Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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JATENE SE LIVRE DE AO O CUSTO DE BELO MONTE o aEm 2002, Jader Barbalho teve que renunciar, sucessivamente, presidncia do Senado, que mal tinha assumido, e ao seu mandato de senador. Iniciativas tomadas a contragosto para no ser cassado. Foi uma das quedas mais vertiginosas na histria do parlamento nacional. Ele era o poltico paraense de maior poder desde que a democracia fora restabelecida no pas, em 1985. Ocupava um lugar que apenas o coronel Jarbas Passarinho conquistara, durante o regime militar, de chear a cmara alta. A carreira de Passarinho se eclipsou em 1994, quando ele no conseguiu retornar de Braslia a Belm para voltar a ser governador do Par, cargo que ocupou em 1964, como o primeiro vitorioso por eleio indireta. Na capital federal, Passarinho atuou intensamente desde o seu primeiro mandato senatorial, conquistado em 1966, circulando com a mesma desenvoltura pelo parlamento e pelo executivo, como ministro do Trabalho e da Educao. Passarinho enfrentou e se saiu bem de trs acusaes: de autoria do decreto 477, que desPOLTICAJader: de novo, o fimTrezes anos depois de renunciar ao mandato de senador e presidncia da casa para no ser cassado, ser preso e algemado pela Polcia Federal, o senador Jader Barbalho est atado a um novo n de acusao. Como sempre, de desviar dinheiro pblico.

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2 mantelou as organizaes representativas dos estudantes universitrios; de conivncia com as torturas; e de enriquecimento ilcito. No escapou condenao por ter assinado o terrvel AI-5 e ter feito a sua mais infeliz declarao, ao referend-lo, descartando os escrpulos da conscincia. A ascenso de Jader foi bem diferente. De integrante do grupo dos autnticos do MDB (depois, PMDB), que personicava uma oposio mais consequente do que a consentida pelo regime militar, ele chegou ao governo do Par como a personicao das bandeiras at ento associadas automaticamente esquerda quanto a moral, tica e identidade com as causas do povo. A imagem sobreviveu sua aliana com o segundo personagem principal da era da ditadura no Par, o tenentecoronel (e ento governador) Alacid Nunes, que s o apoiou porque tinha como meta maior destruir o seu antigo companheiro de armas e de poltica, o mesmo Passarinho, ao qual, depois de se desvencilhar de Alacid, Jader tambm se juntou. Depois de lhe ter dado um novo mandato de senador, num momento em que elegeria quem quisesse, Jader lanou Passarinho ao governo (contra Almir Gabriel) e o despejou da poltica. Descartou assim os dois militares para se tornar o coronel civil no poder. O exerccio do governo, no primeiro mandato como governador (1983/87) comeou a lanar sobre o nome de Jader Barbalho a pecha de corrupto. Sua forte liderana parecia lhe dar a convico de que as acusaes de enriquecimento ilcito no abalariam o seu eleitor. Em 1990 ele enfrentou Sahid Xer fan, o candidato do governador, o seu ex-correligionrio e protegido Hlio Gueiros, que permaneceu no exerccio da funo para destruir o homem que o elegera senador e governador. Jader no tinha cargo algum nem suporte institucional. Enfrentou uma campanha feroz patrocinada pelo grupo Liberal e a mquina estadual, mas venceu. Parecia que sua fora junto populao mais pobre no fora abalada e jamais seria. Por isso, seu slogan eleitoral foi Jader Trabalho. Foi inevitvel a associao com a frase cunhada pelo governador paulista Ademar de Barros: rouba, mas faz. O povo entenderia que, sendo sua base de votos, partilharia com o autor do slogan os benefcios da sua ao. Haveria desvio de recursos pblicos, mas o que distinguiria o lder populista seria seu compromisso em beneciar o seu eleitor, normalmente esquecido relas elites tradicionais. No entanto, as seguidas acusaes de desvio de dinheiro pblico para proveito pessoal, multiplicadas quando ele se tornou personagem de dimenso nacional, entrando na disputa por um poder maior, acabaram levando-o ao beco sem sada de 2002. Depois da queda, o coice, na forma da priso, sendo conduzido algemado por agentes da Polcia Federal para o crcere, em Mato Grosso. Conseguiu se safar da situao, mas a marca se tornou ainda mais forte e a sua imagem denitivamente negativa. No h dvida que a jazida de votos de Jader encolheu. Ainda assim, ele se elegeu deputado federal com a maior votao. Mante ve-se sempre sombra, nunca se pronunciando, se desviando das cmeras e microfones da imprensa. Com esse comportamento alcanou nova vitria: a volta ao Senado, ainda que no como o mais votado. De qualquer maneira, com um milho de votos. Aos poucos, Jader foi retomando ao centro do palco nacional. O ostracismo teria lhe feito bem, conscientizando-o de que a nova oportunidade deveria ser aproveitada para se dedicar causa pblica? A resposta positiva comeou a ser minada quando passaram a surgir referncias ao nome dele no curso das investigaes da Operao Lava-Jato, que descobriu um esquema de corrupo e propina dentro da Petrobrs. Teria sobrado para ele parte do desvio de dinheiro que cabia a polticos do PMDB na distribuio de propinas quando alguma interferncia era feita para a obteno ou o superfaturamento de contratos junto estatal do petrleo. Teria sido essa a informao dada aos investigadores pelo lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, acusado de ser o intermedirio do PMDB no esquema de corrupo montado na Petrobras. Jader teria recebido parte de seis milhes de dlares (23 milhes de reais) negociados em cima de contrato para a construo de um navio-sonda que atuaria na rea do pr-sal. Nesse perodo, parecia que Jader no tinha requisitos e credenciais para se habilitar a qualquer coisa na Petrobrs ou em outros rgos pblicos. Mas, segundo Baiano, em nome dele teria atuado outro lobista, o paraense Jorge Luz, que teria participado dos entendimentos mantidos entre 2006 e 2008. primeira vista, so evidncias frgeis. Entretanto, foram sucientes para o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, pedir ao Supremo Tribunal Federal que o nome do senador paraense fosse acrescentado aos dois inquritos que requereu ao STF para investigar os senadores Renan Calheiros (do PMDB de Alagoas), presidente do Senado, e Delcdio do Amaral (do PT de Mato Grosso do Sul), lder do governo na casa. O ex-governador Jader Barbalho no gurava at ento na lista de investigados. Com a autorizao dada pelo Supremo, o chefe do Ministrio Pblico Federal ir investigar Renan, Jader e o deputado federal Anbal Gomes (do PMDB do Cear). Nas duas solicitaes de abertura de inqurito, as suspeitas so de corrupo passiva e lavagem de dinheiro. Os pedidos esto em segredo de justia e se baseiam em peties ocultas, procedimentos adotados no Supremo para manter em sigilo as delaes premiadas. Procurado pelo G1, o portal de notcias de O Globo quando a notcia foi anunciada, Jader disse desconhecer a situao. Estou tomando conhecimento por voc. No tenho nenhuma manifestao a fazer por desconhecer qualquer razo [para abertura de inves tigao ], registrou o portal. No dia seguinte, o Dirio do Par reproduziu quase integralmente o despacho da agncia de notcias de O Glo bo sobre o pedido do procurador geral da repblica para incluir o senador Jader Barbalho, dono do jornal, na investigao da Operao Lava-Jato. A publicao podia ser interpretada como uma grata surpresa. H muito tempo o jornal poupa a presidente

