Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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IMPEACHEMENT COMO GOLPE DILMA REPREENDE STF o a Alguns acham que foi um golpe de mestre. O senador Jader Barbalho manteve o lho no ministrio de Dilma Rousse at o momento em que o governo comeou a se inclinar no rumo da queda e, ao mesmo tempo, o PMDB comeou a contagem regressiva para Helder desatracar e se incorporar nova nau em direo ao poder. Foi como numa corrida de revezamento: s largou o velho basto quando j estava na acelerao mxima para agarrar o novo basto. Outros acreditam que o maquiavelismo foi ainda melhor. Jader ngiu seu heroico apoio a Dilma, chegando a declarar que s os ratos abandonam o navio que ameaa afundar. Garantiu que o lho no deixaria a secretaria de aquicultura e pesca, com status de ministrio, ainda que sofresse as penalidades por no ouvir a conclamao do seu partido. Segundo essa verso, tratava-se de mero jogo de cena. Na verdade, Jader executava um acerto com o vice-presidente Michel Temer. Ocupando o seu cargo, Helder evitaria que a presidente o negociasse na bacia das almas em que se transformou o Palcio do Planalto, s vsperas da POLTICABarbalhos renascero?O comportamento que Jader e Helder Barbalho tm tido diante da crise poltica nacional os definir como traidores ou lderes pragmticos? O tempo far o povo ver esse episdio favoravelmente a eles ou a ambiguidade ser mais uma etapa do seu declnio?

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2 votao sobre a admissibilidade do impeachment na Cmara dos Deputados. Esse lugar no viraria moeda de troca pelo voto de algum parlamentar. Os petistas estavam to convencidos da segurana de Helder quanto de que tinham a votao mnima necessria para rejeitar o prosseguimento do processo de impedimento da presidente. Perderam as duas seguranas por pura incompetncia poltica ou arrogncia volitiva. Em qualquer das duas hipteses, o senador Jader Barbalho conseguiu sair de um front para outro. Sem ser arrastado pela eventualidade da deposio do governo, que se transformara na nica ncora para propagar a candidatura de Helder Barbalho ao governo do Estado, em 2018, e a base municipal na eleio deste ano. No foi uma vitria fcil. Para alguns observadores, ela exigiu um intenso trabalho de bastidores, que retirou de novo Jader de qualquer ambiente pblico. Nenhuma imagem de cmera captou a sua presena em qualquer dos momentos recentes do drama poltico nacional. Ele estava circulando pelos bastidores e conversando muito. Essa qualidade de articulador invisvel e silencioso at os seus inimigos reconhecem nele. Jader a teria atestado mais uma vez. Se a poltica ainda um jogo de manobras sagazes, inteligentes e opor tunas, o futuro da dinastia Barbalho est bem encaminhado. Sua presena num hipottico governo do PMDB com Temer, por 180 dias ou at 2018, estaria assegurada. uma fonte de poder, prestgio e dinheiro, mesmo o apenas lcito (mesmo que no exatamente tico e moral), por via da propaganda ocial destinada aos veculos de comunicao da famlia, frente o Dirio do Par e a TV RBA. Talvez at mesmo uma aliana local com o PT no esteja denitivamente sepultada. Qual a alternativa real de poder que tem o Partido dos Trabalhadores se no atravs do PMDB? Uma aliana, ainda que desgastante, ter que ser examinada se Dilma cair. Mesmo que ela que, porm, o discurso dos petistas poder car comprometido pela cir cunstncia de que a presidente aceitou o pedido de demisso de Helder Barbalho como um fato normal e at agradeceu por sua participao no ministrio. Como todos sabem, os polticos so capazes de qualquer acordo. A questo menos bem denida diz respeito reao do povo e, especicamente, do eleitor. Ele ter a mesma considerao pelo gesto do ministro, de pular do barco que adernava? Como se posicionar comparando a primeira frase de Jader, negando que seu lho fosse um rato, segunda, dita depois da demisso, sentenciando que caititu (segundo a dramtica catitu, de acordo com o povo) que no segue o grupo comido pela ona? Ele sensato ou traidor? Passado na casca do alho ou trara? O fator tempo pode, mais uma vez, desempenhar o seu papel de apagador da memria coletiva em favor dos Bar balhos. Ainda mais se realmente se conrmar a inteno de Temer, registrada pela imprensa, de recolocar Helder no ministrio. Ele teria de novo a estrutura da secretaria, particularmente poderosa na gesto das concesses porturias, para prosseguir no seu proselitismo e conquista de adeptos. Esse potencial se manter a despeito do agravamento da crise econmica, que constitui o cenrio mais provvel, apesar da injeo de conana que se espera pela troca de presidentes? Essas parecem ser questes muito mais relevantes do que a reao popular ao sobe-e-desce dos Barbalhos. No entanto, a luta travada em torno do impeachment da presidente na Cmara assinalou um momento diferente na trajetria de Jader como o maior lder poltico do Par: ele no conseguiu inuir sobre a maior parte da bancada estadual, com 17 integrantes, e nem mesmo impedir que seu primo, Jos Priante, se tornasse um dissidente do apoio a Dilma. Pode-se atenuar a importncia dessa dissenso pelo conhecimento de que a separao entre os dois antiga e crescente. Mas inegvel que a votao da bancada ocorreu margem da ao de Jader pelos bastidores do poder. Seria a tendncia do prosseguimento seu declnio, que j o impossibilita de vencer uma eleio para governador e poder no lhe render mais votos sucientes para a renovao do mandato de senador? Realista como sempre foi, Jader Bar balho sabe que o futuro do poder que criou em famlia depende agora da sua capacidade de colocar o lho no seu lugar e faz-lo retomar sua hegemonia pela eleio para o governo estadual. Sabe tambm que esse desao muito maior do que o que enfrentou e, de certo modo, venceu ao se projetar no alto do poder poltico do Par. Na perspectiva das trs ltimas dcadas, em que ele foi governador e ministro por duas vezes, a histria talvez lhe possa dar o destino devido, impedindo que a famlia Barbalho retome a plenitude de poder que j no est ao alcance do prprio Jader, individualmente. Se assim for, ser uma boa moral para essa histria.O grande AndreatoH pessoas que so admirveis por seu valor prossional e, na mesma medida, por seu valor humano. Elifas Andreato uma dessas pessoas iluminadas, que nos honram com a sua ateno. Eu o conheci quando ambos participvamos do maior jornal alter nativo que circulou durante o regime militar e dos mais importantes da histria do pas, o Opinio nanciado por Fernando Gasparian e dirigido por Raimundo Rodrigues Pereira. Elifas era capaz de tudo fazer com seu trao, sua criatividade, sua sensibilidade e sua cultura. Sua marca era inconfundvel. No s como artista grco, mas como homem poltico. Trabalhou para a grande imprensa sem problemas e sempre em realizaes antolgicas, como a srie de discos da msica popular brasileira lanados pela Editora Abril. Trabalhou ainda mais para a imprensa alternativa e para artistas e intelectuais de oposio. Para muitos, gratuitamente, apesar de sua valiosa assinatura. Conseguiu, por m, sua prpria publicao, o Almanaque Brasil, que circula h vrios anos como leitura de bordo e emergindo em lugares surpreendentes. Elifas Andreato abriu agora, em So Paulo, uma exposio sobre os seus 50 anos no Centro Cultural Caixa. Recomendo a todos que forem capital paulista. Vale a pena.

