Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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CARNE CUSTA RVORES CHACINA: UM ANO E NADA o a H exatamente 30 anos, em 1985, o ento presidente Jos Sarney fez a sua primeira visita Amaznia. Foi ver o primeiro projeto de minerao a entrar em operao no Par, a mina de bauxita da Minerao Rio do Norte, uma das maiores do mundo. Para pousar na pista do ncleo residencial de Porto Trombetas, o avio presidencial precisou passar por cima do lago Batata. A viso foi constrangedora. Quase 20% da superfcie lquida se tornara slida, aterrada pelos rejeitos da lavagem do minrio, que eram depositados no lago porque a mineradora no construra uma bacia prpria de deposio. O Batata, um dos maiores lagos que margeiam o grande rio, auente da margem esquerda do Amazonas, estava sendo destrudo sem clemncia. O volume despejado at aquele momento correspondia lavra de apenas uma dcada e meia. A imagem chocou quem assistiu exibio da reportagem sobre a visita, feita pela TV Globo, ecoando pelo mundo. A paisagem transformada do lago se parecia mais com Marte do que com a Terra, por sua colorao vermelha e o desapaECOLOGIAO fim da AmazniaO desastre de Mariana, em Minas Gerais, faz soar o alarma sobre os efeitos sociais e ambientais negativos da minerao. A Amaznia ecoa esse risco, minimizado pelo desconhecimento da destruio, que continua a avanar, das frentes pioneiras.

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2 recimento de toda forma de vida no local, dos peixes s plantas. Se dependesse da mineradora, que era controlada pela ainda estatal Companhia Vale do Rio Doce, associada a vrias das multinacionais do ciclo do alumnio, o Batata estava condenado morte. Uma condenao absurda. No s pelo aspecto ecolgico: tambm pelo econmico. A MRN construiu uma ferrovia para transportar o minrio por 30 quilmetros, da jazida at o porto privativo. Mas um tero da car ga era rejeito, que s seria descartado no ponto de lavagem, beira do rio. Alm da lama vermelha, o processo produtivo gerava um p da mesma cor, expelido pela chamin, sem ltro, que cobria tudo. A bauxita era lavada e depois seca porque parte da produo ia (e ainda vai) para o Canad, local de origem da Alcan, que por alguns anos foi a nica proprietria do projeto, at a CVRD se incorporar ao empreendimento para que ele pudesse ser retomado. O minrio precisava ser seco para no congelar no poro dos navios que chegavam ao Canad no inverno. O forno de secagem do minrio era alimentado de madeira, extrada arbitrariamente de uma rea que seria inundada pela barragem da hidreltrica do Trombetas. A usina no saiu at hoje, mas o ex-quase-futuro reservatrio foi limpo e as rvores se transfor maram em lenha at o alerta de que se tratava de um desmatamento absurdo. O alerta veio atravs da repercusso internacional das imagens do lago, que desnudavam a aparncia de normalidade da minerao. Desde o incio a extrao da bauxita devia ter um depsito de rejeito e o ponto de lavagem de minrio no alto da serra, sem que o trem precisasse transportar (com nus ambiental e econmico) material estril num percurso de 30 quilmetros, para descart-lo nas belas drenagens naturais da regio de Oriximin. A partir da reao, a Rio do Norte fez uma inovao: passou a depositar o rejeito em buracos que abriu ao lado da mina e a recobri-los com terra vegetal para replantar as espcies nativas da floresta que derrubou, recompondo assim a paisagem. Foi a primeira aplicao lavra de bauxita de uma tcnica usada para uma atividade em menor escala, a lavra de fosfato nos Estados Unidos. O erro inicial estava corrigido, mas no teria havido as mudanas sem presso externa. Quanto custou a falta de iniciativa da prpria mineradora? Nenhum clculo foi feito na poca e at agora. Mas uma ideia atualizada pode ser estabelecida a partir da constatao de que a cada ano a MRN descarta mais de cinco milhes de toneladas de material estril. Signica que, em 10 anos, ter produzido tanta lama de rejeito quanto a Samarco acumulou nas duas barragens que se romperam e provocaram a maior tragdia ambiental da minerao no Brasil. E a Rio do Norte j tem 30 anos de operao comercial, a mais antiga mineradora no novo ciclo da atividade, iniciado 60 anos atrs com a lavra de mangans no Amap por outra multinacional, a siderrgica americana Bethlehem Steel, em sociedade com o grupo empresarial de Augusto Trajano Antunes. Essa muito mal conhecida histria ensina que inconvel o compromisso das empresas de minerao de prevenir ao mximo possvel pela tecnologia disponvel os acidentes inerentes sua atividade e minorar ao mximo os efeitos deles quando ocor rem por um acidente completamente fora do controle. A tragdia de Mariana no deixa dvida, qualquer que tenha sido a causa do rompimento dos diques de conteno do rejeito da pelotizao (agregao em pelotas) do minrio de ferro, sobre um ponto: a negligncia da Samarco, na qual a antiga CVRD (privatizada h quase 20 anos) tem metade das aes, em parceria com a anglo-australiana BHP-Billiton. A empresa no respeitou o limite de segurana recomendado para reter os 50 milhes de toneladas de rejeitos que vazaram nem dispunha de uma alternativa segura para um acidente. O plano que elaborou no estava altura do risco que um rompimento causaria rea situada abaixo das duas barragens que entraram em colapso. Da a gravidade e extenso do dano que causou e dos prejuzos, que ainda nem foram exatamente calculados. O que j foi apurado, no entanto, o bastante para que a sociedade brasileira se comprometa em dar um basta ao livre arbtrio das empresas de minerao (assim como das demais que possuem barragens, como as de energia) e obrigue o governo a sair da sua inrcia, omisso ou incompetncia, mais graves at do que a irresponsabilidade desses setores da iniciativa privada. Com um agravante: a Samar co considerada como uma das melhores do setor. Como ser a pior? Uma resposta segura exige uma reviso rigorosa da situao das frentes econmicas que avanam sobre novas fronteiras na Amaznia, em particular no Par. H boas notcias no front, mas elas precisam ser relativizadas em funo da dinmica da ocupao da regio, que ainda marcantemente predatria e irracional. O Imazon, uma das mais ativas instituies de pesquisas amaznicas, apresentou uma dessas notcias, imediatamente comemorada, como aconteceu por ocasio da recente visita a Belm do prncipe herdeiro do trono japons. O Instituto do Homem e do Meio Ambiente constatou que 230 quilmetros quadrados (ou 23 mil hectares) foram desmatados na Amaznia Legal no ms passado. Houve reduo de 5% em relao a outubro de 2014, quando o desmatamento somou 244 quilmetros quadrados. J a rea degradada de orestas foi muito maior, alcanando 1.009 km2, com incremento de 115% em relao a outubro de 2015, quando a degradao somou 468 km2. A notcia boa, mas no to boa quanto parece. Primeiro, porque a derrubada de mata nativa prossegue, desfazendo a esperana quanto viabilidade do to apregoado desmatamento zero. Invariavelmente, a oresta virgem substituda por cultivos de valor inferior e sem o mesmo desempenho ecolgico.

