Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

Downloads

This item is only available as the following downloads:


Full Text

PAGE 1

MALUF RENEGA O PT O ROUBO DO BRASIL o a No domingo, 3, comeou a funcionar ainda em fase pr-operacional a primeira turbina da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu. Aconteceu pouco mais de cinco anos aps o incio das obras da usina, projetada para ser a quarta maior do mundo e a maior inteiramente brasileira. No mesmo dia, o bispo de origem austraca Erwin Krutler deixou o comando da diocese do Xingu, depois de 50 anos no cargo, por ter atingido a idade limite para o seu exerccio, aos 72 anos. Ele foi o mais ativo e destacado opositor do empreendimento. A coincidncia podia ser interpretada como um sinal de que dom Erwin acabou sendo derrotado na sua campanha para impedir a execuo do projeto. Exatamente no dia do seu desligamento do bispado, em Altamira, no Par, a enor me hidreltrica, a maior obra de infraestrutura (e do PAC, o Programa de Acelerao do Crescimento, o principal do governo do PT), se tornava literalmente fato concreto? A situao mais complexa do que essa rstica interpretao. A fase executiva ds estudos para o barramento do rio Xingu se iniciou mal entrou em funcionamento, em 1984, a ainda HIDRELTRICABelo Monte comeouNo dia 3, o bispo Erwin Krutler se aposentou da diocese do Xingu, em Altamira. No mesmo dia comeou a funcionar a hidreltrica de Belo Monte, contra a qual ele manteve intensa campanha durante muitos anos. Foi uma derrota? Ou a questo mais complexa?

PAGE 2

2 quarta maior hidreltrica do mundo, a de Tucuru, no rio Tocantins, a leste do Xingu, em eixo paralelo. Foi uma das ltimas grandes obras inauguradas pelo ltimo dos generais, Joo Figueiredo, que ocuparam a presidncia da repblica durante o regime militar (1964/1985). Belo Monte devia ter seguido o mesmo caminho. Quatro barragens rio acima uriam reter gua para que, no vero, quando a vazo do rio pode diminuir at 30 vezes em relao ao uxo de gua do pique do inverno, a usina pudesse continuar funcionando, graas gua estocada no perodo das cheias. S o reservatrio de uma delas, a de Babaquara, com seis mil quilmetros quadrados, seria duas vezes maior do que o de Tucuru e superaria o de Sobradinho, o maior lago articial do Brasil (para se ter uma ideia de grandeza, o famoso lago Parano, em Braslia, tem menos de 50 km2). A grita foi enorme, inclusive no exterior, em particular no Banco Mundial, que se negou a nanciar novas hidreltricas na Amaznia e a endoss-las junto comunidade nanceira internacional. No por acaso, o BNDES, que garante 85% do custo da usina, com crdito subsidiado, se tornou maior do que o Bird, algo inimaginvel pouco tempo atrs, graas benevolente administrao do PT no banco estatal de desenvolvimento, personicada no economista Luciano Coutinho, o intocvel. A Eletronorte, que conduzia Belo Monte depois de se manter frente de Tucuru, precisou recuar. Para mudar a sionomia da nova hidreltrica, cancelou as demais barragens, garantiu que apenas uma seria mantida no Xingu, justamente a de Belo Monte (ex-Karara), e apresentou um novo desenho do projeto, indito e audacioso. A empresa recorreu ao mximo de criatividade e audcia em matria de engenharia para manter o propsito de aproveitar a excepcional condio geogrca de um trecho, conhecida por a Volta Grande, em que o rio faz uma grande curva e, em 100 quilmetros, desce 90 metros. uma declividade natural superior em 20 metros aos 70 metros que foram alteados no Tocantins para dar-lhe volume e fora constantes para acionar as imensas 23 turbinas da sua casa de fora, cada uma delas precisando de 500 mil litros de gua por segundo. O problema que, para atender a presso de ambientalistas, antroplogos, ONGs e a comunidade mundial, o reservatrio que sobreviveu seria pequeno demais (pouco mais de 10% do tamanho do lago de Tucuru) para garantir que no vero houvesse gua suciente para mover as 18 turbinas (maiores do que as de Tucuru) l embaixo. Tambm no podia ser usada a vazo natural do rio, por sua calha, por que a sucesso de curvas e a presena de ilhas no seu leito tiram a velocidade necessria das guas. Com ousada concepo, a soluo foi desviar a gua retida no vertedouro principal, distante 100 quilmetros da casa de fora principal, por canais naturais e articiais que agora levam a gua pelo declive de 90 metros a uma velocidade compatvel com o tamanho das unidades de gerao. No h nada igual nos anais das hidreltricas no Brasil e no mundo. Os engenheiros tiveram que recorrer a uma concepo de vanguarda para que no houvesse grande inundao a montante (acima) da barragem (submergindo rea muito maior de Altamira), o rio a jusante (abaixo) no tivesse reduo articial de uxo (a Norte Energia se comprometeu a manter vazo de 700 metros cbicos de gua por segundo no pique da estiagem, volume maior do que a descarga natural do Xingu nesse perodo), e fazer o desvio, saindo do leito do rio, para a aduo de gua em volume e velocidade de motorizao no nvel exigido. O resultado de tudo isso que o uso de concreto se multiplicou, a ponto de superar o volume utilizado no canal do Panam, e o oramento do empreendimento est caminhando para dobrar de valor: dos 19 bilhes de reais de incio para os R$ 32 bilhes de hoje. Sabe-se que parte desse acrscimo foi provocada por superfaturamento para o pagamento de propinas a polticos, executivos e intermedirios, conforme a apurao da Operao Lava-Jato. A Construtora Andrade Gutier rez confessou que pagou propina para conseguir os contratos para a execuo da obra. Para pagar as propinas, a Andrade, que a segunda maior empreiteira do pas, superfaturou essas obras. Uma vez entregue, o dinheiro se transformou em doaes legais s campanhas de Dilma Rousse (PT) e de seus aliados em 2010 e 2014. A informao teve por origem o prprio ex-presidente da empreiteira, Otvio Marques de Azevedo,e foi sistematizada por ele em uma planilha apresentada Procuradoria-Geral da Repblica. Segundo esses dados, em 2014, a Andrade Gutierrez doou 20 milhes de reais para o comit da campanha de Dilma. Na tabela, que inclui tambm doaes em 2010 e 2012, cerca de R$ 10 milhes doados s campanhas de Dilma esto vinculados participao da empreiteira em contratos de obras pblicas. Corrupo parte, o investimento na usina realmente foi onerado pela busca de um perl de harmonia com o meio ambiente e a populao nativa que fosse acatado pelos crticos. Nenhum projeto concebido para aproveitar o desnvel turbinvel do Xingu seria melhor do que o que foi apresentado, sob esse prisma. Ainda assim, crticos, como o exbispo, continuaram se opondo obra, por uma questo de princpio, no mais pela demonstrao de que ela fora alterada (e se tornara um monstro da engenharia, ao mesmo tempo repelente e admirvel) exatamente em funo das restries apresentadas. D. Erwin e a corrente que o segue ou divulga no querem o barramento e ponto nal. Por esse prisma, foram fragorosamente derrotados. Dois dias depois que entrou em funcionamento a primeira turbina de grande potncia, foi acionada a segunda mquina, de baixa potncia. A primeira ca na casa de fora principal, que abriga outras 17 turbinas, com gerao de 650 megawatts cada, que comearam a irrigar o Sistema Interligado Nacional no dia 3. Com apenas essa mquina, que representa 5% da potncia nal de Belo Monte, de 11,3 mil megawatts, a usina j est produzindo o dobro da energia necessria para atender todo o consumo de Belm, com seus 1,5 milho de