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3 Renan como estadista: uma histria deturpadaO senador alagoano (do PMDB) Renan Calheiros, que preside o Senado, pretendeu se conceder ares de estadista ao anunciar, na semana passada, que se recusaria a abreviar o tempo para a eleio dos membros da comisso especial que dar parecer sobre o impeachment da presidente Dilma Rousse. Renan lembrou a deciso do presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, que, em 1964, declarou vaga a presidncia da repblica, quando o presidente Joo Goulart ainda estava em territrio nacional. A precipitao da vacncia, contrariando a norma constitucional, favoreceu a tomada de poder pelos militares, que desencadearam um golpe de Estado contra Jango dois dias antes. Eu queria lembrar que ns no podemos repetir o passado. Na ltima vez que o Senado Federal antecipou decises, ele errou. Foi quando, sentado nesta cadeira, o ex-presidente Auro de Moura Andrade decretou vago o car go de presidente da repblica. E eu no vou decretar vago o cargo de presidente da Repblica, trombeteou Renan. A comparao indevida porque tenta elevar os personagens do drama poltico atual no parlamento aos de 1964. Renan est muitos degraus abaixo da condio do seu distante antecessor na presidncia da chamada cmara alta. Ombreou-se a Moura Andrade porque os contemporneos no se preocupam em estudar adequadamente o que se passou, mesmo que h poucas dcadas. O poltico paulista j era presidente do Senado e do Congresso Nacional, com 46 anos de idade, quando protagonizou o primeiro de dois dos maiores dramas (depois tragdias) da histria contempornea do Brasil, quando o presidente Jnio Quadros renunciou ao mandato pouco mais de seis meses depois de assumi-lo. Ao receber a mensagem da renncia de Jnio Quadros, Moura Andrade convocou imediatamente o Congresso para que, vem sesso extraordinria, declarasse a vacncia da presidncia, j que o vice-presidente Joo Goulart estava naquele momento em misso ocial na China. Anunciou em seguida a posse do presidente da Cmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. A questo suscitada (e que parece ter sido considerada como certa por Jnio) era de que o presidente do Senado procurasse demover o renunciante do gesto. No entanto, corretamente, Moura reconheceu a deciso de Jnio como um ato de vontade, unilateral, que lhe cumpria dar consequncia. Eu estava determinado a fazer cumprir a Constituio, que no um papel e no se rasga como um mero bilhetinho de um Presidente da Repblica irreetido e irresponsvel, disse ele, duas dcadas depois, em seu livro de memrias, Um Congresso contra o Arbtrio, publicado trs anos depois da sua morte, em 1982, aos 66 anos. Se as divergncias entre Jnio e o senador na poltica paulista contribuiu para essa reao imediata, esse aspecto da questo se tornou secundrio pelo acerto do procedimento. Era um homem conservador, lho de fazendeiro, integrante de um partido de base rural, o PSD. As foras polticas encontraram uma frmula conciliadora para enfrentar a resistncia dos chefes militares posse do poltico mais prximo de Getlio Vargas, seu autntico herdeiro. A sada de meia sola para o impasse foi o parlamentarismo, regime que s existiu no Brasil uma vez, durante o imprio. Ainda nas memrias, Moura Andrade concluiria que estava errado o Congresso quando criava o parlamentarismo, a pretexto de facilitar solues. A posse de Jango deveria ser respeitada porque era devida por determinao constitucional e nesses termos lhe deveria ser dada. No seu entendimento, o parlamento transformara o regime com o precrio consentimento do prprio Joo Goulart, distante de Braslia, onde se processava a crise da renncia. Isto no seria nada bom para o futuro, embora parecesse agradar a todos: s Foras Armadas, que no saam do episdio totalmente der rotadas; ao Congresso, que do episdio no saa totalmente vitorioso. O outro momento dramtico aconteceu em 2 de abril de 1964, com o golpe militar contra o mesmo Joo Goulart. Ainda na presidncia do Senado, cargo para o qual foi reconduzido mais duas vezes, tornando-se um dos polticos que mais tempo o exerceu, depois de reeleito senador por So Paulo, em 1962, com um milho de votos, Moura declarou novamente vaga a presidncia, empossando mais uma vez o deputado Ranieri Mazzilli. Desta vez, porm, o presidente estava em territrio nacional, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Era uma situao completamente inconstitucional, com dois presidentes da repblica ao mesmo tempo no Brasil. Com esse ato, o presidente do Senado se submeteu aos chefes militares do golpe, que queriam Jango afastado e um interino em seu lugar convocando eleies imediatas, no prazo legal de 30 dias, para que subisse ao poder um novo presidente por eles indicado e, como queriam, um general. Foi um achado para o acordo entre civis e militares, que pretendiam dar uma roupagem constitucional ao golpe de fora. Como ditava a regra legal, o presidente da Cmara dos Deputados permaneceu na presidncia at o Congresso, no prazo mximo de 30 dias, eleger um novo chefe de governo. No seu livro de memrias, que deixou para ser publicado quando j no estivesse sujeito a cobranas e crticas, Moura Andrade tentou reescrever o seu papel nesses dois momentos, sustentando tese oposta que vigorava at ento: da submisso do parlamento aos golpistas. Seu livro bom de ler e convincente. Pena que, publicado exatamente quando o poder voltou aos civis e assumiu o primeiro presidente que no era general desde 1964, suas reexes, informaes e alertas tenham sido jogadas no arquivo morto. A ponto de Renan Calheiros, tentando se afastar da sua imagem de aproveitador da coisa pblica, se apresente como o estadista que no nem nunca foi.

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4 Contra Collor, impeachment no foi golpe. Mas agora, ?O processo de impeachment de Fernando Collor de Mello, o mais jovem presidente que o Brasil j teve, foi aprovado pela Cmara Federal, por 441 votos a favor e 38 contra, em 29 de setembro de 1992, dois anos e meio depois que ele foi empossado para um mandato de quatro anos. Antes de concorrer ao cargo mais elevado da repblica, Collor fora apenas governador de um dos Estados mais pobres do Nordeste e do Brasil, Alagoas, famoso pelos seus ndices de violncia, incluindo o largo desempenho de assassinos de aluguel por crime de encomenda. Tornou-se nome nacional como um combatente da burocracia estatal, o caador de marajs do servio pblico. Mesmo como candidato de um par tido sem expresso, o PRN, derrotou Lula, o lder sindical mais famoso da histria, no segundo turno das primeiras eleies presidenciais diretas aps o m da ditadura, quatro anos antes. Sabendo que seria afastado, Collor decidiu renunciar, em 29 de dezembro de 1992. Ainda assim, o Senado prosseguiu o julgamento, afastando-o do cargo e suspendendo os seus direitos polticos por oito anos. A deciso foi conrmada pelo Supremo Tribunal Federal no ano seguinte. Collor alegou ter sido perseguido por foras polticas contrrias modernizao do pas. O julgamento poltico foi assim encerrado e no se falou mais nisso. Onze anos depois, no entanto, em abril de 2014, j senador e da base de apoio ao PT, o partido mais inamado na promoo do seu impeachment, Collor foi inocentado pelo STF dos crimes de falsidade ideolgica, corrupo passiva e peculato, que motivaram o impeachment e foram o fundamento da denncia na ao penal. Os juzes do tribunal entenderam que no havia provas suficientes para comprovar o envolvimento do ex-presidente nos crimes de que foi acusado. Foi o bastante para a condenao poltica, mas no para a sentena criminal. Derrotando o candidato do PT ao nal de uma campanha eleitoral na qual comeara como mero gurante (diante de outros candidatos como Leonel Brizola, Ulysses Guimares e Mrio Covas), Collor se transformou em zebra porque provocou esperana na maioria dos brasileiros, massacrados pelo super-incompetente governo de Jos Sarney, o primeiro civil depois da ditadura, campeo da inao em todos os tempos. Collor traduziu essas esperanas em polticas radicais para conter a inao e estabilizar a moeda. Fiel a uma imagem que, posteriormente, se revelaria uma farsa, reduziu os gastos do governo, privatizou estatais e suspendeu os pesados subsdios que eram concedidos exportao, beneciando principalmente os empresrios de So Paulo, que se destacaram no apoio ao impedimento. Collor tomou a medida de maior impacto popular no dia mesmo da sua posse, ao determinar o consco sobre parte das contas correntes e das poupanas que excedessem 50 mil cruzados novos (qual era mesmo a moeda que sobreviveu a Sarney?). Milhes de pessoas amanheceram sem seu dinheiro, em conta corrente ou poupana, sem conseguir discernir o valor desse teto at a poderosa ministra da Fazenda, Zlia de Melo (paulista, a primeira mulher no cargo mais importante da Unio depois do presidente), confessar que o valor fora escolhido arbitrariamente durante uma festa (na qual danou e ertou com o futuro ministro da Justia, o amazonense casado Bernardo Cabral, que presidira a OAB nacional). Os brasileiros admitiram se sacricar para que seu lder maior consertasse o pas, deixado mngua por Sarney (de quem Collor se tornaria o maior opositor), at surgirem denncias de que o presidente e seu tesoureiro de campanha, o soturno PC Farias (que passou a ser sinnimo de corrupo), teriam feito saques substanciais em suas contas antes do bloqueio. O primeiro ano do mandato ainda no fora completado e Collor j era acusado de ter contratadosem licitao agncias publicitrias que trabalhavam em sua campanha. A denncia foi comprovada por um inqurito civil pblico instaurado a pedido de um deputado petista na Procuradoria Geral da Repblica, a partir de reportagens da Folha de S. Paulo, que Collor processou e tentou fechar. Novas acusaes de fraudes em compras feitas pelo governo surgiram quando uma bomba ainda maior abalou a estrutura j precria de legitimidade do presidente: seu irmo, Pedro Collor, apontou como ladro Paulo Csar Farias, ex-tesoureiro da campanha eleitoral. A mesma suspeita foi lanada sobre a Secretaria de Assuntos Estrangeiros e o ministro do Trabalho. Em 30 de maro de 1992, o ministrio renunciou coletivamente pela repetio das acusaes de corrupo contra o governo. Em maio, Pedro Collor entregou revista Veja documentos que comprovavam a existncia de sete empresas irregulares de PC Farias no exterior, as o-shore do esquema atual de corrupo. E deu entrevistas assegurando que o irmo era conivente com os crimes de PC, acobertando seu de trco de inuncia. A Cmara dos Deputados criou uma CPI para investigar as denncias, sendo seguida pela Ordem dos Advogados do Brasil, a Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil, a Central nica dos Trabalhadores e partidos de oposio. Essas entidades organizaram uma Viglia pela tica na Poltica, para pressionar os congressistas a tomar uma atitude proporcional gravidade dos fatos. Em 30 de junho,os dois maiores jornais de So Paulo, a Folha e O Estado, publicaram editoriais pedindo a renncia do presidente. No ms seguinte a revista Isto divulgou uma entrevista com o motorista Eriberto Frana, que denunciava um esquema integrado por PC Farias e a secretria de Collor, Ana Acili.

