponsabilidade absurda se estende aos bbados ao volante. Eles causaram 585 acidentes na cidade no ano passado, que resultaram em 374 pessoas feridas e 37 mortas. Ou isso acaba ou melhor extinguir a Semob. A infrao sai mais barata e o caos se torna de tal magnitude que talvez aparea algum com competncia, autoridade e disposio para enquadrar o trnsito alucinado de Belm em parmetros aceitveis. Especulao sobre a rea da PirelliO prefeito de Marituba, Mrio Filho, saiu da audincia com o governador Simo Jatene, em Belm, no incio do ms, anunciando que as obras para a implantao de um parque industrial, com aplicao inicial j reserva de 10 milhes de reais. O parque ser construdo em rea de 136 hectares, localizada prximo Ala Viria. O prefeito garantiu que mais de 60 empresas j entregaram cartas de inteno para se instalar no complexo, que ser dividido por setores de confeco, logstica, movelaria e produtos naturais. Ganhou logo o apoio incondicional de Jatene:O projeto est em consonncia com o Plano Par 2030 que, tem como um dos principais mecanismos o incentivo verticalizao das cadeias produtivas. E tudo o que traga desenvolvimento e ajude a dinamizar a economia do Par merece incentivo, disse o governador. Mas devagar com o andor que o santo de barro. A rea do distrito industrial (chamado de parque para se harmonizar com a outra face do projeto, que prev um parque ambiental, como se as duas peas estivessem harmonicamente encaixadas) est dentro dos sete mil hectares da antiga fazenda (desativada) da Pirelli, a maior propriedade da regio. O governo a assumiu com o propsito de criar um parque ambiental, que ainda no saiu. Foi criada ento uma unidade de conservao, o refgio da vida silvestre da regio metropolitana de Belm, administrado pelo Ideor, o instituto de orestas do Estado, e com um conselho consultivo. No parece que eles tenham sido consultados sobre os planos do prefeito de Marituba, endossados pelo governador do Estado. Tambm no se tem notcia da realizao de audincias pblicas para discutir a iniciativa. Desconhecem-se ainda as cartas das 60 empresas interessadas em se instalar do distrito. Nem medidas de controle e disciplinamento para evitar que em Marituba a rea acabe sendo usada para loteamentos urbanos. Por isso e por muito mais, melhor que os meses quem em suspenso at que os pais da ideia se expliquem.

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10 Parauapebas: riqueza e a falncia da sadeA sade pblica faliu em Parauapebas, o municpio que mais exporta no Brasil. Por causa dessa situao, o novo prefeito (que j exerceu o cargo por dois mandatos seguidos), Darci Ler men (que foi do PT e hoje do PMDB), decretou estado de emergncia administrativa e nanceira no municpio. O prazo, inicialmente de 120 dias, poder chegar a 180 dias, se necessria a prorrogao. Durante esse longo perodo de um semestre, sempre que o objetivo do o atendimento sade, o prefeito poder fazer a contratao direta de bens e servios sem a obrigao de promover concorrncia pblica. A justicativa a gravidade da situao e a necessidade de adoo de medidas imediatas e urgentes. No decreto que instituiu esse regime especial, o novo prefeito diz no ter recebido do antecessor, Valmir Mariano, as informaes detalhadas sobre as condies do sistema pblico municipal de sade. Ao vericar os dados, constatou que a sade o pior de todos os setores. Alm da falta de equipamentos e de precrias condies de funcionamento, as contas em atraso de energia, gua e telefone das unidades de sade, que esto em quase um milho de reais. H ainda alugueis de prdios por quitar. No hospital municipal, centenas de doentes so atendidos nas enfer marias e pelos corredores sem o mnimo de conforto e ainda obrigados a comprar os materiais e medicamentos bsicos. O Hospital Geral, apesar de novo, j apresenta problemas de infraestrutura e mantm, em uma espcie de depsito, lixo hospitalar ao lado de aparelhos de ar condicionado e pias de porcelana nunca usados, segundo informao da assessoria da prefeitura. Darci Lermen defende a sua iniciativa argumentando que a no adoo de medidas emergenciais administrativas poder ocasionar graves riscos sade dos cidados, ocasionando situao de desassistncia populao por ausncia da capacidade de resposta