Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a POLTICAAmeaa do fim para JaderQuatorze anos depois de ter sido preso e humilhado como corrupto, Jader Barbalho est de volta mesma situao de alto risco. Como a Operao Lava-Jato comeou a atacar polticos do PMDB e o nome de Jader tem sido citado nas delaes, o prximo alvo ser ele? Jader Barbalho pode estar revivendo o momento mais dramtico da sua longa carreira poltica de meio sculo, iniciada em 1966, como o mais importante poltico do Par nesse perodo. Em 2011, depois de ter sido vereador, deputado estadual, deputado federal, governador e ministro por duas vezes, ele assumiu a presidncia do Senado, cargo que s Jarbas Passarinho, dono da nica biograa rivalizvel com a dele, ocupara. Menos de seis meses depois, porm, Jader foi obrigado a renunciar, sucessivamente, no s presidncia da cmara alta do parlamento brasileiro, mas ao prprio mandato de senador. Foi a sada que lhe restou para escapar cassao, que parecia iminente. Livrou-se dessa ameaa, mas se exps outra: sem o foro privilegiado que o mandato lhe concedia, ele foi preso, algemado, transportado e colocado na cadeia de Palmas, a capital do vizinho Estado do Tocantins, pela Polcia Federal. Espalhou-se pelo mundo a foto do homem que at pouco antes era o segundo na linha su-

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2 cessria do presidente da repblica, tentando esconder as algemas com um livro, enquanto era conduzido de forma ostensiva pelos policiais. Parecia que aquela humilhao punha m carreira de Jader, estigmatizado como um dos smbolos do poltico corrupto, que enriquece desviando dinheiro pblico para si, conforma a acusao que lhe foi feita na justia federal, a partir do escndalo em torno da corrupo na Sudam. Ele hibernou pelo perodo seguinte, depois de se livrar da priso. Saiu completamente de circulao. Parecia aceitar a sentena de morte. Surpreendentemente (ao menos para os seus inimigos e desafetos), ele se elegeu para a Cmara Federal com a maior votao da bancada paraense e, proporcionalmente, a maior do pas. Esse resultado se devia a alguns fatores. Em primeiro lugar, a votao cativa de Jader, que se baseia no seu carisma pessoal. voto que cai na sua conta independentemente de qualquer circunstncia. Ele tem um tero (um pouco menos agora, talvez) do eleitorado paraense. No mais o suciente para eleg-lo governador, mas assegura a continuidade da sua permanncia no parlamento. Um segundo fator a ecincia de Jader no jogo de bastidores e na poltica mida, no interior. A capital j o rejeita, ao seu grupo e ao seu partido, o PMDB, por consider-lo corrupto e incapaz de liderar qualquer programa de mudana no Estado. Mas no interior ele continua a desfrutar de prestgio e fora, de que deu prova elegendo prefeitos em municpios do sul do Estado, sob a inuncia da mineradora Vale, que tm os maiores oramentos. a base que ele espera consolidar para eleger seu lho, o ministro da Integrao Nacional, Helder Barbalho, como governador. E acabar com o amplo domnio do PSDB na poltica estadual nos ltimos 20 anos. A terceira fonte de flego de Jader, que lhe permitiu renascer depois da priso em 2002, foi ter criado a imagem de heri. Aos seus eleitores ele transmitiu a verso de que foi punido por ter tido a audcia de enfrentar o senador baiano Antnio Carlos Magalhes, o mais poderoso poltico do Brasil naquela poca. Jader o derrotou na disputa pela sucesso de ACM, o enfrentou na tribuna e o arrastou para a desgraa mtua. Acabou com a legenda de que ningum desaa Toninho Malvadeza e, o entestando, sobrevive a ele. Jader vestiu a roupa de macho e poltico competente. Coroou-se heri e o povo aplaudiu sua coragem. Esse argumento no existir mais se Jader Barbalho acabar sendo preso de novo. Esta passou a ser a grande questo da poltica paraense da ofensiva da Polcia Federal contra dois ex-governadores do Rio de Janeiro, que transformaram a seo carioca do PMDB na mais forte do partido quando ocuparam o gover no do Estado, que ainda est em poder do partido. Anthony Garotinha, por enquanto, foi preso com fundamento na legislao eleitoral. J Srgio Cabral, que foi senador peemedebista antes de exercer por dois mandatos o governo do Rio deixando-o na pior situao econmica da federao brasileira. foi alcanado pela Operao Lava-Jato. O nome de Jader tem sido constantemente citado nos depoimentos dos delatores e lenientes da Lava-Jato, principalmente ao se referirem s propinas pagas pelo leilo e construo da hidreltrica de Belo Monte, obra de 33 bilhes de reais. Tecnicamente, ele sequer foi indiciado at agora. No signica que ele passar pela sequncia processual de ser intimado a depor antes de qualquer iniciativa da fora-tarefa contra ele. Em 2002, Jader foi surpreendido ao alvorecer pela chegada ao seu apartamento dos agentes federais, que apenas esperaram dar as seis horas da manh para cumprir o mandado judicial. Superado o trauma do episdio e reconquistado o mandato parlamentar, Jader parece ter conado em demasia no seu novo prestgio junto ao PT e ao governado federal, subestimando o sinal de alerta da sua primeira priso. Agora est praticamente na mesma situao de 14 anos atrs, sob suspeita de corrupo e na mira de quem investiga atos que lhe so atribudos no desvio de recursos pblicos. Se a Lava-Jato repetir com ele o fez com Srgio Cabral, o risco de priso grande e pode ser iminente. Se ocorrer, Jader Barbalho conseguir flego para, desta vez, evitar o m? Mais do que o destino pessoal de um poltico e do seu esquema de poder, est em questo um conceito de moralidade pblica e de eccia das instituies no Brasil. Um item de um longo contencioso que est mudando a sionomia do pas. Ser que a grande quantidade de contatos que mantm nos bastidores e seus elos com o poder central daro a Jader condies de superar uma nova priso? Certamente a resposta depender dos dias seguintes consumao dessa hiptese. E de um eventual plano alternativo que ele tiver criado para tentar preservar os instrumentos que criou para colocar a servio do lho e do PMDB. Se conseguir evitar a contaminao que seu destino pessoal poder acarretar ao seu esquema, o PMDB ainda poder estar em condies de fazer aliana com qualquer grupo, desde o PT at por absurdo que possa parecer o PSDB, seu maior inimigo. Seria a maior surpresa para 2018, considerada impossvel por quase todos os observadores da cena local. Mas ela poder ser viabilizada pela conjuno de interesses pessoais e grupais das duas partes, desde que seja nalizada s vsperas da disputa geral que acontecer. A questo que entre 2002 e o momento atual h uma diferena: Jader tem agora direito a foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal por causa do mandato de senador que exerce, enquanto 14 anos atrs estava sem essa proteo, por ter sido obrigado a renunciar presidncia do Senado e ao prprio mandato. H um precedente que o ameaa: na condio de lder do gover no do PT, o senador Delcdio Amaral foi preso pela PF. O agrante foi dado porque o senador foi acusado de obstruir o trabalho da justia e tramar para dar fuga a um dos acusados. No o caso de Jader. A acusao que pesa sobre ele a de receber propina desviada das obras da hidreltrica de Belo Monte. O fato de ele ainda no ter sido chamado a depor no signica que a sua priso no possa ser solicitada e concedida. Mas ela est condicionada ao rito que benecia quem possui foro privilegiado, como ele, passando pelo STF e o parlamento. Nenhum movimento nessa direo foi detectado, mas a secretria de gabinete de Jader em Braslia foi levada a depor e, segundo as informaes da imprensa, teria fornecido informaes que

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3 O novo Carajs: invisvelO maior projeto do PAC (o Programa de Acelerao do Crescimento, principal e onerosa marca da administrao Dilma Rousse) a hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. Seu custo j passou de 33 bilhes de reais. Ela um candente tema nacional por seus efeitos sociais, ambientais e por ter entrado nas obras suspeitas de corrupo investigadas pela Operao Lava-Jato. O principal lder poltico do Par, o senador (ex-deputado, ex-governador e ex-ministro) Jader Barbalho, do PMDB, um dos suspeitos de receber propina. At o ex-todo-poderoso ministro da ditadura, Delm Netto, foi colocado na ciranda do pagamento por fora para inuir sobre o contrato de concesso da usina. Belo Monte foi concebida para ser a quarta maior hidreltrica do mundo, deslocando dessa posio outra usina de energia, a de Tucuru, instalada num rio do Par, o Tocantins. Por sua grandeza e complexidade, Belo Monte j motivou quase trs dezenas de aes propostas na justia pelo Ministrio Pblico Federal para interromper sua construo. Nenhuma dessas aes chegou ao m at agora, nem mesmo com a presso de vrias ocupaes do canteiro de obras, e de outras manifestaes de protestos de ndios e demais nativos, que se consideram prejudicados pelo represamento do rio, um dos maiores do Brasil. Nada disso acontece com uma obra ainda maior. o projeto S11D, da antiga estatal Companhia Vale do Rio Doce, privatizada quase 20 anos atrs e agora com o nome de fantasia de Vale. Sob essa denominao desinteressante est um novo Carajs, a mais importante provncia mineral do planeta, que ca bem no centro do Par, com seu imenso territrio, o segundo maior do pas (de 1,2 milho de quilmetros quadrados, do tamanho da Colmbia, s inferior ao do Amazonas). O primeiro trem saiu da mina de Carajs em 1985, transportando uma carga simblica. O volume de minrio de fer ro transportado cresceu tanto