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5 Os estudantes se vestiram de preto e de rostospintados foram s ruas para exigir o impeachment de Collor. Logo, os presidentes da Associao Brasileira de Imprensa e da OAB entregaram um pedido formal de impeachment Cmara. O pedido foi admitido. Collor era acusado de enriquecer com dinheiro obtido de forma ilcita por PC Farias. A CPI conrmou as denncias e considerou o presidente como culpado pelo recebimento de aproximadamente 6,5 milhes de dlares do esquema. Collor cou oito anos afastado da poltica sem que ele se considerasse vtima de um golpe. Eleito senador, conquistou um setor da Petrobrs para arrecadar fundos no contabilizados, atravs de outro Paulo, agora Leoni Ramos e no mais Csar Farias. suspeito de ter conseguido muito mais dinheiro do que antes. Se no houve golpe no afastamento de Collor, comandado politicamente pelo PT, no h tambm no de Dilma. Quem reconstituir os fatos de antes e os comparar aos de agora, s manter essa opinio se jogar a histria na lata de lixo ou a soterr-la por fanatismo e dogmatismo.Dilma pode levar pas ao julgamento externoTrs dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram publicamente contestar o entendimento da presidente da repblica de que o processo instaurado no parlamento para proceder ao seu impeachment um golpe. No dia seguinte ao seu pronunciamento durante a assembleia geral da ONU, ainda em Nova York, Dilma Rousse reprovou a atitude dos magistrados. Eles deveriam se abster de dar opinio sobre a questo, j que tero de se manifestar se o governo recorrer corte suprema do pas contra a deciso da Cmara Federal ou do Senado, disse ela. Alm disso, a presidente se diz convencida de que a opinio dos trs ministros no a mesma dos demais integrantes do STF suscetvel a erro, como seu antecessor, o ex-presidente Lula, que previu sua entronizao na Casa Civil para duas semanas atrs, Se a presidente tem essa informao, muito difcil conrm-la pelos fatos. Um dos ministros que se ops tese do golpe Gilmar Mendes, suspeito de ser tendencioso contra o PT e favorvel ao PSD. A mesma restrio no possvel fazer a Celso de Mello, o mais antigo no STF e sempre cuidadoso nas suas manifestaes orais ou por escrito. O terceiro Dias Tooli, completamente insuspeito at h bem pouco tempo, por sua antiga ligao com Lula e o PT. Mendes e Tooli partilharam o entendimento de Mello de que caracterizar o impeachment como golpe um gravssimo equvoco. Eles extrapolaram a sua competncia ou foram antiticos ao expressar opinio pessoal antes de apreciar a questo como magistrados? S quem continua a sustentar que o impeachment um golpe pode pensar assim. Na verdade, os trs ministros provavelmente falando em nome dos demais ou da esmagadora maioria deles, se Marco Aurlio de Mello no insistir na iconoclastia a qualquer preo defendem a instituio, a justia. Anal, o Supremo deniu os ritos do processo, tanto na Cmara como, agora, no Senado. Os ministros iriam apreciar e deliberar sobre o assunto se o parlamento estivesse agindo de for ma inconstitucional? Claro que no.Logo, se a presidente, que r no processo, levanta publicamente essa tese, ela tenta jogar a opinio pblica contra a instncia mxima da justia brasileira, ao invs de se defender nos autos, aos quais, no entanto, tenta connar os seus julgadores. Alm de colocar o STF sob suspeita, ela provoca efeito cascata para trs, atingindo todo poder judicirio e lanando-o na vala comum do descrdito. Queria cometer essa agresso sem receber a devida resposta? Na voragem da sustentao do seu poder, ao mesmo tempo em que atira contra a ltima instncia da justia no Brasil, no por ter tido sempre essa opinio (se a teve, calou), mas por interesse pessoal contrariado, a presidente d os primeiros passos para ir alm da instituio, at cortes internacionais. Parece pretender a aplicao da clusula democrtica do Mercosul e da Unasul ao Brasil para deter o golpe em curso no pas. No exerccio da sua defesa, que j extrapola a estrutura jurdica e poltica brasileira, est disposta a colocar em questo o prprio regime no qual foi gerada e chegou ao poder mximo da administrao pblica. Ameaa trair o Brasil. A Folha de S. Paulo relata que, ao ser questionada se a clusula democrtica do Mercosul deveria ser aplicada ao Brasil e em que momento, ela foi enftica. Neste. Eu vou dizer o seguinte: est em curso no Brasil um golpe. Ento eu gostaria que o Mercosul e a Unasul olhassem esse processo. A clusula democrtica implica uma avaliao da questo. No avanou, porm, para dizer se o Brasil deveria ser suspenso. Observou apenas que a questo deve ser objeto de anlise do bloco. O jornal paulista lembra que a clusula foi aplicada em 2012, quando o Mercosul suspendeu o Paraguai em retaliao ao processo que levou destituio do ento presidente Fernando Lugo, que para muitos foi vtima de um golpe. O pas foi reintegrado ao bloco no ano seguinte. Dilma tambm falou sobre a hiptese de que seu mandato seja encurtado e haja eleies presidenciais ainda neste ano, como defende uma ala dentro do governo e no PT. No sou contra eleies de maneira alguma. Mas uma coisa eleio direta com voto secreto das pessoas e o povo brasileiro participando. Agora, tem que ser me dado o direito de me defender. Eu no sou uma pessoa apegada a cargo. No acuso ningum que prope eleio direta de golpista. Isso outra discusso. Eu quero defender o meu mandato. Devo isso aos meus 54 milhes de eleitores, disse a presidente. Dilma voltou a atacar os articuladores do processo de impeachment, sugerindo que eles no tm legitimidade por serem alvos de investigaes e tentarem derrub-la por meio de uma eleio indireta travestida de impeachment. A presidente manteve a posio de que h uma tentativa de ruptura

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6 democrtica a fora, que ameaa no s os direitos dela, mas de todos os brasileiros. Me dizer que no golpe tampar [sic ] o sol com a peneira. Sou uma pessoa vtima, sou uma pessoa injustiada, e isso grave porque sou presidente da Repblica. Se a lei nem para mim vale, quanto mais para a populao do nosso pas mais pobre, armou. Ao contrrio do que a meia-volta no pronunciamento na ONU parecia sugerir, portanto, Dilma Rousse no se deixou convencer pela realidade ou por seus assessores ainda dotados de bom senso e racionalidade. Continua a inventar moinhos de vento e a utilizar contra esses perigosos inimigos imaginrios sua fortaleza pessoal e os instrumentos de poder ao seu alcance. Expe a si mesma ao ridculo e ao absurdo, mas onera o pas perante a comunidade internacional e agrava o custo das relaes do Brasil com o mundo, alm de internamente. A cada momento em que a insensatez se vai transformando em insanidade, esse preo ca mais caro. Assim, em defesa da democracia que realmente vige no Brasil, com todas as suas evidentes deficincias e vcios, e para enfrentar a gravssima crise econmica, gerada principalmente pela incompetncia do atual governo, parte todos os entraves criados por seus adversrios ao longo da sua trajetria, preciso apressar a apreciao sobre o afastamento da presidente, sem com isso restringir em nada o devido processo legal e a sua mais ampla defesa. Talvez, ao menos, para faz-la ter a dimenso do ridculo com que se vai cercando, se isolando e se reduzindo a uma anomalia mals.Paulo Maluf, quem diria, se apresenta como limpoPaulo Salim Maluf talvez tenha sido o nico deputado federal a no gastar nem 10 segundos ao anunciar o seu voto favorvel ao impeachment da presidente Dilma Rousse na Cmara. A esmagadora maioria dos seus colegas foi muito alm do tempo reservado ao ato e uns raros se ativeram aos 10 segundos. Para mim, foi o desempenho mais impressionante na longa votao em que 511 dos 513 parlamentares (dois no compareceram) decidiram pelo prosseguimento do processo de impedimento da presidente, remetendo-o ao Senado. Maluf foi sutil e inteligente. Seu voto era um dos mais aguardados. Smbolo do roubo de dinheiro pblico, inclusive j comprovado, impedido de sair do pas se no quiser correr o risco de priso, o ex-governador e ex-prefeito estava ao lado de Dilma. Lula o visitou na mansodele em bairro nobre da capital paulista e o elogiou, indiferente m fama de Maluf, porque era do seu interesse poltico garantir a adeso de um poltico com expressiva votao cativa na principal cidade do pas. Maluf surpreendeu a todos sendo lacnico. Restringiu-se a declarar o voto, o que nem faria se a votao tivesse sido secreta, permitindo-lhe acionar o painel eletrnico. Com seu gesto altivo e a frase pronunciada escorreitamente ele parecia estar dando o seguinte recado: vocs pensaram que eu era o mximo de roubalheira na vida pblica brasileira? Pois vejam do que o PT acusado. Nada dizendo com a boca, Maluf caprichou na mmica e na entonao, de regra teatral nele. Agiu de tal maneira a se afastar dos seus recentes companheiros de viagem baseado na moral pblica, como se tratasse de se livrar da m companhia. M companhia, quem diria, pelo julgamento de Paulo Salim Maluf, que o PT, por sua desastrosa busca de hegemonia a qualquer preo, absolveu, quase santicou. Quem no se deixa impressionar pelas brumas da mitologia e a tempestade do fanatismo, deve ter-se perguntado: o que o PT pagou para ter Maluf ao seu lado? E o que a oposio concedeu para traz-lo de volta ao seu leito natural? Como que Maluf, carregado de acusaes e de provas dessas acusaes, percorre impunemente o tempo e salta de um barco ideolgico e poltico para outro, sempre saudado pelos que o recebem? A mesma pergunta se aplica a Antonio Delfim Netto. Ele foi conselheiro de Lula por dois mandatos, durante oito anos, agindo sombra do suposto poder absoluto do sagaz e experiente lder petista. Mantevese na posio de condestvel ou eminncia parda durante todo o primeiro quadrinio de Dilma Rousseff. Quando as manipulaes e ilegalidades que lhe deram o segundo mandato comearam a aparecer, como a m calafetagem de uma embarcao corroda pelos prprios er ros, o mais poderoso dos ministros do regime militar no se constrangeu em deixar a nau periclitante. Agora aparece na foto sendo recebido pelo vice-presidente Michel Temer como uma fonte virtuosa de consulta, soprando as velas da nova nave do poder. Como falar numa conspirao para depor Dilma se os personagens dessa histria circulam entre um lado e o outro conforme suas convenincias utilitrias e dos que os tm como aliados num momento e inimigos em outro, se so santos quando teis e demnios se complicam as coisas? A gente fina, que canalhas! a concluso, adaptada de mile Zola. Revista de humor lanada em BelmEditada pelo jornalista e cartunista Paulo Emanuel e contando com um time de colaboradores como Walter Pinto, Joo Bento, Brahim Darwich, Jnior Lopes, Luizp, talo Gadelha, Raimundo Sodr, Elias Pinto e muitos outros, foi lanada nesta sexta-feira, 22/04, a revista de humor PH Parazo Hebd. Tratando de esporte e poltica a revista abre espao para novos cartunistas e promove novos talentos do texto de humor. (Luiz Pinto)

