Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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C. R. ALMEIDA NA LAVA-JATO O BAL DO CABELO SECO o aDepois de um perodo em que funcionou inexplicavelmente com lacunas, o Tribunal de Justia do Estado do Par voltou a contar com todos os seus 30 desembargadores. No dia 26 deu posse, de uma s vez, a cinco novos titulares do colegiado, que aprecia os recursos apresentados contra as decises dos juzes isolados de 1 grau. Foram empossadas mais quatro mulheres (Ezilda Pastana Mutran, Maria Elvina Gemaque Taveira, Rosileide Maria da Costa Cunha e Nadja Nara Cobra Meda), agora somando 18 integrantes, e um nico homem (Mairton Mar ques Carneiro), de um total de 12. O presidente da corte de justia paraense, Constantino Guerreiro, elogiou a trajetria dos magistrados, que passaram por diversas comar cas do interior at chegarem capital, levando a justia s localidades mais longnquas, com dedicao e sacerdcio, cumprindo seus deveres sociais e funcionais. Manifestou a certeza de que eles continuaro a desempenhar esse papel nas novas funes: Todos so grandes merecedores, e j conheceram a realidade do nosso Estado ao JUSTIAOs bandidos de togaO Tribunal de Justia do Estado conseguiu, finalmente, preencher todos os 30 lugares de desembargador. Mas duas magistradas que votaram foram afastadas pelo CNJ, onde um novo desembargador est sendo investigado.

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2 longo da carreira de juzes e, agora, esto prontos para o desao de atuar no segundo grau. Expressou a sua satisfao de v-los chegar ao desembargo. O desembargador Luiz Neto, que saudou os novos colegas, ressaltou o compromisso que devemos todos ter em primeiro plano a elevao da instituio no conceito que ela tem no judicirio nacional e que vem sendo renovado, elevado e bem conceituado a cada ano, segundo o CNJ. No o que sugere a realidade. O judicirio do Par tem sido um dos mais investigados e punidos pelo Conselho Nacional de Justia, com sede em Braslia. As desembargadoras Vera Arajo e Marneide Merabet, que contriburam para a manifestao unnime de aprovao dos novos integrantes do TJE, esto sendo investigadas, e podem vir a ser punidas por um dos mais escabrosos processos da justia paraense. Ele comeou em 2010, quando a ento juza Vera Arajo de Souza, da 5 vara cvel de Belm, ordenou ao Banco do Brasil que bloqueasse nada menos do que 2,3 bilhes de reais. O incrvel valor teria sido depositado por engano em uma conta do banco e estava sendo reclamado pelo procurador do suposto titular dessa conta, Francisco Nunes Pereira. O mais incrvel ainda era esse dinheiro ter sido mantido em conta corrente, sem movimentao, durante trs a quatro anos, sem qualquer rendimento. O advogado Juarez Correia dos Anjos alegou que houve dois depsitos acidentais na conta do seu cliente. O primeiro, no valor de 965 milhes de reais, foi efetuado em 31 de janeiro de 2006. O segundo, de R$ 1,3 bilho, no dia 12 de abril do ano seguinte. Esse dinheiro teria sido posterior mente distribudo por vrias contas correntes e de poupana do suposto depositante em agncias do BB. Da juza ele queria o reconhecimento do usucapio especial, uma ao inusitada, e o imediato levantamento dos R$ 2,3 bilhes. Numa deciso de carter liminar, adotada sem o exame denitivo do mrito da ao e sem ouvir a outra parte, a juza reconheceu que o autor tinha o direito de garantir os valores depositados no banco, que os liberou em seguida. Se no obedecesse determinao, o banco estaria sujeito multa diria de R$ 2 mil. Surpreendidos, advogados do Banco do Brasil zeram contato pessoal com a juza para lhe informar que se tratava de fraude, j aplicada sem sucesso por uma quadrilha contra a instituio nanceira federal em Braslia, Santa Catarina e Alagoas. Os advogados apresentaram a cpia da sentena de um juiz do Tribunal de Justia do Distrito Federal, transitada em julgado. A deciso comprovou a falsidade do documento utilizado em duas tentativas anteriores de aplicao do golpe. Apesar de todas as provas materiais, a juza no s no revogou a liminar como ignorou o pedido do banco, que recorreu instncia superior. Quando levada a processo no tribunal, a juza admitiu em audincia que proferiu a deciso por presso de cima. No disse quem a pressionou nem se pronunciou sobre o pedido de reconsiderao formulado pelo banco. Surpreendeu a todos a extrema celeridade da liminar. A ao foi distribuda em 4 de novembro de 2010, uma quinta-feira. A liminar foi concedida na segunda-feira seguinte, apesar da inicial haver sido instruda por cpias e sem que o estrambtico valor em causa despertasse suspeitas, alegaram os representantes do Banco do Brasil. A desembargadora Marneide Merabet manteve a deciso recorrida no que se denomina juzo sumrio de cognio. Exigiu como prova para atender o banco justamente o que o banco lhe apresentara: documentos comprovando que o dinheiro reivindicado no estava depositado nas contas do autor da ao. O BB foi bater porta do CNJ. Em dezembro de 2010, a ento corregedora nacional de justia, Eliana Calmon, suspendeu a deciso da juza Vera Arajo, que apresentava indcios de violao do Cdigo de tica da Magistratura. No ms seguinte a desembargadora Marneide Merabet reconsiderou a prpria deciso e tambm suspendeu a liminar da juza do 1 grau. Nesse mesmo dia, 17 de janeiro de 2011, homologou pedido de desistncia da ao, que o titular da conta bancria lhe apresentou. O golpe foi novamente estancado, mas esse resultado no podia signicar um nal feliz para as magistradas. Com suas decises, elas permitiram que os falsrios chegassem ao ponto mais avanado das suas de roubar o banco estatal. O CNJ continuou a apreciar a situao. Nas investigaes realizadas, cou constatado que o nome da desembar gadora Marneide Merabet e do seu marido, Paulo Roberto, constavam da agenda telefnica do autor da demanda. Com o inqurito instaurado no Superior Tribunal de Justia e a quebra do sigilo telefnico dos investigados, foi constatado que a desembargadora Marneide teria mantido contato telefnico com o autor da demanda e com o advogado que atuou nos autos antes da distribuio do feito. A Receita Federal tambm detectou indcios de movimentao nanceira ir regular por parte da desembargadora em 2010. No dia 19 de maio o CNJ decidiu instaurar Processo Administrativo Disciplinar para apurar a conduta das duas magistradas paraenses. Era o quarto PAD criado em trs meses contra integrantes do Tribunal de Justia do Estado, talvez um recorde nacional e histrico. Com um agravante: no intervalo entre o aparecimento da petio em busca dos R$ 2,3 bilhes e a deciso do CNJ, a juza Vera de Arajo Souza foi promovida ao desembargo e por merecimento. A investigao do prprio tribunal tinha resultado no ar quivamento do processo. A deciso provocou perplexidade e se transformou em acusao ao tribunal no momento da instaurao do PAD pelo CNJ, onde um paraense tinha ento assento. Talvez estando na origem dessa e das demais iniciativas envolvendo magistrados paraenses, o promotor pblico militar Gilberto Martins, que acabou sendo reconduzido ao cargo para um segundo mandato, se declarou impedido de votar. Ele fora o responsvel pelas aes penais que o Ministrio Pblico do Par props na investigao, antes de tomar posse como conselheiro do CNJ. O que no impediu a aprovao das medidas no colegiado. A sindicncia processada pelo CNJ encontrou indcios de faltas funcionais

