Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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BISPO NACIONAL NO XINGU FACISMO SE INSINUA o aNo dia 15, a Polcia Federal cumpriu em Belm seis mandados de busca e apreenso, como parte de uma operao nacional a Catilinrias executada em oito Estados brasileiros. Seus alvos foram trs irmos, o Paulo Erico, Andr e Marcos Moraes Gueiros, Todos eles lhos do ex-governador Hlio Gueiros, j falecido, que exerceu o mandato entre 1987 e 1990. O Ministrio Pblico Federal os considera suspeitos de envolvimento em atos de corrupo junto Transpetro, a empresa de logstica da Petrobrs. O Estaleiro Maguari, do qual os irmos Gueiros so acionistas e diretores, teria rmado um contrato com a transportadora, do qual tambm participou o engenheiro Fbio Ribeiro Azevedo, que atua no estaleiro. Em 2012, Paulo, o lho mais velho do ex-governador, e Marcos foram condenados por envolvimento em desvio de recursos da Agncia Especial de Financiamento Industrial, o Finame, aplicados em outro estaleiro de sua propriedade, a Ebal (Estaleiros Bacia Amaznica), j extinto. CORRUPOA vez dos GueirosTrs filhos do ex-governador Hlio Gueiros foram os alvos de uma operao da Polcia Federal atrs de documentos para instruir ao impetrada contra eles em Araatuba, no interior de So Paulo. um desdobramento da Operao Lava-Jato, a primeira executada no Par.

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2 A Polcia Federal informou que os outros trs mandados so dirigidos a empresas. No foram efetuadas prises. O material apreendido foi enviado para Braslia para ser periciado. Foram expedidos 53 mandados de busca e apreenso, referentes a sete processos da Operao Lava-Jato. A iniciativa para evitar a destruio de provas e apreender bens que podem ter sido adquiridos pela prtica criminosa. O indcio forte do ato de corrupo surgiu em Araatuba, no interior de So Paulo. Sua apurao acompanhou todas as teias de ramicao. Um dos elos apareceu em Belm. Todo novelo foi recomposto e pode ser que resulte na priso da quadrilha completa, se as suspeitas se conrmarem. O enredo no novo. quase uma rotina. Uma empresa se preparou para cumprir um contrato com um rgo pblico cujo edital sequer fora lanado. Alugou, de uma cooperativa local, ter ras a ela cedidas pelo municpio. O objetivo era instalar um estaleiro, o ERT, que iria construir 20 comboios para o transporte de etanol pelo rio Tiet um ms antes da abertura das propostas pela Transpetro, subsidiria de logstica da Petrobrs, para a compra das embarcaes. No deu outra: a empresa premonitria venceu a licitao. Alm desse vcio, a transao inclua superfaturamento, que permitiria abocanhar 20 milhes de reais a mais do que seria estabelecido. Do negcio participava uma empresa paraense, a Estaleiro do Rio Maguari, dos trs lhos do ex-governador Hlio Gueiros, que exerceu o cargo (depois de ter sido senador pelo PMDB) entre 1987 e 1990. Depois foi ainda prefeito de Belm. Morreu em 2011. O principal delator do escndalo da Petrobras, o ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, diz ter recebido propina de R$ 1,4 milho para facilitar a instalao do ERT (Estaleiro Rio Tiet) em Araatuba. Costa foi apresentado a Wilson Quintela, dono da Estre Ambiental, por Fernando Soares, o Fernando Baiano, classicado pela Polcia Federal como operador do PMDB dentro da estatal do petrleo. O contrato, no valor de 239 milhes de dlares, foi direcionado para o consrcio ERT, formado pela Estre, SS Participaes e Estaleiro Rio Maguari, instalado na estrada de Maracacuera, em Icoaraci, distrito de Belm. Trs anos atrs, investigao iniciada pelo Ministrio Pblico Federal em Araatuba resultou numa ao contra 32 empresas, pessoas e rgos pblicos por indcios de fraude na licitao da Transpetro. Entre os indiciados esto os irmos Gueiros e Fbio Ribeiro de Azevedo Vasconcellos, donos e diretores das empresas Rio Maguari Comr cio e Participaes Ltda e Estaleiro Rio Maguari S/A. Eles e os demais rus agindo livre, deliberada, orquestrada e conscientemente, frustraram a licitude do processo licitatrio da TRANSPETRO, modalidade convite internacional, n. 006.8.009.10.0, para compra e venda condicionada de 20 comboios, constitudos, cada um, por um empurrador e quatro barcaas, no mbito do Programa de Modernizao e Expanso da Frota (Promef) ou Promef Hidrovia, diz a ao do MPF. A licitude do processo licitatrio foi frustrada por meio de fraude ao seu carter competitivo, pois h evidncias de que o consrcio vencedor, assim como a localidade (rea e municpio) onde seria construdo o estaleiro, j estavam pr-denidos antes mesmo de deagrado o processo. Ou seja, a licitao foi direcionada, no ventre, impedindo a contratao da proposta mais vantajosa para a TRANSPETRO ou, do contrrio, seria desnecessrio viciar a competio, complementa. A ao de responsabilizao por atos de improbidade administrativa, cumulada com anulao de atos e contratos administrativos, e ressarcimento de dano ao errio. Os acusados tinham conana e certeza sucientes, quando do arrendamento da rea, de que a Transpetro em breve licitaria comboios embora ela mesma ainda no o tivesse decidido! Tanto que o arrendamento no se fez com antecedncia exagerada em relao deagrao do processo cujo pedido foi feito 13 dias depois do arrendamento. E a posse ou a propriedade do imvel que seria utilizado na construo dos comboios teria de ser comprovada apenas na assinatura dos contratos decorrentes da licitao. O que, no caso, deu-se somente em 23 de novembro de 2010 mais de nove meses depois do arrendamento. Numa visita tcnica ao estaleiro de Araatuba, em 17 de setembro de 2012, Cido Srio, principal empresrio no negcio, falando nas instalaes do estaleiro e a respeito dele, disse qual o projeto foi acompanhado estreitamente desde a sua concepo: Discutimos cada passo. O debate que ns travamos l atrs com o presidente Srgio Gabrieli, e presidente Lula, da construo da ideia at chegar ao presidente Srgio Machado e a Transpetro. O MPF cita ento o trecho do discurso de Lula nessa solenidade. O ex-presidente declarou: No de agora que eu conheo o prefeito Cido Srio, e sei que ele est fazendo de tudo para mudar Araatuba. Foi Cido que apresentou o projeto do estaleiro, eu comprei a ideia e hoje Araatuba, uma cidade que fica longe do mar tem a obra. Quando ministra da Casa Civil, Dilma Rousse foi a Araatuba, em maro de 1010, pouco antes de iniciar sua campanha presidncia da repblica, e ressaltou, na entrevista coletiva que concedeu, a grande vantagem da fabricao de barcaas no estaleiro instalado ali: fazer barcaa aqui em Araatuba estratgico. Segundo ela, o governo considera esta uma atividade estratgica, estruturante, relevante, para esta regio Apesar dessas declaraes, o MPF vericou a negligncia da Transpetro durante a construo das embarcaes, evidenciada por falhas como a ausncia de medio dos servios e de sua vericao. Esse fato era agravado ante a circunstncia de Paulo rico e Andr Moraes Gueiros estarem sendo processados, poca (novembro de 2010), perante a 4 vara da justia federal do Par, por crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e de falsidade ideolgica. Foram acusados pela obteno fraudulenta de nanciamento, no valor aproximado de 12 milhes de reais, com recursos do Finame, um programa do BNDES. Viriam a ser condenados, mas foram beneciados pela prescrio da ao, que extinguiu os crimes praticados. No entanto, a sentena con-