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7 Pena por Lula, pena pelo pasMeu Deep Throat (como Bob Woodward batizou sua fonte secreta na cobertura do escndalo de Water gate) me mandou um comentrio sobre a ascenso e queda de Lula. Disse: Tenho visto trabalhos acadmicos falando de uma certa domesticao do capitalismo (via fundos de penso). Lula parece ter acreditado que engolira as elites dominantes e domesticara o capitalismo manipulando os recursos dos fundos de penso das estatais. Como ele no l, no vai tomar conhecimento desse artigo de Pazzianotto [publicado pelo Correio Braziliense do dia 20, que reproduzi no meu blog]. Assim, no vai car sabendo que o sapo barbudo foi deglutido e digerido por elas (as elites dominantes). Eu, voc, Pazzianotto, Lula e todo mundo sabe qual o produto da digesto. Depois de ler esse artigo j estou comeando a ficar com pena de Lula. Do Brasil eu j tenho pena faz algum tempo. De minha parte, considero a pena pelo Brasil maior do que por Lula, que, alis, tem como lamber suas feridas com tantos presentes que recebeu dos amigos. Ele o presidente mais obsequiado pelos mais faustosos mimos da histria da repblica. Sem falar em triplex e stio, nem nas milionrias palestras (400 mil reais por perorao), Lula precisou de vrios caminhes para transportar suas prendas, que impuseram o gasto de R$ 1,1 milho s para guard-las por cinco anos num depsito outra gentileza dos amigos. Quanto, ento, devem valer? Lev-las consigo no imps nenhuma restrio ao benecirio pela tica da presidncia? Lembro-me de presentes que o governador Fernando Guilhon (1971-75) trouxe do Japo e que deixou no palcio Lauro Sodr, sede do governo do Estado, que Jader Barbalho abandonou para se proteger de passeatas de protesto na sede da Emater (batizada de palcio dos despachos), expropriada informalmente por ele, na rodovia Augusto Montenegro (o paraense ilustre que foi enterrado no Pre Lachaise, em Paris, e recambiado sem sua oitiva de volta a Belm). Tive a mesma sensao da minha fonte ao ouvir a declarao de voto de Vicentinho contra o impeachment de Lula, na malfadada sesso da Cmara. Companheiro sincero, honesto e aplicado do ex-presidente nas batalhas sindicais do m da ditadura, ele estudou, se formou em direito e ascendeu Cmara Federal por seus mritos. No podia enriquecer, claro. Mas mereceu ateno e (quase) silncio da plateia ao formular seu voto, com uma discrio tal que talvez deixasse exposta uma ponta de constrangimento pelo cumprimento do dever de ofcio. Lula, com a contraprova de Vicentinho, a conrmao do quanto o poder corrompe, a partir do momento em que algum bate continncia ao personagem ou lhe abre a porta do carro, e a pessoa gosta, se acostuma e quer mais, sem per guntar pela origem das franquias imateriais e materiais, como Lula se acostumou a fazer. Ele deve ao Brasil imensamente mais do que o Brasil lhe deve.O Estado e a drogaNo meio de uma montanha de papel, encontro recorte de uma notcia publicada em O Liberal de julho de 1993, de quase 23 anos atrs, portanto. Informa que o juiz Otvio Marcelino Maciel condenou o analfabeto Marciel Bittencourt de Moura a trs anos de priso (a ser cumprida integralmente em regime fechado) e multa de 870 mil cruzeiros por trco de entorpecentes no caso, a ento popular (e temida) cola de sapateiro, que todo funcionrio do paste-up (ou colagem) de jornal cheirava mesmo no querendo em seu trabalho dirio de montagem das pginas da publicao. Um barato involuntrio e prejudicial sade, mas no criminalizado. O condenado, preso pela PM nove meses antes e mantido sob custdia, admitiu ser viciado desde os 12 anos. Era ru primrio, sem envolvimentos anteriores com a Polcia, conforme a sentena do juiz (e futuro ouvidor agrrio). Marciel disse que era apenas usurio da droga, mas foi enquadrado como tracante porque possua uma lata com 150 gramas da cola, mais cinco garrafas de gua mineral contendo o mesmo produto, o que denota trco. Duas dcadas depois, esse tipo de sentena atesta o despreparo do poder pblico para uma ao preventiva e remediadora do consumo de droga, que cresceu violentamente nesse perodo. O que antes podia ser combatido por ao social, agora exige interveno policial o que no signica evoluo no trato pblico da questo, muito pelo contrrio. emria do Cotidiano NAS Este deveria ser, na verdade, o 8 volume desta srie, pois no ano passado, para atender procura dos leitores, publiquei um volume extra com o 1 e o 2 volumes (revistos e corrigidos), que se esgotaram. Virou um lbum, pelo seu volume e significado. A srie retomada agora e espero que corresponda s expectativas dos leitores.M BANCAS E LIVRARIAS V OL UME

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8 Derrapagem histrica de Dilma RousseffDilma Rousse presidente de um pas com rea de 8,5 milhes de quilmetros quadrados, 200 milhes de habitantes, o quinto maior em populao e o sexto maior PIB do planeta. Mas se insistir em denunciar ao mundo que vtima de um golpe de Estado, se reduzir a uma militante poltica de uma organizao de esquerda sem expresso, com mais de meio sculo de atraso. Denunciar ao mundo, em termos. Depois de ser convencida ltima hora a no apresentar a tese inconsistente no plenrio da ONU, ela agora pretende se dirigir ao Mercosul e Unasul. Por que no OEA, que tem uma corte internacional de justia? Certamente porque sua pregao no teria eco algum perante a Organizao dos Estados Americanos, que tem amplitude triplamente qualicada nas Amricas. Dir a presidente que instncia dependente dos Estados Unidos. Ainda assim, um frum muito mais apropriado do que a Unasul, principalmente, e o Mercosul, entidades que no se tornaram continentes. A insistncia da presidente em travestir o processo de impeachment em um golpe extravasou do oportunismo poltico para a paranoia, a obsesso, a clara patologia individual que bloqueia a sua percepo da realidade. Transtornada pela perspectiva de perder o poder de que desfruta h mais de cinco anos, sem ter feito carreira poltica para chegar ao topo, ela parece disposta a destruir todas as pontes que encontrar no seu caminho para a queda e, uma vez chegando a esse ponto, obscuridade, que a condio de a mais incompetente dos polticos a ocupar a presidncia do Brasil lhe reserva. A democracia que o Brasil voltou a viver em 1985 e que se mantm at hoje, como o mais duradouro perodo de franquias individuais e coletivas que um regime de liberdade pode propor cionar, pode ser falha e at ruim, mas continua a ser democracia. O impeachment pode ser um ato de injustia primeira mandatria do pas, mas atende a todas as formalidades legais. Tanto que foi autorizado e conrmado pela corte suprema de justia, o STF, ao qual recorreram, na forma da lei, o PT, o governo e instituies que deviam ser do Estado, mas se tornaram de forma mesquinha agentes do governo, como a Advocacia Geral da Unio, comandada pelo tonitruante Jos Eduardo Car dozo. Recorreram e perderam todos os seus recursos, por unanimidade ou larga margem de votos, num colegiado em que oito dos 11 integrantes foram nomeados por presidentes petistas. Ao invs de continuar a recorrer em juzo e litigar no mbito particularmente poltico do contencioso, a presidente resolveu instituir sua mal comparando Jihad pessoal. Nem com o endosso dos seus auxiliares mais esclarecidos ela contou ao decidir ir a Nova York e usar a tribuna mundial como palanque de comcio municipal com retrica de mentira e demagogia de ocasio. Quando jovem idealista, Dilma Rousse recorreu s armas para combater a ditadura militar. Mesmo quem fez a reviso da luta armada pela tica de esquerda reconhece o erro da opo, realando-o quando analisa o papel de uma organizao sem expresso social, como aquela s quais Dilma deu sua contribuio (a Polop, a Colina e a VAR/Palmares). Que regime poltico surgiria se essa corrente tivesse vencido essa batalha? A democracia? Meio sculo depois, voltando no tempo para reassumir integralmente o erro que a perspectiva histrica fulminou, a presidente Dilma Rousse responde: no. Ao se dizer vtima de um golpe de Estado, a democracia que ela fere, novamente, sem reconhecer os erros de hoje e de ontem errada sempre.Na contagem regressivaSe a previso de que a deciso do Senado sobre o impeachment da presidente Dilma Rousse se prolongar pelos seis meses que os observadores da cena poltica esto prevendo, o buraco em que o Brasil mergulhou se tornar abissal. Algum dia o pas sair desse ltimo crculo do inferno de Dante, mas o custo da recuperao ser brutal em tempo e em dinheiro. Vai se tornando cada vez menos relevante a soluo que vier a ser encontrada para o n poltico em que o pas foi atado em virtude da insnia, do despreparo e da ignorncia cavalar das elites polticas. Tambm pela incompetncia de gesto, a economia nacional se deteriorou, pelos erros da poltica econmica do governo e o ambiente de incertezas e desconanas que j no se sabe qual o tratamento possvel ou vivel para os desaos que a vida real dos produtores impe. H uma constatao cada vez mais incisiva em circulao pelas elites brasileiras: o vice-presidente Michel Temer ainda no tem uma ideia realista do tamanho do problema da economia brasileira. Os diagnsticos que lhe so oferecidos colidem com o perl do governo que o peemedebista pode formar caso tenha que substituir a presidente petista. Se o passado dos protagonistas principais do drama tingido de tragdia que o Brasil est vivendo for colocado num computador para ser processado por uma matriz de excelncia, o resultado ser assustador. O pas no sair da crise por nenhuma das opes em oferta no mercado. Nenhuma das alternativas tem credibilidade ou legitimidade para liderar a reconstruo nacional. Se 2016 permanecer to recessivo quanto os dois ltimos anos, no nal do ano o PIB voltar ao nvel de 2009. Retrocesso de sete anos para um pas com 200 milhes de habitantes, taxa de natalidade ainda elevada, desigualdade social brutal, concentrao de renda odiosa, educao pssima, sade ruim e 10% da populao ativa desempregada. O remdio para essa enfermidade pode ter que ser radical, como uma bomba limpa brasileira: ao ser detonada, atingiria apenas os responsveis pelos danos causados nao. Numa democracia presidencialista, o remdio tem um nome: eleio direta, geral e imediata, como um instrumento de salvao nacional.