da administrao pelos meios legais regulares. O caso de Parauapebas to grave que a deciso do novo prefeito devia ser tratada pelos ministrios pblicos (estadual e federal) e acompanhada pelo ministrio da sade. Para apurar a responsabilidade do prefeito que passou oito anos com o terceiro ou quarto oramento do Estado e, ainda assim, deixou a situao chegar a esse ponto. E o prefeito que volta, depois de oito anos, sem discrepar do padro de gesto em Parauapebas, com essa liber dade excepcional de ao, talvez sem que ela lhe permita inovar em matria de administrao pblica no maltratado municpio. As lies da sua recente e agitada histria recomendam prevenir para no remediarMais energia a sair dos rios da AmazniaAt dezembro do ano passado, foram adicionados ao sistema eltrico nacional 9,5 mil megawatts de energia, o maior valor desde o incio da srie histrica, em 1998. Para 2017, est previsto um incremento de 7,1 mil MW de capacidade instalada. Em 2016, a fonte que mais cresceu, em nmeros absolutos, foi a de grandes usinas hidreltricas, com um incremento aproximado de 5 mil MW, representando 53% do total, todas construdas e em construo na Amaznia. A segunda fonte com maior capacidade instalada acrescida foi a elica, com 2,5 mil MW, 27% do total da potncia em 2016, at novembro. A fonte elica teve um aumento superior a 20% em relao capacidade instalada em 2015. At dezembro de 2016, havia 10 mil MW nas usinas elicas em operao. O Rio Grande do Norte foi o Estado que mais contribuiu para o incremento da potncia elica instalada no pas, com cerca de 920 MW, seguido pelo Cear, com acrscimo de aproximadamente 600 MW, e a Bahia, com 520 MW incrementados. As usinas termeltricas contriburam para um acrscimo de 1.758 MW, representada por 18% do total, e as Pequenas Centrais Hidreltricas (PCHs)somaram 203 MW, 2% do total, em 2016. A Aneel (Agncia Nacional de Energia Eltrica) destacou em seu comunicado os empreendimentos de gerao que entraram em operao comercial em 2016: Hidreltrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondnia, que concluiu a motorizao em novembro de 2016, com acrscimo de 975 MW ao total de 3.750 MW de capacidade instalada. Hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par, que iniciou sua motorizao e conta com 1.989 MW em operao comercial (menos de 20% da sua potncia nominal). Hidreltrica de Santo Antnio, tambm no Madeira, em Rondnia, com 652 MW de novas mquinas em operao comercial, capacidade de gerao semelhante de Jirau Hidreltrica Teles Pires, no rio Tapajs, entre o Par e Mato Grosso, com 1.092 MW em operao comercial. Usina termeltrica Maranho III, com 518,8 MW em operao comercial. Para 2017, a fonte com maior expectativa de crescimento absoluto a hidreltrica, a partir de grandes usinas, com aproximadamente 4 mil MW. O crescimento relativo da fonte elica novamente dever ser expressivo, com um incremento de cerca de 2,4 mil MW. Tambm se destacam a continuidade da motorizao da usina de Belo Monte, a entrada em operao comer cial de complexos elicos e da trmica Mau 3 (590 MW), em construo em Manaus. A Aneel no faz referncia ao complexo hidreltrico do Tapajs, talvez porque a licena ambiental foi retirada. Ainda assim, um grande incremento de energia extrada dos rios amaznicos.

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11 Uma mquina de corrupo: aliana empresas e governoA Rolls-Royce pagou 1,6 milho de dlares (o equivalente a 5,1 milhes de reais) em propinas entre 2003 e 2013 ao ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco. Em retribuio, ele ajudou a empresa, uma das maiores do Reino Unido, a obter seis contratos, no valor de 100 milhes de dlares, segundo ele. O objeto foi o fornecimento de geradores de energia para plataformas de petrleo. Levantamento da antiga CGU (Controladoria Geral da Unio), no entanto, chegou a um resultado muito superior: US$ 650 milhes. Segundo o Ministrio Pblico Federal, a Rolls-Royce lucrou R$ 39,7 milhes com esses contratos. Nada mau para quem teve atuao lateral no conjunto das relaes das empreiteiras nacionais. A propina, portanto, que seria de 1,6% do valor dos negcios, padro adotado por todos os envolvidos na indstria de corrupo na estatal brasileira, apurada pela Operao Lava-Jato, na