Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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BELO MONTE INVIVEL POLTICOS CONTRA IMPRENSA o a Como seria se o Par se tornasse independente e constitusse uma nao? Como seria se toda a Amaznia o acompanhasse nessa aventura? Teriam condies de viver dessa forma? Viveriam melhor ou pior do que dentro da federao brasileira? Essas perguntas so feitas h muito tempo, mais do que se costuma imaginar, mas no encontraram ainda respostas satisfatrias. Nem mesmo costumam ser formuladas abertamente. A federao uma clusula ptrea da constituio federal. No pde ser tocada pelos constituintes de 1988, por ser um pressuposto da unidade nacional. No entanto, a dimenso continental da Amaznia e certos componentes comuns aos seus Estados, em torno de sua condio colonial, como fronteira das deliberaes nacionais superiores, devia tornar o exerccio dessa hiptese uma prtica comum. evidente a insucincia da forma federativa de organizao do Brasil para as suas regies dominadas. Qual a alternativa essa molFEDERAOPor que no sem ela?A forma federativa de organizao do Brasil cada vez mais questionada, embora seja uma condio imposta a todos pela constituio federal. Ela no consegue impedir o agravamento das desigualdades regionais num pas de dimenso continental, como o nosso. O que fazer ento?

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3 2 dura constitucional, capaz de evitar de fato a permanncia e o crescimento das disparidades inter-regionais? Com o propsito de estimular essa indispensvel reexo, reproduzo a seguir dois textos. O primeiro est circulando pela internet como provocao insubmisso dos brasileiros. O segundo um texto que publiquei em 1981 no meu Informe Amaznico an tepassado deste jornal que s durou 12 nmeros. Espero que consigam atrair o interesse e a participao dos leitores. UM ESTADO PARASITRIO Na aula de hoje vamos aprender matemtica! Qual o produto da operao onde temos 26 Estados somados a um parasita? O resultado uma Unio Sem-Futuro! Ensine esse clculo quele seu amigo que adora passar vergonha fazendo propaganda da Unio SemFuturo e diz que isso ser patriota. Qual o remdio para a cura do parasita? O remdio se chama direito de secesso, ou direito de autodeter minao dos povos, que um direito internacional reconhecido pela ONU, mas internamente respeitado apenas por alguns pases que so verdadeiramente democrticos e livres, e ignorado pelos pases de regimes autoritrios disfarados de democracia. A constituio federal brasileira reconhece o direito de autodeterminao dos povos no seu artigo 4 inciso III, mas apenas internacionalmente, e no dentro do seu prprio territrio. Isso mesmo que voc leu! Existe um direito expresso na constituio de 1988 que reconhecido somente para quem no mora no Brasil, e vedado para quem mora aqui. No inacreditvel? Parasitas no so bobos, ele no criaria uma constituio que pudesse cessar o seu parasitismo no futuro. comum muitas pessoas acharem que secesso dos Estados-membros um tema inconstitucional devido ao artigo 60 pargrafo 4 inciso I que clusula ptrea e diz: 4 No ser objeto de deliberao a proposta de emenda tendente a abolir: I a forma federativa de Estado; Entretanto, o que esse inciso quer dizer que o pas no pode deixar de ser uma federao para se transfor mar em um Estado unitrio, acabando com autonomia dos Estados-membros. Nada tem a ver com o formato do pas. A secesso no viola esse inciso, j que o desmembramento de um estado no altera a forma de Estado da Repblica Federativa do Brasil, pois ele continua sendo uma federao. Por mais que voc ame o seu pas, ningum tem o direito de obrigar os outros Estados a permanecerem dentro dele, muito menos a am-lo. O direito de secesso a evoluo e o amadurecimento da democracia. Atualmente temos muitos Estados no mundo, mas nem todos so Estados-Nao. S respeitando o autodeterminismo dos povos que essas naes podero brotar com seus prprios smbolos e hinos, se desvencilhando do formato poltico-territorial denido pelos tiranos e ditadores do passado mediante guerras e mortes que ignoravam a vontade popular. Na era da democracia, nenhum Estado-membro pode ser obrigado a permanecer parte da Unio e ser privado do direito de se autogovernar. Como aplicar o remdio para a cura do parasita? O parasita colocou a expresso unio indissolvel no primeiro artigo da CF. Para remover esse texto necessrio proposta de emenda constitucional iniciada por: 1/3 dos membros da Cmara ou do Senado; do presidente da repblica; ou de mais da metade das Assembleias Legislativas, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Caso o STF insista na ideia de inconstitucionalidade da PEC, a preciso partir rumo a uma nova Constituio. Ento necessrio pressionar os deputados federais e senadores do seu Estado para que eles deem incio PEC. Para entrar em contato com os deputados federais, acesse: http:// www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco/fale-com-o-deputado Para entrar em contato com os senadores, acesso: http://www25. senado.leg.br/web/senadores. Mas no se esquea, contar com a boa vontade do prprio parasita para resolver o problema seria ingnuo. O maior prejudicado com a descentralizao seriam eles mesmos, e bvio que os deputados federais e senadores, como no so representantes do povo e sim representantes dos seus prprios interesses, iro ignorar o tema o tanto quanto puderem. Por esse motivo, alm da presso interna que deve-se fazer em Braslia, preciso uma fora externa, e para isso necessrio pressionar as Assembleias Legislativas estaduais para atuarem em favor da causa, realizar plebiscitos populares e buscar reconhecimento inter nacional da soberania do novo Estado independente. Apoie os movimentos que pedem pelo reconhecimento do direito de secesso: Movimento O Sul o Meu Pas Movimento So Paulo Independente Movimento Repblica de So Paulo So Paulo Livre O Rio Grande o MEU PAS Meu Pas o Rio Grande Republica Rio Grandense, meu pago Frente de Libertao da Repblica Catarinense FLRC O Rio o Meu Pas Movimento Nordeste Independente GEAPI Grupo de Estudo e Avaliao Pernambuco IndependenteGUERRA DECLARADA NO PARIrredentismo: movimento nacional que tem por nalidade a recuperao de territrios anteriormente possudos. Baseia-se no princpio da nacionalidade e supe a identicao da nao com o Estado. Na vspera da ltima visita feita ao Estado pelo senador Jarbas Passarinho, em janeiro [de 1981], o Par se apresentava irredento. As empresas ameaavam parar as suas atividades durante um dia, em protesto contra a anunciada rediviso do Estado. Os empresrios se mobilizavam para realizar passeatas em praa pblica, toques de sirene soariam em todas as fbricas, dobrados de sinos nas igrejas. Um dos mais respeitados intelectuais da terra divulgara um manifesto neocabano, lembrando a revolta popular de 1835. Atendendo sua conclamao, hordas de cabanos espirituais se ofereciam ao embate contra a tirania do governo federal. Sentindo o ambiente, o senador Passarinho disse aos seus superiores em Braslia que o Par se encontrava ir redento. A expresso foi cunhada com o cuidado etimolgico prprio de Passarinho, porm, talvez, a expresso no expresse rigorosamente a verdade. Faltaria, para caracterizar o irredentismo paraense, a identicao da nao com o Estado. Hoje, o Estado se declara ele prprio a nao, reduzindo-a a gura de retrica, muito usada nos parlamentos e s a. Os paraenses, ademais, no querem recuperar territrio algum: simplesmente no desejam perd-lo.VORACIDADE ANTIGAA possibilidade dessa perda sentida h muito tempo, antes mesmo de comearem a circular notcias sobre o desmembramento de parte do Par para a criao de um territrio federal, o de Carajs, e de um Estado, o de Tocantins. Na verdade, a primeira perda territorial do Par, na fase republicana, aconteceu em 1943, com a criao do Territrio Federal do Amap, que comeu expressiva parcela de terras a nor deste do Estado. Vivia-se o Estado Novo e, autossuciente, o governo federal no fez consulta alguma ao Estado, nem o indenizou pela perda, apesar do antecedente amazonense: em 1910, o governo do Amazonas contratou Rui Barbosa para que ele conseguisse indenizao da Unio pelo desmembramento do territrio que hoje constitui o Estado do Acre. Em 1954, o Supremo Tribunal Federal mandou a Unio pagar a indenizao ao Amazonas. O Par, no entanto, no reclamou pela perda. Tambm no protestou quando, em 1971, atravs de um simples decreto-lei, a Unio assumiu o domnio de uma faixa de terras de 100 quilmetros de cada lado das estradas que estivesse construindo, fosse construir ou apenas tivesse projetado na Amaznia. Graas a esse dispositivo, o representante fundirio da Unio, o Incra, se tornou o administrador de 65% das terras devolutas que antes pertenciam ao Estado. Desde ento o Par no deixou de acumular rancores e de reclamar do tratamento discricionrio e discriminatrio que a Unio lhe dispensa. Num artigo de jornal, o advogado Octvio Meira, integrante de uma tradicional famlia local, foi mais atrs no tempo nesse queixume. Ele mostrou que o Par sempre foi tratado como colnia do poder central, mesmo aps a proclamao da independncia ou a instaurao da repblica. O governo central sufocou o cultivo de cana de acar ao proibir a instalao de usinas. Depois, promoveu a transferncia dos cafezais para o sul do pas, impedindo que eles voltassem regio de origem. Fenmeno semelhante ocorreu com o cacau, planta nativa da qual o Par foi grande produtor at o incio do sculo XIX, e com a borracha. O procedimento se repete at os nossos dias com a juta, boicotada pelas autoridades federais, que preferem autorizar a importao da bra asitica antes mesmo de se caracterizar uma falta de oferta interna. Mesmo sem essa dimenso histrica, os empresrios paraenses, juntando exemplos mais contemporneos, chegaram concluso de que a Unio vem sugando as riquezas do Estado sem dar-lhe compensaes. Ao contrrio, sempre que pode prejudica os seus