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3 cometidas pelas duas magistradas em 2010 e 2011. Segundo o relator, Francisco Falco, ambas violaram os princpios da independncia, imparcialidade, integridade prossional e prudncia. Por isso foram afastadas das funes at o julgamento do PAD. O mesmo destino tiveram os desembargadores Joo Maroja (j aposentado), que presidiu o Tribunal Regional Eleitoral, e o falecido Cludio Montalvo, que seria o candidato presidncia do TJE se no tivesse sofrido grave doena. Antes de maio terminar outro magistrado paraense, o tambm promovido por merecimento (na terceira tentativa de ascenso) Mairton Marques Carneiro, titular da 6 vara cvel de Belm, foi igualmente submetido a um PAD. A investigao era para vericar se ele cometeu infrao disciplinar ao adotar duas decises em um mesmo despacho: avocou processo que no era da sua competncia e determinou o cumprimento da sentena de honorrios de sucumbncia (devidos quando o processo chega ao m) no valor de R$ 3,5 milhes. O novo procedimento tinha uma atenuante e uma agravante para o TJE. A atenuante era que o CNJ se manifestou a pedido da prpria corregedoria do tribunal. A agravante era que, se tivesse dependido apenas de parte do r go pleno do TJE, o juiz teria escapado investigao. A aprovao do PAD na justia paraense foi obtida por 12 votos a 9. A reclamao foi arquivada porque no houve maioria absoluta dos votos, exigida pelo regimento para a aplicao de penalidade. A corregedoria, por dever de ofcio, recorreu para que o CNJ instaurasse a reviso disciplinar. J ao receber o pedido, o corregedor nacional de justia, ministro Francisco Falco, expressou a incredulidade dos revisores diante da inslita situao: Se despachar sem os autos no grave, o que ?, disse ele para os seus pares, na apreciao da solicitao. O caso teve origem em uma disputa judicial entre a Amazon Hevea Indstria e Comrcio e o Banco da Amaznia em torno de contratos de nanciamento. A companhia requereu 6 vara cvel a declarao de nulidade de quatro contratos e a retirada de seu nome do cadastro de inadimplentes. J o Basa pediu a busca e apreenso na 4 vara cvel de mquinas diante da inadimplncia da empresa em alguns contratos. O banco foi condenado na ao de busca e apreenso a pagar honorrios xados em 20% do valor da causa. Na ao ordinria, sentenciada em 2009, o juiz Mairton Carneiro declarou extintos quatro contratos de nanciamento, e ilegtimos os crditos apurados. A pedido do advogado da Amazon Hevea, em junho de 2013, o juiz da 4 vara cvel determinou que o Basa lhe pagasse honorrios de R$ 2,2 milhes. Dias depois, a empresa pediu ao juiz que encaminhasse os autos da ao de busca e apreenso ao juiz da 6 vara onde o processo original foi julgado. O juiz rejeitou o pedido. No dia seguinte, a Amazon fez a mesma solicitao a Mair ton, que imediatamente avocou o processo e deter minou que o Basa pagasse, em 15 dias, R$ 3,5 milhes em favor da empresa. Em sua manifestao favorvel ao PAD, o ministro Joaquim Falco ressaltou que o juiz proferiu deciso sem que estivesse com os autos do processo em seu poder, o que indica a possibilidade de infrao aos deveres de prudncia e de imparcialidade previstos no Cdigo de tica da Magistratura e na Lei Orgnica da Magistratura. Pelas manifestaes registradas na sesso do CNJ, Mairton Carneiro estava ameaado de ser nalmente punido por suas decises no mnimo polmicas. O caso das juzas Vera e Merabet chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde a 2 turma, por unanimidade, acompanhou o voto da relatora, ministra Carmem Lcia. A futura presidente do STF julgou improcedente um mandado de segurana impetrado pelos advogados das duas magistradas e revogou a liminar do ministro Ricar do Lewandowski, que suspendeu afastamento de ambas pelo CNJ. Apesar de a deciso ter sido comunicada ao TJE, elas participaram da sesso que promoveu os cinco juzes ao desembargo. No s o tribunal foi informado, por fax, conforme est certicado nos autos do mandado de segurana, como as duas magistradas foram intimadas pessoalmente do julgamento, assistido pelos seus advogados. O defensor de Vera Arajo na sustentao oral no plenrio do STF foi o advogado Ophir Cavalcante, ex-presidente da OAB do Par e da nacional. A punio das duas desembargadoras dada como certa pelo voto contundente contra elas dado pela ministra Carmen Lcia. Mesmo assim, no considerada a hiptese de anulao da sesso do TJE da semana passada, com a participao das duas desembargadoras afastadas na vspera pela deciso do STF. Como a promoo ao desembargo dos cinco juzes foi aprovada por 22 votos, a participao das magistradas no inuiu no resultado. Alm disso, o presidente do tribunal, Constantino Guerreiro, no teve conhecimento a tempo sobre a deciso, que lhe deveria ser comunicada diretamente pelo STF. Dos cinco novos desembargadores, Mairton Carneiro tambm est respondendo a processo perante o CNJ, mantendo a tradio de indiciamento de integrantes do TJE pelo conselho. Trata-se de uma hemorragia punitiva, que se agravou pela falta de iniciativa do prprio judicirio paraense de desconsiderar as acusaes contra os seus integrantes e optar por manter as aparncias contra as claras evidncias de irregularidades e ilegalidades cometidas por aquele tipo de juzes que a ministra Eliana Calmon deniu como bandidos de toga.

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4 Memria do Cotidiano V OLUME 7NAS BANCAS E LIVRARIAO personagemA imprensa de S. Paulo e os jornais de BelmA edio local da Folha de S. Paulo de domingo, 21, foi concluda quase meia-noite, ou 23h56. A do seu concorrente, O Estado de S. Paulo, fechou ainda mais tarde, meia hora depois da meia-noite. Por isso, ambos s chegaram s ruas no comeo da manh de domingo. Nada de extraordinrio. Pelo contrrio: a data do seu cabealho era mesmo domingo, 21. Nada perderam, portanto. E ganharam a possibilidade de chegar ao leitor dominical com notcias de ltima hora, como o desfecho de mais uma primria da eleio presidencial nos Estados Unidos e o resultado (empatado) do jogo entre Santos e Palmeiras, j na alta noite de sbado. Em Belm, O Libe ral e o Dirio do Par de domingo comeam a circular pelas ruas no meio da tarde de sbado, frios como os cadveres que o jornal da famlia Barbalho publica todos os dias. Raros assuntos do dia saem nas duas publicaes, mesmo que sejam importantes. No uma fraude ao leitor, um crime contra o consumidor? Comparando os jornais paraenses aos paulistas, a resposta sim. Por que, ento, o consumidor no protesta e o seu defensor institucional, o Ministrio Pblico, no se movimenta? Se o jornal diz ser de domingo, no pode sair no sbado, concorrendo com a edio normal e privando quem paga quatro reais por O Libe ral e R$ 2,50 pelo Dirio (R$ 5,50 pela Folha e R$ 6,00 pelo Estado valores que servem de medida para a diferena entre o poder de compra em Belm e em So Paulo) de receber um produto coerente com o que declara. Isto : de ser uma edio dominical. No caberia a alegao, j utilizada por O Liberal, de que o volume de pginas a imprimir exige a antecipao. O jornal dos Maioranas tem uma mquina potente, capaz de dar conta da tiragem (que caiu bastante desde a aquisio do equipamento) em pouco tempo. Sua capacidade se tornou agrantemente ociosa. A Folha tem uma tiragem muitssimo maior e roda uma edio nacional e outra local. Na sua primeira pgina o jornal informa a sua tiragem: quase 333 mil exemplares. o nico a dar essa informao na grande imprensa nacional. No entanto, j no separa a quantidade de jornais impressos em papel das consultas digitais. A tiragem somada. Embaixo dito que a audincia de pouco mais de 31 milhes de visitantes nicos por dia. Daria 73 mil visitantes nicos (no repetidos, graas ao controle sobre seus e-mails) por dia. O que sobra a tiragem do impresso em papel: 260 mil exemplares. No mnimo, 10 vezes a tiragem de O Liberal, agora inferior (no se sabe em quanto, j que os dois jornais sonegam todas as informaes que podem esconder) do Dirio Agora experimente o leitor ler simultaneamente os dois jornais paulistas e os dois paraenses. Dever se sentir ainda mais fraudado. muito importante que os jornalistas leiam documentos. E que estejam capacitados a ler todos os documentos, compreendendo-os ou, quando o caso, decifrando-os. Assim fortalecero sua base informativa e analtica. Mais importante, porm, ir s ruas para acompanhar os acontecimentos, ver e conver sar com as pessoas. Na extensa produo de textos sobre a Operao Lava-Jato, que investiga a cor rupo na Petrobrs, muitos jornalistas se satisfazem em reproduzir os documentos ou as verses dos seus personagens de um e de outro lado da mesa. Mas raros fazem o que o reprter Marcelo Auler fez: desceu do Olimpo (ou limbo) da informao indireta para a realidade concreta. Assim, apresentou a melhor descrio j feita de um dos personagens mais populares da frente anticorrupo: o nissei Newton Ishii, o delegado da Polcia Federal. Tantas foram as vezes em que ele foi lmado ou fotografado conduzindo presos que acabou se tornando referncia no carnaval que passou. Trs dcadas depois de ter ingressado por concurso na PF, ele foi afastado da funo que desempenhava em Foz do Iguau, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Foi acusado junto com outros 23 agentes de facilitar o contrabando, que por ali intenso. Chegou a car preso por dois meses. Respondeu a processo e foi desligado em 2009. Recorreu, mas at hoje a ao no foi decidida. Em 2012 a punio disciplinar que recebeu prescreveu e o Supremo Tribunal Federal a extinguiu. Ele pediu a aposentadoria, mas o Tribunal de Contas da Unio condicionou o ato ao seu retorno ao trabalho por mais dois anos. Ele permanecera inativo ao longo de 10 anos. Voltou frente da Lava-Jato e, se a investigao sigilosa em curso sobre ele resultar infrutfera, ir para casa como heri nacional. E, talvez, algo a mais.