PAGE 3

3 habitantes. A segunda mquina, ativada no dia 5, faz parte da casa de fora secundria. Instalada no vertedouro principal (outro detalhe inovador do projeto), ela ter seis turbinas de menor potncia, de pouco menos de 40 MW. Por serem do tipo bulbo, funcionam com gua corrente, sem acumulao. Geram com queda de gua de 12 metros, quatro vezes menos do que a altura exigida por uma turbina convencional, de maior potncia. A casa de fora secundria concluir sua motorizao em janeiro do prximo ano. A ltima turbina da casa de fora principal dever comear a funcionar em janeiro de 2019. Nesse momento, alm de se consolidar como a quarta maior hidreltrica do mundo, ser a maior hidreltrica integralmente nacional, j que apenas metade de Itaipu, com seus 14 mil MW, pertence ao Brasil. Os construtores dizem que os 11 mil (a outra metade do Paraguai) MW de belo Monte podero suprir o consumo de 60 milhes de brasileiros. Ao custo, atual, quase 32 bilhes de reais. Mas ainda ser necessrio aplicar outros bilhes de reais s duas linhas de transmisso, com mais de dois mil quilmetros de extenso, que levaro a energia at So Paulo, da se espalhando pelo pas. Por enquanto, h limitao para o acrscimo de energia nas linhas j em funcionamento. O problema que o sistema de transmisso, da empresa chinesa State Gride com estatais de energia, est com seu cronograma atrasado e o oramento inchado articialmente, segundo o Tribunal de Contas da Unio. Tudo grande o suciente para atrapalhar o controle mais rigoroso dos or amentos, das suas execues e do uso dessas obras tipicamente coloniais.At que ponto Delm inuiu sobre Lula?O banqueiro Olavo Setubal, dono do Ita e ex-prefeito de So Paulo, era ministro das relaes exteriores em 1982, quando passou quase anonimamente pelo aeroporto de Belm indo para o Jari. Voltou no dia seguinte. Ainda no aeroporto, fez sua avaliao do que viu: Do ponto de vista do negcio, ouro e simples, ningum entraria no Jari. O Jari no um empreendimento empresarial-tcnico do sculo XX, Trata-se de um projeto desbravador do sculo XIX. Ele queria dizer que o dono do negcio, o milionrio americano Daniel Ludwig, ento com 85 anos, zera o que queria, tirando as ideias e a concepo do negcio da sua prpria cabea. Comeara a aventura na selva, para produzir caulim, celulose e arroz, quando j tinha 70 anos. Quinze anos depois, o empreendimento ameaava naufragar em dvida, que ele se recusava a pagar, e impasses tcnicos. O problema que o emprstimo para o principal negcio que zera, uma fbrica de celulose, fora concedido pelo Eximbank do Japo. Como o avalista era o tesouro brasileiro, se ele mantivesse a deciso de no honrar o compromisso, o governo teria que pagar a prestao que vencera e executar as garantias dadas na transao. O que signicava estatizar o projeto privado mais famoso e polmico implantado na Amaznia, com endosso ocial. Era uma heresia. O ministro Delm Netto tratou de arregimentar empresrios de alguma forma devedores de alguma iniciativa do ministro da Fazenda ou a ele agregados para que, ao invs da estatizao, fosse realizada a nacionalizao do projeto, o controle permanecendo privado. Para 22 empresas, o pedido de Delm era uma intimao. O nico dos 22 empresrios arrebanhados que se deu ao trabalho de ir ver o negcio que seria obrigado a fazer foi Setubal, que manifestou com sinceridade o seu ceticismo sobre a atratividade do investimento que ia realizar. Todos os novos scios tinham algum tipo de contrato com o governo, principalmente empreiteiros. iam se compensar atravs dessa relao. Delm foi ainda mais generoso. O Banco do Brasil entraria com quase o dobro da soma do capital dos 22 scios, e, em seguida, tambm o BNDES, poupando os capitalistas de aplicar seus preciosos capitais. Foi um negcio muito especial para esses capitalistas. Trs dcadas depois, j aos 87 anos, Delm volta a atrair a ateno por uma histria parecida. Flvio Barra, alto executivo da Andrade Gutierrez, preso em julho do ano passado pela Lava Jato sob acusao de pagar propina nas obras da usina nuclear Angra 3, disse em acordo de delao premiada que a empreiteira pagou propina de 15 milhes de reais ao ex-ministro e exdeputado federal, na fase nal das negociaes para a concesso da usina de Belo Monte, em 2010. Teria sido uma graticao por ele ter ajudado a montar consrcios que disputaram a obra, segundo o executivo, que presidiu a AG Energia, brao da Andrade para esse mercado. O montante teria chegado a Delm por meio de contratos ctcios de empresas de um sobrinho dele, Luiz Apolnio Neto, com a Andrade Gutierrez, a segunda maior empreiteira do pas. No teria havido, porm, prestao de servios, segundo Barra, o que pode caracterizar corrupo. Os contratos ctcios foram entregues aos procuradores pelo executivo como prova de seu relato. A Andrade tambm fez um acordo de lenincia, uma espcie de delao para empresas, no qual aceitou pagar multa de R$ 1 bilho. Tudo isso segundo o noticirio da Folha de S. Paulo. O jornal lembra que Belo Monte teve um processo de licitao tumultuado. O projeto da usina era extremamente complexo porque a vazo de gua pequena e envolvia a construo de dezenas de barragens e um canal de 20 quilmetros. CorreoNosso computador gostou tanto da edio anterior que repetiu-lhe as manchetinhas, conforme deve ter percebido nosso leitor, sempre muito mais perspicaz do que o nosso computador. Perdo, leitores.

PAGE 4

4 Na reconstituio do jornal, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corra gastaram milhes de reais e anos de pesquisa para fazer o projeto, mas o governo resolveu dar uma lio nas trs gigantes, consideradas por ele arrogantes demais, e permitiu que um grupo de empresas menores vencesse a concorrncia das obras civis. Esse grupo de oito construtoras, apelidadas pelo governo de aventureiras (Queiroz Galvo, Mendes Jnior, Serveng-Civilsan, Contern, Cetenco, Gaia, Galvo e J. Malucelli), teria sido articulado por Delm e pelo pecuarista Jos Carlos Bumlai, amigo de Lula que est em priso domiciliar. A ideia de criar o consrcio com empresas menores era uma estratgia do governo para fazer as grandes empreiteiras baixarem o preo que planejavam cobrar. O senador Delcdio do Amaral (ex-PT-MS) teria sido encarregado pelo governo de procurar Delm e Bumlai para que colocassem o plano em prtica. Em agosto de 2010, o consrcio vencedor permitiu a entrada de construtoras com maior capacidade tcnica no consrcio: Andrade, Odebrecht e Camargo Corra. Novamente, Delm foi chamado para ajudar no arranjo neste novo grupo, com 11 empreiteiras, segundo Barra. A Andrade foi a grande beneciada com a mudana. A empresa passou de perdedora da primeira concorrncia a lder do consrcio da obra. Na prtica, no houve concorrncia, mas um grande acor do entre as empreiteiras, segundo os executivos da Andrade, com Delm como um dos principais articuladores. As obras civis da usina de Belo Monte foram contratadas inicialmente por R$ 14,5 bilhes, dos quais 1% teria sido destinado a suborno para polticos do PT e do PMDB, segundo a verso de executivos da Andrade. O valor do suborno, de acordo com essa verso, foi de R$ 140 milhes. O preo final da obra, com turbinas e maquinrio, deve chegar aos R$ 32 bilhes. Delm armou Folha atravs de seus advogados, que recebeu por ser vios prestados Andrade. O ex-ministro refutou de maneira veemente, por meio de seus advogados, que tenha recebido recursos ilcitos das empresas que atuam na construo da usina de Belo Monte. O professor prestou servios de fato e, como no funcionrio pblico, no h crime nenhum nisso, arma o advogado Ricardo Tosto, que no quis informar o valor recebido por Delm. Segundo Tosto, o ex-ministro prestou consultorias para empresas para as quais j faz esse tipo de trabalho h anos, como a Andrade Gutierrez e a Camargo Corra. Em nota, Tosto e seu scio, Maurcio Silva Leite, disseram: O professor Delm Netto arma que no forjou contratos ctcios e que os pagamentos recebidos por servios efetivamente prestados s empresas do consrcio de Belo Monte foram feitos diretamente a ele, de forma absolutamente lcita. Segundo a nota, seu sobrinho no assinou contratos ctcios com a Andrade. O sobrinho no quis se pronunciar. Delm foi mais poderoso ministro da Fazenda da ditadura militar (196485) e um dos artces do milagre econmico dos anos 1970, mas conseguiu se tornar conselheiro de Lula quando ele foi presidente. No a primeira vez que seu nome associado a corrupo na construo de uma hidreltrica na Amaznia. O adido militar da embaixada do Brasil na Frana, coronel (do exrcito) Raimundo Saraiva, acusou Delm de cobrar propina nos contratos de emprstimo e de construo das turbinas para a hidreltrica de Tucuru, no rio Tocantins, que ainda a quarta maior do mundo (Belo Monte ocupar o seu lugar, quando concluda). Quando substituiu o general Garrastazu Mdici, o general Ernesto Geisel excluiu do poder Delm, por quem tinha grande antipatia. Mas o exministro conseguiu ser nomeado embaixador em Paris. E tambm conseguiu abafar o relatrio Saraiva, como a denncia cou conhecida, alm de afastar o adido militar da embaixada. O custo nal da hidreltrica de Tucuru, no Par, como Belo Monte, cou cinco vezes maior do que o orado no incio das obras. A empreiteira principal da obra foi a Camargo Corra. Quando o PT nalmente chegou presidncia da repblica, imaginava-se que a inuncia de Delm chegaria ao m. Surpreendentemente, porm, ele se tornou conselheiro de Lula, que o ouvia constantemente. Imaginava-se que fosse um servio altrustico, o retorno de Delm ao pas j na velhice e quando no tinha mais problema econmico. O pagamento dos R$ 15 milhes pode ser a recompensa pelo que fez para Lula decidir sobre a hidreltrica de Belo Monte. At que profundidade foi essa inuncia? As respostas mereciam uma investigao parte. Ilustrao: L UIZ TRIMANO

