Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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AGORA, LULA COMO RU? o aO pior caminho que o Brasil poder adotar para enfrentar a crise cada vez mais grave pela qual est passando, como um avio colhido por uma pesada tur bulncia, o do confronto. Tolerar e at estimular a relao dos opostos o mrito maior do regime democrtico. Mas ele comea a se tornar incerto e no sabido quando a manifestao da diversidade e da pluralidade abandona as ideias e programas e passa a ser determinada pelo duelo, que acaba por degenerar em violncia. Este era o grande teste das manifestaes do dia 13. Aqueles que organizara a manifestao contra o PT com boas intenes se preocuparam em organizar o ato e prevenir todos os excessos. Foi uma grande vitria conseguirem iniciar e concluir pacificamente as passeatas. Alm disso, juntaram tanta gente que se tornou impossvel reduzi-las a uma iniciativa das velhas e novas elites nacionais. No mnimo, foi uma criao das classes mdias ampliadas, as mais ativas e influentes da sociedade nacional. POLTICAO governo acabou?A presidente da repblica garante que no renunciar. O povo lhe manda um recado direto: no a quer mais no comando do pas. possvel uma soluo negociada para esse impasse? Ou mesmo o fim da hegemonia e do controle do poder pelo PT?

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2 Por causa das multides apreciveis ou mesmo recordes que percorreram as principais cidades do pas e 10% dos municpios brasileiros, s uma pessoa ainda est relutante em admitir que o governo Dilma Rousse e o Partido dos Trabalhadores no topo do poder chegaram ao m: a prpria presidente da repblica. Ela rearmou, na vspera das manifestaes, que no pessoa de renunciar. Continuar defendendo o mandato que o povo lhe concedeu pela segunda vez na eleio de 2014. A renncia um ato pessoal. Se ela no quer exerc-lo, ningum pode obrig-la a pratic-lo o que no a priva de ver a realidade: sua credibilidade se exauriu. A descrena independe de saber se ela sabia das falcatruas na Petrobrs, se usou conscientemente dinheiro viciado na sua campanha, se no desconhecia as estrepolias daqueles que nomeava para cargos de conana, dos quais era irrenuncivel avalista. No s a falta de suporte poltico que mina as bases do seu governo: que ela esgotou suas ferramentas e ardis administrativos sem atenuar a crise econmica; antes pelo contrrio, s a agravou a cada novo movimento. Como um avio que entrou em parafuso, em colapso, como est indo o blido do governo s vai parar quando se esborrachar l embaixo, no fundo do poo dos indicadores ruins ou pssimos que emergem da sua incompetncia. Ser preciso esperar por esse momento nal para comear a recuperar o prejuzo? De perl autoritrio e auto-suciente, a presidente da repblica agiu coerente com essa crena ao optar pela luta ar mada para derrubar a ditadura. Comportou-se com dignidade e altivez na derrota. Escapou da morte, depois de ter passado por torturas. Livre, no se preparou para usufruir o principal da democracia: a possibilidade de corrigir os erros atravs da crtica alheia. Sua indiferena ao que acontece ao seu redor, mesmo nos mais ntimos crculos palacianos, obrigados a conviver com sua incontinncia verbal, se tornou patolgica. Da at um dos seus homens de conana, o senador Delcdio do Amaral, que ela nomeou lder do governo no Senado e no Congresso Nacional, ter sado com uma certeza de sua ltima tentativa de conversar com a presidente: ela uma autista. Sem base de sustentao poltica, que j lhe falta at no PT, cuja desconana inicial com seu acolhimento (ela veio do PDT gacho) se transformou em hostilidade, e sem conseguir efeito prtico para suas medidas administrativas, Dilma no percebe o que a um estadista no passaria despercebido: ela precisa tentar promover a unio nacional. No dando dinheiro aos partidos e cargos aos seus integrantes, mas se colocando inteiramente disposio de todos os segmentos representativos da sociedade para adotar os pontos em comum em um governo de coalizo em torno de programas e projetos capazes de unir os opostos e identicar numa plataforma comum os desiguais. Ou seja; realizar a democracia concretamente, indo alm de rulas e formalidades sopradas ao seu ouvido pelo publicitrio Joo Sanatana, hoje na cadeia. Do contrrio, aprofundado o confronto e expandida a violncia bipolar, talvez passe a faltar at a oportunidade para que Dilma Rousse aceite, anal, o que se recusa a fazer por miopia e estupidez: renunciar. Como alternativa para a recusa a esse ato, enquanto chegavam ao m as concentraes dos opositores, seu governo recomeou um trabalho de busca de uma nova imagem. Uma nota curta, em contraste com as anteriores, exaltou tacitamente o prprio governo, que no utilizou qualquer aparato repressivo contra os manifestantes. Pelo contrrio: pela primeira vez deixou de tentar se defender (o que seria impossvel) para abrir espao para quem quiser dele fazer parte. Vagas devero ser abertas na administrao pblica e ver bas do tesouro utilizadas para apaziguar os aliados que esto assustados. No entanto, com tantas frentes de combate, o governo conseguir encontrar uma forma de se desviar do alcance da Operao Lava-Jato, do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral ou do Tribunal de Contas da Unio para chegar a uma sobrevida? No estar apenas se sujeitando a uma hemorragia desatada, que atinge diretamente a sociedade, sem perspectiva de estancar o sangue, que j corre solto? Talvez haja para o governo mais espao para usar do que para a sociedade. Esta, com as manifestaes do dia 13, deu um recado: para ela, o governo Dilma Rousse acabou.O esquema do petrolo por quem o concebeuOs ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e Erenice Guerra, que participaram dos governos Lula e Dilma, receberam propinas em obras do setor eltrico, como a hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. Esta apenas uma das bombsticas revelaes feitas pelo senador Delcdio do Amaral, ex-lder do PT no Senado, reproduzidas pela revista Isto no segundo vazamento do documento de 400 pginas, a que teve acesso exclusivo. A revista paulista garante que essas revelaes formam o mais explosivo relato at agora revelado sobre o maior esquema de corrupo no Brasil e outros escndalos que abalaram a Repblica, como o mensalo. Seus principais itens: O ex-presidente Lula foi o mentor do encontro de Delcdio com o lho de Nestor Cerver. O senador seria o intermediador de pagamentos famlia de Cerver. De acordo com Delcdio, Lula comandou o esquema de pagamento. Lula no queria que o ex-diretor da Petrobras mencionasse o esquema do pecuarista Jos Carlos Bumlai na compra de sondas superfaturadas feitas pela estatal. Delcdio relembrou ainda o Mensalo. De acordo com o senador, Lula e o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, Antonio Palocci, em meados de 2006, articularam o pagamento a Mar cos Valrio para que ele se calasse sobre o mensalo. O dinheiro, um total de R$ 220 milhes destinados a sanar uma dvida, segundo Delcdio, foi prometido por Paulo Okamotto. Lula tinha pleno conhecimento do propinoduto instalado na Petrobras e

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3 agiu direta e pessoalmente para barrar as investigaes inclusive sendo o mandante do pagamento de dinheiro para tentar comprar o silncio de testemunhas. Delcdio disse que, atualmente, o que mais preocupa o ex-presidente Lula a CPI do Carf. As investigaes envolveriam seu lho. 6 Dilma tentou por trs ocasies interferir na Lava Jato, com a ajuda do ex-ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo. indiscutvel e inegvel a movimentao sistemtica do ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo e da prpria presidente Dilma Rousse no sentido de promover a soltura de rus presos na operao armou Delcdio A presidente Dilma articulou a nomeao de ministros do STJ com o objetivo de favorecer os envolvidos na Lava Jato. Dilma teria nomeada para o STJ um ministro que se comprometeu a votar pela soltura de empreiteiros j denunciados pela Lava Jato. Delcdio teve uma reunio privada com a presidente para falar sobre o ministro do STJ. Os dois conversavam enquanto caminhavam pelos jardins do Alvorada, quando Dilma solicitou que Delcdio, na condio de lder do governo, conversasse como o desembargador Marcelo Navarro, a m de que ele conrmasse o compromisso de soltura de Marcelo Odebrecht e Otvio Marques de Azevedo, da Andrade Gutier rez. Navarro raticou seu compromisso, alegando inclusive que o dr. Falco (presidente do STJ, Francisco Falco) j o havia alertado sobre o assunto. A presidente fez de tudo para man ter na estatal os diretores comprometidos com o esquema do Petrolo. A indicao do ministro Navar ro Ribeiro para o STJ tinha o objetivo de livrar Marcelo Odebrecht e outros empresrios. H informaes sobre os bastidores da compra da renaria de Pasadena. Dilma tinha pleno conhecimento de todo o processo de aquisio da renaria. A aquisio foi feita com conhecimento de todos. Sem exceo. Delcdio disse que a presidente sabia que havia um esquema de superfaturamento. Diferentemente do que armou Dilma Rousse em outras oportunidades, a indicao de Nestor Cerver para a Diretoria Financeira da BR Distribuidora contou efetivamente com a sua participao. O senador Delcdio do Amaral descreve uma operao de caixa dois na campanha de Dilma em 2010 feita pelo doleiro Adir Assad. Segundo Delcidio, o esquema seria descoberto pela CPI dos Bingos, mas o governo usou a base de apoio no Congresso para barrar a investigao dos parlamentares. Uma das maiores operaes de caixa dois da campanha de Dilma em 2010 foi feita atravs de Adir Assad. Orientados pelo tesoureiro da campanha, Jos Filippi, os empresrios faziam contratos de servios com as empresas de Assad, que repassava os recursos para as campanhas eleitorais. Esse expediente foi largamente utilizado e o encerramento prematuro e sem relatrio nal da CPI dos Bingos deveu-se exclusivamente a esse fato. Quando o governo percebeu que as vrias quebras de sigilo levariam campanha de Dilma, determinou o encerramento imediato dos trabalhos. Delcdo diz que os senadores Gim Argello (PTB-DF) e Vital do Rego (PMDB-PB) e os deputados Marco Maia (PT -RS) e Fernando Francischini (SD-PR) cobravam de empreiteiros para no serem convocados na CPI da Petrobras. O senador Jader Barbalho reagiu s revelaes da delao de Delcdio Amaral, que o citou como benecirio do esquema de corrupo do petrolo, dizendo que a sua relao com a corrupo na Petrobrs zero. Talvez seja verdade. O nico elo possvel dele com a organizao criminosa formada na estatal tnue: seria atravs da presena do lobista Jorge Luz em certa intermediao. Paraense de nascimento, mas criado no Rio de Janeiro, Luz foi presena nos bastidores da transio de Jader para Carlos Santos, seu vice, no nal do seu segundo mandato. Jader se desincompatibilizou para concorrer ao Senado e Carlos assumiu o governo por nove meses. Foi um perodo de caos e de muitas irregularidades. Mas no zero a presena de Jader no setor eltrico. Como no zero, muitssimo contrrio, e principalmente, a inuncia do ex-presidente Jos Sarney e de seus protegidos, dison Lobo e Silas Rondeau. Eles formam um ncleo que atuou na Eletrobrs e na Eletronor te, e est conectada ao desvio de dinheiro da obra da hidreltrica de Belo Monte para nanciar, pelo caixa 2, as campanhas do PT e do PMDB nas eleies de 2010 e 2014. Pode ser que Jader Barbalho tenha recebido parte dos recursos e na armao que permitiu a vitria de um consrcio mais fraco na licitao da concesso, seguida pela desintegrao dessa corporao e sua substituio por fundos e empresas federais. Sintomtico dessa engrenagem foi a reao do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Ele foi apontado por Delcdio como integrante de um tringulo, com Rondeau e a ex-ministra Erenice Guerra, pessoa de conana de Dilma Rousse, que comandava o esquema de corrupo em Belo Monte, a maior obra do PAC, com custo de 32 bilhes de reais. Em nota, ele disse que o senador deve ter feito referncia a outra pessoa com nome parecido. O nome o do seu irmo, o diretor de Planejamento e Engenharia da Eletronorte, Adhemar Palocci. afastado de suas funes quando seu nome foi citado na delao premiada de Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corra, como algum com algum envolvimento com o recebimento das propinas nas obras de Belo Monte. Ele era diretor e eminncia parda na Eletronorte h vrios anos, com todo suporte do PT. Sarney e Jader dividiam a outra rea da Eletronorte. A investigao na Eletrobrs/Eletronorte talvez possibilite esclarecer um dos maiores mistrios da repblica: como que o ex-presidente Jos Sarney, de um Estado que gera pouca energia, como o Maranho, sempre foi o maior manda-chuva na Eletronorte, deslocando at o morubixaba Jader Barbalho, do Par, que responde por mais de 80% da gerao de energia da empresa?