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3 Em segundo lugar, porque o corte raso, geralmente feito para a implantao de fazendas de gado ou plantio de culturas comerciais, como a soja, foi substitudo pelo corte seletivo de madeira, que, mantendo a copa das rvores, no registrado pelos satlites e camua as estatsticas de desmatamento e degradao. Mesmo quando ambas as agresses se reduzem ou desaparecem, no h muita razo para a comemorao. O Par, onde o desmatamento diminuiu, a liberao de gases de efeito estufa maior porque crescem as queimadas em reas j alteradas. Por isso o Estado o lder da regio. Signica que a atividade humana se alterou numa fronteira j mais densamente ocupada. No entanto, segue a mesma diretriz em uma nova fronteira, como a do Amazonas, que abrigou 16% do desmatamento constatado em outubro, um ndice elevado se comparado aos 29% de Mato Grosso, 26% de Rondnia e 24% do Par. O Estado da propaganda ecolgica desencadeada pelo ex-governador e atual ministro (das minas e energia) Eduardo Braga desmorona, o que se evidencia ainda mais pelo ndice de desmatamento, de 2%, do vizinho Roraima. O pioneiro que devastou os vales do Araguaia, Tocantins e Xingu chega com os mesmos procedimentos ao vale do rio Madeira. Por isso, a Amaznia continua a sofrer e a desaparecer. O resto ingenuidade. Ou ento propaganda. A vitria de Jader, trinta anos depoisUm ano depois de terem derrubado Joo Goulart, que era o presidente constitucional do pas, os militares se viram diante de um desao poltico: deviam respeitar o calendrio eleitoral que receberam, no qual estavam marcadas eleies em 1965? De imediato, cancelaram a disputa para a presidncia, que tinha dois fortes candidatos: o ex-presidente Juscelino Kubitscheck e o ex-governador Carlos Lacerda. Para compensar, respeitaram a agenda restante. Assim, o Par foi um dos 11 Estados brasileiros que elegeram pelo voto direto e universal pela ltima vez os seus governadores, em 1965. Como perderam para a oposio nos dois Estados principais desses 11 (Rio de Janeiro e Minas Gerais), em 1966 a democracia emagreceu ainda mais: o voto popular foi substitudo, para o preenchimento das cheas do poder executivo, pela escolha indireta, atravs de um colgio eleitoral seleto, formado pelos deputados estaduais. Por ironia da histria, o ltimo governador eleito antes da vigncia por ato de fora da eleio indireta para presidente da repblica, governadores e prefeitos das capitais (alm de outros municpios em reas de segurana nacional e estncias hidrominerais e equivalentes), foi o mesmo, o tenente-coronel Alacid da Silva Nunes, que apoiou a vitria do candidato de oposio, o ento deputado federal Jader Barbalho, na volta do Brasil democracia. Em 15 de novembro de 1982, como candidato do PMDB, Jader venceu o empresrio Oziel Carneiro, do PDS, por uma diferena de apenas 50 mil votos (502 mil contra 462 mil). Num colgio eleitoral de 1,5 milho de eleitores, votaram apenas um milho. Deixaram de votar 435 mil, quantidade prxima dos votos dados a Oziel. Comeavam novos tempos, frente dos quais estaria o maior lder poltico de oposio no Estado? Ainda jovem, com 38 anos, Jader comeara na poltica estudantil duas dcadas antes. No ano da eleio de Alacid, em 1965, discursou na inaugurao do colgio Augusto Meira, em So Braz, saudando o primeiro governador do regime militar, o coronel Jarbas Passarinho. Com toda popularidade que tinha, depois de combater a corrupo, o contrabando, o jogo do bicho e a inecincia da administrao pblica estadual, Passarinho elegeria quem quisesse. Ele pretendia ter um civil como seu sucessor, o exdeputado, ex-ministro e mdico Catette Pinheiro. Mas seus colegas de farda queriam Alacid, nome que Jarbas endossou, por sua bem avaliada gesto na prefeitura de Belm. O resultado: Alacid teve 70% dos votos (163 mil) contra apenas 67 mil do marechal, senador e ex-governador Alexandre Zacarias de Assuno, apoiado por seus inimigos histricos, os correligionrios do general Magalhes Barata. Em 1982 Alacid era governador pela segunda vez, j nesta pela escolha dos deputados estaduais (que sempre cumpriram as ordens de Braslia). Decidiu liquidar com seu ex-correligionrio e j ento maior inimigo, Jarbas Passarinho. O ex-ministro realmente no conseguiu se eleger senador. Teve mais votos (445 mil) do que seus trs adversrios do PMDB (o mais votado dos quais, o eleito, Hlio Gueiros, cou com 225 mil), mas a soma do trio, graas a um feitio (a sublegenda) que se virou contra o feiticeiro, resultou em 30 mil votos a mais do que Passarinho, que concorreu sozinho, sem sublegenda, por vontade prpria e excesso de autoconana. Como padrinho de Jader no uso da mquina estadual contra a mquina federal, a servio de Oziel, Alacid Nunes dava como certa a reciprocidade em 1986, quando poderia voltar pela terceira vez ao governo do Estado, novamente pelo voto popular, realizando uma faanha que acabaria sendo de Simo Jatene, que se fez poltico disputando logo o principal cargo no Estado, sem passar por qualquer etapa intermediria. Mas Jader desfez as amarras e constituiu um novo poder no Estado, marginalizando Alacid (o que no impediu que viessem a se reconciliar, atravs de Hildegardo, o lho de Alacid que se fez poltico). Um poder novo, de mudana? No, um retorno ao baratismo. No ao tenentismo de 1930, que sepultou a Repblica Velha dos carcomidos, mas sua verso deturpada e deprava da volta de Barata ao poder, com sua mquina de triturar pessoas, ideais e bandeiras. No Par, tudo muda para continuar como estava. Talvez por isso, a grande imprensa se esqueceu da data por desateno ou interesse prprio.

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4 A carne ao molho de madeira: o que no est nas prateleirasA ONG internacional Greenpeace analisou as polticas de compra de carne bovina das sete maiores redes varejistas do Brasil. Concluiu que todas caram longe de garantir segurana contra car ne contaminada com desmatamento, trabalho escravo e violncia no campo O relatrio dessa anlise foi divulgado, na semana passada, para assinalar o lanamento da campanha Carne ao mo lho madeira que segundo a entidade mostra como os supermercados esto ajudando a devastar a Amaznia. Alm de registrar essa constatao, o Greenpeace realizou uma ao em uma loja do Po de Acar, tentando conscientizar os consumidores sobre a relao entre o desmatamento, a pecuria e a carne que chega sua mesa. A picanha do churrasco de domingo, alerta um informe da ONG, foi produzida s custas do desmatamento, alimentando uma cadeia criminosa de grilagem de terra e um ciclo de violncia, desrespeito e destruio na Amaznia, o que o consumidor ignora, porque os principais supermercados do Brasil no garantem para seus clientes que a carne vendida nas gndolas respeita o meio ambiente e os direitos humanos. Para o Greenpeace, o momento de mudar essa situao: o supermer cado que vende a carne tem o poder de quebrar essa corrente. Cada um de ns, juntos, pode pressionar os supermercados para liderar essa mudana e trazer a proteo das matas para o centro de suas polticas de compra de carne bovina. A ONG se atribui o primeiro passo nessa direo, ao lanar, no dia 18, o relatrio Carne ao Molho Madeira Como os supermercados esto ajudando a devastar a Amaznia com a carne que est em suas prateleiras. A partir do levantamento de infor maes de sete redes de supermercados que, juntas, representam cerca de dois teros de todas as vendas de varejo em territrio nacional o relatrio mapeia como as maiores redes varejistas do Brasil vm lidando com o problema. O resultado, diz o Greenpeace, assustador: dentro do ranking que resume a avaliao das empresas, nenhuma delas atinge o patamar verde1, que corresponde a um percentual de 70% a 100%. Ou seja, a avaliao revela que nenhum supermercado consegue, hoje, garantir que 100% da carne que comercializa livre de crimes socioambientais, informa Adriana Charoux, da Campanha Amaznia do Greenpeace. Dentre todos os analisados, o Walmart foi quem saiu na frente, com 62% dos requisitos considerados fundamentais. Atrs dele, o Carrefour atingiu 23%, enquanto o Grupo Po de Acar (GPA), maior empresa do setor, apenas 15%. Na lanterna, o Cencosud alcanou meros 3%. Outros supermercados falharam vergonhosamente: o Grupo Pereira-Comper, o Grupo DB (que tm forte presena em vrias cidades da Amaznia) e o Yamada (que preside atualmente a Associao Brasileira de Supermercados ABRAS) no forneceram qualquer informao a respeito de suas polticas para evitar a ligao entre o desmatamento e os produtos que comercializam. A signicao da Amaznia no conjunto da pecuria nacional j expressiva: 80 milhes das 212 milhes de cabeas de gado do Brasil esto na regio, segundo o Greenpeace. Metade do mercado de carne aos quais destinam os abates controlado pelas quatro maiores redes de supermercados do Brasil (GPA, Carrefour, Walmart e Cencosud). O relatrio avalia trs aspectos principais da poltica de compra de carne bovina das gigantes do setor: a existncia e o alcance destas polticas, os critrios dessas polticas e quanto os super mercados so transparentes em relao ao tema junto a seus consumidores. uma ofensiva necessria diante do que aconteceu nas ltimas dcadas: mais de 750 mil quilmetros quadrados da oresta amaznica brasileira foram destrudos, 60% dos quais viraram pasto para gado. A falta de indicadores positivos portanto, especialmente grave diante da presena histrica do gado como o principal vetor de desmatamento da Amaznia. Quando toda a sociedade brasileira se mobiliza pelo Desmatamento Zero e o Brasil busca atingir suas metas de reduo de emisso de gases de efeito estufa, chegada a hora das grandes redes varejistas assumirem a responsabilidade de fornecer um produto que no contribua com o desmatamento. Elas precisam dizer no carne contaminada com o desmatamento, proclama o Greenpeace. Os brasileiros tm o direito de saber se sua prxima refeio est contribuindo com a destruio da Amaznia ou com a violao de direitos humanos. Mais do que nunca, est nas mos dos supermercados decidir se querem fazer parte da soluo ou do problema, prope Adriana Charoux. Ela atribui aos consumidores o desao de repensar seu consumo, seja em quantidade ou em procedncia. Alm de ajudar a diminuir a presso sobre a oresta, a reduo no consumo de car ne vermelha tambm benco para a sade e para o melhor aproveitamento de recursos naturais. Precisamos garantir que nossa alimentao e hbitos de consumo no contribuam para a destruio da maior oresta tropical do planeta. Os supermercados tm que se mover, proclama.A voz da carneSe os supermercados no reagiram, o maior produtor de carne do pas e do mundo distribuiu logo um press-release. Pelo contraste que oferece com o material distribudo pelo Greenpeace, merece ser reproduzido. Diz o JBS: O Greenpeace, principal organizao global de proteo ao meio ambiente, publicou o relatrio Carne ao molho madeira que destaca as boas prticas adotadas pela JBS, dona da marca Friboi. A empresa citada no documento como exemplo por ser a pioneira em contribuir com a preservao da Amaznia e adotar prticas sustentveis em

