Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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JATENE AT 2030DVIDA: 70% DO PIB JUSTIA MAIS CARA o a O Sul Meu Pas. o grito de guerra de um movimento que pretende separar Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Brasil. Ele organiza um plebiscito informal marcado para 2 de outubro, com quatro mil urnas para a coleta de votos nos trs Estados do sul do pas. Os adeptos desse movimento, todos eles atuando como voluntrios, iro instalar essas urnas s proximidades das zonas de votao que funcionaro nas eleies municipais desse dia. Para a escolha de prefeitos e vereadores. A cdula far a pergunta: Voc quer que o Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul formem um pas independente?. A meta alcanar um milho de pessoas, o equivalente a 5% dos eleitores da regio sul. A votao no tem valor legal, mas tambm no proibida. Para ter efeito legal, o plebiscito deveria ser aprovado pelo Congresso e ser realizado pela justia eleitoral. O historiador Tau Golin, da Universidade de Passo Fundo, ouvido pela imprensa, deniu o ato como xenfobo: um movimento antibraSEPARATISMO o que o Par quer?Um novo pas ainda pode surgir do Brasil? Novos Estados podem se desmembrar do Par? O que melhor para o pas e o Estado: como esto ou modificados? So algumas questes de um debate que precisa recomear.

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2 sileiro que mostra a diculdade certos grupos tm de se integrar nao. Os separatistas, para ele, no admitem a ideia de pluralidade e consideram os descendentes de italianos e alemes como especiais ou raa superior. Essa observao pode ter sua razo e por esse aspecto o movimento no s politicamente incorreto como invivel: os brasileiros das outras regies, que so maioria no parlamento, dicilmente aceitariam a perda desse territrio, ainda mais para a formao de um corpo estranho ao conjunto humano nacional. Mas o tratamento arbitrrio da Unio s questes regionais num pas continental como o Brasil, ao gerar protesto e indignao, serve de causa a essas reaes. A separao no resolve, antes diculta uma soluo mais justa. Pode, no entanto, servir de instrumento para refazer o pacto federativo brasileiro, viciado pelo centralismo de poder no governo e nos grupos dominantes da sociedade. Qualquer movimento separatista, como o dos sulistas, colide com duas barreiras formidveis. Uma o processo poltico para o enquadramento legal da iniciativa. Os separatistas teriam que conseguir maioria no Congresso Nacional para aprovar uma lei autorizando a consulta plebiscitria. Mesmo que toda bancada regional de senadores e deputados federais estivesse coesa na defesa da proposio, ela no seria suciente para aprovar o projeto. So Paulo e Minas Gerais, que tm as maiores representaes, se colocariam contra a ideia. No por se oporem a ela, em tese e de fato, mas por no aceit-la como coadjuvantes. Em 1932 os paulistas pegaram em armas contra Getlio Vargas numa guerra civil que no foi to sangrenta quanto se podia prever nem to incruenta quanto reza a historiograa ocial. Mas que no era para a criao de um novo pas e sim contra o pas desequilibrado pelo centralismo federal, que tornava a federao uma iluso ou uma quimera. Este justamente o segundo fator fundamental desfavorvel a um novo perl geogrco do Brasil. A Unio poderosa demais para admiti-lo, da porque a federao uma clusula ptrea da constituio. Nem os constituintes podiam modic-la, j que a assembleia constituinte derivou do par lamento ordinrio, no foi convocada apenas para cumprir a misso e preparar a nova constituio do pas, desfazendo-se em seguida. Sua legitimidade foi ferida em sua prpria origem. Reduzir o tamanho do Brasil acar reta a perda do seu peso geopoltico internacional, de nao com o 5 maior territrio, a 5 maior populao e a 8 economia do mundo. Alm disso, Braslia possui tanto os meios polticos e administrativos de cercear e minar os mpetos separatistas regionais como a legitimidade vital: na maioria dos casos, o poder central ter que suplementar ou mesmo garantir uma fase de transio da congurao atual para um novo perl do pas. Por todos esses fatos e mais alguns, a pretenso secessionista em dimenso nacional, mesmo que no seja descabida, invivel. Ainda assim, essa falta de plausibilidade no devia inibir a considerao pelas causas desse tipo de reao. Ela se fundamenta exatamente no excesso de poder da Unio comparativamente aos Estados membros. O insucesso dos movimentos de emancipao no devia servir de obstculo para uma reforma em profundidade da federao brasileira, que s existe, em sua plenitude, na letra morta da lei. Por que ento ela deve continuar a prevalecer como clusula ptrea? Mesmo quando as pessoas no conseguem identicar as causas dos seus males, esses fatores continuaro vivos, como vrus, germes ou bactrias nocivas sade em geral, seja territorial, social, poltica, scal, tributria ou econmica. O clima nacional propcio convocao de um plebiscito destinado a responder a uma nica pergunta: os brasileiros querem mudar o sistema federativo sob o qual a nao foi organizada politicamente, mas sem liberdade para procurar modelo alternativo? Tal mudana s pode ser realizada pela convocao de uma assembleia constituinte autnoma para denir essa nova organizao. Mas enquanto esse momento no chega (e no chegar nunca se no for provocado pelos insatisfeitos com a or dem atual, revelia da vontade imobilizadora da Unio), um Estado precisa encarar urgentemente seu prprio desao espacial. O Par talvez seja o que mais sofre, ao menos no mbito da principal fronteira nacional, que a Amaznia, dos mesmos males que assolam o pas. O Par tem diante de si um entrave territorial boa gesto administrativa. grande demais. Seu tamanho um pouco maior do que da Colmbia, o 4 mais extenso pas da Amrica do Sul. Se fosse um pas, com seus 1,2 milho de quilmetros quadrados, o Par ocuparia justamente o lugar da Colmbia no continente. Mas, com seus pouco mais de 8 milhes de habitantes, seria o 9 mais habitado, enquanto a Colmbia o 2. A maior distncia entre pontos extremos dentro do Par alcana 1,3 mil quilmetros. Em qualquer direo, esse espao abriga diversidades geogrcas, humanas, sociais e econmicas de um pas. Ele pontilhado por empreendimentos de grande porte, tecnologia avanada, intensa aplicao de capital e conexo direta a mercados longnquos. So os tpicos enclaves coloniais de nova feio. Entre eles, um mar de arcasmos, que vao desde o trabalho escravo a formas primitivas de disputa pela posse da terra, geralmente exercidos por meio da violncia. Com tais componentes dspares ou antagnicos, essa dinmica muito mais intensa do que dela cuida o poder pblico. Transcende at mesmo ao planejamento meticuloso das grandes cor poraes que se instalam nas frentes pioneiras. Com uma mentalidade colonial, elas cuidam como podem dos seus interesses. Aplicam com alguma ou bastante competncia as suas ferramentas de relaes pblicas e marketing. Como propagandeiam mais do que fazem e se empenham mais em seduzir lideranas do que beneciar massas, a aparncia convincente e conveniente, mas no persistente, duradoura, efetiva. Constantemente espocam conitos e queimam labaredas sociais e ecolgicas fora do controle central ou da previso tcnica e cientca. So as manifestaes de uma lava que corre por baixo das aparncias e irrompe quando a crosta superior mais delgada, no resistindo presso de baixo. Essa mecnica gera a sensao (que constatao) de que o Estado vai bem, mas o povo vai muito mal. cada vez mais ntida uma percepo: sem dvi-

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3 da o Par cresce, mas de forma brutalmente desigual. Ainda pior: os grandes projetos, que hoje so responsveis pela maior gerao de renda e receita, no produzem resultados coerentes com suas dimenses. O que geram se multiplica muito mais l fora do que aqui dentro. Em parte por ser esse mesmo o resultado natural do modelo econmico. Em parte, tambm, pela fraqueza poltica do Estado, por sua incapacidade de ser o reexo real do seu potencial, o que exige um volume maior de determinao, vontade e conhecimento do que ele dispe. A se manterem as caractersticas e o ritmo atual desse desempenho, o Par atravessar o tempo sem se conciliar com o melhor resultado da combinao dos seus fatores de produo. Logo uma parte do ciclo mineral se completar com esse saldo extremamente negativo. Destino que aguarda o ciclo de energia, cada vez mais denso, mas cada vez menos capaz de criar resultados locais. O desajuste entre a realidade e a sua miragem tamanho que os paraenses encaram como ameaa o que a fonte principal para chegar a decifrar o seu enigma ou desfazer a sua maldio, de crescer cando mais pobre. O espao fsico e humano a esnge desse mistrio ou dilema. Ao invs de impedir que ele seja posto em questo pelo categrico fator demogrco, que se ope por princpio a qualquer iniciativa de tocar na grandeza territorial do Estado, os paraenses deviam tratar de se informar e esclarecer sobre a questo para poder decifrar o enigma ou a Esnge o devorar. No para patrocinar de imediato ou inevitavelmente a criao dos Estados de Carajs e do Tapajs, velhas e j surradas (mesmo quando legtimas) bandeiras das populaes a oeste e ao sul de Belm. Mas para cham-las ao debate, no um mero e perfunctrio debate acadmico, para ingls ver, mas para embasar decises corajosas, inovadoras e consequentes. No quadro poltico e econmico atual, o retalhamento do Par em trs unidades, alm de consolidar o desequilbrio entre as suas partes, no alterar as fontes desse fator. A Unio continuar a conceder vantagens e benefcios scais e tributrios a empreendimentos que exportem produtos