PAGE 5

5 Sudam em liquidaoAt Maluf se diz melhor que o PTA Sudam voltou bacia das almas. Na semana passada, a presidente Dilma Rousse nomeou Margareth dos Santos Abdon para a Superintendncia de Desenvolvimento da Amaznia. Ela foi patrocinada pelo deputado Roberto Goes (do PDT do Amap), ex-prefeito de Macap, indicado recentemente vice-lder do governo na Cmara. Em 2010, Goes foi investigado na Operao Mos Limpas, da Polcia Federal, que apurou desvios volumosos de recursos na prefeitura da capital e no Estado do Amap. A superintendncia da Sudam estava ocupada por Paulo Roberto Cor reia da Silva, funcionrio de carreira da Caixa Econmica Federal, indicado pelo PMDB de Rondnia. A diretora de administrao ainda ou j era a ex-deputada do PMDB Ftima Pelaes. Investigada na operao Voucher, da PF, que apurou desvio de recursos no Ministrio do Turismo, ela foi indicada pelo PMDB do Senado para o cargo. O PDT, como se sabe, apoia o governo do PT e combate o impeachment. A chea da Sudam uma retribuio a essa delidade. A Sudam no pode agradecer pela mudana. Afunda-se cada vez mais, tornando-se irrelevante O castigo mortal ao PT tem nome e sobrenome: Paulo Salim Maluf. At a semana passada, ele era um dos maiores aliados da presidente Dilma Rousse no PP. Cumprindo a orientao estratgica do Palcio do Planalto, faltou a oito das 10 reunies da comisso especial que discutiu o impeachment na Cmara. Sem reunir nmero suciente de deputados para impedir a aprovao do impedimento de Dilma, seus assessores trabalham vorazmente para tirar parlamentar do plenrio e impedir o avano da ameaa atravs da absteno, seguida risca por Maluf. Mas ele acabou rompendo com o governo petista na undcima hora, na condio de moralista. Sua alegao: o presidente do seu partido, o senador Ciro Nogueira, do Piau, ter negociou apoio ao governo sem consultar os demais polticos de sua base. Para Maluf, a negociao de cargos foi espria, para no dizer pornogrca. Nogueira se comportou de maneira monocrtica, como um ditadorzinho do Piau. Para fazer o acordo pediu e obteve a presidncia da Caixa Econmica Federal, Ministrio da Sade e Ministrio das Relaes Institucionais. Como ele decidiu monocraticamente, pode parecer perante a opinio publica que fui parte desta negociata. S tem uma maneira de provar que no fui: votar pelo impeachment. Por tanto ela correta e decente, mas voto pelo impeachment, anunciou, em entrevista BBC de Londres, Nada a surpreender em se tratando de Maluf e do seu partido, que ele considera uma vergonha nacional, por ser o recordista de citaes na Operao Lava Jato, com mais de 30 de seus integrantes postos sob investigao. Suas declaraes so feitas na condio de por duas vezes ter sido candidato presidncia, prefeito de So Paulo outras duas, governador do Estado paulista e quatro vezes deputado federal, posto no qual espera permanecer at o fim do seu mandato, quando completar 87 anos. Se estiver com boa sade, no preciso fazer campanha para deputado. s que dizer que sou candidato que estou eleito. Executivo no tem mais. Motivo no lhe falta: (Ser) deputado tranquilo: trabalho tera, quarta e quinta metade do tempo. Fao de conta que estou trabalhando. emria do Cotidiano NAS Este deveria ser, na verdade, o 8 volume desta srie, pois no ano passado, para atender procura dos leitores, publiquei um volume extra com o 1 e o 2 volumes (revistos e corrigidos), que se esgotaram. Virou um lbum, pelo seu volume e significado. A srie retomada agora e espero que corresponda s expectativas dos leitores.M BANCAS E LIVRARIAS V OLUME

PAGE 6

6 Riqueza do Brasil em fuga no exterior Mais antiga elite ainda predadoraJoo Lyra da mais antiga elite brasileira, da lavoura da cana-de-aucar implantada no Nordeste logo depois da fundao do Brasil, no sculo XVI. Ele j era um grande produtor de acar e de lcool quando iniciou sua car reira poltica, em 1989, como senador pelo PTB (depois passou para o PSD) de Alagoas, carreira que se prolongou por 25 anos, at 2014. Foi um dos nanciadores da campanha de seu conter rneo e amigo Fernando Collor de Mello presidncia da repblica, eleito nesse mesmo ano. No nal de 2008, em diculdades nanceiras, Lyra pediu e obteve da justia alagoana a recuperao judicial das suas empresas. Assim teria condies especiais para quitar as dvidas, sanear a companhia e reativ-la sem problemas. Mas tratou de transferir bens e dinheiro para uma oshore (empresa de papel) no exterior, movimentada com dinheiro depositado num banco suo, sem declarar essas iniciativas receita federal, como a lei lhe impunha. A empresa podia quebrar, mas ele continuaria rico, com seu patrimnio pessoal alm-mar. Assim tm procedido quase todos os integrantes da cpula das elites nacionais. Sua atuao clandestina e ilegal est sendo revelada agora pela anlise de 11,7 milhes de documentos secretos que vazaram do escritrio de advocacia Mossack Fonseca, instalado por brasileiro no Panam. Especializado na criao de empresas oshore legais e ilegais esse escritrio tem como clientes 1.700 ricos cidados brasileiros, com suas contas e identidades revelados agora pelo maior trabalho de investigao jornalstica j realizado no mundo. Durante um ano, 376 jornalistas de 109 veculos jornalsticos estabelecidos em 76 pases, inclusive no Brasil (com o jornal O Estado de S. Paulo, o portal Uol e a Rede TV!), analisaram a vasta documentao. Quem a obteve inicialmente foi um nico jornal. Mas o Sddeutsche Z eitung decidiu recorrer ao Consrcio Internacional de Jornalistas Investigativos, que funciona h 20 anos em Washington, a capital dos Estados Unidos, para formar um pool de jornalistas capaz de cruzar todas as infor maes e chegar a resultados slidos. um escndalo global, que se estende por todos os continentes do planeta, e est provocando mudanas profundas no comportamento e nas regulaes pblicas e privadas. Vai ser o tema da reunio de setembro do G-20, o grupo dos 20 pases mais ricos do mundo, que se declaram empenhados em acabar com as empresas de fachada, as oshore e a sonegao de impostos. O encontro ser na China, ao mesmo tempo um dos pases mais corruptos do mundo e o que est mobilizado por um recente esforo ocial de combate corrupo. Mas bem que o G-20 podia realizar uma reunio preparatria no Brasil. H brasileiros de um lado, o dos organizadores dos vazamentos para a corrupo, e do outro lado, o dos corruptos, no escndalo panamenho. Em matria de corrupo e, muito recentemente e ainda em carter experimental, de anticorrupo, o Brasil personagem principal. Quase 227 bilhes de dlares saram ilicitamente do Brasil numa dcada, entre 2004 e 2013, segundo levantamento realizado pela consultoria norte-americana Global Financial Integrity. Essa incrvel fuga de capitais, que equivale a 12% do PIB nacional, coloca o Brasil como o sextopas em desenvolvimento a mais sofrer com essa hemorragia de recursos. S em imposto de renda uma perda de quase US$ 60 bilhes, ou 200 bilhes mais de200 bilhes de reais. Segundo a consultoria o principal componente do uxo ilcito no Brasil e no resto domundo a adulterao de transaes comerciais, com preos de exportaosubfaturados e de importao superfaturados.Essa prtica fraudulenta representa 96,5% dos uxos ilegaisoriginrios do pas. Os pases em desenvolvimento constituem a parcela mais sangrada da economia mundial.AChina o pas que sofreu a maior evaso de recursos em 10 anos, com um acumulado de US$ 1,4 trilho, seguida de Rssia (US$ 1 trilho), Mxico (US$ 528 bilhes), ndia (US$ 510,1 bilhes), Malsia (US$ 418,5 bilhes), quase o dobro das perdas do Brasil. Alguns leitores usaram esses nmeros espantosos para, por contraste, minimizar o desvio de recursos apontados pelas investigaes da Operao Lava-Jato, que mais de 100 vezes inferior sada ilcita de dinheiro do pas. to verdade o signicado da comparao quanto a constatao de que, mesmo sendo (ainda) to pequeno o valor dos roubos praticados na Petrobrs, o maior j apurado numa investigao judicial, com as mais importantes consequncias concretas em todos os tempos. Pode ser o ponto de partida para um ponto de chegada muito maior do que a soma do que foi detectado at agora. Basta que a sociedade pressione para que a investigao puxe todas as pontas dos rios de novelo, doa a quem doer, de patos a raposas, de sapos a moluscos, de tubares a hienas. a hora de fazer uma reforma profunda no Brasil, ao invs de, por seduo oportuna, interromper o processo j iniciado e sem m pr-estabelecido.

PAGE 7

7 Eleies gerais: utopia ainda pode?Quem acredita na antecipao de eleies gerais como a melhor sada para a explosiva crise poltica do Brasil s tem um caminho: ir s ruas, organizar listas de adeses, recrutar militantes e encaminhar a reivindicao o mais rapidamente possvel ao Congresso Nacional. Se depender dos polticos, agregados e dependentes, a tese no ir prosperar. No meio do fogo cruzado, a presidente Dilma Rousse ironizou sobre essa possibilidade. Desaou os defensores da transformao das eleies municipais de setembro em renovao completa de todos os cargos eletivos, de presidente da repblica a vereador, a convencer a Cmara e o Senado a abrir mo dos seus mandatos. S a partir da poderia aceitar conversar sobre o tema. A postura, mais do que irnica, cnica. Pela cabea da presidente parece no passar nem meteoricamente a hiptese de que a principal crise, agora, deixou de ser de legalidade para se tornar de legitimidade. No porque a lei esteja sendo seguida risca. Pelo contrrio: est sendo cada vez mais e mais perigosamente violada. O desrespeito j no apenas das legies de fanticos e dogmticos que polarizam a opinio pblica com suas sentenas refratrias a provas e demonstraes. Atingiu a corte suprema do pas, onde alguns ministros principalmente, em polos opostos, Marco Aurlio Mello e Gilmar Mendes pensam e agem como militantes partidrios, no como magistrados e intrpretes da constituio. A presidente e seu squito criaram uma nova clusula ptrea margem do texto da constituio, em vigor h quase 30 anos: o mandato eletivo, uma vez iniciado, intocvel; qualquer tentativa de abrevi-lo ou cass-lo golpe de Estado, mesmo quando utilizado um instrumento constitucional. No outro extremo, os anti-Dilma acham que todos os meios podem ser usados porque a presidente no tem mais fora para governar. A ampla maioria da populao no cona mais nela e no acredita que ela possa levar a nau nacional a bom destino. O m nobre a sua destituio. Toda a parafernlia de opinies e interpretaes possveis parte, uma coisa certa: a crise no teria atingido o ponto perigosamente explosivo em que se encontra se a presidente da repblica no tivesse dado tantas provas de incompetncia administrativa no exerccio do mais elevado cargo pblico do pas. Chegou ao ponto de, pela primeira vez na histria, se propor a terceirizar seu poder, transformando-se em rainha do primeiro-ministro Luiz Incio Lula da Silva tudo pelo direito consuetudinrio criado a cada novo discurso por sua excelncia, el supremo que nenhum compromisso tem com a escrita (e, a bem da verdade, nem com a voz). Se no h alternativa de credibilidade entre as lideranas da oposio que podem servir de alternativa petista, no h motivo para crer que, escapando das armadilhas que est enfrentando, ela tenha condies de ao menos remediar os males que causou at a chegada do Brasil ao gargalo do impeachment, caindo pelas tabelas. Procede a segurana demonstrada pela presidente, de que a convocao de eleies gerais para outubro estancar na relutncia dos parlamentares ativos de renunciar a dois anos (e no dois anos e meio, conforme ela contabilizou, mais uma vez negando sua formao acadmica em economia), j que a posse seria em janeiro do prximo ano. Mas o povo, atravs de um movimento de massa instantneo e eficiente, pode fazer os ltimos movimentos (reluto em usar a metfora janista da vassourada, nele completamente falsa, por isso traumtica at hoje) para colocar para fora os desacreditados integrantes deste Congresso Nacional que se desfaz em incontrolvel hemorragia, assim como os demais poderes da repblica. Convm ressaltar: desfazer as regras em vigor para convocar eleies gerais no lugar das municipais programadas para outubro no golpe, qualquer que seja a alquimia dos autodeclarados profetas do antigolpe. Ser, pelo contrrio, um ato de coragem, a prova de que os brasileiros ainda no se divorciaram do belo pas no qual vivem e sofrem.