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3 denatria conrmou que a fraude consistiu na simulao de construo e venda de 13 balsas pelo Estaleiro Bacia Amaznica Ltda., em razo de terem sido entregues embarcaes velhas, que sofreram reformas gerais, algumas no estaleiro, para parecerem recm-construdas. A sentena garantiu ainda que a fraude j estava antecipadamente or questrada. Do estaleiro, Andr Gueiros era diretor de produo, e Paulo Gueiros, advogado e membro da famlia controladora do capital. A inexistncia de cautelas ou sua supresso para favorecer o estaleiro comprovada, segundo a procuradoria da repblica, por no haver terminais de etanol para carregamento ou descarregamento das barcaas, sequer contrato entre a Transpetro e a empresa responsabilizada por tais terminais, nas datas contratuais de entrega do primeiro comboio. Nem h notcia de que tal comboio tenha sido ocialmente entregue at a data da denncia, de setembro de 2014. Conclui o MPF que se os comboios adquiridos pela Transpetro realmente no transportarem etanol, ento a fraude envolver no apenas o ganhador da licitao, mas tambm a sua nalidade. E, se embarcaes velhas, reformadas, tivessem sido ou forem entregues como novas, a fraude se ampliar ao objeto licitado. Nesta hiptese, ela disfararia um imenso peculato. Esse peculato comeou 24 anos atrs. Em setembro de 1987, publiquei neste Jornal Pessoal a primeira matria sobre as artes dos talentosos lhos do ento governador Hlio Gueiros, que tomara posse no cargo seis meses antes, substituindo o seu ainda correligionrio, lder e amigo Jader Barbalho. Os lhos de Hlio emergiram na direo de um estaleiro particular e o projetaram subitamente como o stimo maior do pas. O impressionante sucesso se deveu aos incentivos scais da Sudam, administrada pelo amigo Henry Kayath, que na poca patrocinava Andr Gueiros em corrida de Frmula-3. At essa primeira abordagem, eu tinha tratamento VIP no gabinete do governador. Era chamado para longas conversas, passando por cima da agenda e furando la. Recebia os documentos que pedia. Quando era sobre a gesto anterior, a generosidade era total. Com esse material, desnudei o que ainda restava de pendente do governo de Jader Barbalho. Fazia o que Hlio Gueiros queria que fosse feito, sem se envolver no assunto. Enquanto eu criticava seu correligionrio, usando informaes que me cedia, em o, com o compromisso de no revelar a fonte, ele tratava Jader como amigo e estadista. O relacionamento comeou a mudar com as primeiras crticas que z ao governo Gueiros, j na matria de capa da segunda edio do JP, que fazia um balano dos seus oito primeiros meses no exerccio do cargo. Numa das retrancas desse levantamento, toquei numa ferida que a grande imprensa ignorava deliberadamente, por no saber ou nem querer saber: o possvel trco de inuncia dos lhos do governador, aproveitando-se do poder do pai para fazer negcios e ganhar dinheiro. Hlio Gueiros deixou de poder usar a justicativa de ignorar a questo quando, no mais recente de nossos muitos encontros mantidos at ento, em seu gabinete de despachos, no Lauro Sodr, lhe apresentei os dados que apurara sobre a desenvoltura dos seus lhos. Ele ouviu meu relato em silncio, ligou na minha frente para o superintendente da Sudam, Henry Kayath, que favorecia a empresa, repassou-lhe minhas informaes, ouviu as respostas e as repetiu para mim. As acusaes no passavam de fofoca do outro lado. Seus lhos agiam com lisura, foi o que disse ao nal da conversa. No era, porm, o que informava minha matria. Incorporei as explicaes dadas, sem que elas me convencessem, Banquei para ver. Publiquei ento: At o incio deste ano [de 1987] o projeto da Ebal (Estaleiros da Bacia Amaznica) era apenas um entre muitos que congestionavam a pauta da Sudam (Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia) espera do conta-gotas de recursos dos incentivos scais. Aprovado em dezembro de 1985, nada recebera durante todo o ano seguinte, mas a situao mudaria neste ano: em abril a Sudam liberou trs milhes de cruzados e logo em junho mais 16 milhes, virtualmente aplicando todo dinheiro que havia comprometido com o projeto, aprovado para uma par ticipao equivalente a 58 mil OTNs, as Obrigaes Reajustveis do Tesouro Nacional (19,4 milhes de cruzados na poca da ltima liberao). Assim, a partir de abril a Ebal passou a receber um tratamento privilegiado: enquanto a esmagadora maioria dos projetos, inclusive muito mais antigos, continuavam jejunos de incentivos scais, a Ebal recebia 19 milhes de cruzados pelo artigo 17. Os recursos compreendidos nesse artigo, que representam menos de 20% do oramento do Finam (Fundo de Investimentos da Amaznia), so os que realmente a Sudam pode aplicar. Os outros 80%, do artigo 18, tm sua destinao vinculada pelo aplicador do incentivo e a Sudam apenas os repassa aos destinatrios. Somente o grupo Joo Santos, um empreendimento tradicionalmente favorecido pelas ordens dadas de Braslia, recebeu mais dinheiro do artigo 17 do que a at ento obscura Ebal. O responsvel pela transformao seria o recm -admitido diretor-tcnico da empresa, que passou a circular pelos corredores da Sudam e teve trnsito livre com o superintendente, Henry Kayath. O governador Hlio Gueiros, pai de Andr, o novo diretor-tcnico da Ebal, nega veementemente que seu lho tenha feito trco de inuncia para favorecer a empresa. Lembra que Andr se formou no ano passado em engenharia naval, em So Paulo, com as melhores notas. Ao voltar para Belm, um companheiro de turma, lho do empresrio Carlos Cmara, dono de outro estaleiro, a ETN (Empresa Tcnica Nacional), convidou-o como scio para um empreendimento que iriam formar. Hlio vetou a associao, alertando o lho que pretendiam us-lo para favorecer a empresa. Eu no permiti que entrasse numa rma nova, nem que fosse admitido como scio. Iriam logo dizer que ele estava se beneciando do pai governador, argumenta Gueiros, que, como a mulher, secretria de educao do Estado, tem procurado manter a famlia fora de negcios. Ele atribui a histria sobre a participao de Andr em favor da Ebal ao prprio Cmara, que, evidentemente, no cou satisfeito com a minha deciso.

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4 Defendendo o lho, que um menino srio e est agindo com lisura, o governador nega que a Sudam tenha concedido algum favor especial ou escuso Ebal. Eu cobrei isso do doutor Kayath e ele me assegurou que est tudo legal, diz Gueiros. Eu z tudo para evitar essas histrias. Mas no posso impedir meu lho de ganhar a vida com seu trabalho. A Ebal, de qualquer maneira, no apenas recebeu tudo a que tinha direito, atravs de uma fonte que s fornece recursos minguados (exceto para o grupo Joo Santos), como conseguiu aprovar, h duas semanas, na ltima reunio do Conselho Deliberativo da Sudam, a ampliao do seu parque industrial, em Icoaraci. Na realidade, ele j est implantado e o que ocorrer agora ser a sua duplicao, que absorver 365 milhes de cruzados, dos quais 146 milhes de incentivos scais agora pelo artigo 18. J prevendo esses rumos, em maio a empresa aumentou o limite do seu capital autorizado, que era de 20 milhes, para 83,6 milhes de cruzados. Quando executar a ampliao, se tornar a principal indstria de construo naval do Estado. Um feito. Para conrmar a posio do jornal a respeito, publiquei uma nota no nmero seguinte. Comeava a mostrar que nada mudara na sucesso de Jader por Hlio, dois herdeiros da bandeira de Magalhes Barata. Continuavam a usar a coisa pblica como se fosse coisa sua. Expandiam essa incurso sobre os recursos pblicos indiferentemente opinio pblica. Achavam que dando dinheiro para a imprensa, atravs de farta publicidade ocial, conquistariam sua conivncia. Os jornalistas fariam vista grossa aos seus atos. O JP, porm, no era cego. E fui adiante: A Ebal (Estaleiros da Bacia Amaznica) uma das privilegiadas empresas amparadas pelo sistema de incentivos scais que no tem motivos para reclamar da Sudam (Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia), que administra esses recursos. Depois de passar 16 meses sem qualquer liberao entre dezembro de 1985, quando teve seu projeto aprovado pelo Conselho Deliberativo, e abril deste ano [1987, data da primeira liberao a empresa recebeu, no intervalo de dois meses, todos os 19 bilhes de cruzados a que tinha direito e pelo anmico artigo 17, que representa s 20% das verbas do Finam e tem que ser retalhado entre 400 projetos incentivados. Apenas uma semana depois de aprovar a ampliao do projeto original da Ebal, a Sudam autorizou a liberao de mais de 20 milhes de cruzados para a empresa, que no dia 21 de setembro incorporou-os ao seu capital, assim integralizado em 39 milhes de cruzados. Na semana seguinte, a diretoria da Ebal decidiu aumentar o limite do capital autorizado, de 83,6 milhes, para 700 milhes de cruzados, dos quais 365 milhes so referentes ampliao aprovada pela Sudam. Com essa providncia, o capital autorizado cou 10 vezes maior do que o capital subscrito, que por sua vez, quase o dobro do capital efetivamente integralizado. Signica que a Ebal espera muitas e rpidas liberaes da Sudam, que pode ter mudado o tratamento dado empresa porque em abril o lho do governador Hlio Gueiros, Andr, assumiu a diretoria tcnica.Um acerto de contas: os herdeiros de BarataOs estaleiros Rio Maguari, localizado em Belm, e o Rio Tiet, em Araatuba, no interior de So Paulo, responderam operao que a Polcia Federal efetuou nas suas sedes e nas residncias de quatro dos seus donos, no dia 15. No diretamente, mas atravs de um anncio de pgina dupla, publicado exclusivamente na edio daquele domingo de O Liberal. A pea no faz qualquer referncia s seis operaes da PF de busca e apreenso de documentos (de um total de 53) para instruir inquritos instaurados em Araatuba, a pedido do Ministrio Pblico Federal. O MPF ajuizou ao para apurar a licitude de um contrato de 440 milhes de reais da Transpetro com um consrcio formado pelo Estaleiro Rio Tiet, que tambm dos Gueiros, e uma empresa paulista. O texto da publicidade se atm a proclamar a lisura do procedimento dos dois estaleiros e sua expresso no setor de construo naval brasileiro, que o credenciou a entrar na lista das 1.500 maiores empresas do Brasil, com 200 milhes de reais de receita no ano passado. Sobre a licitao e o contrato com a Transpetro, arma que todo processo foi acompanhado de perto pela imprensa nacional e que sua vitria se deveu ao menor preo oferecido na concorrncia internacional. O estaleiro j teria aplicado R$ 150 milhes para a fabricao dos 20 comboios encomendados pela subsidiria da Petrobrs, ar rolada na Operao Lava Jato. O anncio s saiu no jornal da famlia Maiorana. Ao noticiar a operao da PF, que atingiu mais sete Estados, O Liberal ao contrrio do Dirio do Par no citou uma nica vez o nome do j falecido ex-governador Hlio Gueiros, cujos trs lhos Paulo, Andr e Marcos tiveram suas residncias vasculhadas no cumprimento dos mandados expedidos pela justia federal. O Liberal foi muito mais discreto do que o Dirio que abriu manchete na primeira pgina para o fato. A excluso do Dirio da programao do anncio pode signicar o rompimento dos herdeiros de Hlio Gueiros com a famlia Barbalho, quatro anos ps-morte do chefe do cl. O ex-governador havia restabelecido seus vnculos polticos e pessoais com Jader Barbalho, depois de alguns anos de rompimento e choques violentos. Voltou a se liar ao PMDB, mas perdeu sua ltima eleio, para voltar ao Senado, e encerrou sua carreira. Ao noticiar a ao nas casas dos seus lhos, o Dirio proclamou que a Operao Lava Jato chegava ao Par. No para atingir o dono do jornal, j citado, em duas delaes premiadas, como benecirio de propinas no esquema de corrupo montado na Petrobrs, que continua sem ser indiciado. Mas seu correligionrio em m de carreira, que j no podia se defender. Renascido pelo noticirio para a reescrita do captulo nal da sua biograa, foi substitudo pelos lhos, agora em confronto com os Barbalhos, na dissoluo de um dos ltimos acervos polticos do caudilhismo de Magalhes Barata.

