Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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PRONTO O GRANDE CANAL A TRAGDIA DA MINERAONOVO FLAGRANTE DE DROGAS o a No dia 25 do ms passado, Jaime Nogueira trocou tiros com o soldado da Polcia Militar Vtor Cezar de Almeida Pedroso Foi um confronto casual. Jaime, mais conhecido por Pocot, praticava um assalto com mais dois comparsas, um deles menor. O militar, que no estava de servio nem fardado, tentou impedir o assalto. Levou a pior no tiroteio e morreu. Pocot, de 28 anos, que de classe mdia, foi levado para o Hospital Geral da Unimed para tratar dos ferimentos, usando seu plano de sade Estava numa enfermaria, no 2 andar do prdio, localizado no mais valorizado bairro de Belm, o Umarizal, protegido por um segurana do hospital do lado de fora, mais dois PMs e um agente prisional ao lado da sua cama. Treze homens encapuzados renderam os seguranas do hospital, enquanto oito deles subiram os dois lances da escada, entraram na enfer maria, imobilizaram os trs agentes da segurana pblica e deram 13 tiros em Pocot. Fizeram o caminho inverso, se juntaram aos outros cinco e fugiram em motocicletas, sem serem incomodaSEGURANAA quem mais temer?Os episdios de violncia crescente, tanto de criminosos sem limites para suas aes, ou de policiais que abusam do seu poder, deixam a sociedade alarmada e indefesa. A segurana pblica do Par vive uma crise de comando, definio e clareza. Como resolv-la?

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2 dos. Fizeram o servio 24 horas depois da morte do PM. At hoje a polcia no identicou nem prendeu qualquer membro do grupo. Vrias horas depois da execuo, o secretrio de segurana pblica admitiu que a polcia no estabelecera at ento qualquer nexo entre a morte do criminoso e uma possvel vingana dos colegas do soldado da Polcia Militar. Segundo ele, todas as linhas de investigao estavam sendo consideradas. Entre elas, a possibilidade de uma vingana entre bandos rivais, sem qualquer participao de militares. Seria uma leviandade no consider-la, disse o general Jeannot Jansen, ocial da reserva do Exrcito. O secretrio disse que o ato devia ser tratado como crime hediondo, tal a sua violncia. Quando lhe perguntaram se no era uma vingana de outros militares, ele desconversou. Mas quando um reprter suscitou a hiptese de uma vingana entre bandidos, ele foi mais enftico. S faltou armar que era a principal pista da polcia. No entanto, essa hiptese no pode ser sequer cogitada e ainda mais pela autoridade responsvel pela segurana pblica. Quem iria se vingar de um assaltante comum, que, com seu bando com mais dois acompanhantes, se saiu mal num assalto e no sequestro, terminando por balear um soldado da Polcia Militar que estava na chamada cena do crime por casualidade? Quem organizaria uma operao com tantos, to bem armados e aparelhados integrantes, determinados a invadir um hospital para matar o acusado de ser o responsvel pelo assassinato do PM, antecipando-se investigao, que caberia polcia judiciria, e aos seus desdobramentos? E, estendendo a vingana, sair atirando em pessoas aleatoriamente encontradas pelo seu caminho, em dois bairros da periferia da cidade, em noite avanada, quando os cidados de bem esto em casa (com medo da polcia e dos bandidos?), deixando o saldo de trs mortos e um ferido? Os detalhes da ao merecem ser considerados. Os executores de Pocot agiram prossionalmente ao imobilizar um segurana particular e trs policiais. Podiam matar o homem que procuravam com um ou dois tiros, mas exageraram. No tiveram a menor considerao pelos demais pacientes do hospital, alarmados por tantos disparos num ambiente fechado e inesperado para esse tipo de acontecimento. Foi a primeira execuo a tiros dentro de um hospital na capital do Estado do Par. Alm de disseminar o terror num local de recolhimento de pessoas doentes, os homens encapuzados estavam certos de que no haveria reao, nem depois que agissem. E tinham razo: os policiais demoraram a tomar uma iniciativa. De certa forma, alis, a demora persiste at hoje, o que leva a sociedade a especular sobre conivncia da corporao. Se a afronta lei por justiceiros pessoais intolervel em qualquer caso, numa sociedade democrtica, ainda mais abominvel na forma selvagem adotada pelos invasores do hospital. Ao extrapolarem todos os limites, os homens que mataram Pocot deviam sofrer uma busca rigorosa e incansvel. S assim o poder pblico daria a todos o recado indispensvel, de cortar na prpria carne e punir os matadores, quaisquer que eles tenham sido policiais, sobretudo. Se o aparato de segurana fez cor po mole, caberia ao elo superior de comando mudar essa situao. Quando se tornou evidente que a maior autoridade pblica encarregada da questo faria melhor permanecendo calada do que dizendo o que declarou o general Jannot, especulando sobre matana entre quadrilhas, ento o melhor substitu-la e imediatamente. Com sua entrevista de logo depois dos fatos, o militar provou, mais uma vez, no ter condies de permanecer como secretrio de segurana pblica do Par, independentemente dos mritos e qualidades da sua carreira, que zeram o governador tucano ir busc-lo para dirigir o catico e selvagem setor de segurana pblica do Par. Mas a manifestao do comandante-em-chefe da Polcia Militar e todo o poder pblico estadual, o governador Simo Jatene, tardou. E quando ele rompeu o inquietante silncio, sua manifestao no foi por uma cadeia de emissoras de rdio e televiso, mas por seu facebook, no m da manh do dia 29, quatro dias depois da morte do soldado Vtor Pedroso e dois dias aps a execuo do seu suposto assassino. Como atesta o prprio facebook, falou, acima do governador, o cidado Jatene. Formalmente, portanto, o governador ainda deve sociedade paraense uma declarao ocial. Na sua mensagem pela internet, Jatene lamentou as ocorrncias. Infor mou ter tomado todas as providncias, manifestando uma convico: Tenho acompanhado os trabalhos de investigao e estou certo que a nossa polcia identicar os culpados, que respondero pelos seus crimes na justia. Essa previso ainda no se cumpriu. A partir da, prevaleceu a poltica sobre a segurana pblica, a posio do governador sobre os interesses da sociedade. Jatene se julgou no dever (ou direito) de alertar sobre cer tos comportamentos, aparentemente inexplicveis, que tem [tm ] usado os tristes episdios, para disseminar boatos e tecer inverdades, que, alm de nada contriburem para a resoluo dos casos, parecem querer acirrar nimos e tirar o equilbrio necessrio nessas horas, inclusive daqueles que tm a misso de fazer valer a estabilidade social e a justia. A quem se dirigiu a mensagem, que no identicou destinatrio? A resposta vem atravs da exemplicao desse comportamento, na divulgao de informao absolutamente infundada e despropositada, de que o governo remeteu coroa de ores para a famlia de um dos responsveis pela morte do policial Pedroso. Mesmo sem saber o que pretende o autor ou autores de tal ideia, duvido que qualquer bom motivo enseje semelhante atitude. Novamente o recado no apontou o destinatrio, mas bvio que Jatene se dirigiu aos seus inimigos polticos. Qual o maior deles? O senador Jader Barbalho e seu grupo de comunicaes, frente Dirio do Par. De fato, o jornal faz campanha sistemtica contra o governo tucano. A recproca verdadeira: a administrao Jatene e seu principal aliado, o grupo Liberal, da famlia Maiorana, zeram uma declarao de guerra ao grupo Barbalho. Travam batalhas em

