Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o a ELEIOSem mudana, de novoO eleitor de Belm manifestou certa tendncia por um poltico novo para ocupar a prefeitura. Os dois nicos nomes com alguma acomodao ao perfil, rsula Vidal e Carlos Maneschy, podem ter frustrado essa aspirao com suas decises para o 2 turno. Todos j conhecem o fenmeno Joo Doria, o candidato tucano que surpreendeu a todos ganhando j no primeiro turno a principal disputa das eleies municipais do dia 2 no Brasil. Ele se tornou prefeito de So Paulo vencendo polticos prossionais na sua primeira eleio, graas imagem de empresrio competente e isento dos vcios da poltica. Capaz, talvez, de sair da prtica rotineira de desmandos e abusos que a opinio pblica cada vez mais rejeita. Dria no foi caso nico. H outro, mais prximo da situao em Belm do Par. O tambm tucano Hildon de Lima Chaves, o Dr. Hildon, jamais gurou entre os primeiros colocados na corrida pela prefeitura de Porto Velho, a terceira mais populosa capital da Amaznia. A dois dias da eleio, a pesquisa do Ibope o colocava em quinto lugar, com apenas 9% das intenes de voto. Mas ele acabou passando para o segundo turno em primeiro lugar. Vai para a nova rodada como favorito. A surpresa atribuda a fator semelhante ao de So Paulo: um perl inovador, que pode ser vir a um projeto de mudana. Depois de ter sido

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2 promotor de justia, Hildon montou uma bem-sucedida rede de ensino, car to de apresentao para quem promete ser um bom gestor da coisa pblica. Uma situao que lhe poderia ser desfavorvel, mudou de significado na primeira eleio em que as doaes empresariais foram proibidas e o tempo de propaganda oficial encurtado. Em sua primeira incurso pelo voto popular, ele foi o candidato que mais investiu na campanha com recursos prprios, 1,4 milho de reais do seu prprio dinheiro, o fez perder mais de% do seu patrimnio, Hildon conseguiu convencer grande parte do eleitorado com sua mensagem de mudana, apesar de integrar o PSDB desde o ano passado. Eu nunca fui poltico. A mesma indignao que as pessoas tm com a classe poltica eu tambm tenho. At alguns dias, antes de ser candidato, eu era mais um eleitor do Brasil com as mesmas frustraes, indignaes e revolta com a classe poltica. S que para mudar a poltica algum tem de se candidatar, armou revista Veja. A vontade de inovar parece terse difundido por todo Brasil, mas se frustrou em capitais como Belm. Efetivamente havia apenas duas possibilidades de algo novo na poltica municipal dentre todos os candidatos: a jornalista rsula Vidal e o professor Carlos Maneschy. rsula quase neta e tinha atrs de si uma sigla realmente nova, a Rede. J Maneschy comprometeu a sua signicao ao se aliar ao PMDB de Jader Barbalho. Ambos se desgarraram das votaes simblicas dos candidatos da esquerda declarada e do PT, cuja candidata, Regina Barata, no teve votos (13 mil) sequer para se eleger vereadora. O maior tempo de exposio e a retaguarda do partido que est no poder no foi suciente para evitar que Maneschy casse atrs de rsula, que teve um espao quase simblico na propaganda eleitoral ocial. O sonho do eleitor de ter um nome distinto da dualidade de poder que caracteriza a poltica no Par se transformou em frustrao quando r sula e Maneschy declararam apoio a Edmilson Rodrigues no 2 turno. Foi uma opo pragmtica pela continuidade da carreira poltica, com mais possibilidades de obter um mandato eletivo em 2018, para deputado estadual ou federal. Mas foi um autntico adeus a qualquer pretenso de um cargo majoritrio. Assim, o 2 turno em Belm ser decidido entre um prefeito no exer ccio do mandato e outro que cou por oito anos no cargo, entre 1997 e 2004. O primeiro com seis mandatos eletivos, quatro deles consecutivos para a Cmara Federal. O segundo com nove eleies no currculo, para o executivo e legislativo, e trs derrotas, todas na disputa de cargos majoritrios (governador, prefeito e senador). A disputa do dia 30 ser uma revanche. Em 2012 Zenaldo Coutinho, do PSDB, venceu (com 56,61% dos votos vlidos) Edmilson Rodrigues (que trocara o PT pelo PSOL), com 43,39%. A diferena foi superior a 100 mil votos. E agora? As prvias ao 1 turno indicavam que a rejeio a Zenaldo durante o seu primeiro mandato, iniciado em 2013, em torno de 50%, o afastariam do 2 turno. Mas, para surpresa quase geral, ele conseguiu reduzir bastante a rejeio e, em escalada crescente, no s passou para a nova eleio como cou frente de Edmilson. Por essa trajetria, seria o favorito para o dia 30? De forma convincente, sim e no. Ele conseguiu uma carrada extra de votos graas ao uso intenso da mquina pblica a partir do incio da campanha eleitoral ocial, em agosto. Provavelmente nenhum outro prefeito de Belm gastou tanto num perodo pr -eleitoral quanto ele. Foi outra surpresa, j que os recur sos municipais so limitados, o que provocou muita especulao sobre a origem desse dinheiro, sem prova concreta de fonte ilcita. A hiptese mais plausvel de que ele armazenou ver ba para agir ltima hora, incluindo decisivamente sobre o eleitor numa circunstncia favorvel, da primeira eleio sem contribuies empresariais para as campanhas polticas. O objetivo era evidente: induzir o voto til para o 2 turno. Na oportunidade derradeira, muitos eleitores no querem perder seu voto, destinando-o a quem est frente ou tem maiores possibilidades de realizar obras ou que consiga ter mais presena na etapa nal da corrida pelo mandato. Se a estratgia deu certo e continuar dando, Zenaldo o favorito. Mas Edmilson Rodrigues tem uma votao cativa em Belm, que gira em torno de um tero dos votos validos. Foi o que lhe permitiu se eleger deputado federal em terceiro lugar, dois anos atrs. O mais votado foi der Mauro, com quase 100 mil votos a mais do que Edmilson (266 mil a 170 mil), mas o candidato-delegado do PSD estancou no 1 turno, em terceiro lugar. Alm de Belm ser o principal reduto de Edmilson, ele foi o que mais acumulou alianas, abrigando o PMDB de Carlos Maneschy (o 5 mais votado), a Rede de rsula Vidal (a quarta) e os partidos de esquerda. Ser o suciente para faz-lo virar o jogo em cima da hora? So duas dvidas ainda de p, que impedem, ao menos por ora, de reconhecer quem o favorito. Qualquer um que vena, porm, pelo currculo que apresentam, Belm continuar rf da mudana que reclama e da qual precisa tanto.A mquina decidir?Se no fosse o prefeito de Belm, Zenaldo Coutinho teria cado no primeiro turno da disputa eleitoral pelo comando da capital paraense porque sua rejeio majoritria entre os belenenses, cuja maioria tambm no aprova a forma como ele administra a cidade. Se sobrevivesse para o 2 turno, Zenaldo seria derrotado por Edmilson Rodrigues. Quem fosse o vencedor, esse aparente sucesso teria explicao comum: o cidado vota neles por absoluta falta de opo. Colocar um deles na prefeitura convicto de que nada mudar para melhor. A vida continuar na sua rotina na 12 mais populosa cidade do pas: com uma ou outra coisa melhor, uma ou outra novidade, mas cada vez mais distante de padres de dignidade, conforto e qualidade de vida em geral. Uma cidade difcil de viver.