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5 O desrespeito ao cidado: por onde o fascismo entraUm tero das manchetes dos trs maiores jornais do pas (Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo e O Glo bo ) na segunda semana de dezembro foram sobre processos judiciais envolvendo polticos e empresrios. Seria um indicador da maior transparncia da justia, mas tambm traz a preocupao de os processos estarem se desenvolvendo pela imprensa, em vez de nos tribunais. este aspecto que preocupa o advogado e professor de direito penal Nilo Batista, exgovernador do Rio de Janeiro. Em entrevista revista eletrnica Conjur, ele denuncia a existncia de um problema: Como h casos em que todo o processo se desenvolve pela mdia, era preciso exigir as mesmas garantias do judicirio: observncia do contraditrio e direito ampla defesa. Nilo aponta como o exemplo mais gritante do problema os programas policiais exibidos de tarde em canais aber tos de TV, quando, no raro, a imprensa exerce poder punitivo do Estado. J que o processo passou a se desenvolver na imprensa, ele precisa ter garantias. Ele acha que os indiciados no poderiam ser exibidos para as cmeras dentro de delegacias e achincalhados pelos apresentadores dos programas. Est no inciso XLIX do artigo 5 da Constituio que assegurado aos presos o respeito integridade fsica e moral, mas acho que nenhum membro do Ministrio Pblico liga a TV tarde, j que eu nunca vi irem contra isso. O ex-governador explica a disparidade entre o tratamento dado pela imprensa e o da Justia: Quando vo interrogar um acusado na delegacia, so obrigados a explicar que ele tem direito a um advogado e que ele pode permanecer em silncio. J em frente s cmeras, o reprter coloca um microfone na frente daquela pessoa sem qualquer explicao, de forma que ela pode dizer ali uma frase que a comprometer pelo resto da vida. O princpio da publicidade do processo no pode se confundir com o direito abelhudice, diz o criminalista ao Conjur. A publicidade um direito do acusado, no do pblico em geral. Serviu para combater os processos fraudulentos, interminveis e sigilosos, onde o ru no consegue se defender por no conhecer bem a acusao. Ao divulgar acusaes com mais peso do que as defesas e formar a convico da populao contra os rus, a prpria imprensa est exercendo um poder punitivo, que, a princpio, um poder do Estado. Mas ningum votou na mdia. Esse poder no foi concedido a ela pela populao, reclama Nilo Batista. Um dos resultados desse apreo pela acusao o aumento do apelo por punies mais duras. Crtico da criminalizao como soluo, ele alerta: A histria mostra que o fascismo avana pelo sistema penal e por ele se implanta. A advertncia devia merecer a ateno da sociedade, de olho nos exageros e aproveitamentos comerciais da imprensa que constrangem, desrespeitam ou violentam os cidados.As contas internacionais pioramAs reservas internacionais somaram 369 bilhes de dlares no conceito liquidez, no ms passado. A dvida exter na bruta foi estimada em US$ 667,2 bilhes no mesmo ms, segundo o Banco Central. So os dois principais nmeros da situao apresentada, com dados divulgados na semana passada. Em novembro, as transaes cor rentes apresentaramdcitde 2,9 bilhes de dlares. Nos ltimos 12 meses, o saldo negativo somou US$ 68 bilhes, equivalentes a 3,70% do Produto Interno Bruto do Brasil. As captaes lquidas de dinheiro superaram as concesses lquidas em US$ 2,8 bilhes. Ingressaram no pas US$ 4,9 bilhes lquidos na forma de investimentos diretos e US$ 4,7 bilhes em ttulos de renda xa, para se beneciarem dos juros que o governo paga, dos maiores do mundo. Houve um recuo em todos os setores do balano de pagamentos brasileiro. As despesas lquidas na conta de servios, por exemplo, foram menores em US$ 2,4 bilhes no ms, com reduo de 33,9% em relao a novembro de 2014. As despesas lquidas com transportes diminuram 45,5%, no mesmo perodo. As viagens internacionais acarretaram despesas lquidas de US$ 505 milhes, mas foram quase 60% inferiores a novembro do ano passado, com redues de 43,4% nos gastos de turistas brasileiros em viagens ao exterior, e de 1,3% nas despesas de viajantes estrangeiros ao Brasil. As despesas lquidas de renda primria somaram US$ 1,7 bilho no ms passado, 43,3% inferiores a um ano antes. As remessas lquidas de lucros e dividendos totalizaram US$ 882 milhes diante de US$ 2,1 bilhes na mesma comparao. As despesas lquidas de juros atingiram US$ 882 milhes, baixa de 13,3%. As sadas lquidas de renda de investimento direto somaram US$ 938 milhes, recuo de 37,6%. As despesas lquidas de renda de investimentos em carteira totalizaram US$648 milhes. A despesa lquida de renda de outros investimentos atingiu US$ 396 milhes, 11,2% menores. Os ingressos lquidos de investimentos diretos no pas chegaram a US$ 4,9 bilhes, dos quais US$4 bilhes em participao no capital, includos reinvestimento de lucros, e US$ 915 milhes em operaes intercompanhias. Em 12 meses, os ingressos lquidos dos investimentos diretos no pas totalizaram US$ 69,9 bilhes, equivalentes a 3,81% do PIB. Em novembro de 2015 as reservas internacionais totalizaram US$ 369 bilhes no conceito liquidez, sendo US$ 2 bilhes menores do que no ms anterior. A dvida externa bruta foi estimada para novembro em US$ 667,2 bilhes, dos quais US$283,1 bilhes de longo prazo e US$57,5 bilhes de curto prazo.

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6 Sanidade e insanidade scalElias Granhen TavaresA carta que Elias Granhen Tavares me enviou, contestando matria da edio passada, to longa e, ao mesmo tempo, to didtica que decidi transform-la em artigo, para proveito do leitor. Com sua notria competncia em questes financeiras e tributrias, entre outras, Elias se anuncia em posio completamente oposta minha, a partir de dados concretos. No vou responder sua exposio para no lhe confiscar espao que utilizou to bem. Mas para que no parea que fiz o que ele no faz, o de tomar por base dados errados e chegar a concluses equivocadas, s destaco que: 1 No tomei a administrao FHC como parmetro de sanidade fiscal e sim de regulao fiscal; se destaquei o que estamos vendo (e sofrendo) porque a insanidade se estendeu da situao concreta ao desrespeito lei de responsabilidade, que se impe ao governo respeitar, e manipulao das contas pblicas; 2 Houve certa impropriedade tcnica nos dos conceitos, usados para entendimento do pblico em geral, mas no ignoro a distino entre a dvida bruta de todos os governos e o da Unio, nem entre dvida bruta e lquida, diferena assinalada no meu texto; 3 Os dados comparativamente melhores que Elias utiliza se devem a um crescimento econmico (como o das exportaes) realmente notvel, mas base de matrias primas (o que imps uma volumetria insana tanto do minrio de ferro, que nunca mais retornar nem substituir com a mesma qualidade, quanto da soja, que desencadeou um desmatamento absurdo); agora estamos comeando a pagar a conta desse crescimento, induzido pelo endividamento das famlias e a inadimplncia para sustentar um consumo sem lastro na poupana real. Se Dilma uma das mais incompetentes presidentes que a repblica j gerou, sem dvida, sobretudo a partir do segundo mandato, Lula jogou sobre seu colo no um bagre, do qual se queixou quando tentaram cham-lo conscincia sobre as hidreltricas do rio Madeira, mas bombas de efeito retardado. Veja-se matria nesta edio sobre as contas externas do Brasil. Mas vamos ao importante texto do Elias Tavares:Vamos divergir novamente (timo!). Desta vez, sobre a matria A responsabilidade scal e a moeda sob ameaa, publicada no JP 598. Talvez por culpa do teu computador, ou do diagramador/ilustrador, ou de ambos, saiu sob ameaada o que faria a festa para o jornalista e teu amigo Moacir Japiassu, estivesse ele ainda neste vale de lgrimas (nos 1980, eu no perdia um programa de TV em que ele, no estilo do Jornal da Imprena, baixava o sempre inteligentssimo e bem-humorado porrete em cima das burradas dos colegas de vocs, jornalistas). Ao que interessa: na matria em questo, dizes que a dvida pblica da Unio ...chega a R$ 3,8 trilhes. Mais frente, o texto sentencia: A sanidade scal chegou ao m. A cifra que usaste est incorreta. E, por consequncia, a concluso est prejudicada. O que chega a R$ 3,8 trilhes no a dvida pblica da Unio. a dvida pblica bruta do governo geral. Unio e governo geral so coisas diferentes. Como diz o Volume 5 do Manual de Finanas Pblicas em uso pelo Banco Central e pela Secretaria do Tesouro Nacional (estou te encaminhando uma cpia), o conceito de governo geral abrange as administraes diretas federal, estaduais e municipais, bem como o sistema pblico de previdncia social. Essa conceituao adotada pelo Brasil com o propsito de obter indicadores mais prximos aos padres internacionais. Simplicando, pode-se dizer que a dvida pblica bruta do governo geral, corresponde soma das dvidas brutas, internas e externas, dos governos municipais, estaduais e federal. Os R$ 3,8 trilhes a que tu te referes, no correspondem, portanto, dvida pblica da Unio, e sim dvida pblica bruta das administraes diretas federal, estaduais e municipais, e do sistema pblico de previdncia social, entendido o conjunto da resultante como governo geral. Em outubro/2015, a dvida pblica bruta do governo geral era de R$ 3.813,9 bilhes (ou R$ 3,8 trilhes), sendo R$ 3.571,3 bilhes do governo federal e R$ 242,6 bilhes dos governos estaduais e municipais. Deste ltimo montante, R$ 119,4 bilhes correspondem dvida interna e R$ 123,2 bilhes dvida externa de Estados e Municpios. Aproveito a oportunidade para me referir matria D vida de Trilhes, do mesmo JP 598. Nela est dito que a dvida externa lquida soma apenas R$ 141 bilhes, sem dizer de quem essa dvida, mas fazendo subtender que o volume faz parte dos muitos insucessos do governo federal. Limitando-me ao conceito de dvida externa bruta do governo geral, chamo tua ateno para o fato de que, em ou tubro/2015, ela monta a R$ 259,8 bilhes, dos quais, como j dito, R$ 123,2 bilhes so dvidas externas de Estados (R$ 111,3 bilhes), e de Municpios (R$ 11,9 bilhes). Corresponde Unio, a dvida externa bruta de R$ 136,6 bilhes. E, se a dvida bruta isso, a lquida no pode ser R$ 141 bilhes, certo? Uma anlise consistente do endividamento, no deve ignorar a diferena entre dvida bruta e dvida lquida. O endividamento de um pas no pode ser avaliado considerando-se apenas a dvida bruta sem levar em conta a dvi da lquida Anal, nenhum pas apenas contas a pagar. Todos tm dvidas a pagar e tambm crditos a receber. E o Brasil no foge regra... Ainda segundo o Manual de Finanas h pouco citado, a dvida lquida do setor pblico o saldo lquido do endivi damento do setor pblico no nanceiro e do Banco Central

