Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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AGORA, LULA COMO RU? BRASILEIROS ENDIVIDADOS o aO medo de uma assombrao comea a rondar o Brasil: o golpe de Estado. Quem primeiro o suscitou, como ameaa, na escalada da crise poltica nacional, foi o PT. At agora, entretanto, isso mais parece um desesperado recurso para se manter no poder do que o reexo de uma situao real. inegvel que a radicalizao entre petistas e no petistas busca sufocar as posies intermedirias, que existem em graus diversos e materializaes distintas. Os petistas precisam de um demnio para exorcizar e, por meio desse ritual, se reapresentar como a personificao da santidade. J os antipetistas, cada vez mais extremados, ensaiam utilizar qualquer tipo de recurso para colocar seus inimigos fora do poder, j que eles se recusam a admitir os seus erros e a abrir mo do que mantm de forma ilegtima, em escala crescente, e medida que avana a investigao da Operao Lava-Jato, ilegal. Na nsia de fazer a opinio pblica acreditar em demnios luz do dia, a presidente Dilma Rousse apontou o processo de impeachment POLTICAGolpe iminente?Petistas e antipetistas falam em golpes de um lado e de outro. Mas possvel um golpe de Estado no Brasil sem a participao a favor ou contra das foras armadas? Elas dizem que s faro uma coisa: defender a Constituio.

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2 como golpista. Teve a resposta de onde ela parecia improvvel: Dias Tooli, o ex-advogado de Lula que virou ministro do Supremo Tribunal Federal, retrucou imediatamente com uma obser vao bvia: o impeachment recurso com previso constitucional. Se os autores do pedido de impedimento da presidente exageraram ou desvirtuaram o instrumento, questo que, tendo passado inclume pelo Supremo, onde o ritual foi denido, agora s pode ser decidida politicamente no foro competente: o parlamento federal. H muita gente de ambos os lados querendo um golpe. Matreiro, o ex-presidente Lula se atribuiu uma nova per sona: a de verso brasileira do grande estrategista do Vietn do Norte, o general Nguyen van Giap. Se Giap venceu franceses e americanos, o general Lula vencer tambm os seus inimigos. Bastar convocar seus soldados civis aquar telados nos sindicatos e arredores. At onde Lula desfar a sua biograa, como vem fazendo nos ltimos anos? No percebeu que o grande lder carismtico perdeu seu capital, exaurido por sucessivos episdios mal explicados de promiscuidade com negcios escusos e polticas de bastidores srdidas? As milcias que sugere estarem ao alcance do seu toque de reunir existem realmente ou no passam de um exr cito Brancaleone, mais para atuar em circo mambembe do que intervir na grave conjuntura atual? No h golpe de Estado no Brasil, como em qualquer outro pas com instituies civis ainda frgeis ou imaturas, sem a participao das foras armadas. Afora pelas teorias conspirativas, no h indcio concreto de que elas estejam envolvidas ou participando de manobras golpistas. preciso aceitar o absurdo como coisa normal para interpretar como golpista a declarao do general Villas Boas de que a instituio sob o seu comando ir seguir a Constituio. Num ambiente racional, a frase devia ser comemorada. Anal, esta a mais nobre tarefa das foras armadas. No entanto, no clima viciado de polarizao que domina o pas, a declarao est sendo utilizada pelos fanticos dos dois lados. Eles colocaram em intensa circulao pela internet nota publicada no dia 17 em sua coluna, no jornal mineiro O Tempo pela jornalista Raquel Faria: O Exrcito est pronto a ajudar na manuteno da ordem e conteno de violncia no processo do impeachment, desde que sua atuao seja solicitada pelo guardio das leis, o STF, que tem o poder de convocar os militares se julgar necessrio. Pelas conversas que rolam nos mais altos bastidores em Braslia, esse o signicado a ser aprendido nas declaraes O recado est dado aos defensores do mandato de Dilma. evidente que a jornalista quer o afastamento de Dilma de qualquer maneira, embora mediada pelo STF, numa situao que desaaria a imaginao do mais fecundo autor surrealista: a corte suprema convocando a tropa de centuries da repblica para depor a presidente que no cumpre a Constituio. Esse texto da jornalista, cuja importncia inversamente proporcional sua ousadia destrambelhada, foi logo interpretado pelos defensores do governo como uma preparao da opinio pblica para o golpe com o apoio dos militares. A jornalista, que era considerada de esquerda e acatada pelos petistas, estaria agora recebendo ordens dos golpistas personicados nos donos de jornais e na elite branca, testa de um golpe iminente. assustador o despreparo e a indigncia mental entre a elite poltica brasileira dos nossos dias. O general foi claro e, ao menos aparentemente, sincero. O Exrcito acompanha atentamente a crise, mas no intervir se tudo, mesmo o mais discrepante, acontecer dentro da ordem constitucional, que seu dever defender e preservar. Quem mais golpista: os que pedem para as foras armadas derrubarem o governo de sbito, por ato de violncia, ou a presidente da repblica, que classica de golpista o uso de um instrumento constitucional, como o impeachment? Ao recorrer a uma mentira para colocar fora da lei seus adversrios, ela ignora que est atiando os militares? Ou est apostando no tudo ou nada, no dito autocrtico do depois de mim, o dilvio?. H uma histria que no precisa remontar ao golpe que derrubou a monarquia e a substituiu pela repblica, diante de um povo inerte e esquecido, bestializado, no dizer do jornalista que presenciou os fatos da madrugada de 14 para 15 de novembro de 1889 que precisa ser considerada antes de falar em golpe de Estado como se fosse um acontecimento trivial. Os militares, que avalizaram a ditadura do Estado Novo, prorrogando a presena de Getlio Vargas no poder nacional (iniciada em 1930) at 1945, ao derrub-lo imaginaram ter-se livrado para sempre de um poltico que se valia deles, mas tinha autonomia. E tinha uma caracterstica que os incomodava: os superava. Superando em atitude que conitava com suas posies tradicionais, em defesa das elites. Vargas, pelo contrrio, buscava o povo. Foi o maior de todos os populistas da histria brasileira. Era populista por ser tambm um adepto das ideias de reformismo autoritrio de Augusto Comte, positivista como os primeiros republicanos que chegaram ao poder. O reformismo derivou para o caudilhismo no Rio Grande do Sul, combinando com sua tradio de violncia e poltica de armas na mo. Mas teve um sopro diferente pelo convvio igualitrio entre fazendeiros e pees nos conns da pradaria, em que se reuniam para o chimarro sorvido na mesma cuia por todos. S quem conhece esse elemento da cultura poltica gacha entende como um grande fazendeiro rico, como Joo Goulart, e um fazendeiro remediado, como Getlio, levaram seu populismo s ltimas consequncias, sem nunca dar o passo que faltava para serem classicados seriamente como esquer distas e, menos ainda, como comunistas. Era esse elemento que as foras ar madas, temendo, quiseram expurg-lo ao depor Getlio. Imaginavam que a poltica voltaria a ser conservadora e conciliadora, sem alterar o status quo Depois do perodo intermedirio do marechal Dutra, o avalista de Getlio ditador e quem o sucedeu, com apoio dele, na reinaugurao da democracia no Brasil, o cetro do poder foi concebido para ser portado por outro militar, preferencialmente pelo brigadeiro Eduardo Gomes e seu partido, o mais representativamente pr-militares, a UDN, ou, em ltimo caso, pelo ex-tenente Juarez Tvora.

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3 Surpreendendo a todos, Getlio deixou o exlio na sua fazenda no extremo gacho para uma impressionante campanha eleitoral pelo pas, que lhe deu a vitria. Legitimado pelo voto popular e sem qualquer compromisso com seus antigos companheiros de regime, ele fez um governo radicalmente populista. Desta vez, seus inimigos no lhe dariam trgua, espicaados e liderados por um dos mais brilhantes tribunos que o pas j teve, Carlos Lacerda. O golpe para depor Getlio era questo de algumas horas quando ele se suicidou, pondo os predadores para correr do que era, at ento, uma carnia. Seu legado elegeu Juscelino Kubitscheck, contra quem os golpes no pararam de ser armados pelos udenistas e seus correligionrios de farda. Esse drama devia terminar com Jnio Quadros. Anal, ele era candidato da UDN e tivera a maior de todas as votaes j alcanadas na histria republicana. Na verdade, porm, Jnio no era udenista: era um populista independente e tambm um desequilibrado e, como j se sabe muito bem, um corrupto. Quis dar um golpe branco e se deu mal. Sem querer, entregou o poder ao mais getulista de todos os polticos, sua cria, o vice-presidente Joo Goulart. Fazendeiro abonado por seus prprios mtodos de criador, comprador e vendedor de gado, Jango ps em prtica as mesmas ideias populistas que o levaram, como ministro do Trabalho de Getlio, a reajustar em 100% o salrio mnimo, colocando-o no seu mais alto patamar at hoje. Os coronis, que assinaram um manifesto contra o ministro, em ato de insubordinao e desrespeito aos chefes, conseguiram der rubar Jango, mas no a medida por ele adotada, que o presidente conrmou. Foi uma derrota que cou atravessada na vitria de Pirro dos conspiradores. O impasse que custou a Jango o seu cargo mostrou mais as suas decincias do que os seus mritos, apesar de uma reviso historiogrca recente que o projeta quase como heri e estadista. Homem dos pagos, formado pela legenda da lealdade e do compromisso, Jango queria vingar o suicdio de Getlio. Por isso fez de tudo, at ameaar desrespeitar a Constituio, criando um estado de stio na ento Guanabara (hoje, Rio de Janeiro) para depor e prender o governador Carlos Lacerda. Iria alm. Depois do comcio das reformas, no Rio, a menos de trs semanas da sua deposio pelos militares, entendendo que o acontecimento foi um estrondoso sucesso (e subestimando a capacidade de recrutar adeses e pelegos do governo), guinou para a esquerda por mero clculo, embora numa anlise errada da correlao de foras polticas do pas. Achou que se fosse obstado na sua trajetria reformista, passaria sobre os inimigos e recalcitrantes. Refundaria o Estado Novo, se preciso. Os momentos nais de Jango na presidncia so de uma dramaticidade shakespeariana. J acuado, ele telefonou para o general Amauri Kruel, seu compadre, que comandava o poderoso II Exrcito, de So Paulo, e cuja posio podia reequilibrar a correlao nas foras armadas em favor do presidente, consolidando o legalismo do I Exrcito e a adeso do III Exrcito. Kruel disse que caria ao lado de Jango se ele se afastasse dos comunistas que o cercavam naquele momento. Jango disse que isso no podia mais fazer. Quando desligaram, o golpe se tornou predominante. Mas talvez ainda houvesse rea para manobras se o general Olympio Mouro Filho, debochando das articulaes dos comandantes em seus gabinetes, no tivesse colocado sua tropa para marchar em Minas Gerais (para aproveitar o momento propcio da fase da lua, como anotaria no seu dirio). Jango, o mais hamletiano dos personagens, tinha a escolha ao seu alcance: reunir a grande tropa que ainda podia obedecer sua ordem ou, repetindo seu mestre, se suicidar. Ele optou por um gesto muito menos digno, que edulcorou ao mximo: fugiu de cena. No era o homem certo no momento certo. Dez anos depois do gesto de grandeza de Vargas, se mostrara seu pequeno discpulo, sem a vastido de recursos de que Vargas dispunha para contornar os obstculos e ir em frente, ou enfrentar a adversidade de peito aberto. O golpe militar de 1964, assim, tem uma longa e intensa histria, bem retilnea e, apesar disso, ainda difcil de reconstituir pelas paixes vivas que ainda esto em cena, 52 anos depois. O golpe que os petistas consideram ser iminente no tem essa precedncia nem consistncia, e muito menos intensidade. Os Estados Unidos, em pleno vigor da sua diplomacia do big stick (o porrete), participaram dos preparativos para a deposio de Jango. Mesmo se tivessem chegado a tempo, porm, no fariam diferena: o golpe aconteceu quando a frota americana ainda estava a caminho. J sem nalidade, voltou aos Estados Unidos. Agora, na vizinha Argentina, o presidente Barak Obama purga o pecado do seu pas ao lado dos militares no golpe desfechado contra o Getlio ar gentino, Domingo Pern, e seu legado, que custou milhares de vidas. Pode no passar de uma cena diplomtica, diro os pregoeiros do golpe brasileiro. Ainda assim, a retrica de Washington difere completamente da linguagem de meio sculo atrs. Tomado pela busca de um acerto de contas em nome de Getlio Vargas, Joo Goulart forneceu aos militares golpistas o motivo anticonstitucional de que eles precisavam para tirar as tropas dos quartis. Esse motivador, apesar dos atos de violncia nas ruas e gabinetes, no existe agora. A no ser que a presidente Dilma Rousse, o ex-presidente Lula e os petistas mais comprometidos no poder queiram realmente brincar com fogo. Desta vez, o temor de subverso poltica mnimo, restrito aos radicais. No cerne do debate neste momento a questo a que s surgiu depois do golpe de 1964: a corrupo. O tema foi emendado subverso quando da deposio de Joo Goulart, para ser coerente com a pregao udenista anterior. Agora, ao contrrio, o que motiva as pessoas a ir at as ruas. Jango e outras guras centrais da perseguio em 1964 foram investigadas intensamente, inclusive revelia, sem que cassem comprovadas as suspeitas de enriquecimento ilcito. Nenhuma punio lhes foi aplicada por esse motivo. J contra Lula e outros petistas, em plena democracia, com todas as garantias constitucionais em vigor, a apurao toda em torno de corrupo. Eles conseguiram a triste faanha de enfraquecer o componente especicamente poltico da crise nacional, que passou a ser primordialmente tica e moral.