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4 Todas as acusaes que o senador Delcdio do Amaral fez no seu acordo de delao premiada com o Ministrio Pblico Federal so falsas. Ele inventou as histrias para se vingar do PT e do seu governo, que no o livrou dos trs meses de priso que ele passou em Braslia, agrado na tentativa de eliminar provas de corrupo na Petrobrs e subornar uma das suas principais testemunhas, o ex-diretor da rea internacional, Nestor Cerver. Com esses argumentos, o PT procurou desacreditar, de imediato, as declaraes que Delcdio fez ao MPF, durante trs dias de depoimentos, que ocuparam 400 pginas. O teor do documento foi divulgado pela revista Isto em edio especial, no maior furo da imprensa desde o incio da cobertura da Operao Lava-Jato, h dois anos. Se a descida do senador ao inferno no tivesse comeado em dezembro de 2015, quando ele foi preso pela Polcia Federal, mesmo estando no pleno exerccio de um cargo eletivo, no prximo ms Delcdio iria completar dois anos como lder do governo. No apenas no Senado: tambm no Congresso Nacional, que rene a cmara alta e a Cmara dos Deputados. Talvez a permanecesse at o nal do mandato da presidente, em 2018. O senador s foi colocado nessa importante funo por deciso pessoal de Dilma Rousse, que a chefe do governo. Chefe com mo forte, olhos fechados e ouvidos imunes a inuncias outras que no as desejadas por ela mesma. Como pode ter errado to completamente na delegao de poder a quem agora chama de mentiroso e mau carter? A relao de Delcdio com o PT comeou em 2001, quando ele foi secretrio de infraestrutura do governo de Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul (mais petista, a partir do prprio nome, impossvel). O polmico governador mobilizou a mquina pblica estadual para fazer do seu auxiliar, muito pesado eleitoralmente, senador. Sem essa base, o engenheiro jamais teria conseguido a vitria, que no lhe veio quando tentou ser tambm governador em duas eleies seguidas. Na ltima sendo derrotado j no primeiro turno. O que ele conseguiu foi se tornar um importante e muito til negociador de bastidores para o PT, que, agora, alm de acus-lo de traidor, o considera um tucano enrustido no ninho do Partido dos Trabalhadores. A tucanagem de Delcdio, porm, nada teve de poltica: signicou a sua passagem de uma bem sucedida car reira tcnica para a do trco de inuncia e a montagem de um esquema de cor rupo que o tornaria rico rapidamente. Entre 2000 e 2001, no literal eplogo do governo de Fernando Henrique Cardoso, ele foi diretor de gs e energia da Petrobrs. Com dois dos seus gerentes, Nestor Cerver (promovido a diretor da rea internacional por Dilma) e Paulo Rober to Costa (colocado por Lula na diretoria de abastecimento, por indicao do deputado federal Jos Janene, personagem destacado do mensalo), concebeu a trama para superfaturar contratos e desviar recursos da estatal, atravs de caixa 2 (e de um cartel organizado pelas maiores empreiteiras do Brasil). Esse dinheiro no contabilizado (como diria o prprio Lula, na tristemente famosa entrevista montada em Paris) ser viria para os intermedirios do pagamento de propina aos polticos que lhes davam suporte. O mecanismo entrou em ao na passagem da gesto de FHC de Lula. Com sua inteligncia, capacidade tcnica, traquejo poltico, simpatia e as caractersticas de bon-vivant, Delcdio agia como uma lanadeira de tear, costurando acordos, fazendo ligaes de interesses, indo e vindo de escaninhos nos bastidores do poder. Tornou-se lder exatamente por desempenhar tarefas e cumprir ordens. O que o desgraou foi a megalomania e, como sempre, a certeza da impunidade. Em trs meses de cadeia perdeu 12 quilos. Era o sinal de que estava sofrendo e cada vez mais decepcionado. No era para isso que fez o que fez. Esto comparando-o a Pedro Collor, que ofereceu na bandeja da imprensa a cabea do irmo, o ento presidente Fernando Collor de Mello (por ironia, conquistando um papel mais destacado agora, no petrolo, com a rea que lhe foi destinada na Petrobrs). Delcdio, porm, mais do que Pedro, muito mais. Ele era o militante das alcovas, pores e stos do poder. Um homem do PT que se apaixonou pelo poder, se julgou inalcanvel pelos pobres mortais e desandou a cometer falcatruas, tanto ou mais do que os partidos viciados para os quais iria ser vir de alternativa sadia. Ao invs disso, o PT caiou de corporativismo socialista (na verdade, burocrtico) o aparato estatal, como nunca antes (se Lula pudesse aplicar o seu inefvel bordo a esse caso), e est conduzindo o Brasil maior crise econmica da sua histria. Desta vez, tendo como componente principal no uma causa externa, por alguma das crises que estouraram na matriz e ecoam na lial, mas por incompetncia e m f, por desatino interno. Ao metralhar verbalmente (ao menos por enquanto) quem era o lder do seu governo no parlamento federal at trs meses atrs, o PT quer mostrar que no o PT de Delcdio do Amaral. Mas Delcdio o PT que se aboletou no poder e dele tem que sair ou cair, por se ter tornado uma fruta podre no galho mais alto do pas. No era disso que o Brasil precisava neste momento. Mas o prato feito (e pssimo) que, mais uma vez, sua elite lhe oferece. No mais a elite das 500 famlias que mandam no pas desde 1500, mas uma nova elite, recrutada nos sindicatos, nas organizaes civis, nas universidades. Gente que antes vivia do seu trabalho e aos poucos, na progresso do avano sobre os cargos de mando, passou a buscar seus maiores rendimentos em outras fontes. Por que o captulo atual dessa histria comea em 2002, na difcil transio do desgastado professor de sociologia para o carismtico lder operrio, que se metamorfoseava em Lula, paz & amor para atrair a elite (sem jamais conquist-la), qual dispensaria todas as atenes e daria muito mais dinheiro do que ao seu maior empreendimento, a incluso social? Evidentemente, em primeiro lugar porque, anal, Lula ganhou a quarta eleio presidencial que disputou, numa per sistncia sem igual na histria brasileira (e, talvez, mundial). Em segundo lugar, por que o uxo de dinheiro pelos mecanismos informais se desviara do caixa partidrio para bolsos particulares. Surpreendido e chocado pela constatao, o prefeito de Santo Andr (e tesoureiro da campanha de Lula), Celso Daniel, tentou estancar a hemorragia. Acabou assassinado. Esse desfecho desinibiu os petistas no alto do poder, que passaram a se lambuzar no mel que, antes, lhes estava interditado. No podia dar outra: o governo do PT sucumbe sobre uma replica da Operao Mos Limpas, que combateu a ma italiana. A verso brasileira ter melhor sorte? o que se poder ver nos prximos captulos dessa novela to importante.