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3 todas as frentes: jornalstica, comer cial e poltica. O que o interesse pblico diante dessa radical e obsessiva disputa pelo poder absoluto? Os dois lados perderam o senso de equilbrio, as medidas da realidade e a diretriz do interesse pblico. A violncia das ruas tem seu equivalente na violncia dos gabinetes privilegiados. Diante da gravidade da situao, seria de esperar que os dois lados declarassem uma trgua, sem deixar de exercer suas funes, mas realizando-as pelos parmetros da verdade, e procurassem combinar esforos para favorecer a sociedade. Mas isso j virou utopia no Par? impossvel, mesmo sob trgua, aproximar necessidades gerais de pontos em comum para que a poltica no seja, para o ignorado cidado, algo equivalente criminalidade? No mesmo dia em que Pocot foi morto, o sargento Alberto Rebelo Neves, da Polcia Militar, foi baleado na cabea em circunstncias semelhantes: tentou evitar um assalto mesmo no estando de servio nem fardado, segundo o comando da corporao. Outra verso, a primeira que circulou, diz que os assaltantes identicaram o militar ao passar de carro em frente ocina mecnica em que ele estava, voltaram e o balearam. No dia 6, o sargento saiu do estado de coma e deixou a UTI do Hospital Metropolitano, em Ananindeua, onde permanece internado, mas com perspectivas de alta. Segundo informaes de fontes no ociais, os homens que atiraram no militar j foram identicados, mas seus nomes no foram divulgados. Nem eles foram presos. Depois de dias de temor e pnico causados por uma onda de boatos atravs da internet, de que nova chacina ocorreria, como vingana pela morte do militar, reiteradas vezes informada, o silncio sobre as investigaes anormal. O aparato de segurana do Estado foi novamente colocado prova. Por dois lados: pela insegurana da populao, que j no sabe mais a quem temer, se aos bandidos, cada vez mais violentos, ou se ao abuso de poder dos policiais; e pela revolta dentro da corporao, que se julga exposta a riscos mais graves por falta de apoio do governo. O reprter de O Liberal pediu a opinio do comandante geral da Polcia Militar, identicado apenas por coronel Campos (seu primeiro nome Roberto, o mesmo do pai, que tambm foi coronel da PM) sua opinio sobre a informao dada pela Associao de Cabos e Soldados da corporao, de que 19 militares j morreram neste ano. O coronel Campos fez reparo estatstica. Disse que cinco desses mortos foram vtimas de acidentes de trnsito. Assim como no perguntou o nome do comandante, o reprter tambm no pediu ao entrevistado um esclarecimento importante: esses acidentes de trnsito aconteceram em misso? Ocorreram porque os policiais, em suas viaturas, perseguiam criminosos? Ou eles foram acidentados em sua vida de paisanos, fora do trabalho? Sejam 19 ou 15 os PMs que mor reram antes que o ano completasse 10 meses, um nmero assustador. Tem semelhana com os bitos de militares no conturbado Rio de Janeiro, que tem exatamente o dobro da populao do Par. Signica dizer que a morte para os PMs paraenses tem o dobro do grau de risco dos seus colegas cariocas. As causas so vrias, desde o imprevisto no exato cumprimento do dever, em defesa da sociedade, para isso expondo sua vida, como dever de ofcio, at acidentes em operaes mal explicadas. De qualquer maneira, as baixas na fora armada estatal so enormes e dizem bastante sobre o que est acontecendo nas ruas da capital paraense e por todo Estado. O governador Simo Jatene prestigiou, com sua presena, a posse do coronel Roberto Campos, em 9 de janeiro deste ano, no cargo que seu antecessor ocupara por trs anos. Manifestou ento seu desejo que o novo comandante consiga se impor o desao de viver todos os dias do seu comando como se fosse o primeiro e o ltimo. O primeiro, porque fundamental ter a capacidade de se emocionar com as coisas simples, e o ltimo porque, a medida em que o tempo se esgota para ns, nossas urgncias aumentam. E a sociedade tem urgncias que precisam ser encaradas por todos ns, disse Jatene, com seu estilo oreado, abstrato e vazio de contedo por trs de palavras bonitas e conceitos decentes. Mas at agora quase no se v a sua presena nem o toque da sua condio de comandante-em-chefe da cor porao. Por uma ironia bem tucana, o governador se apoderou da sede da Polcia Militar, num vasto conjunto de prdios e reas que fora da Aeronutica, na esquina da Almirante Barroso com a Doutor Freitas, ao lado da luxuosa sede do poder judicirio, arrebatada ao seu uso original, de escola de artces, quando os lderes paraenses, sempre dspotas, tambm eram esclarecidos. Ali, imita o que o governador Jader Barbalho fez com a sede da Emater, na avenida Augusto Montenegro, para onde se mudou, abandonando o Palcio Lauro Sodr, tradicional sede do poder executivo estadual, no centro antigo da cidade: criou seu bunker e se isola do povo e da vida real, protegido pela guar da na entrada e a muralha em torno. O coronel Campos prometeu, nove meses atrs: Acima de tudo vamos buscar melhorar os servios prestados comunidade. Cada vez mais queremos ouvir as pessoas, e isso, com cer teza, vai ser uma das marcas da PM a partir de agora. Queremos que a polcia seja valorizada pela prpria sociedade e vista como uma parceira. E para isso, tambm vamos capacitar e aprimorar nossos policiais. De l para c, 19 efetivos da Polcia Militar morreram em ao. Ou 14, como ele se permitiu corrigir o repr ter do jornal, de olho nas estatsticas e, quem sabe, sem o mesmo cuidado pela realidade, Ou tem sustentao sua crena de que Todo esse problema surge com o trco de droga. O problema existe e srio. Mas agora virou um selo, ao qual se recorre para carimbar tudo, servindo de justicativa ou pretexto para violncias fsicas e manipulao de informao. Contra ou a favor dos protagonistas, mas, invariavelmente, margem da sociedade.MAIS UMA MORTEA matria j estava pronta quando, no sbado, 7, mais um PM foi morto, o 21 neste ano e o 18 em menos de 25 dias, segundo a contabilidade do Dirio do Par Desta vez foi o cabo

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4 Na morte do empresrio, outro agrante de drogasHlio Nascimento Souza, de 52 anos. Aparentemente foi um latrocnio: dois homens o abordaram quando ele chegava de motocicleta na invaso em uma passagem no bairro Pratinha II, ponto vermelho da cidade. Os homens pareciam estar aguardando o militar, que vinha acompanhado por outra pessoa, tambm de moto. Um dos homens deu dois tiros no militar pelas costas. Uma bala, a que deve ter sido fatal, o atingiu na nuca. O matador levou o dinheiro que o cabo carregava numa mochila e fugiu na moto dele. At agora a polcia no prendeu os criminosos nem os identificou. Desta vez, a histria parece mais complicada. O militar estava aposentado, mas foi reconvocado. Trabalhava na administrao do comando geral da Polcia Militar. Mas tudo indica que agia como segurana particular para uma empresa que vendia os carns da loteria Carimb d sorte. Era a razo das suas visitas frequentes e no mesmo horrio ao local em que foi morto. Apesar de no estar fardado, carregava arma de servio, um revlver calibre 380, que seu assassino levou. As aparncias indicam mais latrocnio do que um acerto de contas. Mas o ataque pelas costas pode significar que o criminoso aproveitou para executar o militar. Em 28 de fevereiro Joo de Deus Pinto Rodrigues, de 27 anos, morreu durante uma festa privada na boate Element, em Belm. Ele teria sido sufocado pelo prprio vmito, provavelmente depois de ter consumido uma quantidade exagerada de droga, que pode ter sido um similar (de qualidade muito inferior) do LSD, atualmente o mais consumido pelos que tm condies de pagar de 30 a 40 reais por cada dose. O fato foi pouco noticiado pela imprensa, que diariamente explora esse tipo de morte, provavelmente porque Joo era lho de um dos donos do grupo Lder, no qual tinha a posio de diretor comercial. A apurao policial do caso tomou o rumo de Jeerson Michel Miranda Sampaio, que participou da festa e foi apontado como o vendedor da droga usada por Joo Rodrigues. Ele foi preso dois meses depois da morte do empresrio, agrado com seis petecas de cocana, 10 comprimidos de ecstasy e vrios pedaos de papel da droga usada como sendo LSD. Michel continua preso e o processo j est pronto para ser sentenciado na vara de combate ao crime organizado de Belm. Se for condenado, Michel poder responder a outro processo, o que apura a morte de Joo Rodrigues. Nesse caso, ele poderia ser acusado de crime culposo (sem a inteno de matar), por ter sido o responsvel pelo fornecimento da droga que provocou a morte do empresrio. Por isso, decisiva a prova de que ele realmente tracante de droga e o autor da venda dentro da boate. A polcia montou a operao de invaso da casa em que Michel mora, num condomnio fechado na avenida Augusto Montenegro, depois que diz ter recebido denncia informando que no carro dele havia droga. Michel j estava sendo monitorado como o provvel fornecedor da droga. Houve tempo para que os policiais obtivessem um mandado judicial, que no tinham quando chegaram ao porto do condomnio, no dia 24 de abril. A polcia alegou que naquele momento tinha que agir de imediato por que a denncia dizia que a droga estava naquele momento no automvel Honda Civic de Michel. Logo, bastaria vasculhar o carro para checar a procedncia ou no da informao. Mas os quatro policiais, um dos quais encapuzado, quebraram o cadeado de acesso residncia, a invadiram e dela trouxeram Michel, sob a ameaa de um revlver. Os pais do rapaz disseram que o car ro foi vasculhado na ocasio e nenhuma droga encontrada. Mesmo que esse testemunho no seja correto, o procedimento da equipe policial contrariou as normas de procedimento. Os agentes podiam ter tomado a sndica, com a qual conversaram na portaria, para testemunhar a vistoria no carro, fazendo-a diante da prpria famlia, sem precisar fazer a invaso do domiclio. No tendo promovido o agrante, que dependia da vericao do carro, zeram pior: levaram Michel preso e o carro dele para a seccional do comrcio, onde s ento procederam busca pela droga e a encontraram. Nesse momento, o agrante perdeu a sua validade e a priso se tornou abusiva. Mas a ao prosseguiu, foi inteiramente acatada pelo Ministrio Pblico do Estado e agora o preso ser sentenciado. Seria a repetio do agrante de trco de droga que levou priso dos donos do 8 Bar Bistr, dois meses depois, pela mesma equipe policial, que viria a ser submetida a inqurito disciplinar administrativo e teve seu ato anulado pelo juiz Flvio Leo, por ilegalidade? H indcios positivos, que precisam ser urgentemente apurados para que novamente inocente seja punido por uma ao abusiva da polcia. Enquanto essa apurao no se realiza, convm aos rgos de segurana levar em conta a deciso recente do Supremo Tribunal Federal de que s lcita a invaso de domiclio pela polcia para a para busca de drogas, sem mandado judicial, mesmo em perodo noturno, quando amparada em fundadas razes, devidamente justicadas posteriormente, que indiquem que dentro da casa ocorre situao de agrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade dos atos praticados. Esse foi o entendimento denido, na semana passada, por maioria da corte, ao apreciar recurso extraordinrio no qual estava em causa se policiais podem entrar em domiclios para fazer buscas de drogas, sem mandado judicial. O relator do recurso foi o ministro Gilmar Mendes, acompanhado por Celso de Mello, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Edson Fachin, Teori Zavascki, Rosa Weber e Dias Tooli. O ministro Marco Aurlio, votou pelo provimento do recurso. Segundo o site jurdico Conjur, o caso envolve um homem condenado a sete anos de priso