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3 Dilma Rousse, seu governo e o PT de destaques no seu noticirio, at minimizando ao mximo ou omitindo por completo alguns fatos que lhes so desagradveis. No fez o mesmo com seu prprio dono, citado em ttulo de pgina interna no primeiro dia e mantido no noticirio nas edies seguintes. Por que elogiar o que imposio de ofcio, devem ter reagido os inimigos, adversrios e crticos de Jader, que compem a maioria do eleitorado e, por isso, inviabilizaram a volta dele ao governo do Estado (mas no a um novo mandato de deputado federal ou, talvez, tambm de senador). Porque em terra de cego quem tem um olho rei. Nada sai de incmodo ou sequer desconfortvel aos Maioranas em O Liberal, o concorrente e inimigo da publicao dos Barbalhos. Os Maioranas excluem do mundo, nos seus meios de comunicao, tudo que no lhes conveniente, mesmo que seja fato pblico e notrio. interdito proibitrio absoluto, ndex medieval. Como eles interferem bastante na vida poltica, exercem sua inuncia sem as peias que limitam os Barbalhos. Parecem independentes. Aspiram credibilidade. A disposio do Dirio do Par de cortar na prpria carne motivada pela condio de polticos de dois dos seus donos: o ex-governador e seu lho, Helder, ex-prefeito de Ananindeua e candidato em potencial (de novo) ao governo do Estado, em 2018 e j em franca campanha pr-eleitoral, desaando a letra da lei. Excluir a informao sobre o pedido de investigao de Jader junto ao Supremo Tribunal Federal equivaleria a uma consso de culpa ou, pelo menos, sua admisso tcita. No entanto, a incluso da matria no signica conana na inocncia do ex-ministro, inocncia que ele, no seu ntimo, sabe se existe ou no, mas que comea a se tornar do domnio de terceiros, como os investigadores da Lava-Jato. At agora, eles no tiveram que voltar atrs num caminho que percorreram. A mensagem do jornal ao seu leitor pode ser de que Jader, sendo inocente, decidiu ir at o m para se defender. Mas, se tem realmente culpa no cartrio, comeou a entrar num jogo perigoso. Treze anos atrs ele teve que recuar de uma disposio semelhante. Primeiro renunciou presidncia do Senado. Depois, ao mandato de senador. Ainda assim, foi preso e humilhado. Culpado realmente ou vtima de uma conspirao, ativada por seu inimigo, o senador Antonio Carlos Magalhes, com a adeso de setores da grande imprensa nacional. Eles prestaram ao poltico baiano um favor relativamente fcil, dada a notria relao do nome do ex-governador paraense ao enriquecimento ilcito e o desvio de recursos pblicos. Mesmo que fosse inocente, dicilmente Jader escaparia ao destino que teve, dada a enorme desvantagem na correlao de foras com ACM. Mais uma vez ele se valeu da prescrio das aes propostas contra ele na justia para se livrar de acusaes pesadas e fundamentadas. Como no houve julgamento nal de mrito em nenhuma das vrias aes propostas, ele pode invocar sua inocncia, mas seus adversrios tambm podem alegar que ele apenas escapou de ser desmascarado e punido pelo excesso de tempo na instruo dos processos instaurados contra ele, em funo dos mandatos eletivos que conquistou. No caso do escndalo de corrupo e propina na Petrobrs, s agora foi aceita a sua incluso nas investigaes, mas foram logo em duas de uma s vez. Numa das quais, pode ser o ltimo elo na cadeia de intermediao da propina. Se isto vier a ser conrmado, no lhe restar nem o blsamo da delao premiada. Depois dele, no haver mais ningum a apontar. Ao saber do pedido do procurador Rodrigo Janot, Jader reagiu com indignao e prometeu que vai provar sua inocncia. Mas no fez o discurso que anunciara para a semana passada, quando se defenderia em plenrio. Por isso, a presuno de culpa acaba por prevalecer. E comea a se formar a certeza de se tratar de pantomima, farsa teatral. Se Jader mente, seu discurso da semana passada no Senado, em favor do voto secreto para decidir se a casa aprovava a priso do senador Delcdio Amaral, no passar de antecipao da defesa contra a punio que estaria a se avizinhar. Dizendo defender a instituio e a norma constitucional, ele estaria, na verdade, cuidando antecipadamente da prpria pele. Seu discurso, de 13 minutos, foi acompanhado em silncio e com toda ateno por todos que estavam no plenrio do Senado. Apesar da m fama do senador, todos sabem que ele inteligente, sagaz, tem experincia e faz poltica como poucos. Seria bom para o Brasil e o Par que, desta vez, Jader Fontenele Barbalho estivesse falando a verdade. Mas se novamente ele blefa, vai passar por cenas ainda mais constrangedoras, 13 anos depois. Se ele for sgado pela Lava-Jato e voltar cadeia, desta vez o imprio poltico e empresarial de Jader Barbalho poder ser ferido de morte, j que ele est todo empenhado na manuteno do cl, atravs do lho mais novo. Jader no pensou nessa situao se realmente recebeu propina por negcios escusos na Petrobrs? Diante da sua inquestionvel acuidade e capacidade de anteviso dos acontecimentos, no deixa de ser uma surpresa. Para esse tipo de poltico, que constitui no s a maioria, mas a quase totalidade dos quadros brasileiros, o castigo no tem efeito pedaggico? a questo, que ser respondida ao longo dos prximos dias. Talvez, agora, de forma denitiva.Onda de demissesFoi aberta a temporada de demisses no grupo Liberal. Diz-se que passar de duas centenas. Foi executada no jor nal, passou para a rdio e deve terminar pela televiso. medida de conteno de despesas, adotada, quase sempre, em cima do componente mais importante da empresa. Ela demite pessoal porque no o qualica nem valoriza. Sua ateno se concentra nas mquinas. um erro antigo. Mas agora, com a crise real, ter efeitos ainda mais negativos.

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4 Santo Alexandre: igreja desnaturadaEleio de 2016: povo abandonadoRecebi um choque quando revi a igreja de Santo Alexandre pela primeira vez depois da sua restaurao. Como quase sempre acontece, tive dupla reao ao testemunhar mais uma realizao do arquiteto Paulo Chaves, aquele que por mais tempo ocupou a Secretaria de Cultura do Estado: admirao pela sua capacidade de fazer, com profundo esmero aplicado a todos os detalhes do seu trabalho, e repulsa pelo exerccio da sua vontade totalitria, resultado de um ego sem limites. Ao lado, na Praa da S, Paulo j mutilara o forte do Castelo, ao mandar derrubar o muro que se havia acrescido s instalaes originais, embora com quase dois sculos de existncia. A muralha foi posta abaixo de madrugada para evitar a resistncia do Ministrio Pblico Federal iniciativa. O MPF acabou se conformando ao fato consumado, como Paulo deve ter pensado que aconteceria. De fato, cou melhor a viso da primeira edicao da cidade, que agora completa 400 anos. Mas custa da mutilao da sua histria. Pode-se alegar que a muralha adicionada paisagem colonial foi mais uma iniciativa para a militarizao do espao. Mesmo que a inspirao tenha sido libertria, porm, esse revisionismo tambm sem limites ultrapassa os critrios histricos e se torna abusivo. Mais do que a reviso da histria, se transforma na sua reescrita, o que significa negar o que de fato aconteceu para impor uma nova bitola aos fatos. Sabemos o que disso acaba resultando, esquerda e a direita do espectro ideolgico. A preocupao de Paulo Chaves Fernandes em assinalar com nfase sua autoria na obra que realiza avana sobre uma linha perigosa, entre a genialidade e a fraude. Artisticamente, se dene pelo mimetismo. O autor exer ce de tal modo seu livre arbtrio que viola a integridade do original quando o restaura. Foi o que aconteceu com Santo Alexandre, relquia preciosa da interveno artstica dos jesutas no Novo Mundo. O templo deixou de ser uma igreja para, no mximo, se tornar espao sacro. A desnaturao foi fsica e cultural. No h mais missas no local e o acesso, parte integrante do Museu de Arte Sacra, pago e sujeito a condies. Na sua nova sionomia, Santo Alexandre se tornou a opo preferencial dos endinheirados para os seus casamentos, sem o risco da presena dos sans-coulottes, ainda espera de uma revoluo francesa que a cabanagem no representou (muito menos uma comuna de Paris). Casamentos e mais casamentos foram realizados na igreja privatizada e secularizada sem um ai de protesto ou indignao. A reao veio agora, um tanto tardiamente, porque Santo Alexandre foi palco (literalmente, at como fato circense) da cerimnia de outorga da medalha da Ordem do Mrito Judicirio, conferida mais uma vez, burocraticamente pelo Tribunal de Justia do Estado a personalidades de praxe ou de convenincia, muito mais do que em funo de mritos pessoais anados com a razo de ser (ou dever ser) da honraria. Que ofensa esse ato pode acrescentar s tantas j consumadas, incluindo a obra de restaurao? Por que s agora a surpresa, o choque e a desaprovao, manifestadas atravs da rede mundial de computadores (sem a adeso da grande imprensa, que recebeu a comenda de comendador)? Agora o leite est derramado e Ins morta. Ou nesse enredo tambm cabe ressurreio? Bem que os fados podiam livrar os municpios brasileiros dos maus pr-candidatos s prefeituras, na eleio do prximo ano, semelhana do que parece que acontecer em So Paulo, ameaada de ter que optar entre os apresentadores de televiso Celso Russomano e Luiz Datena. Se o povo ainda puder ver um pouco da realidade por trs de miragens e manipulaes, talvez a candidatura de Russomano tenha sofrido um forte revs com a sua condenao a dois anos e dois meses de priso por ter mantido como funcionria de seu gabinete, entre 1997 e 2001, a gerente de sua produtora de vdeo Night and Day Promoes. Como o parlamentar devolveu quase 700 mil reais de verba de gabinete que sustentou a funcionria, a justia federal converteu a sentena. Reduziu a pena, para 790 horas de trabalho comunitrio e o pagamento de 25 cestas bsicas. Russomano reincidente em usar o dinheiro pblico nos seus negcios particulares e em outros golpes do tipo. Antes, ele nomeou como empregados de seu gabinete cinco pessoas que trabalhavam numa ONG que mantm na capital paulista. No foi apanhado porque, em tese, a entidade no possui ns lucrativos. Russomano, como Datena, cultiva a imagem de paladino do povo, defensor dos interesses coletivos, heri sem mcula. um modelo que cai bem nos prossionais do rdio e televiso dados ao sensacionalismo e ao populismo barato em veculos de maior repercusso e apelo. E, com o agravamento da segurana pblica, em policiais civis e militares que caam bandidos ps-de-chinelo, prendendo-os ou matando-os. Na Grande Belm, as alter nativas para a eleio do ano que vem so ainda mais pobres do que em So Paulo e mais perigosas. O povo v miragens e fantasias sem perceber o que h por trs da encenao. Vota em heris sem saber o que essa mscara esconde. Ter pssimas surpresas depois, quando o erro estiver consumado. Mas o erro no gratuito. O povo est atrs tanto de representao dos seus interesses e aspiraes quanto de um guardio para sua insegurana. Da a volta do sucesso dos radialistas, que ainda so os ecos mais prximos da maioria da populao, e policiais, que se apresentam como justiceiros. At a hora do voto, talvez ainda haja tempo de mostrar que o heri sempre perigoso.

