Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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O MAIOR CANALHAO ANO E A HISTRIA PLANALTO AMEAA VALE o a S trs paraenses tiveram possibilidade real de ser presidente em quase 130 anos de repblica no Brasil: Lauro Sodr e Serzedelo Corra na primeira repblica e Jarbas Passarinho na quarta repblica. Sodr e Passarinho foram os que mais perto chegaram e talvez tenham sido dois dos quatro polticos mais inuentes em todo esse perodo, com Magalhes Barata e Jader Barbalho. Deles agora resta o senador peemedebista, ainda relativamente jovem, aos 71 anos, mas j na fase descendente de uma carreira que prometia muito e frustrou as expectativas. Aos 96 anos, mas inativo h bastante tempo, Jarbas Gonalves Passarinho se foi no incio da manh do dia 5, em Braslia. Sua ltima tentativa de voltar ao poder se deu em 1994, 30 anos depois da sua ascenso linha de frente da poltica nacional, quando foi derrotado na disputa pelo governo do Par pelo mdico Almir Gabriel. Parecia naquele momento que Passarinho destrura sua biograa. O patrono da sua candidatura era aquele que devia ser o seu antagonista, o ento PASSARINHOQuase presidenteAcreano de nascimento, paraense por formao, Jarbas Passarinho foi um dos personagens mais poderosos nos 21 anos da ditadura 1964/85, por ser militar e, ao mesmo tempo, poltico brilhante. A reviso da sua biografia permite ver melhor o que ele foi e a poca de que participou.

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2 governador (no segundo mandato) Jader Barbalho, o principal lder da oposio no Estado ao regime militar. J na eleio anterior Jader conquistara seu antigo adversrio praticamente carregando-o para a cadeira senatorial. Passarinho estava muito abalado pela doena que levaria morte a sua mulher, Ruth, sem condies de participar da campanha eleitoral. Ficou ento famosa a frase do governador: senador, cuide da sua esposa que eu cuido da sua eleio. Naquele momento, Jader elegeria qualquer um, mas o nome de Passarinho era fcil de carregar. Era mais do que isso: um excelente investimento. Abonaria parte do currculo j manchado do adversrio da vspera e lhe daria crditos para o futuro. Jader cobrou sutil e engenhosamente o dbito: o apoio a Passarinho para o governo serviria de aval para a arriscada busca que o governador, j identicado com a corrupo na poltica, faria por uma vaga no Senado. Jarbas per deria de qualquer maneira, ainda que superasse o opositor, aditivado pelo sucesso do Plano Real do PSDB. Passaria a ser dependente de uma liderana menor do que a sua e destoante dela. Soube, no incio da campanha, que Passarinho estava depressivo, falando com diculdade, arrastando os ps, fechado em si mesmo. Fui ter uma conversa com ele no seu gabinete de campanha, numa casa ampla cedida por um amigo. Fechei a porta com a chave e tive ali a mais densa e ntima das muitas conver sas que travamos, eu sempre como um reprter, ele como personagem e fonte. Conversamos como dois velhos opositores, numa relao que se manteve em alto nvel, apesar de tantos atritos e tur bulncias, pelo respeito mtuo e certa admirao, a minha muito maior. Relatei-lhe minha interpretao sobre aquela aliana estranha, extica e mal posta para ele. Associei aquela depresso, verdadeiramente clnica, conscincia que ele tinha de ser um instrumento no jogo de Jader. Passarinho admitiu, mas disse que no tinha alternativa. Devia o ltimo mandato senatorial ao ento governador, num dos momentos mais dolorosos para o primeiro governador do regime militar no Par, ministro de dois gover nos militares e um civil (por infelicidade, o de Fernando Collor de Mello). Ruth Castro foi a primeira e nica paixo do jovem cadete, com a qual casou e se manteve por tantos anos, at ela morrer. Foi-lhe to el que, na ntimidade, os amigos desdenhavam dessa extrema delidade ao compromisso matrimonial. Como quase sempre, Jar bas reagia com bonomia e um sorriso cmplice. Mas era inabalvel como uma rocha na ligao mulher. Eu entendia aquele constrangimento, fruto do acatamento a um compromisso poltico desastroso, mas inevitvel, pela dvida pessoal que nele havia. O que existia de ligao entre ns me levou a provoc-lo e incit-lo a reagir. Disse-lhe que naquela postura ele j estava derrotado. E sua derrota, em tal condio, no apenas mancharia a sua biograa, mas atingia at mesmo antagonistas, como eu, que o acompanharam criticamente em toda a sua trajetria poltica. Portar-se daquela maneira na campanha anularia remissivamente as belas batalhas que travamos, para as quais mobilizvamos nossos exrcitos de argumentos, raciocnio, informao, conhecimento e capacidade de luta. Terar armas com Passarinho fazia bem, adestrava e servia opinio pblica exemplos da capacidade de duelistas de oferecerem no s um espetculo de destreza, mas de empenho pela verdade e o interesse pblico. Depressivo como estava, ele empobrecia o que isso signicara. No voltei a v-lo durante a campanha. Ele retornou a Braslia como derrotado e seu padrinho subiu como vitorioso. Jader, de uma forma competente e inodora, aposentara o segundo lder do movimento militar que cassara o seu pai, o velho poltico baratista Larcio Barbalho, que chegara a ser deputado estadual pelo PSD. Antes colocara na rota de queda o seu ex-aliado Alacid Nunes, limpando o caminho para ser o novo coronel da poltica do Par, sem dragonas. Jarbas Passarinho, a partir da, caminhou para o ostracismo e o exlio. O tempo de solido e isolamento, se lhe acarretou danos pessoais, funcionou, no entanto, como depurador e anador da sua biograa, enquanto a de Jader foi sendo corroda por ndoas e manchas. Jarbas Gonalves Passarinho, que subiu ao estrelato na caudal de um golpe de Estado, no cou menor do que Lauro Sodr, que se tornou personagem nacional na passagem do imprio repblica, como um dos seus lderes. Considerando-se essa circunstncia, positivo o legado que Passarinho deixa histria.A FALTA DA ESTRELAOs ditadores brasileiros tinham mandato de quatro anos, exceto o ter ceiro, Mdici, e o ltimo, o quinto, o general Joo Figueiredo, o pior de todos, que caram cinco anos no cargo. Anal, eram eleitos pelo parlamento, um microcolgio eleitoral, mas com legitimidade formal (por ser formado atravs de eleio direta) para a escolha j esta pela via indireta do chefe do poder executivo num regime de exceo. O primeiro presidente-general, o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, devia cumprir o mandato-tampo que lhe sobrara do antecessor, Joo Goulart, deposto pelo golpe militar. Seu tempo foi prorrogado por mais de um ano. Mas ele no fez o seu sucessor. Quem o substituiu lhe foi imposto pela linha dura, Arthur da Costa e Silva, o marechal que chegou antes de todos ao prdio do ministrio da Guerra (e do Exrcito), sentou na cadeira, que no lhe pertencia, e criou um comando paralelo ao do presidente, no qual se manteve at se impor ao antecessor, que o desprezava. Uma trombose, antecedida por um infarto institucional, provocado pelo AI-5, impediu Costa e Silva de completar seu tempo de ps-comando na presidncia. Uma junta composta pelos chefes das trs armas fez a transio para a escolha do novo presidente, que foi uma zebra, o general Emilio Gar rastazu Mdici. Nos seus depoimentos, Jarbas Passarinho diz que Mdici o chamou, quando ainda formava seu governo, depois de ser eleito pelo Congresso Nacional e antes de assumir o cargo, para lhe sugerir que o tinha como sua opo preferencial para dali a cinco anos. Passarinho foi ministro de Mdici, com brilho especial por mrito prprio e pela postura diante da gestao do AI5, a pedra de toque do novo governo.