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9 Jornalista da Amaznia resiste, apesar de dcadas de ameaas e abuso(Reproduzo a seguir a traduo da matria de Claudi Rabin escreveu para o Mongabay, um dos mais importantes blogs dos EUA) A cobertura de Lcio Flvio Pinto da tomada da Amaznia brasileira, negcios nebulosos de famlias proeminentes, e corrupo pblica fez dele um alvo para ameaas de morte, um espancamento e uma dzia de aes na justia. Desde 1987 Lcio Flvio Pinto publica quinzenalmente seu jornal-de-um-homem-s no Estado brasileiro do Par, o Jornal Pessoal. Sua cobertura independente da explorao da Amaznia, negcios nebulosos de famlias proeminentes, e corrupo pblica renderam-lhe reconhecimento nacional e internacional, assim como diversos inimigos poderosos. No dia 21 de Janeiro de 2005, uma manchete preencheu a capa do Dirio do Par o segundo maior jornal do Estado do Par, na regio norte do pas. O jornalista Lcio Flvio Pinto foi espancado e ameaado pelo diretor do jornal O Liberal, Ronaldo Maiorana e seus guarda-costas, anunciava a manchete. Quatro dias antes, Pinto, um jornalista independente que se arrisca escrevendo matrias sobre a explorao da Amaznia, negcios escusos de famlias proeminentes e autoridades pblicas, corrupo no governo, tinha publicado uma histria sobre contabilidade sombria no grupo de mdia Or ganizaes Romulo Maiorana, dona do jornal O Liberal. No surpreendentemente, O Liberal, o mais lido jornal da regio, no divulgou nada sobre o espancamento. Lcio Flvio, dono de um jornal alternativo produzido em Belm, a capital regional do Estado do Par no corao da oresta brasileira, j tinha feito muitos inimigos em sua carreira. Eles j haviam tentando de tudo para intimid-lo. J foi processado. Ameaado de morte. Dessa vez, nalmente, o espancaram. Somente a morte poderia de fato faz-lo calar, mas em 2005 ele j se tornara muito reconhecido para ser assassinado. Lcio Flvio j era, e ainda amplamente reconhecido como o mais importante jornalista da regio Norte do Brasil. Foi a primeira vez que ele foi sicamente agredido, mas no a primeira vez que o seu trabalho como jornalista lhe trouxe problemas com a famlia Maiorana. E no seria a ltima. Entre 1992 e 2005 Lcio Flvio foi processado 33 vezes. 15 delas pela famlia Maiorana. O resto por empresrios, juzes e polticos. Alguns alegaram dano moral, outros dano material. Ainda assim, ele continuou escrevendo sobre desmatamento, grilagem de terra, trco de drogas e corrupo. O plano, Lcio revelou em uma das seis conversas telefnicas, era silenci-lo, dicultando a sua vida e forando-o a passar a usar todo seu tempo para se defender na justia. Mas essa ttica saiu pela culatra. Ele venceu a maioria dos processos, algumas vezes fazendo a sua prpria defesa e deixando para seu advogado apenas o trabalho de assinar. E ainda que a agresso tenha deixado escoriaes em seu rosto, costas, no tronco entre a regio do fgado e do rim, no m funcionou como uma reviravolta. O caso teve repercusso nacional e internacional e colocou presso sobre seus opressores. Ele no voltou a ser processado desde ento. Eles no conseguiram provar que eu estava errado. Agora eles mudaram a estratgia e passaram a me ignorar, conta Lcio Flvio. Mesmo assim, quatro das aes ainda esto em andamento no curso extremamente lento da justia brasileira uma de um juiz e outras trs da famlia Maiorana. Se ele fosse perder todas elas, Lcio teria que pagar quase US$ 350.000 em indenizaes uma quantia da qual ele no dispe. Eu posso ser surpreendido por uma deciso judicial a qualquer momento. Seria fatal para o meu trabalho, afir ma Lcio.O Jornal Pessoal de Lcio FlvioDesde 1987, Lcio Flvio publica o Jornal Pessoal. um pequeno, porm destemido jornal que vende cerca de 2.000 exemplares, geralmente aborrecendo a elite local em Belm. Ele uma espcie de I. F. Stone, o lendrio jornalista independente americano. Eu jamais pensei que fosse durar tanto tempo. No incio, eu planejei faz-lo durante trs anos, no mais que isso. Hoje, depois de 29 anos, ele me arruinou, estou falido, ele me privou dos meus projetos de longo prazo, mas continuo fazendo, revela Lcio. A nica forma de me parar me matando. O que o faz seguir adiante a mesma coisa que o levou a comear, ele conta: publicar o que ningum mais publica. Quando comeou o Jornal Pessoal ele j era um jornalista de carreira. Havia ganhado um prmio Esso em 1985, o equivalente brasileiro ao Pulitzer, e recebido menes honrosas anteriormente. J tinha atuado na TV local e trabalhado em praticamente todos as grandes publicaes brasileiras. Porm ele descobriu que nessas funes jamais conseguiria ser completamente independente. E isso era o que ele precisava ser em um lugar dominado por dois grupos geridos por famlias com fortes laos pessoais com autoridades do governo. Em 1987 Lcio investigou o assassinato do advogado Paulo Fonteles por dois homens. Fonteles era um ex-poltico que defendia posseiros contra grileiros de terra. Aps meses de investigao, Lcio tentou publicar a matria no jornal O Liberal, mas a histria levantava a suspeita de en-

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10 volvimento de uma famlia da elite local, e o jornal se recusou a divulgar a histria. Sem alternativa para publicar a histria, Lcio decidiu criar seu prprio jornal. Ironicamente, a primeira edio do Jornal Pessoal foi impresso no parque grco dos Maiorana como um favor. Na poca, Lcio Flvio estava em paz com a poderosa famlia. Por mais de 20 anos, ele escreveu para O Liberal e cultivou um forte relacionamento com Romulo Maiorana, o fundador do grupo de comunicao e pai de Ronaldo, com quem iria se desentender futuramente. Era uma relao de duas vias. O velho Maiorana dava liberdade jornalstica a Lcio Flvio em troca de credibilidade e reconhecimento que seu nome dava ao O Liberal. Tudo mudaria alguns anos aps a morte do guru da comunicao regional em 1989. Quando eu comecei a trabalhar no O Liberal, em 1989, o Lcio j havia sado. O nome dele no era mencionado na redao depois que os processos comearam, mas todo mundo lia o seu jornal em segredo, conta Maria do Socorro Furtado Veloso, uma professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte que escreveu uma tese de doutorado sobre o Jornal Pessoal.Amaznia: A Siclia VerdeLcio geralmente parafraseia Euclides da Cunha, um escritor brasileiro do incio do sculo XX que estava impressionado pela imponncia da Amaznia. Ele descreveu a Amaznia como sendo a pgina nal no escrita dos Genesis deixada para ser preenchida pelos homens. O que os homens criaram um lugar que uma vez Lcio chamou de Siclia Verde, onde o jornalismo independente no pode ser praticado sem que seja ameaado. Ele costuma dizer que no compra briga; ele simplesmente reporta os fatos sem medir as consequncias. E no Par, as consequncias podem incluir no apenas prises, mas tambm ameaas de morte, assassinato, ou, se voc for importante demais para morrer, processos judiciais. De acordo com o Comit de Proteo aos Jornalistas (CPJ na sigla em ingls), seis jornalistas foram assassinados no Brasil no ano passado. Foi o terceiro pais com o maior nmero de mortos, atrs de Sria e Frana. Perdi a conta de quantos processos eu tenho. Augusto Barata, um blogueiro baseado em Belm, disse ao Mongabay. Eles institucionalizaram a censura judicial. Barata se considera um alvo fcil porque ele trabalha sozinho e no possui conexes polticas. Existem nomes que sou proibido pela justia de mencionar em meu blog, ele conta. Ele d crdito a Lcio Flvio por quebrar o monoplio da informao que era antes monopolizado pelos dois grandes grupos de informao no Par. O jornal dele permite a democracia respirar, Barata diz. Porm em muitos casos as regras da democracia tm sido utilizadas contra Lcio Flvio. Desde que os processos se iniciaram em 1992, ele perdeu uma nica ao, movida por um homem que ele denunciou em um artigo de ser o maior grileiro de terras no Brasil talvez at do mundo. Em 2012, depois de doze anos de batalhas judiciais, um juiz o condenou por danos morais por chamar o empresrio Ceclio do Rego Almeida de pirata fundirio num artigo de 1999 sobre a grilagem que CR Almeida teria feito em um pedao de terra do tamanho da Blgica, no vale do Xingu, no Par. No artigo Lcio diz que a terra pertencia ao Estado e que h evidncias de que os ttulos de terra de Ceclio foram fabricados. Em 2013 Lcio Flvio teve que pagar por determinao judicial US$ 7.000,00 famlia do empresrio, que faleceu cinco anos antes. Ele no tinha recursos financeiros suficientes na poca. Seu jornal tem uma circulao de alcance limitado e no aceita publicidade porque ele acredita que ter anunciantes poderia comprometer sua liber dade editorial plena. Ento Lcio se voltou para a internet em busca de ajuda. Em uma onda de solidariedade, diversos jornalistas e antigos colegas de redao compartilharam um manifesto feito por Lcio sobre sua saga. Ele arrecadou dinheiro suciente para cobrir a multa e teve que solicitar para que parassem com as doaes. Posteriormente, em outra ao legal, a cor te judicial brasileira decidira desfavoravelmente posse de terra de Ceclio Almeida, provando a teoria de Lcio Flvio. Ele poderia ser um homem rico hoje, disse Manuel Dutra, professor de jornalismo da Universidade Feder do Par em Belm e ex-colega de Lcio. Ao invs disso, ele decidiu no fazer nenhum tipo de concesso. A deciso foi onerosa. Ele tem hoje 66 anos e longe da aposentadoria porque ele deixou de contribuir para o seguro social mais de uma dcada atrs. Ele no faz mais de US$ 300 por ms com o seu jornal e raramente cobra para dar palestras. Ele contou que faz a prpria limpeza da casa e doou o carro para o irmo. Sua condio humilde no o que se espera de um homem reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho. Alm do prmio Esso, ele ganhou o prmio Colombe dOro per la Pace da ONG Archivio Disarmo em 1997 e o Inter national Press Freedom Award do CPJ em 2005. Em 2014 a ONG francesa Reprteres Sem Fronteiras o reconheceu como um heri da informao. Porm ele no pode comparecer para a premiao do CPJ nos Estados Unidos. Tambm ausente esta noite para a cerimnia ser Lcio Flvio, 56, um editor de jornal da regio da Amaznia brasileira. Ele no est na priso, mas os empresrios corruptos e autoridades locais de quem ele escreve moveram tantas aes judiciais que ele no se atreve a deixar sua casa: uma ausncia nas audincias judiciais dariam a desculpa para que as autoridades o colocassem na cadeia, disse um editorial do Washington Post intitulado Jornalistas em Perigo, publicado na poca. Ainda assim, as honrarias lhe serviram para proteg-lo contra piores destinos para jornalistas brasileiros. Todas as premiaes nacionais e internacionais ajudaram a criar um escudo simblico e deix-lo mais protegido. Qualquer crime contra ele teria uma repercusso muito forte, contou Dutra.Amazonia ignoradaLcio acredita que a grande mdia no Brasil ignora a Amaznia. Por um longo perodo, a cobertura se limitou ao que fosse extico, como um animal selvagem matando algum. Todos os dias, laos entre a economia nacional e a oresta se-

