Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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NO TAPAJS, NO VIOLNCIA DIRIA o aA Operao Lava-Jato se transfor mou numa Justia parte. Uma especiosa justia que se orienta pela tnica de que os ns justicam os meios, o que representa um retrocesso histrico de vrios sculos, com a supresso de garantias e direitos duramente consultados, sem os quais o que sobra um simulacro de processo, enm, uma tentativa de justiamento que no se via nem mesmo na poca da ditadura. Este o trecho mais duro de um dos mais contundentes documentos produzidos por advogados no Brasil nos ltimos tempos, com 105 assinaturas de alguns dos mais famosos e poderosos causdicos do pas, fartamente divulgado no dia 15. Quem l esse trecho deduz de imediato que a centena de operadores do direito, em defesa da causa pblica, denuncia odiosa perseguio poltica movida contra pessoas punidas por expressar suas ideias divergentes, vtimas de um grupo de agentes estatais inquisitoriais e nefandos. A comparao da Operao Lava-Jato, uma extensa investigao administrativa que resultou LAVA-JATOComo na ditadura?Talvez este tenha sido o mais contundente documento produzido por advogados (105 o assinaram) desde a volta do Brasil democracia, em 1985. D para concordar com eles que a Operao Lava-Jato agride mais os princpios da justia do que a ditadura militar?

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2 em diversos processos judiciais, instaurados por um juiz federal do Paran a pedido de representantes do Ministrio Pblico Federal, que trabalharam em conjunto com policiais federais, aos processos polticos da ditadura soa estranho e falso quando se verica que um dos signatrios do extenso documento ningum menos do que Tcio Lins e Silva. Ele se notabilizou durante o regime militar por defender presos polticos. Esses cidados, acusados de subverso, eram presos sem mandado judicial, a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Costumavam sumir nas mos dos seus algozes. Era at difcil localiz-los, mesmo quando eles se apresentavam espontaneamente autoridade coatora, como fez o jornalista Vladimir Herzog. Pouco depois de ser preso, foi torturado e assassinado na cadeia. A simulao de suicdio, de to tosca, s convenceu quem quis escrever a verso ocial revelia dos fatos. As garantias e os direitos individuais, como o habeas corpus, estavam suspensos. O pas vivia sob as regras do estado de stio, o que s se descobriu quando o jornal O Estado de S. Paulo questionou a censura perante a justia e lhe foi esfregado o captulo do estado de stio como fundamento legal para a presena dos iracundos censores na redao. Mesmo eles jamais acharam que o ento paladino paulista fosse de esquerda. Como que um advogado com o currculo de Tcio, o mais esmaltado por causas polticas na reluzente relao de assinantes do manifesto, per mitiu-se o absurdo da comparao? Todos os adjetivos esgrimidos pela pliade de causdicos e sua justa indignao, que deram ao texto uma marca de ineditismo em tempos de democracia, foram usados no no patrocnio de presos polticos ou de vtimas de arbtrio. Defendem integrantes de um j provado e comprovado cartel de empresas privadas, formado para roubar a maior empresa do pas, a Petrobras. Contratos foram onerosamente faturados para permitir o desvio de volumosa quantidade de dinheiro, usado para corromper polticos e empregados da estatal do petrleo, que davam cobertura s transaes efetuadas. As milhares de pginas produzidas pela Lava-Jato, que incluem consses dos autores das falcatruas, comprovam os crimes nanceiros e os delitos penais. No por acaso, mais de 90% das decises do juiz Srgio Moro foram conr madas nas instncias superiores. Os advogados dos presos, indiciados, acusados e mesmo dos que so apenas testemunhas, como a presidente Dilma Rousseff, ou ainda se acham em vias de passar condio de indiciados, como o ex-presidente Lula, puderam recorrer livremente dos atos que atingiram os seus clientes. So advogados caros e (embora nem sempre) competentes, a fina flor daqueles que melhor manejam o contedo e os segredos das leis, entre uma e outra vrgula, que acolhe os seus saberes (mesmo porque alguns, alm de fontes de doutrina, so criadores de leis). No manifesto, eles apontam uma srie de medidas do juiz federal de Curitiba que cercearam o efetivo exerccio da defesa e violentaram o devido processo legal, causando uma ameaa ao sempre lembrado (e pouco praticado) estado democrtico de direito maior do que a nefanda ditadura militar (que, insatisfeita com sua prpria cria, a constituio de 1967, recorreu maior das aber raes constitucionais da histria do Brasil e talvez do mundo: a emenda constitucional n 1, de 1969; quem quiser fazer prova, que a leia). Os 105 advogados decidiram levantar essa honrosa bandeira depois de perder de goleada nos recursos, inclusive junto ao Supremo Tribunal Federal, onde, antes, eles posavam de campees de todas as causas. No s eles, claro, assinaram o manifesto. Outros tantos aderiram voluntariamente. Mas seria o caso de as duas partes no se juntarem porque, inevitavelmente, uma contaminaria de ilegitimidade a outra. Teria sido muito mais justo que, ao invs dos prestigiosos escritrios de advocacia, que sempre encimam um & s suas designaes societrias, os arregimentados fossem dirigentes de OABs ou de ONGS que defendem os direitos humanos. No que o tal manifesto seja de todo suspeito, viciado ou desprezvel. Vrias das restries, crticas e denncias que faz tm procedncia. Os apontados, que so o juiz, os membros do MPF e os delegados da Polcia Federal, deviam tirar do texto os corretivos que so necessrios. A maioria dos questionamentos de natureza formal e processual. No por isso que deixam de ter signicado. A instruo processual viciada leva sentena com igual mcula. No entanto, at agora nenhuma nulidade arguida contra o juiz solitrio de Curitiba foi reconhecida pelos colegiados que julgaram os recursos. Os tribunais superiores esto metidos na conspirao comandada pelo juiz Moro? Se esto, por que no foram vergastados pelos arautos da verdade? O silncio deles responde s dvidas. A leitura atenta e interessada do longo manifesto (cuja publicao na grande imprensa nacional deve ter sido cara) leva a uma indagao que merece ser feita, independentemente da sua origem: os donos e dirigentes das maiores empreiteiras do Brasil teriam sido levados s barras da justia e alguns deles j condenados se todas as formalidades legais tivessem sido cumpridas estritamente? A resposta no. Essa admisso de desvio, contudo, deve ser complementada pela obser vao de que se um promotor extrapolou, se um delegado falou demais, se o juiz se manifestou exageradamente fora dos autos, se houve tratativa de bastidores que levaram a delaes premiadas e mais alguns itens dessa marginlia, tudo isso em nada alterou o que agora se sabe: que um grupo de personalidades de colarinho branco assaltou uma empresa pblica, a maior do pas e das maiores do mundo, valendo-se da corrupo. O que ainda falta saber o montante desse roubo, o nmero (e a identidade) de todos os que o praticaram e a extenso dos que se favoreceram desse ardil. A Petrobras, num procedimento que inovou em matria de balano, admitiu, nas suas contas relativas ao exer ccio de 2014, que o rombo foi de seis bilhes de reais. Hoje, essa estimativa pelo menos 10 vezes maior. Trata-se do maior assalto aos cofres de uma nica empresa de propriedade do povo brasileiro, o que no se reduz

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3 a uma proclamao vazia: milhares de cidados so acionistas da companhia. O dano causado pelo escndalo que se criou em torno da Operao Lava-Jato ainda maior e vai gerar efeitos mesmo quando toda essa histria estiver encer rada. Se a expresso j no est denitivamente amaldioada pelo seu uso, valia a pena recorrer a ela: um caso de segurana nacional, um atentado soberania nacional. Todos os presos, indiciados ou acusados devem ser respeitados e, quando levados justia, seus direitos precisam ser garantidos. condio do regime democrtico e por isso ele constitui um valor universal. Mas preciso no esquecer que eles se combinaram para roubar o patrimnio pblico. Se antes, como empresrios bem sucedidos e personalidades destacadas da sociedade, eles se beneciavam dos favores da lei, agora devem ser submetidos aos seus rigores. Nada de arbtrio e violncia, mas todo o rigor que a lei possibilita. o que est sendo feito. E o que o conclio de causdicos no quer que continue a ser feito. Os brasileiros no acreditavam que empresrios e polticos, os mais iguais da sociedade, seriam um dia presos e condenados por seus delitos. A cadeia foi concebida para os pobres, humildes, ofendidos, destitudos de padrinhos e pistoles. Felizmente, isso est acontecendo, a despeito da competncia e da linguagem dos advogados desses rus, regiamente remunerados para isso. Talvez d para acreditar que o Brasil, embora pagando preo excessivamente alto, est mudando talvez para melhor.A rotina em MaritubaFoi um dia dramtico e intenso, mas no atpico, o que tiveram, no dia 26, os vizinhos do cemitrio Max Domini, em Marituba, na Grande Belm. So moradores de um bairro que levou o nome do ento governador Almir Gabriel, adotado no ps-morte, como a lei exige, mas com o homenageado ainda em vida. Pra que se preocupar com a lei? Ela no passa de potoca, sacramentou o poltico mais inuente da Repblica no Par, o general Magalhes Barata. No m da tarde, a reunio de urubus no cu, voando em crculos, ser viu de alerta: teriam localizado alguma coisa morta e podre? Reao dramtica dos observadores: podia ser o corpo de Arthur Moraes Souza, que completava quatro dias de desaparecido. Parentes e amigos formaram uma expedio para chegar ao local que atrada os urubus, no meio da mata, de difcil acesso. O cadver j estava bastante decomposto. Tinha quatro mar cas de perfurao, trs no peito e uma na costa. Podiam ter sido de faca. Ar thur foi assassinado. Ele circulava muito por toda a rea, apesar da pouca idade. Ia at os limites do descampado com a vegetao mais densa. No sbado, foi e voltou algumas vezes para se munir do necessrio para empinar seu papagaio, agora chamado de pipa. Dois adolescentes estavam com ele, naquela fronteira entre o visvel e o desconhecido, at meio-dia, quando ele sumiu.Teriam sido eles os assassinos? A polcia no encontrou provas para incrimin-los. Eles alegaram que tinham sado exatamente naquele momento. Como so menores, foram liberados. A populao estava revoltada. Queria linchar os suspeitos. Seus parentes tiveram que acobertar a fuga.Sem poder descarregar sua fria, os moradores foram para a BR-316 e a bloquearam, no sentido de sada da capital paraense. Era pela morte de Arthur, mas tambm do irmo dele, seis anos mais velho quando foi assassinado, no ano passado, ao sair para o trabalho. Foi latrocnio: roubo seguido de morte. Como tantos outros crimes constantes, que a populao j no suporta mais. Por isso, as pessoas ameaavam fazer alguma coisa com o cemitrio. Sem muros, ele serve de caminho de fuga e esconderijo para os bandidos. Era a outra razo do protesto. A Polcia Rodoviria Federal mediou um entendimento: a direo do cemitrio iria mandar construir a murada, com o cuidado necessrio porque ali h uma reserva ambiental. O administrador tambm fez um pedido aos manifestantes: deixar de jogar lixo no local, que serve de moradia para os mosquitos da dengue e da zika, duas das maiores ameaas sade na atual temporada. Firmado o entendimento, a rodovia federal foi liberada, quando a la de carros estacionados passava de trs quilmetros. Anoitecia e os moradores voltaram para suas casas. Prevenidos para outro dia igual na agenda das suas angstias e padecimentos na Grande Belm, a 26 cidade mais violenta do planeta. Memria do Cotidiano V OLUME 7NAS BANCAS E LIVRARIA