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5 A histria dos desastres minerais na Amaznia O primeiro dos grandes projetos do novo ciclo da minerao na Amaznia, iniciado pela Icomi no Amap, nos anos 1950, entrou em operao em 1979, no vale do Trombetas, em Oriximin, no Par. Era originalmente de propriedade exclusiva da multinacional canadense Alcoa, uma das seis irms do cartel mundial do alumnio. A Alcan descobriu as jazidas de bauxita, na margem esquerda do rio Amazonas, na mesma poca em que a americana United States Steel chegava provncia mineral de Carajs, do outro lado do grande rio, nas formaes rochosas mais antigas. A mina de bauxita da Minerao Rio do Norte comeou a funcionar em 1979, pouco antes do segundo empreendimento mineral de porte, o de caulim do milionrio americano Daniel Ludwig, no Jari. O rejeito da lavra era atirado nas guas do lago Batata, sem piedade. Em 1985, 20% da superfcie do lago, um dos vrios que decoram as margens do Trombetas, j estavam sedimentados. Com apenas seis anos de despejo da ar gila, que no servia para a produo do bem seguinte na cadeia do alumnio, a alumina, j era uma tragdia. Dediquei ao tema a matria de capa da edio anterior do Jornal Pessoal para lembrar o primeiro desastre ecolgico causado pela minerao na Amaznia, j seguido de alguns outros, sobretudo na regio industrial de Barcarena, a 50 quilmetros de Belm. Mas o cansao e o processo catico de elaborao do jornal me fez cometer um erro logo no incio do texto: falei em uma dcada e meia de deposio do rejeito de bauxita, quando, na verdade, o tempo decorrido era de seis anos. Aritmtica contaminada pela leseira amaznica Se o processo continuasse como fora concebido, por mais uma dcada e meia, pelo menos metade do lago j estaria sedimentada. Ao invs de gua, um terreno argiloso. Um desastre de bom tamanho, evitado pela repercusso da imagem do lago aterrado pela insensibilidade da mineradora, transmitida pela TV Globo, quando acompanhava a visita do ento presidente Jos Sarney a Porto Trombetas. O episdio merece ser recordado para alertar a opinio pblica para acompanhar com bastante ateno e senso crtico a implantao desses empreendimentos antes de aprov-los. Felizmente os erros cometidos pela MRN foram corrigidos a partir de presso. Para aqueles que costumam beaticar as empresas, convm lembrar que a concepo do projeto no s era agressiva ao meio ambiente e ao homem: causava prejuzo econmico. Um tero do material que o trem transportava, por 30 quilmetros, da jazida at o ponto de lavagem (e secagem) da bauxita, tinha que ser descartado por ser estril. O custo da construo da ferrovia, no porte em que ela foi dimensionada, e do transporte do que era inaproveitvel elevou o oramento do projeto. Por que no instalar a lavagem no local mesmo da extrao? A resposta racional e econmica s veio depois da reao nacional e inter nacional agresso ecolgica, mas no podia ter sido atendida desde o incio do empreendimento? Claro que sim. Mas a viso do pioneiro era a do matador de ndios e destruidor da natureza nas frentes de expanso ao oeste dos Estados Unidos ou sia. Certa vez, conversando com Antonio Ermrio de Moraes, do grupo CBA, que, em sociedade com a CVRD, assumiu o controle nacional do empreendimento no lugar da Alcan (que se juntou a outras multinacionais na parte restante do capital da MRN), ele se queixou de que teria feito um oramento mais barato para a explorao da bauxita do Trombetas. Mas se recusou a apontar os erros de concepo. Um dos principais foi esse, da distncia de 30 quilmetros entre o local da lavra e o da lavagem do minrio. Se foi um erro sabido e oneroso, por que ele foi cometido? Hoje, o rejeito depositado nas cavas da minerao, recobertas em seguida por terra frtil para ser reorestada por espcies vegetais nativas. Estas so algumas das perguntas que a histria ainda recente da Amaznia ainda formula sem encontrar uma resposta plenamente satisfatria, demonstrada. O desastre de Mariana, que aconteceu em Minas Gerais, o principal Estado minerador do Brasil, devia atrair o interesse da opinio pblica do segundo maior minerador, justamente o Par. No s para submeter a uma reviso mais rigorosa os procedimentos das mineradoras em relao natureza e a sociedade na sua rea de atuao como para prevenir acidentes, impondo normas mais seguras. A Vale, que contribuiu para o acidente na barragem de rejeito de ferro da Samarco e repete a mesma tcnica em Serra Norte de Carajs. Mas ir inovar mundialmente com o Projeto S11D, seu maior empreendimento de todos os tempos, que acrescentar 90 milhes de toneladas produo atual, de 130 milhes, ao custo de quase 60 bilhes de reais, ou duas vezes o or amento da hidreltrica de Belo Monte. Nessa nova frente, o peneiramento ser a seco, utilizando a umidade natural do minrio. Por isso, pela primeira vez, no haver a barragem de rejeitos Um avano tecnolgico de grande signicado. Mas ele seria adotado se no visasse ao incremento da velocidade de extrao do minrio, em grande escala, para encorpar a exportao de Carajs, na estratgia da Vale de se valer de um produto mais nobre para vencer concorrentes e resistir queda do preo do produto? Esse casamento permite esse um nal melhor, mas preciso que o exemplo isolado se torne regra geral para que os danos j causados sejam reduzidos ao mnimo impossvel de prever.