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7 com o sistema nanceiro (pblico e privado), o setor privado no-nanceiro e o resto do mundo entendendo-se por sal do lquido, o balanceamento entre as dvidas e os crditos do setor pblico no-nanceiro e do Banco Central. O mesmo manual ressalva: (i) ...diferentemente de outros pases, o conceito de dvida lquida utilizado no Brasil considera os ativos e passivos nanceiros do Banco Central, incluindo, dessa forma, a base monetria; e (ii) ...o Banco Central includo na apurao da dvida lquida pelo fato de transferir seu lucro automaticamente para o Tesouro Nacional, alm de ser o agente arrecadador do imposto inacionrio. Como o resultado econmico do BC automaticamente incorporado ao Tesouro Nacional, nada mais correto que ele seja considerado integrante do setor pblico, diferentemente do que ocorre com o Banco do Brasil, p.ex., cujo resultado econmico recebe tratamento similar ao das empresas privadas. Mas isso detalhe. O que importa ter em mente o fato de que uma anlise consistente do endividamento no pode se restringir dvida bruta ignorando a dvida lquida as sim como a anlise da sade nanceira de uma empresa no pode se limitar ao passivo (...e o ativo, no conta?). Ao se tomar esse cuidado, na anlise do desempenho brasileiro, algumas coisas comeam a car mais claras. Por exemplo: em outubro/2015, a dvida lquida do governo ge ral antes de incluir o Banco Central e as estatais, era de R$ 2,1 trilhes (55,3% da dvida bruta). Incluindo-se o Banco Central e as estatais, a dvida lquida do setor pblico cai ainda mais para R$ 2,0 trilhes, ou seja, 52,6% da dvida bruta ( que o resultado do Banco Central reduz a dvida em R$ 172,4 bilhes, enquanto que as estatais a aumentam em R$ 50,0 bilhes). Em tempo: as cifras expostas neste pargrafo esto arredondadas para cima. Mas, o que isso signica? A situao melhorou ou piorou, durante os anos petelhos ? Para responder a isso, melhor analisar o desempenho, a partir de 2002. claro que, em nmeros absolutos, os volumes so signicativamente maiores. Ao longo da era lu lopetista o Brasil mudou de escala, tornando-se uma das maiores economias do planeta. As exportaes praticamente quadruplicaram, fazendo do Brasil um player mundial no linguajar pernstico que os direitopatas verde-amarelos tanto prezam. Vai da que a melhor maneira de qualicar a evoluo da situao brasileira, no quesito endividamento checando a proporo entre dvida lquida e Produto Interno Bruto, desde o m do governo FHC at aqui. Vamos ver que bicho d, usando dados do ms de dezem bro do nal de cada mandato (exceto 2015, que usa dados de outubro ). Os valores esto em R$ milhes correntes. A ca mais claro o equvoco de dizer que a sanidade scal chegou ao m. A menos que se consiga demonstrar que havia sanidade quando a dvida lquida representava quase 60% do PIB. E, mais, que isso era melhor para o pas do que agora, quando o endividamento lquido corresponde a 34,2% do PIB, ou seja, pouco mais da metade (57,2%) do que era ao nal do 2 mandato do FHC. o que transparece quando a mdia oposicionista, no tom catastrosta em vigor a partir de 2003, usa valores absolutos, de volumes cuidadosamente selecionados pra causar espanto e exacerbar o descontentamento popular com o governo federal, que j no pequeno (e com toneladas de razes...). A fala-se na dvida monumental de R$ 3,81 trilhes, omitindo o fato nada desprezvel que nada menos que 48,3% desse montante, esto compensados por crditos de que o pas dispe, o reduz a tal dvida para R$ 1,97 trilho, ou seja, pouco mais da metade (51,7%) do seu valor bruto. E que o endividamento lquido do pas substancialmente menor do que era quando o PT chegou ao poder. bem verdade que, de 2002 a 2015, o endividamento lquido brasileiro aumentou 121,1%, em termos nominais. Acontece que, no mesmo perodo, e nos mesmos termos, o PIB brasileiro cresceu 286,8%. O crescimento do PIB foi, portanto, 2,4 vezes o crescimento da dvida. Durante os anos petelhos o Brasil cresceu muito mais do que se endividou, diferentemente do que ocorria nos anos tucanos quando o pas mais se endividava do que crescia. Trata-se, evidentemente, de uma outra escala econmica. E nem se pode dizer que esses resultados constituem pontos isolados na evoluo do endividamento. Ao contrrio, o exame da trajetria demonstra a existncia de um direcionamento poltico claramente estabelecido. Por exemplo: FHC encerrou o ano de 2001 com a dvida lquida correspondendo a 51,5% do PIB. Ao longo de todo o ano de 2002, ms a ms, esse endividamento s aumentou. Em julho de 2002, j batia nos 58,7% do PIB. Chegou a 60,3% em outubro, e acabou fechando o ano (e o 2 mandato de FHC) em 59,8%. Havia sanidade scal nisso? Lula encerrou o primeiro ms de seu 1 mandato com o endividamento lquido estacionado nos mesmos 59,8% do PIB que recebera de FHC. Mas j fechou o ano com uma signicativa reduo: 54,2%. O ano seguinte, 2004, se encer raria com o endividamento lquido representando 50,2% do PIB. Nos anos subsequentes, seria mantido um consistente processo de reduo do endividamento lquido em relao ao PIB: 47,9% em 2005; 46,5% em 2006; 44,6% em 2007; 37,6% em 2008; 40,9% em 2009; 38,0% em 2010; 34,5% em 2011; 32,9% em 2012; 31,5% em 2013; 34,1% em 2014; (e 34,2% em outubro de 2015). H insanidade scal nisso? Excludo o primeiro ms do primeiro ano do primeiro mandato do Lula, em nenhum momento, nos anos petelhos o endividamento pblico lquido do Brasil chegou pelo menos perto dos escandalosos, absurdos, inaceitveis e insustentveis quase 60% do PIB, com que FHC entregou o governo ao Lula. Esse papo que a gente tanto v na imprensa e na internet, de que o governo lulopetista teria implementado uma poltica de endividamento irresponsvel no passa de vigarice

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8 de poltico tucano, e de jornalista manejado pelo cabresto curto do patro. Endividadores irresponsveis e insanos fo ram eles, os tucanos! No tenho a menor simpatia pela atual conduo da poltica econmica do governo Dilma. Estou convencido de que ela apenas repete a mesma desastrosa poltica econmica adotada h 51 anos atrs, to logo os militares assumiram o poder... E com os mesmos desastrosos resultados. (Tanto que os prprios militares cuidaram de colocar as coisas na funo inversa...). De fato, acho que a atual gesto Dilma to ruim que, pra falar mal dela, no necessrio mentir nem corromper dados. Basta falar a verdade... Mas, pra falar a verdade, temos que dizer que, pelo menos at aqui, a situao do endividamento pblico no Brasil innitamente melhor do que era antes do PT assumir o governo. H, ainda, a interminvel discusso sobre o tal supervit primrio. O que pouca gente leva em conta que, at o m do governo FHC, mais de 60% da despesa pblica da Unio era usada apenas para pagar a dvida (servios e amortizao do principal). E que, atualmente, o gasto com a dvida mobiliza pouco mais de 30% da despesa pblica. E isso faz muita diferena. Em minha j longeva existncia, jamais encontrei quem me demonstrasse que, aquele que gasta mais de 60% da despesa s pra rolar endividamento, se porta com mais responsabilidade do que quem usa pouco mais de 30% do mesmo volume, para o mesmo m. Qual das duas situaes tu preferirias ver estabelecida nas tuas nanas domsticas? Mas no vou entrar nesse assunto. Fica pra prxima, que j me alongo. Seguem, em anexo, demonstraes analticas, ms a ms, da evoluo da dvida lquida do setor pblico de dezembro/2001 a outubro/2015, e da dvida lquida e bruta do governo geral, de dezembro/2006 a outubro/2015. Ambas as demonstraes esto disponveis nos sites do BC e da STN/MF.O caos no caos Catilinrias moda da casaA Polcia Federal provavelmente quis fazer erudita ironia ao batizar a operao de investigao que realizou na semana passada com o ttulo dos discursos que o cnsul romano Mar co Tlio Ccero pronunciou contra o senador Catilina, celebrizadas (e includas no vernculo mundial) como Catilinrias A referncia bvia foi ao alvo dos principais mandados de busca e apreenso executados em Braslia e outras cidades brasileiras, num total de 53. No caso, no um senador do antigo imprio romano, mas o deputado Eduardo Cunha, do PMDB, presidente da Cmara Federal e terceiro na linha sucessria da presidncia da repblica. Em retrica memorvel. Ccero acusou Catilina de conspirar para tomar o poder e derrubar o governo republicano. O libelo de Ccero tinha procedncia, mas a analogia deixa mal a PF. Eduardo Cunha deve prestar contas de vrios crimes que teria cometido, dentre os quais o de mentir aos seus pares, crime cristalinamente poltico, que deve ser punido pelo cdigo de tica do parlamento, afastando-o das suas funes ou cassando-o. Mas a polcia judiciria federal, que cumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal, no pode dar essa interpretao ofensiva que promoveu. Quando muito, o deputado carioca ameaa a presidente Dilma Rousseff, manipulando em interesse prprio contra ela um pedido de impeachment bem formulado, mas ainda capenga pela tica que define o encaminhamento de uma ao de tal gravidade: sua consistncia poltica. Ao referendar a Cunha uma inteno que lhe da pela chefe do poder executivo federal e seu squito, a PF extrapola da sua funo legal e contamina de vcio a sua misso especca. Toma partido numa disputa na qual devia cumprir sua competncia tcnica, preservando o interesse pblico, distncia de uma guerra na qual lamentvel a ausncia de mocinhos. Foi um batismo infeliz. Para o bem da res pblica, espera-se que o excesso tenha sido s do mpeto do padrinho, ainda que a mancha j tenha sido lanada, talvez denitivamente. Em 2002, no ltimo ano de Fernando Henrique Cardoso na presidncia da repblica, as operaes de crdito realizadas pelos bancos equivaliam a 25,35% do Produto Interno Bruto do Brasil. Em novembro deste ano, elas mais do que dobraram, saltando para 53,8% do PIB nacional. De um saldo de 378 bilhes de reais, elas agora somam R$ 3.177 bilhes Foi um crescimento real de 112,23% relativamente ao PIB nesse perodo. O problema que o desempenho do PIB foi trs vezes inferior ao do setor nanceiro. Induzidas ao consumo pela expanso mais do que proporcional do crdito sobre a atividade produtiva, pessoas, famlias e empresas se endividaram muito alm da sua capacidade de pagamento. Dessa equao simples e fundamental, resultou a atual inadimplncia geral, a maior de todos os tempos no pas. A taxa de inadimplncia, computados atrasos superiores a 90 dias, atingiu 3,3% em novembro. Recorrendo ao dinheiro dos bancos, o devedor paga a taxa mdia de juros de 30,4% ao ano. Cada vez que deixou de pagar a parcela e teve que renegoci-la, levou para casa mais juros. A bola de neve cresceu de tal maneira que agora se impe a todas as formas de soluo que no incluam uma mudana profunda nas regras do jogo. Mas qual jogo? O do crescimento com base na iluso monetria, adotado a partir do gabinete desenvolvimentista do ministro Guido Mantega, o que por mais tempo permaneceu na chea da Fazenda. Como promover essa autntica revoluo na economia nas condies polticas e de gesto dos assuntos pblicos atuais?