de aceitao no mercado internacional, induzindo a comercializao de commodities. O Par moderno continuar a ser um ponto de origem ou passagem desses produtos exportados para o exterior pelos enclaves montados no seu interior, sejam as minas e usinas de Carajs ou os portos e modais do Tapajs. O modelo, estabelecido 40 anos atrs, em pleno regime militar, pelo II Plano de Desenvolvimento da Amaznia, continuar em pleno vigor. E assim todos os fatores que engendram a insatisfao ou a revolta entre todos os paraenses, que se voltam contra si com mpeto belicoso quando, na verdade, deviam olhar para fora antes de tratar e resolver seus problemas comuns com inteligncia, discernimento e esprito construtivo.A poderosa Vale vista por dentroAcompanho atentamente a trajetria da Companhia Vale do Rio Doce, o seu nome de batismo, desde 1968, quando a estatal, criada em 1942 pelo ditador Getlio Vargas, tinha 26 anos (hoje est com 74). Nela est ncada um dos suportes do Brasil. E um dos eixos de poder do Par. Ao longo desse quase meio sculo de convivncia, fui assumindo a posio de crtico da empresa. Esse tom mais acre se acentuou em 1997, quando Fernando Henrique Cardoso vendeu seu controle acionrio (por 3,3 bilhes de dlares da poca), num dos mais melanclicos captulos da histria das privatizaes num Brasil que se incorporava globalizao. Em 2017 essa fase completar 20 dos quase 50 anos dessa convivncia cheia de aproximaes e distanciamentos, muito mais de arestas do que de encaixes. Outro dia, casualmente, decidi clicar no link de autoapresentao que a companhia faz no seu site. Achei que essa viagem podia ser til ao leitor, principalmente quele que pegou esse trem andando (como anda e grande o trem da Vale de Carajs a So Lus do Maranho, o maior comboio de carga do mundo), Na abertura da sua prpria pgina a Vale se descreve como uma mineradora multinacional brasileira e uma das maiores operadoras de logstica do pas. a terceira maior empresa de minerao do mundo e tambm a maior produtora de minrio de ferro, de pelotas e a segunda maior exploradora de nquel. Lista as 15 empresas que controla: Companhia Porturia da Baa de Sepetiba, Companhia Mineira Miski Mayo, Minerao Corumbaense Reunida, Mineraes Brasileiras Reunidas, Salobo Metais, Vale International Holdings, Vale Canad Holdings, Vale Canad, Vale Fertilizantes, Vale International, Vale Malaysia Minerals, Vale Mangans, Vale Moambique,Vale Nova Calednia e Vale Shipping Holding. Remete ento o visitante enciclopdia virtual Wilkipdia, talvez sugerindo ser a autora (ou avalizadora) dessas informaes, o que as tornaria mais conveis ou, pelo menos, ociosas. Merecedoras de credito, portanto. A companhia conta com 119 mil empregados para realizar suas atividades de pesquisa, extrao, produo e comrcio de minrios, gerao de ener gia, transporte ferrovirio e operao porturia. Seu valor de mercado (que ainda o de agosto de 2014) de 156,6 bilhes de reais, trs vezes o oramento deste ano do Estado do Par, hoje sua principal base de operao, s vsperas de se tornar a maior, superando a posio tradicional de Minas Gerais, onde a Vale comeou a sua histria. Seu lucro, nesse mesmo ano, foi de apenas R$ 954 milhes. No auge da sua expanso, quando comandada por Roger Agnelli, o executivo que por mais tempo (10 anos) foi seu presidente, em 2007, a Vale comprou a multinacional canadense Inco, a maior mineradora de nquel do mundo, por 18 bilhes de dlares. Nesse momento ela se tornou a 31 maior empresa do mundo, com valor de mercado de R$ 298 bilhes, e a segunda maior em-

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4 presa de minerao do mundo, atrs da anglo-australiana BHP Billiton. No ano seguinte seu valor foi estimado em 196 bilhes de dlares pela consultoria Economtica, tornou a 33 maior empresa do mundo, no Brasil atrs apenas da Petrobrs (US$ 287 bilhes), mas a superando em volume de exportaes, Por ironia, ambas as empresas desabaram desses patamares. A Vale por causa da queda brutal dos preos na China, sua maior cliente, da qual se tornou perigosamente dependente, do seu principal produto, o minrio de ferro. A Petrobrs, pela intruso de uma quadrilha de corruptos detectada pela Operao Lava-Jato. O estreitamento das relaes com a sia foi estimulado pelo enorme ganho de lucratividade graas ao grande aumento havido no preo do minrio de ferro que subiu 123,5% entre 2005 e 2006 graas ao aumento da procura mundial, sobretudo pela China. Com essa lucratividade, a mineradora fez pesados investimentos para poder atender s novas necessidades chinesas, que a mantinham como a maior exportadora de minrio de ferro do mundo. Na Wilkipdia a descrio da empresa mais completa. Acrescenta sua condio de multinacional brasileira, operadora de logstica, 3 maior mineradora do mundo e a maior produtora de minrio de ferro (que no ) e de pelotas (ou pellets), a de segunda maior exploradora de nquel Diz ainda que produz mangans, ferroliga, cobre, bauxita, potssio, caulim, alumina e alumnio. No setor de energia eltrica, participa em consrcios e atualmente opera nove usinas hidreltricas. A empresa absorve quase 5% de toda a ener gia produzida no Brasil. Milhares de pessoas negociam todos os dias com aes da Vale na Bolsa de Valores de So Paulo, Nova York, Paris, Madrid e Hong-Kong, Atua na maioria (14) dos 27 Estados brasileiros e em todos os cinco continentes.Possui mais de 10 mil quilmetros de malha ferroviria e 9 terminais porturios prprios no Brasil. A Wilkipdia trata de um dos momentos decisivos da histria da Vale: a sua penetrao no reduto da United States Steel, a multinacional americana (na poca, a maior siderrgica do mundo), dona das jazidas de Carajs, descobertas no nal da dcada de 1960. As pesquisas conrmaram que ela era o mais rico depsito de minrio de ferro de grande volume do planeta, 16 bilhes de toneladas a cu numa primeira avaliao. Diz a enciclopdia (ou a Vale): Diante deste volume, o governo brasileiro (por sugesto do general Albuquerque Lima, ministro do Interior do governo Costa e Silva) aconselhou a US Steel a negociar com a Companhia Vale do Rio Doce uma associao, que resultou na criao da Amaznia Minerao, com participao meio a meio de ambas as empresas (a qual passou a deter os direitos de pesquisa e posteriormente de lavra). Isso aconteceu em 1969. Em 1977, a estatal ps m a um intenso e difcil contencioso e comprou a parte da USS, que desistiu de dar continuidade implantao da mina de Carajs. Quando foi privatizada, em 1997, a Vale produzia 114 milhes de toneladas ao ano de minrio de ferro. Em 2005, a produo se elevou para 255 milhes, sendo 58 milhes destinadas s siderrgicas brasileiras e 197 milhes destinadas exportao. A enciclopdia (ou a prpria Vale) escolheu uma das verses sobre a crise que levou ao afastamento conituoso de Agnelli, em 2011 (e no 2001, como diz a Wilkipdia): Em maro de 2001 foi iniciada uma campanha do governo brasileiro para demitir o presidente da Vale Roger Agnelli. Dilma Rousse teria enviado Guido Mantega para convencer o Bradesco, principal scio [privado ] da Vale a aceitar sua substituio. Em outra frente, o ministro Edison Lobo [um dos indiciados por corrupo pela Operao Lava-Jato] pressionava publicamente a empresa a pagar cinco bilhes de reais de royalties pela explorao do solo do pas [ ou seja, uma tentativa de extorso]. O ponto mais importante da anotao: Em 14 de maro Agnelli havia enviado a Dilma uma carta onde expressava sua preocupao de que a disputa dos royalties estava envolvida num contexto poltico e que haveria desvio de verbas na prefeitura de Parauapebas. A Vale j havia pago [pa gado ] 700 milhes ao municpio, que continuava com pssimos indicadores, o entorno da cidade cercado de favelas, bairros prximos ao centro tm esgoto a cu aberto e ruas sem asfalto. Com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social e da Previ [o fundo de penso do Banco do Brasil], que juntos detinham 60,5% da Vale, Agnelli foi substitudo, deixando a presidncia em maio de 2011. O legado de Agnelli um expansionismo desenfreado da Vale, que a levou a produzir como nunca e a se expandir no limite do impondervel. O ponto culminante desse processo foi 2005, quando a produo de minrio de ferro atingiu um novo recorde de 240,4 milhes de toneladas, 10,3% acima do volume produzido o ano anterior. Entre 2001, quando o homem do Bradesco tomou posse na presidncia, e 2005, a produo da companhia cresceu taxa mdia anual de 15%. No contrato assinado nesse mesmo ano com a Nippon Steel, uma das maiores siderrgicas da sia, o preo do minrio no foi reajustado em 71,5% em relao ao praticado de 2004, no maior aumento da histria. Com a combinao de preo alto e produo intensa, as vendas de minrio de ferro e pelotas bateram recorde em 2005, com 252 milhes de toneladas. Recorde tambm houve na cadeia do alumnio, com a produo de 6,9 milhes de toneladas de bauxita, 2,6 milhes de toneladas de alumina e 496 mil toneladas de alumnio primrio. No ano seguinte a Alunorte se tornaria a maior renaria de alumina do mundo. Todo o ciclo do alumnio, montado ao longo de quatro dcadas, se desfez em 2011, ltimo ano de Agnelli como todo-poderoso. A Vale transferiu para a norueguesa Norsk Hydro todas as suas participaes nesse setor, da mina de bauxita metalrgica de alumnio, passando pela renaria de alumina. Tambm em 2005 a primeira incurso da mineradora em nquel se consolidou quando sua indstria de concentrado de cobre, dona da jazida do Sossego, em Carajs, alcanou o primeiro ano completo de operao. O preo dessa febre de crescimento deixou no balano uma dvida enorme, que vem engolindo o patrimnio da companhia, e um embaraoso desao para manter sua posio no futuro.

