Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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SOJA AMEAA TAPAJS DEBATE SOBRE FEDERAO o aO ltimo prefeito de Belm nomeado pelo governador do Estado, h trs dcadas, foi o mdico Almir Gabriel. Ele foi colocado no posto em substituio ao empresrio Sahid Xerfan, que perdera a conana de Jader Barbalho, no terceiro ano do seu primeiro mandato como chefe do poder executivo paraense. Almir realizou uma boa administrao na secretaria de sade do governo de Alacid Nunes. Mas esse resultado no lhe permitiria ganhar pelo voto, em 1985, a prefeitura da capital. S chegou a essa altura no embalo do prestgio de Jader como o primeiro governador da oposio no Par a vencer pelo voto direto, depois de quase duas dcadas de mandatrios escolhidos pelo Palcio do Planalto e sacramentados pela Assembleia Legislativa. Curiosamente, talvez Almir seja o prefeito de maior aceitao desde ento. Os alcaides eleitos pelo povo a partir do retorno das regras democrticas para o comando poltico foram ELEIOBelm sem soluo?Quando pensa num bom prefeito, o belenense se lembra de Antonio Lemos, que deixou o cargo h mais de um sculo. Nas ltimas trs dcadas o povo escolheu o gestor da cidade. Mas Belm s fez decair nesse perodo. Culpa do eleitor ou da falta de bom candidato?

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2 de nvel inferior, alguns deles completamente desastrosos, como Duciomar Costa e o atual, Zenaldo Coutinho. O prefeito da capital devia mesmo continuar a ser selecionado pelo governador do Estado, que assim poderia patrocinar nomes com melhor qualicao para exercer o cargo, j que o povo elege mal? O despotismo esclarecido seria mais ecaz do que submeter nomes de boas credenciais mas sem apelo ou carisma para conquistar o voto democrtico? Era esse o fundamento da tecnoburocracia que cuidou da administrao pblica em nome dos militares a partir de 1964. Sob essa racionalidade esconderam-se, no entanto, muitos interesses ilegtimos, irregulares ou ilegais, que s deixaram de ser percebidos graas censura e ao controle poltico desempenhado pelo regime de exceo. claro que quanto menos infor mado, esclarecido, bem educado e bem alimentado, menos consistncia cidad tem o eleitor. No sentido inverso, mais o voto o nico ou o mais importante patrimnio de que ele dispe para formar seu capital. Por isso o negocia na bacia das almas do siologismo e da corrupo. Mas h um limite margem de manobra nesse mercado eleitoral e na tolerncia aos efeitos negativos da m escolha. Em Belm, esse ponto de ruptura foi atingido. H uma nsia na populao por um nome novo, fora dos quadros polticos viciados, da incompetncia na gesto que deixou a cidade no rabo da la entre as capitais brasileiras. Nesses 30 anos Belm deve ter sido a metrpole que mais se deteriorou internamente e na relao com as demais reas metropolitanas. Da vem a principal ameaa ao atual prefeito, que tenta a reeleio,conseguida por todos os seus antecessores, inclusive o terrvel Duciomar, hoje sem cargo eletivo. A rejeio ao alcaide do PSDB muito alta. Ainda assim, ele no (ao menos ainda no) carta fora do baralho do voto. Tem a mquina municipal nas mos e com ela pode fazer seus lances no leilo eleitoral. Mas vai ter que recorrer a muitos mecanismos, sobretudo os que transgridem as regras legais, o que limita esse poder. Os dois nomes com melhores resultados nas sondagens que tm sido feitas poderiam ser tidos como novidades, embora no o sejam. Um, por seu discurso oposicionista e pela penetrao que sua condio anterior de prefeito lhe proporcionou. Os mesmos fatores que do fora candidatura do deputado federal Edmilson Rodrigues podem tambm enfraquec-la. Seu partido o PSOL muito pequeno, com reduzido acesso propaganda eleitoral gratuita e caixa desfavorvel para sustentar a competio por Belm. Acima dessas desvantagens, seus dois mandatos foram extremamente polmicos. Populista esquerda de Jader Barbalho, realizou obras de baixa qualidade, mas que lhe deram maior rentabilidade eleitoral, garantindo-lhe um bom estoque de votos em autnticos currais na periferia.Independentemente de um ou outro acerto, a administrao do ento petista no desviou Belm da sua curva descendente de qualidade e sustentao econmica. Se for eleito (para um indito terceiro mandato pelo voto para a prefeitura de Belm, com possibilidade de atingir o quarto), Edmilson ser a repetio do que j fez, sem saldo positivo a seu favor.J a fora de Eder Mauro, o candidato mais votado para deputado federal na ltima eleio (por uma sigla de convenincia, o PSD), advm da sua imagem de policial que enfrenta diretamente a criminalidade, atacando o problema que mais aige a populao (especialmente a pobre e mais desassistida) diariamente. A insegurana pblica de tal gravidade que o personagem se credencia por uma imagem mal caiada de justiceiro, um Robin Hood em verso distorcida (ou pervertida). A novidade que ele representa se materializar na negao de soluo para um problema que se agravar ainda mais. Qual a alternativa ento? A cidade clama por um nome novo, capaz, confivel, que lidere um esforo de recuperao. Mas no aparece esse nome. Mesmo que se materializasse, teria condies de vencer numa disputa que ser travada em terreno moralmente e politicamente pantanoso? O povo no escolhe candidatos ruins por sua prpria pobreza, aceitando compromissos viciados, estabelecidos atravs de cabos eleitorais, por ser essa a nica maneira de faturar algum dinheiro ou vantagem pela venda do seu voto? A situao mesmo dramtica, no comportando idealismos abstratos, metafsicos. Mas por que no exercer pelo menos o sagrado direito de pensar concretamente sobre nomes mais qualificados do que as listas apresentadas ao cidado pelas pesquisas de opinio? A proposta que fao ao meu leitor que ele, sem pensar na viabilidade imediata do nome que sugerir, pesquise entre as figuras pblicas da cidade quem considera em condies de mudar os rumos de Belm, melhorando-a. E justifique a sugesto, apontando ainda as sugestes para um programa de governo e dicas para a realizao da campanha desse candidato. Vamos tentar? Do contrrio, em sua tumba, Antonio Lemos continuar a ser lembrado como o melhor prefeito que Belm j teve, at um sculo atrs, sem poder entregar esse ttulo a algum dos seus sucessores. bvio que os 15 anos do velho Lemos na prefeitura foram favorecidos pela receita da exportao da borracha, que comeou a declinar justamente quando ele foi deposto e expulso do Par, em 1912. Mas j estamos h 30 anos no ciclo mineral, com maior volume de produo e expresso do que a borracha, mas sem deixar da sua existncia traos como os de Lemos. Vive-se, hoje, o predomnio da mediocridade, que tem seu incio na falta de conscincia sobre esse novo ciclo em curso e o seu carter explorador.

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3 Lula e o PT se escondem, sem comemorar aniversrioO PT vai comemorar seus 37 anos de fundao em 2017. Neste ano, o mximo que o Partido dos Trabalhadores se permitiu realizar foi exibir pelas redes sociais um vdeo gravado pelo seu fundador e lder maior, que foi ao ar na vspera dos 36 anos. No h motivo algum para alegria entre os petistas. Pelo contrrio, a pior crise enfrentada pelo principal partido do pas desde que ele surgiu no cenrio poltico nacional, em 1980. Foi no ocaso do regime militar, com seu ltimo e pior presidente, o general Joo Figueiredo, mas ainda com gs para ensaiar a reedio dos atos de terrorismo estatal dos anos anteriores, que acabou prevalecendo sobre a estratgia da ala mais branda do regime, de prosseguir na distenso lenta, gradual e segura. A estratgia inclua a criao de um partido de esquerda no-marxista, de origem operria, o que explica a aproximao do general Golbery do Couto e Silva (anal, obrigado a renunciar depois do atentado do Riocentro) e Lula. O pronunciamento do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva melanclico. Tem apenas trs minutos de durao, uma evidente castrao dos seus mpetos oratrios latifundirios. Ao invs de aproveitar a oportunidade (cada vez mais rara) de recomear a sua biograa, admitindo que errou, o sempre oportunista lder se escora no seu carisma para apontar o dedo para os companheiros. Erramos, diz ele. Sendo o locutor e o autor do discurso, como se dissesse: vocs erraram o que ele considera natural, como considerou natural os recursos no contabilizados de campanha ou a ao dos aloprados (quase plagiando, em verso esquerda da orao, a referncia do general Geisel aos radicais do seu sistema de segurana, por ele vistos como integrantes de bolses radicais, porm sinceros). certo que um partido com esta quantidade de liados tem gente mais esquerda, mais direita, mais ao centro, j que o PT no seria uma seita. Nem so seitas os demais partidos, que tm nos seus quadros pessoas com as mesmas posies ideolgicas. Quando conjuga o verbo errar na terceira pessoa do plural, Lula sabe que o erro est personicado neste momento em que o PT enfrenta a sua pior crise. Ela tem os nomes de Jos Dirceu, de Joo Vaccari Neto, de Jos Genono, de Slvio Pereira e, principalmente, de Lula. Os erros deles uns mais graves, outros nem tanto que desgastaram profundamente a sigla e lanaram a desonra sobre o nome de pessoas honradas, honestas, srias e patriotas. Muitas delas s tiveram um caminho para preservar seu patrimnio imaterial, porm ainda mais valioso: abandonar o partido. Hlio Bicudo foi um dos mais importantes arrependidos ou convertidos. Por isso sofreu ultrajes, inclusive dentro da famlia, por no se submeter aos ritos e dogmas da seita petista, que s no existe da boca para fora do seu quase dono. Conheo o homem e trabalhei ao lado dele em O Estado de S. Paulo. Quando muitos tremiam s se ouvir falar no Esquadro da Morte e no delegado (do sangrento Deops) Sr gio Paranhos Fleury, ele os enfrentou com sua autoridade de homem de coragem e a posio de promotor pblico do Estado. No era pelo seu tamanho minsculo: era por sua autoridade moral, que lhe dava fora e energia. Foi com ela que ajudou a criar o PT. Com ela tambm o deixou, quando o partido no mais o representava. Houve ateno para esse percurso de vida quando Hlio Bicudo subscreveu o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousse? No. Ele se converteu em rprobo, inel, satnico. Nada de dilogo. Se no est conosco, contra ns. No nal da vida (que todos esperamos continue a se prolongar), Bicudo no precisa desses julgamentos para saber que a histria j o recebeu de braos abertos em vida. Mas a histria prossegue. E Luiz Incio Lula da Silva podia recuperar a posio que ocupou em boa parte desta Quinta Repblica sujeitando-se s condies que uma liderana positiva impe: assumir a prpria culpa e a dos demais, se verdadeiro comandante ao invs de se manter como o lder que a si se refere na terceira pessoa do singular (no na do plural) e no espelho s v reetida a prpria imagem. Um lder operrio seu contemporneo, Lech Walesa, da Polnia, instigado por um jornalista a apontar um erro, olhou para o ar, respirou fundo e respondeu: ter bebido demais. Foi to espontnea e sincera a consso que ambos, entrevistado e entrevistador, riram. O lcool em excesso prejudicou, em alguns momentos, o discernimento do grande Walesa. Acusado de estar bebendo demais, o ento presidente da repblica do Brasil reagiu pedindo a cabea do autor da notcia incmoda. Era ningum menos do que Larry Rohter, correspondente do mais inuente jornal do mundo, o New York Times Mais ponderado e racional, o ministro da justia, Mrcio omaz Bastos, um dos maiores criminalistas do pas, segurou as pontas. Com tato, desfez o edito real e Rohter permaneceu no Brasil (e Lula no parou de beber vrias doses alm do prudente). No h dados concretos para estabelecer uma relao quantitativa entre as doses do presidente e os seus erros. Tal-

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4 vez at no haja essa relao, ao menos diretamente. No entanto, Lula podia ter respondido reportagem do agente do imperialismo ianque recorrendo letra de um samba que quase um hino dos cultores da gua ardente: bebo, sim, estou vivendo; tem gente que no bebe e est morrendo, eu bebo, sim. Desde ento, Luiz Incio diminuiu de tamanho. A tendncia que se apequene cada vez mais, j que no se favorece dos momentos propcios grandeza do lder estadista. A punio veio atravs da forma que utilizou para assinalar os 36 anos do seu partido: no um comcio em praa pblica, mas a gravao de um vdeo para ser exibido em rede virtual, pela internet. Veio-me a lembrana do pacote de abril, que completar quatro dcadas no ano que vem. Consistiu em uma srie de medidas mutiladoras da j ento combalida democracia brasileira (como a abolio de qualquer coisa na propaganda eleitoral que no fosse a leitura do currculo do candidato). O general Geisel outorgou essa coisa ao pas atravs do seu ministro da justia, o ex-juscelinista (foi JK que lhe deu um rico cartrio no Rio de Janeiro) Armando Falco, celebrizado por esse pacote e por um bordo que, talvez. Lula devesse incorporar ao seu lxico: Nada a declarar. Pois esse pacote de doses de veneno tirnico foi anunciado atravs de uma ta de udio (ainda no existia a internet), ouvida a partir de um gravador colocado sobre uma mesa na sala de imprensa do Palcio do Planalto, em Braslia, sem ningum que pudesse responder a perguntas que, evidentemente, no foram feitas. A ditadura estava na sua plenitude, mas nenhum dos seus fmulos se atreveu a passar por aquele vexame. O vdeo de Lula, mutatis mutandi a reencarnao dessa fuga. Mais uma na sua biograa.O boom invisvel da soja tambm ameaa o TapajsCinco dos maiores produtores de gros do Brasil j podem se habilitar, em consrcio, ao leilo para a construo e operao do trecho ferrovirio de Lucas do Rio Verde, no nor te de Mato Grosso, a Miritituba, em Itaituba, no Par. O Ministrio dos Transportes aprovou os estudos de viabilidade econmica, tcnica e ambiental que elas apresentaram. A ferrovia, com 1.140 quilmetros de extenso, dever custar 11,5 bilhes de reais, um tero do oramento da hidreltrica de Belo Monte, a maior obra em andamento no Brasil. O BNDES se comprometeu a financiar 70% desse valor. Ela ter capacidade para escoar 30 milhes de toneladas, a mesma tonelagem das eclusas da barragem de Tucuru, no rio Tocantins. Escoar a produo de soja e milho, substituindo outras vias, que atualmente vo para o sul, mas principalmente soja. No chegar, porm, at Santarm, que j tem o terminal da Cargill. De Miritituba, o produto ser reembarcado no litoral do Par. A ferrovia foi includa na segunda fase do Programa de Investimentos em Logstica por presso das tradings Cargill, Bunge, Louis Dreyfus Commodities e Amaggi, Elas participaro de um consrcio, a EDLP, na condio de favoritas. Mas o governo j definiu que recebero ressarcimento de R$ 34 milhes pelo estudo, caso no sejam as vencedoras. A proposta ainda ser submetida a audincias pblicas e anlise do Tribunal de Contas da Unio. S depois a concesso ser licitada. O Par se manifestou reivindicando que, alm da ferrovia, o governo federal asfalte todo o trecho paraense da BR-163, que praticamente do mesmo tamanho da parte matogrossense, asfaltada h vrios anos. Mas at agora a disposio de Braslia se restringe a menos da metade do total, os 332 quilmetros entre o entroncamento com a Transamaznica e Santarm. Para esse trecho j foi lanado o edital de chamamento pblico dos interessados para a concesso. Caso todos sejam atendidos, com ferrovia e rodovia (e a hidrovia?), a soja e os outros gros sero escoados pelo vale do Tapajs e no mais por Santos ou Paranagu, destino que fica duas vezes mais distante, provocando maior custo de frete. Nas condies atuais, que so desfavorveis, o rumo Norte para as exportaes passou de 8% para 20% do volume de carga. Chegar agora a quanto? E seus efeitos sociais e ambientais, que j so graves, se tornaro ainda mais agressivos. Quem est pensando nisso? Memria do Cotidiano V OLUME 7NAS BANCAS E LIVRARIA

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5 Federao amaznica: uma ideia para o debateThiago OliveiraO Par envia energia bruta para a o complexo industrial da Regio Centro-Sul, exporta recursos in natura: pescado, frutas, gado em p, soja, madeira, e quem sabe, brevemente, petrleo, enm, a lista de recursos naturais grande. Com isso, o Par inuencia diretamente no supervit da balana do comrcio com a exportao de minrio de ferro, o segundo maior produtor mineral, perde apenas para Minas Gerais. Mesmo com todo esse destaque na produo de riquezas em cenrio nacional, temos um povo miservel e vivendo em favelas, amontoados urbanos e rurais. Tm-se tanta produo de riqueza, e esta no retorna a populao de maneira a melhorar os pssimos indicadores sociais amaznicos. O modelo de desenvolvimento empregado na Amaznia pelos Governos Militares, baseado em produo e exportao de matria prima e energia bruta, causou um cruel abismo social, contrastando com a beleza cnica e riqueza mineral da regio. Nesse perodo, as diferenas sociais aumentaram de forma cavalar. A democracia que deveria corrigir, no melhorou esse cenrio, pelo contrrio, piorou e agravou mais o modelo herdado. Todos os Governos centrais eleitos nada zeram para a inverso dessa per versa lgica estrutural. Vide a usina de Belo Monstro (perdo, Belo Monte). Com tanta contradio, movimentos separatistas do Estado, em 2011, trouxeram todas as mazelas desse modelo tona no plebiscito onde a consulta foi sobre a criao de unidades federativas como a soluo para esse longo cenrio de pobreza. Mas o resultado foi a negativa para eles porque a populao do nordeste paraense, consta em maior nmero, entendeu que nada mudaria em reverso do quadro social, caso isso acontecesse. Passado o momento, o tema foi jogado para os submundos, nada mais se discutiu, nem o velho modelo e nem o proposto pelos movimentos separatistas. Mas foi o principal ato de contestao ao subdesenvolvimento da Amaznia na era democrtica e indiretamente, forma da Federao. Semelhante ao cenrio, tambm nos Estados, vizinhos ao Par, do Amazonas, Mato Grosso e Maranho existem projetos de leis para a criao de unidades federativas que seriam desmembradas das reas dos citados territrios. Eles ainda encontram-se adormecidos nas gavetas dos polticos que empur ram com a barriga ou jogam para debaixo do tapete o debate sobre a soluo dos graves problemas sociais. Os projetos citados so uma mostra de que o povo anda com desgosto de sua situao de vida, mas tais projetos so tratados com muita passionalidade, sem atacar verdadeiramente o n da crise: a forma da Federao. Afora a Amaznia, no Brasil, tambm existem movimentos semelhantes, contestando a distribuio de riquezas ou simplesmente querendo emancipao territorial, por se sentirem muito presos s decises de Braslia. Exemplo disso, nos Estados de So Paulo e Rio Grande do Sul, h movimentos pedindo separao para a for mao de duas Repblicas independentes do pas. Estes dois movimentos possuem maturidade e entendem que o povo j precisa ser consultado sobre o tema. Por outro lado, j se v tambm, governadores, de forma tmida, contrapondo a forma de repasse de recursos aos Estados e Municpios, o prprio Governador Simo Jatene, j manifesta a opinio de reviso do Pacto Federativo no objetivo de reverter o quadro social. O problema que os governantes no conseguem se articular de forma clara e decisiva para contradizer a forma de governo centralizado que impera no pas, talvez com receio de perder a rea de inuncia poltica, e com isso, perder capital eleitoral. O povo da Amaznia, em especial o Par, demonstrou desgosto com o modelo em debate. A regio produz par cela considervel de riquezas, tem forte apelo ecolgico e preservacionista, possui orestas preservadas, mas continua e continuar miservel com este modelo de desenvolvimento mantido, consequncia direta da submisso poltica da regio amaznica condio colonial, imposta pela Federao. Ento por que precisamos dela? Qual a lio que deveria ter cado para a populao no ps -plebiscito? Ter dado prosseguimento do debate, agora de forma mais sria, seria necessrio para a reverso desse quadro cruel. O modelo da federao brasileira, onde as decises so tomadas de forma central (apesar da Constituio Federal CF, garantir descentralizao poltico-administrativa), sem respeito s diferenas regionais de um pas com dimenses continentais, ainda serve aos cidados, em particular, do Par e da Amaznia? A reviso disso j se faz necessrio. A Amaznia precisa de autonomia para gerir seus prprios recursos sem a interferncia direta do complexo poltico-industrial do Centro-Sul, fortemente representado no parlamento em Braslia, ncleo das decises polticas. Para produzir o prprio modelo de desenvolvimento, hoje, sem autonomia, impossvel. Ficaremos na eterna condio de produtores de matria-prima e energia, exportando riqueza bruta para naes como China e Japo. Maior expoente do aprimoramento recente desse modelo, Belo Monstro (Monte), antes de funcionar, j um asco. No atender a prpria demanda para a qual foi construda, mas a conta car aqui. A Federao brasileira precisa da Amaznia s para lhe pagar as contas? Na medida em que as respostas dadas por um modelo centralizado de deciso poltica no contentam os cidados e aos prprios governantes, limitando aes e inuenciando na qualidade de vida dos habitantes, preciso discutir sadas para corrigir o defeito,

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6 trazendo o problema para o foco do debate luz da sociedade. Isto a base da democracia. Em vez de propor novas unidades, onde cada Estado criado caria sujeito ao mesmo modelo de Federao, cando apenas reduzidos a novos currais eleitorais, mantendo o mesmo padro de baixo desenvolvimento, frentes populares e parlamentares podem propor a criao de uma unidade administrativa maior, com mais independncia administrativa e nanceira. No caso, por que no propor a criao da Federao da Amaznia? O que nos impediria disso? Criar e fortalecer uma Federao da Amaznia, envolvendo os Estados da Amaznia Legal, ou da Regio Norte, para aproveitamento integral dos recursos naturais em solo amaznico, para benefcio mais igual dos povos da oresta seria uma alternativa mais adequada (?). Uma Federao de Estados amaznicos traria regras prprias e autonomia poltica para as decises, alm de manter as caractersticas comuns entre povos e territrios. No seria pedir independncia da Repblica do Brasil, mas o fortalecimento poltico do desigual territrio que possui grande importncia econmica, mas com poucos eleitores e com isso, pouca representao e poder de deciso. E mais, segundo a Constituio, necessrio pedido e envolvimento das Assembleias Legislativas que so as casas do povo para comear e fundamentar o projeto de consulta popular. Governadores e deputados, caso fossem estadistas de fato, e se o povo fosse articulado para discusso poltica, criariam o projeto da Federao da Amaznia. Polticos e povo seriam protagonistas do prprio desenvolvimento e autonomia. Tapajs e Carajs foram rejeitados. O resultado do plebiscito foi a integridade territorial, mas e a autonomia poltica do Estado e da regio? Onde foi discutido isso no processo do plebiscito de 2011? Nenhuma linha ou voz falou sobre isto. Para se criar a Federao seria necessrio um longo caminho de construo com debates, fruns e ocinas sobre o tema. A Federao da Amaznia seria mais fcil para os Separatistas convencerem Belm para a causa, trazendo a capital para uma razo comum, do que a separando da temtica. O modelo de desenvolvimento, mais uma vez, ser discutido em outubro. Existiro homens (candidatos e eleitores) preparados, abertos e dispostos aos desaos em questo? O maior deles ser o de montar de forma consensual o projeto de Estado para uma futura regio autnoma. Avaliar feridas e encaminhar para cur-las sempre difcil, ainda mais se o paciente no quiser. Temos motivos ou no para encontrar candidatos com o perl exposto? At outubro, procura-se...Belm ainda pode ser a capital do Par?Em 2013 Parauapebas tinha o segundo maior PIB do Par, que correspondia a 80% do Produto Interno Bruto de Belm, ainda em primeiro lugar, mas cinco vezes superior ao de Ananindeua, na ter ceira colocao. J o PIB per capita (que mede a distribuio da riqueza pela populao) de Parauapebas era quase sete vezes superior ao da capital. Parauapebas tem 190 mil habitantes, Ananindeua 505 mil e Belm 1,5 milho. Apesar desses nmeros, que indicam um potencial de crescimento (e de de resultados concretos j alcanados), Belm no acompanha o que acontece em Parauapebas, como ignora a vida em Cana dos Carajs, detentora do maior PIB per capita e a caminho do maior PIB, com seus 33 mil habitantes. um grande erro, que custar cada vez mais caro cidade com a responsabilidade de ser a capital de um Estado com 1,2 milho de quilmetros quadrados, do tamanho da Colmbia. Um exemplo d a medida da impor tncia de acompanhar a dinmica do sul do Par, que reivindica sua autonomia, e o tamanho do descaso do poder central paraense. H oito anos a prefeitura de Parauapebas iniciou a construo de um hospital municipal para 236 leitos, 12 dos quais para atender casos de alta complexidade. Deve ser o maior investimento hospitalar do interior do Par. A obra devia estar pronta em um ano. J se passaram oito e a construo ainda no foi totalmente concluda. Faltariam ainda 10%. Seu custo aumentou cinco vezes. Agora est em 50 milhes de reais. Talvez esse encarecimento se explique pela circunstncia adversa de que o projeto original foi alterado nove vezes, por erros e inconsistncias, algumas inacreditveis. O elevador, para citar um s desses erros, no comporta macas.. Essas falhas tambm podem ter outra motivao, conforme os brasileiros j esto cansados de saber. Busc-la tarefa to prioritria quanto qualquer obra em Belm. O problema que Parauapebas ca longe quase 700 quilmetros e a capital no consegue chegar at l. Nem quando se aproxima nova eleio municipal e Paragominas uma das raras coroas do Estado. Os piratas dos votos devem estar de olho nela. A necessidade de um planejamento srio e de uma atitude mais atualizada por parte do poder pblico nessa regio urgente. De 2013 para c, Paragominas encolheu por causa da queda do seu principal produto, o minrio de ferro, extrado de Carajs e exportado pela Vale. Mudar essa conjuntura desfavorvel est muito alm da capacidade do municpio. Assustada pela queda de receita, a principal dos quais a compensao nanceira mineral, Parauapebas tenta diversicar a sua base econmica, investindo mais na agricultura. Demorou a tomar essa iniciativa. Com atraso, porm, esse o caminho que deve tomar. O perodo de vacas magras do minrio de ferro dever ser prolongado. Essa atitude est mais em tempo para Cana dos Carajs, que produz bens minerais de maior valor, como o nquel e o cobre, do que o ferro, que depende do volume de produo para poder compensar a queda de preo. Cana dever ser lder em PIB e PIB per capita. Propor cionalmente, tambm em investimento. Mas est se preparando para no car dependente da monocultura mineral? Para ser a legtima capital do Par, que quer se fracionar, Belm precisa chegar at esses centros vitais do futuro do Estado. Ou renunciar a ser capital.

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7 MEU SEBOA Amaznia de EuclidesA 2 edio de margem da histria, o ltimo livro predominantemente amaznico de Euclides da Cunha, saiu em Portugal (com a graa de marjem), em 1913, quatro anos depois da morte do autor e da sua primeira edio, publicada no Brasil. Foi pelo selo da Livraria Chadron (uma das mais belas do mundo, na cidade do Porto), de Lello & Irmo Editores, fundada em 1868 e estabelecida na rua das Carmelitas. Foi o sexto livro de Euclides. Certo Joo, que registrou seu ex-libris (atravs de carimbo manual) na folha de rosto do livro, o comprou em 29 de agosto de 1913, no Brasil, por quatro mil e quinhentos reis (ou R 4$500). Seu proprietrio seguinte foi ningum menos do que Joo Afonso Mendes, irmo do professor e escritor Francisco Paulo Mendes, em 1935. O volume chegou s minhas mos por compra feita em um sebo de Belm. Ao m do primeiro artigo, Euclides formula o que hoje seria chamada de agenda positiva, ainda vlida nos nossos dias: Dela [ Amaznia ] ressalta impressionadoramente a ur gncia de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada; uma lei do trabalho que nobilite o esforo do homem; uma justia austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homstead que o consorcie denitivamente terra (isto uma lei que valorize o trabalho como forma aquisitiva da propriedade). O autor de Os sertes viu Belm de um sculo atrs (uma cidade de dois anos sobre uma tapera de dois sculos) transformada na metrpole da maior navegao uvial da Amrica do Sul. As estradas de penetrao nas reas de terra-rme e de integrao (e submisso) da Amaznia aos centros dominantes do pas interromperam a continuidade histrica regional e acabaram com o mundo dos rios. De tal maneira que se pensa em adicionar uma ferrovia de 1.400 quilmetros a uma estrada de rodagem sem pensar no rio Tapajs. No como mera via de escoamento de uma carga de gros de origem externa (e destino tambm externo), que pode chegar a 30 milhes de toneladas anuais, custa de um investimento de quase 10 bilhes de reais, Mas como um dos itens da projeo visionria de Euclides da Cunha, s vsperas do seu desaparecimento.Os filhos dos paisO livro estava a 50 reais na seo de obras raras do sebo paulista na rea da praa da S, ponto de concentrao deles. O motivo foi assinalado pelo livreiro, a lpis, como convm sempre: Autografado pelo Autor. Era verdade: l estava a assinatura de Luiz Viana (Filho) sexta edio, revista e ampliada, de A vida de Rui Barbosa (da Companhia Editora Nacional, de So Paulo, com 454 pginas). S por isso j valia os 50 reais. O livreiro, porm (e felizmente), s atinou para a assinatura do autor. No prestou ateno aos destinatrios da gentileza, perpetrada no Rio de Janeiro, no dia 1 de janeiro de 1960, o mesmo ano de lanamento da nova edio da biograa do grande Rui, baiano como Viana Filho. Ele escreveu: Aos bons amigos D. Carolina, D. Mariana, e Embaixador Maurcio Nabuco, com a amizade e o agradecimento de Luiz Viana. Os trs, lhos de outro grande homem pblico nordestino, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910), dos maiores que j teve o Brasil. Dele tenho quase todas as primeiras edies dos seus livros, incluindo os dois mais importantes, que todo brasileiro culto devia ler. O volume da obra devia ser vir mais como fator de atrao do que de rejeio de Um estadista do imprio atravs do qual o lho faz a biograa do pai, Jos Tomaz Nabuco de Arajo Filho, chegando tambm ao av, que teve participao na cabanagem, em Belm. Tornou-se modelo para as melhores biograas e autobiograas, inclusive as Minhas Memrias, de Joaquim Nabuco. Dos trs lhos que foram ao lanamento da biograa de Rui por Luiz Viana conheo melhor Carolina. Suas pretenses literrias so legtimas, de melhor resultado do que a hagiograa do pai e suas prprias memrias. Filhos de pais incontestavelmente excepcionais ou raros tero sempre diculdade ao procurar um caminho prprio. Quando no tomarem o ascendente por parmetro, o pblico tratar de fazer a comparao e de forma gravosa. A busca pela identidade e autonomia costuma se frustrar. De forma tanto mais profunda quanto for a grandeza do pai, do que exemplo denitivo Vilma Guimares Rosa, mal sucedida repetidora da inventiva de Joo Guimares Rosa. Se esses lhos no tivessem tido como pai essas guras, certamente conseguiriam melhor reconhecimento ao seu talento. E talvez pudessem ser mais felizes tambm.O preo do livroUma dica para os frequentadores de sebos. Ao pegar o volume de Luiz Viana (de quem voltarei a falar em outra oportunidade), tratei de buscar mais volumes na minha caada, a coisa mais deliciosa que se pode fazer num sebo (ou garimpagem, ou pescaria, conforme o gosto). Com uma quantidade considervel de volumes, propus ao livreiro que desse um desconto melhor biograa de Rui. Depois de chegar soma nal, ele aceitou conceder 50%. Fechamos negcio imediatamente. Ele, por ter faturado pelo conjunto da venda. Eu, por ter levado um livro raro pelo preo de uma obra comum. Ainda mais com excelente encadernao, pela qualidade do material utilizado e por que o encadernador, demonstrando sabedoria, preservou a capa original do livro. No incomum de ser a capa o componente mais precioso da obra, como nas antigas edies da Jos Olympio calorizadas por Santa Rosa. O negcio bom quando bom para quem vende e para quem compra, eventualmente para desespero do olheiro (ou urubu) que espicha olhar invejoso para a transao, para ele delituosa por uma razo: no foi o benecirio. Esse olhar e esse dono do olhar so frequentes nos sebos. Mas no chegam a perturbar os participantes desse momento culminante do processo: a xao do preo. No h internet que supere essa sensao.

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8 MEIO SCULO DE JORNALISMOO ciclo de Magalhes BarataRetomo a reproduo de algumas matrias que escrevi ao longo de 50 anos de jornalismo profissional. s vsperas de mais uma temporada eleitoral, a transcrio de textos do caderno especial de aniversrio de O Liberal de 1982, o ano em que o povo voltou a escolher pelo voto de todos o seu governador, depois de 17 anos de abstinncia. Nessa poca eu preparava as edies especiais do jornal de Romulo Maiorana, pai. O que se segue a primeira parte da reportagem.As grandes transformaes polticas que marcaram a histria do Brasil tiveram eco retardado ou fraco no Par. Estado distante dos centros decisrios nacionais, o Par, vivia quase isolado na federao brasileira, em contato direto com mercados estrangeiros e para dentro de si, na busca de produtos naturais coletados na oresta para venda ao exterior. A proclamao da repblica, a revoluo de 1930 e o m do Estado Novo, em 1945, signicaram, quando muito, mudana de nomes no comando de um poder apenas formalmente mudado. Mesmo em relao s lideranas, a renovao foi lenta. Toda a repblica foi sempre entre dois grupos rivais, sem terceira fora. No poder, o grupo dominante tratava de montar uma estrutura de dominao para aniquilar o adversrio, que, na oposio, empregava todos os mtodos possveis para inverter a situao. Por isso, a poltica republicana foi sempre dualista, personalista e violenta. Os 40 anos da Repblica Velha foram marcados pela polarizao Lauro Sodr-Antonio Lemos, produto do conito entre um federalismo incipiente e um municpio entranhado na gura dos coronis de barranco e dos intendentes municipais. A Repblica Nova substituiu o dualismo: a gura dominante foi Joaquim de Magalhes Cardoso Barata, contra o qual se formou um conjunto desarmnico de foras polticas, nucleado na Frente nica Paraense e na Coligao Democrtica Paraense, que elegeu um governador, o marechal Alexandre Zacarias de Assuno. O ciclo de Baratateve duas fases. Na realidade, uma delas, comeando em 1930, terminou em 1935. A outra, recomeando em 1943, s terminaria em 1965/66. Foi quando o PSD (Par tido Social Democrtico) perdeu a hegemonia poltica para um novo grupo, personalizado no coronel Jarbas Passarinho e no tenente-coronel Alacid Nunes. A partir desse momento entraria em vigor um novo dualismo.A PARTICIPAO DOS MILITARESUma anlise de todo o perodo republicano ressaltar a disputa entre dois grupos pelo comando da poltica local, travada de forma personalstica, com a utilizao da fora e pouco contedo ideolgico. Talvez devido a essa caracterstica, que fazia da poltica uma operao de conquista, a luta foi travada quase sempre entre militares. Lauro Sodr, republicano histrico, chegou a general, assim como Magalhes Barata. Zacarias de Assuno foi marechal. Os dois lderes ps-1964 tambm eram ociais do exrcito. Por que essa participao dos militares, muitos dos quais praticaram a poltica sem deixar o servio ativo das foras armadas, que se estendia a todos os nveis da disputa eleitoral?Embora a aplicando apenas ao ,arechal Assuno, um articulista de O Liberal deu uma explicao (em artigo publicado durante as eleies de 1947) que poderia ser estendida genericamente para ajudar a entender a participao intensa dos militares na poltica: Os nossos polticos, que so raposas, no sentido pblico, cheios de malcia, sempre viram nos tabus de dragonas fcil presa de seus apetites. Dispondo de um lder militar no comando, os polticos colocaram em funcionamento uma mquina eleitoral to poderosa que podia eleger candidatos sem que eles precisassem fazer campanhas ou mesmo visitar os municpios nos quais seriam votados. Compostas as chapas, as reas do Estado eram divididas entre os candidatos e cada um passava a ter certeza da sua eleio e at prever o nmero aproximado de votos. Alguns, que moravam no Rio de Janeiro, a capital federal, s vinham a Belm para tomar posse. Essa situao perdurou at 1950, quando uma derrota do governo foi minando os currais eleitorais. Uma vitria sobre o partido do governo, porm, s podia ser obtida custa de uma mobilizao popular fenomenal, de uma unio das oposies, da fora usada na reao e de um eciente aparato de scalizao da eleio e da apurao. A partir de 1950, raramente uma eleio foi decidida na votao normal. Constantemente foi necessrio recor rer a eleies suplementares e os resultados nais s eram conhecidos trs ou quatro meses depois da votao, tantos eram os resursos justia. Prosperando a indstria do mapismo *expresso referente s fraudes praticadas nos mapas eleitorais), os votos corias, os eleitores fantasmas e muitas outras manobras que fraudavam a vontade dos eleitores, sabiam os polticos que to importante quanto a votao era a apurao. Nela, acima do eleitor estava o governo. Em 1950, com o apoio do comandante da 8 Regio Militar, com fiscais espalhados por todo o interior e usando uma equipe de advogados para travar a batalha jurdica durante a apurao, a Coligao venceu o PSD. Mas no conseguiu sustentar a vitria cinco anos depois, quando Barata voltou ao poder.

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9 A FORA DE BARATAAt hoje, a presena de Barata na poltica do Par ao longo de 30 anos um fato polmico, raramente tratado sem paixo, a favor ou contra ele. Retornando ao Estado em 1930, como capito, mas comissionado com as insgnias de coronel pela revoluo, ele construiria, nos cinco anos seguintes, a mais poderosa das lideranas da histria republicana paraense. Durante trs anos, o interventor federal no precisou enfrentar partidos e disputas polticas: cuidou apenas de administrar. Mas o subproduto dessa administrao era a formao de uma engrenagem de dominao. Com poderes absolutos, Barata comeou a implantar o ensino pblico, melhorar a navegao, modernizar a administrao, realizar obras urbanas. Sua atuao mais importante, contudo, consistiu na abertura de estradas de rodagem para o interior. A nica rodovia existente ligava Belm ao distrito de Pinheiro (hoje Icoaraci). Barata abriu estradas da capital s zonas Bragantina e do Salgado. Mais do que isso: foi o primeiro governador a percorrer o interior. Antes dele os governadores se mantinham na capital e nem iam aos municpios fazer campanha, entregando a tarefa a cabos eleitorais. O jornal baratista O Liberal ressaltava esse fator na eleio de 1947: Desde 1930, com o advento da Revoluo, que essa gente [do povo ] comeou a ter contato com o gover no. At esse tempo governo era, para o povo, uma mera expresso quase abstrata e vazia de sentido. Governo era um palcio com certo aspecto de majestade, acessvel apenas a alguns felizardos, da poltica, onde se faziam as intrigas dessa espcie e donde emanavam as ordens para a cobrana do imposto ou para trancaar nas enxovias os que desagradavam essa qualidade de administrao. Barata instituiu as audincias pblicas, levando centenas de pessoas para ouvi-lo e conversar com ele em palcio. Os pagamentos do funcionalismo foram colocados em dia. Com uma economia em decadncia depois da perda do monoplio da borracha, a queda dos preos e o abandono dos seringais, o governador dispunha uma receita modesta e no podia contar ainda com verbas federais. As necessidades impunham rigor e racionalidade. A popularidade de Barata atingiria nveis que jamais voltariam a se repetir. Por isso, seu Partido Liberal elegeu todos os seis representantes do Par assembleia constituinte federal, em 1933. No ano seguinte, o Partido Liberal elegeu 21 dos 30 integrantes da assembleia constituinte estadual. A Frente Liberal ficou com apenas nove. E tambm fez sete dos nove deputados federais. J a Frente Liberal no conseguiu eleger nomes de grande prestgio na Repblica Velha, como Samuel MacDowell Filho, Ismaelino de Castro e Paulo Maranho. Mas para a eleio direta do governador e dos senadores, Barata sofreria sua primeira derrota, embora tendo dois teros da Assembleia Legislativa e a esmagadora maioria dos deputados federais. Uma srie de desentendimentos fez com que quatro deputados federais e sete dos deputados estaduais abandonassem o Partido Liberal, aliando-se Frente nica Paraense, dando-lhe a maioria. No dia da eleio, os dissidentes e os membros da Frente nica se homiziaram no quartel do comando da 8 Regio Militar. S os parlamentares do Partido Liberal foram assembleia e o presidente, pio medrado, considerando ausentes os adversrios, convocou trs suplentes do seu partido para dar quorum eleio de Barata para o governo e Fenelon Perdigo e o prprio Medrado para o Senado. A eleio teve a aprovao de uma multido, que se reuniu em frente ao prdio da assembleia e que, depois, impediu os dissidentes e frenteunistas de votar. Houve tiroteio e feridos no choque. Em consequncia dos incidentes, o Tribunal Superior Eleitoral solicitou interveno federal no Par. Getlio Vargas nomeou para o car go o major Carneiro de Mendona. Sem conseguir um acordo com o PL, Mendona patrocinou a eleio de Jos Malcher e de Abel Chermont e Abelar do Conduru para o Senado, considerando nula a eleio anterior. Octvio Meira, que participou desses acontecimentos, atribui a queda de Barata a trs fatores? A criao da Concentrao Poltica Magalhes Barata, depois de vencido o pleito, quando no mais se tornava necessria; o desejo do interventor Magalhes Barata de ver o seu irmo, Mrio Magalhes Barata, entre os deputados federais; a luta que se travava dentro do PL entre as correntes que obedeciam ao chefe do governo ou ao chefe do partido. Meira acrescenta, porm, que tudo isso foi bem aproveitado pelo sr. Getlio Vargas para se livrar do seu delegado no Estado e impor outro candidato sem nenhuma vinculao com outros governadores estaduais. Criando a Concentrao, Barata colocara de lado seu prprio partido, fazendo-o temer pelo futuro (os tenentes, com inclinao autoritria, desconfiavam dos partidos polticos). Ao tentar obrigar trs dos deputados federais eleitos pelo PL a renunciarem, para abrir vaga para o seu irmo, Barata ganhou novas inimizades, que destruiriam a unidade do PL. Mas tambm influiu na dissenso o perodo de abertura poltica que surgiu entre a revoluo e as eleies de 1933/35, estimulando atos de rebelio entre os polticos, at ento sob forte controle dos delegados revolucionrios.

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10 Prefeitos de Belm: seis por meia dzia A verdade ou a rennciaA orla de Belm abriga trs investimentos que simbolizam muito bem o que tm sido as administraes municipais. A mais antiga, j com 15 anos de vida, a Estao das Docas. O arquiteto Paulo Chaves Fernandes transformou galpes desativados do porto em ponto turstico, centrado em restaurantes e com uma avenida beira da baa do Guajar. Virou uma das atraes da cidade. Tambm arquiteto (como sua vice, a em seguida governadora Ana Jlia Carepa), Edmilson Rodrigues fez a ver so popular do projeto elitista com o Beira-Rio. Uma obra de R$ 1,99, ironizou seu desafeto, mas uma das mais teis e menos controversas da sua gesto, como o fracassado bondinho do centro velho e a tentativa frustrada de organizar o cameldromo naquelas que foram as duas principais ruas do comrcio. O comerciante (e falso oculista) Duciomar Costa fez uma nova verso, ampliada e melhorada, do ponto de encontro litorneo do ento petista na Estrada Nova. Gastar mais (de forma controversa) com uma precria estrutura de servios ao longo da maior janela para o rio da cidade, que procura se desvencilhar das suas origens coloniais para descobrir novamente o seu principal acidente geogrco, o rio, foi a mar ca do Dudu. Seguindo pelas trs diretrizes dessas obras, em que, medidas as trs administraes modicaram a condio econmica de pobreza de Belm, padecendo de pssima segurana pblica, catastrca estrutura de saneamento bsico, educao de baixa qualidade e sade precria? Com suas verses e adaptaes, ao m de todas essas gestes Belm continuou a se distanciar das cidades brasileiras onde melhor viver.A DESINDUSTRIALIZAOApenas trs de 15 Estados pesquisados pelo IBGE registraram crescimento industrial no ano passado. O Par foi o lder, com evoluo positiva de 5,7%, seguido por Mato Grosso (4,7%) e Esprito Santo (4,4%). A indstria brasileira sofreu queda de 8,3% em 2015. Piores desempenhos tiveram os principais Estados industrializados do pas: Amazonas (-16,8%), Rio Grande do Sul (11,8%), So Paulo (11%), Paran (9,8%) e Cear (9,7%). A consequncia foi o encolhimento da indstria de transformao, que desceu de 17,9% do PIB em 2004 para assustadores 10,9% 10 anos depois, numa evidente desindustrializao do pas. A fatia de So Paulo no todo se reduziu ainda mais, sem o benefcio da desconcentrao porque os outros Estados tambm involuram. Um caso extremamente grave o da Zona Franca de Manaus, que ameaa entrar em colapso por causa da valorizao do dlar e da retrao no mercado interno, paradoxalmente, para esse tipo de estrutura, o destino principal das suas mercadorias. O Par no tem nada a comemorar com a sua liderana. A expresso indstria de transformao falsa porque o principal produto o minrio de ferro, uma matria prima. O saldo positivo, alm disso, se deve justamente ao incremento do volume fsico do minrio para contrabalanar sua vertiginosa desvalorizao, acarretando o incremento na exausto das jazidas valiosas de Carajs. S pode comemorar quem desconhece a realidade ou age de m-f. verdade: a elite brasileira no gosta de Lula, de Dilma e do PT. Gostaria de apresentar-lhes o carto vermelho, livrando-se da sua companhia. pura ingratido. Lula multiplicou a quantidade de bilionrios brasileiros. Transformou o BNDES em bab de leite para colarinhos brancos famintos por ver bas pblicas baratas; se possvel, com subsdio. O presidente do Banco Central lulista foi o banqueiro internacional nascido no Brasil Henrique Meireles. O segredo do sucesso de Lula foi justamente ter na retaguarda algum que lhe assegurava uxo de dinheiro para distribuir (em volume homeoptico) aos pobres e (em doses gigantescas) aos consumidores de vinho francs e charutos cubanos como o prprio Lula se tornou, pela convivncia e conivncia. A supergerente Dilma Rousse uma fantasia grotesca que Lula criou certo de que ela s suportaria um mandato, se tanto. Subestimou o quanto de poder o Palcio do Planalto coloca ao alcance do seu inquilino. Dilma sobreviveu. Quem no est sobrevivendo sua incompetncia o Brasil. No entanto, despach-la atravs do impeachment no correto nem faz bem democracia brasileira. Pelo critrio que a fulminaria, Jos Sarney devia ter sido impedido de levar o pas inao de 80% ao ms. O que o pas precisa fazer confrontar a presidente da repblica com a sua obra, uma sucesso de erros crassos, que raros homens pblicos cometeram. Talvez dessa maneira a prpria Dilma acabe quebrando a sua crosta de fantasia e dogmatismo, e ceda ao que se apresenta bvio: ela no tem condies de continuar a conduzir o pas pelo rumo que lhe imps. Se no se abrir sociedade, admitir nalmente seus er ros e permitir a correo de fora para dentro, a nica atitude que lhe restar ser renunciar ao mandato. Se as coisas continuarem na for ma atual, ser melhor chamar Luiz XIV para repetir que, depois, ser o dilvio.

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11 A educao trgica, mas ainda pode piorarA confraria de Ray CunhaDe 15,1 milhes de estudantes de 64 pases dos 193 do mundo, 12,9 milhes no tm capacidades elementares para compreenderem o que leem nem conhecimentos essenciais de matemtica e cincias. O Brasil contribui com 8% desses analfabetos funcionais. Ou 1,1 milho de estudantes. o segundo pas com o mais baixo desempenho, atrs apenas da Indonsia, que entrou com 11% do contingente, ou 1,7 milho de estudantes. Em termos percentuais, o Brasil o 10 pior avaliado, num ranking liderado pelo Qatar. Metade desse contingente de reprovados da Amrica do Sul, pela ordem: Peru, Ar gentina (quem diria: foi padro educacional na regio), Colmbia e Uruguai (que era a Sua sul-americana), alm do Brasil. Dos 2,7 milhes de estudantes brasileiros avaliados pela Organizao para a Cooperao e o Desenvolvimento Econmico, com sede em Paris, 1,9 milho (ou 70%) apresentaram diculdade em matemtica bsica, 1,4 milho (mais da metade) em leitura e 1,5 milho em cincias. O cruzamento dos nmeros levou constatao de que 1.165.231 estudantes brasileiros (ou 40%) tiveram diculdade em cumprir tarefas bsicas nas trs reas de conhecimento. Antes que se proclame o apocalipse, a OCDE atenua esse resultado desesperador. Entre 2003 e 2012, o Brasil reduziu em 18% a quantidade de estudantes com problemas em matemtica bsica. Est ao lado de outros oito pases que realizaram essa melhoria. A atenuao se torna relativa ao se vericar que se essa conquista foi alcanada por Tunsia, Turquia e Mxico, tambm foi obtida por Alemanha, Itlia, Polnia, Portugal e Rssia. Quer dizer que em matria de clculo no diminumos a distncia que nos afasta desses pases. Outro sopro de esperana no meio dessas estatsticas ruins, segundo a OCDE, que parte desses resultados se deve maior incluso de estudantes no sistema educacional durante os ltimos 15 anos. Nos 10 anos entre 2003 e 2014, o ndice de escolarizao no pas passou de 65% para 78% (vitria a ser mais bem analisada quando comparada aos ndices de evaso escolar a par tir da). Como a incluso se realiza pela base da pirmide social, em classes mais desfavorecidas, seus primeiros anos de educao so mais problemticos, por frequentarem escolas com menos recursos, como ocorre em regies rurais. O fenmeno, no entanto, acontece tanto no incio do primeiro grau quanto durante a graduao universitria. Em alguns cursos, como medicina e engenharia, cresce o nmero dos alunos aprovados pelo regime de cotas, que desistem por no conseguirem acompanhar os companheiros no cotistas. Signica que programas de incluso social, como o bolsa famlia, colocam o aluno na escola, mas no os habilitam a seguir em frente em condies de competir com os outros, especialmente os que frequentam as escolas particulares. A razo pode ser encontrada nas recomendaes que a OCDE fez, com base na pesquisa, para que essas polticas sociais se tornem ecazes: que os governos nacionais identiquem com mais baixa performance e lhes ofeream estratgias para recuperao de nvel. A implementao dessa orientao deve reduzir a desigualdade no acesso educao, estimular a inscrio escolar o mais cedo possvel, envolver os pais na comunidade escolar e fornecer programas de auxlio nanceiro s instituies de ensino e s famlias carentes. O Brasil est fazendo isso? No com polticas que se pretendem populares base de um populismo que negligencia a qualidade e o mrito. A realidade da Amaznia pode ser to bizarra, surrealista e paradoxal que sua traduo literria costuma ser feita atravs da pardia, do roman clf ou do folhetim. O picaresco combinado com a reconstituio de fatos, personagens caricatamente ctcios por detrs de mscaras de seres reais. A confraria cabana (210 pginas, edio do autor), do jornalista e escritor paraense Ray Cunha, se enquadra nessa categoria. O enredo: uma confraria contrata um detetive para impedir o assassinato de um senador Fonteles (Paulo Fonteles), candidato ao governo do Par. medida que essa investigao, conduzida por Apolo Brito (Apolonildo Sena Brito), as entranhas da Amaznia so reveladas. Os nomes reais so embaralhados, a ordem do tempo subvertida e a trama sai do enredo romanesco para se tornar uma colagem de material da imprensa. O leitor pode se divertir (sem se esclarecer muito) tentando identificar a inspirao (por vezes bvia) para Alexandre Cunha Silva e Silva, Organizaes Rio-Mar, Jarbas Barata, o Poste, Gilberto Soares Fonteles, o mar queteiro O Bezerro. H nomes verdadeiros fora das suas biografias, como Batista Campos, Benedicto Monteiro, P.P. Condur, Luiz Braga. um autntico pout-pourri. Uma lambada na fico estrito senso.

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12 RDIOA Rdio Clube do Par, a pioneira do Par, estava em plena ascenso, em 1956, quando inaugurou seus novos transmissores. Com potncia de 10 kilowatts, ele permitiria emissora lder no Estado falar para toda a Amaznia e para o Brasil. Um grande show no auditrio da sua sede, na Aldeia do Rdio, no Jurunas, comemorou a faanha, que dava continuidade aos planos dos fundadores: Roberto Camelier, Edgar Proena e Eriber to Pio. Os ingressos foram vendidos no edifcio Bern (hoje abandonado), ao lado do majestoso e soberto Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas, obra da PRC-5.REDUTOJoaquim Moura, candidato a vereador de Belm na eleio de 1962, dirigiu pela imprensa um apelo aos amigos do bairro do Reduto para que votassem com sua conscincia, escolhendo os melhores. Ele prprio, que se ombreava a Alexandre e Rafael Ferreira Gomes, Mar tins e Jorge Corra, Francisco Chami, Santos Moreira, irmos Abelm, Nicolau Conte, Joo Carvalho e tantos outros, que, com raras excees, se hoje passassem pelo bairro do Reduto, perguntar-nos-iam: onde esto as nossas indstrias e nosso comrcio? Que feito do patrimnio material e moral que vos legamos? E a triste realidade dos fatos seria esclarecida com a clssica resposta: os poderes pblicos no nos ajudam. O Governo nunca sancionou uma lei que viesse beneciar nossos problemas (ele diria melhor se escrevesse resolver). Velho problema, pois. memriaC OTIDIAN Odo PROPAGANDAO Meira do povoAugusto era engenheiro e historiador, mas o menos Meira dos Meiras. Popular e de fcil relacionamento, conquistou por merecimento o ttulo de namorado de Belm, cidade que amou por escrito e oralmente, imaginando-a e a percorrendo. Aos 16 anos eu tinha uns poucos dias como jornalista quando ele fez uma das suas rotineiras visitas redao de A Provncia do Par. Percebeu-me, me chamou, conversamos e ele declarou no ato: eu passava a ser seu alhado. E fui, procurando justicar a outorga honrosa. Este anncio de 1966, quando ele se lanou candidato a vereador pela Arena, um incio humilde de carreira poltica que no foi alm. Anos antes o cl, liderado por Otvio e Slvio Meira, defendeu que o irmo fosse indicado prefeito de Belm. Magalhes Barata no aceitou. Temia ampliar o poder dos Meiras na poltica e no poder. A famlia rompeu com o caudilho. Deixando de lado sua obsesso pelo poder, Barata teria acertado se aceitasse a indicao. Recentemente, os Meiras relanaram um dos livros de Augusto, Evoluo histrica de Belm do GroPar, em edio muito bem cuidada. Mas com um defeito: cara demais para se ter o acesso devido sua importncia. Algum devia ter contribudo para reduzir esse preo, dando obra a marca do seu autor: procurando a proximidade do povo.

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13 AAUm leitor da Folha Ves prtina comunicou ao jornal, em 1962, ter visto vender na praia, como o Ver-o-Peso ainda era tratado, uma lata de gros de aa por 600 cruzeiros. Pedia que fosse aplicado um freio ganncia do vendedor, ou seja, o que traz o aa ou o intermedirio. A falta do produto na cidade obra dessa especulao, que nos parece ter como o responsvel o caboclo, porque no encontra no marreteiro o valor cobiado. A antiga questo se ampliou e cou mais complexa.VELOCIDADEEm 1962 a avenida Nazar foi asfaltada, Novidade na cidade, o efeito foi imediato: excesso de velocidade dos condutores de todos os veculos que utilizavam essa via, principalmente os motoristas de nibus. E em consequncia, aconteceu o primeiro acidente grave. O delegado de trnsito, Her mnio Calvinho, decidiu limitar a velocidade a 40 quilmetros por hora.BANDIDOLadro, maconheiro, assaltante e agressor eram os ttulos atribudos a Jos Maria da Silva, mais conhecido por Zequinha da Estrada Nova, que aterrorizou por muito tempo o bairro, margem do rio Guam. No incio de 1964 ele foi preso por agresso, roubo e trco de maconha. Ao invs de ser enviado para o presdio So Jos, cou na Central de Polcia. Quem o prendeu no atendeu a intimao da justia para apresent-lo para ser ouvido. Com isso, sua priso se tornou arbitrria e o juiz Slvio Hall de Moura teve que aceitar o habeas corpus impetrado para liberar o temido Zequinha. O enredo talvez explique como ele estabeleceu o seu reinado sobre a Estrada Nova, onde todos o temiam.NAVEGAOBelm ainda era, em 1965 (meio sculo atrs), o maior porto da navegao uvial da Amrica do Sul, como dissera Euclides da Cunha no incio do sculo XX, e um dos principais pontos do comrcio de cabotagem do pas. Seis grandes empresas internacionais (booth, Lamport e Delta Line), nacional (a Costeira) e regionais (SNAPP, depois Enasa, e Cinaba) possuam escritrios na cidade para operar muitos navios alm de inmeras empresas particulares. Da britnica Booth Line, por exemplo, atracavam no porto de Belm, fazendo linhas para as Amricas e a Europa, alm de outras cidades do litoral brasileiro, os navios Clement, Crispin, Veras, Venimos, Boniface, Dunstan, Viajero, Valiente, Denis, Bruno e Bertrand. Da Costeira: Rio Mossor, Rio Maracan, Ana Neri, Torres, Rio Piabanha, Rio Paraguau. Hoje, resta a memria.JARIDois anos depois do incio da implantao do projeto, dois acidentes fatais foram registrados no mesmo dia no Jari, do milionrio americano Daniel Ludwig. Um trabalhador de 18 anos foi esmagado por uma rvore que tombou quando ele estava derrubando outra rvore prxima. Um operador de moto-scraper, que transportava seixos para a construo do aeroporto de Monte Dourado, a sede do empreendimento, caiu da mquina desgovernada, que passou sobre o seu cor po. Os dois tiveram morte imediata. Foram vrias as baixas durante o desmatamento de 100 mil hectares para o plantio de uma r vore asitica, em substituio das nativas, para a produo de celulose.FOTOGRAFIACensora em aoUma cena rara e inusitada de 1967: o ator Roberto Duval encena a pea As mos de Eurdice para uma nica pessoa, no Teatro da Paz, a censora Selma Chaves. Embora o patrocnio do espetculo fosse da Universidade Federal do Par e a pea j integrasse a dramaturgia brasileira, era preciso submeter previamente o espetculo censora federal. Ela aprovou a exibio, mas efetuou alguns cortes, o que a tornou coautora putativa da obra de Pedro Bloch. Marca dos tempos de represso e intolerncia cultura.

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14 COLNIA Desde que entendi que Amaznia colnia (que aprendi inicialmente com seus artigos e depois em observaes pessoais), achei que a independncia seria a melhor forma de fugir do status de colnia. O ensaio Um estado parasitrio levanta opes, mas no somente esbarram em nossos polticos colonializados (e felizes com este status), como tambm nas implicaes dos ndices de desenvolvimento humano lastimveis dos municpios da Amaznia, muitas vezes enfatizados por voc. Dentro do IDH, o fator mais importante para pensar sobre independncia a educao. Como Marcio Souza enfatiza regular mente aqui em Manaus, no basta ter escolas (contadas no IDH); precisa ter escolas que ensinem a pensar. Entre minhas atividades no INPA, participo de programas de ps-graduao e oriento mestrandos e doutorandos. Os cursos de ps-graduao aqui em Manaus tm cada vez mais diculdade de identicar amaznidas que sabem pensar, ler e interpretar um texto cientco, e escrever um texto com ideias claras. Estes amaznidas so os melhores que saem das univer sidades locais, tanto pblicos como privados. Meus colegas das universidades lamentam a qualidade dos graduandos e d impresso que passam a maioria por misericrdia. Certamente os nveis anteriores s universidades so mais tristes ainda. Seguindo Marcio Souza, esta situao resultado de polticas da poca militar, que no mudaram aps a redemocratizao, nem com um presidente socilogo, nem com um presidente operrio e nem com uma presidente tecnocrata. Da no surpreender que os coronis dos barrancos continuam a mandar na poltica da Amaznia. Segue, infelizmente, que ideias sobre a independncia da Amaznia continuaro a circular entre uma pequena parcela das pessoas que sabem pensar criticamente sobre a situao atual, incluindo leitores do JP. Uma lstima. Charles Clement DITADURA Lcio, desculpa eu insistir nessas pequenas correes de algumas coisas que saem erradas no JP. No nmero 601, Como na Ditadura!, no artigo, Nos Garimpos de Papel, ao falares dos dominicanos que marcaram um encontro que lavaram emboscada que matou... No foi Carlos Lamarca, como colocaste, e sim Carlos Mariguela [Elson quis dizer Marighela]. Lamarca morreu dois anos depois no ser to da Bahia. Mariguela morreu na Alameda Casa Branca em So Paulo (capital), ao dirigir-se a um encontro com os dominicanos. Crasso, porm, foi o erro do nosso amigo Benedito Carvalho. No artigo Cocana: agente destruidor que se espalha pelo Par, ele arma que Pablo Escobar foi morto no dia 03 de setembro de 2012, aos 69 anos. Escobar mor reu em 1993, aos 44 anos, quando tentava fugir pelo telhado de uma casa, em Medellin. Alm da lembrana do noticirio da poca, o livro recentemente lanado pelo lho de Escobar, tambm fala sobre isso. De resto, parabns pelo artigo Como na Ditadura. Concordo integralmente e lamento que advogados como Tcio Lins e Silva, manchem sua biograa assinando esse tipo de manifesto. Excelente tambm os textos de Elias Tavares sobre Os Patrulheiros Toddy. Que memria! E sobre Terezinha Morango. Abraos, do sempre seu el leitor, Elson Monteiro MINHA RESPOSTA Espero que todos os meus leitores tenham logo percebido o meu erro, assim como o Elson (o Motorzinho das nossas peladas de basquete adolescente, nos anos 1960, no presdio de So Jos, graas ao coronel Anastcio das Neves, pai dos atletas Cludio e Ricardo, e ao tenente Silva, pai de um amigo de ento cujo nome agora como j comum neste estgio avanado da vida esqueci). Erro que se deve sobrecarga de trabalho, encargos e preocupaes de uma vida outsider. No podia deixar de saber que era o Marighela e no o Lamarca por dois motivos. Um, que ainda pude ver o cadver do lder da ALN mal acomodado dentro do fusca. Outro, que quando Lamarca, lder de uma ala da VPR, fugiu do quartel de Quitana com 63 fuzis (antes do tempo porque a represso tinha localizado o caminho que estava sendo pintado com as cores do exrcito para receber os 400 fuzis Fal pretendidos), houve cerco do exrcito rea onde jogvamos pelada de futebol, no litoral santista. Raimundo Pereira foi tomar explicaes sem saber do perigo que corria ao ironizar o militar que o atendeu. Era uma operao de caa a Lamarca e seu grupo de militares desertores. Nem por isso, entretanto, os erros devem ser esquecidos. Minha obrigao fazer um jornal sem erros, por menores que sejam. Apont-los tambm um dever do leitor. A repetio dessas falhas me impe superar minhas fraquezas e limitaes para restabelecer um padro de qualidade que se impe ainda mais a um jornal de crtica, como este. Vou tentar de novo a partir deste nmero. Ser sempre com gratido que reagirei ao ser alertado sobre esses erros. Por isso, obrigado, Elson. Per do, leitores. FEDERAO A respeito da matria publicada no Jornal Pessoal n. 600, com o ttulo Por que no sem ela, e subttulo Um Estado Parasitrio, em primeiro lugar, na matemtica, soma e produto so operaes distintas, embora em determinados problemas possam compor uma mesma expresso (princpios bsicos das quatro operaes). Quem falou que o Estado brasileiro uma Unio Sem Futuro? O patriota, alm de acreditar no futuro de seu pas, tem o dever intrnseco de contribuir com o seu esforo intelectual para que isso se concretize. Essa no uma simples forma vernacular, ela exprime um sentimento de ldima cidadania. Salvo engano, a secesso no um direito que possa ser previsto numa Carta Constitucional, pois geraria uma estranha contradio. J a autodeterminao dos povos, enfatizado em conjunto no texto acima nomeado, um direito inerente ao Estado Nao, e no iniciativa independente de Estados formados num regime de Republica Federativa, como o caso do Brasil. A Lei Maior que uniformiza direito e deveres dos Estados Membros pune com sanes legais os componentes porventura infratores. Em suma, todos os pases considerados civilizados tm uma forma de se constiturem politicamente, o Brasil adotou o Federalismo, que congrega vrios Estados numa s Nao. Os Estados so autnomos, desde que preservados os interesses comuns do pas. Em termos tericos as coisas se processam desta forma, mas todos sabem como se diz popularmente na prtica a teoria outra. Pela leitura do texto mencionado ca evidente que os movimentos que encabeam essa proclamao desejam separar as suas plagas do Estado Brasileiro, ou seja, pretendem se emancipar e tornarem-se naes independentes, o que invivel pelos termos da CF atual, como sabido. S lhes resta o caminho da sublevao, da luta armada e desavenas em geral. Ressalte-se que no rol dos insatisfeitos (declarados) predominam Estados do Sul/Sudeste, os quais tm largas experincias nesta rea especica, conforme registra a histria ptria. Porm, o que essas corporaes reivindicam? Quais as suas alegaes? De certo modo, e s para citar um item importante, 80% dos investimentos produtivos do pas so, foram ou esto alocados nesses Estados; suas economias so pujantes, e por isso mesmo despontam na vanguarda brasileira nos setores primrio, secundrio e tercirio. Sendo assim, s se pode atinar que os motivos que justicam essa prdica contestatria sejam de carter unicamente subjacente. Hoje frequente ver (ainda) conterrneos exibirem gostos exagerados por lugares e objetos estrangeiros, consignados nos dicionrios com os nomes esquisitos de xenolia e xenomania. H um razovel nmero que venceu esses incontidos desejos, pois j reside nas naes prediletas, s que com os rendimentos nanceiros gerados no territrio brasileiro. Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP 66.053-030 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. PintoCartas

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15 Quanto aos parasitas que se locupletam nas Assembleias Municipais, Estaduais e no Congresso Nacional, a gente concorda plenamente que sejam convocados para reduzir os seus ganhos exorbitantes, suas vantagens escandalosas e penduricalhos ans, que no esto vista. Por que, por exemplo, 83 senadores e 513 deputados? Revisem-se, tambm, os proventos e vantagens sem m, nas cmaras mirins e estaduais. Uma verdadeira refor ma poltica, com nova Lei Eleitoral para coibir a proliferao de partidos de alugueis, bem como mais rigor na admisso e formao de seus quadros, e lisura na indicao de candidatos a cargos eletivos. Voto facultativo, delidade partidria e impedimento de concorrer a cargo eletivo de elementos que tenham sofrido sanes penais ou com processo em curso. preciso lembrar, desde logo, que a conquista desses parmetros salutares sociedade brasileira, exigem muita luta, desprendimento, pacincia e deliberao de inuir decisivamente na formao do cidado nacional. A nossa democracia relativamente nova e merece este esforo de cada um de ns. O tpico sobre as reclamaes da regio Amaznia ser objeto de uma prxima interveno. Como a esperana e a ltima que morre, segue a frase de um atual ministro do STF, acerca de clusulas ptreas da CF Nenhuma proteo constitucional pode valer de forma absoluta, sob pena de anular todas as demais. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Minha crtica tem dois pontos. Para mim, a constituio devia ter sido feita por uma assembleia nacional constituinte, eleita para esse m especco, no pelo Congresso Nacional, travestido dessa funo. Para dar coerncia a esse procedimento, no devia haver limitaes prvias, com clusulas ptreas, exceto o respeito soberania nacional. Desde a proclamao da repblica, atravs de um golpe militar, o Brasil s adotou a federao como forma de organizao poltica da nao. Por que no deixar a questo em aberto para novas ideias? DESMATAMENTO Sendo a primeira vez que lhe escrevo, gostaria de iniciar falando da grande admirao que tenho pelo seu trabalho. Seus textos, alm de geniais e de muita coerncia e embasamento, se propem a discutir temas de grande relevncia no s para o Estado do Par, mas tambm para a regio amaznica. Voc aborda de forma visceral (e o mais impor tante, imparcial) temas que por mais importantes que sejam, so menosprezados e at mesmo omitidos por esta mdia comprada que restou ao nosso pas (ou melhor, ao mundo). Mas o motivo do meu contato o seu texto [postado no blog] Destino: China. O que parece uma boa notcia (e sob a perspectiva econmica de fato ), tem por detrs algo cada vez mais temeroso para a regio amaznica, que o avano da fronteira agrcola. Quando estamos falando de exportar gado em p (ou at mesmo abatido) estamos na verdade exportando bilhes de litros de gua e toneladas de nutrientes do nosso solo em forma de protena animal. Alm dessa perda direta, no podemos negligenciar que tudo isso s custas do avano do desmatamento e consequentemente perda da biodiversidade local. Enm, essa histria gado verde muito bonita,mas no passa de um grande engodo. Vejo a abertura das portas da China para a entrada de mais 17 frigorcos Brasileiros como um convite direto para o aumento do avano da fronteira agrcola na Amaznia. No bastassem os impactos que j citei, importante lembrar que esta cadeia traz ainda condies de trabalho anlogos escravido, pouco valor agregado em sua cadeia de produo, baixssimos salrios e nveis preocupantes de acidentes de trabalho e impactos ambientais (o Rio Itacaiunas na altura de Marab que o diga). Enm, gostaria de entender a razo de voc explorar to pouco este tema to importante. Gostaria de ver mais textos desta natureza em seu blog com o mesmo anco que o senhor escreve sobre as mazelas da cadeia mineral no Estado. A meu ver, o impacto da pecuria to grande ou igual ao da cadeia mineral. Por favor, no entenda isso como uma mera crtica, mas sim como um estmulo para que o senhor abra o debate e alerte a populao deste estado que, alm da cadeia mineral, vrias outras atividades econmicas precisam ser revistas. Enquanto s se fala na Lei Kandir, as boiadas vo passando... Com os sinceros cumprimentos de um admirador. Bernard Torres MINHA RESPOSTA Muito obrigado pelas suas observaes. Realmente no tenho dado o acompanhamento devido importncia da questo. Mas se voc zer uma retrospectiva no blog e no Jornal Pessoal encontrar vrios artigos a respeito, coincidentes com a sua anlise e preocupao. Meu problema a amplitude da pauta paraense e amaznica. Bem que mais gente podia se manifestar. E voc, escrever mais. Obrigado pelo estmulo. PS O texto a que o leitor se referiu, publicado no blog no dia 4, este:Hoje, a China autorizou mais 17 frigorcos brasileiros a exportar carne para o pas asitico. Na nova lista, cinco produzem carne bovina, oito de aves e quatro de suna. Todos so da regio centro-sul brasileira. Nenhum do Par, que vai continuar a exportar boi em p. A nova autorizao chinesa poder gerar receita de 340 milhes de dlares para os 17 novos frigorcos da relao, cada um faturando, em mdia, US$ 20 milhes por ano. No ano passado, o Brasil exportou para a China US$ 1,1 bilho em carnes, sendo US$ 608 milhes em carne de frango, US$ 477 milhes em carne bovina e US$ 10 milhes em carne suna. Com a nova habilitao, o Brasil passa a ter 65 frigorcos autorizados a exportar carne para a China. Desses, 38 so de aves, 16 de bovinos e 11 de sunos. BASQUETE Na nota Basquete (Memria do Cotidiano do JP 601), tu te referes ao Castrinho, campeo brasileiro de lance livre de bola ao cesto, que incentivava a prtica do basquete como atleta do Jlio Csar, cuja quadra caria na Quintino Bocaiva, onde hoje est a FIEPA. Na realidade, a quadra da Quintino era do Sesi-Par, de onde era funcionrio, como professor de esportes, o saudoso Raimundo Campos Castro, o Castrinho. Na Quintino, o Sesi-Par mantinha atividades de assistncia social, mdica, odontolgica e judicial, e cursos de suprimento, tipo arte culinria, corte e costura, pintura em tecidos, etc. A rea de Lazer promovia cursos e competies de esporte de quadra (futebol de salo, vlei e basquete). Nas noites de 6 feira havia a projeo de lmes ao ar livre, na mesma quadra a descoberto. Essas atividades eram direcionadas aos trabalhadores das indstrias belenenses, em grande parte instaladas no Reduto, quela poca. Na segunda metade dos anos sessenta, j com os incentivos da Sudam, as indstrias da capital migraram para o bairro do Souza, em especial ao longo do BR-316, e para o Distrito de Icoaraci (principalmente ao longo da Artur Bernardes e da Estrada da Pratinha. Por essa razo, o SESI-Par gradualmente desativou as atividades-m na Quintino, l deixando apenas a administrao. As aes nalsticas foram transferidas para outras instalaes, em Icoaraci, em Ananindeua e no Centro de Atividades Gabriel Hermes, no Marco. E foi para o CAT Gabriel Hermes que Castrinho levou sua competncia prossional e seu amor ao esporte. No incio dos anos setenta ele seria promovido a Coordenador de Lazer, funo que desempenhou at se aposentar, depois de vrias dcadas de excelentes servios prestados instituio e ao desenvolvimento do esporte amador no Par. Grande prossional e excelente colega de trabalho. Elias Tavares MINHA RESPOSTA Desta vez tenho que contes tar a correo do grande contri buinte deste jornal. A quadra era do Sesi, mas era ali que o seu Castro, como o chamvamos, treinava o time do Jlio Cezar, que tive a honra de integrar. Como? Um adolescente de 1,67 jogando bola ao cesto? Eu, o Haroldo Maus e o Vlamir, meus pequenos grandes dolos no bas quete local e nacional, alm do Diz, nosso mestre no Colgio do Carmo, de onde o Guilherme me levou para o Jlio Cezar. Sa do zero no confronto com o Elias Granhem Tavares, cuja memria no deixa de ser louvada neste jornal (alm da verve, claro).

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A corrupo dos PMs na grilagem do XinguO 2 promotor militar Armando Brasil Teixeira denunciou, no dia 3, sete policiais do 16 Batalho de Polcia Militar pelo crime de corrupo passiva por envolvimento em operaes no autorizadas na Terra do Meio, em Altamira, entre maro de 2004 e maro de 2005. Nesse perodo de um ano receberam dinheiro da empresa C. R. Almeida, num total de 150 mil reais, para impedir o acesso das pessoas a uma rea s margens do rio Xingu, prximo embocadura do rio Pardo, do qual a empreiteira (uma das maiores do pas) se declarara proprietria atravs de fraude, corrupo e violncia. Essa rea equivalia ao dobro do tamanho da Blgica. Se formasse um Estado, seria o 21 maior do Brasil. Os denunciados so o tenente-coronel Waldemilson Godinho de Moraes Filho, que segundo a denncia, recebeu 57 mil reais em depsitos em dinheiro em sua conta de uma fonte desconhecida; o tenente Helde Alain Correa da Silva, beneciado, pelo mesmo mtodo, com R$ 9.490,00; o capito Mrcio Verssimo Valino Gomes, apontado como recebedor, em suas contas pessoais, de R$ 7.985,00 de uma fonte tambm no identicada; o capito Pedro Paulo de Oliveira Silva, que recebeu R$ 64,8 mil no perodo investigado; o tenente Alessandro Silva Celestino, que recebeu R$ 1.760,00, e o tenente Juniel Costa Maciel um total de R$ 8.040,00. O ltimo denunciado o tenente Ricardo Arimatia de Melo Santos que, segundo o Ministrio Pblico Militar do Estado, recebeu R$ 500. Os acusados Juniel Maciel, Pedro Paulo Silva e Alessandro Celestino armaram em seus depoimentos acreditar que estavam cumprindo ordem judicial. Waldimilson Filho disse que foi orientado pela juza de Altamira, Danielle de Cssia Silveira Buhrnhein, que a rea estava sub judice e que as operaes policiais deveriam ser realizadas com prudncia. Mas, na Vara Agrria de Altamira, no h nenhuma deciso judicial concessiva de liminar que comprove a interdio ou reintegrao de posse proferida pelo juzo agrrio tendo por objeto qualquer rea localizada na conuncia dos rios Pardo e Xingu, retrucou o promotor Armando Brasil. Segundo ele, no houve qualquer ordem ou orientao escrita ou verbal por parte do juzo agrrio, no sentido de que fossem efetuadas buscas ou retiradas de trabalhadores das fazendas localizadas s margens dos rios da regio Xingu, Iriri ou Pardo. O juzo agrrio igualmente no deu qualquer ordem ou orientao escrita ou verbal, no sentido de que fossem realizadas apreenses de materiais e objetos de pessoas que trafegavam pelos rios Pardo ou Xingu. Diante dos fatos o Ministrio Pblico requereu justia o recebimento da denncia, com a citao dos acusados para se defender do crime de corrupo passiva, sob pena de revelia, e o sequestro dos bens dos denunciados, por terem decorrido de fontes ilcitas. A gravidade do delito restou evidenciada, principalmente porque os denunciados aproveitaram-se da condio social da populao ribeirinha e no titubearam em auferir vantagem indevida custa da infelicidade dos seus semelhantes que tiveram suas casas destrudas e foram impedidos de entrar em suas terras, conclui Brasil, citado por Carlos Mendes. Acrescento que fui condenado a indenizar Ceclio Rego de Almeida, dono da C. R. Almeida, por t-lo acusado de ter grilado de cinco a sete milhes de hectares de terras, rica em mogno, minrios e solos frteis, que declarava como sendo de sua propriedade, no vale do Xingu. Apesar de todas as provas que apresentei, e que serviram de base para a ao do Ministrio Pblico Federal de cancelamento do registro em nome do empresrio, realizado fraudulentamente no cartrio de Altamira, a condenao foi mantida em todas as instncias da justia estadual. Resta agora acompanhar a tramitao da ao do promotor Ar mando Brasil para vericar se a justia do Par vai se manter em contradio. Se reconhecer que os PMs cometeram crime ao dar cobertura grilagem, a maior da histria da apropriao por par ticulares de terra pblica (da histria mundial e no s do Brasil), car na vexatria posio de ter condenado quem denunciou esse vergonhoso assalto ao patrimnio pblico. A histria registrar com ndoa os nomes dos magistrados que cometeram esse atentado verdade e ao interesse do povo do Par.