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11 guem sem cobertura. A 50 quilmetros daqui [Belm ] existe uma fbrica de alumnio que o maior consumidor de ener gia do Brasil, conta LFP. Ningum fala sobre isso. Formado em sociologia pela USP, ele enxerga a regio atravs de uma espcie de lente marxista. Ele argumenta que o Brasil mantm uma relao colonial com a Amaznia, apontando para as fazendas de gado de corte como exemplo. Tradicionalmente a agropecuria utilizada no Brasil para ocupar novos territrios. tambm uma forma barata de fazer dinheiro, porque os custos so muito baixos, e no precisa de muitos empregados. Os fazendeiros derrubam a oresta, colocam o rebanho, e fazem a terra entrar para a economia nacional. No provoca desenvolvimento regional e o dinheiro no ca no Par porque a maioria dos produtores de fora da regio. Similarmente, como muitos observadores j apontaram, os enormes investimentos em represas, explorao mineral e outras atividades extrativistas na Amaznia tm amplamente sido realizadas com objetivo de satisfazer a demanda e o interesse internacional ou da regio sudeste do pas nunca a demanda local. O sculo XXI comeou em 1973, no em 2001, arma LFP, se referindo crise energtica mundial. Comeou com falta de energia, com a conscincia de que cara e escassa e a Amaznia a maior reserva de energia do planeta. Essa viso do mundo s vezes leva LFP a uma percepo no convencional dos eventos. Por exemplo, ele enxerga o problema maior com Belo Monte, a terceira maior hidreltrica, no rio Xingu, como sendo econmico, no ecolgico. Os ambientalistas romperam comigo por causa disso, mas verdade, ele diz. Em 2001, durante o controversa fase de planejamento da represa, aps diversas disputas em bases ecolgicos, os construtores diminuram o tamanho do reservatrio de gua de Belo Monte. Isso tornou o reservatrio pequeno demais para produzir energia suciente para justicar o tamanho e o custo da represa. O projeto como um todo se torna invivel economicamente, de acordo com LFP, e Belo Monte agora ir necessitar de subsdios do governo ou ter que construir um lago novo mais acima no rio. No m das contas, LFP acredita que a inviabilidade econmica ir resultar em maior dano ambiental, e o que escreveu provou que Belo Monte era simplesmente um mau projeto. O argumento da inviabilidade econmica no atrai muita simpatia das ONGs, mas a linha editorial do Jornal Pessoal so os fatos. Eu no me importo quem eu irei incomodar. Estou interessado em saber se verdade ou no, ele diz. Isso o que ele vem fazendo ao longo de sua carreira, mas aps 29 anos o jornalista admite estar cansado. Eu gostaria que o jornal se tivesse tornado desnecessrio. Quando voc tem 66, voc comea a ver que no ter mais tempo para fazer, disse LFP. Eu estou fazendo porque a dinmica da oresta rpida e h tanta omisso que eu sou forado a escrever.MEU SEBOO livro de FHCTrs grandes intelectuais brasileiros, todos eles uspianos (da Universidade de So Paulo) Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Florestan Fer nandes para produzir o livro Homem e sociedade Leituras bsicas de sociologia geral, publicada por uma editora paulista, a ento ainda poderosa Companhia Editora Nacional, em 317 pginas. FHC (na poca conhecido por Fer nando Henrique) e Ianni organizaram no uma antologia no sentido tradicional do termo, como explicaram na introduo, datada de janeiro de 1960. O objetivo foi ajudar a preencher uma velha necessidade do ensino de sociologia no nvel introdutrio. Selecionaram textos tendo em vista um conjunto de problemas existenciais que devem ser esclarecidos em qualquer curso de iniciao em nvel superior. O martelar no nvel bem uspiano. O livro fez parte da 2 srie de cincias sociais da Biblioteca Universitria, dirigida por Florestan Fernandes. O primeiro livro publicado foi justamente dele, o massacrante Fundamentos empricos da explicao sociolgica Homem e Sociedade foi o quarto volume. Todos eram socilogos, todos eram amigos e tinham posies convergentes. Escreviam mal, mas se comunicavam e impressionavam pelo conhecimento. Tornaram-se autores de livros livros-texto. Usei o de FHC e Ianni no segundo ano do curso de sociologia e poltica, em So Paulo. A 4 edio sara em 1968 e a comprei no ano seguinte. Ainda a possuo, toda anotada. Na poca eu pensava em deixar o jornalismo e seguir a carreira acadmica como cientista social. Tinha duas rotas na mente. Uma induzida por Lucien Goldman e pela minha anidade com a co, era me especializar na sociologia da cultura. A outra era me concentrar na cincia poltica. Acabei me decidindo pela segunda hiptese e nela iniciei meu mestrado, sob a orientao de Oliveiros Ferreira, mas a Amaznia no me deixou seguir. Por causa dessa dupla tendncia, um dos textos da seleo que mais me atraiu foi o de Karl Manheim, O im pacto dos processos sociais na formao da personalidade. Grifei o trecho em que ele assinala: Enquanto o perigo da sociedade competitiva est na tendncia de dissolver o vnculo social bsico do consenso, o perigo da sociedade planicada est em estender a tudo a conformidade mnima necessria, perdendo as pessoas o poder racional crtico, sem o qual uma sociedade industrial no sobrevive. A propsito: o poder to crtico da nossa sociedade neste momento racional? Anos depois me encontrei vrias vezes com Ianni em Belm e em So Paulo. Ele escrevia sobre a Amaznia dois livros que utilizaram muito minhas reportagens em O Estado de S. Paulo, tambm aproveitadas intensamente por Fernando Henrique Cardoso no seu livro de 1977. Os dois j se bicavam. As bicadas se estendiam a Florestan. Mas continuavam a se admirar e querer bem. Uma relao autenticamente intelectual.

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12 memriaC OTIDIAN Odo MARCOBelm recebeu por doao uma lgua quadrada da coroa portuguesa em 1627. Levou 76 anos para demar c-la e assim passar a cobrar impostos dos que vivia nessa rea. Uma pea simples de pedra demarcou a rea. Foram necessrios trs sculos para que a delimitao fosse feita por um marco de pedra de cantaria portuguesa, em 1927, instalado na conuncia da Almirante Barroso com a Doutor Freitas. Marco to expressivo que deu nome ao novo bairro, planejado para ter ruas largas e denio racional, s agora utilizado mais intensamente. Quando as duas pistas da antiga avenida Tito Franco foram duplicadas, o marco foi retirado e nunca mais voltou. Como de regra em Belm.JANGOFoi o maior acontecimento do ms, segundo o jornalista Fernando Jares Martins (na sua coluna Sntese Social, em A Provncia do Par ), o banquete que o governador Aurlio do Car mo ofereceu ao presidente Joo Goulart, em outubro de 1961. Quase 200 pessoas ocuparam seus lugares na sede social do Bancrvea, o antigo Place Teatro (onde hoje est o hotel Princesa Lou, ex-Hilton). mesa, todas as autoridades locais. Jango saiu antes que o licor fosse servido porque tinha pressa de voltar a Braslia. Pressa que tambm teve na viagem para Belm. Tanto que o deputado federal paraense Slvio Braga, integrante da sua comitiva, perdeu o voo por chegar ao aeroporto com cinco minutos de atraso.MACUMBAUm barbeiro, um aougueiro e uma viva foram agrados pela polcia quando preparavam um despacho de macumba na encruzilhada da Honrio Jos dos Santos com a Conceio, no bairro do Jurunas, em 1962. O trabalho constava de duas velas (uma vermelha e outra preta) amarradas com laos vermelhos, duas garrafas de cachaa fechadas, charutos e uma galinha preta, assada no leo de dend. Levados para a delegacia de polcia, os macumbeiros nada declararam.BLITZEm 1962 o delegado Eliomar Gonalves fez uma blitz sobre reas do bairro de So Braz. Um dos alvos foram as meretrizes, proibidas de estacionar s proximidades da garagem da EFB, a Estrada de Ferro de Bragana, onde est agora o terminal rodovirio. Tambm foram retiradas todas as baiucas de venda de comidas.O bar So Cristvo, onde se rene grande nmero de maconheiros, foi proibido de funcionar a partir das nove horas da noite, punio aplicada igualmente ao Cabana Bar e a um restaurante na praa Floriano Peixoto. Foram fechadas duas casas de jogo e a penso da Morena, na travessa Timb.EXTRATIVISMOAinda na era do extrativismo vegetal, em 1962 um quilo de semente de cumaru valia 240 cruzeiros; um litro de leo de copaba, Cr$ 200. O couro da ona saa a Cr$ PROPAGANDAPaissandu atrs de sciosEm 1974 o Paissandu lanou uma campanha para expandir o seu quadro social, vendendo novos ttulos de propriedade (em 20 mensalidades de apenas 100 cruzeiros). Garantia ser o melhor investimento de capital, independente de todas as vantagens proporcionadas no campo social-esportivo. O Paissandu j tinha ento piscina, salo de festas, ginsio coberto, salo de jogos, bal, jud, boate, bar, restaurante, sauna, fisioterapia, moderno estdio de futebol e sede nutica. Abonavam o convite Altino Pinheiro, Wilson Almeida, Aurlio Souza, Joo Drumond, Paulo Castro, Hermgenes Conduru, Antonio Soares e Orlando Guilhon, reunidos na pela publicitria.