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5 Os bailarinos do Cabelo SecoA mais surpreendente e auspiciosa novidade em matria de dana no Par vem do bairro do Cabelo Seco, em Marab. Na mais antiga aglomerao humana formada na cunha de terra que avana na interseco do Tocantins com o Parauapebas, recebendo anualmente as guas expandidas dos dois rios, s vezes em enchentes catastrcas, adolescentes pobres, com a marca da ascendncia negra e indgena, comearam a danar juntos. Essa identidade evoluiu para a coreograa, a princpio rstica e bsica. At que comearam a criar movimentos e buscar um sentido para eles. Depois de terem se apresentado em cidades fora de Marab, do Par e at do Brasil, eles se exibiram em Belm, primeiro em 2015 e agora, em apenas dois dias, no auditrio do Sesc Boulevard, para um pblico relativamente pequeno. Imerecidamente pequeno. Mas quem viu no s se surpreendeu pelo que viu: se emocionou. Os trs danarinos no se motivaram nem atraram por modismos, tendncias contemporneas, cosmopolitismo. Sabendo ou no disso, colocaram em prtica o conselho do grande escritor russo Lev Tolsti: canta a tua aldeia e sers universal. Atravs de movimentos cadenciados, que se repetem com energia crescente, guiados por uma msica forte, de inspirao indgena, com contorcionismos no cho, eles vo num crescendo at denir o que querem dizer com a linguagem spera e lrica dos seus corpos em mutao: um protesto indignado contra a destruio do seu mundo, do meio fsico expresso cultural. Uma declarao de amor e respeito pelas fontes milenares do saber local, na convivncia harmnica com os elementos exteriores, transformados em extenso do homem, numa fuso que os invasores e intrusos desfazem. Os rios Tocantins e Parauapebas rugem nas cheias, os antigos moradores do Cabelo Seco se assustam, sofrem mas no desistem, no se afastam dali para um ter reno seguro, mas estranho, hostil. Por isso devem morrer? No, dizem os bailarinos infantes. para viver em combinao com rvores e guas, com outros iguais, na utopia do paraso per dido, mas ainda em tempo de ser refeito, como eles zeram com a sua dana maravilhosa. Quem so esses bailarinos? Acho que eles tm competncia tambm para se apresentarem, como zeram no texto que prepararam para o espetculo e que reproduzo: Premiada Cia de Dana AfroMundi do projeto eco-cultural e socioeducativo Rios de Encontro abre sua primeira temporada em Belm com dois novos espetculos Lgrimas Secas e Nascente em Chamas. AfroMundi, que vem desenvolvendo sua dana afro-contempornea e amaznica desde 2012, j apresentou em diversos capitais no Brasil, na Colmbia e nos EUA, est na frente da gesto juvenil de um projeto social enraizado no bairro matriz de Marab que arma excelncia artstica, ao comunitria e colaborao inter nacional para advogar direitos humanos e cuidado eco-social em defesa de uma Amaznia sustentvel. O solo, Nascente em Chamas, estreado em Belm pela danarina fundadora da AfroMundi, Camylla Alves, no nal do 2015, fruto do Prmio Projetos Artsticos 2015, do Programa de Incentivo Arte e Cultura (SEIVA) da Fundao Cultural do Estado do Par. O espetculo dialoga sobre a tragdia ecolgica e social em Mariana, Minas Gerais. Aps a recente classicao do rompimento das barragens como a pior catstrofe na histria da minerao no mundo, e o deslizamento de mais lama em Mariana no dia 27 de janeiro, Nascente em Chamas vem se tornando smbolo pela preocupao mundial sobre o futuro do planeta. Lgrimas Secas, apresentado numa balsa no rio Tocantins durante o IV Festival Beleza Amaznica 2015 por Camylla Alves, Lorena Melissa e Joo Paulo Souza, recebe sua primeira temporada em Belm. No espetculo, nossa vida e as lendas do rio pegam fogo, explica Dan Baron, diretor artstico de AfroMundi. Tudo seca, at a prpria nascente. Buscamos situaes extremas e poticas para estimular nossas plateias reconhecerem sua realidade cotidiana que muitos pensam no podem transfor mar. Com Lgrimas Secas, AfroMundi foi contemplada pelo prmio Novos Talentos 2014 da Funarte, do Ministrio da Cultura. Nascente em Chamas dramatiza a noite quando a danarina Mariana volta ao seu bairro revitalizado, e perdida, desce margem do Rio Tocantins e cai num vinco de memria profunda na Orla. Vivncia a histria feminina oculta da violao da Amaznia e comea entender o descuido, medo e silncio do presente. Lutando para respirar nas fumaas da seca, Mariana se alivia no rio txico e contaminado, se transforma em uma alerta potico mundial. Inspirado por artistas africanos e lendas amaznicas, o espetculo relaciona a cicatrizao do povo afro-descendente com a proteo dos rios amaznicos. A coragem da Cia AfroMundi de tratar questes sensveis, a perda de comunidade e do equilbrio ecolgico, vem inspirando outros pases se solidarizarem com a preservao da Amaznia e vislumbrar bairros excludos como fontes de sabedoria e transformao social a partir da cultura popular. Depois de Belm, Camylla Alves e Dan Baron levaro Nascente em Chamas e daro ocinas eco-culturais na China e em Nova Zealndia no ms de abril.

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6 O agravamento da pilhagemPara cada metro cbico de madeira extrada, as empresas tinham que plantar cinco rvores. Nada as impedia, porm, de abater uma rvore no Par e replant-la no Rio Grande do Sul. O funcionamento desse mecanismo falho e perverso do Cdigo Florestal no impediu (antes estimulou) o acelerado desmatamento da Amaznia, induzido por outros erros. Agora so os prprios rgos do governo que endossam esse absurdo. O Ibama e o ICMBio, dois institutos federais vinculados ao Ministrio do Meio Ambiente, desviaram para Mato Grosso 71% do valor da compensao ambiental devida ao Par pela construo da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu. Dos 126 milhes de reais do valor total, 92 milhes foram destinados a o Parque Nacional do Juruena, rea protegida que ca a 814 quilmetros de distncia do empreendimento. Somente R$ 6,5 milhes foram reservados para a criao de novas reas protegidas na regio impactada pela usina e R$ 27,5 milhes para reas protegidas dentro do Par. Esse desvio poderia acontecer tambm com as compensaes devidas pela Vale por seu novo projeto de minerao de ferro em Cana dos Carajs, no valor de 14,4 milhes de dlares. O dinheiro seria aplicado no Estado do Tocantins. A revelao, feita pelo secretrio de Desenvolvimento Econmico, Minerao e Energia, Adnan Demachki, e pelo presidente da Fapespa (Fundao Amaznia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Par), Eduardo Costa. Eles falaram durante a posse dos novos diretores do Conselho Regional de Economia, na semana retrasada, na Associao Comercial do Par. Admitindo que o remanejamento dos recursos no ilegal, o consideraram imoral. Apesar do tom acusatrio, a denncia parece no ter repercutido no prprio Par, que perdeu toda a sua capacidade de ecoar questo graves. Tudo indica que Carajs continuar a ser rapinada para as tnues compensaes acontecerem fora dos seus limites.C. R. Almeida agora entrou na Lava-JatoA Polcia Federal foi, na semana passada, sede da Construtora C. R. Almeida, em Curitiba, para cumprir ali um dos mandados judiciais expedidos pelo juiz Srgio Moro para os Estados do Maranho, Rio de Janeiro, So Paulo, Minas Gerais, Gois e Distrito Federal, alm do Paran, onde tambm foi visitada a Construtora Iva Engenharia. Foi um novo desdobramento da Operao Lava-Jato, a que a PF deu o nome de Operao O Recebedor. Ela surgiu com base em um depoimento de delao premiada e acordos de lenincia da Construtora Camargo Cor rea, que revelaram o pagamento de propina para a construo de ferrovias Norte-Sul e Integrao Leste-Oeste. Segundo as informaes coletadas, as empreiteiras agora investigadas se valiam de contratos simulados para fazer pagamentos contnuos a um escritrio de advocacia e a mais duas empresas com sede em Gois, utilizadas como fachada para maquiar origem lcita do dinheiro proveniente de fraudes em licitaes pblicas. Esta a segunda operao que no est relacionada diretamente com a Petrobrs, mas foi adotada porque os empreiteiros condenados, presos ou indiciados por corrupo na estatal do petrleo tambm tm contratos em outras obras pblicas. A primeira operao resultado de investigaes da Lava Jato foi a Crtons, com seu objeto na extrao e comercializao ilegal de diamantes em terras dos ndios cinta -larga, em Rondnia. Ao ser contatada por jornalistas, a C. R. Almeida informou que hoje no h expediente na empresa. .A empresa podia ter agido assim quando foi descoberta, 20 anos atrs, sua tentativa de se apropriar de sete milhes de hectares de terras pblicas do Estado do Par e da Unio, na maior grilagem de todos os tempos, tanto no Brasil como no mundo. Denunciada por este reprter, a empresa reagiu com duas aes, uma cvel e outra penal, para puni-lo, embora a grilagem tenha sido provada. Com base documental to forte que o Ministrio Pblico Federal requereu o desaforamento do processo para a justia federal e, nela, obteve o cancelamento da fraude, gerada no cartrio de registro de imveis de Altamira. Se a ao continuasse na justia estadual, provavelmente o desfecho teria sido favorvel ao grileiro. O TJE me condenou a indeniz-lo por ofensa sua honra, em valor que chegou a 28 mil reais. S consegui reunir esse dinheiro graas a doaes de 770 pessoas que contriburam, atravs da internet, para a vaquinha cvica. A quantia continua depositada em juzo. Se a justia do Paran conrmar as suspeitas contra a C. R. Almeida em outras fraudes, a justia do Par estar ainda mais isolada na conivncia com a tentativa de apropriao de terras do patrimnio pblico. Uma mcula que, ao invs de ser apagada da histria, est sendo cada vez mais acentuada pelos desdobramentos da carreira de ilegalidades do empreiteiro Ceclio do Rego Almeida. Ela no foi preso em virtude da grilagem porque a sentena de condenao no pde ser executada. que ele j tinha mais de 70 anos na poca, s podendo ser preso em agrante delito. Como morreu em 2008, agora no estar sob o risco de ser preso e algemado, como outros empreiteiros delinquentes apanhados pela Lava-Jato, agora que a sua empresa est entre as empreiteiras acusadas de pagar propina para obter contratos de obras pblicas. No caso, ferrovias. Pois foi a C. R. Almeida Engenharia de Obras quem construiu a sede da PF em Macap, no Amap. O prdio foi inaugurado em 2014, ao custo de 21,4 milhes de reais. A empresa realizou vrias outras obras no Amap. Seu dono, Ceclio do Rego Almeida, nasceu bem ao lado, em bidos, no Par. Mas se mudou muito cedo para o Paran, onde fez uma conturbada carreira de poltico, sempre sustentada por contratos com governos.