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3 Passarinho no conrma nem desmente, mas outras fontes no duvidam mais. A primeira pedra no caminho dele para a presidncia foi a famosa frase do general Orlando Geisel, todo -poderoso ministro da guerra (porque tinha ascendncia sobre os bolses radicais, mas sinceros, que perseguiam, matavam e torturavam, na frase contemporizadora do irmo). Ele disse que no batia continncia para coronel, de patente inferior. Logo, um coronel no podia ser o comandante-em-chefe das foras armadas, que tinham sua frente ociais de quatro estrelas. Havia lideranas polticas que tinham precedncia sobre Passarinho, mas nenhuma delas, com qualidade especca no ofcio, era um anfbio pleno como ele, que transitava com desenvoltura entre a caserna e a tribuna, atuando bem em cada um dos dois ambientes. A falta das quatro estrelas, que manteve o coronel fora de qualquer cogitao, pesou contra o nico general que se apresentou como alternativa dentro do regime (o outro, Euler Bentes Monteiro, surgiu pela oposio, o PMDB, no incio do ocaso da ditadura). Foi o general Albuquerque Lima, ministro do interior no governo Costa e Silva. Ele era da mesma estirpe dos militares nacionalistas que irromperam na Amrica do Sul nos anos 1960, dos quais o mais exemplar foi o general Velasco Alvarado, no Peru. Eram os jovens turcos, latinos dispostos a fazer uma revoluo atravs da direita, mas que duraram pouco. Albuquerque Lima chegou a empolgar os quartis, mas a falta da ltima estrela lhe foi fatal. A partir da o poder de Passarinho oscilou entre uma posio nos ministrios e outra na tribuna do parlamento, como o maior orador da situao, capaz de enfrentar os oposicionistas no terreno deles, graas sua cultura, agilidade no raciocnio, aos instintos sobre a oportunidade dos momentos e ironia s vezes sarcstica que empregava com esmero. Seus debates com o senador Paulo Brossard, da oposio no Rio Grande do Sul, merecem gurar em qualquer antologia da retrica parlamentar no Brasil. Mesmo quando apenas conhecidos pela transcrio por escrito, no perdem qualidade, como os de um modelo e referncia de Passarinho, o deputado federal Carlos Lacerda, dolo de uma gerao de militares e anfbios at se juntar a Goulart numa frente antimilitar. A frase de Orlando Geisel adquiriu pleno sentido quando ele patrocinou o irmo para suceder Mdici. O general Ernesto Geisel era uma vestal, apontado como modelo de chefe militar e quase um gnio na administrao, qualicaes que uma reviso crtica da sua biograa coloca em xeque. Um dos principais integrantes do grupo castelista, Geisel e acompanhantes tinham sede de ajuste de contas com Passarinho. Acusavam-no de ter trado o marechal Castelo Branco para se incorporar ao governo do sucessor que ele no quisera ter, Costa e Silva. E de ser sempre inconvel, car reirista e volvel. Se dependesse do majesttico e prussiano presidente, Passarinho teria sido expurgado denitivamente do poder. Nas diculdades para promover sua abertura poltica condicional e controlada (segura, lenta e gradual), porm, teve que se valer do desafeto e ceder-lhe o espao que lhe pertencia como o mais orgnico dos intelectuais da ditadura, talvez o mais brilhante na combinao de atributos militares e civis, administrativos e polticos. E Passarinho sobreviveu para fazer ainda histria.A FRASE QUE MACULOUO general Olympio Mouro Filho comeou o golpe militar que derrubou o presidente constitucional do Brasil, o trabalhista Joo Goulart, em 31 de maro de 1964. No consultou ningum para por a caminho do Rio de Janeiro a tropa sob o seu comando em Minas Gerais. Saiu na frente e sur preendeu os conspiradores que articulavam a deposio de Jango. No dia 2, o novo governo estava completamente instalado e controlando o pas, enquanto o presidente j atravessara a fronteira para o exlio no Uruguai. Revoluo foi a autodenio do movimento. Mas o primeiro presidente que ele colocou no poder pretendia, como em todos os pronunciamentos anteriores, devolver o poder aos polticos depois de eliminar os corruptos e subversivos, apontados como a causa dos graves problemas que o pas enfrentava e para os quais no era encontrada soluo nos parmetros constitucionais e institucionais da IV Repblica. Pelos quatro anos seguintes esta seria uma ditadura envergonhada, na certeira avaliao de Elio Gaspari. No havia dvida de que o regime era de exceo: as garantias e direitos individuais estavam suspensos, as pessoas eram presas sem culpa formada, a justia militar usurpara competncia para assumir os processos polticos. Mas o governo procurava uma legitimao jurdica e poltica para os abusos que cometia. Com o quinto e mais nefando dos atos institucionais (ato que devia ser nico, em 1964), o AI-5, a ditadura se escancarou. O Brasil entrou numa era de trevas muito mais negras do que a ditadura do Estado Novo ou qualquer outra fase da histria republicana. Foi um dos momentos mais negros do pas. Sua melhor caracterizao ainda a manifestao que o ministro Jarbas Passarinho fez durante a reunio na qual o Conselho de Segurana Nacional aprovou a edio desse monstruoso documento. A interveno de Passarinho acabou com a indeciso de alguns ministros, tornando-o parteiro da criatura. Disse o ministro do general Costa e Silva: Senhor presidente, sei que a Vossa Excelncia repugna, como a mim e creio que a todos os membros deste conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e simples. Mas me parece que claramente esta que est diante de ns. Eu seria menos cauteloso que o prprio ministro das Relaes Exteriores quando diz que no sabe se o que restou caracterizaria nossa ordem jurdica como no sendo ditatorial. Eu admitiria que ela ditatorial, mas s favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrpulos de conscincia. Quando ns encontrarmos a necessidade de tomar uma deciso fundamental, tudo aquilo passa a ser secundrio em condies normais. Eu creio que ns estamos aqui pagando uma penitncia, que foi a penitncia da autolimitao que a revoluo de maro de 64 se imps. Se Passarinho no tivesse dito estas palavras, Shakespeare as colocaria na

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4 boca dele e o drama poltico no poderia ser mais profundo, como uma catarse que irrompe sem qualquer veleidade de camuagem ou subterfgio. Passarinho foi o orculo da tragdia, a guia que voou contra o cu de chumbo, a favor da tempestade que invadia o horizonte. Ele se apresentava como o guerreiro de linha de frente da ditadura, pronto para agir sem os freios da conscincia, sem a limitao que os chefes do golpe militar aceitaram. Patrocinaram muita violncia, discricionarismo e vilania, mas no endossaram uma noite de So Bartolomeu ou dos cristais. Se tivessem partido para um expurgo generalizado, teriam prevenido o AI-5? Ou, pelo contrrio, a imerso no reino de Leviat ou Behemoth teria sido mais sangrento e cruel? Os golpes militares no Chile e na Argentina, posteriores ao do Brasil, foram mais violentos porque os antagonismos eram mais extremados, os Estados Unidos tiveram papel mais ativo e amplo e o prprio Brasil cedeu a tecnologia da ditadura desavergonhada aos seus pares. Mas ambos os vizinhos saram muito melhor das suas ditaduras do que ns e expurgaram seus erros de forma mais profunda. No primeiro momento, o golpe, foi menos cruento por causa da formao das foras armadas no Brasil, com maior extrao popular (sobretudo no Exrcito)? E a nossa recuperao para uma nova vivncia democrtica foi menor em funo da pssima qualidade das nossas elites, comparativamente s do mundo hispnico no continente? So questes que a histria ainda busca responder.A DERROTA PARA SARNEYJos Sarney conseguiu para o Maranho um patrimnio que Jarbas Passarinho no soube defender: o escoamento do minrio de ferro de Carajs pelo Par. A soluo para o transporte daquele que viria a ser o principal produto da pauta de exportao do Estado (e do pas) acabou sendo uma ferrovia at o porto da Ponta da Madeira, em So Lus do Maranho. Essa convico foi repetida pelo jor nalista Paulo Oliveira, em comentrio que postou no meu blog. Decidi transform-lo num artigo, porque preciso, mais uma vez, desfazer essa falsa ver dade. No s nem principalmente para defender Passarinho, como para que os paraenses no se iludam sobre determinados acontecimentos da histria recente do Estado. A razo desse erro, apesar de tantos desmentidos j terem sido feitos, que os paraenses no se do conta de que a histria do Par no se limita ao cenrio regional ou mesmo nacional: elemento da dinmica internacional. Cer tas decises so tomadas alm-divisas e fronteiras, como o caso da forma de escoar a grande produo de minrio de Carajs. Independentemente da disputa que realmente Sarney e Passarinho travaram para beneciar seus respectivos Estados, a deciso foi tomada pelos japoneses, que seriam (e foram at recentemente, quando os chineses os desbancaram) os principais compradores desse minrio. Para eles, o produto teria que ser transportado por uma ferrovia privativa, no por uma hidrovia pblica, aberta a todos os usurios. No queriam ser expostos ao risco de falta de estoques embarcveis porque a logstica precisava cobrir distncia de mais de 20 mil quilmetros pelo mar. Uma ferrovia privada daria maior desenvoltura operacional e, nessa moldura, mais segurana, conabilidade e rentabilidade num modelo colonial de extrao, como o que foi implantado em Carajs. O porto do litoral maranhense, alis, era outro fator, com um dos melhores calados do mundo, enquanto o conhecimento ento disponvel sobre a alternativa do litoral do Par tinha um grau de incerteza e imponderabilidade que no agradava aos japoneses. Se Passarinho estivesse no Maranho e Sarney no Par, o resultado teria sido o mesmo. Quem decidiu tudo sobre Carajs foi o comprador, no o produtor, regra geral em todas as relaes coloniais. Quem decidiu pela lei Kandir, apresentada por um deputado federal paulista, que fora ministro de Collor e era do PSDB? O mesmo par tido que vendeu a Vale. O mesmo par tido que, no Par, se calou por trinta tostes simblicos. O mesmo partido que fez do Par o terceiro maior expor tador de energia bruta (para So Paulo) do pas. O PT preparou o Par para ser a maior provncia energtica nacional. por isso que a histria do Par muito maior do que os paraenses. Segue-se o comentrio do Paulo e as minhas respostas.DEBATEPaulo Li o teu artigo sobre o Jarbas Passarinho. Com toda a admirao que tenho pelo teu trabalho, sou obrigado a discordar profundamente da avaliao de que positivo o legado que Passarinho deixa histria. H controvrsias, prezado, e no so poucas. Conheo histrias de quem conviveu com ele que so bastante negativas para a biograa do acreano como poltico. L pelos anos 80, perdi a conta das vezes em que ouvi familiares e conhecidos reclamarem: Depois que o Passarinho foi para Braslia, ele esqueceu do Norte. O Par no ganhou nada com a presena dele no Congresso. Ele ainda era senador e as reclamaes continuavam: A bancada do Par no Congresso no serve nem para defender os interesses do estado. O auge das crticas era sempre a derrota que o Maranho fez o Par engolir ao ver o minrio de ferro da Serra dos Carajs ser exportado pelo Porto de Itaqui (MA). Ver os impostos sobre o embarque do minrio irem para o bolso do Sarney doeu em uma gerao inteira de paraenses. Considerando-se que as obras do porto comearam em 1966 e que o primeiro mandato de senador do Passarinho comeou em 1967, d para notar que ele se omitiu no assunto, como se no fosse representante do Par no Congresso. Como ver algo de positivo num senador omisso? MINHA RESPOSTA A jazida de Carajs foi descoberta em julho de 1967, durante uma expedio de campo cheada pelo gelogo paulista Breno Augusto dos Santos. Logo, a obra do porto no poderia ter comeado nesse ano. Na verdade, a parte executiva do projeto s teve partida em 1970, quando os militares impuseram a presena da estatal Companhia Vale do Rio Doce United States Steel, que era dona da jazida. Paulo Voc mesmo j escreveu que Braslia e So Paulo olham para a regio amaznica como um almoxarifado do pas, onde os paulistas vo buscar a matria-prima da qual pre-

