Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o aAt duas semanas atrs Zenaldo Coutinho era considerado um dos piores prefeitos que Belm j teve, conseguindo superar seu antecessor, Duciomar Costa. Mais da metade dos eleitores o rejeitavam. Nele no votariam de jeito nenhum. Com essa rejeio, que o condenava a ser derrotado num segundo turno (se nele chegasse), seu destino parecia selado: s exerceria um mandato no comando do executivo municipal, ao contrrio de Duciomar e Edmilson Rodrigues, prefeitos da capital paraense por oito anos. A menos de duas semanas da votao do 1 turno, porm, Zenaldo j comea a despontar como o concorrente de Edmilson no 2 turno, passando frente do delegado der Mauro, que parecia consolidado nessa posio. Suas surpreendentemente novas possibilidades se acentuam porque o candidato do PSOL parece ter estacionado aqum de 40%, com menor tendncia a um incremento no 2 turno, embora as prvias ainda o considerem capaz de vencer qualquer competidor nessa nova votao. ELEIOOpo (quase) zeroSem opo para mudana, Belm ir s urnas em outubro para girar em torno de uma quadratura, qualquer que venha a ser o prefeito que escolher. assim h

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2 Como explicar mudana to radical e sbita? Os cticos e os descrentes atribuem a evoluo do tucano a uma manobra do seu principal aliado, o grupo Liberal, atravs das duas pesquisas do Ibope que j divulgou. Especulaes so feitas sobre a parte das pesquisas que teriam sido fraudadas, mas o fato que ningum impugnou os resultados na justia eleitoral, onde todo o trabalho foi depositado. Legalmente, portanto, a pesquisa vlida, ainda que possam ter havido retoques na amostragem ou na aplicao das perguntas, alm da margem de erro (que permite induzir para cima ou para baixo em at oito pontos percentuais). Admitido, porm, que as pesquisas reetem de alguma maneira a realidade de cada momento da sua aplicao, inegavelmente um dos principais fatores de mudana foi o incio da propaganda eleitoral ocial. No exerccio do poder municipal, que se combina com o controle do governo do Estado, o PSDB tem mais recursos para bem apresentar o programa do seu candidato (por precioso tempo de exposio na televiso e no rdio) e para exibi-lo em atividade, realizando obras. Os seus adversrios s tm o recurso da oratria e da retrica. H vrios anos o principal investimento de um candidato a cargo eletivo feito no marketing. Sua consagrao foi a eleio, em 2002, do Lula paz e amor, retocado carissimamente por Duda Mendona, depois de trs derrotas do Lula real na disputa pela presidncia da repblica. Se havia algum ainda reticente na utilizao da magia da imagem produzida, essa resistncia acabou em especial para aqueles que no gostariam nem poderiam exibir sua face verdadeira. A campanha eleitoral em Belm e no Par cou insossa e inconsistente para aqueles que se cansaram dos fogos de artifcio na tela, com suas montagens capazes de transformar o caos das obras do BRT num cenrio hollywoodiano. Com esses recursos de maquiagem sobre uma realidade suja e at chocante, o prefeito que faz e continua a fazer se vale do voto til, cuja relevncia pode ser medida pela movimentao na boca de urna. H muito tempo Belm no vota para mudar porque no lhe do essa oportunidade. A maioria da cidade acaba concedendo generosamente a renovao do mandato. Mudar se torna arriscado diante das opes to ruins ou piores do que a conservao daquele que j est no cargo. Assim, a temtica sempre a mesma, que segue um roteiro denido pelas pesquisas particulares e a imaginao dos marqueteiros. Como no sero eles que cumpriro os compromissos e executaro o que anunciam, criam obras e fazem projetos apenas para que o cliente vena. Depois ser outra histria geralmente ruim. Talvez por isso os debates caram anmicos ou sumiram. Se quem fala acredita no que diz, quem ouve sabe que quase tudo um faz de conta. Como sempre, a disputa gravita em torno de trs ou quatro candidatos em um elenco que pode ir de 8 a 10, sempre um dos mais numerosos do pas, embora o pas desconhea e no queira saber de Belm, excluda de todas as pesquisas nacionais de voto, inclusive quando todas as demais capitais da Amaznia entram na lista. Um perl novo, que poderia atender a nsia de mudana do eleitorado, seria o ex-reitor e professor da Universidade Federal do Par, Carlos Maneschy. Ele tem currculo, boa imagem, fala bem e dispe de tempo para sua pregao pela TV e rdio. Mas sua mensagem do bem e do novo tem ao fundo o ministro Helder Barbalho, em campanha antecipada para a eleio de 2018, quando pretende ocupar o lugar (de governador) que j no cabe na votao do pai, o senador Jader Barbalho. Tudo indica que Maneschy, no conseguindo ser a melhor opo que Belm busca, exibir seu nome de pblico o bastante para disputar para valer um lugar de deputado federal em 2018, na composio poltica necessria para dar a Helder o cargo cobiado. Maneschy estar ento participando da sobrevida do esquema de poder de Jader. A der Mauro, deputado federal e delegado da polcia civil, bastou passar mais algum tempo diante do telespectador para perder sua condio de favorito, descer para o segundo lugar e car ameaado de no participar do 2 turno, algo parecido ao eterno fenmeno de Celso Russomano em So Paulo: comea com um j ganhou e vai caindo at car de fora da deciso. Muitos partilham a posio do delegado de resolver a violncia matando bandido, mas a linguagem monocrdia esvazia a sua gura quando a eleio majoritria d acesso administrao pblica. Torna-se claro que esse tipo de candidato pequeno demais para o tamanho da responsabilidade, mesmo que ela acabe no dando bons frutos, por isso tambm que Edmilson Rodrigues est no momento na condio de candidato seguro para passar para o 2 turno. Mas a entra em ao outro componente: constrangido pobreza poltica e misria real numa capital que tem cado para trs na comparao com as outras sedes estaduais do Brasil, o povo se deixa levar pelas aparncias. E acaba girando sobre o mesmo ponto, onde marca passo a triste capital dos paraenses,Chantagem x chantagem por trs da guerra polticaA ex-presidente Dilma Rousse e o seu grupo sustentaram que Eduardo Cunha, quando presidente da Cmara dos Deputados, s recebeu o pedido de impeachment contra ela para se vingar de no ter tido sucesso na chantagem que fez. Queria que o PT zesse parte da reao ao processo de cassao do parlamentar, mas o Partido dos Trabalhadores no o atendeu. Por isso ele recebeu e deu tramitao acelerada ao impedimento. Ao fazer seu ltimo discurso como deputado federal, antes da cassao, Cunha disse que aquele ato era resultado da vingana dos petistas exatamente porque ele fora o principal responsvel pela deposio de Dilma do poder. evidente que cada parte s assumiu essas posies por contrariedade dos seus interesses e o que dizem no exatamente a verdade ou nem toda ela. Mas quando se desentendem e passam a se acusar mutuamente que oferecem

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3 opinio pblica de saber o que acontece nos bastidores. Espontaneamente, ningum faz essas acusaes. Elas podem servir de pista no caminho para a verdade. Um dia depois de perder tudo que o cargo lhe propor cionava, inclusive a imunidade parlamentar e o foro privilegiado na justia, Eduardo Cunha comeou a abrir a caixa preta dos seus segredos ou a destilar o veneno que guardou durante o exerccio do poder. Ele apontou o tratamento diferenciado do procuradorgeral da Repblica, Rodrigo Janot, s denncias obtidas pela fora-tarefa da Operao Lava-Jato. Janot denunciou Cunha por receber propinas, mas excluiu da ao o presidente do Senado, Renan Calheiros e Jader Barbalho, igualmente delatados pelo ex-senador Srgio Machado, patrocinado por Renan para ser presidente da Transpetro, subsidiria da Petrobrs. Machado fez as acusaes em delao premiada na Lava-Jato. Os mesmos delatores acusam como benecirios das supostas vantagens indevidas montando a seis milhes de dlares os senadores Renan Calheiros, Jader Barbalho e o senador cassado Delcdio do Amaral, arma Cunha em nota divulgada logo depois da cassao. Ele tambm cita o ex-ministro de Minas e energia, Silas Rondeau, ligado ao senador Edison Lobo (do PMDB do Maranho) e ao ex-presidente da Repblica Jos Sarney. A ao penal que deveria ser indivisvel, segundo o Cdigo Penal, foi aberta apenas contra mim, diz o comunicado do ex-presidente da Cmara. As chantagens, pelo visto, prosseguiro. ___________________________Poupana pequena, a gastana enormeO Brasil tem um mercado potencial de 3,7 milhes de pessoas com renda suciente e que se encontram na faixa etria recomendvel para ingressar na previdncia complementar. Se apenas metade desse pblico aderir ao sistema, ser possvel acumular R$ 350 bilhes at 2025. Esta foi a principal constatao do 37 Congresso Brasileiro de Fundos de Penso. Se a meta que projeta for atingida, o pas ter condies de equacionar os dois desaos gmeos lembrados em recente estudo do IBRE-FGV: aumentar a poupana domstica e consolidar a previdncia complementar. Com isso, ganha principalmente a sociedade brasileira, to carente de solues para os problemas que h tempos travam seu desenvolvimento, proclama a carta de encerramento do encontro. A Abrapp considera que o modelo previdencirio brasileiro precisa passar urgentemente por uma reviso. Diz que a longevidade da populao brasileira caminha para atingir nveis observados em pases de populao madura. Mas h um agravante. Diferentemente das naes desenvolvidas, o Brasil ainda no acumulou riqueza suciente em benefcio de seu povo, exigindo solues e compromissos de longo prazo. Nem acumular, se depender dos dirigentes dos principais fundos de penso, os estatais. S quatro deles tiveram prejuzo de quase 50 bilhes de reais. A Polcia Federal apura se houve fraude e corrupo na origem do dcit. Por conta das provas que juntou e a levaram a promover na semana passada uma ofensiva sobre esses quatro fundos (do Banco do Brasil, da Petrobrs, da Caixa e dos Correios), a justia j bloqueou bens dos indiciados no valor de oito bilhes de reais. uma hemorragia monumental, que sangra o bolso do contribuinte, j convocado para tapar o buraco. Mas sobre esse tema a carta de encerramento do congresso no faz a menor referncia, como se no interferisse poderosamente para agravar a crise identicada e no para resolv-la. ___________________________Capito infiltrado a servio de quem?Manifestantes contra Michel Temer, presos no dia 12, em So Paulo, apontaram Balta Nunes como pessoa inltrada nas manifestaes. Suas atitudes e companhias levaram a essa suspeita, quando o caso chegou a Lavras, em Minas Gerais, onde pessoas que o conheceram logo o identicaram. Tratava-se de Willian Pina Botelho, capito do Exrcito, bacharel em Cincias Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras e mestre em Operaes Militares pela Escola de Aperfeioamento de Ociais. Segundo as informaes disponveis, em novembro de 2013 o ocial considerado pessoa inteligente e brilhante publicou um artigo na revista A Lucerna da Escola de Inteligncia Militar do Exrcito, analisando o uso da inteligncia em apoio s operaes no ambiente terrorista. Segundo o portal da Transparncia, o militar est na ativa desde 1998. Logo,estaria desempenhando suas funes ao se inltrar entre os manifestantes. Com o codinome de Balta Nunes, o militar teria se apresentado como pessoa interessada em encontrar algum de esquerda para se relacionar. Passou a conrmar presena em eventos convocavam para as manifestaes anti-Temer que ocorreram nas ltimas semanas em So Paulo. Chegando para participar de um desses atos, ele teria convencido o grupo ao qual se juntou a acompanh-lo at determinado lugar. O grupo, com 22 pessoas, foi seguido por um helicptero da polcia por todo o trajeto e, depois, foi abordado pela Polcia Militar e levado para o Departamento Estadual de Investigaes Criminosas. O militar teria sido o nico a no ser molestado nem seguido junto com o grupo. Esses manifestantes, detidos supostamente com a ajuda do militar, no tinha passagem pela polcia, no se assumindo como blackbloc. Tambm no fazia parte de qualquer or ganizao ou partido. O Brasil como Estado Democrtico de Direito no pode legitimar a atuao policial de praticar verdadeira priso para averiguao sob o pretexto de que estudantes reunidos poderiam, eventualmente, praticar atos de violncia e vandalismo em manifestao ideolgica. Esse tempo, felizmente, j passou, disse o juiz Paulo Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, de So Paulo, ao liberar os manifestantes na segunda-feira. O episdio tem relevncia e merece ser bem apurado e esclarecido para que se saiba se realmente o Exrcito, as for as armadas ou o governo esto por trs do ocial, se ele agiu isoladamente, se h ou no ligao entre ele e as detenes e se o que os estudantes denunciam de fato, a verdade. E se estava em atividade de inteligncia, compreensvel, ou de insuamento e manipulao dos manifestantes, o que de preocupar. A democracia brasileira agradeceria pelas respostas rpidas e convincentes, como preciso.