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4 A sada sem sadaDever ter sido amargo o caf da manh que a presidente Dilma Rousse e o ex-presidente Lula tomaram juntos, em Braslia, no dia 16. Depois de cinco ou seis horas de dilogo intenso, Lula chegou madrugada da vspera sem uma convico. Estava mais ou menos na situao daquela pea teatral famosa de Oduvaldo Vianna Filho: se correr o bicho pega, se car o bicho come. Por Dilma, naquele momento ele j seria ministro da Casa Civil ou do Governo. Sinal de que a situao da presidente era mais desesperadora a curtssimo prazo. Por linhas tortas, ela concordava que realmente j no tinha fora para escapar ao processo poltico que poder levar ao seu impeachment pelo Congresso ou sua cassao pela justia eleitoral. Nunca tendo cultivado simpatias e afetos, agora que a canoa faz gua no encontra ningum embar cado que a ajude a tapar os muitos buracos aberto, e que ainda se abrem. Ir ao fundo, com certeza. Com seu carisma e sua vasta relao de amizades e compromissos, Lula poderia tir-la dessa enrascada fatal. Mas se ele estiver em campo, voltado totalmente para a classe poltica, quem protege a sua retaguarda? Como impedir que venha um tiro de Curitiba, ou mesmo de Braslia? At agora, depois de tanta movimentao nos bastidores e tanto fosfato gasto por advogados (quanta falta Mrcio omaz Bastos lhe faz agora), o juiz Srgio Moro acumula cada vez mais poderes e provas para indici-lo e, num segundo momento, mandar prend-lo preventivamente. No por obstruo da justia, compra de testemunhas ou evaso para o exterior, como, primariamente, argumentaram os promotores estaduais de So Paulo. Mas por integrar (e, talvez, liderar) uma organizao criminosa. Isso mesmo, com todas as letras, dentro do rigor tcnico: uma organizao criminosa. O juiz Srgio Moro mandou a Polcia Federal conduzir o ex -presidente para depor por esse motivo. Foi pela mesma razo que o Supremo Tribunal Federal determinou a priso do senador Delcdio do Amaral, mesmo ele estando no pleno exerccio do mandato, fato indito na histria brasileira. O lder do governo no Senado e no Congresso foi preso por ser membro de uma organizao criminosa, o enquadramento para sua priso em agrante. Esta a nica exceo que expe um parlamentar com mandato priso. A obstruo da justia, compra de testemunha e plano para a fuga de Nestor Cerver foram os fatos motivadores. O ex-presidente Lula j tratado internamente na Operao Lava-Jato como um criminoso. Se for incorporado ao governo, chegar nessa condio, espalhando o estigma para o ministrio de Dilma. A manobra para livr-lo do juiz Srgio Moro e elevar o seu foro para o STF, como no caso Delcdio, apenas o argumento para o enquadramento penal. Ele poder ser preso dentro do seu gabinete de trabalho. Mais alguma coisa para tornar ainda mais catica a situao e afundar o pas junto com um governo que submerge na mais densa lama?O lado sombrio de LulaImagine-se que o passo dado no dia 16 pelo governo d certo e se desdobre conforme prev o Palcio do Planalto. O ex-presidente Lula, nomeado para o cargo poltico mais importante do governo, a chea da Casa Civil, assuma o controle da maioria do Congresso e derrube o impeachment contra a presidente Dilma Rousse, que foi encaminhado, ainda sob a presidncia do inefvel deputado Eduardo Cunha, o primeiro e j o mais processado dos presidentes da Cmara Federal do Brasil qui do mundo? Uma vez saciada a maioria parlamentar e renegociados os pactos e acordos polticos, Lula devolver o cargo a Dilma e, vitorioso, se apresentar disputa em 2018, para ser seu sucessor e garantir o PT por mais oito anos 24 no total, acima do que era o grande sonho do PSDB a partir dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o sedoso. Essa quimera tem contedo de realidade? Tem para quem j no tinha alternativa, a presidente da repblica, como Dilma. Ela escapar ao destino que lhe foi traado, de reinar at o m do seu mandato (com outros oito anos no currculo do PT) para nunca mais governar, seja sob o presidencialismo lulista ou o semiparlamentarismo de ocasio, mais uma inveno do jeitinho brasileiro, nossa contribuio epifania universal maneira do Carroll de Alice no pas das maravilhas ou do George Orwell da Revoluo dos bichos Quem, indo ao gabinete do novo ministro, se permitir prosseguir at as dependncias da presidenta, que delegou a Lula poderes plenipotencirios de um interventor branco (ou, melhor dizendo, pardo, para no junt-lo elite por ele considerada agora golpista)? Quem ir ouvir seus xingamentos e curtir suas mgoas? Quem ir partilhar sua irrefrevel impopularidade? Quem ainda suportar sua nunca sucientemente exorcizada incompetncia? A posse do ex-presidente no ministrio foi uma festa. Mas quem renovar a visita se a Operao Lava-Jato o recolocar em foco, desta vez acrescendo s provas testemunhais as provas documentais (cuja reunio serve de atestado libertao da secretria da Odebrecht, com seu valioso arquivo) e xando nexos onde s h, at agora, suspeitas e indcios, ainda que incisivos? Num pas srio, Luiz Incio Lula da Silva no estaria se desviando da misso que lhe cabe de forma urgente: provar que o ex -presidente da repblica, depois de deixar o poder com a maior de RETRATO DA CRISEEsta uma edio especial do Jornal Pessoal. Decidi mont-la com base em alguns dos textos que produzi no meu blog ( www.lucioflaviopinto. wordpress.com) nas duas ltimas semanas, a partir do dia 16. Segui a ordem cronolgica de divulgao. Mantive o texto original, exceto para ajustar datas e atualiz-lo para uma melhor leitura. A matria de abertura indita.

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5 todas as popularidades (talvez fosse inferior apenas de Getlio, se esse galardo o presidente no o tivesse conquistado pelo seu suicdio, em 1954), no vendeu a alma por um trplex, um stio, viagens de jatinho e honorrios por palestras. Ningum jamais pagaria os 700 mil reais que ele diz que cobra, nem ao cara, se ele tambm no fosse a coroa. Esse um lado obscuro e chocante da sua face pblica, que o torna surdo e mudo quando recebe mimos e presentes (como as toneladas que arrastou da sede do governo ao m do mandato, em muitos contineres, armazenados ao custo ao longo de cinco anos de mais de um milho de reais). Lula devia tratar de provar que honesto, que honrado, que estadista. E no dar uma de salvador da ptria, papel que j no lhe cabe. Anal, de fato, no apurar das contas, ele j no consegue salvar a prpria pele. o sujo sendo salvo pelo mal lavado (porque a Lava-Jato ainda no o atingiu em cheio, como parece cada vez mais iminente, apesar dos fogos de artifcio que o Palcio do Planalto dispara para convencer a todos de que, anal, tudo acaba em festa quando no em pizza). Ser mesmo sempre assim? Um Brasil melhor espera que no.A bomba no colo de DilmaCom a nomeao de Lula para o seu ministrio, a presidente Dilma Rousse conseguiu transformar em pssima uma crise que j era muito ruim. Bastou que ela mandasse redigir o ato e, para torn-lo ocial, com sua publicao, a antecipao por vrias horas da edio do Dirio Ocial da Unio, que circularia normalmente s no dia seguinte, para ter uma imediata resposta. O juiz Srgio Moro, que deixava de ter jurisdio sobre Lula, decidiu tirar o sigilo de todo o processo que estava instruindo sobre o ex-presidente, inclusive gravaes feitas atravs de interceptao telefnica por ele prprio autorizadas. As conversas de Lula com a presidente, alguns dos seus ministros, outras autoridades e pessoas podem caracterizar a obstruo da justia, que pode levar ao enquadramento em crime de responsabilidade, passvel de priso, como aconteceu com o senador Delcdio do Amaral. No exerccio do cargo eletivo, porm, ele s podia ser preso em agrante delito. O agrante no foi a obstruo da justia, mas o que a proporcionou: sua participao numa or ganizao criminosa. J no h mais dvida alguma de que essa a convico do juiz federal Srgio Moro em relao ao ex-presidente. Para ele, Lula integra uma organizao criminosa, a mesma de Delcdio. No entanto, no mandou prend-lo. Nem mesmo o indiciou ainda. Com Lula, age com o mximo de cautela, certamente para no ser obrigado a andar para trs. O que decidiu foi conduzi-lo fora para depor, ciente que, desta vez, Lula resistiria. Para no caracterizar o abuso, determinou Polcia Federal que primeiro zesse o convite. S se ele se recusasse a acompanhar os policiais, o que fez, ele teria que ser levado. Mas sem algemas nem qualquer constrangimento. A preocupao indica que Moro no queria dar qualquer pretexto para impedir que, no momento por ele considerado aprazado, adotasse uma iniciativa mais drstica. Poderia faz-la de imediato, ao receber o pedido de indiciamento de Lula, com a antecipao da sua priso preventiva, feita pelos promotores pblicos de So Paulo. Provavelmente, entretanto, antes ouviria o Ministrio Pblico Federal que integra a Operao Lava-Jato. Enquanto isso, continuaria a produzir provas para sua prpria cartada. A retirada do sigilo de todas as provas at agora reunidas contra Lula exps a todos um conjunto de informaes ainda mais devastadoras do que as da delao do senador Delcdio, com os mesmos componentes, mas com uma desvantagem para Lula: ele no tem mais um cargo eletivo. S pode ser preso por ordem da nova autoridade que passar a presidir o processo, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, mas sem as prerrogativas do cargo poltico, como o agrante. H outro risco maior e mais imediato. A oposio j protocolou aes populares para impedir a posse de Lula. H fundamento jurdico suciente para essa medida. Se o ato da presidente Dilma for anulado, Lula ser devolvido s mos do juiz Srgio Moro. Na melhor das hipteses para os petistas, esse ato bomba pode no explodir, mas foram eles que acabaram por gerar, nas entranhas do governo federal, o artefato que pode acabar por destru-los: uma bomba de devastador efeito moral e de pavio curto. Sua exploso no fez surgir das suas cinzas um Estado policial, como disse a presidente, ao ouvir os grampos e sua degravao, j que ela embora s vezes parea no se dar conta a presidente do pas. Admitir que sob seu mando h um Estado policial, que no criou e lhe desagrada, se enquadrar numa esquizofrenia grave, fatal. Na verdade, o destino para o qual o Estado brasileiro caminha o estado do caos. Com a marca dessa criatura que a histria abrigar na sua porta restante: Dilma Vanna Rousseff.Segurana nacional de voltaNo discurso que pronunciou ao dar posse aos novos ministros do seu governo, em Braslia, a presidente Dilma Rousse tentou passar da defesa ao ataque para sair da situao que a ameaa pessoalmente, ao seu governo e ao PT. No tom da sua manifestao j se nota o dedo daquele que passa a ser o principal integrante do ministrio e, talvez, do prprio governo como um todo, nele includo a prpria presidente, que vai sendo eclipsada: seu antecessor, Luiz Incio Lula da Silva. Dilma prometeu (ou ameaou) iniciar imediatamente as investigaes sobre um ato que considerou ofensivo instituio que representa, a presidncia da repblica, e ordem democrtica: tanto as escutas telefnicas, que a alcanaram, como a liberao desses grampos. Com expresso que foi cando carregada medida que chegava ao principal ponto do seu discurso, justamente o nal, ela observou: assim que os golpes comeam. Ficou implcito que ela ir recorrer Lei de Segurana Nacional, a mesma em tese em que foi enquadrada quando combateu o governo militar com as armas. A diferena estaria na circunstncia de que a antiga LSN, concebida para combater a oposio ao regime de exceo (e por isso foi to excepcionalssimo em conferir-lhe instrumentos de fora), foi rebatizada no regime democrtico, sob as luzes da Constituio de 1988. Conseguir o governo desviar a ateno da sociedade do combate aos corruptos de colarinho branco para a ameaa ordem democrtica de direito, a nova bandeira empunhada pelos petistas? O governo ocializou a retrica e a movimentao antigolpista dos militantes do partido. Poder at recorrer Polcia Federal para comear a caa s bruxas do novo golpe que imagina ter a-