PAGE 8

8 Violeta Loureiro: a menina que plantou sementes de avioAo receber o ttulo de professora emrita da Universidade Federal do Par, Violeta Refskalefsky Loureiro leu um texto to bonito que no resistir tentao de public-lo, revelia dela, minha amiga de tantos anos, Tenho certeza de que os leitores aprovaro minha ousadia de revelar uma das mais importantes intelectuais do Par. Nasci em 1944, no antigo Territrio Federal do Rio Branco (hoje Roraima), no extremo norte do Brasil, na poca com menos de 10 mil habitantes. Boa Vista, apesar do status de capital, na verdade no passava de uma remota cidadezinha, com ruas em cho batido, estendida margem de um rio de guas claras, salpicado de praias de areias alvas o rio Branco. Assentada num plat, pelo alto a cidade cercada de colinas e abaixo do plat pela oresta. Uma cidadezinha pacca e encantadora! Mas, distante de qualquer outra cidade do Brasil. (Manaus, a cidade mais prxima, dista quase 1.000 km em linha reta e a rodovia Manaus-Boa-Vista, que um dia ligaria as duas cidades foi aberta em 1998, portanto, 54 anos depois que eu havia nascido). Pelo rio tambm no se podia ir longe trs cachoeiras na descida do plat interceptavam a navegao dos barcos no trecho at Manaus. Na poca, apenas os avies da For a Area Brasileira FAB e de uma nica companhia de aviao, a extinta Cruzeiro do Sul, faziam viagens semanais ligando a cidade a Manaus e de l conectando com o resto do Brasil. Poucas pessoas da cidade saam dela at o nal de suas vidas. A cidadezinha oferecia apenas o curso primrio (com 4 anos), seguido do ginsio, com mais 4. Somados o antigo primrio e o ginsio, os dois cursos no completavam sequer, o que hoje o Ensino Fundamental com 9 anos. Assim sendo, quando o mais velho dos meus 4 irmos Walter completou o ginsio, aos 14 anos, minha me quis mand -lo para fora para prosseguir nos estudos. Tnhamos um tio que morava e trabalhava como bancrio na cidade de Petrpolis, para onde fomos, o Walter e eu. Meu irmo cou morando sozinho numa penso, apesar de sua pouqussima idade para assumir esta responsabilidade, mas no havia alternativa. Eu estava com 10 anos e quei morando com meus tios at os 13 anos, quando ento, meu irmo concluiu o cientco, passou no vestibular de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ento, mudamos para o Rio: agora era a minha vez de morar sozinha num pensionato, com apenas 13 anos, enquanto meu irmo morava num alojamento da prpria universidade (um prdio antigo e decadente), apelidado jocosamente de Cocheira pelos alunos que ali moravam. Posso dizer que, na prtica, fui emancipada (sem os papeis legais correspondentes ao ato), com apenas 13 anos, passando a decidir sobre o pensionato onde morar, o colgio onde estudar etc. Esta enorme responsabilidade individual sobre sua prpria trajetria de vida s era possvel porque o Brasil ainda no era o pas violento dos dias atuais; assim, o importante era ter discernimento, responsabilidade e fazer algumas escolhas acertadas. Meus pais valorizavam obsessivamente a educao dos lhos e faziam qualquer sacrifcio, por mais absurdo que parecesse, para que os lhos pudessem estudar. Mas, eram criticados pelos demais moradores da cidade e mesmo por amigos e membros da famlia, por deixarem os lhos to jovens se aventurarem no Rio de Janeiro, ao invs de colocarem os lhos em colgios internos de Manaus, dirigidos por freiras (para meninas) ou padres (para os meninos), como era o costume das famlias de grandes fazendeiros, o que, alis, no era o caso dos nossos pais, que eram de classe mdia. Proporcionar estudos melhores para os lhos era um imperativo incondicional e qualquer diculdade era considerada por meus pais como ultrapassvel. Servia tambm de comentrio para os vizinhos o perigo que, eles imaginavam, que nos ameaavam numa cidade grande, uma vez que morvamos sem quaisquer adultos responsveis por ns, os dois sendo menores de idade; comentavam sobre a distncia entre Boa Vista e o Rio, mas iam mais longe ainda nos comentrios; as prprias viagens eram motivo de crticas. que as viagens para o Rio eram difceis e incertas. Como nossos pais no tinham recursos para comprar passagens areas, pela Cruzeiro do Sul e ainda mandarem nossas mesadas, ns viajvamos nas frias de julho e dezembro nos avies da FAB, que distribuam remdios e vacinas nas aldeias indgenas e comunidades ribeirinhas da regio amaznica. Viajvamos em Catalinas, avies que voavam baixo e amerissavam, pousando nos rios de qualquer vila, povoado ou aldeia; ou nos avies Douglas-C47. Ambos eram avies que haviam sobrado da 2 Guerra Mundial e que os americanos tinham deixado com a FAB. No centro do avio cava um caixote de madeira com uma inscrio em cima equi pamento de sobrevivncia na selva. Como eu era a nica menina que viajava nesses avies, o piloto ou comandante sempre autorizavam que eu me deitasse no caixote, o que era um conforto extra, j que os avies eram calorentos, no tinham pressurizao e os bancos eram de ferro. Quando a viagem era num Douglas da FAB, ela podia ser curta durava apenas 3 dias at o Rio; no primeiro dia dormamos em Manaus, no segundo em Belm e no terceiro chegvamos noitinha no Rio. Mas, o trajeto num Catalina poderia se alongar por vrios dias, dependendo do nmero de localidades ribeirinhas s quais a FAB ia prestar servios de sade ou transportar doentes. Esse tipo de viagem s era

PAGE 9

9 possvel de ser feita por uma criana ou adolescente porque, naquela fase, a dimenso social da vida brasileira estava impregnada de sentido tico, diferentemente da crise moral e da violncia em que a sociedade brasileira mergulhou desde algumas dcadas. O que hoje parece aventureiro e difcil (a mais longa dessas viagens durou 8 dias), foi decisivo na minha formao. Foi graas a essas incurses pelas entranhas da regio que aprendi a amar e a admirar a Amaznia. Mais tarde compreendi que essas viagens foram meus pontos de partida e de referncia para deni-la como objeto de estudo e trabalho. Elas foram alargando meus horizontes, mas tambm foram abrindo lacunas na compreenso da Amaznia e me instigando a tentar compreend-las. Mais tarde, fui percebendo o quanto o Estado brasileiro oscila pendularmente, toma decises ambguas e como se encontra ainda hoje desaparelhado para compreender esta regio, que, se magnca, tambm enigmtica, complexa e desaadora. Foi tambm numa dessas viagens que tive minha primeira lio de ecologia, quando a palavra ecologia no era sequer conhecida e quando a natureza da regio parecia inesgotvel, superabundante e inviolvel. Lembrome que naquela viagem o avio (um Douglas da FAB) era pilotado pelo comandante Joo Telles Camaro. Numa das minhas primeiras viagens ele saiu da cabine, dirigiu-se caixa de madeira onde eu estava deitada lendo um livro e per guntou: Voc quer me ajudar a jogar caroos e sementes pela janela? (Referia-se a um furo redondo que havia no vidro da 1 janela, por onde o vento entrava no avio). Eu perguntei se ele se os caroos iam chegar inteiros l em baixo. E ele me disse que nem todos iam vingar, mas muitos deles, com certeza iriam. Hoje, quando viajo de avio sobre a oresta e consigo ver rvores gigantescas l embaixo, co imaginando se alguma delas foi plantada por ns nessas aventuras juvenis ou se as que plantamos foram cortadas por madeireiros. Na poca, no dei muita importncia quele fato. Mais tarde, compreendi o quanto essas viagens, as vivncias nos avies, nos rios, nas aldeias e comunidades ribeirinhas me proporcionaram. Elas no foram apenas itinerrios de viagens. Foram, as pedras que palmilharam a estrada da minha vida prossional como sociloga. Aos 18 anos vim morar em Belm porque as viagens para o Rio eram muito demoradas. Em Belm morei num pensionato na Governador Jos Malcher, em frente extinta Unio Acadmica Paraense UAP, em cujo teatrinho, numa apresentao da pea de Bertolt Brecht A exceo e a regra, conheci o estudante que dirigia a pea, o poeta Joo de Jesus Paes Loureiro, que se tornou depois meu marido, amor, luz e cor e na minha vida. Era outubro de 1963. Se os voos nos velhos e precrios avies da FAB me encaminharam para o estudo e a pesquisa como sociloga que busca compreender a Amaznia, uma outra situao me encaminhou para o magistrio. Minha entrada no magistrio se deu pela antiga escola primria. Chegando a Belm, por orientao de minha me, per guntei qual o melhor colgio da cidade. Indicaram-me o Colgio Estadual Paes de Carvalho. Sem nenhuma referncia, peguei um saquinho de medalhas de honra ao mrito que eu havia ganhado ao longo dos anos anteriores por obter notas altas nos colgios e procurei o ento diretor, a quem eu pedi uma vaga. Na ocasio, o diretor era o Prof. Wilton Moreira, que me submeteu a uma prova escrita, mas, depois dela, eu entrei no Paes de Carvalho para fazer o Curso Clssico e Wilton se transformou num amigo, como permanece at hoje. Em 1963 meu pai j estava muito doente e eu quei preocupada com a possibilidade de ele morrer (o que acabou ocorrendo no incio de 1964) e minha meno conseguisse manter os lhos estudando fora. Embora minha me tivesse herdado vrios imveis, em breve os outros lhos teriam que estudar fora. Achei que era preciso ganhar algum dinheiro. Um dia, voltando do Paes de Carvalho para o pensionato, a p como sempre, ao passar pela praa da Repblica, em frente ao prdio da Seduc-Par (onde hoje a Secretaria de Cincia e Tecnologia), vi um cartaz: concurso para professores regentes de classe (regente era o termo usado na poca para designar professores que no possuam o Curso Nor mal, que eram leigos). Resolvi concorrer. Passei e me designaram uma escolinha esprita de uma nica sala de aula, conveniada com a Seduc, na periferia de Belm Escola Esprita Renascena dAlma. Era de barro, numa rua sem asfalto, com alguns bancos toscos que balanavam e sem nenhum material didtico. L, eu trabalhava como alfabetizadora. Ao mesmo tempo em que cursava o ginsio de 4 anos, eu cursei tambm um curso, hoje extinto o Normal Rural, igualmente com 4 anos de durao. O curso servia para formar professores para trabalhar principalmente no interior como alfabetizadores. Eu ainda no tinha nenhuma experincia no magistrio, mas, sabendo da existncia do mtodo Paulo Freire, comecei a pegar na Ao Catlica, na Gov. Jos Malcher, material para preparar minhas aulas. Alm disso, como no havia nenhum tipo de livro na escola nem existia ainda o Programa Nacional de Livros Didticos, eu ia aos sbados na antiga livraria Jinkings e

PAGE 10

10 o Raimundo Jinkings (que na poca presidente do Partido Comunista em Belm) me doava os livros de estrias infantis que estavam amassados e que no podiam mais ser vendidos. Eu os colocava em caixotes empilhados e assim fui formando a pequena biblioteca da minha sala. Numa certa ocasio, reclamando das condies da escola, soube da existncia de um senhor esprita, dono de uma grande serraria. Fui l e falei sobre os toscos bancos da escola. Ele mandou fazer 8 bancos corridos com as respectivas mesas, de forma que a condio dos meus alunos melhorou muito. Muitos anos depois eu soube que aquele senhor que me havia doado os bancos era o pai de algum que depois se tornou meu amigo, o ex-prefeito de Belm e ex-senador Fernando Coutinho Jorge, de quem fui assessora quando ele foi secretrio de planejamento. A experincia como alfabetizadora, que durou 4 anos e o trmino dela coincidiu com minha graduao em Cincias Sociais; mas ela me encaminhou definitivamente para o magistrio e me colocou a par das dificuldades da educao no Par e no Brasil. O trabalho como professora primria no era suciente para meu sustento e eu precisava de mesada vinda de casa para completar a renda; ento, z um concurso para o Basa, passei, quei como assessora do prof. Jos Marcelino Monteiro da Costa (economista, ex-diretor da Faculdade de Economia e 1 coordenador do NAEA Ncleo de Altos Estudos Amaznicos da Universidade Federal do Par). Na poca, Marcelino era chefe do DESEC Departamento de Estudos Econmicos e Sociais do Basa, mas eu no estava satisfeita na funo de rever projetos de nanciamento e corrigir textos para publicar. Contudo, sa da escola e quei apenas no Basa, j que o salrio era 8 vezes superior ao de professora e, quela altura, Paes Loureiro, j meu marido, sofria perseguies da polcia e dos rgos de segurana. Portanto, dinheiro era importante. Nesta ocasio a Cepal Comisso Econmica para a Amrica Latina ofereceu um curso de especializao em planejamento e eu decidi faz-lo, j que no comeo dos anos 1970 qualquer curso de ps-graduao era raro em Belm e no havia nenhum mestrado. Eu estava j escrevendo a monograa nal do curso quando o prof. Benedito Nunes abriu inscries para um curso de especializao em losoa, noite. Resolvi curs-lo. A concluso do curso coincidiu com dois concursos pblicos aos quais me submeti: na UFPA como professora de economia (atuando sob a generosa e competente orientao do prof. Roberto Arajo de Oliveira Santos, professor e juiz do trabalho) e no Idesp para pesquisadora. Passei em ambos e quei sob um regime de trabalho intenso e exaustivo: com 20 horas na UFPA e no Gov. do Estado. Trabalhava de 7:30 s 13:30 h no IDESP e noite na UFPA; tarde eu estudava e preparava aulas e cuidava dos lhos (Pedro e Walter). Passei uns 5 ou 6 anos como professora de economia e, embora eu goste e leia bastante sobre economia at hoje, eu me sentia um peixe fora dgua, uma vez que os livros de economia tratavam de frmulas e modelos econmicos de modo muito objetivo e abstrato e eu queria ver pessoas atrs dos nmeros e modelos econmicos. A frieza desse tipo de abordagem me incomodava. Foi quando a UFPA abriu concurso para Cincias Sociais. Na poca, no se transferia um professor de uma rea para outra. Fiz um novo concurso, passei e ingressei como auxiliar de ensino, por onde comeava a carreira no magistrio superior. Cinco anos depois, quando eu j estava na UFPA h 10 anos, portanto (5 em economia e 5 em C.S.), o Ministrio da Educao, por meio do DASP, estabeleceu que a carreira no magistrio superior no comeava como auxiliar de ensino e sim como assistente. Tive que fazer um novo concurso. Assim, eu ingressei 3 vezes por concurso na UFPA e sempre com 20 horas de aula, porque mantinha minhas atividades no Idesp.O Idesp foi um precioso instrumento de conhecimento da Amaznia. Nos anos 70 e 80 as pesquisas na UFPA eram muito raras; as turmas eram numerosas no bsico nos anos 70, depois da reforma do ensino superior, havia turmas de at 100 alunos, de forma que a pesquisa era considerada uma atividade que concorria com a docncia e, portanto, era indesejada pelos chefes de departamento e mesmo pelas instncias superiores da universidade. No Idesp eu era pesquisadora. Mas, na poca, as pesquisas eram de cunho muito utilitrio: buscavam apenas encontrar solues para viabilizar o planejamento do Estado; a ditadura havia imposto a obsesso do planejamento, embora sem uma reexo crtica ou preocupao social. Mesmo assim, o Idesp foi uma escola de conhecimento da realidade. Aprendi a conhecer o aparelho de Estado, seus mecanismos de ao e presso, a interferncia do legislativo sobre o executivo e, sobretudo, viajei muito pelo interior da Amaznia. Como diretora, consegui que o rgo realizasse pesquisas inditas e difceis de executar na poca como o mapeamento de cada um dos 143 municpios do Estado e o seu 1 zoneamento econmico-ecolgico, quando no existiam imagens de satlite disponveis, e produzir uma enorme bateria de indicadores econmicos e sociais como o clculo do Produto Interno Bruto, alm de divulgar pesquisas mensais sobre custo de vida, emprego e desemprego e outras, que depois da minha gesto foram deixando paulatinamente de serem feitas e at hoje o Par a se baseia por indicadores calculados para So Paulo. ou para o Brasil como um todo. Esta experincia eu transferi para minhas pesquisas posteriores na UFPA, minhas aulas e meus orientandos. Consegui volumosos recursos da Comunidade Europeia, Conselho Britnico, Banco Mundial e outras instituies, com os quais foram realizadas inmeras pesquisas e publicaes, a quase totalidade partilhada com pesquisadores da UFPA sobre os grandes projetos amaznicos e outros estudos que foram pioneiros naquela fase, numa parceria muito fecunda entre as duas instituies. Ao sair do governo do E stado, aps 30 anos de trabalho, solicitei minha dedicao exclusiva para a UFPA,