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7 Vale perde R$ 44 bi e ca mais ameaadaCerpa deve 1,4 bi e pode ir falnciaA Vale teve um prejuzo lquido de mais de 44 bilhes de reais no ano passado, depois de conseguir um lucro de R$ 954 milhes em 2014. Esse pssimo resultado se agravou no ltimo trimestre de 2015, quando o prejuzo alcanou R$ 33 bilhes, quase sete vezes superior ao registrado entre outubro e dezembro de 2014. No total, a perda supera em mais de sete vezes o rombo que a Petrobrs declarou ter sofrido em 2014 por causa do esquema corrupto que funcionava na estatal brasileira do petrleo para o pagamento de propina atravs do super faturamento de contratos. tambm trs vezes maior do que o oramento do Estado do Par, em cujo territrio est a mina de Carajs. A empresa alegou que a reduo em mais de R$ 45 bilhes no lucro lquido deveu-se, principalmente, menor margem Ebitda (o lucro antes das despesas com juros, impostos, depreciao e amortizao), aos maiores ajuste contbeis registrados em 2015 e ao efeito negativo nos resultados nanceiros da depreciao do real contra o dlar, de 47% em 2015. Esses ajustes contbeis de ativos e de investimentos, assim como o reconhecimento de contratos onerosos, somaram mais de R$ 36 bilhes no ano passado. Os ajustes foram necessrios em virtude da reduo signicativa nas premissas de preos que so utilizadas em tais testes, explicou a mineradora na mensagem que acompanha suas demonstraes nanceiras. A gerao de caixa no ano passado medida pelo Ebtida foi de R$ 23,654 bilhes, recuando 24% em relao a 2014. A receita operacional lquida somou R$ 85,499 bilhes, queda de 3%. No quarto trimestre houve ligeira recuperao, de 2%, com receita lquida de R$ 22,681 bilhes, um aumento de 2% sobre o ltimo trimestre do ano passado, mas uma queda de 3% face ao terceiro trimestre. Esses nmeros altamente negativos se impuseram apesar de a Vale ter batido o recorde de produo de minrio de ferro, seu principal produto, que chegou a 346 milhes de toneladas (130 milhes em Carajs), um crescimento de 4,3% a mais do que em 2014 e acima da meta de produo estabelecida para 2015, que era de 340 milhes de toneladas. Depois de perder R$ 44 bilhes, mesmo com todas as complicaes contbeis e cambiais, a Vale manter ou, mais do que isso, incrementar ainda mais essa estratgia? O dado mais preocupante a dvida bruta da empresa, que bruta totalizou 28,853 bilhes de dlares em 31 de dezembro de 2015, praticamente o mesmo valor do nal de 2014, que foi de US$ 28,807 bilhes. o equivalente a quase 120 bilhes de reais. A empresa s poderia quit-la se dedicasse um ano e meio da sua receita operacional lquida inteira, uma mera hiptese invivel diante do prejuzo brutal que sofreu. Aps o pagamento de dividendos no valor de US$ 1,5 bilho em 2015, a dvida lquida totalizou US$ 25,234 bilhes contra US$ 24,685 bilhes em 31 de dezembro de 2014. A posio de caixa em 31 de dezembro de 2015 totalizou US$ 3,619 bilhes. O prazo mdio da dvida foi de 8,1 anos com um custo mdio de 4,47% por ano. Essa dvida foi formada durante a presidncia do banqueiro Roger Agnelli, frente da empresa pelo mais longo perodo da histria da companhia. Obsecado em transform-la na maior mineradora do mundo, com presena em todos os continentes, ele a endividou para fazer pesadas aquisies, por preos elevados, sem os resultados pretendidos. A nova diretoria est tendo que vender ativos para fazer caixa exatamente quando seu principal produto, o minrio de ferro, entrou em queda livre. Pagou caro e agora recebe pouco nessas transaes. Mesmo pagando as prestaes, o principal da dvida permaneceu o mesmo. A que mais a Vale precisar se submeter para no ser atropelada por essa imensa bola de neve? A resposta no vai esperar pelo tempo. Ela j est sendo cobrada, talvez intramuros, em conversas sussurradas. Convm car alerta. Nos ltimos cinco anos, a Cerpasa uma das maiores indstrias do Par deixou de pagar 1,4 bilho de reais em imposto ao Estado. Equivale a 30% do seu faturamento bruto. Parte da dvida j est em execuo na justia. Outra parte ainda est na fase de autuao scal. Se tiver que pagar o valor devido, a Cervejaria Paraense S/A poder quebrar. Mas continua a no recolher o que deve de ICMS, formando uma bola de neve incontrolvel. A Cerpa sempre foi problemtica em matria tributria. Serviu de motivo para uma ao judicial sobre o pagamento de propina para conseguir iseno de imposto, que denunciou servidores pblicos e o prprio governador Simo Jatene. Entre 2007 e 2011 a empresa passou a cumprir suas obrigaes, inclusive como contribuinte substituta. Mas comeou a no recolher o ICMS, inclusive dos revendedores da sua cerveja. Embora descontasse o dinheiro na fonte, no o repassava ao errio. O imposto no pago passou a funcionar como capital de giro. Essa possibilidade est se exaurindo. Com ela, talvez, a prpria empresa. Um sintoma claro ter deixado de fazer a contumaz propaganda massiva na imprensa, que, assim, se tornava cmplice da sua omisso tributria.

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8 MEIO SCULO DE JORNALISMOO Ciclo de Magalhes Barata (2)Prossigo com a transcrio, iniciada na edio passada, de matria que escrevi em 1982 para O Liberal.Eleito Jos Malcher primeiro gover nador constitucional do Par em 1935 e, dois anos depois, transformado em interventor pelo golpe do Estado Novo, barata experimentaria um exlio que durou oito anos. Obrigado a retornar ao servio ativo do exrcito (era major), foi servir na rida e pouco conhecida fronteira de Gois, de onde s saiu segundo Octvio Meira quando concordou com os termos do acordo poltico que garantisse ao governador Jos Malcher plena autoridade perante a Assembleia Legislativa, na qual crescia novamente a participao dos baratistas. S ento foi removido para Curitiba e, em seguida, para Joo Pessoa e Recife. Em 1943 Barata voltou ao Par como interventor. O Brasil sofria as consequncias da Segunda Guerra Mundial e o Par, mais ainda isolado, em escala ampliada: a alimentao fora racionada, Belm vivia s escuras e o governo Malcher no conseguia organizar a vida local para essa fase difcil. A partir de 1942, as foras aliadas s poderiam se abastecer de borracha na Amaznia, j que as rotas asiticas foram cortadas pelos japoneses. Envolvido pelo esforo de guerra, o Par passava a ser um alvo em potencial de ataques da Alemanha. Getlio acompanhava com preocupao a situao nas Guianas, sobretudo a francesa, sob a administrao de um governo que colaborava com as foras do Eixo. Todas essas condies credenciavam Barata a ocupar a interventoria (alm de militar, era lder poltico). Getlio o nomeou. A nova interventoria durou dois anos e meio. Em 1945, o Estado Novo ruiu e Getlio foi deposto da presidncia da repblica, Barata com ele. Aps um longo perodo de abstinncia, o povo voltava a votar. Mas o exerccio do voto, teoricamente livre e soberano, sofria vrios condicionamentos. O eleitor chegava seo eleitoral com seu voto pronto. O presidente da seo lhe entregava apenas um envelope, no qual colocaria a cdula que trazia consigo, entregue pelos prprios candidatos. Em 1945 havia trs cdulas: para presidente da repblica, para senador e para deputado federal (s em 1960 seria instituda a cdula nica, entregue ao eleitor pela junta eleitoral). S eram consideradas vlidas as cdulas impressas ou datilografas, induzindo a manipulao do eleitor pelos partidos (ele poderia at datilografar a cdula na sua casa, mas no poderia preench-la mo na hora de votar). Com Barata deposto e distante da posio de neutralidade assumida publicamente pelo novo interventor federal, Maroja Neto, a UDN (Unio Democrtica Nacional), principal ncleo anti-baratista, organizado politicamente com o novo quadro partidrio, considerava que nalmente seriam realizadas eleies limpas no Par, sem presses das autoridades, sem que prefeitos municipais, delegados de polcia e coletores de rendas ameaassem com prises ou multas os eleitores que no queriam acompanhar o partido a que as autoridades estejam ligadas. Os paraenses dizia uma nota da UDN, divulgada pouco antes da eleio respiram agora o oxignio da mais ampla liberdade; vivem num ambiente da mais irrestrita justia, amparados e defendidos pelo poder pblico, que lhes oferece todas as garantias para que faam valer a sua vontade. A UDN dizia ainda que os candidatos mereceriam o voto pelo seu passado honesto, pela sua idoneidade moral, pela verticalidade de suas atitudes. Ao votar neles, os eleitores dariam o tiro de misericrdia nas pretenses de assalto ao poder que o sr. Barata e seus fmulos ainda alimentam, pleiteando cargos eletivos. A Igreja parecia partilhar, embora ainda timidamente, essas intenes. A Liga Eleitoral Catlica, que seria presena marcante at as eleies de 1960, quando o conclio ecumnico comearia a afast-la da participao par tidria, deixava de indicar Magalhes Barata para o senado. Decidiu apoiar os outros candidatos que concorriam com ele: Gama Malcher, Agostinho Monteiro, Vicar Gois Teixeira, Oscar de Miranda e at mesmo lvaro Adolfo da Silveira, que pertencia ao PSD (Par tido Social Democrtico) de Barata. Para a cmara federal, a LEC indicava todos os oito candidatos do PSP (Partido Social Progressista), sete do PRP (Partido de Representao Popular), oito da UDN (menos o advogado Alarico Barata) e sete do PSD. Todos esses candidatos assumiam com a LEC o compromisso de respeitar e defender, durante o exerccio dos seus mandatos, os seguintes pontos: Defesa da indissolubilidade do lao matrimonial, com assistncia efetiva s famlias numerosas; Incorporao legal do ensino religioso facultativo nos programas e horrios das escolas primrias, secundrias e normais da Unio, dos Estados e dos Municpios; Regulamentao da assistncia religiosa facultativa s classes armadas, bem como aos hospitais, penses e outras instituies pblicas; Legislao do trabalho inspirada nos mais amplos preceitos da justia social e nos princpios da ordem crist, para os trabalhos tanto urbanos quanto rurais. Se os candidatos se comprometessem a adotar essas orientaes, que lhes eram propostas atravs de um questionrio, a Liga, em nota publicada nos jornais e divulgao nas parquias, apontava os seus nomes. Em 1945 tentou vetar alguns candidatos do PSD, mas acabou, com certa relutncia, por aceit-los. Dois anos depois os problemas surgiriam com maior gravidade. Com todas essas vantagens tentou mas no conseguiu acertar com a