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5 sua cadeia de fornecimento. A companhia s compra animais de fazendas que seguem as regras de cuidado e bem-estar animal, no utilizam mo de obra escrava, no esto em terras indgenas, de proteo ambiental ou localizadas em reas de desmatamento ilegal. Em 2009, a empresa assinou o Compromisso Pblico da Pecuria e, desde ento, adota diversas medidas para cumprir o pacto risca, fato comprovado por peridicas auditorias independentes. Os mais de 70 mil pecuaristas fornecedores da companhia seguem todos os rigorosos processos estipulados. As fazendas cadastradas so ainda monitoradas via satlite e comprovadamente no esto em reas ilegais. Em 2015, a auditoria feita pela BDO conr mou que 99,97% das compras de gado da Friboi vieram de propriedades sem indcios de ilegalidade. As polticas de boas prticas da Friboi comeam desde a compra do gado, estendendo-se para as fbricas e transporte dos produtos at o ponto de venda. E essa garantia vai at o consumidor, que hoje j exige dos varejistas um produto de conana. Em suas recentes campanhas publicitrias, a Friboi abre as portas de suas fbricas para mostrar os rigorosos processos internos de controle de qualidade. As carnes embaladas a vcuo da marca possuem um QR Code que identica a lista de fazendas de origem do gado, ou seja, o consumidor consegue saber exatamente de onde veio o produto que est na sua mesa. A Friboi sempre atuou de forma transparente. Foi mostrando isso para os consumidores que a marca ganhou a conana de 77% dos brasileiros, que recomendam Friboi para os amigos, familiares e conhecidos dados Ibope de 2015.Sobre a FriboiCom tradio de quase meio sculo, a Friboi a marca lder em carne bovina no Brasil. A Friboi tem como misso levar carne de conana para a mesa dos consumidores, com garantia de origem e rigoroso controle de qualidade, diz a empresa no seu release. Por enquanto, no houve o dilogo ou o confronto entre o Greenpeace e o JBS para saber onde est a verdade. E se h verdade na questo. Votao eletrnica imune fraude?O povo brasileiro est disposto a pagar mais de um bilho de reais para que o eleitor, ao digitar seu voto na urna eletrnica, receba um comprovante impresso do ato que praticou? O Congresso Nacional, a instituio de mais legtima representao popular, decidiu que sim. Por isso, no dia 18 derrubou o veto da presidente Dilma Rousse ao trecho da reforma poltica que prev esse acrscimo ao processo eleitoral no Brasil. A novidade dever entrar em vigor apenas na eleio geral de 2018. Ficar de fora da disputa municipal do prximo ano. O povo conrma a interpretao da sua vontade pelos seus representes polticos? O prprio povo, ou sua esmagadora maioria, provavelmente no sabe. No foi consultado nem parece informado a respeito. Mesmo porque foi mnimo o interesse da opinio pblica pela mudana. Seu signicado no transparente. Em primeiro lugar porque h controvrsia sobre o custo da nova exigncia. A presidente da repblica fundamentou o seu veto no valor do gasto, que seria de 1,8 bilho de reais. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Dias Tooli, foi mais econmico. Calculou o encargo em R$ 1 bilho. Aplicando-se o valor apresentado pelo chefe do rgo tcnico competente sobre a matria ao universo dos quase 150 milhes de eleitores brasileiros, d investimento de R$ 20 per capita. No parece excessivo se realmente o objetivo da iniciativa se revelar procedente: aumentar a segurana da eleio. Muitos cidados deixam a cabine de votao com uma inquietao: ser que a urna eletrnica mesmo indevassvel? Mesmo que seja, no seria um complemento necessrio receber um documento que ateste com delidade o voto, registrando-o por escrito? Anal, o eleitor volta para casa com o comprovante cada vez mais valioso de que votou. No pode tambm ter acesso ao registro do candidato pelo qual optou? Pela regra da lei criada pelo parlamento, o eleitor apenas confere se realmente sua vontade foi respeitada. Feita a conferncia, deposita o papel numa urna lacrada, que car disposio para alguma medida necessria. a que o presidente do TSE se manifestou categrico na classicao da novidade como um retrocesso. Para Tooli, que tambm ministro do Supremo Tribunal Federal, a impresso do voto absolutamente desnecessria. Ela iria acabar com a concepo da urna eletrnica, criada para acabar com a interveno humana, porque ela no deixa rastro. J a interveno tecnolgica deixa rastro e possvel de ser auditada. O ministro Marco Aurlio de Melo tem a mesma posio. Argumenta que a impresso poderia atrapalhar e at inviabilizar a votao eletrnica, como aconteceu na experincia realizada no Distrito Federal. A impressora prendeu o papel e interrompeu a votao. Mas ele faz a armativa com um tom categrico que surpreende. Anal, inexiste correo tecnolgica para esse problema, que meramente operacional? Como o voto digital continuar ar mazenado na urna e o voto impresso estar num depsito lacrado, haver sinergia entre os dois momentos e no choque, anulao. O que pode parecer excessivo, em funo do custo, no acabar por ser complementar, reduzindo ao invs de aumentar o sempre temido risco de fraude eleitoral no Brasil? Se for assim, o preo mdico e a inovao deve ser adotada mesmo. Ao menos para que possa ser submetida a um teste prtico, com um efeito positivo: conrmar ou desmentir a desconana do povo sobre a falta de lisura na votao eletrnica.

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6 Esta entrevista traz ao jornal Nossa Voz a experincia e o testemunho de Lcio Flvio Pinto, jornalista que atua diariamente na construo de um jornalis mo de combate, na regio amaznica. Nascido em Santarm (PA) e baseado em Belm, Lcio Flvio exerce o jornalismo desde 1966, tendo percorrido diversas redaes da grande mdia, para enm dedicar-se ao Jornal Pessoal newsletter quinzenal, que escreve sozinho desde 1987. Os artigos de Lcio Flvio no JP j renderam uma srie de processos e perseguies por conta de seu el servio de denncia e comprometimento com questes polticas e sociais, respondendo a uma agenda amaznica de notcias. Os artigos do autor podem ser lidos em sua pgina na web: https://lucioaviopinto. wordpress.com/.Tradio jornalstica, ditadura e censura NOSSA VOZ Criado em 1947, o jornal Nossa Voz fechou em 1964. A s razes do encerramento das suas atividades no esto claras alguns testemunhos relatam que foi fechado pela polcia, outros dizem que apenas faliu mas est claro que ele estava sendo vigiado desde a sua criao, j que todos os nmeros impressos foram cuidadosamente catalogados pelo D O PS como material subversivo e, curiosamente, isso ajudou a preser var a memria do jornal, que funcionava como ferramenta de divulgao do Partido Comunista e tinha como pblico alvo a comunidade judaica progressista brasileira, e por isso era escrito em idiche e portugus. Voc comeou a trabalhar em 1966, dois anos depois de o jornal Nossa Voz ter (sido) fechado e dois anos antes da promulgao do AI-5. Voc atravessou a ditadura militar como jornalista prossional, trabalhou no Estado de S o Paulo por 18 anos, jornal que sofreu censura ao longo dos anos 1970. Como foram esses seus anos de for mao? Voc se inseriu numa tradio jornalstica? Em que medida o seu trabalho de jornalista militante difere hoje do seu trabalho naquela poca? LCI O FL VI O P INTO Come cei a ler jornal bem menino. Eu tinha um ano quando meu pai, um autodidata, que desde cedo trabalhava no jornal de outros, criou o seu, em 1950, o semanrio O Baixo Amazonas, que circulava na regio centralizada por Santarm, a segunda maior cidade do Par. Deu to certo que ele se elegeu deputado estadual em 1954, com a sexta maior votao no Estado. Concorreu pelo PTB, j sem o seu fundador [Getlio Vargas, que se suicidou um pouco antes da eleio ]. Fe chou o jornal e foi assumir o mandato em Belm, levando a famlia. Papai foi ao sepultamento de Getlio Vargas, em So Borja, no Rio Grande do Sul. Na volta a Santarm, trouxe um disco compacto no qual uma das faixas era ocupada pela leitura da carta-testamento do presidente. Ainda faltava um ms para os meus cinco anos. Decorei o texto, imitando o sotaque gacho do locutor. Meu pai me levava por todos os lugares da cidade para as pessoas ouvirem a minha declamao. Senti-me um tribuno romano. A esto dois dos trs eixos da minha formao: o jornalismo e a poltica. O outro foi a cultura. Papai era revendedor de livros, que ocupavam uma sala[na nossa casa, em Santarm]. Eu me esgueirava para penetrar no local inter ditado aos moleques, fechava a porta e l cava a remexer os livros, abri-los, vendo suas ilustraes e, aos poucos, avanando sobre as letras. Fiquei viciado neles. Fui juntando tudo o que me interessava at chegar minha biblioteca atual, com mais de 50 mil volumes. Caminhei com desenvoltura por esses trs eixos porque era um lho da democracia de 1946. Mesmo com seus vcios e sua precariedade, ela foi terreno frtil para que uma das mais brilhantes geraes intelectuais brasileiras desabrochasse [ anterior minha gerao, com a qual tive relao na condio de leitor ]. Como eu gostava de ler, era fascinado pela poltica e no abria mo da minha rao diria de jornais e revistas, usufru o melhor desse perodo, que foi, at nossa fase atual, o de mais duradoura democracia na histria republicana nacional. Eu podia ter me tornado um beletrista, um jornalista ao estilo bomio, instintivo e talentoso, mas a questo social, de mos dadas com a realidade econmica, me atraiu desde cedo. Lancei mo da losoa, na busca por explicaes mais profundas e satisfatrias do Criatividade Jornalstica sob a ditadura militarReproduzo a seguir entrevista feita comigo e publicada na ltima edio do jornal Nossa Voz, de So Paulo. Foi uma das melhores entrevistas que j concedi, pela profundidade e acuidade das perguntas. Espero que seja til ao leitor.