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5 cisam, mas no deixam nada de positivo em troca. Quantas vezes o Passarinho senador se manifestou contra essa explorao? Conheci pessoas que se queixavam de que ouviram ele falar do Par como assunto do passado dele apenas, mas do qual no se sentia devedor nem mesmo por causa do mandato que estava exercendo. MINHA RESPOSTA Tambm no verdade. Passarinho, de fato, principalmente quando exerceu as funes de lder do governo e presidente do Senado, se descuidou da sua horta eleitoral e do Estado que representava, o que lhe custaria caro, principalmente pelo trabalho de eroso do seu prestgio que Alacid realizava. Mas como ministro, sua maneira, ele agia, inclusive nos bastidores, na defesa das reivindicaes que lhe chegavam do Par. Fez pronunciamentos sobre isso na tribuna. E elaborou relatrio sobre destruio da Amaznia de nvel muito bom. Paulo Para completar, eu estava fazendo o mestrado no Rio de Janeiro quando conheci um sujeito que me contou ter trabalhado no gabinete dele em Braslia. O sujeito me contou, em tom de admirao (?). como o Passarinho orientava seus subordinados a roubarem sem deixar rastros porque ele no estava disposto a perder tempo salvando a pele de ladro de galinha, palavras textuais do Passarinho, segundo o sujeito. Segundo o sujeito, a orientao que o acreano repetia a portas fechadas era: Roubem dentro da lei. Nunca demais lembrar que o lho do Michel Temer, de apenas 7 anos, j tem um patrimnio de R$ 2 milhes, como denunciou o Estado. Estou pensando na ideia de produzir uma biograa consistente do Passarinho, mostrando no apenas o senador sempre omisso nas questes de interesse do Par no Congresso, como tambm averiguando essa imagem duvidosa de militar e poltico honesto at hoje no entendo a impunidade, nos anos 60, do ento acusado de ser contrabandista Rmulo Maiorana perante um regime que dizia combater a corrupo. Posso estar errado, mas no me lembro de ter tomado conhecimento de nenhuma entrevista do Passarinho (governador do Par, como sabemos, entre 1964 e 1966), sobre a impunidade do ento acusado de ser contrabandista Rmulo Maiorana. MINHA RESPOSTA Seu infor mante est mentindo, caro Paulo. Acusaes de improbidade ou desonestida de aberta contra Passarinho so raras e eu investiguei todas elas, inclusive as feitas pelo MR-8, o mais audacioso e contumaz nesse papel. Nenhuma foi comprovada. Nenhuma. O que no quer dizer que no houve corrupo sombra do prestgio e do poder de Passarinho. Houve. Numa das conversas sinceras e em o que travamos, eu lhe disse exatamente isso. Irritado, ele me desaou a provar. Citei dois exemplos. Um, mais antigo, no Banco da Amaznia. Ele deu suas explicaes, que aceitei sem concordar, admitindo apenas que o personagem citado no desviou dinheiro para si. Foram outras as pessoas que roubaram. No segundo caso, referente Sudam, depois de ter tentado negar, ele acabou admitindo que eu tinha razo. O personagem soube dessa conversa (da qual s Passarinho e eu participamos, com porta fechada) e, se encontrando casualmente na rua, se dirigiu a mim de forma agressiva, talvez conante na sua compleio fsica. Cobrou o que eu dissera a Passarinho e eu, constrangido, conrmei. Pensei que ia ser agredido, mas, felizmente, a pessoa se conteve e seguimos nossos caminhos, que nunca mais se cruzaram. Circulei bastante pelos ambientes domsticos de Passarinho. Jamais detectei sinais de riqueza discrepantes do que ganhava. Morou na mesma e boa casa em Braslia por mais de trs dcadas, sendo visveis os sinais de conteno de gastos. Se cometeu vrios e graves erros, at que realmente se prove o contrrio, entendo que ele foi um homem pessoalmente honesto, com o qual valia se relacionar. Porque aprendi bastante com ele, especialmente nas nossas muitas e profundas divergncias. Elas jamais foram motivo para que sacricssemos um bem valioso: o respeito mtuo. Paulo Mais uma vez, grande Lcio, com toda a admirao que tenho por voc, no vejo fatos para concordar que exista alguma coisa positiva na vida poltica de um golpista como Jarbas Passarinho. MINHA RESPOSTA Respeito sua opinio, sem concordar com ele. Passarinho foi golpista, causou males ao pas, mas, ao m da vida pblica, deixou saldo positivo na sua biograa.UM GRANDE MINISTRO Minha ps-graduao na USP seria dedicada a estudar o que disseram, onde disseram, quando disseram e contra quem disseram intelectuais brasileiros na transio da primeira para a segunda repblica (a dos carcomidos), tendo 1930 como eixo: Azevedo Amaral, Oliveira Vianna, Octvio Faria, Lourival Fontes, Almir Andrade e mais alguns (como o esquecido Antonio Torres). Quando disse a um colega que j estudava bastante esses autores, ele me perguntou, incrdulo: mas voc no de esquerda? No tanto que no pudesse ter aprendido muito sobre o Brasil com esses autores, do outro lado do muro ideolgico em que estavam outros mestres, como Manoel Bonm, Caio Prado Jnior ou Nelson Werneck Sodr. Num dos muitos debates de que participei, provoquei estupor nos companheiros de viagem quando defendi Gilberto Freyre da acusao de ser de direita, sem que esse qualicativo iluminasse qualquer coisa. O acusador no sabia ir alm, como muitos outros ento e sempre. Pessoas que tem sentenas na ponta da lngua e quase nada depois dela, para dentro, no crebro. So contra o que, em verdade, desconhecem. Como podem saber se no leram os autores que condenam? Em funo de leituras livres e ideias sem mordaa, tinha como fontes Karl Marx e Karl Manheim como fundamentos dos meus estudos, com mais nfase no segundo Karl, apesar da minha maior simpatia pelo primeiro. Nunca deixei que meu pensamento se limitasse por vendas ideolgicas. Por isso, com prazer que reproduzo o texto a seguir, de Deonsio Silva, publicado no blog do jornalista Augus to Nunes. uma avaliao objetiva e justa de Jarbas Passarinho por quem foi autor maldito, censurado, perseguido e preso durante o regime militar, sem nunca se render nem se submeter ditadura. Nem se acomodar depois que ela passou, recebendo penso ideolgica ou verba estatal para manter blogs e outros espaos ditos independentes. Aqueles que Deonsio critica ha vero de reagir me apontando como vassalo de Passarinho. Dessa acusao no me defenderei. Gostaria que to-

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6 dos fossemos contestados de maneira inteligente e positiva. O inaceitvel que uma efemride importante, como a morte do ex-governador, ex-senador e ex-ministro passe em silncio, sem que os intelectuais aproveitem para se manifestar sobre o personagem e a poca em que ele viveu to intensamente. Uma pgina em branco o pior e mais covarde legado de um intelectual. Por no a merecermos que acolho mais este texto. Discordo de quem avalia a vida inteira de um homem por um episdio de sua biografia, um nico. Ou por poucos. Deve-se olhar o conjunto da obra. Pel perdeu gols feitos. Foi um perna de pau? No foi, ento, o rei do futebol? Mas vejamos como as esquerdas avaliam os desafetos, adversrios ou inimigos. Sim, as esquerdas, no plural, pois, ao contrrio da direita, que una, elas so muitas e s se unem na cadeia, s vezes dividindo a mesma cela. To logo o PT chegou ao poder federal, aos poucos alguns setores e por m as correntes hegemnicas do par tido, imitaram sem querer um general platino que disse ser o seguinte o seu plano: eliminar a todos! Primeiro, os inimigos; depois, os simpatizantes; e, por m, os indiferentes. Pois assim passaram a proceder, at mesmo em universidades e prefeituras. Pessoas altamente qualicadas foram postas de lado para que verdadeiros repolhos assumissem cargos importantes. Alis, sobretudo nas reas da educao e da cultura. Mas, o que mais grave o juzo que certas esquerdas fazem dos discordantes, sem poupar sequer os mortos, contrariando o sbio provrbio da Roma antiga que recomendava: de mortuis nihil nisi bonum (dos mortos, nada, a no ser o que foi bom). verdade que o adaptaram para as personalidades de suas hostes. Para eles, omnium bonum, nisi malum (tudo o que bom, nenhum mal). Fizeram assim com Che Guevara, cujo rosto est estampado no peito de milhes de pessoas mundo afora. Ora, o argentino executou milhares de cubanos no paredo. s vezes, pessoalmente. E recebeu perdo universal por ter morrido lutando por pobres que queria libertar, mas que o entregaram aos que o perseguiam no interior da Bolvia. Nas mos de assassinos como ele, morreu executado, como fizera com aqueles que vencera em Cuba. Passam-se os anos e vejamos o que esto dizendo de Jarbas Passarinho, que acabou de falecer. Sim, ele assinou o AI-5. Delfim Netto tambm. Mas Delfim, assim como Paulo Maluf, foram procurados pelo PT como conselheiros. Que conselhos o partido esperava? Jarbas Passarinho no armou um esquema de corrupo para comprar os adversrios no Congresso. No desviou verbas do Mensalo, Petrolo, Eletrolo e quantos outros escndalos que, por enormes, receberam o aumentativo da nica lngua do o, que o nosso Portugus. As esquerdas perdoaram Delm Netto, mas deram pena perptua, inclusive para alm da morte, para Jar bas Passarinho, a favor da anistia de esquerdistas, que era coronel do Exr cito quando foi ministro da Educao e Cultura nos anos 70. Um dos feitos mais relevantes de sua gesto foi autorizar cursos superiores de frias, de forma intensiva, para qualificar professores do ensino mdio. Com a mesma carga horria de um curso dirio, estes alunos estudavam em janeiro, fevereiro, julho e dezembro, em tempo integral. E prosseguiam o curso uma semana em maio e outra em outubro. No resto do ano, ensinavam no ensino mdio, em tempo integral tambm. Seu duplo ofcio era trabalhar e estudar. Trabalhar para poder estudar. E estudar para poder trabalhar. Este escritor e professor fez o curso de Letras nesta modalidade, morando e trabalhando no Parane estudando no Rio Grande do Sul. Mais tarde, lecionou nestes cursos muitas vezes. Os resultados eram extraordinrios. E os professores foram qualicados. Reitere-se que, morto o homem, hora deste escritor e professor dizer como os antigos romanos ao seu colega de colunas no Jornal do Brasil quando o grande peridico era dirigido por Augusto Nunes: de mortuis nihil nisi bonum . (De mortos, nada, a no ser o que bom). No h ressalvas a fazer a Jarbas Passarinho? Certamente as h e muitas. Mas, quando o poder trocou de mos, passando de militares a civis outra vez, todos puderam discordar dele, no Congresso sobretudo, e tambm em muitos outros lugares onde tornava pblicas suas ideias. Na mdia, principalmente. Mas poucos o zeram! Na verdade, poucos se atreveram. Ele era um s no parlamento como no texto dos artigos. Quanto a este escritor, ele jamais se arrepender de batalhar pela conversa clara e pelo trato justo. Jarbas Passarinho no foi o demnio que agora comeam a pintar. No foi deus. Foi um brasileiro graas ao qual muitos outros brasileiros puderam ser alfabetizados, como j reconheceu Marina Silva, e outros tantos que tiveram a chance nica de fazer curso superior em instituies de boa qualidade, em perodos intensivos, pagando as mensalidades do curso enquanto ganhavam seus salrios como professores suplementaristas no ensino mdio. Ainda hoje este escritor e professor considera este sistema muito mais eciente e mais digno do que vrias iniciativas que a eles se seguiram. Por qu? Porque no eram vistos como esmola. Eram vistos como uma for ma de fazer com que estudantes que trabalhavam fossem vistos como eles eram: trabalhadores que estudavam. E o ministro Jarbas Passarinho logrou, pelo menos, este xito. Testemunha auricular e ocular desta histria, este professor e escritor no vai negar este mrito dele nunca. E quem profere este juzo algum que foi preso e condenado a dois anos por crime de opinio como contista. Quem o prendeu? Aqueles contra os quais, dentro do governo epocal, Jar bas Passarinho tambm os combateu. E quem escreve este artigo no o faz em blogs pagos pelo governo. Defende sua opinio com liberdade, como sempre tem feito. Sempre ser livre para apoiar ou endossar o que quiser, segundo sua conscincia, seu nico juiz!