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4 JP responde: presente!O momento mximo de cada edio do Jornal Pessoal, nestes 29 anos completados agora, a sua exibio nas bancas de jornais e revistas ao lado das publicaes da grande imprensa. O contraste salta aos olhos. Um jornalzinho mirrado, sem cor, sem foto, sem mulher nua, sem coluna social, sem recursos grcos e sem publicidade ao lado de mercadorias vistosas e imponentes. Uma publicao de aparncia amadorstica junto a um produto ver dadeiramente industrial. Feitos os descontos da fachada, o JP, como um David, mede foras com o Golias impresso em um nico item: o contedo. Pelo contedo que oferece aos seus leitores, este jornal sobrevive, persiste, informa, sugere, provoca, questiona, critica e incomoda, incomoda muito. Esse incmodo s di nos poderosos, nos que avanam sobre o patrimnio pblico, nos que enganam a sociedade ou nos que querem se livrar da voz da conscincia que lhes resta na alma e na mente. A contrariedade dos que so aqui expostos em sua verdadeira face ou criticados por seus erros se expressa de vrias maneiras. A mais nociva delas atravs do sussurro, do cicio malicioso, do jogar de pedra e esconder a mo, na energia negativa que exalam na tentativa de intimidar, fazer sofrer e calar o autor dos disparates aqui publicados. Esto errados? Esto distorcidos? No traduzem a verdade? Servem a interesses escusos? No precisa ir longe para desmascarar o jornalista solitrio desta publicao. Suas pginas esto inteiramente vontade para que os insatisfeitos se manifestem. Tudo que escreverem ser integralmente transcrito. Claro que haver a rplica. Mas a trplica ter vez e da se sucedero as manifestaes at que o assunto se esgote e tudo que tiver para ser dito seja realmente dito. Em 29 anos de Jornal Pessoal sofri muitos ataques, inclusive fsicos, e sustentei vrias polmicas, que se deterioraram com o passar do tempo. Recebi saraivadas de lama em forma escrita, chutes, pontaps e murros lato senso. Mas no desisti e no me acovardei. Tambm no perdi a credibilidade. Corrigi meus erros, que percebi ou me foram apontados. Nenhum disse respeito ao meu compromisso com a ver dade e a competncia para busc-la no intrincado e innito universo dos fatos e das explicaes. por isso que este jornal permanece como uma fonte de referncia sobre tudo que aborda. Mesmo assim, ele no vencedor. Nem podia ser. A causa parece perdida. Ainda assim, o JP combate. Melhor combater por uma causa nobre, ainda que condenada derrota, do que embarcar no oportunismo, no adesismo, no escapismo e na segurana das torres de marm, na certeza montada abstratamente distncia innitesimal das ruas, bem longe dos abalos sociais. Como escapar a este destino? Sinceramente, no sei, no tenho mais a convico que me acompanhou durante a juventude e a maturidade. Dando passos decisivos para os 70 anos (espero que no me privem de mais esta escala), o que sei o que fao. O que fao inquirir sobre os acontecimentos, buscar-lhes o sentido, identicar seus per sonagens e tentar transmitir aos leitores o que entendo por isso. Ou seja: fao nica e exclusivamente jornalismo. O problema que se tornou raridade pratic-lo, da as crescentes diculdades para manter vivo este pequeno jornal, esta tribuna que valorizo tanto, mas que teima em me segredar nos momentos de desnimo e lucidez (ah, combinao perversa!): joga a toalha, entrega o jogo, oferece a tua cabea a Salom, adere, desaparece, morre. Companheiro do poeta Carlos Drummond, no entanto, prossigo. Ser que at os 30? Ser, se os amigos e as pessoas de boa vontade tambm no desistirem num momento em que os que sequer combateram j desistiram, posando de heris cansados de guerra. A Amaznia e o Brasil no precisam de heris. Precisam de pessoas comuns como eu e os meus bons leitores dispostas a tentar o impossvel: a vitria do colonizado sob o jugo do colonizador. Esta uma luta que aos fortes e bravos s pode exaltar descrito pelo poeta maranhense Gonalves Dias. Ainda na luta, pois!A festa do JPSem me consultar e sem me informar, o jornalista, cartunista e historiador Walter Pinto comemorou o aniversrio deste jornal no seu blog na internet. A ele se juntaram seus e nossos amigos, numa festa que eu no faria melhor. Reproduzo-a para que todos entrem na dana. Como se sabe, s no samba quem doente do p ou ruim da cabea.Walter Pinto Jornal Pessoal: trs dcadas de jornalismo corajoso e de qualidadeH 29 anos, o jornalista e socilogoLcio Flvio Pinto edita o Jornal Pessoal, uma das ltimas publicaes alter nativas da imprensa brasileira. L, o leitor encontra infor maes sobre mutretas que no saem na grande imprensa paraense. LFP s no est inteiramente s nesta misso porque conta com o auxlio luxuoso do irmo, Luiz Pinto, um dos maiores cartunistas brasileiros. Sou muito grato ao Lcio por ter-me aberto as portas para o jornalismo nas pginas de um tabloide que editou na dcada de 1970, o Bandeira 3. Muchas gracias, amigo. Elias Ribeiro Pinto E ainda corre pra cabecear em meio aos zagueiros destamanho e faz o gol. Walter Pinto Joga por todo um time. Walter Junior Junior Homenagem merecidssima ao jornalista que escreve de uma forma crtica e esclarecedora sobre as maracutaias polticas no Par. Marcos Moraes de Lima Talento e dignidade. Lcio merece toodas as homenagns. Paulo Jordo Rodrigues Lcio foi quem encaminhou meu registro de jornalista quando presidia o nosso sindica-

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5 to. Meu registro nmero 1000. Muita honra. Emanuel Matos Lcio Flavio Pinto no apenas tudo isto. mais. Um craque em tudo o que faz. Uma inteligncia diante da qual impossvel no fazer reverncia. Obrigado pelo PESSOAL e por ele. E ao Walter parabns. Genial, Walter. E como sempre, providencial. Wanda Cabral Justssi ma homenagem, o Lcio tem uma legio el que o acompanha e sabe distinguir o verdadeiro jornalismo, prestamos nossa homenagem e admirao por estes 30 anos de coragem sem se deixar vencer por aqueles que querem calar a nica voz que os desaa. Parabns Lucio. E parabns Walter por mais uma genial charge. Eduardo Jos Costa SilvaO povo paraense tem mais que se orgulhar de ter um jornalista do porte de LFP, e o JORNAL PESSOAL pra clarear nossas ideias. Obrigado Lcio Flvio Pinto por esses 29 anos de JP Lcio Flvio Pinto Obri gado, Walter, e a todos os generosos amigos que aqui se manifestaram. Ler palavras to amveis para mim mais do que um estmulo: encarar o desao de continuar a merec-las. Abrao a todos. Neves Neto Linda homenagem. Luiz Pinto T muito bom, Walter, s faltou botar ele na grca. O computador dele um pentium com monitor bundudo. Eduardo Kalif ao mesmo tempo Pel, Garrincha e Jairzinho. Paulo Emman Emman Bela homenagem. Viva o JP. Feito pelo mestre do trao Warton Pinton. Walter Pinto No o mesmo teu, por certo. Mas o Lcio defende o ponto de vista dele, com argumentos, sempre. Como voc, amigoSena. Rosemiro Pamplona o que pode chamar de carreira solo. Haroldo Brando Fao minhas bl bl...Os dois Brasis convivem quando deviam se excluirDois Brasis conviveram a alguns metros de distncia um do outro, sendo que em cada ambiente estavam lado a lado personagens dessas duas ptrias, que deviam ser excludentes entre si, mais uma vez para o bem de todos e felicidade geral da nao. Um Brasil arcaico personicado, no plenrio da Cmara Federal, pelo agora e felizmente ex-deputado Eduardo Cunha. Um cidado que invoca a Deus e fustiga os que teriam ofendido sua famlia, em particular a sua esposa e a lha mais velha, se considera injustiado e anuncia que vai escrever um livro para mostrar sua inocncia e as causas esprias da sua cassao (que o faa: j hora de os brancos, por serem brancos, no mais se entenderem, revelando seus podres poderes, embora parea mais provvel que busque delao premiada para evitar uma punio do tamanho dos seus crimes) O ex-presidente da Cmara, o segundo na linha sucessria da repblica, faz essas prosses de f depois de comprovado que mentiu para os seus pares, que recebeu propina para intervir no andamento de obras pblicas, que desviou parte desses recursos para o exterior, que gastou dinheiro ilcito como o mais perdulrio dos muitos marajs de um Brasil podre, cnico, audacioso e viciado, que reluta em ser despejado da histria do pas. No prdio do Supremo Tribunal Federal toma posse uma cidad at agora sem mcula, uma mulher com carreira na procuradoria geral do Estado de Minas Gerais, seguindo para a magistratura pelo quinto constitucional, uma verdadeira intelectual, uma pessoa de ideias e atitudes prprias, autntica. Sua presena, em substituio a um ministro que comea a ter a sua triste gura descolada dos melhores momentos do STF e escorrega para a desmemria coletiva, Ricardo Lewandowski, como no poema de Joo Cabral de Mello Neto um sim numa sala negativa. A presena de uma cidad altiva e corajosa frente da mais alta corte de justia do Brasil parece ter estimulado o seu colega Celso de Mello e o procurador geral de justia, Rodrigo Janot, em nome do Ministrio Pblico Federal, com presena no colegiado. Em seus discursos, nervosos e quase irados, atropelando as frases mal contidas de indignao, os dois oradores investiram contra a corrupo e os corruptos, sobretudo aqueles que conspurcam e manipulam o poder que o povo lhes delegou atravs de uma procurao direta, a mais legtima que existe: o voto. Em harmonia com esse pensamento, a ministra Crmen Lcia pediu vnia para no saudar a mais alta autoridade institucional da repblica, o presidente Michel Temer, ao seu lado, e ir direto a quem confere o poder aos homens pblicos: o prprio povo. A quem jurou que vai servir e se submeter ora viva! Seu pronunciamento, com a mesma inciso no tumor maligno que provoca a hemorragia nacional de riquezas e qualidades, foi no mesmo sentido: de constranger alguns dos smbolos de um Brasil que se acostumou vilania, aos privilgios, brutal desigualdade social, ao abuso de poder, corrupo mais descarada. No me lembro de ter visto ou ouvido falar o presidente de um poder institucional atacar de forma to clara, mesmo que no explcita, personalizada, o chefe do outro poder (e o mais forte deles, o executivo), de corpo presente, como ontem, no STF. Nem jamais vi uma alcateia de lobos disfarados de parlamentares recuar do impulso natural de dar proteo corporativa ao poltico de mais deslavado cinismo e mais criminosa amoralidade, um igual, anal (e, por isso, ou restaure-se a moral ou todos nos locupletemos, como a regra nacional, parafraseando vov Zulmira, personagem no humor de Stanislaw Ponte Preta). Os 450 votos pela cassao de Eduardo Cunha podem ser apenas um gesto heroico para o colgio eleitoral que vai agir dentro de pouco mais de duas semanas. Mas tem expressivo valor simblico. E o homem o nico animal que cria smbolos. Tomara que os atos na Cmara e no STF, mesmo que forados pelas circunstncias e suscetveis de no passarem de demagogia ou irrupo de momento, tenham um smbolo capaz de fazer a sociedade acreditar nele e continuar embarcada na causa nobre de limpar o Brasil da mediocridade, da canalhice e da vilania para recomear melhor e chegar mais longe na busca por um novo pas.