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13 4.000 e a do gato maracaj, 3 mil. A da lontra, 1,5 mil. O hectolitro da castanha mais cara, a grada, cava por 3,3 mil cruzeiros.TERRASNa metade da dcada de 1960 circularam histrias e denncias sobre a venda de terras na Amaznia a estrangeiros. Duas comisses de inqurito chegaram a ser instaladas, uma na Cmara dos Deputados e outra no Ministrio da Justia. Questionado a respeito, em 1967, o historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, que ocupara o governo do Amazonas com a deposio do governador Gilberto Mestrinho, cassado pelos militares que deram o golpe de 1964, lembrou um fato anterior. Reis tambm foi o primeiro superintendente da SPVEA, antecessora da Sudam, que inaugurou o planejamento regional no Brasil, frente da Sudene. O episdio era a compra de terras pretendidas pela multinacional americana United Fruit. A inteno no se concretizou, bloqueada pelo marechal Castelo Branco durante o perodo em que ocupou o comando da 8 regio militar, em Belm, antes de ser o primeiro presidente da repblica sob o regime militar.GUAO populoso bairro da Terra Firme s comeou a dispor de gua potvel em 1970. Quando o servio foi inaugurado, com a pretenso de atingir dois mil consumidores na primeira etapa (uma segunda etapa cobriria todo o bairro), apenas 800 ligaes haviam sido solicitadas. A rede geral, inaugurada pelo governador Alacid Nunes, tinha 1.200 metros de extenso, provida de gua por um poo artesiano e um conjunto de motobombas. O sistema foi montado pelos engenheiros Jos Gomes Brito de Souza, Humberto Beltro Martins, Geraldo Tuma Haber, Gondelim Duarte Brito Filho, Waldemar Baganha e Luiz Eduardo Castro.ROMULOEm 1974, os deputados estaduais foram entregar pessoalmente a Romulo Maiorana o ttulo de cidado de Belm, que lhe outorgaram por unanimidade. Um dos oradores na solenidade, o deputado estadual Jader Barbalho, lder da oposio na Assembleia Legislativa, pelo PMDB (atual PMDB), lembrou de quando ainda era criana e frequentava os magazines de Romulo Maiorana, uma amizade, portanto, de duas geraes, e sentia, j desde aquele tempo, a renovao que se processava no comrcio da capital, pelo grande empresrio que inegavelmente. Nessa poca, alm de O Liberal, Romulo ainda editava a Folha do Norte que adquirira da famlia Maranho. Seria o ltimo ano de circulao do jor nal, apenas para manter o domnio do ttulo. A Fo lha, que foi o mais influente jornal do Par por meio sculo, se tornara uma caricatura do passado. A Folha circulou no dia da visita dos deputados com 16 pginas em dois cader nos, custando um cruzeiro, tendo como diretores o marechal Augusto Magessi e o jornalista Odacyl Catette. O Liberal tinha 24 pginas em dois cadernos, a Cr$ 1,50.CINEMASEm 1974 ainda havia sete cinemas de rua em Belm. Quatro de Luiz Severiano Ribeiro: Olmpia, Palcio, Nazar e Iracema. Trs da Distribuidora Lvio Bruni: Independncia, pera e Moderno. S o Olmpia sobrevive, custeado pela prefeitura.FOTOGRAFIAO candidato e o povoEste foi o caminho do povo que o exgovernador Zacarias de Assuno e o futuro deputado federal Armando Carneiro usaram na campanha eleitoral de 1960. O general no conseguiu voltar ao poder estadual, que se manteve sob o controle do PSD, um ano depois da morte do seu maior lder, Magalhes Barata. Sem penduricalhos e tecnologia, os candidatos tinham que convencer o povo de que deviam ser eleitos. A margem de erro na escolha era grande, mas talvez menor do que na era atual de manipulao de massa.

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14 CartasProfessoraAcabo de concluir a leitura do JP n 606, da primeira quinzena de abril. Gosto muito do espao Meu sebo, onde voc sempre fala de uma obra, ou de uma livraria, ou de vrias obras. Gostei tambm das imperdveis memrias do cotidiano, que o que eu leio primeiro. Mas, nesta edio, o que eu mais gostei mesmo foi a matria sobre a Violeta Loureiro. Um verdadeiro exemplo de vida, uma histria fantstica. Fiquei emocionado ao ler a histria da trajetria da vida desta senhora. Fiquei realmente emocionado. No conheo nenhum jornal que publique este tipo de histria. Agradeo-lhe por esta e por todas as edies do Jornal Pessoal que me presenteaste. Muito Obrigado! Antonio da Silva Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz Antonio de Faria PintoMEIO SCULO DE JORNALISMOA maior derrota de BarataProssigo a publicao de matria que escrevi para a edio especial de aniversrio de O Liberal de 15 de novembro de 1982. O texto ser concludo no prximo nmero.Em 1947, 120 mil eleitores em um colgio eleitoral de 200 mil (e em uma populao de um milho de habitantes no Par) foram s urnas. Deviam escolher um novo governador, que substituiria o interventor federal, Jos Francisco, mais trs senadores, sete deputados federais e 37 estaduais. O PSD, novamente sozinho, apresentou o nome do major Moura Car valho, que fora deputado estadual em 1935, comandante da Polcia Militar, chfe de polcia e era deputado federal, eleito em 1945. A oposio, mais uma vez, no conseguiu se unir. A UDN rejeitou o lanamento de candidatura nica apoiada por todas as foras anti-baratistas, apoiando Prisco dos Santos. O PSP trouxe de volta o general Zacarias de Assuno para enfrentar o coronel Magalhes Barata. Assuno comandara a 8 regio militar e assumira o governo do Estado durante trs dias, em 1945, quando Getlio Vargas caiu, encerrando a ditadura do Estado novo, e Barata foi exonerado. Cumpriu orientao do ministro da Guerra: se fosse necessrio ordem pblica, os comandantes militares deveriam assumir os governos estaduais. Nesse curto perodo, segundo a Folha do Norte o jornal que assumiu constante e feroz oposio a Barata, libertou o Par dos guantes do baratismo, operando de pronto a sua ansiada redeno. O PSD tentou impedir a candidatura de Assuno, considerando-o inelegvel por ter assumido o governo no perodo de 18 meses antes da eleio, o que a legislao proibia. O PSP alegou que o general no assumira de fato a interventoria e que a sua presena no governo foi ato da sua funo militar. O PSD lembrou que, mesmo assim, Assuno recebera remunerao pelo cargo. Mas o TER, por quatro a trs (com o voto de Minerva do seu presidente, desembargador Arnaldo Lobo), mandou fazer o registro. Alguns dias antes da eleio, a Folha do Norte publicaria um elogio de Luis Carlos Prestes a Moura Carvalho, tentando mostrar a vinculao entre comunistas e pessedistas. O Liberal rea giu dizendo no haver escndalo nesse apoio e que o PSD no rejeitaria os votos dos comunistas porque o PCB era um partido legal. No apresentando candidatos, podia apoiar qualquer um. Em nota ocial, a Liga Eleitoral comunicou que no poderia indicar o nome de Moura Carvalho, por ser o candidato do Partido Comunista, provocando outra resposta do PSD. O partido considerou que houve lamentvel equvoco. Seu candidato no nem nunca foi, em absoluto, candidato do Partido Comunista, com o qual no tem, nem jamais teve qualquer compromisso, entendimento ou acordo, sendo, como pblico e notrio, radicalmente contrrio aos postulados de sua doutrina, que no se conformam com a sua formao moral e tradio religiosa. O PSD e o seu presidente, o senador Magalhes Barata, atriburam as acusaes ao PSP, que manipulava a LEC. A Liga pedira duas declaraes a Moura, nas quais ele devia negar plenamente qualquer acordo com os comunistas. O candidato respondeu, mas a Liga considerou reticentes suas armativas e manteve o veto sua candidatura. Mais uma vez, no entanto, o PSD teve uma grande vitria. Moura Carvalho recebeu mais de 68 mil votos. Assuno teve 46 mil e Prisco dos Santos no chegou a quatro mil. Dos 56 municpios do Estado, o PSD venceu em 51. Elegeu 26 dos 37 deputados estaduais. O PSP cou com nove, a UDN e o PTB com dois cada, e o PCB com um, Henrique Santiago (mas teve apenas 3.800 votos contra 4.000 na eleio anterior.A OPOSIO VENCEA oposio ao baratismo chegou sua primeira vitria na eleio de 1950. Foi tambm a primeira vez em que conseguiu se unir em uma coligao. Foi a Coligao Democrtica Paraense, formada pela UDN, PL, PRT, PSPS e PST, acrescidos do Movimento de Resistncia Democrtica e Movimento Independente. A oposio voltou a apresentar o nome de Zacarias de Assuno, desta