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9 Commodities: Brasil perdeu o que ganhouNa prtica, o Brasil j devolveu todo o ganho obtido no perodo de boom das commodities, e os termos de troca j esto em um patamar inferior mdia dos ltimos 20 anos. a concluso do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada, do governo federal, que atinge diretamente o Par, maior exportador do item principal da pauta comer cial brasileira, que o minrio de ferro, extrado na mina de Carajs. A anlise da evoluo do comrcio exterior do pas segundo os principais produtos mostra que quase 60% da reduo das exportaes no perodo, janeiro a novembro deste ano, em relao ao mesmo perodo de 2014, deveu-se queda das vendas de apenas quatro produtos: minrio de ferro (responsvel, sozinho, por um tero da exportao total), soja em gro, petrleo e carnes. O desempenho destes produtos diz o Ipea est diretamente associado queda das cotaes internacionais das commodities, visto que os volumes de exportao desses produtos tiveram crescimento no perodo o petrleo, por exemplo, teve alta de 52%. Esses nmeros tornam ainda mais evidente a intensidade do impacto da queda das cotaes internacionais das commodities e os problemas de se ter uma pauta de exportaes muito concentrada neste tipo de produtos, como vem acontecendo com o Brasil nos ltimos anos. A sensao de que o Brasil chega ao m de 2015 com certo desafogo nas suas diculdades no s passageira como ilusria. Para se safar das suas enormes diculdades, o pas se contraiu, emagreceu e se fechou para o mundo, o que pode comprometer sua capacidade de competir com quem disputa partes maiores do mercado. Mas no tem a possibilidade de substituir o comrcio exterior, que o principal responsvel pelo ingresso de dinheiro, e pelo mercado interno, desprovido de dinamismo pela crise de crdito e o abalo do endividamento. o que se pode concluir da anlise que o Ipea fez na sua ltima carta de conjuntura. O instituto de pesquisa, que vinculado presidncia da repblica, admite que as contas exter nas brasileiras atravessam uma fase de forte ajuste, no apenas em seu sentido clssico, de reduo do dcit em transaes correntes, mas tambm em um sentido mais amplo, com queda expressiva de praticamente todos os tipos de uxos comerciais, nanceiros e de rendas entre o pas e o exterior. A novidade no processo atual que ele no resulta de uma crise cambial ou de grandes diculdades de nanciamento externo: H, de fato, uma reduo das entradas lquidas de capital no pas, mas que vem se dando pari passu com a queda do dcit em transaes correntes, garantindo uma situao de razovel equilbrio no balano de pagamentos. Nas transaes cor rentes houve aumento do saldo comercial, reduo do dcit da balana de servios e queda expressiva das remessas lquidas de lucros e dividendos. A balana comercial melhorou graas ao crescimento de 6,8% do volume exportado e da retrao de 13,9% nas importaes de janeiro a outubro, combinao que se sobrepe reduo de 11,5% dos termos de troca no perodo. A conta nanceira registra quedas signicativas dos investimentos diretos no pas (32,3%), dos investimentos em carteira (-51,7%) e dos uxos lquidos de emprstimos e nanciamentos de mdio e longo prazos. Tambm as sadas de recursos na conta nanceira, especialmente os investimentos brasileiros no exterior, esto em retrao. O ajuste externo deriva tanto de fatores externos quanto domsticos, anota o Ipea. Alm da lenta e irregular recuperao da economia internacional, com o mais baixo ritmo de crescimento em trs dcadas, os preos das commodities continuam em queda acentuada. Para complicar, a perspectiva de aumento dos juros bsicos nos Estados Unidos e uma srie de problemas enfrentados pelas principais economias emergentes (inclusive a China) vm reduzindo o interesse dos investidores internacionais em aplicar recursos nesses pases. No front interno, o instituto observa a retrao da atividade econmica, a depreciao cambial (a cotao do dlar subiu cerca de 50% nos ltimos 12 meses) e o quadro geral de incer tezas quanto ao futuro da economia notadamente a piora do quadro scal no curto prazo e as incertezas quanto sua melhoria no futuro aumentaram sensivelmente a percepo de risco do pas, fato que foi consubstanciado pela perda do grau de investimento pela agncia Standard & Poors. No acumulado de janeiro a novembro deste ano o supervit alcanou 13,4 bilhes de dlares. Nos dois anos anteriores, o saldo no mesmo perodo foi negativo. Essa melhoria recente da balana se deve principalmente a uma queda extraordinria das importaes, ao lado de uma retrao das exportaes, observa. No acumulado do ano, as importaes caram 24,1%, taxa bem mais negativa do que os 16% negativos referentes s expor taes. E a diferena de desempenho entre as duas sries vem se acentuando nos ltimos meses, completa a anlise. O instituto tem uma viso otimista das exportaes brasileiras, apesar de elas evolurem a um ritmo prximo (e um pouco inferior) ao das importaes mundiais em volume, embora com um

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10 comportamento bem mais voltil do que estas. Dados de instituies multilaterais tambm mostram um comr cio mundial crescendo em ritmo lento, menor, inclusive, do que o crescimento do PIB mundial. Esse quadro agravado quando se tem em conta a sensvel desacelerao econmica sofrida pelos pases latino-americanos aps o fim do ciclo de alta das commodities, lembrando que estes pases respondem por cerca de metade das exportaes brasileiras de manufaturados. Mas h uma ameaa diante do pas pelo impacto negativo bastante intenso nas suas relaes de troca, que se iniciou na segunda metade de 2011, mas que ganhou velocidade a partir do ano passado. Entre maio de 2014 e outubro deste ano, a queda acumulada dos termos de troca foi de 15%.Do lado das importaes, a queda acumulada no ano j supera US$ 50 bilhes, com destaque especial para os bens inter medirios, que contriburam com 38% da reduo, e para o petrleo e os demais combustveis e lubricantes, que responderam por cerca de 30% da reduo total das importaes ocasionada no apenas por menores preos, mas tambm pela retrao dos volumes importados. A anlise do desempenho recente do quantum de importaes revela que a forte queda observada em 2015 foi de tal magnitude que fez o nvel das importaes recuar para patamar semelhante ao observado em meados de 2008, imediatamente antes da ecloso da crise nanceira internacional. A queda recente generalizada entre as diversas categorias de uso de produtos, mas o desempenho tem sido especialmente negativo nos bens de capital e nos bens intermedirios. Desde o pico histrico alcanado no incio de 2013, as importaes de bens de capital j acumulam retrao de quase 40%. Nos bens intermedirios, o movimento de retrao mais recente, tendo se iniciado em meados de 2014. Os dois movimentos podem comprometer a retomada do desenvolvimento e da industrializao do Brasil, efeitos de longo prazo que, quando comeam, demoram a ser revertidos. um dos grandes desaos brasileiros, agora.Igreja do Xingu se nacionalizaA dinastia missionria dos Krautler sobre a maior presemana passada, 80 anos depois do seu comeo. Sua marca inicial foi em 1934, quando o austraco Eurico Krautler a assumiu. E terminou no dia 23, quando o Vaticano aceitou a renncia do seu sobrinho, Erwin, e ime diatamente designou para substitu-lo um brasilei ro, Joo Muniz Alves, que era vigrio da comuni dade franciscana de So Luiz do Maranho. uma histria nica, a de um bispo, que ocupou o cargo por quase meio sculo, pass-lo a um sobrinho, tambm austraco, que exerceria seu episcopado por outros 33 anos, afastando-se dele voluntariamente, por sua idade, de 76 anos, mas permane cendo na regio como bispo emrito. A prelazia se estende por rea de 105 mil quilmetros quadrados, que excede, em 20 mil km2 o territrio da ustria, com um detalhe: 80% dos seus 400 mil habitantes se declaram catlicos. o resultado do trabalho catequtico e apostlico dos dois bispos parentes. Mas h outro, que toca a sensibilidade de Roma: parte considervel da populao atendida pelo trabalho missionrio de ndios. Dom Erwin deu ateno especial a eles, seguindo embora sob outra perspectiva a diretriz do tio, que escreveu dois livros sobre os ocupantes primitivos da terra, Eurico tinha do outro lado seringueiros e casta nheiros, seu sobrinho se defrontou com dois instrumentos gigantescos da ocupao contempor nea da Amaznia: a Transamaznica, na dcada de 1970, e a hidreltrica de Belo Monte, no alvorecer do sculo XXI. Dom Erwin se colocou diante da grande obra como um autntico missionrio, disposto a tudo para ser a voz dos nativos. A sua posio foi reconhecida pelo novo papa, que o recebeu em audincia e fez seu pronunciamento em favor dos ndios, como se quisesse orientar o novo bispo para prossecionaliza agora, mas a marca a mesma, do missionarismo disposto ao sacrifcio por sua opo.Guia da cabanagem O governo do Estado devia reproduzir o catlogo da exposio Nas trilhas da Cabanagem, promovida pela secretaria de comunicao da Cmara dos Histrias no contadas, do Centro Cultural da instituio, e distribulo em toda a rede pblica de ensino na volta s aulas em 2016. Tenho reservas a algumas das consideraes feitas na publicao, mas o trabalho iconogrfico, muito bem editado, e o tom didtico (mas no superficial) do texto avalizam a sugesto que fao. Seria um item mais consistente nas comemoraes pelos 400 anos de Belm.