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7 que as obtidas empiricamente, combinando-a com a literatura, minha fonte inexaurvel de arqutipos, tipos ideais e modelos [que tornei conscientes ao fazer o curso de sociologia, que me deu mtodos e regras de pensar]. Aos poucos, fui batendo asas para o lado do mtodo cientco de anlise. Assim, quando me tornei jornalista prossional, aos 16 anos, cheguei redao com um caderno para minhas anotaes. Os reprteres do meu tempo iam rua com laudas dobradas. Consultavam-nas na hora de redigir suas matrias. Depois, jogavam as folhas de papel no cesto de lixo. Eu preservava meus cadernos, que se multiplicaram por dezenas e centenas em quase meio sculo de jornalismo. Tinha conscincia de que eles guardavam a histria na sua feio cotidiana, qual tm pleno acesso os jornalistas. Alm da contribuio do caderno, inovei em outro ponto na redao de A Provncia do Par, meu primeiro local de trabalho: recolhia todas as publicaes que estivessem ao meu alcance. Todos os dias, relatrios, balanos, livros e uma vasta documentao chegavam redao e tinham o mesmo destino das laudas de anotao dos reprteres. Eu apanhava tudo e levava para casa, para a consulta e seleo, j orientado pelas leituras de mtodos e tcnicas de pesquisa, alm do mtodo losco, que me zeram escolher no o jornalismo como opo acadmica, mas a sociologia. Catava e sobraava tanto papel que ganhei um apelido: sovaco ilustrado. Numa poca em que quase todos os meus colegas paravam no que hoje chamamos de ensino mdio, eu prossegui para a universidade e por pouco no segui carreira acadmica. Foi mais fecundo trazer o rigor, a disciplina e o mtodo cientco universitrio para a redao, estabelecendo um dilogo produtivo com o dia a dia da cobertura jornalstica. Essa formao me fez procurar as explicaes e as causas ltimas dos fatos que testemunhava, ao invs de simplesmente relat-los e registr-los. Era um jornalismo de contexto social, como o socilogo Jos de Souza Martins observou, ao apresentar meu segundo livro, Amaznia, no rastro do saque, de 1980.NV O cenrio poltico que surgiu na abertura democrtica lhe parece ter criado um novo cenrio para a imprensa? ter transformado a censura poltica em censura econmica, deixando intocveis os mesmos interesses? LFP interessante que, tendo comeado sob a democracia de 1946 e iniciado no jornalismo prossional (depois de intensa atividade no jor nalismo amador) dois anos depois do golpe militar, aproveitei as margens de liberdade que o regime permitiu, sob os marechais Castelo Branco e Costa e Silva, at o AI-5 e a intromisso da junta formada pelos comandantes militares, que liberou a ditadura aberta no pas. No Correio da Manh tive uma percepo curta, mas direta do que era a oposio de esquerda constituda pela gerao de 1946, brilhante, criativa, mas voluntarista demais, sem rigor, panetria. Eu admirava essas pessoas, mas achava que elas no se ajustavam aos novos (mesmo que ruins) tempos, por no entend-los adequadamente. De volta a Belm, criei cadernos de cultura e de poltica tentando abrir uma nova vertente no jornalismo local. Cometemos a audcia de dar um caderno inteiro, de 12 pginas, sobre o cinquentenrio da revoluo russa, em novembro de 1967. O AI-5, implantando uma censura frrea e uma represso sem limites, estancou a linha abertamente poltica. Mas constatei que ela deixava um campo aberto para as matrias econmicas e os relatos fundamentados em provas ociais e institucionais. Comecei ento a estudar balanos de empresas, relatrios, planos, projetos, oramentos pblicos, os dirios ociais e todo material sancionado. Lembrei-me de Karl Marx, que nunca entrou numa fbrica (s Engels fez isso, mas como dono), valendo-se dos relatrios dos inspetores de fbrica da Inglaterra, que eram preciosos. Assim tambm havia por aqui documentos ociais de valor, que retratavam a realidade e diziam a verdade, numa relao meio esquizofrnica com o governo, que os patrocinava, mas no os usava; cavam na prateleira. Quando divulgava os resultados, as pessoas inclusive do governo se admiravam. Como eu sabia daquilo que estava publicando? Ao dar a fonte, de certa forma legitimava a matria, vacinando-a contra o censor, que estava na redao de O Estado de S. Paulo. Dessa forma conseguimos publicar matrias crticas sobre a ocupao da Amaznia, que era um dos principais motes da propaganda do governo e de sua saga pelo desenvolvimento acelerado que viabilizasse o Brasil Grande. A infor mao era to concentrada e difcil de obter que setores das foras armadas pressionavam internamente para que esse tipo de informao fosse divulgada. S assim saberiam do que realmente estava acontecendo na Amaznia, objeto de sua preocupao geopoltica e ponto sensvel da ideologia castrense. Graas a isso, o AI-5 no nos congelou. Quando veio a redemocratizao, continuvamos aados. Tornei-me um especialista em balanos, na decodicao do contedo dos dirios ociais, em energia, ecologia, minerao, ndios e todas as retrancas (como se diz no jargo jornalstico) relacionadas Amaznia. Mas a percebemos que o inimigo se deslocara. Deixara de vir de fora e passou a atacar a partir de dentro, atravs da autocensura. Se antes a lista de matrias impublicveis era preparada pelos organismos de segurana do governo e seus apndices e satlites, agora baixava redao do gabinete do dono do jornal ou de seus clientes, par ceiros e amigos. E era um ndex maior. Para mim, a sada foi partir para o jornalismo mais radical depois de 21 anos com um p na grande imprensa e outro na imprensa alternativa (cujo ponto maior foi Opinio a partir de 1972). Criei um quinzenrio em for mato pequeno, feito apenas por mim, com o mais baixo custo industrial para poder ignorar a publicidade e tentar viver da venda avulsa, dependendo totalmente da receptividade do leitor. Uma publicao imune censura e autocensura, com abordagem crtica e o mximo rigor na apurao dos fatos, a tal ponto que resistisse a qualquer tentativa de desmentido ou ser desacreditada. De 1992 at hoje o Jornal Pessoal me acarretou 33 processos na justia, algumas condenaes (nenhuma das quais transitada em julgado, exceto uma, por minha vontade, como forma de protesto contra a justia facciosa),

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8 agresso fsica, ameaas de morte, mas nenhum desmentido. Um jornal preparado para a estranha democracia que vivemos desde 1985.Polarizao na grande imprensa NV Recentemente, presen ciamos alguns momentos constrangedores vividos pelo jornalismo brasileiro: desde o pequeno e signicante parntesis na entrevista de Fernando Henrique Cardoso sobre o escndalo da Petrobrs na Reuteurs, o podemos tirar, se achar melhor (artigo disponvel em: http:// br.reuters.com/article/topNews/ idBRKBN0MJ2E520150323), at a publicao de um falso documento na revista Veja, atestando que o senador e ex-jogador Romrio possua uma suposta conta em banco suo, com quantia no valor de 7,5 milhes de reais. Estas e outras brechas revelam um sistema de veiculao de informao que se mostra um tanto fraudulento. A pesar de infelizes, tais brechas no causaram grandes comoes no grande pblico de leitores foram, talvez, entendidos como erros casuais e pontuais, apesar de demonstrarem um profundo descaso com a veracidade das informaes que vm a pblico. Este e outros erros parecem mostrar uma utilizao das informaes como formas de eleger santos e demnios dentro da poltica brasileira. A ssim, como voc v o papel da grande mdia no atual cenrio poltico, no qual o leitor levado a crer que os problemas enfrentados pelo pas se tratam de uma disputa entre agentes eleitos como bons e ruins pela prpria mdia? LFP O critrio da verdade a sua demonstrao. Esta uma regra de ouro para mim. Embora lide com matria subjetiva e tenha que escrever pressionado por prazos curtos, sempre procuro montar uma equao e aliment-la com informaes para que produza um resultado. Uma vez alcanado o produto, volto a ele para reconstitu-lo e poder expor o processo de produo, caso questionado. No importa nesse mtodo quem sejam os personagens. Nenhum conceito ou fama serve de parmetro para denir a verdade. Uma pessoa considerada notvel pode ter atitudes indignas. Um partido com bandeiras decentes pode agir incorretamente. Meu processo, nesses casos, dedutivo. Deduzo a narrativa dos fatos que apurei. Uma hora posso criticar a presidente Dilma e em outra elogi-la, sem guinar para um lado ou outro (nunca me liei a partido poltico para no sofrer qualquer restrio na anlise que fao). Eu jamais cometeria o inacreditvel erro de Veja na denncia que fez sobre Romrio. Vou provar por qu. Sempre quis saber qual o valor da estrada PA150, de mil quilmetros, que liga Belm ao extremo sul do Par, a maior e mais importante do Estado. Recebi palpites e estimativas, todas inconveis. Fiquei atento ao aparecimento de provas durante anos at que a principal construtora da rodovia, a Andrade Gutierrez, entrou na justia para cobrar o que o governo ainda no lhe pagara. Ento consultei os autos do processo, com centenas de pginas, at apurar o valor declarado pela prpria construtora, fonte dedigna por estar em litgio com a fonte pagadora. S ento publiquei matria, na primeira pgina do meu jornal, dizendo que a estrada custara, em valor do incio do Plano Real, mais de um bilho de reais. Hoje os reprteres do opinio em matrias editorializadas e at estilisticamente se permitem usar expresses da linguagem oral sem que estejam reproduzindo declaraes de personagens das suas reportagens. Os textos caram sem credibilidade. Como se sabe, ningum consegue ser mais realista do que o Dirio Ocial nem mais carregado de juzos de valor do que um candidato em palanque. uma lstima que num momento em que a imprensa dispe de tantos recursos para apurar os fatos, se deixe levar pelos impulsos emocionais, passionais, subjetivos.Um jornalismo mucuim? NV O seu trabalho o de um jornalista pesquisador e de combate, o que poderia soar como um pleonasmo em outros contextos ou pocas. Por meio de um estudo de campo, relacionando fatos e testemunhos, os seus artigos tornam visvel o que est por toda parte, mas nunca apontado; tornam concreta a intuio abstrata de corrupo, de inecincia (estratgica) das instituies pblicas, de conivncia dos interesses privados e pblicos e da falta de informao na tomada de diversas decises fundamentais no Brasil. Parece-nos que a grande imprensa substituiu o seu signicado original o relato articulado dos fatos por um outro signicado a ar ticulao do jornal com seus anunciantes. Perdeu-se o vnculo com a cadeia de produo da informao e a capacidade de organizar essa infor mao em um artigo. Neste contexto, artigos se assemelham a um jogo semitico ensimesmado e a um espelhamento dos interesses dos anunciantes. S entimos, portanto, um verdadeiro otimismo lendo suas matrias, que conectam, de forma precisa, palavras, fatos, objetos, ideias e estatsticas. A o mesmo tempo, parece que a condio de existncia do seu trabalho a sua escala menor (comparado com o resto da imprensa no Brasil). Em conversa com Alberto Dines em Observatrio da Imprensa (2011), voc menciona o mucuim, considerando-o o menor bicho da A maznia, porm o mais terrvel. Em que medida o seu trabalho se assemelha ao que poderamos chamar de uma imprensa mucum cuja potncia se espalha por redes menores e/ou alternativas? Quais so as suas reverberaes, conexes, articulaes que espalham e empoderam a construo da informao que voc elabora? A partir da sua prtica, que tipo de estrutura possvel voc enxerga que poderia mudar o atual cenrio da imprensa brasileira? Para resumir isso em outras palavras, como institucionalizar a imprensa mucuim para ela no depender apenas da coragem de alguns? LFP Quase meio sculo de jornalismo me levaram a uma combinao de elementos que s se podem considerar antitticos numa relao dialtica, que lhes d consequncia: a paixo e o rigor. Foi a paixo pelo drama amaznico que me fez largar a academia, deixar So Paulo, abandonar a grande imprensa, virar as costas para o bem-estar e o conforto e me lanar aventura de