interesses, favorecendo Estados Vizinhos competidores. Chegou a hora de reunirmos todas as lideranas e irmos para as ruas promover algo estrepitoso. No podemos mais esperar, proclamou, uma semana antes da chegada de Passarinho, o presidente do Centro das Indstrias do Par, Irapuan Sales Filho. A pacincia dos empresrios pode ter acabado. No mais adianta expedir telex, elaborar documentos, enviar delegaes a Braslia, porque s temos sido embromados e o Par espoliado, sentenciou o presidente do Clube de Diretores Lojistas, Jos do Egito Soares. Sua irritao, como a dos demais industriais que participaram de sucessivos encontros nos dois primeiros meses do ano, chegou ao pice com o anncio, sem endosso ocial, mas tambm sem desmentido, do desmembramento do sul do Par para a criao do territrio de Carajs e do Estado do Tocantins.INTERESSES ESCUSOSA federalizao da provncia mineral de Carajs atenderia ao interesse de Braslia de ter absoluto controle sobre uma rea excepcionalmente rica em minrios, cuja explorao econmica, feita sob a liderana de multinacionais, exigir investimentos superiores a 30 bilhes de dlares. J o Estado do Tocantins concretizaria uma antiga aspirao de parte da populao goiana. Mas ambos os projetos estariam prestes a se viabilizar por causa dos interesses poltico-eleitorais do governo. Transformando os atuais territrios em Estados, criando mais um territrio e um novo Estado, o governo conseguiria, na regio nor te (onde a votao ainda feita sob cabresto), tirar de uma populao de nove milhes de habitantes uma representao poltica com 21 senadores e 64 deputados federais. So Paulo, reduto poltico oposicionista, com populao duas vezes maior, s teria trs senadores e 57 deputados. Mas no era s a ameaa da perda do l-mignon mineral que irritava os paraenses. A indignao vinha crescendo desde que o governo federal decidiu construir uma extensa e problemtica ferrovia, de quase 900 quilmetros, para escoar a produo de ferro de Carajs at o litoral maranhense. Os paraenses entendiam que essa deciso tambm era produto de inconfessveis interesses polticos federais para favorecer o Maranho, que se sobrepunham soluo natural, o escoamento do minrio por via uvial at o litoral do Par. Aos olhos dos paraenses, esse tem sido o comportamento padro do go-

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5 4 verno federal: sempre que a deciso depende dele, o Par prejudicado. Isso ocorreu em relao s terras devolutas, em Carajs, no Trombetas, em Tucuru, em Serra Pelada. Em todos esses locais, projetos e questes, prevaleceu uma atitude colonial imperialista dos centros decisrios nacionais para com a regio, diz o economista Armando Mendes, autor do neocabanismo. Trata-se de uma proposta visando combater o neocolonialismo. Mas ao propor o Movimento Cabano, Armando tratou de ressaltar: No se trata de pegar em armas, nem os movimentos armados expresso, seno, num momento crtico insupervel, as insatisfaes acumuladas. Essa nova cabanagem teria mais um sentido reivindicatrio e de alerta: preciso que os tomadores de decises, frequentemente ocultos, tomem conscincia das insatisfaes, das revoltas, da indignao que comea a atingfir ponto perigoso de ebulio. Coerente com essa proposta, Ar mando Mendes sugere alguns pontos de convergncia para uma plataforma do movimento: mais benefcios para os Estados mineradores, que deveriam receber maior alquota do IUM (Imposto nico sobre Minerais), obstculos criao de territrios federais, de estudos e projetos federais, maior consulta nao antes de decises executivas, etc. Em torno dessa plataforma adeririam como, de fato, aderiram os empresrios locais, que logo tomaram como sua a bandeira da neocabanagem. Armando, crtico inconstante da poltica amaznica do governo, combinando afastamentos e aproximaes, achou por bem fazer uma ressalva pessoal. Lembrou aos que o leriam que, embora fazendo remendos ao modelo amaznico em aplicao na regio, no significa que, se dependesse de mim, o modelo adotado seria o que est sendo seguido. Ao contrrio, acrescenta ele, o9s que me tm lido e entendido sabem que minha proposta bastante diferente. Mas, diante da situao que est criada na Amaznia, ele diz que s h duas atitudes: ou cruzar os braos, por entender intil, suprfluo ou absurdo qualquer engajamento na luta, ou, ao contrrio, embora repudiando certos fundamentos do que se fez, tentar contribuir para extrair do irreversvel (nas circunstncias concretas), aquele mnimo de benefcios pelos quais vale a pena lutar.DILEMA REGIONALEsse dilema no um conito exclusivo e pessoal de Armando Mendes, expresso, alis, em sua prpria carreira: foi presidente do Banco de Crdito da Amaznia e homem maldito para o sistema, que hoje o aceita no Conselho Federal de Educao. Vivendo em uma imensa regio, que, em grande parte da sua histria, este desligada do resto do pas, constituindo um mundo par te, os amaznidas tendem a encar-la como uma autarquia, que deveria seguir seu curso autonomamente. Por isso, acreditam num projeto especificamente amaznico, que no teria que passar pelo projeto nacional para existir. Para os crticos do atual modelo, seria como construir um socialismo amaznico dentro de um capitalismo brasileiro, uma contradio que s malabarismos intelectuais so capazes de solucionar. No se trata, como alguns analistas mais apressados podem deduzir, de m f deliberada ou covardia congnita. Outros povos, em outras pocas, viveram inibio semelhante pela incapacidade de situar o regional na dimenso nacional, sem se desviar para o cosmopolitismo falso, mas tambm sem se reduzir a um regionalismo obtuso. A Amaznia no caso singular, mesmo com sua irrecusvel especificidade. Basta lembrar a questo meridional, entre o norte industrializado e o sul pobre da Itlia, como um antecedente j exaustivamente estudado. Ou reconstituir a evoluo histrica da Amaznia, no como o produto de uma insacivel conspirao do governo central, mas fruto de complexas relaes nacionais e internacionais. Apesar da (m) vontade do poder central ser um componente a considerar quando se examina a subordinao da regio, a Amaznia no uma ilha. Encaixada num conjunto de interesses e determinaes, s vezes superiores s da vontade nacional, ela sofre as consequncias dessas injunes. Reivindicar participao nos seus prprios destinos, escolher o que lhe parece ser melhor, aspirar a relaes mais harmoniosas so reivindicaes antigas, reconhecidas at por membros dos vrios sistemas dominantes que atravessaram a histria. Em 1845, por exemplo, o padre Antonio Vieira, em uma carta dirigida de Belm ao rei de Portugal, de cuja intimidade privada e do qual procurava ser intrprete, reconhecia: Aqui h homens de boa qualidade que podem governar com mais notcia, e tambm com mais temor, e ainda tratem do seu interesse, sempre ser com muito maior moderao, e tudo o que granjearem ficar na terra, com que ela se ir aumentando: e se desfrutarem a liberdade, ser como donos, e no como rendeiros, que o que fazem os que vm de Portugal. Ao encaminharem seus apelos e fazerem seus protestos, esperando com isso atrair a ateno do poder central, de tal forma que, de fonte do mal, ele se transforme em irradiador do bem, os empresrios de hoje no esto indo muito alm do que reivindicava, 330 anos antes, o padre Vieira. Obtendo, talvez, o mesmo resultado. Ou menos: agora no se falam mais nas manifestaes de dois meses atrs, mesmo porque o presidente do Banco da Amaznia, Oziel Carneiro, foi nomeado secretrio-executivo do Programa Grande Carajs. Servidores da Unio custam 230 bilhesO gasto do governo federal com seus servidores sempre tema de polmicas apaixonadas e, em geral, distorcidas, impedindo a constatao da mecnica que funciona como o maior gerador de dcit do sistema. Encontrei uma anlise esclarecedora a respeito, que utiliza dados ociais, divulgados pelo Ministrio do Planejamento e da Fazenda relativos ao ano de 2014. Segundo esses nmeros, a folha de pessoal da Unio possua, em dezembro 2014, quase 1,3 milho de servidores federais ativos (civis, militares e intergovernamentais). Custava ao tesouro nacional mais de R$ 143 bilhes de reais (o equivalente a quase 10 vezes o oramento do Estado do Par, com suas despesas de pessoal, custeio e investimento, para um Estado com mais de oito milhes de habitantes e 1,2 milho de quilmetros quadrados, 10% do territrio nacional). Na mesma data, o exrcito de servidores federais inativos (civis, militares e intergovenamentais) somava exatamente 1.028.563 e exigia do errio R$ 96 bilhes. Assim, o contingente de servidores da Unio de mais de 2,3 milhes de pessoas e custa aos cofres pblicos 230 bilhes de reais, o que signica mais de 17 vezes o oramento total de um Estado responsvel pela produo do principal item da pauta de exportao do Brasil, o minrio de ferro. Tomando por base esses nmeros, o professor Ricardo Bergamini, no seu blog (Ponto Crtico), chegou a duas concluses de nvel primrio ou de primeiro grau: Em dezembro 2014 existia uma relao de 1,26 servidores federais ativos para cada servidor federal inativo (resultado da diviso de 1.294.040 ativos por 1.028.563 inativos). Ele aponta esta como a primeira distoro do servio pblico federal montado atravs de vrias distores e privilgios gerados de longa data. Num regime atuarial nor mal essa relao seria de 5,00. A segunda concluso primria ou de primeiro grau a de que a Unio gastou 67,06% do correspondente aos salrios dos servidores federais ativos com o pagamento dos servidores federais inativos (produto da diviso dos gastos com servidores federais inativos de R$ 96,1 bilhes pelos gastos com servidores federais ativos de R$ 143,3 bilhes). A concluso de Bergamini, sem masturbao mental ideolgica, e de forma incontestvel de que a Unio necessita do correspondente a 67,06% dos gastos com salrios dos servidores ativos para pagar os servidores inativos. Como, em mdia, os servidores federais ativos, inativos e pensionistas contribuem com 11% dos seus salrios para o fundo do Regime Prprio de Previdncia da Unio, cam faltando 56,06% dos gastos correspondentes aos salrios dos servidores federais ativos para fechar a conta da orgia pblica federal, que so pagos pelo Tesouro Nacional (POVO), quando na verdade a parte patronal (Governo) legal para o fundo do Regime Prprio de Previdncia da Unio seria de apenas 22% dos gastos correspondentes aos salrios dos servidores federais ativos Veja abaixo o quadro que o pesquisador montou para demonstrar sua armativa. Esses dados demonstram que o governo, alm da parte patronal legal, de R$ 16 bilhes, teve que cobrir o dcit previdencirio de R$ 66,9 bilhes, totalizando gastos de R$ 82,9 bilhes. Ou seja: na realidade o governo participou com 57,85% (legal e dcit) dos gastos com pessoal ativo e os servidores (ativos e inativos e pensionistas) com 9,21% dos salrios dos ativos para pagamento dos inativos e pensionistas. um peso enorme para o pas. Benefcios Pagos aos Servidores Militares (Reserva, Reforma e Penso). (27,9) Benefcios Pagos aos Servidores Civis da Unio (Aposentadorias e Penses). (68,2) Total de Benefcios Pagos aos Servidores Inativos da Unio. (96,1) Contribuio Patronal (Unio). 