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Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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OS HOMENS-BOMBAINGLS DE ARAQUE O ESTUPRO COLETIVO o a Os brasileiros so os maiores ladres de alto coturno do mundo. Cento e oitenta deles (menos de 0,0000001% da populao nacional) retiraram ilegalmente do pas 400 bilhes de dlares, o equivalente a 25% do PIB do Brasil, que patina h mais de trs anos na busca por seis trilhes de reais como a soma da riqueza nacional. Esse valor, equivalente a 1,5 trilho de reais, no resultado de algum clculo aleatrio ou de auditagem externa: foi confessado pelos prprios detentores das contas secretas abertas no exterior para esconder essa fortuna ilegal. Se a soma fosse dividida pelos 200 milhes de habitantes, dariam R$ 7.5 milhes per capita, o suciente para tornar o Brasil uma potncia mundial de verdade, no uma fantasia de discurso de poltico e empresrio. Governo, empresrios (pessoalmente ou atravs da sua principal corporao, a plutocrtica Federao das Indstrias de So Paulo) e seus advogados tratam sigilosamente da repatriao desses recursos. A meta ocial aplicar impostos no valor de at R$ 21 bilhes livre e desembolado para que o dinheiro retorne s fronteiras do pas. CORRUPOA pior das mfiasA elite brasileira a mais predadora do mundo: 180 bilionrios (cada um com a mdia de mais de US$ 2 bilhes) transferiram para contas secretas no exterior o equivalente a quase um

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2 Uma ninharia, exceto se o fechamento do acordo for precedido pelo fornecimento nao de todas as informaes relativas transao, dentre as quais os nomes de todos os 180 potentados, verdadeiros marajs brasileiros, de fazer inveja aos indianos. Na mdia, cada um desses bilionrios detm quase dois bilhes de dlares em contas mantidas secretamente no exterior para no pagar impostos, para no identificar a fonte, para lavar alguma sujeira, que crime, para ter um fundo de sustentao no exterior para qualquer eventualidade, alm das peridicas excurses sunturias aos lugares mais caros do planeta. O imposto que pagariam para legalizar essa ilicitude representaria 5% dos seus depsitos no declarados. Se fosse aplicada a alquota devida, o abatimento teria que ser de 27,5% ou 25%. Na menor hiptese, o imposto passaria a ser de mais de R$ 300 bilhes, 15 vezes alm da expectativa do governo e o equivalente a duas vezes o rombo fiscal previsto para este ano, na ltima verso, o maior buraco em todos os tempos nas contas pblicas brasileiras. Por esse valor, e pelo efeito de profilaxia social dessa medida, seria melhor que o governo propusesse aes na justia contra esses bares ladres brasileiros ( maneira dos russos). Assim, eliminaria do pas a maior, pior e mais poderosa das mfias do mundo, em relao qual a Camorra parece grmio estudantil. Certamente seria o passo mais decisivo para atacar de verdade a cultura da corrupo que corri o organismo nacional. No h mais limites para a sua voracidade, que se alimenta da conurbao do pblico e do privado, de uma promiscuidade que deletou a mitologia poltica e ideolgica, esfacelada pelo liquidicar dos interesses de grupos, de autnticas organizaes criminosas, que agem do alto at o subsolo do edifcio nacional, indo das conspiraes de gabinetes at as quadrilhas criminosas nas periferias urbanas e no recndito do serto agreste. O Brasil est podre. Viva o Brasil. Todos so gente boa: o custo da democraciaA infeco na vida pblica brasileira se revela agora a mais profunda e a mais arrasadora j documentada em toda sua histria. No ser possvel debelar os seus efeitos agressivos sobre o organismo nacional sem usar um remdio de largussimo espectro. Como sempre nessas situaes, porm, a dvida se o remdio no liquidar com o paciente. Os mais novos sintomas dessa perigosa doena se manifestaram atravs da divulgao sequenciada de gravao de conversas feita entre o m de fevereiro e o incio de maro deste ano pelo ex-senador (pelo PMDB do Cear) Srgio Machado com alguns dos polticos mais poderosos do pas, que desencadearam um terremoto poltico ainda maior do que as revelaes anteriores do j ex-senador Delcdio do Amaral. Machado foi, durante 12 anos seguidos, presidente da poderosa subsidiria de transporte martimo da Petrobrs, a Transpetro. Teve a plena cobertura do PMDB, ao qual se ligou nas ltimas duas dcadas, depois de 10 anos no PSDB, pelo qual se elegeu senador e do qual foi lder no Senado. O PT de Lula e Dilma honrou o compromisso de mant-lo no cargo, que usava para enriquecer e partilhar propinas, alm de dar e receber proteo para manter a impunidade geral de todos. Sua biograa nesses 40 anos constitui cha tcnica da anomalia que se expandiu como ameba pela cpula da sociedade poltica nacional, para usar um conceito til do lsofo italiano Antnio Gramsci, que a distingue da sociedade civil. Todos os personagens da incrvel novela que, dia aps dia, foi sendo revelada ao boquiaberto pblico, so polticos prossionais bem sucedidos nas suas carreiras, campees de votos, hbeis articuladores, conhecedores competentes das entranhas do poder, exemplares do arqutipo poltico brasileiro. Todos envolvidos desde sempre em irregularidades, ilegalidades ou imoralidades. Infelizmente, nesse aspecto tambm representantes legtimos no s institucionalmente dos milhes de cidados que os colocaram nos mais altos postos da repblica. Lendo a degravao do que conver saram informalmente, apenas pouco mais de trs meses atrs, s vsperas da admisso do impeachment da presidente afastada Dilma Rousse, quantos brasileiros no se sentiriam identicados com o linguajar e a temtica abordada por Juc e Machado? Se um honesto exame de conscincia lhes impe a admisso dessa verdade, deviam pensar 10 vezes antes de apontar o dedo para os dois polticos. Ainda assim, deviam mesmo execr-los. O cidado comum desperdiou o voto e, ao exercer o maior dos direitos polticos de forma leviana, inconsequente e irreetida, deu sua contribuio para a manuteno da doena fatal da democracia: a dissociao da sociedade poltica da sociedade civil, a primeira manipulando a segunda, esta se deixando servir no jogo brutal de interesses esprios a partir de interesses pblicos alegados pela segunda. Cabe ao cidado consciente, de olhos bem abertos e vontade em dia, aproveitar a crise febril que vive a primeira para restabelecer o que fundamental numa democracia representativa: o primado do eleitor, do cidado, da sociedade civil, da coletividade, da nao. este o momento trgico e maravilhoso que o Brasil vive. Mais um pouco de sujeira, devassido, imoralidade, m f e bandidagem e a nao car ameaada de desmanche, como acontece com um carro roubado numa ocina de receptao. Justamente por isso, o momento de interveno cirrgica na cpula dirigente do pas. O Congresso Nacional constitudo por 513 deputados federais e 81 senadores. Atendiam a esses 594 senhores, em dezembro do ano passado, 24.896 servidores ativos (equivalente

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3 a toda populao de So Geraldo do Araguaia, com PIB de 250 milhes de reais), que custavam ao contribuinte de impostos 5,4 bilhes de reais (ou seja: mais de 20 vezes o PIB de So Geraldo). Incluindo os 10.360 servidores inativos, que absorveram R$ 3,5 bilhes, o custo total do poder legislativo ao errio foi de R$ 8,9 bilhes. Se esse dinheiro fosse federalizado e distribudo entre os 26 Estados, o Distrito Federal e os 5.570 municpios brasileiros, teria uma utilidade muito maior e um retorno sem comparao com o que desperdiado nas instalaes do parlamento nacional. Mas a democracia representativa no existe sem ele e a democracia ainda a melhor forma de organizao poltica humana. No entanto, ao ponto em que chegou, a crise poltica brasileira no deixa mais dvida: preciso reduzir os poderes dos polticos (tirando-lhes o chamado foro privilegiado), diminuir as bancadas, extirpar as legendas de aluguel, eliminar o cargo de suplente de senador, reduzir metade (de oito para quatro) as bancadas mnimas de deputados federais, mantendo um limite mximo; estabelecer tetos para o nanciamento de campanhas por empresas e pessoas fsicas, por candidato e partido, transferindo a scalizao para a Receita Federal. Mais: cortar todos os gastos sem ligao direta com sua funo, por m aos cargos comissionados, no abrir exceo para a admisso de funcionrios se no por concurso pblico de provas e ttulos, extinguir todas as mordomias, acabar com as viagens gratuitas, os carros privativos, as residncias ociais. Submeter os parlamentares a checagens peridicas, criar um conselho externo de tica (ainda que sem carter deliberativo), formado por cidados em atividade voluntria, ao qual todas as questes ticas e morais seriam submetidas ( parte dos conselhos inter nos e da corregedoria) uma reforma para valer, portanto, que comearia por quebrar um tabu republicano: acabar com o voto obrigatrio Com essas providncias, saudvel e higinica talvez a crise se tornasse positiva.Os homens-bomba da poltica nacionalO ex-senador Delcdio do Amaral foi o homem-bomba do PT. Srgio Machado est se tornando o homem -bomba no s do PMDB, mas de toda a classe poltica. Os dois ameaam a ocupao do topo do poder pblico pelos dois maiores partidos polticos brasileiros, aliados e unha-e-carne at o incio da Operao Lava-Jato. Desunidos, os coligados facilitaram os ataques dos adversrios. Mesmo que tivessem continuado juntos, entretanto, o mximo que podiam conseguir a julgar pelo desdobramento das investigaes sobre a corrupo que os beneciou seria se afogarem abraados. Estava amarrada aos seus ps uma ncora de desvio de dinheiro pblico. No conseguiram desat-la a tempo de no serem levados pela onda de revelao do mundo podre escondido nos bastidores do poder. Lula nomeou Srgio Machado presidente da Transpetro seis meses depois de tomar posse na presidncia da repblica, em junho de 2003. Manteve-o por todos os oito anos dos seus dois mandatos. Machado foi conrmado por Dilma e s saiu da empresa, em novembro de 2014 (depois da reeleio) por ser alcanado pelas primeiras revelaes das delaes premiadas na Lava-Jato. No saiu de vez. Pediu licena, renovada at agora pela super-gerente dos negcios pblicos federais. Com todos os elogios merecidos pela conduta administrativa de Machado. Ele assumiu a Transpetro apenas cinco anos depois que a companhia surgiu, de um desmembramento na Petrobrs para o incremento de diversas aes laterais extrao e reno de leo. Logo, foi quem a moldou e fez funcionar. A Transpetro chegou rapidamente receita de quase nove bilhes de reais, qualicando Machado a ser considerado a 65 pessoa mais inuente no setor martimo internacional. Ele deu incio ento ao ambicioso investimento de R$ 11,2 bilhes para a construo de 49 navios e 20 comboios de transpor te hidrovirio, parte do imenso projeto da Petrobrs (e de sua fauna acompanhante) para o Pr-Sal, o monstruoso pano de fundo do ponto negro que a corrupo at agora desvendada. Foi bloqueado no meio do caminho: s 14 navios chegaram a ser construdos. Como o engenheiro Delcdio do Amaral, Srgio Machado, alm de ter bero (numa das mais inuentes famlias cearenses), conseguiu dois ttulos universitrios (de administrador e de economista). Cresceu como jovem empresrio dos negcios familiares. Chegou poltica junto com uma nova elite do Cear, da qual so os maiores nomes Tasso Jereissati (pelo PSDB) e Ciro Gomes (por qual partido neste exato momento?). Na onda de renovao liberada ao incio do governo Collor, em 1990, ele se tornou deputado federal. No PSDB vitorioso, tornou-se senador em 1994, ano do Real e da eleio de Fernando Henrique Cardoso. No por mera coincidncia, aportou no PMDB em 2011, no mesmo ano da migrao de Delcdio para o PT. Iriam se encontrar na Petrobrs, por vias e travessas. no super-acordo poltico-empresarial-burocrtico do PT no poder. Mas enquanto o engenheiro matogrossense se desligava da estrutura tcnica do governo e se elegia senador graas mquina estadual, comandada por Zeca do PT, Machado se livrava das vestes da poltica militante para car sombra do senador Renan Calheiros, que subiria ao poder junto com Lula, em 2003, com o ex-senador como sua pea-chave na imensa estrutura da maior empresa do pas e das maiores do mundo. Eram os elos da maior organizao criminosa da histria brasileira, que esmagaria tudo sua frente para criar um rico subproduto da ao executiva da empresa e suas associadas: uma cor rupo capaz de se expressar em per centual do PIB brasileiro. Esse monstro est sendo lancetado agora.