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7 Temer: homem errado no momento histricoH homens que, apesar de liliputianos, a histria lhes oferece a opor tunidade de serem grandes. o caso de Michel Temer. O poltico paulista tem o ntido perl de personagem de segunda linha. A rejeio a Dilma Rousse, a pior presidente da histria republicana no Brasil, o colocou no topo do poder nacional, posio que seus mritos pessoais jamais lhe teriam permitido alcanar. Se fosse um observador mais penetrante do seu tempo, ele aproveitaria para entrar definitivamente para a histria contempornea. Bastaria usar os 180 dias que lhe deram para preparar as bases para um novo Brasil, livre do legado negativo de Dilma, preparado por Lula, seu padrinho (ou godfather, padrino ). De imediato, convocaria eleies gerais, atravs de um projeto de emenda constitucional. No sem antes reunir os representantes polticos ou cor porativos da sociedade, apresentar-lhes a proposta e responsabiliz-los pela aprovao dessas medidas, de autntica salvao nacional. Ao mesmo tempo, encaminharia ao parlamento todas essas medidas indigestas mas necessrias para o reequilbrio das contas pblicas, a reposio do pas no rumo da retomada do crescimento econmico e os complementos de suporte a essas diretrizes. Ou seja, restabelecendo a credibilidade no poder pblico, sem a qual essas providncias permanecero na antessala da boa inteno. Ao invs disso, Temer tem procurado fortalecer sua base poltica para ir alm dos 180 dias transitrios e poder completar o mandato da titular afastada do cargo. Inevitavelmente, recorre a providncias siolgicas e conitantes com o anunciado propsito de enfrentar de verdade a grave crise do pas, como faz prova negativa o indigesto aumento dado ao funcionalismo pblico. O efeito foi coloc-lo beira da ilegitimidade, da descrena e da rejeio semelhante ao passo para o abismo de Dilma Rousse. Se a presidente no volta, o vice no continua. Ainda por cima, o procurador geral da repblica pede a priso do presidente do congresso nacional, Renan Calheiros, de outros senadores e do ex-presidente Jos Sarney. Transforma processos individuais de ilicitude em fontes de uma crise institucional de desdobramentos e consequncias to graves quanto imprevisveis. A delao premiada do ex-senador petista Delcdio do Amaral e as gravaes do ex-presidente da Transpetro (e ex-senador) Srgio Machado so testemunhos de uma podrido tica, moral e poltica da classe dirigente, mas tm muito relativo valor como prova em juzo. S ele sabia que as conversas estavam sendo gravadas, em ambiente ntimo, at nas residncias das pessoas que estavam sendo submetidas ao ato inel. Suas perguntas induziram muitas das respostas mais comprometedoras (mas no o suciente para uma tipicao criminal). Alm disso, seu objetivo era esprio: produzir provas para permitir sua delao e tentar imunizar sua famlia (ou quadrilha) de punio. As gravaes no podem ser ignoradas nem mesmo minimizadas. So graves. Mas da a servirem de motivo para pedido direto de priso, sem a garantia ao contraditrio e ampla defesa, vai uma distncia que o procurador Rodrigo Janot percorreu impavidamente. Provocou efeito muito maior do que a sua causa. Estabeleceu uma competio entre os poderes que pode levar a uma exausto geral. Ainda pode haver uma sada interna se Michel Temer, convencendo-se nalmente da sua condio de presidente a ttulo precrio, se permitir dar o xeque-mate nesse jogo, sendo o coveiro de uma ordem poltica que j comea a feder e s os polticos no percebem. beira do precipcio, cuja extenso ningum sabe neste momento, ele pode retroceder para que todos ultrapassem essa barreira e refaam a histria atual do Brasil. Antes que venha o dilvio.Mal comea no governoNo primeiro trimestre deste ano o governo pagou de juros nominais108 bilhes de reais. No mesmo perodo do ano passado, o gasto foi de R$ 146. Em 12 meses at abril, os juros nominais totalizaram mais de R$ 464 bilhes (7,76% do PIB), elevando-se 0,32 pontos percentuais do PIB em relao ao registrado em maro. O resultado nominal, que inclui o resultadoprimrio e os juros nominais apropriados, foi decitrio em R$ 13,2 bilhes em abril. No ano, odcitnominal somou R$ 104 bilhes, contradcitde R$ 113 bilhes no mesmo perodo de 2015. No acumulado em 12 meses, odcitnominal alcanou o valor espantoso de mais de R$ 603 bilhes (equivalente a 10,08% do PIB), crescendo 0,37 pontos percentuais. do PIB em relao ao valor apontado em maro. Com essa bola de neve crescendo dessa maneira, como impedir que o Brasil seja atropelado? Um desao que cresce ainda mais com a incapacidade de as elites encontrarem uma alternativa poltica para esse massacre econmico. Infelizmente s quando o ralo monumental do governo for tapado. A dvida lquida do setor pblico alcanou R$ 2.356 bilhes (39,4% do PIB) em abril, elevando-se 0,5 ponto percentuais do PIB em relao ao ms anterior. No ano, a elevao de 3,2 p.p. na relao dvida lquida do setor pblico em relao ao PIB se deveu incorporao de juros, ao impacto da valorizao cambial, ao efeito do crescimento do PIB nominal, ao ajuste de paridade da cesta de moedas da dvida externa lquida e aosupervitprimrio. A Dvida Bruta de todo o setor pblico (governo federal, INSS, governos estaduais e governos municipais) passou de R$ 4 bilhes em abril. Isto nada menos do que 67,5% do Produto Interno Bruto da 7 maior economia do planeta, com 200 milhes de habitantes. D para reduzir a culpa dos ltimos governos da repblica?