que o tem, com 330 vages e quatro quilmetros de comprimento, se tornou o maior trem de carga do mundo. Todos os dias, seis deles vo e outros seis voltam ao porto de So Lus do Maranho, a quase 900 quilmetros de distncia. Carregam 30 milhes de dlares na forma do mais rico minrio que h na face da Terra. O principal cliente est a 20 mil quilmetros: a China, que compra 60% da produo, de 130 milhes de toneladas. Outra parte, menor, ca no Japo. Neste ms, devero ser concludos os testes para que tudo funcione e, at 2020, Carajs coloque mais 90 milhes de toneladas na Ponta da Madeira, que se tornou o maior porto de carga ocenica do Brasil, apesar de estar na frgil ilha onde est a capital do Maranho. um volume superior ao que consumia os Estados Unidos quando se tornou potncia mundial, depois da Segunda Guerra Mundial. O investimento para colocar o S11D em funcionamento chega a 50 bilhes de reais (o equivalente a dois anos de or amento do Estado do Par e a mais de meio sculo de investimento do governo local), superando o prprio custo original da primeira mina. Mais do que esse nmero impressionante sobre a quantidade de dinheiro que o projeto requereu, tornando-se o maior da histria da Vale, que tambm a maior vendedora de minrio de ferro no mundo, se destaca o dado qualitativo. Em 40 anos a jazida de Serra Sul, ainda mais rica do que a da Serra Norte, sem igual em qualquer outra parte, estar esgotada, deixando um bilho de toneladas de rejeito em buracos despidos de 2,4 bilhes de toneladas de minrio com o mais alto teor de hematita pura que existe 60% dele em uso ou ainda estocados na China. Apesar de incertezas no mercado internacional, um bom negcio para a Vale, uma das raras multinacionais brasileiras. bom tambm para a nao? O Par exporta matria prima h mais de trs dcadas. O beneciamento do minrio se restringe a uma pequena produo de semiacabados de ao, de baixo valor agregado. O benefcio por apenas produzir commodities menor e sujeito a incertezas constantes. Por se destinar quase totalmente exportao, a minerao no paga ICMS, a principal fonte de receita do Estado, que o 9 em populao, op 17 em IDH (ndice de Desenvolvimento Humano), o 19 em PIB e o 21 em PIB per capita, alm de ser um dos mais violentos do Brasil. Em janeiro do prximo ano, quando os novos trens sarem de Cana dos Carajs, a partir de um ramal de 110 quilmetros que se conecta com a ferrovia de Carajs, ser uma questo ameaada de virar retrica diante do fato consumado. Talvez seja por isso, para no dar tempo para os brasileiros pensarem no que est acontecendo quase silenciosamente em S11D, que o volume de minrio gigantesco e a velocidade intensa. Da a nova usina ser a primeira a no utilizar mais os paquidrmicos caminhes fora da estrada de at 300 toneladas cada, que movimentam o ferro da rocha at as pilhas para carregareforariam a denncia premiada de alguns dos presos pela Lava-Jato: de que o senador paraense era um dos que recebia dinheiro destinado pelo esquema de corrupo da Lava-Jato ao PMDB. Secretrias de conana e de longo tempo na funo podem ser fatais para quem esconde alguma prtica ilcita. Talvez a melhor maneira de dissipar a boataria em torno de uma iminente priso e responder s denncias se infundadas de forma denitiva seria o comparecimento espontneo de Jader diante da fora-tarefa da Lava-Jato. Ele seguiria o exemplo do sagaz (e encrencado) empresrio Eike Batista, que tem uma atuao controversa junto Petrobrs. Daria seu depoimento e responderia a todos os questionamentos com a verdade dos fatos, se a possui. opo muito mais ecaz do que o melhor habeas corpus preventivo, a que ele certamente recorrer se for preso. Embora se declare inocente e disposio da justia, experiente e competente como nos bastidores do poder, Jader Barbalho, se tem realmente um plano alternativo consumao da sua priso para evit-la, torn-la curta, se acontecer, e reduzir os efeitos negativos da repetio da mais constrangedora das situaes para um personagem to pblico e estigmatizado como ele. Do contrrio, poder ser o m do cl Bar balho na poltica.

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4 mento no trem. Agora a funo ser desempenhada atravs de correias transpor tadoras, pela primeira vez na mais antiga e volumosa minerao humana. A extrao se tornar muito mais rpida. Quando os brasileiros se aperceberem, da magnca Serra dos Carajs restar o apito do trem. Como tem sido a regra nas regies colonizadas do mundo, antes e sempre. Ainda desconhecida a origem de um grande vazamento de leo, de dimenso ainda no denida, que poluiu as guas do rio Teles Pires, auente do Tapajs, que desgua em Santarm. A rea contaminada ca prxima ao local onde est sendo construda a hidreltrica de So Manoel, na divisa de Mato Grosso com o Par. A mancha de leo foi identicada no domingo. Avanando rio abaixo, ela comprometeu o abastecimento de 320 pessoas que moram em aldeias indgenas s proximidades da barragem. O acidente comeou a ser investigado pelo Ibama, para saber se o vazamento foi causado por problema na estrutura da barragem de So Manoel ou pelo naufrgio de alguma balsa de um garimpo ilegal, dos vrios que operam no Teles Pires. A Empresa de Energia So Manoel, dona da hidreltrica, enviou garrafas de gua para atender a populao indgena Juliana de Paula Batista, advogada do Instituto Socioambiental que viveu na regio, alertou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo para o risco de o problema se agravar. Pelo menos outros 900 indgenas vivem em aldeias a cerca de 60 quilmetros da usina. Mais abaixo ainda est a terra indgena mundurucu, onde vivem 8 mil pessoas. Nenhuma dessas aldeias tem gua tratada, os indgenas bebem gua in natura do rio. Por isso, qualquer coisa que acontece nessa rea uma tragdia, disse ela. A empresa de Energia So Manoel declarou, em nota, que detectou a mancha de leo no dia 13 de novembro, mas que situao da bacia do Teles Pires j est normalizada. A empresa informou que est analisando as causas do ocorrido e que segue com o monitoramento peridico da regio. O jornal paulista lembra que So Manoel uma das ltimas grandes hidreltricas que o governo conseguiu implantar na Amaznia, em meio a uma srie de polmicas envolvendo o impacto do projeto em terras indgenas e a inundao de regies histricas e sagradas para os ndios, como a chamada Sete Quedas do Teles Pires, que cou debaixo dgua. Alm de So Manoel, o rio que d origem ao Tapajs j foi barrado pela hidreltrica de Teles Pires, Sinop e Colder, em Mato Grosso. Esses empreendimentos acumulam pelo menos 24 processos movidos pelo Ministrio Pblico Federal, a maior parte deles apontando desrespeito aos direitos indgenas e impactos ao meio ambiente, como ocorrncias de grande mortandade de peixes. A Empresa de Energia So Manoel pertence EDP Brasil, estatal Furnas e China ree Gorges (que construiu a maior hidreltrica do mundo, de Trs Gargantas, no rio Amarelo, na China). Elas que preveem investimento de 2,2 bilhes de reais na usina, com capacidade para 700 megawatts. As obras foram iniciadas em setembro de 2014 e a previso que as operaes comecem em janeiro de 2018.Contra a tarifaA Equatorial, empresa que controla a Celpa (e a Cemar no Maranho), obteve lucro lquido superior a meio bilho de reais nos nove primeiros meses deste ano (R$ 526 milhes em valor mais exato), dos quais R$ 216 milhes no ter ceiro trimestre, um aumento de 177% em relao ao mesmo perodo de 2015. Areceita operacional lquida da empresa atingiu R$ 5,5 bilhes at setembro. O volume total de energia faturada pela Celpa no Par cresceu 6,5%, para 2.316 GWh.enquanto esse valor foi de 1.533 GWh no Maranho. Em relao a perdas, o desempenho da Celpa pior do que o da Cemar. No Par, houve perda de 27,7% da ener gia injetada pela empresa, um nvel 0,9 pontos porcentuais acima da meta regulatria. Apesar desse resultado sofrvel, houve reduo de 0,9 pontos percentuais. nos ltimos 12 meses. Na concessionria maranhense, a perda foi de 17,9% da energia requerida. A Celpa se saiu melhor nos indicadores de qualidade. Na empresa paraense, a durao das interrupes melhorou em 1,4% e a frequncia aumentou em 1,7% nos ltimos 12 meses encerrados em setembro Na Cemar, ambos recuaram, em 2% e 3%, para 13,5 horas e 7,2 vezes, respectivamente. Segundo anlise feita pelo site especializado Canal Ener gia no trimestre os investimentos da Equatorial somaram R$ 382 milhes, aumento de 48,6% sobre os aportes do mesmo perodo do ano anterior. No ano a Equatorial j investiu R$ 997 milhes, volume 25,7% acima do aplicado em 2015. J a dvida lquida da companhia cresceu muito: encerrou o trimestre a R$ 2,324 bilhes, elevao de 52,2% comparada ao nal do mesmo ms de 2015.Celpa consegue lucrar mais de meio bi de reaisAjuza Maria da Penha Fontenelle, da 1 vara da justia federal em Rondnia, proibiu a cobrana de bandeira tarifria no Estado de Rondnia, instituda para todo pas pela Aneel em 2013, A partir da o consumidor passou a ser obrigado a pagar uma sobretaxa conforme o consumo de energia maior, igual ou menor, com acrscimo, sem mudana ou reduo do valor da tarifa, que pode passar de R$ 0,025 para R$ 0,055 por cada quilowatt-hora. A campanha contra essa medida se tornou forte porque Rondnia possui trs usinas de energia. Uma delas, Santo Antonio, a terceira maior do Brasil. A outra, Jirau, a quarta maior. E h ainda uma usina menor e mais antiga, a de Samuel. Mesmo assim, a energia considerada muito cara pela populao, com o apoio da classe poltica. O Par no pode se inspirar no exemplo dos rondonienses e reagir tarifa extorsiva?