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5 Jatene e o futuro para depois deleO Par 2030, lanado no dia 29, em Belm, devia ser encarado como uma iniciativa de grande flego e audaciosas pretenses do governo do Estado. Nesse perodo de 15 anos, 1.400 metas a serem alcanadas pela induo ocial permitiriam desenvolver a renda per capita do paraense em 5,3% ao ano. Como o atual governador s tem mais um ano e meio de mandato, ele deixaria aos seus sucessores o plano de mais longo prazo da histria do Par, pioneiro em matria de planejamento estadual. ato de generosidade indita na poltica brasileira, marcada pela descontinuidade na conduo da administrao pblica. Se o Par 2030 for realmente bom, conforme apregoam seus criadores, os governadores que sucederem Simo Jatene ao longo dos quatro mandatos sucessivos que esse plano dever durar tero que lhe agradecer por tanta generosidade e altrusmo, se no jogarem a papelada (ou sua verso digital) na lata de lixo. A agncia ocial de notcias lembrou, na matria de cobertura do lanamento do documento, que o PIB per capita do Par de 15,2 mil reais, enquanto a mdia nacional quase o dobro: R$ 26,5 mil. O Estado caiu do 8 lugar no ranking nacional (na dcada de 1940) para o 19 (em 2013). Em quase 70 anos tivemos crescimento da populao e da explorao de nossas riquezas naturais, mas sem que com isso tivssemos qualquer ganho nos indicadores sociais, ou mesmo na renda da populao. O modelo precisa mudar, e isso que estamos propondo, destacou Simo Jatene. Ele deixou de atentar adequadamente para um fato: conquistou trs mandatos ao longo desse perodo, tor nando-se o governador que comandou o Par por mais tempo em toda a sua histria. Logo, deu sua contribuio para esse retrocesso chocante: quanto mais se expandiu a atividade econmica, mais pobre relativamente ao conjunto dos brasileiros se tornou o paraense. Num procedimento esquizofrnico, por abstrair a ao do prprio gover nador durante os mais de 10 anos em que j exerce a funo, alm de mais quatro do seu correligionrio de par tido, o tambm tucano Almir Gabriel, a agncia ocial observa que a taxa da populao tambm interfere na renda per capita de um Estado. De acordo com o governador, mesmo o Par crescendo 1,2% a mais que o Brasil, entre 1960 e 2015, a renda continua baixa. E a tendncia, assegurou, que esse movimento aumente ainda mais, uma vez que o Estado corresponde a 24% do territrio da Amaznia e 14% do Brasil, se tornando uma vitrine para muitos setores. O Estado do Par no aceita mais ser um grande produtor de recursos naturais, grande produtor de matrias -primas e, lamentavelmente, ter indicadores sociais precrios. isso que ns queremos, que as riquezas do Par sirvam ao Brasil, mas sirvam tambm, e particularmente, a nossa gente, ao nosso povo. S tem uma forma para o Par contribuir para o desenvolvimento brasileiro: atravs do seu prprio desenvolvimento, enfatizou Simo Jatene, como se fosse apenas um acadmico, professor de economia, no o mandatrio poltico do Estado. D para acreditar em mais uma declarao de intenes depois de tanta retrica sem o efeito anunciado?O vrus do caixa 2Nove semanas depois que estou-rou o escndalo do mensalo, em 2005, Lula deu uma estranha entre-vista nos jardins da embaixada bra-sileira em Paris. Foi uma matria de encomenda, executada por uma des-conhecida jornalista free-lancer, Me-lissa Monteiro, para ser divulgada no Jornal Nacional, da TV Globo, que a reproduziu com o aviso de t-la rece-bido pronta. E como estava foi ao ar. A Globo negociava com o governo a sua dvida junto ao setor pblico.A entrevista foi sobre o caixa dois utilizado na campanha eleitoral do prprio Lula e em esquemas que seriam revelados pelo mensalo. Lula, qual pai rigoroso, mas compreensivo, lamenta que seu filho, o Partido dos Trabalhadores, tenha se deixado envolver por corrupo, mal que sofreu por ter crescido tanto. Disse que o caixa 2 foi praticado sorrateiramente em todas as eleies realizadas no Brasil e se infiltrou num partido, como o PT, que tinha na tica uma das suas marcas mais extraordinrias. Garantiu que seria implacvel na apurao da corrupo, sem deixar de lembrar que o seu governo tinha respeitabilidade muito maior do que j tivera qualquer outro na histria nacional. Uma dcada depois, o marqueteiro do PT (e de outros partidos), Joo Santana, reconhece que recebeu dinheiro do caixa dois no exterior pelo seu trabalho na campanha para eleger Dilma Rousse presidente. Reconhece, como Lula, que esse esquema antigo e constante. Muito bem. Mas se a entrevista de Lula hoje se revela o que uma manobra diversionista, para tirar de sobre o PT o foco da ateno da opinio pblica, agora a vez de ir fundo na investigao, atinja quem atingir, doa a quem doer. a oportunidade de acabar ou pelo menos minimizar esse jogo sujo, que contamina perigosamente a democracia no pas.