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5 O ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva foi vtima da estratgia de violncia injusta, injusticvel, arbitrria e ilegal, montada pela Polcia Federal, conforme armou em nota o Instituto Lula, logo depois do cumprimento da ordem judicial? Ou serviu de pretexto para uma pirotecnia que se tornou um show miditico, conforme se queixou o prprio Lula? Se eles tiverem razo, a conduo coercitiva do antecessor da atual presidente Dilma Rousse poderia se transformar em capital poltico para seu uso at 2018, quando tentaria um indito terceiro mandato por eleio direta. Ao contrrio do que disseram os lulistas, a conduo do ex-presidente no foi arbitrria nem ilegal. Ela teve origem em mandados expedidos pelo juiz Sergio Moro, que preside processos nos quais Lula referido, apontado, acusado e objeto de indcios de crimes. claro que a derradeira tbua de salvao de Lula, Dilma e do PT est na interpretao poltica do episdio. Os petistas e seus aliados projetam a imagem de Lula como o injustiado e o perseguido pelas elites e pela mdia golpista. Mas ela s colar no pblico se as suspeitas que levaram o juiz Moro a mandar conduzir um ex-presidente da repblica forem infundadas, frgeis, sem provas ou evidncias legtimas. Se o material j existente e o que hoje est sendo levado para Curitiba forem robustos, esse papel de vtima poltica no prevalecer. Pelo contrrio, o poltico que deixou a presidncia com 80% de aprovao e foi celebrado como estadista, o cara, ser despejado para o lixo da histria. Um preo como jamais se imaginou que dele seria cobrado, mas com um agravante: tambm a sociedade par tilhar a quitao dessa dvida ningum sabe por qual valor, por quanto tempo ainda e em troca do qu. O Brasil vive um momento raro da sua histria. Ainda no sabe como deni-lo.A DECLARAO DO MINISTROCom seu modo empolado de se expressar, o ministro Marco Aurlio Mello, do Supremo Tribunal Federal, disse que a conduo coercitiva de Lulafoi uma medida desnecessria. S se conduz coercitivamente, ou como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidado que resiste e no comparece para depor. E o Lula no foi intimado, sentenciou ele. Ao prestar a declarao, provavelmente o ministro no lera o mandado expedido pelo juiz federal Srgio Moro. A ordem segue a estrita tcnica aplicada ao caso ao determinar: O mandadoS DEVE SER UTILIZADO E CUMPRIDO, caso o ex -Presidente, convidado a acompanhar a autoridade policial para depoimento, recuse-se a faz-lo. Ou seja: antes de ser conduzido pelos policiais federais que cumpriam a ordem judicial, Lula teve a oportunidade de aceitar a iniciativa e acompanh -los para depor. No tendo concordado (detalhe importante que omitiu na sua manifestao), foi executada a alternativa: obrig-lo a ir depor. Signica que a norma processual foi cumprida: s depois de intimado, o ex-presidente teve que ser levado fora por se ter recusado a depor voluntariamente, atendendo ao convite para depor. O juiz adotou ainda outra cautela: Consigne-se no mandado queNO deve ser utilizada algema e NO deve, em hiptese alguma, ser lmado ou, tanto quanto possvel,permitida a lmagem do deslocamento do ex-Presidente para a colheita do depoimento. Na colheita do depoimento, deve ser, desnecessrio dizer, garantido o direito ao silncio e a presena do respectivo defensor. O ministro Marco Aurlio desdenhou ainda da explicao do juiz de que a conduo coercitiva de Lula foi uma medida tomada para, entre outras coisas, evitar a ocorrncia de manifestaes e confrontos entre militantes pr e contra Lula, indagando: Ser que ele [Lula ] queria essa proteo?. Qualquer leigo sabe que os crimes em investigao pela Lava-Jato so matria de ordem pblica. Dispensam convenincias e interesses das pessoas, exceto no que se relaciona aos seus direitos legais e constitucionais, que no foram violados. Mais um detalhe: o juiz acolheu o argumento do MPF de que a audincia anterior para ouvir Lula foi prejudicada e precipitadamente encerrada, antes de ser iniciada, pelas manifestaes de petistas e admiradores. Para realizar de fato a oitiva, o fator surpresa era necessrio melhor instruo do processo, evitando novas iniciativas para pressionar o juzo. improcedente a crtica feita por Lula em seu pronunciamento na sede do PT em So Paulo, logo depois de depor, de queno precisava levar uma coero minha casa, dos meus lhos. No precisava. Era s ter me comunicado. Ele foi comunicado pela diligncia da PF e no aceitou o convite. Caracterizada a intimao, foi conduzido. E depois liberado. Tudo dentro da lei, portanto. O problema que Lula, pouco tempo atrs, defendeu a inimputabilidade de Jos Sarney, simplesmente por ele ter sido presidente. Os ex-presidentes, segundo essa lgica, seriam cidados de classe especial da repblica brasileira, condio sem qualquer amparo legal. Mas uma interpretao oportuna a que Lula, sempre um passo adiante, plantou para colher agora. Os desdobramentos do que aconteceu ontem diro em que terreno essa semente foi jogada.A MENTIRA DE LULAH um detalhe fundamental para reconstituir a conduo coercitiva do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva para prestar depoimento Polcia federal, episdio do dia 4 que j entrou para a histria do Brasil, por sua importncia e ineditismo. preciso voltar a ela e enfatiz-la didaticamente para esclarecer a celeuma que provocou. O juiz Srgio Moro acolheu o pedido do Ministrio Pblico Federal no Paran para a conduo de Lula sob vara, como se dizia antigamente. Mas ressalvou que a utilizao do mandado

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6 s ser necessria caso o ex-Presidente, convidado a acompanhar autoridade policial para prestar depoimento na data das buscas e apreenses, no aceite o convite. No seu despacho, Moro fez questo de enfatizar a sua ordem: O mandadoS DEVE SER UTILIZADO E CUMPRIDO, caso o ex -Presidente, convidado a acompanhar a autoridade policial para depoimento, recuse-se a faz-lo. Portanto, Lula foi primeiro convidado, o que equivale sua intimao. Tendo se recusado a seguir espontaneamente, ao contrrio do que afir maria poucas horas depois, teve que ser levado pela polcia, no cumprimento da ordem judicial. Se no fosse a determinao judicial polcia para que ele fosse conduzido de qualquer maneira, por vontade prpria Lula no teria ido depor. Seguiu constrangido, mas no com violncia. Pelo contrrio, o juiz de Curitiba alertou os executores do seu mandado queNO deve ser utilizada algema e NO deve, em hiptese alguma, ser lmado ou, tanto quanto possvel,permitida a lmagem do deslocamento do ex-Presidente para a colheita do depoimento. Na hora de o ex-presidente depor, deve ser, desnecessrio dizer, garantido o direito ao silncio e a presena do respectivo defensor. Tudo, portanto, na forma da lei, como dizem os advogados. Mas com energia, em funo do carter investigativo da ao, que exigia essa atitude. O MPF a requereu, alegando que em depoimentos anteriormente designados para sua oitiva, teria havido tumulto provocado por militantes polticos, como ocorreu em 17 de fevereiro, no frum criminal da Barra Funda, em So Paulo. No confronto entre polcia e manifestantes contrrios ou favorveis a Lula, pessoas caram feridas. O Ministrio Pblico manifestou seu receio de que tumultos equivalentes se repitam. Da a surpresa ser necessria, para prevenir as chances de ocorrncia de eventos equivalentes. Eles ocorreram, mas tiveram mais agressividade e violncia do que representatividade e expresso. Quando comeou a mobilizao, Lula j estava depondo. Ou, como Moro referendou: Colhendo o depoimento mediante conduo coercitiva, so menores as probabilidades de que algo semelhante ocorra, j que essas manifestaes no aparentam ser totalmente espontneas. Ele tratou ainda de esclarecer que a tomada do depoimento de Lula, mesmo sob conduo coercitiva, no envolve qualquer juzo de antecipao de responsabilidade criminal, nem tem por objetivo cercear direitos do ex-Presidente ou coloc-lo em situao vexatria. Convicto, relembrou: Prestar depoimento em investigao policial algo a que qualquer pessoa, como investigado ou testemunha, est sujeita e serve unicamente para esclarecer fatos ou propiciar oportunidade para esclarecimento de fatos. Admitiu que essas observaes seriam usualmente desnecessrias, mas as fazias porque, envolvendo uma autoridade como Lula, se tornaram relevantes.Jnio Quadros, que renunciou presidncia da repblica em 1961, voltou vida pblica em 1985, se elegendo prefeito de So Paulo e derrotando Fernando Henrique Cardoso. Dois anos depois de ter assumido o cargo, prometendo varrer a corrupo da maior cidade do Brasil e da Amrica do Sul, sua lha o colocou em situao constrangedora. Dirce (apelido Tutu), que tinha uma relao tumultuada com o pai, entregou ao vereador Walter Feldman (do PSDB) uma carta assinada por sua me. Dona Elo revelava na carta a existncia de uma conta de Jnio no Citibank, na Sua. O pai reagiu interditando a lha e, segundo verso nunca conrmada, constituindo um trust para o qual transferiu para outra conta seus depsitos, que somariam dezenas de milhes de dlares. A histria foi requentada 22 anos depois pela Operao Castelo de Areia. A Polcia Federal a desencadeou para investigar doaes suspeitas da construtora Camargo Corra para polticos. Jnio Quadros foi um dos beneciados. A empreiteira assumiu toda a despesa da sua cara hospitalizao, at a sua morte, em 1992, dois anos depois da mulher. Durante a investigao, a PF grampeou uma conversa de Jnio Quadros Neto com o advogado Marcos Vilarinho sobre o andamento das buscas conta. Jnio Neto caiu no grampo por suas relaes com o consultor Kurt Pickel, indiciado pela PF por crimes nanceiros e tambm envolvido na procura da suposta conta de Jnio. Esse foi o ponto em que a polcia chegou mais perto do crime de corrupo, lavagem de dinheiro, sonegao de imposto, evaso scal e outras delinquncias praticadas por um presidente da repblica no Brasil. O governo militar devassou a vida dos ex-presidentes que deps, cassou ou puniu, como Juscelino Kubitscheck e Joo Goulart, mas no conseguiu provas para as acusaes de corrupo que lhes fez, uma das causas (com a subverso) por t-los punido. Lula agora o ex-presidente mais prximo de ser levado s barras dos tribunais por esses delitos e, eventualmente, ser condenado e punido. Essa possibilidade acirrou os nimos e criou um ambiente tenso e explosivo no pas. As paixes, a intolerncia e a radicalizao turvam a compreenso do que acontece.