contabilidade de Barusco, na verdade foi muito menor, se considerada a apurao da CGU o que d uma ideia do volume do dinheiro realmente envolvido e mascarado pelos corruptores e corruptos. Barusco provocou o primeiro grande espanto na opinio pblica. Ao ser preso e comear a negociar uma delao premiada, ele se comprometeu a devolver 97 milhes de dlares do que ganhara de propina, mais do dobro do que um funcionrio muito superior a ele, o diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa, se disps a devolver aos cofres pblicos. Os depoimentos que a partir da se sucederiam deixaram no ar a questo: quanto esses empregados graduados, a maioria com muitos anos de servio na Petrobrs, roubaram, anal? Qual o alcance do saque que eles possibilitaram ao se deixarem corromper por duas dezenas de empreiteiras cativas, a Odebrecht na liderana delas? Apesar de todas as crticas e suspeies lanadas sobre a Lava-Jato, e a despeito de suas vrias falhas, seus resultados so uma revoluo em matria de moralidade pblica. A par de abrirem as contas das grandes empreiteiras nacionais, at ento consideradas as donas do pas, e de mandar para a cadeia seus principais executivos e alguns dos seus donos, ampliaram muitas vezes a dimenso das delaes premiadas e das lenincias. A ponto de a Odebrecht se dispor a devolver mais de R$ 7 bilhes, valor recorde na histria nanceira mundial. Por si s, esse nmero j coloca o Brasil no topo do ranking da corrupo no planeta, ttulo nada edicante, mas o retrato mais el da realidade do que tudo que antes houve nesse setor. O acordo que a Rolls-Royce fez com o Brasil parte de um acerto muito maior, que inclui o Reino Unido e os Estados Unidos. A indenizao total ser 671 milhes de libras (R$ 2,6 bilhes). O Reino Unido car com o equivalente a R$ 1,95 bilho e os EUA, com R$ 550 milhes. Nos ltimos 14 anos, entre 2003 a 2016, o governo federal expulsou 6.209 servidores, nmero que recor de desde o incio da srie histrica. Desse universo, 5.172 foram demitidos; 493 tiveram a aposentadoria cassada; e 544 foram afastados de funes comissionadas. Esses dados escancaram a necessidade de um trabalho de saneamento no servio pblico, j iniciado, mas ainda tmido demais diante do tamanho da corrupo no governo. No ano passado foram 550 punies, sendo 445 demisses de servidores efetivos, 65 cassaes de aposentadorias (recorde dos ltimos seis anos) e 40 destituies de ocupantes de cargos em comisso. O principal motivo das expulses foi a prtica de atos relacionados corrupo. Foram 343 penalidades aplicadas ou 65,3% do total. O porcentual aumentou em relao aos 61,4% de 2015. Os outros 158 dos casos (ou 24,4% total) se referem a abandono de car go, inassiduidade ou acumulao ilcita de cargos. Servidores pblicos tambm foram afastados por proceder de forma desidiosa e por participao em gerncia ou administrao de empresa privada. Os Estados com nmero mais elevado de punies foram Rio de Janeiro (1.096), Distrito Federal (763) e So Paulo (667). Proporcionalmente, o Amazonas o Estado que registrou a maior mdia de servidores federais punidos, com 11,6 expulses por cada mil servidores, seguido do Mato Grosso do Sul (9,6 por mil), So Paulo (8,57 por mil) e Maranho (8,51 por mil). Os ministrioscom a maior quantidade de estatutrios expulsos foram do Desenvolvimento Social e Agrrio (1.558), Educao (1.031) e Justia e Cidadania (981). Em proporo, o ministrio das Cidades obteve o ndice mais elevado com 22,3 expulses por cada mil servidores. Os nmeros proporcionais se referem aos ltimos seis anos. O relatrio destaca ainda a reduo de 38,5% no porcentual de reintegraes (reingresso do servidor ao cargo mediante deciso judicial que anula a punio expulsiva), quando comparado o perodo de 2011 a 2016 com 2003 a 2010. Os dados, divulgados pelo Ministrio da Transparncia, Fiscalizao e Controladoria-Geral da Unio, entretanto, no incluem os empregados de empresas estatais. Eles eram 502.226 em 2013, baixando para 494.370 no ano seguinte e 473.292 em outubro do ano passado, distribudos por 154 estatais. A reduo foi de 4,3%, atravs de 13 mil demisses voluntrias e quase 25 mil adeses a planos de aposentadoria incentivada. o suciente, muito ou ainda pouco para chegar ao tamanho adequado do Estado no Brasil?