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6 Violncia na ditadura, mais na democracia?Nos 10 primeiros anos depois do m da ditadura, entre 1986 e 1996, foram registrados 660 assassinatos no campo, mais do que as 625 mortes registradas em 21 anos de regime militar. Do massacre de Eldorado dos Carajs, justamente em 1996, at hoje, 197 pessoas foram assassinadas em conitos somente no sudeste e sul do Par, a rea mais conagrada pela disputa de terras no Brasil. Na democracia atual, o crescimento da violncia no meio rural se deve ao esvaziamento das instituies estatais que lidavam (e ainda lidam, embora agora precariamente) com os pontos de tenso e atrito, diretamente no front. Sem a mediao do poder pblico, que continua tendendo a car ao lado dos mais fortes, porm agora de forma menos decisiva em funo das condicionantes polticas, o vazio do Estado colocou os campos antagnicos em posies frontais. O resultado: mais violncia. Para constat-la, o jornal O Esta do de S. Paulo teve a feliz e cada vez mais rara, principalmente na insensvel imprensa local iniciativa de enviar regio dois reprteres, Andr Borges e Leonencio Nossa, publicando os seus relatos. Eles constatam que houve avanos institucionais, como a criao do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que disponibilizou para a safra 2015/ 2016 28,9 bilhes de reais (linha de crdito criada nos governos do PT), e descriminalizao dos movimentos de pequenos agricultores. Ainda assim, a lio de barbrie de Eldorado no trouxe mudana real questo da violncia. As polcias deixaram de atuar, sob certa medida, na represso a ativistas, mas o espao seria ocupado por milcias contratadas por grileiros. Observam que ex-agentes da represso esto sendo contratados por fazendeiros para chear pistoleiros. No Par, a mais destacada empresa de servio de escolta armada no trecho entre Anapu e Eldorado foi criada em 2002 em Araguana, no Tocantins, por Ren Rodrigues de Mendona, um agente federal aposentado. A Atalaia Segurana e Vigilncia domina o mercado de escolta de fazendeiros e grileiros. Ela est atuando na fazenda Cedro, 8,3 mil hectares de antigos aforamentos concedidos pelo governo do Estado para a extrao de de castanha. Relatam os reprteres que Benedito Mutran, do cl que dominou o mercado de amndoas entre 1950 e 1980, cortou as castanheiras e criou gado: O governo do Estado nunca se ops mudana de explorao da ter ra. Benedito vendeu a Cedro para o banqueiro Daniel Dantas. Por um capricho da histria, Dantas teve como advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado do PT que no passado defendeu famlias de guerrilheiros, sindicalistas e camponeses assassinados nas terras que hoje so apostas do banqueiro no negcio da minerao. Os enviados especiais de O Estado de S. Paulo, de posse de muitas denncias contra a Atalaia, conseguiram entrevistar o dono da empresa. Ren Rodrigues de Mendona negou a prtica das violncias contra posseiros que foram relatadas, analisando cada caso, como os da Cedro. A percia tcnica vai comprovar que nossos seguranas no causaram a morte do Wagner, um dos assentados, disse. Com base nas suas apuraes nos locais, os reprteres concluem: A mancha verde do Cerrado e da selva de propriedade da Unio diminui, enquanto um Brasil regido pela lei dos fuzis e movido por violaes de direitos se expande. So 100 milhes de hectares do territrio nacional sob controle de grileiros, rea de quatro Estados de So Paulo. Para eles, um mercado da violncia se movimenta e impe seu modelo econmico. Por pouco dinheiro se der ruba um ip o novo mogno da Amaznia ou se fuzila um homem ou uma mulher. Com os setores industrial e comercial em crise, a agricultura pressionada para crescer ao largo da garantia de conquistas socioambientais. Consideram um mito que o poder pblico est ausente. As digitais de governo, Judicirio e Ministrio Pblico na promoo da violncia so vistas a olho nu, em processos de regularizao que se arrastam por dcadas a o e sentenas e aes que favorecem, invariavelmente, os grileiros, mais preparados para constituir defesas jurdicas. Apesar disso, na linha de frente dos conitos a ausncia do poder pblico atestada pelos prprios reprteres. Da sua narrativa tambm se observa que os personagens dos dramas estes, sim, violentos, brbaros e injustos, como sempre se diversicaram. A explicao maniquesta do bom e do mau, do dono da posse e do detentor da propriedade, do capital e do trabalho e outros esquematismos j no suciente para compreender a realidade. O principal produto da ao do governo na expanso econmica pela fronteira econmica foi gerar o caos na busca pela realizao de estratgias montadas fora da regio. Os clientes dessa estratgia, os empreendimentos de grande porte voltados para a expor tao, foram muito bem atendidos. O que cou na fronteira desses projetos foi entregue prpria sorte, numa dinmica humana, social e econmica terrvel, massacrante.A tragdia educacional na sua traduo polticaMais de 20 milhes de eleitores brasileiros so analfabetos. Sete milhes analfabetos totais, 13 milhes analfabetos funcionais. Menos de 7% dos 144 milhes cadastrados pela justia eleitoral at maio deste ano conseguem concluir o curso superior. Metade do total possui apenas o curso fundamental. o melhor resultado j atingido pelo pas? Sem dvida. No incio dos anos 1960 a UNE produziu o auto dos 99%, que destacava o 1% de universitrios no Brasil. Hoje eles so 6%, provavelmente de qualidade relativa duvidosa se comparados mdia de mais de meio sculo atrs. Mas quantos deviam ser para que o pas realmente utilizasse a educao como alavanca de um desenvolvimento denitivo e no cclico?

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7 Par: novos eleitores atravs da imigraoO Par recebeu 321 mil novos eleitores nos ltimos dois anos, ou 6,01% a mais do que tinha em 2014, ano da ltima eleio. Se esse contingente formasse um colgio eleitoral, seria o maior depois de Belm, com seus 1.043.219 eleitores. Superaria Ananindeua, que tem 291 mil eleitores, e Santarm, com 209 mil. Os trs sero os nicos que podero ter segundo turno, por terem ultrapassado o limite de 200 mil eleitores. Somam 1,5 milho de eleitores num universo de 5,5 milhes, menos de um tero do total, o que mostra a maior disperso demogrca no Estado. Como dos 321 mil eleitores, 155 mil votaro pela primeira vez, deduzse que o incremento se deve a uma intensa migrao feita por eleitores que vieram de fora e decidiram fixar domiclio no Estado. Um eleitorado distinto do que j mais ou menos identificado (ou identificvel). Dos eleitores de primeira viagem, 98 mil tm 17 anos e 57 mil, 16 anos. Quer dizer que 150 mil jovens vo votar antecipadamente por vontade de se manifestar politicamente. Seria bom para a democracia que no se desiludissem j na primeira votao.TERCEIRA MAIORPorto Velho a capital de Rondnia, com quase 320 mil eleitores, superou de vez Ananindeua, que tem com 291 mil, como o terceiro maior colgio eleitoral da Amaznia, atrs apenas de Manaus e Belm. Em quarto est Macap, capital do Amap, e em sexto Rio Branco, capital do Acre. Santarm, que j foi a terceira maior cidade da regio, agora a nona. Ameaada de perder tambm essa posio para Marab. O que alguns podem achar ruim, mas no ser assim, no.Estado cobra taxa sem prestar servioEra previsvel: o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, considera inconstitucional a lei paraense de 2014, que criou a taxa de scalizao sobre explorao e aproveitamento de recur sos hdricos. Em parecer encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, ele argumenta que a competncia para desempenhar o poder de polcia ambiental sobre concesses de explorao de recursos hdricos privativa da Unio. O procurador tambm sustenta que a base de clculo da taxa caracterstica de imposto e desproporcional aos custos da atividade de scalizao que pretende nanciar. O parecer foi dado a propsito da Ao Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pela Confederao Nacional da Indstria. A entidade pede concesso de liminar para suspender os efeitos da lei do Par. Quer evitar a arrecadao de soma vultosa de difcil restituio e tambm a criao de taxas similares em outros Estados. Segundo Janot, a norma que criou a Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalizao das Atividades de Explorao e Aproveitamento de Recursos Hdricos contraria o artigo 23 da constituio federal. O dispositivo prev a necessidade de lei complementar para disciplinar a cooperao entre Unio, Estados e municpios na proteo do meio ambiente, de forma a evitar choques de atribuio. A norma paraense afrontou a sistemtica constitucional de repartio de competncias materiais comuns entre os componentes da federao, porquanto sobreps exerccio de poder de polcia de estado-membro atribuio regular de ente diver so (Unio), sem edio prvia de lei complementar para disciplinar a cooperao entre si, destacou o representante da Unio em juzo. Alm disso, segundo ele, ao estabelecer como base de clculo da taxa a quantidade de metros cbicos utilizados, a norma contraria a constituio. Ela probe cobranas desse tipo com base em clculo que prprio de imposto. Para o procurador, diferente dos impostos, cobrados de acordo com a capacidade econmica dos contribuintes, a taxa por se tratar de tributo contraprestacional de natureza vinculada atividade para a qual foi criada pode incidir apenas para custear a prestao do servio, no podendo levar em conta qualidades ou quantidades estranhas ao poder de polcia. Janot lembra que o prprio STF j tomou diversas decises nesse sentido. A alquota dessa espcie tributria no pode incidir diretamente sobre produo ou faturamento em si considerados, pois estas grandezas constituem base de clculo tpica de impostos. Acrescenta no parecer que, ao associar a cobrana da taxa apenas ao metro cbico de gua utilizado, a lei desconsidera dificuldades enfrentadas na realizao de inspees, fator que poderia efetivamente impactar no custo da atividade estatal. Ressalta ainda, a onerosidade excessiva do valor cobrado por meio de taxa e manifesta desproporcionalidade com o custo da atividade estatal. Esta seria violao a outro artigo Constituio, que veda tributo com efeito de confisco.