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6 Par: o crescimento sem desenvolvimentoO Par foi o campeo de queimadas e, como consequncia, de emisso de gases de efeito estufa para a atmosfera na Amaznia, mas cou em terceiro lugar no critrio de reas desmatadas, entre o m de julho de 2014 e o m de julho deste ano, conforme dados de satlite registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgados na semana passada. Como a rea desmatada no Estado a maior de toda Amaznia, signica que os agentes econmicos esto queimando reas j desmatadas do que abrindo novas frentes de derrubadas da oresta, que aumentou 16% nesse perodo, alcanando 5.831 quilmetros quadrados (quase 600 mil hectares). O dado mostra que as frentes econmicas continuam em plena atividade no Par, intensicando o uso dos espaos j conquistados, mas tambm incorporando terras virgens. Os dados quantitativos que traduzem essa atividade so expressivos. No entanto, os dados qualitativos continuam a expor a contradio entre a explorao dos recursos naturais do Estado e os resultados de que a sua populao pode participar. O Par se divorcia do seu potencial de grandeza e se distancia para trs tanto do pas quanto da prpria regio. Dentre os 20 municpios com os mais baixos nveis de desenvolvimento socioeconmico no Brasil, 10 se localizam na Amaznia, que tem o pior dos municpios por esse critrio: Santa Rosa do Purus, no Acre. Mais de 67% dos municpios da regio apresentam resultados baixo ou regular. Esse percentual mais que o dobro do registrado no Brasil como um todo (quase 32%), demonstrando que a Amaznia no consegue reduzir a distncia que a separa das reas de maior desenvolvimento do pas, com destaque negativo para o Par. Apesar do cenrio desfavorvel, aumentou na regio o nmero de cidades com desenvolvimento moderado (32,8%). Mas nela no h mais cidade com alto desenvolvimento. Neste ano, Palmas, a capital do Tocantins, perdeu o status de excelncia que tinha no ndice Firjan (da Federao da Indstria do Rio de Janeiro) de Desenvolvimento Municipal de 2014.Dos 145 municpios da Amaznia Legal com IFDM moderado, 87 esto no Estado do Tocantins. Depois, a grande distncia, fica Rondnia (com 26 municpios) e o Par (com 18). Pela combinao de alto desenvolvimento nas reas de educao e sade e resultado moderado em emprego e renda, Araguana (com 0,7973 pontos) e Palmas (0,7876), ambas no Tocantins, ocupam os dois primeiros lugares na lista dos 10 melhores resultados do Norte (o limite mximo um). Seguem-nas Ariquemes (em Rondnia, com 0,7746), Boa Vista (em Roraima, 0,7561), Vilhena (Rondnia, 0,7465), Rio Branco (capital do Acre, 0,7386) e Pimenta Bueno (Rondnia, 0,7383). A primeira cidade paraense no ranking, em oitavo lugar, Cana dos Carajs, com 0,7351. Na extremidade inferior da classicao na Amaznia esto Santa Rosa do Purus (no Acre, 0,2763) e Barcelos, antiga capital do Amazonas, com 0,3433. Dos oito municpios seguintes na lista dos 10 menores IFDMs Ipixuna (no stimo lugar, com 0,3755), Nova Esperana do Piri, em 6 (PA, 0,3753), Bagre (em 5, 0,3633), Jacareacanga (4, com 0,3614), Porto de Moz (3, 0,3589), e Portel (com 0,3483), o antepenltimo colocado. O ndice Firjan acompanha o desenvolvimento socioeconmico do pas, avaliando as condies de educao, sade, emprego e renda de todos os municpios brasileiros. Em sua nova edio com base em dados ociais de 2013, ltimos disponveis o estudo traz comparaes com outros anos da srie histrica, iniciada em 2005, e projees sobre a evoluo do desenvolvimento por conta da deteriorao do cenrio econmico. O ndice varia de 0 (mnimo) a 1 ponto (mximo) para classicar o nvel de cada cidade em quatro categorias: desenvolvimento baixo (de 0 a 0,4), regular (0,4001 a 0,6), moderado (de 0,6001 a 0,8) e alto (0,8001 a 1). Foram avaliados 5.517 municpios, que abrigam 99,8% da populao. Ficaram fora do ndice cinco cidades criadas recentemente, que ainda no possuem dados sucientes para anlise, e 48 que no declararam ou possuem informaes inconsistentes.Carajs Sul a metaDos 7,6 bilhes de dlares que planeja investir em 2016, a Vale vai aplicar US$ 13 bilhes no projeto S11D, que implantar uma nova mina na serra sul de Carajs, que adicionar 90 milhes de toneladas atual capacidade de produo da provncia, de 130 milhes de toneladas. At o nal do ano, a nova rea de extrao de minrio de ferro car com US$ 3,7 bilhes dos US$ 10,1 bilhes de gastos totais previstos para 2015. Em 2018 S11D estar produzindo a plena carga. A partir da, o futuro da Vale depender totalmente da capacidade de o minrio de Carajs, o mais rico do mundo, a tornarem mais competitiva do que qualquer outra concorrente no mercado mundial. A empresa ter 2% a mais de hematita pura em cada tonelada de rocha do que suas principais concorrentes, as mineradoras australianas. A Vale retribui ao Par essa importncia do recurso natural depositado no seu territrio, na medida certa?

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7 Nova opo jornalstica atravs de Outros 400Nossa proposta um contraponto narrativa ocial. Feita em nome do coletivo, esta a denio da equipe de jovens prossionais envolvidos na empreitada sobre os princpios editoriais que balizam o Outros 400, o portal de jornalismo paraense que acaba de ser lanado e cujo endereo eletrnico http://www.outros400.com.br/. Todos muito jovens, entre 24 e 30 anos, e descritos como de aguado senso crtico, da equipe fazem par te Ablio Dantas, jornalista; Fernanda Martins, jornalista; Gustavo Dutra, jornalista; Hern Victor, publicitrio; Jeijy Okada, publicitrio; Joo Cunha, jornalista; Kamilla Santos, jornalista; Kleiton Silva, jornalista; Marri Smith, publicitria; Moiss Sarraf, jornalista; Rafael Monteiro, publicitrio; e Yasmin Ucha, jornalista. Comeamos a reetir a partir da compreenso de que a Histria uma construo social. E que, em momentos marcantes, como o aniversrio de 400 anos de Belm, acontecem grandes apropriaes polticas dos fatos passados. Nesse sentido, partimos reexo dessa histria, pontuam, ao explicar a ideia bsica que inspirou o surgimento do portal, cuja pgina no Facebook pode ser acessada pelo link https:// www.facebook.com/Outros400/. A primeira reportagem do portal, intitulada Um risco, um pixo e um grate, pode ser acessada pelo link http://www.outros400.hostbelem.com. br/especiais/3594. A expectativa imediata, esclarece o grupo, estimular o contraditrio, inclusive revisitando a Histria, ao focar os fatos margem da verso ocial e revelando a face sombria de personagens incensados nos relatos consagrados pelo sta tus quo Achamos que o debate no espao pblico est minguado, com poucas vozes destoantes, acentuam. por isso que governos impem suas decises sem debate, participao, sem atender aos interesses da populao, sentenciam, com aquela pitada convico ptrea de quem utiliza as palavras para expressar seu pensamento e no para escamote-lo. A mesma convico que revelam ao contestar, com o ousado destemor da juventude, um dos princpios cultivados pela mdia tradicional, pelo menos para consumo externo: a imparcialidade. Entendemos a imparcialidade como mito, antecipam. E basta olhar com clareza. A histria da imprensa mostra isso, sublinham. Fatos so o slido e a interpretao que deveria variar. Mas mesmo fatos, hoje, so destoados, distorcidos pelos veculos de comunicao, acrescentam, para em seguida detalharem a ambio que permeia o lanamento do portal Outros 400: Alm de uma nova interpretao, partimos de uma interpretao dos fatos voltados para o interesse real da populao. H o emergir de novos movimentos em Belm, desde a comunicao s artes. E acreditamos fazer parte desse movimento no campo da imprensa.Dvida de trilhesNo ms passado a dvida total da Unio passou de astronmicos 3,8 trilhes de reais. A dvida externa lquida, que assombrou os governos militares, pesa quase nada nessa soma: de apenas R$ 141 bilhes (o que equivale a trs vezes o dficit fiscal previsto pelo governo para este ano). O grande problema a dvida interna, que est chegando a R$ 3,7 trilhes, incluindo a renegociao das dvidas dos Estados e municpios, que de R$ 544,8 bilhes. Desse total, R$ 1,2 bilho esto em poder do Banco Central, porque no aparece no mercado quem se interesse pelos crditos podres. Segundo um especialista no assunto, o professor Ricardo Bergamini, esse montante da dvida carregada pelo Banco Central nada mais do que aumento disfarado de base monetria. Ou seja: um fator inacionrio que ameaa sair do controle e agravar os problemas do pas. Uma bomba com grande potencial para explodir.A extremada polaridade na imprensa, entre Barbalhos e Maioranas, tem empobrecido o jornalismo paraense. Um leitor mais exigente acompanha o noticirio produzido pelos dois grupos de comunicao com irreprimvel enfado, tdio, desinteresse e insatisfao. O jornalismo local precisa urgentemente de arejamento, de maior compromisso pela verdade, de desejo de bem informar o pblico, ao invs de manipul-lo. Precisa de novidade consistente, de qualidade maior. Um grupo de jovens jornalistas est tentando abrir um meio prprio e novo de expresso, atravs da internet. Recebi deles um brinde, pelo qual agradeo, e uma matria de apresentao, que reproduzo, com o desejo de que o resultado esteja altura da necessidade da sociedade paraense.