16,0 Contribuio dos Servidores Civis Ativos da Unio. 8,2 Contribuio dos Servidores Militares Ativos da Unio. 2,3 Contribuio dos Servidores Inativos da Unio. 2,1 Contribuio dos Servidores Pensionistas da Unio. 0,6 Total de Contribuies Recebidas no RPPS da Unio. 29,2 Total de Dcit Previdencirio Gerado no RPPS da Unio. (66,9)Demonstrativo do RPPS da Unio Fonte MF Base: R$ Bilhes Memria do Cotidiano V OLUME 7NAS BANCAS E LIVRARIA

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7 6 Na justia, polticos contra a imprensaO nmero de aes contra meios de comunicao pedindo retirada de notcias do ar deve aumentar com a proximidade das eleies de 2016. o que indicam especialistas em direito eleitoral e projees com base no Ctrl-X, a ferramenta da Associao Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que mapeia processos judiciais pedindo remoo de contedo. Entre as razes por trs dessa tendncia so indicadas o uso cada vez mais intensivo de redes sociais pelos brasileiros, o aumento do nmero de candidatos e uma persistente tradio autoritria em setores do poder Judicirio. O mapeamento do Ctrl+X mostra que 410 aes pedindo retirada de contedo foram movidas contra meios de comunicao em 2014, ano das ltimas eleies gerais. Delas, 78% eram relacionadas ao pleito. Isso quase o triplo do registrado em 2015 (138 processos), quando no houve disputa, e indica uma exploso no nmero de casos em anos eleitorais. O fato de que haver mais candi datos e mais cargos em disputa em 2016 sugere um aprofundamento dessa tendncia. As aes de 2014 foram registradas num pleito com 26.172 candidaturas. Como o nmero de candida tos 2016 deve se aproximar mais das ltimas eleies municipais (483 mil candidatos), provvel que tenhamos ainda mais processos movidos por candidatos. Certamente haver um cresMarlon Reis, um dos idealizadores da Lei Ficha-Limpa. Ao analisar a tendncia, Reis lembra da crescente preocupao dos polticos com o contedo divulgado em redes sociais. Os candidatos esto temendo mais do que nunca as mdias sociais. Eles tentam neutralizar a informao na fonte para que ela no se espalhe, diz o juiz, que tambm um dos coordenadores do Movimento de Combate Corrupo Eleitoral. Para ele, esse movimento em direo a uma judicializao do debate fruto de uma viso restrita dos limites da liberdade de expresso e uma tradio autoritria em setores do Judicirio. A gente v que basta ter um tom crtico ou um relato mais cido para que o poltico acione a Justia. Nada deveria cercear a liberdade de expresso e de informao, a no ser que essa informao se mostre inverdica. A crescente preocupao dos polticos com as redes sociais vem num contexto de aumento do nmero de usurios de internet, que passaram de 41% para 55% da populao brasileira nos ltimos cinco anos. Mais pessoas postando suas opinies tm despertado mais processos. Tanto que do total de casos pedindo retirada de contedo registrado no Ctr l+X, 60% vieram no de empresas jornalsticas tradicionais, mas de contedo postado por usurios no Google e no Facebook. O advogado Alberto Rollo, especializado em legislao eleitoral, acompanha de perto o aumento na preocupao dos candidatos, mas v o fenmeno com um olhar diferente. atacar candidatos, diz. Ele ressalva que, com o maior acesso rede mundial de computadores, muitas pessoas, at por paixo, acabam escrevendo ataques injustos. Nas emissoras de TV e rdio havia um limite mais apertado. Esse terreno de liberdade na rede social e no YouTube, muitas vezes com um humor que vai alm dos limites, est em construo e vai ainda ter de ser ert, professor associado da FGV-RIO e ex-juiz efetivo no Tribunal Regional Eleitoral. Ao contrrio de Rollo e Reis, cremento no nmero de processos em 2016, mas lembra que a minirreforma eleitoral, aprovada pelo Congresso em setembro, pode contribuir para o aumento no nmero de aes pedindo retirada de contedo. Como as novas regras permitem uma maior exposio dos candidatos antes do vai aparecer mais, o que deve motivar mais pedidos de retirada de contedo, mais processos, detalha Rollo.Em ano eleitoral, as aes contra a imprensa na justia crescem muito, tendncia que est sendo incrementada. Os candidatos reagem a crticas que sofrem, no mais atravs da imprensa tradicional, mas pela internet. o efeito da expanso do universo de internauta, que cresceu de 41% para 55% nos ltimos cinco anos. A Abraji (Associao Brasileira de Jornalismo Investigativo) publicou um relato da pesquisa que faz sistematicamente. uma fonte de informao estimulante para se debater a questo antes que a realizao da prxima eleio, de carter municipal, se torne um fato consumado.Lula, o PT, a democracia e as ameaas totalitriasO leitor que seguir por esta matria pode achar que estou gastando vela boa com defunto ruim. No entanto, acho que a reproduo de dois artigos que escrevi no meu blog, seguidos do debate que provocou, tero a pedaggica funo de revelar, sem disfarce, um dos graves problemas da democracia no Brasil e em todo mundo: a intolerncia crtica, a repulsa ao pensamento independente, o dio razo. Cleber Miranda escreveu dois longos comentrios, a propsito dos artigos sobre Lula, que primam por atacar de forma vil o opositor, por ele cometem o pecado mortal de no ter partido, de procurar analisar com objetividade (mas no com neutralidade) os fatos e de buscar a verdade sem se preocupar em condicion-la a dogmas ou convenincias. Foi seguindo essa diretriz (e as lies rgidas e esquemticas de Plekhanov, que os marxistas arejados j no seguem de h muito) que Trotsky reprimiu o Kronstadt, perseguiu a esquerda dos bolcheviques e criou as condies para que Stlin o expurgasse, abrindo a temporada de caa mortal aos dissidentes, at assassin-lo por controle a distncia. Assim se instaurou o regime do partido nico e da imprensa chapa branca, que petistas como Cleber gostariam de regulamentar, neologismo dos Gulags. A quintessncia da democracia o confronto dos contrrios no plano das ideias, das teses, dos programas, tendo o povo como destinatrio da mensagem, e rbitro da contenda, mas no dono da verdade, que patrimnio difuso da sociedade, bem universal. Para no espichar uma matria que cou enorme, seguem-se os dois momentos desse debate, travado em torno dos dois textos sobre o ex-presidente Lula. Voltarei ao tema se outros leitores aderirem ao debate. I LULA, O ANO Em 1982 os padres franceses Aristides Camio e Franois Gouriou foram julgados em Belm, na Auditoria Militar, por crime contra a segurana nacional. Foram acusados de insuar posseiros para atacar agentes da Polcia Federal e funcionrios do Getat (rgo fundirio do Conselho de Segurana Nacional) que agiam numa rea de conito social e de terras em So Geraldo do Araguaia, no sul do Par. A sesso comeou s oito horas da manh. Os jornalistas que a cobriam foram proibidos de sentar nas cadeiras do auditrio. Depois do intervalo para o almoo, voltaram a acompanhar de p. No incio da noite, a tortura foi suspensa e pudemos, nalmente, sentar. Nesse momento chegou o lder operrio Lus Incio da Silva (o Lula ainda no fora incorporado ocialmente ao seu nome). Por acaso, ele se sentou ao meu lado. Tambm estava muito cansado. Vinha de Manaus e seguiria de madrugada para So Paulo. Ficamos encostados para conversar em voz baixa, como se fssemos dois camaradas. Foi uma excelente conversa. Sete anos ainda o distanciavam da primeira disputa pela presidncia da repblica e ele ainda no passara pela presidncia da repblica. Lula fez a escala em Belm apenas para marcar simbolicamente seu protesto pelo tratamento dado aos dois religiosos, talvez por sugesto do advogado paulista Lus Eduardo Greenhalgh, um dos defensores do padre, e meu amigo dos tempos de estudante em So Paulo. Defendendo pessoas humilhadas e ofendidas, quase sempre ignoradas ou desprezadas pelas autoridades pblicas, os padres foram submetidos a um tribunal de exceo, que s devia tratar de crimes militares. Ontem, Lula prestou depoimento, como testemunha informante (do juzo, portanto, e no das partes) num dos inquritos da Operao Lava-Jato, sobre corrupo na Petrobrs. A sesso foi no prdio da Procuradoria Geral de Justia Militar, em Braslia. Estranho: a ao corre na justia federal em Curitiba e a deciso de intimar Lula a depor foi dada pelo ministro-relator do processo no Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki. Nada tem a ver com a justia militar. o r go acusador, da mesma estrutura judiciria especializada que levou os dois missionrios estrangeiros a responder por crime contra a segurana militar, provocando a repulsa do carismtico lder operrio 33 anos atrs, que agora abrigava o ex-oposiconista. A escolha foi apenas por critrio topogrco. A procuradoria militar ca numa rea erma da capital federal, no setor de embaixadas. A oitiva