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3 So as dedues diretamente inspiradas nas pesquisas divulgadas no ltimo m de semana pelo grupo Liberal, por encomenda da TV Liberal, imposta pela Rede Globo. Numa (a do Ibope, que o cliente tem procurado desmerecer) vence Edmilson. Na outra, a de um instituto que a corporao dos Maioranas em momentos posteriores nem citou, o vencedor Zenaldo. Como a vantagem de um sobre o outro varia em 3/3,5%, que constitui exatamente a margem de erro das pesquisas, o que h (com 95% de probabilidade de ser a exata expresso do estado de esprito atual dos eleitores) empate tcnico. Em consequncia, a disputa ser acir rada, voto a voto. No o que diz, no entanto, a expectativa do entrevistado tanto pelo Ibope quanto pelo Doxa sobre quem, anal, ser o eleito. A diferena em favor de Zenaldo chega a 9%, o que signica ser ele o favorito. Por qu? Talvez porque at o dia da votao a expectativa de que a mquina pblica (que inclui, lateralmente, o governo do Estado, tambm ocupado por um tucano, Simo Jatene) vai continuar a funcionar. Apresentando obras reais ou irreais do atual prefeito, vai atrair o voto til, aquele que pode decidir sobre o resultado na ltima hora (ou na undcima, considerados os recursos ilcitos que podem ser usados), arrebanhando votos de eleitores que pensavam em no votar, de votos brancos e, talvez, de nulos, j que nenhum dos dois candidatos teve 50% ou mais de preferncia. Da que a maior proporo de diferena, pr-Zenaldo, serem os 13% a mais que ele tem junto a eleitores com mais de 50 anos, que podem inuir com maior peso sobre os demais, Traduzindo: se vencer, o candidato do PSDB ter que creditar os louros ao uso dos mecanismos do poder municipal. Eles podem lhe render votos, em funo de ter concentrado sua ao no perodo eleitoral, embora tambm lhe causem rejeio pelo que no fez nos trs anos e meio anteriores, quando a sua classicao era a de um dos piores prefeitos que Belm j teve. A mesma que aplicada ao candidato do PSOL e ao sucessor que ele no conseguiu que fosse o do seu partido (e antecessor de Zenaldo), Duciomar Costa, do PTB. A busca por alguma coisa nova responsvel pelo fracasso de 70% dos prefeitos do interior do Par que fracassaram na tentativa de se reeleger. Foi o maior ndice de reprovao dado pelo eleitor para administradores municipais j registrado. No entanto, Edmilson Rodrigues e Duciomar conseguiram se reeleger, mesmo fazendo administraes sofrveis, niveladas por baixo, a concluso de que o nvel de expectativa e de participao poltica decrescente em Belm na mesma proporo do declnio constante das suas lideranas, tudo gravitando para essa cidade que tanto amamos e que tanto lamentamos estar se tornando o que j com a perspectiva de car ainda pior. Se a esperana em dias melhores sobrevive, onde reencontr-la? Sem votosA soma da absteno e dos votos nulos e brancos na eleio do dia 2 superou a votao do candidato que venceu o primeiro dos dois rounds para a escolha do novo prefeito de Belm: foram 265 mil no-votos ou votos sem um nome por opo contra 241 mil votos de Zenaldo Coutinho. Os brancos e nulos reunidos (87 mil votos) ocupariam o quarto lugar no ranking (87 mil), superando rsula Vidal (80 mil). J a absteno (quase 200 mil eleitores no foram votar) seria a terceira, frente de der Mauro (menos de 130 mil votos). Os polticos deviam considerar esses nmeros como uma advertncia, um sinal entre o amarelo e o ver melho (tambm nos termos simblicos que o dueto do 2 turno sugere).Uma s quadrilha causa prejuzo R$ 420 milhesO Ministrio Pblico Federal em Altamira continua a perseguio quadrilha que considerada a autora dos maiores desmatamentos na Amaznia. Seu chefe, o paulista Antonio Junqueira Vilela Filho, est preso em So Paulo, com sua irm e o marido dela, que o auxiliavam. Os trs devero continuar presos, se depender do MPF, por persistirem agindo e procedendo ao processo de consolidao das reas desmatadas anteriormente. segundo o procurador Higor Pessoa. A nova investida da Polcia Federal se basearprincipalmente na falsicao de documentos. para a apropriao ilcita das terras pblicas que foram devastadas. Valendo-se desse tipo de fraude e da cobertura do seu grupo, integrado por 25 pessoas, A. J. Vilela como ele mais conhecido em apenas trs anos ps abaixo 35 mil hectares em alguns trechos na regio do Xingu, que selecionava atravs de imagens de satlite e sobrevoo de avio. Entrava nas reas selecionadas para extrair as madeiras de maior valor e queimar o restante, substituindo a antiga cobertura por pastagem e colocando gado de menor valor para simular a ancianidade da ocupao. Uma vez transformada a rea de mata virgem em fazenda, ele esperava conseguir 200 milhes de reais com a sua venda, mas, de acordo com a avaliao dos tcnicos, o dano ambiental causado supera o dobro: seria de R$ 420 milhes. Tudo isso graas ao audaciosa de Junqueira Vilela, cobertura que tinha da irm como administradora do dinheiro (teriam sido R$ 2 bilhes entre 2012 e 2014) e ao apoio de duas dezenas de capangas para intimidar e coagir pessoas para a implantao das benfeitorias. Pouco para tanto prejuzo Amaznia e ao pas. De nada valendo as multas do Ibama, que chegaram a R$ 200 milhes, que ele no pagou e ignorou solenemente, continuando a derrubar oresta. Que isso tenha ocorrido apesar dos esforos das autoridades, serve de advertncia para a fragilidade institucional e operacional do pas para enfrentar quadrilhas como essas, com um p nas grandes cidades, onde realizam as operaes nanceiras resultantes do saque s riquezas, e a fronteira, onde o criminoso continua solto e o crime, repetido.

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4 Vinte hidreltricas j esto em atividade na AmazniaVinte hidreltricas de grande e mdio porte esto em operao na Amaznia.Geram 35 mil dos 90 mil megawatts de energia de fonte hidrulica do Brasil, de um total de 110 mil MW, considerando as demais fontes da matriz energtica nacional. Das 10 maiores hidreltricas do pas, cinco se localizam na Amaznia. Elas ocupam quatro das cinco primeiras posies, considerando a capacidade mxima de Itaipu (de 14 mil MW, embora s a metade seja brasileira), com Belo Monte e Tucuru, no Par, Jirau e Santo Antonio, em Rondnia, e Teles Pires, entre o Par e Mato Grosso. uma realidade espantosa. E sur preendente, porque os habitantes da regio sequer se do conta dessa grandeza, que j tornou a Amaznia uma colnia energtica das regies mais desenvolvidas do pas. Tirando os clientes privilegiados dessas usinas, que so os empreendimentos eletrointensivos voltados para a exportao, o que ca para o suprimento regional um troco comparado ao volume de energia transferida para as outras regies por linhas de transmisso extensas, caras e com signicas perdas ao longo do trajeto. Alm de estarem sob o controle de empresas internacionais, a mais expansiva delas sendo a estatal chinesa State Grid. A estrutura institucional dos Estados amaznicos mnima, ineciente e incapaz tanto de reagir aos fatos como de for necer informaes aos cidados. H sete hidreltricas em funcionamento s no rio Tocantins, entre os Estados de Gois, Tocantins e Par. Tucuru a maior delas em potncia (e a segunda do Brasil, depois de Belo Monte, que ainda est em fase de motorizao) e em rea de reser vatrio, que ocupa trs mil quilmetros quadrados (2.430 em algumas estatsticas). Mas no em volume de gua. Tucuru, a ltima barragem da bacia, a 350 quilmetros da foz do Tocantins, acumula 45 trilhes de litros de gua para a operao das suas 21 imensas turbinas e a regularizao rio abaixo. A 1,9 mil km2 da foz est Serra da Mesa, em Gois, com quase 10 trilhes de litros de gua a mais, em um lago de 1,8 mil km2, para gerar 1,2 mil megawatts de energia, enquanto a potncia nominal de Tucuru de 8,3 mil MW. Entre Serra da Mesa, no alto Tocantins, e Tucuru, no baixo rio, h Estreito, Luiz Eduardo Magalhes, Cana Brava, Peixe Angical e So Salvador, todas elas com seu respectivo reservatrio. Qual o volume de gua que est sob o controle das empresas que operam essas usinas? Quem estabelece a sincronia entre eles? Qual o peso dos outros componentes do uso da gua em relao ao energtico? Qual a amplitude da projeo sobre o manejo desses reservatrios? Nos ltimos dias procurei respostas para essas importantes questes e no as encontrei em nenhum lugar, nem mesmo nas agncias ociais do setor, como Aneel, ONS, ANA ou Ibama. Nada tambm sobre a hidreltrica do Teles Pires, que inundou reas dos municpios de Paranata, em Mato Grosso, e Jacareacanga, no Par. Eu queria saber se a operao do reservatrio provocou alguma alterao no movimento natural de subida das guas do rio Tapajs, que foi excepcional neste ano. Nada encontrei. Essa pesquisa me mostrou a fragilidade do Par, onde esto localizadas as maiores hidreltricas do Brasil e para onde o planejamento federal prev a instalao de mais dessas megausinas. No Par trs dos seus maiores rios que j foram represados tm seus pontos nais em territrio paraense. O governo, porm, nada sabe sobre o que acontece rio acima, no tem qualquer participao na operao dos reservatrios, no utiliza as barragens para planejamento de outros usos da gua est merc do governo federal e das empresas. Limita-se, como em quase tudo, a inventar taxas, arrecadar dinheiro e dar-lhe um destino conforme sua vontade. Um Estado tributarista e mercantil. A poltica reete essa postura tacanha. Essa realidade impressionante exige que a administrao estadual crie uma estrutura institucional altura dos desaos que o barramentos dos rios lhe impe. Uma secretaria especca para a gua ou uma agncia estadual, alm de investimentos na rea do conhecimento e da formao de pessoal qualicado para tratar da questo. Alguma coisa de porte compatvel com a questo e que consiga o que j parece escrito nas estrelas: o Par se tornar a maior provncia energtica do Brasil e do mundo.Este artigo abordou um dos temas de maior importncia numa regio que possui a maior bacia hidrogrca do planeta e lida to mal com a gua. Quando comecei a pesquisar o assunto, com o qual lido h tantos anos, no tinha a quanticao global da rede de hidreltricas que j fornecem energia para o pas. Fui surpreendido pela totalizao e pela precariedade dessas informaes agrupadas nas instituies ociais, alm do desconhecimento das questes pela opinio pblica. Em princpio minha tendncia era deixar o artigo para a segunda-feira, no ps-Crio. Mas meu instinto de jornalista no me permitiu guardar a informao por mais tempo quando conclu a primeira abordagem da pesquisa de trs dias. Vou ter que voltar mais longamente ao assunto para aprofund-lo, checar dados e sistematiz-lo melhor. Mas queria logo compartilhar meu espanto com o leitor do blog. Espero que mais pessoas no Par e na Amaznia se interessem pelo tema e passem a pesquis-lo tambm. No curso da anlise constatei uma lacuna que pode ser facilmente preenchida. Todas as empresas que possuem concesses de hidreltricas em operao deviam ser obrigadas a atualizar diariamente em seu site informaes sobre o nvel da gua no reservatrio e a jusante dele, o volume do vertimento pelo vertedouro, quanto de gua se acha estocada naquele momento e as medidas que houver sobre as cotas na bacia. Assim, qualquer cidado poderia acompanhar a evoluo na operao das bar ragens, familiarizando-se com um tema de grande relevncia para o pas