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8 Faanha ecolgica para consumo externoO Prmio Calouste Gulbenkian entregue anualmente a uma instituio ou a uma pessoa que tenha se distinguido na defesa dos valores essenciais da condio humana. Ele foi concedido pela primeira vez em 2012 a uma orquestra liderada pelo maestro Daniel Barenboim. Nos anos seguintes os contemplados foram a Biblioteca de Alexandria (2013), a Comunidade de Santo Egdio (2014), e a Denis Mukwege (2015), o mdico congols que tem dedicado a sua vida a assistir mulheres vtimas de violao na Repblica Democrtica do Congo. Pela primeira vez o prmio foi destinado a uma organizao socioambiental. A escolhida foi a Fundao Amazonas Sustentvel, que recebeu a honraria em Lisboa, mais 250 mil euros. Foi um ato solene, no anteatro da Gulbenkian, ao qual compareceu o atual e o ex-presidente de Portugal. O jri do prmio escolheu a FAS, entre mais de 100 candidaturas inter nacionais de 2016, pelo seu destaque na defesa e valorizao da oresta amaznica, promovendo o envolvimento sustentvel, a conservao ambiental e a melhoria da qualidade de vida das comunidades ribeirinhas do Estado do Amazonas. A fundao foi enaltecida por atuar numa zona mundialmente to crtica como a Amaznia, na qual desenvolve projetos para reduzir o desmatamento, preservar a biodiversidade, contribuindo para melhorar a qualidade de vida das populaes tradicionais. O jri enfatizou que esta distino representa um sinal forte da importncia das questes ambientais principalmente pelo acordo histrico sobre as mudanas climticas assinado, na ONU, por um nmero recorde de pases. Virglio Viana, superintendentegeral da FAS, disse que o prmio ser investido integralmente nos programas e projetos da entidade, voltados para a promoo do desenvolvimento sustentvel, em especial conservao ambiental e a melhoria da qualidade vida das populaes ribeirinhas da Amaznia profunda. Armou estar honrado em poder compartilhar a premiao com toda a equipe da FAS, nossos conselheiros, parceiros, amigos e as 574 comunidades ribeirinhas onde atuamos. A Fundao Amazonas Sustentvel uma organizao brasileira no governamental, sem ns lucrativos, de utilidade pblica estadual, sediada em Manaus. Foi fundada em fevereiro de 2008 pelo Bradesco em parceria com o governo do Estado. Conta com o apoio do Bradesco, Fundo Amaznia/ BNDES, Samsung, Coca-Cola Brasil, UNICEF, alm de outras 118 parcerias em programas e projetos. No seu prospecto, ela diz que possui uma sria poltica de transparncia e ecincia no uso dos recursos, sendo auditada semestralmente pela PwC, uma das maiores empresas de auditoria do mundo. Suas atividades tambm so avaliadas pela curadoria de fundaes do Ministrio Pblico do Amazonas e pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas. Diversas auditorias internacionais e pesquisas acadmicas independentes tm avaliado o desempenho dos seus programas. Antes do Gulbenkian, recebeu diversas premiaes relevantes, como o Prmio Gesto Ambiental no Bioma Amaznia (2016), Prmio Hugo Wer neck (2015), Prmio Von Martius de Sustentabilidade (2014), Prmio Objetivos do Milnio (2014). A FAS desenvolve trs principais programas. Um deles o Bolsa Floresta, que a fundao diz beneciar mais de 9.400 famlias ribeirinhas do Amazonas, com quatro componentes: investimentos em gerao de renda (como manejo orestal, pesqueiro, sistemas agroorestais e empreendedorismo), infraestrutura comunitria (gua potvel, energia), fortalecimento de associaes de moradores de unidades de conservao alm de pagamento mensal feito s mes de famlia. O Programa de Educao e Sade apoia 545 alunos matriculados em nove unidades de conservao. Seu objetivo contribuir para o aprimoramento das polticas pblicas municipais, estaduais e federais, com foco em projetos de formao de professores, qualicao prossional, empreendedorismo, ateno integral primeira infncia e aos direitos das crianas e adolescentes, intercmbio de saberes, incentivo leitura, reciclagem de resduos slidos e prticas agroecolgicas. J o Programa de Solues Inovadoras que desenvolve atua em cadeias produtivas sustentveis, monitoramento ambiental e apoio ao desenvolvimento de mecanismos inovadores e polticas publicas relacionadas com REDD+ e PSA, nas esferas estadual, nacional e internacional. muita coisa, em tese e no papel. Mas deve ter tido uma avaliao concreta para receber o prmio de uma instituio como a Gulbenkian. Projetado contra o pano de fundo da principal frente que avana sobre a oresta pelo sul do Amazonas, sem encontrar barreiras e sem alternativas ao desmatamento, qual o signicado do trabalho da FAS nessa rea cada vez mais crtica do Estado? Parece que no h. Mas para confrontar a avaliao internacional preciso que os intelectuais do Amazonas conheam e analisem o signicado dessa ao de tantos mritos reconhecidos l fora. O governo de Eduardo Braga, que deu suporte ao empreendimento comandado pelo Bradesco, foi uma decepo. Fez mais pela ecologia na retrica do que na prtica. Se que fez coisas signicativas.

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9 A origem do desmatamentoO Ministrio Pblico Federal quer saber a natureza das relaes comer ciais entre trs dos principais grupos do agronegcio no Brasil com as empresas e integrantes da famlia Junqueira Vilela, acusada de chear o maior esquema de desmatamento da Amaznia. Ofcios com pedido de informaes foram encaminhados ao grupo JBS, o maior processador de carne bovina do mundo, Amaggi Exportao e Importao, uma das maiores companhias de compra e venda de gros do pas, e a Elusmar e Era Maggi Scheer, dirigentes do grupo Bom Futuro, outro lder no agronegcio. No final de junho os Junqueira Vilela foram flagrados pela operao Rios Voadores, que desmontou organizao criminosa que criou tcnica especial para a rpida converso de florestas em latifndios, utilizando metodologia cientfica, mo de obra escrava e uma srie de fraudes documentais. O MPF disse em nota, que o sistema movimentou 1,9 bilho de reais entre 2012 e 2015 e destruiu 300 quilmetros quadrados (ou 30 mil hectares) de florestas em Altamira, no Par.. O prejuzo ambiental foi avaliado em R$ 420 milhes. Investigaes do MPF, Polcia Federal, Receita Federal e do Ibama vericaram que entre 2012 e 2015 a Amaggi e os empresrios Elusmar e Era Maggi Scheer transferiram R$ 10 milhes para Antnio Jos Junqueira Vilela Filho, conhecido como AJ ou Jotinha, e para um cunhado de AJ, Ricardo Caldeira Viacava. No mesmo perodo, a JBS transferiu R$ 7,4 milhes a AJ e a uma irm dele, Ana Paula Junqueira Vilela Carneiro. Como essas transaes comerciais podem ter sido feitas para compra de gros ou animais procedentes de reas desmatadas ilegalmente, o Ministrio Pblico quer o testemunho dos compradores. O MPF quer averiguar se a responsabilizao civil por dano ao meio ambiente pode, em tese, atingir as empresas compradoras, pois, segundo o Superior Tribunal de Justia (STJ), para o fim de apurao do nexo de causalidade no dano ur banstico-ambiental equiparam-se quem faz, quem no faz quando deveria fazer, quem no se importa que faam, quem cala quando lhe cabe denunciar, quem financia para que faam e quem se beneficia quando outros fazem, sendo a responsabilidade ambiental objetiva. Alm de questionar os motivos das transaes comerciais, o MPF solicitou informaes sobre a origem e o destino dos bens comercializados.A justia do Brasil: mais cara do mundoO sistema de justia no Brasil, englobando o poder judicirio e o Ministrio Pblico, custou ao pas, em 2014, o equivalente a 1,8% de toda riqueza nacional, ou cerca de 87 bilhes de reais por ano em valores atualizados. quase trs vezes o or amento anual do bolsa famlia. O oramento da justia no Brasil pode ser o maior por habitante dentre todos os pases do hemisfrio ocidental. Supera com muita folga o de outros pases em diferentes nveis de desenvolvimento, tanto em valores proporcionais renda mdia como em valores absolutos per capita. O oramento anualper capitado poder judicirio brasileiro equivalente a cerca de 130,32 dlares ou 4,23 euros, segundo clculos feitos por Luciano Da Ros, na ltima edio da revista do Ob servatrio de Elites polticas e sociais do Brasil So valores superiores aos de todos os pases da Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (a OCDE), com exceo apenas dos gastos de tribunais suos (122,1 euros per capita) e alemes (103,5 euros). A burocratizao, a morosidade gerada porum vasto volume de procedimentos e a terceirizao infor mal para assessores das tarefas dos juzes talvez sejam a causa do nmero absurdo de servidores encontrado por Da Ros. Ele mostra que esse contingente de funcionrios chegava, em 2014, a 412.500, o que d 205 servidores judiciais deles para cada 100 mil habitantes, conforme estatsticas do prprio Conselho Nacional de Justia, rgo superior da administrao no setor. No h nada igual no mundo. Com essa mquina pesada, o custo por cada deciso judicial em mdia, de R$ 2,2 mil ou 691 no Brasil. Na Itlia, por exemplo, de R$ 1,6 mil ou 516. O Ministrio Pblico no discrepa nesse aspecto do judicirio. Ooramento do MP no Brasil foi de R$15,4 bilhes em 2014, o equivalente a 0,32% do Produto Interno Bruto. Ele proporcionalmente superior ao da maioria dos pases, nesse cmputo includo todo o poder judicirio. Esses dados no incluem as despesas das atividades que se conectam com a Justia: a policial e a prisional, que tm o mesmo gigantismo. Essa anomalia persiste e se renova sempre que a soluo encontrada para a lentido e a deficincia na prestao jurisdicional resulta no aumento das estruturas e remuneraes, que no alteram ou apenas retocam a desburocratizao da justia e a reduo da judicializao da vida social.