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6 grado, enando no mesmo saco personagens to desiguais quanto o juiz Srgio Moro, membros do Ministrio Pblico, gr-nos indignados, conspiradores contumazes e etc. A solenidade de posse, na verdade uma encenao para dar grandeza e um sentido programtico a uma ttica de acobertamento do ex-presidente Lula, pode vir a ser um novo tiro no p. Horas de concilibulos em gabinetes foram gastas para gerar o que se acaba de ver. O produto contm doses de maestria poltica, de esperteza, de boa orientao advocatcia e de outros ingredientes. Mas o papel que o embrulha o da pressa, da urgncia, do afogadilho e do desespero. difcil conciliar sabedoria sob tais condicionantes e polticas pblicas com ttica conjuntural. Se realmente a megera da Lei de Segurana Nacional da ditadura foi transformada em uma branca de neve republicana, de alvura democrtica, a investigao ser positiva para o Brasil e ter mesmo que ser executada pela polcia judiciria, que a PF, para que, a partir do inqurito administrativo, ela chegue ao Ministrio Pblico e acabe no endereo certo, o da justia. O ponto de partida pode ser o golpe de mestre do ex-presidente, que assistiu com o mximo de sisudez que a revelao das suas conversas intestinas permitia, depois de tantos improprios em circuito fechado (mas grampeado), o ltimo ato de pleno poder da presidente da repblica. O local de chegada, contudo, pode ser o desnudamento denitivo de uma organizao criminosa, sobre a qual, depois de um percurso de dois anos, completados exatamente hoje, os responsveis pela Operao Lava-Jato j no tm mais dvidas. E j preparavam as providncias decorrentes dessa convico, o que apressou de forma vexaminosa as medidas de antecipao. Se realmente a munio que tm consistente, eles tero que resistir a essa investigao. Tero que demonstrar que agem dentro da lei, movidos pelos impulsos naturais da instruo dos processos, sem conexes extra-judiciais e determinados a revelar a verdade, atravs da qual se far justia seja l contra quem for. Ser a denitiva prova dos nove dos integrantes dessa que merece ser denida como a maior ofensiva contra a corrupo da histria do Brasil. Se h realmente golpistas na mira da presidncia da repblica, eles sero revelados e imobilizados, j que o Brasil dispensa ou repudia qualquer golpe. No entanto, at agora, com 96% das suas decises conrmadas pelo STF quando questionadas perante a corte suprema do poder judicirio brasileiro, o juiz federal Srgio Moro tem passado nos testes a que tem sido periodicamente submetido no pela voz rouca das ruas, que o tem apoiado majoritariamente, mas pelo poder constitudo que acaba por ser o ru dos seus procedimentos. Quem est blefando? Quem est usando as armas que tem para ocultar a verdade? Quem est querendo manipular a sociedade? Quem possui culpa no cartrio e age como o ladro que, perseguido, faz que est atrs de quem est na frente, a gritar o bem brasileiro pega o ladro? Ele ser apanhado desta vez, o verdadeiro ladro e o verdadeiro golpista? O lance de dados foi jogado. Agora, a verdade deixou de ter dono. Deixou de ser pressuposto e passou a ser uma meta, uma busca. Como diz o povo, quem for podre que se quebre para o bem de todos e felicidade geral da nao.Argumento falsoAutocrata e ditador, irresponsvel e leviano foram alguns dos qualicativos usados para denir Lula por integrantes dos dois principais colegiados do poder judicirio no Brasil: o Supremo Tribunal Federal, guardio da Constituio, e o Superior Tribunal de Justia, a ltima instncia da justia federal. Um dia depois de receber esse tratamento por magistrados que ofendeu genericamente ao classicar os rgos em que atuam de acovardados, o ex-presidente lhes deu razo. Lula no pediu desculpas nem admitiu ter errado na conversao que imaginava ser privada e estava grampeada pela Polcia Federal. Ao invs desse gesto de nobreza, que os petistas no se consideram obrigados a fazer, por prerrogativa de origem (talvez divina), mas o nico que podia tentar atenuar o choque causado pelos conceitos depreciativos que usou contra o STF e o STJ, atravs de uma linguagem chula e debochada, Lula concebeu uma forma sutil e maliciosa de atrair a solidariedade das cortes. Lembrou que, quando presidente da repblica, no se deixou levar pelo contedo de uma escuta telefnica supostamente montada contra o ento presidente do Supremo (cujo nome no citou): no me perdi em consideraes sobre a origem ou a veracidade das evidncias apresentadas. Disse ter logo dado a resposta que me pareceu adequada para preser var a dignidade da Suprema Corte, e para que as suspeitas fossem livremente investigadas e se chegasse, assim, verdade dos fatos. Lula acrescentou ter agido daquela forma no apenas porque teriam sido expostas a intimidade e as opinies dos interlocutores. Agi por respeito instituio do Judicirio e porque me pareceu tambm a atitude adequada diante das responsabilidades que me haviam sido confiadas pelo povo brasileiro. O que quer agora o ex-presidente? A mesma reciprocidade que no se vexou em cobrar do procurador geral da repblica, por t-lo nomeado para o cargo. Rodrigo Janot reagiu como era de se esperar. Disse que est no MPF h mais de 30 anos, tendo ingressado por concurso pblico, e que j percorreu todas as etapas da carreira. Alm disso, era o cabea da lista trplice submetida a Lula, quando presidente, por ter sido o mais votado dos candidatos entre os seus pares. J a histria do grampo, de 2008, que gravou uma conversa entre o ministro Gilmar Mendes e o senador Demstenes Torres (do DEM de Gois), divulgada para comprometer a ambos, ela foi feita ilegalmente pela Agncia Brasileira de Inteligncia, a Abin, antecessora do SNI do regime militar. Talvez Lula no tivesse agido logo se a reao compacta e coesa do poder judicirio no lhe impusesse esse caminho. Ainda assim, ele agiu para impedir o aprofundamento da investigao e protegeu os principais responsveis institucionais pelo crime. necessrio no esquecer que o grampo foi revelado pela revista Veja, no por alguma instncia oficial. De qualquer maneira, o paralelo indevido. A escuta telefnica de Mendes um crtico do governo pela Abin era totalmente ilegal. J a escuta das conversas de Lula pela Polcia Federal tinha a devida autorizao judicial. Logo, no era ilegal. Pode-se discordar e condenar a atitude do juiz Srgio Moro, que a pediu e tambm a divulgou, pondo fim ao sigilo, que tambm determinara, mas ela tinha a autoria devida. A razo que alegou para essa atitude foi o interesse pblico. Todas as degravaes giram em torno das investigaes sobre bens patrimoniais no declarados atribudos a Lula, a

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7 receitas ilcitas e outros pontos da investigao. Mesmo os temas particulares no so privados quando servem de prova para as acusaes em curso. Elas mostram a dupla face de Lula. Aquela que ele apresenta para o pblico e a que age nos bastidores, preparando, s vezes, o contrrio do que declara, ladino e desenvolto nas artimanhas do poder. Autocrata e ditador, leviano e irresponsvel. Mas no o super-homem que, incensado por seus companheiros, se julga acima do bem e do mal, o maior de todos os homens que existem sobre a face da Terra, o cara. O Lula que ofende, pragueja, debocha, despreza e considera de sua propriedade privada bens pblicos, materiais e imateriais, ou mesmo privados, sobe ao palco no lugar do Lula que se imaginava um estadista. Antes de ser julgado pelas acusaes que lhe fazem perante a justia, ele j ofereceu, sem querer, as provas para que a sociedade brasileira o julgue. O julgamento definitivo da histria no esperou pelos procedimentos formais: j comeou.O jornalismo parcialO artigo de Jnio de Freitas na Folha de S. Paulo, reproduzido pelo Dirio do Par me faz lembrar a poca de fascnio pelos lmes de faroeste americanos, programa favorito de geraes de crianas e adolescentes. Sem saber que poderamos vir a ser classicados como politicamente incorretos, batamos cadeira (a de madeira, na qual sentvamos), urrvamos e assobivamos quando o Stimo de Cavalaria ou Zorro (e seu el Tonto, mais o brilhante cavalo Silver) apareciam em cena para perseguir ndios e bandidos malvados, como de regra e acabar com a selvageria que estavam praticando contra os pobres e indefesos. O artigo de Jnio trata Lula, o ministro regente, como o mocinho dos lmes de faroeste. Sua reapario no centro do governo teria o dom miraculoso de mudar tudo, colocando para correr ndios e bandidos s pela sua apario gloriosa. Na avaliao de Jnio, o empresariado, os polticos e jornalistas oposicionistas passaram, em minutos, da euforia com que j se consideravam virtuais donos do poder, espera s do ltimo empurro, para um misto de surpresa raivosa e aturdimento com seu prprio futuro. Os atacados poderiam reagir classicando Jnio de Freitas como jornalista situacionista, no que efetivamente ele se transfor mou, infelizmente, para seus muitos admiradores, como eu. Ainda o respeito por seu passado, mas nos ltimos tempos sua viso cou facciosa, unilateral, antijornalstica. A apurao dos fatos para com eles embasar uma interpretao tem sido substituda pela opinio voluntarista, que elevou Lula condio de semideus (se ele no chegou a um patamar acima nesse Olimpo particular). Lula volta ao poder como um exaltado contra esse estado de coisas, derivado da imobilidade de Dilma, que congelou o governo e levou o pas a uma marcha para a recesso. Ele admite, ento, que Lula, convidado para o ministrio por Dilma, dar um golpe branco para assumir o comando do qual a presidente abriu mo. Claro: tica e moral que se lixem, como diziam os leninistas, os iluminados. Nessa viso fantasiosa, Jnio acredita que Lula, por exemplo, vai confrontar os que, no Congresso e fora dele, tm engajamentos com negcios, entre outros setores, no pr-sal e contra a Petrobras, aos quais o ex-presidente se ope. Como, se o desvio de dinheiro, o superfaturamento, os contratos viciados, as licitaes dirigidas e outras prticas extremamente onerosas se tornaram procedimentos sistemticos no governo dele, apenas se agravando por pura incompetncia no de Dilma? Como, se o pr-sal foi profundamente prejudicado pela politicagem e a rapinagem que se inltraram na Petrobras atravs de uma j indesmentvel organizao criminosa, com seu ncleo nos 11 funcionrios graduados da estatal e polticos organizados em confraria pelo senador Delcdio do Amaral, a criatura de Zeca do PT, presente posse de Lula? Sintomtico que, at ser preso, Delcdio era o senador bom de trabalho, de negociao, de convvio, que passou a merecer toda conana do PT no poder, e, depois da delao, um criador de bazas, articulador de manobras para encobrir delinquncias, o usurio de acusaes para beneciar-se. Jnio diz acreditar que a delao (por ele colocada entre aspas, para desacredit-la j quando a grafa) sugere, em tudo, o modelo que escolheu seguir: Roberto Jeerson. Modelo que o PT no poder acabou absorvendo e com o qual convive, assim como convive com Paulo Maluf (presente solenidade de posse do amigo Lula, que o foi visitar em sua casa) e Fernando Collor de Mello e quetais. Induzindo antes a resposta, Jnio faz uma pergunta formal, s por fazer: quem o Delcdio verdadeiro?. Aquele que, num passe de mgica, subitamente, passa de mdico a monstro ao renegar suas origens, ao trair a ormet, a regra do silncio? uma mutao to articial quanto a que Jnio de Freitas atribui a Lula, o super-homem (da Marvel, no de Nietzsche, para ser el ao per sonagem). Na verdade, quem mudou foi o jornalista, o que uma pena para ns e uma perda irrecupervel para a sua biograa. O jornalismo, sem qualquer adjetivo acompanhante, seja oposio situao ou qualquer outro, lamenta o passamento de Jnio de Freitas.Moro: juiz suspeito?O juiz Srgio Moro tem sido acusado de parcial, interessado pessoalmente nas causas que julga, vinculado ao PSDB e de no ter iseno para presidir a instruo do processo derivado da Operao Lava-Jato. Milhares de textos j foram produzidos com base nessas suposies e acusaes. Dois anos depois de ter iniciado o caso, no entanto, ele prossegue frente da ao, que se tornou a maior de combate corrupo da histria do Brasil. No por qualquer conspirao para us-lo como instrumento da destruio do governo do PT. Ele tem resistido ao nico combate que pode ser travado contra ele: no mbito do judicirio. Em outubro de 2014, Antonio Carlos de Almeida Castro, na condio de advogado do doleiro Alberto Youssef, pediu a declarao de suspeio de Moro perante o Superior Tribunal de Justia. Argumentou que a atuao do juiz federal seria irrespondvel e iria levar derrubada da Lava Jato. Segundo ele, j que o juiz se dera por se declarar suspeito em relao ao seu cliente em outra ao, no poderia mais atuar em nenhum outro processo relativo mesma pessoa. O mrito da ao, porm, no chegou a ser julgado pelo STJ, porque Youssef fez um acordo de delao premiada. Ao realiz-la, desistiu do recurso, que foi arquivado sem julgamento e levou o famoso advogado a desistir da defesa do doleiro. Em janeiro de 2015, a empreiteira OAS pediu a Sergio Moro que se declarasse suspeito e deixasse a conduo dos processos e inquritos vinculados operao. Seus advogados tambm requereram a nulidade de inmeras provas e a nulidade do processo desde o princpio.