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5 O rio Madeira est seco. Por causa da hidreltrica?Em 30 de setembro deste ano o rio Madeira atingiu a sua cota mais baixa na ltima dcada, quando seu nvel baixou para 1,98 metros. Dois dias depois suas guas subiram um pouco, para 2,07 metros, o que caracteriza um dos perodos de maior estiagem de todos os tempos. So sete metros abaixo do mesmo perodo do ano passado. A situao mais crtica est em um trecho de 400 quilmetros, entre Porto Velho, a capital de Rondnia, e Manicor, no Amazonas. Segundo o Sindicato das Empresas de Navegao Fluvial do Estado do Amazonas, o problema decorre da falta de chuvas, da ausncia de dragagem para remoo dos sedimentos e do barramento das usinas hidreltricas de Santo Antnio e de Jirau, em Rondnia, que reduziu a vazo de gua. Os transportadores pressionam para maior liberao de gua atravs das comportas das barragens das duas usinas, das maiores do Brasil. O sindicato das empresas est desenvolvendo um estudo para apresentar s hidreltricas, pedindo que avaliem a possibilidade de reduzir o represamento de gua. O tema est sendo debatido com nas agncias reguladoras federais, a ANA (Agncia Nacional de guas), a Aneel (Agncia Nacional de Energia Eltrica) e a Antaq (Agncia Nacional de Transportes Aquavirios). Por causa desses problemas, o transporte de cargas pelo Madeira, especialmente de gros e de combustveis est paralisado h mais de um ms. Esses so produtos que exigem embarcaes de calado de pelo menos 2,80 metros, impossibilitadas de passar pelos trechos mais assoreados do rio. Quem mais se prejudica por essa situao, de acordo com o presidente da Federao Nacional das Empresas de Navegao, Raimundo Holanda, Rondnia. Sua produo agrcola, destinada essencialmente exportao, s vivel se exportado, e o transporte ocorre pelo Madeira, sustenta ele. Pelo Madeira passam 60% do que Manaus consome. O rio movimenta, anualmente, 12 milhes de toneladas de produtos: seis milhes de toneladas de gros destinados exportao; cerca de trs milhes de metros cbicos de combustveis com destino ao Acre, parte do Mato Grosso e Rondnia; e trs milhes de toneladas de carga geral. Os derivados de petrleo, destinados na maior parteao Acre e a Rondnia, e acarga geralprecisam sercar regados em embarcaes menores. Mas o volume j no suciente para suprir toda a demanda de Rondnia, do Acre e do norte do Mato Grosso. A complementao feita por rodovia, a um custo 10 vezes maior. Outro agravante o aumento no tempo de viagem, que praticamente dobrou. A navegao tem ocorrido durante o dia, a m de garantir a segurana nos trechos mais sedimentados. Alm disso, esto sendo utilizadas embarcaes menores. Juntos, esses fatores elevam o custo operacional do servio. O problema no existiria ou no teria a gravidade atual se o Madeira recebesse dragagem anual, entre os meses de julho e agosto, o que no acontece h trs anos. As entidades de navegao reivindicam a efetiva aplicao daPoltica Nacional de Recursos Hdricos, que determina ouso mltiplo das guas, impedindo que a navegao seja penalizada pela destinao dos recursos hdricos para a gerao de energia eltrica, como a prtica. A expectativa que a situao comece a melhorar na segunda quinzena deste ms, quando o nvel do Madeira volta a subir, facilitando a navegao. Com essa gravidade, o problema novo na Amaznia porque o Madeira j est represado por duas grandes hidreltricas, enquanto no Tocantins e no Xingu, no Par, h apenas uma em cada. Alm disso, o Madeira um rio plano, com um volume de sedimentos que s superado pelo prprio Amazonas. Mas certamente os mesmos problemas e questes logo se repetiro e se agravaro ainda mais, j que a Amaznia planejada para ser a provncia energtica do Brasil.Energia: Amaznia por trs do recordeO Brasil bateu o recorde anual de nova capacidade instalada de energia eltrica. Segundo dados da Agncia Nacional de Energia Eltrica, at o incio deste ms, foram adicionados ao sistema eltrico nacional 7,5 mil megawatts, o maior valor j registrado desde o incio da srie histrica, em 1998. A marca anterior era de 2014. Em setembro, o destaque, segundo a Aneel, foi o incio da operao comercial de parques elicos conectados na subestao Ibiapina, de responsabilidade da Chesf, e de duas unidades geradoras da hidreltrica de Jirau. A Amaznia ter participao cada vez maior na gerao de energia no pas, devendo assumir a liderana do ranking., j que os novos aproveitamentos hidreltricos em grande escala esto previstos pelo governo para a regio. Nos prximos meses, so esperadas a concluso da motorizao de Jirau, no rio Madeira, em Rondnia. Tambm entrar em operao a terceira unidade da casa de fora principal de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. Outro momento importante ser a ampliao da usina de Santo Antnio, vizinha de Jirau, com testes das mquinas praticamente concludos. O acompanhamento peridico da capacidade instalada prev cerca de 9.700 MW em novos empreendimentos de gerao, a entrar em operao ainda neste ano.

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6 Linha atrasada causa prejuzo de R$ 127 milhesCrio: a grandeza da f, o exagero do comrcioDesemprego: a tragdia brasileiraO Par o 9 Estado em populao do Brasil, com mais de 8 milhes de habitantes. Sua capital a 11 do ranking nacional, com aproximadamente 1,5 milho de habitantes, em proporo decrescente sobre o total do Estado (comeou a dcada com 33% e agora est em 30%). A regio metropolitana de Belm, incluindo cinco municpios (um dos quais, Ananindeua, o segundo em populao), com 2,2 milhes de habitantes, a 13 mais populosa do pas. Como que, diante desse quadro demogrco, a procisso do Crio de Nazar pode reunir dois milhes de pessoas, o que signicaria 80% da populao da rea metropolitana da capital paraense e um quarto da populao do Estado? Considerando o uxo de romeiros, ainda de menor expresso quando proveniente de outras regies do pas ou do exterior, e o contingente que sai do interior do Estado para Belm, impossvel, ao menos em tese, chegar a essa soma to impressionante da multido. O que no diminui a romaria, mesmo no mbito mundial. Ela realmente impressionante, qualquer que seja o ngulo de viso. Mas preciso frear essa busca quase histrica por uma grandeza que devia menos gloricar do que preocupar, Imagine-se que toda Belm, acrescida de 500 mil pessoas de fora, estivesse nas ruas ao longo do percurso do Crio, considerando as avenidas de ida e volta no sbado e no domingo como o eixo de ruas transversais e paralelas pelas quais se esparramam os romeiros. Parece claro que no h espao fsico para tanta gente. Mas tambm essa avaliao especulativa, como hiptese de trabalho. Um centro de pesquisa, principalmente nas universidades pblicas (federal ou estadual), podia se incumbir da tarefa de fazer um levantamento cientco para colocar o Crio na prancheta e apresentar respostas corretas para essa questo da sua dimenso. No apenas uma exigncia retrica ou acadmica. Seria uma base real para repensar essa busca por uma grandeza tal que pode desnaturar a raiz da manifestao, tornando-a uma competio quantitativa que, levada ao exagero, certamente causar danos cidade e s pessoas. J so 12 romarias, que se prolongam por vrios dias, com percurso de 140 quilmetros, algumas perigosamente motorizadas. No se consegue vislumbrar em algumas um sentido de f, de religiosidade ou mesmo de folclore. Parece mais uma extenso induzida articialmente para usufruto miditico ou comercial. Uma ida verdade e uma volta origem fariam muito melhor por essa exuberante demonstrao de vontade popular do que essas ginkanas de grandeza suspeita. O Brasil chegou situao mais triste, lamentvel e profunda da crise econmica: 12% de taxa de desemprego. Taxa geral j em si assustadora, que vira tragdia quando segmentada. Uma em cada quatro pessoas com idade entre 14 e 18 anos de idade est desempregada, com taxa de 38%, no auge das suas possibilidades, no ponto de largada ideal para a vida adulta e produtiva. Na faixa de 19 a 24 anos, a taxa de 23%. Um massacre. Dos mais de 200 milhes de brasileiros, 166 milhes esto em idade de trabalhar, segundo a mais recente estatstica do IBGE. S 90 milhes estavam trabalhando quando foi aplicada a pesquisa. Doze milhes ainda estavam procurando emprego, sem sucesso. E 64 milhes de cidados brasileiros estavam fora do mercado, tanto por terem sido excludos das oportunidades de emprego como por no estarem mais empenhados em conquistar um. Entregaram os pontos. Devem ir para a marginalidade. Assim, de cada 10 pessoas que esto empregadas ou ainda querem trabalhar, uma estava desempregada. Francelino Pereira, presidente do partido de apoio ao regime militar, criado por ato do ditador, perguntou certa vez sobre o Brasil: que pas este? A pergunta era mera retrica porque o pas era aquele, moldado por uma ditadura. Refeita agora, num ambiente democrtico, a pergunta consegue sua resposta? O atraso de 410 dias nas obras da linha de transmisso de energia de Macap custar 127,3 milhes de reais de indenizao empresa responsvel, que foi declarada isenta de responsabilidade, segundo deciso da Agncia Nacional de Energia Eltrica. O valor corresponde receita de 410 dias reconhecidos pela agncia, de um total de 605 dias de excluso de responsabilidade solicitados pela concessionria da linha em ao judicial. Ela pertence ao grupo espanhol Isolux, que tambm responsvel pela construo e operao de outras linhas de transmisso no Par e no Amap, em Oriximin e Laranjal do Jari. A nota no informou a razo de atraso to extenso, que impediu a chegada de energia de Tucuru capital amapaense.