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7 O delegado da Polcia Federal (PF) Luciano Flores, que conduziu o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva para prestar depoimento a investigadores da Operao Lava Jato, informou, ontem, ao juiz Sr gio Moro que Lula disse que s sairia do apartamento algemado. Ele s aceitou acompanhar os policiais, segundo o delegado, aps ser aconselhado pelo advogado. Desta forma, conforme a PF, houve o cumprimento do mandado de conduo coercitiva expedido pela Justia Federal no Paran. De acordo com o delegado, a PF chegou s 6h casa do ex-presidente, em So Bernardo do Campo. O prprio Lula abriu a porta e, segundo Luciano Flores, autorizou de imediato que os policiais entrassem para cumprir mandado de busca e apreenso. Neste momento, segundo o delegado, foi solicitado a Lula que eles deixassem o local o mais breve possvel para a colheita do depoimento antes da chegada da imprensa, ou pessoas que pudessem lmar o ato. Naquele momento, foi dito por ele [Lula ] que no sairia daquele local, a menos que fosse algemado. Disse ainda que se eu quisesse colher as declaraes dele, teria de ser ali relatou Luciano Flores. O delegado armou que no seria possvel fazer a oitiva ali por questes de segurana, e que havia um local preparado para o ato, no aeropor to de Congonhas. Disse ainda que, caso ele se recusasse a nos acompanhar naquele momento para o Aeroporto de Congonhas, eu teria que dar cumprimento ao mandado de conduo coercitiva que estava portando, momento em que lhe dei cincia de tal mandado, explicou Luciano Flores. O delegado disse que, ento, Lula entrou em contato telefnico com o advogado Roberto Teixeira, relatando a situao. Logo depois de ouvir as orientaes do referido advogado, o ex-Presidente disse que iria trocar de roupa e que nos acompanharia para prestar as declaraes, relatou. A sada do prdio ocorreu s 6h30 e a chegada ao aeroporto de Congonhas ocorreu s 7h20. Vinte e cinco minutos depois o advogado Roberto Teixeira chegou e conversou com o ex-presidente sem a presena dos policiais. Em torno das 8:00 o ex-Presidente e os advogados retornaram mesa onde ocorreria a oitiva e disseram que estavam prontos para o ato, sendo dito pelo ex-Presidente que iria prestar as declaraes necessrias, diz o documento. A audincia comeou, ento s 8h, e durou trs horas. Segundo a PF, um grupo de parlamentares federais chegou a bater na porta e forar a entrada durante o depoimento, mas as entradas apenas foram autorizadas aps a lavratura do termo da audincia. O delegado relatou ainda que insistiu para que Lula utilizasse a segurana da PF para lev-lo a qualquer local em que ele quisesse ir, mas que o ex-presidente dispensou a segurana, saindo em veculo prprio.Segue-se um relato do cumprimento do mandado de conduo coercitiva do ex-presidente Lula pela Polcia Federal, tendo por base matria publicada pelo portal G-1, da Globo, a partir das informaes que o delegado Luciano Flores prestou ao juiz Sergio moro. Desse relato se conclui que Lula, ao contrrio do que diria trs horas depois de assinar o termo de depoimento, no aceitou prestar depoimento voluntariamente, como sempre fez. Para depor, teria que ser ouvido na sua prpria casa, o que, convenhamos, seria um absurdo num processo de investigao criminal pela justia. Se no fosse assim, s sairia algemado. Mas o juiz Sergio Moro frisara no mandado de conduo que Lula no devia ser algemado. O jeito foi consultar o advogado (e compadre) de Lula, Ricardo Teixeira, que o aconselhou a ir at o local preparado para ouvi-lo com segurana, no aeroporto de Congonhas, e a falar, ao invs de se calar. Ttica tpica de advogado experiente: transformar o ru em vtima. Segue-se o texto, que no foi contestado por Lula e ningum do PT.A Operao Lava-Jato completou dois anos no dia 17. Talvez nenhum juiz tenha dado tantos despachos e decises num nico processo em toda histria do poder judicirio nacional quanto Srgio Moro. Das suas centenas ou milhares de decises foram apresentados pelo menos 413 recursos pelas defesas dos indiciados, rus ou condenados. Apenas 16 reclamaes da defesa (aproximadamente 3,8% do total) foram recebidas pela justia de segundo grau total ou parcialmente, sendo o Supremo Tribunal Federal a instncia nal da maioria dos pedidos. Foram negados 313 recursos, 76% do total. Ainda tramitam pela instncia recursal 85 habeas corpus, alguns deles apresentados ao mesmo tempo em que eram protocolados recursos ordinrios contra as mesmas decises. So dados surpreendentes, espantosos e admirveis. Sob a batuta do juiz Srgio Moro no h lentido nem protelaes. Ele produz com uma velocidade rara e uma rmeza excepcional. Suas derrotas no chegam a 4%. Excluindo-se matria pendente, suas vitrias representam 96%. No me lembro de ter existido juiz igual. Vrios dos seus atos so polmicos e geram reaes desencontradas. Mas eles podem ser consultados pela internet, uma prerrogativa nica e absolutamente democrtica que ele criou e manteve, a despeito do desejo de muitos de impor segredo de justia a processos to graves. Quem se der ao trabalho de ler o que Moro assinou, certamente com base nos trabalhos de investigao do Ministrio Pblico Federal e da Polcia Federal, alm dos pareceres dos seus assessores, haver de vericar que ele sabe o que est fazendo. E s faz com segurana e conhecimento.

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8 Os ministros da Casa Civil, Erenice Guerra, que foi uma das principais conselheiras da presidente Dilma Rousse desde 2013, da Fazenda, Antnio Palocci, e das Minas e Energia, Silas Rondeau, desviaram 45 milhes de reais das obras da hidreltrica de Belo Monte, no Par, diretamente para as campanhas eleitorais do PT e do PMDB em 2010 e 2014. Os trs ministros tiveram acesso aos R$ 25 bilhes aplicados na obra durante o perodo em que integraram o governo. A informao consta do documento de delao premiada do senador Delcdio do Amaral, que foi lder do gover no petista no Senado e no Congresso Nacional, em nova revelao feita pela revista Isto Nas duas disputas presidenciais os partidos estavam coligados na chapa liderada por Dilma Rousse. A propina de Belo Monte serviu como contribuio decisiva para as campanhas eleitorais de 2010 e 1014, armou o senador aos procuradores. A revista lembra que denncias sobre corrupo nas obras de Belo Monte j haviam sido feitas por outros delatores, mas a primeira vez que uma testemunha revela com detalhes como funcionava o esquema, qual o destino do dinheiro desviado e aponta o nome dos coordenadores de toda a operao. Os relatos feitos pelo senador, segundo a reportagem, mostram que a operao montada para desviar dinheiro pblico de Belo Monte foi complexa e contnua. Comeou a ser arquitetada ainda no leilo para a escolha do consrcio que tocaria a empreitada, em 2010, e se desenrolou at pelo menos o incio do ano passado, quando a Lava Jato j estava em andamento. Tida como obra prioritria do governo e carro chefe do PAC, Belo Monte era acompanhado de perto pela chea da Casa Civil, onde estavam Dilma, ento ministra, e Erenice Guerra, secretria executiva. A atuao do triunvirato de ministros teria sido fundamental para se chegar ao desenho corporativo e empresarial denitivo do projeto Belo Monte, armou Delcdio aos procuradores da Lava Jato. Em sua delao, o senador explicou que os desvios de recursos do projeto da usina vieram tanto do pacote de obras civis como da compra de equipamentos. Antnio Palocci e Erenice Guerra, especialmente, foram fundamentais nessa denio, revelou o senador. Ele armou que as obras civis consumiram cerca de R$ 19 bilhes e a compra de equipamentos chegou a R$ 4,5 bilhes. Delcdio, engenheiro por formao prossional, cheou as obras da hidreltrica de Tucuru, no rio Tocantins, tambm no Par, entre 1979 e 1985. Garantiu que em todas as etapas da construo de Belo Monte, no rio Xingu, houve superfaturamento. A revista se diz convencida de que entre os procuradores que j tomaram conhecimento da delao de Delcdio h a convico de que Erenice era a principal operadora do triunvirato, uma vez que antes de assumir o cargo na Casa Civil trabalhou, ao lado de Dilma, no Ministrio de Minas e Energia, responsvel pelas obras da usina. O esquema teria comeado a operar trs dias antes da data marcada para o leilo que escolheria o consrcio responsvel pelas obras, em 2010. O grupo formado pelas maiores empresas de engenharia do pas desistiu da disputa. Em algumas horas foi constitudo um novo grupo de empresas que venEsta a questo: diante desse histrico, como acus-lo de fazer o jogo do PSDB, de ter interesse pessoal na causa, de querer se celebrizar tomando Lula por escada, de substituir o rigor do julgamento por uma subjetividade suspeita? Se tudo isso fosse verdade, a Operao Lava-Jato no teria avanado tendo contra si alguns dos mais poderosos empresrios e carssimos escritrios de advocacia por eles contratados para defend-los. Um STF formado em sua esmagadora maioria nos governos petistas, se encontrasse fundadas razes, o teria barrado. No tendo podido faz-lo, agora no pode mais voltar atrs. Referendou o percurso feito. A teoria da conspirao muito fcil de usar, mas at agora no disps de terreno slido para lanar suas fundaes. E isso grave por que se aproxima o momento em que um ex-presidente da repblica ser indiciado, deixando de ser testemunha para se transformar em ru, na iminncia de vir a ser condenado e, quem sabe, submetido pena de priso por corrupo. Isso no galardo: uma chaga e uma mcula. Melhor seria se ela fosse simplesmente ctcia e no Detonar uma crise de desdobramentos imprevisveis. Crise que pode ser devastadora, mas tambm rejuvenescedora, fortalecedora. A equipe da Lava-Jato avanou demais, como jamais se imaginou que aconteceria. Se no tiver provas para sustentar suas teses de acusao j for muladas, no apenas se desmoralizar: lanar no buraco do descrdito os agentes pblicos encarregados de atuar na represso a crimes (em especial, como novidade na vida institucional do pas, os de colarinho branco) e como scais da lei. Ser um retrocesso na democracia brasileira. Por outro lado, agrados como levianos, os homens da maior operao anticorrupo da histria brasileira pavimentaro o caminho de volta ao poder de Luiz Incio Lula da Silva. Isso, exatamente quando, para o bem da democracia brasileira (e da prpria vida econmica e social do pas), se tornou fundamental a alternncia no poder poltico. Uma era que se exauriu, no s na corrupo, mas na incompetncia administrativa, ir readquirir fora articial para se manter, sem que se saiba aonde levar a nao. Tendo esgotado tudo que podia fazer, sobraram problemas e mais problemas para serem resolvidos certamente, de outra maneira. O momento grave. To grave que dispensa fanatismos, idiotias, cienticismo barato e voluntarismo cego. De vrias alternativas de rumos, a maioria delas ruim e se tornar inevitvel se os brasileiros se deixarem levar por conversa ada e falsos profetas.