PAGE 11

11 Finalmente, a terra dos ndios AraraO governo brasileiro encerrou hoje uma espera de 30 anos com a publicao, no Dirio Ocial da Unio, da homologao da Terra Indgena Cachoeira Seca, dos ndios Arara, no mdio curso do rio Xingu, entre os municpios paraenses de Altamira, Placas e Uruar. O decreto era uma das principais condicionantes de Belo Monte, mas s veio 6 anos depois de iniciadas as obras da usina. As consequncias dessa demora so sentidas duramente: a Cachoeira Seca considerada a terra indgena mais invadida por madeireiros e com maior ndice de desmatamento ilegal do pas. O ato de homologao desse territrio, alm de dvida histrica do Estado brasileiro para com os indgenas Arara, representa o nico caminho para a sobrevivncia desse grupo face s transformaes brutais que Belo Monte acarretou. Sem a homologao e desintruso da Terra Indgena Cachoeira Seca, a inviabilidade da hidreltrica forosamente teria de ser reconhecida, arma a procuradora ais Santi, que acompanha a situao dos ndios afetados pela usina. Para o Ministrio Pblico Federal, que j havia exigido a homologao por vias administrativas e judiciais, a publicao do decreto apenas comea a resolver o passivo socioambiental de Belo Monte. O prximo passo, necessariamente, a desintruso da rea, ter mo tcnico para retirada dos no-ndios. Os ocupantes de boa f, colonos e posseiros, devem ser reassentados pelo governo, enquanto os de m-f, madeireiros e grileiros, devem ser retirados por fora policial. A desintruso tambm condicionante de Belo Monte nunca cumprida e, para o MPF, a usina no pode ser considerada vivel enquanto no houver usufruto exclusivo dos Arara sobre o territrio. Recentemente o MPF havia denunciado a situao da Cachoeira Seca relatora da Organizao das Naes Unidas para os direitos dos povos indgenas, Victoria Taulipa-Ruiz, que visitou a regio atingida por Belo Monte. condio em que permaneci at minha aposentadoria, em 2013, aps 43 anos de tempo de servio e mais 4 na escolinha conveniada, num total de 47 anos, j que eu havia comeado aos 18. Mas quis continuar nela, pela admirao que tenho pela instituio. E porque amo meus alunos, meus colegas, o clima intelectual, a troca de ideias e experincias, o estmulo a estudar e a alegria de aprender, sempre. A ela me dedico at hoje, onde atuo como professora voluntria no PPGD e no PPSA. Para terminar, gostaria de dizer que tudo que alcancei profissionalmente teve incio no gesto simples de muita coragem e determinao de minha me, quando me colocou aos 10 anos num avio da FAB com meu irmo de 14 em direo ao Rio, numa fase em que no se viajava com autorizao de um juiz nem termo de responsabilidade de ningum. Minha me era uma intelectual (embora autodidata), mas no tinha nenhuma profisso. Teve que vender um a um todos os imveis que meu pai havia deixado, para poder manter a famlia e os estudos dos filhos. E os planos econmicos e a inflao consumiram a outra parte. Quando o ltimo filho se formou s restava a casa da famlia, grande e j decadente onde ela morava, e ela j vivia da mesada que os filhos mandavam. Por isto, se houver um plano superior de onde ela possa ver esta cerimnia, ela saber que o ttulo de Professor Emrito que agora estou recebendo e comemorando est sendo dividido com ela. Este ttulo dela e meu. Reproduzo, a seguir, a nota que o Ministrio Pblico Federal no Par acaba de distribuir. Ela atesta a importncia do ato da presidncia da repblica, publicado na semana passada no Dirio Oficial da Unio. E, ao mesmo tempo, revela a circunstncia dessa deliberao, que a presidente Dilma Rousseff podia ter adotado no incio do seu primeiro mandato e s o pratica agora, por achar que a iniciativa pode favorecer a sua busca de apoio para impedir o seu impeachment. O decreto presidencial homologou a demarcao administrativa da terra indgena Cachoeira Seca, localizada nos municpios de Altamira, Placas e Uruar, no Par. A demarcao foi promovida pela Funai para garantir a posse permanente do grupo indgena Arara, com superfcie de 733 mil hectares. A rea pode, finalmente, servir de espao permanente e seguro para os Araras acabarem com uma vida conflituosa e difcil desde que perderam sua aldeia porque ela estava exatamente no trajeto da rodovia Transamaznica, no incio da dcada de 1970. Pelo menos para ndios, posseiros e colonos, melhor que a batalha em torno do impeachment da presidente da repblica demore mais tempo para ser resolvido. Se que o governo tem mesmo flego para prosseguir na compra de adeses em que est empenhado.

PAGE 12

12 memriaC OTIDIAN Odo AMERICANOSA consulesa dos Estados Unidos em Belm, Dorothy R. Kilder, enviou uma carta ao diretor da Folha do Norte em julho de 1945, que registra um momento da vida na cidade (e dos seus hbitos) com o nal da Segunda Guerra Mundial, devido presena das tropas americanas. Dizia a carta: As damas da Cruz Vermelha Americana, em Val-de-Cans, pediram-me, como consulesa, para reunir as senhoras que quisessem substitu-las nos trabalhos que foram obrigadas a abandonar por causa do regresso das tropas que operavam na Europa. Esta tarefa foi-me fcil, porm a diculdade estava no transporte dessas damas para Val-de-Cans, uma vez que as tropas ocupam todos os carros. Recorri, ento, a vrias garagens, que prontamente atenderam meu pedido. E, ontem, um carro da Garagem Moderna, dirigido pelo chaueur Isidoro Carvalho, iniciou esta obra de atividade, conduzindome juntamente com suas senhoras e esperando-me das 8 s 10 horas, sem nenhum remunerao. Vrias garagens ofereceram-me este servio s quartas-feiras e sbados. Ficarei penhorada se o seu jornal publicasse os nomes das garagens que prestavam este servio Cruz Vermelha Americana.ANNCIOCurioso anncio publicado na Folha do Norte de 1945: Precisa-se Uma colegial pobre necessita comprar, em 2 mo, os seguintes livros: O Latim do Ginsio, por Wandike Nobre; Antologia da Lngua Brasileira, por Anbal Bruno, 1 srie; Histria do Brasil, por Esmeralda A. Lobo; e Cincias Naturais, de Ariosto Espinheiro, 3 srie. A tratar na gerncia das Folhas.LINHOO tecido de linho ainda estava na moda em 1962. Tanto que a Casa do Linho Puro inaugurou nesse ano sua segunda loja na rea principal do comrcio da cidade. A primeira foi na Joo Alfredo. A segunda, no seu prolongamento, a Santo Antonio. As lojas vendiam exclusivamente fazendas de linho. Era o tal.LOTEAMENTOO arquiteto Alcyr Meira e o comandante Geneciano Luz compraram a rea onde funcionou a antiga Fbrica de Cerveja Paraense S/A, com frente para a atual avenida Magalhes Barata e a Gentil Bittencourt, onde zeram um dos mais sosticados loteamentos da cidade de ento, que o Jardim Independncia. As vendas caram a cargo do tabelio Eduardo Leite, do Cartrio Chermont.BEIRA-MARNum anncio de jornal, a Estncia de Lenha Valha-me Deus (A Rainha das Telas), de Carmona, Moutinho & Cia., declarava-se localizada beira-mar do igarap das Armas, embora se localizasse na rua Dom Romualdo de Seixas. Pelo telefone 6065 vendia telhas de todos os tipos, tijolos, tbuas, pernas mancas, ripas, lenhas e etc.BARATISTASDuas semanas antes das eleies de 3 de outubro de 1965, o tenente coronel Alacid Nunes, que era o candidato do regime militar para suceder o coronel Jarbas Passarinho, primeiro gover nador depois do golpe de 1964, recebeu o apoio dos baratistas de Curu. Eles deram seu nome para referendar um grande anncio na imprensa anunciando que no acompanhariam a cpula do PSD de Magalhes Barata, que apoiava o grande inimigo poltico dele, o marechal Z acarias de Assuno. Era mais um passo para o m do ciclo de poder de Barata e dos seus herdeiros. Alacid derrotaria esmagadoramente Assuno.AMAZNIASintomaticamente, o dia da Amaznia foi institudo, em 1968, por iniciativa do deputado Chopin Tavares de Lima, da Assembleia Legislativa de So Paulo. Sua inteno foi de que a data representasse um dado positivo na rdua tarefa de integrao daquela regio ao poder socioeconmico do pas. Segundo ele, o Brasil s se elevaria condio de grande potncia econmica se ocupasse a Amaznia, que pode abrigar e sustentar 200 milhes de habitantes, o equivalente a toda populao brasileira atual. A comemorao do primeiro dia da Amaznia foi em So Paulo, como no podia deixar de ser. PROPAGANDAGrande atraoO cinema era, indiscutivelmente, a maior diverso cultural em 1947. No ps-guerra, Hollywood imperava e o pblico comparecia. Da os anncios de lmes ocupando vasto espao nas pginas dos jornais, como este, do cinema Moderno, que existia na praa de Nazar (onde est o parque de diverses e o estacionamento da baslica.

PAGE 13

13 FOTOGRAFIAO Bandeira 3A foto foi colocada na internet pelo artista grco (e bota arista a) Luiz Pinto, provocando vrios comentrios. Foi a reunio que realizei na redao de A Provncia do Par (onde comecei meu jornalismo prossional nove anos antes), em janeiro de 1975. Chegara um ms antes de So Paulo, para onde me mandara devido ao AI-5, de 13 de dezembro de 1968, pela convico de que a imprensa paraense se renderia totalmente censura feita pela Polcia Federal pelo telefone. Seis anos depois, de volta a Belm, decidi fazer o Bandeira 3, semanrio de 24 pginas em formato tabloide, com os melhores prossionais que havia, a grande maioria atuando na redao de A Provncia. A esto Raymundo Costa, Nlio Palheta, Guilherme Augusto (e seu sobrinho, Fernando), Francisco Guerra, Raimundo Jos (o nico falecido) e Elias Pinto. Nosso alternativo durou apenas sete nmeros, mas uma prova de que, mesmo sob uma ditadura, possvel fazer jornalismo honesto, crtico e, s vezes, at audacioso. Na segunda edio, por exemplo, o Luiz ainda ao meu lado, neste novo e j velho alternativo fez uma bela ilustrao na capa para o Benedito Monteiro, que ganhou vrias pginas para a sua literatura, numa poca em que ele ainda era maldito. O jornal s no durou mais porque minha resistncia fsica acabara, a dvida crescera e as agncias de publicidade, que nada zeram para ele surgir, se empenharam para que desaparecesse. Foi uma das razes para, neste Jornal Pessoal, recus-la. MEU SEBOO PT de DirceuEm novembro de 1989, Lula acabara de ser derrotado por Fernando Collor de Mello, na sua primeira tentativa de chegar presidncia da repblica, saga nica na histria brasileira, que ele s encerraria ao conquistar a vitria, trs eleies depois. Foi quando Joo Carlos comprou o livro Pra que PT Origem, projeto e consolidao do Partido dos Trabalhadores, e o deu de presente, com a seguinte dedicatria: Para a companheira [no registrou-lhe o nome] que como este livro, reete a luta pela construo de uma sociedade socialista e democrtica, no seu incansvel dia-dia. At a vitria nal! Companheiro-ausente. O livro foi escrito por Moacir Gadotti e Otaviano Pereira, publicado em 1989 pela Cortez Editora, de So Paulo, em 370 pginas. Tem prefcio de Jos Dirceu e posfcio de Jos Genono Neto, ambos condenados pela justia no processo do mensalo. H quase trs dcadas, durante as quais o PT saiu da condio de oposio e esperana para a de dono do poder e minoritrio junto opinio pblica, Dirceu escreveu: Sem mscaras e mentiras, como partido democrtico e socialista, o PT introduziu na poltica brasileira, no governo, na luta de classes e nos interesses dos trabalhadores, a transparncia e o realismo dos fatos sociais, da tica e da democracia. No esconde seus objetivos e nem os interesses que defende, no tem segredos e no concilia com a hipocrisia e a traio ou com o adesismo, to ao gosto dos prossionais da poltica brasileira. Se de fato existiu, esse PT no existe mais. Jos Dirceu foi um dos principais coveiros do partido.