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8 O canalha dos canalhasMineradora sobreviver?Numa elite poltica e empresarial de canalhas, o mais canalha de todos o ex-presidente da Transpetro, Sr gio Machado. To canalha que, para denir os demais, basta aplicar a sabedoria popular: diz-me com quem andas e te direi quem s. Machado fez o nivelamento do seu circuito de par ceiros pelo mais baixo nvel moral de que se tem conhecimento na histria recente do Brasil. Ele prestou um grande servio ao pas ao se despojar de todos os adereos de falsidade da sua personalidade e se assumir na condio de ladro, inel, traidor e, por m, o canalha absoluto. Valho-me da novssima verso do meu velho companheiro de lxico, o dicionrio Caldas Aulete, para denir o canalha: Diz-se de pessoa que tem mau carter ou comete aes vis, desprezveis, indignas. Pessoa infame, reles, moral ou socialmente desprezvel. Conjunto de pessoas socialmente desqualicadas, indignas ou moralmente desprezveis. Srgio Machado comandou uma quadrilha que, em 12 anos, teria desviado seis bilhes de reais da Transpetro, a subsidiria da Petrobrs para o transporte de combustvel. Para reduzir sua pena atravs de delao premiada, ele estaria disposto a devolver R$ 1,2 bilho que depositou em contas secretas no exterior. Quando a fora-tarefa da Operao Lava-Jato comeou a se aproximar dele, Machado se armou de um gravador e percorreu os gabinetes e residncias dos seus parceiros de saque, os polticos que avalizaram a sua permanncia por tanto tempo na Transpetro, a partir do primeiro governo Lula. Todos os interlocutores eram caciques do PMDB, que, mesmo sem vencer qualquer eleio desde a volta democracia no Brasil, o principal aliado dos vencedores. O apoio do partido viabilizou esses governos, mas essa ajuda sempre teve um preo e alto. Com nenhum outro partido a aliana foi to rentvel como a estabelecida com o PT, que se transformou num PMDB do B, esperto na rapinagem, ainda que edulcorada por uma linguagem dita progressista e um ver niz ideolgico de m qualidade. Machado foi atrs dos padrinhos, verso local do padrino da ma italiana, para que o livrassem da ameaa de ser agrado e ir para a cadeia. As transcries dessas gravaes secretas so um frgil elemento de prova em juzo. Um bom advogado desqualica essas provas como imprestveis e ilcitas. S Machado sabia que as conver sas com Sarney, Renan ou Juc estavam sendo gravadas. Ele era o dono das iniciativas e o controlador dos dilogos. evidente que ele procurava induzir a narrativa, provocando os interlocutores a revelar segredos ou a conrmar o que ele sugeria. Passados na casca do alho, os peemedebistas poderosos cometeram apenas alguns e ligeiros deslizes, mas pareciam desconados de Machado. Queriam tambm mant-lo sob controle, para que no falasse, dando-lhe respostas acolhedoras, estimulantes, protetivas. Mas nada to enftico ou claro que caracterizasse um delito e levasse ao enquadramento num tipo criminal. Valor como prova em juzo parte, as conversas desnudam as entranhas do poder na democracia brasileira. Os donos da repblica so cnicos, desdenhosos, manipuladores, insensveis aos males que causam e capazes das maiores patifarias, como se dizia numa poca em que essa expresso tinha o uso devido e competente. Polticos ladinos, que se acostumaram a conviver com a vilania e se adestraram na arte de contornar agrantes e punies, o que lhes d uma viso ntima das coisas, Srgio Machado descreve cirurgicamente o que Marcelo Odebrecht viria a revelar por meio de delao premiada: se ele falasse o que sabia, ia atingir Dilma Rousse com um tiro no peito e a no tem mais jeito. Ao que Renan Calheiros, o maior aliado de Dilma no Senado, acrescenta: Tem no, porque vai mostrar as contas [da campanha eleitoral ]. E a mulher corrupta. Nessa roda de canalhas, quem no ? A Vale, que j foi a segunda maior mineradora do mundo, caiu para o 8 lugar no ranking das mineradoras mais valiosas, segundo relatrio divulgado nesta semana pela PricewaterhouseCop. A auditora mostra que as 40 maiores companhias de minerao do mundo, com aes em bolsas de valores, per deram 37% do valor de mercado. Pela primeira vez, todas elas tiveram prejuzo conjunto, que alcanou 27 bilhes de dlares. S o prejuzo da Vale, no ano passado, superou US$ 12 bilhes. Com esse resultado, a companhia perdeu trs posies em relao ao ltimo levantamento, que a colocara em 5 lugar: foi ultrapassada pela Coal India Limited (4a), estatal indiana que produz 82% do carvo no pas; pela russa Norilsk Nickel (5a), que lavra nquel e paldio; e pelo Grupo Mexico SAB, que produz cobre, zinco e metais preciosos, alm de operar nove mil quilmetros de ferrovias. A Vale, como a sua concorrente direta, a Anglo American, viu-se obrigada a comear a vender ativos para reduzir sua gigantesca dvida. O foco nos custos continuam, mas os revezes econmicos tambm, diz o documento. O endividamento se tornou problema e prioridade comum de todas as 40 maiores mineradoras do mundo, algumas com sua sobrevivncia ameaada em funo da queda dos preos das commodities no mercado internacional. Alm de s conseguirem reduzir uma frao da dvida total, a elevao do custo do dinheiro usado para renanciar emprstimos foi, em muitos casos, igual ao valor contrado em novos emprstimos. A consequncia foi o rebaixamento geral feito pelas agncias de classicao de riscos. A reao das 40 maiores mineradoras se deu em duas etapas: um foco ainda maior no corte de investimentos, seja corrente ou de capital, e na acelerao da venda de ativos. Ser interessante ver se esses esforos vo ter continuidade e os efeitos em cascata dessas decises, disse, em nota imprensa, Andries Rossouw, da PwC na frica do Sul. Apesar de o setor mineral continuar a enfrentar desaos signicativos e restries, a perspectiva de longo prazo considerada positiva pela Price. Muitas das 40 maiores valorizam o que preciso ter para encarar essa maratona de minerao e tm os olhos xados rmemente nos prmios de longo prazo. Espera-se que a Vale esteja entre essas sobreviventes. Mas a que custo?

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9 Vale se enfraquece e governo se meteSer um bem para o Brasil se o governo federal no conseguir destituir o presidente da Vale atravs de uma ao poltica. o que o presidente interino Michel Temer pensou em fazer, por presso, sobretudo, de polticos aliados, em especial do PMDB de Minas Gerais. Outro fator que estaria inuindo seria a desconana de palacianos de que Murilo Ferreira pessoa de conana da presidente afastada Dilma Rousse. Independentemente da qualidade da gesto de Ferreira frente da maior mineradora brasileira, qualquer alterao societria teria que ser proposta abertamente pelo scio interessado na iniciativa ao conselho de administrao da companhia e ser debatida publicamente pelos acionistas e acompanhada pela opinio pblica. Em abril do prximo ano a Vale completar duas dcadas de privatizao, exatamente quando chegar ao m o atual mandato de Murilo Ferreira. Com seis anos no cargo, ele se tornar o segundo mais duradouro presidente da Vale, depois de Roger Agnelli, que foi o principal executivo durante 10 anos, de 2001 a 2011, sendo substitudo exatamente por Murilo. At que a privatizao possa ser revertida, como querem alguns setores da sociedade, mesmo que lutando por uma meta praticamente impossvel, o melhor caminho para a ex-estatal ser se tornar uma empresa privada plena. Todas as suas decises importantes tm que estar fora do alcance da interferncia poltica. O frum adequado o conselho de administrao, como tem que ser em qualquer corporao de mercado que se pretenda respeitada e acreditada. A troca de presidentes na Vale exige a aprovao pelos detentores de 75% de aes da Valepar, a holding que controla a mineradora. Os fundos de penso possuem 49% das aes da Valepar: o Bradespar (do Bradesco), 21%; a japonesa Mitsui, 18%; e o BNDESPar (brao do BNDES para participaes societrias)11%. Sem a concordncia da Bradespar, no possvel fazer a mudana. Os japoneses da Mitsui votam sempre junto com a holding do Bradesco. Se essa diviso de poderes est distorcida, o caso de corrigi-la ou administrativamente ou pela via judicial. Por ter modelado a privatizao, consumada em 1997, na administrao de Fernando Henrique Cardoso. o Bradesco no podia ser acionista da Vale. Por ser compradora do minrio produzido pela empresa, a Mitsui tambm estaria impedida. Mas ambos os grupos no s esto na sociedade como tm o poder de veto. Sem sua concordncia, nenhuma deciso importante pode ser tomada na mineradora. melhor enfrentar essa situao do que deixar que o presidente da repblica, exercendo seu controle efetivo (embora abusivo) nos fundos de penso federais, decida margem das regras societrias da companhia, como fez exausto Lula e, depois, Dilma. Enquanto fazia as vontades do presidente, inclusive as particulares, Roger Agnelli foi amigo de infncia de Lula, que lhe dispensava deferncia pblica. Quando comearam a se atritar passaram a travar uma guerra desigual. Ao invs de submeter as razes da sua presso sobre Agnelli, fundamentadas tecnicamente, como podia fazer, Lula tratou do assunto com o patro de Roger, o presidente do Bradesco. Ambos concordaram em oferecer a cabea do executivo, que a sucessora de Lula decepou. Murilo Ferreira, que j trabalhara na Vale, emergiu por gravidade. At hoje no se sabe ao certo quais foram as fontes de atrito entre Lula e Agnelli. Mas h indcios de que o executivo, arrogante e autossuciente, no estava se deixando levar pelas presses dos representantes dos fundos de penso das estatais. Talvez alguma coisa tenha a ver com nanciamento de campanha ou outras movimentaes em contabilidade paralela. Se tivesse a dependncia poltica do PT que lhe atribuem, Murilo Ferreira no teria renunciado ao cargo que lhe foi imposto por Dilma no conselho de administrao da Petrobrs. Assim que pde, ele se livrou do abacaxi para atacar outro, este, porm, com origem certa e tratamento adequado: a gesto megalomanaca de Agnelli, que mor reu em maro, num acidente de avio, em So Paulo. verdade que em 2001 o valor de mercado da mineradora era enorme, de 199 bilhes de dlares, que a colocava em segundo lugar no ranking mundial, e agora de ridculos US$ 21 bilhes, quase 10% do que foi, caindo para a 8 posio. Isso principalmente porque, parte a desvalorizao no preo do minrio de ferro, o crescimento sem sustentao dos negcios levou a Vale a um endividamento que quase a liquidou e ainda a ameaa. m gesto de Murilo Ferreira? preciso prov-la com nmeros e anlises, apresentadas publicamente, na instncia adequada, que pode ir do conselho de administrao a uma assembleia extraordinria dos acionistas. Nunca car restrita ao Palcio do Planalto, suas extenses ou derivativos, de onde saem as manobras para decidir mudanas distncia da sociedade e do interesse pblico.