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9 ceu o leilo, tendo sido a nica proposta apresentada, armou o senador. Entre essas empresas estavam a Queiroz Galvo, Galvo Engenharia, Contern, JMalucelli, Gaia Engenharia, Cetenco, Mendes Jr Trading Engenharia e Ser veng-Civilsan. Alguns meses depois da realizao do leilo, vrias empresas que dele no participaram, se tornaram scias do empreendimento e contrataram como prestadoras de servio as empresas do consrcio vencedor. Com essa operao, as maiores empreiteiras passaram a mandar na construo sem se submeterem s regras impostas nas licitaes convencionais. Durante as campanhas eleitorais aumentava o valor das propinas e por isso as empresas recorriam a claims, instrumento usado para readequar valores de contratos. Os acordos com relao aos claims eram uma das condies exigidas para aumentar a contribuio eleitoral das empresas, explicou Delcdio. O senador destacou ainda a existncia de vrias ilicitudes envolvendo o fornecimento de equipamentos para a usina de Belo Monte. De acordo com ele, houve uma enor me disputa entre fornecedores chineses, patrocinados por Jos Carlos Bumlai (o pecuarista amigo do ex-presidente Lula), e fabricantes nacionais, entre eles Alston, Siemens, IMPSA e IESA. O triunvirato agiu rapidamente denindo os nacionais como fornecedores, tudo na busca da contrapartida, revelada nas contribuies de campanha, denunciou Delcdio. Pelo lado das empresas, segundo Delcdio, o principal negociador de Belo Monte foi o empreiteiro Flvio Barra, da Andrade Gutierrez.. No anexo sete de sua delao, o senador Delcdio do Amaral detalhou o esquema de corrupo armado na construo de Belo Monte. Diz que Jos Carlos Bumlai participou das operaes, mas que todo o esquema foi coordenado mesmo pelos exministros. O maranhense Silas Rondeau, apoiado por Jos Sarney, fora presidente da Eletronorte e da Eletrobrs, antes de assumir o ministrio das Minas e Energia, sempre com o endosso do ex -presidente, que mandava no setor. O Brasil todo vive uma crise profunda, talvez a maior da sua histria, pelo menos a republicana. A imprensa no podia estar fora desse torvelinho. Pelo contrrio: entrou de cabea no chafurdamento e nele se aprofunda cada vez mais, como acontece na cobertura da Operao Lava-Jato.No dia 15, cou de entrar em operao a primeira turbina da casa de fora principal da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, projetada para ser a terceira maior do mundo, ao custo at agora de 32 bilhes de reais. Ela tem capacidade de gerar 611 megawatts, quase o dobro do consumo de energia de Belm, com seus 1,5 milho de habitantes. H mais 17 para entrar em funcionamento at 2019, uma a cada dois meses, quando a usina atingir sua potncia plena, de 11,2 mil MW, 40% a mais do que Tucuru, no rio Tocantins, at l ainda a terceira maior do mundo. Quatro dias depois, no dia 19 deste ms, outro tipo de turbina ser ativada na casa de fora secundria. uma turbina bulbo, de funcionamento horizontal e no vertical, como as outras. Signica que precisa de pouca gua e por isso dispensa a grande queda necessria para acionar as ps de uma turbina convencional. As turbinas bulbo so acionadas por uma queda quatro vezes menor. As seis mquinas desse tipo em conjunto iro gerar apenas um tero da potncia de uma nica das 18 turbinas da casa de fora principal, que ser responsvel por 98% da gerao de Belo Monte. Cada uma delas precisa de 750 mil litros de gua por segundo, volume equivalente a toda a vazo do Xingu no perodo de maior estiagem. Como os dois reservatrios de gua, j formados, ocupando rea de 516 quilmetros quadrados (seis vezes menos do que o lago articial de Tucuru), no suportam a demanda plena da hidreltrica, sua potncia rme (aquela disponvel em mdia no ano inteiro) baixar para apenas 40% da capacidade instalada, ou 4,7 mil MW. O desejvel est acima de 50%. Esses nmeros grandiosos e complexos se apresentam como sucientes para considerar simblica ou intil a nova ao civil pblica ajuizada ontem pelo Ministrio Pblico Federal. O MPF quer paralisar emergencialmente o barramento do rio por agravar a sua poluio do rio e o lenol fretico de Altamira com esgoto domstico, hospitalar e comercial. A situao se tornou gravssima por que a condicionante de implantao de saneamento bsico, que evitaria esse impacto, at hoje no foi cumprida. O MPF lembra que as licenas ambientais, assim como as propagandas da Norte Energia e do governo federal se comprometiam atender integralmente as necessidades de saneamento da cidade antes de a usina car pronta. Mas Altamira continua sem sistemas de esgoto e gua potvel. Pelos prazos do licenciamento, a concessionria de energia, que venceu a licitao para a obra em 2010, deveria ter entregado sistemas de fornecimento de gua potvel e esgotamento sanitrio no dia 25 de julho de 2014, o que no fez. Mesmo assim conseguiu junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente liberar a operao da hidreltrica e o barramento do Xingu no nal do ano passado. Na extensa ao, o MPF argumenta, com razo, sobre a exiguidade de tempo que resta para a Norte Energia cumprir todas as muitas condicionantes do licenciamento e fazer no curto espao de seis meses o que no realizou em quase seis anos. Ainda mais quando a obra j est em desmobilizao, tendo dispensado milhares de empregados, e est prestes a comear a funcionar, com atraso de um ano em relao ao cronograma original, mas muito mais rpido do que se imaginava. Vai prevalecer a fora do governo federal, que quer a usina em atividade imediatamente, impondo o fato consumado sobre todas as razes de direito dos que caro em Altamira depois que mais esta iluso de progresso se tiver desfeito de vez?

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10 Depois que o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a sua permanncia na chea do ministrio da justia, Wellington Silva decidiu que era melhor continuar como procurador do Estado da Bahia, cargo vitalcio que ocupa h 25 anos. incompatvel o exerccio simultneo das duas funes, decidiu o STF, por 10 votos contra um nico, do ministro Marco Aurlio Mello. Ao endossar o voto do relator, ministro Gilmar Mendes, Luiz Roberto Barroso, um dos que subiu corte por indicao do governo petista, repetiu um princpio j antigo (republicano, para usar o jargo da temporada), mas constantemente esquecido: Quem exerce funo de Estado no pode exercer de governo. Funo de Estado exige distanciamento crtico e imparcialidade. Funo de governo exige lealdade e engajamento. O sempre imprevisvel (sobretudo quando diante das cmeras e holofotes) ministro Marco Aurlio, s vezes intransigente defensor de princpios e formalidades legais, desta vez estava de olho na conjuntura. Ele admitiu ter discrepado dos seus pares porque a deciso agravaria a atual crise poltica brasileira, j sem precedentes. A ministra Carmen Lcia, que em setembro assumir a presidncia do Supremo, certamente tratando de varrer as cinzas que seu antecessor, Ricardo Lewandowski, deixar, deulhe a resposta devida: Se os tempos esto difceis, [que o governo] no faa estripulia. Pois quanto mais os tempos se complicam, mais o governo faz estripulias. No por molecagem ou instinto blico: por pura incompetncia, desorientao e despreparo. Parece que s Dilma Rousse ainda acredita em Dilma Rousse e, por isso, reluta em dar consequncia a uma constatao que une gregos e brasileiros: seu governo acabou (como acabou, para fazer um paralelo mais prximo, o de Alfonsin na Argentina, apesar do papel histrico do presidente portenho e do seu cur rculo, to bom que ele pediu o bon antes do tempo aprazado por seu mandato e foi ouvir seus tangos). A presidente j sabia que se o STF fosse provocado, decidiria contra a permanncia do procurador baiano, como fez de forma categrica. Por que assumir esse risco desnecessrio? Por que assim o quis o mais novo todo-poderoso do Planalto (no perigoso lugar de Jos Dirceu), o tambm baiano Jacques Wagner. To novo que, diante das ltimas revelaes, lhe restou o ttulo de homem forte da mais fraca das presidentes da repblica brasileira. Um autntico anacoluto.Felizmente para ele, o ex-ministro, Jos Eduardo Cardozo, foi mandado para um forte protegido, a Advocacia Geral da Unio, de onde cer tamente no h mais de querer sair agora, quando sua cabea deve ter sido pedida a prmio por ningum menos do que Luiz Incio Lula da Silva.A animosidade entre os dois, que remonta a muito tempo, explodiu com o episdio do vazamento da delao do senador Delcdio do Amaral. Segundo j voz corrente dentro do PT (e fora dele), a indiscrio de responsabilidade do ento ministro, que repassou sua namorada, a jornalista que assinou a matria na edio extra da revista Is to da semana passada, o documento. Deu-lhe a grande faanha jornalstica dos ltimos dois anos, mas no quis apenas agrad-la, a se conrmarem as verses em curso. Ele cumpriu ordem superior. De quem? Provavelmente da presidente da repblica. Ou ela o teria premiado com o posto na AGU, quando Lula e a parte dominante do PT o queriam no quinto dos infer nos, se ele tivesse trado sua funo de governo, que exige lealdade e engajamento, como bem lembrou o ministro Roberto Barroso? Lula suciente experiente e competente em poltica para fazer a correlao. Dilma, vrios degraus abaixo dele no mtier, ainda assim no ignora esse convencimento do seu patrono e padrinho (agora, tambm, padrino ). Como, ento, pode haver o entendimento entre eles para que Lula ingresse no ministrio apenas como nova trincheira para enfrentar os processos da Lava-Jato, l se encolhendo, ngindo de morto e apostando na lealdade permissiva dos ministros do Supremo chancelados pelo PT? demais, mesmo para So Lula, o mais honesto dos homens e o maior dos presidentes do Brasil. No seria apenas a sacramentao por dentro (conforme o linguajar dos petroles e mensales de ontem e de sempre nos escaninhos do poder nacional) do m do governo Dilma, mas de tudo que a acompanha e dela depende. Um m de cujos desdobramentos ainda no se pode ter qualquer ideia segura. O processo se tornou agrantemente autofgico, mas, como se sabe muito bem, pode desencadear antropofagias inimaginveis. A crise agora, do tamanho do Brasil. Ele que trate de se cuidar. Novo frontIniciei neste dia 13, ainda em carter experimental, de sondagem, uma nova experincia atravs da internet: vdeos que irei gravar para tratar de questes da Amaznia de hoje e do passado. Sero como micro-palestras, a primeira das quais j pode ser acessada pelo youtube no endereo /www.youtube.com/watch?v=6ZsKRsIoVJA. O primeiro testemunho sobre a cabanagem, que tambm ser o tema dos prximos captulos. Espero a visita do leitor, a sua crtica e as suas contribuies. Espero alcanar principalmente os leitores mais jovens, que esto se afastando dos livros e dos textos escritos.