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9 UDN o lanamento de uma chapa nica.. A UDN exigiu que o PPS trocasse o apoio candidatura do general Eurico Dutra presidncia da repblica pela do brigadeiro Eduardo Gomes, mas o PPS no aceitou. O PSD venceu de ponta a ponta. Elegeu os dois senadores Magalhes Barata e lvaro Adolfo e seis deputados federais, tendo quase 52 mil votos. A UDN s elegeu dois deputados federais, com 22 mil votos, e o PPS, um, Deodoro de Mendona, somando 13 mil votos. O Partido Comunista no conseguiu eleger ningum. Sua faanha foi colocar Luis Carlos Prestes frente de Abel Chermont entre os candidatos ao senado.A VITRIA DO PSDEm 1947, votaram 120 mil eleitores em um colgio eleitoral de 200 mil (o Par tinha um milho de habitantes). Deveriam escolher o novo governador (o interventor era Jos Faustino), trs senadores, nove deputados federais e 37 estaduais. O PSD, novamente sozinho, apresentou o nome do major Moura Carvalho, que foi deputado estadual em 1935, comandante da Polcia Militar, chefe de polcia e era deputado federal, eleito em 1945. A oposio no conseguiu se unir mais uma vez. A UDN rejeitou o lanamento de candidatura nica por todas as foras anti-baratistas, apoiando Prisco dos Santos. O PSP trouxe de volta a Belm o general Zacarias de Assuno para enfrentar o coronel Magalhes Barata. Assuno fora comandante da 8 regio militar e assumira o governo do Estado durante trs dias, em 1945, quando Getlio Vargas caiu e Barata foi exonerado. Cumpria uma orientao do ministro da guerra: se fosse necessrio ordem pblica, os comandantes militares deveriam assumir os governos estaduais. Nesse curto perodo, segundo a Folha do Norte o jornal que assumiu a mais constante e feroz oposio a Barata, Assuno libertou o Par dos guantes do baratismo, operando de pronto sua ansiada redeno. O PSD tentou impedir a candidatura de Assuno, considerando-o inelegvel porque assumira o gover no no perodo de 18 meses antes da eleio, o que a legislao proibia. O PSP retrucou que o general no assumiu de fato a interventoria e que a sua presena no governo fora ato da sua funo militar. O PSD lembrou que, mesmo assim, Assuno recebeu remunerao pelo cargo. Mas o Tribunal Regional Eleitoral, por quatro votos a trs (com o voto de minerva do seu presidente, desembargador Ar naldo Lobo), mandou fazer o registro. Alguns dias antes da eleio, a Folha do Norte publicaria um elogio de Luis Carlos Prestes a Moura Carvalho, tentando demonstrar vinculao entre os comunistas e os pessedistas. O Liberal reagiu dizendo que no havia escndalo nesse elogio e que o PSD no rejeitaria os votos dos comunistas porque o PCB era um partido legal e, no apresentando candidatos, poderia apoiar qualquer um. Em nota ocial, a LEC anunciava que no iria indicar o nome de Moura Carvalho por ser o candidato do Partido Comunista, provocando outra resposta do PSD. Considerando ter havido lamentvel equvoco, o partido armava que o seu candidato no nem nunca foi, em absoluto, candidato do Partido Comunista, com o qual no tem, nem jamais teve nenhum compromisso, entendimento ou acordo, sendo, como pblico e notrio, radicalmente contrrio aos postulados de sua doutrina, que no se conformam com a sua formao moral e tradio religiosa. O PSD e seu presidente, o senador Magalhes Barata, atribua as acusaes ao PSP, que estaria manipulando a LEC. A Liga pedira duas declaraes a Moura, na qual ele devia negar plenamente qualquer acordo com os comunistas. O candidato respondeu, mas a Liga considerou reticentes suas declaraes e manteve o veto sua candidatura. Mais uma vez, no entanto, o PSD teve uma grande vitria: Moura Carvalho recebeu mais de 68 mil votos, Assuno apenas 46 mil e Prisco dos Santos no chegou aos quatro mil. Dos 56 municpios do Estado, o PSD venceu em 51. Elegeu 23 dos deputados estaduais, cando o PSP com nove, a UDN e o PTB com dois cada e o Partido Comunista com um, Henrique Santiago (mas teve apenas 3.800 votos, contra quatro mil na eleio anterior).

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10 O jornalismo tem que ser contra qualquer fanatismoSob o ttulo Fanatismo empobrecedor, diz jornalista do Par ameaado de morte, com texto de Fernanda Mena, a Folha de S. Paulo on-line divulgou uma entrevista que concedi margem do seminrio realizado pelo jornal para comemorar seus 95 anos. Como a entrevista foi bem mais longa, a necessidade de sntese sacrificou o desenvolvimento do raciocnio. Limito-me, porm, a uma correo: o Jornal Pessoal teve mas no tem mais h muitos anos assinaturas. Depois de ser publicada na edio normal do jornal paulista, a entrevista saiu tambm no nmero especial sobre a histria da Folha e o prprio seminrio.Polticos, empresrios, madeireiros, grileiros e narcotraficantes. A lista dos que enxer gam o jornalista Lcio Flvio Pinto, 66, e seu Jornal Pessoal como oposio ou at como inimigo longa e bem variada. Criador do quinzenrio sobre a regio amaznica, que circula desde 1987 em Belm (PA), Pinto o nico jornalista brasileiro na lista dos prossionais mais importantes do mundo da ONG Reprteres Sem Fronteiras e coleciona prmios internacionais. Dos 33 processos que sofreu no Brasil ps-ditadura, 19 foram movidos pelos donos do grupo de comunicao O Liberal, para o qual j trabalhou. Tive de me tornar meu prprio advogado. Queriam extinguir o Jornal Pessoal por meio da minha exausto, arma. Leia trechos da entrevista. Folha Qual a importncia do jornalismo prossional? Lcio Flvio Pinto Nada resiste a uma boa investigao. No existe mistrio. Se h um fato, voc chega a ele. uma competncia. Por que criou o Jornal Pessoal? Criei o jornal sozinho porque no podia pagar ningum. Decepcionado com a grande imprensa, criei uma linha editorial que torna meu jornal nico: no aceita publicidade. Como ele se nancia? Com assinaturas e venda. Se o leitor no comprar, acaba. quinzenal e custa R$ 5, ou seja, mais caro que os outros jornais. quase artesanal. No tem fotos, no tem cor. O jornal denso e publica coisas que outros no publicam. D um exemplo. A maior empresa privada do Brasil a Vale. Ela tem 30 clientes. Por que anuncia como uma varejista? Para conseguir, no mnimo, a simpatia da imprensa. Em 2005, a Vale foi a empresa que mais distribuiu dividendos no mundo. Ningum deu isso. Estava no balano da empresa. Era preciso saber ler um balano. Fiz a primeira srie de reportagens sobre a chegada do narcotrco inter nacional ao Par. Fui o primeiro jornalista que registrou a penetrao da China na Amaznia, em 2001. Essas reportagens no saem em outros lugares por falta de prossionais qualicados ou de compromisso dos veculos? H trs coisas. Primeiro, a ideia de que a regio amaznica extica e deve ser tratada como tal. Segundo, o comprometimento dos veculos de Belm, que nunca publicam nada sobre a Vale, por exemplo. Em terceiro lugar est a covardia do jornalista. H um abastardamento da prosso. A partir do momento em que o jornalista, que era empregado, passa a ser empresrio, ele pensa dez vezes antes de pr em risco a relao entre sua empresa e a empresa jornalstica que o contrata. O compromisso passa a ser com essa relao. A mdia dita alternativa cunhou a sigla PIG, Partido da Imprensa Golpista. Por que discorda do ter mo e de seu uso? Primeiro porque leio a grande imprensa e porque as informaes mais importantes esto ali, e no na internet, no Twitter e nos blogs. Uma coisa que os donos de jornal aprenderam que no vale a pena par ticipar de conspiraes, porque elas liquidam com a credibilidade da empresa. algo que eu investigo: tem dono de empresa jornalstica articulado? No tem. Agora, eles no gostam do Lula, no gostam da Dilma. Embarcam em teses como o impeachment, que eu acho uma besteira. Mas no se trata de imprensa golpista. Golpista uma palavra grave. Qual o problema desse discurso? Ele cria uma teoria conspirativa. O que no o cnone da esquerda e do PT vira golpista. Os blogueiros me homenagearam vrias vezes, ento eles no podem me atacar porque eu sou oposio. Reclamam que falo muito do PT. Mas o PT est no governo! No adianta centrar fogo no PSDB, eles no esto no poder. Ns temos que centrar fogo no poder porque o poder no democrtico. O fanatismo empobrecedor. Voc j enfrentou ameaas de morte. Como lidou com elas? Meus inimigos, aqueles que gostariam de me calar, sabem que eu posso ter informaes dessa inteno deles. Quando a ameaa tem consistncia, vou atrs e fao o cara saber que eu seiHora certaAgiram certo os bolivianos ao rejeitar a possibilidade de um quarto mandato para Evo Morales. A Bolvia melhorou ao longo dos dois mandatos dele, o segundo ainda em curso, quantitativa e qualitativamente. Mas seu desempenho agora est numa curva descendente. O que at normal. Uma mxima sem contestao diz que o poder absoluto corrompe absolutamente. Quatro mandatos constitucionais de presidente demais para qualquer um, mesmo o autoproclamado guia do povo.