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10 A Lava Jato vai deixar mesmo as nossas mos mais limpas?Antonio DuvalEm reportagem publicada recentemente na revista Piau Rafael Cariello, reprter e editor da publicao mensal da editora Alvinegra, traa um perl da chamada operao Mos Limpas, desenvolvida na Itlia nos anos 1990, para pegar polticos e demais cidados italianos que estivessem envolvidos em atos de corrupo. Dez entre dez jornalistas, colunistas ou articulistas brasileiros sempre comparam a nossa Lava Jato com a equivalente da pennsula. A reportagem, intitulada Os Intocveis, numa referncia turma de Eliot Ness, o agente federal americano que conseguiu engaiolar o famoso Al Capone, faz um apanhado biogrco dos comandantes da operao, bem como descreve situaes tpicas da Itlia, mas que se parecem at demais com umas e outras verde-amarelas. Veja-se este trecho: Mais de 5 mil pessoas foram investigadas, por causa da Operao Mos Limpas, pela Justia Italiana centenas de empresrios, centenas de parlamentares, uma dzia de ministros de Estado e quatro ex-primeiros-ministros. Revelou-se um sistema de cobrana de propinas na administrao de hospitais, nas licitaes para o sistema de transporte pblico, na construo do metr de Milo, de rodovias e fer rovias, que favorecia empresrios amigos do poder, abarrotava o caixa dois dos partidos e nanciava campanhas eleitorais. Alguma semelhana com o Banano, como diria o saudoso Ivan Lessa? O relativo (e efmero) sucesso da Mos Limpas deveu-se atuao de trs cidados italianos: dois magistrados e um procurador. Antonio Di Pietro, o procurador, foi to querido pela populao italiana que no auge da operao havia pichaes saudando-o com a frase Di Pietro melhor que Pel. Mais uma referncia ao gigante adormecido. O grisalho equivalente nacional, pelo menos at agora, no est com essa bola toda. Que se saiba ainda no foi vista alguma pichao do tipo Janot melhor que Neymar. Os dois magistrados chamavam-se Piercamillo Davigo e Gherardo Colombo. No relato da revista tambm se vislumbra o porqu do sucesso do badalado instituto da delao premiada, terror dos sempre chiques advogados dos no menos chiques rus envoltos em maus lenis. Di Pietro: Explico qual era a tcnica para convencer os empresrios a falar. Toda a Operao Mos Limpas se desenrolava dentro de uma sala a minha sala. Prosseguindo: O que acontecia? Nos casos de corrupo, quem d o dinheiro uma empresa mas a propina no envolve s uma pessoa l dentro. H vrios funcionrios envolvidos. O que havamos descoberto? Que, quando chamvamos uma dessas pessoas para depor, ela mesma ou o seu advogado informava mais tarde aos demais o que havia dito. Numa mesma empresa, todos acabavam tendo a mesma verso. Como romper esse circuito? Eu chamava no mesmo dia, na mesma hora, todos eles, todos nessa sala, que era grande e onde eu tinha nove mesas. Em cada uma delas cava um agente de polcia. Essas pessoas vinham com os seus advogados, muitas vezes o mesmo advogado. Eu cava no meio. Ia fazer perguntas a um, depois a outro, depois a outro. Nessa hora, Di Pietro diz que os depoentes podiam ver uns a outros, mas no ouviam. Eles sabiam que no podiam dar justicativas divergentes. Assim, em determinado momento, percebiam que era melhor dizer a verdade. Era a nica maneira de terem a mesma verso. E diziam para quem tinham dado o dinheiro. Di Pietro fazia duas ofertas. Perguntvamos: O senhor deu esse dinheiro porque foi cmplice ou porque o foraram a pagar? Adivinha o que eles respondiam? Quando se viam ameaados com acusaes que podiam pr em risco a existncia de suas empresas, eles preferiam fazer um acordo e revelar o que sabiam. Prossegue a reportagem: Os procuradores descortinaram um sistema que envolvia boa parte das empresas de Milo e todos os principais partidos do pas. Alm da rede de sade, logo Di Pietro, Davigo e Colombo chegaram a um importante esquema de propinas no sistema de transporte da cidade. Os empresrios deram os nomes de representantes da Democracia Crist, do Partido Socialista e mesmo do Partido Democrtico de Esquerda (antigo PCI) a quem deviam pagar para garantir contratos nas obras do metr. Como as cadeiras no Parlamento, tambm o dinheiro era repartido, mesmo entre legendas que, nas eleies, poderiam se opor. Bem familiar, no? Um dos entrevistados, Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago e economista, disse que o sistema judicirio italiano foi concebido para ser bastante independente do sistema poltico, por causa da experincia do fascismo. Quando o autoritarismo suprimido de um pas, o sistema que o sucede no quer a mnima lembrana das agruras impostas pelo antigo regime, s vezes at exagerando na nsia de bem-estar e liberdade, vide alguns artigos da constituio cidad. Mas o que ainda faz falta na nossa Lava Jato e que deveria ser elmente copiado por certos envolvidos o ato extremo reetido ad nauseam por Albert Camus, o argelino ganhador do Nobel de Literatura. Vejam-se os relatos sobre homens apanhados na Mos Limpas, cujos gestos muito bem poderiam ser imitados por seus equivalentes na Lava Jato. Renato Amorese, integrante do Partido Socialista na pequena cidade de Lodi, no muito distante de Milo, passou a ser investigado pela procuradoria. Suspeitava-se que pudesse fazer parte do esquema de cobrana de propinas que alimentava o nanciamento ilegal dos partidos. Como outros polticos e empresrios naquele momento, Amorese decidiu apresentar-se espontaneamente a Di Pietro, que o interrogou. Dias depois o poltico foi encontrado ao volante de sua Land Rover (essa marca de veculo j foi fruto de arrependimentos no Brasil), estacionada beira de uma estrada vicinal, com um tiro na tmpora. Havia telefonado pela ltima vez mulher na vspera. Depois ela diria imprensa que tinha cado preocupada quando se deu conta da falta de uma Beretta na coleo de pistolas do marido. Antes de se matar, Amorese escreveu cinco cartas. Quatro estavam no banco do carona: para os pais, para a mulher, e uma para cada um dos dois lhos. A quinta ele havia enviado a Di Pietro. Em todas, escreveu: Peo perdo pelo que z. Na mensagem ao procurador milans, agradecia pela compreenso que ele havia demonstrado durante o interrogatrio. Quem, entre os investigados nacionais, cometeria um suicdio estiloso, com carta endereada ao encanecido PGR, agradecendo a ateno dispensada? Depois do suicdio de Amorese, o notrio Betino Craxi, chefo socialista, discursou de sua tribuna parlamentar, dizendo o que qualquer deputado do nosso baixssimo clero diria em qualquer tribuna (ou antro): O que precisa ser dito, e que de resto todos sabem, que boa parte do nanciamento aos partidos e ao sistema poltico irregular ou ilegal. Bingo! O deputado socialista Sergio Moroni, prximo e el a Craxi, no dia 2 de setembro, combinou de jantar fora com a mulher e a lha. Como demorasse a chegar ao restaurante, a esposa pediu por telefone faxineira que passasse em sua casa, para ver se o marido ainda estava por l. Moroni foi encontrado numa poa de sangue, com um tiro na garganta. Tinha 45 anos quando se suicidou. Desde a adolescncia participava da poltica partidria no PSI. Antes de se matar, enviara uma carta ao ento presidente da Cmara dos Deputados, Giorgio Napolitano. Um grande vu de hipocrisia (compartilhado por todos) cobriu por muitos anos os modos de vida dos partidos e os seus sistemas de nanciamento. Mais adiante: No aceitava ser tratado como ladro: Nunca me beneciei pessoalmente de uma s lira. A frase poderia ser dita por um dos impolutos polticos investigados pela Lava Jato, com a observao: onde se l lira, leia-se dlar. O cinismo da classe universal. Prossegue a reportagem, agora fazendo referncia a uma estatal exploradora do chamado ouro negro. Mais semelhanas com a ptria amada. ... em Milo, a Operao Mos Limpas chegava ao seu caso mais signicativo, do ponto de vista nanceiro (tambm?). Investigaes na ENI, Ente Nazionale Idrocarburi, a estatal de petrleo, revelaram que o equivalente a cerca de 20 mil euros saam mensalmente dos cofres da empresa para serem distribudos entre a Democracia Crist e os socialistas, nos anos 80. O presidente da companhia, Gabriele Cagliari (aqui a semelhana no se restringe s falcatruas, onomstica, vide o nome do antecessor da abantesma, na presidncia da Petrobrs), havia sido preso preventivamente no incio de maro (1993).