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8 A responsabilidade scal e a moeda sob ameaadaO governo federal iniciou o exerccio de 2015 com o compromisso, estabelecido em lei, de economizar 55,3 bilhes de reais para pagar os juros apenas os juros da dvida pblica. S a da Unio chega a R$ 3,8 trilhes. Na semana passada, porm, o Congresso Nacional autorizou o executivo a fechar as contas do ano com dcit recorde na histria do Brasil de R$ 120 bilhes. um nmero chocante. Pe m fantasia criada por Lula, mantida e agravada por Dilma, de um Brasil prspero custa de endividamento pblico e privado sem limites, e de canais de vazamento do dinheiro do errio que transformaram a administrao estatal num queijo, cheio de buracos podres, como os que a Operao Lava-Jato identicou e combate. A sanidade scal chegou ao m e, com ela, a Lei de Responsabilidade Fiscal, que governadores e prefeitos vo se sentir autorizados a ignorar, seguindo o exemplo da presidente. No seu lugar, entram em agitao mxima todos os malefcios de um governo que perdeu a capacidade exigida de uma dona de casa, de equilibrar as despesas com as receitas e gerar supervit para enfrentar os problemas acumulados, o lixo escondido debaixo do tapete no consulado de Lula e para eleger Dilma sua sucessora. A estabilidade da moeda est sob grave ameaa, ameaa que vem, sobretudo, pelo desequilbrio scal (com rombo de R$ 33 bilhes at outubro) e os efeitos perversos da falta de credibilidade do governo, atravs do monstro da inao. O Brasil do Real pode ruir se a gesto estatal continuar a ser incapaz de reverter o quadro de deteriorao geral da economia. E de acabar com sua demente irresponsabilidade. Uma amostra grtis do que espera o Brasil foi exibida nos ltimos dias com a dbcle do setor pblico em funo do corte extraordinrio que o governo precisou fazer nas suas despesas, de R$ 10,7 bilhes, para no incorrer nas penas da Lei de Responsabilidade Fiscal, incluindo a caracterizao do crime de responsabilidade da presidncia da repblica, que lhe custaria o mandato. Com a aprovao do ajuste scal no Congresso, essa ameaa desapareceu. O governo vai achar que poder retomar a irresponsabilidade scal, na esperana de que o ajuste venha por inrcia ou por alguma predestinao de origem divina? Seria uma loucura. Mas quantas j no caram para trs? O grave momento que o Brasil passa a viver ainda mais onerado pela irresponsabilidade das elites polticas e empresariais, que fazem seus bailes na ilha Fiscal indiferentes ao soar do relgio da histria e ao olhar atnito dos bestializados, mais uma vez.Os custos do novo desenho de Belo MonteA Norte Energia concluiu, no ms passado, obra vital para o incio da operao da hidreltrica de Belo Monte: o revestimento do canal de derivao da usina. O canal foi revestido com 7,1milhes de toneladas de rocha extrada na prpria regio, sendo 4,4 milhes de metros quadrados aplicados no piso e 2,7 milhes de metros quadrados de rochas nos taludes. O canal possui 20 quilmetros de extenso, 300 metros de largura mdia entre as margens e 25 metros de profundidade (equivalente a um prdio de oito andares). Foi rasgado na terra com a escavao de 110 milhes de metros cbicos de solo e rocha para ligar os reservatrios principal e intermedirio da usina, que acumulam gua para o funcionamento das suas mquinas. Quando concluda, ela ser a quarta maior hidreltrica do mundo, com capacidade para gerar 11 mil megawatts, a um custo que j chegou em 30 bilhes de reais. Quanto desse total foi aplicado na construo do canal, que tem tamanho do porte do canal do Panam? Em quanto o projeto foi onerado para que a obra se tornasse aceitvel, sem os impactos ambientais e sociais da concepo original, a mesma da hidreltrica de Tucuru, construda antes no rio Tocantins, tambm no Par? O objetivo foi reduzir o tamanho da rea de inundao, que cou com um tero do que fora projetado no incio. Com pouca gua estocada, a casa de fora principal, com suas 18 enormes turbinas, no pde car junto com o vertedouro principal. Teve que ser deslocada rio abaixo at um ponto de declividade de quase 90 metros, para que a velocidade da vazo na queda pudesse acionar todas as turbinas, cada uma delas necessitando de 750 mil litros de gua por segundo. A velocidade no suciente para fazer a usina gerar sua potncia mxima: preciso ter volume de gua. Da ter sur gido um reservatrio secundrio, fora do canal do Xingu, para estocar gua e faz-la uir para baixo, atravs dos canais de derivao e juno e de diques, que barram a gua nos taludes inferiores, para que ela no vaze. Com tantas, complexas e profundas alteraes, o desenho de Belo Monte acabou se tornando nico na engenharia mundial de barragens. Sendo indito, s ser possvel saber na prtica se funcionar exatamente como seus construtores esperam na prtica. O grau de risco maior do que seria num projeto convencional. Da provavelmente o BNDES bancar 80% do custo com nanciamento com juro menor. Seria interessante calcular o valor acrescido ao oramento devido a esses ajustes para reduzir a rea do reservatrio principal, antes compondo um conjunto de lagos articiais na bacia do Xingu. E comparar esse acrscimo aos danos ambientais e sociais que teriam sido evitados graas a esse novo projeto. Assim, talvez, as coisas se aclarem para quem, no nal das contas, vai assumir o resultado dessa equao: o contribuinte.

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9 Vale reduz investimento. Ainda est agindo certo?Parece que os ltimos acontecimentos esto embaralhando o planejamento de longo prazo da Vale. No ms passado,, a mineradora anunciou, em Nova York, que vai reduzir em dois bilhes de dlares (quase oito bilhes de reais) os seus investimentos no prximo ano: de R$ 8,2 bilhes, eles caro em US$ 6,2 bilhes, dos quais US$ 3,2 bilhes em investimentos de capital. Mas no s: a Vale no ir aumentar, como queria, a produo de minrio de ferro. A queda dos investimentos dever se manter pelo menos at 2020, quando a soma das aplicaes nesses cinco anos dever chegar a quase US$ 25 bilhes. A mineradora acredita que, ainda assim, ser o suciente para deix-la em condies de enfrentar os desaos da incerteza na demanda e volatilidade nos preos de commodities. A Vale espera produzir at 350 milhes de toneladas de minrio de ferro (ou 10 milhes de toneladas a menos) em 2016, ante 340 milhes at o nal deste ano, no seu empenho de compensar a queda no preo do minrio com maior volume ofertado ao mercado mundial, em especial China e ao Japo. O anncio veio no momento em que a agncia de classicao de risco Fitch colocou o rating da Vale, que de grau investimento (com a nota BBB+), em observao negativa. considerada grande a probabilidade de que a empresa tenha que dar apoio sua subsidiria Samarco, que foi rebaixada para grau especulativo, por causa do desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem de rejeitos em Minas Gerais. A empresa car sem caixa por vrios meses para custear suas despesas e o custo de emprstimos. Em seu comunicado, a Fitch salientou que o risco reputao da Vale considerado muito alto devido sua posio como a maior mineradora do Brasil e em funo da sua carteira de acionistas, que inclui alguns dos maiores fundos de penso do pas, o principal dos quais, o Previ, dos funcionrios do Banco do Brasil.. A Fitch tambm considera o alto valor econmico da Samarco como sendo um grande incentivo a um possvel apoio nanceiro no futuro por seus acionistas (Vale e BHP), disse a agncia, mas observando que, apesar do rompimento da barragem, os ativos operacionais da Samarco continuam capazes de produzir. No entanto, a produo de 30 milhes de toneladas anuais de pelotas no dever ser retomada por um longo perodo. A Samarco foi posta em monitoramento de rating em evoluo, para o caso de receber apoio nanceiro da Vale e do BHP. Esse suporte poderia recoloc-la em sentido ascendente. Segundo a agncia Reuters, o consultor-geral da Vale, Clvis Torres, garantiu que a mineradora e a sua scia,a anglo-australiana BHP Billiton, podero ser chamadas a pagar eventuais indenizaes somente se a Samarco no tiver condies de arcar com todos os custos. Ressaltou que a Samarco, dona da barragem rompida, no uma empresinha qualquer, uma empresa grande, ela tem recursos para pagar por eventuais danos que tenham sido causados por suas operaes.As matanas em BelmO escritor Agildo Monteiro decidiu comemorar os 400 anos de Belm escrevendo e publicando, por sua prpria conta, um livro que mistura histria e ense, em 1823, em pleno ciclo dos motins polticos, que seria arrematado em 1835, com a cabanagem. Tapuia, sua amada, Isabel, e o pai seja um dos quatro presos que sobrepermaneceria vivo depois de retirados os quatro do meio dos cadveres dilacerados pelo sofrimento. Agildo manipula fatos e fantasia numa histria singela, procurando usar o estilo de poca, muito bem contatempo atual, com certa ironia, como quando cita a evasiva do autor da or imprio brasileiro: Cabe destacar, eviuma defesa que atravessa sculos. dente Lula. se interessa pela histria do Par. Mas serve tambm ao pblico infanto-ju de Belm, podia patrocinar uma nova Brigue Palhaco, mantendo seu pequeno formato, para distribuir por todas as escolas municipais. Se isso acontecer (valha Deus!), Agildo Monteiro podia corrigir alguns dentro do brigue. como vitima: da mesma maneira como as 252 pessoas que acabaram mortas continuam a ser escolhidas aleatoria mente pelas ruas da cidade para servibra praticado por populares. Foi assim vembro do ano passado, numa periferia a da poca do massacre do brigue Paquatro sculos.