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10 Os escrpulos de conscincia Benedito Carvalho Filho Li o seu longo artigo no JP 610 sobre o ex-governador, ministro e senador na poca da ditadura e quase presidente, como voc disse. Quando terminei de ler o artigo me lembrei da lsofa Hannah Arendt (1906-1975), aluna de Heidegger, no seu livro Eichmann em Jerusalm Um relato sobre a banalidade do mal Hannah Arendt foi uma terica poltica alem, de origem judaica, que atuou tambm como jornalista e professora universitria. Escreveu livros que hoje so clssicos, como As origens do totalitarismo (1951), A condio hu mana (1958), Homens em tempos sombrios(1968). Por Ei chmann em Jerusalm um relato sobre a banalidade do mal (1963) considerada uma das pessoas mais inuentes do sculo 20. Adolf Eichmann foi um ocial da Gestapo nazista responsabilizado pela logstica de extermnio de milhes de pessoas. Ele no era um monstro, como nos revelou Hannah Arendt, nem um corrupto, mas um burocrata, cumpridor do seu dever, que no ostentava riqueza e era, certamente, honesto dentro dos padres da poca e no algum com um esprito demonaco e antissemita. Tambm, no possua um histrico de violncia e muito menos aparentava caractersticas de um carter distorcido, como observou a lsofa, que, inclusive, o entrevistou. Ela perguntava: Ser que a natureza da atividade de pensar, o hbito de examinar, reetir sobre qualquer acontecimento, poderia condicionar as pessoas a no fazer o mal? Estar entre os atributos da atividade do pensar, em sua natureza intrnseca, a possibilidade de evitar que se faa o mal? Ou ser que podemos detectar uma das expresses do mal, qual seja, o mal banal, como fruto do no-exerccio do pensar? Continuava ela: O que tornava Eichmann uma aberrao era o fato de ele nunca haver experimentado as exigncias do pensamento diante dos acontecimentos. A questo que a lsofa se prope a aprofundar, ento, a ausncia do pensamento e sua possvel relao com os atos maus. No estou afirmando que o acreano Jarbas Passarinho tinha semelhana com o cruel Eichmann, mas diante de uma ditadura que tomava novos contornos penso no que disse durante a reunio do AI-5 em 1968: s favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrpulos de conscincia![1] Uma pessoa inescrupulosa aquela que diante de qualquer ato realizado no sabe determinar a moralidade do mesmo, mas que se encontra num mar contnuo de dvidas das quais no sabe sair,e, na maioria das vezes, age sem conscincia, levada, muitas vezes, pela soberba e desejo de poder, como estamos vendo agora com esse presidente provisrio. Essa falta de escrpulo sempre esteve muito presente. Pessoas inescrupulosas, foradas pelo momento, tomam atitudes que pode nos levar tragdia. Cada um analisa os homens de seu tempo de uma forma e dentro de sua perspectiva, que nunca neutra. No duvido da honestidade de Passarinho, mencionada por ti, que diz ter acompanhado parte de sua vida. Recordo, ainda, da crtica que escreveste sobre um de seus livros publicado por ele, onde fazias duras crticas sua obra. Ele sabia polemizar, ia para o debate, era um homem culto, que chegou, inclusive, a ser amigo do marxista Florestan Fernandes no tempo em que os dois eram senadores, ambos mantendo o respeito mtuo, apesar de posies radicalmente opostas no campo da poltica, como dizia o prprio socilogo. Mas dicilmente as pessoas que sofrerem e viveram os 21 anos de ditadura militar, principalmente os que foram presos, torturados, perseguidos, iro per doar ou compreender as virtudes de Jarbas Passarinho. A vtima no perdoa o seu algoz, a no ser em casos excepcionais, como Mandela, que passou dcadas na priso e perdoou os brancos. As marcas da ditadura, que comeou em 64 e se aguaram logo em seguida, marcou profundamente uma gerao e a falta de escrpulos do coronel teve implicaes profundas no futuro do pas. Essa parece ser uma das imagens a mais negativas que Jarbas Passarinho deixou, como podemos ver ao consultar os livros de histria. Em 1969, ainda bem jovem e muito ingnuo, mas cheio de ideais, sofri os efeitos da ditadura em Belm, da qual o coronel foi um dos articulistas. Tento no manter rancor e ressentimento, mas no tivee nem tenho nenhuma admirao por Jarbas Passarinho, mesmo quando no est mais entre ns. Uma simples ao pode prejudicar o rumo da histria. Passarinho, com sua condescendncia fez parte da trama tecida naquele momento histrico pelo o qual o pas estava atravessando, pois, com isso, contribuiu com a morte de muitas pessoas e as torturas nos pores dos crceres. Certamente os militares no alterariam os seus votos, mesmo que a ao do Passarinho fosse contrria, mas a sua frase (que cou para histria) jamais ser esquecida. Hoje, diferentemente de Kant e mais perto de Freud, diria que nesse vazio tico em que vivemos, somos levados a pensar que os homens no agem movidos somente pela razo (a chamada vontade santa na qual a vontade confor maria todas as suas inclinaes lei moral). Cada vez mais percebo que no somos senhores na nossa casa e, muitas vezes, damos pouco valor conscincia, contribuindo para que acontea certas tragdias que mal imaginvamos, movidos, muitas vezes, pelo nosso desejo cego de poder que pode nos levar destruio.

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11 Dvida do governo chega a 70% do PIBQuando 2016 chegar ao m, em 31 de dezembro, a dvida pblica brasileira dever chegar a espantosos 77% do Produto Interno Bruto do pas, previsto para chegar a 6 trilhes de reais. Somadas as dvidas interna e externa, o resultado uma dvida lquida total de 4,3 trilhes de reais. A previso do dcit scal nominal, j aprovado pelo Congresso, de 570 bilhes de reais (R$ 170,5 bilhes primrio mais R$ 400 bilhes de juros). At o ms passado, o dcit efetivamente realizado alcanou R$ 225,5 bilhes. Nessa progresso, restariam R$ 345,0 bilhes a serem incorporados ao estoque da divida at o nal do ano. Esses nmeros s no causam impacto, conforme sempre insiste o professor Ricardo Bergamini, porque a imprensa omite o estoque da dvida em poder do Banco Central, que de mais de R$ 1,3 trilho. Mas essa justamente a parte mais importante da dvida, visto que nada mais do que uma pedalada ocial(aumento disfarado de base monetria), que no existiria se o Banco Central fosse independente, argumenta com razo Bergamini. Em 2010, quando Dilma Rousse se elegeu presidente da repblica, sucedendo seu companheiro de partido, Luiz Incio Lula da Silva, essa dvida representava17,86% do PIB em 2010. Em junho deste ano, no ms seguinte ao afastamento de Dilma, a proporo j era de 21,97% do PIB, com crescimento real em relao ao PIB de 23,01%. Com ironia, Bergamini aponta o paradoxo desse Brasil fantstico: crime se o governo for nanciado por bancos do qual seja o controlador; mas se for nanciado pelo Banco Central mecanismo de controle de poltica monetria. Lembra que s um Banco Central independente acabaria com a orgia de carregar a dvida do governo. um ralo incontrolvel. No h como fazer poltica monetria com esse ralo aberto. Em sentido gurado o governo seria um lho irresponsvel que gasta vontade sabendo que no nal o pai (Banco Central) vai bancar a orgia. Assim muito fcil governar.Dvida LquidaTotal da Unio (Interna e Externa) Fonte MF Base R$ bilhes. PIB 2002 (R$ 1.488,8 bilhes); PIB 2010 (R$ 3.885,8 bilhes); PIB 2016 previso (R$ 6.007,2 bilhes). Hoje, com essa normopatia que se alastra pelo mundo, como pudemos ler na sua matria sobre o absurdo e estpido crescimento do estupro no Brasil (e no mundo), vemos a banalidade do mal se alastrando e que no sabemos explicar. Que descanse Jarbas Passarinho, nesse momento em que a falta de escrpulo invade o mundo em todas as dimenses do nosso cotidiano. Sem liberdade no pode haver nenhum ato moral; para sermos livres, precisamos ser obrigados pelo dever de sermos livres, o que um duro desao, principalmente nesses tempos sombrio do vale tudo em que vivemos.MINHA RESPOSTAHannah Arendt manteve sua relao intelectual e afetiva com Martin Heidegger, apesar de sab-lo na mais inocente das verses simptico ao nazismo, que o garantiu como reitor de uma universidade alem, graas sua car teirinha do partido. O que lanou nuvens sombrias sobre a sua biografia, sem contaminar o poderio do seu pensamento. Assim como Florestan Fernandes e outros intelectuais e militantes de esquerda, Arendt talvez tivesse mais compreenso por Passarinho do que Benedito Carvalho. Passarinho no negou o que de errado e ruim fez, assumindo-os. Falhas terrveis que no anulam a outra parte da sua vida. Geisel foi condescendente com a tortura, num momento em que podia combat-la, durante o governo Castelo Branco. No entanto, desencadeou o processo de abertura poltica por dentro do regime militar que desembocaria na restaurao da democracia no Brasil. A histria feita por humanos, demasiado humanos, como alertava Nietzsche.