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4 Pedro Corra, ex-deputado federal e ex-presidente do PP, o mais recente homem-bomba da poltica nacional. Mas a revelao, pela revista Veja, das informaes que teria prestado Operao Lava-Jato para conseguir a delao premiada, no tm o mesmo vigor das declaraes bombsticas do ex-senador Sr gio Machado, que foi presidente da Transpetro. At agora o que o ex-parlamentar disse sobre pelo menos 18 polticos de sua autoria. Ele no agregou provas nem fitas. o que reconstituiu at agora do que alega ter ouvido nos bastidores, com a credencial assumida de ter recebido propina de quase 10 rgos do governo, no curso de mais de 40 anos de vida poltica, um p no parlamento e outro na alcova do poder. Se o que ele disse a Veja verdade, muda bastante a reconstituio histrica dos ltimos trs anos da vida pblica brasileira. Mas bom no esquecer que ele foi condenado a mais de 20 anos de priso pelo juiz Srgio Moro pela prtica de 72 crimes de corrupo e 328 operaes de lavagem de dinheiro. Da a necessidade de ponderao e rigor antes de dar como certo o que ainda incerto e mal sabido.O medo de descer ao inferno da leiSrgio Machado, aos 69 anos de idade, teve medo (ou pnico) de ser preso. Temia no resistir ao encarceramento. Queria evitar esse desfecho de qualquer maneira. O de qualquer maneira no como efeito de linguagem. Anal, um dos donos do Brasil, o jovem Marcelo Odebrecht, proprietrio da maior empreiteira do pas, estava atrs das grades. E h quase um ano! Claro que ia colocar para fora (vomitar, em linguagem chula) tudo que sabia. E o que sabia desnudaria a repblica do PT e aliados. O que sobraria para Machado? A mais negra carceragem. Ele decidiu ento montar uma chantagem ecaz para se proteger, nela envolvendo todos aqueles que integravam o seu esquema de poder e de cor rupo. Passou a gravar sua conversa com aquele que poderia ser o seu mais til aliado: o senador Romero Juc, do PMDB de Roraima (Estado que chegara a governar). No podia ser o seu padrinho, o presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, porque ele estava incompatibilizado com o vice -presidente Michel Temer, do PMDB de So Paulo. Temer estava em vias de ocupar a presidncia com o iminente afastamento de Dilma Rousse. Juc era um dos seus mais inuentes aliados (e futuro ministro do Planejamento). Para os propsitos de Machado, era a pessoa ideal: ele achava que a ascenso do PMDB presidncia poderia servir de apagador das sujeiras deixadas na histria recentssima do Brasil. A borracha bem que podia passar sobre o nome do prprio Machado, estancando a ampliao da Operao Lava-Jato. Ele estaria a salvo. Mas se o plano desse errado, ele teria companhias ilustres ao alcance de suas incondncias e provas (como as gravaes secretas, das quais s ele teria conhecimento), que lhe valorizariam a delao premiada e atenuariam a pena. Perfeito. Nem tanto, como se est a ver. Mesmo produzidas a partir dessa estratgia nada edicante, que nivela por baixo pessoas que, em outra circunstncia e segundo outra denio de vida, pareceriam de boa ndole, as conversas de Srgio Machado com Romero Juc so um documento precioso do momento atual que o Brasil vive. Reito sobre alguns trechos das tas, reveladas ontem. Machado pede ao senador que ajude a montar uma estrutura para evitar que eu desa. Se descer, ser o impondervel. Parecia estar lendo a descrio fabulstica da descida de Dante Alighieri ao inferno (todo ele historicamente datado, apesar de toda a sua mitologia), guiado pelo poeta romano Virglio na Divina Comdia Dante desce as vrias camadas do inferno, a partir de cuja entrada deve-se deixar fora toda esperana (Abandonai toda esperana, vs que entrais!). A descida que o ex-presidente da Transpetro teme ao inferno de Moro (por ironia, descendente de italianos). L, certa a sua condenao. Machado est convencido de que o procurador geral da repblica, Rodrigo Janot, acha que ele o caixa de todos os senadores que recebem propina atravs da empresa (Renan, Juc, Raupp, Jader, Sar ney, Edison Lobo quem mais?). Mas no encontrou nada, no tem nada. Se no tem nada contra os senadores, joga ele para baixo, para a 13 vara da justia federal de Curitiba, cujo titular Srgio Moro. O juiz, com maior adequao formal numa instncia de primeira instncia, com deciso monocrtica, embasada por seu conhecimento tcnico especializado sobre os crimes de corrupo, arrancaria as tripas de Srgio Machado: ou para chegar mais apropriadamente aos senadores ou para sangrar de vez o ex-dirigente da Transpetro. A nica sada, na viso de Machado: mudar o governo (o que aconteceria dois meses depois) e estancar essa sangria. Teria que ser assim: uma coisa poltica e rpida. Para ele, a soluo mais fcil era botar o Michel.... O Michel assumiu o governo e a soluo machadiana (com a vnia do bruxo do Cosme Velho) no veio. Veio a rapidez, mas em sentido contrrio ao desejado: todos esto descendo ao inferno de moro. O povo pode desejar que a viagem lhes seja breve. O inferno, como estamos vendo, no ca longe. O homem meia-bomba

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5 O estupro coletivo na agenda do BrasilAos 13 anos a menina comeou a frequentar a casa do namorado, que passou a ser o seu cante, num dos mais perigosos e violentos morros da zona oeste do Rio de Janeiro. Ia e voltava sozinha. Passava dias sumida sem que ningum da sua famlia a procurasse. Logo se tornou usuria de drogas. Imediatamente, engravidou e teve um lho, hoje com 3 anos. Na ltima vez em que foi para car na casa do namorado, no nal da semana retrasada, foi estuprada por 33 homens, provavelmente todos integrantes de uma quadrilha de trco de drogas, incluindo o namorado. Foi seviciada de todas as formas e desmaiou durante a curra. A violncia s se tornou conhecida pela sua famlia com a divulgao de udio e vdeo pelos prprios criminosos. O impacto dessa barbaridade, mais uma na escalada de selvageria deste pas chamado Brasil, ofuscou ao menos por algum tempo os escndalos de corrupo em torno dos 98 bilhes de reais que a Petrobrs pagou s empreiteiras grampeadas pela Operao Lava-Jato. A partir desse valor foram desviados os recursos gerados pelo super faturamento dos contratos de obras e servios para o pagamento de propinas aos envolvidos nas operaes ilcitas. Um valor impressionante, mas no o nico no rosrio de roubos bilionrios dos cofres pblicos, que, esvaziados, faltam quando se trata de nanciar investimentos sociais capazes de impedir que o pas se afunde num mar de lama e de imoralidade, que penetra no corpo e sufoca a alma da nao. A vergonha que representa para um pas uma criana de 13 anos cair nas mos de bandidos, frequent-los sem qualquer ajuda ou ateno ao longo de trs anos, perodo no qual cou viciada em drogas e concebeu uma criana, cujo futuro pode ser pior do que o da me. A sociedade s acorda quando o desfecho brutal. O fato chocante, mas completamente previsvel. Milhes dessas pessoas vivem seus dramas e tragdias sem serem vistas pelos que controlam o poder e o uso das bilionrias verbas pblicas, que atacam como abutres insaciveis e inescrupulosos. Do alto dos seus prdios de vidro e ao, dos seus gabinetes suntuosos, dentro de seus carres blindados e peliculados, no vai-e-vem pelo mundo, recompostos em suas academias hightech eles se lixam para o Brasil. a mais destrutiva elite no mundo, para a qual a civilizao est nos seus bolsos. Antes do seu inapropriado puxo de orelhas, z um breve comentrio sobre a falta de civilizao. Uma leitora do meu blog estranhou (talvez escandalizada) que eu no atribusse esses males direita ultraconservadora. Foi o primeiro sinal de que ataques desse nvel viriam. O que meu texto busca ligar os dramas individuais s suas causas polticas e econmicas, ao roubo desenfreado dos cofres pblicos, que priva o Estado, ainda que ele tivesse polticas sociais competentes (o que no o caso), de recursos para o benefcio de todos, no dos mamadores nas tetas do BNDES, do Banco do Brasil, da Caixa e de outros canais de vazamento de dinheiro pblico. Falo de elites predadoras, que, como bem sabemos, se confraternizam diante do banquete que preparam para si com o dinheiro do errio. Nessa confraternizao se misturando Renan, Lula, Juc, Jader, Sarney, Dir ceu, Pizzolato, Paulo Roberto, Cer ver, Delcdio, Acio, Dilma, Temer, Eduardo Cunha, Wagner et caterva. O que signica direita e esquerda para essa gente toda? Podem estar no mesmo barco num momento e noutro no momento seguinte. As guras se embaralham e se separam conforme as circunstncias, emolduradas por uma mitologia que no resiste a uma checagem. Que se mantm porque a inteligncia analtica substituda pelo fanatismo e seus dogmas. Um pas cego aos outros Brasis.