PAGE 14

14 CartasFanticosPretendia escrever uma missiva abordando um tema sobre a colonizao da Amaznia, porque os ltimos nmeros do Jornal Pessoal vm se reportando s diferentes formas de lidar com a fauna, a ora e as riquezas minerais do solo amaznico, sempre acentuando o carter predatrio dessas intervenes. Contudo, h um assunto que tambm o editor aprecia sobremaneira discorrer e se esmera em enriquecer os comentrios com alguma locuo negativa em se tratando: do Partido dos Trabalhadores, de Lus [Luiz ] Incio Lula da Silva e do governo atual. Sei que existe um caldeiro transbor dando de invectivas para contraditar com empenho quem se dispuser a defend-los. No que isso corresponda a uma realidade intrnseca, devido que ca quase em torno de uma suposio, produzida pelos maiores veculos de comunicao, em parceria duvidosa com distinguidos membros do poder judicirio e grande parcela de empresrios dos mais variados setores. No pretendo, nem desejo que este comentrio possa ser qualicado de contestao as frequentes menes desabonadoras do comportamento tico, poltico e social dos parlamentares, militantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores, como j foi dito, e que vem se reproduzindo em outras publicaes no territrio nacional. Tendo em vista o exposto, preciso que algum se manifeste para evitar que muitas armaes e conceitos fabricados possam continuar a impregnar como de fato impregnam e se cristalizar na memria das pessoas como verdades irrefragveis, isto coisas denitivas. Pois, como se viu no ltimo debate publicado nesse Jornal Pessoal, afora a defesa veemente de suas convices permeada de alguma indignao fora do propsito do leitor Cleber Miranda, os demais participantes portaram-se discretamente, numa prova inequvoca da adeso fabricada pelos pruridos e exemplos da chamada gente boa. A grande imprensa, capitaneada pelas Organizaes Globo e seus apndices impressos e eletrnicos a grande responsvel como tem sido a partir de 1964 pela situao de insegurana institucional e poltica por que passa o Pas, quando divulga de maneira reprovvel, notcias sobre supostos delitos, ainda passveis de comprovao ou com requisitos policiais e judicirios inconclusos, que so obtidas de maneira fraudulenta. Poderia citar vrios casos ocor ridos s no interregno de out/14/15, no entanto, pelo espao a ser tomado, torna-se inoportuno. A imprensa, seja ela eletrnica ou de papel como voc sabe, tem a misso primor dial de informar a sociedade as atribulaes do cotidiano, desde o mais comezinho crime de boteco, as grandes questes polticas, econmicas e assemelhadas. Nada de discriminao e seletividade. A declarao do nado jor nalista Millr Fernandes de que a imprensa oposio, o resto secos e molhados, era uma simulao teatral do festejado autor. A imprensa no tem de ser oposio ou situao. Ela deve ser crtica, honesta e transparente. O fanatismo, de fato, empobrecedor. E, alm dessa gritante deteriorao, ele provoca o desatino, o desvario e arrebata, como disse Euclides da Cunha na mesma idealizao, na mesma insnia, no mesmo sonho doentio as multides crendeiras. A histria se repete, a igreja catlica (papa Inocncio III) instituiu o mecanismo da Santa Inquisio que ceifou a vida de milhes de hereges, na fogueira, enquanto durou; depois veio Hitler, Mussolini e mais recentemente, o comunismo ateu, consenso criado pelos nossos amigos desenvolvidos e acatado pelo poder nacional dos brasileiros, que nos presenteou com 25 anos de terror, discriminao, violncia, e promoveu a morte de milhares de contemporneos. Os justiceiros de agora elegeram a corrupo como foco de sua ao reparadora. Reprimidos e punidos os cor ruptos, o Estado Brasileiro voltar a cruzar os verdes mares sem objeo de qualquer natureza. Porm, quem so os fanticos e corruptos? Apenas o PT, militantes e simpatizantes? Ora, pois... a maior e mais antidemocrtica de todas as corrupes, a corrupo da opinio pblica. Rodolfo Lisboa CerveiraLulaNa matria Lula: a grande vtima de uma conspirao?, tu dizes: Lula foi primeiro convidado, o que equivale sua intimao. Acho que ests equivocado, Lcio. O convite feito verbalmente por um policial no s no equivale a uma intimao como, alis, a descaracteriza. Intimao no coisa que possa ser feita verbalmente, muito menos por um policial. Seja no processo civil, seja no processo penal, a intimao tem que ser feita por escrito, e sua validade est condicionada publicao da respectiva certido no Dirio da Justia. A entrega pessoal da intimao ao acusado deve ser feita por ocial de justia, e no por policial. E ocial de justia no tem poder de polcia. Ocial de justia no prende nemconduz coercitivamente. Conforme a natureza do processo civil ou penal a formulao e execuo da intimao so disciplinadas em detalhes pelos artigos 234 a 242 do Cdigo de Processo Civil, e pelos artigos 370 a 372 do Cdigo de Processo Penal (na prtica, estes ltimos estabelecem para as intimaes o mesmo rito e as mesmas cautelas xadas pelos artigos 351 a 369 para as citaes). Nem o CPC nem o CPP recepcionam o rito adotado pelo Srgio Moro, o que, de cara, torna esse rito ilegal. Pra incio de conversa, a intimao deve ser dirigida no apenas ao acusado, mas tambm defesa, para que esta esteja presente no momento da oitiva. Para o acusado ser intimado em sua residncia, verbalmente, por autoridade policial e para cumprimento imediato, sob pena da tal conduo coerciti va seria necessrio, no mnimo, que acusado e advogado de defesa morassem juntos. Que doidice essa? Seja no processo civil, seja no processo penal, a intimao nunca expedida para cumprimento imediato. Segundo o artigo 352, inciso VI, do CPP, um de seus requisitos informar o juzo, o lugar, o dia e a hora em que o ru deve comparecer (disposio xada para a citao, aplicvel Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz Antonio de Faria Pinto

PAGE 15

15 intimao por fora do artigo 370 do CPP). A conduo coercitiva s deve ocorrer se o intimado no atender intimao. E no se pode dizer que o Lula no atendeu intimao, at porque ele no foi intimado (posto que descabida e ilegal a intimao feita verbalmente por autoridade policial). Enoja a contumcia com que esse juiz paranaense espezinha a lei, em sua pirotcnica e moralmente comprometida conduo de um processo que tem muito de poltico, e cujos desdobramentos na esfera institucional podem se tornar incontrolveis. como se o desejo de aparecer, de estar de bem com a mdia e de agradar a oposio, fosse mais importante do que fazer o trabalho para o qual ele pago. Alis, muito bem pago, e, ao que parece, mais do que o devido por lei, com o dinheiro dos nossos impostos. A atuao desse juiz parece mais um exerccio de irresponsabilidade aplicada, travestida de justia de fundo de quintal. Pessoalmente, considero altamente suspeita a atuao desse juiz em todo o processo Lava Jato, face condio da mulher dele, de advogada da Shell e do PSDB. Nem me espantarei se chegar o dia em que se descobrir que a Shell, para quem trabalha a mulher de Srgio Moro, foi quem deniu for ma e contedo para o projeto de lei (agora lei) que exibiliza a explorao do Pr Sal, numa parceria Shell/PSDB, ambos patres da cara metade do carnavalesco magistrado paranaense. Jos Serra o autor desse projeto de lei tanto quanto a dupla Tiririca & Simo Jatene comps o Concerto n 1 para Clarineta e Orquestra, cuja autoria at aqui tem sido atribuda a um tal de Mozart, que pouca gente neste pas quer saber quem ou quem foi. Elias Granhen Tavares MINHA RESPOSTA Os policiais federais entraram na casa de Lula s seis da manh. Saram s oito. Nesse intervalo de duas horas ele consultou seu advogado e compadre, Roberto Teixeira, que o aconselhou a acompanhar os policiais e prestar o depoimento no cartrio improvisado no ae roporto de Congonhas, em So Paulo. J no h dvida que a informao sobre a sua con duo vazou. Lula esperava pela comitiva desde cedo e j em condies de acompanh-la, o que fez sem constrangimento algum, depois de ter dito que no iria, que resistiria e etc. Por que seu advogado no preparou um habeas corpus preventivo ou um mandado de segurana para impedir o depoimento do seu cliente? Deve-se lembrar que a audincia anterior no se realizou porque petistas e lulistas impediram o de poimento do ex-presidente, criando tumultos do lado de fora. Esse incidente foi consi derado como uma frustrao do convite feito a Lula com o cumprimento de todas as for malidades legais. O juiz Moro se considerou autorizado conduo coercitiva para a nova audincia, tomando a cautela de instruir os policiais a primeiro fazer o convite ao intimado, deix-lo vontade para conversar com seu advogado e conduzi-lo sem o uso de algemas, alm de vetar fotograas ou qualquer circunstncia que constrangesse o ex-presidente, com o devido respeito ao alto cargo que ocupou na repblica. Avisado do que ia aconte cer depois do m de semana, Lula recebeu amistosamente os policiais talvez por puro clculo poltico: transformarse em vtima para tentar reverter o jogo, que estava completamente contra ele. o que faz desde ento. Para Jamil e TerezaDeus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, um dos mais impor tantes filmes da cinematografia brasileira, foi exibido para convidados, no Rio de Janeiro, no fatdico 31 de maro de 1964. Mais um dia e provavelmente no haveria clima para o acontecimento. No entanto, uma vez cessada a febre de perseguio liberdade de expresso, o ambiente arrefeceu e o sol se levantou, aquecendo a imaginao e a criatividade de milhares de brasileiros brilhantes. At o eclipse do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Nesses quatro anos se alternaram veres, primaveras e outonos culturais. A tolerncia combinada com o estmulo crtica exerceu um papel oxigenador, que nem os impulsos inquisitoriais conseguiram sufocar. At que novamente as armas voltaram a ser usadas para denir quem era o dono do poder. Duas mortes me trouxeram a memria desse interregno. Localmente, a do poeta Jamil Damous, um maranhense que se formou intelectualmente em Belm e se consolidou no Rio de Janeiro. Somos, talvez, da ltima gerao que se formou pela leitura indisciplinada, quase catica, de tudo sob o decanato da ousadia, antes das trevas do AI-5. Como lamos freneticamente, a cada dia havia material novo para servir de combusto para os debates apaixonados (mas sempre fundamentados em autores) que travvamos nos bares, especialmente no Bar do Parque, ao lado do Teatro da Paz; Frequentemente o sol j se espichava por trs das mangueiras e ainda no havamos concludo o raciocnio. Muito menos denido quem ganhara. Sempre houve controvrsias a respeito. Pouco tempo atrs um amigo comum me disse que Jamil morrera. Fiquei to aturdido pela notcia que, fechando uma edio deste jornal, tratei de manifestar minha dor e indignao pelo passamento precoce do poeta e amigo. Em carne, osso e voz, ele mandou dizer que estava vivo e ativo. Pena que desta vez no seja um novo trote (ou podemos consider-lo como tal, at o prximo encontro?). A outra morte foi a de Tereza Rachel. Eu a conheci tambm naqueles intensssimos anos de 1960). No Rio de Janeiro, vi espetculos que esto entre os melhores da dramaturgia nacional, dentre os quais Liberdade, Liberdade, no qual Tereza Rachel ponticava junto com Paulo Autran, intervindo no mosaico de colagens feitas por Millr Fernandes e Flvio Rangel. A fora e a novidade que esse tipo de encenao representava a tornaram inesquecvel. Jamil e Tereza so a prova de que o mais subversivo e o mais redentor da presena humana neste planeta a liberdade de pensar e expressar o que vem do mais ntimo do ser.