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7 Para a Lava-Jato s Lula interessa?Para os investigadores da Operao Lava-Jato Lula culpado e s interessam as provas que conrmam essa hiptese; provas em contrrio so descartadas. O ex-presidente da repblica tem que ser condenado e ir para a cadeia, de qualquer maneira. a tese dos lulistas. Ela se comprova atravs de uma matria publicada na semana passada pela Folha de S. Paulo. O jornal anunciou que a proposta de acordo de delao premiada de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht e um dos executivos da empreiteira mais prximos de Lula, foi negada pelos procuradores da Lava-Jato e da Procuradoria-Geral da Repblica. Investigadores ouvidos pela Folha consideram que as informaes dadas por Alexandrino estavam incompletas. Tambm essas fontes perceberam indcios de que ele estaria protegendo personagens que so alvos de seus depoimentos, como o ex-presidente. Pessoas ligadas Odebrecht que acompanham as tratativas tambm avaliaram que os investigadores querem um contedo mais incisivo sobre as prticas criminosas que envolveriam o petista acrescenta o jornal, geralmente apontados pelos petistas como integrante do PIG (o Partido da Imprensa Golpista). Reservadamente, Alencar tem relatado que um dos fatores que incomodaram os procuradores, por exemplo, foi insistir que Lula, de fato, fez palestras pela Odebrecht. Para os investigadores, parte delas no foi realizada e h indcios de casos de superfaturamento, acrescenta a matria. Ela diz que o stio em Atibaia, em So Paulo, seria outro ponto de atrito. O ex-executivo arma que o valor de R$ 1 milho gasto em benfeitorias pela Odebrecht na propriedade frequentada por Lula foi um agrado pela atuao do petista a favor do grupo baiano, e no uma contrapartida a determinados contratos com o governo federal. Outro complicador seria a verso de Alencar, contrria hiptese dos investigadores sobre a empresa Exergia Brasil, do sobrinho da primeira mulher de Lula Taiguara Rodrigues. A companhia foi alvo de denncia apresentada ontem pelo Ministrio Pblico Federal, em funo da sua subcontratao pela Odebrecht para atuar em obras em Angola. Os empreendimentos contaram com recursos do BNDES. Em sua pr-delao, o ex-executivo confirmou que a empresa de Rodrigues foi contratada a pedido de Lula, mas negou que os servios no tenham sido realizados, informa a reportagem. Apesar da negativa ao acordo na semana passada, a posio dos investigadores de no fechar o acordo com Alencar no seria denitiva. A defesa do ex-diretor se comprometeu a levar novos elementos sobre Lula para a negociao. Parte dos procuradores cr que, com o material, h chances de o cenrio mudar. Advogados ligados Odebrecht que a Folha ouviu trabalham com essa perspectiva e tm se dedicado a levantar informaes e provas solicitadas pelo Ministrio Pblico. Sabem que tm pouco tempo para mudar os rumos da negociao. Alm de Alencar, outros executivos do grupo esto em risco de no ter acordos fechados com a Procuradoria e a fora-tarefa, segundo envolvidos nas investigaes, que o jornal cita sem dar-lhes os nomes. A empreiteira baiana estaria tentando concluir a delaode 53 funcionrios. Ao longo da semana passada mais de 20 advogados ligados Odebrecht estiveram em Braslia, onde se reuniram com os procuradores. A Folha lembra que essa a segunda vez que as declaraes de Alencar so consideradas insatisfatrias pelos procuradores. H pouco mais de um ms, eles zeram uma rodada de entrevistas com os candidatos delao da Odebrecht em Curitiba e em Braslia. Condenado por Sergio Moro a 15 anos e sete meses de priso sob acusao de corrupo e lavagem, Alencar cou quatro meses detido. Foi preso em 2015 na mesma fase que deteve Marcelo Odebrecht, herdeiro do grupo, mas saiu com um habeas corpus concedido pelo STF. Se verdadeiras, as informaes dadas pelo jornal paulista suscitam vrias reexes. A primeira quanto ao PIG. No h dvida que a grande imprensa nacional no gosta de Lula e dos petistas, muito menos de Dilma Rousse, e em especial descona das suas polticas sociais e da sua diplomacia, mas no h qualquer prova de que atuou nos bastidores para derrub-los ou encurtar os seus mandatos. Lula exerceu plenamente a presidncia da repblica durante os oito anos que conquistou atravs do voto. Todos os jornais noticiaram que ele deixou o poder com o mais alto ndice de aprovao da histria republicana. A fama que ele atribuiu a Dilma como gerente eciente foi aceita e ela surfou sem problemas na enorme onda deixada pelo seu antecessor (muito mais de espuma do que de gua), at a onda quebrar e a realidade se apresentar, depois da eleio de 2014. Nesse momento a bolha de tolerncia da grande imprensa tambm estourou e comearam a se suceder editoriais em progresso at o impeachment. Mas no num coro monocr dio. A averso a Dilma teve tons e semitons, cores fortes e tambm neutras. Todos a queriam fora, mas o pas continuou funcionando quando ela caiu e o prego golpista anou. Porque se certo que o Brasil no engoliu Temer, tambm s os fanticos para negar que tambm j deglutiu Dilma e Lula. Demonstrao dessa diversidade a prpria notcia dada pela Folha Cer tamente muitos petistas vo aprego-la aos quatro ventos como a prova de que Srgio Moro & equipe nada mais fazem do que uma perseguio sem trgua, a servio de foras ocultas ou no, mas sempre conspiradoras, para evitar que Lula volte em 2018 e d um passeio at a presidncia de novo. Mas no exatamente assim. O homem da Odebrecht mais prximo de Lula, seu acompanhante em muitas viagens e interlocutor em diversos encontros, no negou nenhum dos fatos postos sob quarentena pelos correligionrios do ex-presidente.

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8 A Odebrecht realmente gastou a nada desprezvel soma de um milho no stio paulista, que ele nega ser de Lula, que por l apenas passaria, em vacances (como dizem os colunistas sociais). Foi s um mimo desinteressado da construtora, reconhecida pela atuao patritica e positiva do chefe da nao. Imagine-se quanto no gastaria se o stio fosse realmente de Lula. Da mesma forma, conrmou que a empreiteira subcontratou uma r ma do sobrinho do ento presidente, mas ele realmente prestou os servios que lhe foram dados. E a participao de Lula se restringiu a promover os negcios do Brasil em Angola. Se a Odebrecht faturou em cima dessa diplomacia, coisa do acaso. Da mesma forma, a empresa pagou dos maiores honorrios do mercado internacional para que Lula desse suas fabulosas e incomparveis palestras pelo Brasil e o mundo, pelas quais podia at ter merecido um prmio Nobel da paz. Nada a ver com transferncia camuada de recursos que os espritos malvolos teimam em chamar de propina, comisso ou pr-labore, ou non-labore. A verdade, como se est a ver, no produto fcil ou abundante na praa. Mas pode ser encontrado se quem o busca olhar com ateno, acuidade e competncia as prateleiras em oferta.Para o povo, a bolsa. Para os empresrios, a malaDilma sofre nova reprovaoPelo segundo ano consecutivo, o Tribunal de Contas da Unio encomendou ao Congresso a rejeio das contas de gesto da ex-presidente Dilma Rousse. A deciso da corte foi adotada por unanimidade. Para chegar a esse parecer, o relator, Jos Mcio, apontou 10 irregularidades que impedem a aprovao das contas. Mas o que o TCU produz apenas um parecer prvio, que o Congresso Nacional pode acatar ou no. A prestao de contas de 2014 de Dilma foi rejeitada pelo tribunal, mas aprovada pela comisso de oramento do legislativo. At hoje, no entanto, esse parecer no foi ao plenrio para ser apreciado e votado. O Congresso no aprovou ainda sequer as contas de Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Se a Lei de Responsabilidade Fiscal uma das grandes conquistas do Brasil (e ) para impor uma gesto mais prossional, competente e sria da administrao pblica, o parlamento a est desmoralizando com sua passividade preguiosa e irresponsvel. Transfor ma o que norma tcnica em moeda de negociao poltica, contaminando a res publica com o vrus da lenincia e da promiscuidade. O parecer prvio do TCU pode at resultar de interesse poltico ou provoc-lo, mas sucientemente tcnico para ser desvinculado de teorias conspirativas para servir de elemento de anlise de duas questes srias. Uma, se realmente a presidente da repblica violou a lei que lhe impunha exao na gesto da coisa pblica. Quanto a isso, aps a leitura do parecer e das razes dos advogados de Dilma Rousse, a resposta positiva: ela deixou de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Logo, suas contas tm que ser rejeitadas. Outra questo ultrapassava o mbito das formalidades legais e diz respeito ao custo dessas irregularidades. Nesta anlise, impossvel no concluir que a Unio, como nunca antes, contribuiu pesadamente para a crise scal, nanceira e econmica que o pas enfrenta por sua atuao incompetente, irresponsvel e dissimulada. O governo federal abria novos buracos enquanto tentava tapar os j abertos. De uma manobra contbil, escritural, foi caindo num poo sem fundo de uma conta elementar: passou a gastar mais do que arrecadava. O efeito cascata para trs esse que imps ao partido do governo, o PT, a maior der rota da sua histria e das mais graves que um partido no poder j teve na histria republicana brasileira. O tesouro nacional emprestou 323 bilhes de reais ao BNDES, que repassou esse dinheiro a grandes empresas nacionais atravs de emprstimos subsidiados. Mais de 60% das empresas benecirias eram de grande porte e tinham condies de tomar crdito em mercado sem subsdio do governo. O saldo devedor do banco estatal de desenvolvimento junto ao tesouro foi alm de meio trilho de reais, o equivalente a 10% do PIB. Essas grandes empresas no foram apenas subsidiadas para realizar negcios dentro do Brasil, o que teria pelo menos o efeito de reteno de parte dessa montanha de dinheiro, gerando efeitos internos, descontadas as remessas ilegais para o exterior. Elas tambm foram favorecidas l fora com US$ 8,3 bilhes do BNDES para obras de infraestrutura em outros pases, dos quais 76% em Cuba, Angola, Argentina e Venezuela, pases amigos do PT e onde Lula tinha muita inuncia no s poltica, sabe-se agora em maiores detalhes. Esses so alguns dos nmeros assustadores que o governo Temer divulga atravs da imprensa a partir deste m de semana, em anncio institucional. So duas pginas de estatsticas gravssimas, apresentadas, porm, de forma supercial naturalmente, por que seria demais ir alm ao tratar de temas ridos e difceis junto ao grande pblico. O governo deveria completar essa campanha, atravs de um dossi tcnico, estritamente tcnico. O leitor, espantado ao saber que as pretensas multinacionais, que o PT pretendia criar, abriram um buraco sem igual nas contas pblicas, certamente haver de querer a lista dessas empresas, quanto cada uma recebeu, a natureza dos projetos favorecidos pelos nanciamentos, o saldo devedor junto ao banco, o valor da diferena entre os juros de mercado e o crdito subsidiado concedido e todas as infor maes necessrias para uma anlise completa da questo. Tambm assustador saber que as duas maiores estatais, a Petrobrs e a