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5 depois que a Polcia Federal apreendeu mais de oito quilos e meio de cocana dentro de um carro estacionado na garagem da sua casa. Em 2007, depois de uma denncia annima, a PF passou a investigar uma transportadora de Rondnia e decidiu abordar um dos caminhes no momento em que seguia pela BR-364. Foram encontrados na carroceria 11 pacotes com quase 25 kg de droga. esmo sem mandado de busca e apreenso, os policiais,foram casa do proprietrio da transportadora, depois das sete horas da noite.Encontraram mais cocana e sacos de aniagem semelhantes aos agrados no caminho. Para o Ministrio Pblico, autor da denncia, cou claro que os pacotes estavam guardados com o propsito de venda. Relata o Conjur que o relator do processo no encontrou no acrdo recorrido, a no ser a palavra do motorista, qualquer elemento probatrio de que havia drogas na casa do condenado. Gilmar Mendes entendeu que os policiais deveriam, antes de fazer buscas na casa, pedir justia autorizao para o procedimento. Para essa deciso, se baseou no inciso 11, do artigo 5, da constituio. Segundo o dispositivo, a casa asilo inviolvel do indivduo, ningum nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de agrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinao judicial. No entendimento do ministro Mar co Aurlio, no h provas no caso concreto que aponte para o cometimento permanente de crime. Quanto mais grave a imputao do crime, maior deve ser o cuidado das franquias constitucionais. Caso contrrio, vamos construir, na Praa dos Trs Poderes, um paredo para consertar o Brasil. O decano Celso de Mello, em seu voto, observou que o artigo 33 da Lei de Drogas, congura como delito per manente manter entorpecentes em depsito. Ele disse ainda que o artigo 303 do Cdigo de Processo Penal considera como situao de agrncia aquele que estiver cometendo crime permanentemente. Est a a diretriz para o procedimento da polcia em todo pas, j que a deciso do STF tem repercusso geral, devendo ser acatada pelos magistrados de grau inferior. Est conforme esse entendimento a sentena do juiz Flvio Snchez Leo sobre o processo instaurado contra Joo Pedro de Sousa Pauperio e Karllana Cordovil de Carvalho, presos em agrante pelo crime de trco de drogas e denunciados pelo Ministrio Pblico, um documento que merece ser analisado. So comuns, quase dirias, essas prises em Belm. Como regra, o MP acata as informaes da polcia e faz a denncia, que recebida pela justia e resulta em condenao do acusado. Geralmente o ru pessoa do povo, um annimo ou frequentador dos registros da polcia por crimes iguais, semelhantes ou de qualquer outra natureza.O caso do 8 Bar Bistr destoou desse processo rotineiro no apenas por envolver pessoas de classe mdia, vinculadas a um comrcio frequentado por outras pessoas da mesma relao social, incluindo os que podem fazer ecoar a sua voz e provocar a repercusso que a prtica diria no alcana.O que mais posto em dvida o modo de estabelecer o agrante na priso das pessoas apontadas como bandidos e sua ligao com o trco de drogas, um dos crimes registrados com maior abundncia na capital paraense. O combate limpo e claro ou h promiscuidade entre o aparato policial e as quadrilhas, especialmente as mais fortes e poderosas (e menos frequentes nas ofensivas policiais e no noticirio da imprensa). No caso do bar alternativo, o juiz observou que contra ele foram apresentadas apenas duas denncias annimas, registradas atravs do dique-denncia, porm, importantssimo ressaltar, todas as duas datadas de muitos dias antes da operao policial. Portanto, prossegue o juiz, alm de denncias annimas datadas de dias antes no caracterizarem de forma alguma a visibilidade do agrante, pois agrante o que esta ocorrendo naquele momento, casos como estes so tpicos da necessidade de se pedir a medida cautelar autoridade policial [aqui foi um lapso: o juiz deve se referir autoridade judicial ]. Ora, se j se tinha desconana da ocorrncia de traco na residncia e estabelecimento comercial dos presos, seria necessrio que algumas diligncias ocorressem anteriormente, como a inltrao de policiais disfarados como clientes do estabelecimento, a interceptao das comunicaes telefnicas, a montagem de campana nas proximidades, etc. E tudo culminaria com o necessrio pedido, em tais casos, para que a autoridade judicial expedisse o mandado de busca e apreenso, j convencido o juiz pelas diligncias policiais anteriores de que havia justo motivo para se realizar a busca no endereo dos presos. Na investida sobre o bar, nada disso foi providenciado, constata o julgador, pela leitura do prprio depoimento dos policiais, que foram logo prendendo Joo assim que chegaram ao local, mesmo antes de iniciar a busca e antes de encontrar qualquer droga ilcita, pois assim os prprios policiais relataram que o detiveram. Atitude muito imprudente e que termina por se tornar suspeita, pois prenderam a pessoa antes de qualquer outra evidncia da ocorrncia do crime, o que poderia resultar em agravamento da situao dos policiais, caso no encontrado nenhum entorpecente, pois alm de terem violado o domiclio da pessoa sem mandado judicial estariam efetivando uma priso completamente ilegal e arbitrria. Tudo como se tivessem certeza absoluta que encontrariam drogas no local, o que no poderia ocor rer antes de fazerem a busca, pois o simples disque denncia no d a certeza necessria sequer, em grande parte dos casos, para fazer a busca sem autorizao judicial, quanto mais para efetivarem a priso da pessoa como os prprios policiais informam que zeram antes de encontrar qualquer droga no local. Por outro lado, prossegue o juiz, o relato dos prprios policiais afasta a armao de que houve consentimento para revistarem o imvel, pois se Joo j estava detido e preso, evidente que qualquer autorizao, caso tivesse havido, estaria viciada pela coao que signicou a priso tanto para Joo quanto para sua esposa. No haveria semelhana desse caso ao de Michel Sampaio? a pergunta que ca.

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6 Barragens rompem em Minas. E as que j existem no Par?O rompimento de duas barragens de deposio de rejeitos da Samarco em Mariana, Minas Gerais, no dia 5, no provocou apenas a pior crise da histria da companhia, como reconheceu o seu presidente, Ricardo Vescovi. uma tragdia para o Estado e o pas. Mas pode ter efeito positivo se a conscincia nacional souber avaliar adequada mente a gravidade do acontecimento. A tragdia foi to extensa e profunda, com um amplo espectro de vtimas humanas (com seis mortes e 26 desaparecidos), sociais e ambientais que o governo mineiro reagiu proibindo a Samarco de extrair ou processar min rio de ferro na mina onde aconteceu o acidente. A licena de operao da unidade foi embargada. A medida ter efeito internacional porque a Samarco a segunda maior exportadora de pelotas de ferro do pas e uma das principais do mundo. Sua produo dever cair pelos prximos meses. Ainda assim, no havia outra coisa a fazer se no aplicar uma punio severa. Os efeitos do derramamen to de lama se estenderam por 500 quido rio Doce at o atingirem, no Esprito Santo. Nunca houve nada igual nesse tipo de acidente. O rompimento da muralha de conteno deixou debaixo de lama a regio de Mariana, no mais importante circui to histrico da minerao brasileira. Os prejuzos so incalculveis, como o prprio presidente da Samar co admitiu. A prefeitura de Mariana diz que h milhares de peixes mortos, quilmetros de matas ciliares destrudos, lama ftida e outras toneladas de madeira boiando. Em julho as duas barragens destrudas foram vistoriadas por tcnicos dos rgos ambientais do Estado, que emitiram laudo favorvel em setembro. Uma das barragens estava no limite da sua capacidade de estocagem de rejeito, de sete milhes de metros cbicos. Para a outra chegar ao seu limite, de 60 milhes de toneladas, faltavam apenas cinco milhes, menos de 10%. Estavam, portanto, sob presso. Mas, segundo a empresa, pouco antes das barragens ruram foi sentido um tremor na rea. Enquanto a defesa civil e outros grupos envolvidos tentavam encontrar corpos e limpar a enorme rea atingida, os rgos ambientais j antecipavam que iriam aumentar o rigor no controle das inmeras barragens montadas por mineradoras em Minas. A Samarco de propriedade, em partes iguais, de 50%, da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton duas das trs maiores mineradoras do mundo. Por isso, foi imediato tambm o efei dinrias da Vale encerraram a semana passada com queda de 7,55% na Bolsa de So Paulo. J as aes preferenciais caram 5,70%. A queda provocou uma perda de 2,35 no ndice Ibovespa, o principal do pas. Os papis da BHP tambm fecharam em baixa na Bolsa de Sidney, na Austrlia, a maior produtora de minrio de ferro do mundo. No incio da noite da ltima sextaco Standard & Poors colocou os ratings da Samarco Minerao em observao negativa, por ainda no ter condies de avaliar a extenso total dos estragos e o impacto em potencial nas operaes da empresa. A Samarco perdeu o selo de grau de investimento quando a nota soberana do Brasil foi rebaixada, no ms retrasado. Fundada em 1977, a Samarco a segunda maior exportadora global de pelotas (pequenas bolas de minrio de ferro usadas na produo de ao), atrs apenas da prpria Vale. Em Minas e no Esprito Santo, onde atua, produz 30,5 milhes de toneladas anuais de pelotas. Segundo a revista Exame, a relevncia da Samarco no mercado de pelotas far com que o acidente tenha efeito nrio. A reduo da oferta pode favorecer a cotao das pelotas, cujos preos vinham caindo, como os do minrio. Alm de ter que comprar de tercei ros para cumprir seus contratos de cur to prazo, pagando mais caro do que se a produo fosse prpria, a Samarco ter que arcar com a reconstruo da bar ragem e a compensao pelos estragos causados. Mas o ex-diretor de Relaes com Investidores da Vale, Roberto Castello Branco, disse revista acreditar que a Vale no deve sofrer com o episdio. nanceiramente independente. A Samarco no vai precisar de aporte dos scios para enfrentar essa situao, garantiu. No ano passado a empresa faturou 7,5 bilhes de reais, lucrou R$ 2,8 bilhes e pagou R$ 1,8 bilho em dividendos aos seus acionistas. Segundo o Ita BBA, os dividendos da Samarco representaram 3% da gerao de caixa da Vale em 2014. absorvido, inclusive pelo seguro, o acidente causar abalo minerao. A obteno de novas licenas ambientais para construo de barragens dever dia em Mariana. As exigncias devero se tornar maiores, inclusive nas reas de minerao no Par, o segundo maior Estado nesse setor no Brasil. A maioria das minas se localiza em reas isoladas, que podem acarretar graves danos ambientais no caso de um acidente, mas distantes de ncleos humanos maiores. Exceto em Bar carena, a 50 quilmetros de Belm, o principal distrito industrial do Estado e um dos mais importantes do pas, onde h a minerao de caulim e alumina, mais a produo industrial de alumnio. Alguns vazamentos e rompimentos de barragem j ocorreram, sem os mesmos estragos de Mariana. Por acaso ou previdncia? a dvida que persiste. O jornalista e gestor ambiental Agenor Garcia cita o caso da barragem de rejeitos da Salobo Metais, tambm da Vale, que produz cobre entre os municpios de Marab e Parauapebas.