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11 Aps passar 133 dias detido, o todo-poderoso executivo cometeu suicdio dentro de sua cela (na poca levantou-se a hiptese de que ele pudesse ter sido assassinado, sem que isso nunca fosse provado). Dias antes de morrer, Cagliari enviara uma carta famlia, em que acusava os procuradores de estarem percorrendo a estrada que leva ao Estado autoritrio. A ENI tambm havia se envolvido num negcio suspeito ao se associar a um grupo privado italiano, nos anos 80, a m de criar uma empresa de indstria qumica, a Enimont. O principal executivo do lado privado dessa empreitada, Raul Gardini, era acusado de ter pagado propinas a polticos de diversos partidos para que o negcio acontecesse e ele ter lucrado na hora de vender de volta ao Estado sua parte na Enimont, no incio dos anos 90, mais uma vez com a distribuio de subornos para que o preo das aes fosse superfaturado. Gardini, conhecido como um bon-vivant que gostava de praticar esportes, suicidou-se com um tiro de pistola no nal de julho de 1993, trs dias depois da morte de Gabriele Cagliari na priso. No caso da Petrobrs, seria como um prmio milionrio de loteria ter presidente e empresrio indo estudar a geologia dos campos santos. Paulo Francis ouviria Wagner, seu compositor preferido, a todo volume no tmulo. O juiz Piercamillo Davigo, premonitoriamente, conta uma histria (advertindo ser uma anedota) ao reprter: No perodo do fascismo, Mussolini mobilizou os italianos numa guerra contra as moscas e os pernilongos. Cada municpio, por menor que fosse, tinha que participar dos esforos de desinfestao. Eis que um dia e aqui comea a parte ccional da histria, ele aler tou um representante do governo de uma provncia pegou o seu carrinho e foi visitar um vilarejo escondido no interior. Esperava por ele a mxima autoridade da cidadezinha. Quando o representante do governo desceu do carro, na praa, foi cercado pelas moscas, que infestavam o lugar. O representante quis saber o que acontecia: por acaso eles no estavam engajados, ali tambm, na guerra contra as moscas? Sim, senhor, zemos a guerra, respondeu a autoridade local. O problema que as moscas venceram. A premonio de Davigo comeou a se materializar com a ascenso do histrinico Silvio Berlusconi, empresrio do ramo da comunicao, que se tornou primeiro-ministro da Itlia em 1994. No incio, Berlusconi ainda apoiaria as aes da Mos Limpas, mas pouco depois de tomar posse foi colocado sob investigao. Assim, ... Ao ser investigado, Ber lusconi comeou uma campanha violenta contra os juzes, que passaram a ser considerados comunistas, motivados politicamente, e no mais como magistrados imparciais. Houve uma politizao do assunto. No era mais uma questo legal, apenas: saber se algum corrupto ou no. Passou a ser uma questo poltica: quais os interesses dos magistrados? De que lado eles esto? Todos os analistas concordam que os procuradores comearam a perder apoio da opinio pblica em 1994. Apesar do poder que Berlusconi tinha nas mos, no citam a cobertura da imprensa como o nico fator para o declnio poltico do grupo, mas tambm o fato de terem comeado a investigar gente comum, inclusive como parte do mesmo processo que ameaava o primeiro-ministro, analisa um dos entrevistados, Alberto Vannucci, professor da Universidade de Pisa. A reportagem continua, destacando: Alm de atacar os magistrados de forma geral, Berlusconi tambm tentou minar a credibilidade do heri e smbolo da Mos Limpas, que meses antes ele havia convidado para participar de seu governo. Diz o professor Vannucci que Levantaram a suspeita de que Di Pietro teria recebido favores, o emprstimo de um carro, por exemplo, por parte de um empresrio foi envolvido nesse sistema de troca de favores. Di Pietro tambm foi formalmente acusado de abusar do cargo e teve o seu mtodo de investigao questionado. Tudo somado, acabou abandonando a magistratura no nal de 1994. O juiz Piercamillo Davigo disse ao reprter: O contra-ataque das moscas no veio apenas de Berlusconi, mas de toda a classe poltica. Nas ltimas dcadas, coalizes de esquerda e de direita se alternaram no poder na Itlia. Tanto num tipo de governo quanto no outro, leis que dicultavam o trabalho da Promotoria foram aprovadas. A partir de 1994, a poltica, toda a poltica, se esforou para impedir no a corrupo, mas as investigaes e os processos contra a corrupo. Aqui no Brasil h permanentemente um grupo de parlamentares, tanto da Cmara quanto do Senado, interessados em limitar os poderes do Ministrio Pblico, seja por meio de emenda constitucional seja por lei ordinria. o mesmo grupo que estrila quando a Polcia Federal algema um dos seus. Por eles, a imunidade dos polticos seria ampla, geral e irrestrita, tal como a anistia que lhes seria dada, caso cometessem algum ato indecoroso. Mas quem seria o nosso Berlusconi? Para completar a vitria das moscas, fora da magistratura, Di Pietro ingressou na poltica. Em 1998, fundou seu prprio partido, o Italia dei Valori, ou Itlia de Valores. Anos mais tarde, o ex-procurador que havia sido comparado a Pel explicaria sua deciso com o uso de uma metfora futebolstica, dizendo que a vida pblica era como uma partida, em que se devia escolher entre jogar ou ser apenas um espectador. Foi o prprio Gherardo Colombo, ex-colega do procurador que disse, conforme a matria, que membros do seu partido foram acusados de ter recebido propinas. E agora, o professor Vannucci: Di Pietro fundou uma entidade privada, e o partido pagava aluguel por uma sede que estava em nome dessa entidade. A entidade era a proprietria do imvel. Era um conito de interesses gigantesco. O lder do partido alugava um imvel para o prprio partido. O dinheiro usado para pagar era dinheiro pblico, recebido pelo partido. Ser esse o destino de nosso PGR, ou do magistrado federal da Vara de Curitiba? No conseguiremos sair da lama, tal qual a terra de Mastroianni? No ser ainda desta vez que lavaremos nossas mos imundas? A reportagem encerra, num sad end, com um caso ocorrido com um empresrio honesto, no auge da Mos Limpas. No nal de 1992, talvez no auge de sua reputao, Antonio Di Pietro conseguiu um espao em sua agenda para participar de um encontro com empresrios em Monza, cidade a menos de uma hora de carro de Milo. J era de noite. Antes de passar a palavra plateia, o procurador explicou em que p andavam as investigaes da Mos Limpas e exortou os empregados ali presentes a fazerem a sua parte no combate corrupo. Um deles, Ambrogio Mauri, um senhor de pouco mais de 60 anos, dono de uma fbrica de nibus urbanos, esperou Di Pietro terminar de falar e levantou a mo ( o que narra Monica Zapelli, em seu livro Un Uomo Onesto). O senhor deveria mudar de prosso, disse Mauri ao magistrado. J explico por qu. em seguida deu as costas a Di Pietro e fez uma pergunta plateia, onde estavam os seus colegas empresrios: Pode levantar a mo quem, entre ns, nunca deu um dinheiro, pelo menos uma vez na vida, a um gerente de compras de alguma empresa. Os empresrios na sala sorriram, sem no entanto mover o brao. Apenas o prprio Mauri levantou a mo. Doutor, ou so todos manetas, ou eu tenho razo e o senhor deveria mudar de prosso, disse ento a Pietro. Ambrogio Mauri era um entusiasta da Operao Mos Limpas e, para alguns italianos, virou uma espcie de smbolo da honestidade. Dizia que se recusava a pagar qualquer tipo de propina e evitava as licitaes pblicas na Itlia. Mauri fazia negcios e vendia seus nibus sobretudo fora, exportava os veculos, porque tinha sempre se recusado a participar dos circuitos corrompidos em Milo e na Lombardia, lembrou Vannucci numa conversa por telefone. Isso tambm foi certicado pelos investigadores da Operao Mos Limpas. O nome de Ambrogio Mauri no aparece nas investigaes. Passado o auge das atividades dos procuradores, Mauri achou que j era hora de voltar a fazer negcios em Milo. Em 1996, a companhia de transportes pblicos da cidade lanou uma licitao para a compra de 100 novos nibus. Era uma tima oportunidade, e o empresrio decidiu participar. E a, realmente, ele concluiu que as coisas tinham mudado, contou Vannucci. Porque, pela primeira vez, ele venceu uma concorrncia na Itlia. Tinha investido, ampliado e melhorado a sua linha de produo. O problema, continuou Vannucci, que logo depois houve um recurso dessa licitao. Ela acabou sendo anulada, declarada irregular. Foi refeita. Mas, da vez seguinte, Mauri perdeu. Quem ganhou foi uma empresa que j tinha estado envolvida, no passado, em casos de corrupo. A derrota abalou o empresrio. s oito da manh do dia 21 de abril de 1997, Mauri chegou ao trabalho na sua fbrica. Cumprimentou funcionrios e se fechou no escritrio. Alguns minutos mais tarde, tirou da gaveta uma pistola e, como j havia planejado, deu um tiro no peito. Nas cartas que deixou, falava da sua desiluso dizia que, passada a Operao Mos Limpas, tudo havia voltado a ser como era antes na Itlia. Mauri se deu conta de que o sistema de corrupo tinha voltado a dar as cartas em Milo, me disse Vannucci. Ele tinha investido muito dinheiro naquele contrato pblico que acabou perdendo. Escreveu as cartas de despedida e decidiu cometer suicdio. Essa a histria.

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12 memriaC OTIDIAN Odo NATALO Hildebrand garantiu a sofisticada ceia de natal das melhores famlias ao atracar no porto de Belm, no meio de janeiro de 1956. Trouxe da Europa as frutas de poca para cinco importadores desses produtos, vendidos como especiaria a uma clientela cativa. Para a Casa Sport foram 210 caixas de uvas, 65 fardos de figos secos e sete sacos de amndoas. Para Silva Lopes, 100 caixas de uvas, 50 sacas de castanha verde, 164 atados de figos secos e 10 sacos de amndoas. Silva, Garcia & Cia.:153 caixas de gos secos, 8 sacos de amndoas, 1 saco de avels, 20 caixas de meles ver des, 55 caixas de uvas verdes e 100 sacos de castanha. Antonio Moreira & Cia.: 71 caixas de figos secos, 8 sacos de amndoas, 1 saco de avels, 4 sacos de nozes e 20 sacos de castanha verde. Evaristo Rezende & Cia.: 270 sacos de figos secos, 10 sacos de nozes, 2 sacos de amndoas, 60 caixas de meles verdes e 20 sacos de castanha.BARATAEm junho de 1964, ao responder a ataques que sofrera por parte de O Liberal, na poca ainda o jornal dos baratistas, Flvio Moreira reproduziu, em A Provncia do Par trecho de uma longa carta que Magalhes Barata enviara de Joo Pessoa, em janeiro de 1934, ao seu pai, Apolinrio Moreira, que fora diretor de nanas no governo Sousa castro, ainda na repblica velha. A carta era um raro mea culpa de Barata sobre os desmandos e erros que praticara ou endossara ao assumir a interventoria no Par depois da revoluo de 1930, dos quais Apolinrio fora uma das vtimas. Admitia: Embora paraense, lho dessa inditosa terra, eu era, um estranho pelos conhecimentos pessoais [passara vrios anos fora do Par], com os homens de lenos vermelhos nos pescoos, que me apresentavam como revolucionrios autnticos, mas que, em sua maioria, eu os sabia, vinham das oposies aos governos Sousa Castro e principalmente Dionsio Bentes. Revela que ao receber a indicao do nome de Apolinrio para integrar o diretrio do Partido Liberal, dos baratistas, no hesitou em atender. As provaes com os revolucionrios autnticos tinham falhado lamentavelmente. Eu resolvera trabalhar com os homens da repblica velha, que desejavam servir ao Par. Eu senti que o senhor havia esquecido os excessos das alucinaes revolucionrias dos primeiros dias aps a vitria, e que, com a reparao da injustia que sofrera com a demisso por mim provocada, se aliava sinceramente minha ao governamental. Documento precioso, portanto. PROPAGANDADireto para BrasliaEm outubro de 1960 a Real (Aerovias Braslia) atraa os seus clientes oferecendolhes ligao direta com a nova capital federal, inaugurada apenas sete meses antes, sem interrupo do voo, na viagem mais econmica do mercado: o passageiro no teria despesas extras, com hospedagem e alimentao, pois sai e chega no mesmo dia. Em Belm, a agncia da Real ficava na avenida Presidente Vargas.