de Lula foi marcada na noite da vspera pelo veja-se s Ministrio Pblico Federal, o scal da lei. Mas sem que o objetivo do pedido de uma sala fosse declarado. Tudo secreto e arquitetado de tal maneira a livrar Lula da imprensa. Procedimento adotado em outubro do ano passado, quando ele foi ouvido pela primeira vez. Apesar de parecer excessivo e at abusivo, o zelo pela gura do ex-presidente, que deixa de ser o igual previsto pela letra da lei, pode encontrar amparo em algum escaninho das formalidades burocrticas ou cerimonialistas. Mas Lula devia dispensar essa proteo privilegiada, que no foi dispensada a mais ningum (inclusive a um senador no pleno exerccio do seu mandato), como tem que ser, e reagir escolha de uma dependncia da justia militar para servir-lhe de esconderijo. Devia enfrentar a turba da imprensa com altivez e dignidade, mesmo se, no ntimo, se considera vtima de uma conspirao, de um acerto de contas das elites com ele. Ao negar sua histria, que, por narr -la sempre oralmente, se considera no direito de reescrev-la como quer e a todo momento, Lula diminuiu mais um pouco ou um pouco, como diria a legio de zs mans que acreditou nele e o elegeu, mas perde contingente a cada novo dia em que Lus Incio Lula da Silva se parece mais a um fugitivo, no ao combatente que conheci num dia de ultraje democracia, em Belm do Par. Esse Lula no existe mais h muito tempo. O DEBATE Haroldo Lisboa Minha carreira metalrgica foi feita pelas bandas do Sul. Quando sai de Belm, somente havia a Copala na capital, e somente depois resolvi me embrenhar nos tais projetos da nossa Amaznia. Pois bem, conheci o mesmo metalrgico que tu conheceste, era um cara sempre em bicas e que no parava nunca. O mundo d voltas e a, depois de levar borrachadas da vida e dos pulias, eu sai fora de todos os projetos. Mas o lder que conheci e a grande maioria dos companheiros, que dividiam

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9 8 os bandecos, caram bem distantes de tudo. Aprenderam a dar muitos ns nas gravatas e seguiram outro caminho. A ltima vez que o enxerguei, no havia suor algum em seu rosto e, limitado pela distncia, quei a vagar em meus pensamentos. A vida tem disso, n! Ronaldo Passarinho Ontem ao depor na PF de BSB, Lula provou mais uma vez a ausncia de carter, ao atribuir ao seu guru Jos Dirceu a responsabilidade das nomeaes da Petrobras. Sempre disse que ele no recolhe feridos nas batalhas. O no sabia o seu grande escudo para justicar a sua participao, direta ou indireta, na grande quadrilha que despudoradamente assalta, no s os cofres pblicos como tambm a dignidade da Nao. No mais um alento para mim; mesmo atravs do blog rever e reler os textos enxutos do correto jornalista Agenor Garcia. LFP A maior dignidade de um chefe se comportar como chefe, no mesmo, Ronaldo? Ronaldo Passarinho sim, Lcio. Certa vez citaste Napoleo com um modelo de chefe. Sempre frente de seu exrcito jamais abandonou seus liderados. Dignidade deve ser obrigao, no s de quem comanda, mas tambm de comandados. Dignidade no se compra em farmcias; ou se tem ou no se tem. O mais importante quem chea o que quer que seja, estar em paz permanente com a prpria conscincia. LFP Diz a crnica que Napoleo conhecia os seus soldados pelo nome. Foi o primeiro general a ir para a frente de combate. Quando cou no seu acampamento, perdeu em Watterloo. Cleber Miranda O jornalista arma que no tem preferncia poltica deveria ser um pouco mais honesto, deixando claro de que lado efetivamente se coloca. muito fcil criticar Paulo H. Amorim, dizer que ele s fala bem do PT e que parcial. Penso diferente. Acho que ele sincero, el ao que acredita e d a cara pra bater, no se isola numa torre de mar m, no se coloca em um pedestal imaginrio. A verdade que voc um grande covarde, que no assume sua verdadeira inclinao ideolgica, de reacionrio autntico, antipetista, que acha que tem estatura moral para desancar o melhor presidente que esse pais j teve. Nunca li um artigo seu louvando a esquerda brasileira, com Edmilson Rodrigues, ento, uma questo pessoal, creio eu, tamanha a implicncia com o atual psolista. A sua mscara j caiu, jornalista. S idiotas no percebem de que lado voc sempre esteve. A despeito de sua impor tncia, de suas denuncias, etc., acaba se perdendo nesse egocentrismo babaca, seu eglatra imundo. LFP Eis a um retrato sem retoques de uma viso totalitria que criou os Gulags, disfarados de socialismo real, fer mento de tiranias de esquerda, algumas to ou mais violentas do que as de direita. Esse no um debate que me interesse. apenas de ofensas e tentativa de intimidar. Uma vez no poder, sabemos o que pessoas com essa viso fazem. A primeira eliminar a liberdade de expresso. A segunda, os crticos. A terceira, impor um tirano, o partido nico e a imprensa de cabresto. Sugiro ao lho de Leo Naphta a leitura de A Montanha Mgica de omas Mann, no trecho do confronto de Naphta com Ludovico Settembrini. Antes que voc destrate o autor, informo-o de que ele fugiu da Alemanha perseguido pelos nazistas. II LULA, O ISOLADO No depoimento que deu Polcia Federal, no dia 21 de dezembro, o pecuarista Jos Carlos Bumlai admitiu que intermediava demandas para o ex-presidente Lula, com quem passou a ter relaes de amizade em 2002, justamente no ano da quarta e, anal, vitoriosa campanha do candidato do PT presidncia da repblica. Bumlai conversou pessoalmente com Lula vrias vezes, inclusive na residncia de campo da presidncia, a granja do Torto, em Braslia, onde era recebido como hspede, tal a intimidade entre ambos, apesar de relativamente recente. No entanto, quando precisavam de uma conversa direta no presencial, como se diz no jargo das universidades empresariais, Bumlai ligava para o celular da primeira-dama, Marisa Letcia. Lula nunca teve celular. O detalhe revela, mais uma vez, a preocupao do ex-presidente de se isolar de qualquer ao de risco praticada por seus ministros, assessores, correligionrios e amigos, mesmo os de maior conana. Lula um castelo medieval cercado por um fosso largo e profundo, frequentado por animais agressivos em sua defesa. Assim criou uma capa de teon para usar, desse material no qual nada gruda. No seria de tanto estranhar se esse isolamento no fosse utilitrio e no envolvesse tantos interesses de tantas pessoas. Seu efeito foi gerar intermedirios como Bumlai e outros mais, que esto caindo nas malhas da investigao criminal. Com tal intensidade e frequncia que j se espera, para qualquer momento, que as teias da Operao Lava-Jato cheguem, nalmente, ao ex-presidente, vrtice de quase tudo mas invisvel ao olho da lei. No ser fcil. A partir do momento em que se acercou do poder, Lula desenvolveu essa teia de elos e de excluso, um mecanismo estrutural e organizacional, um objeto e uma mecnica. Foram assim as tratativas para lhe conquistar o apoio de partidos conservadores e siolgicos, nitidamente hostis ao PT. Eram necessrios para viabilizar a sua vitria, j ento com a imagem do Lulinha paz e amor, criada pelo hoje proscrito Duda Cavalcante (livre da pena por transferir dlares para uma conta secreta no exterior, amealhados durante essa campanha de marketing). O encontro foi no apartamento funcional do futuro vice-presidente, Jos de Alencar. Ele cava num quarto com Lula enquanto os representantes dos partidos negociavam com Jos Dirceu e outros petistas. Um mensageiro levava informaes e trazia instrues. Nem Lula nem Alencar saram de onde estavam para congraamento com seus novos correligionrios. Evitaram nexos pessoais com a turba do que viria a ser o mensalo, a contrapartida ao apoio que cederam nada gracioso, se veria. Na gravao do documentrio de Joo Moreira Salles sobre Lula essa estratgia se revelou outra vez, naquele mesmo ano de 2002. Quando o candidato percebeu que do dilogo inicialmente spero entre Jos Dirceu e a equipe de apoio da lmagem caminhava para o terreno perigoso das condncias comprometedoras do ento homem mais poderoso do PT, Lula escafedeu-se velozmente do ngulo da cmera. Praticamente fugiu de cena, obrigando Dirceu a encostar mesa a cadeira na qual sentava majestaticamente para abrir espao, por mnimo que fosse, para o seu ainda alhado poltico passar. Dirceu j foi preso duas vezes e continua na cadeia. Lula, no. Sempre foi mais sagaz do que o ex-amigo e ex-correligionrio, que imaginava ser recompensado pela vitria com o ttulo de eminncia parda. Enganou-se, claro. A eminncia parda de Lula Lula, o solitrio. O DEBATE Ricardo Condur muito interessante ver os mais diferentes pontos de vistas dos jornalistas sobre a atuao de Lula. So concluses to dspares que chega a ser inacreditvel. Quem est com a razo? Isso acaba por inuenciar uma gama de leitores vidos por algum respaldo que possa legitimar aquilo em que acreditam e, pelo que vejo, dependendo das anidades ideolgicas, cada um se satisfaz com o que lhe convm. LFP Qual a minha anidade ideolgica? O que me convm? O que omito? O que invento? O que distoro? No escrevo a partir de fatos? Minhas interpretaes no so dedues dos fatos? Minha anlise se baseia neles. Todos podem discordar de mim e assim a sociedade humana. Por isso nenhuma forma de organizao poltica melhor do que a democracia, que admite a liberdade de cada um se expressar e admite a pluralidade de opinies. Mas para um jornalista pecado mortal desnaturar os fatos. o que fao, Ricardo? Francisca Rousselot As informaes dspares referentes ao nosso ex-Presidente alinham-se a aes igualmente dspares tanto dele como de quaisquer outros polticos no poder. E vidente que essas abundantes disparidades polticas devem ser mostrada aos cidados exatamente como elas so. Nunca percebi nenhuma anidade ideolgica do jornalista Lcio Flavio Pinto diante desse ou daquele poltico. No este o seu papel. O que ocorre, atualmente, em nosso pas a tal ditadura do pensamento nico, algo que j foi brilhantemente evocado por uma das leitoras do Lcio, a Marly, se no me engano. Se a