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8 Na petio, usaram o mesmo argumento: de que, em 2010, o juiz havia se declarado suspeito por razes ntimas para atuar em um inqurito que tratava do doleiro Alberto Youssef. Ele discordara do encaminhamento dado pelo Ministrio Pblico Federal a um acordo de delao premiada fechado com o doleiro em relao a outro escndalo, o do Banestado, que desvendou remessas ao exterior. Para a OAS, a deciso impediria Moro de conduzir qualquer outro processo em que estivesse envolvido o corru delator Alber to Youssef. Tambm Gerson de Mello Almada, executivo da Engevix, tentou o mesmo caminho. Seus advogados sustentaram que houve violao ampla defesa por no terem tido acesso aos termos de colaborao premiada de Youssef e do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Mas no conseguiram que fossem declaradas ilcitas as delaes premiadas usadas nos autos. Ao longo de sua carreira, Moro tambm foi alvo de procedimentos administrativos no Conselho Nacional de Justia por causa da sua conduta, considerada parcial e at incompatvel com o Cdigo de tica da Magistratura. Todos os procedimentos foram arquivados, depois de serem instrudos sob sigilo. Entre as reclamaes apresentadas, uma foi porque ele mandou a Polcia Federal ociar a todas as companhias areas para saber os voos em que os advogados de um investigado estavam. Ou quando determinou a gravao de vdeos de conversas de presos com advogados e at familiares por causa da presena de tracantes no presdio federal de Catanduvas, no Paran. O habeas corpus foi rejeitado por quatro votos a um. A maioria dos ministros da 2 Turma do Supremo Tribunal Federal acompanhou o voto do relator, ministro Eros Grau, segundo o qual havia indcios de subjetividade, mas nada que provasse suspeio ou parcialidade do juiz. O decano do STF, Celso de Mello, foi voto vencido. Ele se referiu a fatos extremamente preocupantes, como o monitoramento de advogados e o retardamento do cumprimento de uma ordem emanada do TRF-4. No sei at que ponto a sucesso dessas diversas condutas no poderia gerar a prpria inabilitao do magistrado para atuar naquela causa, com nulidade dos atos por ele praticados, disse ele. O interesse pessoal que o magistrado revela em determinado procedimento persecutrio, adotando medidas que fogem ortodoxia dos meios que o ordenamento positivo coloca disposio do poder pblico, transformando-se a atividade do magistrado numa atividade de verdadeira investigao penal. o magistrado investigador. Hoje, o ministro defende a permanncia de Moro frente das investigaes da Lava-Jato. Sobre o rastreamento das viagens, o vice-corregedor do Tribunal Regional Federal da 4 regio, desembargador, Celso Kipper, em deciso de dezembro de 2014, entendeu haver certo exagero na armao que o magistrado estaria investigando a vida particular dos advogados. No h qualquer indcio de que a vida par ticular dos advogados interessasse ao magistrado. O CNJ tambm arquivou o pedido. Outra participao polmica de Sergio Moro foi como juiz federal de execuo penal do Paran. Ele determinou o monitoramento das conversas entre presos e advogados no parlatrio do presdio federal de segurana mxima de Catanduvas. Os alvos eram dois tracantes de drogas: o colombiano Juan Carlos Abadia e o brasileiro Fernandinho Beira-Mar. Sob a justicativa de eles terem uma grande rede de contatos internacionais, Moro mandou instalar microfones e cmeras nas salas de visitas e nos parlatrios do presdio para que fossem gravadas todas as conversas dos internos. O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil reclamou ao CNJ, em 2009, que Moro e um outro juiz federal autorizam e permitem a gravao de udio e vdeo de conversas entre presos e visitantes/familiares, inclusive advogados, de forma irrestrita e aberta. A existncia e funcionamento desses aparelhos ultraja os direitos dos advogados de avistar-se, pessoal e reservadamente, com seus clientes, violando, ainda, a prpria cidadania, o Estado Democrtico de Direito e o sagrado direito de defesa, arguiu a OAB. A entidade ociou aos dois juzes. Moro respondeu que a instalao desses equipamentos teve o objetivo de prevenir a prtica de novos crimes, e no interferir no direito de defesa. Sua ordem era para que todo material probatrio colhido acidentalmente que registrasse contatos do preso com seu advogado fosse encaminhado ao colegiado de juzes de execuo para evitar o uso das gravaes em processos. Moro ressalvou que o sigilo da relao entre advogado e cliente no absoluto. Legtimos interesses comunitrios, como a preveno de novos crimes e a proteo da sociedade e de terceiros, podem justicar restrio a tal sigilo. Ele se justicou com base em um precedente de uma corte federal americana, segundo o qual o sigilo das comunicaes entre advogado e cliente pode ser quebrado se ele for usado para facilitar o cometimento de crimes. O Conselho Nacional de Justia arquivou o pedido, sem sequer analis-lo. J decidira contra a posio da OAB em processo anterior. A investigao do escandaloso caso Banestado, banco usado para a remessa de bilhes de dlares ao exterior, levou Moro ao CNJ algumas vezes. Ao contrrio da Lava-Jato, a operao foi completamente anulada, sem ter efeito prtico. O que talvez tenha reforado a convico do juiz Sergio Moro de que o seu caminho no coberto de ores.A escuta no centro do poderDe volta de uma das idas aos Estados Unidos, trouxe um volume que ocupou a maior parte da minha bagagem: a transcrio completa das gravaes que o presidente do pas, Richard Nixon, fez secretamente das suas conversas no Salo Oval da Casa Branca, em Washington. Levei alguns meses para dar conta dos milhares de pginas, entre a degravao e documentos acompanhantes. Mas valeu a pena. O escndalo de Watergate se tornou uma das minhas obsesses. Nunca consegui me satisfazer com as explicaes dadas para a prtica suicida de Richard Milhous Nixon, um dos mais mar cantes presidentes da histria americana. Talvez o mais complexo. Mesmo rstico, um dos mais indecifrveis e surpreendentes. Sua maior mgoa foi ter sido derrotado por John Kennedy, o jovem, bonito e impressionante candidato do Partido Democrata, da odiada pela maioria silenciosa elite da costa leste. Foi por uma diferena msera de votos. E por um erro fatal de Nixon diante das cmeras de televiso, no primeiro debate presidencial transmitido para todo o pas por esse novo e revolucionrio meio de comunicao. Se tivesse suado menos, gaguejado menos e no fosse to feio teria vencido, sem dvida. Nixon parecia derrotado de vez, mas reagiu e conseguiu vencer uma disputa seguinte, Melhor ainda: na reeleio, obteve a maior de todas as vitrias de um candidato presidencial. Por que arriscar seu belo capital com a ridcula espionagem na sede de campanha dos democratas num prdio em Washington chamado Watergate (que fui visitar por inteiro quando l estive)? Depois disso, por que gravar na ntegra as conversas na dependncia mais reservada da sede do governo americano, inclusive as

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9 que podiam compromet-lo? Quando a espionagem foi revelada, descobriram-se tambm as dezenas de tas. Uma a uma, Nixon teve que envi-las ao juiz John Sirica, que presidia o processo, instigado pelo procurador especial que acompanhava o caso. medida que chegavam aos destinatrios, elas foram formando a corda eletrnica para Nixon se enforcar. Restou-lhe renunciar, o primeiro presidente americano a cometer esse ato, impensvel num pas de guerreiros brutos, para no sofrer o impeachment, tambm indito. As tas, que ouvi, na Biblioteca do Congresso, so um dos mais pungentes e misteriosos documentos humanos. Uma pessoa honesta que as encarar chegar ao m da audio mais perplexo e impressionado do que antes de encar-las. s vezes bom no ter certeza nem respostas. A vida se torna mais fascinante. J ouvi duas vezes todas as gravaes de conversas do ex-presidente Lula. Vou ouvi-las ainda outras vezes. Mutatis mutandi ne las Lula se revela assemelhado a Nixon, tambm de origem humilde, atormentado na famlia, hostilizado pelo pai (ao qual tambm era hostil), imensamente grato me, querendo ser charmoso e leve (quando era feio e moralmente pesado), um estadista. Apesar dos seus golpes sujos, da sua linguagem chula, do abuso de poder que lhe parecia uma tentao incontrolvel, do inquisidor maccarthista, Nixon foi um estadista. Praticou iniquidades no Vietn, como seus antecessores, mas foi muito mais armativo do que Lyndon Johnson, que tinha o perl do homem decidido, inexistente em Nixon. Foi China, estabeleceu comunicao vis--vis com a Unio Sovitica e etc. O Lula das gravaes uma verso diferente de uma matriz parecida: desbocado, sarcstico, arrogante, falso, presunoso, eglatra, autocrata e uns outros tantos adjetivos em circulao em torno dessas gravaes. No h dvida de ser um poltico carismtico, envolvente, sedutor, arguto at a alma, um Macunama que nunca leu a formulao literria desse heri sem carter que lhe serve de tipo ideal (e o que Lula efetivamente leu, sem que, com essa lacuna inaceitvel, tenha perdido em aprendizado emprico e premonio de predestinado?). Na sua progresso de grandeza at a mitologia, mitomania e megalomania, Lula s no estava preparado para a reverso das aparncias, para a desconstruo da imagem que lavrou meticulosamente, de forma competente, quase perfeita. Mas no quase que se inltra a condio humana. O Lula dos telefonemas grampeados pode ser o Lula que car na histria, no o amvel comandante que trata os interlocutores por querido (por mera ttica de seduo, na maioria das vezes, como de regra nessas pessoas ardilosamente afetivas e intimistas), que fala a linguagem do povo, que se livra das enrascadas, que obstinado, inteligente o bastante para colocar um banqueiro brasileiro que se internacionalizou num mercado selvagem para ar ranjar dinheiro e gerar conana, enquanto ele fazia o que gosta: ajudar o povo e se associar aos riscos, incorporando seus hbitos, imaginando se tornar um igual a eles graas abertura desbragada dos cofres pblicos. O Lula agrado ao natural um embuste, uma gura que se depravou pela mutao dos seus grandes mritos em enormes vcios. o Luiz Incio da Silva que car, numa frustrao de estadista que amargou os anos nais de Richard Milhous Nixon.Onde cam os intelectuaisO ano de 1968 comeou no mundo a 1 de janeiro. No Brasil, terminou no dia 13 de dezembro, quando foi editado o Ato Institucional nmero cinco. O AI-5 foi o mais ttrico dos documentos ociais da histria republicana brasileira, o anticlmax da progresso democrtica que estava em curso. Parecia que o Brasil viveria os tempos de liberdade e criatividade que geraram a primavera checa nos pases da Cortina de Ferro e a revolta estudantil pelas ruas de Paris, do lado Ocidental. A cultura, que expressava com delidade a tentativa de sair dos vrios tons de cinza nos dois primeiros governos militares, sofreu na pele tambm a ao dos grandes punhais em ao a partir da cobertura dada pelo AI-5. Isso porque a linguagem foi se tornando cada vez mais agressiva. A tal ponto que chegou ao modo de inter pretar, aos cenrios, ao clima, sobretudo nos palcos teatrais. Nada foi mais representativo da longa noite dos punhais como a invaso do teatro e o espancamento dos atores que encenavam a verso, Jos Celso Martinez, de Roda Viva, do outrora buclico e lrico Chico Buarque de Holanda. Quem viveu os ltimos anos dos 1960 sabe o que foi esse terror e brutalidade, que zeram Chico (como Caetano, Gil e muitos outros) emigrar em busca da salvao. Vtima e mrtir da intolerncia., Chico Buarque agora algoz. Ele proibiu que o ator e diretor Cludio Botelho continue a apresentar Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos, dramatizao de vrias msicas do lho de Srgio Buarque de Holanda. Depois da queda, o coice. Botelho foi impedido de continuar a apresentar o espetculo no dia 19, em Belo Horizonte, por espectadores revoltados pelas crticas do artista a Dilma e Lula, num momento de improviso do texto. As vaias foram num crescendo at chegarem prximas da agresso fsica. No dia seguinte, Botelho soube da disposio de Chico proibir o uso das suas canes no espetculo, depois de apresentaes no Rio de Janeiro e entendimento de muito tempo. A atitude certamente nada tem a ver com o contedo da encenao. Deve-se simplesmente manifestao crtica de Botelho contra os lderes do PT, partido que Chico apoia. Ele podia continuar a dar todo seu apoio sem transform-lo num instrumento de censura e coao, como os ataques que sofreu da censura estatal e de parte do aparelho repressivo do governo durante o regime militar. Gnio musical, Chico tem connado a esse mbito as suas qualidades. Fora dele, est se tornando um pastiche de si mesmo.Sai da, LulaNo auge do mensalo, o ento deputado federal Roberto Jefferson, lder do PTB, da base aliada do governo, advertiu Jos Dirceu, o todo-poderoso chefe da Casa Civil de Lula: Sai da, Z. Sai rpido. A frase se tornou clebre na j extensa fraseologia da histria poltica recente do Brasil. Na ocasio, Dirceu e todos os petistas a subestimaram. Anal, Jeerson foi um dos mais destacados integrantes da chamada tropa de choque de Collor, sempre disposta briga, mas fragorosamente derrotada pelo impeachment do seu lder maior. Cometeram um grave erro, numa sucesso de estarrecer, muitos deles primrios. Dirceu foi processado e preso, junto com outros petistas notveis. O governo de Lula s no se exauriu no primeiro mandato porque ele tem muito mais flego e capa-