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6 Fbrica de motosserra no campus orestalFui muitas vezes ao belo campus da atual Universidade Federal Rural da Amaznia, em Belm, ao longo de meio sculo de jornalismo. Acompanho a sua histria desde que a instituio era a Escola de Agronomia da Amaznia, seguida pela Faculdade de Cincias Agrrias do Par, at se tornar Ufra. Ao penetrar no campus intensamente arborizado, no dia 12 para dar a aula magna na abertura do II Congresso Amaznico de Meio Ambiente e Energias Renovveis (Engenharia, Meio Ambiente e Desenvolvimento Energtico na Amaznia), levei um susto. Ao lado do ICA, (o Instituto de Cincias Agrrias, onde dado o curso de engenharia orestal), est instalado um escritrio comercial do fabricante de motosserras Stihl. Sim, a ferramenta que contribui decisivamente para a destruio da oresta amaznica. A empresa tem o direito de produzir e comercializar essa mquina, em tese neutra e s vezes necesria, como um revlver ou um mssil, mas que na prtica a principal ferramenta usada para por abaixo a mata nativa da regio e desencadear uma srie de efeitos malcos, alguns ruinosos, uns tantos desastrosos. Mas que ela se instale num centro de saber voltado para o conhecimento da natureza amaznica e para o ensino do respeito ao meio ambiente um absurdo. Pois l est h mais de dois anos a Stihl fazendo palestras, treinando os alunos dos cursos de agrria e orestal a manejar o equipamento, realizando exposies e feiras, sob o manto protetor de uma instituio do ensino superior dedicada ao meio ambiente. Nem o mais predador dos sujeitos conceberia tamanha impropriedade. Ao iniciar a minha palestra pedi direo da Ufra que deszesse a relao com a fbrica de motosserras e a retirasse de dentro do campus. Meu apelo foi pblico, sincero e candente. Permanece sem resposta at hoje. O silncio geral, quebrado unicamente pelas mensagens que recebi no meu blog, contrasta com a gravidade do assunto. A prpria Stihl anunciou que o Centro de Qualicao STIHL Norte, inaugurado em outubro de 2011 no campus da Ufra, era o terceiro centro regional desse tipo da empresa no Brasil. O centro do sul do pas funciona na fbrica da empresa em So Leopoldo, no Rio Grande do Sul (onde deveriam car todos), que a sua sede no Brasil. J o centro do sudeste foi inltrado no campus da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais. A estratgia com esses centros seria de cada vez mais agregar valor aos seus produtos com um atendimento especializado e excelncia em servios para o consumidor nal por meio de pontos de venda com pessoas altamente qualicadas em todo o pas. No havia dvida sobre o carter comercial da iniciativa, embora a fbrica tambm garantisse que no centro iria dar aulas tericas e oferecer apostilas equipamentos para a prtica de desmatamento, claro. Assim, a empresa pensava em se manter como lder no mercado brasileiro de ferramentas motorizadas por tteis, com um mix completo de produtos de alta qualidade e durabilidade para os mercados agropecurio, orestal, jardinagem e domstico. O local foi escolhido a dedo: a Ufra a maior universidade federal rural da Regio Norte Assim, estava apta a atender as necessidades de treinamento das concessionrias Stihl situadas em Amazonas, Roraima, Amap, Par e Tocantins. Com base na parceria, a Ufra ps disposio da empresa a rea do auditrio, que foi totalmente reformulada. O objetivo era treinar aproximadamente 230 pessoas por ano, com a realizao de vrios cursos na rea tcnica, de vendas e de gesto de negcios, e dessa maneira qualicar cada vez mais a rede de concessionrias e aprimorar de forma contnua o atendimento ao consumidor. Comrcio, portanto. Mas no qualquer um. A Stihl foi fundada em Stuttgart, na Alemanha, por Andreas Stihl. No ano da sua instalao na Ufra tinha 11 mil colaboradores em 160 pases. Para atender ao mercado global, contava com fbricas na Alemanha, Brasil, Estados Unidos, ustria, Sua e China. Logo, sua presena na regio que (ainda) abriga a maior oresta tropical do planeta devia interessar a todos, sobretudo comunidade universitria. Mas ela se manteve calada, o que me levou a escrever este texto para introduz\ir no blog uma mensagem que me enviou o poeta e engenheiro orestal Paulo Vieira: Na tenra infncia tive a felicidade de ler todos os contos (ou lendas) do dinamarqus Hans Christian Andersen. Em 1837 (enquanto por aqui rolava sangrenta a cabanagem), ele escreveu uma fbula sobre a nudez do rei. Naturalmente, todos ns, os mais velhos, a conhecemos (a escola de hoje devia ensinar moral atravs das sempre ecientes fbulas do povo, materializadas na melhor literatura por gente como Andersen). De certa forma assumi o papel do menino que apontou a nudez do rei ao me manifestar sobre a incrustao de um escritrio da motosserra Stihl em pleno campus da Universidade Federal Rural da Amaznia. Uma intruso empresarial violando e conspurcando uma instituio acadmica, de propriedade da Unio e, antes dela (como lembrou a ministra Crmen Lcia), do povo. Por que no receber tambm uma sucursal dos machados Wenzel, por exemplo, que tm a mesma utilidade, ainda que numa escala produtiva in comparavelmente inferior (seja para o bem como, e, sobretudo, para o mal)? Parece que todos professores, alunos, funcionrios e visitantes passavam pela rea sem considerar o absurdo daquela presena at que um palestrante convidado, que j no consegue conter dentro de si o senso de justia e de ver dade, alm da indignao, botou a boca no trombone, ou, melhor simbolizando, na corneta de Josu em Jeric. Vamos derrubar essa muralha? Vamos tirar a Stihl de dentro do campus da Ufra? o meu convite ao corpo discente, docente e funcionrios da instituio, que pode aproveitar o mote para discutir as condies que tornaram possvel a instalao da empresa no campus e impediram os seus frequentadores de perceber o absurdo, to enorme quanto a nudez do rei. A essa futura corrente j aderiu o poeta Paulo Vieira, tambm engenheiro orestal, que enviou esta mensagem ao blog:

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7 Eu, engenheiro orestal que sou, formado pela Ufra, leio sua notcia com vergonha, mas no com espanto! Falta agora uma lojinha da Monsanto l, e um telo dentro do R.U [Restau rante Universitrio ]. para acompanhar o preo da arroba de gado! uma pena, mas essa a cara da Universidade de Cincias Agrrias que sempre tivemos (e no pensem que numa ESALQ da vida seja diferente!) E, caro Jos Silva, preciso inform-lo que engenheiros orestais nunca (ou raramente) manuseiam motosserras, porque no sabem, no vo aprender, e no se ensina isso no curso. Os engenheiros se servem do trabalho de nativos assalariados ou diaristas, que, esses sim, aprendem a utilizar a fera, e tantas vezes tm suas colunas vertebrais quebradas em acidentes na explorao ilegal de madeira (basta visitar grandes hospitais, e fazer um levantamento sobre os casos graves de traumatismo vindos do interior do estado) Quanto ao Manejo Florestal Sustentvel, aquele de baixo impacto, na prtica quase no existe na Amaznia, um caso aqui e outro acol A devastadora maioria da explorao ilegal, mas, seguramente, feita com Stihl, para um bom corte, a Ufra garante!A Sudam foi criada em outubro de 1966 (cobri o ato como reprter de A Provncia do Par) para substituir a SPVEA. A Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia fora criada pelo texto constitucional de 1946, mas s se materializou sete anos depois. Como sua prpria denominao indicava, devia valorizar a regio, principalmente atravs da tcnica e da cincia, para que se soubesse o que de melhor ela podia oferecer economia. Para realizar essa tarefa, a SPVEA contaria com 3% da receita oramentria da Unio, o suciente para iniciar uma experincia nova no Brasil: o planejamento regional. Nunca o governo federal cumpriu essa exigncia da constituio. E a SP VEA se perdeu no desvirtuamento da sua misso por siologismo, clientelismo e outros vrus que costumam atacar a tecnoburocracia estatal. A diretriz da Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia, depois de quase trs anos de regime militar autoritrio, era outra: devia propiciar