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12 VIAGEMs trs da tarde do primeiro domingo de janeiro, o navio Par, da frota do Lide (que era empresa estatal do governo federal), desatracou do porto de Belm com 116 passageiros. Dezessete deles iam para So Lus, quatro para Tutia (ainda no Maranho), 55 para Fortaleza, quatro para Natal, oito para Recife e 28 para o Rio de Janeiro, que ainda era a capital do Brasil. Na 1 classe, 45 passageiros.NAVEGAOFaziam a navegao de cabotagem e de passageiros pelo litoral, parando em Belm, o Lide, a Booth Line, a Costeira, a Lamport, a Nor thern Pan-America Line, a Linha Roruega-Sul-Americana, os SNAPP e a Navegao Federal do Amap, alm de companhias par ticulares. O movimento de navios era intenso.PROFESSORO professor J. Serro oferecia seus prstimos base do curso de humanidades que fez, estudos superiores de filosofia e dedicao de muitos anos ao ensino. Aceitava alunos de matemtica e lnguas de curso ginasial e comercial ou das principais matrias de concursos e exames usuais. Tambm podia fazer tradues e preparar cor respondncia estrangeira, alm de redaes de qualquer espcie em portugus. O interessado podia procur-lo na sua casa, na doutor Assis, Cidade Velha, onde estava aberta a inscrio ao curso ginasial em um ano (o antigo 91 ou pr-91).AULASQuem quisesse ter aulas de estenograa, datilograa, ores, corte geomtrico e de costura devia se dirigir Gentil Bittencourt, entre Generalssimo e Quintino.REMOOAntonieta Dolores Teixeira foi removida da Mesa de Rendas de Santarm para a Secretaria da Fazenda do Estado, em Belm. Um anncio foi divulgado pela imprensa chamando-a para se apresentar no prazo de 20 dias ao servio da sua nova lotao, sob pena de ser proposta sua demisso. Talvez, alem do ato administrativo, houvesse uma motivao poltica na iniciativa. Os baratistas estavam no poder, com o major Moura Carvalho no gover no. A funcionria era colaboradora dos jornais santarenos, assinando como A. Dolores.TECNOLOGIANo 2 andar do edifcio Vesvio, J. C. Maciel colocava venda o Airette, o mais famoso aparelho de ar condicionado porttil construdo at o momento. Para a maravilha tecnolgica funcionar, bastava lig-lo numa simples tomada de corrente comum. Ele refrigerava os dias abafados e aquecia os dias de inverno, se tal estao houvesse em Santa Maria de Belm do Par. memriaC OTIDIAN Odo 1948PROPAGANDAUm mundo pelo marA Booth [Steamship Company Limited] foi a maior, mais importante e mais adaptada das empresas estrangeiras de navegao de cabotagem que operavam no porto de Belm. Sua existncia estabeleceu uma relao entre a capital paraense e Liverpool, na Inglaterra, onde a companhia possua a sua sede. Ela utilizava oito navios nas linhas com a Europa e a Amrica do Norte. Neste anncio, de 1948, a Booth anunciava uma viagem direta de Belm a Nova York pelo Sussex Trader. Tambm para a Inglaterra e Portugal havia viagens sem escala. A empresa aceitava cargas para a Noruega, Sucia, Finlndia, Dinamarca, Espanha, Grcia, Austrlia, Nova Zelndia e outros pases, incluindo os africanos, passando por Liverpool e Anturpia. Da Booth no ficaram registros, nem o seu prdio, tipicamente ingls, no incio da Presidente Vargas, posto absurdamente abaixo.

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13 PEIXESRegistro da imprensa: Duas canoas geleiras trouxeram ontem do rio Arari regular quantidade de peixes, que foi distribuda pelos mercados e ambulantes aps a inspeo mdica.COMUNICAOA comunicao rpida para fora de Belm era atravs de cabogramas, que seguiam como o prprio nome indica pelo cabo submarino. A americana Western Telegraph, que oferecia esse servio, recorria imprensa para notificar os destinatrios de mensagens que estavam retidas no seu escritrio por no ter aparecido quem as buscasse.CASAEra assim uma casa da Pariquis, em frente ao mercado dos Jurunas (grafado assim mesmo, para destacar a referncia aos ndios, ignorada pouco tempo atrs, quando da tentativa de mudana de nome de rua no bairro), posta venda: sala de visitas, alcova, varanda, dois quartos, segunda varanda, cozinha mosaicada, despensa, banheiro mosaicado, sentina mosaicada e grande quintal. Pintada a leo at a varanda, bem forrada e assoalhada a capricho de acapu e pau amarelo. Tpica morada de ento, pois.TERRENONa Alcindo Cacela, entre Independncia (Magalhes Barata) e Gentil estava venda um timo terreno com 33 metros de frente por 50 de fundos )1.650 metros quadrados). Quanto valeria hoje?ATENDIMENTOSEm certo dia, o doutor Flexa Ribeiro fez duas obturaes e duas extraes no gabinete dentrio do Instituto de Aposentadoria e Penses dos Empregados em Transportes e Carga. O movimento do ambulatrio nesse mesmo dia registrou oito curativos, 10 injees, quatro infravermelho, dois ultravioleta, uma pequena cirurgia e duas visitas domiciliares. Estavam no planto vespertino os mdicos Flvio de Brito Pontes e Aristolina Leo de Sales, mais o enfermeiro Jos Beleza dos Santos. FOTOGRAFIAO m do belo navioO Presidente Vargas era o maior, mais bonito e mais vistoso navio da linha branca, a frota de embarcaes construdas na Holanda adquirida em 1954 pelo governo brasileiro para navegarem, a partir do ano seguinte, pela maior bacia fluvial do mundo. Foram incorporados aos SNAPP, empresa federal que operava na Amaznia, a partir de Belm. Logo, porm, o Presidente Vargas seria desviado das viagens mais longas para cobrir um percurso menor entre Belm e Mosqueiro, quando o acesso estao de frias dos belenenses s era possvel pela via fluvial. Quando foi aberta a ligao terrestre, inicialmente utilizando balsas, o fluxo pelo navio caiu. Ele passou a fazer tambm a rota entre Belm e Soure, no Maraj. Numa noite de junho de 1972, um ms antes do veraneio tradicional, ele adernou e afundou quando atracava ao trapiche de Soure. Assim encerrava melancolicamente sua gloriosa carreira de 17 anos de servios, com um nico acidente antes do episodia fatal, mas sem causar qualquer vtima humana.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: CEP: 66.053-030E-mail: lfpjor@uol.com.br www.jornalpessoal.com.br Blog: Luiz Antonio de Faria Pinto (LuizP) Complexos Talvez o mais espantoso dos tantos outros detalhes espantosos desse imbrglio principiado pelo mensalo, entremeado pela Petrobrs e pelos tantos lhotes a reclamarem algum tipo de paternidade, que emerge de e para todo o sempre um certo tipo de carter bem ao feitio dessas bandas tupiniquins a impossibilidade de se pedir um mero que fosse pedido de desculpas pelos tantos aprontos (e afrontas) a esses 200 milhes de governados, e que assim se deixam e contentam em ser. como se toda essa avalanche de problemas, crises, escndalos mil e outras cositas ms a afora fosse uma decorrncia do acaso, de um sei l no sei das quantas onde reinaria uma conjuno de fatores aleatrios divorciados de causa e efeito. quando a turma das alturas se torna useira e vezeira do j famoso tirar o meu da reta, e sempre com a estratgia de trombetear a sua vitimizao ante o demonizado inimigo inescrupuloso de rdeas soltas a ameaar os interesses da nao. E esse imbrglio cai cer tinho como uma luva para a ento governana petista, que dizia ter inaugurado uma nova fase poltico-institucional no pas a partir de 2003, agitando a sua bandeira de propsitos de conquista e consolidao de tantas oportunidades histricas tempos que o ento nunca antes nesse pas deveria ser considerado algo bem mais duradouro alm de um simples bordo de palanque, ou frase de efeito pensada nos gabinetes oficiais. At e de fato havia uma esperana por novos tempos, tempos em que se apostava, mesmo com um p atrs e muita ga, que novos alicerces fossem plantados para uma espcie de refundao do pas sob novas ticas e parmetros, onde fosse permitido com mais clareza e menos paixo entender o passado para acertarmos o presente e balizar um futuro slido para todos. Mas bem se conhece o dito pecado da soberba, alapo pronto a engolir o manda-chuva de planto que seja investido que est de uma infalibilidade a no tolerar uma rusga crtica que se desenhe em uma testa anal impossvel ter algum melhor do que eu aquela estria/histria bem conhecida no longo caminho de avanos e tropeos da humanidade. Claro: meter os ps pelas mos est longe de ser atributo de um s algum, seja pessoa, empresa, par tido poltico, governo algo comum a todos experimentar o erro em alguma fase da vida, resultando da uma consequncia dolorosa para ensejar um melhor e eficaz aprendizado quando olhamos o prprio espelho. Porm quando h consequncias para toda uma coletividade, uma olhada no espelho retrovisor no seria nada mal, talvez pudesse servir como um freio do tipo pensar trs vezes antes de optar pela sada fcil e aleatria daquela automtica auto iseno de culpa ou responsabilidade pelo que foi ou deixou de ser feito. Algo que no mundo poltico costuma ser a maior queda do paraso das boas intenes e que, mesmo ante todas as evidncias, no se poupar litros de leo de peroba para convencer o distinto pblico (e eleitor) do contrrio E nada de complexos de culpa! Luiz Otavio CardosoPassarinhoLi com ateno sua matria Quase Presidente (JP 610) alusiva