liberdade de expresso signica evoluo do pensamento humano, ser que teramos que engessar todas as nossas diferentes anlises? A pluralidade de pensamento, de acordo com o Lucio, necessria at porque tentamos a cada dia polir as arestas do que chamamos de democracia. E esta s pode avanar a partir de certas diversidades, seno no seria democracia. Atualmente, percebo que a intolerncia sempre vem tona a cada vez que Lula criticado. Parece que todos tm que elogi-lo e se isto no for feito seremos automaticamente enquadrados nos partidos centristas e assim por diante. Ou ainda, querem que nos sintamos culpados, porque s criticamos o PT e no outros partidos. Pois bem, quero dizer com isto que o Partido do Trabalhadores perdeu a grande ocasio de ser e de agir diferentemente dos outros partidos, e de realmente representar os trabalhadores. Retirar conquistas trabalhistas adquiridas a duras penas foi uma grande aberrao e entre outras coisas. Muitos dos simpatizantes e componentes do partido se mostraram solidrios a cada vez que uma falcatrua vinha a pblico. Esta mesma solidariedade no se manifestou quando foi necessrio cobrar posturas entre eles e nem zelar pela idoneidade do partido. Parecia que acober tar tudo era a regra e com ela instaurouse o estrangulamento da liberdade de expresso, algo que j existia no regime ditatorial. Em tempos atuais, viver essa carncia de expresso diversicada um suicdio social. O atual contexto de crise tem origem nesse abafamento de ideias. Ningum quer se sentir acuado ou ameaado de morte por ter expressado um pensamento crtico que contraria a ala petista. Mas ser que ainda necessrio silenciar mais do que antes? No foi o Partido dos Trabalhadoras que denunciava, que exigia transparncia dos governos anteriores e que treinou uma gerao inteira a exigir direitos sejam eles quais fossem? O que houve com esta gerao? Onde eles esto? O que houve com o partido? J imaginaram se esta gerao treinada pelo Partido dos Trabalhadores tivesse ido frequentemente s ruas para reivindicar seus direitos? No seria realmente uma grande vitria tanto para um como para o outro? As conquistas obtidas pelos trabalhadores atravs de manifestaes sociais seriam um trunfo importante para o partido. O companheirismo ou o companheiro evaporou-se ao chegar no poder e assim o Partido e os trabalhadores se mutilam. Cleber Miranda Discordo da viso da leitora acima, sobre os procedimentos do PT e seus simpatizantes. Quero deixar uma coisa bem clara: acho que ningum incriticvel; ningum pode se arrogar esse privilgio. Outra coisa que considero importante ressaltar: anidade ideolgica. Sou petista; acho que desde meus 17 anos e como tenho 37, j so 20 anos de lulo-petismo. E tenho muito orgulho de ser petista.Gostaria que entendessem esse sentimento (orgulho) na acepo positiva do termo. Dito isto, vamos ao essencial. Nunca cerceamos a liberdade de quem quer que seja. Desao voc e o titular do blog a apresentarem elementos com base consistente para armarem tal coisa. No tente nos igualar ao PSDB, PMDB e aos demais partidos de direita. Isso no possvel, por mais que nos esforcemos para tanto. Mas isso no impede que cometamos erros. E quem no os comete? Assim como no existe ser humano per feito, tampouco existiro instituies per feitas. Partidos so associaes de pessoas com interesses nem sempre eticamente legtimos e/ou tolerveis. Me apontem governos e administraes petistas que tenham agido com violncia, truculncia ou intimidao, como Aecio Neves contra membros da imprensa mineira, o que do conhecimento at do reino mineral, ou Jaime Lerner em 1999 (se no me engano) contra os sem-terra no Paran, Beto Richa no mesmo Estado contra os professores, Alckimin, Serra em So Paulo, para car em poucos exemplos. O que nos incomoda, a ns do PT, a parcialidade das vises e anlises da mdia gorda sobre o PT, tanto em relao aos dirigentes quanto aos correligionrios do partido. Figuras de relevo do par tido criticaram e criticam abertamente o governo federal, o presidente Lula e Dilma, nossa atual presidente; todos podem criticar vontade. Tenho vrias crticas e restries a fazer ao nosso governo e ao PT, desde nomeaes bizarras de guras nefastas como Nelson Jobim, Ktia Abreu, que temos que engolir por conta da tal governabilidade, a no-regulao da mdia e a principal crtica, na minha opinio: o fato de que, passados 13 anos, no conseguimos emplacar nenhuma reforma signicativa, seja reforma poltica (a principal), agrria, tributria, etc. E muitos outros poderiam ser elencados. Mas quando entendemos que h imparcialidade, injustia, vilania, vieses tendenciosos, distorcidos na anlise de determinadas questes, sejam elas de que espcie, natureza ou reas e esferas de atuao do poder forem, quando no concordarmos, faremos a crtica da critica, por assim dizer, no calaremos, no silenciaremos em hiptese alguma. E isso no intolerncia. Essa no a nossa marca, nunca foi e nunca ser, quero crer. Intolerncia o que vericamos desde o nal das eleies 2014 para presidente da Repblica, por parte dos antipetistas, numa ao orquestrada da esmagadora maioria da oposio congressual, membros do MPF, a quase totalidade do Judicirio brasileiro, a banda podre da PF, alm, claro, do maior partido oposicionista, o PIG. Isso sim intolerncia. Lula, Dilma e o PT podem ser criticados, todos podem ser criticados. Agora, car iner te, ignorar e silenciar quanto a injustias, podem esquecer, voc e Lucio Flavio Pinto, ou quem quer que seja. Soubemos perder em 89, 94 e 98; que eu me lembre, nunca questionamos o resultado das ur nas, nunca quisemos o terceiro turno. Se acham que aceitaremos pacca, cndida

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11 10 e passivamente aes e procedimentos eivados de canalhice, cafajestice e mau caratismo como aqueles impetrados por Folha, Estado de So Paulo, Organizaes Globo, revistas Veja e poca, com mentiras descaradas e criminosas sobre o ex-presidente e seu lho, afastem essa ideia de suas mentes. E usaremos os canais onde podemos ser ouvidos e vistos, notadamente os blogueiros sujos, para citar uma infeliz denominao dada pelo privatista e entreguista Jos Serra, um dos dolos dos reacionrios de ontem, hoje e sempre. Paulo Henrique Amorim, Fernando Brito (Tijolao), Paulo e Kiko Nogueira (DCM) e outros prossionais tambm criticam Lula, Dilma e o PT, sem esconder suas inclinaes ideolgico-poltico -partidrias; inclusive agora Dilma absorve uma saraivada de crticas por uma ridcula, intil e desnecessria mensagem de m de ano em artigo na famigerada Folha de So Paulo. Agora, brigar com a realidade o que nem ns faremos, nem eles, se isso que desejam. E eu co a pensar quando que alcanaremos um nvel pelo menos razovel de politizao na sociedade brasileira. No seriamos to inuenciados assim, com certeza, como se verica aqui no Brasil, pais onde 60% da populao (para ser otimista) constituem-se em analfabetos polticos, que o mais grave tipo de analfabetismo pior do que o funcional e o literal. Sabemos perfeitamente que se depender dessa mdia corrupta, seletiva e que pratica o jor nalismo canalha, da parte que cabe a eles nesse processo, isso jamais acontecer. O incrvel vericarmos que indivduos que poderiam contribuir para o recrudescimento disso preferem fazer coro, dando vazo, nfase e incentivando at a perpetuao dessa calamitosa realidade. Outra coisa: no acuamos, intimidamos e muito menos ameaamos ningum de morte. Isso ca para os Aecios Neves, Jair Bolsonaros, Betos Richas ou Eduar dos Cunhas da vida, esse ltimo gura singular, que chantageia uma presidente da Repblica em rede nacional. Por acaso no devemos nos insurgir contra isso? Devemos, sim. Temos o direito, o dever, a obrigao, a necessidade e a responsabilidade de agir assim, pois assim a nossa conscincia nos alerta. Poderamos estar realmente discutindo os assuntos mais prementes e relevantes para o nosso pas, em todas as suas perspectivas e expectativas, mas o que predomina a anlise rasteira, supercial, mal elaborada, mesquinha e reacionria, alm de absurdamente parcial e seletiva. A parcialidade do titular desse blog, LFP, por exemplo, foi ressaltada h pouco tempo atrs por Benedito Carvalho Filho no prprio Jor nal Pessoal. Acho que ele foi ameno, at, na sua anlise, por ser seu amigo. Eu no sou seu amigo, nem inimigo, apenas um simples leitor ocasional de sua publicao quinzenal. E aqui venho pedir publicamente desculpas ao jornalista pelo tom veemente com o qual me expressei em um comentrio anterior, no post Lula, o ano. Veja bem: pela veemncia. Talvez aquela palavra imundo tenha sido mal colocada, e nisso que estou falando no h nenhuma falsidade, nem querendo fazer mdia estou. Mas a essncia deixo intocada: penso aquilo mesmo.Acho sinceramente que voc, Lcio, um covarde ao no assumir sua preferncia poltica, sua inclinao ideolgica ou partidria, ou pelo menos o antipetismo que viceja, transborda e ui abundantemente de seus artigos inamados. Ofendi voc, caro Lucio? Creio que no. opinio corrente entre vrias pessoas que o jornalista um indivduo eglatra, como bem colocou um ex-secretrio de Economia do Estado, que conheci brevemente; ou que se acha acima do bem e do mal, como deniu com muita acuidade um amigo meu, veterano pesquisador do Museu Emlio Goeldi; no digo seus nomes porque no os consultei a respeito e, alis, algo desnecessrio, creio eu. Tu armas que no leva para o lado pessoal, mas pura demagogia. Na ver dade Lcio, um comentrio do blog do Barata, acho que de 2009, quando desmentias que recebesse aposentadoria da UFPA, sintetiza perfeitamente esse seu modo de agir.Dizia assim: Lucio (ou pelo menos parece ser) honesto, s que acha que todo mundo (ou quase todo mundo) desonesto, e as coisas no funcionam desse jeito No por a. LULA e Dilma so pessoas honestas, no tenho dvidas.Tenho convico disto. Defeitos, ele tambm os tm, mas no os de desonestidade e covardia. Quem te disse que ele no mais amigo de Jos Dirceu? Ele ou Dirceu? O