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9 O livreiro DuduO primeiro dono de sebo com quem me relacionei, a partir dos 13 anos, foi Eduardo Failache. Ele era dono da Livraria Econmica, na rua Campos Sales, quase em frente ao Arquivo Pblico e a uma quadra da sede do jornal A Provncia do Par e da Livraria Mar tins, a maior e mais completa em toda minha vida em Belm. Dudu era o responsvel pela nica livraria de usados de Belm nessa poca. Abonado pelo cofre paterno, que vivia a sua fase urea, eu nem ligava para os preos, geralmente exagerados, que o Dudu, coando seu bigode e com seus olhinhos de gua, apresentava a cada exemplar que eu reivindicava por compra. Levei assim muitos exemplares de almanaques anuais, principalmente portugueses, o Ber trand e o do Porto, fontes de suprimento de curiosidades e literatura de ocasio que me eram muito teis na poca. Quando a fonte do provedor de fundos secou, passei negociao difcil e s vezes dura com o livreiro, incontornvel se queria sair da loja com um preo razovel. Aos poucos, o momento de denir o preo se transformou num autntico lance de esgrima entre o vendedor e o comprador. Gostvamos porque adestrava tanto a um como a outro, multiplicando os recursos que utilizvamos para vencer a parada. No impasse, eu me retirava bufando e o Dudu reinava com seu aparente desprezo pelos cobres que eu retirava com diculdade do bolso. Logo eu me instalei no prdio ao lado da livraria, no Justo Chermont. Raramente deixava de fazer escala no sebo entre sadas e entradas, muito frequentes, cata de informaes ou com elas no caderno para novas matrias. Tornamo-nos amigos, amizade que de nada servia quando se tratava de medirmos foras em torno de um dos seus produtos. s vezes ganhava ele; s vezes, eu. Empate era resultado raro, que acontecia quando a pugna prolongada nos cansava. Talvez eu possa reivindicar o ttulo de a pessoa que mais comprou livros no sebo do Dudu, uma caverna escura e mofenta, que mais parecia uma dependncia medieval. Na parte nal, ainda mais caver nosa, estavam as preciosidades, que Dudu costumava despachar para o estrangeiro, como ele dizia, ou para outras capitais. Demorou para que eu tivesse acesso a esse covil. Dudu temia que eu conseguisse sair dali com uma preciosidade sem deixar as moedas que ele arrecadava com clientes mais fornidos no bolso. O que, de fato, acontecia mas s de vez em quando, entre urros de dor e rangidos de dentes caninos. Se conseguia a faanha, eu saa dali como Lancelot e ia apreciar a caa no escritrio, com o ar condicionado ligado e a vista para o derramamento de gua do rio Guam no esturio do rio Par, passando pela baa do Guajar, com as ilhas ao fundo. Eu era um rei e Dudu o meu vassalo era a iluso que cultivava por efmeros momentos. Essa relao sobreviveu impvida aos anos, to intensa que mal soube da morte de Eduardo Failache larguei tudo para comparecer, ltima hora, sua derradeira passagem por este vale de lgrimas. Eu era o nico cliente a testemunhar o seu sepultamento no cemitrio de Santa Isabel entre parentes do velho, enrgico e compreensivo livreiro, o primeiro da srie de outros pastores de papeis impressos da minha vida. No podia ter comeado essa histria com personagem melhor do que o Dudu, simples e perigoso como esse tratamento carinhoso e informal. Eletrobrs, tiveram prejuzo de quase 75 bilhes de reais em apenas dois anos, 2014 e 2015, dos quais R$ 56 bilhes da petrolfera, inltrada pelo cartel das empreiteiras e seus associados polticos e tcnicos. Tambm o caso de divulgar uma anlise do balano das duas companhias do setor de energia, que de importncia estratgica para o pas. No menor o impacto da revelao de que, ao nal do ano passado, R$ 54 bilhes de despesas realizadas pelo PAC (o Programa de Acelerao do Crescimento, que teve por madrinha Dilma Rousse, quando ainda ministra e em campanha pela presidncia da repblica), mas no pagas. Como que uma obra de 2,4 bilhes de dlares, a renaria Abreu e Lima, j custou mais de US$ 18 bilhes, quase oito vezes mais? Passadena, que um escndalo, torna-se quinquilharia diante desse dinossauro de ao. Ao revelar essas informaes, Temer quer mostrar opinio pblica que encontrou uma situao muito grave nas contas pblicas. uma iniciativa que se mostrar mais positiva se fornecer um levantamento completo das contas e torn-lo acessvel a todos. Qualquer que fosse o sucessor de Dilma, agora ou depois, atravs de uma interveno que antecipou o seu m, como o impeachment, ou pela sucesso normal, em 2018, o novo presidente teria um abacaxi de Itu para descascar a partir de uma herana realmente trgica. Mas teria que descascar a fruta maldita. At agora o governo de Michel Temer no se revelou altura desse desao. De sua dimenso d uma ideia o prprio anncio que mandou publicar na imprensa. Ele diz que extinguiu 4,2 mil dos 24 mil cargos de conana da mquina pblica cuja conduo Dilma lhe deixou e que 10 mil s podero ser ocupados por servidores concursados. Ainda assim restaro quase 10 mil cargos a serem preenchidos com nomes que o presidente poder tirar do bolso do colete seu e dos seus parentes, amigos e correligionrios. Podia simplesmente ter cumprido a diretriz constitucional e impor o preenchimento de todos os cargos pela via legal do concurso pblico. Um pequeno bom exemplo, cujo valor simblico transcende seu signicado econmico-nanceiro e ajudaria o povo a comear a crer num governo que at agora majoritariamente, rejeita.

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10 A juza frauda e punida: vai ganhar sem trabalharO Conselho Nacional de Justia decidiu, no dia 13, que a omisso da juza Clarice Maria de Andrade contribuiu para os abusos que a menor L. S. P., de 15 anos, sofreu numa cela lotada de homens em Abaetetuba. Durante 26 dias, ela foi espancada, teve a pele queimada com cigarros e foi estuprada seguidamente. A jovem fora presa sem julgamento, sob a acusao de tentar furtar um celular. O relator do processo no CNJ, em Braslia, Arnaldo Hossepian concluiu que ficou evidente a falta de compromisso da magistrada com suas obrigaes funcionais. A defesa alegou que ela desconhecia as condies da priso.Em 20 abril de 2010, o Conselho Nacional de Justia,por maioria de votos, imps juza a pena de aposentadoria compulsria. Ela foi punida por se enquadrar no caso do juiz que abdica deliberadamente do exerccio de suas competncias, atuando de forma burocrtica e indolente, negligenciando em salvaguardar os interesses do jurisdicionado. A sentena considerou que o magistrado responsvel pelo bom andamento dos servios cartorrios, sendo invivel sua defesa apenas ao argumento da responsabilizao exclusiva de auxiliares, em especial quando demonstrada a gravidade e a excepcionalidade da situao concreta. Inconformada, a juza recorreu ao Supremo Tribunal Federal. Dois anos depois, em junho de 2012, o STF concedeu parcialmente por maioria de votos o mandado de segurana, cassando a deciso do CNJ. O relator do processo, Marco Aurlio Mello, afastou qualquer forma de responsabilizao da juza pelo fato de a menor ter sido mantida recolhida, juntamente com mais de 20 presos, na carceragem da delegacia da polcia civil de Abaetetuba. Havia uma segunda acusao contra a magistrada: sua desdia em adotar as providncias urgentes e pertinentes para a situao grave que lhe foi noticiada, formalmente, por meio de ofcio subscrito pela autoridade policial. Na manh de 7 de novembro de 2007, a comunicao foi apresentada no protocolo do frum onde funcionava a 3 vara criminal da comarca do municpio, pela qual Clarice, no sendo a titular, respondia. Nesse ofcio, delegado Antonio Fernando Botelho da Cunha, superintendente regional do Baixo Tocantins, solicitavaem carter de urgncia, a transferncia da presa de justia L. para car detida em Belm, uma vez que no possumos cela para o abrigo de mulheres, estando a mesma custodiada juntamente com outros detentos, correndo risco de sofrer todo e qualquer tipo de violncia por parte dos demais Analisando o documento, o relator da nova anlise do caso pelo CNJ, Arnaldo Hossepian Junior, observou que, diante do teor do ofcio, de gravidade evidente, em que o dano vivenciado pela presa, do sexo feminino sendo aps constatado que se tratava de menor de idade era de clareza meridiana, sem dvida as providncias cabveis exigiam proatividade por parte do Magistrado responsvel, no caso a Dra. Clarice. O relator destaca o trecho do voto vencedor no STF, que admite que a juza poderia ter agido com a presteza e a ecincia demandada pela gravidade da situao, j que estava a seu pleno alcance assumir pessoalmente a comunicao com o TJ/PA ou com outras autoridades competentes, sem delegar a prtica desses atos operacionais ao seu auxiliar, ou mesmo cobrar-lhe incisivamente a comprovao do envio e do recebimento das mensagens. Ao tomar conhecimento do ofcio da autoridade policial, a juza mandou ociar Corregedoria de Justia, solicitando autorizao, conforme o requerido pelo delegado. O relator observa que com esse despacho, surgiu a primeira controvrsia: teria o despacho sido datado de 7 de novembro, uma quarta-feira, ou 8? Ele nota que a data apresenta rasura, como atestado pelo laudo pericial, que concluiu que a datao pioneira foi 08/11/07. Posteriormente, ainda de acor do com a concluso do laudo, a data foi alterada para 07. Apesar dessa rasura, algo indiscutvel, Clarice, quando de seus memoriais, sustenta que de fato se equivocou ao despachar, se vendo obrigar a reticar a data, pois a correta era 07/11/2007 ao invs de 08/11/2007. Todavia continua o relator ainda que a rasura tenha sido fruto de simples equvoco, sem qualquer intuito de fraudar a realidade e, por conseguinte, a f pblica do documento, o que, por si s, seria algo inadmissvel em se tratando de um Magistrado, h outro fato. A juza sustentou que delegou ao diretor da secretaria do juzo, Graciliano Chaves da Mota, as providncias pertinentes para o encaminhamento do ofcio Corregedoria da Justia, mediante fax e correspondncia fsica.Mas o tal encaminhamento no se efetivou nem em 7 nem em 8 de novembro. Segundo apurado em sindicncia realizada pela Corregedoria, o ofciofoi efetivamente elaborado e encaminhado apenas em 20 de novembro, embora com data de 7 de novembro de 2007. A fraude na data de encaminhamento restou provada quando da diligncia realizada no computador da serventia da 3 Vara, que localizou o arquivo do ofcio com data de 20 de novembro, uma tera-feira, ao invs de 07 do mesmo ms. Portanto, ideologicamente falsa a certido datada de 21 de novembro de 2007, expedida pelo servidor Graciliano, que certica ter encaminhado o tal ofcio Corregedoria em 08 de novembro de 2007, relata o conselheiro do CNJ Depois da investigao que fez, a Corregedoria (ento cheada pelo atual presidente do tribunal, desembargador Constantino Guerreiro),proclamou a inexistncia de qualquer solicitao subscrita pela magistrada Clarice em favor da detenta aps identicada como sendo menor inimputvel em especial a transferncia dela para estabelecimento prisional adequado.O ofcio s foi recebido em 23 de novembro.