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9 uma frente de luta como o Jornal Pesso al. Meu empenho todo, integral, tentar evitar o destino colonial que esto impondo regio, tornando-a uma for necedora de recursos naturais eletrointensivos ao mundo. Essa viso colonial tornou o Par o quinto maior exportador brasileiro, o segundo Estado que mais d divisas ao pas (e Parauapebas o municpio campeo da exportao), o principal produtor do principal bem de exportao do Brasil, o minrio de ferro. Mas tambm o 16 em IDH, o 19 em PIB e o 21 em PIB per capita. Seguir assim, com essas paralelas de riqueza e pobreza, se o modelo econmico no for mudado. Como jornalista, procuro apresentar aos leitores os temas desse enredo e faz-los tomar conscincia de que o Par integra uma trgica tradio de pilhagem de recursos naturais que vm da frica e da sia. Mas, possvel mudar essa histria. No, porm, desconhecendo os processos de explorao, estabelecidos sobre uma cultura metropolitana. Para contrapor-se a ela condio indispensvel domin-la, conhec-la em tal profundidade que seja possvel desmont -la. No basta o discurso contundente, a boa inteno, a opo pelo mais fraco. preciso estabelecer a cultura do colonizado, mas que rejeita essa condio e quer ser autor de uma nova histria. Mas, como assumir a autoria do novo se ele no compreende a padronizao imposta de fora para dentro e de cima para baixo por uma elite metropolitana (no pas e fora dele)? Ao escrever sobre hidreltricas, por exemplo, eu me informo sobre a tcnica de construir hidreltricas, leio os estudos de viabilidade, os relatrios de impacto, converso com os tcnicos, os entesto. Acabo por dominar o assunto na medida da interlocuo. Sei o que uma turbina Francis ou Kaplan e distingo-a de uma turbina bulbo. Conheo as tenses nas linhas de transmisso. Mas me aprofundo nesses detalhes conectando-os ao universo que precedeu a denio do projeto e a sua execuo. E busco as alternativas possveis e factveis, caso esse empreendimento seja contrrio ao interesse da regio. E assim tem sido com cada tema decisivo para a Amaznia. A alegoria do mucuim expressa a condio do meu jornalzinho. Ele pobre, no usa cor nem fotos, no utiliza os demais recursos grficos para atrair e prender o leitor, s vezes maudo, o critrio da definio da capa em funo da importncia do assunto, no da sua capacidade de provocar interesse, e trata de questes ridas com o destaque que elas merecem, mesmo que o leitor no seja receptivo a elas, se acha que a sociedade precisa saber daquilo. Assim, o Jornal Pessoal chega aos 28 anos desaando as regras do mercado e a gravidade nanceira. Parafraseando Carlos Lacerda, o jornal no deveria existir. Existindo, no deveria prosseguir. Prosseguindo, no deveria se tornar o mais duradouro rgo da verdadeira imprensa alternativa no Brasil. Pequeno, minsculo como um mucuim, artesanal, pobre, mas tem algo que muita publicao rica e famosa no possui: credibilidade. Por isso, j foi citado por New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, Le Monde, Corriere della Sera, La Repblica, Pblico, Independent, etc. E est em clippings pblicos e privados, mesmo aqueles que experimentam literalmente na pele os efeitos desse mucuim impresso em papel.O mundo amaznico e a Amaznia no mundo NV Escrever a partir da A maznia escrever de um lugar paradoxal. A regio sofre de atrasos polticos, econmicos e sociais, ao mesmo tempo em que est na ponta do que o Flix Guattari chamava de capitalismo mundial integrado. Essa tenso atravessa os seus artigos. Cada artigo seu, seja qual for o assunto tratado, seja qual for a sua data de publicao, acrescenta uma nova pincelada, destacando os arraigados processos de colonizao da regio. De que maneira voc considera que seus artigos funcionam como ferramentas para despertar a ao cidad, descolonizar as mentes e, consequentemente, ajudar a mexer com o curso da histria regional? Como voc v a utilizao da informao que voc produz? LFP Eu acompanhei desde o incio a penetrao dos japoneses no setor econmico eletrointensivo, desde o nal dos anos 1960. Foi o Japo que viabilizou o maior empreendimento mineral, o de Carajs, e eu acompanhei de perto esse captulo. Na passagem do sculo XX para o XXI observei um fato: o aparecimento de chineses na Amaznia. Quando che garam os primeiros chineses, liguei as antenas. Foi nesse perodo que comecei a escrever sobre eles na regio. O correspondente do New York Times no Brasil, Larry Rohter, registrou: fui o primeiro jornalista a detectar esse fato. Os chineses acabaram suplantando os japoneses na apropriao do minrio de ferro mais rico da terra. Hoje, 60% do minrio que saem de Carajs vo para a China e 20% para o Japo. Para manter esse uxo, a Vale opera o maior trem de cargas do mundo, com 400 vages, que faz 12 viagens por quase 900 quilmetros, indo e vindo da mina, no Par, ao porto, no Maranho, com uma carga avaliada em 40 milhes de dlares ao dia. Quem conhece realmente esse trem, que provoca a maior hemorragia colonial da histria da minerao mundial? Quando a gerao de grandes blocos de energia comeou na Amaznia, simultaneamente operao de enor mes projetos de extrao mineral, as condies externas permitiam que se buscasse alternativa ao velho modo colonial de explorao. A siderurgia mundial estava em profunda mudana, tanto tecnolgica quanto econmica. Mas o Brasil e a Amaznia no se beneciaram dessa conjuntura. Claro que os agentes coloniais queriam continuar a explorar a riqueza alheia, mas havia a possibilidade de uma composio com os interesses nativos. S no houve porque temos uma das piores elites mundiais e ela no se interessou por essa alternativa ou se mostrou incompetente. O resultado foi desastroso, mas o Jornal Pessoal no s tem denunciado esse desfecho horrvel como se empenha em encontrar outra via, embora possa no chegar a ela.

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10 MEIO SCULO DE JORNALISMOA Sudam assegura que, quando implantados, os 94 projetos agro-pecurios instalados no Par de-vero criar um rebanho de pouco mais de dois milhes de cabeas de gado, distribu-dos em 2,2 milhes de hectares. Espera-se que algumas culturas comerciais de expor-tao como guaran, dend e cacau te-nham formidvel expanso e o setor agrco-la se modernize.A realidade, porm, ainda muito diferente. O Par, por exemplo, per manece insignicante em termos agrcolas:seu rebanho bovino representa 1,2% do plantel nacional e as pastagens, 1,3%. O produto agrcola de maior par ticipao percentual excluda a pimenta-do-reino era o milho em gro, mas a quantidade colhida representava apenas 1,9% do total nacional. Esses nmeros podem incar que nem sempre ou mesmo, na maioria dos casos a ocupao das terras no se destina a torn-las produtivas e, sim, manipul-las especulativamente num transao imobiliria, ou ento a imobiliz-las em latifndios, nos quais se pratica a monocultura. Alm disso, a manuteno de grandes reas em poder de poucos proprietrios favorece a subutilizao da terra, que, ao expulsar os posseiros e lavradores, desestimula a produo de alimentos. Num levantamento realizado h trs anos para orientar o seu programa de crdito especializado no perodo 1975/79, o Banco da Amaznia j notava que a regio apesar da sua grande extenso fsica e a baixa densidade demogrca tinha uma estrutura fundiria limitativa: as unidades com menos de 1.000 hectares representavam, em 1970, 99,1% do total dos estabelecimentos, mas ocupavam somente 53,56% da rea total, enquanto, por outro lado, as grandes propriedades, representando menos de 1% do total dos estabelecimentos, ocupavam 46,4% da rea total, o que demonstra o desequilbrio da estrutura de ocupao na terra da regio. Notava ainda o documento que dos 256.273 estabelecimentos rurais efetivamente declarados na Amaznia, cerca de 214.500 possuem rea inferior a 100 hectares, e que no conjunto no representam 18% da rea total ocupada na regio. E conclua que, a perdurar essa situao, agravada pela quase inexistncia de ttulos de propriedade legtimos, possvel que, em futuro prximo, surjam focos de presso e insatisfao. Mais assustado, o engenheiro agrnomo Bento Porto, secretrio de Estado em Mato Grosso, acha que essas grandes propriedades, alm de absorver as mdias e pequenas propriedades, devido impossibilidade de concorrncia, podem se transformar em formas resistentes de poder econmico e poltico em decorrncia de provvel expanso monopolstica dos meios de produo, de mercados, de produtos e outros. Ele associa esse regime ao processo de ocupao do Brasil colonial atravs de capitanias hereditrias, que criou no Nordeste uma defeituosa estrutura agrria: Se o atual programa no assegurar um equilbrio entre os fatores de produo (homem e terra) em termos de retornos, ou no assegurar redistribuio de rendas, isso pode se constituir num desao segurana interna, como tem sido o prprio Nordeste e outras reas onde a estrutura agrria defeituosa e injusta. O modelo de ocupao da Amaznia, favorecendo enormemente a grande propriedade agropecuria, para a qual destina mais de 90% do crdito rural, j est criando a situao profetizada por Bento Porto. Num estudo encomendado pela Sudam, o Cedeplar, centro de estudos vinculado Universidade Federal de Minas Gerais, alertava para o fato de que a pecuria realiza uma baixssima incorporao de trabalhadores. Por isso, ela no buscar uma combinao com outras formas de atividade agrcola, parece ser uma fonte de expulso de trabalhadores agrcolas. Um levantamento feito pelo Incra em 1975 conrma essas observaes: cada fazenda apoiada pela Sudam dever criar apenas 27 empregos diretos, embora ocupando, em mdia, 47 mil hectares cada uma delas. Considerando que as 84 fazendas ocupavam ento 3,8 milhes de hectares, criando 2.187 empregos diretos, a proporo seria de 0,0001 trabalhador por hectare. Cada emprego criado pelas fazendas custava, em 1976, 235 mil cruzeiros [14 mil reais a preos do incio deste ano; o investimento na criao desses empregos seria de R$ 30 milhes]. Por causa dessa estrutura, o colono que chega Amaznia atrado, na maioria das vezes, pelos planos criados pelo prprio governo, j no consegue encontrar um lote de terras para nele se instalar. O homem recm-chegado, que traz estampado em sua sionomia o contentamento de um dia vir a ser proprietrio, imediatamente transformado a simples posseiro ou invasor, constatam Alice de Souza Mello e Janildo de Souza Campos, tcnicos da Sudam, aps percorrerem a regio. Os conitos que se seguem entre posseiros e proprietrios so resolvidos frequentemente base da fora, explicando os frequentes registros de choques e mor tes no interior da Amaznia. Quase sempre desprotegido, o lavrador desiste de se xar terra e busca as cidades.O homem da Amaznia expulso pelo colonizadorPublico a 2 parte da matria que escrevi, em 1978, para a revista CJ Arquitetura, de So Paulo. A parte final ficar para a prxima edio.