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11 Duciomar de novo ru. Ser condenado agora?O ex-prefeito de Belm Duciomar Costa, mais uma vez ru perante a Justia Federal. Agora o Ministrio Pblico Federal o denunciou pelo desvio de 607 mil reais em recursos federais. A ao foi distribuda na semana passada, por dependncia, para o juiz Rubens Rollo dOliveira, da 3 vara penal, que j instrui outro processo contra Duciomar. Se condenado, Duciomar poder pegar at 12 anos de priso. Tambm se tornaram rus o ex-diretor do Servio Autnomo de gua e Esgoto de Belm, Raul Meireles do Vale (que foi vereador de Belm pelo PT), e cinco empresrios. Segundo o MPF, as irregularidades foram encontradas em convnio assinado em 2004 entre a Fundao Nacional de Sade e o municpio de Belm, para a instalao de sistema de coleta e bombeamento de esgoto sanitrio da rea do Pantanal, localizada no distrito de Mosqueiro, na capital paraense. Segundo o relato da assessoria de imprensa do MPF, a construtora Arteplan foi contratada pela prefeitura em 2005. No ano seguinte, a Funasa, que federal, encaminhou os recursos, mas cou incompleta a prestao de contas do ento prefeito. Ele deixou de apresentar todos os documentos exigidos pela Funasa, principalmente os relacionados ao cronograma do projeto e ao processo de licitao para contratao da construtora. Em 200,7 uma vistoria da Funasa constatou que a obra tinha sido paralisada. Apenas 30,99% do servio foram realizados. A Funasa, ento, rejeitou as contas. Duciomar Costa chegou a apresentar os documentos faltantes, mas um parecer denitivo da Funasa voltou a considerar irregular a sua prestao, em vir tude da paralisao da obra e do baixo percentual de sua execuo. Conclui-se que os recursos repassados pela Funasa prefeitura municipal de Belm, conquanto integralmente sacados da conta bancria pertencente municipalidade a pretexto da execuo do objeto conveniado, no foram empregados na implantao do sistema de esgoto, j que menos de um tero da obra foi realizado e dado o estado de abandono vericado in loco, criticou o MPF na ao. A prefeitura devolveu Funasa o valor dos recursos desviados. Para o MPF, porm, essa devoluo s teria sido vlida se os recursos devolvidos fossem dos acusados, e no dos cofres da prefeitura. Dita devoluo, entretanto, operada com dinheiro proveniente dos cofres pblicos municipais, s custas da prefeitura de Belm, no tem o condo de descaracterizar o crime do art. 1, inciso I do Decreto-Lei n 201/67, uma vez que o tipo penal tutela a moralidade administrativa no exerccio da funo pblica de prefeito, punindo a conduta de desvio, independentemente de seu resultado, disse o MPF. Em 2009 o MPF processou Duciomar por improbidade administrativa porque ele no concluiu as obras de esgotamento sanitrio em Mosqueiro. Em 2013, a justia federal suspendeu os direitos polticos do ex-prefeito por cinco anos e lhe imps multa de R$ 50 mil. O ex-prefeito recorreu da deciso para o Tribunal Regional Federal da 1 Regio, em Braslia, que ainda no julgou o caso.A maior multa da histria dos povos indgenasA racionalidade prevaleceu e o Ministrio Pblico Federal se manifestou contra uma multa de quase trs milhes de reais que o Ibama sapecou num ndio da etnia wai-wai. Seu brbaro crime, merecedor da punio milionria: confeccionar e transportar artesanato feito com penas de aves. A autuao, a maior j sofrida por um indgena no Brasil (talvez no mundo) foi em Oriximin, oeste do Par, em 2009. A prova do crime foram 132 peas de artesanato. A Defensoria Pblica da Unio se manifestou na ao pedindo anulao da multa e o MPF foi citado para dar parecer, como scal da lei. Chama ateno a violenta desproporcionalidade da multa aplicada. A ttulo de comparao, a empresa Norte Energia S.A, concessionria da Usina Hidreltrica de Belo Monte, foi multada pelo Ibama no valor de 8 milhes de reais por ter provocado a morte de 16 toneladas de peixe. A Norte Energia, pessoa jurdica responsvel pela mais cara obra pblica em andamento no Brasil, orada atualmente em 32 bilhes de reais, foi atuada pelo Ibama em apenas 8 milhes, por crime ambiental inegavelmente mais grave e de mais severa repercusso socioeconmica que a conduta praticada pelo indgena, observou o procurador Cames Boaventura, de Santarm., no seu parecer justia federal. A Fundao Nacional do ndio informou ao juiz que o ndio multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis no trabalha com produo em larga escala, nem mesmo com recursos ou tecnologias que causem impacto ambiental sobre a populao local de papagaios. Ademais, a fabricao de adornos no impacta o meio ambiente nem afeta o modo de vida tradicional da etnia Wai Wai. Ao contrrio, fortalece as estratgia de sustentabilidade cultura, ambiental e econmica desse povo, garantiu a Funai, que a tutora dos ndios em nome da Unio. Para o MPF, a atuao do Ibama na aplicao da lei deve considerar obrigatoriamente a diversidade cultural dos povos que habitam o pas, em obedincia tambm Conveno 169 da Organizao Internacional do Trabalho. A autarquia federal (Ibama) deveria ter considerado que o artesanato constitui uma forma de expressar a identidade tnica, que o conjunto de aspectos socioculturais identitrios, cosmolgicos e valores que compem cada etnia. O artesanato tambm uma importante fonte de renda para centenas de povos indgenas no Brasil, especialmente aqueles indgenas que residem em centros urbanos, diz o parecer. O ndio Timteo Taytasi Wai-Wai estuda no ncleo urbano de Oriximin e usava a venda de artesanato para se sustentar fora da aldeia. Depois da autuao e da multa do Ibama, alm da dvida, encontra diculdade para continuar os estudos. O MPF destaca no parecer que os povos indgenas, com tcnicas reconhecidamente sosticadas de manejo da agrobiodiversidade e tecnologias de baixo impacto ambiental, protegem o meio ambiente em seus territrios, o que se traduz no ndice de desmatamento de terras indgenas, que na mdia no passa de 1%. Bastante inferior ao ndice encontrado em unidades de conservao gerenciadas pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiver sidade, rgo do governo brasileiro), por exemplo, compara. A dvida kaiana agora saber se o Ibama aceitar voltar ao mundo da razo ou continuar a levitar no plano surreal.

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12 PMEm 1947 o efetivo da Polcia Militar foi xado em 1.040 homens. Era composto por um comando geral, um batalho de infantaria, uma companhia de guardas, um esquadro de cavalaria e um corpo de bombeiros. O quadro de pessoal inclua 54 ociais, sendo um coronel e dois tenentes-coronis, alm de quatro majores e 13 capites. A PM cresceu muito desde ento, em nmero.CONTRABANDOAs canetas e lapiseiras americanas da marca Parker eram mercadoria disputadssima no Brasil. Em 1953, cinco volumes contendo esses dois produtos foram apreendidos pela alfndega no aeroporto de Belm, no maior e mais valioso contrabando de mercadorias at ento registrado. A carga foi embarcada em Miami, nos Estados Unidos, com destino a uma rma inexistente e desacompanhada de qualquer documentao. A apreenso foi feita pelo guarda-mor Arnaldo Cantanhede, auxiliado pelo scal aduaneiro Agostinho de Leo Sales. Foi declarada a perda da mercadoria sem que o destinatrio se apresentasse. Se o zesse, seria autuado e teria que pagar multa de 50% do valor da carga. Ela acabaria sendo levada a leilo, quando seria arrematada, talvez, inclusive, pelo prprio contrabandista.CABANAGEMO jornalista Paulo Maranho foi certamente o autor de uma nota, sem assinatura, publicada pela Folha Vespertina em 1955. Reagia contra ataques que teriam sido feitos ao jornal por um padre capuchinho que pregava na igreja de So Francisco. A nota aproveitou para alert-lo contando a histria de um capuchinho espanhol que atuou no Par na poca do bispo Romualdo Coelho, como vigrio da invicta cidade de Camet. Invicta por ter resistido s investidas dos cabanos, a partir de 1835. Ao invs de versar sobre assuntos religiosos durante as suas pregaes, Zagalo, no tendo mais em que meter os ps, l um dia, perante os eis da matriz, disse tremendas heresias da Virgem Maria, terminando por apostatar, com escndalo geral. O padre, que era anar quista, preso e metido a ferros, foi conduzido para Portugal, onde levou a breca em Rilhafoles. Advertia o jornal: J se no algemais mais capuchinhos, porm com tantas pedras mexem, que uma delas lhes desabar na cabea. Terminava por indagar onde estava esse frade quando Barata mandava agelar a chicote sacerdotes respeitveis e fazia emudecer os sinos catlicos? Onde tinha a lngua ensacada. Arrematando: S ento uma voz ecoava em defesa das vtimas, e essa voz partia das Folhas . A cabanagem ainda era estigmatizada no Par.MISSESNuma demonstrao de sadio esprito de cordialidade social, as senhorinhas Bernardino Mitchell e Janet Albuquerque, dignas candidatas do Par Clube ao concurso Miss Bangu de 1955, tinham a maior satisfao de convidar os scios da agremiao com suas famlias para o sorvete-danante, que em homenagem s suas brilhantes colegas do mesmo concurso, candidata dos outros, realizariam na sede social do PC. memriaC OTIDIAN Odo PROPAGANDACubana em BelmSeis anos antes da revoluo dos barbudos de Fidel Castro, a cubana Lya Ray se apresentou em Belm, num show-danante promovido pela ainda Tuna Luso Comercial (depois Brasileira), com a participao das orquestras de Raul Silva e Mrio Rocha. Lya era apresentada como a maior atrao do rdio e cinema de Cuba, mas j como integrante do elenco da rdio e televiso Tupi, do Rio de Janeiro.