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11 MEU SEBODedicatria de PassarinhoJarbas Passarinho tinha 25 anos e era 1 tenente instrutor de artilharia, em abril de 1945, quando deu ao aluno Pires, tambm de artilharia no CPOR Reserva), em Belm, o livro Grandes Soldados do Brasil, do tenente-coronel Lima Figueiredo. Era a 4 edio (296 pginas), lanada pela Editora Jos Olympio no ano anterior. Na dedicatria, Passarinho escreveu ao futuro engenheiro e empresrio Otvio Pires, recentemente falecido: como reconhecimento ao seu esfor o, sua dedicao e, at certo ponto, sua vocao especializada certamente, de artilharia. Passarinho no comprou o livro: recebeu-o por oferta, em 1944 mesmo, do Departamento de Imprensa e Propaganda, o famoso DIP do Estado Novo, que reprimia e remunerava (bem) intelectuais, inclusive de esquerda e inimigos da ditadura do Estado Novo. Getlio Vargas foi o maior dspota esclarecido do Brasil. Da a te olhando para uma nica das suas faces. Ela tinha uma coleo delas.Trindade ocultaAvancei com gosto sobre o lbum Parquia da Trindade, 200 anos, que encontrei num dos sebos da cidade. Tinha boa aparncia: no formato, na capa dura, no papel e na diagramao. A publicao no tinha data, mas como comemorava o bicentenrio da parquia, deve ter sado no ano passado. Mas foi uma frustrao total para quem, como eu, vizinho bem prximo Miguel Incio (o mais duradouro e importante proco da Trindade, ignorado no lbum) e do padre Cupertino Contente, alm de presidente do Clube de Jovens da Trindade e auxiliar e ami go do padre Carlos Cardoso da Cunha Coimbra, o maior intelectual da parquia (em todos os sentidos). A reconstituio histrica no chega at eles. Derrama-se em fotos e texto, ras atuais, concentrando-se em algumas. Parece ser publicao promocio nal, muito mais do que um lbum da histria de uma das mais importantes e ativas parquias de Belm, reduto principal de parte da sua classe mdia. Um desperdcio.Histria com histriasSou da poca em que se liam histrias gerais da humanidade. A mais audaciosa delas foi escrita por Cesare Cant em mais de 30 volumes. Tenho a coleo h mais de 50 anos. De vez em quando releio alguns captulos mais prximos da poca em que o autor viveu. Tm o colorido do testemunho, a vivacidade da paixo pelo assunto e a picardia de quem no se deixa seduzir pelo canto de sereia da neutralidade.. Raros ainda se atrevem a essas aventuras enciclopdicas. Os trabalhos foram encurtando sua abrangncia e a temtica. Mas o que ganharam em mais preciso costumaram perder em qualidade de narrao e relato. Mais do que isso: bitolados por um determinado marco terico ou por um dogmatis mo ideolgico, tiraram do aprendizado da histria o seu melhor sabor. Quase por tautologia, por serem histrias. Li muitos livros modernos sobre as guerras da antiguidade, alguns deles eruditos e impressionantes. Nenhum conseguiu me impressionar mais do que Homero, frente de Herdoto (o tal pai da histria), Polbio ou Tucidides, tambm gigantes na arte de contar histrias. Ningum me conseguiu transmitir com mais realismo o que acontecia num campo de batalha entre guerreiros obrigados a lutar no corpo a corpo, que era, na verdade, armadura contra armadura. A esquerda prestou um grande servio ao saber humano, livrando-o da mitologia do heri, cultivada de Plutarco a Carlyle, e ainda repetida nos livros de ocasio, escritos para vender. A partir da, porm, entrou numa rota de desservio ao suprimir o homem do choque entre estruturas annimas, conceituais, determinantes em ltima instncia (muitas vezes, sem o prudente acrscimo do prprio Marx frmula da determinao econmica). Os livros progressistas de histria costumam ser de uma sensaboria enervante e de clichs empobrecedores. Afastam os leitores mais curiosos e interessados das suas pginas, que se abrem e se fecham com verdades refratrias boa investigao dos fatos concretos gerados por homens de carne e osso. Devo muito da minha paixo pela histria, surgida quando ainda era moleque de cala curta, a autores como Monteiro Lobato, H. G. Wells, Will Durant, MacNall Burns, H. van A Histria da Raa Humana tenho todas as edies brasileiras e a segunda americana. Elas comearam a sair em 1938, pela Editora Globo, a gacha, que a reimprimiu seis vezes at se decidir por uma segunda edio, em 1960. Esta, a primeira que comprei num sebo, saiu em formato pequeno, exce colagem das pginas lombada, semleo Catavento, que, com a coleo Tapete Mgico, nos fez passear pelo tempo e espao da sociedade humana. que na leitura, to importante quanto a compreenso do contedo do livro: o prazer superior que ela proporciona. Por isso, deviam ser reeditados, ao invs de serem mantidos nos escani nhos da desmemoria, numa poca em mais por culpa dos que deviam orient -los do que por qualquer forma maligna de m predisposio gentica.

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12 memriaC OTIDIAN OdoINCNDIOA Palmeirinha era a padaria mais conhecida e popular do ento buclico bairro do Telgrafo Sem Fio. Alguns pensavam que era uma filial da suntuosa fbrica Palmeira, uma das melhores confeitarias do pas, que ficava no centro comercial de Belm, ponto de encontro da melhor sociedade, como se dizia. Era de madrugada quando o fogo comeou, pelos fundos do prdio da Palmeirinha, onde ficavam o forno e a estufa. A populao de mobilizou para combater logo o fogo com baldes de gua. Os bombeiros, que eram voluntrios, chegaram meia hora depois e conseguiram conter as chamas, antes que elas se espalhassem. Os donos do estabelecimento comercial, da firma Bastos & Santos, tinham dois seguros para o prdio, da Guarani e da Tatiquara, que cobririam o prejuzo, calculado em 50 mil cruzeiros.CONTRABANDOO leiloeiro Filomeno Carvalho se preparava, naquela manh de sbado, como de costume, para apregoar o lote mais precioso do leilo de mercadorias contrabandeadas apreendidas pela alfndega de Belm, constitudo por vrias caixas de usque estrangeiro. Exatamente nesse momento surgiu um ocial de justia. Ele trazia ofcio do juiz (e futuro desembargador) Oswaldo Pojucan Tavares, da 3 vara cvel. O magistrado comunicava ao delegado scal, Jlio Lira Neiva, que decidira suspender o leilo do usque, iniciativa frequente naquelas ocasies. Excludo o lquido escocs, o prego continuou com uma mquina de costura, pela qual nenhum dos presentes se interessou. A mercadoria seguinte, uma mquina de lavar completa e automtica, americana, foi arrematada. BELMCena da poltica paraense dessa poca, s vsperas da realizao de eleio para a prefeitura de Belm, em substituio a Celso Malcher, da oposio ao governador Magalhes Barata, segundo narrativa da coluna Vozes da rua da Folha Vesperti na de Paulo Maranho, o maior inimigo dos baratistas: O consulado americano costuma projetar, gratuitamente, todas as terasfeiras noite, lmes cinematogrcos no bairro da Cremao, justamente na vizinhana do Diretrio Distrital do PSD. O espetculo congrega multido de moradores do bairro. O PSD designou esse dia e a mesma hora para a realizao de um dos seus comcios. Comearam os oradores a proclamar as qualidades do candidato, ou dizendo com exatido literal, a por em relevo as virtudes do Sr. general Barata. Parecia que a numerosa assistncia projeo fazia parte do comcio; mas logo, porm, que aquele terminou a desero foi completa. Os assistentes da ta, que tinham aceitado cartazes de reclames da candidatura pessedista, zeram com eles tochas acesas e deslaram, em pitoresca marcha aux ambeau, rumo ao local onde se efetuava uma reunio pr Lopo de Castro, trav. 14 de Maro, no stio conhecido por Coria. E os vivas ao Sr. Lopo de Castro, que se tinham iniciado antes da disperso, continuaram pelo caminho que conduzia aos festejos do candidato da Coligao. Algumas observaes adicionais sobre esse texto: 1 Os Estados Unidos ainda utilizavam a via cultural para expandir sua inuncia e disseminar o american way of life, opo sufocada pelo seu militarismo e expanso imperial belicosa. 2 Na Belm de ento ainda havia stios no permetro urbano. 3 Barata seria novamente derrotado em Belm, a cidade heroica. Lopo de Castro se elegeu prefeito da capital paraense. Em 1957PROPAGANDAA rdio em cima do lanceUm ms antes da Copa do Mundo de 1962, na qual o Brasil se tornaria bicampeo mundial, novamente invicto, a rdio Guajar ia cobrir o amistoso da seleo nacional contra a de Portugal, no Maracan, no Rio de Janeiro. A transmisso seria direta, sob a responsabilidade de Jayme Bastos, com patrocnio exclusivo do guaran Simes, um dos muitos que nasceram em Belm. A Guajar, da famlia Lopo de Castro, apresentava quatro programas esportivos dirios.