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6 Os notveis no topo do poder no BrasilO banqueiro Henrique Meirelles presidiu o Banco Central como o czar da economia durante todos os oito anos de Lula, que sequer deu palpites nessa rea. Meirelles voltou agora ao poder ainda mais forte, como o ministro da Fazenda de Michel Temer. E chamou para presidir o Banco Central Ilan Goldfajn, que era economista-chefe (e scio) do Ita, o maior banco do pas. Mas se formou no legendrio MIT, nos Estados Unidos, onde atuou tambm no FMI e Banco Mundial, e ocupou cargos pblicos em quase todas as administraes federais recentes, inclusive na de FHC e Lula. Alm de ter sido scio de Armnio Fraga, um dos economistas de FHC, que recusara o primeiro convite de Temer para a Fazenda. A partir da convocao de Meirelles, se incorporaram aos condutores da poltica econmica gente originada no Ipea, o instituto de pesquisa vinculado presidncia da repblica, e de postos importantes no sobe-e-desce circular e endgeno da rea nanceira. As cheas de dois postos-chave, as secretarias do Tesouro e da Receita Federal, permaneceram com as mesmas pessoas. E o atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, elogiou a equipe que chega, classicada como de primeira pela jornalista Miriam Leito. Todos da mesma turma, para a qual a mudana na cabea do organograma republicano no faz muita diferena. Na verdade, s vezes nem conta.O preo da almaA Operao Lava-Jato teve papel crucial na escalada golpista para derrubar a presidente Dilma Rousse. Aos poucos, ela se tornou instrumento poltico para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma cada vez mais seletiva quanto a seus alvos. o que arma o PT na resoluo aprovada no primeiro encontro que promoveu depois do afastamento da presidente, no qual, como de hbito, fez a autocrtica... dos outros. Se verdade o que o partido diz sobre a operao que reuniu integrantes da Polcia Federal e do Ministrio Pblico Federal, acolhida pelo juiz federal Srgio Moro, de Curitiba, no Paran, ento o Partido dos Trabalhadores perdeu fragorosamente a batalha de convencimento da opinio pblica. Em pesquisa realizada pela Fundao Perseu Abramo, que petista, 72% dos entrevistados (exatamente o mesmo percentual da votao nal do impeachment na Cmara dos Deputados) manifestaram sua desconana do PT no quesito corrupo. De arauto das mudanas e smbolo tico e moral da poltica, o partido agora preferido por apenas 14% dos cidados. O sucesso da Lava-Jato, qualquer falha, por isso, tornada irrelevante, foi ter levado para a cadeia os corruptores, sempre impunes porque sempre protegidos na sua guarda pretoriana advocatcia, no seu abundante dinheiro e no seu poder meluo, prprio das eminncias pardas. O maior dos empreiteiros do pas est preso. Por detrs das grades, Marcelo Odebrecht indicou como suas testemunhas a prpria presidente e trs dos seus mais importantes ministros (inclusive Guido Mantega, o que por mais tempo ocupou o ministrio da Fazenda na histria brasileira), que tambm foram peas essenciais do governo Lula. Mera provocao de algum que est per dido ou iniciativa prpria de um personagem com trnsito uente nos bunkers petistas? A resoluo do diretrio nacional do PT uma v tentativa de fechar a chaga em aberto e sob sangramento da liao do partido corrupo, s piores prticas polticas, seduo pelo poder, aos acordos (tidos agora por tticos) com os representantes da direita, que, agora, so exorcizados como acidentes fortuitos no processo de degenerao de um partido que devia ser dos trabalhadores, mas se tornou o instrumento de manobra de uma elite malca ao pas. A pureza original do PT se esvaiu pela bacia das almas. E quem vende a alma no tem perdo, sabe a humanidade de longo tempo.A inocncia acabou A era da inocncia acabou. Michel Temer achava que sua esperteza e experincia poltica seriam sucientes para contor nar a grave crise que levou ao afastamento de Dilma Rousse e a sua ascenso presidncia da repblica. Montando todo tipo de acordo poltico com pessoas e partidos, que levou ao leilo do ministrio, garantiria o apoio do parlamento para a sua transfor mao de presidente provisrio em denitivo. Dilma no voltaria e ele iria at 2018, com possibilidade de se reeleger. S faltou combinar com os russos, conforme o bordo futebolstico. Os russos, no caso, os brasileiros. A queda do segundo ministro em menos de trs semanas de governo ameaa acender o sinal vermelho, depois do qual o vice-presidente ir para o mesmo arquivo morto no qual se encontra a titular do cargo. Ele tem pouco tempo e menos espao ainda para refazer o governo, mudando sua diretriz. Ao invs de esperar que os fatos conrmem os maus pressgios, pode se antecipar s crises recomeando pelo comeo, abusando da tautologia: procurando nomes adequados para cada pasta pelo critrio da competncia e da limpeza biogrca. A questo : ele conseguir essa proeza sendo quem ? O ministrio que formou seguiu o critrio da viabilidade poltica a qualquer preo e por qualquer risco. Mas essa diretriz s seria satisfatria num governo de transio, para durar no mximo 180 dias, ou para ele prprio convocar eleies gerais. No sendo esse o propsito de Temer, a consequncia de formar uma equipe de homens pblicos de notria carreira viciada est acabando com a legitimidade e a credibilidade do governo do PMDB. Ele ameaa afundar no mesmo buraco que sugou o PT. uma crise cada vez mais grave, a poltica congelando a atividade produtiva no pas. Os petistas acreditam que voltaro ao poder nesse balouo no qual quando um grupo desce, o outro sobe. Mas o governo petista no saiu por ousadia econmica, social ou mesmo poltica. Foi por corrupo. E nesse barco todos embarcaram, nivelando-se pelo mais baixo parmetro da poltica em toda repblica brasileira. Algum segmento do poder estabelecido conseguir emer gir desse naufrgio geral ou s h uma sada, a convocao de eleio geral para j?