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12 POLCIANa sequncia, estas duas notcias caram bem sugestivas, na coluna Pelos Corredores da Central (produzida por Horcio Siqueira, sob o pseudnimo Ag Esse), do jornal A Provncia do Par. A primeira: A Polcia vai ter muito cuidado com as barraquinhas onde a cachaa vendida em xcaras como se fosse caf. O truque j conhecido. Os policiais antialcolicos sero selecionados para o servio. A segunda: Muito contente encontramos o delegado lvaro Almeida, depois da sensacional diligncia que terminou com a priso do ladro Sangue Novo, o terror da Sacramenta e adjacncias. Estava to alegre que pronticou-se a pagar uma rodada no buraco frio.Em 1967 surgiu o primeiro conito de terras s margens da ento rodovia Augusto Montenegro. No por acaso. Foi quando o governo asfaltou o que at pouco tempo antes fora o ramal da ferrovia de Belm a Bragana, ligando a capital paraense a Icoaraci. Custdio Mendes Simes, mais conhecido por Simo, portugus, se declarou dono de uma rea localizada a seis quilmetros de distncia do entroncamento, prxima do Jardim Sideral. E comeou a expulsar 24 famlias, integradas por quase 200 pessoas, que ali montaram suas precrias casas, postas abaixo.CONSRCIOEm 1969, o consrcio era a principal maneira de comprar carros pela classe mdia. A empresa responsvel pelo consrcio formava grupos de compradores e distribua os veculos atravs de sorteio e lances em valores que iam alm da mensalidade do consorciado. Um dos maiores foi lanado ento pela Cobrs, revendedora da Ford-Willys, que tinha os automveis Corcel, Galxie, Itamaraty e Aero-Willys, mais os utilitrios Rural, Pick-up-Jeep, F-100, f-350 e F-600 a gasolina e a diesel. Os scios da empresa eram Raymundo e Maurcio Azevedo, Joo Carlos Maranho, Jos de Anchieta Moreira e Alexandre Vaz Tavares.JORNALDurante vrias horas, alunos da Escola Tcnica Federal do Par (atual Instituto Federal do Par) conheceram o melhor jor nal do Norte do Par, em 1969. Sua imponente sede ficava na Gaspar Viana, mas no era O Liberal, que viria depois. Tratava-se da Folha do Norte de Paulo Maranho, que desapareceu em 1974, quando o jor nal de Romulo Maiorana j ocupava o prdio (hoje semiabandonado). Era um jornal to forte que os vendedores ambulantes eram chamados de folheiros. E nenhum concorrente se aborrecia com isso. A visita foi conduzida pelo gerente, Joo Maranho, sucessor do pai, que morrera em 1966, com 92 anos. Os estudantes viram a redao, o setor de teletipos e radiofotos (servio pioneiro no Norte) e as comunicaes. Descendo ocina, passaram pelas linotipos, rotativa, paginao, impresso e reviso. De l subiram para a residncia do gerente, instalada no ltimo andar da sede do jornal. Puderam ver as marcas de balas disparadas contra o prdio pelos maiores inimigos da Folha os baratistas, que seguiam a liderana do caudilho Magalhes Barata. No ambiente de violncia, os Maranho se homiziaram na slida construo. O nal da visita foi no gabinete de Paulo Maranho, um dos maiores jornalistas da imprensa brasileira. Viram as estantes, o bir, alguns retratos e muitas recordaes indelveis daquele que eles mesmos classicaram de O Jornalista, registrou o jornal. Aquelas centenas de livros no eram decorao; o dono do jornal os lia coisa rara na histria do jornalismo.Em 1969 o governo j concedia iseno de imposto (o ICM, atual ICMS) a empresas privadas que se instalavam no Estado. O rgo responsvel pelo benefcio era o Idesp. Mas antes de aprovar a medida, o instituto era obrigado a publicar trs vezes (inclusive na imprensa) um edital, dando o prazo de 15 dias para qualquer um que quisesse apresentar impugnaes ao ato. Como o que favoreceu a Soteao (Sociedade Tcnica de Estruturas de Ao). Agora, em plena democracia, tudo entre quatro paredes.No nal de 1988 11 dos 12 galpes (ou armazns) estavam em plena atividade. No primeiro, o navio Roraima aguardava reparos, enquanto o Rondnia car regava para viagem. Ambos os catamars eram da estatal Enasa, que no existe mais. PROPAGANDAA jatoEm 1969, a Vasp, a empresa de aviao do governo de So Paulo, passou a usar os mais modernos jatos de ento, da Boeing, na linha de Belm para Braslia, Rio e So Paulo. Foi uma mudana profunda.