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13 MISSA amazonense Terezinha Morango foi uma das mulheres mais bonitas do pas. Nesse ano ela acumulou quase todos os prmios de beleza: do seu Estado, o ttulo de Rainha da Cinelndia, o de Miss Brasil, numa poca em que essa promoo tinha muito prestgio. S cou em 2 lugar no Miss Mundo, concurso realizado em Long Beach, na Flrida. S cou em seguindo lugar no miss Mundo. La Morango passaria dois dias em Belm, a convite da Assembleia Paraense, ento presidida por Nicolau da Costa.BARULHOOs comerciantes estabelecidos na avenida Presidente Vargas, entre Santo Antonio e Gaspar Viana, foram polcia protestar contra o barulho dirio e demorado que era espalhado a partir da sede do PRP, com seu diretrio nos altos do Caf Carioca. O alto falante dos integralistas de Plnio Salgado em Belm era utilizado em propaganda poltica. Os comerciantes desconavam que os perrepistas tinham carta branca para berrar vontade, perturbando desta maneira o esprito pblico, por sua vez j azucrinado por outros aparelhos idnticos que de auto per correm a cidade em propaganda comercial. Belm sempre foi a capital do barulho. A zoeira infernal apenas aumentou.REMOO Clube do Remo, que era o dono do bola ao cesto, aplicou um alarmante escore de 75 a 30 sobre o So Domin gos, numa das rodadas do campeonato juvenil de futebol. Edir Paiva, que era o cestinha da competio, fez metade dos pontos dos azulinos: 37.VAI-E-VEMA Folha anotava a chegada do Rio de Janeiro, ainda a capital federal, pelo paquete Itamb (um dos famosos Itas do Norte), a senhora Helena Esquiros Coelho, viva do ex-governador Joo Coelho, saudoso estadista, cuja ao no governo libertou a terra comum de uma poltica de dios e violncias brutais. J o bota-fora no cais do porto foi para Francisco dos Santos Amaral, conhecido industrial paraense e vice -presidente do Automvel Clube do Par. Ele embar cou com toda a famlia no navio Hildebrand para visitar o pai em Portugal.FOTOGRAFIAO canal da TamandarO canal da Tamandar, que substituiu o igarap do Piri, foi a maior interveno nas grandes drenagens de Belm at ento. Uma concepo posta em questo, mas que permanece at hoje, realizao da engenharia paraense, comandada por Otvio Pires, dono da Conama (e citado na seo Meu Ba) para o DNOS, autarquia federal j extinta. A obra devia ser inaugurada como parte das comemoraes dos 350 anos de Belm, em janeiro de 1965, mas atrasou. Como quase tudo no Gro Par.

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14 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal MEIO SCULO DE JORNALISMOQuando a Vale prometia que no destruiria CarajsA desorganizao da paisagem no quadriltero ferrfero de Minas Gerais pelas empresas de minerao tem sido to intensa que provocou versos indignadamente melanclicos do mais famoso dos habitantes de Itabira, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Seus leitores devem ter cado comovidos pela sua viso inconsolvel da destruio. provvel que a Companhia Vale do Rio Doce, a maior das empresas em atividade no quadriltero, tambm deve ser consumidora dos versos de Drummond. Mas certamente por motivos mais prosaicos que ela est anunciando o seu propsito de no repetir na Serra dos Carajs a devastao causada em Itabira. A minerao no quadriltero ferrfero foi predatria no apenas ecologicamente. Ela tambm causou profundos prejuzos econmicos. Como lembra o gelogo mineiro Francisco Fonseca (autor de um importante livro, As reservas minerais e o futuro da humanidade), no incio da extrao do minrio de Itabira a frao na no era vendida e sim estocada em grandes pilhas prximas mina para uso futuro. Hoje a frao na a mais procurada e as pilhas foram vendidas. Mas no inteiramente. Uma boa frao foi arrastada pelas guas pluviais e ainda pode ser identicada pela sua cor escura, nas praias dos rios, a dezenas de quilmetros de distncia. A extrao do minrio consumiu montanhas e provocou o despejo de milhes de toneladas de rejeitos, sem muitos critrios ou preocupao com a integridade do meio ambiente. Hoje, para guardar esse lixo mineral, a Vale do Rio Doce obrigada a construir enormes barragens, do porte das hidreltricas mdias, que esto lhe exigindo agora um bilho de cruzeiros de investimento [se riam pouco mais de 60 milhes de reais em valores de hoje, o que d uma ideia da irrelevncia desse investimento ]. A empresa deve continuar a gastar muito para tentar reparar os males que causou regio, mas sua marca profunda. H um sentimento fortemente enraizado entre os habitantes de Itabira de que o minrio vai se esgotar e poucos benefcios caram retidos ali. Restam-lhes buracos e uma paisagem agredida. A CVRD procura atenuar esses prejuzos e recompor a sua imagem, mas agora a sua preocupao maior evitar o sur gimento dos mesmos problemas na rea aonde ela vai repetir idntico processo iniciado h vrios anos em Minas. Nesta semana passou por Belm o Geamam (Grupo de Estudos e Assessoria sobre Meio Ambiente), formado por nove cientistas que a CVRD reuniu, a m de dispor de um conselho consultivo sobre questes ecolgicas. So nomes famosos, como os do geomorfologista Aziz AbSaber, o especialista em agricultura tropical Paulo Alvim, o botnico Joo Mursa Pires, o eclogo Joo Cndido de Melo Carvalho, o geneticista Warwick Kerr, o gelogo talo Falesi, o climatologista ngelo Paz de Camargo e o brigadeiro Pedro Paulo Frazo de Lima, tendo na secretaria um funcionrio da Vale, Agripino Abranches Viana. Esse gruo foi criado h menos de um ano e, antes desta viagem Amaznia, fez uma reunio no Rio de Janeiro, alm de uma excurso a Minas e Esprito Santo. Foi conhecer a mina, a ferrovia e o porto por onde a CVRD escoa a sua produo de ferro. Nesta semana, visitou a Albrs-Alunorte, Carajs e trechos da ferrovia que levar o minrio at o litoral maranhense. No retorno, aprovar um manual contendo normas gerais sobre conservao dos recursos naturais, que a empresa promete aplicar atravs de comisses internas de meio ambiente (as Cimas). BONS PROPSITOS OU APENAS PROPAGANDA? A principal nalidade desse grupo, porm, sugerir medidas que preser vem o ambiente ecolgico de Carajs da grande mineral que vai ser desenvolvida no local, fazendo tambm uma avaliao crtica do que j est sendo feito na rea. O grupo no tem funo executiva nem poder normativo: apenas recomenda. Mas a Vale assegura que levar a srio tudo o que disser, aplicando o que for possvel. A empresa jura sinceridade de propsitos e o grupo todo parece acreditar nela. Permanecem, contudo, as inquietaes. Durante a palestra do chefe do Distrito Amaznia da Docegeo, Breno Augusto De certa forma este texto premonitrio. Eu o escrevo em agosto de 1981, publicando-o na pgina dominical que escrevia em O Liberal, sob o ttulo de Jornal Pessoal, pgina que remontava a 1972, em A Provncia do Par. Foi depois de excurso de cinco dias por todos os empreendimentos que a ento estatal Companhia Vale do Rio Doce implantava no Par. Alguns problemas que comeavam a se manifestar, evoluram para agresses graves natureza. Perspectivas melhores, que se delineavam, no seguiram em frente, como o prprio grupo de cientistas arregimentados pela Vale para funcionar como sua conscincia crtica, que acompanhei nessa primeira viagem por Barcarena, Carajs e Trombetas. O Geamam foi um sonho de noite de vero. No existe mais. Reproduzo esta matria com a sensao de que j ento, 35 anos atrs, apontava os fatos da realidade que, at hoje, os responsveis teimam em esconder, manipular ou minimizar. Vemos no que est dando, como o desastre de Mariana, em Minas Gerais.