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10 cidade do que Dilma, alm de uma estrela sem igual no espao terrestre do Brasil. Jeerson sabia o que falava. Alm de escolado na malandragem poltica e nos acertos de bastidores, era um destacado advogado criminalista, cuja atuao no jri se notabilizava por seu timbre de cantor de pera. Se no tivesse sido obrigado a atuar sombra do poder, mas com a mesma ecincia de antes, como ainda faz, ele podia dar o grito para o ex-presidente, mandando-o sair do lado da presidente. Ao invs disso, Dilma Rousse, a mais desastrada das presidentes da repblica brasileira, o chamou para voltar ao governo e o empossou no cargo. O mesmo cargo que Jos Dirceu pretendia transformar no de primeiro-ministro em um parlamento sua convenincia, sem avaliar corretamente o que ia por dentro de Lula que, como em relao a todos os petistas, aloprados ou no, abandonou pelo meio do caminho quando se transformaram em estorvo.O juiz e suas circunstnciasArtigo de Srgio Rodas divulgado pela revista eletrnica Conjur comea com este pargrafo: Por terem suas conversas telefnicas ilegalmente divulgadas ao pblico pelo juiz federal Sergio Moro, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousse (PT), os ministros Jaques Wagner e Nelson Barbosa, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), e os demais envolvidos nos udios podem processar a Unio por danos morais. E se o Estado concluir que Moro agiu com dolo ou culpa, pode exigir que ele reponha aos cofres pblicos os eventuais valores gastos com as indenizaes. Na letra da lei, a constatao verdadeira e o artigo se dedica a fundamentar a armativa em remisses legais violadas, ultrapassadas ou contornadas abusivamente pelo juiz federal de Curitiba. Questiona tambm a justicativa que apresentou ao adotar para essa medida: de que o interesse pblico prevalece sobre a intimidade. A opinio do criminalista Rogrio Taarello de que o texto legal no permite excees ao sigilo, que se impe ao produto da interceptao. Do que conclui o jornalista que Moro exps indevidamente a privacidade do ex-presidente e de seus interlocutores. E esse ato ilcito j gerou efeitos negativos aos envolvidos. Dilma foi acusada de nomear Lula ministro da Casa Civil apenas para que ele ganhasse foro privilegiado e fugisse de Sergio Moro. Isso serviu de fundamento para o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes para suspender a posse do petista no cargo. Acrescenta que Lula, alm de ainda no ter assumido a pasta, tambm foi criticado por tentar interferir nas investigaes contra ele. Isso porque Lula declarou que o novo ministro da Justia, Eugnio Arago, deveria cumprir papel de homem quanto lava jato, disse a Dilma que a Suprema Corte est totalmente acovardada e pediu que Jaques Wagner conversasse com a presidente sobre a ministra Rosa Weber, que julgaria um pedido de suspenso das investigaes sobre dois imveis atribudos ao lder do PT, um triplex em Guaruj (SP) e um stio em Atibaia (SP) o qual Rosa acabou negando. O decano do STF, Celso de Mello, rebateu essas armaes, classicando-as de reao torpe e indigna, tpica de mentes autocrticas e arrogantes, que no conseguem disfarar o temor do imprio da lei e de juzes livres e independentes. O jornalista lembra que outro interlocutor prejudicado com a divulgao de conversas privadas foi o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, que brincou com Lula dizendo que ele tinha alma de pobre, pois Atibaia, onde ele acusado de ter um stio, se fosse no Estado do Rio, no seria uma rea nobre como Petrpolis ou Itaipava, e sim em Maric, uma merda de lugar. Depois das crticas, o prefeito carioca teve que pedir desculpas pblicas populao da cidade. O dano inclui ainda a revelao de dilogos de pessoas que no eram investigadas como Jaques Wagner, Nelson Barbosa e o presidente do PT, Rui Falco e que em nada contribuam para o processo como papos entre a mulher de Lula, Marisa, e o lho deles Fbio Lus sobre os panelaos, e entre o ex-presidente e seu irmo Vav, com assuntos mundanos. E se o Estado depois de pagar as indenizaes que forem cobradas, se as sugestes da Conjur forem seguidas pelos prejudicados entender que Sergio Moro agiu com dolo ou culpa ao levantar o sigilo dos udios, poder mover ao regressiva contra ele. Nesse caso, o juiz federal pode ser condenado a ressarcir a Administrao Pblica os valores que ela eventualmente gastar com as reparaes pelos danos morais. Na sua catilinria, o jornalista acrescenta que, devido divulgao da conversa entre Lula e Dilma, ocorrida quando j cessara a autorizao para as escutas, Sergio Moro pode ter que responder por crimes e violaes funcionais. E mais: por saber que estava lidando com uma prova ilcita, Moro assumiu o risco de cometer o crime do artigo 325 do Cdigo Penal (revelar fato de que tem cincia em razo do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelao). Assinala o texto que as conversas de Lula gravadas at as 11h13 da quarta-feira, 16, quando Sergio Moro decretou o m das escutas, no perdem sua validade processual por terem sido divulgadas, avaliam os especialistas em Direito Penal ouvidos pela ConJur Entretanto, eles declaram que o dilogo de Lula e Dilma captado s 13h32 do mesmo dia prova ilcita, e no pode ser usada. O artigo unilateralmente do contra, empenhados em desfazer as alegaes do juiz e ressaltar a contestao que lhe zeram vrios juristas ouvidos pelo jornalista. Ou a esmagadora maioria dos advogados partilha essas interpretaes ou a ConJur s ouviu um dos lados. Independentemente dessa controvrsia, ainda longe de esgotar os argumentos a favor ou contra Moro, o pas s ganhar se um procedimento qualquer for instaurado para apurar tudo que ele fez. Se forem comprovados os excessos e abusos atravs dos quais ele teria violado expressamente as normas legais, que seja punido. E se a punio for ressarcir (em procedimento regressivo) a Unio pelo valor das indenizaes que ela for obrigada a pagar em aes propostas pelos atos praticados pelo juiz, convido desde j todos os cidados privilegiados pela rara oportunidade de ouvir os poderosos falando, sem censura interna, transmitindo o que pensam de fato e o que fazem por trs das encenaes no palco, a contriburem (em vaquinha nacional) para o juiz quitar esse dbito. Mas ser que os bandidos de colarinho branco agrados na escuta tero o cinismo (ou seria a coragem cvica?) de acionar a Unio? Se algum direito personalssimo deles foi violado, a gravao ilegal permitiu aos brasileiros constatar sem qualquer des-