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5 Entre Braslia e o Brasil, uma denio para LulaAtravs dos seus advogados, o ex -presidente Lula, sua esposa e lhos ajuizaram na sexta-feira da semana passada, 18, queixa-crime subsidiria contra juiz federal Srgio Moro (tratando-o de forma mais genrica, por servidor pblico federal e, mais adiante, agente pblico, nunca por juiz, talvez numa tentativa de desqualic-lo), Acusam-no da prtica de abuso de autoridade. A iniciativa uma progresso da representao feita em junho contra Moro Procuradoria Geral da Repblica. Nela, pediam providncias em relao a fatos penalmente relevantes praticados pelo citado agente pblico no exerccio do cargo de juiz da 13 vara federal criminal de Curitiba. Os fatos seriam, conforme o documento: (i) a conduo coercitiva do ex -Presidente, para prestar depoimento perante autoridade policial, privando -o de seu direito de liberdade por aproximadamente 6 (seis) horas; (ii) a busca e apreenso de bens e documentos de Lula e de seus familiares, nas suas respectivas residncias e domiclios e, ainda, nos escritrios do ex-Presidente e de dois dos seus lhos (diligncias ampla e estrepitosamente divulgadas pela mdia) e, mais, (iii) a interceptao das comunicaes levadas a efeito atravs dos terminais telefnicos utilizados pelo ex-Presidente, seus familiares, colaboradores e at mesmo de alguns de seus advogados, com posterior e ampla divulgao do contedo dos dilogos para a imprensa. Ressaltam os defensores de Lula que a ilegalidade e a gravidade dessa divulgao das conversas interceptadas foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. No entanto, desde ento, nenhuma providncia foi tomada pelo Ministrio Pblico Federal, reclamam os advogados. Essa inao levou o ex-presidente e seus familiares a propor diretamente a ao penal, por meio de uma queixacrime subsidiaria, protocolada junto ao Tribunal Regional Federal da 4. Regio, em Braslia. O TRF tem competncia originaria para conhecer e julgar aes penais contra agente pblico investido nas funes de juiz federal na circunscrio de Curitiba. Aps expor todos os fatos que congurariam abuso de autoridade, a petio pede que Sergio Moro seja condenado nas penas previstas pela lei 4.898, de 1965 (da poca do regime militar), que pune o abuso de autoridade com deteno de dez dias a seis meses, alm de outras sanes civis e administrativas, inclusive a suspenso do cargo e at mesmo a demisso. pouco provvel que os advogados de Lula consigam qualquer medida concreta e imediata do tribunal, que dever ouvir o juiz acusado e o representante do Ministrio Pblico, antes de decidir sobre o pedido. Se o atender, provocar uma reviravolta radical no andamento da Operao Lava-Jato, podendo at feri-la de morte, sobretudo no enquadramento extremo da petio, a priso do juiz Se seguir caminho contrrio, praticamente abrir um canal de passagem para a investida que Moro parece estar nos momentos nais da preparao: a decretao da priso talvez preventiva de Lula. Em qualquer hiptese, ser um dos momentos decisivos do andamento do processo, j prximo do seu desfecho. Ao mesmo tempo em que recor re ONU para que ela aprecie o que considera ser um processo poltico, montado a partir de uma conspirao para prend-lo e tir-lo fora da cor rida para a presidncia da repblica em 2018, Lula continua a utilizar os recur sos previstos na lei brasileira e a acreditar, ao menos formalmente, na capacidade de a justia nacional reconhecer e garantir direitos que ele diz estarem sendo violados pelo abuso da autoridade coatora. Ser a oportunidade para a apreciao jurdica da situao. Certamente, porm, ela no se limita ao mbito do poder judicirio. H uma intensa movimentao nos bastidores do poder em favor e contra Lula. De um lado, os que querem chegar a uma composio poltica com ele, num entendimento que favorea as partes (como entre o PMDB de Temer e o PT de Lula, ambos os partidos mais cindidos do que nunca). O governo ainda parece convencido de que a priso de Lula provocar uma comoo social, que complicaria ainda mais a tentativa de livrar o pas da crise em que se encontra. Do outro lado, os que querem apressar um golpe mais duro contra o ex-presidente, como a sua priso, para afast-lo de vez do centro das decises. margem da grave crise econmica em que mergulha cada vez mais o Brasil real, o Brasil simblico faz manobras a partir de uma premissa: Braslia mesmo uma torre de marm, um jardim das fantasias e uma cidadela inexpugnvel nao, que padece as dores de uma vida cujas diculdades so agravadas por esses marajs de palet e gravata.Moro de foraA queixa-crime ajuizada pelos advogados de Lula pode ter o objetivo nal se suscitar um incidente de suspeio e assim afastar Srgio Moro da titularidade da 13 vara criminal da justia federal em Curitiba. Mesmo que Moro se recuse a aceitar um pedido direto de suspeio, como j fez antes, o questionamento pode ser recebido na instncia superior, ao contrrio das outras vezes. A ele teria que se afastar da conduo das aes at a denio sobre a sua suspeio. Com um novo juiz, talvez o rumo da Operao Lava-Jato mude. uma possibilidade remota, exceto se houver um grande acordo de bastidores para a composio de interesses entre o PMDB e o PT, os maiores interessados na questo, por que os mais visados.

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6 Governadores presos e o Brasil desnudadoMoralismo udenista se tornou uma expresso cabalstica para a esquerda brasileira. De fato, a UDN (Unio Democrtica Nacional, criada com o m da ditadura do Estado Novo) utilizou o moralismo como arma substitutiva do voto, que nunca teve em quantidade suciente para chegar presidncia da repblica, cargo para o qual ningum mais do que os udenistas estavam preparados para ocupar. Eles se consideravam os melhores, os mais inteligentes, os ver dadeiros vares da repblica de Plutarco. Mas o ditador Getlio Vargas derrotou pela segunda vez seguida seu heri, o brigadeiro Eduardo Gomes, na eleio de 1950 (a primeira, em 1946, foi seu sucessor, o marechal Eurico Dutra). Carlos Lacerda, o mais brilhante orador a ocupar uma tribuna no Brasil, declarou guerra de morte a Getlio. Quando capangas a servio do guarda-costa pessoal do presidente, o anjo negro Gregrio Fortunato, executaram um mal sucedido atentado a Lacerda, a UDN aproveitou para cravar o punhal no corao do presidente odiado pela cpula da elite nacional e amado pelo povo. As provas contra os subterrneos do palcio do Catete eram sucientemente slidas para levar Getlio famosa e triste consso: ele estava sendo afogado por um mar de lama, embora continuasse pessoalmente honesto em matria de dinheiro. Falcatruas de vrias ordens realmente havia, mas no o bastante para abalar a repblica. Getlio no cairia se aceitasse virar marionete. Reagiu e se suicidou, revertendo a direo da histria. medida que o tempo decorreu, o eciente moralismo da UDN foi cando caricato at se tornar absolutamente farisaico. No entanto, havia tonalidades vrias na UDN, do mais culto reacionarismo ao mais desaador esprito de renovao, que se agrupou na ala chamada de Bossa Nova, mais esquerda do que o PTB de Getlio (mas que tambm acabou dando polticos como Jos Sarney). A esquerda, perlada com Getlio Vargas, desconstruiu (como se diz na academia) a seriedade do moralismo udenista at transform-lo num traste da histria. A Operao Lava-Jato est fundando, nos nossos dias, um novo conceito de moralidade pblica, capaz de descartar o oportunismo poltico do que interessa: a gesto dos recursos pblicos, o principal deles entesourado no errio. A administrao pblica brasileira uma das mais saqueadas do mundo. Tem sido difcil de superar o desao de dar credibilidade a esse conceito, j to antigo em outras democracias espalhadas pelo mundo, ainda to precrio no Brasil do sculo XXI: o servio pblico deve se livrar da corrupo e dos corruptos se quiser tirar o pas do atoleiro. O passo mais decisivo est sendo dado neste momento na muy hermosa ciudad del Rio de Janeiro. Ao acompanhar a priso de dois exgovernadores, que chegaram ao poder no Rio como aliados (depois se desavindo), o carioca pode personicar os graves males da administrao pblica, que abalaram a cidade e o prprio Estado. O salrio atrasado do funcionalismo, as dvidas no pagas a empreiteiros e fornecedores, o calote generalizado e as perspectivas funestas podem ser visualizadas concretamente nos gastos faranicos do ex-governador Srgio Cabral. Ele est mais para maraj da ndia do que para governador de um Estado de uma federao republicana, com seus gastos faranicos e sua insensibilidade rude e grosseira de novo rico base do saque ao caixa do tesouro estadual. Ao ver as imagens da priso do exgovernador minha memria foi direta gura do pai, o boa praa Srgio Cabral, jornalista, crtico de msica, carnavalesco, tpico representante da intelectualidade carioca e do povo de uma cidade festiva. Um oceano separa o pai do lho, mas uma ponte os une: o desdm pela moralidade udenista. Insupervel quando no desempenho da sua funo de crtica e oposio, a esquerda tem sido quase sempre um desastre no poder. No Brasil, o acesso aos mecanismos de deciso e aos instrumentos de distino do comum dos mortais, a esquerda se confere o direito de tirar a diferena em relao a um passado de privao, O acerto de contas com uma elite que se sucedeu, com poucas alternativas e opes, desde a fundao da nao europeizada, no sculo 16, faz com que o esquerdista no poder considere a autoconteno e a coerncia com a pregao do passado como algo prprio do falso moralismo dos udenistas, muito vivos ainda hoje, apesar do desaparecimento da legenda partidria. Homem honesto e pessoa decente, ainda assim Srgio Cabral pai deve ter formado a conscincia do lho com essa noo de que o Estado um instrumento para a realizao de objetivos de transformao, mas tambm pode funcionar como uma extenso se no da casa grande, para no trair a simbologia montada com m utilitrio da senzala. Nela se instalaram aqueles que dizem combater a desigualdade estrutural que, at hoje, deixa os pobres na condio virtual de escravos. Essa contradio evidente mascarada e camuada por um populismo retrico que a priso de Srgio Cabral desmascarou. Agora, o povo pode descobrir claramente para onde foi o dinheiro desviado de um oramento pblico destinado a atender a populao, mas que serve aos nababos de sempre, neguem eles serem de direita ou se digam de esquerda. O povo pode comprovar que a moralidade pblica no um fetiche ou um adereo insignicante. Ela tem um peso crucial. O Brasil foi desnudado. Tomara que vista uma roupa melhor do que a atual.