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7 Segundo ele, em recente encontro do Conselho Municipal de Meio Ambiente em Parauapebas, o responsvel pela Defesa Civil do municpio declarou com todas as letras que nunca esteve no projeto Salobo e muito menos conhecia a barragem. Desde o incio da produo do concentrado de cobre, l esto sendo depositadas as toneladas do rejeito, que ainda leva toneladas de cido, usado no processo do cobre e sem destinao, pelo visto. A barragem imensa. E se romper, como rompem as barragens em Minas, a bacia do Parauapebas, que desemboca no Itacainas que acaba no Tocantins, bem no bairro do Cabelo Seco em Marab, nem imagino o tamanho da desgraa que vai se abater sobre ns, argumenta Garcia. Ele aponta para uma ironia do destino: o diretor presidente da Samar co,Ricardo Vescovi, at j recebeu prmio por dirigir a empresa considerada uma das mais sustentveis do setor. Saiu, com todas as letras, na edio 23 da revista especializada Minerao & Sustentabilidade. Seria bem oportuna uma reviso geral, pelas autoridades competentes, do funcionamento de todas as barragens da minerao (e de hidreltricas) no Estado. Seria o efeito positivo da tragdia de Minas, como o arrombamento de uma casa para as medidas de cautela do seu dono, a seguir.Em Minas, o governo estadual disse que a Samarco s voltar a operar na regio depois de cumprir exigncias de segurana feitas. Ter que realizar as correes necessrias para que o funcionamento da mina seja retomado.No h prazo para que isso acontea. Uma das medidas a serem adotadas pela empresa, conforme revelado pela secretaria do meio ambiente Folha de S. Paulo, o trmino do bombeamento do minrio de ferro que se encontra dentro do mineroduto da empresa que liga Mariana ao Esprito Santo. O Complexo de Ger mano tem reservas estimadas em 400 milhes de toneladas de minrio de ferro. Hoje, so retirados anualmente da mina cerca de 10 milhes de toneladas. Existe a suspeita de irregularidades em obras que estariam sendo feitas nas barragens para a ampliao da capacidade de armazenamento de rejeitos. Se isso for comprovado, ser o sinal para uma reviso geral de todas as grandes barragens no Brasil e impunidade, enquanto os danos e prejuzos no se avolumarem, como parece ameaado de acontecer.Vale produzir mais nas minas de CarajsEm maro a Vale comeou a produzir na mina da Serra Leste, em Curionpolis, no sul do Par. O projeto previa a produo de 2 milhes de toneladas de minrio de ferro e assim fora aprovado e licenciado. Mas j ento a Vale reconhecia que ele fora subestimado. A estrutura caria parte do ano parada se essa escala fosse seguida. Enquanto comeava a operao da mina, a Vale apresentou ao Estado uma nova carta-consulta para 6 milhes de toneladas, o triplo do que fora denido como viabilidade econmica. A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade segurou o pedido. Em setembro, quando a produo j teria que ser interrompida, a Vale decidiu comear a demitir funcionrios e dispensar empreiteiros. Foi um corre-corre em Curionpolis e um frisson em Belm. Fontes da minerao garantiam que o governo sentara na carta-consulta da Vale para obrig-la a pagar dvida de 1,8 bilho que teria com o Estado e que a empresa contesta, inclusive judicialmente. Era falando em linguagem polida uma presso. Em expresso rasteira, chantagem que o governo, evidentemente, negou. Mas ia acarretar a Curionpolis e a rea de inuncia centenas de demisses, a perda de um giro mensal de milhes de reais, sua principal fonte de emprego (presente e futura) e de receita. A Vale ameaava simplesmente paralisar Serra Leste. Ontem, a licena ambiental foi concedida pelo Estado. Mas a Vale j protocolou nova ampliao, agora para 10 milhes de toneladas, pouco menos de 10% da produo da sua principal mina atual, a Serra Norte. Ter conseguido a licena emperrada apenas com argumentos e conversas? questo ainda a apurar. A expanso em 500% da meta de produo de um projeto, mal ele comea, no normal. Representa uma mudana de estratgia da Vale, quase um lance desesperado. Indica que a mineradora vai substituir fontes de minrio menos competitivas de Minas Gerais, ainda a maior produtora nacional (mas no mais a maior exportadora), pelo produto de mais elevado teor de Carajs. Assim poder continuar a competir com os concorrentes australianos e at deslocar os produtores menos afortunados, que no contam com jazidas da magnitude da provncia mineral de Carajs no complicado mercado asitico, sobretudo na China. O que era Minas ser, cada vez mais, Par. E o que o Par sabe disso alm dos concilibulos entre quatro paredes?

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8 Paulo foi o ltimo dos sete lhos de Elias e Iraci Pinto, o sexto dos homens que se seguiram a Eliaci, primeira e nica lha. No ano seguinte fui o primeiro dos irmos a trabalhar, aos 16 anos. Abri caminho para outros trs, que tambm seguiriam a prosso do pai, um dos quais, Raimundo, a nica baixa, quatro anos atrs. Luiz e Elias continuam no batente. Pedro cuida das nanas estaduais. Elias Pinto foi jornalista em Santarm, terra natal dele, da mulher e de quatro lhos, na poca a segunda maior cidade do Par, a 700 quilmetros em linha reta de Belm. Depois de passar trs anos em jornal alheio, em 1950 fundou o seu, O Baixo-Amazonas, que durou quatro anos porque em 1954 ele se elegeu deputado estadual pelo PTB de Getlio Vargas e abandonou o jornalismo. Ingressou ento na poltica, da qual seria retirado fora, pela cassao do seu mandato e dos direitos polticos, no ano fatdico de 1968, o ano que o AI-5 no deixou terminar. Eu o sucedi num ano decisivo para a Amaznia. Em 1966 cobri o Simpsio Internacional sobre a Biota Amaznica, que reuniu em Belm amazonlogos do mundo inteiro para comemorar o centenrio do Museu Emlio Goeldi, a mais antiga instituio de pesquisa cientica da Amaznia. Entrando e saindo de palestras sobre todos os ramos da cincia que estudam o homem e o seu ambiente, percebi que muita coisa sobre a minha regio tinha que ser lida em ingls e s em ingls. A Amaznia nascera e crescera internacional, para o bem ou para o mal, antes de se tornar tardiamente brasileira, a mais incompreendida das suas partes. Depois houve a I Rida, Reunio de Investidores para o Desenvolvimento da Amaznia. Polticos, tcnicos, burocratas e investidores embarcaram no transatlntico Rosa da Fonseca numa viagem de Belm a Manaus para decidir o que fazer da maior fronteira de recursos naturais do planeta, sob as bnos do marechal Castelo Branco. Ele foi o primeiro presidente do regime instaurado dois anos e meio antes, pela derrubada do presidente constitucional do pas, Joo Goulart, que eu conheci pessoalmente, um pouco antes do golpe, ao lado do palanque do comcio de 13 de maro no Rio de Janeiro e, depois, numa audincia privativa que concedeu ao meu pai, na Granja do Torto, em Braslia. A Operao Amaznia escolheu trs diretrizes. A primeira foi especializar a regio em produtos de exportao, transfor mando-a em usina de dlares para o pas. O principal produto viria do subsolo, que comeou a ser devassado e explorado. o lder da pauta de expor tao brasileira, com mais destaque at do que a to famosa borracha da belle poque : o minrio de ferro. A segunda foi a substituio dos rios pelas estradas como a via preferencial de penetrao no interior da oresta isso, na maior bacia hidrogrca do planeta. O rodoviarismo se transfor mou na pior arma j empregada contra a Amaznia, da qual resultou a destruio de 20% das suas orestas, uma rea superior a trs vezes o territrio do Estado de So Paulo, o maior oresticdio da histria humana. A terceira foi a xao do homem no serto atravs da pecuria, o mais barato investimento de amansamento da terra (porque no calcula os danos ambientais e sociais da sua implantao) isso, numa regio com um tero das orestais tropicais do mundo. Meu comit de recepo no podia ter sido mais contundente. At ento eu me imaginava dedicado literatura (sobretudo poesia), losoa, sociologia da cultura e cincia poltica. Queria ser cosmopolita, sem razes para reter meu desejo de saber cada vez mais e conhecer o mundo, ao qual a leitura j me introduzira. Mas eu no podia ter me tornado jornalista num ano to fatal quanto 1966. Essa fatalidade tem a sua traduo teatral na pea que Paulo vai estrear hoje. Ela antes de tudo, a manifestao do alhado ao padrinho, condio na qual nossa me me investiu por que se cansara de padrinhos alheios escolhidos ao arbtrio do marido. Sua vontade se imps na sua derradeira oportunidade de exerc-la. Tenho que agradecer por sua clarividncia. Ser que Paulo faria o que agora vai fazer se no fosse meu alhado? Fica a pergunta no ar, para quem interessar possa. Mas a gratido que lhe devo por esta iniciativa no fruto de uma ao entre irmos. um gesto voltado para o mundo, uma mensagem para aqueles que se preocupam com a Amaznia e querem ajud-la a se libertar do destino manifesto de ser mais uma embora a maior colnia de explorao do mundo. Eu sou um homem comum, um jor nalista comum. No so minhas poucas qualidades pessoais que me fazem merecedor deste espetculo, que agrega nossa me ao amor em comum que nos une. simplesmente porque, mesmo no sendo o homem certo, nasci no lugar certo no ano certo. Tentei escapar misso que essa circunstncia me conferiu. Vim para So Paulo, me graduei em sociologia e comecei um mestrado em cincia poltica na USP, com meu chefe e mestre Oliveiros Ferreira. Queria combater uma distoro do fecundo marxismo que resultara no realismo socialista, no Big Brother (davant Rede Globo), na represso liberdade e na tirania chancelada pelo regime de par tido nico. Um dia, fui entrevistar um grande engenheiro (formado pela Politcnica), empresrio e idelogo da ocupao da Amaznia, Eduardo Celestino Ribeiro, na antiga sede da Federao Teatro paraense em So Paulo para tratar do drama amaznicoEscrevi o texto a seguir para a estreia, no dia 11, da pea Tempo Norte Extremo que meu irmo, Paulo Faria, criou para apresentao no teatro da sua companhia, o Pessoal do Faroeste, na qual atua ao lado de Neusa Velasco, sob direo de Edgar Castro. A pea ficar em cartaz at 18 de dezembro. Para falar sobre ela, transcrevo o texto do prprio Paulo depois do meu.