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13 LIVROSJos Lancry, como representante local da empresa, avisava ao pblico, em 1955, que as obras editadas pela Fundao Getlio Vargas, no Rio de Janeiro, passavam a estar disponveis nas livrarias Martins (talvez a maior que j houve no Par) e Vitria, onde haver um estoque permanente de todas as obras publicadas pela mesma, inclusive os famosos Cadernos de Administrao Pblica, e as edies da Conjuntura Econmica (portugus e ingls), Revista Brasileira de Economia, Revista de Direito Administrativo, Arquivos Brasileiros de Psicotcnica e Bibliografia Econmica Social. Essas publicaes j no esto mais disponveis em Belm. Mas tambm no se l tanto quanto antes.LOTAOBelm foi assolada, em 1964, por uma nova praga: a dos lotaes. Expulsos do ento Estado da Guanabara (Rio de Janeiro de hoje) pelo governador Car los Lacerda, eles migraram para a capital paraense, trazendo os mesmos males repudiados pelos cariocas: no oferecerem segurana, ultrapassarem a velocidade permitida, avanarem os sinais e infringirem outras regras do trnsito. No houve muita mudana depois que os lotaes sumiram do transpor te pblico de passageiros. COLUNISTAVera Lcia Cardoso (depois Castro) no comemorou, mas em novembro do ano passado ela completou meio sculo como colunista social, o que continua a ser at hoje, agora no Dirio do Par Ela comeou apresentando, todos os dias, o programa Vera Informal, na j desaparecida Rdio Guajar, da famlia Lopo de Castro. Filha do tambm jornalista Evaristo Cardoso, Vera trabalhava na Rodobrs, que construa a rodovia Belm -Braslia.SIRENAA Folha do Norte avisa va, a quem interessar pudesse, que, apesar do incio do horrio de vero, em 1965, sua sirena continuar a anunciar a hora antiga. Completando didaticamente: O leitor concluir que quando apitarmos 7 horas sero 8; s 12, sero 13; e s 18 sero 19. A sirena do jornal no apitava apenas as horas, mas tambm os acontecimentos excepcionais. Se o sinal soava fora das horas redondas, a cidade entrava em polvorosa para saber o que acontecera para merecer o registro da sirena, postada no alto do prdio em que estava o jornal, no centro velho da cidade.QUIOSQUEEm 1966, o quiosque do SNAPP-Bar foi demolido para em seu lugar ser erguida uma esttua em homenagem ao navegador portugus Pedro Teixeira (que substituiu o antigo nome da praa, em homenagem ao baro de Mau), um dos atos comemorativos dos 350 anos de Belm. A turma de demolio teve muito trabalho para retirar oito pilastras, reforadas por trilhos de ao, que serviam de barricada para o quiosque. Foi a maneira de proteg-lo dos acidentes com bondes, que, desgovernados na descida da avenida Presidente Vargas (antiga 15 de Agosto), colidiam contra o prdio. No uma, mas vrias vezes.FOTOGRAFIAO m do hospitalRegistro da demolio do antigo Hospital dos Martimos, na esquina da Alcindo Cacela com a Governador Jos Malcher (antiga So Jernimo), em 1968. No lugar surgiria o ambulatrio central do INPS (atual INSS), criado para unificar todos os institutos isolados de previdncia, como a dos martimos, um dos maiores.

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14 No dia 11 de fevereiro de 1956 o major Haroldo Veloso e o capito Jos Chaves Lameiro se apossaram de um avio Beechcratf de pequeno porte da FAB no Rio de Janeiro e o levaram para a base de Cachimbo, no Par, aberta pouco antes pelo prprio Veloso para servir de apoio aos longos voos entre a capital federal e Manaus. Dali eles pretendiam desencadear um movimento armado para impedir a continuao do governo do presidente Juscelino Kubitscheck, que tomara posse em 31 de janeiro. Estavam, conantes na inuncia de Veloso na Aeronutica, onde era considerado um exemplo, um autntico heri. Mas a revolta de Jacareacanga, como cou conhecida, fracassou. Passados 60 anos, at a memria do fato se desfez. Ningum lembrou a data. Mas ela importante. Veloso, que cursou a escola de Realengo, se for mando como engenheiro aeronutico, repetiria o ato trs anos depois, em Aragaras, com o mesmo desfecho. Ele e muitos outros na fora aerea representavam o eco da pregao antidemocrtica da Unio Democrtica Nacional, um dos partidos que surgiu com o m do Estado Novo e a volta do Brasil democracia, em 1945. A UDN foi organizada como portavoz do liberalismo renovador. No seu ventre at se formou uma ala esquerda, chamada de Bossa Nova (da qual par ticiparam o maranhense Jos Sarney e o paraense Clvis Ferro Costa), que tentou arejar sem conseguir o comando do partido, dominado por uma elite autocrtica e golpista. Apresentando-se como a encarnao da moral e da tica poltica, anada com as classes mdias urbanas, a UDN acumulou derrotas na busca sfrega pelo poder. Seu lema de guerra foi cunhado pelo seu maior lder, Car los Lacerda. Quando Getlio Vargas venceu a eleio de 1950, recebendo a aprovao popular pelo voto, depois de ter sido ditador, Lacerda no se conteve. Garantiu que Vargas, se fosse eleito, no tomaria posse no cargo. Se tomasse, no governaria. Se governasse, seria deposto. O presidente cou acuado quando o prprio Lacerda, num episodio ainda obscuro, foi baleado por capangas de Gregrio Fortunato, o chefe da milcia privada ou guarda pretoriana de Getlio. Morreu no atentado Florentino Vaz, outro major da Aeronutica, a arma que mantinha ociais em revezamento constante como seguranas par ticulares de Lacerda. A partir do escndalo, surgiu um poder paralelo ao ocial, que se intitulou repblica do Galeo, por tomar a base area do Rio de Janeiro como quartel-general. Sem alternativa alm da deposio e desonra, o presidente deu um audacioso e denitivo golpe de mestre nos adversrios: se suicidou, em 1954. Inverteu as posies da disputa, mas no por muito tempo. O ministro da guerra, marechal Henrique Teixeira Lott, precisou recor rer a um golpe preventivo para garantir a sucesso constitucional de Vargas, que daria a vitria ao candidato mais forte: o governador mineiro Juscelino Kubitscheck. JK era o herdeiro de Var gas, que fez a sua ltima viagem justamente a Minas Gerais, recebendo uma calorosa recepo quando era hostilizado pela maioria dos polticos e do povo em geral. Com a revolta iniciada na base do Cachimbo e estendida, ao longo de duas semanas, a Santarm e Jacareacanga (que ainda no se emancipara de Itaituba), Haroldo Coimbra Veloso, promovido a major em 1951, por ironia, no governo de Getlio, esperava dar o toque de reunir para os conspiradores sarem dos seus esconderijos e brecarem a posse de JK. Mas logo o governo o isolou e o prendeu, numa operao que deixou um nico mor to: o santareno Jos Barbosa, mais conhecido por Cazuza, que era aspirante no Tiro de Guerra. Ele tentou reagir chegada da tropa legalista que o acuou e foi metralhado. Ao ser localizado no meio da mata, Veloso se rendeu. E foi anistiado por Juscelino logo no dia seguinte sua priso (como todos os golpistas a partir de 11 de novembro do ano anterior), que repetiria o gesto de generosidade e esperteza quando o militar bisou a dose, em 1959. Os udenistas estavam certos de que o brigadeiro Eduardo Gomes, outro heri da Aeronutica, brecaria a volta de Vargas ao poder. A derrota do seu candidato alimentou o rancor de quem se sentiu injustiado por no conseguir aquilo que essencial numa democracia: a preferncia do eleitor. Para chegar presidncia da repblica, a UDN teve que aceitar um candidato externo e indomvel, o governador de So Paulo, Jnio Quadros, que se notabilizara dentre outras imagens e recursos por se opor aos partidos polticos. Ele venceu na conveno um poltico legitimamente udenista (com a desejada origem militar), o baiano Juracy Magalhes, que fora tenente (ou seja, adepto da modernizao do pas pelo despotismo castrense esclarecido exer cido pela sua elite). A decepo veio novamente com a renncia de Jnio, seis meses depois de assumir com a maior votao da histria brasileira pela presidncia da repblica. Um dos pretextos para o ato surpreendente foi a presso que sobre ele exercia ningum menos do que Carlos Lacerda, s em tese seu correligionrio. O governador da ento Guanabara acusara JQ de tramar um golpe branco, para se apossar do poder integral. Jnio realizou a profecia, embora de modo que Lacerda nem cogitara, e se deu mal. Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. PintoAs revoltas de Veloso, o heri da Aeronutica