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7 Trem da vale passa pelo Par em silncioParece que Murilo Ferreira cumprir o seu terceiro mandato bianual, per manecendo como presidente da Vale at o prximo ano. Segundo a Folha de S. Paulo, o presidente Michel Temer resiste a presses polticas para antecipar o m do mandato e substitu-lo por indicaes de fora da empresa. Tecnicamente, isso possvel: o governo, por vrias participaes, tem o controle acionrio da mineradora. Temer teria preferido no interferir na conduo da empresa pelos demais scios, da iniciativa privada. O maior deles o Bradesco. Tambm achou melhor conviver com um executivo que foi colocado no topo da maior empresa privada do pas em 2011, no governo Dilma Rousse. O Planalto estaria avaliando nomes como o do ex-diretor da companhia de minerao Tito Martins, hoje na Votorantim Metais, e alternativas internas, como Peter Poppinga, diretor-executivo de Ferrosos, e Luciano Siani, diretor -executivo de Finanas e Relaes com Investidores. Tudo muito bom, tudo muito bem: s Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Mas e o Par, responsvel por 40% do faturamento da empresa e onde ela executa os seus maiores investimentos, vai continuar acompanhando a sucesso na mineradora como se Carajs fosse em Marte? Quando a Vale era estatal, ao Par era reservado um lugar conforme o merecimento que os dirigentes da companhia o julgavam merecedor: um lugar no quase sempre decorativo conselho de administrao. Dele zeram parte o ex-governador Alacid Nunes e o advogado Otvio Mendona. Outros favores mantinham calados os demais. E agora: qual a razo do silncio ensur decedor da sociedade diante de decises que denem a posio da companhia, a maior em atividade no Par?O mensageiro: sempre como a primeira vtimaFoi com tristeza, preocupao e indignao que vi, na semana passada, as cenas de agresso ao jornalista Caco Barcellos, em frente sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele foi cercado, hostilizado e se tornou alvo de objetos atirados contra eles por servidores pblicos que protestavam contra o pacote de ajuste scal proposto pelo governador Luiz Fernando Pezo, do PMDB. Caco e sua equipe gravavam mais uma reportagem de um dos melhores programas da televiso brasileira, o Prosso Reprter, quando ele foi abordado por alguns integrantes do grupo que protestava no local. Garrafas, caixas e at um cone de sinalizao foram atirados na direo do jornalista, que tentava se proteger colocando a mo sobre a cabea. Caco s no sofreu danos maiores porque alguns policiais se incorporaram equipe, que tentava proteg-lo. A agresso foi a pretexto de combater a TV Globo, citada atravs do velho bordo: O povo no bobo, abaixo a Rede Globo. O Brasil vive numa democracia. H meios legais, alguns deles teis, outros ecazes, para combater a manipulao das informaes pela Rede Globo, contestar sua diretriz editorial, scalizar suas atividades empresariais, controlar o uso das concesses pblicas que detm. Mas s os fascistas passam desse exerccio democrtico de crtica e reao para a supresso da liberdade de expresso e da integridade do outro, principalmente do oponente. Orgulho-me profundamente de ser colega de prosso de Caco Barcellos, a quem passei a acompanhar e, s vezes, contatar, desde que dvamos a nossa colaborao eu ao Opinio, a partir de So Paulo, ele ao Reprter no Rio de Janeiro imprensa alternativa no tempo da ditadura, nos anos 1970. Caco me supera em muito como reprter de rua e apurador de informaes em cima do acontecimento. Por isso, me serve de inspirao, como um mestre. H muitos anos ele est na Globo, como esto outros jornalistas que admiro, um dos mais destacados sendo o decano Jos Hamilton Ribeiro. Sim, est na Globo como prossional, no para vender a alma, entregar sua conscincia. Prossionais de valor, como ele e Z Hamilton, melhoraram em muito o indiscutvel ao menos do ponto de vista formal padro de qualidade da Globo. Mas descendo-o ao plano da realidade catica, suja e hostil das ruas. Sem a bitola da norma diretriz. O Prosso Reprter j foi premiado no exterior, o que signica que divergncias ideolgicas e polticas parte, manobras de poder inclusas, a Globo uma ilha da fantasia, mas tambm uma ilha de excelncia num mar encapelado de mediocridade e vilania da TV brasileira. Ela um item da democracia brasileira. Para combat-la pelos mtodos fascistas de hoje de manh, os que querem uma imprensa melhor acabam por deixar o Brasil com imprensa alguma. Passam a ser os donos da verdade no pas, arrogantes e intolerantes, agressivos e malsos. Sabemos a que conduz essa presuno de propriedade, a ao de partido nico, o desejo do poder a qualquer custo. Vendo as imagens da agresso, lamentei no estar ao lado de Caco para ajud-lo a enfrentar os selvagens ou padecer com ele, me solidarizando com a sua gura franzina, denida por uma biograa pela qual seus cabelos brancos exigem respeito.

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8 Manaus na UTI urbansticaOsris SilvaMutatis mutandi, Osiris (autor de um livro sobre petrleo na dcada de 1960 e pessoa muito combativa) descreve Belm. Mas se falasse de Belm, falaria mais amargamente. Algum discorda? Eu queria ter dons de escritor para descrever o que senti ao visitar pela ltima vez o porto utuante de Manaus, onde eu ia curtir a natureza e agradecer quela pequena retribuio do colonialismo ingls. Hoje o retrato do desbramento da cultura amazonense made by Zona Franca. Em algum ponto de sua obra capital, Tristes Trpicos (publicado em 1955), o etngrafo francs Claude Lvi-Strauss observa que as cidades latino-americanas tendem a alcanar o declnio sem haverem conhecido o apogeu. Manaus talvez seja uma exceo. Havendo atingido o pice urbanstico no perodo ureo da borracha (nal do sculo XIX, meados do XX), a partir de 1967, quando da instalao da Zona Franca de Manaus (ZFM), contraditoriamente entrou em decadncia, vtima de brutal inchao migratrio. O fenmeno deveria estar sendo discutido pela Academia, SUFRAMA, governo do Estado e Poder Legislativo sem tergiversaes, profunda, objetiva e pragmaticamente. Mas no est. Enquanto isso, avulta o quadro de deteriorao urbanstica que assola a capital amazonense, notadamente no centro histrico. Com raras e pontuais excees, podem ser encontrados prdios/palcios/bungalows/manses em bom estado de conservao. No geral, todavia, obras do incio do sculo passado rendem-se indefesas ao mau gosto e ao baixo padro arquitetnico. Levando dois amigos norte-americanos em visita Manaus semana passada para um tour urbano, quei chocado, envergonhado de mostrar uma cidade to deteriorada, feia, suja, malcheirosa. Grande parte do centro histrico desgurado, ruas sendo novamente ocupadas por camels, muitas favelas misturadas ao decadente casario em estilo portugus. A estao de nibus da Constantino Nery aviltante, padro Zimbabwe, Burkina Faso, Sria, Turcomenisto, Djibuti, pases situados no topo da cadeia dos mais miserveis do mundo. A situao do Manaos Harbour, nosso outrora belssimo Por to Flutuante degradante sob qualquer ngulo que se divise. Alm de quente, envelhecido, esgotos a cu aberto fedem. Diferente do passado, quando constitua o principal carto de visita da cidade junto com o Hotel Amazonas, que hoje amarga idntica sina. O cidado convive com tal cenrio diariamente sem praticamente se dar conta do tamanho do problema. Quando, entretanto, leva visitantes a conhecer a cidade, o choque de realidade brutal, desponta com toda fora de uma realidade lancinante, intensamente cruel. Nossa capital, dominada por extensa rede de favelas, est na UTI. No h como escamotear os fatos. Culpa do prefeito Arthur Neto? S dele? Penso diferente. O problema antigo e persiste desaador e desmoralizante por mais de 40 anos. Todos os que passaram pela chea do Executivo municipal nesse perodo so igualmente responsveis por esse deprimente processo de derrocada. Solues, certamente, devem estar previstas no Plano Diretor da Cidade, tudo leva a crer, intil. A propsito, o que feito da Cmara de Vereadores? Alheia ao caos urbano, no traz a questo discusso perante a comunidade. A omisso ainda mais grave quando se observa a ignorncia quase generalizada dos edis em relao aos problemas da ZFM. O mais importante modelo de desenvolvimento implantado em Manaus aparentemente no desperta interesse da Casa. So rarssimas as manifestaes acerca da crise que, abatendo-se sobre a economia do Estado, achata implacavelmente as nanas da Prefeitura. Qual precisamente o papel do Legislativo municipal alm de conceder honrarias invariavelmente desprovidas de fundamento e negociar com o Prefeito cargos, benesses pessoais e partidrias? Segundo a ONG Transparncia Brasil, cada um dos 41 vereadores de Manaus custou mais de R$ 1,0 milho aos cofres municipais em 2015. Nossa representao ocupa o terceiro lugar no ranking dos vereadores mais caros das capitais do Pas. Absurdamente, s perde para S. Paulo e Rio. Por ms, cada um deles embolsa em torno deR$ 89 mil, sendo R$ 15 mil de salrio mdio, R$ 14 mil de verba indenizatria e R$ 60 mil de verba de gabinete. Rendimentos esses integralmente garantidos, faa chuva ou faa sol. Cabe reforma poltica encontrar uma soluo para pr um m a esse mar de desperdcio de recursos pblicos sem contrapartida social signicativa. Manaus, 16 de novembro de 2016. AVISOCom esta edio bastante atrasada, como nunca, vou tentar lanar logo o nmero seguinte do JP, o que pode prejudicar a edio, mas necessrio para atualizar a circulao do jornal.