PAGE 16

Santarm do futebol e de muita histriaA velhice avana atraindo o sentimen-talismo, mas tambm a perspiccia que s os anos vividos possibilita. Como ao me dar conta, dias atrs, lendo um texto de Taion Almeida no Dirio do Par que o maior clssico do futebol santareno, tra-vado entre o So Francisco e o So Rai-mundo, j possui 72 anos de histria, seis a mais do que a minha idade. Em 2000, em partida vlida pelo cam-peonato estadual, o Rai-Fran atraiu 22 mil torcedores pagantes, o maior pbli-co em um jogo de futebol fora da capital paraense, segundo Taion. Talvez at o maior do que em qualquer outra cidade da Amaznia por um campeonato local, incluindo Manaus, com populao supe-rior de Belm. o clssico mais antigo, s mais novo do que os que envolvem Remo, Paissandu e Tuna. Acontecimento maltratado pela de-sateno dos dirigentes do futebol san-tareno, que quase provocou o desapare-cimento do So Francisco, e da prpria capital, sempre voltada para o prprio umbigo ou desvanecida diante de um espelho supostamente mgico, o que apenas a reete. Belm passou a ver Santarm como uma inimiga, que cumpria derrotar para que ela no realizasse suas antigas aspi-raes de autonomia. Com muito maior suporte demogrco e pela fora da sua condio de poder central, Belm con-seguiu o seu objetivo. Foi alm; minou o amor prprio de Santarm, tirou-lhe a -bra, prejudicou sua inteligncia. Na apoplexia dessa disputa entre manter ntegro o territrio de 1,2 mi-lho de quilmetros do Par ou reduzir a aspirao pelo Estado do Tapajs a um jogo de elite, Santarm deixou de gravi-tar como satlite de Belm para se tornar extenso de Manaus. Apenas renovou a dependncia. No entanto, tinha tutano suciente para um dilogo de melhor nvel com a capital para um acerto benco s partes. Ou, se isso fosse impossvel, pela arrogn-cia caracterstica nesse assunto dos gover-nantes na capital, tentar seguir seu prprio caminho, tirando proveito das suas con-dies e qualidades. Histria o que no falta a Santarm. Como a do futebol. No embalo da me-mria, lembrei o meu tempo de criana. Saa do avio direto para as casas da fam-lia da minha me, com antepassados esta-belecidos na elite local e na imigrao de dois irmos portugueses, meu av e meu tio (que se tornaria o homem mais rico da cidade, multiplicando o dinheiro que o irmo lhe emprestara, no seu nico bom negcio, em proveito alheio). Ficava durante alguns dias pelo centro da cidade, brincando com os iguais. De-pois tinha que fazer a visita famlia do meu pai, lho de imigrantes nordestinos, os arigs cearenses, discriminados pela elite local. Eles moravam na Aldeia. Como o prprio nome designa, ali viviam os antigos ndios Tapaj, segre-gados pelos colonizadores portugueses e seus descendentes at o completo desa-parecimento. Ia a p, mesmo com meus pequenos anos de idade, pernas curtas e pele clara, sob um sol costumeiramente forte. S as ruas de baixo (mais prximas ao rio) eram pavimentadas, com armao de concreto. As de cima eram um areal s, daquela areia ninha que descia das partes mais altas da cidade, numa eroso cons-tante, que abria enormes buracos, como o mais famoso, na Bajona de Miranda. Eu preferia o areal para as minhas brincadeiras pelo caminho, com uns qua-tro ou cinco quilmetros, a subir e descer pelos vales que se abriam com as enxur-radas. Quando ia pela parte mais perto do rio, as pessoas, me reconhecendo como o lho do seu Elias, me paravam, conver-savam, me davam sucos (ah, a cajuna!), doce, merenda. Gente humilde, honrada pelo transeunte ilustre, e generosa. Eu s vezes parava e admirava os jaca-rs vivinhos e famintos no fundo do fosso na praa de So Sebastio, em fren-te igreja, mais para o nordestino do que para o amaznico. Insuado por outros moleques, s vezes atravessava a corrente de ferro que pretendia (sem conseguir) isolar o reduto dos animais. Nunca ca. Ao que saiba, tambm nenhum dos ou-tros companheiros de molecagem. Sem o tratamento vip dos ambientalistas, os fe-rozes animais ainda no sabiam das suas prerrogativas, talvez. Chegar enorme casa do meu av era como assumir o trono. Eu era o neto favo-rito do velho Raimundo Pinto, com todos os direitos que seu jeito jaguno de ser me conferiam. Se ia empinar papagaio, algum me levava um guarda-sol e outro algum (invariavelmente a prestativa tia Laura) me abastecia de merendas. Sem falar nos pes doces da padaria do seu Dad, onde eu podia assumir funes de padeiro. Eram dois mundos que no pareciam integrar a mesma cidade, completamente distintos, aos quais eu me amoldava de tal maneira que at hoje passo de um para outro sem qualquer problema, mesmo no havendo mais esses dois mundos au-tnomos em Santarm. Meu pai derrotou um dos lhos ilus-tres da terra, o engenheiro Ubaldo Correa, em 1966, como candidato da oposio ao regime militar, graas gente da Aldeia e das colnias nordestinas, espalhadas em torno de Moju dos Campos. Teve dois teros dos votos vlidos, na maior vitria de um prefeito no municpio. Eu era torcedor do So Francisco, como todo o lado de origem europeia da famlia. Conseguia frequentemen-te me apossar da bola do jogo quando o esquadro azulino se preparava para seguir a p para o estdio, que era de propriedade da ordem dos franciscanos. No admira que os dois principais times homenageassem santos (h no mundo clssico principal com times de futebol que levam santos no nome?). Agarra-do bola eu entrava com os atletas sem precisar pagar e quase como um deles. Mas meu pai era So Raimundo e meu querido tio Joo, tambm. Tio Joo, que o brilho do meu pai colocou injustamente em segundo plano, foi treinador do So Raimundo e me leva-va para os treinos. Como os jogadores, eu me aboletava num pau-de-arara e l amos. Papai, poltico de enorme popu-laridade, s vezes aparecia e eu ensaiava uns lances para impression-lo. Papai e titio no se falavam tanto como deviam. Tio Joo se deixava car em segundo plano, embora falasse in-gls como papai (que foi jovem profes-sor autodidata, como o irmo), conhe-cesse msica, fosse organizado, muito mais disciplinado, mas fulminado pela preferncia escancarada do pai pelo -lho poltico, que precisara de trs elei-es seguidas para vencer uma justia eleitoral venal e uma estrutura de poder at se eleger prefeito de Santarm. Sua audcia foi excessiva. Ele cou apenas nove meses no cargo. Foi afas-tado pela Cmara Municipal, domina-da pelos seus inimigos, e submetido a um processo predisposto contra ele no Tribunal de Contas. Antes que a justi-a se pronunciasse, o governador Ala-cid Nunes acabou com tudo pelo uso da fora policial. E Santarm, com trs lhos mortos no conito, virou rea de segurana nacional. Perdeu o direito de voltar a eleger o seu prefeito. E papai foi cassado duas vezes (na primeira, o man-dato; na segunda, os direitos polticos), fato indito na histria dessa violncia. Muito da identidade e do orgulho de ser santareno acabou ali. E no se restabe-leceu nunca mais. No hora de retomar essa vasta cultura e dar-lhe nova direo?