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11 Esta populao que chega do interior s capitais amaznicas (67% das migraes feitas na regio so inter nas, segundo o Cedeplar) no encontra condies para sua absoro: faltam empregos, casas, escolas, transporte e assistncia mdica. A marginalidade quase automtica. Esto surgindo nas capitais, sobretudo em Belm e Manaus, grandes favelas, formadas predominantemente por imigrantes rurais. A mais grave certamente a de Belm, em cujas baixadas 2.500 hectares de terrenos alagveis existe uma das maiores favelas do pas. Nessas reas, que ocupam 40% do permetro urbano e onde vivem 330 mil dos 850 mil habitantes da cidade, se refugiam sobretudo os habitantes de regies tradicionais do Estado, que foram desorganizados pelo avano de frentes pioneiras. Uma pesquisa realizada em 1976 pela Codem, uma companhia da prefeitura que cuida dos assuntos metropolitanos, constatou que a rea mdia construda das habitaes dessa favela de menos de 30 metros quadrados, existindo, porm, habitaes que chegam a 5,55 metros quadrados (ou menos de um metro quadrado por pessoa de uma famlia tpica). Por causa dessa exiguidade de espao, s vezes os moradores precisam usar divisrias internas, criando, em consequncia, quartos excessivamente reduzidos, compartimentos sem iluminao ou ventilao natural. Por ocasio da pesquisa, 12% das famlias entrevistadas tinham renda na faixa que vai at meio salrio mnimo; 25% ganhavam at um salrio mnimo e somente 10% recebiam trs salrios. A renda per capita no chegava a 40% da mdia nacional. Chacina completa um ano e ningum foi ainda presoDez pessoas foram executadas a tiros em cinco bairros de Belm na noite de 4 para a madrugada de 5 de novembro do ano passado por homens encapuzados que circulavam pelos subrbios da cidade, em motos e carros cata de vtimas. Eles queriam vingar a morte do cabo da Polcia Militar Antonio Marcus Figueiredo, de 43 anos. Mais conhecido por cabo Pet, ele foi morto a tiros poucas horas antes, quando chegava sua casa, no Guam. No estava em servio. Muito pelo contrrio: fora afastado da cor porao, Respondia a mais um processo administrativo por vrios tipos de infraes, incluindo homicdio. Pet estava acostumado a matar e mandar matar, sem ser incomodado. Era o justiceiro do bairro onde morava e das vizinhanas, inclusive em outro ponto ver melho da periferia, a Terra Firme. Tinha um ponto xo, que servia como sede da sua milcia, onde era procurado para intimidar desafetos ou eliminar inimigos, com a participao do seu bando. Tudo indica que sua execuo foi vingana por ter matado dois tracantes, que eram irmos. Quem tambm matou para fazer a tal da nefanda justia pelas prprias mos era da mesma extrao moral, com um acrscimo agravante: provavelmente eram militares da tropa. A polcia, um ano depois, diz j ter prendido todos os participantes da chacina, ter encerrado trs dos 11 inquritos instaurados, remetido os autos para a justia e continua a investigar, com a iminncia de novas prises, conforme o delegado Cludio Galeno, diretor da Polcia Metropolitana, relatou na sesso de ontem da Assembleia Legislativa, dedicada ao tema, a pedido da deputada Sandra Batista, do PC do B (cujo marido, o deputado Joo Carlos Batista, foi morto por pistoleiros). Dos cinco presos pela morte de Pet, quatro dos quais parecem j ter sido liberados (talvez pela justia neste ponto o delegado no pde precisar, porque no acompanha o prosseguimento dos inquritos a partir do momento em que chegam ao judicirio), alguns so do bando criado pelo cabo, como seu lugar-tenente, Otaclio Jos Queiroz, o Cilinho. Informou o delegado que todos os autores da morte do cabo Pet foram presos, sendo trs em outros Estados. Eles conrmaram o crime em depoimento. Dos cinco que participaram, um foi morto em confronto com a polcia e outro, foi morto pelos parceiros, conforme registro de O Liberal. O Dirio do Par anotou a informao do delegado de que foram feitos 30 exames periciais e que os projteis encontrados em cada um dos corpos das vtimas foram diferentes, oriundos de locais distintos e feitos por grupos diferentes. A concluso que havia, ao menos na Terra Firme, um conito entre ex-agentes do trco e um grupo de tracantes, principalmente sobre a arrecadao com segurana e com o trco de drogas. Nove das 10 pessoas executadas por causa do assassinato do cabo Pet no tinham antecedentes criminais. Mesmo a nica com passagem de pela polcia, da mesma maneira como as demais, no participaram da morte do militar. Trs delas tinham 20 anos, uma 16 e outra 18. S duas tinham mais de 30 anos. Eram completamente inocentes. Logo, as caractersticas das suas mortes nada tem a ver com trco ou milcia, considerando-se a conexo com a morte do cabo da PM. Passado um ano, portanto, as informaes parecem incoerentes e insucientes. A alegao de que o segredo de justia imposto aos processos para proteger as vtimas no mais se sustenta. Como admitiu o delegado, h apenas duas testemunhas oculares das execues. Compensa proteg-las da melhor maneira possvel e abrir todos os autos consulta das famlias dos mortos, seus advogados e quem mais se interesse por desvendar essa chacina. Do jeito que as coisas seguem, ser cada vez mais forte a sensao de acobertamento e impunidade, o pior destino para esse ato de barbrie e ofensa aos direitos das pessoas.

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12 memria C otidianoPHEBONunca houve e talvez nunca mais venha a haver um trecho urbano to per fumado quanto a rea em torno da Perfumaria Phebo, na rua Quintino Bocaiva (onde a indstria ainda per manece, mas j sem seu to apreciado e peculiar cheiro cheiroso). Em 1960 eram sucesso em Belm e em outras cidades do pas os sabonetes Phebo e Par; as colnias Desejo e Corinto; as lavandas Seiva de Alfazema e Petrleo Oxford; os ps compactos Ps Phebo e Madeiras da Amaznia; o leite de beleza Phebo e dezenas de outras elaboraes. Nesse ano foi lanada a loo axilar, um desodorante extraordinrio e diferente.AVIAOEm 1960 operavam em Belm nada menos do que oito companhias de aviao, uma das quais internacional, a americana Pan-Am: Lide Areo Na-PROPAGANDAA livraria do HaroldoA Livraria Dom Quixote, do jornalista e escritor Haroldo Maranho, oferecia aos seus clientes trs livros do momento, em 1960. Furaco sobre Cuba, uma reflexo em cima da hora do filosofo francs JeanPaul Sartre sobre a revoluo cubana; as Memrias do Marechal Montgomery, do comandante ingls na Segunda Guerra Mundial; e as explosivas recordaes de Dalila Ohana, Eu e as ltimas 72 Horas de Magalhes Barata. Dalila e Sartre autografariam seus respectivos livros na prpria livraria, que funcionava diariamente at as 10 horas da noite, na galeria do Cine Palcio, na rua de Almeida, ento um pont decididamente Cult hoje, qualquer coisa.DO cional, Navegao Area Nacional (NAB), Pan American World, Panair do Brasil, Paraense Transpor tes Areos, Real Aerovias, Servios Areos Cruzeiro do Sul e Varig.SECRETARIADOEm 1961, o governador Aurlio do Carmo (que tinha como vice-governador Newton Miranda) comandava um secretariado integrado por Arnaldo Moraes filho (Governo), Pricles Guedes de Oliveira (Interior e Justia), Jos Maria Mendes Pereira (Finanas), Amilcar Carvalho da Silva (Sade Pblica), Benedito Monteiro (Obras, Terras e guas), Antonio Moreira Jnior (Educao e Cultura), Amrico Silva (Produo), Evandro do Carmo (Segurana Pblica) e Raimundo Cavaleiro de Macedo (Departamento do Ser vio Pblico).CONFISSOEm agosto de 1964 eodoro Brazo e Silva narrou a conversa que teve, na sede da SPVEA (antecessora da Sudam) com o coronel Jos Lopes de Oliveira, uma das pessoas mais temidas naquela ocasio, por comandar um dos mais complexos IPMs (Inqurito Policial Militar), depois da deposio do governador Aurlio do Carmo. Brazo ressaltou ter sido o primeiro jornalista convidado pelo chefe militar, normalmente avesso a entrevistas, interessado em esclarecer os fatos e desfazer alguns dos muitos boatos a seu respeito, que circulavam intensamente pela cidade. Um deles dizia respeito aos depoimentos prestados ao coronel pelo advogado Irineu Lobato, muito inuente no antigo regime. O militar disse que, a princpio, Lobato se manteve el ao governador. Mas

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13 quando trouxe para deporem em Belm funcionrios de uma usina de arroz que possua s margens da ferrovia Belm-Braslia, mudou radicalmente a sua posio. Escreveu Brazo e Silva que, a partir desse momento, quando foi apontado como tendo recebido dois pagamentos (de 40 milhes e 20 milhes de cruzeiros), aceitou o papel de ser o testa de ferro do Dr. Aurlio do Carmo, o verdadeiro dono daquele dinheiro todo. Lobato teria feito a declarao sem constrangimento, sem coao, embora tivesse dramatizado sua consso, dando-a como resultado de ameaas que no se vericaram, disse o jornalista. Mas no eram tempos do contraditrio completo de uma democracia.QUESTOOs advogados Alcindo Barbosa e Waldemar Viana quase foram s chamadas vias de fato no frum de Belm, em 1964. A razo do desentendimento foi uma ao executiva proposta quatro anos antes pelo Lide Brasileiro, empresa do governo federal. O Lide cobrava da rma Pires Carneiro, proprietria da fbrica de cimento de Capanema (hoje com o grupo Joo Santos), 180 mil dlares devidos pelo frete do maquinrio da indstria. O problema que os autos do processo sumiram do cartrio Gueiro. Algum tempo depois, o processo reapareceu, mas com um documento novo: fotocpia da sentena do ex-titular dos feitos da Fazenda, Walter Nunes de Figueiredo. O Lide conseguiu certido de que no havia a sentena nos autos originais, posio contestada pelos Carneiro. Da o bate-boca, que quase resulta em altercao fsica, para usar expresso forense.OPOSIOUma das primeiras referncias pblicas a atritos entre Jarbas Passarinho e Alacid Nunes foi do deputado Larcio Barbalho (pai do senador Jader Barbalho), em 1967. O lder do MDB (atual PMDB) disse que o ministro do Trabalho do governo Costa e Silva e o governador do Estado tinham divergido em torno do preenchimento dos cargos de direo do Banco da Amaznia. Jarbas teria indicado os dois representantes do Par no colegiado de seis integrantes (o presidente, Lamartine Nogueira, e o diretor Osvaldo Trindade), deixando Alacid de fora. Os deputados gover nistas trataram de desmentir a verso da oposio. O governador compareceu transmisso do cargo, feita pelo presidente interino, Nelson Figueiredo (substituto de Armando Mendes, que renunciara). Passarinho se fez representar por seu sobrinho, o futuro deputado Ronaldo Passarinho. E tudo parecia em harmonia na muito concorrida solenidade. S parecia.CAAEra 1967 e a caa s bruxas tambm era feita em Belm. Valcir Monteiro, Francisco Czar e Martins de tal foram detidos pela polcia. Eles confessaram serem autores de uma publicao sobre Ernesto Che Guyevara, distribuda entre os simpatizantes do credo vermelho em Belm. O documento foi apreendido no Idesp e, a pedido do diretor do instituto, Adriano Menezes, o governador Alacid Nunes mandou instaurar um inqurito no mbito estadual, enquanto procedimento idntico era adotado pela 8 Regio Militar. Os trs detidos no identicaram o cabea do movimento.FOTOGRAFIAO longnquo estdio da TunaEm 1947, 10 anos depois de ser inaugurado, o estdio da Tuna Luso Comercial (depois, Brasileira), no longnquo bairro do Sousa, estava em tal abandono que seus refletores seriam transferidos para a Curuzu, para proporcionar a possibilidades de jogos noturnos no velho estdio do Paissandu, que era o tetracampeo de futebol do Par. Do Sousa, a lembrana de sua imponncia em tardes gloriosas de uma dezena de anos atrs.1

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14 MEU SEBOCultura de almanaqueEu tinha 12 anos quando, em 1961, comprei pela primeira vez um livro num sebo. No lembro se foi o almanaque Bertrand ou o almanaque do Porto, ambos editados em Portugal. No lembro porque a partir da comprei todos os exemplares que havia na Livraria Econmica, de Eduardo Failache. Econmica, muitas vezes, apenas no ttulo ao menos para o comprador. Se o incauto permitisse, o tal Eduardo, que tambm atendia por Dudu, arrancava-lhe o couro. Nada, porm, que uma boa conversa no zesse o preo descer de pretenso. Nessa poca eu fazia o ginasial no colgio do Carmo, na Cidade Velha. Apesar de pequeno (na idade e, muito mais, no tamanho), circulava a p ou de nibus, sozinho, sem susto. Nessas idas e vindas, passando pela Livraria Mar tins, que era a melhor de Belm, descobri o sebo do Dudu. Acompanhei-o at o m: da livraria e do livreiro, cujo sepultamento testemunhei como o nico representante da clientela, que foi denhando com o tempo, at, na hora nal, se tornar singular, reduzida unidade. Na poca em que comecei a comprar os almanaques portugueses, meu sonho era escrever uma pgina de curiosidades como as que apareciam na Folha do Nor te de Alberto Queiroz, e em A Provncia do Par do Herdlio Maltez. Pegava os livros que j tinha, inclusive um dicionrio universal, em seis volumes, de um Valmir (esqueci o sobrenome), publicado pela editora Conquista, selecionava o que me parecia mais interessante e mandava pelo correio para os jornais. Nunca tive retorno. Gabriel Garca Marquez dizia que no se escreve ao coronel. Nem se devia escrever ao redator de planto naquela poca. Sei que o preo dos almanaques era acessvel, o que j no se pode dizer do valor atual, alto, s vezes extorsivo, sempre acima de 50 reais, podendo bater nos trs dgitos. Por que essa sobrevalorizao, no sei. justicvel no caso de almanaques como o do jornal Correio da Manh do Rio de Janeiro, o mais inuente do pas em boa parte da histria republicana brasileira. Mas no caso de almanaques como o da revista Pensamento ou de laboratrios farmacuticos, como o Capivarol, deve ser mais um fenmeno de irracionalidade da Estante Virtual. Dizia-se de quem lia essas publicaes que tinha uma cultura de almanaque. No entanto, essa leitura podia ser muito proveitosa e no apenas para candidatos a pginas de curiosidades e bizantinices. Nas seguidas leituras dos almanaques portugueses, descobri que algumas histrias contadas por Guimares Rosa tinham sido coletadas nessas publicaes claro, submetidas limalha do grande escritor, com seus olhos de lupa e a inciso de um cirurgio lingustico. Almanaques, ora direis: pois caro.Livro de CcilLembro-me de certa vez cruzar, na Santo Antnio, do velho comrcio de Belm, com o casal: ele, de terno de linho de cor creme (HJ?), ela de vestido farfalhante, tambm de linho puro. A moldura para o par seria mais adequada em Paris do que na tropical cidade do Gro Par. Ccil Meira teve a tpica formao da sua poca: na cultura francesa (como Francisco Paulo Mendes ou Inocncio Machado Coelho, entre tantos da sua gerao). Boa parte dos livros que usou para escrever a sua Introduo ao estudo da literatura em francs. Poucos em italiano e espanhol. Nenhum em ingls, embora cite, no original, poesia do concretista americano E. E. Cummings. O livro o produto de um autntico professor, de um mestre (de aldeia?), profundo e simples. Devia ser reeditado. A ltima edio que tenho, a quarta, revista e aumentada, de 1974. Ccil a dedicou aos seus dois lhos, Eduardo e Lus Roberto, que morreram muito cedo, de uma maneira que talvez acabasse sendo tema para a literatura simbolista francesa, que o pai tanto apreciava. Poema do papagaio No seu livro, Ccil cita uma poesia (Meu canto de rua) de um nico paraense, que Ebremar de Bastos, escreveu em 1948. seu irmo, que se notabilizou como Augusto Meira Filho, engenheiro, historiador e um amante de Belm (alm de ser meu padrinho por adoo). Do poema, extraio um trecho bem original, que trata da arte de empinar os antigos papagaios, hoje substitudos pela pipa importada, que no oferecem os mesmos recursos nem pertencem a esta cultura bem paraense: O geral j virou O Medrado empinou um Japo! Tremendo no espao espera do lao Um guinador cabeava dando um mer gulho no cu! Rabo e linha, pegou no gargalo O outro chinava e ia para Tebas... E todos gritavam: cheira lambo... Lambe a ponta e emenda outra... Serol de sabo! Aquele manteiga, embolotudo e furo! Com um bom periquito e um bode na mo, ningum escapava Principalmente o telhado vizinho...! L vem um chinando! O grito era um s! E um borboleta, feito no Afonso, Aposto que Linha sessenta pintada de verde, rabo de escama, Rocega na ponta, cortado e aparado que no segurou! Os velhos empinadores devem apreciar esses versos. Os novos precisam de um glossrio. O papagaio guinador era forte, nervoso, esbelto, todo colorido (o mais disputado era o borboleta, mas havia tambm o vezinho e muitas outras formas). Tinha um rabo (a atual rabada) curto, artisticamente preparado, com pedaos de pano branco e uma ponteira negra. Pegavam uma fora excepcional ao vento do geral. Resistiam aos periquitos e bodes lanados pelos moleques para alcan-los. Se a linha era cortada pelo o com serol bom, o papagaio chinava. Tudo isso com um jargo prprio da cultura parauara, que se dilui e se desfaz pelo mimetismo apressado e feroz. Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site Site www.jornalpessoal.com.br Blog com Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal

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15 Dia 11 ltimo, sete horas. Debaixo do chuveiro comeo a sentir uma dor no peito. Pingos pesados que se transformam em uma leve presso de dor. Somos feitos de passados. O hibernado infarto de 2007 acorda. Visto-me apressado. Ao tentar sair to cedo sou indagado. Ande vais? O medo um bom ltro contra a mentira. Vou a uma emergncia mdica. Estou com dor no peito; se dito pela neta, no teria eco. Dito por mim? Impensado. Disparei o boto de alarme da mulher, que esquece que av, deixando a neta para o segundo palco. Para onde ir? Qual o menos pior mal? Unimed Doca o mais perto. Tento entrar e sou impedido. Falta o registro, a carteirinha, preciso ganhar nmero, um papel. At quando existiro os papis? Entro e ganho uma pulseira branca do porteiro. Uma segunda paragem, agora para colher relato do que sinto, tirar a presso, ganhar uma nova pulseira amarela. Espera. A vida feita de esperas. Sou atendido por uma mdica a quem repito o meu beab. No ganho nova pulseira e sim um papel, requisio para exame de sangue. Nova espera, esta mais demorada. Eu calmo, pensando na picada e depois no caf matinal com minha or cheirosa, meu bem-te-vi, de 98 aninhos. A esposa, ner vosa, conta os segundos, vira, revira, sai de meu horizonte e volta com um enfermeiro, que me arranca da cadeira e levame a uma sala. Ela, mulher, proibida de entrar. L dentro sou colocado em uma maca e pedem para inchupar um comprimido sublingual. Logo em seguida, trs ou quatro outros, sou obrigado a mastigar. Ainda ruminando, sou apelado para apressar e engolir. Ainda no acabei. Apresse e engula junto com mais estes, quatro ou cinco, desta vez presenteados em um copinho plstico. Rpido, ouo. Agora no mais estou cercado por ninfas de toucas. Homens chegam para me mudar de cama. Digo que no preciso, pois posso fazer com minhas pernas. No. uma ordem. Fique onde est. Como? Meu eletro deu normal, minha presso 7/11, temperatura normal. Como eles, santos da sade, podem ver o meu mal? Terei eu escrito na testa que estou enfartando? Duas outras enfermeiras, uma de cada lado, se posicionam ao meu lado com seringa na mo. Vamos lhe picar em cada lado de sua barriga. Como assim? Para qu? Nego-me. E logo depois uma senhora, sem touca, sem bata, sem identicao, perguntame o que estou fazendo ali? Sua voz atemoriza. Peo para telefonar para meu mdico e tenho como resposta: se para seu mdico lhe cuidar, no devia vir a esta emergncia. Aqui eu dito a regra e voc ir ser submetido ao protocolo de infarto. O que fazer? Continuo no purgatrio. Cochilo. Medito. Vejo e ouo o viver de um dia de sala de emergncia. Entra a primeira companhia em uma maca e o corre-corre renasce. Seringa, tubo, qual a presso, mscara.., vai, vai Um festejar explode. Vocs da ambulncia podem ir. Bom trabalho. Algum grita proibido usar celular aqui dentro. Ouo e guardo-o. Daqui a pouco vejo a mdica usando o seu celular. Certamente o meu explosivo. Uma segunda visita entra no purgatrio, chegando em maca. Eu entrei andando. Algum com traumatismo. Ouo: encosta a. Como trazem tais pessoas para c? Coloca o colar nela. Tira o colar. Depois de horas de espera, levam a paciente para um passeio at o raio-x. Voltam e um novo estacionar da maca. Esquecem que ali est um ser humano esperando. Nem uma palavra, um copo de gua, uma fruta. Encostam e esquecem. Uma senhora de bata aberta entra deslando. Desaparece em uma sala anexa, julgo que exclusiva dos mdicos, de onde gritam, de quando em quando, ordens. E eu? Depois de trs picadas para colher sangues, s 8 hs, s 11 horas e s 14 horas, estou cansado de ver tanta desordem. Levantome e sou repreendido que no posso. Chega para mim! Meu copo transbordou. Noto que nem s o meu. A senhora esquecida, descala, retrato de nossa gente boa, tambm se levanta e diz que vai embora e quer seu RX. A mdica diz que o mdico especialista ainda no viu o RX. A cidad senhora diz que no viu e nem mais ir ver, pois vou embora desta... A mdica aprende aquilo que nossas escolas deixaram de ensinar. Atordoada, golpeada, perguntou-me se tambm estava com pressa e respondo: mais do que nunca. Ganhei oxignio ouvindo aquela cidad senhora. Quero meu relatrio para tambm sair, senhora mdica. No damos relatrio, mas lhe irei dar uma receita de medicamentos. Quais os medicamentos que voc toma? Como? A senhora nem sabe os medicamentos que eu tomo. A senhora nem leu minha cha? Passe bem, pois para mim chega. Valeu a ida ao purgatrio para ouvir aquela cidad senhora, que se muitas outras houvessem, nossa Belm seria outra. Esta minha semente uma homenagem a Senhora, sem nome, cidad. Hoje, dia 12, fui ouvir meu mdico. Hoje sei que corri risco na forma como fui atendido. Fui tratado com um protocolo para um enfartado sem o cuidado de antes ser vericado se estava mesmo enfartando. Horror no purgatrio. Aleluia. Podia ter sido um horror no inferno. O mundo pode ser um palco. Mas o elenco um horror. Oscar Wilde.Horror no purgatrio hospitalarValdemiro A. M. Gomes reconstituiu uma experincia de grande impacto, mas que se repete diariamente na cidade: o tratamento de emergncia na rede hospitalar. Seu testemunho merece ser lido e servir de motivo para reflexes e atitudes.

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Perguntas incmodasGrandezas paulistanasVioleta emrita As vagas do tribunalA concesso para as empresas de nibus de So Paulo atuarem durante 20 anos lhes custaria 120 bilhes de reais, segundo o valor inicial apresentado pela prefeitura. Sem maiores explicaes, esse valor cresceu 40%, passando para R$ 166 bilhes. D oito bilhes por ano, 20 milhes por dia. Se isso o que devem pagar ao poder municipal para colocarem seus nibus nas ruas paulistanas, quanto essas empresas devem faturar. Admitindo-se apenas que seja o dobro do encargo (e deve ser bem mais), acima de R$ 320 bilhes em 20 anos. Um nmero espantoso. Mais espantoso o fato de que a concesso pode ser prorrogada, sem nova licitao, por mais 20 anos, ao arbtrio da prefeitura, como se fosse possvel manter regras no servio pblico de So Paulo (e em tudo mais) por um perodo de 40 anos, uma eternidade na dinmica inesgotvel da cidade, uma das maiores do mundo. Tudo nela superlativo. So Paulo tem 72 mil padarias e lanchonetes. Se cada uma tiver 10 empregados, s a o setor rene mais da metade da populao de Belm. Se cada uma faturasse 100 reais dirios (a mdia deve ser muito superior), o resultado seria mais de sete milhes de reais de faturamento por dia. Esses nmeros gigantescos podem ser tomados como parmetros para avaliar qualquer cidade brasileira, em escala reduzida ou microscpica. Mas sempre com valor explicativo. Como sobre Belm. Violeta Realefsky Loureiro recebeu, no dia 5, ttulo de professor Emrito da Universidade Federal do Par. o ttulo do convite ocial, que no fez a adaptao de gnero. E devia. Violeta apenas a quarta mulher a ser distinguida com esse honraria pela UFPA. Todos os ltimos, pelo menos, foram homens: os mdicos Joo Paulo do Vale Mendes e Douglas Gabriel Domingues, o arquiteto Alcyr Meira e o historiador Heraldo Maus. Violeta tambm pode ser a mais jovem. Muitas credenciais justicam a honraria, que no s a ela, mas a geraes que a acompanharam desde o incio da sua carreira acadmica e atividade intelectual, corajosa, profcua e fecunda, e as que ela ajudou a formar, em mais de 40 anos como professora e pesquisadora. Um bnus a mais para Violeta foi a incorporao de uma poesia ao convite para a solenidade, da qual a inspirao, escrita pelo marido e amigo de sempre, o poeta Joo de Jesus Paes Loureiro. Alm de tudo, Violeta a musa do companheiro de tantos anos. Um simples leitor de jornal forneceu uma das mais importantes informaes sobre o desastre de Mariana. O engenheiro e empresrio Carlos Freitas esteve em 2013 nas duas barragens da Samar co que se romperam e causaram enormes estragos no vale do rio Doce, entre Minas Gerais e Esprito Santo. Por observao, achou que elas poderiam se romper. E explicou, em carta Folha de S. Paulo: O risco geolgico nesse tipo de obra imprevisvel. O fator de segurana da ABNT [Associao Bra sileira de Normas Tcnicas] acima de 2 que indica folga para obras de terra dessa magnitude errado barragens em terra com volume a jusante dessa magnitude s existem no Brasil. O depsito dirio de material e a mudana no regime de chuvas, associados s falhas geolgicas naturais, tornam essas barragens extremamente inseguras. Nenhum jornal, nem mesmo a Folha se interessou pela resposta ao fato grave: por que s o Brasil aceita barragens de terra do porte (sem falar na localizao) de bar ragens como as duas da Samarco? Era como uma pergunta que se fazia muito por aqui tempos atrs: por que somente o Brasil produz ferro gusa de carvo vegetal? As respostas levam constatao do atraso do Brasil. Talvez por isso j so poucos os que se interessam por elas. Desde o dia 3 de setembro do ano passado est aberta, sem preenchimento at agora, uma vaga de desembargador do Tribunal de Justia do Par. a mais antiga. Foi aberta pela aposentadoria da desembargadora Brgida Gonalves, que deixou a corte em agosto de 2014, quando ela atingiu a idade limite para prestao de servio pblico (70 anos). H outras vagas mais recentes na mesma situao. Dos 30 cargos de desembargador que o TJE possui, s 25 esto ocupados. Das 5 vagas em aberto, trs sero preenchidas por merecimento; as outras, por antiguidade. No h previso para o incio do processo de eleio dos novos. uma situao indita. Poderia sugerir que o posto j no atrai, o que no corresponde realidade. Na verdade, os desembargadores esto segurando as vagas em aberto espera de uma denio sobre a mudana da idade limite da aposentadoria: se continuar aos 70 anos ou se ser prolongada at os 75. Se houver mudana, vrios dos integrantes da corte continuaro nos seus cargos, sempre muito cobiados.