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11 A revelao das entranhas da parte do poder mais alto do pas envolvida a partir da corrupo organizada e sistemtica na Petrobrs deixa nua uma imprensa que integra esse mesmo poder. Desviando-se dos compromissos com a opinio pblica e dos deveres de ofcio, passou a fazer parceria com todos os lados de todos os balces da parte de cima da pirmide social. De tal maneira que uma nova for ma de CPI, a Comisso Popular de Inqurito, devia aproveitar a lavagem geral de roupa suja para testar a alvura (ou a sujeira) da imprensa nacional. O ltimo captulo dessa guerrilha marginal cobertura dos fatos foi provocado por um comentrio que o jornalista Paulo Nogueira, ex-editor da revista Veja, publicou no seu blog Dirio do Centro do Mundo Vou reproduzir tudo que ele escreveu, mas intercalando-o seu texto (em itlico) com meus comentrios, em negrito. O mais novo escndalo sexual de Braslia envolve a diretora da Isto em Braslia, Dbora Bergamasco, que abandonou o marido, o jornalista Marcelo Moraes, diretor do Estado, tambm em Braslia, para ir viver com Jos Eduardo Cardozo, ento ministro da Justia. Que fatos transformaram um acontecimento privado em escndalo sexual? Por que to ostensiva e diretamente sexual e no amoroso, privado, sentimental? Se h o escndalo, porque ainda ecoa a divulgao do fato. Quando isso ocorreu? Onde apareceu o registro de comentrios a respeito? Por que o tom inamado do autor, que o coloca na defesa do marido abandonado e na acusao mulher que encontrou um novo amor (Caso? Amante? Ricardo? Que mais expresso chula se haver de usar?) Dbora, antes de ser da Isto, passou uma temporada cheando a assessoria de imprensa do Ministrio da Justia, ironicamente indicada pelo marido, que foi obrigado a tir-la do Estado por conta de sua ao errtica como reprter. Novamente o posicionamento parcial de Paulo Nogueira contra a ex-mulher do ex-marido. Este desconava j do envolvimento de sua esposa com o ministro? Por que, ento, a puniu tomando por base sua ao errtica como reprter? O que o autor do texto quis dizer com a expresso? Ela errava sempre ou to frequentemente quando produzia suas matrias para o jornal do qual era contratada que pode ser classicada de errtica (ou, na linguagem coerente com o estilo do blog, ao menos neste assunto, burrtica?). Na Isto, Dbora foi autora de uma entrevista com Cardozo, de quem j era namorada, chamada A resposta de Cardoso, feita para isent-lo das responsabilidades em relao atuao da PF. Um verdadeiro jor nalista informaria os seus leitores sobre a data do incio do namoro e como ele evoluiu at a cumplicidade prossional entre os namorados. Hoje, Dbora Bergamasco publica com exclusividade a delao premiada de Delcdio Amaral, que provavelmente ela j tinha em mos, graas a sua ligao com Cardozo. Que provas ou evidncias tinha Nogueira para dar sua suspeita o grau de probabilidade que aponta contra a colega de prosso, de imediato, no mesmo dia em que a revista circulou com a reportagem dela? Qualquer jornalista minimamente prossional suscitaria outra hiptese, se seu propsito fosse apenas o de bem informar o leitor: que Dbora divulgou logo que teve o documento, assinado apenas duas semanas antes. Anal, ele lhe proporcionou o maior furo da sua carreira, de tal impacto que pode lhe assegurar um prmio Esso neste ano, ou equivalente. uma matria que, apesar de no ter uma nica prova que no sejam as falas de, levanta denncias graves contra Lula e Dilma, e a autora atual mulher do atual Advogado Geral da Unio. A matria era sobre a delao premiada do ex-lder de Dilma no senado e no congresso nacional. Se a jornalista fosse ampli-la para comentrios, anlises, checagens e etc., lhe tiraria o grande valor documental. A reprter no tinha que verificar se o que o senador Delcdio do Amaral procedia ou no. Bastava a certeza de que aquele documento era a reproduo da sua delao premiada. O ministro Teori Zavascki a conrmou quando anunciou que decidiria sobre a sua homologao ou no nos prximos dias e que at l o Ministrio Pblico Federal lhe deveria prestar contas sobre a investigao sobre o vazamento da delao premiada. Paulo Nogueira acusou a colega de um delito que no provou. O que provou com seu texto foi que ele prprio praticou esse delito. O grande jornalismo (no sentido de o mais clebre e famoso) que se pratica hoje no Brasil da elite isso mesmo: uma vergonha. Uma vergonha que tem utilidade ao abrir os esconderijos da informao manipulada para os jornalistas, que, felizmente, ainda no esqueceram que existem para servir sociedade e no se servir dos seus instrumentos de poder em benefcio pessoal, grupal ou corporativo. O verdadeiro jornalismo aproveita as informaes, como as de Paulo Nogueira, como material para responder a uma questo mais atual: como Dilma Rousse conseguir conciliar a presena de Cardozo ao seu lado (j na Advocacia Geral da Unio) depois dessa incondncia do dono do blog, com a reaproximao de Lula? Ela continuar a servir a dois senhores, da sua forma atabalhoada e sem rumo de governar este grande pas?

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12 memriaC OTIDIAN Odo GETLIONa coluna diria que escrevia na Folha do Norte a Ronda Poltica, assinando -a com as suas iniciais (C. M.), Cavaleiro de Macedo registrou o recebimento de um telegrama que meu pai, Elias Pinto, lhe passou de Porto Alegre, em janeiro de 1951, menos de duas semanas antes da posse de Getlio Vargas como presidente constitucional do Brasil, eleito pelo voto popular no ano anterior. A posse do ex-ditador do Estado Novo ocorreria no dia 31 de janeiro. Elias comunicava Cavaleiro que no dia seguinte estaria em So Borja, na fronteira do Rio Grande do Sul, de onde sairia para a solenidade na capital da repblica, que ainda era no Rio de Janeiro. Seria o seu segundo encontro com Vargas. O primeiro foi em Santarm, na campanha eleitoral. Getlio vinha de Belm e prosseguiria para Manaus. Como secretrio da prefeitura municipal (que s tinha um secretrio), Elias Pinto saudou o presidente, em nome do prefeito, Ader bal Caetano Correa, que era avesso a discursos. Pediu ao presidente que garantisse o beneciamento da juta, introduzida na regio por imigrantes japoneses, que era vendida em estado natural. O candidato prometeu atender a reivindicao, se fosse eleito. Deixou um carto manuscrito como garantia. E cumpriu sua palavra. Numa primeira audincia determinou ao Banco do Brasil que nanciasse o empreendimento, Num segundo encontro, autorizou a importao das mquinas da Inglaterra. E assim nasceu a Fiao e Tecelagem de Juta de Santarm, a Tecejuta, para industrializar a matria prima. Getlio cumpria, no distante e isolado Baixo-Amazonas, seu compromisso de fortalecer as bases industriais do Brasil.ACORDEONISTASA Academia de Acor deon Prof. Alencar Terra, estabelecimento de ensino artstico que se ufana concretizao de obras verdadeiramente magncas e patriticas, formou 22 acordeonistas em 1956. Pelos nomes das novas instrumentistas, d para perceber que era o must da poca entre as socialites: Alice Maneschy, Cla Gabilanes correia Pinto, Cla Menezes, Emlia Maia Roso, Fernanda Maia, Joo Naif Daibes, Joaquina Figueiredo, Lindalva Santana, Lcia Obadia, Maureen Santana, Marily Velho (que tambm era exmia pianista), Mary Mansur, Maria Odete Lamy, Maria Erotildes Maneschy, Ocirema Azevedo Santos, Oneide Mara Rego, Rosa Gomes Fernandez, Slvia Mara Brasil, Sulamita Xavier, Tereza de Jesus Simes, Tereza Tavares Branco e Uliana Almeida. Os formandos com direito a fotos em toda uma pgina de jornal.CINEMAA rma Cardoso & Lopes tinha quatro cinemas (de rua): Moderno, Independncia, Art e Vitria. Em 1962 organizou um festival de lmes selecionados e inditos das conceituadas marcas Art Filmes, Pelmex, RKO, Frana Filmes, Walt Disney, Allied Artists e Herbert Richers. O ltimo era o produtor dos melhores lmes nacionais e dos melhores e mais atualizados complementos nacionais, embora s vezes chegassem a Belm com mais de um ms de atraso em relao aos acontecimentos a que se reportavam. Ainda assim, o cinema era a maior diverso.ADVOGADOSAlguns dos principais escritrios de advocacia em atividade em Belm, em 1963: Clo Bernardo, Joo Francisco de Lima Filho, Jos de Ribamar Alvim Soares, Foncesa (integrado por lvaro e Orlando Fonseca, e Miguel Rocha), Ferro Costa (Clvis Ferro Costa, Roberto Santos, Luiz Carlos Nogueira e Alcindo Barbosa), Carlos Zoghbi, Pedro Bentes Pinheiro/Nessima Simo Tuma, Clio Melo, Egdio Sales (Propercio Oliveira Filho e Carlos Platilha), Aurlio do Carmo (Wilson Ribeiro e Pdua Costa) e Valente do Couto (Alberto Valente do Couto e Rucardo Borges Filho).PROPAGANDANuma poca em que os jornalistas estavam a um passo da poltica sem dar esse passo, o cronista Nilo Franco, de A Provncia do Par, se candidatou a vereador pelo PSD (o partido de Magalhes Barata, que morrera trs anos antes), na eleio de 1962. Continuou a ser apenas jornalista e um amigo como poucos.