logo o uso econmico da fronteira, sem se preocupar muito em associ-la ao saber universal. Da que a atividade preferencial foi a pecuria de corte. Para o gado se estabelecer, devia-se por abaixo a oresta. E para enfrentar rvores gigantescas que atrapalhavam a formao de pastos, mquinas pesadas, utilizadas em tcnicas como o cor rento. Dois tratores, unidos por forte corrente de ferro, iam arrastando as rvores, enormes, mas de razes frgeis, superciais. Delas, em minutos, restava o barulho a ecoar surdamente na (in) conscincia de quem destrua o bem mais nobre da Amaznia e de quem disso nada sabia ou no queria saber. Pouco mais de quatro anos depois que a Sudam comeou a jogar dinheiro pblico nessa fogueira do caos, com a mais generosa forma de induo (e substituio) do capital privado, os incentivos scais, o maior projeto econmico at ento instalado na Amaznia decidia reformular-se. Era a Jari Florestal e Agropecuria, do lendrio milionrio americano Daniel Keith Ludwig, que se instalara no vale do rio Jari (no Par e no Amap) em 1967, tornando-se dono de um latifndio (que ele imaginava como tendo 3,6 milhes de hectares) na foz do maior rio do mundo, o Amazonas. Em junho de 197o, a Jari se refor mulou por inteiro. Anlises de laboratrio que realizou comprovaram que a derrubada da oresta atravs de equipamento pesado causava prejuzos ecolgicos a que muito atentamos. Essas decincias no campo ecolgico exigiram da empresa nova adequao s condies ambientais da rea, provocando atrasos no cronograma fsico-nanceiro estabelecido, mas com a vantagem relativa para o fator abundante na regio: a mo-de-obra. A adequao comunicada Sudam pela Jari consistia na troca da derrubada por operao mista mecanizada-manual, que a levava a suspender a importao de tratores pesados e substitu-los por trabalho braal, com o respectivo instrumental. O desmatamento j estava sendo feito por grupo-tarefa, constitudo por grandes sees de braais, apoiados por grupos portadores de serras manuais, e estes por um ou dois tratores, conforme o efetivo e a congurao da oresta na rea de trabalho. Os resultados foram considerados compensadores. O diretor-executivo da empresa, Robert Ortner, garantia Sudam por ofcio que a Jari fugiria rotina dos projetos pecurios, os maiores beneciados at ento pelos investimentos estatais, por que visaria o mximo aproveitamento da madeira comercializvel em serrarias experimentais, o que equivale repelir a queimada indiscriminvel, pela utilizao de serras manuais. Mas para introduzir essa benca inovao, a Jari reivindicava da Sudam a liberao pela prpria empresa admitida em carter excepcional e transitrio do pagamento dos direitos aduaneiros na importao de motosserras portteis, com suas peas, espalhador de fertilizantes e equipamentos de puricao de gua e de alimentao de serraria, que considerou imprescindveis perfeita continuao dos trabalhos de implantao do Projeto Gmelina, a rvore importada da sia para substituir as fontes convencionais de celulose, o pinho e o eucalipto. A companhia pretendia importar 800 motosserras (se tornaria a maior compradora de motosserras Stihl da Amrica do Sul), com suas peas e equipamentos complementares, que resultariam na aplicao de 132 mil dlares (valor da poca). S as isenes que a Sudam concederia representavam quatro vezes o que a Jari gastaria com importaes normais. Seria o primeiro de uma srie de expedientes semelhantes que se incorporariam ao seu currculo. Por causa dessa mudana tcnica, a Jari comunicava que contrataria, atravs de oito empresas empreiteiras de desbravamento (que se utilizavam de gatos para recrutar pees), 2.500 trabalhadores. Comearia um dos mais negros captulos da histria do Jari e da Amaznia, que levaria maior destruio de oresta da histria da humanidade, no perodo de apenas meio sculo, e de explorao humana. Captulo que ainda surpreende muita gente desinformada, omissa, insensvel ou indiferente sua prpria terra.

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8 Teses de jornalista revisam a histriaO jornalista paraense Srgio Buarque de Gusmo lanou em So Paulo, onde mora h 45 anos, Nova Historia da Cabanagem seis teses revisam a insurreio que incendiou o Gro-Par em 1835, em edio (com 374 pginas) por ele mesmo assumida. um livro que pode provocar debates fecundos entre os paraenses e as pessoas que acompanham essa que foi a maior revolta do imprio e das maiores da histria brasileira. Como convite leitura do livro, reproduzo um texto escrito por Jos Carlos Ruy, em seguida, o meu, que serviu de prefcio ao livro, e o do autor. Espero que renovem a discusso sobre o tema. A Cabanagem levante popular que conagrou o Gro-Par na segunda metade da dcada de 1830 um episdio da histria da luta popular no Brasil envolvido em inmeros mitos. E que so agora enfrentados em Nova Historia da Cabanagem seis teses revisam a insurreio que incendiou o Gro-Par em 1835, de autoria do jornalista e historiador Srgio Buarque de Gusmo. O livro, que acaba de ser lanado, examina em profundidade a bibliograa existente (que j farta, embora repetitiva) sobre a Cabanagem, e compara suas informaes com documentos existentes nos arquivos pblicos do Par. A larga experincia jornalstica do autor visvel na linguagem clara e direta que o livro revela. No h exerccios retricos ou metodolgicos mas a inteno de comunicar aos leitores as ideias nele discutidas, sem qualquer articialismo. E sem deixar de lado o necessrio rigor cientco que uma empreitada dessa natureza exige. Esse rigor que une as atividades do historiador e do jornalista o rme e constante respeito ao fato acontecido no presente ou no passado longnquo mas documentados da forma mais precisa possvel. Convm ponderar que Histria (e Jornalismo, o ofcio do autor) dependem do fato, diz Srgio na Nota do autor que abre o livro. A interpretao essencial para dar sentido contextualizado ao fato, expresso que d visibilidade ao acontecimento. Mas ela, insiste, ainda que oxigenada por teorias e mtodos mais elucidativos, escrava do fato. Com base nesse rigor factual, ele desmonta inmeros mitos e interpretaes subjetivas daquele acontecimento histrico central no apenas para a histria da Amaznia mas sobretudo brasileira dadas as contradies que enfrentou h quase dois sculos. Um desses mitos diz respeito ao nmero de mortos repetido exausto pela historiograa, que fala em 30.000 a 40.000. A rebelio, e a represso contra ela, foram sanguinrias e cruis, no pode haver dvida. Mas o exame da documentao e da bibliograa, a soma das perdas em batalhas e confrontos, no autoriza aquele nmero que, assegura Srgio, fruto de exer ccio da arte divinatria. H ainda a considerao do carter daquela luta. Motim, revolta, revoluo, levante estas foram algumas das maneiras tradicionalmente usadas para denir a Cabanagem. Muitos disseram que houve desorientao entre os cabanos, que no teriam um programa. Tiveram; foi o das lideranas, executado a ferro e fogo, diz ele. Srgio Buarque de Gusmo mostra que o programa da insurreio popular que envolveu desde grandes fazendeiros at ndios, negros e o povo pobre pode ser denido como democrtico (era contra o despotismo vigente) e de libertao nacional (defendia a independncia, contra o domnio portugus, e rejeitou inuncias estrangeiras). A histria da luta popular, democrtica e nacional no Brasil precisa estar baseada nos fatos para que as interpretaes que inspiram tenha efetividade nos enfrentamentos cotidianos do presente. Esta talvez seja a grande lio que Srgio Buarque extrai dos acontecimentos ocorridos no Gro Par. A amplitude daquela luta foi extensa vai desde os enfrentamentos pela Independncia, em 1822-1823, at a derrota nal e sangrenta da Cabanagem, no nal da dcada de 1840. E foi uma luta cujo programa no pode car preso aos sonhos e fantasias de seus intrpretes atuais por mais bem intencionados que sejam. A verdade revolucionria este um trusmo muito repetido. E. quando se conta a histria, a verdade precisa estar amparada rigorosamente nos fatos. Apenas sendo assim que a atividade de contar a histria faz com que a histria que realmente acontece entre os homens caminhe para frente.