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13 FOTOGRAFIAIrmos em conitoEsta uma foto realmente histrica. Foi tirada na redao da Folha do Norte, em maro de 1970, quatro anos depois da morte do dono e principal redator do jornal, Paulo Maranho. Seu sucessor devia ter sido Joo, gerente da empresa. Durante quatro dcadas ele trabalhou ao lado do pai, condio que lhe deu um poder de influncia muito grande no Par. Para surpresa de todos, porm, seu irmo, Clvis Maranho, que era funcionrio pblico federal, decidiu vir de Braslia com poderes que lhe foram outorgados pelas irms para assumir o controle daquele que foi o jornal mais influente da repblica no Estado. A disputa interna seria causa fundamental da decadncia da Folha, que acabaria sendo adquirida por Romulo Maiorana apenas quatro anos antes desta fotografia, na qual Clvis aparece esquerda e Joo direita. A separ-los, o empreiteiro de obra Manuel Joaquim de Almeida, que cresceria bastante durante a administrao do governador Alacid Nunes, atravs de contratos com o Estado.NIBUSEm 1967 os donos de nibus se recusaram a atender ao pedido de meia passagem feito pelos estudantes secundaristas de Belm. Alegaram haver excesso de nibus em circulao na cidade, que prejudicava a rentabilidade do negcio. Um jornalista observou que circulavam 600 nibus pelas precrias ruas da ca pital paraense, dos quais poucos oferecem razoveis condies de conforto para o passageiro, isso sem falar em segurana. Haveria, assim, um nibus de 30 lugares para cada grupo de mil pessoas que utilizavam o transporte coletivo. Era escassez e no excesso. Talvez fosse um pretexto para apoiar a desejada expulso dos lotaes, importados do Rio de Janeiro.CINEMAO Cinema de Arte comeou a funcionar, no Olmpia, em 1967, com Viridiana, de Buuel, seguido por Hamlet. Os dois lmes j haviam sido exibidos no cir cuito comercial, mas em cpias violadas pela censura, que cortou vrios trechos, considerados mais fortes. As verses exibidas no cinema de arte, aos sbados pela manh, eram integrais.PRAIAO prefeito Stlio Maroja foi inaugurar obras em Mosqueiro, em outubro de 1968, e sua comitiva acabou descobrindo uma praia nova na ilha: era o Paraso, localizado no lado esquerdo da baa do Sol, que, nessa poca, no tinha qualquer morador. Mas era rica em ajir, fruta ainda pouco conhecida, porm bastante saborosa, segundo o registro da poca. Todos ficaram encantados com a beleza dapraia descoberta, assinalou o cronista.

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14 Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz Antonio de Faria Pinto (LuizP)O sonho bilionrio custa do tesouroEm seus 13 anos como presidentes do Brasil, Luiz Incio Lula da Silva e Dilma Vanna Rousse mandaram o tesouro nacional transferir 500 bilhes de reais para o Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social. D, em mdia, mais de R$ 40 bilhes ao ano, sem a correo monetria. Podia ser e devia ser um excelente programa de investimento. Para execut-lo, o BNDES acumulou ativo superior ao do Banco Mundial, algo inimaginvel at o momento em que Lula decidiu (ou acatou a deciso, com origem incerta e no sabida) de criar as multinacionais brasileiras, a partir de um alegado critrio de qualidade dentre as mais competitivas empresas nacionais. Para isso, boa par te desse meio trilho de reais (quase 10% do PIB) chegou ao banco com destinao carimbada e endereo certo. O dinheiro daria suporte ao Programa de Sustentao do Crescimento e subscrio de aes de grandes empresas pblicas, como a Petrobrs e a Eletrobrs, que iriam investir muito alm dos seus oramentos e, por isso, iam precisar de subsdio. Realizando grandes obras, para cuja execuo seriam selecionadas as maiores empreiteiras do pas, Odebrecht frente. O Brasil poderoso, como nunca antes, chegou a se ensaiar, tornando-se a sexta (agora a stima) maior economia do planeta, enquanto 48 brasileiros guravam na lista dos bilionrios mundiais. No 8 lugar no ranking da revista Fortune estaria o mais representativo dos ricos criados por subsdio estatal petista, Eike Batista. Eike, filho doo engenheiro Eliezer Batista, o mais importante personagem na histria contempornea da minerao brasileira, criaria sucessivas empresas mais de papel do que de operao comprando o passe dos principais tcnicos que estavam frente da Petrobrs. Com suas informaes, iria apresentar os lances bilionrios para extrair petrleo no pr-sal e ser um dos bilionrios, o mais elogiado tanto por Lula quanto por Dilma. Por tudo isso, Eike j no devia ter sido lembrado pela Operao Lava-Jato? Depois de certo pique, com os 7,5% lendrios (e nicos) de crescimento do PIB, que parecia ser duradouro, as engrenagens entraram em movimento reverso e o sonho dourado foi se transformando em pedao de pirita, o ouro dos tolos, que parece, mas no Parte considervel dessa dinheirama toda extrada do tesouro nacional foi dissipada, mal aplicada ou teve desdobramentos funestos, como ao se tornar o vrtice de um esquema criminoso de superfaturamento para gerar caixa paralelo para o enriquecimento de uma quadrilha de saqueadores do dinheiro pblico. Os negcios ruinosos no param de surgir em consequncia de investigaes como as realizadas pela fora-tarefa da Lava-Jato. Como a mais recente, que permitiu o desvio de um tero (10 milhes de dlares) dos US$ 34,5 milhes que a Petrobrs pagou pelo direito a um campo petrolfero em Benin, na frica. O dinheiro foi parar em contas secretas do deputado federal e ex-presidente da Cmara, Eduardo Cunha, que patrocinou a negociata, realizada em plena administrao da ex-ministra de minas e energia, ex-presidente do conselho de administrao da Petrobrs e ento plena presidente Dilma Rousse. Um milho de reais, Eduardo Cunha transferiu para sua esposa gastar em trivialidades no exterior. O governo deniu que o BNDES ter que lhe devolver R$ 100 bilhes durante os prximos trs anos, R$ 40 bilhes na primeira parcela. O banco conseguir essa faanha. Quanto desse imenso dinheiro pblico jamais retor nar sua origem? Pode ser que esteja perdida. Mas o Brasil tem que ir atrs desse patrimnio, ou nunca conseguir retomar uma vida saudvel.Falha nossa

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15 Delm, quem diria, vai parar na polciaO economista Antonio Delfim Netto prestou relevantes servios ao regime militar durante 17 dos 21 anos que ele durou. Foi o mais poderoso integrante do governo do general Mdici (permanecendo no cargo mesmo com a antecipao do fim de Costa e Silva), o mais violento de todos, como ministro da Fazenda, por sete anos. E era ministro da Agricultura quando chegou ao fim o ltimo governo da ditadura, o do general Joo Figueiredo, em 1985. A volta democracia, pela qual Delfim nunca manifestou apreo durante o perodo de exceo (pelo contrrio, foi um dos mais duros subscritores do AI-5, pedindo mais poderes para o presidente da repblica inter vir na economia), nenhum mal fez ao poderoso ministro. Pelo contrrio: ele se elegeu deputado constituinte por So Paulo, em 1987. E permaneceu por 20 anos na Cmara Federal. Cinco partidos depois (inclusive os criados pelos militares, a Arena e o PDS), Delfim surpreendeu a todos se filiando, em 2005, ao PMDB. Foi recebido com fanfarras, mas no conseguiu o sexto mandato e encerrou a carreira poltico-partidria em 2007. Mais surpreendente ainda foi ter se tornado conselheiro pessoal dos presidentes do PT, Lula e Dilma Rousseff, exatamente sobre os temas econmicos, que manobrou (contra os trabalhadores) durante o mal arrumado milagre econmico, na transio dos anos 1960/70, perodo negro de mordaa, represso, violncia e barbarismo. Aos 88 anos, Delfim Netto parecia destinado definitivamente glria. Mas na semana passada a Polcia Federal o intimou a depor depoimento na Operao Lava-Jato. Ele ter que explicar um pagamento de 240 mil reais que teria recebido da construtora Odebrecht. Ainda no foi marcada a data em que ser ouvido. O pagamento apareceu numa planilha da empreiteira durante as investigaes em uma das fases da operao, na qual est registrado o repasse de R$ 240 mil a algum designado por Professor, em outubro de 2014. O dinheiro teria sido entregue a Luiz Appolonio Neto, sobrinho de Delfim, que o teria recebido em seu escritrio, em So Paulo. O advogado j prestou depoimento, coercitivamente, durante a 26 fase da apurao sobre o esquema de corrupo na Petrobrs, especificamente sobre o sistema de pagamentos de propina na Odebrecht. Appolonio negou ter recebido quaisquer valores em seu escritrio e que jamais prestou ser vios Odebrecht. Em nota, Delfim informou que prestou servios de consultoria na rea econmica empreiteira na poca, e que todos os valores recebidos foram declarados na sua declarao ao imposto de renda. Seus advogados tambm se manifestaram para refutar de maneira veemente que tenha havido qualquer irregularidade no contrato do ex-ministro com a Odebrecht. Em abril j fora divulgado que Delfim teria contas em empresas offshores no exterior abertas pela companhia panamenha Mossack Fonseca, especializada em camuflar ativos usando companhias sediadas em parasos fiscais A PF podia aproveitar para investigar tambm que conselhos Delfim deu a Dilma e Lula, em particular sobre os negcios do interesse da Odebrecht e, especificamente, sobre a formao do consrcio que, surpreendentemente, venceu a concorrncia para a hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. a maior obra pblica do PAC, o Programa de Acelerao de Crescimento, a marca registrada do governo Dilma, junto com o Minha Casa, Minha Vida. Belo Monte, j em operao, dever custar 32 bilhes de reais. As delaes premiadas e outros depoimentos denunciaram que as empreiteiras pagaram propina pelos servios que conseguiram. Os conselhos de Delfim a respeito foram olmpicos e republicanos? O Brasil gostaria muito de ter uma resposta.

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emria do Cotidiano NAS Este deveria ser, na verdade, o 8 volume desta srie, pois no ano passado, para atender procura dos leitores, publiquei um volume extra com o 1 e o 2 volumes (revistos e corrigidos), que se esgotaram. Virou um lbum, pelo seu volume e significado. A srie retomada agora e espero que corresponda s expectativas dos leitores.M BANCAS E LIVRARIAS V OLUMEMEU SEBOLivreiros de ruaAnarquistas graas a Deus