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13 ANNCIOSEm 1964 ainda havia barraca para alugar na avenida Marqus de Herval, na Pedreira, que agora avenida-bosque, com grandes prdios s suas margens. Na mesma pgina de pequenos anncios da Folha do Norte a Autoviria Paraense comunicava que estava capacitada para atender fretes para pic-nics, excurses, viagens ao interior e aeroporto, em nibus Pulman de luxo. O Depsito Jaguaruana oferecia redes importadas diretamente de fabricantes cearenses: Jaguaribe, Jaguaruana, Santa Eliza, Maria Bonita e Fusto Familiar, Princesinha e outros tipos especiais. A Copiadora Hlius, que cava na Padre Eutquio, garantia sigilo, rapidez e perfeio nas cpias heliogrcas (antepassado das xerocpias) que fazia, alm de uma comodidade: mandava apanhar e entregar o produto. Uma famlia com residncia na 14 de Maro queria uma empregada que fosse sadia e asseada, prometendo, por isso, pagar bem. Algum que morava na Conselheiro Furtado, entre Quintino e Generalssimo, estava vendendo nada menos do que uma motocicleta Harley-Davidson de 28 HP, 750 cilindradas, toda equipada. Quem seria? Buscava-se uma menina, de 9 a 12 anos, para tomar conta de uma criana. Tambm uma pessoa de certa idade, para fazer compania a um casal sem lhos, na travessa Caripunas, no Jurunas. De um rapazinho para servios domsticos. E de um sapateiro para menina-moa e ballet. O escritrio dos advogados Orlando Bitar e Aderbal Meira Matos estava vendendo terreno no Loteamento Jardim Esmeralda, margem direita da Estrada de Ferro de Bragana, entre os kms. 8 e 9.BOATEA boate do Automvel Clube, no ltimo andar do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas, foi inaugurada em outubro de 1962, poca de ouro das festas danantes em Belm. A primeira apresentao foi da orquestra de Orlando Pereira, que inaugurou os novos instrumentos musicais adquiridos especialmente para a ocasio: vibrafone, guitarra havaiana e contrabaixo eletrnico. FOTOGRAFIAHoje o equipamento o computador. Em 1962, era uma mquina de datilografia, como esta Remington Rand, que o padre Loureno Bertolusso ganhou, no sorteio que a Livraria Globo realizava todos os meses. A mquina foi entregue pelo gerente da empresa, Altino Pinheiro (conhecido como Kid Belo na academia de boxe Joe Louis, onde desenvolvia seus dotes de lutador). O padre foi o esprito, o animador e o dnamo da Escola Salesiana do Trabalho, na Sacramenta, em Belm, para onde a datilogrfica foi levada.RESTOEm 1962, quando completou 10 anos de funcionamento, o BNDE (ainda sem o S) somava 45 bilhes de nanciamentos. Para a regio norte foram destinados 0,4% desse total. Para o CentroSul foi a parte maior do bolo, quase 76%. Ontem como hoje.

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14 Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto CartasLava-jato Os operadores de direito esto insatisfeitos com o ordenamento processual adotado pelo Juzo, Ministrio Pblico e policiais da esfera federal no caso de seus clientes famosos, embaraados nas fraldas da Operao Lava-Jato, objeto da matria de capa do Jornal Pessoal n. 601, da segunda quinzena de janeiro. Trata-se, na realidade, de uma queixa procedente, pois os nossos grandes causdicos com seus escritrios ostentando nomes quilomtricos defensores de pessoas distinguidas na sociedade, sempre tiveram os pleitos acolhidos e, at mesmo, muitos recepcionados ainda que, com alguma inconsistncia. Portanto, a assoada provocada tem cabimento e continua a provocar engulhos (nos dois sentidos), vendo seus clientes enjaulados e seus recursos encontrando a resistncia do Dr. Moro e seu grupo. No resta dvida ser um fato inusitado e no se sabe quanto tempo isso vai perdurar. Mas o importante que o texto deixou escancarado um fato indito nesses quinhentos anos de vida brasileira. Processar e trancaar empresrios de peso e alguns polticos era algo ainda impensvel neste pas do escrivo Pero Vaz de Caminha (embora em alguns Estados a prtica da impunidade seja corriqueira). E a denominada Operao Lava-Jato est levando a srio sua misso. Porm, decorrido quase dois anos dessa iniciativa, hoje isso deve ser anunciado com certa cautela, porque h indcios de furos nos processos concernentes ao que a tcnica jurdica chama de delao premiada. Segundo veio ao conhecimento pblico, das 40 assinadas, sete esto sob suspeita e em trs o Ministrio Pblico j instaurou processo para cancel-las. H casos em que os delatores no apresentaram documentos comprobatrios dos respectivos crimes delatados. um pssimo prenncio, pois sugere que se caminha para a inviabilidade, e neste caso pode tomar o mesmo destino de outras operaes importantes, com nomes sugestivos e que tratavam de crimes ligados a empresrios e polticos de expresso nacional, como as antigas: Banestado, Castelo de Areia Farol da Colina, etc. A propsito, comenta-se que a Lava Jato o maior antro de corrupo jamais visto nesta nao. Exagero demais, com o perdo da redundncia. O caso Banestado, cuja nalidade era a de investigar que destino tomou cerca de 124 bilhes de dlares (valores de 1996/2002), manipulados pela na or da elite empresarial, banqueiros, polticos e doleiros de vrios matizes, entre eles, Alberto Youssef, com todas as letras! Detalhe, o juiz Srgio Moro compartilhou das investigaes. Segundo o pronunciamento do senador Roberto Requio, do Paran, l esto os os da meada. l esto os nomes, todos os nomes. a nomenklatura toda. l est a tecnologia da corrupo, da fraude, do roubo, da sonegao. da malversao, da propina, dos trambiques, das concorrncias e compras viciadas, superfaturadas. Faz-se questo de citar esse fato passado da criminologia brasileira, tambm para deixar evidente que o trabalho executado pelos escritrios de advocacia e/ou prossionais liberais contribuiu no sepultamento desse importante episdio. Nos dias atuais, conforme se frisou linhas atrs, os requerimentos tomados em defesa de seus clientes no encontram a mesma recepo de antanho. O que mudou? Os cdigos? A legislao? A CF? No houve mudanas nas leis processuais, simplesmente o juiz Srgio Moro resolveu se basear na teoria da Operao Mos Limpas, executada pela justia italiana, cuja premissa, em linhas gerais era a seguinte: denir um novo centro de poder; combater o sistema poltico tradicional, formado pelas oligarquias nacionais, o esquema empresarial e o sistema jurdico convencional. Segundo o jor nalista Lus Nassif, o dr. Srgio Moro, com base no processo da Operao Mos Limpa italiana, elaborou um documento, em 2004, sob o qual assentou as diretrizes do seu atual trabalho. O fulcro da questo trabalhar com a opinio pblica esclarecida que ser obtida com farta divulgao dos fatos investigados para conseguir o apoio popular s aes judiciais em curso. Com esta estratgia evita-se que as pessoas investigadas, em qualquer hiptese, obstruam o trabalho dos magistrados. Enm, o novo poder, composto por jovens juzes, procuradores, delegados, em sintonia com os grupos tradicionais de mdia, varrero do cenrio nacional os corruptos e cor ruptores. Mesmo que esta ao implique em adotar algumas atitudes que contrariem os cdigos, como por exemplo, as prises preventivas alongadas, principal objeto das reclamaes dos causdicos, ainda assim, a equipe de Moro avaliza que imprescindvel porque parte do princpio que est construindo. A reper cusso no seio da sociedade j se faz sentir, intuindo-se que as lies esto sendo digeridas sem nenhuma restrio. Veja-se a manifestao de um popular sobre o assunto, colhida aleatoriamente, que diz mais ou menos o seguinte: a democracia se sobrepe aos direitos dos envolvidos na operao Lava-Jato. Se a gente juntar essa expresso com as listadas, a seguir, de autoria de uma ministra do STF A esperana tinha vencido o medo; O cinismo venceu a esperana e O escr nio venceu o cinismo conr ma-se, logo, o efeito positivo da teoria sobre a qual se embasa o juiz Srgio Moro e seus sequazes. O sucesso ser absoluto aqui e alhures. J vi esse lme. No obstante, o panorama favorvel na rea da investigao antes mencionada, tm-se casos anlogos referentes a nomes de peso na hierarquia do setor industrial, bancrio, de entretenimento, e at de futebol, que os processos andam a passos de cgados e no vencem as suas etapas tcnicas com a velocidade desejvel. preciso tratar todos os ladravazes e suas variedades de espertezas, com o mesmo rigor e determinismo. O desabafo dos advogados criminalistas natural, e a referncia poca da quartelada, foi somente fora de expresso, sem que a meno possa, na verdade, explicar as diculdades daquele tempo. Apesar de alguns comentrios enviesados, espera-se que essa operao seja concluda com pleno xito e no se demore muito, pois no prximo 17 de maro completar dois anos. O importante a punio dos culpados e o reparo nanceiro devido ao errio, permitindo que o pas resolva seus problemas na rea econmica e retorne a normalidade. Rodolfo Lisboa Cerveira ___________ Candidato Sei que no foi sua inteno e que at nem deve passar pela sua cabea tal coisa, e isso por vrios motivos. Mas seu pedido no jornal da 1 quinzena de fevereiro, diz para propormos nomes de pessoas pblicas, mesmo sem viabilidade imediata, para o cargo de administrador da cidade. Conversando com algumas pessoas, nenhum nome interessante veio tona. Mas a, pensei um pouco melhor, e no vejo outro nome (nessa tarefa que colocaste) a no ser o teu. E justicativas para tal teramos inmeras, programa tambm. Era s pegarmos o Jornal Pessoal do n 1 ao atual 603. Advaldo Castro Neto MINHA RESPOSTA Se eu fosse realmente pretendente a candidato a prefeito de Belm, no teria cabo eleitoral melhor. Mas minha trinchei ra aqui mesmo. No fuga. Como o caro Edvaldo lembrou, j z um bocado de sugesto, apresentei ideia, discuti projeto. Quero dar uma contribuio positiva, mas naquilo que sei fazer: jornalismo. ___ Lei Parabns como aborda o assunto [Os bandidos de toga], de forma prossional, isenta e com cunho informativo. Este o seu diferencial, ao longo dos anos. O dia que a lei for realmente cumprida, respeitada a mxima dai a Cesar, o que de Csar, certamente, viveremos numa sociedade melhor, justa, igualitria. Enquanto este dia no chega, que a utopia seja o alimento dirio, para o debate jornalstico leal, tico, onde possamos reetir, por que a lei dura para alguns (minoria), mas para uma maioria, potoca. Renato Neves _______ Teatro Escrevo para lhe agradecer o lindo texto que voc escreveu sobre a pea [As guerrilheiras]. Uma amiga estava em Belm e comprou um exemplar pra gente. Lindo! Neste momento, estamos