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10 Poltico brasileiro s consegue se safar de processos judiciais se a morosidade da justia a impedir de sentenciar as aes. Nesse item, o Par no exceo, muito pelo contrrio. A regra, que se tem aplicado periodicamente em relao ao senador Jader Barbalho, que responde a vrios processos na instncia superior, em funo do seu mandato eletivo, foi conrmada pela extino do processo instaurado contra o governador Simo Jatene, do PSDB. Como a ao foi instaurada em 2003, quando Jatene j era governador, no primeiro dos trs mandatos que conquistou pelo voto popular (tornando-se o nico nessa condio na histria do Par), o processo peregrinou pela justia federal. Subiu e desceu de instncia no interregno de quatro anos em que o PT, via Ana Jlia Carepa, interrompeu circunstancialmente a hegemonia tucana. Essa tramitao acidentada prolongou a instruo, prejudicada ainda pela recusa de rgos estaduais a prestar informaes Procuradoria Geral da Repblica, que perdeu tempo no preparo da denncia. Ela foi formulada, em outubro do ano passado, um ms depois da prescrio (declarada agora pelo Superior Tribunal de Justia), quando o processo completou oito anos, cessando o prazo legal para a aplicao da pena ao ru pelo poder estatal. O governador est livre da acusao de ter recebido da Cerpasa (Cer vejaria Paraense) 12,5 milhes de reais para a sua campanha eleitoral de 2002, em troca de perdo de dbitos fiscais da empresa no valor de R$ 84 milhes (ou 15% do total), fato comprovado pela Polcia Federal e o Ministrio Pblico. A vasta documentao constante dos autos no deixa dvida sobre a entrega do dinheiro, retirado do caixa dois da empresa, a um intermedirio que tinha credenciais para se apresentar como emissrio da campanha. O destino do dinheiro a par tir da pode ter seguido vrios caminhos, todos ilcitos. O nexo causal estabelecido em funo dos benefcios imediatamente concedidos. Por causa da rotina dessa relao espria entre a Cerpasa e o governo do Estado, que no privilgio dos tucanos, a empresa sempre est em dbito com o sco estadual. Mesmo quando compe a dvida, no chega a quit-la no entendimento administrativo e a questiona judicialmente. O passivo atual se aproxima de 20 milhes de reais. Se realmente inocente, no teria sido melhor para o cidado Simo Robison Jatene ser inocentado, ao invs de apenas deixar de ser punido porque o prazo legal se esgotou? Na dvida, ca a constatao: poltico tucano to viciado quanto qualquer outro, inclusive o petista, que devia abolir essa realidade cruel para a poltica brasileira.Jatene: moderao sobre impeachment festou publicamente, na semana passabusca pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff. Preferiu se alinhar, em pas enfrentar o momento crtico que est vivendo, fruto de muita bobagem feita nos ltimos tempos. dedos que se vai conseguir superar tudo FHC, que a minha tambm. Num ceuma panaceia, isso pode terminar levanO Estado de S. Paulo. Para ele, um par este processo, chamariam de golpe. No seu entendimento, um dos problemas mais graves que o Brasil enfrenta a perda de representatividade ciente para garantir a governabilidade no quesito numrico no Congresso, esse ponto de vista como tese, mas ela Braslia e na disputa poltica interna. ria da bancada parlamentar tucana, ele verno federal, a um tratamento especial, que certamente ser reservado aos polcia dentro do PT no Par, que pretende tirar votos de Helder Barbalho, ajudando indiretamente o PSDB, que ir para a disputa com seus aliados, mas sem um candidato forte. de solidariedade presidente em Braslia) diante da ofensiva contra a presidente gama est na dinmica insana que a poltica adquiriu no Brasil. Por causa dela, estratgia de longo prazo foi abolida. O que todos querem mesmo sobreviver ao abalo ssmico no topo do poder nacional.Prescrio do processo tambm favorece governador

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11 Quem atacou a fazenda e matou as suas vacas?As fotos, chocantes, provocaram um grande impacto ao serem divulgadas. Mostravam dezenas de vacas mortas a golpes de faca e foice, em duas investidas. Algumas delas, gestantes, aguardavam transferncia para tratamento especializado. O crime, com deliberada inteno de causar o mximo de estrago, foi praticado na Fazenda Cedro, do grupo Agro Santa Brbara, do banqueiro Daniel Dantas, em Marab. A fazenda foi invadida duas vezes por homens armados. Na primeira, na noite de domingo, dia 29, foram mortas 20 vacas. Na segunda invaso, mais 29 vacas foram sacricadas. As imagens mostram vacas decapitadas, com vsceras expostas e at fetos espalhados pelo cho de terra. Um dos coordenadores da fazenda disse que esse no foi o primeiro ataque organizado. Desde maio, quase 800 animais foram mortos nas mesmas circunstncias. As vacas visadas so as de maior valor para o programa de desenvolvimento da fazenda: elas faziam parte do processo de transferncia de embrio. Alm os animais serem mortos, sua barriga foi cortada e retirados os bezerros que estavam sendo gerados. Para os funcionrios da Santa Brbara, o MST o principal suspeito. uma associao natural, mas preciso que as investigaes se realizem sob o mximo rigor. A fazenda Cedro uma das mais modernas e valiosas da Amaznia. Foi vendida pelo seu antigo proprietrio, Benedito Mutran Filho, ao banqueiro Daniel Dantas, que chegou a ser preso e foi processado a partir da Operao Satiagraha, da Polcia Federal. Na regio, circula o boato de que ele scio do lho mais velho do ex-presidente Lula, que teria outras propriedades no sul do Par. Nada foi provado, nem mesmo atravs de indcios sucientes. Se isso fosse verdade, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra atacaria a fazenda? uma questo a apurar, como tantas outras envolvendo a Santa Brbara e os personagens a ela associados.A iluso do paraso acabou na AmazniaViajei muitas vezes pelas estradas 1970 a 1980, s ou acompanhado. Nunca passantes ou residentes, era de solidariedade e de ajuda. para muito pior. Parece que quanto mais gratrio, mais violenta a vida se torna, mais distante de alguma coisa que busque a harmonia do homem com a natureneles tambm. Penetrar nas veias amado fator humano. Uma onda que afoga e faz desaparecer a utopia do paraso, da felicidade, do den dos homens. Foi no que pensei ao ler a notcia a se22 horas, quando foram abordados na rodovia PA-279 por dois elementos que estavam em uma motocicleta Honda Bros cor vermelha. Os elementos mandaram o reu no local. estupraram a mulher da vtima antes de irem embora levando o dinheiro e os aparelhos celulares do casal. propriedade rural deles, denominada Fazenda Buriti, localizada na Vila Pau de O desvio de dinheiroPT e PSDB podiam ter se unido em torno de um programa de reforma em profundidade no Brasil. Mas se tornaram cegos ideologicamente e competitivos em funo do que mais lhes interessava, uma vez conquistado o poder: a sua manuteno, a qualquer preo. Ao invs de se reunirem em torno de pontos em comum desse programa de reforma em profundidade, os dois partidos que se declaram de esquer da se viraram para alianas esprias, que resultaram nesse assalto sem limites ao cofre do tesouro para sustentar o esquema de poder. Embarcaram numa das mais medocres aventuras democrticas da histria humana. A democracia a servio de um fisiologismo que se tornou um vrus poderoso e incontrolvel. Levaram o Brasil a esse impasse atual. Cultivaram de tal maneira o dio mtuo, que acabaram se entregando a chantagistas e agiotas, que cobram caro o apoio e renovam os esquemas de assalto ao errio. Uma vez aberto o canal de acesso fluente a essa fonte de dinheiro, a corrupo foi perdendo seus matizes polticos e ideolgicos. Formaram-se desvios de dinheiro que ia para os partidos, mesadas para polticos e compra de votos para o roubo pura e simples. O assassinato do prefeito de Santo Andr, Celso Daniel, em 2002, pode ter assinalado o momento em que os bandos de predadores comearam a agir por interesse prprio. Ou ter sido por mero acaso que a tenha comeado a pilhagem na Petrobrs?