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9 Mais energia vai para fora Militares do massacre ainda esto impunesNova geraoEm abril deste ano o governo do Estado instaurou um conselho de justicao para apurar a participao de policiais militares nas 10 mortes que se seguiram ao assassinato do cabo da PM Antnio Marco da Silva Figueiredo, no dia 4 de maio de 2014. Na madrugada do crime, pelo menos 10 pessoas foram mortas aleatoriamente na periferia de Belm, com todas as caractersticas de execuo, por vingana pela morte do cabo Pet, como ele era mais conhecido, na sua face de justiceiro de milcia. O conselho foi constitudo, portanto, 20 meses depois da ocorrncia. Passados sete meses, no concluiu as suas atribuies em tempo hbil e foi extinto, hoje, por decreto do governador Simo Jatene. O tempo hbil seria de 30 dias, renovvel por mais 30. Estendeu-se por mais 150 dias e no concluiu a sua tarefa: apurar e punir quatro ociais da Polcia Militar que cometeram transgresso de natureza grave. Os militares submetidos ao conselho de justicao foram o capito Jackson Barros sobrinho, o 1 tenente Carlos Eduardo Memria, o 2 tenente Cssio Rogrio Dantas Garcia e a 2 tenente Mnica Amorim dos Santos. Provavelmente eles foram coniventes com os vingadores do sargento Pet, homem violento e diver sas vezes afastado das funes por transgredir as regras da corporao. Quando ele foi assassinado, com quatro balas de pistola calibre 9, de uso restrito, depois de tiros com os agressores, ele estava novamente sob punio e devia ser expulso da PM. Mesmo assim, seus vingadores criaram pnico em vrios bairros da periferia, que percorreram em grupo de veculos, em alta velocidade, atirando em jovens que estavam nas ruas e matando pelo menos 10 pessoas. O episdio sangrento completou dois anos sem que o processo judicial tenha chegado ao fim. E o processo administrativo vai recomear. Um ritmo to lento e ineficiente que deixa dvidas sobre a sua seriedade. Ou, dito de outra maneira: no deixando dvidas sobre a sua falta de seriedade. A 48 turbinas da hidreltrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondnia, comeou a funcionar no dia 14, um dia antes da data prevista pela concessionria da usina, a Energia Sustentvel do Brasil, quando a Agncia Nacional de Ener gia Eltrica liberou para operao comercial a ltima das turbinas, a 50. Com isso, a usina j est gerando 3,6 mil megawatts de energia, prxima de chegar capacidade total, de 3,75 mil MW. mais do que todo consumo da Amaznia e o dobro do consumo do Par. Com a hidreltrica vizinha de Santo Antnio, tambm no rio Madeira, Rondnia j um dos maiores exportadores de energia do Brasil. Poder atender, quando as duas usinas estiverem a plena capacidade, a mais de 15% do consumo nacional. Somadas, Santo Antnio e Jirau tm mais de 80% da potncia de Tucuru, que ainda a 4 maior do mundo, mas ser superada por Belo Monte, no Xingu. Quando todas estiverem a plena carga, a Amaznia estar transferindo mais de um tero da energia do Brasil. Ser a maior provncia ener gtica do pas e do mundo. Quem comemora? Esteves Pedro Colnago Junior foi nomeado, na semana passada, pelo presidente Temer, como membro e presidente do Conselho de Administrao do BNDES. Substituir o exsecretrio executivo do Ministrio da Indstria, Comrcio Exterior e Servios, Fernando de Magalhes Furlan, exonerado do cargo no dia 16. Conheci Esteves Pedro Colnago quando ele atuava como funcionrio e lobista da Construtora Andrade Gutierrez, principalmente ligado aos projetos da empreiteira no Par, com a colonizao que empreendia no sul do Estado. Deve ser filho dele o personagem nomeado. a nova gerao substituindo os pais, que se afastam..Isto Par!Numa entrevista provavelmente encomendada para edio dominical de O Liberal, o governador Simo Jatene fez um diagnstico quase correto da conjuntura poltica do Par: Aqui do tempo do manda quem pode, obedece quem tem juzo. Ou melhor, acha que pode por ser proprietrio de um imprio de comunicao acha que pode impor sociedade as suas verdades. Ele estava se referindo ao imprio da famlia Barbalho, liderada pelo senador Jader Barbalho, do PMDB. Se no estivesse submisso ao outro lado da balana viciada, tambm aplicaria a frase ao imprio da famlia Maiorana, para o a qual a denio se acomodaria como uma luva. H pelo menos trs dcadas nenhum lder poltico tentou vencer essa bipolaridade, estabelecendo uma via alternativa a esse corredor polons com Barbalhos de um lado e Maioranas do outro. Jatene apenas pulou de uma barca para a outra. Saindose bem nesse ziguezague at agora. O que resulta numa outra moral daninha: se d melhor quem trai sucessivamente a um e a outro grupo, se aliando a eles para seguir nessa trajetria torta no rumo da permanncia no poder. Da Jatene, que tem o perl do antipoltico, ser o cidado que por mais vezes (trs) ocupou o governo do Estado atravs de eleio direta. Mais do que Lauro Sodr, Magalhes Barata, Jader Barbalho. Pobre Par! Bem feito, Par!

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10 Quem mais ganha com a corrupo?Os esquemas de corrupo mais estruturados e vultosos que acontecem no setor pblico so montados e sustentados pelo poder poltico-econmico, garante o presidente Charles Alcntara, auditor scal da Secretaria da Fazenda do Par e diretor para assuntos tcnicos e comunicao da Federao Nacional do Fisco Estadual e Distrital, a Fenasco. Em artigo publicado no blog Ver-oFato, do jornalista Carlos Mendes, no dia 14, ele admite que esses esquemas ser vem para enriquecer os seus operadores (corruptores e corruptos), mas ainda mais verdadeiro que existem principalmente para abastecer candidatos e partidos polticos de dinheiro sujo. Charles j no acredita que a mera priso dos operadores da corrupo seja suciente para acabar com o crime, crena da fase de ingnuo. Polcia e MP (federal e estadual), se quiserem e atuarem com sincero esprito pblico e rigorosa imparcialidade, alcanam os verdadeiros mandantes e principais benecirios dos grandes esquemas de corrupo e sonegao. Enquanto, porm, as investigaes no forem conduzidas de modo a alcanar o andar superior, merecero a minha desconana. Pelo contrrio, se forem fundo s causas e fontes do poder-mandante, essas investigaes merecem o meu respeito e aplauso. O comentrio foi a propsito de 48 prises de participantes de um esquema de corrupo montado na arrecadao de imposto no sul do Estado, revelada pela Operao Quinta Parte, da Polcia Civil, que teve esse nome por apurar propina de 20% cobrada sobre o valor do imposto que o corruptor devia pagar (e no pagava) ao errio. Do esquema faziam parte 33 servidores pblicos, sendo oito scais e quatro auditores da fazenda estadual, mais 21agentes administrativos da secretaria, alm de nove contadores e seis empresrios. As prises foram realizadas em oito municpios: Redeno, Conceio do Araguaia, Santana do Araguaia, Santa Maria das Barreiras, Xinguara, Tucum, So Flix do Xingu, Ourilndia do Norte e Belm, alm da cidade de So Paulo, onde um dos funcionrios procurados foi localizado e preso. Quando os comentrios comearam a aparecer no blog, Charles Alcntara acrescentou a manifestao do seu orgulho por ter completado, em setembro, 3 anos de Secretaria da Fazenda. Tenho muito orgulho de pertencer ao Fisco. Quem se envolve em qualquer malfeito, seja no Fisco, no Judicirio, na Polcia ou em qualquer outra atividade pblica ou privada, quem deve sentir vergonha e, mais do que isso, deve sofrer as sanes previstas em lei, desde que comprovado o malfeito. Nesse perodo, ca triste por saber que as investigaes jamais se aprofundam a ponto de chegar base do iceberg. Se os annimos (nem sei se mais de um annimo ou se se trata do mesmo indivduo) tivessem o mnimo de curiosidade para levantar casos pretritos de operaes policiais dessa natureza, descobririam que pouco tempo depois do espetculo miditico, tudo permanece do mesmo jeito, justamente porque os grandes esquemas no so fruto da ao atomizada e desarticulada que se d na ponta, mas de uma sosticada rede, com comando geralmente distante do local onde se d a ao criminosa. Assim funciona no trco de drogas e em todos os crimes estruturados. Acrescenta Charles: Se a Polcia e o MP passam meses e meses (anos, s vezes) monitorando esse ou aquele agente, no consigo acreditar que desconhecem como funcionam as coisas e quem est no comando. Os annimos (ou annimo), por pura ignorncia ou m f mesmo, supe(m) que a corrupo, desse jeito, est sendo combatida de verdade. No sabe (m) o que diz (em)!. Ele garante queda sua parte, seguirei lutando em defesa da tica no servio pblico, de peito aberto porque no me permito a covardia do anonimato leviano. Charles Alcntara faria ento faria muito bem no deixando que mais essa iniciativa de combate corrupo na Secretaria da Fazenda indicando a pista que a polcia devia seguir para chegar aos mandantes, que ele identica no mundo poltico e empresarial. Se tem tanta cer teza disso, por conhecer os nomes dos personagens ocultos e nunca atingidos pelas ofensivas policiais. A opinio pblica espera por sua iniciativa.Alcoa reduz capital: sinal de uma crise?A Alcoa comeou a operar em Juruti em setembro de 2006, lavrando uma jazida com quase 700 milhes de toneladas, um dos maiores e melhores depsitos de bauxita do mundo do Par, que tem a terceira maior reserva mundial dessa matria prima e Oe lder nacional do minrio. A produo comeou com 2,6 milhes de toneladas, passando logo para 3 milhes de toneladas por ano. A Alcoa tambm scia em outra minerao de bauxita, a da Rio do Norte, que produz 17 milhes de toneladas e parece no ter a inteno de diminuir ou congelar suas atividades. Por que os distintos procedimentos da Alcoa numa empresa e na outra? Quatro anos depois de dar partida sua operao, a Alcoa decidiu reduzir em 40 milhes de reais o seu capital, de 7,4 bilhes de reais, alegando que seu valor se tornou excessivo. uma reduo insignicante, j que o capital da empresa continua em 7,4 bilhes de reais redondos. Mas uma tendncia? O mercado de bauxita e alumina, no qual a companhia americana atua, como uma das maiores produtoras mundiais, ainda no apresenta perspectivas de crescimento sustentvel a justicar novos investimentos para aumento de produo, justicou. Tambm chegaram ao m os investimentos para a extrao de bauxita em Juruti e o aumento da produo de alumina (de 272 mil para 1,4 milho de toneladas) chegaram ao m, com a construo de uma rodovia e de uma ferrovia com 50 quilmetros de extenso, mais um porto para abrigar navios de at 60 mil toneladas, alm da expanso da unidade de produo na capital maranhense. Entre setembro de 2009 e dezembro de 2014, a multinacional recolheu quase 55 milhes de reais como Compensao Financeira pela Explorao de Recursos Minerais (a CFEM). O municpio ca com 65% desse valor, o que representou cerca de R$ 30 milhes para Juruti no perodo, ou R$ 500 mil por ms. O DNPM alega que o valor devido o dobro do pago. Devia ser recolhido no sobre o preo do minrio no porto de Juruti, que a origem, e sim sobre o colocado na Ponta da Madeira, em So Lus, onde a bauxita transformada em alumina pela prpria Alcoa. A empresa sustenta que faz o correto, segundo a legislao.

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11 Jean Hebette: uma voz contra o colonialismoJean Hebette foi um personagem histrico, presena marcante na histria recente do Par e da Amaznia. Combinava condies raras. Era atormentado e angustiado pela solidariedade aos mais pobres, desassistidos, explorados e colonizados. Mas nasceu na Blgica, pas europeu que levou a desgraa ao Congo, onde Jean atuou como missionrio, sofrendo a dor do dilaceramento entre a razo e a emoo, a herana e a criao. Devia estar do lado dos brancos, como ele. Mas se dedicou aos negros, as vtimas dessa histria. Trouxe o mesmo compromisso para a Amaznia, dedicando sua espantosa energia e inndvel f aos nativos, aos excludos do novo banquete colonial. Era um homem positivo: queria fazer e fazia. Era um intelectual rigoroso, paciente na pesquisa, persistente na busca pela realizao do objetivo. Queria trazer a realidade violenta da junge para os ambientes acadmicos e gritar para os privilegiados, os intelectuais (que podem comer trs vezes ao dia e trabalhar com a cabea como ofcio), que eles precisavam tambm ser teis, sem abdicar um milmetro seu rigor cientco. Queria sangue (no apenas simblico) na anemia (no apenas metafsica). Sua religiosidade o ajudava a cair e levantar, sofrer um golpe e prosseguir, buscar a utopia, no entregar os pontos, no desistir. Jean buscava seus ttulos no confronto da inteligncia com a vida, do arsenal de teorias com o universo das coisas ainda no classicadas, muitas vezes gestadas e mantidas no caos da fronteira selvagem. Homem generoso e amigo, se juntou a Raul Navegantes para dar ao Ncleo de Altos Estudos Amaznicos da Universidade Federal do Par uma espada de razo combatente em nome da cincia, claro, mas em confraternizao com homens de carne e osso, em situaes concretas, carentes de explicaes e orientaes, mas tambm de po e gua (dieta desses homens quando a combinao dos elementos os leva a uma subverso cultural e cadeia, dela ao derivativo temido: a morte matada). Jean e Raul convidaram um simples jornalista por prosso e bacharel em sociologia por formao, como eu, para agitar a calmaria das pesquisas distantes e frias, trazer a atualidade para um ambiente refratrio aos sobressaltos das transformaes que ainda no se haviam repetido, os fatos sem recorrncia, como os acadmicos gostam de sublinhar. Eles tambm trabalharam para me conseguir um ttulo de notrio saber pela UFPA, para tangenciar minha aler gia aos formalismos bem postos. Quando tudo estava por se consumar, com o reconhecimento de todos do conselho, um professor do curso de biblioteconomia se ops a dar o seu parecer. Sua posio foi respeitada e o pedido retirado. Poucos anos depois, no aniversrio de um amigo comum, o mesmo cidado me indagou na roda de convivas por que eu no voltava universidade, comprometendo o seu apoio para que se reconhecesse o meu notrio saber em Amaznia. Lembrei -o ento que ele se opusera a essa concesso. Fez-se um silncio goethiano (ou beethoviano). Rimos muito, Jean e eu, quando lhe contei o episdio. Mas ele no se conformava com o desfecho. Pediu-me que o autorizasse a nova investida, mas me recusei, Passara oito anos na universidade e fora o suciente. Preferia, como Jean, estar na rua, no redemoinho, exposto aos elementos, como um sertanejo no serto do Rosa, em Marab ou em Altamira, Novo Progresso ( ironia!) ou So Flix do Xingu. Jean foi dos melhores e mais ntimos amigos que a vida me deu, apesar dos longos perodos de abstinncia nessa relao. Teria bastado, porm, a excurso de um ms que zemos juntos Europa, em 1990, para participarmos do Tribunal Permanente dos Povos, em Paris, em sesso dedicada Amaznia. Foi uma convivncia inesquecvel por lugares europeus, que teve um dos seus melhores momentos em Amsterdam, na exposio do centenrio de van Gogh. Foi a maior reunio de telas do pintor holands organizada at hoje. Entramos na abertura do museu que leva o nome de van Gogh e samos pouco antes do fechamento das portas. Almoamos no restaurante do prprio museu. caro, alertou Jean. Quando vamos ver outra vez uma exposio dessas?, lhe respondi, ambos admiradores do sofrido artista. Comemos l e bebemos vinho. Quando a pesada conta chegou, mesmo fraco de nanas, puxei-a e a quitei com o que restava do meu dinheiro, feliz e recompensado. Rimos bastante e voltamos a Bruxelas, onde estvamos hospedados na casa de uma irm de Jean, por conta dele. Ao saber, que ele no est mais entre ns, lembrei esta cena e de muitas outras que ele me proporcionou, amigo de f e companheiro de lutas sempre, e senti que uma lgrima desceu para saudar o vazio que a falta de Jean Hebette deixa em mim e em muitos mais que tiveram a honra de conviver com ele. Para quem sempre esteve com Deus, na companhia dele que, bem sei, Jean se foi, deixando-se car em imagens e recordaes entre todos ns, amigos e admiradores.

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12 Circulando pelo Grande Hotel, que era o lugar mais chic de Belm em 1956, o colunista social da Folha do Norte Armando Pinheiro, registrou sua maneira o movimento dos colunveis. Alguns dos tpicos: A Srta. Clea Chady completamente acompanhada de seu jovem noivo... O Sr. Hlio Castro drincando decididamente s. Que ?... O sr. e sra. Fernando Gurjo Sampaio sempre muito elegante. Um casal muito simptico... O bar-man Jan ir ritadssimo com os pedidos muito coca-cola. Uisctas poucas... Notada a ausncia do sr. Salim Chady... Muito notado o sex-appeal da Srta. Oro Gabay... Devo dizer que o terrace do GH continua muito frapp.A Associao Paraense de Propaganda foi fundada Velocidade no arUma viagem de Belm a So Paulo, a mais longa de todas, durava oito horas e meia nos SuperConvair (de dois motores) da Real-Aeronorte. Mesmo assim, a companhia garantia que o passageiro ganharia tempo no avio ultra moderno, com cabine pressurizada, grandes e macias poltronas reclinveis, ar condicionado, lanches deliciosos e a famosa cortesia da Real. no nal de 1957 por 13 publicitrios dentre os quais Paulo Lobato de Miranda, Avelino Henrique, Osvaldo Mendes, Romulo Maiorana, Mrio Couto, Carlos Augusto de Oliveira, Ricardo Vasquez, Jos Neves, Aldridge Soares, Almir Nobre e Helena Cardoso, presentes ao ato de instalao da entidade.Em 1957 as Lojas Salevy (apesar do plural, era uma nica loja) convocava os interessados em tornar-se acionistas da empresa oferecendo-lhes as seguintes vantagens: descontos nas compras, participao nos lucros, valorizao normal das aes e, aos capitalistas, evitar lucros extraor dinrios, no toque de humor do dono, Samuel Levy. A Salevy ficava aberta na avenida Presidente Vargas (ainda 15 de Agosto) de dia e de noite. frente do Aruanda Clube, o colunista social Wilkens, da Folha Vespertina rea lizou a Noite Azul de 1960, na sede social do Clube do Remo. Uma das promoes foi a escolha dos dez mais belos sorrisos da cidade morena, que foram os de Maria do Carmo Silva, Jurema Bastos, Clarisse Correa Pinto, Lia Leite, Rose Mary Castro, Vanja Santiago, Ana Maria Seixas e Edna Azevedo. A nova charm-girl de Wilkens foi Rgia Novais, que recebeu a faixa simblica das mos de Slvia de Paula, em virtude de Marlia Chaves, por motivo de fora maior, no haver comparecido. A entrega do bonito colar de cristal e morano, oferta de Marlett Modas, cou a cargo de Eunice Dantas Ribeiro, esposa de Deusdedith Ribeiro. O colunista tambm anotou os nomes dos pares mais constantes da noite: Luiz Fernando Pinheiro/ Lena Vnia Moura Ribeiro, Mrio Leite/Maria da Graa Dantas Ribeiro, Lourival Barbalho/Yvone Moreira, Jorge Cruz/Maria da Conceio Moura Palha e Bernardino Fiza de Melo Neto/Maria Lcia Pandolfo.Sahid Xerfan,da nova gerao do cl de comerciantes, provocou agitao na praa, em 1964, ao promover um concurso atravs do qual a Cidade das Sedas premiava o vencedor com seu peso em tecidos. O primeiro cliente sorteado foi como quase no podia deixar de ser uma mulher: Mareia Jos Alexandre de Moraes, residente na vila Amaznia, passagem 5 de Abril. A poltica tirou Xerfan do que ele mais entendia e lhe causou problemas e decepes.JORNALEm 1965 O Liberal ti nha novo dono. No lugar de Moura Carvalho, que herdara o jornal de Magalhes Barata, falecido seis anos antes, em tese o proprietrio era

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13 o engenheiro e construtor Ocyr Proena. Por trs dele, Gilberto Mestrinho. Cassado pelos militares no Amazonas, Mestrinho se tornara empresrio, com interesses maiores em Belm do que em Manaus. Ele decidiu colocar o jor nal em favor da candidatura do major Alacid Nunes, que fora prefeito de Belm depois do golpe militar de 1964 e se tornara candidato sucesso de Jarbas Passarinho, dividindo com ele a liderana do novo regime. Mestrinho tambm deu muito dinheiro para os bois, tradicionalmente abatidos no dia da eleio para alimentar os eleitores do candidato (e outras cositas ms), apesar da lei proibindo essas formas de compra de votos. No ano seguinte, o jor nal, que fora o rgo ocial do PSD (Partido Social Democrtico) dos baratistas, chegou s mos de Romulo Maiorana.Em 1969 a TV Guajar era a lder de audincia em Belm, com 67,3% do total. A emissora foi a segunda a se instalar no Par e na Amaznia, depois da TV Marajoara. A pioneira foi implantada por Assis Chateaubriand, dos Dirios e Emissoras Associados, enquanto a Guajar era inteiramente local, da famlia Lopo de Castro. Conceio Lobato de Castro, presidente da empresa, achava que se a pesquisa chegasse ao interior, sua emissora iri a at 80% de audincia. Era a nica que transmitia o seu sinal por at 300 quilmetros em linha reta, graas sua torre, de 130 metros de altura, no topo do edifcio Manuel Pinto da Silva, com seus equipamentos modernos. Poucos anos depois a Guajar perdeu a aliao Globo, caiu muito e acabou.Moura e Castelo juntosA foto (publicada por Carlos Rocque na sua coluna Periscpio, em A Provncia do Par), de 1959, de baixa qualidade, mas de alto entre o governador Moura Carvalho e o ento comandante militar da Amaznia e da 8 regio militar, general Humberto de Alencar Castelo Branco. Foi na barraca da santa, a mais importante da quinzena de festividade do Crio de Nazar, da qual, naquele dia, o governo do Estado era o patrocinador. Moura assumiu o cargo cinco meses antes, quando o titular, o coronel Magalhes Barata, o lder do PSD (Partido Social Democrtico), morreu, ainda no exerccio do mandato. Quatro anos e meio depois que as duas autoridades estiveram no mesmo ambiente e conversaram animadamente, Castelo Branco, na condio de substituto do presidente da repblica, Joo Goulart, deposto pelo golpe militar do qual o j ento marechal fora um dos principais lderes, cassou Moura Carvalho, eleito prefeito de Belm, por corrupo. Para isso usando instrumentos de poder que assumiu em funo do golpe de Estado. Ironias da histria.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Cart @LULA Como assduo leitor do Jor nal Pessoal, desde seu surgimento, a pelos idos da segunda metade dos anos 1980 do sculo passado, e admirador de seu editor, gostaria de externar minha singela discordncia ao texto da matria intitulada Para a Lava-Jato s Lula interessa, publicada na edio do Jornal Pessoaln 618. Primeiramente, devo deixar claro que no sou contrrio operao Lava-Jato, pois entendo que o problema da corrupo no Brasil, apesar de sua endemia, deva ser coibida rigorosamente. Porm, o que assistimos presentemente no pas, pode ser chamado de tudo, menos de compromisso srio de combate maldita corrupo que infesta-nos desde quando existimos como Nao. Ora, a partir do momento em que assistimos que as investigaes lavajatistas centram-se to-somente no aprofundamento das investigaes sobre denncias feitas contra o ex-presidente Lula, e que, por outro lado, faz-se vista grossa em relao s acusaes assacados em desfavor de outras guram proeminentes do nosso cenrio poltico, de se questionar, rmemente, da iseno de tais apuraes, ou seja, contra o Lula (e diga-se, este no est acima da lei e, portanto, deve ser sim investigado, e se comprovado o cometimento de qualquer crime praticado por ele no exerccio da presidncia ou fora desta, de ser-lhe aplicada a punio devida), todas s denncias ou delaes so aceitas e apuradas, todavia, contras os demais polticos denunciados, desde que no sejam petistas ou aliados destes, aplica-se o deixase pra l, no vem ao caso. Tentase, at mesmo, para pegar o Lula, de qualquer jeito, e sem impor tar-se com o ridculo que tal fato imputa imagem do Brasil no exterior, a criao da tese de que s denncias se embasam no em provas, mas em convices dos responsveis pela apurao dos fatos. Com efeito, no se pode aceitar dentro do Estado Democrtico de Direito, que o que diz a Constituio Federal ser o regime que vivemos no Brasil, que qualquer procedimento judicial no observe os mandamentos e princpios emanados de tal regime e que asseguram garantias mnimas aos cidados que respondam a processos, como o caso da presuno de inocncia. Portanto, respondendo sua interrogao feita no ttulo da matria ora em comento, digo que sim, pois no meu entendimento e de outros tantos advogados e juristas de prol que j se manifestaram a respeito da Operao Lava-Jato, indisfarvel a inteno desta em querer a todo custo condenar o ex-presidente e assim afastar o temor das elites de que este volte presidncia da repblica atravs do voto popular em 2018. Agora, armar que a grande imprensa nacional (ou PIG, como dizes), no atuou nos bastidores para derrubar os governos petistas, ponto em que temos de concordar com voc, uma vez que, verdadeiramente, ela (a grande mdia nacional) no atuou s escondidas, seno que s claras: escrita, falada e televisionada diariamente at conseguir o impeachment da presidenta Dilma. Jos Maria Pereira Guimares Li a correspondncia do leitor que fez duras crticas ao posicionamento desse editor ( JP n.617), assim como venho acompanhando o desdobramento desse, como digo, novo comportamento, expresso em vrios textos ao longo de aproximadamente dois anos. Quem leu e possui os ltimos nmeros s conferir. Apesar do tom pesado de alguns discursos apropriados em momento de exaltao ideolgica no vejo que nossas correspondncias possam causar um mal estar incontornvel. Acho at que o carter contraditrio dessas missivas tem contribudo para unir mais os leitores habituais desse prodigioso mensageiro da essncia da obra de um prossional jornalista, muito coeso nas suas proposies, quaisquer que sejam os assuntos abordados. Este assduo leitor do Jor nal Pessoal, porm, revela que houve de fato preferncia pelos assuntos ligados aos processos da Operao Lava Jato, especialmente queles que relatam atos indicando transgresses com petistas. Nesse ltimo Jornal Pessoal foram quatro matrias enfocando as denncias sobre elementos do Partido dos Trabalhadores, ressaltando que no houve meno a um gro peessedebista, tambm denunciado na ocasio, e que no foi levado na devida conta pelos procuradores, nem pelo editor. J vinha anunciando essa preferncia da redao do Jornal. Mas, claro, z minhas contestaes de maneira que me pareceu mais correta, sem nimo de parecer um antagonista irresponsvel. Nas correspondncias mais recentes levantei dados para servirem de comparao entre as fases do governo petista, e do perodo imediatamente anterior dos tucanos. Pelo tom monocrdio do Jornal Pessoal ca parecendo que temos somente um nico Eduar do Cunha, so vrios, disponveis nas siglas partidrias mais considerveis. No gostaria de acreditar que este jornal tenha sido cooptado pela urdidura fascista armada contra os petistas e simpatizantes, que conta com o apoio da imprensa ligada a grupos corporativos da indstria, do comrcio e de conglomerados nanceiros, para disseminar fatos que no suportam uma anlise criteriosa, e so criados unicamente para insuar o dio, a intolerncia e, nalmente, implantar a insanidade no seio da populao. J sabemos como isso costuma a evolver. A propsito, desse tema, sugiro uma releitura da matria com o ttulo O desrespeito ao cidado: por onde o fascismo entra, publicada no Jornal Pessoal n. 599, dez/15, pg. 05. No estou preocupado de ser alvejado com o linguajar carimbado que muitos conservadores especialmente aqueles vivos da quartelada assestam a quem se manifesta contra essa campanha acerba e srdida atingindo o pessoal do PT e simpatizantes. Registram-se at agresses pessoais em logradouros pblicos, restaurantes, etc. Mas, a histria outra, quem est reinventando o comunismo so os que ainda no se conformaram com seguidas derrotas nas urnas, e passaram a usar termos e modos comuns dos anos cinquentas e sessentas. Vo voltar a anunciar que comunistas comem criancinhas e promoverem uma legtima Marcha da famlia com Deus pela liberdade. Essas corporaes e seus apoiadores so capazes de tudo para manter seus privilgios. Enm notrios corruptos bradam enfurecidos contra a corrupo. Velhos e conhecidos acochambradores, que passaram a vida promovendo e acobertando suas falcatruas e as dos parceiros, se transformam em porta-vozes da moralidade nacional. E so aplaudidos freneticamente. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA De fato, dediquei mais espao ao PT enquanto o partido esteve no poder e nesta fase de reviso (pela via judicial) do que seus dois presidentes zeram. Como dei mais espao a todos aqueles que exerceram o poder durante os seus mandatos. delidade ao princpio do jornalismo como auditagem do poder, sua oposi o, na presuno de que quem chega ao poder se deixa seduzir pelo seu domnio. Por isso, no subi ao poder com nenhum desses personagens, mesmo os amigos. Certa nfase nas crticas ao PT se deve farsa em que o partido se tornou no poder, traindo as bandeiras que empunhou na condio de esperana de mudana. No s ela no veio como os vcios para cujo combate devia ser guia se agravaram. Aqui neste jornal nunca hou ve a mais remota simpatia por uma volta a um regime de fora. Pelo contrrio: todas as matrias combateram o banzo reacionrio de uma melancolia falsa e perver sa. Este um jornal plenamente democrata. Desao quem encontre algum rano contrrio.