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15 batalhando para voltar ao Par e apresentar a pea a, principalmente na regio do Araguaia. Caso voc pense em algum que possa se interessar em nanciar, por favor, me avise. Estamos construindo o projeto de circulao e pedimos que algumas pessoas escrevessem frases sobre a pea para que a gente possa incluir no projeto. Posso usar alguma do seu texto? Gabriela Carneiro Leo _____ Sebo Aconteceu algo curioso. Encontrei um livro seu, Amaznia, o anteato da destruio, no Arquivo Cultural da Pedreira e ele tinha uma dedicatria sua para o ex-governador Aurlio do Carmo. Comprei. Achei interessante que voc escreve na seo Meu Sebo sobre esse assunto enquanto seus livros so a mesma inspirao para outras pessoas, como eu. Ainda sobre livros, lembrei de voc agora porque acabei de ler Os guas, do Edyr Augusto, e o jornalista Orlando Urubu certamente foi inspirado em voc. Acredito que j tenha lido, mas se no, ca a sugesto, em contrapar tida ao Bom dia aos defuntos. Andr F ernandesO boato de que o ex-presidente Lula poder ocupar um lugar no ministrio da presidente Dilma Rousse teve um efeito devastador sobre a economia no dia 15: as aes do Banco do Brasil desabaram, arrastando na queda a bolsa de valores, e o dlar comeou a subir, invertendo a tendncia dos ltimos dias. Sinal de conspirao? Reexo das elites contrariadas? O mundo branco em rebelio? Um nmero surpreendentemente grande de pessoas acredita nessas teorias conspiratrias engendradas no tero dogmtico do PT. Na verdade, porm, paroxismos e radicalismos parte, que avanam sobre o eixo do pas, os sentimentos que mais se pode sentir so os de perplexidade, descrena, desalento e exausto. A inventividade dos polticos no poder ilimitada, mas no a capacidade do mundo real de acompanh-la. O que limita quem vive no mundo real, produzindo bens e servios, o prejuzo derivado das crescentes limitaes que a crise poltica impe nao. Ela est paralisada e ainda consegue se sur preender a cada novo movimento para a sobrevida de um corpo que comea a feder: o do governo do PT. Os ex-presidentes costumam seguir uma regra bsica no escrita: no tumultuar a vida dos seus sucessores, sobretudo daqueles que escolheram e zeram eleger. Credenciado por ser o avalista de um programa audacioso de combate inao e de criao de uma moeda, com a qual at hoje operamos, Itamar Franco no quis a aposentadoria. Fernando Henrique Cardoso o acomodou na embaixada em Portugal, onde sua condio monoglota no o entravaria. E por l cou. Nenhum dos outros exemplos de continuidade na vida pblica serve de antecedente para a volta de Lula ao poder executivo federal. Sarney e Collor so senadores. FHC voltou a ser o que no devia ter deixado de ser: um intelectual. Ainda que continue a palpitar sobre o que devia tratar com silncio obsequioso. A menos poluda explicao dada para o retorno de Lula que ajudaria uma presidente refratria ao oposto a dialogar com os descontentes e refazer a base aliada. Mas teria um contrapeso mais do que proporcional: a antecipao da candidatura de Lula a 2018 e a morte do governo Dilma sem direito a enterro, ta amarela ou dobre de nados. A presidente necrosaria em vida. Seria um poder paralelo s menos desastrado do que a convivncia dos generais -presidentes do regime militar com os pores da represso, que no controlavam e, por isso e outros efeitos, negavam, Na verdade, a hiptese, que estaria para se conrmar, a partir das conversas que esto sendo travadas neste momento em Braslia, se amoldaria inteno de livrar o ex-presidente do risco iminente da decretao da sua priso preventiva ou, pelo menos, do seu indiciamento como ru pela Operao Lava-Jato. Nesse caso, os articuladores desse factoide podero destruir a prpria soluo que esto buscando. Como reagiro o procurador-geral da repblica, que assumiria diretamente o papel at agora desempenhado por promotores independentes em Curitiba, o relator do caso, ministro Teor Zavascki, e seus companheiros do Supremo Tribunal Federal? Complementaro a trama, quando a futura presidente, ministra Carmen Lcia, j devolveu ao governo a atrapalhada na qual se meteu? Se zerem isso, estaro se expondo a uma execrao pblica ainda mais extremada do que a reservada aos aloprados petistas. No nal da sua car reira, no exerccio de um posto para o qual nem todos estavam qualicados, promovidos tambm ou, sobretudo por injunes polticas, seguiro compromisso de delidade e gratido a quem os nomeou ou se deixaro inar pela solenidade do posto? Teori Zavascki decidiu no atender o convite que lhe fez o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, para se reunir com a presidente Dilma num hotel em Lisboa, onde se encontravam casualmente para um ato diplomtico. Certamente imaginou que, ainda quando o assunto no fosse a Lava-Jato, era a associao natural que todos fariam. Por isso no foi. Depois, Lewandowski e o Palcio do Planalto justicaram a estranha reunio: fora para discutir o reajuste de vencimentos no poder judicirio. Em Lisboa? Se o episdio pode servir de antecipao ao que vir, o que est por vir no parece propcio nova manobra que Braslia engendra. O Brasil no vai aceit-la, qualquer que ela venha a ser. Talvez, nem o STF certamente, no mais os integrantes da Operao Lava-Jato, a caminho do desfecho de dois anos de investigao.CorreoNa matria sobre o pessoal do bairro do Cabelo Seco, em Marab, naturalmente, onde se l Parauapebas, leia-se rio Itacaiunas, que banha a cidade no inverno, literalmente. Alis, antes da ponte a travessia era feita em sugestivas embarcaes, que se assemelhavam quelas entre Guayar, do lado boliviano, e Guajar-Mirim, do lado brasileiro, em Rondnia. Sobreviveu alguma?

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Quem for pelo principal circuito do comrcio antigo de Belm, da Santo Antonio para a Joo Alfredo, 15 minutos antes das seis da tarde, e rezer o mesmo caminho em seguida, vai deparar com dois cenrios. No primeiro ver as pessoas fechando s pressas as grades das lojas. No segundo, um silncio tpico de cemitrio fechado, naturalmente. Est em vigor o toque de recolher, dado no por uma autoridade estatal, mas pela prpria sociedade. Antes o comrcio chegava a funcionar at oito ou dez horas da noite no centro velho de Belm. Hoje, o alerta soa antes mesmo que a noite baixe e os gatos pardos se tornem pretos. O medo gera a suspeita e da suspeita vem o pnico a assaltos, furtos ou homicdios. Em Outeiro, foram nove nas ltimas duas semanas. As barracas da praia fecham como no comrcio de Belm. Todos se recolhem s suas casas, desde que protegidas por grades de ferro e outros sistemas de preser vao. No s um problema de policiamento, como prometem as autoridades, que se reuniram hoje com representantes da comunidade na ameaada Escola Bosque. A iluminao ruim (e voltou a faltar), as ruas esburacadas, no h saneamento bsico, o lixo se acumula, faltam empregos e o que era uma ilha buclica, com suas praias frequentadas pelo povo, hoje uma armadilha para os seus 90 mil habitantes, num distrito que o retrato do abandono e da lei do mais forte. Nesse ambiente de violncia e selvageria, o toque de recolher um grito de protesto e uma advertncia.MEU SEBOComprei o Dicionrio etimolgico resumido (mas no tanto, com suas 792 pginas), do clssico e notvel Antenor Nascentes, no mesmo ano em que foi publicado, 1966, quando tambm comecei a minha carreira no jornalismo prossional, aos 16 anos. O livro foi publicado pelo Instituto Nacional do Livro, do Ministrio da Educao e Cultura, na poca (em plena ditadura envergonhada) dirigido pelo grande crtico literrio gacho Augusto Meyer, tendo Antnio Geraldo Pereira Caldas como chefe da seo da enciclopdia e do dicionrio. Pesquei a obra, mal a vi, na Livraria Parthenon, que cava na ento sosticada (e hoje deteriorada) rua Baro de Itapetininga, em So Paulo, no 1 andar de um daqueles prdios bonitos do que fora um centro intelectual muito vivo. Eu era fantico por dicionrios e gramticas, travando debates intensos com Constantino Tork Barahuna, meu colega no Colgio Paes de Carvalho e a cuja casa eu costumava ir para estudarmos. O livro deu incio coleo de dicionrios especializados do INL, que deveria reunir uma srie de obras estruturadas em verbetes com com tratamento lexicogrco ou enciclopdico, de variado critrio de seleo de termos, consoante o m a que se destinem e o conjunto de vocbulos que se pretenda reunir e registrar. Na primeira folheada no livro, em formato prprio para consulta (alm de capa dura) e papel no (j desgastado), deparei com a expresso ciberntica, de origem grega. Apesar de muito antiga, estava na vanguarda naquele momento. Indo at o grego, cheguei a Grgias, um retrico e lsofo, que a denia como a arte de navegar e tambm como piloto. Segundo os comentaristas, a inteno de Grgias ao atacar os retricos, era salientar a importncia do Estado como ideal de realizao humana. Da o sentido dado ciberntica, a arte de governar uma nao. Foi o mesmo sentido que Ampre lhe conferiu, em 1804, ao introduzir a expresso na lngua francesa. Conhecedor da obra de Ampre, Moniz de Arago trouxe o termo para o portugus, com a graa cybernitica, em 1878. Setenta anos depois, Norbert Wiener a utilizou no sentido de controle e comunicao no animal e na mquina. E assim ela evoluiu at o seu amplo sentido atual, conforme continuei a investigar a partir daquele livro, que comprei meio sculo atrs.O GRANDE BONFIMEm julho de 1925 Manoel Bonm (que se assinava M. Bonm) concluiu, no Rio de Janeiro, a redao do livro O Brasil [na poca grafado Brazil] na Amrica (caracterizao da formao brasileira), impresso em setembro de 1927 pela Livraria Francisco Alves e lanado ao pblico em 1929, com 464 pginas, bem sugestivamente um ano antes da revoluo de 1930, liderada pelos tenentes e a classe mdia urbana.. No prelo j estavam O Brasil na histria e O Brasil-Nao. Com o primeiro livro, Bonm dava incio trilogia aplicada apreciao das condies feitas Nao Brasileira. E descrevia seu grande empreendimento intelectual, uma das melhores tentativas de interpretao da histria nacional: Um mesmo pensamento geral, em desenvolvimentos perfeitamente distintos: caracterizao da formao nacional brasileira; causas que turbaram o prosseguir da nacionalidade, como sejam ataques sistemticos tradio j denida, efeitos da degradao e degenerao da metrpole, reagindo sobre a colnia em leses diretas e contaminao ptrida;nalmente, expresso, na vida da nao soberana, desses persistentes motivos turbao, leso, contaminao, at a condio atual. Como se v, so coisas que se completam como objeto, mas tm unidade prpria e intuitos especiais.. A edio que tenho, a primeira, foi adquirida pelo metdico Ruben Benvindo Ferreira Costa s 14 horas, uma segunda-feira, em 16 de agosto de 1923, no Rio de Janeiro. Houve nova edio das obras de Bonm, mas j tempo de reedit-las de uma s vez. Ajudaro muito os brasileiros de hoje a entender essa entidade paquidrmica chamada Brasil.