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15 A nova revolta de Veloso, agora no ser to goiano, era para interromper logo a trajetria democrtica do pas, antes que os herdeiros de Vargas se sucedessem: Juscelino dando continuidade ao desenvolvimentismo, ainda que substituindo o nacionalismo de Getlio pela aliana com multinacionais, e Jnio pela manuteno do populismo aberto, o que causava horror aos udenistas. Ironicamente, quando, enm, os quartis triunfaram, depondo o mais getulista dos sucessores de Vargas, o tambm gacho Joo Goulart, Veloso pediu para passar para a reserva, ascendendo ao posto de brigadeiro. Mais sur preendentemente ainda, se apresentou como candidato do partido do regime militar, a Arena, e se elegeu deputado federal pelo Par, em 1966, com 12.156 votos. Depois de conspirar e agredir a democracia, ele se resignava a trilhar pelo caminho poltico, apesar das pedras ncadas por seus companheiros de armas. A deciso deve ter sido meditada. Ociais da Aeronutica com os quais Veloso se identicava partiram para o terrorismo de direita, recorrendo cada vez mais a atos de violncia para impedir a volta dos militares aos quartis e o restabelecimento da ordem legal plena, que ainda parecia vivel no governo de Castelo Branco, o primeiro general -presidente. O novo lder dessa faco seria o brigadeiro Joo Paulo Burnier, cujo paroxismo foi o lanamento de subversivos ao mar, de avio, e o planejamento da exploso do gasmetro do Rio de Janeiro. Outra ironia do destino foi quando, as linhas da vida de Veloso se cruzaram com o poltico da oposio mais bem sucedido na eleio de 1966: o ex-deputado estadual Elias Pinto, eleito pelo MDB (atual PMDB) prefeito de Santarm, que era o segundo municpio mais populoso e importante do Par. Num comcio em Santarm, j ao lado daquele que devia ser seu adver srio, Veloso denunciou a existncia de uma nova trama para impedir a vitria de Elias, vtima de fraudes na votao e na apurao dos votos em duas tentativas anteriores de chegar prefeitura. O emedebista acabaria obtendo dois teros dos votos vlidos, um resultado que o governador (e tenente-coronel da reserva do exrcito), Alacid Nunes, detestou. Seria prova de desprestgio e de inferioridade em relao quele que fora decisivo para sua eleio no ano anterior, o senador Jarbas Passarinho, de quem j comeava a se distanciar. A mxima golpista da UDN comandou a reao do governador presena de um oposicionista em cargo poltico to importante. De manobra em manobra, ele chegou ao mximo: impedir, com tropa armada, a volta de Elias prefeitura, da qual fora afastado pela maioria arenista na cmara municipal. Veloso comandava a passeata que iria levar o prefeito sede do poder local e que foi recebida a bala. Trs pessoas morreram e Veloso foi ferido. Morreu um ano depois, em outubro de 1969, aos 46 anos, de complicaes decorrentes do grave ferimento que sofreu. Por mais uma ironia, o suplente, Eplogo de Campos, no pde assumir. Fora cassado pelo governo militar. Conversei algumas vezes com Haroldo Veloso, antes e depois da passeata de setembro de 1968, trs meses antes da instaurao da ditadura plena pelo AI-5, no fatdico 13 de dezembro de 1968, quando as luzes do Brasil foram apagadas e as trevas se estabeleceram. Dentro dele habitava o militar impetuoso, que no suportava o ritmo pausado da democracia. Afora isso, sua aparncia inicialmente hostil se desfazia quando conava no interlocutor. E se abria quando em operao de campo, o que mais gostava de fazer. Depois de ferido, no corpo e na alma, e em funo da longa hospitalizao, ele se tornara agressivo. Uma vez garantiu que voltaria a Belm para acertar as contas com Alacid Nunes, a quem responsabilizava pela violncia usada pela Polcia Militar contra os manifestantes e ele, em particular. Foi mais um projeto que no realizou.

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Tem musical no festival de pera do Teatro da PazNo ano passado o secretrio estadual de cultura, Paulo Chaves Fernandes, decidiu patrocinar uma iniciativa original, talvez at em mbito mundial. Contratou um completo neto em pera para assumir a direo da encenao de uma, Os pescadores de prolas de Georges Bizet. O cineasta Fernando Meirelles nunca desempenhara essa funo e sequer conhecia a existncia da pera que lhe incumbiram de comandar. Para compensar sua evidente decincia na matria, montou um espetculo dito multimdia, que desviou a ateno do pblico para as fantasias de montagem. Fez sucesso com quem nunca gostou verdadeiramente de pera ou se julga mais receptivo a brincadeiras revestidas de inovao e ousadia supostamente de atualizao. Mas conseguiu o efeito desejado pelo contratante: dar repercusso nacional ao festival paraense de pera, que no ano passado teve a sua 14 edio. Uma faanha capaz de atrair a ateno nacional e at internacional por sua qualidade mdia e sua localidade. Mas, talvez, no na medida que o arquiteto Paulo Chaves quer. Competindo diretamente com o festival do Teatro da Paz a verso amazonense, sediada no teatro de Manaus. Fernando Meirelles foi objeto de muitas reportagens. Os jornalistas s no conseguiram saber quanto ele recebeu para experimentar pela primeira vez ser diretor de pera, o que ele jamais conseguiria realizar nos belos teatros dos teatros municipais do Rio de Janeiro e de So Paulo. Uma nova faanha o secretrio de cultura reserva para a 15 edio do festival, neste ano: um super-musical sobre o compositor e msico argentino Astor Piazzolla, que morreu em 1992, consagrado como um renovador do tango tradicional e mais alm. Assim, vai quebrar a tradio de que o festival de pera do Teatro da Paz (construdo para ser justamente uma casa de pera), sempre fosse de pera. Nada mais tautolgico e redundante. Mas no toa que Paulo o secretrio de cultura do Par que, depois de suas dcadas, o que por mais tempo ocupou a funo. A pea foi encomendada a alguns artistas locais pelo prprio secretrio de cultura, Paulo Chaves Fernandes, que talvez assine a autoria do espetculo. Esse detalhe ainda no parece ter sido denido, mas a inspirao dele, mesmo sendo advertido sobre a inadequao dessa criao. Paulo no abriu mo. No toa que ocupa o comando absoluto da secretaria de cultura h duas dcadas. Quem vai dirigir sua obra ser o paulista Caetano Vilela. Ele tambm ser o responsvel pela conduo da pera mais importante do 15 festival, Turandot a ltima criao de Gicomo Puccini. Vilela foi o principal diretor de peras nos ltimos anos do festival, depois da longa era do tambm paulista Cleber Papa. Tudo como quer e faz o secretrio, sem consulta a um colegiado, sem a devida informao a quem de direito e sem democratizar as decises. A casa de pera paraense tratada como a casa da me Joana ou da Noca.MEU SEBOComo a jovem repblica via o Estado do ParA recm-proclamada (e tardia) repblica brasileira via Belm, ento com 70 mil habitantes, como local de importantssimo comrcio de nacionais e estrangeiros, que ali vo buscar a borracha, o cacau, a castanha, etc., deixando em troca grandes somas de contos de reis, a calcular pelas rendas fabulosas de sua alfndega. O Par era um gro Estado, em tudo semelhante ao seu vizinho Amazonas , or namento dos Estados-Unidos do Brasil, pela fecundidade de sua crosta trrea, pela luxuosa riqueza de seu subsolo, pela sua vastssima extenso [que ainda inclua o atual Estado do Amap ], pela mansido de seu clima, que, posto que colocado sob o znite, nele se aclimatam os povos das mais variadas zonas do mundo, que l promiscuamente sugam a seiva, que exubera de suas seringueiras. O Par ainda podia ser tido como um Estado virgem, pois que esto intactas as fecundssimas fontes de riquezas, que do a esse torro um valor descomunal, juntando a tudo portos de mar ao alcance de qualquer embarcao. Arias R. da Silveira, que fazia questo do tratamento de doutor, o autor dessas consideraes, de um Pero Vaz de Caminha revivido, arrematando sua louvao generalizante: A indstria pastoril, a agricultura, artes, indstria, encontram ali vasto teatro para fecundar o trabalho durante sculos, sem esgot-las. Essas consideraes fazem parte da Ga leria histrica da revoluo brasileira de 15 de novembro de 1889, publicada (em formato grande e 324 pginas), em 1890, pela Tipograa Universal de Laemmert & Co., na rua do Ouvidor, 65, no Rio de Janeiro. Para se ter ideia da sua exatido, na cronologia que fez, colocou em 1834 o assassinado do presidente da provncia do Par e do comandante das armas, que aconteceria no ano seguinte, sem fazer referncia denominao do movimento que provocou as duas mortes, a cabanagem. A partir da s fala da revolta dos farrapos, que irrompeu simultaneamente, no Rio Grande do Sul. Quanto ao inicio da repblica, o nico paraense destacado pelo livro o ento major Inocncio Serzedelo Corra, que teria uma das mais brilhantes carreiras entre os poucos paraenses que foram personagens da histria nacional. Aires era mdico, com duas incurses fora da sua especialidade. A j citada e Fontes de riquezas dos Estados-Unidos do Brasil, de 700 pginas, com um subttulo moda antiga: ou o segredo para se adquirir em pouco tempo e com pouco trabalho grande fortuna ou completa independncia, consagrada ao Comrcio, Agricultura e Indstrias. O autor informava que suas obras podiam ser encontradas nas principais livrarias da capital do Brasil: Laemmert, Garnier, Lopes Couto, Alves, etc., em So Paulo, Bahia, etc., e em casa do autor, que se encarrega de remeter prontamente pelo correio o pedido o pedido que lhe for feito, para qualquer parte, desde que lhe forem enviados o preo e mais 1$ [mil reis] de porte. A obra mais cara, em grossos volumes, era o pouco humilde Formulrio magistral e ocial de teraputica brasileira, que custava 22 mil reis. O mais barato saa a trs mil reis (3$000), era Molstia dos velhos obra original, a mais completa que existe no Brasil, indispensvel a todas as pessoas maiores do que 45 anos. Com essa idade, elas seriam consideradas atualmente autnticos brotos.