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12 memria C otidianODOJUSTIAOcorrncia de maro de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial estava no auge, afetando at a pacca (embora nem tanto) e distante cidade de Belm do Par: H meses atrs, os proprietrios de Hotis e Restaurantes reuniram-se e deliberaram que o fregus no poderia repetir o prato, especialmente tratando-se de car ne. Poderia comer todos os pratos do menu, mas bis-los nunca... Por haver desobedecido a essa ordem, o garom Joaquim Alves dos Santos foi demitido do restaurante Lido, onde era empregado. O demissionrio recorreu, ento, Justia do Trabalho, reclamando indenizao por dispensa injusta e aviso prvio. A Junta, depois de estudar os depoimentos do reclamante e tambm do reclamado, resolveu, por unanimidade de votos, julgar improcedente a reclamao, baseando essa deciso em que o reclamante cometeu uma insubordinao, desobedecendo s ordens do patro.GUAEm outubro de 1959 comeou a venda da primeira gua potvel de mesa produzida no Par: a gua Nossa Senhora de Nazar. Ela se apresentava como mineral e assim era tratada, inclusive pelas autoridades locais. Quinze dias depois do incio da operao, uma comitiva, liderada pelo governador Moura Carvalho (que assumira o cargo seis meses antes, pela morte de Magalhes Barata), foi visitar a fonte (na verdade, uma nascente), s proximidades de Maracacuera. Os convidados foram recebidos pelos donos da Empresa de guas N. S. de Nazar: Pires Cavalcante, Antonino Rocha, Clodomir Colino e Afonso Monteiro, e pelo relaes pblicas, jornalista Ossian Brito, da Folha do Norte Depois da visita foi servida uma feijoada e Jararaca executou nmeros do seu variado repertrio.BARATA Santana Marques sobreviveu em funes pblicas, mas foi, sobretudo, jornalista, um dos mais respeitados do seu tempo, proeza numa poca de paixes extremas. Dirigiu por muitos anos O Estado do Par, de Afonso Chermont. Depois, foi ser articulista (com o pseudnimo de M.) na Folha do Norte onde, em outubro de 1960, escreveu um artigo de grande importncia. Na primeira parte, tratou dos correligionrios de Magalhes Barata, que, mal sepultado o chefe, passaram a se tornar personagens histricos. Na segunda par te, relatou um episdio seu com Barata que ajuda a explicar a espiral de violncia que tinha origem no caudilho, ainda que ele apresentasse imagem diversa. Relatou Santana Marques: Em certo dia de julho de 1950, Barata convidou-nos para almoar. Mais ou menos ao meio-dia, subamos as escadas de seus aposentos, no palacete da avenida Pernambuco [na praa da Trindade ], quando nossa ateno foi atrada por uma saraivada de eptetos estentricos que vinha de seu gabinete, cuja porta se achava entreaberta. Detivemo-nos, indeciso, do lado de fora, quando nos chegou aos ouvidos esta exploso inslita: Deputados de m (e o palavro fez estremecer as paredes), onde que os senhores tinham o brio que no lhe atiraram com um tinteiro cara. Por um sentimento bem compreensvel evitamos entrar no gabinete, dirigindo-nos ao terrao em frente, de onde podamos observar quem entrava ou saa do gabinete. Dois minutos depois saam os deputados acutilados: eram quatro. Declinarlhes os nomes seria crueldade, muito embora um deles esteja a transformar-se em assunto, rempli de soi mme. J na mesa, Barata, ainda agastado, explicou-nos o que havia acontecido. Um daqueles deputados havia, ineptamente, provocado, na ltima sesso da Assembleia, o Sr. Jos Maria Chaves, que revidou violentamente, atingindo at na honra o chefe pessedista, sem que nenhum elemento da bancada reagisse.PROPAGANDAA morte da indstriaEm 1967 a Atinco (Amaznia Tintas Indstria e Comrcio) ainda vivia a iluso de poder concorrer, mesmo no mercado local, com a indstria do sul do pas, especialmente So Paulo. Logo, porm, a esperana se desfez, graas aos meios de transporte que, apesar de rodovirios, abriam o consumo local para as empresas de maior escala de produo. A Atinco foi uma das indstrias incentivadas pela SPVEA que no resistiu. Fechou logo depois. Mas no por causa da imagem de gosto duvidoso deste anncio.

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13 TERRASEm uma nota imprensa, em 1960, Valdir Acatauass Nunes negou, em nome dos seus constituintes, donos de uma extensa faixa de terras denominada Japatituba, em Belm, que tivesse havido violncia ou ilegalidade na derrubada de duas barracas e plantaes. elas se localizavam no traado de uma das ruas do loteamento que estava organizando para venda aos interessados em se instalar na rea de expanso da cidade. Disse que a autorizao para a derrubada fora dada pela justia, que acolhera ao promovida contra a dona dos bens. O dinheiro fora depositado em juzo e s uma das barracas permanecia de p por ser a moradia da ocupante do local, Ninfa Machado Maia, que, at aquele momento, no retirara o dinheiro. Era um dos captulos iniciais dos conitos fundirios urbanos de Belm.JORNALEm 1960 a Folha do Nor te convocava, pelas suas prprias pginas, que os assinantes fossem sede da empresa para renovar a sua subscrio, a m de no lhes ser suspensa a entrega do jornal. Sem corretor, sem intermedirio e sem despesa para a empresa jor nalstica. Smbolo de uma era que acabou.TELEVISOEm 1962 a TV Marajoara, a primeira do Par e da Amaznia, completou um ano de funcionamento, com a seguinte programao domingueira, que comeava s sete da manh e tinha o ltimo programa exibido s oito da noite: Padro; Bom dia, Par: crnica ilustrada sobre a cidade de Belm, escrita por Pricles Leal, diretor da emissora; Matinal Infantil: com pea infantil escrita por Waldyr Sarubby de Medeiros, A Gata Borralheira, com o elenco de teleteatro do canal 2; Grande Jornada Espor tiva (com todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo no Chile, na qual se sagrara bicampeo); Atualidades Portuguesas; Dennis, o Travesso; Interpol Chamando; O Menino do Circo; Noite Cheia de Estrelas: grande show diretamente do auditrio da rdio Marajoara, na praa de Nazar, com orlando Silva, Carminha Mascarenhas, Gilvan Chaves, Denise Dumont e todo o elenco de cantores e comediantes do canal 2, alm da participao do conjunto de bal de Augusto Rodrigues. Tudo ao vivo.FOTOGRAFIAMomento histricoMais uma foto histrica, de agosto de 1960. Dionsio Bentes de Carvalho foi visitar Paulo Maranho em seu gabinete, na Folha do Norte. O deputado acabara de deixar o governo do Estado, que ocupara interinamente, por trs meses, na condio de presidente da Assembleia Legislativa, em virtude da morte de Magalhes Barata, no exerccio da funo. Dionsio passou o basto para outro baratista, o coronel Moura Carvalho. Mas o antagonismo violento do PSD com Maranho se dilura com a morte do caudilho, que no aceitaria o gesto de cortesia do correligionrio ao seu maior inimigo, em quase trs dcadas de lutas. Ouvir a natureza A natureza no avisa quando cobra, observou Joo Batista, de Itabira, em Minas Gerais, ao ser ouvido sobre o desastre de Mariana por um documentrio em vdeo. Acidentes como esse tm sido comuns na j longa convivncia dos mineiros com a minerao, mas o do dia 6 de novembro foi o maior de todos. Convinha aos paraenses, ainda nefitos no assunto, evitarem a surpresa desastrosa. Como? Consultando a natureza sobre as agresses feitas contra ela nas reas de minerao intensa que j existem no Estado.