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9 Srgio Roberto Buarque de Gusmo pertence a uma gerao de jor nalistas que j ultrapassaram a mar ca dos 60 anos, ainda com energia e sem perder a dignidade jamais (nem ainda bem o humor). Buarque, como alguns outros da turma, fez com brilho duas transies decisivas: da provinciana Belm do Par para a metropolitana So Paulo; e de um jornalismo em sentido muito restrito para uma forma de jornalismo que, sendo sempre jornalismo, foi muito alm dos parmetros sob os quais essa gerao se iniciou na prosso. O adjetivo acompanhante desse tipo de jornalismo varia, conforme quem o dene: jornalismo cultural, novo jornalismo, jornalismo investigativo, jornalismo cientco e outros mais e quetais. Acho que todos os que o praticam se satisfariam em cham-lo simplesmente de jornalismo. Conscientes, porm, de que fazer jornalismo no simples nem fcil, embora parea exatamente isso. Talvez porque o jeito e engenho de faz-lo possui um forte componente de vocao, de amor e de paixo. No deixa de ser paradoxal que o envolvimento desses elementos subjetivos no contamine e muito menos prejudique a objetividade, o trofu maior perseguido pelos que praticam esse gnero de atividade, quando e se ela realmente um exerccio intelectual. Buarque e gerao recebem como man as declaraes dos que os consideram operrios das letras, sem a comiserao potica do coleguinha Vincius de Moraes. O texto sai azeitado pela paixo, o amor, a vocao. Todos esses sentimentos, contudo, recebem a voz unio da objetividade. Nem Buarque nem seus companheiros de viagem perdem tempo com elucubraes aristotlicas sobre a expresso. Resolve-se o problema como Gringo com seu revlver mgico: objetividade fato; fato a ossatura dos acontecimentos humanos, a pauta de um jornalista, demasiadamente humanos, demasiadamente complexos. Podemos nos tornar brilhantes em devaneios loscos margem da tessitura dos fatos, em narrativas sutis e descries primorosas. Mas isso o glac do que interessa: a espinha factual (e dorsal). Elementar, no? No. Quantas vezes esse jornalista descobre, ao nal de uma viagem como enviado especial da publicao que o emprega, ao arrumar as anotaes feitas, que lhe faltou um fato vital. Nem sempre um nmero, uma declarao. Pode ser um detalhe. Mas o gigante no se conhece pelo dedo e tudo morre pela falta do detalhe? A longa matria est maravilhosa, mas no fecha. Ou melhor: pode ser fechada, mas no tapa. Pode agradar a todos os leitores, menos ao jornalista que a escreveu e mesmo assim esse texto pode lhe dar a glria exterior; no a sua, interna, ntima. Ao vencedor, as batatas. Monitorar os fatos relevantes, os que a imprensa tem que divulgar no dia a dia (no depois, quando der, porque a opinio pblica tem que alimentar a sua agenda para poder fazer histria no cotidiano), e seguir-lhe as pistas como um detetive incansvel e fatal, implacvel e certeiro. Sabe-se muito bem que essa arte resulta de muitos anos de um trabalho constante e cumulativo. Digo tudo isto porque inegavelmente estamos diante de um livro de jornalismo escrito por jornalista. Mas que livro! E digo isto incorporando o preconceito acadmico: no pode haver um grande livro escrito por jor nalista. Jornalismo impressionismo, empirismo, achismo. No cincia. No merece ser referido por verdadeiros cientistas. Tem que ser expurgado das bibliograas acadmicas. De fato, quando jornalistas como Buarque comearam, as redaes eram dominadas por um tipo de prossional, frequentemente brilhante e sedutor, que aplicava todas as suas faculdades na criao de textos de impacto, com estilo, em linguagem uente, fosforescente, at antolgicos, inesquecveis. Os fatos, os dados e as informaes eram rigorosamente detalhes. Havia renncia tcita exatido e delidade se elas prejudicavam a composio da histria, vendida ao pblico com embrulho de luxo. O jornalismo ainda era literrio. Como literatura, conquistava momentos sublimes. Como jornalismo, nem tanto. So lindos na cercadura de um jornal arquivado em qualquer centro de memria, a poeira do tempo. O rigor desses jornalistas que agora gravitam pelos 60 anos consistiu em se apropriar de mtodos (ou cri-los) que lhes permitiam chegar aos fatos. Nada de mais ou menos ou aproximadamente: a exatido, o fato descarnado. Depois, quem sabe, conforme as aptides e competncias individuais, o glac era magnco. Jornalismo passou a ser fonte de consulta e jornalistas, um nmero crescente dos quais chegou s universidades, passaram a escrever livros como este. Com ele, Srgio Buarque acerta as contas com a esnge da Cabanagem, um tema que h dcadas est engasgado na garganta da compreenso de geraes de amaznicas e, felizmente, nos ltimos tempos, com os brasileiros. Meticuloso, paciente e amoroso como sempre, Buarque sonda os fatos, penetra at o mais ntimo das verdades estabelecidas para submet-las ao questionamento maiutico. Sua dialtica no apenas para despojar as informaes da sua roupagem, muitas vezes mambembe, falsa, grandiloquente e oca. Ele checa o que j parecia insuscetvel a qualquer dvida e nessa vericao nos aponta o erro consolidado, o mito e, de acor do com seu entendimento, a novidade resultante de uma nova forma de ver e abordar. enganosa a forma que adotou para se expressar sobre esse incrvel acontecimento histrico do Gro-Par, a ltima e maior parcela do territrio nacional a aderir a este enigmtico Brasil. Buarque formulou teses. Mesmo que essa escolha implique certas repeties na narrativa, ela honesta e correta. Ao nal de uma exaustiva pesquisa em todas as fontes disponveis, o grande mrito do autor deste livro enquadrar suas concluses na formulao de teses. No teses arbitrrias e soltas, mas sedimentadas em documentos de poca e nas reconstrues e inter pretaes feitas depois do fato. Srgio Buarque de Gusmo rasga o manto difano das fantasias em torno da Cabanagem e reenquadra a sute da histria com seus slidos enunciados interpretativos. Um trabalho meticuloso, rduo e rigoroso expurga a craca incrustada em livros e mais livros que se foram acumulando na bibliograa cabana, uns repetindo os outros em seus acertos e erros (estes, nmerosos e graves). Como bom reprter, Buar que foi checar cada armativa e, uma vez desfeitos os mitos, retornou tradio com as prolas recuperadas atravs do seu mergulho nos documentos, submetidos a testes de consistncia, dvida seminal. A Cabanagem no teve um idelogo nem realmente um programa de

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10 governo. Nenhum dos seus heris foi indispensvel. No h, alis, um cavaleiro sem jaa e sem mcula. A luta poltica rasteira. Quanto menos ideias a amparam, mais violenta ela se torna tanto nos atos quanto nas palavras. Mas ser que realmente os nmeros de mortos, de 30 mil a 40 mil, representando quase 30% da populao do Gro-Par, merecem f? Ou a contagem foi inacionada pelo ardor da patriotada regional? E quem, num momento, podia ser visto como revolucionrio, republicano ou antiescravocrata, visto em outra situao contradiz essas denies. O que podia ser grandeza vira coisa rasteira. Buarque refez a base sobre a qual a partir de agora devem continuar os esforos para reconstituir, entender e interpretar a Cabanagem. Seu livro provocativo e arguto no pode ser ignorado pelos que vierem a seguir, interessados no tema. Ainda faltam argumentos e provas para muitas perguntas e diversas suposies. Mas, ao contrrio do que facilmente se proclama, o que no faltam so documentos. O que falta mesmo disposio e mtodo para enfrent-los, como Buarque fez, limitado por um empreendimento individual de puro devotamento intelectual. bem sugestivo que a melhor denio sobre a Cabanagem tenha sido dada por um historiador alemo que nunca veio ao Brasil. Heinrich Handelmann cometeu muitos erros factuais no seu trabalho, que Buarque aponta, por seu mtodo indireto, mas acertou em cheio na intuio prossional: foi a revolta dos que no tm contra os que tm. Uma autntica luta entre opostos de classe, de raa e de condio humana. Quando cessaram as muitas diferenas pessoais, polticas e, com mais raridade, ideolgicas, o que sobrou da Cabanagem foi o dio acumulado e a desesperana dos que sempre foram explorados por aqueles que sempre os exploraram. J sem lderes, heris ou personagens diferenciadas, o que se seguiu foi brutalidade, selvageria, sangue e um grito de indignao e fria. Foi quando o morticnio se tornou maior e muitos morreram, s centenas, no brigue-presdio, nos hospitais, no meio da rua e perdidos pela selva. A pacificao foi pior do que na represso aos insurgentes. Foi assim e continua a ser assim at hoje nas relaes desequilibradas entre a Amaznia dominada e o Brasil (e mais alm) que a domina. Por isso, a Cabanagem continua a ser um episdio marginal e secundrio na historiografia nacional, muito falada e pouco compreendida, como a prpria Amaznia dos nossos dias.Srgio Buarque de Gusmo pertence a uma gerao de que a Cabanagem foi sequestrada. Nos estudos que fez no Par, nem no Ginsio Industrial Oliveira Brito, em Capanema, nem no curso Clssico do Colgio Estadual Paes de Carvalho, ouviu falar da grande insur reio regional da dcada de 1830. A cabanagem fora varrida da Histria. Havia em Belm uma praa em homenagem a um precursor da Cabanagem, o advogado Filipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, personagem principal nos acontecimentos em torno da independncia do Brasil (que se desligou do Par bem antes da ecloso da revolta, em 1835), mas no havia um s logradouro ou monumento pblico a lembrar os cabanos ao contrrio, s existia, como ainda existe, a Rua Treze de Maio, a celebrar a data do desembarque do general que esmagou a insurreio, Francisco de Andreia, tambm homenageado com um monumento no Largo de Santo Antnio. A exceo era um retrato de Eduardo Angelim pendurado desde 1936 no Instituto Histrico e Geogrco. Ainda circulava um livreto escolar de Dionsio Joo Hage, Histria do Par (Editora do Brasil, 1962), para o ter ceiro ano primrio, baseado em obras fora de circulao, como as de Jorge Hurley. O jornalista Carlos Roque, que iria ser o reanimador do interesse pela Cabanagem, comeando a reabilit-la em 1967 na sua Enciclopdia da Amaznia. A obra-catedral, os Motins Polticos de Domingos Antnio Raiol, baro de Guajar, publicada em cinco volumes entre 1865 e 1890, s seria reeditada em 1970 (em trs volumes mal ordenados), para continuar a ser, como ainda o melhor trabalho sobre a insurreio. Desde a reedio dos Motins, uma estante de livros tratou da insurreio do Par. Embora a maioria dos autores beba na caudalosa fonte de Raiol, escrevem com a tinta da ingratido. Fazem reparos ideolgicos obra do baro conservador e crtico severo da insurreio. Posto em ponta ideolgica inversa, tais reparos desqualicariam as obras que canonizam os cabanos com a agravante metodolgica de que usam o material coletado por Raiol. A artimanha j foi identicada por Lcio Flvio Pinto, um dos maiores conhecedores do assunto, a quem o autor deve as primeiras menes judiciosas da Cabanagem, e no lugar mais apropriado: o Arquivo Pblico da Rua Campos Sales onde ele e Lenil, sua mulher, pesquisavam a insurreio. Anos depois, insatisfeito com a bibliograa, Lcio apontou o sociologismo reducionista dessas obras, que aige tambm a geograa, bitolada pela geopoltica de claro vis ideolgico, que tudo explica com pouca demonstrao factual e grande vazio informativo, diz ele, acrescentando: Simpticos e altissonantes, sensveis participao dos humilhados e ofendidos, mas sem a densidade da obra mxima do baro. 1 historicidade do historiador no se pode cobrar iseno, tampouco a omisso de seus pontos de vista. Mas o leitor tem o direito de recusar a substituio do fato pela interpretao e, no caso da Cabanagem, distoro de episdios de que a nica e sumria fonte Raiol. Em Cabanagem A Revoluo Popular da Amaznia (Cejup, 1986), parte o esforo de atualizao metodolgica, Pasquale Di Paulo usa exaustivamente o material de Raiol, muitas vezes, como tem sido regra, sem cit-lo ao longo de pginas, como se a pesquisa fosse sua. Embora reconhecendo em rodap o imenso valor da historiogrca de Raiol, acusa-o