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11 mentido at agora como ocorre a promiscuidade entre as autoridades pblicas e atores particulares, como a opinio pblica enganada, como se rouba o errio, como um ex-presidente se julga to poderoso e inalcanvel que trata autoridades como servos e a prpria presidente de uma plataforma to alta que ela se desdobra em acachapantes mesuras para agrad-lo, como se fosse uma discpula em falta diante do mestre do universo. claro que o juiz Moro sabia dos riscos que assumiria com suas decises. Mas decidiu se expor a eles, a todos eles. E ns, se decidirmos entrar para a turma dos puristas da lei e beletristas da norma, aqueles que ganham rios de dinheiro para atuar em causas polmicas (ou escusas), que s subscrevem manifestos quando eles vo de encontro aos seus interesses pessoais ou corporativos e s se tornam pais da ptria quando lhes rendem algum (por fora ou por dentro), ento abandonemos mngua um juiz cuja deciso se legitimou pela reao do pas. Moro talvez j seja o juiz mais notvel da histria do judicirio brasileiro. Desta vez, no o mensageiro das ms notcias que ser abatido. o juiz que desnudou uma verdade to profunda e impactante que virou demnio, mesmo que nenhum dos seus inquisidores tenha desmentido tudo que foi dito e gravado nem consiga evitar a constatao inevitvel para quem ouve com iseno as tas, chegando frase de mile Zola diante de escndalo parecido: ah, a gente na, que canalhas!A interveno de ZavasckiNo momento em que escrevo, o juiz Srgio Moro j deve ter recebido cpia do despacho de ontem do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, para fazer o que j fez: remeter corte todas as interceptaes de conversas telefnicas doex-presidente Luiz Incio Lula da Silva.A deciso foi tomada no dia anterior, atendendo reclamao da Advocacia-Geral da Unio. Eles alertaram para o fato de as interceptaes registrarem dilogos coma presidente da repblica, Dilma Rousse, e com outros agentes pblicos que detm prerrogativa de foro.Relator da Operao Lava-Jato na ltima instncia, o ministro reconheceu que s o STF pode decidir sobre a necessidade de desmembramento de investigaes que envolvam autoridades com prerrogativa de foro. Zavascki determinou ainda a suspenso dos efeitos do ato do juiz Srgio Moro, que autorizou a divulgao das conversaes telefnicas. Na reclamao, a AGU alega que houve usurpao de competncia do Supremo, porque no curso das interceptaes, tendo como investigadoo ex-presidente Lula, foram captadas conver sascom agentes pblicos com prerrogativa de foro. Sustenta que o magistrado de primeira instncia, nessas circunstncias, deveria encaminhar tais conversas interceptadas para o rgo jurisdicional competente, o Supremo Tribunal Federal, conforme previsto na Constituio federal. A deciso de divulgar as conversas da presidente, ainda que encontradas fortuitamente na interceptao, no poderia ter sido prolatada em primeiro grau de jurisdio, por vcio de incompetncia absoluta, sustentou a AGU, acrescentando que a comunicao envolvendo a presidente da repblica uma questo de segurana nacional. De acordo com o ministro Teori Zavascki, embora a interceptao telefnica tenha sido aparentemente voltada a pessoas que no tinham prerrogativa de foro, o contedo das conversas cujo sigilo, ao que consta, foi levantadoincontinenti sem nenhuma das cautelas exigidas em lei passou por anlise que evidentemente no competia ao juzo reclamado. Assim, o relator deferiu a liminar para que o STF, tendo sua disposio o inteiro teor das investigaes promovidas, possa, no exerccio de sua competncia constitucional, decidir acerca do cabimento ou no do seu desmembramento, bem como sobre a legitimidade ou no dos atos at agora praticados. Cumpre enfatizar que no se adianta aqui qualquer juzo sobre a legitimidade ou no da interceptao telefnica em si mesma, tema que no est em causa. O que se inrma a divulgao pblica das conversas interceptadas da forma como ocor reu, imediata, sem levar em considerao que a prova sequer fora apropriada sua nica nalidade constitucional legtima (para ns de investigao criminal ou instruo processual penal), muito menos submetida a um contraditrio mnimo. A esta altura, h de se reconhecer, so irreversveis os efeitos prticos decorrentes da indevida divulgao das conversaes telefnicas interceptadas. Ainda assim, cabe deferir o pedido no sentido de sustar imediatamente os efeitos futuros que ainda possam dela decorrer, concluiu o relator. Diante da relevncia dos fundamentos da reclamao, o relator deferiu a liminar requerida. Com o inteiro teor das investigaes promovidas, o Supremo poder, no exerccio de sua competncia constitucional, decidir sobre o cabimento ou no do seu desmembramento e sobre a legitimidade ou no dos atos at agora praticados. Tambm cautelarmente, Zavascki decidiu sustar os efeitos da deciso que suspendeu o sigilo das conversaes telefnicas interceptadas, pela ilegitimidade dessa deciso. Em primeiro lugar, porque emitida por juzo que, no momento da sua prolao, era reconhecidamente incompetente para a causa, ante a constatao, j conrmada, do envolvimento de autoridades com prerrogativa de foro, inclusive a prpria Presidente da Repblica. Em segundo lugar, porque a divulgao pblica das conversaes telefnicas interceptadas, nas circunstncias em que ocorreu, comprometeu o direito fundamental garantia de sigilo, que tem assento constitucional. A Constituio somente permite a inter ceptao de conversaes telefnicas em situaes excepcionais, por ordem judicial, nas hipteses e na forma que a lei estabelecer para ns de investigao criminal ou instruo processual penal, admitiu o ministro. Ele cita a lei sobre a matria, que, alm de vedar expressamente a divulgao de qualquer conversao interceptada, determina a inutilizao das gravaes que no interessem investigao criminal. No h como conceber, portanto, a divulgao pblica das conversaes do modo como se operou, especialmente daquelas que sequer tm relao com o objeto da investigao criminal. Contra essa ordenao expressa, que repita-se, tem fundamento de validade constitucional descabida a invocao do interesse pblico da divulgao ou a condio de pessoas pblicas dos interlocutores atingidos, como se essas autoridades, ou seus interlocutores, estivessem plenamente desprotegidas em sua intimidade e privacidade. Prossegue Teori Zavascki : Desse modo diversamente do que sucede nas hipteses normais de confronto entre a liberdade de informao e os direitos da personalidade no mbito da proteo ao sigilo das comunicaes, no h como emprestar peso relevante, na ponderao entre os direitos fundamentais colidentes, ao interesse pblico no contedo das mensagens veiculadas, nem notoriedade ou ao protagonismo poltico ou social dos interlocutores. O ministro enfatiza que no ir adiantar na sua deciso qualquer juzo sobre a legitimidade ou no da interceptao telefnica em si mesma, porque esse tema no est em causa. O que se inrma a divulgao pblica das conversas interceptadas da forma

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12 como ocorreu, imediata, sem levar em considerao que a prova sequer fora apropriada sua nica nalidade constitucional legtima (para ns de investigao criminal ou instruo processual penal), muito menos submetida a um contraditrio mnimo. Mas ele reconhece como irreversveis os efeitos prticos decorrentes da indevida divulgao das conversaes telefnicas interceptadas. Ainda assim, decidiu atender o pedido da AGU para sustar imediatamente os efeitos futuros que ainda possam dela decorrer e, com isso, evitar ou minimizar os potencialmente nefastos efeitos jurdicos da divulgao, seja no que diz respeito ao comprometimento da validade da prova colhida, seja at mesmo quanto a eventuais consequncias no plano da responsabilidade civil, disciplinar ou criminal. Tomada essa deciso, Zavascki examina ainda os atos ampliativos da escuta, dentre os quais est a deciso tomada em 26 de fevereiro, para autorizar a interceptao telefnica de advogado, sob o fundamento de que estaria minutando as escrituras e recolhendo as assinaturas no escritrio de advocacia dele. Aparentemente, observa o ministro, s em 16 de maro surgiu efetiva motivao para o ato, citando deciso de Moro: Mantive nos autos os dilogos interceptados de Roberto Teixeira, pois, apesar deste ser advogado, no identiquei com clareza relao cliente/advogado a ser preservada entre o ex-Presidente e referida pessoa. Rigorosamente, ele no consta no processo da busca e apreenso 5006617-29.2016.4.04.7000 entre os defensores cadastrados no processo do ex-Presidente. Alm disso, como fundamentado na deciso de 24/02/2016 na busca e apreenso (evento 4), h indcios do envolvimento direto de Roberto Teixeira na aquisio do Stio em Atibaia do ex-Presidente, com aparente utilizao de pessoas interpostas. Ento ele investigado e no propriamente advogado. Se o prprio advogado se envolve em prticas ilcitas, o que objeto da investigao, no h imunidade investigao ou interceptao. Diz o ministro que, sem adiantar exame da matria, constata-se ser ela objeto de petio nos autos de Pet 5.991, a qual, com a presente deciso, sofre, no que diz respeito jurisdio do STF, perda superveniente de interesse processual, devendo ser arquivada. DECISO HISTRICA Da deciso do ministro Teori Zavascki no se pode dizer nem que ela se agrega a uma suposta trama golpista contra o PT e o seu governo, nem que passa a mo na cabea dos petistas e os resguarda dos desdobramentos da Operao Lava-Jato. uma pea solidamente tcnica, em contraste com vrias outras decises no processo de natureza poltica. Ao reformar a deciso do juiz Srgio Mora, por consider-la afrontosa s leis pertinentes ao caso e Constituio, o ministro do Supremo diz que seu objetivo prevenir maiores danos e resguardar os interesses do poder pblico em eventos futuros. Ao mesmo tempo, ao transferir tudo que diga respeito presidente Dilma Rousse e ao ex-presidente Lula, assume a competncia originria do STF. Provavelmente desentranhar dos autos as gravaes porque elas foram viciadas, no na origem, mas no seu prosseguimento quando alcanou autoridades com foro privilegiado, e no momento da sua liberao, quando Moro no era mais o juiz natural em relao a Lula. No entanto, Zavascki deixa claro que no ir ignorar as infor maes trazidas pela revelao das escutas, porque elas se tornaram matria do plano pblico e notrio, inclusive pelo encaminhamento a ele de todo o material feito pelo prprio Moro. Expurgado das incrustaes irregulares e ilegais, o processo contra Luiz Incio Lula da Silva ser submetido justia para um pronunciamento tcnico, como tem que ser, perante a mais alta corte do pas. O ministro relator fez a assepsia necessria para que seus pares tenham condies de instaurar um dos atos mais decisivos da democracia brasileira neste momento.A viso americanaComeou a circular e provocar discusses o texto de uma entrevista dada agncia britnica BBC no Brasil por Joel Velasco. Ele traba lhou com o ex-vice-presidente Al Gore e serviu como conselheiro snior na embaixada americana no Brasil no governo Bill Clinton. O trecho mais polmico das suas declaraes quando ele defende que, em algum momento, haja um ponto nal na operao: Assim como no m da ditadura tivemos de reconhecer os erros, prometer nunca mais repeti-los e perdoar os que erraram, no caso da Lava Jato isso vai ser necessrio. De chegar num momento em que se diga que investigamos o que deu, que certamente houve outros erros, mas que os maiores culpados esto pagando e importante que o Brasil comece uma nova fase. Algumas pessoas deduzem dessa armativa que os EUA e no apenas Velasco querem sustar a operao Lava-Jato para que ela se restrinja a punir os petistas e seus aliados, poupando os tucanos e demais adversrio e inimigos do governo Dilma e de Lula. A pergunta foi feita pelo reprter da BBC a Velasco, que a respondeu claramente, sem subterfgios ou sem parecer que estivesse lanando um balo de ensaio. Reproduzo os principais trechos da entrevista para que o leitor tire suas prprias concluses. O que ele no poder fazer ignorar ou considerar conspirativa a crescente participao estrangeira, sobretudo dos Estados Unidos, sobre a Lava-Jato. Pelo contrrio: isso inevitvel e at positivo, embora represente um efeito e um desgaste quase to poderosos quanto a crise interna que o Brasil atravessa. Velasco opinou que a operao Lava-Jato representa um caso sem precedentes para autoridades dos Estados Unidos. Procuradores brasileiros e americanos tm trocado informaes sobre a investigao h algum tempo. sabido que o Departamento de Justia dos EUA investiga o papel da Petrobras no escndalo. Para Velasco, questo de tempo at que as autoridades americanas batam porta de todas as subsidirias da petrolfera e construtoras implicadas no caso. Dezenas de empresas esto envolvidas na operao, entre as quais algumas das maiores empreiteiras brasileiras. Vrias delas j tiveram dirigentes presos e condenados pela Justia no Brasil. O Foreign Corruption Practices Act (legislao nos EUA que trata da corrupo de empresas no exterior) e outras leis permitem ao governo americano processar qualquer companhia estrangeira por atos de corrupo executados fora dos Estados Unidos, desde que a empresa tenha algum vnculo ainda que mnimo com o pas. A condio, segundo Velasco, se aplica a quase todas as companhias denunciadas na Lava-Jato. As investigaes, diz ele, devero render s empresas multas altssimas nos Estados Unidos, alm das que, eventualmente, sejam condenadas a pagar no Brasil. Nascido nos EUA, Velasco lho de brasileiros e passou boa par te da juventude no Brasil. Hoje, ele vice-presidente do Albright Stonebridge Group, uma consultoria baseada em Washington. Os principais trechos da entrevista: BBC Como a Casa Branca est encarando a crise no Brasil? Joel Velasco No posso falar pela Casa Branca, mas diria que