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9 das Indstrias de So Paulo. Supondome um igual, talvez por eu ser branco e de cabelos claros, revestimento que oculta minha natureza de caboclo miscingenado, me anunciou ele, o dono da Cetenco Engenharia, no que transfor maria a Amaznia, onde tinha duas fazendas de gado. Eu me horrorizei. Para que aquela Amaznia mimtica se estabelecesse, a minha Amaznia tinha que desaparecer, como est desaparecendo. Nasci na beirada de um lugar onde o rio Tapajs lana suas volumosas guas ento cristalinas no mundo aqutico de barro em suspenso do Amazonas. Aprendendo a nadar antes de tomar conhecimento do mundo, aprendi que o curso do rio o caminho da civilizao, a rua do homem, sua casa em movimento, sua cultura lquida. Com mais tempo, aprendi tambm que a gua, combinada com a oresta, sob a ao do sol e a precipitao de mais gua do alto, formou um organismo harmnico, fechado, complexo, sensvel e frgil. Como no samba, o homem devia entrar nesse universo pedindo licena natureza exuberante e a homens que com ela convivem h milhares de anos, talvez at 20 mil. Com uma nova variante da mesma tecnologia superior que fez os espanhis e os portugueses esmagar o primeiro ocupante da terra, que lhes abriu as portas invisveis e lhes deu um abrao acolhedor, os novos colonizadores (melhor seria dizer: colonialistas) chegam convictos de que h falta de gente para garantir a soberania nacional sobre essas enormes fronteiras, carente de migraes intensas; que oresta no fonte de valor capaz de virar mercadoria e gerar dlares; que melhor derrubar rvores com dezenas de metros de altura e centenas de anos de vida para formar pastos do que deixar que esses macios vegetais se tornem biombo para ameaas e conspiraes internacionais; que no h vida inteligente in situ; que esse mundo fantstico no passa de espelho para que nele o novo habitante xe a sua face, a sua vontade, o seu mundo. Amaznia cabe o destino de Cartago sem que para essa destruio seja necessrio declarar guerra ao nativo. Ele j est derrotado. Ele nasceu assim para ser assim. Da o maior trem de carga do mundo carregar minrio de ferro em seus 400 vages para 12 viagens dirias de ida e volta, por quase 900 quilmetros de extenso, desde as minas de Carajs, no Par, at o porto ocenico de So Lus do Maranho, terra de piratas, para aplacar a fome siderrgica da China, a 20 mil quilmetros dali. Da porque um projeto para quase dobrar a produo atual, que j equivale ao que os Estados Unidos produziam depois da Segunda Guerra Mundial, quando se tornaram a maior potncia do globo. Esse projeto consumir 50 bilhes de reais at que, em 2018, se implante por completo. Outro empreendimento, tambm no Par, para construir a quarta maior hidreltrica do mundo, absorver mais de 30 bilhes de reais. S a h mais dinheiro do que cinco oramentos estaduais do Par o que d uma ideia dos atores em cena, para usar expresso apropriada ao ambiente. Um sculo atrs, impressionado pelas grandezas amaznicas, Euclides da Cunha comeou a preparar uma nova criao literria que se ombrearia com Os Sertes. A morte se colocou em seu caminho antes que ele pudesse gerar essa obra. Se voltasse agora Amaznia, veria que, ao invs de se tornar a ltima pgina do Gnesis, agora por interveno humana, ela se aproxima mais de outra imagem literria, a que Dante Alighieri criou para o inferno e o purgatrio da Divina Comdia Ou o horror, o horror, de Joseph Conrad, ao retratar outra colnia, a asitica, dilacerada antes da Amaznia, por isso poupando-a para o nosso tempo. Podamos escrever um captulo novo na histria do velho colonialismo, aproveitando as inovaes tecnolgicas do nosso tempo, com nfase nos artefatos que possibilitam a informao instantnea, facilitando a resposta ao maior de todos os desaos humanos: sendo contemporneos da nossa histria, sermos delas os autores, no apenas atores coadjuvantes, cenrio, gurao. Como pretendeu nesta pea meu ir mo e alhado Paulo Faria: convid-los a escrever uma histria melhor para a Amaznia. Ela merece. Muito obrigado. APRESENTAO DO AUTOR Norte Extremo uma pea documentrio que narra episdios da guerra que o jornalista Lcio Flvio Pinto, paraense, trava na maior fronteira de recursos do planeta, em busca de um produto que nela raro: a verdade. Na Amaznia, o jornalista, com mais de 50 anos de prosso, mantm h 30 o Jornal Pessoal, um tablide com tiragem quinzenal de 2.000 exemplares, e que no aceita anncios e vive exclusivamente da venda avulsa nas bancas de revistas. A pea inspirada em dois livros do Lcio, o Jornalismo na Linha de Tiro primeiro ato, e o pequeno livro, A eternidade no riso e na msica da menina do lago grande segundo ato, que narra uma srie de experincia que enfrentou ao descobrir o mal de Alzheimer, que avanou sobre a sua me por seis anos, at lev-la a morte. O autor da pea TempoNorteExtremo, e tambm ator neste espetculo, ir mo mais novo do jornalista Lcio Flvio Pinto. Lcio trabalhou no nal dos anos de 1960 e inicio dos 1970 no jornal Estado de So Paulo, e depois ao retornar pra Amaznia, foi corresponde por 20 anos. At romper em 1988 com toda a grande mdia para fazer o Jornal Pessoal. A pea dividida em 2 pequenos atos, se passa numa sala de ensaio onde o dramaturgo tenta desenvolver o roteiro para um workshop, dialogando com recursos multimdia e performance. Na primeira parte, o dramaturgo-ator est diante da diculdade em encontrar uma forma, um recorte para colocar em cena a polmica e multifacetada vida do jornalista, passando em revista a vida pblica do jornalista, a sua saga e os 33 processos que ele sofre hoje por publicar os artigos que tratam da Amaznia, e em sua defesa. A segunda parte, Paulo divide a cena com a atriz Neuza Velasco, para tratar do Alzheimer.

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10 tica e Jornalismo: a quem interessa a verdade? O jornalista paraense e editor do Jornal Pessoal vtima permanente de perseguies e injustias em represlia sua determinao de buscar a verdade no cumprimento dos preceitos univer sais do jornalismo. Lcio Flvio Pinto um cone da profisso no Par, no Brasil, e no mundo, tendo recebido diversos prmios, entre eles o Esso, em 1973, o mais prestigiado da imprensa nacional. Em 1988 a Federao Nacional dos Jornalistas deu dois prmios Fenaj (lanados naquele ano) ao JP, pela matria inaugural, sobre o assassinato do ex-deputado federal do Par, Paulo Fonteles, e sobre a sangrenta manifestao de protesto dos garimpeiros em Serra Pelada, alm de consider-lo o melhor jornal do Norte e Nordeste do pas. Em 1997, ganhou o prmioColombe dOro per la Pace, dado anualmente pela organizao no governamental italiana Archivio Disarmo a personalidades e rgos de imprensa que tenham uma contribuio signicativa na promoo da paz. Venceu na categoria jornal. Em 2007, foi um dos escolhidos para receber, em Nova York, o Prmio Internacional da Liberdade de Imprensa, concedido pela organizao Comit para a Proteo de Jornalistas (CPJ Committee to Protect Journalists), recentemente recebeu o Prmio Vladimir Herzog. O CPJ uma organizao dedicada defesa da liberdade de imprensa.Belo Monte j tem o seu grande canalO canal de acesso ao porto de Vila do Conde, a 50 quilmetros de Belm, um dos mais importantes do Brasil, tem at 14 metros de profundidade. Permite a passagem de navios de 60 mil toneladas, que transportam minrios, gros e carga geral para vrios lugares do mundo. O canal da hidreltrica de Belo Monte tem quase o dobro, 25 metros de profundidade. mais do que a altura de um prdio de oito andares. Sua construo foi concluda na semana passada. Por ele, nenhuma embarcao navegar. Existe para retirar gua do curso natural do rio Xingu e desvi-la por um novo caminho com destino usina. Tem 20 quilmetros de extenso e 300 metros mdios de largura na superfcie. A rea que ocupa equivale ao dobro do tamanho da cidade de Belm, com seus quase 1,5 milho de habitantes. Esse canal pode escoar 14 milhes de litros de gua por segundo. o necessrio para colocar em funcionamento 18 tur binas da casa de fora principal de Belo Monte, que constituiro a quarta maior hidreltrica do mundo, com capacidade de gerar 11,2 mil megawatts de energia. Segundo a responsvel pela obra, a Nor te Energia, o suciente para atender o consumo de 60 milhes de pessoas. Essa obra indita na histria da engenharia de barragens. Exigiu a escavao de 110 milhes de metros cbicos de terra e rocha. o dobro do volume movimentado na hidreltrica de Itaipu, na divisa do Brasil com o Paraguai, a maior do mundo. praticamente a metade do que foi retirado para formar outra obra monumental, o canal do Panam. Com um detalhe lembrado pela Norte Energia: tem a vantagem de o trabalho na regio do Xingu ter sido feito em tempo recorde: apenas 4 anos. A concessionria informou ainda que o canal est em fase nal de revestimento em rocha dos taludes e piso, com previso de nalizao ainda neste ms. Sobre o canal foi construda ainda a ponte do Travesso 27, nalizada no ms passado. A Norte Energia ressalta que obra uma soluo da engenharia brasileira que permitiu a reduo em 61% da rea de reservatrio de Belo Monte em relao ao projeto original do empreendimento, produzindo, portanto, impacto social e ambiental muito menor para a regio do Mdio Xingu. Esse canal, chamado de derivao, liga o reservatrio principal, de 359 quilmetros quadrados, formado no prprio leito do rio Xingu, prximo a Altamira, ao reservatrio intermedirio, de 119 quilmetros quadrados, construdo com 28 diques, onde ser estocada a gua que vai movimentar as gigantescas turbinas da casa de fora principal da hidreltrica. A concessionria mantm a previso de colocar em operao a primeira das seis turbinas (de muito menor potncia) da casa de fora complementar, distante 50 quilmetros da casa de fora principal, depois que o Ibama conceder a Licena de Operao. Nesse caso, em maro de 2016, ser ativada a primeira turbina da casa de fora principal. Em janeiro de 2019, est programada a operao plena da hidreltrica, com 24 turbinas, sendo 18 do tipo Francis e 6 do tipo bulbo (que garantem menor impacto ambiental). A soma destas equivale a 30% de uma nica das 18 turbinas convencionais Infelizmente, a opinio pblica no se interessou por essa informao. Ignorou o signicado desse ato indito da engenharia, que lanou mo de uma iniciativa inovadora com o propsito de dividir o reservatrio em dois para reduzir o impacto da construo de um nico, mais agressivo ao meio ambiente. Para tangenciar a reao nacional e internacional submerso de grandes reas na Amaznia para a operao de enormes hidreltricas, o desenho de Belo Monte se tornou nico. A casa de fora principal est distante 50 quilmetros do vertedouro principal, por onde passar o maior volume de gua nas cheias do Xingu. Essa barragem de concreto recebeu apenas seis turbinas de baixa potncia, do tipo bulbo, que atingem sua plena capacidade com desnvel pequeno de gua. A soma dessas turbinas corresponde a um tero da potncia de uma nica das 18 barragens rio abaixo. Como no auge do vero a descarga do rio no ser o bastante para o pleno funcionamento de uma nica das grandes turbinas, o canal articial funcionar como complemento para a armazenagem suplementar fora da calha do rio. Para isso, porm, exigiu uma obra descomunal e nica. Funcionar como se espera? Qual seu grau de risco em funo do ineditismo? Certamente os engenheiros se acham detentores das respostas. Mas elas ainda no chegaram opinio pblica ou no convenceram a parte mais bem informada e exigente. De qualquer forma, o monstro de concreto e ao j existe. A sorte do Xingu est lanada.