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11 de leviandade e distores a que seu livro no est imune em numerosas tessituras ccionais derivadas de um erro fatal: dissociar os acontecimentos de uma poca, trazendo-as para a contemporaneidade sem a relativizao devida ao passar do tempo. A co chegou ao auge em Dcio Freitas com A Miservel Revoluo das Classes Infames (Record, 2005) em que o historiador gacho simplesmente inventou uma personagem, o revolucionrio francs Jean-Jacques Berthier, transplantando-o do exlio na Guiana ao Gro-Par, para testemunhar a Cabanagem e escrever cartas imaginrias exclusivas para o livro de Freitas. Ao contrrio dos fabuladores, Raiol teve a ventura dos sonhos de um historiador: como Herdoto, o Pai da Histria, que inaugurou a prtica, entrevistou protagonistas dos acontecimentos que narrava: Eduardo Angelim, Francisco Vinagre, Sousa Franco e numerosas testemunhas oculares arroladas nos Motins Polticos. O importante na obra deste grande historiador do Imprio no a interpretao preconcebida, mas a reconstituio dos episdios a par da opulenta documentao que reuniu e legou posteridade como ata do fato histrico. A memria da Cabanagem uma ddiva de Raiol. Alm de perscrutar a bibliograa disponvel, o autor obteve documentos na Biblioteca e no Arquivo nacionais e no Servio de Documentao da Marinha, no Rio de Janeiro, no Centro de Documentao e Informao da Cmara dos Deputados e no Projeto Resgate, que rene na internet documentao do Brasil colonial e imperial. No Arquivo Pblico do Estado do Par pde cotejar com as cpias ali guardadas transcries de documentos ociais j publicadas em livros, sobretudo nos de Domingos Raiol, Palma Muniz e Jorge Hurley. Algumas fontes histricas aqui citadas no so inditas, mas a releitura desvendou novidades, iluminou dados, seno episdios fartamente reproduzidos, cuja importncia, e sobretudo conexes no processo histrico, no foram percebidas pelos que os transcreveram primeiro. Os documentos encerram mistrios. Nem sempre se esgotam, isto no se mostram inteiramente, na primeira visada ou inter pretao; ao contrrio, repousam na poeira dos arquivos ou no amarelecimento dos microlmes espera do cotejo de quem os rel e estuda com novas ferramentas de entendimentos e conhecimentos indisponveis na poca em que foram gerados. O que um analista obscurece, outro clareia. Onde dois viram uma ninharia, um terceiro enxerga um tesouro. O que foi reduzido a pouco em uma leitura isolada agiganta-se no entrelao do conjunto. O reexame de uma transcrio parcial e seletiva pode desfazer uma interveno na narrativa dos acontecimentos, em geral feita para melhor sustentao de uma tese ou suporte interpretao. Se a Histria uma cincia, distingue-se de outras, sobretudo das Exatas, em que o resultado da pesquisa, refeita por outro cientista em idnticas condies, deve ser rigorosamente exato ao original. Convm ponderar que Histria (como o Jornalismo, o ofcio do autor) depende do fato. A interpretao, ainda que oxigenada por teorias e mtodos mais elucidativos, escrava do fato. Da porque, tanto no Jornalismo como na Histria, o fato tem de ser autntico e robusto, para legitimar a interpretao e autorizar a concluso. A interpretao no se pode basear em elementos impertinentes, imaginados pelo historiador. Quem do ramo, como Roger Chartier, adverte: Numa poca em que nossa relao com o passado est ameaada pela forte tentao de criar histrias imaginadas ou imaginrias, fundamental e urgente a reexo sobre as condies que permitem sustentar um discurso histrico como representao e explicao adequadas da realidade que foi (A Histria ou a Leitura do Tempo Autntica, 2009). H de se conservar a ambivalncia indiciria do mtodo analtico, ou seja, um equilbrio entre fato e inter pretao. Por isso no se adota aqui o repdio velha historiograa nutrida de nomes, datas e episdios, embora, ao contrrio do muito que se diz, inter pretativa. Nem se cai no canto da sereia metodolgica dos que utilizam categorias baseadas na determinao com a obsesso de inserir qualquer sucesso histrico em um modo de produo ou interesse de classe. Tais consideraes ilustram as contestaes e reparos que as teses aqui apresentadas opem a fatos ou e/ou conjuntos de fatos inscritos na nar rativa da Cabanagem como verdades acabadas. Verica-se que interpretaes, ilaes, suposies lastrearam concluses sem fatos que as autorizassem. Outras foram baseadas em dados distorcidos e at falsicados. O prprio autor, em raro artigo sobre a Cabanagem, publicado na ligeireza da inter net, embarcou no trem fantasma das incorrees impenitentes.2 O rol de impropriedades repisadas e cristalizadas na narrativa da Cabanagem comea pelo nome, pois a designao cabanos no tem liao etimolgica moradia dos insurretos, e passa pela trajetria dos protagonistas: o cnego Batista Campos no foi idelogo da insurreio nem o tribuno popular que gura em seu panegrico, o renegado presidente Flix Clemente Malcher no foi um anticabano e seu sucessor Francisco Vinagre no foi um quadro heroico. Ao contrrio da fantasia construda como tradio, a Cabanagem teve sim um programa, o das lideranas, executado a ferro e fogo. J o nmero de mortos, esticado de 30.000 a 40.000 pessoas, puro exerccio de arte especulativa, ainda que praticada por tantos autores, alguns deles levados na conta de srios (uns raros sendo, de fato, srios, mas no perfeitos). A pesquisa documental e o cotejo de obras conduziram a resultados antagnicos ao que virou senso comum. Nessa trajetria, o sentido adotado de tese mais de anttese do que uma proposio terica preliminar. Ensaio talvez fosse mais apropriado, pois, se os seis pontos temticos abordados poderiam ser bordados em poucas pginas, estenderam-se em longa linha narrativa para costurar um manto historiogrco talhado em revises factuais. Para que cada tese-captulo tivesse autonomia relativa, muitos episdios foram mencionados e contextualizados mais de uma vez. A frmula permitiu ao autor recontar e reinterpretar processos importantes da insurreio, seus antecedentes e consequncias, para oferecer uma outra histria do que foi e do que no foi a insurreio que galvanizou o Gro-Par na dcada de 1830. So Paulo, 2014, ano do centenrio do estadista precoce Eduardo Angelim ________________1 Jornal Pessoal n. 523, 2 quinzena de ou tubro de 2012, p. 11. 2 Nos Desvos da Cabanagem disponvel em www.contracorrente.org/indice/nos-desvaos-da-cabanagem.html

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12 Quem visitava Belm em 1948 podia reconhecer seu antigo fausto, mas encontrava uma cidade suja, sem luz e sem abundncia de alimentao, constava o monsenhor Alberto Ramos, em artigo de jornal. O futuro arcebispo lamentava a decadncia da cidade e sua destruio, destacando o que estava ocorrendo com o local de nascimento da capital paraense, o forte do Castelo, que se transformara numa garagem. O bairro da Cidade Velha vai perdendo a sua sionomia tipicamente colonial com a edicao de bungalows moder nos nas mesmas ruas tortuosas e estreitas, apontava ele. Continuao da relao de 108 pessoas que compraram apartamentos no edifcio Palcio do Rdio, postos venda em 1952, um autntico quem quem das pessoas inuentes na poca: Fernando Gama de Miranda, Fernando Matos de Lima, Francisco Assis de Moraes, Francisco Lamartine Nogueira, Francisco de Paula Valente Pinheiro, Gabriel Dias, Gracinda Magno Camaro Santos, Gregrio Goldfarb, Hilrio Augusto Ferreira Filho, Her mnio Pessoa, Haroldo Daniel Goldgel do Vale, Ibrantina Salgado de Oliveira, Jacy Tavares da Costa, Jacob Sab, Janette Benzecry, Jaime Augusto Fer reira, Joo Batista Cordeiro de Azevedo, Joo Paulo do Vale Mendes, Joo Mousinho Coelho, Jos Brulio dos Santos, Jos Ciraco Gurjo Sampaio, Jos Maria Soares de Arajo. E mais: Jos Castanheira Iglsias, Jos da Costa Homem Guimares, Jos Paulo de Oliveira, Jos de Matos Lima, Joaquim Nunes Alves, Jorge Jos Chamma, Jorge R. Jaudy, Jorge Teixeira Soares, Judah Levy, Judith Amaral Martins, Laurnio Teixeira da Costa, Lenidas Sodr de Castro, Lorne Cairo de Oliveira Menescal, Lindo Jos Chamma, Maria do Car mo Sarmento Carvalho, Maria Lcia Martins Pandolfo, Mrio Gouveia Santiago, Manoel Jos Mathias, Manoel Victor Constante Portela. Ainda havia muitos r gos da imprensa cotidiana em Belm quando foi escolhida a nova rainha, em 1965, em promoo do colunista social Wilkens, da Folha Vespertina. A escolhida foi Selma Braga, da Rdio Clube, a popularssima PRC-5, da famlia Proena, Edgar e Edyr frente. A nova rainha recebeu das mos da primeira dama do Estado, Ruth, esposa do coronel Jar bas Passarinho, a faixa e, como brinde, uma pulseira de ouro e pedras preciosas, oferta das Joias Laura, alm de uma passagem area Belm-Rio-Belm, da Rdio Clube. Pela Rdio Difusa e O Liberal (que ainda no era de Romulo Maiorana), a representante foi Maria Lcia Pantoja Coelho. As outras concorrentes foram Elcy Lopes de Macedo (Flash, de Ivan Maranho), Ana Mathilde Kawhage (Jornal do Dia, de Armando e Oziel Carneiro), Ana Maria Silva (O Imparcial e Folha Vespertina, da famlia Maranho), Gilda Mutran (Dirios e Emissoras Associados). Lila Kabaznick (Rdio Guajar, de Conceio e Lopo de Castro) e Tnia Mara Botelho (Folha do Norte, de Paulo Maranho). Em setembro de 1965 a caa s bruxas (subversivos e corruptos) pelo regime militar ainda estava bem ativa, apesar de j terem transcorrido, mas o tenente-coronel Car valho chegava a Belm como o encarregado de instaurar em todo territrio nacional inqurito geral referente cor rupo no pas, envolvendo principalmente os comunistas e elementos afastados dos car gos que ocupavam quando da implantao da revoluo vitoriosa de Maro de 1964. O ocial instruiu todos os integrantes do aparato de segurana do Estado para prenderem e apresentarem 2 seo do Exrcito (o seu servio secreto), colocando-os sua disposio, todos os elementos que guraram em inquritos referentes ao comunismo e corrupo na capital paraense., segundo o registro da Folha do Norte. O jornal acrescentou que j haviam sido apresentados 2 seo, no quartel da 8 Regio Militar, Ronaldo Barata, Serco de Carvalho, Serro Sobrinho, Newton Soares, Paulo de Tarso e Clo Bernardo, dentre outros. O jornal da famlia Maranho, que apoiou incondicionalmente o golpe militar, observou que o caso de Sandoval de Queiroz Barbosa (que era do temido e perseguido sindicato do petrleo) era diferente de todos os outros. E explicou a razo: Noticado pelo titular da Ordem Poltica, insurgiu-se contra o investigador, que foi at sua residncia, insultando -o, estendendo seus insultos ao Governador do Estado [Jarbas Passarinho] e demais autoridades constitudas, inclusive o Secretrio de Segurana Pblica. Alegou que seu irmo Josu Queiroz Barbosa era investigador da Polcia contra sua vontade, e como todos os policiais era um energmeno, um pria. O fato foi comunicado ao delegado Eymar Pantoja [do tristemente famoso DOPS], que ontem pela manh cedo mandou buscar Sandoval, preso. Como que adivinhando a situao, o comunista apresentou-se S. de Segurana, sendo encaminhado ao Quar tel General.Lenha urbanaNingum sonhava com ecologia em 1952, quando a Estncia de Lenha Monte Alegre, instalada na rua do Arsenal, na Cidade Velha, garantia aos seus clientes o fornecimento de lenha especial em qualquer quantidade e aos melhores preos, entregando-a no endereo do fregus. Talvez em lobo de burro