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4 Como voc reagiria ao assassinato de seus dois filhos em menos de um ano? Primeiro o mais velho, de 17 anos, assaltado e em seguida morto ao sair de casa para o trabalho. Depois, o de 11 anos, estuprado e morto com quatro facadas no meio do mato, para onde foi levado por um vizinho, de 25 (ou 26) anos, que abusou dele e o liquidou para no ser denunciado. Exero h meio sculo o jornalismo, uma prosso que oferece uma variedade rara de oportunidades e experincias de todos os tipos. Tenho muita estrada e o couro curtido. Mas envelheo um pouco cada vez que sei de crimes com essa violncia alucinada. E eles se multiplicam e se tornam ainda mais torpes. Aonde iremos chegar? uma tragdia sem volta e sem recuperao para a famlia do menino, que sumiu no sbado passado e s foi localizado na semana passada, j em adiantada decomposio. Sua famlia mora no loteamento, bairro ou invaso Almir Gabriel, em Marituba. Essas ocupaes cam alm do alcance das obras pblicas (s no da caa ao voto) e a poucos passos das capoeiras que ainda sobrevivem expanso ur bana na Grande Belm, uma das capitais mais violentas e caticas do pas e do mundo. Dessa localizao se aproveitou o cidado que atende sugestivamente pelo nome de Michael Kildare Machado. Sua aparncia normal. No se enquadra nos parmetros da biotipologia. Mas seu currculo j exigia o alerta dos responsveis pela segurana pblica. A polcia diz que ele abusou de uma adolescente de 13 anos em 2014, tambm na rea onde mora. Chegou a ser preso e foi solto. Realmente porque no cometeu o crime e por isso no podiam ser reunidas provas contra ele, ou por negligncia, impercia ou o que mais pode ter dado causa a esse resultado por parte da polcia. O certo que foi liberado e menos de um ano depois investiu sobre a criana, a estuprou e a matou com golpes de faca, que, por ser arma branca, agrava o homicdio. O assassino diz que agiu sob inuncia de droga. Pode ser que sim. O mais provvel, entretanto, que tenha recorrido a esse argumento como libi para reduzir a gravidade do seu ato, semelhana do que costuma fazer a polcia, quando descarrega sobre a droga a responsabilidade por certas ocorrncias criminais (de resto, sistemticas). O assassino foi pia batismal para receber um nome estrangeiro, com o qual seus pais talvez pretendessem livr-lo de um destino ruim, como fazem os que sapecam letras dobradas e ipsilones aos nomes dos filhos, na presuno de um acidente da sorte que possa enobrec-los ou, ao menos, retir-los da rua da amargura, onde se encontram (Chico Buarque interpretou com amarga ironia essa pretenso com a msica Meu Guri ). A narrativa do assassino aos jornalistas foi to fria quanto o seu procedimento ao cometer o crime: seduziu o menino com o oferecimento de papagaios para ele empinar, conduziu-o ao mato, abusou sexualmente de Arthur e o matou. Mas, estranhamente, largou a arma do crime a menos de10 metros de distncia. Tambm abandonou ali os papagaios (ou pipas). Seria realmente o efeito de droga ou relaxamento devido certeza da impunidade? As pessoas que so parentes ou amigos dos dois irmos esto marcadas para o resto das suas vidas. Se no fosse o humor mais negro e a ironia mais selvagem, teriam algum motivo para consolo por no ignorarem que esses fatos se tornaram rotineiros na rea metropolitana de Belm do Par, com seus sofridos 400 anos, no consolo de lgrimas cobertas por mais lgrimas. Motivo h, mas com outro m: a reao dos humilhados e ofendidos. Sugiro a quem se interessa pelo destino de Arthur Moraes Sousa que faa uma vaquinha e construa uma lpide em local pblico e de maior circulao. Ela servir de monumento de protesto e indignao pela desvalorizao do bem mais valioso que temos, a vida humana. Os moradores do loteamento (ou invaso) podero inaugurar esse mar co num culto ecumnico (para que todos possam participar), convidar as autoridades e as receber civilizadamente, mas com cartazes nos quais expressaro sua condio de seres humanos, contribuintes e cidados, com o direito de exigir do Estado que proteja suas vidas. A partir de agora, em todos esses crimes, que as pessoas solidrias repitam essa atitude. Se Belm acabar por se transformar em um cemitrio, ao menos se saber de quem a culpa a ser devidamente cobrada.A barbrie cotidiana

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5 Belm dos 400 anos: novo lugar no mundoBelm tentou, mas no conseguiu se tornar uma cidade industrial. Provavelmente no conseguir nunca mais, embora seja vizinha de um centro industrial de grande porte, o de Barcarena, a apenas 50 quilmetros de distncia. Ter que se concentrar em aproveitar suas sinergias. Mas por sua infraestrutura (inclusive humana), montada ao longo de quatro sculos, tem vocao ainda a desenvolver para os setores de servio e comrcio. Sobretudo se estabelecer, renovar ou repor elos com o interior do Estado e da regio. O Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade pode ser o primeiro projeto concebido com essa preocupao. Ele no apenas restaurante e turismo, embora os inclua. Sua proposta integrar a gastronomia e tecnologia, cultura alimentar e biodiversidade, sustentabilidade e cadeia produtiva. Pretende ir alm do extrativismo de ingredientes exticos e dos modismos de ocasio. O centro funcionar na Casa das Onze Janelas, na praa da S, que abrigou um restaurante concedido iniciativa privada. Um novo restaurante surgir, com car dpios base de produtos agroorestais produzidos por comunidades orestais. Para esse uxo funcionar, a relao direta com os produtores ser prioritria, assim como a abertura para chefs de vrias partes do mundo introduzirem conhecimentos e processos. Um museu do alimento ser instalado na Casa das Onze Janelas, servindo de apoio a um barco-cozinha, com capacidade para receber 40 turistas, pesquisadores e estudantes. Eles estaro empenhados em ter acesso a utenslios, processos e cincia da cultura alimentar dos povos amaznicos, como artigos de arte e cultura. Tambm funcionar uma Escola Superior de Gastronomia e Biodiversidade, dispondo de um laboratrio culinrio, para oferecer cursos de extenso e ps-graduao. A instalao do centro est prevista para o segundo semestre deste ano, assim como o restaurante e o barco. A escola e o laboratrio esto previstos para o incio de 2017, seguidos pelo museu. O vice-presidente do Instituto At, Roberto Smeraldi, admite que o cronograma pra l de otimista, mas acha que Belm inicia 2016 sob signo favorvel: passou a integrar Rede de Cidades Criativas da Unesco, da qual participam 116 cidades de vrios continentes, na companhia apenas de Salvador e Santos como integrantes selecionadas no Brasil. Esse selo de qualidade pode ajudar muito a capital paraense a se tor nar um destino gastronmico internacional. O centro ajudaria a seguir essa trilha e dela se beneciaria. O governo do Estado deu o seu endosso iniciativa do instituto, criado em So Paulo, em 2013, pelo chefe Alex Atala: o centro de gastronomia e biodiversidade o principal tema de 12 pginas de publicidade publicadas na revista Veja para comemorar com farta exibio de policromias e fantasias os 400 anos de Belm. Mas o texto no menciona uma nica vez o valor do projeto, a fonte dos recursos a serem usados, quem dele participa, a forma de associao do governo com quem for executar a ideia e outros detalhes mais que ajudariam a dar forma mais concreta a tantas declaraes de boas intenes. O projeto pode ser bom, mas no deve ser entregue sociedade como um produto pronto e acabado, que se torna fato consumado dessa maneira. Precisa ser muito bem analisado e discutido publicamente, para que a sua materializao tenha coerncia com a sua idealizao. A ideia realmente muito boa, mas o governo Simo Jatene (como os anteriores) manhoso e alqumico. Fala melhor do que faz e faz menos do que apregoa que fez. Alm do mais, deve-se evitar que o patrocnio ocial transfor me o centro numa extenso da administrao pblica, com seus vcios polticos e siolgicos. Mas se a empreitada for avante, deve-se ainda ter em considerao que dicilmente um turista estrangeiro vir a Belm, desviando-se das rotas mais tradicionais, s para apreciar a sua culinria. Se a gastronomia s se consolidar se estabelecer vnculos positivos com as fontes da produo e da cultura culinria, no seu sentido mais amplo, precisar tambm de outros atrativos. Pode ser o momento certo de pensar na criao de outros centros de referncia, que podero ser batizados de museus: um para promover o conhecimento e a difuso da cabanagem; outro para recuperar a histria do ciclo da bor racha; um terceiro dedicado aos nativos, ndios e caboclos; mais um para reconstituir, com todos os meios tecnolgicos disponveis de exibio, o projeto pombalino na Amaznia; uma completa repaginada (como manda o jargo) no museu do Crio; um acordo com o Grmio Literrio Portugus para tor nar mais visvel sua preciosa biblioteca e acrescer-lhe outras formas de acesso ao mundo portugus na Amaznia; um centro da minerao, que abranja desde mapas, imagens de satlite, amostras de rochas, maquetes e miniaturas, at vdeos, lmes e palestras, e o que mais se conceber para que Belm recupere integralmente sua posio de caixa de ressonncia da Amaznia e pregoeira mundial da sua cultura. Assim, essa mambembe festa dos 400 anos, deixando a infertilidade oficial, poder se tornar concreta e fecunda.

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6 Quem agricultor e precisa da terra?Pedi para uma fonte me mandar um texto singelo com as suas impresses mais recentes sobre Marab. Natural da cidade, a fonte vive pendularmente entre o exterior e o Brasil. Essa condio lhe permite juntar seu conhecimento vivencial da realidade local com o distanciamento crtico proporcionado pela sua circulao pelo mundo. Por isso observa situaes que passam despercebidas ao nativo e se permite analis-las sem qualquer tipo de venda. Por isso, reproduzo sua pequena, mas provocante mensagem, lembrando que um dos focos a fazenda Cedro, cuja propriedade passou de Benedito Mutran Filho, de famlia local, para o banqueiro Daniel Dantas, que os boatos J havia, no incio da dcada de 1990, a chamada ma da terra, comandada pelo MST. Ela continua viva & forte. Posso dar um testemunho pessoal a respeito. O pai de uma grande amiga era agricultor de verdade. Tinha uma terra a uns 100 quilmetros de Marab. Quando os lhos cresceram, ele cansou e veio morar na cidade. Eu e minha irm demos, na poca, uma quantia generosa para essa amiga dar o sinal e comprar um lote em Marab. Aps uma longa histria, em vez de fazer a coisa certa e comprar um terreno legalizado, a famlia cresceu o olho e quis dois. Eles decidiram, ento, comprar numa invaso. Ocorre que um dos donos do terreno apareceu l e botaram eles para correr. No entanto, eles caram com um lote, construram a casa e hoje vivem l em paz. O pai da amiga vendeu a terra dele, que havia sido dada pelo Incra, mas muitos anos atrs. Hoje tem uma penso como agricultor e tem uma prosso atual paralela: invasor prossional do MST. No pretende voltar a ser agricultor, mas adquirir a terra, que passa adiante sem a documentao, claro. Mas se invaso funciona s portas do Congresso, STF e Palcio do Planalto, o que dizer no Par. Voc me perguntou anteriormente sobre minha viso de Marab/Sul do Par: continua a ser a mesma. Um dos problemas centrais do Brasil a regularizao do uso do solo. De Norte a Sul, o Brasil foi e incapaz de resolver este problema. E nem sei se faz diferena a situao de uma favela no Rio ou So Paulo e uma no Par. A origem a mesma e os problemas decorrentes da tambm so os mesmos. A nica coisa que parece ter mudado o uso disso como instrumento poltico. Casos como o da fazenda Cedro e da existncia de invasores prossionais esto sendo tratados como se fosse mais um caso do conito pela terra, mas acredito que a agenda do MST/ seus seguidores mudou. Eu gostaria que voc estivesse aqui e pudesse ouvir os detalhes de como isso funciona. E, claro, nenhum nome poderia ser revelado porque morte na certa. Vida aqui barata, como voc sabe. Se qualquer um for em alguns lugares aqui postos de gasolina nas entradas & sadas de Marab e vizinhana e espalhar que precisa de algum para fazer um servio, resolver um problema e deixar informaes sobre como localiz-lo, voc vai car surpreso com o nmero de pessoas que iro procura-lo!!!! Muitos escrevem sobre essas graves questes no conforto do ar condicionado e no se do conta da complexidade do problema. Quem so, hoje, por exemplo, os verdadeiros agricultores que precisam de um pedao de terra?Cocana: agente destruidor que se expande pelo ParBenedito Carvalho FilhoUma notcia impressionante foi publicada no Jornal Pes-soal 599 do ms de dezembro de 2015. O ttulo da matria comea com uma interrogao: narcotrco internacional est se instalando no Par? O jornalista informa a apreen-so de um mini-submarino, que estava sendo construdo na costa de uma ilha, no municpio de Vigia, a menos de 80 quilmetros de Belm. Em seguida informa que desde 1993 os tracantes colombianos de droga, que produzem 60% da cocana em circulao pelo mundo, utilizam pequenos sub-marinos para escapar vigilncia dos governos. At 2011 arma o jornalista perderam 65 dessas embarcaes, mas o investimento de um milho s com o custo dos submarinos compensado pela maior ecincia desses recursos. As autoridades colombianas estimam de que de cada 10 submarinos construdos, apenas dois so locali-zados e recolhidos. A notcia sobre a utilizao de submarino no trco de drogas na Amaznia no nova. Desde muito tempo esse veculo nutico vem sendo utilizado no trco internacional de drogas, transportando grandes quantidades de entorpe-centes. O colombiano Pablo Escobar, o lendrio tracante de droga, morto no dia 3 de setembro de 2012, aos 69 anos de idade, j utilizava o submarino como meio para transportar drogas. Quem leu o livro do italiano Roberto Saviano, chamado ZeroZeroZero, editado pela Cia das Letras (2014), sabe que a

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7 ousadia dos tracantes de drogas no tem limites. Trata-se, como arma o jornalista italiano, hoje jurado de morte, que os Tubares, para dominar o mercado de drogas, que s no Mxico hoje movimenta entre 25 e 50 bilhes de dlares por ano, esto corroendo a Amrica Latina desde seus alicerces. A crise econmica arma Saviano as nanas devo-radas pelos derivativos e pelos capitais txicos, o enlouque-cimento das Bolsas: em quase toda parte esto destruindo as democracias, destroem o trabalho e as esperanas, destroem o crdito e vidas. Acrescenta ele: a crise no destri pelo contrrio, fortalece as economias do crime. O mundo con-temporneo comea ali, nesse big bang moderno, origem dos uxos nanceiros imediatos, Em seguida adverte: Choque de ideologias, choque de civilizaes, conitos religiosos e culturais so apenas cap-tulos do mundo. Mas se olharmos atravs da ferida dos capi-tais criminosos, todos os vetores e os movimentos se tornam diferentes. Se ignorarmos o poder criminoso dos cartis, to-dos os comentrios e as interpretaes da crise parecem se basear num equvoco. Esse poder temos de olh-lo nos olhos, encar-lo bem, para compreend-lo. Ele construiu o mundo moderno, gerou um novo cosmo. O big bang se iniciou aqui. Nesse mundo enlouquecido do capitalismo nanceiro, como vimos no lme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorce-se, baseado no livro de Jordan Belfort, editado no Brasil pela Editora Planeta em 2014, a droga consumida torna-se qua-se uma necessidade, principalmente por aqueles, que, para acompanhar o movimento das nanas, tm que usar aditivos, trafegando nem sempre pelos caminhos ticos ou legais, pois a rapidez do mercado exige velocidade e esperteza. Para os pequenos usurios dessas drogas, elas servem para tamponar e mitigar o mal estar em que vivem e delirar a m de suportar o dia a dia uma realidade cruel e ainda ter que pagar o juro do agiota. Para outros que comerciam serve para adquirir uma renda extra, mesmo tendo que enfrentar a cobrana desses mesmos agiotas. Trata-se de um mercado que se amplia nas periferias dessas cidades e que vem arregimentando um grande nme-ro de mulheres de todas as idades. No sem razo que o encarceramento feminino vem assumindo propores avas-saladoras, como nos mostram as estatsticas. Em 5 de no-vembro foi publicado o relatrio Levantamento nacional de informaes penitencirias, que nos revela dados impactan-tes nesse sentido. Entre 2002 e 2014, aumentou a populao feminina nos presdios 567,4%. Atualmente, 37.300 mulheres esto presas. Esse um fenmeno mundial. Das 10 milhes de pessoas presas, 700 mil so mulheres. Temos nos perguntado: por que a droga, muito usada no passado, vem adquirindo di-menses to avassaladoras no presente? No estamos nos referindo somente aos lucros astron-micos que o seu comrcio gera, que, como hoje sabemos, imenso, mas a difuso de seu uso em todas as camadas so-ciais no mundo inteiro. Nessa sociedade delirante e distpica em que vivemos, onde, como diz Roberto Saviano no livro ci-tado, a cocana uma resposta exaustiva necessidade mais imperativa da poca atual: a falta de limites, essa uma das suas mais fortes caractersticas. Isso traz srios problemas, como tm mostrados os psica-nalistas e psiquiatras, pois o que esta em jogo a vida e, por consequncia, o mal estar que ela provoca nesse mundo em que a nsia de consumo prevalece como sinnimo de feli-cidade e, por isso, consumimo-nos porque o importante viver o barato do aqui e agora, na imediatez do presente. E, como consequncia, paga-se um preo bem alto. Nessa vida para o consumo, para usarmos uma expres-so do socilogo polons Zygmunt Baumann, no seu livro com o mesmo ttulo, Vida para Consumo A transformao das pessoas em mercadorias (Editora Zahar, 2008), as pessoas precisam das drogas, no s as qumicas que chegam pelos avies e submarinos, mas outros tipos de drogadies para fugir do mal estar e seus efeitos colaterais. O narcotrco internacional no est se instalando s no Par, mas em todo mundo, em especial aqui na Amaznia, que, como se sabe, uma rota importante do trco inter-nacional. Se formos fazer um paralelo entre a economia do crime a que se referiu Saviani, com a economia das nossas commodities exportadas para os pases industrializados, ve-ramos que os rastros de destruio que elas provocam assu-mem as mesmas propores. A primeira afeta a natureza e provoca destruio que atinge o meio ambiente e a outra consume o ser humano at destru-lo. As drogas viajam atravs de submarinos, avies e pequenas embarcaes, enquanto o nosso minrio ex-portado por potentes trens que cortam parte do territrio brasileiro para depois serem levados para pases distantes, deixando aqui os rastros de destruio como aconteceu em Mariana, Minas Gerais quase no nal do ano passado e como vm acontecendo aqui na Amaznia, como vimos no nme-ro anterior desse jornal quando expomos a tragdia do Lago Batata no municpio de Oriximin. O correspondente de um jornal americano, numa longa matria sobre o trco de drogas armou que o Brasil o maior consumidor de cocana do mundo (atrs apenas dos Estados Unidos). Ganha, com a regio amaznica, uma boa rota para contrabandear os produtos ilegais do Peru, Co-lmbia e Bolvia. As cidades da oresta que contam com 25 milhes de habitantes na Amaznia brasileira, tentam se recuperar dos longos embates entre gangues, o que gera as-sassinatos de policiais e execues macabras, que incluem at decapitaes. (ver site http:/www.ariquemesoline.com.br/ notcia.asp?cod=293686&cod Dep=38) A Colmbia, que, como informa Lcio Flavio Pinto, o maior fornecedor de drogas para os Estados Unidos (90% da cocana vai para l), faz parte desse big bang. Como deter essa fora avassaladora? Evidentemente isso pssimo. Torna-se mais grave por sua capacidade de corromper e comprar ade-so das autoridades e outros cidados, mas no s elas. Quem conhece, mesmo supercialmente, o submundo do crime or-ganizado sabe que ele no funciona sem cmplices, lavando dinheiro no mercado imobilirio, no comrcio e tantos meios. As duas grandes cidades da Amaznia infelizmente es-to profundamente enredadas nesse mundo criminoso, pois nos dias de hoje no h um mercado no mundo to rent-vel quanto o da cocana. Nem o investimento nanceiros de retorno mais rpido. Os personagens envolvidos nessas transaes tm as suas conexes com a economia formal e informal e o mercado nanceiro. Os que esto nos presdios, os pequenos tracantes, os avies que a polcia prende e que aparecem nos jornais e nos programa policiais da TV so homens, mulheres e at crianas no limite da pobreza urbana que se espalha pela periferia das cidades. So peixes pequenos, que vivem na invisibilidade, os matveis, para usarmos uma expresso de Agamben, no seu livro Homo Sa-cer: o poder soberano e a vida nua (Editora Belo Horizonte. Humanitas, 2012)

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8 MEU SEBONos garimpos de papelEm 1990 fui ao Oregon, no extremo noroeste dos Estados Unidos. Queria ver vrias coisas. Uma delas era a primeira escada de peixes de uma hidreltrica, a de Boneville, no rio Colmbia da dcada de ao permitir a passagem do salmo pela bar ragem, que no o previra, provocando a ira dos pescadores. Tambm queria ver o atativa do pas, transformada em toras de madeira e exportadas dessa forma, in natura, para o Japo, o que parecia inacreditvel. O que eu no previa era encontrar a Powells, em Portland, a atraente capital do Estado, onde eu tranquilamente moraria (j naquela poca o nibus que circulava pelo centro era gratuito, por um motivo simples: a prefeitura conclura seus clculos com a certeza de que era melhor nada cobrar; o custo da administrao do servio superava a receita proporcionada pela tarifa isto no maior pas capitalista do mundo). Era uma livraria, mas no qualquer livraria. Era um sebo, ocupando um quar teiro inteiro. Suas sees eram divididas pela cor das salas, vrias, enormes. No momento da minha visita, a atendente me disse que ali havia um milho de volumes e no encontrei motivo para duvidar. Fiquei um dia inteiro ali, com rpida interrupo para o almoo e alguns cafezinhos. Primeiro tentei fazer um rpido inventrio do acervo, mas logo vi que, quando (e se) terminasse o dia teria acabado. Resolvi arriscar primeiro na seo de te (por seis meses) Jnio da Silva Quadros, autor de uma histria da civilizao brasileira, em parceria com o honorvel Afonso Arinos de Mello Franco, que a deve ter escrito integralmente (se que no a encomendou e rubricou: o texto no honra seu excelente estilo, sobretudo o das memrias, das melhores que j li, talvez pela gongrica companhia do professor J. Quadros). Dei de cara com as obras completas de Sren Kierkegaard, em 13 gordos volumes, edio Princepton, a 4,70 dlares o exemplar. Veio-me logo memria a perior, mas no editorialmente), em mais volumes, talvez, que encontrei na Livraria Duas Cidades, em So Paulo, a algo como (se a memria no me trai) 600 dlares o conjunto. Como comum aos viciados, eu j estava tirando os volumes da prateleira quando o vendedor se aproximou e eu, num lampejo de bom senso, perguntei o preo. Em choque, devolvi os livros e me mantive distncia. A Duas Cidades era uma das tes alternativas em outros campos. Foi de l que os padres dominicanos marcaram um encontro, j presos e levados a fazer o ato de traio, que conduziria emboscada e morte Carlos Lamarca, o principal e mais perseguido lder da esquerda armada. qus, sa carregado da livraria, no incio da noite. Portland foi uma das escalas da viaaos EUA, a convite do Departamento de Estado, atravs do servio de divulgao, o USIS (que pilherivamos, quando estudantes, com o trocadilho anti-imperialista: usis, mas no abusis). Fiz meu prprio roteiro e indiquei algumas das pessoas com as quais queria conversar. Os organizadores da viagem nada mudaram nem interferiram nos meus contatos. Como sei? Um quarto de sculo depois, Na minha agenda estava a agncia NOAA, parente da Nasa, que cuida do clima. Eu queria conversar sobre o satlite NOAA-9, usado pelo Inpe, o instituto espacial brasileiro, para medir as queimadas na Amaznia em 1987. Esse satlite no era o apropriado para essa pesquisa, mas foi usado porque as imagens do Landsat, as recomendadas, estavam muito caras. O resultado do trabalho resta de todos os tempos, concluso contestada em funo do satlite (embora os pesquisadores tivessem adotado uma grande Conversei com os pesquisadores da provocao: eles podiam utilizar todas as bandas dos satlites que monitoravam. A princpio, no quiseram responder. Depois, admitiram dar algumas informaes. Uma delas era de que a maior parte das bandas era para uso militar, ao qual eles no tinham acesso. Se estivessem sendo monitorados, no se arriscariam a tanto, mesmo com a promessa de no terem os seus nomes revelados nem a fonte referida. Pelas normas do servio, o convidado recebe, no caixa do tesouro, um valor em dinheiro para pagar as suas despesas, com inteira liberdade para faz-las (optei sempre por hotis mais baratos em Nova York, Washington, Boston, Chicago, Portland, Dallas, Austin, So Francisco, Nova Orleans e Miami). Eu estava no caixa do governo quando apareceu meu amigo e colega de trabalho Clvis Rossi, que tambm iniciava o seu giro, com outro roteiro). Parte da verba (no me lembro mais se 10%, 15% ou 20%) devia ser aplicada na compra de livros. Comprei bem mais do que isso. Foram mais de 300 livros, a esmagadora maioria adquiridos em sebos, sem falar em jornais e revistas de cada dia, despachados na sacrossanta agncia dos correios, dos lugares onde estava, para Washington. Alguns um pouco mais caros, mas todos muito abaixo do preo de um novo e, mesmo usados, do seu valor real em sebos de outros pases (nenhum igual aos Estados Unidos). Um deles foi uma pechincha recorde. Foi em Austin, onde vasculhei bibliotecas e arquivos universitrios, dos melhores do pas sobre a Amrica Latina e o Brasil. Num balco do lado de fora havia livros dispostos caoticamente. um dos maiores atrativos de bons sebos. Comecei a garimpagem. Logo dei com uma edio completa de Shakespeare, em mais de duas mil pginas, papel bblia, capa imitando o couro, de boa qualidade. Preo: US$ 1,99. No acreditando, fui ao livreiro. Era mesmo aquele preo? Era, respondeu ele, divertido. Disse-lhe que era provavelmente o livro mais barato que eu comprara at aquele momento (continua a ser at hoje). Por que ele vendia por aquele valor simblico? Era para atrair fregus para a sua ampla oferta, incluindo livros raros e carssimos. Aquele volume de Shakespeare podia valer 30 ou 40 vezes mais, mas ele comprara muitos volumes em ponta de estoque, por preo de ocasio, que, evidentemente, no revelou. Seu prejuzo era pequeno, compensado muitas vezes pela entrada na sua loja dos fregueses seduzidos pela barbada. Isso marketing. A viagem era encerrada com um jantar em Washington. Depois de iniciado, um cidado j idoso, bem vestido com seu traje passeio completo, como exigiam nas nossas festas de juventude, se aproximou. Queria me conhecer. Desde que comeara a trabalhar no USIS, muitos anos antes, eu era o primeiro que respeitava a cota reser vada aos livros. No s a cumprira: a excedera. Queria me parabenizar. Voltei ao Brasil no dia seguinte. Atrs de mim, muitos dias depois, vieram meus livros, pela via martima.

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9 O ttulo da pea Guerrilheiras. O que ela porm, est dito no subttulo: ou para a terra no h desaparecidos. Uma das suas cenas mais fortes e expressivas se desenrola com o dilogo travado entre as guerrilheiras mortas. Debaixo da terra, elas conversam, debaixo de peas de plstico, sobre uma lona azul, que sugerem transparncia e uma pitada de poesia visual. Ainda desconhecido ou controverso o destino dos cadveres de parte do contingente de militantes do Partido Comunista do Brasil mandados para a regio do Araguaia, na divisa do Par com o atual Tocantins e o Maranho, uma das mais pobres e conturbadas do pas. Sua misso era criar um foco de luta armada contra o regime militar, que deveria crescer e ser a semente de uma guerra popular. Durante cinco anos, entre 1969 e 1974, 69 membros do PC do B sustentaram essa iluso de reeditar a revoluo cubana, vitoriosa 10 anos antes. Chegaram a atrair o maior contingente de trs mil a cinco mil homens deslocado pelo Exrcito para o serto do Brasil desde a rebelio de Antonio Conselheiro no ser to baiano, no incio do sculo XX, que manchou de sangue o idealismo da nascente (e mal nascida) repblica. O combate convencional foi um fracasso, escondido pela manipulao dos fatos e a ocultao das provas. Os vencedores escreveram a histria, mas no convenceram. Foi preciso que a ttica de manual fosse substituda por um combate baseado nos mesmos mtodos dos guerrilheiros para que sua fraqueza se tornasse evidente e seu extermnio fosse questo de tempo, muito rpido. A vitria se deveu argcia de um major do exrcito, como a pea teatral em outro de seus momentos mais importantes no deixa de reconhecer, admitindo, para uma esquerda to obtusa quanto os seus inimigos, to pouco afeita a ver as coisas concretamente, que se aprende tanto ou mais na derrota quanto na vitria. Antes de concluir ou divagar, preciso conhecer. A atriz Gabriela Carneiro da Cunha cou curiosa ao ler sobre a guer rilha do Araguaia. Quis saber mais. Leu tudo que pde sobre o assunto. Ao nal, achou que o tema podia render dramaturgicamente. Juntou-se a outras pessoas. Sendo a maioria mulher, de um conjunto do qual sairiam as seis intrpretes da pea, elas se interessaram pelas 12 mulheres da guerrilha. Tomaram uma deciso rara: ir regio para ver o ambiente, conversar com as pessoas, observar e anotar. Na volta, Grace Pass se incumbiu de escrever o texto. Georgette Fadel assumiu a direo. No nal do ano passado a pea estreou no Rio de Janeiro e neste ms, em So Paulo. No um espetculo panetrio ou um documentrio. o mais puro teatro. Guerrilheiras no precisaria ter inspirao em acontecimento real para existir. Podia ser apenas co. Mas justamente por se amparar numa ampla, densa e vvida base factual que chegou linguagem artstica, que abstrai o fato e o projeta na abstrao universal da linguagem artstica. O espetculo compreensvel e merece ser admirado em qualquer lugar do mundo. lrico e pungente, terno e dramtico, ccional e realista. Consegue com brilho aquilo a que se props: no deixar que captulo to importante da histria contempornea do Brasil se apague, nem que seja estigmatizado pela incompreenso. Salvar das profundezas da terra a alma viva das mulheres que apostaram suas vidas no que decidiram fazer, certas ou erradas. A pea as imortaliza no seu momento nal, de um lirismo simples e comovente: as atrizes enchem de ar um grande saco plstico transparente e circulam pelo palco, como se levitassem, deixando a sensao de leveza imaginria das almas puricadas ao sair de cena. No h manifestos nem citaes. Mas o pblico se levanta e aplaude. As guerrilheiras do Araguaia entraram denitivamente para a memria nacional. Guerrilheiras do Araguaia so imortalizadas no palco

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10 O futuro pode ser ruim para a Vale em CarajsA agncia de classicao de risco Standard & Poors rebaixou, na semana passada, a nota de crdito da Vale, que era de BBB, para um patamar inferior, o BBB-. Alm disso, manteve a perspectiva negativa da mineradora brasileira por causa da queda dos preos dos metais e porque a ex-estatal fez investimentos pesados numa conjuntura desfavorvel, o que deve piorar os seus indicadores de crdito neste ano e no prximo. A S&P informou que pode rebaixar novamente a companhia, fazendo-a perder o grau de investimento, se, dentre outros fatores, a relao entre a dvida permanecer acima de cinco vezes maior do que o Ebitda (lucros antes dos juros, impostos, depreciao e amor tizao) ao longo dos prximos dois anos, como est agora. A agncia diz que essa hiptese se concretizar se os preos do minrio recuarem abaixo de 40 dlares por tonelada ou se a Vale tiver diculdades para vender ativos no essenciais, como est tentando fazer para gerar caixa. Essa iniciativa um golpe na estratgia da Vale de aumentar a produo de minrio de ferro em Carajs, e representa uma ameaa ainda maior se a previso negativa da agncia inter nacional de risco se conrmar. Nesse caso, a empresa perder o grau de investimento, o que acarretar o agravamento ainda maior da sua enorme dvida, porque passar a pagar juros mais caros. Esse perigoso endividamento foi necessrio para a Vale ampliar a produo de Carajs, agregando-lhe a nova mina, de S11D, que entrar em atividade neste ano, com custo equivalente a 16 bilhes de dlares (60 bilhes de reais). Como esse minrio ainda mais puro do que o que est sendo lavrado ao norte dele, seu custo de extrao menor e a rentabilidade mais alta. Substituindo pelo minrio da Serra Sul o minrio mais pobre da Serra Sul, a Vale aumentaria sua competitividade para suportar a queda no preo unitrio e no consumo global, provocado principalmente pela retrao da China, que absorve 60% da produo de Carajs. A previso do custo de extrao do S11D para um valor entre 10/11 dlares por tonelada, enquanto o preo do minrio, mesmo com sua desvalorizao, ainda gira ao redor de US$ 40. A S&P suspeita que a estratgia no dar certo, pesando mais a ampliao do endividamento do que o aumento da competitividade da Vale. Mas pode estar torcendo contra para favorecer algum concorrente, devem pensar os que, na mineradora, acham que o caminho, mesmo perigoso, o melhor. Quem poder fazer a prova dos nove e tentar mostrar para a opinio pblica quem tem razo? Antes dessa tarefa, alis, ter que se desincumbir de uma primeira misso: fazer a sociedade paraense se interessar pelo assunto, que devia ser do seu maior interesse.Recuperao do rio Doce: uma obra de conjuntura?Nesta semana ser apresentado em detalhes o plano de recuperao dos danos humanos e ambientais causados em novembro do ano passado, ao longo do vale do rio Doce, entre Minas Gerais e Esprito Santo, pelo rompimento de uma barragem da mineradora Samarco. Foi o maior acidente da minerao em todos os tempos no Brasil. Na semana passada houve uma espcie de pr-lanamento, com toda pompa e circunstncia, no Palcio do Planalto, em Braslia. Talvez para preencher uma agenda positiva para a presidente Dilma Rousse, carente de fatos que possam ser interpretados como positivos. Ela comandou a solenidade, ao lado da secretria do meio ambiente e do advogado-geral da Unio, tendo ainda a participao do presidente da Vale, a principal controladora da Samarco, em sociedade com a anglo-australiana BHP. O plano no valor de 20 bilhes de reais, que sero desembolsados pela mineradora ao longo de 10 ou 12 anos. Mas os prprios responsveis pela iniciativa admitem que o valor foi chutado. Nem podia ser de outra forma, tal a profundidade e extenso dos danos acarretados pela tragdia. Mas o ponto de partida podia ter sido mais seguro se governo e iniciativa privada tivessem sido cleres e decididos nas aes de urgncia e emergncia, que se circunscrevem ao entorno de Mariana, em Minas. Assim, sem burocracia, tirariam as pessoas prejudicadas do seu estado de aio e desespero, restabelecendo uma rotina de vida. Sem a celeridade necessria, providncias nesse sentido j foram adotadas ou esto em curso. Mas essa ao imediata no devia influir sobre a interveno de mais longo curso, como est acontecendo, talvez pelo desejo do governo federal de apresentar resultados. O fundo a ser criado para restabelecer as condies naturais do vale ser gerido pela prpria empresa que fornecer os recursos, sob a super viso ocial. Podia ser o inverso: o governo comandando e contratando as rmas que executariam os projetos, j denidos num plano concreto, que especicasse o quadro de fontes e usos, num oramento rigoroso. Com o suporte de uma auditagem externa e a scalizao de uma universidade federal, alm do acompanhamento da sociedade civil. Do jeito como est indo, logo a destinao do fundo e sua prpria razo de ser podero ser esquecidos ou diminudos de importncia. E a ao cair na vala comum desse tipo de iniciativa, que se perde pelos desvos dos interesses margem do problema.

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11 O Tapajs, perplexo, diante do maior plano energticoAinda inacabada, mas em pleno funcionamento, a hidreltrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondnia, j a terceira maior fonte de energia do Brasil. A 150 quilmetros rio abaixo (e a apenas sete quilmetros de Porto Velho) est a usina de Santo Antonio, de tamanho equivalente. Juntas, ainda em fase de concluso da montagem das turbinas, representam a segunda fonte de energia do pas, mandada para o sul pela maior linha de transmisso no territrio nacional, com 2,3 mil quilmetros de extenso, com seu ponto nal em Araraquara, So Paulo. At maro ou abril Belo Monte, no rio Xingu, no Par, concebida para ser a quarta maior hidreltrica do mundo (ocupando o lugar que de Tucuru, no Tocantins paraense), comear a funcionar em maro ou abril. As turbinas, tanto as pequenas da casa de fora secundria, quanto as enormes (as maiores do mercado), montadas na casa de fora principal, podem ser acionadas independentemente, uma das inovaes da engenharia da obra. Por isso, a motorizao ser mais rpida. H trs anos a economia brasileira anda para trs, com recesso, queda do PIB e crise. Segundo o FMI, o Produto Interno Bruto diminuir neste ano 3,5%, a maior de todas as depresses da fase moderna do pas. Como o mundo crescer na mdia 3,4%, o Brasil car mais 6,8% para trs no s dos lderes do mercado, mas da maioria dos pases. O consumo nacional de energia, evidentemente, est diminuindo. As termeltricas no esto sendo mais acionadas, como era a regra, para desespero dos que pagam a conta nal da energia mais cara, os consumidores, chamados a responder pela diferena. E o consumo, por todos esses fatores, dever continuar a cair. Nessa conjuntura, por que iniciar agora a fase executiva o mais audacioso empreendimento energtico da histria brasileira? No total, os estudos preveem 43 barragens projetadas pelo governo federal para a bacia do Tapajs e seus trs auentes (Teles Pires, Juruena e Jamanxim)?. As duas primeiras, no Teles Pires e no Juruena, em Mato Grosso, j esto em construo, com problemas (as novas pedras no caminho) na linha de transmisso. Na calha do Tapajs, a inteno do governo licenciar ainda neste ano a usina de So Luiz, no Par, ao custo de 18 bilhes. Para conseguir esse recurso, ter que desviar dinheiro j escasso para aplicao decitria para o agente nanceiro, o BNDES, por ser subsidiada. O pesquisador do Inpa (Institucio Nacional de Pesquisas da Amaznia), Phillip Fearnside, vai ainda mais longe. Ele diz que, na verdade, na prancheta do governo esto desenhadas 69 grandes barragens na Amaznia, do porte de So Luiz do Tapajs ou da usina Teles Pires, alagando um total de 10 milhes de hectares. Por que os responsveis pelos projetos no sentam com as partes interessadas no tema e ajustam as contas e resolvem as pendncias? Por que, ao invs da quedade-brao usual, no aceitam um caminho mais harmnico com as demandas sociais. Na semana passada, foi realizada a primeira audincia pblica, em Santarm, para discutir as barragens do Tapajs, de cujo vale a cidade a principal base e se supe a maior vtima em potencial do que acontecer rio acima. A iniciativa do Ministrio Pblico Federal, que tem sido o maior opositor das usinas na Amaznia. O CLIMA DOS DEBATES FOI UM TANTO PASSIONAL E PADECEU DE MUITAS DESINFORMAES. MAS SERIA UMA BOA OPOR TUNID ADE PARA UM DIL OGO ABER TO FRANCO E PRODUTIVO das duas partes, as que querem e as que rejeitam a barragem, as que esto com as informaes (e as desinformaes) nas mos e as que querem saber a verdade. Como a parte ocial e executiva se ausentou, a perspectiva do confronto. E pelo desfecho da histria das quatro grandes hidreltricas instaladas na Amaznia, j se sabe quem sair perdendo ao nal: o Brasil. Na audincia, que durou seis horas e atraiu 500 pessoas (no mais porque o auditrio cou lotado), foram apresentadas crticas e feitas denncias que necessariamente precisam ser respondidas antes de qualquer deciso executiva sobre a obra. O procurador Cames Boaventura, por exemplo, observou que de nove empresas interessadas na construo da primeira usina, a de So Luiz do Tapajs, oito so empreiteiras investigadas na operao Lava Jato. No informao para provocar uma averiguao preliminar e preventiva de qualquer novo escndalo nesse setor? O MPF informa que o projeto j enfrenta pelo menos quatro processos judiciais. Um deles, por no ter promovido a consulta prvia dos povos afetados, embora se empenhe em fazer o licenciamento da obra nos prximos meses. Essa consulta no teria que ser mera formalidade: causa grandes prejuzos aos moradores das margens do rio. A pesquisadora Camila Jeric-Daminello estimou em mais de um bilho de reais as perdas das comunidades ribeirinhas s em produtos orestais e pesqueiros dos quais hoje se sustentam. De imediato, necessrio responder denncia do mdico Erik Jennings, Ele previu o risco de uma catstrofe na sade humana se o mercrio usado pelos garimpeiros da regio para extrair ouro, se transformar em metilmercrio no fundo dos reservatrios das hidreltrica. Assumindo a forma orgnica, que o torna extremamente txico, esse mercrio passa a ser absorvido pelos peixes, principal fonte de alimentao da populao em toda a regio, contaminando-a gravemente. O risco existe e esteve nas cogitaes da hidreltrica de Tucuru, que formou um lago com rea de trs mil quilmetros quadrados, acumulando 45 trilhes de litros de gua. O mercrio foi largamente usada no garimpo de Serra Pelada, o que mais produziu ouro na histria brasileira. Mas no foi detectado nas drenagens que se ligam ao Tocantins, como no foi constatada a presena de um agente to ou mais grave, a dioxina (ou agente laranja, aplicado como desfolhante na guerra do Vietnam, com efeito cancergeno), que a Capemi teria usado na rea do futuro reservatrio para extrair madeira. O mdico tem razo em pedir estudos a respeito, como, de resto, os que cobraram pesquisas a jusante de So Luiz, at Santarm. No s por obrigao legal, mas para responder aos temores da populao da maior cidade da regio sobre os efeitos do represamento do Tocantins sobre a sua vida e, em especial, suas praias. Se h gente falando sobre o que no sabe e transmitindo informao incorreta, a obrigao dos responsveis pelos projetos do Tapajs, em seu conjunto maiores do que os grandes projetos hidreltricos j executados, prestar contas populao. Se a obra no aceita e apoiada pelos brasileiros, no merece prosperar.

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12 memriaC OTIDIAN Odo ANIVERSRIOSBem sugestivo era o registro dos aniversrios feitos pela Folha do Norte na mais do que sugestiva coluna social do jornal, as Notas Mundanas, que faziam a classicao e hierarquizao dos integrantes da sociedade local. Como estes, de 1947: Da graciosa e inteligente senhorinha Palmira da Silva Pita, dileta lha do Sr. Antonio Pita, comerciante da nossa praa, e de sua digna esposa, d. Nazar Rezende Pita. A aniversariante completava 14 risonhas primaveras, numa existncia perfumada de rosas, no lhe faltando, por certo, os beijinhos de suas amiguinhas e os parabns dos que lhe estimam. Da senhorinha Sara Rof Lemos, anista da Faculdade de Medicina, lha do dr. Ferreira de Lemos, conceituado oalmologista paraense, e de sua esposa, senhora Sol Rof de Lemos. Da gentil senhorinha Letcia Lavina Rego, lha do Sr. Car los Morais Rego, que tambm aniversaria hoje, e de sua esposa, senhora Maria Morais Rego. As quinze primaveras da gentil senhorinha Naide Costa Anjos, lha de Brulio Costa Anjos, chefe da rma Barbosa Guimares & Cia, desta praa, e sra. Norma Costa Anjos. De Ildefonso Teixeira de Pinho, agente comercial na praa de Belm, presentemente em Portugal. Do inteligente Fernando, lho de Antonio da Cunha Bembom, comerciante na praa, atualmente em Portugal, e de Secundina Carvalho Bembom.VIAJANTESEra muito lida a seo das Notas Mundanas dedicadas aos viajantes, que passavam pelos movimentados porto e aeroporto de Belm. Um exemplo caracterstico, em 1947: CHARLES HOOD Este nosso prezado e velho amigo, que por longos anos cooperou na Amaznia como gerente geral da Booth & Cia, no norte do pas, em cujas funes foi aposentado, passageiro do Hilary, a entrar na Europa a 4 do corrente. Viaja o benquisto cavalheiro, que se faz acompanhar do Sr. L. M. Synge, em trnsito para a vizinha capital do Amazonas, onde vai inspecionar a Manaus Harbour, de que, juntamente com aquele, diretor. Era o imperialismo ingls ainda se estendendo por todos os continentes.RESISTNCIAA prtica era conhecida de todos: para ingressar na carreira do magistrio no Estado, o candidato (ou, sobretudo, a candidata) tinha que ir ao beija-mo do governador. Inspirado por sua prpria frase, de que lei potoca, o general Magalhes Barata costumava no nomear quem no lhe agradasse ou demitir os desafetos, ignorando as normas regulamentares. Foi assim que procedeu contra seu adversrio poltico, Solerno Moreira (irmo do mestre Eidorfe Moreira), da direo do Instituto Lauro Sodr. Mas Solerno, sem baixar o cerviz, recorreu justia contra o ato abusivo. E, surpreendentemente, ganhou a causa: foi mantido frente da ento ainda importante instituio.PROPAGANDAPescada no Grande HotelO chef Barroso recomendava a peixada uma novidade no cardpio do restaurante do Grande Hotel, em 1965. O anncio destacava um detalhe nada desprezvel: o restaurante dispunha de ar condicionado, comodidade ainda rara na cidade. Eram os anos derradeiros do hotel, que seria demolido sem d nem considerao por sua riqueza arquitetnica. Era Paris tropical da era da borracha que chegava ao fim.

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13 BASQUETECastrinho era considerado o pai do basquetebol no Par, incentivando o esporte como atleta do Jlio Cesar, que tinha a sua quadra na Quintino Bocaiva, onde hoje est a Federao das Indstrias, Ele foi campeo brasileiro de um tor neio que no existe mais, o lance livre. Em 1957 ele foi homenageado por um programa da Rdio Clube, a PRC-5, a voz que fala e canta para a plancie.GOVERNADORA Provncia do Par usou de discreto veneno ao registrar, em outubro de 1962, que o movimento no gabinete do governador do Estado fora grande, como h muito tempo no se vericava. O governador despachou todo expediente do dia com seus auxiliares e passou horas a receber polticos da cidade e do interior, alm de, por m, o empresrio Nelson Souza, destacado membro do comrcio e indstria desta capital. Era o vice-governador Newton Miranda que substitua o titular, Aurlio do Carmo, afastado do cargo para mais uma das suas incontveis viagens, que tanto atrapalhavam a rotina administrativa do governo do Estado.TAMANDARO primeiro projeto de retificao e pavimentao do canal da Tamandar se revelou inadequado para enfrentar as difceis condies do terreno alagvel. O DNOS, rgo de saneamento do governo federal, j extinto, refez o projeto e abriu uma segunda concor rncia, vencida, em 1962, pela firma paraense Conama (Construes Amaznia), do engenheiro Otvio Pires, que disputou com outras cinco empresas (outra local, duas do Nordeste e duas do Sul). O resultado foi anunciado em outubro, mas as obras s poderiam ser retomadas 90 dias depois, tempo necessrio para legalizar os papeis do contrato. Pires publicou nota lamentando a demora, que o obrigaria a trabalhar em pleno inverno.CAFO caf tinha importncia no s como bem de consumo da populao. Servia como moeda de troca nas idas e vindas de contrabando entre o Par e Caiena e Suriname. Por isso, era muito importante a ao do Instituto Brasileiro do Caf, o IBC, do governo federal, que distribua e controlava o caf in natura, modo ou semitorrado. Em 1962 a fabricante do afamado caf Sculo XX comunicava sua clientela que suspendera a sua industrializao de caf modo porque o IBC s lhe for necera, quantidade irrisria sua necessidade. Por isso, s voltaria atividade quando o IBC entregar novamente caf. CONTRABANDOEm 1965, no auge do combate ao contrabando no Par pelo regime militar, Joo Bittencourt Resque precisou publicar uma nota na imprensa para esclarecer que nada tinha a ver com o seu homnimo, exatamente Joo Bittencourt Resque, que a polcia prendera como contrabandista o nico, alis, que permanecera preso, enquanto outros acusados foram liberados. O outro Joo, o da nota, agradecia profundamente as manifestaes de solidariedade moral que vem recebendo e presta os devidos esclarecimentos em defesa de seu nome e para que no mais paire dvida de sua identidade com o seu homnimo, acusado de contrabandear caf, em cuja produo o outro Joo se destacava.FOTOGRAFIAEncontro na 4 e 400Quando Belm comemorava seus 350 anos, em 1966, a rua Joo Alfredo, em frente s Lojas Brasileiras (mais conhecidas por 4 e 400) era o ponto de encontro, principalmente da juventude, nos sbados pela manh. Era o famoso footing, ponto de partida para muita amizade e namoro entre os participantes da concentrao, que se exibiam para quem interessar pudesse. Um programo simples: o exerccio do voyeurismo.

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14 CartasResposta Winston Churchill quando atacado, dizia que trs perguntas deveriam ser feitas antes de qualquer resposta: 1 Quem atacou? Se a pessoa de quem vem o ataque merece credibilidade pela seriedade e honestidade, ainda que equivocada, merece resposta; 2 Como atacou? Estava sbrio, consciente das suas atitudes ou privado dos seus sentidos por drogas ou excesso de lcool? Esses, no merecem resposta; 3 O que disse? Satisfeitos os dois primeiros itens, Churchill ento respondia ao seu adversrio. O Clber Miranda que usa na sua extensa e horrorosa carta que faz ao JP, n 600, j que isso no comentrio, demonstra uma imensa confuso mental, talvez pelo excesso de orelhas de livros que lhe impingiram. Cego ideologicamente, no mereceria qualquer resposta. Mas em homenagem aos teus leitores srios e a ti, vou responder: Acusa-me, chamando de impoluto e progressista, de dialogar contigo no blog ou no JP, e lembra um fato em que eu teria sido afastado do Governo Fernando Guilhon por indicao do SNI. Diz ele que fui adoecido pelo Titio Coronel para justicar o meu afastamento. Em seguida, me acusa de ser um tremendo incompetente, que junto com seu partner, Ubirajara Salgado, rebaixaram o meu querido Clube do Remo, em 2004, para a srie C, vergonha que nunca havamos passado. Em relao ao veto do SNI, sofri durante muito tempo por no poder comprovar a falsidade da informao provinda de tal r go, cria do General Golbery do Couto e Silva, que declarou: criei um monstro. A aleivosia partiu de uma entrevista do General Octvio Costa que narra um encontro ctcio entre o Titio e o General Mdici. Em carta dirigida ao citado General, meu Titio cobrou-lhe a armativa feita na citada entrevista. Em resposta, manuscrita, o General citado diz que em relao ao SNI voc e seu sobrinho foram vtimas e no agentes. (cartas em meu poder). As mesmas, darei cincia a qualquer pessoa, minimamente isenta, o que no o caso do confuso Professor de Histria. Tem razo o Ministro da Educao, Alusio Mercadante quando recentemente disse: se formarmos mdicos como formamos professores, os pacientes morrero. O caso do indigitado Professor C. M. mostra que tipo de prossionais esto em gestao no Brasil. A falsidade ideolgica, alm de trgica mentira, traz srias consequncias para as futuras geraes que se abeberarem das fontes de informao do leviano Professor. Graas a Deus, ningum o ler, pois o seu estilo confuso, derivado de uma srie de livros de consulta que diz ter lido, zeram em seu crebro uma ver dadeira revoluo nos seus poucos neurnios. Quando me chama de incompetente, junto com meu partner, Ubirajara Salgado, por levar mos o Remo srie C, demonstra o seu total desequilbrio. O fato verdadeiro, mas a cada ano, caem 4 clubes da srie A para a B, da B para a C, da C para a D e da para o inferno. Em qualquer disputa isso acontece, mas na cabea do tresloucado Professor, passa a ser crime inaanvel. Peo desculpa aos teus leitores e a ti por ocupar o espao to precioso de debates, como o JP, em resposta esse energmeno. Ronaldo Passarinho Ideolgico Acabo de ler tua resposta ao leitor (possivelmente o mais assduo que tenhas). Esses so os que devem te admirar e idolatrar, entretanto, no tm coragem de assumir. Partem para a agresso. o amor bandido. Mas deixando de lado as sandices do Cleber Naphta Miranda, quando leio textos do tipo dos publicados por Cleber me vem lembrana uma entrevista publicada em revista de cir culao nacional com a Profa. Dr. Maria Sylvia de Carvalho Franco, aposentada do departamento de Filosoa das USP e Unicamp, publicada em 2006, na qual ela faz uma anlise sobre o governo petista, entre outros assuntos. Quando Cleber fala sobre a torre em que vives isolado; lembro que a Prof. Maria Sylvia cita o livro de Elias Canetti (Massa e Poder ), os homens que tm uma posio carismtica e de poder, acabam criando um vazio em torno de si. No caso de Lula, por se livrar de seus auxiliares mais prximos quando necessrio, em face das falcatruas, ele acaba se isolando. Ser que menino Cleber com todo o seu todo quase conhecimento de quase graduado em histria no est trocando as ideias????. No trocou os personagens???. Sabes, Lcio, tenho 61 anos, j ouvi e li muitas coisas, porm existe uma frase dita pela Prof Maria Sylvia que eu gravei na memria e todas as vezes que leio estes tipos de textos que vi publicado no JP n 600, de autoria de Cleber, imediatamente, vm a minha cabea:A ideologia emburrece. No todo mundo que tem discernimento para se envolver nessas questes. Sejam elas polticas, religiosas, ou de qualquer outro campo que aborde a sociedade humana. Penso que seja o caso de Cleber. Adorei tua resposta; de uma simplicidade impar, to simples, mas, ao mesmo tempo, grandiosa. Paulo Felipe de Castro Memria I La Morango Diferentemente do que diz a Memria do Cotidiano do JP 599, a amazonense Terezinha Morango no cou em 2 lugar no Miss Mundo de 1957, e sim no Miss Universo daquele ano. Classicao igual que teria sua sucessora, Adalgisa Colombo (1958), e que fora tambm a de Martha Rocha, em 1954. No sei como a coisa funciona agora, mas, naquela poca, a primeira colocada no Miss Brasil disputava o Miss Universo (EUA), a segunda competia no Miss Mundo (Inglaterra), e a terceira no Miss Beleza Inter nacional (EUA, depois Japo). Alm de ter sido tambm eleita Miss Cinelndia, e de participar do lme Garotas e Samba, do Carlos Manga, Terezinha Morango inspirou uma marchinha que fez sucesso no carnaval de 1958. Batalhei, sem xito, pra conseguir o fonograma dessa msica, pra minha coleo de marchinhas de carnaval. Lembro mais ou menos de um trecho da letra, que diz algo assim: Depois da caldeirada baiana, / veio o churrasco tambm. / E, para a sobremesa bacana, / igual a morango no tem. As referncias caldeirada e ao churrasco so aluses baiana Martha Rocha e gacha Maria Jos Cardoso, antecessoras de Terezinha Morango no Miss Brasil, em 1954 e 1956, respectivamente. Mas a marchinha deixou de fora a cearense Emlia Barreto, vencedora do certame em 1955, e que cou entre as seminalistas do Miss Universo. Considerada por Millor Fernandes muito mais bonita que Martha Rocha, Emlia Barreto uma mulher e tanto! Avessa a badalaes, recusou-se terminantemente a ganhar dinheiro usando o ttulo de Miss Brasil. S participava de eventos com ns humanitrios. Tornouse ativa colaboradora de Eunice Weaver, no Brasil e em outros pases da Amrica do Sul, arrecadando recursos para assistncia a portadores de hansenase, em especial na instalao e manuteno de escolas para lhos de hansenianos, terrivelmente discriminados, poca. Tive a oportunidade de cumpriment-la pessoalmente, h algumas dcadas, integrando uma comisso de tcnicos da instituio em que eu trabalhava, durante a visita que zemos a uma creche que Emlia Barreto construra, numa favela da Zona Sul Carioca (ela se mudara de Fortaleza para o Rio). quela altura uma senhora de seus quarenta e tantos anos, Emlia conservava as caractersticas que a zeram admirada e respeitada na juventude: belssima, elegante, agradvel, discreta e extremamente modesta, a ponto de parecer sinceramente encabulada com os elogios mais do que merecidos que lhe foram dirigidos pelo coordenador da comisso. Pra mim, Emlia Barreto joga de titular no mesmo time do qual fazem parte, dentre outras, Aracy Guimares Rosa e Eunice Weaver. Gosto de pensar nessa mulher com um desses presentes que, de Jornal Pessoal Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP 66.053-030 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto

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15 Paulo Faria: o teatro solidrio em So PauloSou o mais velho dentre os seis homens que Elias e Iraci Pinto colocaram no mundo. A primeira e nica mulher na fraternidade a Eliaci, que nasceu dois anos antes de mim. Eu com cinco e ela com sete anos, participamos de duas peas de teatro apresentadas no auditrio do Cristo-Rei, em Santarm. Na primeira eu devia ser um frango no meio das frangas (no bom sentido, claro). At que tentei impor a moral ao entrar no palco, mas como se a minha irm expropriou usando como arma o seu tamanho minha fantasia, em papel crepon, a nica em mangas compridas para me distinguir do sexo ainda ento frgil. No foi uma boa. Na segunda pea eu era um caador, devidamente paramentado para parecer sanguinrio. O problema que na hora de marchar, a espingarda ao ombro, minha cala comeou a cair, vtima do cinto frouxo e do erro de clculo da modista. Quanto mais eu andava, mais a cala deslizava. Como ainda no usava cueca (samba-cano), joguei a espingarda de lado, segurei as calas e sa correndo de cena. O que devia ser um drama virou comdia. Sucesso involuntrio de pblico. Ainda houve uma terceira tentativa, j ento em Belm, aos 13 anos. Eu tinha papel de destaque na opereta Marcos, o Pescador, dos alunos do colgio do Carmo. Como faltei a um dos ensaios, no teatro do prprio colgio, o diretor da pea, padre Egnio Passos, aplicou como castigo meu rebaixamento no elenco. Passei a recitar uma nica fala, repetida no palco e no auditrio da TV Marajoara, como parte das comemoraes pelo primeiro aniversrio da pioneira da televiso no norte do pas. Assim se encerrou minha breve e acidentada carreira teatral. A famlia nada perdeu com esse desfecho. Pelo contrrio: quem iria fazer as glrias da casa pelas artes de squilo e Shakespeare seria o mais jovem dos Pintos, Paulo Roberto, 16 anos mais novo do que eu. Paulo, que sempre suprimiu o nome indesejadamente acompanhante, foi de encenaes desde a mais tenra idade. Assim como eu, Raimundo, Luiz e Elias praticamente nascemos em redao de jornal (papai teve o dele, em Santarm, entre 1950 e 1954, depois de ser editor e secretrio do mais duradouro, O Jornal de Santarm ), Paulo veio ao mundo ator, diretor, teatrlogo, cengrafo, gurinista e em quantas outras funes haja. E nunca mais deixou o teatro. Em datas sucessivas, completou 50 anos de vida, 26 de teatro prossional e 18 como criador e dirigente do seu prprio grupo teatral, o Pessoal do Faroeste. No em Belm, mas em So Paulo. No sob o aparato convencional dos espetculos cnicos, mas como um reconstrutor de tradies marginais na capital paulista tanto no palco quanto nas ruas. Sua companhia se instalou e funciona durante essas quase duas dcadas num local ainda estigmatizado e temido: a cracolndia. O nome, obviamente, vem da concentrao de usurios de droga nas cercanias. Paulo no se intimidou: desenvolve trabalho de socializao e motivao que lhe rendeu reconhecimento institucional e o posto de conselheiro da ouvidoria estadual. Numa obra que j se estende por vrias peas, Paulo foi buscar o passado dessa parte da cidade demarcada pelas estaes ferrovirias, a praa da Luz, o bairro judeu, o comrcio popular e as histrias da Boca do Lixo, em torno da qual se desenvolveu a cinematograa mais autenticamente paulistana. A dramaturgia de Paulo Faria penetra nos mundos dos negros, dos msicos, das atrizes, dos cabars e das pelculas erticas e porns, atenta condio humana dos seus personagens. Desde o ano passado Paulo encena mais uma pea que escreveu, desta vez dedicada ao irmo e padrinho. Quis denunciar aos paulistas as perseguies que sofro por praticar um jor nalismo comprometido com a verdade. um testemunho cativante para mim. Tambm emociona no segundo ato, dedicado agonia da nossa me no seu rosrio de sofrimentos causados pelo Alzheimer. Quase sempre, todos os espectadores choram. emocionante. Todos ns somos pessoas com uma marca, a da inquietao. Ela nos atormenta e liberta, nos vence e nos conforta. Paulo deu a esse sentimento comum a sua melhor expresso, a do teatro. Tinha que ser ele, o Benjamin de Elias e Iraci Pinto.vez em quando, a humanidade faz a si mesma, s pra lembrar que, apesar de tudo, o ser humano ainda pode se tornar um animal humanamente vivel. II Patrulheiros Toddy Tambm diferentemente do que diz a Memria do Cotidiano do JP 600, o Patrulheiros Toddy no era um seriado nacional. Era um enlatado americano. Mais especicamente, o Tales of the Texas Rangers que, no Brasil, passou a se chamar Patrulheiros do Oeste, exibido pela Rede Tupi (em Belm, TV Marajoara). Em quadrinhos, as aventuras dos patrulheiros apareciam no gibi Reis do Faroeste, da EBAL (Editora Brasil-Amrica). Na TV, o patrocnio era do achocolatado Toddy, que acabou rebatizando a srie. O patrocinador tinha uma poltica agressiva pra arrebanhar consumidores para o seu produto, com base no sucesso do seriado. Quem juntasse 8 gurinhas diferentes, das que vinham em todas as embalagens Toddy, podia trocar por uma estrela de Patrulheiro Toddy, igual estrela de xerife (e dos Texas Rangers). De quebra, ainda concorria ao sorteio mensal de um uniforme completo de patrulheiro, semelhante ao unifor me da fora policial texana: chapu de cowboy, leno de pescoo, camisa manga comprida, um par de luvas, cala comprida, cinto cartucheira e revolver de espoleta num coldre de courvim. Todos os meses eram sorteados milhares de uniformes em todo o Brasil, e as mes dos sorteados ganhavam uma panela de presso, no mais puro estilo rainha do lar com avental todo sujo de ovo... E os Patrulheiros Toddy ainda tinham um hino, que era tocado na abertura de cada episdio: Ns somos os Patrulheiros Toddy, / a lei juramos defender, / sempre ao lado da justia / iremos combater. / Somos os Patrulheiros Toddy, / somos fortes e valentes. / Defendemos nossa ptria, nossa gente / orgulhosos e contentes. Um hino patritico fazendo propaganda de dois produtos estrangeiros (o que no deve causar espanto, num pas pirado como o nosso...). Elias Tavares MINHA RESPOSTA O conhecimento enciclopdico do Elias a servio de uma memria mais aada. Obrigado.

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A era de ouro do rdio a mais bela brasileiraElias Tavares me mandou, junto com a carta, publicada na seo competente, um texto que Francisco Simes (Retrato Falado) postou no seu blog. valioso testemunho sobre a era de ouro do rdio, tanto no mundo quanto no Brasil e no Par. E sobre uma das mais belas brasileiras, a amazonense Terezinha Morango, quando por aqui passou. Retirei do artigo apenas as partes no diretamente relacionadas ao tema.Hoje resolvi mergulhar no tempo, mergulhar fundo no meu passado. Gosto de recordar, pois dizem que recordar viver, e ento, vivamos. Estarei recuando at o ano de 1954, ou 1955, esta a nica dvida que tenho quanto a esta foto. Acredito que todos me identicaro nela. Apesar dos anos no est to difcil assim. minha direita, ou esquer da de quem olha a foto, est o grande prossional, meu ento colega e chefe de equipe, na nossa Rdio Marajoara, em Belm do Par, Corra de Arajo. A seguir falarei dele. minha esquerda, direita de quem olha a foto, uma jovem muito bonita que nos visitava. Ela acabara de ser eleita Miss Brasil. Quem pode dizer o nome dela? Os da antiga guarda, sim, porque velha soa meio depreciativo a essa altura, ora, certamente identicaro, na linda gura feminina, a nossa Terezinha Morango. Pelo que um bom amigo me falou outro dia, ela deve morar ali nas proximidades do Jardim de Al. Se ele estiver certo ela uma quase vizinha, pois no Rio tenho apartamento em Ipanema, tambm prximo ao mesmo local. Com toda a convico lhes digo que ela foi uma das mais bonitas Miss Brasil que tivemos. O concurso era or ganizado e apresentado pelos Dirios Associados, aos quais pertencia a Rdio Marajoara em que eu trabalhava. Era costume a nova Miss Brasil visitar vrios Estados, aps sua eleio. A foto mostra um dos momentos da visita dela nossa rdio. Estamos exatamente no palco, vazio, numa tarde festiva para ns. Est tambm na foto um outro companheiro de nossa equipe de locutores. Corra de Arajo era excelente locutor e rdio ator. No nal dos anos cinquenta ele veio para a Rdio Tupi, no Rio de Janeiro e, pelo seu talento, acabou sendo eleito, por cinco anos consecutivos, o melhor locutor do rdio carioca, naquela poca. O ttulo era muito honroso e tinha muito valor. Corra o mereceu. Vou lhes contar um fato que tem a ver com ele. Certo dia estvamos, eu e o Clodomir Colino, no auditrio da rdio, a recepcionar muitos estudantes que nos visitavam e que eram de Manaus, terra natal do nosso bravo Corra. Conversvamos alegremente quando surgiu no palco justamente o nosso chefe de locuo. Vrios meninos comearam a falar: Olha l o Bab... Olha l o Bab... Fomos tomados de susto e de sur presa. Bab ??!! Mas como, devia ser engano. Corra sempre foi muito vaidoso, no bom sentido, claro, se vestia bem, e sabia do prestgio que desfrutava junto galera feminina. Mas ns o conhecamos apenas por Corra de Arajo. Foi a que um dos estudantes fez a declarao terrvel: U, vocs no sabem? O primeiro nome dele ... Sebastio! Da o apelido de Bab.... Pois ns no sabamos mesmo. Ele sempre escondera isso de todos, at da folha do ponto... J imaginaram, no? Foi um prato cheio. Comentamos com outros colegas da equipe e cou combinado fazermos uma brincadeira com ele. Nos reunimos e fomos at o bom amigo. Olhando para ele falamos em coro: E a, Bab, tudo bem??... Corra fechou a cara e no gostou nem um pouco daquilo. Queria saber que histria era aquela e acabamos por lhe revelar o que a ns havia sido transmitido pelos seus conterrneos. Ele desmoronou, mas no perdeu a classe, nem a pose. Acabou rendendo-se ao riso, mas no sem antes nos mandar ir para... olhem, nem me lembro, s sei que era um lugar bem distante!! Corra faleceu j h alguns anos no Rio de Janeiro. Era um excelente profissional, dos melhores que conheci, e chegou a apresentar jor nais televisivos durante algum tempo. Nestas palavras minha sincera homenagem ao amigo, colega, chefe, ao profissional do melhor gabarito que o rdio brasileiro j teve. A minha trajetria est contida na minha biograa tanto no meu site pessoal como em outros para os quais escrevo. Em 1957 assumi funes no Banco do Brasil, l em Belm, minha terra natal e cerca de um ano aps acabei tendo que desistir do rdio. Senti muito, pois era uma das paixes de minha vida, com certeza. O BB, entretanto, me oferecia melhor salrio, uma carreira que acabou sendo vitoriosa, posso dizer assim, e onde s fui bancrio de agncia nos dois primeiros anos. Este o retrato falado daquele agrante acima que parou no tempo um momento realmente de muita alegria, de muita felicidade, da minha vida, da minha juventude. Tive a grande honra de conhecer pessoalmente, por alguns minutos, a linda Miss Brasil, Terezinha Morango. Gostaria que ela visse esta foto, mas no sei se isto acontecer. De qualquer forma ca registrado este momento que me proporcionou tambm contar rpidas histrias e, ademais, recordar viver...