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11 A tragdia dos bois, os naufrgios humanosBenedito Carvalho FilhoAo ler a matria da pgina 9 a 11 do Jornal Pessoal, onde Lcio Flvio Pinto narra o naufrgio e a morte por afogamento de 4.800 bois, parece que estava lendo uma cena surreal, que mais parecia uma co do que realidade. Li e reli a matria e, confesso, quei chocado com o que li nesse triste espetculo, bizarro e ultrajante modo de exportar bois vivos pelo porto de Barcarena, o mesmo pela qual so escoadas commodities como caulim, alumina, alumnio, mangans e soja, que fazem do Par o stimo maior exportador em geral e o terceiro que mais produz divisas para o pas. Ou seja, como j se vem dizendo, o Par e toda Amaznia o almoxarifado do pas. Mas, o que ganha com isso? Pelo que pude ler nessa incrvel reportagem, nada. Como constata o jornalista na matria na pgina 16 chamada A Amaznia no mundo pela forma errada(eu diria, trgica!), pois os uxos de capitais e mer cadorias, responsveis pelo saldo intensamente negativo para ns, da Amaznia, quando se inventou, naquela estria do integrar para no entregar e que acabou fazendo com que a maior reserva de recursos naturais do planeta fosse entregue para o capital, estrangeiro, de preferncia. No faz muito tempo que correu uma informao, logo desmentida numa matria publicada pelo prprio Lcio Flvio, que os estrangeiros esto contrabandeando a gua do rio Amazonas. Por aqui pela cidade de Manaus essa informao ainda corre de boca em boca. Mas se dissssemos para essas pessoas que no a gua o que esto levando daqui, mas o gado criado nos rinces amaznicos? A cena chocante de enormes navios com at 20 mil cabeas de gado para viagem de alguns dias at a Venezuela e quase um ms at o Lbano algo estarrecedor, mas que virou rotina e ningum se indigna, nem mesmo os que se dizem protetores dos animais. Impressionante, o navio Haidar virou e das cinco mil cabeas, menos 200 conseguiram se livrar do afogamento, presas nos compartimentos da embarcao ao tentar chegar praia. Imagine, leitor, a agonia desses animais se debatendo! Uma cena inimaginvel, dantesca, grotesca! Mas, a populao da capital, de Belm do Par, acha tudo natural e encara o acidente com produto de um acidente e se cala. Diz o jornalista: Quem acompanhou o acontecimento viu moradores locais investirem com ansiedade e volpia sobre os bois que chegavam mortos praia e retalha-las ali mesmo, car regando o que puderam, para consumi-lo, apesar da evidente temeridade dessa inicia tiva para a sade de quem consumir a car ne deteriorada e abatida sem cuidados com a higiene e a sanidade do animam. O relato dessa cena macabra me fez recordar certas cenas de co que hoje vemos nos lmes produzidos pela indstria cultural. Os bois afogados, inchados, quase podres, sendo retalhados por uma hor da humana que se volta para as suas necessidades mais primria, principalmente para quem no acesso a esse produto, que, certamente so muitos. Como ressalta o jornalista: a sofreguido foi a manifestao externa de uma carncia soterrada por quantitativos de grandeza que abstra em o ser humano e, em regra, o espoliam. No isso que o capitalismo que alguns chamam de selvagem faz com o ser humano, tornando-o uma abstrao, um ser sem valor, ou, quando muito, uma mercadoria? O que ele representa nessa perversa colonizao amaznica? Eles veem os navios com levando as nossas riquezas passarem, remando as suas sumrias canoas atrs dos navios que passam para recolherem bolachas, pes e outros alimentos jogados gua, num gesto de caridade diante da pobreza da regio. O signicado desse acontecimento no tem que ser analisado s sobre o ponto de vista tcnico. A transferncia de rebanhos para o outro lado do mundo, assim como a exportao de minrios, soja e outros produtos esto intimamente ligados a esse modelo exportador, onde a Amaznia vista como um almoxarifado para o mundo. O transporte de gado nos faz lembrar os anos 70-71, durante a fase mais negra da ditadura, onde como observa Lcio na matria da pgina onze, o lema era terra sem homens para homens sem terra. O boi j aparecia de uma forma, tambm, surreal na Amaznia, no transportado em navios, mas em Boeings pelos polticos grados. Eram os poucos bois voadores, gado holands para civilizar os trpicos, o mesmo gado que, paradoxalmente, so transportados para o exterior. Anal, gado no usa passaporte! Mas, enquanto o gado morre afogado perto de Belm, a cidade se afoga na violncia, narrada com frequncia pelo JP, pois estamos, sim, mergulhados no submundo da criminalidade, onde a droga se alastra, no s em Belm, mas no mundo. O caso do Bar Bistr narrado na matria de capa (Outro Sonho acabou) mos tra como a delinquncia, tanto dos cidados disseminado na sociedade. Aqui em Manaus observo a mesma realidade, mas a represso recai sobre os mais vulnerveis que moram nas periferias das cidades, onde a polcia, com suas milcias corruptas prendem pessoas annimas e vulnerveis. Quem fatura com isso so certos polticos e a mdia que faturam com a desgraa alheia, com os esteretipos que criam. Alguns, como pudemos perceber nos comentrios que o jornalista publicou na pagina trs, elogiam a violncia e desejam que os tracantes apodream na cadeia. Tempos difceis esses em que vivemos, onde, como arma Lcio Flvio, o cidado renuncia fora da razo na iluso que ela devolver a segurana, quando os nmeros mostram que esse o caminho que no leva a bom porto. Da a violncia se expandir constantemente. Aqui em Manaus uma leva de pessoas morta diariamente. As estatsticas sobem nos nais de semana. Alguns mor rerem afogados na buclica e perigosa praia da Ponta Negra, como os bois no naufrgio do Par. Outros so assassinados pelo trco que, tambm, assume dimenses assustadoras. Os fatos so chocantes, obscenos, trgicos, mas o que mais me assombra o silncio e a ausncia de indignao. A droga parece amortecer a tragdia e anestesia muitos que esto envolvidos nesse mundo distpico em que estamos metido. Talvez seja uma forma de sobrevivncia nesses tempos sombrios de vertigens e afogamentos, no s de gados, mas de gente. Anal, o ser humano precisa de po e circo, de delrios mesmo que seja nos bares bistrs da vida.