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11 A Corregedoria informou ainda que o servidor Graciliano, uma vez inquirido sobre as fraudes constatadas, admitiu ter atuado de acordo com as determinaes da Magistrada Clarice que, quando de seus memoriais, negou, peremptoriamente, as imputaes. Sustentou, ainda que, se omisso houve, sem dvida no foi dela. O relator ressalta que o dever do magistrado, no exerccio da judicatura, e atuar de forma atenta e empenhada, diligente mesmo, e com a capacidade de identicar o que se trata de questo emer gencial, portanto a demandar medidas cleres, entre aquelas enfrentadas no cotidiano do dia-a-dia forense. Considera no ser admissvel que, diante da situao noticiada no ofcio presa do sexo feminino detida no mesmo crcere ocupado por vrios presos do sexo masculino, algo ignominioso a Magistrada Dra. Clarice, no exerccio da jurisdio, tenha simplesmente delegado para seu subordinado a expedio de comunicados pelas vias formais, curvandose s justicativas que segundo ela foram apresentadas pelo servidor para postergar o cumprimento da determinao, o que se deu mais de 10(dez) dias aps o recebimento do ofcio. Evidente, portanto, a falta de compromisso da Magistrada com suas obrigaes funcionais. Seu descompromisso com a gravidade da situao da presa tambm se revela no depoimento prestado no curso do presente processo por outra servidora do seu gabinete. Maria Luisa Pinheiro Soares trabalhava deixou claro que, embora trabalhasse na sala de audincia, diariamente, ao lado da juza, jamais ouviu qualquer comentrio sobre a presa do sexo feminino, encarcerada na mesma cela ocupada por presos do sexo masculino e a expedio de ofcio sobre tal situao. Ela confessou s ter sabido do fato quando a imprensa o noticiou, em 20 de novembro. Hossepian considerou necessrio de relevo destacar tambm que Maria Luisa trabalhava ao lado do servidor Graciliano, como admitido pelo prprio no corpo na certido fraudulenta, aquela em que ele certicou a data de expedio de ofcio Corregedoria como sendo 08 de novembro de 2007, inverdade esta depois diagnosticada. O conselheiro anotou ainda a preocupao, compulsiva, da Magistrada em se livrar de qualquer responsabilidade pelo episdio, quando, ao elaborar nota imprensa, datada de 20 de novembro de 2007, ignorou o teor do ofcio expedido pela autoridade policial, do qual tomou cincia e lanou despacho, armando que no sabia, at 14 de novembro de 2007, que a presa L. se encontrava recolhida em cela com vrios presos do sexo masculino. Negou, assim, de forma pueril mesmo, a realidade ftica que se evidenciou, certa de que poderia tornar favorvel a ela a compreenso de tudo o que se sucedeu envolvendo a presa do sexo feminino. A nota imprensa, ao invs de favorecer a Magistrada, consagra a certeza do quanto estava ela desconectada de seu dever funcional, pois mesmo armando que, em 14 de novembro de 2007, teve notcia da condio de menor inimputvel da presa, nenhuma ao emergencial adotou para salvaguardar os interesses da menor e, por consequncia, solucionar quele estado de coisas (por exemplo, determinando a imediata soltura da custodiada ou transferncia para outra unidade das foras de segurana daquele Estado), agora mais grave, deixando que tudo caminhasse at 15 de novembro de 2007, quando, curiosamente, deu-se a fuga da detenta, que estava prestes a ser entregue aos genitores, por iniciativa do Conselho Tutelar da Comarca. No ofcio em que, logo em seguida, prestou informaes Corregedoria, o relator diz que sua ateno foi atrada pela narrativa da juza, que a m de justicar a Nota Imprensa, se diz surpresa, no quanto priso da menor na cela com homens, mas sim com a repercusso do caso. Ao concluir a sua apreciao do caso, Hossepian diz queno Brasil, onde tantos casos de corrupo diminuem a conana da populao nos rgos pblicos, necessita-se de pessoas que sejam comprometidas com a causa, que possam quebrar preconceitos com relao aos sujeitos do Estado, atravs de uma conduta digna de ser seguida. O Juiz pode ser este sujeito, onde, no mbito de sua jurisdio, seja respeitado por todos e que inspire a crena na atuao justa e imparcial do Judicirio. Alm disso, por meio de seus conhecimentos e inuncia, pode ele cumprir uma responsabilidade social, indo alm do dever de julgar, criando, desenvolvendo e participando de projetos que ensinem e auxiliem a populao. Para ele, esse o papel social do juiz, que tem um compromisso com a sociedade, seguindo como rumo em suas decises os preceitos denidos na Constituio, visando o bem social, e que, alm disso, seja um exemplo em seu meio, tanto dentro, como fora dos autos. No caso que examinou, Clarice Maria de Andrade abdicou deliberadamente do exerccio de suas competncias, atuando de forma burocrtica e indolente, negligenciando em salvaguardar os interesses da mulher e, num segundo momento, de menor inimputvel, procurando, ainda, se escudar na gura do servidor Graciliano, seu assessor, transferindo a ele, que trabalhava com ela diariamente, na sala de audincias, a culpa pela inao aqui diagnosticada, que de fato de inteira responsabilidade da Magistrada. Alm de aplicar a pena da disponibilidade, compatvel com a gravidade da falta, o conselheiro mandou ociar ao Tribunal de Justia do Estado para que informe se foi instaurado inqurito para apurar crime contra a f pblica praticado ela magistrada a Dra. Clarice Maria de Andrade. A magistrada foi afastada do cargo que vinha ocupando, junto cpula do tribunal de justia, mas continuar a receber o salrio integralmente. Ficar em disponibilidade durante os prximos dois anos. Signicando que receber em dia sem precisar trabalhar. Assim, seis anos depois da primeira deciso e nove aps o crime, o CNJ concluiu a apreciao. Optou por uma pena ainda mais branda do que a primeira, a colocao da juza disponibilidade, recebendo tudo que lhe caberia se estivesse na ativa, pelos prximos dois anos. Ganhando integralmente sem precisar trabalhar. Isso punio? Parece mais antecipao proveitosa da aposentadoria, a que nenhum cidado teria direito. Os policiais acusados foram punidos com a demisso a bem do servio pblico. Boa moral, portanto, no tem essa histria.

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12 QUEM (3)Continuo a relao dos nomes da elite paraense que compraram apartamentos no edifcio Palcio do Rdio, em 1952, quando a construo do prdio, na avenida Presidente Vargas, ainda nem comeara, mas o empreendimento j era um sucesso de venda: Maurpicio Queima Coelho de Sousa, Mercedes Rios, Milton Mindelo Gar cia, Mathias Menezes, Novelina Moncho Cohen, Nelma e Nilma Age, Nelson e Jorge Age Filho, O. M. Franco & Cia., Oscar Jos Chamma, Osvaldo Abrunhosa Trindade, Oceania Chami (alguns nomes caram ilegveis e outros incompletos: Chaves Fernandes, Ponte Sousa Borges Leal), Pedro de Oliveira Bentes, Pinto Leite & Cia., Plnio Alves Barreira, Preciada Levy Athias, Pojucan Loura Tapajs, Renato Malheiros Franco, Ruy Ponte Sousa Borges Leal, Sebastio Albuquerque de Vasconcelos, Scilla Lage da Silva, Slvia Campos Proena, Slvio Gouveia Santiago, Sol Meyohas, Teivelino Guapindaia, Waldemar Marques da Conceio e Wady om Chami.Eram trs e meia da tarde de 29 de setembro de 1917. O bonde 23 da Par Eletric, concessionria do transpor te pblico em Belm, fazia o percurso da Usina da Cremao para o Ver-o-Peso, guiado por um motorneiro e dirigido por um condutor. Ao chegar ao posto de parada da travessa 22 de Julho (atual Alcindo Cacela) com a avenida Gentil Bittencourt, colidiu com a locomotiva Ananindeua, que ia da estao de So Braz para a de Belm, a m de comboiar um trem de Belm para Castanhal. O acidente aconteceu porque o motor neiro do bonde tentou passar antes pelo trilho, ig norando o aviso do maquinis ta. O motorneiro morreu na hora.FNIXEm 1954, o presidente da Fnix Caixeiral Paraense, Armando Corra Pinto, avisava que somente o estudante que estiver inteiramente quites com a mensalidade do ms de junho (sem exceo) poderia ser chamado para fazer as primeiras provas parciais do ano. A instituio mantinha a Faculdade de Cincias Econmicas, a Escola Tcnica de Comrcio e o Curso Tcnico de Administrao.O ingresso no Colgio Estadual Paes de Carvalho era intensamente disputado, em funo da qualidade do seu ensino. Disso d mostra o quadro de professores em 1954. Dentre outros, davam aulas de portugus: Jos da Silva Chuva, Roberto Arajo de Oliveira Santos, Francisco Paulo Nascimento Mendes, Clvis de Moraes Rgo e Acy de Barros Pereira. Matemtica: Renato Condur, Menio Castro Costa, Mariana da Silva Chuva, Luiz Gonzaga Baganha e Alrio Cesar de Oliveira. Histria do Brasil: Maria Paula Chaves. Histria natural: Gislia Costa Leo. Geograa: Valdemar Viana e Jos Apolinrio Costa Fsica: Fernando Vieira. Ingls: Alberto Pinto da Costa. Robert Clyde Skeet e Hugh Moresby Kirby. De francs: Aurlio Bar roso Rebelo, Fernanda Fer reira Braga, Yolanda de Car valho Chaves. Latim: Heliodina Frota e Silva. Desenho: Joo Ribeiro dos Prazeres e Renato Cristo Mendes Leite. Trabalhos manuais: Hilda Ribeiro da Silva. E hoje?MOMOMrio Coelho Cuia foi nomeado rei Momo de Belm por ato do prefeito Osvaldo Melo de 21 de janeiro de 1966. Cinco anos depois, a Federao das Escolas de Samba e Agremiaes Carnavalescas decidiu destitu-lo do cargo por considera-lo ausente das suas atividades. Hospitalizado para exames cardiolgicos, Cuia respondeu que seu cargo era vitalcio, que ele tinha o direito de transferi-lo ao sucessor que escolhesse, se decidisse se afastar, e que seu reinado era exercido nos clubes sociais, cujos sales frequentava durante a quadra carnavalesca, e no nas escolas de samba. PROPAGANDACandidatos em 1962Celso Leo para deputado estadual pela CDP (Coligao Democrtica Paraense) e Jayme Barcessat para vereador pela UDN (Unio Democrtica Nacional) foram dois candidatos s eleies de 1962. Profissionais liberais que no chegaram a desenvolver carreira poltica. Mas tentaram colocar a mo na massa do poder.