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15 vez para enfrentar o prprio Barata. Mas agora toda a oposio trabalhava pelo seu nome. Muitos advogados e polticos foram mobilizados para acompanhar a votao e a apurao no interior e na capital. Uma intensa mobilizao, atravs de enterros simblicos de Barata, alegorias, crticas, comcios e msicas. Fiou famosa a pardia carnaval da vitria de Assuno, que contagiou Belm: t, t, t, t na hora/ va, va, va, va vale tudo agora/ sou, sou, sou da oposio/ e Iv Zacarias de Assuno. Essa pregao caiu em terreno propcio: sem luz, esburacada e desabastecida, Belm se sentia abandonada por Barata e seu PSD. Os antigos e ecientes servios, como os bondes, simplesmente deixaram de existir. Embora a ao extensiva por todo o interior tenha sido uma das chaves do sucesso da oposio, foi a grande votao obtida em Belm que assegurou a vitria de Assuno. Na capital ele conseguiu quase 39 mil votos contra 22 mil de Barata. Essa diferena de 17 mil votos, estabelecida tanto nos bairros centrais quanto nos subrbios, no pde ser descontada no interior. De pouco menos de 200 mil eleitores no Estado, 60 mil votaram em Belm. Uma grande parcela do eleitorado j se concentrava em um grupo de cidades que experimentaram grande incremento demogrco. Essa incipiente urbanizou facilitou um pouco o proselitismo oposicionista. Concluda a apurao normal, Assuno vencia com 93.461 votos contra 93.270 de Barata. Seguiu-se ento uma demorada, nervosa e desgastante batalha de impugnaes, anulaes e recur sos, culminando com uma eleio suplementar da qual participariam dois mil eleitores, que decidiram a disputa. A guerra de nervosos sustentada pelos partidos se espalharia por Belm inteira. Sucediam-se atos de violncia e de ameaas entre os adversrios. Sob diferentes pretextos e visando vrios objetivos, inclusive a interferncia sobre a apurao, o PSD trocou sucessivamente de governadores. Alberto Engelhard, que substituiu Moura Carvalho em junho de 1950, para que ele se candidatasse ao Senado, foi substitudo pelo ento prefeito de Belm, Waldir Bouhid. Mas Bouhid renunciou tambm logo em seguida. Porfrio Neto assumiu e se exonerou para imediatamente subir o desembargador Arnaldo Lobo, que foi quem, nalmente, entregou o cargo ao presidente da Assembleia Legislativa, Abel Figueiredo. Tentando forar a queda do gover no pessedista, o major Maurcio Fer reira, da Polcia Militar, comandou uma rebelio da tropa. A sedio foi logo sufocada, mas persistiram conitos de Ra. A Folha do Norte publicou violentos editoriais, estimulando os atos contra o PSD. Em outubro, o governo federal tomou uma deciso drstica: pela primeira vez no Brasil, tropas do exrcito seriam transportadas por via area de uma regio para outra. Seis avies Douglas precisaram de dois dias de viagens para levar 264 praas e 14 ociais do 19 Batalho de Caadores, sediado na Bahia, para reorar o policiamento em Belm, praticamente decretando a interveno federa no Estado. O comandante da 8 regio militar, general Sayo Cardoso, imps vrias medidas: proibio de reunio de mais de quatro ou cinco pessoas nas esquinas, fechamento dos bares e botequins s 20 horas e proibio da venda de bebidas alcolicas a partir das 18 horas. Essas iniciativas imobilizaram o governo do Estado e a luta passou a ser travada dentro do TRE. O PSD sob o comando do senador lvaro Adolfo, trazido s pressas do Rio de Janeiro, e os bacharis da UDN do outro lado. Estes acabaram ganhando com as suplementares: a diferena em favor de Assuno subiu para 582 votos. J no Rio de Janeiro, depois de desistir de recursos para anular a eleio, Barata atribuiu sua derrota interferncia do comandante da 8 RM em favor da Coligao. Bem fcil avaliarse o que representam nas provncias as simpatias de chefes militares por partidos ou candidatos. Barata revelou ter denunciado o facciosismo do general Sayo s altas autoridades da Repblica, mas que, por este ou aquele motivo, no foram tomadas providncias. Reconheceu que a unio dos oposicionistas foi outro fator de inuncia, acusando ainda os comunistas de terem trabalhado para a CDP. Apesar da derrota na disputa para o governo e o Senado, o PSD elegeu 43 dos 57 prefeitos municipais, 18 dos 37 deputados estaduais (a UDN fez nove, sete foram do PSP e um do PT, que seria um comunista confesso, segundo a queixa de Barata) e 5 dos 9 deputados federais. Analisando o resultado da eleio, que deu ao vencedor apenas uma reduzida maioria de votos, A Provncia do Par observou: Isso quer dizer, em ltima anlise, que pouqussimo mais da metade da populao estar de acordo com ele [o vencedor ] e faltar-lhe-, portanto, autoridade para assenhorear-se do Estado como de um feudo, sem que os representantes de quase outra metade possam cooperar, apoiados pela enorme soma de sufrgios recebidos. O jornal lamentava que h quarenta e tantos anos vivemos sob o imprio da mais desenfreada politicagem, a ela escravizados como ao vcio, desinteressados de promover efetivamente a prosperidade geral, apenas preocupados com a sorte dos carrilhos e dos grupelhos e melancolicamente conformados com o atraso que nos envergonha em confronto com o progresso de outras unidades federativas. Todos os servios pblicos que foram outrora o,nosso orgulho, nesses quatro decnios tm minguado dia a dia e bruxoleiam, como cama a extinguir-se. A Provncia lembrava que essa guerra partidria forou a migrao de muitas pessoas que poderiam dar maior contribuio ao Estado. Vamo-nos transfor mando numa aldeia, ao inuxo contagiante e nefasto desse dio poltico que de vez em quando muda de nome mas no de mtodos, dividindo e anulando, enfraquecendo e deseducando, rebaixando-nos de nvel e tudo condicionando cega paixo partidria, que desmanda a linguagem, oblitera o senso e impossibilita a administrao. Observava ainda o jornal que a eleio signicou uma revoluo da qual agente o voto secreto. Esperava que vencedor e vencido soubessem compreender a sua transcendente signicao: o povo conclua o editorial faz um apelo por dias de maior respeito mtuo, de parte a parte, com menos dio infrutfero e mais trabalho construtivo, trabalho ao qual cada um possa ter acesso fcil pela competncia e no pela cartilha polica que soletre.

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A voz encantadeira de Sabah MoraesSabah Moraes me fez um dos mais bonitos e emocionantes agradecimentos. Foi em seu CD Ave Encanta deira lanado em 2007. Registrou na contracapa: Lcio Flvio Pinto, amigo da vida toda, sempre to presente. S li essas palavras na semana passada, durante um longo passeio matinal pelo Ver-o-Peso, num sebo de discos que frequento h muitos anos. Na poca, o que Sabah disse era a pura expresso da verdade. Ela me apareceu pela primeira vez no escritrio onde funcionava a semi-sucursal de O Estado de S. Paulo, sem se anunciar. Tinha entre 15 e 16 anos. Chegou, se instalou e colocou sua bela, afinada e melodiosa voz para cantar, quando tambm tocava sax, complemento harmonioso do seu timbre. Admirei na hora a pessoa e a sua voz, seu modo de ser e de se expressar, alm da bela famlia de que fazia par te, com gente de muito talento e uma unio admirvel. Acompanhei Sabah de uma forma que fiz por merecer sua observao no CD de quase 10 anos atrs, que comprei e ouvi diversas vezes. Mas faltei lamentavelmente s duas ltimas apresentaes de Sabah em Belm. Ela no perdoou. Deve ter apagado o agradecimento do seu disco de cabeceira. Ainda assim, continuo a lhe enviar este jornal, sem sequer saber se ela ainda est em Goinia, um dos seus endereos enquanto ia ampliando a prole, sem qualquer inibio. Sabah teve a sorte de encontrar e casar com o compositor, violonista e arranjador Ney Couteiro, a quem agradece no CD pelo amor, companheirismo e dedicao. S algum to zen como ele podia combinar com a tor rente de energia de Sabah, agora sob o ponteio dos anos, dos encargos e da luta incansvel para abrir um caminho na msica popular brasileira. Desde o primeiro momento Sabah me lembrou Vanja Orico, tambm paraense, que nunca renunciou a cantar as msicas da sua escolha pessoal e se expressar do modo que achava apropriado. Com voz culta, bem educada, Sabah podia ter continuado a carreira erudita. Sem abrir mo da sua qualidade, optou pelos espinhos de um estilo que jamais ser sucesso, exceto entre aqueles que sabem apreciar o som de um cristal retinindo, como nos gorjeios de Sabah, que ouo neste momento enquanto lhe mando um al do amigo que nunca deixou de acompanh-la, mesmo sem ela saber ou querer. Foto DIVULGAOAry a base!Dizem que o amigo verdadeiro aquele que depois de anos sem ver, quando o encontramos parece que batemos um papo no dia anterior. E verdade, mas pra mim tambm aquele que nem lembro quando e como conheci. Com o Arytan foi assim. Sei que foi nos ns da dcada de 1970 quando ele apareceu pra ocupar a vaga do Z Macedo na percusso do Sol do Meio Dia. Depois do Sol, fizemos uma excurso pelo Nordeste com o Quenga Prateada (incio de 1980) com a finalidade de chegar em So Paulo e tentar a sorte por l. Em Fortaleza abandonei o grupo e voltei pra Belm, s o Ary chegou em Sampa. S fomos nos ver alguns anos depois e chegamos a tocar na noite e no Pavulagem. Ele sempre foi profissional criativo e competente, super responsvel, quase um workholic. Pai de dois filhos, um se tornou msico e outro despor tista, as duas atividades praticadas pelo amigo. Com uma carreira de 45 anos, alm do Sol tocou com Os Panteras, foi um dos fundadores do Pavulagem e banda Warillou, alm de tocar com a maioria dos msicos da terrinha. tambm um pesquisador de ritmos amaznicos, professor e luthier de mancheia. Goza de excelente reputao no meio artstico, sendo requisitado para compor a cozinha de bandas de apoio dos nossos mais renomados artistas. J tem engatilhado a gravao de um CD ltero-musical baseado nos poemas de Bruno de Menezes. Essa trajetria foi interrompida momentaneamente. Final do ano passado teve que ser operado de apendicite e proibido de trabalhar por bastante tempo. Seus amigos montaram shows alm de uma campanha de financiamento coletivo, pelo site Eu Patrocino (http://www.eupatrocino.com.br/ arytana-e-a-base) para lhe dar apoio financeiro ao tratamento. Quem se dispuser pode entrar em contato com ele pela sua pgina Facebook e pode ter certeza que o cara merece. Eu sou s elogios. Fora, irmo. (Luiz Pinto) Foto DIVULGAO