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7 O golpe do curso de ingls no pobre interior do ParA primeira semente foi lanada em 2014 sobre o solo pedregoso de Augusto Correa, municpio de 40 mil habitantes do litoral paraense, a pouco mais de 200 quilmetros de Belm. A prefeitura pagou 1,8 milho de reais para que mil alunos passassem a falar ingls (o que no aconteceu). O PIB municipal era inferior a 170 milhes de reais. Ou seja: 1% da riqueza municipal para ensinar ingls s crianas. Ou us-las para o saque ao errio. O golpe chegou a Belm no ano seguinte, em escala ampliada. Na secretaria de Educao do Estado foi aberto um processo de inexigibilidade de licitao para a contratao da empresa BR7. Ao custo de quase 200 milhes de reais, ela iria ensinar ingls para 110 mil alunos da rede fundamental de ensino. Uma ideia do escandalosamente alto valor do projeto (inversamente proporcional sua qualidade, dentre outros fatores) ele representar metade dos recursos do BNDES para o Pacto pela Educao em todo pas. Ou tomando por parmetro um acontecimento prosaico: um turista brasileiro chegando a Nova York para uma temporada de compras. Algum lhe oferece um kit para o aprendizado de ingls, com trs livros didticos e trs DVDs por 500 dlares. Quem compraria? Ainda mais depois de ver a pssima qualidade do material didtico, empacotado sem qualquer preocupao com seu valor pedaggico, s se fosse trouxa. Pois assumiram esse ttulo os prefeitos de vrios municpios paraenses, que compraram o material para os alunos da rede municipal de ensino. J seria suspeita a preocupao com a lngua inglesa em municpios como Inhangapi, Santo Antnio do Tau e Acar, onde o ensino (e o aprendizado) da lngua nacional costuma ser sofrvel, para dizer o mnimo. A iniciao num idioma estrangeiro atravs da BR7, de Alberto Pereira de Souza Jnior, inteiramente desconhecida no ramo e que em toda a sua histria de menos de dois anos s conseguiu atrair 20 alunos para suas supostas turmas presenciais, se tornou caso de polcia. Tanto que vrios dos envolvidos foram presos no dia 24 pela Polcia Federal., por ordem do juiz Ruben Rollo dOliveira. O golpe, como a iniciativa foi denida pela polcia e pela justia federal, pode ter rendido aos seus aplicadores e aliados entre 9 milhes e 17 milhes de reais, em contratos com as prefeituras do interior, com dispensa ou inexigibilidade de licitao e pagamentos rpidos, sem qualquer controle sobre o produto entregue (ou se foi mesmo entregue). O alcance de um verdadeiro assalto aos cofres pblicos, com dinheiro repassado pelo governo federal atravs do bilionrio Fundeb (Fundo de Manuteno e Desenvolvimento da Educao Bsica), se torna mais grave por que o prprio governo do Estado quase repetiu as prefeituras do interior.Certamente seria mais uma faanha para o governador Simo Jatene apresentar ao mundo se a arapuca no tivesse sido denunciada. Menos de 20 dias depois que a iniciativa foi desmascarada, o governo sepultou o convnio com a empresa.Menos mal. No entanto, to grave seria saber ao certo por que um golpe to primrio chegou a merecer a ateno da administrao pblica, a ponto de faz-la liderar um projeto de aprendizado massivo de ingls no Par por uma empresa sem a menor credencial para sustentar a sua participao num empreendimento desse porte. Desta vez, a polcia e a justia tm que dar uma resposta altura dessa tosca, selvagem e imoral tentativa de usar a educao para roubar o dinheiro pblico. Dessa manobra o nico que escapou priso no dia 24, que colocou cinco pessoas atrs das grades, foi Raimundo Nonato Pereira, dono de um programa matutino na rdio Mix FM. A funo do radialista era usar o seu programa para intimidar, ameaar ou chantagear prefeitos recalcitrantes ao acerto com a BR7, de quem a Polcia Federal acredita que ele recebia os pagamentos pelas colaboraes. Nenhuma delas, claro, desinteressada. Quem acompanhava os programas de Nonato Pereira, ou segue os equivalentes em outras emissoras com algum senso crtico, devia se intrigar pela sua contundncia. Ataques raivosos contra uns, em nome da moralidade pblica e da excelncia administrativa. Elogios desmedidos a outros, erigidos condio de estadistas plutarquianos. Para alguns eleitores, so radialistas crticos, comprometidos com as causas populares, corajosos, arrojados, verdadeiros heris, motivos usados para eleger guras como Wlad Costa ou quase consagr-las, como Jeferson Lima. Para outros, escroques, pessoas irresponsveis, que transfor mam o microfone numa arma de ataque e faturamento. Contatada no dia da operao policial pelo portal do Dirio do Par a Mix FM respondeu ao pedido de entrevista com a justicativa de que no iria se pronunciar sobre o caso porque Nonato Pereira era terceirizado, isto pagava pelo espao para transmitir o seu programa. E assim cessa toda a responsabilidade editorial da direo da emissora, que utiliza uma concesso pblica federal apenas para faturar. O microfone o seu caixa. assim que pessoas inescrupulosas, sem qualquer apego ao importante jornalismo radiofnico, mercantilizam o que devia ser compromisso em informar, entreter ou divertir o ouvinte. Como pagam (e bem) para serem donas do horrio, essas pessoas precisam faturar ainda mais para repassar o que cabe ao dono da frequncia. No suciente para cobrir essa despesa a receita publicitria. preciso descer ao achaque. E se desce. E, pelo exemplo de Nonato Pereira, como se tem descido!

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8 Belo Monte: benefcio um prdio fechadoSimplesmente chocante: a Norte Energia, responsvel por uma obra de 32 bilhes de reais, a hidreltrica de Belo Monte, projetada para ser a quarta (embora se fale em terceira) maior do mundo, concluiu a construo do hospital do Mutiro, em Altamira, em 2015, um ano atrs. At hoje o hospital no comeou a funcionar. Permanece fechado. No ltimo dia 10, o Ministrio Pblico Federal fez uma vistoria no hospital e constatou que ele est em processo visvel de deteriorao e sucateamento. Ontem, o MPF emitiu recomendao prefeitura de Altamira, ao gover no do Par, ao Ministrio da Sade e Norte Energia, cobrando um plano para abertura do hospital do Mutiro e dando prazo de 30 dias para que apresentem termo de compromisso para gesto do hospital. A recomendao assinada pela procuradora da Repblica ais Santi alerta que uma vez considerada cumprida a obrigao condicionante independente da efetiva prestao de servio de sade, o risco evidente de que a estrutura entregue pela Norte Energia torne-se intil aos ns a que se destina, com desperdcio dos recursos pblicos destinados mitigao dos impactos de Belo Monte. Em 15 dias ter que ser apresentado um plano de abertura para o hospital, com 12 medidas necessrias ao funcionamento, incluindo aes de reforma que j se fazem necessrias pela deteriorao da estrutura. Em 30 dias o MPF quer a assinatura de um termo de compromisso para gesto e custeio do hospital do Mutiro, com detalhamento das responsabilidades de cada um dos entes envolvidos e anexo de anlise nanceira do aporte de recursos necessrios para nanciamento dos servios. Caso necessrio, dever ser denido aporte excepcional de recursos pelo Ministrio da Sade. O MPF pede ainda na recomendao que o Conselho Municipal de Sade de Altamira se pronuncie sobre a questo no prazo de cinco dias. Nota do MPF lembra que o impacto de Belo Monte sobre as condies de sade na regio do Xingu foi previsto desde a licena prvia, concedida pelo Ibama em 2010. As licenas do empreendimento previram a ampliao da rede de sade, mas falharam em no pactuar o custeio e a gesto das estruturas com os entes pblicos, j sobrecarregados. Com isso, as condicionantes, mesmo consideradas cumpridas, no tiveram eccia para evitar o colapso do atendimento, acrescenta a nota. Enquanto o hospital novo permanece fechado, a oferta de leitos do Sistema nico de Sade (SUS) diminuiu em Altamira, em vez de aumentar. Isso por que um dos hospitais particulares que atendia a rede conveniada optou por se descredenciar para atender apenas o plano de sade privado do Consrcio Construtor de Belo Monte. Para o MPF, o surto de gripe inuenza H1N1 que hoje atinge as aldeias indgenas da regio trouxe luz a inefetividade da condicionante de sade, uma vez que os relatos so de que as mortes das crianas indgenas se deram em contexto de colapso do servio de sade do municpio, que no ofertou estrutura fsica adequada para acolher os doentes, tampouco retaguarda para os casos em que o quadro da doena se agrave.A explicao de JaderO Dirio do Par interrompeu, no ms passado, o silncio que vinha mantendo nas ltimas edies sobre o novo pedido de inqurito que o procurador geral da repblica, Rodrigo Janot, apresentou ao Supremo Tribunal Federal para ser instaurado contra o principal dono do jornal, o senador Jader Barbalho, do PMDB. A primeira armativa do ex-gover nador para o seu jornal enftica: Espero que esse assunto [o recebimento de propina a partir de recursos desviados de contratos de empreiteiras particulares com a Petrobrs] seja aprofundado e denitivamente esclarecido. Nunca tive participao em negociaes referentes construo da hidreltrica de Belo Monte. Embora negue seu envolvimento no desvio de dinheiro da obra para favorecer polticos do PMDB, Jader armou que [o ex-senador] Delcdio [do Amaral ] cometeu um exagero e no se sente inuenciando o governo h bastante tempo. Ou o reprter que registrou a declarao no foi el ao que realmente disse o senador, ou o prprio Jader no foi feliz ao escolher as palavras que usou. Ou ento cometeu um lapso de memria. Qual seria o exagero do ex-lder do PT no Congresso Nacional? No clculo do valor da propina extrada de Belo Monte, que teria sido de 40 milhes de reais? Ou da incluso de trs senadores peemedebistas na vaquinha (alm de Jader, o agora ministro Romero Juc, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e Valdir Raupp, de Rondnia)? O ex-governador do Par bem que podia voltar ao tema e esclarec-lo. Outra declarao ambgua foi a de que no se sente inuenciando o governo h bastante tempo. Ele no se sente inuenciando ou no inuencia mesmo, de fato, concretamente? Foi uma derrapagem de linguagem em homenagem ao crescente tabitibitti no modo de falar dos nossos tempos telegrcos por via virtual, no qual um suspiro supera uma concordncia verbal? Como pede o senador, j est mais do que na hora de uma investigao em profundidade sobre o custo da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, projetada para ser a quarta do mundo, independentemente do que estiver apurando a Operao Lava-Jato. Anal, ela representa 5% dos 500 bilhes de reais que o BNDES deve ao tesouro nacional. Esta foi uma das mais nocivas novidades do governo Lula, mantido na gesto da sua sucessora: abrir uma torneira de dinheiro do caixa do tesouro para o banco, que j tinha poderosas fontes de recursos no FAT, no FGTS, na sua prpria receita e na Bradespar. Foi por isso que Lula encheu o peito para anunciar ao mundo que o Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico e Social do Brasil j era maior do que o Banco Mundial. Sintomtico que dos R$ 25 bilhes j injetados pelo BNDES em Belo Monte, mais de 75% se originem do tesouro, sob intermediao da Caixa, enquanto o BNDES responde apenas pela parcela minoritria dos seus prprios recursos. Pode signicar uma coisa: se o dinheiro no voltar, a viva que pague a conta. Convenhamos: R$ 40 milhes em R$ 25 bilhes de R$ 500 bilhes boi de piranha.