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13 Em 1968 o Banco da Amaznia decidiu comprar o Conjunto Guajar, um prdio em construo, que atingira o quarto andar, para nele instalar a sua sede, transferindo-a da esquina da Frutuoso Guimares com a 15 de Novembro (onde est agora a seccional do comrcio da polcia civil) para a avenida Presidente Vargas, onde ainda se encontra. A transao provocou crticas e polmicas. O banco respondeu atravs de uma nota, mostrando a grande vantagem que teria adquirindo o prdio em obras, no lugar de car (por quase o dobro do preo) com quatro imveis, oferecidos por Fernando Monteiro Valdez e Jose Sarraf Maia, que se inculcam Corretores de Imveis. O banco teria que demolir as edicaes existentes nos terrenos e dar incio integral nova sede, enquanto, por preo muito menor, caria com o prdio levantado sob fundaes seguras para uma edicao maior. No dia seguinte publicao da nota, a associao prossional da categoria respondeu. Disse que os dois eram realmente corretores de imveis e manifestou ir restrita solidariedade a eles, desconhecendo qualquer ato que desabonasse as suas condutas.Belm uma cidade sanevel, mas ela precisa se conscientizar de que seu problema no se agrava de ano para ano, mas a cada 24 horas. No entanto, a cidade tem a sorte de no ter mor ros ou elevaes, que, com eroses e assoreamentos, dicultariam as obras. Pelo contrrio, esses servios, na capital paraense, so dos mais baratos do mundo. Com este diagnstico, feito em 1968, o diretor do DNOS (Departamento Nacional de Obras de Saneamento), em visita de inspeo, lamentou a falta de maior participao da prefeitura, principalmente para reservas reas para o reassentamento das famlias a serem remanejadas das reas onde o rgo do governo federa estava atuando. A principal era a do igarap do Una. As comportas e 10 dragas j estavam local (apenas quatro em atividade), mas as obras estavam paradas por diculdade operacional. Crescia a favela do Barreiro e o adensamento humano atrapalhava o servio, alm de entraves com particulares, como o que loteava um vasto ter reno na baixada da Pedreira, entre Alcindo Cacela e Curuzu. O diretor tambm manifestava preocupao com a possibilidade de a administrao municipal perder a oportunidade de car com outro extenso terreno na Estrada Nova, de propriedade da Radional, a empresa de telefonia e telegramas que estava encerrando suas atividades em Belm. Na rea podiam ser xadas muitas famlias retiradas das reas alagveis. A prefeitura sempre andou devagar quando andou.Limpeza com burroEm 1957, reassumindo a prefeitura de Belm em oposio ao grupo poltico de Magalhes Barata, que controlava o poder no Par, Lopo de Castro decidiu colocar de novo em funcionamento, depois de extinta vrios anos antes, carroas puxadas a burro para atuar na limpeza da cidade, junto com caminhes de coleta e as equipes de reco-reco, tradicional forma de limpeza manual. Na foto, uma das briosas equipes de faxina.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Cart@JORNALUma das minhas satis faes entre tantas ao ler o JP (conhecimento adquirido, a certeza da notcia verdadeira atravs de um jornalismo imparcial) so tuas respostas aos leitores esquerdistas e fs, insatisfeitos com teu posicionamento naquilo que diz respeito aos fatos relacionados ao governo petista. Divirto-me com os termos usados por eles jornales conservadores, elite, golpistas, capital internacional, elite econmica e outras firulas que fazem parte do discurso de bolso de casaca de comunista. O que se percebe que esses leitores querem que tu penses com a cabea deles, com o idealismo deles; o que seria impossvel, pois caso isso ocorresse, no seria o Lcio Flvio do JP: o jornalista imparcial. Seria mais um componente das esquerdas raivosas. O leitor Miguel Silva na edio do JP de n 617, 14 pargrafo do texto, diz que precisas praticar o que sempre pregas: o jornalismo de qualidade, impar cial, fiel aos fatos e com respeito ao contraditrio. Ser que ele l o JP sempre?????? No fundo, no fundo, todas as quinzenas precisam ir s bancas, para adquirir um exemplar do Jornal Pessoal e se locupletarem com boas notcias, notcias de verdade e no informaes com segundas intenes. Penso que seja o caso do amor bandido. Uma hora ama e, quando contrariado, se enche de dio. Em tempo: Parabns pelos 29 anos do JP. For midvel o cartum de Luiz Pinto ao reproduzir o JP em seu minsculo tamanho, freando, e, fazendo-se respeitar pelos jornales da capital. Excelente o texto do Luiz Pinto com respeito falta de comprometimento. A propsito da noticia, adotei o seguinte sistema h tempos: adquiro dois exemplares quinzenais, um fica em casa e outro destinado a novos leitores. um trabalho de formiguinha, porm se cada leitor adotar esse sistema, em breve duplicaremos a quantidade de leitores. Sade e um grande abrao! Paulo CastroMuito obrigado, caro amigo. Por tudo: pelo jornal extra adquirido, pela anlise do jornal e pela defesa que faz desta tribuna, acessvel a todos e, por isso, enriquecida pelos leitores.A Cabanagem como ela foi: sem lendas, mitos e falsidadeReproduzo o texto de apresentao de Srgio Buarque de Gusmo para o seu livro Nova Histria da Cabanagem, que escreveu em julho deste ano e ainda no teve lanamento oficial (mas o e-book j circula pela internet, no portal do Amazon, ao preo excepcional de 16 reais, acessvel a todos). O texto que publiquei na edio passada foi muito modificado na verso impressa. Os acrscimos so importantes por fornecer uma amostra mais completa das teses defendidas pelo jornalista paraense, h quatro dcadas domiciliado em So Paulo. E tambm suas anti-teses, que merecem servir de provocao para um debate ainda mais fecundo e esclarecedor sobre o principal acontecimento da histria do Par e da Amaznia, das mais impressionantes do Brasil.O autor pertence a uma gerao de que a Cabanagem foi sequestrada. Nos estudos que fez no Par, nem no Ginsio Industrial Oliveira Brito, em Capanema, nem no curso Clssico do Colgio Estadual Pais de Carvalho, ouviu falar da grande insurreio regional da dcada de 1830. A Cabanagem fora varrida da Histria. No havia em Belm um s logradouro ou monumento pblico a lembrar dos cabanos exceto um retrato de Eduardo Angelim pendurado no Instituto Histrico e Geogrco por ocasio da comemorao do centenrio da derrota da Cabanagem, que incluiu um monumento no Largo de Santo Antnio ao general que esmagou a rebelio, Francisco de Andreia. Ainda circulava um livreto escolar de Dionsio Joo Hage, Histria do Par (Editora do Brasil, 1962), para o terceiro ano primrio, com captulos sobre A Tragdia do Brigue Palhao e a Cabanagem. Os livros de Histria do Brasil para o ginsio e colegial (Borges Hermida, Joaquim Silva, Vtor Mussumeci) minimizavam a Cabanagem no conjunto das revoltas regenciais. Nesse perodo, o jornalista Carlos Roque, que iria ser um historiador entusiasta do movimento, comearia a reabilitao em 1967 na sua Grande Enciclop dia da Amaznia. A obra-catedral, os Motins Polticos de Domingos Antnio Raiol, baro de Guajar, publicada em cinco volumes entre 1865 e 1890, seria reeditada em 1970, para continuar a ser, como ainda o o melhor trabalho sobre a insurreio. Desde a reedio dos Motins uma estante de livros tratou da Cabanagem. Embora a maioria dos autores beba na caudalosa fonte de Raiol, eles escrevem com a tinta seca da ingratido. A pre-

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15 texto de uma saudvel leitura crtica, a que est sujeita qualquer obra, multiplicam reparos ideolgicos ao livro do baro, conservador e crtico severo da insurreio. Posto em ponta ideolgica inversa, tais reparos desqualicariam as obras apologticas dos cabanos com a agravante metodolgica de usarem material coletado por Raiol e nem sempre citando a fonte. A artimanha j foi identicada por Lcio Flvio Pinto, um dos maiores conhecedores do assunto, de quem o autor recebeu os primeiros incentivos ao estudo da Cabanagem, e no lugar mais apropriado: o Arquivo Pblico da rua Campos Sales, onde ele e Lenil copiavam cdices do sculo XIX. Anos depois, insatisfeito com a bibliograa, Lcio apontaria o sociologismo reducionista dessas obras, que aige tambm a geograa, bitolada pela geopoltica de claro vis ideolgico, que tudo explica com pouca demonstrao factual e grande vazio informativo, disse ele, acrescentando: Simpticos e altissonantes, sensveis participao dos humilhados e ofendidos, mas sem a densidade da obra mxima do baro. 1 historicidade do pesquisador no se pode cobrar iseno, tampouco a omisso de pontos de vista. Mas o leitor tem o direito de recusar o aambarque do fato pela opinio e repudiar distores de episdios de que a nica e sumria fonte Raiol. Ao longo deste livro deslam citaes dessas achegas ccionais. Para tomar o exemplo de um autor srio que incorreu no deslize, Pasquale Di Paolo, em Cabanagem A Revoluo Popular da Amaznia (Cejup, 1990), usou exaustivamente o material dos Motins muitas vezes com transcries inexatas, e sem cit-lo ao longo de pginas, como se a pesquisa fosse sua ou tivesse testemunhado pessoalmente cenas histricas que o pobre baro pde apenas reconstituir... Embora reconhecendo em rodap o imenso valor da obra historiogrca de Raiol, cobra provas de dados, acusa-o de leviandade e distores a que seu livro no est imune por estampar acrscimos delirantemente imaginados. A co chegou ao auge com Dcio Freitas em A Miservel Revoluo das Classes Infames (Record, 2005), em que o historiador gacho simplesmente inventou uma personagem, o revolucionrio francs Jean-Jacques Berthier, transplantando-a do exlio na Guiana Francesa ao Gro -Par, para testemunhar a Cabanagem e escrever cartas imaginrias exclusivas para o livro de Freitas. Mas a obra tem mritos se rubricada na categoria de romance histrico. Ao contrrio dos fabuladores, Raiol teve a ventura dos sonhos de um historiador: como Herdoto, o Pai da Histria, que inaugurou a prtica, entrevistou protagonistas dos acontecimentos que narrava: Eduardo Angelim, Francisco Vinagre, Sousa Franco e outras testemunhas oculares arroladas nos Motins Polticos Infelizmente, um ba de documentos e anotaes por ele acumulados nas pesquisas caiu no mar em 1882 quando desembarcava em Fortaleza para assumir o governo do Cear. O importante na obra desse grande historiador do Imprio no a hostilidade, o preconceito de classe, a estigmatizao impiedosa dos cabanos, mas a reconstituio dos episdios a par da opulenta documentao que reuniu e legou posteridade como ata do ciclo histrico. Em muitas passagens, Raiol mostra o faro no do que seria hoje um analista poltico sua esquerda. Quando Darci Ribeiro (2010, p. 291) explica a insurreio dos cabanos argumentando que sua revolta secularmente acumulada contra a opresso e a discriminao era uma razo suciente para desencadear a guerra, aproxima-se da explicao que o baro (1970, p. 925) deu para a violncia cabana: Parece que o movimento faccioso tinha degenerado em dio de raas, dio nascido de vexames e extorses de que se julgavam vtimas os ndios, os pretos, os mestios e os seus descendentes, dio entranhado desde os tempos coloniais e sufocado por muitos anos, o qual irrompera nesses dias nefastos contra os opressores verdadeiros ou imaginrios daqueles. No h outra razo para tanta fereza da parte dos rebeldes, que manifestavam em todos os seus atos sentimentos represados de vingana. A memria da Cabanagem uma ddiva de Raiol. A boa-nova vem da Academia. Para realizar esse trabalho, examinamos aproximadamente 300 textos produzidos em universidades e centros de pesquisa, e muitos merecem o selo de estudos srios, inovadores na construo terico-metodolgica e consistentes na pesquisa documental. uma pena que a maioria no tenha virado livro, j despida dos cnones e paradigmas acadmicos (ver a seleo dos citados em Consulta Eletrnica, na Bibliograa). Alm de ler minuciosamente o grande historiador, e perscrutar a vasta bibliograa, o autor obteve documentos na Biblioteca e no Arquivo nacionais e no Servio de Documentao da Marinha, no Rio de Janeiro; no Centro de Documentao e Informao da Cmara dos Deputados, em Braslia; na hemeroteca do Grmio Literrio Portugus, em Belm; e no Projeto Resgate, que rene documentao do Brasil colonial e imperial. No Arquivo Pblico do Estado do Par, em Belm, alcanou cdices inditos e pde cotejar com as cpias ali guardadas transcries de documentos ociais j citadas em livros, sobretudo nos de Domingos Raiol, Jorge Hurley e Palma Muniz. A releitura desvendou novidades, iluminou dados, seno episdios far tamente reproduzidos, cuja importncia, e sobretudo conexes no processo histrico, no foi percebida pelos que as transcreveram primeiro. Os documentos encerram mistrios. Nem sempre se esgotam, isto no se mostram inteiramente na primeira visada ou interpretao; ao contrrio, repousam na poeira dos arquivos ou no amarelecimento dos microlmes espera do cotejo de quem os rel e estuda com novas ferramentas de entendimentos e conhecimentos indisponveis na poca em que foram gerados. O que um analista obscurece, outro clareia. Onde dois viram uma ninharia, um terceiro enxerga um tesouro. O que foi reduzido a pouco em uma leitura isolada agiganta-se no entrelao do conjunto. O reexame de uma transcrio parcial e seletiva pode desfazer uma interveno na narrativa dos acontecimentos, em geral feita para melhor sustentao de uma tese ou suporte interpretao. Se a Histria uma Cincia, distingue-se de outras, sobretu-

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do das Biolgicas e Exatas, em que o resultado da pesquisa, refeita por outro cientista em idnticas condies, deve ser exato ao original. Convm ponderar que Histria e Jornalismo (o ofcio do autor) dependem do fato citado, reconstitudo ou testemunhado. Fatos que compem ciclos de acontecimentos e processos histricos. A interpretao essencial para conferir hierarquia contextualizada ao fato, expresso que confere visibilidade e sentido ao acontecimento. Mas h de depender do fato. Ainda que oxigenada por teorias e mtodos mais elucidativos, escrava do fato. Da porque, tanto em Jornalismo como em Histria, cabe ao fato legitimar a interpretao e autorizar a concluso. A interpretao no se pode basear em elementos impertinentes, imaginados pelo historiador. Quem do ramo, como Roger Chartier (2009, p. 31), adverte: Numa poca em que nossa relao com o passado est ameaada pela forte tentao de criar histrias imaginadas ou imaginrias, fundamental e urgente a reexo sobre as condies que per mitem sustentar um discurso histrico como representao e explicao adequadas da realidade que foi. H de se conservar a ambivalncia indiciria do mtodo analtico, ou seja, o nexo causal entre fato e interpretao. Ponderese, ainda, que o simples arrolamento de fatos no faz Histria e que os fatos no falam por si mesmos. A compreenso das leis do desenvolvimento histrico os encaixa em uma narrativa que vai alm da crnica cronolgica, baseada em feitos e personalidades, abrindo caminho para as legtimas interpretaes, hipteses e teorias sempre preliminares, espera da superao no tempo. Tais consideraes ilustram as contestaes e reparos que as teses aqui apresentadas opem a fatos e/ou conjuntos de supostos fatos inscritos na narrativa da Cabanagem como verdades acabadas. Verica-se que interpretaes, ilaes, suposies lastrearam concluses sem fatos que as autorizassem. Outras foram baseadas em dados distorcidos, adulterados ou supervalorizados para chancelar concluses esdrxulas. O prprio autor, em raro artigo sobre a Cabanagem, publicado na ligeireza da internet, embarcou no trem-fantasma das incorrees impenitentes.2 O rol de impropriedades repisadas e cristalizadas na narrativa da Cabanagem comea pelo nome, pois a designao cabanos no tem liao etimolgica moradia dos insurretos, e passa pela trajetria dos protagonistas: o cnego Batista Campos no foi idelogo da insurreio nem o tribuno popular destacado em sua biograa; o renegado presidente Flix Clemente Malcher no foi um anticabano; Francisco Vinagre no foi um quadro heroico. Ao contrrio da fantasia construda como tradio, a Cabanagem teve, sim, um programa, o das lideranas, executado a ferro e fogo. J o nmero de mortos, esticado de 30.000 a 40.000 pessoas, fruto de exerccio da arte divinatria. Erros, distores, ilaes descabidas tm sido reiterados de forma categrica e indubitvel, o que d razo crtica do historiador Francisco Iglesias (1971, p. 375) a seus colegas de ofcio: Pesquisa-se pouco entre ns: a maior parte dos escritos simples repetio de anteriores, perpetuando equvocos. Por m, uma palavra sobre o mtodo aqui adotado. A abordagem pessoal, nas teses de Grenfell, Malcher e Batista Campos, se ilumina a conduta desses agentes, no signica supervalorizao do papel do indivduo na Histria, antes propicia um o condutor para sua ilustrao no movimento das foras produtivas e da luta de classes, em que os agentes da Poltica desempenham funo relevante (Plekhanov, 2000). Os grandes homens so sempre menores que o processo histrico mesmo em uma insurreio em que ainda se dimensiona o protagonismo do povo. Os seis pontos temticos abordados na forma de teses poderiam ser bordados em menos pginas, mas se estenderam em longa linha narrativa para costurar um manto historiogrco talhado em revises factuais a partir de protagonistas ou temas especcos. Para que cada tese-captulo tivesse autonomia relativa, muitos episdios foram mencionados e contextualizados mais de uma vez. A frmula permitiu ao autor recontar, muito utilizando o material de Raiol (exaustivamente mas no sucientemente creditado), e reinterpretar, no sentido de apresentar outras concluses alm das vigentes, fatos e processos importantes da Cabanagem, seus antecedentes e consequncias, para oferecer uma outra e nova histria do que foi e do que no foi a insurreio que galvanizou o Gro -Par na dcada de 1830. So Paulo, julho de 2016. __________1 Jornal Pessoal, n. 523, 2 quinzena de outubro de 2012, p. 11. 2 Nos Desvos da Cabanagem, disponvel em www.contracorrente. org/indice/nos-desvaos-da-cabanagem.html