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13 Devido ao adiantado da hora, somente amanh ser ouvido em depoimento, encontrando-se na 5 Companhia de Guardas do Exrcito [onde est a Casa das 11 Janelas, ao lado do Forte do Castelo]. Logo que seja liberado do Exrcito ser apresentado polcia e encaminhado ao cofre [a terrvel cela solitria] do Ptio da Central [ao lado do hospital da Ordem Terceira e do Colgio Santo Antonio]. A Folha ainda acrescentou que, apesar do sigilo mantido pelas autoridades militares e policiais, podemos informar que foram efetuadas j diversas prises, independentes de apresentaes feitas pelas autoridades policiais. Reconhecia desconhecer o nome dos elementos que se encontram presos na 5 Cia. de Guardas. Foi do arromba a festa que o colunista social Pierre Beltrand promoveu na sede da Assembleia Paraense para anunciar a miss Belm de 1965. A comear pelo show, com Elis Regina, Jair Rodrigues e o Zimbo Trio, que estouraram no mercado com o pout-pourri, uma coletnea de msicas encadeadas para apresentao de uma vez. Depois, Iza Neide Moreira transferiu a faixa simblica sua sucessora, Gilda Mutran. Talento para mltiplas habilidades no faltava a Amassi Palmeira. Foi criao dela o traje com que Virgnia Maria Hasselman casou com Harold Sadala, em 1965. E a maquilagem que ensinou s funcionrias do Banco Moreira Gomes, onde trabalhavam beldades como Vnia Glaucilene (miss Par naquele ano), Iolita Meireles, Solange Borges e Terezinha Pessoa, dentre outras. Quem no viu com seus prprios olhos no pode imaginar o que foi a colonizao feita pelo governo na Transamaznica. No nal de 1972, Boeings da Vasp (empresa de aviao do governo de So Paulo, ento sob Laudo Natel) zeram quatro viagens trazendo 330 moradores do interior do Estado para serem assentados em Altamira. Foram 170 adultos, 121 menores e 42 crianas de colo, retiradas bruscamente de suas terras para tentarem a vida num ambiente desconhecido e que seria hostil. Mas transportadas num moderno avio a jato. No podia dar certo. O monstro de ferroPouco menos de meio sculo atrs, esta era a mquina qual hoje corresponde o computador. Em 1968, alunas do Instituto de Educao do Par, o famoso IEP, viram como era o trabalho de um operador de linotipo, a mquina de composio de textos de jornal, na oficina de A Provncia do Par, na rua Campos Sales, no centro antigo de Belm. Era uma pesada estrutura de ferro da qual saia, depois de fundidas, matrizes de letras e sinais que iriam ser impressas na folha de papel. Algo da era dos dinossauros para os jovens de hoje.Um Chile morreu 43 anos atrsAcompanhei os ltimos dias de Salvador Allende no Chile. Para no ser deposto e preso pelos golpistas de 13 de setembro de 1973, comandados por um dos chefes militares que ele considerava ao seu lado, o general Augusto Pinochet, Allende provavelmente se suicidou no palcio La Moneda, que j pegava fogo e ia ser invadido pelos agressores. Digo provavelmente porque ainda perduraram dvidas a respeito dessa verso, considerada geralmente como a verdadeira. O ceticismo diz muito sobre a violncia extrema empregada pelos que depuseram o presidente constitucional do Chile, eleito legitimamente pelo povo, que era cioso da sua longa (e excepcional) tradicional de apego democracia num continente submetido aos pronun ciamientos O golpe chileno, porm, foi o mais violento de quantos irromperam nesse perodo, instalando ditaduras militares na Amrica do Sul, como na Argentina e no Brasil. As milhares de execues sumrias foram a medida adotada pelos tiranos para apagar a existncia da Unidade Popular, a coligao que, nalmente, deu a vitria eleitoral a um socialista. Pela primeira vez um poltico declaradamente marxista, com um programa de transio ao socialismo, chegou ao poder, depois de mais de 40 anos de carreira poltica. Lembrando o que vivi, testemunhei e de certo modo fiz no Chile (aonde nunca mais retornei), o que mais forte vem minha memria como, num passe de mgica de horror, um mundo desaparece de sbito por um ato de fora absoluta de um grupo de seres humanos. No perodo de algumas semanas, quem era presidente, ministro, dirigente de estatal, parlamentar ou qualquer outro homem pblico vinculado ao mdico e ex-senador Salvador Gossen Allende desapareceu. Muitos, alm de mortos, com destinos at hoje desconhecidos. Mortos insepultos. Quantas famlias at hoje no enter raram os seus mortos nem tiveram o direito vital de saber o que aconteceu com eles? Tornaram-se fantasmas pessoas com quem conversei durante a minha estada no Chile, incluindo o prprio Allende. Ele era um homem cordial e cavalheiro, mas que empunhou sua metralhadora (doao de Fidel Castro) para defender o palcio do governo, o seu mandato e a sua vida. Como ele, muitos outros foram despejados da vida por ato de imposio arbitrria de terceiros, pelo mais extravagante abuso de poder, por uma manobra unilateral de guerra civil no exatamente guerra, porque as possibilidades de reao eram dbeis: pura matana. Quem viu o que aconteceu no Chile no dia 13 de setembrode 1973 jamais esquecer o que viu ou soube. E bom que nunca esquea.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Lula: um monumento poltico que desabouAinda bem que Luiz Incio Lula da Silva decidiu responder de improviso, no dia 15, denncia que o Ministrio Pblico Federal do Paran zera contra ele, na vspera, acusando-o de ser o comandante mximo do esquema de corrupo na Petrobrs, investigado pela fora-tarefa da Operao Lava-Jato. Certamente ele pensou muito no que ia dizer. Tambm deve ter ouvido conselhos, ponderaes e orientaes dos seus advogados, amigos e correligionrios. Deve ter levado tudo isso em considerao. Mas na hora de falar, preferiu ser Lula mesmo. No se revelou por inteiro, como nas conversas grampeadas pela Lava-Jato com autorizao judicial. Mas se expressou como nos velhos tempos de dirigente sindical, poltico e presidente consagrado durante os seus oito anos de mandato. Com isso, foi o mximo de aproximao possvel nas circunstncias da linguagem de improprios, palavres e arrogncia usada nos contatos telefnicos supostamente privados que manteve com inter locutores, em especial com a ento presidente Dilma Rousse. A extenso do pronunciamento tambm o ajudou (e, mais do que a ele, ajudou aos que o observavam distncia e com senso crtico) a perder o domnio das palavras e de si mesmo, indo muito alm do que pensava ou era do seu interesse. O discurso foi bem ao estilo de Lula: emotivo, apelativo, manipulador e de empolgar pelo carisma do orador. Mas foi gasto com uma plateia restrita, principalmente de militantes e de integrantes do diretrio nacional do PT, que se reuniu dentro e fora de um hotel em So Paulo, para testemunhar a defesa pessoal do ex-presidente da repblica sobre o pedido do seu indiciamento criminal pelo MPF. Lula continua gil, sagaz e ladino, mas o seu pblico encolheu. J encolheu no cenrio paulista, mas essa reduo certamente tem amplitude nacional, do que d prova seu elevado ndice de rejeio, em 46% na ltima pesquisa. Isso logo ser vericado quando forem apurados os votos das eleies municipais, no prximo ms. O PT encolheu em candidaturas e poder diminuir bastante em sua expresso poltica. Lula, seu guia e estrela, j est em fase de declnio no s em relao ao seu pblico como inter namente, do que d prova seu sbito e drstico envelhecimento e praticamente seu desaparecimento (junto com Dilma) dos programas petistas no rdio e na televiso. Ele j no o dono do Brasil, que empolgava e manobrava como raros (talvez nenhum?) antes dele. Lula deixou a presidncia da repblica e passou o cargo sua ilustre sucessora, at ento inexistente eleitoralmente, com o maior ndice de popularidade alcanado por um presidente da repblica no encer ramento do seu mandato. Parecia que ele tinha sido tambm um dos maiores chefes do poder executivo federal em todos os tempos, maior do que Getlio Vargas e Juscelino Kubitschek, s menor do que Jesus Cristo no Brasil, conforme apostrofou (e caiu em apostasia involuntria) no seu discurso de palanque (embora sufocado por papagaios de pitada dos lados e ao fundo, a ponto de ter dado uma cotovelada no peito do senador Paulo Rocha, que estava perto demais do grande lder). De menino pobre, que no tinha um prato de feijo sua mesa quando criana, ele chegou a presidente da repblica. J teria bastado para introduzir a sua biograa no panteo nacional, com destaque singular por uma carreira nica na vida pblica brasileira. Hoje, como sempre, ele no cou espera de ser consagrado por terceiros: delegouse o direito de se avaliar e aprovar com louvor. Governo de verdade aquele que diz que pobre tem direito a andar de avio, de ser mdico e at procurador, proclamou. Em grande parte dos seus dois mandatos seu brilho ofuscou a opinio pblica, hipnotizou a maioria do povo brasileiro e deu-lhe a grandeza de um mito. Por isso deixou o Palcio do Planalto, na transio de 2010 para 2011, coberto de glrias. Mas com o propsito de voltar ao poder o mais breve possvel, de preferncia dentro de quatro anos. Esse projeto comeou a no dar certo quando sua sucessora se apegou ao cargo e decidiu unilateralmente ser candidata de novo. O problema para ela e todo o PT foi a sua inesperada mediocridade e incompetncia. Os mais avisados e informados logo perceberam que a reeleio seria penosa e cara. Ela e seus luas pretas cometeram o erro fatal de fazer reviver o esquema de corrupo do mensalo, que s no se transformou em completo desastre porque Lula estava acima de tudo na ocasio e tinha uma competncia rara para montar esquemas e armar alianas, sobretudo com os canalhas (sua verso para os 300 de Esparta) que encontrara na Cmara Federal quando foi efmero deputado federal. Por milagre a avalanche de sujeiras polticas e corrupo deu a Lula a possibilidade de se desvencilhar da imagem ruim e do risco de ver sua carreira poltica interrompida. Pouco tempo antes da eleio de 2002 (com sua vitria, depois de trs derrotas consecutivas), dois fatos iam demarcar a mudana radical do PT e da entourage de Lula. Um foi a morte do tesoureiro da sua campanha e prefeito licenciado de Santo Andr, no ABC paulista. Se foi assassinato comum ou poltico, a controvrsia ainda no foi decidida. O certo que Celso Daniel foi o primeiro dirigente petista a apontar o desvio de nalidade do caixa 2, que havia e sempre houve na mecnica dos partidos polticos no Brasil. At ento, ele seguia para os fundos do PT, juntando-se s contribuies compulsrias ou voluntrias dos seus militantes e polticos.