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13 A justia feita na ponta de um cano de pistolaNo incio da manh de sexta-feira, 20, viaturas da Ronda Ttica Metropolitana, a temida Rotam da Polcia Militar, perseguiam um veculo com suspeitos de envolvimento em um sequestro relmpago. Interceptados, os ocupantes do carro trocaram tiros com os policiais, O soldado Rafael da Silva Costa, de 29 anos, foi atingido na cabea e morreu. Imediatamente seus colegas comearam a perseguio. Talvez, no incio, aos suspeitos que reagiram ordem de priso. Mataram logo o primeiro, ou aquele que supunham ser um dos quatro com os quais os PMs trocaram tiros. O homem se escondera numa casa e foi executado l dentro. Foi a ltima ao aberta da polcia em mais uma busca de vingana, da justia pelas prprias mos. A partir da o seu lugar foi ocupado pela milcia. O saldo, na verso oficial, foram 27 mortos, 24 dos quais com todas as caractersticas de execuo, em 16 bairros de Belm e Ananindeua. Deve-se sempre lamentar a morte de um policial. Falhas e vcios parte, ele o representante da engrenagem ocial na linha de frente, exposto diretamente aos perigos. Em pases desenvolvidos, a reao ao policial punida at com a morte imediata do transgressor. Essa diretriz pode transbordar para o excesso, mas uma losoa de ao. Todos a conhecem. No Brasil, a vendeta policial no tem paralelo. O soldado da Rotam foi morto em combate, num tiroteio com os provveis criminosos. As mortes praticadas pelos que se puseram a ving-lo foram meras matanas. Talvez vrios dos visados sejam mesmo daqueles bandidos conhecidos dos policiais, que sabem tudo deles e at os usam eventualmente, No todos, porm. Ainda que tenham sido, a polcia no pode mat-los a pretexto de responder a uma agresso da qual eles no participaram. Se eram conhecidos e por isso foram tomados para serem sacricados na imediata represlia, por que no foram presos antes? Por que manter sob vigilncia essas pessoas para mat-las, quando necessrio, ou extorqui-las, se possvel? Ou prend-las, para preencher a prestao de contas? Quantos desses assassinados so inocentes, pessoas apanhadas ao acaso por estarem no caminho dos justiceiros? E, anal, todos esto protegidos pela garantia constitucional (quando no, por princpios ticos, morais ou religiosos) de respeito e proteo vida? Quem deu competncia (competncia que no passvel de delegao) a esses matadores em nome da lei para decidir sobre a vida alheia? Depois dos 11 mortos na chacina de novembro de 2014, os 24 de ontem, com a adio dos outros crimes da rotina diria, so uma conta intolervel. O governador at pode continuar a ser o mesmo, mas as principais autoridades do sistema de segurana pblica do Estado j deviam estar fora dos seus cargos. Ao menos como indicador de que, daqui a pouco, o nmero no passar dos dois dgitos de brutalidade. Um contrasteTrabalhadores contratados pelo servio de combate malria fazem a limpeza de trecho do igarap do Una, o maior de Belm, em 1954. Um ambiente rural na grande cidade.No segundo armazm, o catamar de turismo Amazonas aguardava para seguir at Manaus. Nos seguintes estavam atracados o Tuxaua e suas balsas, a cbrea da CDP: o Comandante Pedro Seabra, de volta a Macap; o car gueiro holands Clemen, que fazia linha para a Europa; o cargueiro cipriota Belgrano, tambm viajando para a Europa; o cargueiro panamenho BoeSea, que levaria madeira para o exterior; o cargueiro liberiano AfricanEvergreen; o car gueiro porta-container Bretagne; navios uviais menores e balsas. Alm disso, o Graja e o Amazonas descarregavam gs de cozinha e leo diesel no porto de Miramar, enquanto o Frota Marab fazia o mesmo no porto de Vila do Conde. Cm o deslocamento da prioridade para as rodovias, a navegao, contrariamente ao ditado, deixou de ver navios.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Cart @O poder da imprensaA imprensa paraense mantm uma prtica que no existe mais na grande imprensa nacional: aproveitar as grandes datas para arrancar receita extra dos anunciantes. Assim foi na edio dos 401 anos de Belm, no dia 12. Mas sem o mesmo sucesso das verses anteriores. Talvez por causa da crise econmica e, a ela associada, certa resistncia que os anunciantes j apresentam a esse ataque, feito por mtodos coercitivos. Desta vez o domnio de O Liberal sobre o Dirio do Par no se repetiu. O jornal dos maioranas recebeu publicidade dirigida ao aniversrio da capital paraense de 25 anunciantes. No jornal dos Barbalhos, a soma foi de 28. Os anncios comemorativos ocuparam 18 pginas em O Liberal e 16 no Dirio Com duas diferenas que relativizam os nmeros. Quatro dos anncios de O Li beral foram de permuta (sem pagamento em dinheiro), Apenas uma no Dirio. A prefeitura, com quatro pginas, e o governo do Estado, com duas, foram os maiores anunciantes no jornal do