morte do Sr. Jarbas Passarinho e ao possvel legado que, como relevante ator poltico em seu tempo, ter deixado para a posteridade. Desde j, louvo sua coragem em reconhecer-lhe as virtudes que o notabilizaram como homem pblico, mesmo tendo ser vido ditadura militar que entre ns durou 21 anos. Essa ressalva importante porque no so poucos os intelectuais que, temendo ser alvo de crticas da esquerda de vis autoritrio, preferem silenciar, acomodando-se numa conveniente zona cinzenta de conforto. Esse nunca foi evidentemente o seu caso, um exemplo de intelectual brilhante que no teme vir arena pblica dizer o que pensa. No divirjo da sua anlise quanto s virtudes de Jarbas Passarinho, notadamente sua inteligncia e probidade, mas penso que seja razovel conjecturar que o seu legado poltico logo ser desvanecido, sobretudo pela escassa identificao com os ideais da democracia representativa do tipo liberal. Passarinho no foi, at onde vejo, um liberal nem tampouco um conservador, mas apenas um anticomunista de alto calibre que parece ter atribudo a si mesmo a tarefa de refutar as teses centrais do mar xismo e, especialmente, conjurar as ameaadoras experincias ento ofertadas pelo regime sovitico e seus satlites. No foi, por exemplo, um anticomunista que defendesse as vantagens do funcionamento do livre mercado e da competio eleitoral como elementos constitutivos essenciais da democracia representativa. Ao contrrio, Passarinho apoiou ostensi-Cart @ s

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15 vamente um regime ditatorial que interveio de modo robusto na economia a estatizao foi to feroz que se dizia poca que era possvel passar do capitalismo ao comunismo por decreto e obliterou o exerccio dos direitos civis e polticos. verdade que em alguns escritos e at mesmo em sua propaganda eleitoral Passarinho se apoiava na doutrina social da Igreja Catlica para se contrapor ao mar xismo. Ainda assim, para algum que possua uma inteligncia to rutilante, deve-se admitir que se tratava de um arcabouo terico algo difuso para o tamanho de sua ambio poltica e intelectual. Pode-se argumentar tambm que foi um nacional-desenvolvimentista, adepto de uma doutrina infelizmente ainda muito recorrente entre ns, como se observa agora da fracassada Nova Matriz Econmica adotada pelo desastrado governo da presidente Dilma Rousse. No mesmo perodo, o ditador Augusto Pinochet, orientado pelo economista Milton Friedman e pelos chamados Chi cago Boys, adotou um programa de liberalizao da economia que possibilitou ao Chile ter um crescimento econmico consistente nas dcadas seguintes. Os militares brasileiros, imbudos da funda convico de que sabiam o que era melhor para o pas, caminharam no sentido contrrio, negando simultaneamente ao Brasil liberdade econmica e liberdade poltica, atrasando, assim, o desenvolvimento de nossas instituies polticas, bem como um consistente crescimento econmico. E Passarinho foi um dos arautos, certamente o mais impor tante, de um regime nacional-desenvolvimentista autoritrio que interditou nossa vida poltica democrtica e provocou nosso atraso econmico com ampla repercusso negativa at aos dias de hoje. Passarinho no serve, portanto, como modelo nem mesmo para os movimentos da direita democrtica do tempo presente, pois nunca foi um liberal ou conservador, mas um dedicado e, decerto, brilhante anticomunista, mas sem uma viso adequada a respeito do funcionamento das instituies democrticas. Sejamos francos: a democracia representativa liberal no era a praia de Jarbas Passarinho. Quando o comparamos com Roberto Campos, por exemplo, ca ainda mais evidente a aridez ideolgica do coronel e parlamentar acreano-paraense em face do iderio defendido pelo economista liberal matogrossense. Assim, desprezado pela esquerda e ignorado pelo centro e direita, factvel ponderar que o legado poltico de Passarinho logo ser desvanecido. Talvez tenha, quando muito, algum valor histrico como produto tpico da Guerra Fria do qual, a sim, ele pode ser reputado como um notvel exemplo de relevante ator poltico anticomunista. Andr Silva de OliveiraMINHA RESPOSTAO leitor est certo na sua avaliao. A ironia da histria, no entanto, que no perodo mais estatizante do regime militar, o do general Ernesto Geisel, o mais presunoso e o mais frustrante de todo o perodo, o coronel Passarinho estivesse em desgraa. Os castelistas queriam um ajuste de contas com ele, que tomavam por traidor do primeiro presidente-general, por causa do seu apoio a Costa e Silva. Geisel recorreu a contragosto aos servios de Passarinho no Senado, mas era o seu oposto e opositor. O legado de Passarinho no ideolgico nem poltico: simplesmente biogrco. a sua prpria vida, singular no panorama dos tempos da ditadura.LeitorMuito bom o texto do leitor (ou j colaborador) Elias Tavares em sua matria intitulada Do Navio no Natal a Delns e Quetais, publicado em seu JP 611,texto recheado de ironias bem colocadas, principalmente em seu terceiro captulo destinado aos livreiros de rua e realmente em nossas caladas no h cultura que se ature e perdure. Quanto ao teu tema As Crianas Embrutecidas, nem me impressionaria pela cortina pesada que ainda se lana sobre esse tipo de assunto, lembrando que nossa sociedade ainda pautada em valores que exigem um alto grau de dissimulao face ao enfrentamento de seus conitos mais internos. Ainda procuramos ver o lado dos outros (principalmente se estes forem socialmente desfavorecidos) como se fosse algo distante e que no valeria a pena nos ater s desgraas alheias. a famosa estratgia defensiva (e egosta) do cada um na sua no da minha mesa, no comigo, que melhor se traduziria pelo avestruz colocando a sua cabea no primeiro buraco que encontrar. Luiz Otvio M Cardoso emria do CotidianoEste deveria ser, na verdade, o 8 volume desta srie, pois no ano passado, para atender procura dos leitores, publiquei um volume extra com o 1 e o 2 volumes (revistos e corrigidos), que se esgotaram. Virou um lbum, pelo seu volume e significado. A srie retomada agora e espero que corresponda s expectativas dos leitores.M

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Maiores cidades da Amaznia Zona FrancaAs 487 indstrias instaladas na Zona Franca de Manaus venderam no ano passado 19% a menos do que em 2014. No primeiro semestre deste ano o movimento foi 16% menor do que no mesmo perodo de 2015, cando em 7,8 bilhes de reais. A queda poder ser ainda maior at o m do ano em funo da fragilidade da economia da ZF. No caso dos televisores, por exemplo, 90% dos componentes so importados. quase como se a tarefa local fosse montar o que j chega quase pronto.O reprter de polcia1 Manaus/Amazonas 2.020.301 2 Belm/Par 1.432.844 3 Ananindeua/Par 499.776 4 Porto Velho/Rondnia 494.013 5 Macap /Amap 446.757 6 Rio Branco/Acre 370.550 7 Boa Vista/Roraima 314.900 8 Santarm/Par 290.521 9 Palmas/Tocantins 265.409 10 Marab/Par 257.062 11 Castanhal/Par 186.895 12 Parauapebas/Par 183.352 13 Araguana/Tocantins 167.176 14 Abaetetuba/Par 148.873 15 Ji-Paran/Rondnia 129.242 16 Camet/Par 129.161 17 Bragana/Par 116.164 18 Marituba/Par 113.353 19 (2) Parintins/Amazonas 110.411 20 (1) Barcarena/Par 105.385 Onze das 20 maiores cidades da Amaznia so paraenses, mas a maior, Manaus, se distanciou ainda mais de Belm, agora com 500 mil habitantes alm da capital paraense. A capital amazonense concentra metade da populao do Estado, que tem 62 municpios e o maior do pas, com 300 mil quilmetros quadrados a mais do que o Par, o segundo do ranking. Por causa disso, Manaus no possui regio metropolitana. Ao contrrio, com os trs municpios que a integram, a Grande Belm supera ligeiramente Manaus em populao, num inchao humano pela periferia da cidade que agrava os problemas da rea. A capital paraense tem 20% do contingente humano do Estado. Na listagem, observa-se que Bar carena desceu uma posio e Parintins, no Amazonas, subiu dois lugares. Dois jornalistas deram dignidade e seriedade chamada reportagem policial, mais policial do que jornalstica rebarbativa, imprecisa, repetidora de esteretipos e preconceitos, alm de frequentemente desonesta ou facciosa, a favor dos policiais amigos e no da ver dade dos fatos. Em So Paulo, Percival de Souza, cuja aparncia franzina enganava sobre a sua competncia, seriedade e honestidade. No Rio de Janeiro, Aguinaldo Silva, que tinha dois componentes em geral incompatveis com a prtica dos reprteres do setor: era um escritor (ccionista de qualidade desde o primeiro livro) e tambm um homossexual. Mas Aguinaldo mar cou poca com suas reportagens policiais para o semanrio alternativo Opinio na primeira metade dos anos 1970. Matrias bem escritas, bem apuradas, em abordagem original. As capas que os textos de Aguinaldo ocuparam permitiam ao David da imprensa derrotar o Golias, que era a revista Veja. Reportagens to memorveis que mereceram um livro, Memrias de um ex-reprter de polcia Li sobre o lanamento, mas no li ainda o livro. Fiquei contente ao saber que um escritor de enorme sucesso prossional e comercial como autor de novelas da TV Globo no renegou o seu passado, to distinto do presente.