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14 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal O valor da corrupo na grande hidreltricaAo longo de 10 anos, entre 2004 e 2014, a Construtora Andrade Gutierrez ganhou concorrncias do governo para obras no valor de 7,2 bilhes de reais. Mas s venceu porque aceitou pagar propina. O menor valor estimado dessas propinas de R$ 216 milhes, mais ou menos 3%, o percentual mais aplicado nas obras da Petrobrs, que desencadearam a Operao Lava-Jato e levaram a seu desdobramento, at agora ainda em processo de reproduo. Mas podem chegar a R$ 1,4 bilho, o limite mximo das avaliaes, o que projetaria o desvio de dinheiro pblico para 20% do valor das obras. recorde mundial de corrupo. Se feita ponderao por um valor mdio, a corrupo baixaria para 8%, ou mais de R$ 600 milhes, no padro brasileiro de cor rupo, que espanta o mundo. Qualquer que tenha sido a taxa de 3%, 8% ou 20% a consso de culpa da empreiteira leva a uma constatao inevitvel: h corrupo em todas as obras pblicas no Brasil. Se for para prender todos os integrantes desses esquemas de desvios de dinheiro do povo, no sobra um, meu irmo como admite o samba popular. Melhor chamar o ladro para tratar do tema com absoluto conhecimento de causa, maneira da msica de Chico Buarque de Holanda. Todas as principais empreiteiras do pas j admitiram o pagamento de propina, exceo da maior delas, a Odebrecht, cujas muralhas esto apenas aguardando pelo soar da corneta de Josu em Jeric. Nenhuma novidade nessa concluso. O jornalista Samuel Wainer disse e provou isso no seu livro de memrias, dos anos 1980, na condio de benecirio dessa corrupo junto a empreiteiros e homens pblicos, no cir cuito da corrupo ativa e passiva.A novidade que os corruptores esto confessando a culpa, se dispondo a devolver o dinheiro (ao menos uma parte dele) e arcar com outros en cargos, fazendo acor dos de delao e lenin cia a partir das grades da priso ou sombra da sua ameaa. Nunca hou ve nada igual no Brasil, parafraseando Lula, certamente sem sua aprovao ou concordncia. At com seu receio e ligeiro tremor, que ele diz ser de indignao. Agora subdividir a Operao Lava-Jato, que se tornou gigantesca e pode comear a perder eficcia, a partir da iniciativa do juiz, dos promotores e dos policiais que lancetaram o embrio dessa orgia de dinheiro pblico. Um caso como o da hidreltrica de Belo Monte precisa de investigao especfica. A suspeita que pesa sobre essa obra tem duas vertentes principais. Uma, foi o resultado da licitao, que causou surpresa. Em seguida, a fuga das empresas que formavam o consrcio vencedor do leilo da funo de concessionrias do servio de ener gia eltrica. Sabendo que o oramento iria estourar, se livraram dessa responsabilidade e voltaram ao seu ninho antigo, de empreiteiras. Ao invs de pagar pela construo da usina e depois assumir o incerto encargo de oper-la, receber para fazer a construo e depois se desligar do empreendimento. A outra vertente a elevao do custo da obra, que subiu de 19 bilhes para mais de 30 bilhes de reais, maneira das renarias da Petrobrs, o exemplo mais escabroso da m aritmtica dos rgos pblicos. terrorismo a alegao de certos setores da sociedade sobre o efeito devastador de uma apurao mais aprofundada da corrupo em obras pblicas. Dizem que a economia ir parar e o buraco jamais poder ser tapado de novo. No entanto, seu Man da esquina est trabalhando, os nibus circulam, os navios deixam os portos e o Brasil que trabalha no parou. Trabalhar mais se o Brasil que rouba passar por uma assepsia competente. pouco provvel que acabe. Mas pelo menos ter um tamanho tal que ele poder ser debitado na conta da condio humana, imperfeita e defeituosa por natureza. No a natureza da Terra: a natureza do homem, uma anomalia complexa no planeta.Campanha antecipadaA pretexto de comemorar seu aniversrio, no dia 14, a xao de outdoors pela cidade praticamente o lanamento da candidatura do deputado federal (e delegado da polcia civil) der Mauro prefeitura de Belm. Ele aproveita uma pesquisa de opinio, divulgada pelo Dirio do Par, que o coloca em empate tcnico com seu colega de bancada, o petista Edmilson Rodrigues, que foi prefeito da capital por dois mandatos. um recurso muito usado para tangenciar a lei, que veda a propaganda eleitoral fora de poca. A justia eleitoral podia sair da inrcia diante do evidente abuso e identicar quem pagou pelas peas de divulgao. Em cada bairro o outdoor atribudo a amigos do delegado no local. Se foram eles mesmo que zeram o pagamento, tudo bem. Se for o prprio poltico ou o seu partido, que seja caracterizada a burla. Anal, der Mauro no um homem da lei?

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15 Siderrgica de Marab: novela que no em mNo primeiro mandato de Almir Gabriel como governador, que comeou em 1995, a ainda estatal Companhia Vale do Rio Doce se disps a patrocinar um estudo sobre as alternativas de desenvolvimento do Estado. O levantamento seria comandado por ningum menos do que Eliezer Batista, ex-presidente da empresa, ex-ministro e um dos notveis da repblica. O trabalho foi realizado, mas o Par continuou a sua marcha forada colonial como exportador de matrias primas. A Vale conduzindo o trem com as riquezas locais, daquelas que no do duas safras, como os minrios. Duas dcadas depois, a cena se repetiu. Na semana passada, o governador Simo Jatene (que, em 1995, era o primeiro-ministro de Almir, como seu principal secretrio) assinou um protocolo de inteno com o presidente da j privatizada Vale (mutao que completar 20 anos em 2017). O objetivo criar um grupo de trabalho para discutir e buscar alternativas de projetos e investimentos para a implementao de complexo siderrgico em Marab, no sudeste do Estado, levando em considerao a utilizao dos modais existentes, que so a ferrovia de Carajs, em pleno uso, e a hidrovia do Tocantins, bloqueada na garganta do Pedral do Loureno. o que informa o porta-voz ocioso da Vale e do governo tucano, O Liberal. Pura jogada poltica e de relaes pblica, que interessa a ambas as partes, mas nada signica para o povo paraense. A Vale, manchada pela lama despejada em Minas Gerais e Mariana a partir do rompimento da barragem de deposio de rejeito de minrio de ferro, quer fazer algo que soe importante, simptico e progressista. A desgastada administrao Jatene necessita de bandeiras, plataformas e realizaes, ainda que em abstrato e de vago signicado futuro. A repetio do episdio anterior como diz o lsofo, a farsa do verdadeiro drama. O grupo de trabalho todo de chapas brancas, integrado por gente sancionada pelo governador: representantes do prprio governo, da Vale, da Assembleia Legislativa, da Federao das Indstrias, da Associao Comercial de Marab (novamente cooptada) e da prefeitura municipal, que deu seu endosso a mais esse conto (do vigrio?). Nenhum representante tcnico, acadmico ou cientco. Ningum da sociedade civil. D para acreditar que seja realmente para valer, num momento de crise siderrgica nacional, complexidade no mercado internacional do ao, grande dependncia da China e a opo da Vale por vender cada vez mais minrio para compensar, pelo volume fsico, a queda do preo, impondo uma concorrncia que liquidar os fracos na competio? A mineradora criar problema de relacionamento e de trato comercial com seus clientes, desdizendo e contradizendo a sua estratgia? Se a Vale pode garantir todas essas respostas e conrmar sua mudana de estratgia, ento a histria poder ser outra. Pode acreditar logo quem colocar sua meia ao lado da lareira para esperar com antecipao a visita de Papai Noel.MEU SEBOO Par de Raimundo Proenavro, Pontos de histria do Par, S. um digno Chefe de Polcia, estudioso que vai fazer 30 anos de editado. A dedicatria de junho de 1965 (o general Passarinho) e o livro, com 131 pginas, foi impresso na Papelaria Americana, em Belm, em 1937, com o garbo e a qualidade que o instituto Lauro Sodr lido o livro. Hurley o leu para escrever a apremilagre de dizer em poucas palae menor proveito, dizem em folhas cheias seguidas. Hurley, que escreveu obras importantes, sobretudo sobre a cabanagem, admitiu ter encontrado, no captulo sobre a abolia haver lido nos autores paraenses. Isso o bastante para por em relevo seu amor Histria. dtica, destinada ao curso complementar dos estabelecimentos de ensino ram a histria da sua terra nas pginas ainda inditas deste livro, aprendendo Valia a pena reeditar o trabalho.VIRGLIO obras do poeta romano Virglio, em vspera do natal de 1924, na Livraria Loureiro, em Salvador, na Bahia. Per em latim, a lngua original dos versos. caderno, doutor que era, pois.

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MEIO SCULO DE JORNALISMOA oresta cai. A Amaznia morreConcluso do artigo que escrevi em 1978 para a revista CJ Arquitetura, de So Paulo.Ados os efeitos mais recentes do cer as fontes de gua ou a se multipli carem as pragas que as transforma matamento intenso se rompeu o equil vital: em torno de uma rvore se forma uma camada composta de matria or gnica, principalmente folhas mortas de pequenos animais, insetos e plantas. gua das chuvas. Nesse caso, a eroda, a chuva carrega 34 toneladas de terra por hectare. Uma rea que perdeu suas rvores perde tambm 75% do rendimento que poderia oferecer agricultura e s deveria ser novamente utilizada se permanecesse em repouso por mais de 300 anos, tempo necessrio para formar uma centmetros de espessura. problemas imperceptveis num primeiro momento, mas desastrosos a longo prazo. O mdico e naturalista Camilo Vianna constaPar, navegveis h alguns anos, gua de vrios rios. O presidente do Instituto Nacional com os desmatamentos s margens dos sem proibidas as derrubadas at uma profundidade de 30 metros das margens dos rios para evitar que se concretize a Science, sobre o desaparecimento de mais de 100 espcies realidade quanto pode parecer. A der rubada da mata nativa e sua substituieclogos, porque podem estimular o anos, pesquisadores da Universidade no Par e na Bahia. criada pelo milionrio americano Dade hectares entre o Par e o Amap, os pesquisadores constaram que quase 10% das rvores apresentavam sintomas de enfermidade. Pelo menos por grave, mas poder ser controlada nos 100 mil hectares que foram desmata dos para que em seu lugar fossem planequilbrio ecolgico, muito mais problemtico se tornou o estudo das reper d causa. Derrubadas as rvores, se produzem movimentos ecolgicos que morrgica de Altamira ou a febre negra de Lbrea, quase desconhecida). Desde que foi aberta a Belm-Braslia, foram descobertos 70 vrus inteirasveis, tendem a se agravar no futuro. O que ele diz que lhe foi atribuda erroneamente, Sioli sustenta que essa alte leva as chuvas para longe. chuvas em certas reas, que perderam a cobertura vegetal, ou a alteranar os responsveis pelo rpido o ritmo das atividades produtivas maior do que o da pesquisa, e o som das motosserras supera o das vozes dos que advertem do inferno verde num imenso deserto vermelho.