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12 memriado C otidianoCASTANHAEm 1947, a Usina Brasil publicava anncio na imprensa para convidar os operrios e operrias que tm trabalhado nesta usina e outras mais que se queiram identicar, a se apresentarem para a prxima quebragem de castanha. Era o regime de trabalho do extrativismo, que dominava a economia regional.ENEIDA?Em 1954 a Folha do Norte publicou a poesia Revolta, assinada por Adiene, Eneida (de Moraes) lida de trs para frente. Seria a famosa escritora paraense, que foi morar no Rio de Janeiro e se tornou gura da literatura e da vida cultural do pas? Se for, ela estava com 50 anos e h 24 morava na ento capital federal. Esta este o poema: Oh! Meu bom Deus, que crime cometi,/Para ser cruelmente castigada?/ Basta! te peo, muito j sofri,/ Tem pena desta pobre desgraada. Meu rosrio de angstias to grande,/ Imensa a minha desesperao/ Que dentro em mim eu sinto que se expande/ Fora indomvel de rebelio. Onde a Justia oh! Deus das criaturas/ Quanta gente to cheia de venturas/ E eu de tanto sofrer me sinto exangue. No vs que me debato sem amparo,/ Torturada, pagando muito caro/ Este anseio de amor que h no meu sangue.BARATAExpulsa da casa que ocupava com Magalhes Barata at a sua morte, em 1959, porque no era legalmente casada com o governador e sua famlia de direito queria prestar as ltimas homenagens ao morto, sem a presena da sua concubina, Dalila Ohana se vingou de certa forma da afronta. Passou a escrever crnicas apimentadas no jornal que fora o maior inimigo do caudilho, a Folha do Norte a partir da comovente acolhida que Paulo Maranho lhe deu, com um artigo no qual a homenageava. Em um dos textos de 1960, Dalila lembrou os almoos que o governador realizava para os amigos mais prximos (s segundas, quartas e sextas-feiras), na casa que alugou na Doutor Moraes, por no querer expor sua companheira aos efeitos de morar na residncia ocial, na Independncia (que leva agora o nome do chefe do baratismo). Barata no bebia, exceto quando, nos ns de semana, no stio do Tapan, se permitia uma dose de usque. Mas seus correligionrios gostavam da bebida escocesa, cujo uso era to corriqueiro, hoje banalizado, aqui em Belm, pela abundncia e preo acessvel, observa Dalila, sem atribuir a causa dessas condies, o contrabando, certamente para no deixar uma ponta de veneno para os baratistas. Ela prpria aprecia dora do usque, acobertava os drinques servidos aos convivas enquanto o antrio no chegava. Barata s abandonava os despachos em palcio s proximidades da tradicional sesta paraense, entre uma e duas da tarde, para desespero dos famintos amigos. Certa vez em que Dalila estava para o Rio de Janeiro, sete deles, atormentados pelo calor e a fome, cometeram a ousadia de tirar o casaco do palet, cando em mangas de camisa. Quando Barata chegou, foi uma cor rida tal aos cabides que ele, narrando o episdio a Dalila, depois, deniu-o como trgico.PROSTITUIOEm 1963 a polcia decidiu legalizar as penses alegres de Belm, tanto as localizadas na zona do meretrcio como em vrios lugares da cidade. Cada proprietria de penso que atendeu convocao levou consigo as mundanas da sua casa para o devido chamento e o recebimento de uma carteira de matrcula. Sem o documento, no podiam mais frequentar as penses. Em caso de mudanPROPAGANDAA farmcia que se foiEm 1959 a Farmcia e Drogaria Csar Santos comemorou o seu jubileu de diamante, ao completar 75 anos de funcionamento. Era uma bela construo, inaugurada em 1884. Virou cinzas com um incndio que a destruiu, deixando apenas a fachada, Uma longa histria que se foi, como a regra na cidade.

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13 a de lugar de trabalho, precisavam fazer a comunicao polcia. Com esse cadastramento, foram registradas 30 penses alegres e 571 prostitutas das mais variadas idades. A grande maioria era de jovens que abandonaram suas famlias, seduzidas pelas vantagens do meretrcio, ou infelizes no casamento. Algumas integravam o trco branco: trazidas de outros Estados, passavam dois meses em Belm, retornando depois aos locais de origem.QUEIMADASQueimadas no constituem fenmeno novo na Amaznia. Era o que atestava em 1963 o prtico regional da empresa inglesa Booth, Antonio Fonseca, tambm presidente da Federao dos Martimos e do Sindicato dos Ociais de Nutica do Par. Ele dizia que todos os anos havia queimadas em reas prximas aos rios, mas que nesse ano a ocorrncia tomou um vulto fora do comum, representando um srio entrave navegao. Informava que estires inteiros de rios, inclusive em trechos reconhecidamente perigosos, passam semanas e semanas ocupados pela fumaceira. Por isso, se tor nara comum ver os navios deslizarem quase que como sombras, a fazer ecoar no surdo da selva os seus apitos de advertncia. Isso, de dia. noite, nada se pode divisar alm de uns poucos metros, tor nando praticamente impossvel o navegar, sob pena de incorrer nos maiores riscos.COMRCIOEm 1964 o Clube de Diretores Lojistas tinha expressiva signicao no comr cio. Por isso, a diretoria eleita para o binio seguinte representava o setor. O presidente era Domenico Falesi, da Odalisca Modas e Perfumaria. O vice-presidente, Car los Acatauassu, de F. Aguiar & Cia. Diretor de relaes pblicas, Jos de Luca, da Sapataria Batista Campos. O 1 secretrio, Joaquim Vieira, das Lojas Capri. O 2 secretrio, Benedito Cardoso do Vale, de A Radiolar. O 1 tesoureiro, Junichiro Yamada, de Y. Yamada & Cia. O 2 tesoureiro, Osrio Batista Soares, da Casa Marc Jacob. Diretor social, Jorge Colares, da Casa Colares, E o diretor de promoes, Manuel Dias, de Tecidos Lua.HINOA comemorao pelos 350 anos de Belm, em 1965, provavelmente tero sido mais dignas da data do que a programada para os 400 anos, se as providncias continuarem no ritmo atual. H meio sculo o compositor Waldemar Henrique comps um hino em parceria com o engenheiro e historiador Augusto Meira Filho. Se no surgir outro, vale a pena repetir o de 1965, que tem qualidade assegurada. Diz a letra, que uma reconstituio e interpretao da histria da cidade, pela tica de Meira Filho, detentor do titulo de seu namorado: Quando a nau venturosa dos lusos/Penetrou no gigante dos mares/ Expulsando hereges e intrusos/ Com a cruz sobraando os altares/ De Caldeia, a cidade se er gueu/ Um prespio de amor e de luz/ E Belm Flor das guas nasceu/ Relembrando o Natal de Jesus! De Teixeira, a Amaznia integrando/ De Furtado, a esperana e o fulgor/ Liber dade e bravura sangrando/ Com os cabanos morrendo de dor/ Seus caminhos so puros e santos/ Sua Histria um desejo de paz/ Suas manhs um poema de encantos/ Que a natureza constante refaz. Quantos anos de sonhos e glrias/ Combatendo o inimigo invasor/ Reforando eternas memrias/ Das Misses e o Gentio sofredor/ Seu futuro, em Vieira, reluz/ Resplendente no sol do Equador/ Desta Ptria enlaando na Cruz/ Toda a histria do povo senhor!FOTOGRAFIAPaulo MaranhoEm 1968 o pintor Dionorte Drummond Nogueira inaugurou sua galeria de arte exibindo um retrato do jornalista Paulo Maranho, o temido dono da Folha do Norte, pintado por Armando Baloni. A tela pertenceu ao neto, Ivan Maranho, que a passou ao seu irmo, Haroldo Maranho, que o doou ao Conselho Estadual de Cultura. Por onde andar a pintura, que expressiva, el ao original ao captar a fria contida do mais importante jornalista do Par.

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14 Jornalismo Certo dia uma jovem jornalista, que trabalha na assessoria de imprensa de um importante rgo do governo estadual, me perguntou que livro ou autor ela poderia ler para se atualizar. Respondi de bate pronto: voc quer dar um novo rumo sua carreira? Ento leia qualquer texto do jornalista Lcio Flavio Pinto. Meses depois, ela estava feliz, mas com muito embarao no seu trabalho: o que ela leu no sintonizava com o que ela escrevia para o rgo estadual de governo. Pedi a ela que no deixasse seu emprego, mas que no perdesse o foco e a esperana para uma sociedade justa e com liberdade de imprensa. Voc no est s nessa luta. Clio Costa MINHA RESPOSTA s vezes bate um desnimo por manter um jornalismo como este. Mas quando chega manifestao como esta, se superpe uma voz mais alta e continuamos. Obrigado. Crise Ato positivo. Assim esse editor chamou no box da pg. 05, do Jornal Pessoal n 593, na matria intitulada O gesto de grandeza de Dilma Rousse na sugesto de a presidente pactuar um acordo poltico para a convocao de eleio geral, decorrente de sua renncia ao cargo que assumiu democraticamente em janeiro deste ano. Uma ao dessa igualha s pode ser considerada como insultuosa aos seus eleitores, e tambm vai favorecer determinados grupos amorais ainda inconformados com o resultado das urnas. No existe soluo jurdica paralela para a realizao de ato desse tipo, todas as hipteses esto previstas na Constituio Federal. Arguir soluo fora da Lei Maior prevaricar. Concorda-se com a incredulidade na elite poltica, mas num governo democrtico de soberania popular, como se diz, no se pode tomar medida deste porte, sob pena de perverter a ordem constitucional e criar um ambiente propcio para os predadores contumazes animarem um caos poltico permanente, com srios reexos na economia, cujo objetivo principal afastar o chefe de governo do seu posto. Seja qual for a situao, h que se trabalhar com as classes poltica, empresarial, intelectual e demais componentes da sociedade para resolver o impasse poltico que vem subvertendo o cenrio econmico. Outras iniciativas fora das regras constitucionais tm de ser consideradas como golpe ao regime vigente. O STF, atravs do ministro Teori Zavascki, abortou um golpe legislativo que vinha sendo costurado s escncaras pelo presidente da Cmara Federal, Eduardo Cunha, oposio e simpatizantes, especialmente a mdia hegemnica, encarregada de divulgar os maus fatos com estardalhao e escamotear notcias positivas em proveito de todos. Existe um rito processual e regras legais especcas para enquadrar o crime de responsabilidade e crimes comuns por quem ocupa o principal cargo do poder executivo. Os renomados juristas que elaboraram as peas acusatrias sobre as apontadas transgresses sabem disso, porm como esto sendo cooptados pela volpia insana dos inconformados, bem possvel que suas brilhantes peas sejam refutadas na Cmara e no Senado por falta de enquadramento ou substncia factual. No s os fanticos, interessados ou comprometidos e aderentes, tambm uma imensa parcela da populao brasileira est observando, alis, vivenciando uma campanha srdida de extremismo poltico que pode levar a uma sublevao institucional. Ajuntese a este quadro, um esforo inacreditvel dos principais jornais e revistas atuando como legtimos partidos de oposio e o fanatismo exacerbado na internet, cujo objetivo fim criminalizar o Partido dos Trabalhadores e o governo. S ladro e corrupto neste pas quem do governo e do PT, as outras agremiaes partidrias e seus filiados so uns santarres. Isto mesmo, santos de pau oco! Infelizmente muitos desavisados mas que deveriam olhar para trs participam e esto incorporados nessa encenao. Em resumo, o impedimento s pode ser feito (segundo especialistas), com base legal e factual, isto devidamente fundamentado, nas leis e nos fatos. No TSE, as contas da campanha eleitoral foram aprovadas, no entanto, inventaram uma reviso extra. No caso das pedaladas (TCU), que na verdade so os acertos contbeis ou mero articio contbil, para viabilizar o famoso supervit primrio (uma inveno do rentssimo/ concentradores nanceiros), o histrico dos governos anteriores indica que uma operao rotineira. Imagina-se a repercusso nas hostes oposicionistas da manchete da Folha, jornal dos Frias, edio de 25.07.15: Pedaladas scais, vm desde a era FHC. O senhor Antnio Delm Neto, no mesmo jornal j havia declarado com todas as letras Pedaladas ocorrem desde antes FHC. Fica claro de uma vez, que o principal empecilho para as atualizao e emprego dos ajustes econmicos a oposio, porque no se conformando com a derrota nas urnas vem apelando de forma inconsequente e leviana contra um governo legitimamente eleito com 54,5 milhes de sufrgios. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA O caro leitor Rodolfo Cerveira no considerou o pressuposto da minha suges to: ela s podia ser adotada se a presidente da repblica tomasse a iniciativa. Sugeri que ela, espontaneamente, por deliberao prpria, convocasse todas as lideranas polticas e propusesse a renncia dela, do vice-presidente e dos presidentes da Cmara Federal (o segundo na linha sucessria) e do Senado (apenas aos cargos, no aos mandatos, para que outro parlamentar se apresentasse, aceito por todos), com o compromisso de promo ver emenda constitucional para convocar eleies gerais, de alto a baixo, de presidente da repblica a vereador, para dar ao povo a oportunidade de refazer toda a estrutura poltica do pas, fulminada por uma profunda crise de credibilidade. claro que se Dilma Rousse no concor dasse, nada podia ir avante. No se trata, portanto, de nenhum golpe constitucional ou medida de exceo para favorecer quem quer depor a presidente. Essa proposta certamente no seria aceita pela classe poltica, mais empenhada em salvar o prprio pescoo do que em defender o interesse pblico. uma utopia. Mas uma utopia que possibilitaria a retomada do processo poltico com a renovao integral da representao popular. Se o eleitor repetisse os erros, problema de todos, da nao. Seria um gesto de altrusmo, no meu entender, para poupar o Brasil da sangria desatada que est sofrendo por causa do impasse poltico atual. Impasse que est tornando cada vez mais cara e aviltante uma soluo para o problema. Mas s se Dilma Rousse partilhasse esse entendimento, o que est muito longe dos seus planos, ainda que para isso costure acordos imorais. A proposta foi apresentada para ser debatida num patamar capaz de absorver as divergncias, no para ser fonte de mais intolerncia e dogmatismo, renovando as teorias conspirativas de sempre. cart@s cart@s