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9 Protesto contra FHC ofende a intelignciaFernando Henrique Cardoso um ditador latino-americano ou um reles golpista, sem qualquer apreo pela democracia, com um cartel de demonstraes de intolerncia e oportunismo? Acompanhei, perplexo, a campanha desenvolvida na semana passada contra ele nos Estados Unidos. O ex-presidente acabou sendo obrigado a cancelar sua participao num congresso acadmico em Nova York, logo depois de ser homenageado por uma das maiores universidades do mundo, a de Harvard, em Boston, ali perto. No caberia comparar FHC ao general Pinochet, por exemplo, perseguido ao redor do mundo para pagar pelos crimes que cometeu contra o Chile. Mas se podia traar um paralelo com o maior lder civil chileno at o golpe de Estado de 1973, para o qual ele deu sua contribuio. Entrevistei o ex-presidente e senador Eduardo Frei, da democracia crist. Ele no era qualquer um: tinha estofo. Mas foi um conspirador, que deu sua contribuio para a deposio do presidente constitucional do pas, Salvador Allende, abrindo as portas do inferno para a matana de milhares de pessoas. Nunca aceitou a ascenso do adversrio socialista. Se tivesse tido uma atitude decente, talvez tivesse atrapalhado um pouco o golpe militar liderado por Pinochet. Por ironia, o companheiro de debates de FHC seria o ex-presidente chileno Ricardo Lagos. Fernando Henrique muito melhor do que Frei. Nenhum outro intelectual com sua densidade chegou ao poder na Amrica Latina, raros no mundo. Mrio Vargas Llosa, que o supera, cada um no seu prprio ramo intelectual, no venceu a eleio para a presidncia do Peru. E foi melhor assim. Darci Ribeiro, outro grande intelectual latino-americano, tambm pulou das letras e da teoria para a prtica poltica. Foi do gabinete de Joo Goulart e senador pelo Rio, sem o mesmo brilho do intelectual. Brizolista, dele uma frase generosa sobre FHC, que considerou como brilhante em qualquer pas do mundo. A obra de Fernando Henrique como presidente suscetvel a todas as polmicas e exposta a crticas duras, sobretudo no seu segundo mandato (feitio que ele criou, movido pela sede de poder e a incontrolvel vaidade), devidamente punido pela crise inter nacional, que no pde debelar. Patrocinou barbaridades, como a venda vil da Vale na bacia das almas, e das privatizaes em geral. Conestou sujeiras dos seus correligionrios e aliados (em especial, do PFL de ACM). No entanto, deixou um legado positivo com o Plano Real, o melhor combate que a inao teve em todo mundo. Fernando Henrique no golpista. Porque um esprito tolerante, mas tambm porque a convico de golpe para derrubar a presidente Dilma Rousse, perseguir Lula e destruir o PT dogma de fanticos, j incapazes de ver a realidade e ser receptivos verdade. Houve conspirao visando os trs alvos da mesma maneira que conspirao desses alvos por mais poder e tudo mais na geleia geral esparramada sobre o Brasil, ombro a ombro com as guras mais nojentas da repblica. A grotesca viso de um golpe (poltico, branco, parlamentar ou que outra adjetivao o acompanhe) uma ofensa ao Brasil. Os que o espalham, tomando-o por motivador contra a presena de FHC no congresso a que devia comparecer, no honram o pas em que nasceram ou para o qual dedicaram seus estudos. Infelizmente, Fernando Henrique recuou, atitude que pode se justicar por sua idade, aos 85 anos, sua condio tucana e a vaidade que lhe tufou os peitos pela homenagem em Harvard e o risco das contrariedades seguintes. um momento melanclico, que nem a consciense mauvaise de estrangeiros aodados por purg-la, atenua. A inteligncia humana, mais uma vez, a vtima. O socilogo foi convidado para o encerramento do 34 Congresso Inter nacional, o ponto culminante das comemoraes sobre o cinquentenrio da Associao de Estudos Latino-Americanos, a maior associao prossional do mundo composta de indivduos e instituies dedicadas ao estudo da Amrica Latina. Com mais de 12 mil scios, quase 60% dos quais residindo fora dos Estados Unidos, a Lasa congrega especialistas de todas as disciplinas e prosses que se dedicam ao estudo da Amrica Latina em todo o mundo. Ela proclama como sua misso promover o debate intelectual, a pesquisa e o ensino sobre a Amrica Latina e Caribe e seus povos em todas as Amricas, promover os interesses do seu quadro diversicado de scios e incentivar a participao cvica por meio do aumento de uma rede de relacionamentos e debate pblico. Em carta enviada entidade, o ex -presidente lembrou: Aqueles que me conhecem sabem que eu fui formado como cientista social numa poca que, a despeito de crenas e valores, intelectuais deviam manter a objetividade cientca como um valor central em seus desaos acadmicos. Quando a Lasa surgiu, em 1966, ele era apenas um socilogo de expresso continental, que xara uma teoria interpretativa sobre o processo poltico e econmico da Amrica do Sul, tema inevitvel para quem quisesse se aventurar pelo tema. Suas ideias a respeito tm sido questionadas e a sua presena em NY podia ser uma boa oportunidade para entest-las de novo. Os participantes do encontro fariam muito bem em questionar tambm a ao poltica do intelectual e fazer os protestos que julgassem adequados. Mas no pela atitude intolerante de hostilizar o personagem, um caso muito raro de intelectual que meteu a mo na massa (no Brasil, misturada a outro material menos til) e fez. No seu enorme volume inicial de memrias, Fernando Henrique ofereceu a prpria verso dessa obra atravs de um livro como poucos existe, escrito por quem exerceu as duas condies, geralmente excludentes. Por isso, merecia ser ouvido, contestado e cobrado, mas nunca impedido de falar a pretexto de pagar pelo que no fez. O que de fato fez j o bastante para impor-lhe um dbito para com o Brasil.

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10 O ministrio voltou. A cultura: melhorou?A iniciativa mais contestada e que mais barulho provocou neste incio de governo Temer no nem de longe, a mais importante delas: a extino do Ministrio da Cultura. O MinC passaria a ser um apndice do Ministrio da Educao e Cultura, como foi durante muito tempo, inclusive, de forma eciente, no perodo em que o agente executivo foi o Conselho Federal de Cultura, presidido pelo historiador amazonense Artur Cezar Ferreira Reis. Com apndices importantes, como o Instituto Nacional do Livro. O que d peso a uma poltica cultural no necessariamente, o seu aparato institucional, mas a vontade e o sentido do fazer. Temer voltou atrs de voltar atrs com o MEC de origem. Agora quer criar uma secretaria para cuidar do tema, mas gostaria de entreg-la a uma lamentvel ausncia na sua equipe: uma mulher. As notveis at agora procuradas disseram no ao convite. Porque gostariam de ter de volta o status ministerial? O que est em causa na onda de protestos no a poltica cultural do novo governo, que nem a possui, verdade, inclusive por falta de tempo hbil para qualquer coisa que no seja embromao multicolorida. a importncia do cargo e sua jurisdio e poder. Quando trata de cultura, o Estado costuma ser um macaco em loja de louas: desastrado, incompetente, siolgico, do compadrio. Mas o que a maioria dos artistas notveis e imponentes quer: uma mamata estatal, uma fonte de recursos amiga, condescendente e compreensiva para a condio de artistas, da igrejinha ou da tchurma. Compensam a grana preta ou mulata ou alva ou de qualquer cor, desde que sonante com a adeso total, radical. Da tanto artista falar tanta besteira e contribuir com to pouco para a cultura nacional. Os melhores mesmo so os que se mantm independentes, ativos, crticos e cientes de que o Estado, em matria de cultura, um leviat. At um observador suspeito pode desconar do empenho dos defensores da causa nobre. O economista Antonio Delm Netto, por exemplo. Ele um dos mais representativos personagens da ditadura. Contribuiu decisivamente para faz-la vicejar e durar, tirando vantagem pessoal da sua participao, sobretudo em dois momentos: durante o milagre econmico na transio dos anos 1960 para os 70, em glria, e no nal do ciclo, sob o general Figueiredo, com oprbrio, na dcada perdida de 1980. Gnio do mal ou no, Delm sempre mereceu ateno, cuidado e mesmo respeito por sua inteligncia, seu preparo intelectual e sua competncia como executor de aes. Da porque renasceu no governo Lula, o que parecia impossvel, tornando-se conselheiro de cabeceira do presidente petista por oito anos. Com menos nfase, j que a interlocutora no gostava de ouvir ningum, manteve-se ilharga do poder com Dilma Rousse. Ao dar-se conta do custo da campanha pela reeleio da presidente e dos efeitos desastrosos que viriam em seguida, Delm abandonou o barco. Seu senso da oportunidade histrica anadssimo. Aos poucos ele foi retomando a condio de livre atirador, j que seus interesses particulares se haviam desligado do governo. Foi elevando o tom das crticas, algumas mordazes, outras certeiras, graas sua verve brilhante e aos seus profundos conhecimentos tericos e prticos no s da economia. Nunca deixei de ler Delm, em cer tos momentos para, concluda a leitura, escrever contra ele a partir dos seus argumentos. Li o artigo de hoje, escrito originalmente para a Folha de S. Paulo e republicado pelo Dirio do Par Recomendo-o para quem quer retomar o debate sobre a poltica cultural do governo federal, no deixando que morra sob o manto sufocante da recriao do MinC. A medida foi adotada pelo presidente em exerccio Michel Temer em resposta ao ranger de dentes do mais vocal, simptico e bem situado corporativismo, alneta o ex-ministro da Fazenda (do Planejamento e da Agricultura, e ex-deputado federal por So Paulo), acrescentando: Houve farta diverso e amplo diversionismo, mas nada substantivo realmente aconteceu. Somos, voltamos e camos no mesmo lugar!. Minimizando toda a belicosidade em torno da trincheira do MinC por combatentes de retaguarda. Eles ameaavam dar a vida pelo ministrio, incorporado, na forma de secretaria, ao ministrio da educao, que voltaria plenitude da sua verso anterior, de MEC (reagrupando cultura e esporte). Se existe alguma economia na fuso dos dois ministrios, o que de esperar, o apoio ao desenvolvimento cultural poderia ser reforado pela maior ecincia dela resultante. O que se pode garantir que nunca mais um Governo descuidado tentar lanar a necessria luz do sol sobre a relao custo/benefcio do envolvimento incestuoso do Estado e o corporativismo que dele se alimenta. Confesso, de certo modo constrangido, que no conseguiria escrever melhor sobre o tema.DEBATE DE NVELFelizmente foi possvel extrair uma discusso proveitosa no meio da fria de reaes contra um debate fecundo em torno da morte e ressurreio do Ministrio da Cultura, a partir das mensagens enviadas ao meu blog.Ricardo Condur S discordo do trecho em que voc coloca que essa histria de golpe para fanticos, oportunistas e desavisados. A defesa de que houve um golpe no to inconsistente assim, e tambm merece respeito, anal, ela no est circunscrita a um pequeno grupo de alienados, mas ganha corpo entre pessoas esclarecidas e ilibadas no Brasil e no exterior. O episdio da gravao envolvendo Romero Juc transparece sim, um conluio. Que venham novas revelaes. Lucas Schuina Veja o exemplo de Kleber Mendona Filho. H alguns anos, apontado como um dos principais cineastas brasileiros, e seu ltimo lme foi apontado como um dos melhores da seleo do Festival de Cannes que acabou de acabar, apesar de no ter sado de l com prmios. Mas, alm de cineasta, Kleber tambm crtico (j era, antes de tornar-se cineasta), programador do cinema da Fundao Joaquim Nabuco, em Recife, e programador do festival Janela Internacional de Cinema do Recife. Sua contribuio para o cinema em todos os nveis (formao de pblico, distribuio e divulgao de obras relevantes e produo autoral) notvel no sou de Pernambuco, mas j estive em Recife e pude constatar isso, vendo salas de cinema cheias e gente debatendo cinema com propriedade. Kleber pode ser considerado um agitador cultural mais ou menos nos mesmos termos em que voc classica Mario Faustino, a quem admiro (acho at que o ultrapassa, guardadas as devidas propores e contexto histrico) e, preciso destacar, tambm mantm uma postura poltica sabidamente crtica, questionando decises governamentais e projetos de poder.

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11 Cultura vai em canaOsscais da secretaria municipal de economia acabaram com a feira de livros que se formou, ao longo de vrios meses, com a blitz desfechada trs semanas atrs na praa da Repblica em Belm. Apreenderam mercadorias de dezenas de vendedores ambulantes sem autorizao para trabalhar naquele espao pblico. Uma operao que, como sempre, mal vista pela maior parte da populao. A legislao autoriza a ao repressiva. Um porta-voz do setor de scalizao da Secon garantiu que todos os atingidos receberam noticao prvia de que seriam punidos se permanecem na praa sem sua regularizao. Por isso no houve a brutalidade e a violncia de outros tempos, alm da corrupo contumaz. A fonte lamentou a ao, especialmente numa conjuntura de diculdades crescentes para as pessoas que recor rem informalidade para sobreviver e manter suas famlias. Essa necessidade, porm, prejudica a livre circulao nos ambientes pblicos e o errio municipal. A Secon sofre tambm presso do Ministrio Pblico do Estado. O scal da lei parece menos receptivo s circunstncias que explicam o contexto da atividade informal. Lei lei e est acabado. A praa da repblica est maltratada demais e h cada vez mais gente procurando-a numa cidade destituda de lazer adequado, suciente ou minimamente atraente.Belm um deser to de opes nos nais de semana. A prefeitura, que pe para funcionar o seu brao repressivo, no movimenta com a mesma celeridade o brao operacional. As obras de recuperao da praa avanam ao ritmo caracterstico da administrao Zenaldo Coutinho, que constitui um dos fatores da sua impopularidade e ameaa sua reeleio. A averso do povo ao governo tucano pode piorar. H rumores de que ainda nesta semana o comando da Secon ser alterado. Os quatro vereadores evanglicos da cmara de Belm devero escolher entre eles um novo secretrio, com o que rmariam acordo eleitoral com o PSDB, trabalhando em sua frtil seara pela reconduo do alcaide. A politicagem, que foi combatida no incio da atual administrao, voltar com o mesmo patrocnio. Tudo passa a ser siologismo e compadrio, mesmo num setor com espao suciente para uma poltica mais positiva. duro ver livros sendo apreendidos mais uma vez e levados para depsito de connamento, com destino incerto e no sabido. J sugeri vrias vezes que, ao invs de combater, a prefeitura estimulasse os sebos de rua, uma instituio universal sempre a servio da cultura sem deixar de ser uma forma de comrcio. Bastava mandar aos pontos da cidade onde h vendedores ambulantes de livros no scais, mas agentes administrativos. Eles teriam a misso de cadastr-los, assinar um termo de compromisso com eles e estabelecer locais e horrios de funcionamento durante a semana e domingos e feriados. A prefeitura mantm-se surda e muda a esse ajuste a todas as cidades do mundo que tm esse instrumento, famoso em Paris, com os buquinistes da beira do rio Sena. Mas j que a PMB nada faz, os donos de sebos e vendedores de ruas deviam criar uma associao e ir aos vereadores em busca de um amparo legal para o que fazem: ganhando seu dinheiro e fazendo a cultura circular. Em Belm, ela s circula com algemas. Depois do protesto que ele e a equipe do lme zeram em Cannes (no vou entrar aqui no mrito do protesto em si, mas podemos fazer esse debate), passou a ser tratado por gente reacionria e mal infor mada como apenas mais um artista intil e lambe-botas que ca mamando nas tetas do Estado um lugar-comum j repetido exausto e ao qual voc, mesmo no se referindo pessoa que eu aqui menciono, lamentavelmente repete. Concordo que a postura de muitos artistas que querem apenas ter o Estado como salvaguarda para as suas obras geniais, e mesmo a ideia de uma suposta indstria criativa nanciada quase que exclusivamente com dinheiro estatal, seja bastante questionvel. Mas no podemos incorrer em generalizaes a respeito do que est acontecendo no Brasil nessa rea, como o que parece ocorrer com o seu texto. Existem, sim, polticas pblicas de cultura resultando em ganhos sociais efetivos, e h muita gente agitando a bandeira da cultura por a, mesmo que a tal mamata no seja l grandes coisas, muito longe disso. E os resultados s no so melhores porque os desaos so imensos. Ademais, cultura e educao, mesmo que se relacionem intimamente (nenhuma dvida a respeito disso), diferenciam-se bastante em termos de agenda, no que tange organizao de polticas pblicas. Enm, mesmo respeitando o seu posicionamento (que siga mantendo sua postura independente!), creio que o seu texto passe longe de tratar, de maneira um pouco mais acurada, da questo da cultura. Mas que siga o debate. Marcelo Vieira Dias A grosseria e a falta de educao so as companheiras preferidas da ignorncia a burrice sempre presunosa. Chama ateno que um texto to arrogante, tanto no autoritarismo das premissas gratuitas como na grosseria das ofensas proferidas como se fossem concluses, tente em um deter minado momento aplicar uma lio de humildade, sugerindo que o arrogante voc. Isso sim sintomtico, no de um tempo, mas de uma mentalidade. De fato, cada um merece que as crenas que tem. LFP Obrigado por sua solidariedade e suas ponderadas observaes. Mas voc est tratando da exceo, no da regra. Levante a quantidade de dinheiro que saiu da Petrobrs, BNDES, Caixa, Banco do Brasil et caterva e o retorno desse dinheiro pblico. Vejamos um caso extremo, Chat, o rei do Brasil. O ator Guilherme Fontes recolheu oito milhes de reais (R$ 66,2 milhes em valor atualizado) pela Lei Rouanet para inici-lo em 1995. S o exibiu, e muito limitadamente, 20 anos depois, numa car reira curta. Sua grande glria foi receber quatro prmios do festival do ABC (por coincidncia, reduto poltico e domiciliar de Lula), exclusivamente para funes tcnicas. Nada de prmio de lme, direo, interpretao ou equivalente. Em 2008 a hoje extinta Controladoria-Geral da Unio considerou irregular a prestao de contas e determinou que Fontes e seus scios devolvessem aos cofres pblicos R$ 36,5 milhes. Guilherme Fontes foi condenado a trs anos, um ms e seis dias de recluso por sonegao scal pela justia Rio de Janeiro. A prpria justia poupou o ator de ser preso, em 2010. Sua pena foi convertida em trabalho comunitrio de sete horas semanais durante os trs anos da sentena original, alm do pagamento de 12 cestas bsicas de R$ 1 mil para instituies sociais no Rio. Ele recorreu da deciso. Em 2014, Guilherme Fontes foi mais uma vez condenado e teria que devolver R$ 66,2 milhes aos cofres pblicos, alm de pagar multa de R$ 5 milhes, o que no aconteceu. Na poca, ele divulgou uma nota aos amigos e aos fs: lutarei contra toda e qualquer violncia contra minha pessoa. E esta me parece ser mais uma. Conhecida essa retrica, no?

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12 memriaC OTIDIAN Odo PROPAGANDAAinda super mercadoQuase 60 anos atrs, em 1959, o primeiro (ou dos primeiros) supermercado (ainda grafado como super mercado) paraense, no incio da rua Santo Antonio, com uma lanchonete no interior. Todos os dias era realizado sorteio e quem ganhasserecebe de volta o valor de sua compra, em mercadoria sua escolha.JORNALEm abril de 1954 o ministro da Justia, Tancredo Neves, cobrou do governador Zacarias de Assuno esclarecimentos sobre denncia que recebeu de Hlio Gueiros e Castelo Branco. Os dois recorreram ao governo federal, frente do qual estava Getlio Vargas, por se considerarem vtimas de perseguio por parte do governo estadual. Acusaram o governador de ter mandado fora policial invadir a ocina de O Liberal, que dirigiam, para dela retirar uma linotipo, mquina usada para a elaborao do jornal. Assuno respondeu que a mquina pertencia ao governo, que a comprara para a Imprensa Ocial. No nal dos anos 1940, porm, o ento governador Moura Carvalho a doou ao jornal, que era rgo ocial do seu prprio partido, o PSD de Magalhes Barata, sem qualquer documento. O Estado pedira e obtivera da justia a reintegrao da linotipo, depois de ter tentado inutilmente reav-la por meio administrativo. A recusa entrega o obrigara a requisitar fora policial para o cumprimento do mandado judicial, com ocial de justia e o promotor pblico Joo Lima Filho.ESCOLASOs grupos do Estado esto desprovidos quase inteiramente de material escolar. No h papel, lpis, tinta, giz, carteiras, quadros negros, etc. Imagine-se como estaro as escolas do interior, se as da capital se encontram mais ou menos naquelas condies. A merenda escolar uma das coisas das mais precrias. Quando mandam a farinha de milho ou de arroz, falta o carvo; quando h car vo, no h farinha e quando sucede esta, brilha o leite pela ausncia. Situao das escolas pblicas em 1954. Tudo mudou para tudo continuar como estava. E sempre esteve.NASCIMENTORaimundo Antonio da Costa Jinkings e Maria Isa Tavares Jinkings, como era bem fazer na poca, comunicaram aos amigos e parentes, por anncio no jornal, em 1954, o nascimento de Nise Maria, a primognita do casal, na Mater nidade da Benecente Portuguesa. A parturiente e a recm-nascida passavam bem, sob os competentes cuidados prossionais da dra. Elisa Ro.CRIOO jornalista Paulo Maranho, dono da Folha do Norte no concordou com a previso da colunista social Regina Pesce, que escrevia no seu jornal. Ela diagnosticava, em 1960, que a festa de Nazar se encontrava em estado agnico. M observadora a querida Regina, comeou Maranho, atravs da coluna Vozes da Rua, do seu outro jornal, a Folha Vespertina Para contest-la, se valia da condio de residente por 25 anos na praa de Nazar, onde se realizava e ainda se realiza a quinzena festiva do Crio. Julgava-se em melhores condies para analisar a situao. Via a festa, pelo contrrio, cada vez mais deslumbrante. Sbado e domingo, seus dois ltimos dias, o arraial foi pequeno para conter a multido. No somente noite, mas durante as horas vesperais. Pode-se mesmo dizer que este ano a festa assumiu um aspecto impressionante. Para que ela decaia ser necessrio que a f em nossos coraes tambm se enfraquea; medida, porm, que os sofrimentos, as diculdades, as tristezas da

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13 vida nos acometem, maior a sentimos palpitar dentro de ns. o grande bordo a que nos amparamos nos momentos de despero. Por motivos certos ou no, a viso de Paulo Maranho que estava certa.DIRETORIANesse mesmo ano a diretoria da festa era integrada pelo padre Expedito Maria Machado, vigrio da baslica, Deusdedith Moura Ribeiro, Domingos Silva, Lauro Brando, Augusto Meira Filho, Otvio Pires, Atreu Baena, Antonio Maria Fidalgo, Ruben Martins, Expedito Fernandez e Jaime Mayrink Andrade.TELEVISONuma quarta-feira de junho de 1964 o sinal padro da TV Marajoara ia ao ar s 18 horas, seguido da abertura, s 18,20, para comear a Primeira Edio (patrocnio de Wilson Souza & Cia.) s 18,40. O encerramento era s 11 da noite, com menos de cinco horas de programao. Vinham em seguida Minha Amiga Flicka (patrocnio de brinquedos Estrela), Todos os Esportes (Importadora Braga), Tapete Mgico (GuaraSuco), Os Flintstones (Tecidos Lua), Reprter Marajoara (Banco Comercial do Par), Qual o Assunto? (Joias Laura e Sabo Pintax), os Rebeldes (chicletes Ping-Pong), Dirio de um Reprter (escrito por David Nasser) e Projeto XX (Banco Nacional do Norte).ALMIREm 1967 o mdico Almir Gabriel comunicava aos seus clientes e amigos que passaria a atend-los em seu consultrio, trs vezes por semana, das 10 FOTOGRAFIAO ciclo de JaderFoi uma autntica festa baratista, talvez das ltimas, o lanamento do livro do jornalista e historiador Carlos Rocque, A formao revolucionria do tenente Barata, em 1983. A noite de autgrafos foi na sede da Fundao Romulo Maiorana, que funcionava no prdio ao lado do jornal O Liberal. A saudao a Rocque foi feita pelo coronel Moura Carvalho, que destacou ter recebido dois legados de Barata, quando ele morreu, em 1959: o governo do Estado e a direo do PSD, o Partido Social Democrtico. O autor da obra, que integrava sua srie O ciclo de Magalhes Barata, aproveitou para passar a caneta que Barata usou, uma Parker-50, durante o seu ltimo mandato de governador, para sua sobrinha, Lucida, esposa de Romulo. Antes de entregar a relquia, Rocque usou-a duas vezes para dois autgrafos: um a Romulo e outro ao governador Jader Barbalho, presente ao ato, para quem escreveu: Quem sabe no escreverei o ciclo de Jader Barbalho?. No escreveu por dois motivos: morreu antes. E Jader no chegou a formar um ciclo, rigorosamente falando. Ainda um caso isolado de liderana poltica no Par. s 12,30 horas, no edifcio Antonio Velho, sala 601. Sua especialidade era cirurgia torcica e cardiovascular. S 17 anos depois ingressaria na vida poltica, ao ser nomeado prefeito de Belm pelo governador Jader Barbalho.AMERICANOSEm maro de 1968 a Jari Indstria e Comrcio publicou seu primeiro balano j sob o controle do milionrio americano Daniel Ludwig, que no ano anterior adquiriu a empresa de um grupo de comerciantes portugueses estabelecidos em Belm. Na presidncia do novo empreendimento, Ludwig colocou o general nordestino Joo Batista Tubino. Atuavam no conselho scal Nicolau da Costa, Ruben Martins e o atual senador Fernando Flexa Ribeiro. Nessa poca, dos 10 milhes de cruzeiros do ativo da empresa, concentrado no plantio de uma rvore asitica para a produo de celulose, mais de 7 milhes provinham da companhia de navios petroleiros de Ludwig. Foi o terceiro grande empreendimento americano na Amaznia, depois do plantio de borracha de Ford no Tapajs e da extrao de mangans da Bethlehem Steel no Amap.

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14 Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz Antonio de Faria PintoCART@S____________________ LegadoAcabo de ler no JP impresso, que vi nascer em meio execuo do Paulo [ Fonteles de Lima ], O legado de 50 anos. Fico feliz que voc tenha alcanado a marca com uma obra fecunda e til sociedade. Muitos de ns jornalistas que o acompanhamos ou compartilhamos o seu talento desde A Provncia do Par ou O Liberal (no meu caso, nos dois jornais, sob Bob Jares e S Leal), buscamos voc como uma rgua jornalstica para tentar aproximaes episdicas com o fazer da prosso, j que o conjunto da obra singular inatingvel (ao menos para mim). As cinco dcadas esto inscritas na histria do jor nalismo amaznico e brasileiro como contribuio importante do cidado e do intelectual irrequieto, com intransigente lado e muita coisa a dizer e sempre frente de seu tempo. O tempo no o imobilizou. Parabns e vida longa! Euclides FariasOposioCom um pouco de atraso, parabns pela char ge de Luiz P na edio de n 607, 2 quinzena de abril. Bastante emblemtica e criativa. Luiz P est impecvel. Tenho acompanhado tuas matrias sobre o impeachment de Dilma Rousse e prolongamentos. Assisto a todo tipo de malcriaes dirigidas tua pessoa por conta de tuas analises feitas em relao ao fato, atravs do Facebook e JP. Lendo tuas matrias a respeito do assunto, observo que no existe tendenciosidade e esto dentro do jornalismo que praticas. Quando dispes de elementos sucientes e, comprovados, mediante a apresentao de fatos feita a publicao. Na ultima edio do JP (maio 2016, 1 quinzena), um escriba que sempre acompanha o teu trabalho afirma em Cartas que nos ltimos nmeros do JP tu vens baseando as tuas anlisesnas posturas e conjeturas dos oposicionistasem relao atual crise brasileira. Mestre Aurlio afirma que conjunturas so: Juzo ou opinio sem fundamento preciso; suposio, hiptese.Nada vejo que possa se associar a conjunturas o atual estado brasileiro, roubado, espoliado e vilipendiado por uma quadrilha que resolveu tomar o pas atravs de um projeto de poder maquiavlico, sabe-se Deus at quando. Penso tambm que no exista oposicionistas no Brasil quando se trata do atual momento poltico. Estamos falando de provas inquestionveis contra uma quadrilha instalada no pas e, a falta de capacidade, da Presidncia da Republica, na pessoa da Sra. Dilma. O que existe com certeza, so pessoas que, de um lado, buscam a justia e, outras, que esto atreladas a um partido, por conta daquilo que se chama imunizao cognitiva. Discordo do escriba quando cita o italiano Umberto Eco:falsificao dos significantes e substituio dos significados.Nada h de falso nos significantes e muito menos, alterao dos significados. O que foi posto nos ltimos meses no Brasil, atravs da imprensa nacional, est amparado em provas devidamente apresentadas e comprovadas perante a sociedade brasileira. Julgamentos foram realizados, rus tiveram direito de defesa, tudo dentro dos ditames da lei. Lei essa que, finalmente, est se fazendo presente, atendendo a todos, independentemente de classe social ou poder econmico. Se s simpatizante da causa oposicionista, se que ela existe, conforme alega o escriba, um direito que te assiste. No vivemos em uma democracia?????????. No tenho nenhuma inclinao poltica partidria, visto que a poltica feita no Brasil, e os polticos que a fazem, no merecem qualquer tipo de crdito. A histria tem provado. Prefiro ficar com a afirmao do dramaturgo Plnio Mar cos: S acredito em poltico no dia em que o Conde Drcula parar de beber sangue. Grande abrao. Sade a ti e aos teus familiares. Paulo CastroPercursoNesta comemorao dos 50 anos de tua produo informativa, crtica e reflexiva atravs do JP, levanto a questo que j havia te levantado, ou seja, a falta de reconhecimento dessa produo pela mdia. A divulgao do teu jornal ainda est restrita. Todavia, alimento a esperana que os poucos leitores podero comunicar aos no leitores as noticias ou os convencendo a comprar o JP, como costumo fazer. O reconhecimento a que me refiro no se limita ao fato de ser apenas um veculo de informao, mas ao contedo que divulga de forma corajosa, coerente, persistente e, sobretudo, reveladora do que acontece na nossa regio. No texto: O legado de 50 anos, destaco trs pontos no nal, em referncia ao que disse acima. Os pontos so os seguintes: a consso de erros, sem comprometer o essencial; a produo para no ser ignorado e a inser o na contemporaneidade. O primeiro me fez lembrar de Bergson, que arma a evoluo da vida mediante subida e queda. No fala sobre descida, segunda a durao ela continua. Exemplicando, a queda acontece com algum que est aprendendo andar de bicicleta. Cai para levantar e prosseguir melhor; o segundo, resumo dizer: a verdade se impe cedo ou tarde e, nalmente, o ter ceiro, precisamos provar por atitudes que estamos em comunho com toda sociedade, onde encontramos pessoas, srias, solidrias, porm encontramos cor ruptas e traidoras. Armando Avellar