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15 dos Santos, os integrantes do grupo ouviram a queixa de que a Minerao Rio do Norte, empresa coligada da CVRD, no ps em execuo o projeto original de preservao do meio ambiente por consider-lo muito caro. A Rio do Norte, que explora as jazidas de bauxita de Oriximin, precisaria encontrar um lugar para depositar os rejeitos inaproveitveis. Foi-lhe recomendado construir um depsito articial, protegido e barrado, no qual despejaria esse material estril. Mas como esse projeto exigiria muito dinheiro, a empresa preferiu jogar os rejeitos no lago Batata, que ca a 20 quilmetros do rio Trombetas e constitui um belo ambiente natural. Uma rea de 500 por 1.500 metros est sendo sedimentada por esse material slido. Se continuar assim, o lago ir morrer e o rio estar ameaado de ser poludo. Como o volume de produo da MRN passar de 3,5 milhes para oito milhes de toneladas, o problema se tornar ainda mais grave. Atingir a plena caracterizao de crime. A Rio do Norte decidiu ento contratar os servios de consultoras especializadas e trs delas, norte-americanas, esto voltando concluso inicial: depositar os rejeitos s proximidades da mina. S que a volta, agora, ser muito mais cara do que se a empresa tivesse trilhado o caminho certo desde o incio. No Trombetas, alm do rejeito, h outro problema: o do p. Para uma produo de 3,5 milhes de toneladas de bauxita lavada e seca, chegam ao ar 10 milhes de toneladas de poeira. Trata-se de poeira cida, que afeta a vida vegetal, a vida animal e tambm a vida humana em uma distncia mnima de dois quilmetros. impossvel evit-la? SOLUO FCIL: DERRUBAR RVORES J antes da palestra na Docegeo, durante a visita Albrs-Alunorte, tambm uma empresa coligada da CVRD, os integrantes do Geamam puderam observar outros exemplos dessa irracionalidade pragmtica. Alguns cientistas caram indignados ao observar as clareiras abertas para abrigar acampamentos e outras obras: toda a mata antes existente foi derrubada. assim mesmo: as empreiteiras que trabalharam no comeo no foram scalizadas e para elas mais fcil e rentvel desmatar do que tentar uma soluo mais criativa, explicava um tcnico. Uma tentativa de remediar o mal ser viu para irritar ainda mais alguns cientistas: derrubada a vegetao nativa, em seu lugar foram plantadas mudas de amboyant: Por que, com tanta rvore aqui mesmo, foram logo buscar uma espcie extica? Preocupam-se s com a sombra, no com o ambiente, reclamou um dos membros da equipe. Mais graves do que essas agresses paisagsticas, porm, o desmatamento no interior dos 2.578 hectares que sero usados como reas de preservao do meio ambiente do distrito industrial de Barcarena. Nessa rea h apenas alguns poucos refgios de mata nativa cercados de vegetao secundria, capoeira e trechos j sem qualquer cobertura, onde as serrarias foram buscar madeira e as empreiteiras, cascalho. Essa rea seria muito importante para a vida das 70 mil pessoas que so esperadas como moradores do ncleo urbano que se formar junto s fbricas da Albrs e da Alunorte. A cada ano sero depositados 1,5 milho de toneladas de rejeitos da fabricao de alumina num lago de lama que ocupar pouco mais de mil hectares. No haver nas reas dos projetos de alumina e alumnio problemas parecidos aos da rea de bauxita no Trombetas? Se houver, sero innitamente maiores por causa da concentrao populacional. TENTANDO EVITAR NOVA DESTRUIO Para integrantes do Geamam, esses contatos preliminares foram apenas a preparao para sua principal excurso, feita na tera e na quarta-feira a Carajs. As transformao que ali ocorrero quando o conjunto de empreendimentos idealizados pelo governo estiverem implantados podem ser previsveis, mas dicilmente algum conseguir visualiz-los plenamente. Sero muito amplos, complexos e profundos. Sob certo prisma, essa falta de amplitude nos conhecimentos at justicvel: os gelogos da Vale evitaram as iniciativas que implicariam aes mais diretas sob o ambiente, utilizando mtodos indiretos para obter informaes, como a ssmica. Sempre que possvel, preferiram coletar amostras nos igaraps, para onde o material escorre nor malmente, do que fazer perfuraes. As marcas do trabalho de pesquisa geolgica, que existem, ainda no so danosos a Carajs, embora em alguns casos pudessem ser evitados. Se essa estreiteza de conhecimentos compensada, no caso dos trabalhos na ser ra, pela preocupao dos gelogos em no afetar o meio ambiente, na delimitao do traado da ferrovia chega a ser injusticvel. Nos debates, foi destacado o fato de que mesmo agorta, quando a ferrovia Carajs-Ponta da Madeira j est em construo, pouco se conhece sobre a estrutura do subsolo da rea por onde ela passa. Alguns trechos so especialmente complexos. Os cientistas, de qualquer maneira, encararam com tolerncia tais lacunas. O que os preocupa mais a formao de uma zona de proteo ao redor de Carajs e a adoo de cuidados na preveno da eroso e no tratamento dos rejeitos. Uma das recomendaes que ser feita CVRD ser no sentido de que deve preservar as amostras do ecossistema que existem no topo das serras. Ali, nas nascentes de pequenas drenagens, existe uma vegetao de palmeiras e arbustos de grande valor paisagstico. Debaixo dessa vegetao no h minrio de ferro, mas, se no houver recomendao expressa, esses ambientes podero ser destrudos. Num deles as palmeiras foram cortadas, restando apenas os arbustos. O fundamental a formao de uma zona de proteo ao redor do conjunto de serras, segundo a opinio dos cientistas. Quando se anunciou que 800 mil hectares seriam mantidos como reserva, houve forte reao dos proprietrios rurais da rea. Se o projeto for executado, a reao ser ainda maior, mesmo porque alguns dos que protestam acusam a Vale de pretender entregar essas terras a grupos estrangeiros. A companhia diz que a incompreenso a mesma dos que interpretaram o surgimento das barragens de reteno dos rejeitos em Itabira como prova de que a CVRD passaria a explorar hidreltricas. Mas essa polmica germinante d uma ideia de como sero as controvrsias quando Carajs comear a adquirir os contornos de um grande empreendimento. CRITRIO DA PRESSA DETERMINA A MINERAO No meio de um debate, surpreso com a carncia de informaes, o ex-diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia), Warwick Kerr, lembrou que antes da corrida para a Sibria foram contratadas duas mil pessoas para estudarem a regio durante 10 anos, para ter um roteiro mo. Na Amaznia, respondeu Breno dos Santos, se isso foi possvel, j no o mais: s vezes as

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Narcotrco internacional est se instalando no Par?coisas mudam a cada 15 dias entre uma e outra visita que fazemos, disse ele. J se fez muita coisa de errado com a melhor das intenes. Em seu livro, o gelogo Francisco Fonseca mostra como o capitalismo mercantilista de curto prazo afeta a minerao, por se interessar apenas pelos dados necessrios ao clculo do lucro, que do a rentabilidade do investimento em uma mina. Para isto precisa saber apenas: 1) se existem reservas que garantam extrao por um prazo que nunca ultrapassa vinte anos (geralmente menor); 2) qual o investimento necessrio para extrair o mineral no maior volume possvel de colocar no mercado; 3) qual o custo de produo. Levantados esses dados, acrescenta Fonseca, as equipes de engenheiros e economistas esto aptas a planejar a dilapidao de uma jazida, a curto prazo, garantindo uma boa rentabilidade do investimento. Fazem isso com a conscincia mais tranquila do mundo, convencidas de que o projeto trar muito benefcio para a comunidade. Se algum criticasse a mentalidade adotada (o que nunca acontece) se mostrariam legitimamente surpresos e indignados. Consideraes tais como: a disponibilidade da reserva para um futuro mais remoto, a abundncia absoluta do mineral na crosta terrestre, os usos nais a que se destina o mineral, a ocorrncia de minerais associados que possam ser aproveitados, mas no tenham inuncia positiva nos lucros, e a necessidade que as geraes futuras possam vir a ter desse mineral so consideradas to irrelevantes que no passam pela cabea de homens pragmticos. Completa Francisco Fonseca: Muitos desses pensamentos devem ocorrer a engenheiros, gelogos e economistas envolvidos em projetos de minerao. Talvez at sejam discutidos, a nvel de conversa de botequim, mas jamais so levados a srio quando da elaborao de um projeto, inclusive por medo do ridculo, tal o peso da ideologia ocial. PROPOSTAS SO UTOPIA DELIRANTE Essa ideologia predadora, que parece atingir sistemas distintos (a Rssia, por exemplo, est esgotando suas reservas de fosfato), pode dar a roupagem de utopia delirante a certas propostas que alguns integrantes do Geamam esto dispostos a fazer. Com sua letra mida, o dr. Kerr anotava numa folha de papel, enquanto ouvia a palestra de Breno dos Santos, itens como a xao de uma faixa de 50 quilmetros de cada lado da ferrovia Carajs-Ponta da Madeira (seriam 90 mil quilmetros quadrados) como rea de preservao, quando o prospecto ocial determina a utilizao dessas terras para a produo de biomassa com ns ener gticos. Ou mais diretamente: produo de lcool, em grande parte destinado exportao. Outro cientista se preocupava em que as populaes instaladas nos principais trechos da ferrovia pudessem ter o direito de escolher o modo de vida que querem adotar e fossem ajudadas pela CVRD. Essa reivindicao particular mente cara aos habitantes de So Lus, que tiveram suas terras desapropriadas sob uma forma que o dr. Kerr considera violenta e injusta. Mas a Vale j considera uma tarefa enorme construir e operar a ferrovia: o uso das suas margens deve car para o governo que tem seus prprios planos. Os cientistas, em cinco dias de excur so, puderam, na verdade, apenas montar um esquema de raciocnio, suciente, no entanto, para revelar questes complexas e vitais. Em trs anos, a mina de ferro j estar em atividade. At l, a Vale precisar dar testemunhos concretos de que seu propsito de no repetir Itabira mesmo profundo e sincero. o que os membros do Geamam prometem cobrar.Em dezembro o Par passou a fazer parte da rede de alta tecnologia do trco internacional de drogas, sob o comando da Colmbia, com a apreenso de um mini-submarino, que estava sendo construdo na costa da Vigia, a menos de 80 quilmetros de Belm. Desde 1993 os tracantes colombianos de droga, que produzem 60% da cocana em circulao pelo mundo, utilizam pequenos submarinos para escapar vigilncia dos governos. At 2011, perderam 65 dessas embarcaes, mas o investimento de um milho de dlares s com o custo dos submarinos compensado pela maior ecincia desse recurso. As autoridades colombianas estimam de que de cada 10 submarinos construdos, apenas dois so localizados e recolhidos. A apreenso feita no Par merece registro especial. O Estado foi escolhido para ser um local de montagem do submarino, no apenas de passagem, tanto para economizar tempo quanto por j haver uma base instalada no Estado, incluindo provavelmente estoque de cocana armazenada e laboratrio de reno. A embarcao das mais modernas, concebida para uma viagem mais demorada e exigente. O submarino pode submergir por inteiro e permanecer mais tempo debaixo da gua, tornando mais eciente o despistamento no mar ou pelo ar, por sua completa invisibilidade. Tudo para estabelecer uma nova rota para os Estados Unidos, que tem na Colmbia o fornecedor de mais de 90% da cocana consumida no pas. Ao invs do Pacco, intensamente patrulhado, o Atlntico. A operao realizada pela polcia civil foi um sucesso porque chegou ao local da construo quando a embarcao j estava pronta, mas talvez fosse ainda mais bem sucedida se os policiais tivessem esperado para prender os homens envolvidos no trabalho (talvez 15) e os tracantes, alm da droga. Para isso, porm, deviam contar com aparato maior e mais retaguarda de inteligncia. Parece que sequer consultaram a Marinha, mais aparelhada para esse tipo de investida. Teriam se precipitado ou foram vtimas da surpresa? Receberam a informao de fora ou dos moradores da rea prxima ao local, no mangue do litoral da Vigia, e no se preparam sucientemente para o que iriam encontrar? As perguntas tm que ser bem respondidas e logo. O narcotrco internacional penetra cada vez mais no Par e isso est muito longe de ser bom. pssimo. Se o narcotrco internacional est investindo pesado no Par, signica que usar sua capacidade de corromper e comprar a adeso de autoridades, um cacife muito superior ao desse tipo de transao em prtica no Estado.