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15 O tesoureiro constatou que a drenagem tambm comeava a seguir para bolsos particulares. E acendeu o sinal vermelho de advertncia interna, O problema que Lula tinha que receber muito mais dinheiro se quisesse colocar em prtica o caro projeto do publicitrio Duda Mendona para, nalmente, se tornar presidente da repblica. At ento o crebro da mquina poltica do partido era Jos Dirceu. Mas a sombra de Dirceu se projetava cada vez mais espaosa sobre o totem lulista. Era uma ameaa de concorrncia, de diviso de poder. E no era eciente o bastante. A surgiu o engenheiro Delcdio do Amaral, com uma carreira brilhante, que viera da Holanda, de uma diretoria da Shell (uma das antigas seis irms do petrleo), aps passar pelo comando da construo da hidreltrica de Tucuru, a quarta maior do mundo, e ser incorporado pelos tucanos de FHC durante o apago de 2001, que aplicou o coice nal nas aspiraes de glria de Fernando Henrique Cardoso. Delcdio concebeu a primeira organizao global de corrupo do Brasil, reunindo os ncleos de polticos, executivos de estatais e empresrios para desviar dinheiro pblico de tal monta que, s no caso da Petrobrs, teriam provocado rombo de 42 bilhes de reais e, em quatro fundos de penso, apenas em 2015, responderam por grande parte do dcit de quase R$ 30 bilhes. O esquema funcionou, foi azeitado e parecia to seguro, depois de absorver e se livrar do escndalo do mensalo, que Lula cometeu um erro fatal ao se ver acuado pela ofensiva com incomum eccia da Operao Lava-Jato.Saiu do seu bunker do nada sei, nada vi, nada ouvi, que o isolava de tantas candidaturas de escndalos que se acumulavam em tapetes e armrios,e se desnudou por inteiro, sem mscaras nem retoques, nas conversas ntimas que teve com vrios interlocutores, a mais reveladora delas com a ento presidente Dilma Rousse. Emergiu dessas conversas um Lula incivilizado, mal educado, arrogante, messinico, maledicente, raivoso um contraste com o Lula paz & amor que o publicitrio Duda Mendona inventou, a peso de ouro depositado ilicitamente no exterior e (provavelmente) apenas em parte devolvido aos cofres pblicos (mas garantindo impunidade ao marqueteiro desde ento). Seus conceitos depreciativos e ofensivos sobre alguns dos mais poderosos homens pblicos do pas, em contraste com as opinies que externava de pblico a respeito deles, criou uma vasta predisposio contra Lula, sobretudo no poder judicirio, com nfase no Supremo Tribunal Federal. Sintomaticamente, ele se permitiu comparecer posse da nova presidente da corte, em meio a ataques contundentes corrupo realizada, apoiada ou acobertada por lderes polticos (cujo modelo se amoldava ao perl do ex-presidente). E foi conversar com seu ex-advogado, que indicou para o cargo, ministro Dias Toffoli (aquele que no passou em concurso para juiz no Amap). Disse a Tooli, de forma um tanto jocosa e at debochada, que ele se livrara da ameaa que lhe zera a revista Veja, de envolve-lo em escndalo, graas coragem de sair imediatamente em contundente defesa do colega do ministro Gilmar Mendes, ali ao lado, a quem, pela primeira vez, aps tantas crticas e ataques, por considera-lo quinta coluna tucana no Supremo, Lula elogiou. Estaria imaginando formar ali qurum para si quando seus vrios processos demandassem a ltima instncia da justia brasileira? O mundo da incluso social, da elevao do padro de vida do brasileiro, da eliminao da misria, do bem estar social, da defesa das riquezas nacionais e outras conquistas mais desmoronou. A reviso das realizaes do lder petista seguiu por outra tica, to realista que o trecho principal da denncia muito mais poltica do que jurdica. um libelo, no exato sentido da expresso. Um pas se sentiu enganado e se escandalizou pela revelao do que se passava num universo restrito em tor no da Petrobrs e suas derivaes ou desdobramentos, que, como destacou a pea do MPF, tinha Lula como o eixo de tudo. A principal tarefa a partir de agora encontrar as conexes concretas, baseadas em fatos e no apenas em indcios, por mais robustos que eles sejam. A denncia apresentada pelos procuradores federais falha. Se ela fosse a nica pea do contencioso, estaria sujeita a um grande risco de fracassar. Ao invs de destruir Lula, lhe daria o passaporte de vtima para que com ele se reapresentasse em 2018 na condio de candidato a um indito terceiro mandato de presidente da repblica. Por efeito desse texto cheio de adjetivaes e de tons polticos, mais subjetivo do que seria de se esperar de um produto da tcnica jurdica, inamado por uma indisfarvel busca de glria e notoriedade do trio de procuradores, o debate nacional transcendeu os casos concretos em apurao, dos imveis atribudos ao ex-presidente, mas registrados em outros nomes em cartrios. O que mais se discute agora a raiz de um projeto de poder concebido para durar por longo prazo base da compra de apoios e com suporte nanceiro expressivo, to grande que estourou todas as barreiras em 2014, para reeleger Dilma, afundando ainda mais um pas que resistia aos erros graves cometidos pela administrao pblica federal. Naturalmente, a primeira das denncias contra o ex-presidente seguir uma instruo judicial, caso o juiz Sr gio Mora aceite a pronncia. Mas outras peas devero surgir da investigao da Lava-Jato, munidas dos dados far tamente acumulados por um trabalho sem igual de investigao de corrupo no Brasil. Essa histria est comeando e ningum pode, em s conscincia, dizer neste momento em como acabar. Mas provavelmente no ser mais o nal feliz em que Lula pensava quando voltou a ser um cidado comum, no primeiro dia de 2011, sem aceitar, no fundo, no voltar a ser um cidado acima de qualquer suspeita.

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Quando o PT se tornou uma sociedade annimaA denncia que o Ministrio Pblico Federal ofereceu na semana passada contra o ex-presidente Lula (mais sua esposa Marisa Letcia, o petista Paulo Okamoto e cinco pessoas) foi um ajuste de contas com um dos maiores lderes polticos do Brasil, que fez carreira admirvel alegando nada saber sobre as condutas infratoras em escala constante e crescente dos seus parentes, amigos, correligionrios, seguidores e parceiros. Os integrantes do MPF na fora-tarefa da Operao Lava-Jato, sediada em Curitiba, no hesitaram em usar uma linguagem adjetivada em demasia para o que devia ser uma pea sobriamente jurdica (por sua enorme gravidade). Agiram assim exatamente porque queriam destruir um habeas corpus preventivo que Lula se conferiu por ato de imprio, margem da lei e escondido nos bastidores do cenrio pblico. Como que tanta coisa grave e profundamente prejudicial ao pas aconteceu em pelo menos cinco dos oito anos do mandato duplo do ex-lder sindical (e em pelo menos dois dos cinco e meio da sua sucessora), sem que Lula, o pioneiro na auto-imunizao moral e poltica, e Dilma soubessem ou, no sabendo, se interessassem por saber e agissem para extirpar o mal e inter romper a sangria? Omo que durante os governos do PT empresrios de pouca expresso ou sem a mesma magnitude se tornaram alegados embries de empresas globais, as multinacionais brasileiras, e outras, que j eram grandes, faturaram como nuca antes, para empregar o bordo do ex-presidente? Por competncia prpria? Graas a um mnimo de lisura necessria para se tornarem merecedoras de afagos, elogios e dinheiro pblico? Se tudo no passasse de elementos de uma conspirao contra um legtimo governo do povo, os agentes desse fenmeno no teriam confessado seus crimes, revelado os esquemas ilcitos de enriquecimento ou estivessem se sujeitando s penas que receberam (e tambm que deixaram de receber) graas s suas delaes premiadas e a deduragem de terceiros. Um dos mais ferozes dos parasitas a causar prejuzo de bilhes Petrobrs foi aquele mero diretor a quem Lula chamava de Paulinho. Os dirigentes da estatal que participaram do esquema de corrupo foram escolhidos por polticos do PMDB, do PTB e do PP porque Lula e Dilma abonaram suas chas. Sem falar nos negcios com suspeita de serem escusos que s agora esto sendo alcanados pela Lava-Jato e outras frentes de investigao que esto se abrindo nos fundos de penso, na Eletrobrs e no BNDES, de cujos cofres mais bilhes devem ter sado para irrigar o caixa de muita gente. S como garantia para o ressarcimento dos quase 50 bilhes de reais de prejuzo de quatro fundos de penso de estatais (Banco do Brasil, Caixa e Correios, alm da mesma Petrobrs), o bloqueio de bens de patrimnio privado dos suspeitos chegou a oito bilhes de reais. Quanto eles roubaram no total? E como se formou o patrimnio da maior empresa de carne do mundo, a Friboi, projetada s alturas por dinheiro ocial? E onde est o empresrio modelo de Dilma e Lula, Eike Batista, que agora tenta salvar o que restou do incndio e safar a si prprio do interesse dos investigadores? Um tcnico rigoroso haver de fazer objees ao tom panetrio, s imprecises, s generalizaes e a outras falhas da denncia do MPF, que nem sempre estabeleceu a conexo entre os fatos apontados e os tipos criminais, arguidos para justicar a incriminao de Lula e parceiros, na instaurao da ao penal solicitada justia. H hiatos e lacunas bastantes para serem exploradas ao longo da instruo processual pela defesa dos acusados, se tornados rus pelo juiz que preside o feito, Srgio Moro, da 13 vara criminal da justia federal no Paran. Tanto esses pontos podem vir a ser contestados, como j o foram na nota pblica que os defensores de Lula e Marisa Letcia divulgaram no dia seguinte, como podem vir a ser os embries de uma apurao com potencial de chocar o pas e o mundo. O MPF diz que s no esquema or ganizado de corrupo na Petrobrs as empresas com contratos na estatal pagaram 6 bilhes de reais em propina, quase 2 bilhes de dlares. O superfaturamento feito para gerar caixa para essas atividades ilcitas de polticos, executivos e empresrios causou prejuzo de R$ 42 bilhes, ou em torno de US$ 13 bilhes. Quantos episdios de corrupo chegaram a esse patamar no mundo? J seria o suciente para provocar uma hecatombe no Brasil. Mas a Petrobrs no foi o nico alvo dessa combinao de predadores e parasitas. H tambm o sistema Eletrobrs, os fundos de penso estatais, o BNDES, a Caixa e mais alguma coisa. O nmero pode ir alm de R$ 100 bilhes, ou 2% do PIB nacional em mos de poucas dezenas de pessoas. S de algumas delas, para prevenir o rombo dos quatro maiores fundos de penso federais, a justia bloqueou bens de patrimnios particulares no valor de R$ 8 bilhes. espantoso. Corrupo sempre houve e, ao que tudo indica, sempre haver. Mas no na intensidade, na velocidade, na escala e na sistematicidade praticadas a partir de 2002, prolongando-se at 2014 com intensidade, justamente o ano da quase frustrada reeleio de Dilma Rousse, e na recuperao da base parlamentar para livrar Lula da exploso do mensalo. O mais importante na denncia do MPF foi garantir que, alm do enriquecimento ilcito das oito pessoas denunciadas, todo esse esquema foi montado para alcanar governabilidade em prticas corruptas e perpetuao criminosa no poder. algo que, se denitivamente conrmado, colocaria o PT no lbum de histrias do PRI do Mxico ou mesmo das Farc na Colmbia, embora sem derramamento de sangue (o que, talvez, diga alguma coisa sobre o que a sociedade brasileira). uma armativa sem paralelo na histria republicana do Brasil, cuja for a no guarda coerncia com o texto da denncia, que s vezes se desvia pelo subjetivismo de adjetivos que estariam melhor se no estivessem no texto. Ele diz mais do que prova. Mas tem um grande mrito: permite instncia certa numa democracia, a justia, obrigar Lula a sair da sua estratgia de no saber de nada. Agora, ele precisa dizer duas coisas: o que sabe e o que realmente fez.