jornalista no est desnaturando os fatos, como gosta de frisar? Chega a emocionar o pingue-pongue entre o jornalista e o impoluto e progressista Ronaldo Passarinho, aquele que foi adoecido pelo titio coronel para disfarar o veto do SNI ao seu nome por indicao de Fernando Guilhon, e no venham dizer que foi por ele ser subver sivo; esse individuo deve ter sido tudo nessa vida, menos esquerdista, alm de tremendo incompetente, que junto com seu partner Ubirajara Salgado rebaixaram o meu querido Clube do Remo em 2004 para a srie C, vergonha que nunca havamos passado. Interessante falarem sobre dignidade. Alis, a propsito de modelo de chefe de que os amigos falam citando o truculento general corso: no gosto de parecer boal, pedante, sugerindo leituras para ningum, mas os cavalheiros poderiam dar uma sapeada, de leve, em O Papel do Individuo na Histria, do russo Plekhanov, ou se quiserem um pouco mais de originalidade e profundidade, procurem a opinio do inspirador do russo sobre o mesmo tema, o grande (esse sim) Karl Marx, pensador soberbo, para mim (e para muitos) o maior pensador e lsofo de todos os tempos, que promoveu uma brusca ruptura, o chamado corte epistemolgico, uma mudana radical na forma de conceber, entender, perceber a realidade e o mundo em que vivemos. Duvido que depois dessa leitura ainda continuem com essa ideia tacanha de modelo de chefe em relao ao general Bonaparte. Marx o desmascarou h pelo menos 150 anos. Ademais, tu tens certeza que ele ia pra frente de batalha mesmo, l onde a batalha mais cruenta? Duvido disto. uma viso ingnua, pueril e romntica, bem ao estilo histria dos vencedores, que os franceses chamam histoire evenementiele, ou histria dos grandes atos ou acontecimentos, solapada completamente pelos bravos companheiros da Escola dos Annales. E se ia mesmo, quem garante que foi o primeiro? Alexandre da Macednia no poderia ter antecip-lo nisso, ou o grande general dos cartagineses Anbal, para muitos o maior guerreiro da Antiguidade Clssica. Voltando ao que realmente interessa, voc e seu amigo podem achar de Lula, Dilma, Dirceu ou Genoino o que quiserem. Se forem apresentados dados e elementos consistentes, com uma anlise acurada, sria, apartada do seu antipetismo, a coisa muda de gura. Mas dentro dessa perspectiva rasteira (pra dizer o mnimo), dessa viso supercial e tacanha quando te arvoras a comentar sobre a poltica nacional, ns, petistas, faremos nossa defesa ou apologia. E o nome disso no totalitarismo; o conceito que tu tens do que seja isso absolutamente distorcido. Lcio desanca Deus e o mundo, mas quando atacado posa de vtima, sempre nessa lenga-lenga de cerceamento de liberdade de expresso, de que quem est na ofensiva truculento, agressor, intimidador. Est na hora de descer desse pedestal, jornalista, pois ele apenas imaginrio. Bata de dar a cara para bater, mas no tente nos enredar, a ns todos, em vilanias e picaretagem. Sua anlise poltica concernente ao perodo petista no pode ser levada a srio, no engloba as esferas econmica, social e poltica dentro de uma viso de conjunto, totalizante, em nada diferente, na essncia, de um Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e Demtrio Magnoli, ou seja, jornalismo de quinta categoria, perfeito consumo para pobres de esprito e analfabetos polticos, da estirpe de um Kim Kataguiri ou Fernando Holiday, o negro que xinga os de sua prpria raa, tachando-os de vagabundos e parasitas. Faa jornalismo srio, e no de quinta categoria, caro Lcio, e no minta dizendo que destaca aspectos positivos do PT e da esquerda; s se tu ests enviando esses textos para outro planeta, pois aqui no os tenho lido; isso honesto? Dizer algo e no faz-lo, efetivamente? No queremos que nos defenda, queremos que seja justo, se possvel. A sua leitora acima arma no per ceber anidade ideolgica no jornalista; deve achar tambm que o coronel Nunes falou sinceramente quando disse, recentemente, que nunca viu corrupo no futebol. E antes que me esquea, seu caro amigo no tem fora moral reputao ilibada ou biograa limpa para chamar Lula de desonesto e covarde, muito menos para discorrer sobre dignidade. Ele e sua ascendncia e descendncia tem assuntos mais espinhosos a explicar, que nada tm a ver com dignidade. J pra voc, Lcio, ns petistas pedimos: saia do armrio embutido. Ser bom pra voc e pra ns, pra todo mundo. Todos ns temos que tomar uma deciso, tomar partido; no d pra car eternamente em cima do muro, acima do bem e do mal, como o dono da verdade. E me chamo Cleber Miranda, meu pai no se chama Leo Naphta, se chama Joo Gonalves Miranda, natural de Breves, no Marajo. Caso fosse lho do personagem de omas Mann, no entanto, isso no implicaria que automaticamente fosse um ser nefasto. Poderia chama-lo de lho de Ronaldo Maiorana, mas seria baixo e no da minha ndole, alm de lhe dar mais um motivo para as costumeiras queixas; prero chama-lo de lhote de ditadura, pois mesmo que no reze ocialmente na cartilha dos poderosos da casa-grande, acaba fazendo o jogo deles. Para nalizar esse longo comentrio, j pedindo desculpas por tal excesso, enfatizo que estou para obter a graduao em Histria pela UFPA, via vestibular, j sendo aluno veterano, lembrando que isso no me torna melhor que ningum, nem pior. E no acho que sejamos zes -manes, como publicaste desrespeitosamente no post Lula, o ano. Respeito bom e todo mundo gosta; reita sobre esse termo indecoroso e desrespeitoso que usou para tentar nos ridicularizar. Pimenta nos olhos alheios refresco, no mesmo? Finalizando, quero dizer que o meu partido durante 22 anos foi oposicionista, e soube fazer oposio muito bem feita, responsvel, apesar de alguns exageros, como no caso da CPMF, motivo pelo qual o falecido e honrado Adib Jatene nunca perdoou Lula e o PT, mas no geral fez o seu papel, e h 13 anos situacionista e est sabendo ser situao, com inmeros avanos e conquistas, mas que alguns preferem no admitir, falseando a realidade ou brigando com ela, distorcendo completamente as coisas. Existe um Brasil que no passa no Jornal Nacional, um pas de gente honesta, simples, que no est nas pginas amarelas da Veja ou nas coloridas dos jornales dos bares da mdia gorda. Esse Brasil o jornalista no conhece e nem vai conhecer, pois est encastelado numa torre de marm e ele Lcio o isolado. LFP Vou deixar para responder satisfatoriamente ao Cleber no Jornal Pessoal se conseguir, por um motivo: falta de espao. Ou por no ser este o espao adequado para responder a tanta desinformao, deformao e aberrao. Sinteticamente. Quando prefeito de Belm, Edmilson Rodrigues me processou perante a justia eleitoral, quando tentava um novo mandato. No foi por eu ter-lhe recusado o direito de resposta. Eu o assegurei sempre a todos, mesmo quando esse direito foi exercido por meio de um cartapcio, como esse do Cleber. Edmilson foi justia para que eu no pudesse contest-lo. Teria que simplesmente publicar a sua car ta, por ordem judicial, sem rplica. O que mostra sua altivez democrtica. Infelizmente, para ele, o TRE rejeitou suas aes. Democraticamente, Edmilson, atravs de Francisco Cavalcante, alugou espao no nefando Jornal Popular, do democrata Silas Assis, para me atacar de forma vil. Usou um pseudnimo, o Dcio Malho, maneira dos covardes. Nunca usei pseudnimo em 50 anos de jornalismo. Assinei todas as minhas opinies. Lembro que o momento decisivo no debate da RBA entre os candidatos prefeitura de Belm pendeu para o lado do Edmilson quando critiquei seu principal oponente e at ento favorito candidato do prefeito Hlio Gueiros, Ramiro Bentes (do qual sou amigo, como sou amigo de Ronaldo Passarinho e outros tantos reacionrios no ndex de Cleber Torquema da; sei separar a amizade das divergncias em temas de interesse pblico; todos os meus amigos sabem disso; se no sabem, acabam deixando de ser meus amigos). Completarei 50 anos de jornalismo prossional em 5 de maio. Continuo na linha de frente, acompanhando o cotidiano das transformaes. Logo, no estou em qualquer torre de marm. Caminho todos os dias pelas ruas de Belm. Ando de nibus. Conheo pelo menos todas as capitais do Brasil, muitas do interior, todas as capitais do continente, inmeros pases, pelo menos em quatro continentes, e nunca viajei para esses lugares a turismo; foi sempre em misso prossional de um jornal ou a convite de algum que queria me ouvir em palestra. Conversei com Allende cinco dias antes de ele se suicidar, sob o bombar deio ao palcio La Moneda, em Santiago do Chile. Conversei com o general Guillermo Lara poucos dias depois de ele derrubar o legendrio Velasco Ibarra no Equador. Fui ver o que o general Alvarado fazia para calar a imprensa bur guesa no Peru. Lula e eu camos por longos momentos em 1982, lado a lado, no julgamento dos padres franceses, em Belm. Vimo-nos novamente em Vitria, no Esprito Santo, por intermediao de Lus Eduardo Greenhalgh. Percorri 13 Estados dos EUA em 1990 para ver suas hidreltricas, desmatamento e resistncia ecolgica e poltica. Fui expositor no Tribunal Permanente dos Povos (antigo Bertrand Russell), em Paris, em 1990. E por a vai. Mas quando digo que Bonaparte esteve frente do seu exrcito e conhecia seus soldados pelo nome estou me baseando em dezenas de livros que li sobre ele, inclusive de marxistas, como E. Tar l, em livro publicado pelas Edies Progresso de Moscou (nunca traduzido para o portugus, que eu saiba). E por ter per corrido muitos dos lugares onde ele esteve e at no seu lugar de nascimento, na Crsega (assim como sentei na ctedra de Galileu, estive na masmorra de Casanova, fui Rimini de Fellini, etc,. e etc.). Com tudo isso, sou apenas um jornalista, um entre tantos prossionais que procuram cumprir seu ofcio com seriedade, honestidade, decncia e alguma competncia. O suciente para no se deixar intimidar por ataques ignorantes ou insensatos, como mais esse um do Cleber, que, aqui, alis, ter sempre o seu espao garantido. Mas no os seus dogmas e preconceitos.