parceiro dos tucanos, enquanto o jor nal do senador peemedebista faturou apenas a mensagem da CDP (Companhia das Docas do Par) na administrao federal, controlada pelo partido. Dado que refora a necessidade de um rgo de controle externo atuar sobre a programao da publicidade ocial, dissociando-a do compadrio e do siologismo poltico. Impondo-lhe assim, um padro tcnico independente das utuaes no topo do governo. O Liberal faturou oito anncios exclusivos, que somaram 11 no Dirio O maior plano de sade do Par, a Unimed Belm, no programou o jornal dos Maioranas, que lhe deve uma for tuna e no paga. A Hapvida, que deve ter usado a conta de permuta em O Liberal que a adotou em substituio Unimed, tambm anunciou no Dirio, por estratgia. A mesma ttica de rgos polticos, concessionrios do servio pblico e entidades de classe, como o Setrans-bel, dos donos de nibus ( espera do aumento da tarifa). Os jornales de Belm j no so os mesmos, embora tentem manter a sua hegemonia pelo uso de antigos procedimentos, como o desses anncios datados. O problema que o mundo est mudando muito mais rapidamente do que eles. Mesmo na quadricentenria Belm do Par. Excelente a tua matria sobre os ltimos acontecimentos que tm ocorrido aqui em Manaus e se espalhando por outros Estados, como o Rio Grande do Nor te. O ttulo perfeito (O horror, a barbrie). Nas pginas seguintes onde mostras como a rota do trco atua na Amaznia, complemente o que d origem a essa barbrie que, como sabes, no tem como eixo s o trco, mas o prprio modelo de ocupao da Amaznia. Quantos lideres sindicais foram mortos na Amaznia? E os personagens annimos que vm sendo assassinados? Tu tens, desde muitos anos, acompanhando o rastro do saque que tem devastado a Amaznia, matando a natureza e as pessoas que ousam lutar pela posse da terra, sob o manto do Estado e de foras polticas e econmicas, como bem sabes. Hoje estou com 67 anos, parte daquilo que chamei de Gerao Belm Braslia. Assisti muitas barbries, to bem documentadas nos teus livros, nos artigos que escrevias para o jornal O Liberal, no Estado de So Paulo e depois no Jornal Pessoal, que chega a 623 edies. At onde vai essa barbrie, esse horror, como dizes? Como ser que as futuras geraes vo sobreviver na Amaznia? Ser que vamos morrer assistindo essa barbrie diante de nossos olhos? Ser que entregamos os pontos e dizemos seja o que Deus quiser?. Tens razo quando armas que h falta de reprter de rua que acompanhe os fatos na linha de frente, ou, como dizias num de teus livros, na linha de tiro. Digo isso porque sou um paraense, hoje vivendo na cidade de Manaus e vejo essa barbrie quando circulo por essa cidade. Escrevi vrios artigos sobre o narcotrco em Manaus e leio o que escreves sobre a violncia tambm em Belm. Aqui matam gente como se fosse barata. So as vidas desperdiadas de que nos falava o velho Zygmund Bauman, que se foi recentemente. Hoje essa cidade se transformou na cidade do medo. No dia do massacre as pessoas eram atormentadas pelo pnico. Os estudantes da UFAM [Universidade Federal do Amazonas ] no ousaram sair de casa, enquanto o noticirio da imprensa (falada e escrita) espalhava corpos trucidados e exposies de drogas aprendidas. Essa cidade a zona franca da droga e ela tem endereo cer to. Aqui se comenta na surdina sobre os grandes chefes do trco, que enriquecem do dia para a noite e vo morar nas chamadas zonas nobres da cidade, fechando-se em seus condomnios fechados, enquanto a maioria, os pobres, enfurna-se nos becos, nas beiradas dos igaraps contaminados e nos morros que de vez em quando deslizam e matam dezenas de pessoas, como tem acontecido com frequncia. A barbrie tambm isso. No s os pobres que alimentam essa violncia, mas grandes cor ruptos que tomam conta do Estado e esto nas colunas sociais. A imprensa por aqui usa como matria prima para vender seus jornais, onde se v mulheres nuas junto com fotograas de cadveres como algo que parece ter se naturalizado. Pena que teu jornal tem edio restrita e no chega por aqui, o que lamentvel. A cobertura que zeste sobre os recentes acontecimentos deveria ser divulgada por aqui. Se permitires, posso divulg-las no meu pequeno jornal que publico na UFAM. No grande coisa, mas j ajuda. Benedito Carvalho Filho 01. Sobre a matria da priso do lho do Governador (PA). Faamos uma reexo: porque o HC (Habeas Corpus) foi concedido rpido, j que a maioria destes remdios hericos demoram a ser apreciados? Tive um caso, que no consegui por aqui, tive que ir ao STJ, demorou tanto, quando houve o julgamento, o preso j estava solto... 02. Sobre a matria da Celpa, de grande valia, ser criada a associao, dos consumidores lesados pela concessionria,, com um detalhe: por onde andam o MP estadual e federal, como scais da lei, para punirem os transgressores (da lei, em especial do Cdigo Penal, da Constituio Federal etc), de dentro da concessionria? Por estas particularidades, que o Brasil, no visto como um pas srio? Se a concessionria no cumpre seu real papel, bem que poderia ser cortada a concesso, no ? Grande abrao, Lcio, vida longa ao JP Renato Neves