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13 h uma decepo enorme com o que est acontecendo no Brasil. Os EUA enxergam o Brasil como um grande aliado, um pas que pelo menos nas ltimas dcadas era percebido como um lder emergente. Hoje essa posio est questionada, e o Brasil menos reconhecido por sua legitimidade moral e tica. O governo pode cair nas prximas semanas ou meses, mas juntar esses pedaos e reconstruir a credibilidade do Brasil vai levar anos. BBC Como a crise afeta a relao entre Brasil e Estados Unidos? Velasco Uma das grandes diculdades que vai car para o prximo presidente americano o fato de que quase todas as empresas brasileiras envolvidas com corrupo na Lava-Jato tm aes, investimentos ou, no mnimo, negcios aqui nos EUA. O Departamento de Justia americano e a comisso de valores mobilirios dos EUA esto investigando essas empresas e devem lhes propor multas absurdas em termos de valores. At hoje, acho que a maior multa j dada nos EUA para um caso de corrupo fora do pas foi de cerca de US$ 800 milhes. bem possvel que as multas que sero aplicadas sobre empresas brasileiras, no topo da lista a Petrobras, sero duas vezes maiores. Em alguns desses casos a questo ser delicada, porque h empresas quase estatais. E nesses casos valer o doa a quem doer. O novo presidente ou presidenta dos EUA, j com todas as diculdades para lidar com o Brasil, ter de ligar para o presidente brasileiro e dizer: Tenho uma pssima notcia: uma de suas empresas ter de pagar um bilho de dlares em multa ou ser levada Justia aqui e pagar bem mais. Como um presidente no Brasil vai engolir que a Petrobras, que j est cheia de dvidas, pague mais uma multa? BBC Isso se aplica a todas as empresas brasileiras condenadas na Lava-Jato? Velasco Qualquer uma das construtoras e qualquer uma das subsidirias da Petrobras. O caso da Fifa deixou bem claro. Quem liderou grande parte das investigaes sobre a corrupo na organizao foi o governo americano, simplesmente porque o dinheiro da Fifa estava passando por contas americanas. Qualquer dessas empresas brasileiras que fez negcios em dlar, usou contas nos EUA, tem escritrio de representao no pas pode ser acionada. No precisa nem ter aes em bolsa aqui. Segundo a legislao americana, essas questes podem levar certos executivos cadeia se no houver um acordo. um megaproblema, e quem acompanha isso nos EUA sabe que vai acontecer. Mas acho que no Brasil ainda no caiu a cha. BBC Como funcionam esses procedimentos? Velasco Aps investigaes internas do governo americano, eles vo procurar as empresas e perguntar: voc quer que a gente entre num tribunal e conte tudo o que descobriu de vocs, com a possibilidade de cadeia?. Normalmente as empresas propem um acerto e pagam multa. A outra opo para l de dramtica. Se deixam a deciso na mo de um juiz, ningum sabe o que pode acontecer. um captulo que ainda ser escrito. Desconheo outro caso to complexo como este (baseado na Foreign Corruption Practices Act), envolvendo um pas to grande como o Brasil. BBC Qual a melhor soluo para a crise no Brasil? Velasco -Dentre os cenrios possveis, acho que impeachment seria o mais desejvel. Mas em qualquer cenrio surge a questo: como cam as investigaes? Acho importante as investigaes continuarem, mas tambm reconheo que em algum momento a gente precise pr um ponto nal nessa histria. Assim como no m da ditadura tivemos de reconhecer os er ros, prometer nunca mais repeti-los e perdoar os que erraram, no caso da Lava -Jato isso vai ser necessrio. De chegar num momento em que se diga que investigamos o que deu, que certamente houve outros erros, mas que os maiores culpados esto pagando e importante que o Brasil comece uma nova fase. Num cenrio com um novo governo, seja quem for o presidente, possivelmente daqui a dois anos, o Brasil vai ter que ser governado por um pacto nacional. Vai exigir grandeza dos lderes polticos, e parte dessa grandeza vai ser aceitar um perdo. Todo mundo no Brasil agora faz comparaes com Water gate (escndalo que provocou a queda do presidente americano Richard Nixon em 1974). Uma das coisas mais importantes no ps-Watergate foi o fato de que o presidente que assumiu, Gerald Ford, perdoou Nixon e muitas pessoas (nos EUA, o presidente tem o poder de perdoar sentenas). Apesar de no momento ter sido muito impopular, isso foi importante para acalmar os nimos e fechar o captulo. BBC Um arranjo como esse no pode alimentar ainda mais a disputa poltica? No diro que a Lava-Jato foi feita para punir alguns partidos e favorecer outros? Velasco -No que o Brasil v deixar de investigar, mas o Brasil no pode car nessa inrcia, nesse processo de continuar investigando tanto que o pas pare. Em algum momento ter de haver um pacto. O lder que zer isso vai receber muitas crticas, mas o pas aguenta outro governo sem capacidade de governar? Aguenta mais dois anos de investigaes?A viso britnicaA revista britnica e Economist publicou editorial no qual conside ra que chegou a hora de a presidente Dilma Rousse deixar o cargo. Para a publicao, uma das mais inuentes do mundo, a escolha do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva para a Casa Civil foi uma tentativa grosseira de impedir o curso da Justia. Essa iniciativa torna Dilma inapta a permanecer na Presidncia. Economist acredita que a troca na presidncia da Repblica abriria caminho para um novo comeo no Brasil. Reproduzo a seguir a ntegra do editorial (Hora de partir) como material para reexo no debate que estamos travando. O melhor que a presidente tem a fazer agora renunciar As diculdades de Dilma Rousse vm se agravando h meses. Integrantes de seu crculo mais prximo esto envolvidos no gigantesco escndalo de corrupo da Petrobrs. A economia brasileira passa por sua pior recesso desde a dcada de 1930, motivada, em larga medida, por erros cometidos pela prpria presidente em seu primeiro mandato. A fragilidade poltica de Dilma deixou o governo praticamente impotente diante do aumento do desemprego e da deteriorao das condies de vida. Com sua aprovao na casa dos 10%, milhes de brasileiros saram recentemente s ruas para gritar: Fora Dilma!. Apesar disso, at agora a presidente podia sustentar, com boa dose de razo, que a legitimidade que lhe havia sido conferida pelas urnas em novembro de 2014 permanecia intacta e que nenhuma das acusaes que os adversrios lhe faziam eram sucientes para fundamentar um processo de impeachment. Tal como os integrantes do Ministrio Pblico e da Polcia Federal que investigam algumas das guras mais importantes de seu partido, o PT, Dilma podia declarar, sem gaguejar, que seu maior desejo era que a Justia fosse feita. Agora, porm, desfez-se esse manto de credibilidade. No ltimo dia 16, Dilma tomou a singular deciso de nomear seu ante-

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14 cessor, Luiz Incio Lula da Silva, para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Segundo ela, a colaborao que o ex-presidente teria para dar, estando no governo, seria de valia inestimvel. Anal, Lula um articulador nato e poderia ajudar a derrotar o impeachment no Congresso e, quem sabe, at mesmo a estabilizar a economia. Ocorre que, poucos dias antes, ele passara algumas horas detido para prestar depoimento Polcia Federal. A medida fora ordenada pelo juiz federal Srgio Moro, responsvel pela Operao Lava Jato, que investiga o escndalo da Petrobrs, em razo da suspeita de que o ex-presidente tenha se beneciado de propinas pagas em contratos superfaturados da estatal. No bastasse isso, promotores do Ministrio Pblico paulista acusam Lula de ocultar a propriedade de um apartamento no litoral do Estado. O lder petista nega as acusaes. A ida para o governo lhe conferiria alguma proteo: uma vez nomeado ministro de Estado, s o Supremo Tribunal Federal (STF) poderia julg-lo. Na ltima sexta-feira, porm, o ministro do STF Gilmar Mendes suspendeu a nomeao. H algum tempo, e Economist vinha defendendo que o destino da presidente Dilma Rousse deveria se decidido pela Justia ou pelos eleitores brasileiros, e no por polticos que tentam aprovar seu impeachment movidos por interesses no exatamente altrustas. Todavia, a nomeao de Lula congura uma tentativa grosseira de obstruo da Justia. Mesmo que no tenha sido a inteno, foi o efeito do ato de Dilma. Ao agir assim, ela ps os interesses estreitos de sua tribo poltica acima do imprio da lei. sinal de que no tem mais condies de exercer a Presidncia. Trs caminhos para deixar o Planalto de enorme importncia a forma como se dar a eventual sada de Dilma do Palcio do Planalto. e Economist continua acreditando que, na ausncia de provas de que a presidente tenha cometido ilegalidades, seu impeachment injusticado. O processo de impeachment atualmente em tramitao no Congresso Nacional baseia-se em alegaes, no comprovadas, de que Dilma teria recorrido a artimanhas contbeis para ocultar o tamanho real do dcit scal brasileiro em 2015. Parece antes um pretexto para destituir uma presidente impopular. Se os parlamentares responsveis por decidir o destino de Dilma pautarem sua deciso pelos desejos da populao, como sugeriu o deputado que comandar a comisso especial do impeachment, isso abriria um precedente perigoso: as democracias representativas no devem ser governadas por protestos ou pesquisas de opinio. Para tirar Dilma do poder, h trs caminhos que se assentam em bases mais legtimas. O primeiro seria mostrar que a presidente obstruiu as investigaes sobre o escndalo da Petrobras. H armaes nesse sentido na delao premiada que o senador Delcdio do Amaral fez Justia, e elas poderiam ser utilizadas para fundamentar um segundo pedido de impeachment, mas ainda no foram comprovadas e so negadas pela presidente. Incluir a tentativa de proteger Lula do juiz Srgio Moro conferiria maior robustez s razes de um novo pedido de impeachment. Uma segunda opo seria a convocao de novas eleies presidenciais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), caso que provado que a campanha de reeleio de Dilma foi nanciada por propinas desviadas por executivos da Petrobras. Mas essa investigao ainda deve se arrastar por vrios meses. A alternativa mais rpida, e menos traumtica, seria que Dilma renunciasse ao mandato antes de ser deposta. A sada de Dilma ofereceria ao Brasil a chance de um recomeo. Mas sua renncia, por si s, no seria suciente para solucionar os inmeros problemas que o Pas enfrenta. Num primeiro momento, a cadeira presidencial seria ocupada pelo vice-presidente Michel Temer. O atual lder do PMDB talvez consiga formar um governo de unio nacional, com a participao de partidos de oposio, o qual teria, em tese, condies de promover as reformas scais necessrias estabilizao da economia e reduo do dcit oramentrio, que atualmente chega a quase 11% do PIB. A questo que o PMDB de Temer tambm est profundamente envolvido no escndalo da Petrobras. Muitos dos polticos que participariam do novo governo, incluindo alguns lderes da oposio, so vistos pela populao brasileira como representantes de uma classe dirigente totalmente desacreditada. Dos 594 membros do Congresso Nacional, 352 so alvos de acusaes criminais. Uma nova eleio presidencial daria aos eleitores a oportunidade de conar as reformas a um novo lder. Mas a atual legislatura, com sua podrido, s ser renovada em 2018. As autoridades judicirias tambm tm explicaes a dar. Os responsveis pela Operao Lava-Jato merecem enorme crdito por fazer com que alguns dos empresrios e polticos mais poderosos do Brasil respondam por seus atos, mas se expuseram desnecessariamente ao desrespeitar certos procedimentos legais. O exemplo mais recente a deciso do juiz Srgio Moro de divulgar as gravaes de dilogos telefnicos entre Lula e seus aliados, incluindo a presidente Dilma. Na opinio da maioria dos juristas, s o STF poderia divulgar conversas em que uma das par tes protegida por imunidade, como o caso da presidente da Repblica. Isso no quer dizer que os aliados do governo tenham razo quando sustentam que os responsveis pela Lava-Jato estariam or ganizando um golpe. Mas acaba servindo para que os envolvidos no escndalo tirem seus delitos do centro das atenes. O clima belicoso que tomou conta da sociedade brasileira obscurece algumas das lies mais importantes da crise atual. Tanto o escndalo da Petrobras, quanto as diculdades econmicas que o Pas atravessa tm origem em leis e prticas anacrnicas, h dcadas em vigor. Tirar o Brasil do atoleiro demandar transformaes abrangentes, que vo da imposio de controles aos gastos pblicos (incluindo as aposentadorias da Previdncia Social) refor mulao de uma legislao tributria e trabalhista que refreia o crescimento econmico e reforma de um sistema poltico que estimula a corrupo e enfraquece os partidos. Essas mudanas no podem mais ser adiadas. Para os que gritam Fora Dilma! nas ruas, a sada da presidente seria uma vitria. Mas, para que a vitria seja do Brasil inteiro, esse seria s o primeiro passo.A ajuda amiga empreiteiraEm 2003, quando Luiz Incio Lula da Silva conquistou a presidncia da Repblica, a Odebrecht j era a maior empreiteira do Brasil. Seu faturamento nesse ano foi de 17,3 bilhes de reais. Ao longo dos 12 anos seguintes, at 2014, sua receita se multiplicou por seis (dobrou a cada dois anos, em mdia). Chegou a R$ 107,7 bilhes. De empresa de atuao exclusivamente interna, a Odebrecht virou a maior empresa global brasileira. No realizaria essa faanha sem a ajuda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social. Entre 2007 e o incio de 2015, o BNDES destinou Odebrecht quase 70% de todo recurso destinado a obras de empresas brasileiras no exterior. Dos R$ 12 bilhes emprestados pelo banco com essa nalidade, R$ 8,2 bilhes foram para o grupo. Com esse suporte, a empresa foi alm dos setores de sua atuao tradicional, na engenharia e construo civil: passou a atuar em outros 10 negcios, dentre eles saneamento, logstica e explorao de petrleo.