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15 Quanto o Frankenstein de Belo Monte custar?Sete das 24 turbinas da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par, entraram em operao apenas nove meses depois que a primeira comeou a funcionar. Foi menos de seis anos depois que as obras da usina foram iniciadas. uma faanha da engenharia. Mas tambm um feito poltico. Belo Monte foi projetada para ser a quarta maior do mundo, substituindo nessa posio outra hidreltrica brasileira, a de Tucuru, no rio Tocantins, tambm no Par. Sua viabilidade foi denida no nal da ditadura, pelo ltimo governo do regime militar, comandado pelo general Joo Figueiredo. Tinha o mesmo perl autoritrio da usina de Tucuru, que comeou a ser construda em 1975, no auge dos anos de chumbo. Quando o consrcio Norte Energia venceu a licitao de Belo Monte, em 2010 (pagando propina a polticos para car com a concesso, como hoje se sabe atravs da Operao Lava-Jato), o Brasil completava um quarto de sculo de democracia. Nada mais natural que a obra concebida pela ditadura, a partir do mando verticalizado do poder central e da falta de liberdades pblicas, enfrentasse resistncias. O Ministrio Pblico Federal props 25 aes na justia para paralisar a frente de obra, a maior no mbito do PAC (Programa de Acelerao do Crescimento), smbolo do desenvolvimentismo petista, ao custo de 33 bilhes de reais. Houve paralisaes promovidas por indgenas, nativos e grupos de presso de bandeira ambientalista. Ainda assim, o tempo que transcorreu entre a licitao e a entrada em operao da primeira turbina (menos de seis anos) foi menor do que a de Tucuru (quase 10 anos) que comeou a se consolidou sob a ditadura. Em parte porque o PT (por convico ou em funo da corrupo no sistema eltrico nacional, to grave ou mais quanto na Petrobrs) encontrou um mecanismo mais eciente de nanciamento da obra. Na ditadura, era investimento direto da Eletronorte, a subsidiria da Eletrobrs para o norte do pas. Com Lula e Dilma, a transao foi garantida pelo BNDES, utilizando recursos do tesouro nacional para for nir o caixa e cobrir a diferena entre os juros mais caros com os quais o banco estatal remunera o aplicador e a taxa inferior concedida ao nanciado. Um grande buraco que o contribuinte, naturalmente, dever ser convocado (j est sendo) a tapar. Para enfrentar ou contornar os aguer ridos adversrios da usina, os engenheiros de Belo Monte tiveram que mudar a concepo original do projeto, que executariam se o Brasil no tivesse cado, mais uma vez, na (a)ventura democrtica. A opinio pblica no ia aceitar que o barramento do Xingu, um dos maiores e mais belos rios do mundo, provocasse alagamento como nas represas da ditadura, com Tucuru (trs mil quilmetros quadrados, o segundo maior lago articial do Brasil) e Balbina (2,6 mil km2). Para conter esse clamor, os barragistas cancelaram os represamentos rio acima, que iriam armazenar gua para atender o voraz consumo das 18 imensas turbinas da casa de fora principal e as seis, muito menores, da casa de fora secundria. Sobreviveu apenas um reservatrio, ainda assim reduzido a menos da metade da concepo inicial, seis vezes inferior ao de Tucuru. A concluso bvia era de que, sem gua suciente, a usina caria sem funcionar ou com baixssima gerao por trs, quatro ou at mais meses do ano. Logo, no atingiria uma produo constante suciente para ser rentvel comercialmente. Iria ter prejuzo certo, decorrente de uma equao sem fecho certo: hidreltrica de alta potncia funcionando a o dgua, com vazo cor rente do rio, sem estocagem no inverno para uso no vero. A nova engenharia fez com que a casa de fora principal, na qual estaro as 18 turbinas convencionais, cada uma delas gerando energia suciente para suprir Belm, a capital do Par, com seus 1,5 milho de habitantes, cou distante 100 quilmetros do vertedouro principal. Em Tucuru, as duas unidades foram acopladas mesma estrutura de concreto, como em todas as hidreltricas. Como o reservatrio jamais acumular gua suciente para o funcionamento das turbinas, um canal com maior profundidade e largura do que o canal do Panam, usando mais concreto, foi construdo para desviar gua da calha do rio para outras acumulaes de gua, que descero por gravidade por um declive de 90 quilmetros para ter a velocidade e o volume necessrios para acionar as pesadas estruturas de ao das mquinas. Esse canal tem profundidade equivalente a um prdio de sete andares e largura de 200 metros, exclusivamente para escoar gua para a usina. Os engenheiros encontraram uma soluo muito engenhosa e indita para colocar Belo Monte em funcionamento, em tempo recorde, a despeito de tanta reao contra a usina. Mas qual o custo dessa obra sem igual na histria, como um Frankenstein que abriga no seu corpo a ditadura e a democracia? Em debates sobre o efeito da obra sobre os ndios, os nativos em geral e a natureza, esse detalhe foi deixado de lado. Agora que a hidreltrica j est gerando energia para o Brasil (em 2019, quando a motorizao se completar, estar atendendo 60 milhes de consumidores), a conta est sendo apresentada.

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Consumidor sangrado e o governo faturando A tarifa de energia que o consumidor paga onerada em 20% por acrscimos feitos para a formao de um fundo que nancia vrios programas e despesas eventuais, como o Luz Para Todos, uso de usinas trmicas, incentivo produo de energia elica ou de biomassa e subsdio para pequenas hidreltricas e pequenas distribuidoras. Mais 3% devero ser acrescidos no prximo ano s contas em todo pas para quitar indenizaes das empresas transmissoras que no foram ressarcidas pelos investimentos realizados at 2000, mas a presidente Dilma Roussereconheceu. Alguns desses gastos e investimentos so inevitveis. O questionamento que mais se faz agora quanto incluso de tais subsdios nas contas de luz e no nas despesas oramentrias do governo, como seria o lgico e justo. O custo da energia para o cidado brasileiro se tornou um dos mais altos do mundo, embora a matriz energtica se sustente fortemente na mais barata (e renovvel) fonte de gerao, a hidreltrica. O Estado de S. Paulo citou um exemplo gritante da distoro causada pelo acmulo de subsdios dados pelo governo e transferidos ao consumidor: apesar de seu alto custo de gerao pois provm de usinas termoeltricas e no de hidreltricas ou elicas, como ocorre em outras reas , a energia consumida em Roraima, nico Estado no atendido pelo Sistema Interligado Nacional, a mais barata do pas. Os subsdios explicam o paradoxo. Alm de favorecer as termeltricas do Norte e Nordeste, o que gera distores de preos como a observada em Roraima, os subsdios beneficiam tambm o agronegcio, pois, para reduzir em 10% as contas de luz no campo, os demais consumidores pagam R$ 2,9 bilhes por ano, informa o jornal. Acrescenta que a esses benefcios se acresce o peso dos tributos sobre as contas de luz. So cerca de 6,5% do valor da conta referentes a PIS/ Cofins para o governo federal, mais o ICMS recolhido para os tesouros estaduais. Em relao a este imposto h um agravante: seu clculo feito por dentro, ou seja, incidindo sobre o prprio imposto. Quando a alquota nominal do ICMS aplicada de 25%, como nas contas residenciais do Par, para quem consome mais de 201 kWh por ms, a alquota efetiva passa a ser de 33% do valor da conta. Conclui o jornal paulista no ser toa que energia eltrica, se tornou a principal fonte de receita para a maioria dos Estados, seguida pelos servios de telefonia. Sempre custa do consumidor.Quem mesmo o pai da criana?Na semana passada, o presidente Michel Temer presidiu, em Braslia, a solenidade de cesso ao Par dos 16 quilmetros iniciais da BR-316, entre Belm e Marituba, o terrvel gargalo de entrada e acesso capital paraense. Mas o jornal dos Maioranas fez dois cortes no noticirio que recebeu da agncia ocial. O primeiro corte foi do nome do ministro da Integrao Nacional, que tambm assinou o ato ocial, no Palcio do Planalto. Helder Barbalho foi citado na matria da Agncia Par e apareceu meteoricamente no vdeo por ela produzido. Foi excludo da fotograa. Para O Liberal, o ministro no participou da solenidade, Por isso sequer uma foto do acontecimento foi publicada. Nem mesmo para dar passagem ao governador Simo Jatene, citado rapidamente pelo Dirio do Par dos Barbalhos. O jornal manteve o governador na foto destacada sobre o encontro. Foi excesso incontrolado contra o ministro e o seu pai, Jader Barbalho, que tambm esteve presente? Ou o jornal dos Maioranas decidiu dar nova estocada no governador? Jatene no fez qualquer carga contra pai e lho, seus opositores. Em entrevista prpria agncia estadual apenas se referiu demora na transferncia da administrao desse trecho da rodovia federal, que vai permitir obras virias no valor de 500 milhes de reais. Por isso, no endossou a verso de O Liberal, de que os Barbalhos tudo zeram, ao longo de um ano, para impedir a estadualizao da BR-316, no se importando com a repercusso negativa sobre mais de dois milhes de pessoas da regio metropolitana de Belm, apenas para prejudicar o PSDB. O comportamento de Jatene seria mais um indcio de que uma aliana entre PSDB e PMDB no seria de todo impossvel, como de vez em quando sugere o Reprter 70, principal coluna de O Liberal. A excluso resvalou sobre os polticos que compareceram solenidade, tambm com nomes omitidos, exceo do senador Flexa Ribeiro (na notcia) e do deputado federal Wladimir Costa (no conjunto de notas do Reprter 70). Por causa desse furioso terar de armas entre os dois grupos de comunicao, que colocaram denitivamente seus interesses comerciais e polticos acima da sua misso de informar a opinio pblica, os leitores que consultarem os dois jornais caro sem saber qual a verdade: Helder sabotou a estadualizao ou foi quem a tornou possvel? Alis, o estado em que cam depois de lerem O Liberal e o Dirio.