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15 Enciclopdia amaznica: contra a sua colonizaoO projeto mais audacioso que desenvolvo no momento est abrigado no blog www,amazoniahj.wordpress. com. uma espcie de enciclopdia da Amaznia atual. O leitor deve logo objetar: qual o signicado e a utilidade dessa empreitada quando j existe o Google? Ningum vai se desviar de uma formidvel base de dados para garimpar numa fonte amadora e, provavelmente, intil. Quando tentei concretizar essa ideia pela primeira vez, o Google no existia. Foi atravs de parceria com a Funtelpa, sob a gesto de Fernando Cezar Nunes da Silva, prosseguida com Mauro Bonna. No sei se as informaes que forneci ainda esto arquivadas por l. Mesmo incompleto (e ele nunca se concluir), essa uma base til para as equipes da rdio e da TV Cultura. Depois, investi no portal da Agncia Estado, de O Estado de S. Paulo, graas ao apoio de Rodrigo Mesquita. Esse captulo foi ainda mais curto. Mas no me desanimou. Em 2014 recomecei o projeto atravs de um blog autnomo. Desmotivado e em diculdades, o deixei de lado em 2015. Novamente voltei a ele no ano passado, mantendo a alimentao neste 2017. Ainda bem no incio, mas j com informao suciente para atender consultas, que podem ser feitas gratuitamente. Ainda acho que h um lugar para essa minha enciclopdia, apesar do Google. Ela tem uma abrangncia maior, entre os anos 1970/2000. Sua principal fonte, nesta etapa, so 10 jor nais e revistas da grande imprensa nacional, alm do meu arquivo pessoal. As notcias originais so reescritas para delas expurgar o que efmero, transitrio, sem relevncia. A nova feio atemporal: permite sua reproduo sem precisar de qualquer atualizao. um texto objetivo e enxuto, s com dados que sobreviveram ao tempo. Concatenados, esses textos so uma histria no ocial, alternativa, outline da Amaznia do nosso tempo. No meu entendimento, mais prxima da realidade do que qualquer outra fonte. Por isso, uma ferramenta a servio de num destino melhor para a Amaznia do que ser a colnia do mundo ou coisa pior. O leitor poder checar o que digo indo ao blog. E dando um retorno.Oito homens mais ricos que 3,6 milhes de outrosAs riquezas somadas do planeta alcanam 255 trilhes de reais. Desde 2015, mais da metade deste valor est nasmos do 1% mais rico da populao mundial. As fortunas dos oito homens mais ricos do mundo equivalema todas as riquezas das 3,6 bilhes de pessoas mais pobres do planeta, denuncia a or ganizao civil britnica Oxfam. Seu relatrio, Uma economia para os 99 por cento, foi publicado hoje, vspera do Frum Econmico Mundial, que comear amanh emDavos, na Sua, reunindo os pases mais ricos do globo. No topo da distribuio, os dados para este ano indicam que, coletivamente, os oito indivduos mais ricos do mundo detm uma riqueza lquida de US$ 426 bilhes, valor equivalente riqueza lquida da metade mais pobre da humanidade, constatao estudo. Ele classica essa desigualdade como indecente. O relatrio alerta que o abismo entre ricos e pobres est aumentando em velocidade acima da prevista. A Oxfam revisou informaes do ltimo relatrio aps anlise de novos dados, principalmente sobre a ndia e China. Se esses novos dados tivessem sido disponibilizados no ano passado, teria mostrado que nove bilionrios possuam a mesma riqueza que a metade mais pobre do planeta, e no 62, como a Oxfam calculou na poca observou a entidade. Na lista da revista de negcios For bes, so estes os oito homens mais ricos do mundo: Bill Gates Norteamericano Microso US$ 75 bi Amancio Ortega Espanhol Inditex US$ 67 bi Warren Buett Norteamericano Berkshire Hathaway US$ 60,8 bi Carlos Slim Mexicano Grupo Carso US$ 50 bi Je Bezos Norteamericano Amazon US$ 45,2 bi Mark Zuckenberg Norteamericano Facebook US$ 44,6 bi Larry Ellison Norteamericano Oracle US$ 43,6 bi Michael Bloomberg Norteamericano Agncia Bloomberg US$ 40 bi