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13 12 memriaC OTIDIAN Odo MARAJOARAA TV Marajoara, a primeira da Amaznia, completou um ano de funcionamento com uma programao dominical que comeava s sete horas. Mas durante a hora seguinte os ansiosos e empolgados telespectadores viam na tela apenas as cores e formas do padro da emissora. O primeiro programa comeava cinco minutos antes das oito da manh com o Bom Dia, Par, crnica ilustrada sobre a cidade de Belm, escrita pelo diretor da televiso, o nor destino Pricles Leal, com 10 minutos de durao. Vinha, a seguir, a Matinal Infantil, com uma pea infantil escrita pelo artista plstico e dramaturgo Waldyr Sarubbi de Medeiros, A Gata Borralheira, com o elenco do teleteatro do canal 2. As demais atraes: Grande Jornada Esportiva, que exibiu todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo de trs meses antes, quando a seleo nacional se tornou bicampe de futebol. O programa ocuparia nove horas seguidas, at as 18 horas. Atualidades Portuguesas. Interpol Chamando. O Menino do Circo. Noite Cheia de Estrelas, transmitida diretamente dos estdios da Rdio Marajoara, na praa de Nazar, com astros nacionais: Orlando Silva, Carminha Mascarenhas, Gilvan Chaves, Denise Dumont e todo elenco de cantores e comediantes do Canal 2, alm da participao do conjunto de bal de Augusto Rodrigues. Isso, j s oito da noite.COMUNICADOSAdelino Simo comunicava aos seus parentes, amigos e colegas da Importadora de Ferragens, colegas radialistas, aos artistas em geral e ao povo catlico de Belm que era candidato a vereador nas eleies de outubro, sob o nmero 2.201. Foi vereador por vrias legislaturas. Gilberto Danin tambm queria ser vereador, denindo-se contra as foras da corrupo, os grupos econmicos que exploram o povo enfraquecendo o regime, os ladres de casa e os governos Aurlio [do Carmo ] e Moura [Carvalho ]. J Betty e Paulo de Castro anunciavam o nascimento, no Hospital dos Servidores do Estado, de Mar cos, irmozinho de Megan, Mar tha, Paulo e Eduardo. Tudo atravs de nota paga pela imprensa.BOSQUEA Folha Vespertina lembrava o tempo em que era grtis o acesso ao Bosque Rodrigues Alves, onde a petizada ia brincar, passear nos barquinhos ou de charrete, ou ver os bichos. Depois, o ingresso passou a ser cobrado, razo de dois mil reis. Mas a quantia no era exorbitante. No entanto, o prefeito de Belm, Moura Carvalho, decidira reajustar o direito a entrar no parque de oresta connada para 20 cruzeiros. Amanh sero 50 e em 63 talvez 100. Os vereadores sabem que nenhum imposto ou taxa pode ser cobrado seno em virtude de lei, porm, tambm sabem, como o sabia o general Barata, que a lei potoca, alnetava o jornal de Paulo Maranho.ARMASAs autoridades militares e policiais manifestavam preocupao pela intensificao do contrabando de armas no aeroporto de Val-de-Cans. Tambm comeavam a investigar o uso de armas privativas das foras armadas em fazendas do Maraj.AMERICANOSDeve ter sido interessante o jantar que os casais Lenidas Albuquerque e Paul Albuquerque ofereceram ao casal George Colman, com a presena de integrantes do consulado dos Estados Unidos em Belm, que tinha grande presena na vida da cidade. Na ocasio, Colman exibiu vrios filmes de sua propriedade sobre a Amaznia. Era a verso cultural da diplomacia americana, abatida pelo taco da nova filosofia que iria vigorar cada vez mais na terra do Tio Sam.BELM-BRASLIAAtacado constantemente por soezes invectivas de elementos desconhecidos, o superintendente da SPVEA (atual Sudam) e presidente da Rodobrs, Mrio Dias Teixeira, recebeu a solidariedade de 14 empreiteiras que construam a Belm-Braslia. Elas destacavam o brasileiro ilustre com o qual se solidarizavam em relao aos crticos, que, sombra do anonimato, procuram atingi-lo em torpe campanha de difamao de sua honra pessoal. Quatro das empreiteiras da estrada eram do Par: Construtora Ligao Engenharia e Comrcio, P. S. Oliveira, Construtora Gualo e Rui L. de Almeida Engenharia. Outras quatro eram da ento Guanabara (o Rio de Janeiro de hoje).JUZESQuinze candidatos se apresentaram para disputar 10 vagas de juiz de direito nas comarcas do Estado. Passaram 12 e 3 foram reprovados. A nota mxima, de 8,37, foi de Jos Anselmo Figueiredo Santiago, que viria a ser um dos dois juzes federais quando da criao desse nova jurisdio nacional, depois do golpe militar de 1964. O segundo lugar foi de Alfredo Toscano, com 8,06. Os futuros desembar gadores aprovados foram Ossiam Almeida (em 4 lugar) e Nelson Amorim (7).GSCena de Belm vista pela tica um tanto preconceituosa da Vozes da Rua, coluna da Folha Vespertina : Andou ontem o carro da Par-Gs a fazer a distribuio dos botijes. Estes eram transportados para casa dos consumidores por um caboclinho insolente e agressivo, que se portava inconvenientemente contra as donas de casa, porque estas no tinham o dinheiro j contado para lhe pagar, o que no possvel fazer-se por antecipao porque a distribuio de gs se procede em dias incertos.FOTOGRAFIAPatrulheiro ToddyA foto de m qualidade, mas sua publicao se justifica. Ela assinala a estreia do programa Patrulheiros Toddy na TV Marajoara, em outubro de 1961. Era o comercial exibido ao vivo no intervalo do filme seriado nacional, de grande sucesso na televiso. O mocinho, frente do cenrio que copiava da matriz, Miguel Cohen, que viria a ser banqueiro em So Paulo.PROPAGANDAO 1 ano da televisoO anncio do primeiro aniversrio de funcionamento da TV Marajoara, a primeira do norte do Brasil, que pertencia cadeia dos Dirios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. A data culminava com espetculo realizado ao vivo em estdio, transmitido diretamente aos ainda poucos telespectadores. Em 1962Em 1962

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15 14 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 873 Belm/PA CEP 66.053-030 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal CartaDVIDA Nominalmente a dvida externa de R$141 bilhes (como est dito na nota com o ttulo acima JP 598, pg. 07) no pesa nada nos exuberantes nmeros da dvida total da Unio (3.8 trilhes de reais). Entretanto, deve car claro que a maioria dos detentores desta fabulosa verba so bancos internacionais e empresas transnacionais, vale dizer, representa tambm dvida externa. Porm, mais importante saber que mais da metade desse montante representa um tal de supervit primrio. Mecanismo criado pelo nancismo internacional para proteger sua agiotagem nos pases em desenvolvimento. Aqui no Brasil funciona desde o ano 2000, no reinado de FHC, atravs da LRF Lei de responsabilidade Fiscal, que, entre outras exigncias, d prioridade ao pagamento dos juros e correo monetria, da dvida pblica pelos entes da Federao. Segundo dados estatsticos do Tesouro Nacional, de janeiro de 1995 (ano magno da escamoteada estabilizao monetria), a dvida pblica passou dos R$135.9 bilhes para os atuais R$3,83 trilhes. Outro dado importante que desde 1988, os gastos com a dvida, atualizados monetariamente, ficaram em torno de R$-20 trilhes. Compare-se o capital com os encargos Mesmo considerando o tempo decorrido muito coisa! Um absurdo de dinheiro transferido para os bolsos dos rentistas que poderiam ter sido aplicados em investimentos produtivos. E.T. Esta nota j estava redigida quando li a panormica, tcnica e didtica exposio do leitor Elias Granhen Tavares, a respeito desse mesmo texto. Rodolfo Lisboa CerveiraMEU SEBOO livreiro LaurindoTomara que um dia seja escrita a histria do livro e das livrarias de Belm. E que desse trabalho conste o reconhecimento do papel desempenhado por Laurindo Garcia. Ele era um vendedor autnomo de livros. Mas era muito mais do que isso. Ao contrrio de muitos mercadores de volumes impressos, ele os conhecia. No tratava livros como salsichas. Sabia o valor que tinham. E a utilidade que podiam ter para seus clientes. Supria-lhes as demandas, mas tambm, eventualmente, criava suas necessidades indicando publicaes que desconheciam. Fazia com que sentissem a importncia dos livros desconhecidos e lhes fornecia os exemplares, a um preo sempre justo. s vezes suprimia o seu lucro ao constatar que o comprador, um estudante pobre, no podia pagar o preo de venda. Os mais afortunados receberam o que queriam na forma de presente. Laurindo Garcia ia s casas dos seus clientes, mas estes podiam encontr-lo em sua prpria residncia, no incio da rua Oliveira Belo, no bairro que no era o must de hoje do Umarizal. Era o reduto de descendentes de escravos e msicos de primeira, como T Teixeira, abrigados em pequenas casas geminadas, paredes com uso duplo para poupar os gastos da construo. No existe mais uma gura como Laurindo. Guardava o estoque dos livros em sua casa e os assin alava com seu carimbo simples. Ao acaso, pego um dos livros que comprei com ele, como vrios outros, em lngua estrangeira, que ele ia buscar diretamente nos revendedores, valendo-se da correspondncia postal (se a famlia guardou as cartas, devem ser preciosas para essa imaginria histria a que me referi). O exemplar que apanhei o Webs ters New Collegiate Dictionary baseado na segunda edio do Websters New International Dictionary que me foi de grande utilidade durante as aulas no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, na sede da avenida Nazar com a Rui Barbosa. A primeira edio desse dicionrio para colegiais foi tirada em 1916 por G. & C. Merriam Co., Publishers, em Springeld, no Estado de Massachussets. A minha a 9 edio, de 1956, editada nos Estados Unidos mesmo, enquanto a maioria das anteriores foi impressa nas Filipinas. O dicionrio tem 1.174 pginas, com excelente capa dura, que resiste impavidamente a exatos 60 anos de existncia, completados agora. Em papel no, o volume fcil de consultar e de formato prtico. Um livro ao qual eu no teria acesso se no tivesse havido em Belm do Par uma livraria to pessoal quanto este jornal, que se materializou na gura rara de Laurino Garcia. O leitor do patro Algum devia se dedicar a copiar as anotaes feitas margem de livros por leitores famosos. H fontes compactas para essa pesquisa. A biblioteca do general Golbery do Couto e Silva, por exemplo. Ele escreveu e muito mal apenas dois livros. Seu estilo tortuoso praticamente impede a leitura uente desses trabalhos e a compreenso das suas ideias, uma delas a interpretao poltica da sstole e da distole, que deram base supostamente losca ao movimento da distenso lenta, gradual e segura do general-presidente Ernesto Geisel, companheiro de poder de Golbery na fase de transio da ditadura militar de 1964. Mas ele era leitor atento e prdigo. Enquanto esse trabalho no se realiza sobre acervos bibliogrcos or ganizados e de acesso pblico, tenho usado os sebos