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15 Dilvio em Belm: um fato constanteEm trs horas de um nico dia da semana passada, 26, Belm recebeu mais de 2,5 trilhes de litros de gua, que se espalharam por mais de 3,5 mil quilmetros quadrados da rea municipal, com 76 litros por metro quadrado. Foi a maior chuva no ano, superando as precipitaes dos meses considerados de inverno mais rigoroso, de fevereiro a abril (neste ms a chuva chegou a 70 litros por metro quadrado). A meteorologia prev mais chuvas fortes entre o m da tarde e o incio da noite at o m deste ms, o que signica tenso, apreenso, problemas e prejuzos. Nem por isso a cidade estar mais bem preparada para os novos tors previstos. Simplesmente porque permanece omissa e passiva. Seria interessante se algum calculasse a capacidade de escoamento de gua que existe na cidade, pelas vias naturais ou articiais, o tempo de saturao dessas drenagens e o efeito de represamento exercido pelo mar, montando uma maquete eletrnica para dar uma ideia mais real desse incrvel uxo de gua pela cidade. Talvez assim motivasse o poder pblico a cumprir seu papel de estudo, acompanhamento, preveno e manejo da gua numa das mais populosas cidades exposta aos caprichos do mar. A cidade que se recusou a ser Veneza e agora a natureza lhe impe essa questo. Milhares de belenenses amanheceram tirando gua das suas casas inundadas. Fui um deles. No me lembro de uma enchente desse por te em maio, ainda mais no nal de um ms que j de transio para o dito vero. Foi o maior dentre tantos alagamentos do meu currculo de morador de uma baixada, bem central, no bairro do Reduto. Metida a besta, mas rudimentar. Carente de palatas. Em frente minha casa passa uma galeria pluvial (herana da era da Biyngton, minha vizinha na praa da Trindade, comandada por um ingls que se orgulhava de no tomar gua, s cerveja), capaz de deixar passar um carro. Sou um dos privilegiados moradores desta capital, a mais maltratada do pas, a partilhar a rede de esgoto, que no atende nem 10% da sua populao. Ainda assim, a gua parece subir de ano para ano, causando enormes estragos, como agora. Torna-se cruel quando chuvas pesadas coincidem com mar alta. Alis, a elevao do nvel do mar para alm dos trs metros dispensa a chuva para invadir ruas e casas. Basta observ-la nas marginais da ironicamente famosa Doca de Souza Franco (certo prefeito se declarou tarado por docas e, naturalmente, cego paisagem natural do stio belenense). Mesmo sem chuva, h acumulao de gua nas vias laterais do canal revestido que sepultou o igarap das Almas (at na toponmia Belm vai cando mais triste). Peculiaridades locacionais par te, uma coisa certa: a capital dos paraenses, com seus 1,5 milho de moradores, mostra-se incompetente para lidar com o elemento fsico que a molda e, por inapetncia humana, a fustiga permanentemente: a gua. Os aterros sempre foram a principal ferramenta dos polticos. Mesmo num programa de envergadura, como a macrodrenagem das baixadas, a diretriz foi transformar as drenagens em vias de trfego e se esqueceu da microdrenagem, alm de abandonar os equipamentos, a limpeza e a manuteno. Nosso general inverno, cada vez maior, age contra ns por nosso desatino. A administrao municipal devia contar com uma agncia de manejo de gua para fazer previses corretas sobre mars e chuvas, alertar o cidado para as emergncias, agir de imediato em seu auxlio e ter uma poltica permanente de ajuste da cidade ao seu ambiente. Anal, ela est ao nvel do mar, ou abaixo, em suas muitas depresses, um mar cada vez mais incerto e pouco sabido. At l, levantar a cabea e agradecer por sobreviver a mais um dilvio dos muitos que se seguiro, tornando-se acontecimento certo e crescente na agenda do belenense.AvaliaoA matria de capa do JP 608 aborda uma questo muito importante, que no exclusividade do Par, nem das eleies municipais, mas sim do pas inteiro. Sempre aparecem candidatos com discursos retricos querendo ser o heri do povo, que por sua vez sempre acaba acreditando e depositando sua esperana muitas vezes por no ter ou no conhecer alternativas. J sobre o espao meu sebo, esta edio veio de pgina inteira, excelente, gostei muito do comentrio sobre os juros simples e compostos, o que deixa claro o seu interesse tambm pelas exatas. Podemos ver isso seja em matrias desse tipo, ou em obras como O m da Amaznia, a qual usei como referncia em um dos meus acadmicos, intitulado Desmatamento e queimada: for mas de transmisso de calor. Por m as timas Memrias do cotidiano. Antonio da Silva

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emria do Cotidiano NAS Este deveria ser, na verdade, o 8 volume desta srie, pois no ano passado, para atender procura dos leitores, publiquei um volume extra com o 1 e o 2 volumes (revistos e corrigidos), que se esgotaram. Virou um lbum, pelo seu volume e significado. A srie retomada agora e espero que corresponda s expectativas dos leitores.M BANCAS E LIVRARIAS V OLUMEMEU SEBOA Amaznia de MoogFoi poderoso o impacto que Vianna Moog provocou sobre a minha gerao e as anteriores com seus sucessivos esforos de interpretao do Brasil e na anlise comparativa com outros pases, sobretudo os Estados Unidos. Sua ampla e slida cultura, combinada com sua experincia prtica, e um raciocnio febril, o levaram a gerar ideias e provocaes to per turbadoras quanto o ciclo dos grandes intrpretes que o precederam ou lhes foram contemporneos, como Gilber to Freire, Srgio Buarque de Holanda ou Caio Prado Jnior. Depois da primeira leitura, passei a colecionar as sucessivas edies dos livros de Moog, principalmente Bandeirantes e pioneiros (paralelo entre duas culturas). No ano fatdico de 1964, a Editora Cicilizao Brasileira lanou a stima edio (todas de grande tiragem), atestando quanto o livro tem sido lido. Para um marxista, como o dono da Civilizao, Enio Silveira, patrocinar esse livro em particular, por ser uma interpretao oposta da histria, era um desao que o sucesso da publicao ( e sua qualidade) impunha. Por isso, na orelha, faz elogio com reservas: Mesmo que no se concorde com o autor em muitas de suas formulaes tericas, ou que se repudie por completo seu approach no materialista, foroso reconhecer que nele sistematiza, para estudo e debate, uma srie de questes de indubitvel pertinncia e que avana hipteses e concluses originais, de provocante oportunidade. De minha parte, selecionei trechos de Moog sobre a Amaznia que exemplificam uma abordagem tutorial principalmente, e no por acaso, de paulistas sobre a regio, encarada com certa tolerncia enfadonha, mas sem muita f nas suas possibilidades. Viso sosticada e at erudita, mas, no fundo, incapaz de entender a Amaznia, por sua realidade estranha ao universo do autor.OS TRECHOS* E o Amazonas? O maior rio do mundo.Mas s em volume de guas. Economicamente, no vale o Mississipi, no vale o Nilo. Corre errado, pela linha do Equador, por terras onde se processa, na sntese de Euclides da Cunha, o ltimo captulo do Gnesis. Um rio monstruoso e indmito, e muito mal preparado para o advento de uma cultura estvel. Zangado, engole terra, lguas e lguas de terra, salta do leito, levando tudo de roldo. Ademais, um rio impatritico, pois, a acreditar nos entendidos, a terra que engole para despejar depois no Atlntico, carreadas pelo Gulf Stream vo acrescentar novas terras ao Mxico e aos Estados Unidos, nas formaes aluvinicas do Yacatn e da Flrida. [Apontando o exagero de Pero Vaz de Caminha, de que no Brasil em se plantando tudo d, e de Humboldt, de que a Amaz nia seria o celeiro do mundo. ] A cincia moderna, se tuivesse de se pronunciar sobre o assunto, certamente no se pronunciaria com o mesmo otimismo, porque o que se tem experimentalmente comprovado que os solos tropicais (solos de laterita) so sumamente pobres. As grandes chuvas lavam a terra e seus componentes qumicos a empobrecem, num forte contraste com os solos quimicamente ricos dos prados europeus (frios e temperados) do Danbio, da Ucrnia e do Meio -Oeste dos Estados Unidos. Humboldt, porm, no seria o primeiro nem o ltimo a deixar-se enganar pelas aparncias do trpico e da Amaznia. Na Amaznia a natureza a todos at agora tem implacavelmente derrotado. A nica diferena para assinalar que com o tempo os outros fogem; o mestio ca. A sua desambio, a sua conformidade fez dele um adaptado terra. E anal esse to injuriado mestio quem nos assegura a posse do deserto. Talvez seja por isso que para Ratzel, o pai da antropogeograa, sem o mestio, isto sem a miscigenao racial que o tornou possvel, o Brasil no passaria hoje de uma dessas muitas colnias tropicais ou subtropicais.