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Carnaval ocial acabou? Ento viva o carnavalO carnaval das escolas de samba de Belm est ameaado pela falta de patrocnio da prefeitura? Ento viva o carnaval. Talvez ele se liberte das suas amarras, d cinco passos atrs e caminhe 20 passos em seguida, segundo prev o presidente da Liga das Escolas de Samba do Grupo Especial, Fabrcio Gama. No ano passado elas receberam 3,5 milhes de reais. Neste ano, nada. A verba ocial ser de um milho de reais (ou R$ 500 mil), a ser aplicada em outras manifestaes carnavalescas. Descona-se que outro fator, alm da crise econmica, que deixou mngua as saqueadas administraes pblicas, seja poltica. O ano eleitoral foi o de 2016. Reeleito, o prefeito se desinteressou pelo marketing e a promoo. Pode ser. Nem por isso o verdadeiro folio deve se lastimar. O patrocnio do carnaval sempre foi moeda de troca entre a prefeitura e alguns cabos eleitorais, que tambm atendem como carnavalescos. A relao no tinha qualquer controle social. Nem contribua para a melhoria da festa. Muito menos para fortalecer as agremiaes. Tornou-se um esquema viciado e empobrecedor, contaminado pela pior forma de fazer poltica, atravs do siologismo e compadrio. O melhor carnaval paraense foi brincado nas ruas, com grupos ou indivduos que lhe davam cor e cultura, como o famoso Doutor Passa o Pau, um Buster Keaton no meio de ser pentinas e confetes. As escolas podem aproveitar a recusa de Zenaldo Coutinho a repetir a ajuda de todos os anos voltando s origens, fazendo arrastes, comandando blocos espontneos que se formam pelas ruas. Reivindicando a volta da verba da verba, mas distribuda de forma criteriosa. Apenas como fomento e suporte para o patrocnio da iniciativa privada e de nanciamento pelas prprias escolas, num padro empresarial. O carnaval, como toda manifestao cultural do povo, no tem que andar de mos dadas com os governos, que costumam ser ruins da cabea ou doentes do p.Liderana no jornalismoA ltima vez que inscrevi um texto meu em qualquer concurso de jor nalismo foi em 1984. Fiquei com o prmio Esso desse ano, destinado regio norte, com uma extensa repor tagem sobre o projeto Jari, publicada em O Liberal. O texto se tornou o embrio de um livro sobre o empreendimento do milionrio americano Daniel Ludwig, publicado nesse mesmo ano, com base em pesquisa que realizei na Universidade da Flrida, em Gainesville, com bolsa de uma fundao americana. Tudo que ganhei a partir da foi por iniciativa exclusiva dos responsveis pelas premiaes Por isso, me surpreende estar na liderana dos +Premiados Jornalistas da Histria na Regio Norte conforme a apurao da revista eletrnica especializada Jornalistas & Cia. Supunha que prossionais em plena atividade e competitivos estivessem no topo do ranking. No um antigo reprter, h quase trs dcadas margem (e contra) a grande imprensa. No entanto, sem que eu faa qualquer coisa, ttulos me tm sido concedidos em funo de uma publicao to pequena e to pouco convencional como o Jornal Pessoal Embora impresso em papel, de circulao restrita, com formato pouco atraente e desenho convencional, ele ecoa muito alm do seu alcance fsico e at da sua pretenso, por mais exagerada que ela fosse. Minha liderana na relao dos mais premiados se consolidou e se expandiu porque fui o vencedor do principal prmio criado pela Federao das Indstrias do Par no ano passado. No me inscrevi nem imaginei que estava sequer cogitado. Ganhei, apesar de mim mesmo. E fui receber o ttulo por imaginar quanta discusso meu nome deve ter gerado e, ainda assim, foi sustentado e tornado vencedor pelos que me indicaram. Nada mudou desde ento. Continuo a abordar da mesma maneira todas as questes que pauto para este blog e o JP. Nem a Fiepa me mudou nem os eternos crticos, tanto mais ferozes quanto mais ocultos pelo anonimato. Meu blog e o JP esto sempre abertos crtica, que recebo com uma combinao de humildade, desejo de melhorar, bonomia e civilidade. Tudo isso condicionado a um princpio vital: o respeito aos fatos. S a partir deles admite-se a interpretao, a opinio, a divergncia. Pautados pelos fatos, todos aprendemos e a sociedade sai lucrando. Ainda mais quando se trata de uma sociedade sob jugo colonial, por isso privada de informaes essenciais. Eu no conseguiria transformar um minsculo jornal numa fonte de informaes relevantes sobre a Amaznia se no tivesse passado 18 anos seguidos em O Estado de S. Paulo. O jornal se tornou a principal referncia sobre a Amaznia em plena ditadura graas qualidade dos reprteres que o supriam de dados vitais sobre a regio, quando ela no integrava o ndex da censura. No s por causa dos insistentes crticos, mas porque uma parte do prprio governo militar no dispunha dessas informaes e queria t-las. Durante esse longo perodo cruzei a regio atrs do que estava acontecendo. Fiz amigos e fontes em todas as suas capitais e em muitos lugares do interior. O jornal paulista sempre se disps a nanciar minhas onerosas excurses por ter a garantia de que eu retornaria com boas reportagens. Este foi o melhor capital que formei e do qual lano mo at hoje. Por circunstncias especcas, um grande e conservador jornal me permitiu criar as bases de uma publicao alternativa. Assim a histria, capaz de escapar a esquemas explicativos rgidos e dogmticos, e oferecer surpresas, imprevistos. Como o de eu ser, apesar de to combatido e perseguido, o jornalista mais premiado da Amaznia, mesmo sem ir atrs do ttulo. Isto a histria.