como uma das fontes para saciar essa curiosidade. s vezes compro mais de um exemplar de obra que j possuo apenas porque nela h as anotaes de quem o possuiu. o caso de Revolues do Brasil Contemporneo (1922/1938), de Edgar Carone. Eu j tinha a primeira edio, de 1965, da coleo Corpo e Alma do Brasil, da Difel, de So Paulo, dirigida pelo ento apenas socilogo Fernando Henrique Cardoso. Comprei a segunda edio (139 pginas), de 10 anos depois, no s por ter sido revista pelo autor, com quem cheguei a conviver e admirar na minha temporada paulista como candidato a acadmico, mas, principalmente, por ter per tencido a Flvio Galvo (que rubricou o livro, em tinta vermelha de caneta, como F. Galvo). Conheci Galvo, com seu permanente palet e gravata, na redao de O Estado de S. Paulo seis anos antes que ele pagasse 28 cruzeiros para ter o livro recm-lanado e l-lo de um flego, anotando-o copiosamente at a ltima pgina. Galvo era dessas figuras algo sinistras, temidas e detestadas na redao, por ser o epgono do dono do jornal. Os nossos companheiros sempre necessitam de pessoas para realizarem servios considerados sujos ou com os quais os verdadeiros autores no querem ligao direta. So personagens ocultos, algo misteriosos e discretos. Galvo, porm, no era um simples boy de recados. Era culto, lia muito e tinha as prprias ideias, nenhuma das quais ao menos de pblico em conflito com as do patro. Por isso, suas observaes tm valor, ainda mais porque, sendo completamente de direita, lia autores de esquerda com ateno e proveito. Da a edio anotada do livro de Carone, um comunista, ter valor que justificasse a aquisio da duplicata. A leitura no era beletrista. Tinha o objetivo de armar Galvo para enfrentar os adversrios da famlia Mesquita e informar seus integrantes, se tal iniciativa lhes fosse til. Assim, ele assinalou com nfase o trecho em que Carone diz que em 1928, no perodo de choques entre a elite da Repblica Velha e os revolucionrios que a derrubariam dois anos depois, o lder comunista Luiz Carlos Prestes, castiga, em carta incisiva, o recuo dos integrantes do Partido Democrtico, por sua dubiedade, e Jlio de Mesquita Filho, que nos ltimos anos levava O Estado de S. Paulo a uma linha contrria ao que se pretendia. Flvio Galvo deve ter feito os Mesquitas saberem dessa e de outras opinies do autor a respeito deles. As marcas que deixou margem do livro so material espera do seu historiador. Finalmente, depois de tanto desmentir, o governo federal admitiu uma ver dade que lhe incmoda: a hidreltrica de Belo Monte, destinada a ser a quarta maior do mundo, no vivel economicamente, mesmo j estando em fase nal de construo para comear a produzir energia neste ano. No incio do ms, o Ministrio de Minas e Energia autorizou a usina a participar do leilo de energia nova que ser realizado em 31 de maro. Esses leiles acabam servindo de nanciamento para projetos que ainda no entraram em operao por que os preos pagos pela gerao de eletricidade so, em mdia, 25% maiores. Se comprarem a energia vendida pela usina com preos superiores aos de mer cado e do contrato de concesso, as distribuidoras tero que repassar esse custo aos consumidores residenciais, que acabaro tendo que subsidiar a grande hidreltrica do rio Xingu, no Par. Segundo matria da Folha de S. Paulo, essa brecha foi aberta para que a hidreltrica venda, a preos maiores, o restante da energia que no foi comercializada poca da licitao da hidreltrica. A usina, leiloada em 2010 com um baixo custo de gerao, agora ter a chance de recompor suas margens e garantir uma receita futura maior, paga pelos consumidores regulados-residncias, pequenos comrcios e indstrias, diz o jornal, observando que na poca do leilo cou denido que a usina teria 70% de sua energia destinada ao mercado regulado e 30% a grandes empresas, do mercado livre. A receita originada no mercado livre seria responsvel por dar viabilidade ao empreendimento. No entanto, os preos praticados pelo mercado livre esto aqum das necessidades de Belo Monte. Agora, a usina poder vender esses 30% ao custo de energia nova, o que garantir uma receita consistente por 30 anos. Segundoa Folha apurou, essa oportunidade foi criada para diminuir o risco das empresas pblicas que so acionistas da usina, pois elas enxergavam diculdades para atingir a viabilidade nanceira na obra. Aproximadamente 90% do capital social da usina pertencem s empresas do grupo Eletrobras, aos fundos de penso Funcef, Petros e Previ e s estatais estaduais Cemig e Light. Com essa alterao legal de iniciativa do Congresso Nacional, permite-se que essa energia seja destinada ao mercado de consumidores regulados, aumentando a oferta de energia no leilo, o que tende a resultar em menores preos da energia contratada no leilo, com benefcios aos consumidores nais de energia, diz, em nota, o Ministrio de Minas e Energia. A norma publicada pelo ministrio foi desenhada sob medida para permitir a participao de Belo Monte e vetar a par ticipao de outras acrescenta a Folha. As regras preveem que a participao apenas de hidreltricas com capacidade instalada superior a 50 MW, j em construo, mas que no tenham iniciado sua operao comercial antes de maro de 2015. Com isso, pequenas centrais hidreltricas e as usinas de Jirau e Santo Antnio, todas na regio Norte, no podero ofer tar energia no leilo, alerta o jornal. A Norte Energia, empresa concessionria da usina, no conrmou a participao no pleito. As eventuais participaes ou no em leiles no so informaes pblicas, pelo seu carter estratgico, dis se tambm em nota. Belo Monte se tornou invivel economicamente porque sua energia rme, aquela disponvel, em mdia, o ano inteiro, menos de 40% da potncia nominal, que pode gerar com o funcionamento pleno de suas 18 gigantescas turbinas. Para melhorar o perl ecolgico da obra, a Norte Energia reduziu o tamanho do reservatrio. Com rea menor, ele no estocar gua suciente para manter a usina funcionando num nvel de produo capaz de garantir receita suciente para cobrir os custos de gerao. A vazo do Xingu chega a diminuir 30 vezes entre o pique do inverno e a estiagem mxima de vero. O uxo no consegue manter em funcionamento as turbinas, que exigem 700 mil litros de gua por segundo.Belo Monte: o povo pagar a conta

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O grande poeta turcoO poeta turco Nzim Hikimet foi amor primeira leitura. Eu o descobri pouco depois da sua morte, em 1963, aos 61 anos. Nessa poca, ainda me considerava poeta. Mais exatamente: com pretenso de poeta. Por isso lia muito os versos. Adotei um do bardo turco que dizia, mais ou menos assim: se eu no queimo./ se tu no queimas,/ quem romper as chamas?. Foi um estmulo para aceitar que o preo de enfrentar as resistncias mudana se queimar. Acumulei queimaduras sem m ao longo da vida, mas no me queixo, graas ao poeta. Vejo agora que, nalmente, sair no Brasil, depois de mais de duas dcadas de elaborao por Marco Syrayama de Pinto, o nico tradutor de literatura turca de que o Brasil dispe. a sua obra -prima Paisagens humanas do meu pas. Ao anunciar o lanamento, Mamede Jarouche destaca a personalidade cosmopolita do poeta, que se embebeu tanto da cultura oriental islmica como da ocidental, leitor voraz e anado com o melhor dessa produo. Por isso, contribuiu para a modernizao e a consequente ocidentalizao do seu pas. Apesar de integrar uma famlia da elite turca, Nzim admirava a revoluo russa, principalmente por causa de Maiakvski, de quem foi amigo. Tornando-se militante comunista destacado, sofreu tambm as desventuras acarretadas por essa condio, sobretudo no Oriente Mdio e no mundo islmico, tendo passado na cadeia, com idas e vindas, boa parte de sua vida. E isso a despeito da admirao pelo menos intelectual e literria que lhe devotava Atatrk [considerado o pai da modernizao da Turquia ], cuja morte acentuou a perseguio das autoridades e multiplicou o nmero de seus encarceramentos, diz o professor de rabe da USP e tradutor. O poeta, renegado, acabaria morrendo em Moscou. Pensada como painel e tambm como registro de uma realidade que deve ser transfor mada e que se transforma, malgrado as aparncias em contrrio -, a obra de Hikmet marca, de maneira notvel, a tenso gritante, tpica, mas no exclusiva do Oriente Mdio, entre uma tradio rmemente arraigada e o desejo de modernizao alimentado por parte de suas elites e por muitos dos seus artistas e intelectuais. Tenso essa que hoje est a alimentar os horrores que temos presenciado com a Tur quia como um dos principais protagonistas destaca Jarouche, Oportunidade preciosa para quem gosta de poesia e quer conhecer um pouco mais a Turquia.O livro de HitlerMinha Luta de Adolf Hitler, entrou em domnio pblico no dia 1. Signica que qualquer editora pode public-lo sem pagar direitos aos her deiros ou sucessores. Duas delas j colocaram o livro no mercado. Geraram com isso uma discusso que vem de longo tempo: deve-se aceitar ou vetar a publicao? Como j li o livro, cujo original era em alemo de 600 pginas em dois volumes, sou inteiramente favorvel liberao. O escndalo maior no est na obra em si, mas como ela foi escrita, depois de uma tentativa de golpe liderada pelo futuro fhrer, que teve mortos, em 1923, 10 anos antes da chegada dos nazistas ao poder. Ele foi mantido preso com tantas regalias que escreveu tudo de uma vez, enquanto recebia visitas, comia e bebia bem, tinha tudo ao seu dispor para o cometimento. E saiu to rapidamente da cela espaosa e confor tvel que, menos de dois anos depois, lanava o primeiro volume do que produziu na priso xada pela fracassada repblica de Weimar. O livro, furioso, odioso e falso, uma combinao de autobiograa e programa de poder. Hitler sincero e direto. Fez tudo que antecipou em Minha Luta que se credenciou a ser a bblia do nazismo. Preconceitos e loucuras parte, um livro que se pode ler com proveito. Principalmente se for para execrar as ideias do autor como os dos cmplices, muitos ainda invisveis, que o tornaram poderoso.Sordidez sangrentaA edio do caderno de polcia do Dirio do Par do dia 13 publicou oito fotos de trs cadveres, reproduzidos exausto por falta de matria prima suessa edio, que no a recordista de presuntos, porque ela traz a foto, em detalhes, de um cadver mutilado por trs tiros nas costas. Aparecem claramente as perfuraes e o sangue do cidado, a quem o jornal atribui idade entre 30 e 35 anos, sem identidade. amigos? CORREOO cestinha do Clube do Remo referido na Memria do Cotidiano da edio passada Edir Goes e no Paiva. O jogo foi de basquetebol, evidentemente, e no futebol. Apesar do desempenho da seleo brasileira na ltima Copa do Mundo, placar to dilatado assim est fora do alcance do nobre esporte breto.