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15 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone (091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao: Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal MEU SEBOOs livros dedicados a Jos Lins do RegoEm 1940, no Rio de Janeiro, o poeta Manuel Bandeira assinou o seguinte autgrafo na primeira edio do seu livro Noes de histria das lite raturas publicado nesse mesmo ano pela Companhia Editora Nacional: Ao querido Jos Lins do Rego, com o melhor afeto do Manuel Bandeira. Em setembro de 1953, tambm no Rio, foi esta a dedicatria de Raimundo Magalhes Jnior em Arthur Azevedo e sua poca publicado pela Coleo Saraiva no ano anterior: Ao meu caro Jos Lins do Rego, com um grande abrao do Magalhes Jnior. Como que os dois livros autografados a um dos maiores romancistas brasileiros por um dos maiores poetas brasileiros e um jornalista que foi tambm prolfico escritor chegaram a Belm, onde os comprei? Talvez j seja impossvel reconstituir o caminho, mas o enigma me faz propor ao leitor uma questo na qual sempre penso quando frequento sebos fora de Belm: como importante trazer para c livros que circularam por outras cidades brasileiras, permitindo que no futuro (no meu caso espero quando eu morrer) leitores locais tenham acesso a publicaes raramente encontradas por aqui. Especialmente aquelas que so localizadas depois de exaustiva garimpagem pelas montanhas de papeis acumuladas nos principais sebos da antiga capital federal e da capital econmica, Rio e So Paulo. No deixa de ser um ato de desconcentrao cultural quando os livros comprados e trazidos so bem selecionados por seu valor intrnseco ou porque no integram o circuito cultural da cidade. Infelizmente, o poder pblico no atento a essa circunstncia, estimulando as pessoas que tm esse hbito a ceder suas preciosidades para bibliotecas pblicas. Velhos frequentadores se sebos se acostumaram a encontrar livros de valor que foram descartados sem critrio por bibliotecas oficiais ou delas extraviados. Hoje um fenmeno mais frequente do que antes, no s porque o governo passou a comprar milhes de livros como porque essas aquisies costumam no ter critrios. Qual a razo, por exemplo, de destinar livros de literatura de vanguarda para bibliotecas de escolas de ensino fundamental e mdio? No caso, o que se buscou foi divulgar o autor ou favorecer a editora? Numerosas vezes, sem uma razo convincente para a primeira hiptese, inevitvel cogitar mais da alternativa a ela. E cultura passa a ser negcio rentvel. Quanto aos livros autografados, a aparncia de que Jos Lins do Rego no leu nenhum dos dois. Ou no deixou qualquer rastro anotao, sinal, trao da sua consulta. Talvez tenha repassado a algum, os vendido a um sebo ou este foi o destino dado por sua mulher ou herdeiro. O feliz butim serve de mais um elemento para pensar na histria do livro atravs das anotaes nele contidas. A SEDESUma descoberta improvvel me fez comprar o anurio 1967/68 da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras Sedes Sapientiae da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo. que ficava na rua Marqus de Paranagu, no centro antigo da capital paulista. O livro pertenceu a Iraides Messias de Lima. Foi o 25 anurio, cuja publicao comeou em 1943. Era uma sofisticada escola feminina, que ocupava uma enorme rea murada, com um bosque maravilhoso, que frequentei bastante quando cheguei a So Paulo, em 1969. Era um lugar acolhedor, apesar da sua posio conservadora, com alguma tolerncia para pensamentos divergentes, que se acentuou com a represso ao pensamento. Hoje o local um terreno quase arrasado, espera do fim de um litgio para definir seu uso. Nunca mais semelhante ao que foi a Sedes Sapientiae.

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Um riso pelo morto A morte do jornalista Moacir Japiassu, no dia 4, daquelas per das profundas, mas que no deixa um gosto travoso na memria. Porque, ao saber que ele tinha sucumbido a um AVC, aos 73 anos, em So Paulo, a reao de gratido e alegria. Quantas vezes Japiassu no nos fez gargalhar? Seu domnio da lngua portuguesa, bom humor, perspiccia e esprito anarquista o armavam de lupa e espada para vasculhar os erros mais crassos e inacreditveis na imprensa brasileira. Ele tinha que selecionar a quantidade de causos que acumulava para a sua coluna (o Jornal da Imprena), quando um cidado normal (o considerado, no seu jargo inconfundvel) passaria batido pelas barbaridades cometidas diariamente por jornalistas que no respeitam o leitor nem a si prprios. Esse mau prossional pagaria caro por essa displicncia nas mos de Jupiassu e seu alter ego, Janistraquis. Formou uma confraria em torno da sua imaginao do tamanho e da importncia daquela que, antes dele, Stanislaw Ponte Preta, seu equivalente, criou. Mas se o personagem eviscerado encontrasse o seu crtico, pouco provvel que se aborrecesse. A aparncia sardnica de Jupiassu e seu invencvel bom humor no permitiriam. Paraibano de nascimento, era um sertanejo at a alma, apesar da aparncia de Papai Noel, careca e de barbas brancas, a imagem que cou. Era um gozador e um livre atirador, apesar de uma longa carreira de meio sculo passando por veculos como TV Globo, Isto, Veja, Correio de Minas, ltima Hora, Jornal do Brasil, Pais & Filhos, Jornal da Tarde e Placar. Certa vez, em So Paulo, meu irmo, Raimundo, cruzou com ele por alguma redao. Ao saber quem era, Japi lhe deu um forte abrao e o mandou repeti-lo comigo, seu velho admirador e eventual colega. Alm de tudo, Japiassu era de uma generosidade maior ainda do que o seu enorme talento.A poesia no se escreve do dia para a noite,/mas somente da noite para o dia, A poesia que Fernando Maroja Silveira escreve tem o orvalho desse roteiro. Poesia para se ler insone, mas sem angstia. Para acompanhar como notas musicais de uma sonata, talvez. Tambm como eco de suas viagens por paragens longnquas e diferentes da sua solar Belm do Par. E de seus sofrimentos suados na leitura de poetas e lsofos, na ruminao de sonhos, na lavra na pedra lxica e no lavar das mos em gua cristalina. Mas tambm no apagar do charuto no cinzeiro, objeto constante neste livro, lugar certo para a cinza das horas, a cinza da origem, a cinza que substitui o barro na despedida, na nuvem que se dissipa no cu de turmalinas. Fernando um poeta maneira provenal. Seu canto discursivo e linear como as guas de um rio, que seguem seu caminho, nem sempre para o mar, mas sem nunca voltar. Um curso de seguidos meandros, curtos, sbitos. Quando parece que a lira vai se espichar, como nos longos poemas que vo se desmilinguindo pelo excesso de palavras, ele ar remata com uma frase de surpresa, um impacto de fazer reetir ou, quando nada, se tornar fonte de prazer, o prazer da sonoridade bem ritmada, cerzida sem rimas, mas no langor de um verdadeiro poeta, que segue por sua avenida Nevski universal sem que sua ironia apague a brasa do seu charuto imaginrio pelas ruas de Havana ou de St. Petersburgo, sem nunca deixar de sentir o perfume das mangueiras de Nossa Senhora de Belm do Gro Par. Ns, com ele, embalados por seus belos versos, seguimos pelo horizonte sem fronteiras da imaginao.Versos em cinza de um novo poetaO Par tem um novo e bom poeta, Fernando Maroja Silveira. Ele estreou com um livro completamente maduro, de poetaz: Cinzas, publicado pela PakaTatu. A pedido dele, escrevi o prefcio, que reproduzo, esperando que estimule o leitor a um encontro com a poesia de Fernando.