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15 Progrediu como um blido at cair nas malhas da Operao Lava-Jato, que prendeu seu principal executivo e dono, alm de outros funcionrios graduados. Hoje, a sua dvida, de R$ 100 bilhes, equivale ao valor do faturamento no apogeu. Sem a mesma faixa de crdito, foi obrigada nos ltimos meses a se desfazer de alguns ativos para fazer dinheiro. Conforme observa o jornal O Estado de S. Paulo, depois de brilhar como poucos, a atual posio do conglomerado encolher para tentar sobreviver. O mesmo partido que a colocou no topo, agora ameaa a sua existncia. Talvez esteja chegando concluso de que os grandes contratos no exterior ainda vo lhe custar muito caro.O custo DilmaDesde que a presidente Dilma Rousse se reelegeu, apenas um ano e meio atrs, o governo j reviu sete vezes a meta scal. A stima verso, apresentada ontem, est prxima do dobro da anterior, de pouco mais de um ms antes: passou de 60 bilhes de reais para algo acima de R$ 110 bilhes. Essas correes espantosas signicam, antes de mais nada, que a presidente e sua equipe mentiram desbragadamente para conseguir vencer a eleio.Uma vez vitoriosa e empossada para o segundo mandato, ela foi buscar Joaquim Levy para acertar as contas e restabelecer a credibilidade no governo no s pelo mercado, que empresta e toma dinheiro do governo, mas pelo pblico em geral. O estouro da meta scal signica o abandono do prometido ajuste nas contas pblicas, hoje acima e alm de qualquer entendimento convencional ou racional. Num momento em que sua sobrevivncia est ameaada, o governo desiste dessas ligranas. Quer gastar e investir para tirar o Brasil do buraco em que o pas se encontra e aliviar a presso sobre os cidados, asxiados pela perda de poder aquisitivo e o crescimento dos preos. Seria a ttica certa se o governo dispusesse de capacidade de investir, erodida pela prpria incompetncia do governo, que nunca conseguiu denir um ponto de equilbrio para suas polticas de conteno e de expanso. Para investir agora na reativao da economia em vias de colapso, ter que sustar o pagamento da sua gigantesca dvida e aceitar que ela seja reajustada pelo alto, ainda mais com a perda do grau de investimento de que o Brasil disps por longo tempo. O endividamento vai fazer o pas retroceder dcada perdida de 1980. Depois do estelionato eleitoral, o governo Dilma vai causar um prejuzo ainda maior na busca desesperada por sua sobrevivncia, O Brasil merece isso?A boataria globalA crise brasileira est escancarando os males e benefcios da rede mundial de computadores. Nos ltimos dias comeam a se suceder boatos relacionados a duas teorias conspirativas opostas, que se alimentam da sofreguido e irreexo com que as pessoas conectadas pela internet se lanam em busca das novidades, das ltimas e mais quentes informaes. Uma teoria conspirativa estaria sendo engendrada pelo PT. Assegura que, a partir de Washington, h uma manobra na cpula empresarial e miditica para estancar as investigaes no ponto em que se encontram e restringi-las ao PT. Os demais partidos seriam perdoados e purificados para assumirem a sucesso no poder. Outra teoria conspirativa estaria sendo desenvolvida pelos petistas. Eles estariam por trs de documentos forjados, como a planilha e uma anlise estratgica da Odebrecht, apreendidos pela Polcia Federal (e por ela vazados) que inclui tucanos e outras aves de alta plumagem, alm do prprio Ministrio Pblico Federal, entre os benecirios pelo petrolo. Com isso, fulminaria alguns dos lderes do processo de impeachment da presidente Dilma, dandolhe um destino considerado impossvel diante da atual conjuntura: a lata de lixo. J h no Brasil uma tradio de listagens falsas, como a do companheiro de chapa de Lula, o gacho Bisol, a lista de Furnas, o dossi Cayman, o dossi contra Jos Serra ou a pasta cor de rosa. So fabricaes ardilosas para desviar o alvo da opinio pblica e impedir o aprofundamento das investigaes, quando elas atingem personagens grados. As fraudes realmente existiram. Mas dicilmente sero repetidas, ao menos com a facilidade e o sucesso alcanados no passado. A opinio pblica est mais alerta, as pessoas mais bem informadas e adestradas, os integrantes da fora-tarefa so competentes e, sobretudo, tudo est sendo repassado para a sociedade, at mesmo atravs de um espao cativo da Operao LavaJato na internet. verdade que o jogo, ao se tornar cada vez mais perigoso, engendra iniciativas dramticas e desesperadas. Desta vez no h garantias para ningum. Esto sujeitos a serem desmascarados e punidos at mesmo os mais poderosos personagens da cena nacional, incluindo o maior lder poltico carismtico do pas, o ex-presidente Lula, e a presidente Dilma Rousse, do lado petista, alm de oposicionistas como Serra, Acio Neves, Geraldo Alckmin e muitos mais. A voragem dos acontecimentos, que se sucedem ou se inter rompem com uma velocidade nunca antes registrada no pas, deixa alguns fatos no explicados ou mal explicados. A checagem dos dados se atrasa em relao aos fatos novos, reais ou fabricados. Aos poucos, deixa de haver a justaposio de campos. Os bandidos de um lado, os mocinhos de outro. Ao nal, algum mocinho sobreviver? Diante dessa perspectiva trgica, a tentao desistir. Pssima tentao para o Brasil. Uma coisa certa: a fraude tem menores possibilidades de dar certo desta vez. No impossvel que algumas manobras tenham xito imediato, enganando a sociedade. Mas pode ser uma vitria efmera, e sero logo desmascaradas se persistir a vontade do povo brasileiro de, nalmente, como fazem as cobras por um processo natural, descartar do seu corpo a pele antiga e podre para iniciar uma fase realmente nova da sua histria. O cidado far bem ao conter sua nsia por explicaes fceis ou fatos retumbantes, alimentada pelo pipocar de fogo ftuo (ou fogo de artifcio) na internet. Melhor analisar mais detidamente e ponderar as informaes atravs do teste da verdade. Exigir a demonstrao dos fatos a melhor maneira de se imunizar contra um vrus mais poderoso: o dos manipuladores. Eles esto em campo.Sada da crise por cimaMeses atrs, em matria de capa deste Jornal Pessoal, sugeri que a presidente Dilma Rousse renunciasse. No pedindo o bon e indo para casa. Convocando uma reunio de todos os poderes institucionais da repblica e representao da sociedade para conclamar a uma renncia conjunta de todos, incluindo os presidentes da Cmara Federal e do Senado (no aos mandatos, mas aos cargos de direo). Seria a nica forma aceitvel pela sociedade, que j abomina Eduardo Cunha e Renan Calheiros, se irritando pela demora em serem afastados das funes que ilegitimamente continuam a de-

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sempenhar, ignorando seus indiciamentos em vrios processos criminais. Dilma continua a armar categoricamente que isso seus piores inimigos no conseguiro: que ela desista do mandato que conquistou pelo voto (mas atravs de uma campanha eleitoral mentirosa e, talvez, de dinheiro escuso) em 2014. Cunha e Renan deixaram de ser o que o povo chama de caras de pau: agora usam mscara de ferro, Mais do que isso: zeram do cinismo seu modo de ser. Uma soluo por dentro das instituies, excetuado o poder judicirio e o Ministrio Pblico Federal, ainda com essa possibilidade, no mais vir. A sada para a crise ter que vir de fora. Tomara que pelos meios constitucionais, no pela fora, que nenhum grupo tem majoritariamente, e a retirada das foras armadas da sua posio de observadoras seria um desastre (por enquanto, uma inviabilidade) O impeachment parece a mais provvel delas. Mas est longe de ser a melhor. Com o impeachment comandado por este ilegtimo Congresso Nacional, haver apenas a mudana de um partido na coligao. O camaleo PMDB desembarcar da canoa furada do PT e embarcar na caravela enodoada do PSDB. Como mando, e no mais como simples aliado. Nesse caso, o presidente ser Michel Temer, que abrir postos no seu governo, incluindo a vice-presidncia, para os tucanos. Quase tudo mudar para que quase tudo continue na mesma. A crise ser adiada e no resolvida. Quando estourar, ser ainda mais lesiva aos interesses nacionais e continuidade democrtica. Se faltou a Dilma a condio de estadista, que lanaria mo da renncia para estancar a sangria desatada da economia nacional, ameaada de comear a engolir o prprio sangue e cair numa depresso mais profunda, a melhor hiptese parece ser a eleitoral. O TSE pode cassar a presidente do PT e o seu vice do PMDB, beneciados por dinheiro ilegal para suas campanhas, alm de outras falcatruas de estilo. O Supremo Tribunal Federal concluiria a limpeza retirando, a pedido da Procuradoria Geral da Repblica, Cunha e Renan dos altos postos nos quais se encastelaram e resistem, insensveis ao clamor nacional. J h provas sucientes para afast-los e, em seguida, cass-los. O presidente do STF assumiria a presidncia e convocaria novas eleies para o cargo em 90 dias. Talvez nesse perodo surjam candidaturas nas quais o povo cone mais do que nos polticos atuais, fazendo a renovao de quadros indispensvel para o Brasil sair deste atoleiro, cada vez mais agravado pela formao de lama podre. O preo do renascimento brasileiro j est muito caro, pela teimosia e oportunismo dos principais causadores da crise atual. Se demorar mais, os prximos anos estaro comprometidos, e o Brasil talvez s retome a normalidade na prxima dcada. Ser a sua mais longa Idade Mdia, no pior sentido.A empreiteira na conspiraoFoi uma situao desconcertante, talvez intrigante. Na tera-feira, 22, a Construtora Odebrecht divulgou espontaneamente uma nota pblica anunciando sua disposio de prestar colaborao definitiva com as investigaes da Operao Lava Jato. E elogiou a investigao por ter revelado a existncia de um sistema ilegal e ilegtimo de financiamento do sistema partidrio-eleitoral do pas. Tudo isso, como se no fosse r, flagrada e em crime confesso de corrupo. Passados cinco dias, como muitas especulaes esto sendo feitas sobre essa iniciativa da principal empreiteira do pas, o Ministrio Pblico Federal reagiu imediatamente. Informou que no havia negociao em andamento para a colaborao denitiva ou provisria da Odebrecht e que a questo, por ser sigilosa, no podia ser revelada. Mas a empreiteira se antecipou, tornando-se a primeira empresa a garantir a sua participao como pessoa jurdica e a de seus principais executivos, enquanto indivduos, na apurao dos fatos. Na sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, Elio Gaspari arrisca uma explicao para o fato: mesmo na mira da Lava-Jato, a Odebrecht poderia estar dando a volta por cima para se reposicionar no topo do poder, subindo juntamente com sua aposta de futuro, o vice-presidente Michel Temer. De fato, a empresa no se paralisou. Continuou a fazer articulaes e at mesmo pagamentos por fora, alm de procurar confundir os investigadores com informaes quentes e frias, documentos reais e apcrifos. Para avivar o debate, reproduzo o trecho do artigo de Gaspari mais pertinente ao assunto: A Odebrecht enriqueceu o idioma poltico nacional quando um de seus cleptotcnicos chamou de Setor de Operaes Estruturadas seu departamento de pixulecos. As planilhas onde a empresa listou 316 maganos que amamentava apressaram a montagem de outro setor de operaes estruturadas, poderoso e multipartidrio. Seu objetivo principal obter a ascenso de Michel Temer Presidncia. Vale ressaltar que na planilha da Odebrecht esto os nomes de todos os marqueses dos grandes partidos, menos o dele. Temer um esturio de esperanas. Junta os cidados que detestam o PT, os eleitores que passaram a detestar a doutora Dilma, os empresrios atnitos com a paralisia do Estado e sobretudo os polticos e fornecedores do governo, aterrorizados com a atividade do Ministrio Pblico. Temer acima de tudo conveniente. Vota-se o impedimento da doutora, ele assume, reduz a tenso, forma um ministrio de celebridades, consegue uma trgua (sobretudo na imprensa), leva para o governo gente que perdeu a eleio e impe seu estilo tolerante, tranquilizando os comissrios depostos. Se for possvel, ajuda a preservar a vida pblica de seus correligionrios que temem a chegada dos rapazes da Federal. Essas seriam as esperanas. Outra coisa aquilo que o caminho do impedimento garante. Se no houver a deposio da doutora, haver o risco da cassao da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, que levaria convocao de uma eleio presidencial imediata e direta. Isso no interessa oligarquia ferida pela Lava Jato nem ao andar de cima da vida nacional. No interessa porque no tem candidato mo e porque a banda oposicionista que est encalacrada na Lava Jato sabe que deve evitar a avenida Paulista e o julgamento popular. Temer convm por muitos motivos, sobretudo porque evita a eleio. A servio dessa circunstncia move-se o setor de operaes estruturadas. Ele no funciona como o da Odebrecht. No tem sede, comando nem agenda detalhada. Toca de ouvido e conversa em silncio. Quando foi necessrio, aprendeu a conviver com o PT, dando-lhe conforto. Ele s no consegue conviver com a Lava Jato. Ningum quer rogar praga contra um eventual governo Temer, mas que tal um advogado de empreiteiras no crculo dos marqueses do Planalto ou mesmo no Ministrio da Justia? Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto