Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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O ROUBO DA PESCA O ACIDENTE DO BOIADEIROPAR, COLNIA o aDurante trs dcadas o Par padeceu as dores do agelo pr e contra o caudilho Magalhes Barata. A poltica no Estado era e continua a ser plebiscitria. Barata pulou para o topo do poder com a revoluo de 1930 porque era o lder dos tenentes no Par. Comeou fazendo as mudanas que a poltica conservadora dos car comidos impedia. Mas exerceu com tal autoritarismo e arbitrariedade o governo que Getlio Vargas, seu avalista no poder central, precisou desatrac-lo por duas vezes para que o paroxismo no paralisasse de vez o Estado. Os dios cresciam dos dois lados. Se o ditador paroquial tinha o aparato estatal nas mos para atacar seus inimigos, estes contavam com a pena terrvel do jornalista Paulo Maranho e o seu baluarte, a Folha do Norte A apoplexia na contenda de vida e morte passou por cima de todas as cautelas da lei, da tica, do pudor e de tudo mais. O Par estacionou politicamente. Por ironia, este o panorama dos nossos dias, ainda derivado do esquema de poder montado pelos baratistas. De um lado, o senador Jader Barbalho, lho de um baratista POLTICAO caudilhismo aindaO Par revive o clima passional da disputa de poder em torno de Magalhes Barata, que durou trs dcadas. Barbalhos e Maioranas transformaram o Estado em cenrio da sua guerra sem quartis,

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2 legtimo, Larcio Barbalho. De outro lado, a famlia Maiorana, que ainda gravita em torno de Da, sobrinha de Barata e viva de Romulo Maiorana, cuja base de negcios tem origem no baratismo, com sua principal mola econmica: o contrabando. Com a redemocratizao, em 1945, Barata ganhou dos amigos um jornal para enfrentar a Folha O Liberal res pondia ou atacava o adversrio no mesmo tom, ignorando qualquer regra de conduta ou norma redacional. Os fatos e a verdade interessavam pouco. O que importava era a qualidade da verso forjada e a forma eciente de relat-la. Ganhava quem ofendia melhor. Mas O Liberal s ganhou maior expresso quando Romulo Maiorana o comprou, em 1966, e recebeu suporte para expandir-se, conquistando um canal de televiso em 1973, j aliado poderosa Rede Globo. A trajetria do seu imprio foi ascendente at a sua morte, em 1986. Mas nas eleies de 1982, a primeira para o governo do Estado pelo voto direto do povo desde de 1965, ele no pde assumir publicamente a sua opo reservada: apoiar a candidatura do baratista Jader Barbalho e do mais virulento dos redatores que O Liberal teve, Hlio Gueiros. Como estava vinculado ao gover no militar, atravs do general Gustavo Moraes Rego Reis, cunhado de um dos seus maiores e mais inuentes amigos, o advogado Otvio Mendona, Romulo teve que fazer a campanha de Oziel Carneiro. Obrigou Jader e os remanescentes do baratismo a criar um novo jornal. Vencida a eleio, Jader se recusou a dispensar o Dirio do Par No queria mais car merc do apoio incerto de Romulo. Fez tudo para for talecer seu prprio jornal, mas nas eleies de 1986 ainda puderam compor interesses porque Hlio Gueiros foi o candidato ao governo. Esse armistcio terminou na eleio de 1990. O ex-prefeito de Belm, Sahid Xerfan, era o candidato de Gueiros e dos Maioranas, mas quem venceu foi Jader, de volta ao poder. Seu grupo de comunicao ainda no era sucientemente forte para prescindir dos Maioranas, que retransmitiam a programao da TV Globo, mas a paz foi cara ao errio e amarga para o governador. Ele continuou a fortalecer os seus veculos. Para surpresa geral, o Dirio do Par no apenas sobreviveu: passou frente de O Liberal. O desentendimento poltico foi agravado pela concorrncia comercial feroz, na qual o grupo Liberal estava cando em desvantagem. Para a Globo o sinal de alerta acendeu quando a Record comeou a diminuir a distncia dos ndices de audincia em relao TV Liberal.A Globo precisou inter vir. Primeiro na redao, depois tambm nas finanas e, por fim, transformou a TV Liberal num apndice seu, desligando-a do controle at mesmo editorial dos Maioranas, que s controlam inteiramente o jornal. Isso os enfraqueceu politicamente, mas tambm da receita do veculo de maior rentabilidade, que a televiso. O poder e as finanas sentiram. WO resultado a crise que o jornal enfrenta, impondo-lhe uma contrao ampla, desde a tiragem e a quantidade de pginas at a demisso de funcionrios, sobretudo na redao. Para compensar, o governador Simo Jatene tem inundado a corporao de anncios, como uma maneira de subsidi-la indiretamente. Como os dois Maioranas homens, Romulo Jr. e Ronaldo, tentaram sem sucesso a carreira poltica, o jornal se transformou no seu partido e o colocaram na condio de principal aliado de Jatene. O que, em outras praas, costuma ser uma concorrncia comercial e uma disputa jornalstica, no Par virou uma guerra sem fronteiras, total, sem restries. uma caa publicidade de tal ordem, afrontando os anunciantes privados e buscando sua ncora nos gover nos, que leva a situaes espantosas. O governador tucano inaugurou o hospital oncolgico infantil antes de conclu-lo e cedeu quatro pginas de publicidade, no papel mais caro, a O Li beral Tudo vira pretexto para a transferncia de dinheiro do errio aos parceiros na imprensa. Belm, por exemplo, que est fazendo 400 anos, no o Par. Mas a nica realizao concreta do governo do Estado e da prefeitura de Belm est sendo o patrocnio de um fascculo semanal, que encartado no jornal dos Maioranas. J foram publicados 15 fascculos, num total de 240 pginas. uma realizao de O Liberal com produ o da RM Graph Editora, de propriedade exclusiva de Romulo Maiorana Jr, o principal executivo da corporao. Mas o governo e a prefeitura que pagam a conta. A quanto ela soma? Qual a origem do contrato? Quem tomou a iniciativa de propor a relao? Quem aprovou o preo cobrado? Houve dispensa ou inexigibilidade de licitao? Quem controla a qualidade editorial? O ltimo questionamento importante porque 12 das 16 pginas do fascculo da semana passada tratam apenas da passagem de Barata pelo poder. O que isso tem propriamente a ver com a histria da cidade, a no ser lateralmente, por ser a sede dos poderes institucionais? Fica ntida a impresso de que o tema da coleo (Belm 400 anos) foi adaptado para caber em material que j existia ou foi produzido s pressas e conforme as convenincias da empresa, no para atender temtica da data. Barata foi o maior lder poltico da repblica paraense, mas seu destaque est associado vinculao sobrinha. Esse caderno e a abundante propaganda ocial da prefeitura e do gover no so biombos mal disfarados para transferir dinheiro pblico. O Ministrio Pblico do Estado j devia ter abor dado essa situao, intimando os entes pblicos a prestar contas dessa iniciativa, com evidente desvio de funo dos recursos do errio. Mas continua silente, silncio que se generaliza na sociedade paraense quando preciso enfrentar os temas ligados aos grandes grupos de comunicao no Estado. O MP podia, inclusive, pedir explicaes ao poder judicirio, que fez encartar um volumoso caderno publicitrio em O Liberal, com requintes de impresso em papel de luxo (como os fascculos do governo e da prefeitura). Dizem fontes do TJE que a publicao desse suplemento foi brinde do grupo Liberal. Se foi, preciso comprovar o

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3 fato para dar aos Maiorana o ttulo de benfeitores da humanidade. Servir pelo menos para desautorizar a fama que tm, justamente em sentido diametralmente oposto. Jatene chegou ao limite da irresponsabilidade, para usar clebre frase tucana, porque esta a sua ltima trincheira na comunicao de massa. O grupo RBA j tem uma penetrao maior ou equivalente dos seus inimigos e conta com uma vantagem sobre eles: a militncia poltica, que os Maioranas no conseguiram alcanar. Da toda munio utilizada pelo grupo para minar as bases de Jader Barbalho e do seu lho, Helder, em franca campanha para as prximas eleies de 2016 e 2018, usando como base o governo de Dilma Rousse e, como aliado, o PT. A ofensiva tem dois rumos. O primeiro para tirar Helder do ministrio. Ele perdeu a pesca e aquicultura, mas caiu para cima: pegou os portos, embora em circunstncias desfavorveis. Para O Liberal ele que est por trs das falcatruas na rea de pesca, que motivaram uma operao da Polcia Federal, embora a origem dos fatos remonte a uma poca muito anterior. Agora, o ministro o culpado pela tragdia provocada no porto de Vila do Conde por um navio que j estava com toda a sua carga embarcada (quase cinco mil cabeas de gado), adernou e afundou no per, provavelmente por falha humana na arrumao da carga mvel ou por instabilidade no lastro, que o desequilibrou. Os dois episdios foram sucientes para O Liberal passar a classicar o ministro de p frio e acumular evidncias, reais, falsas ou simplesmente inventadas, que reforam o estigma. Mas errando no atacado da cobertura sobre o gravssimo acidente, provocado tanto pela falta de um plano de ao para a pronta resposta a sinistros como pela lenincia ou conivncia de muitos anos com a prtica ar riscada desse comrcio colonial. J quanto ao senador Jader Barbalho a busca por incrimin-lo no petrolo, como um dos polticos que recebeu propina para favorecer empresas. muito fcil acusar o ex-governador Barbalho de corrupo. Pelo seu histrico, ele o anti-teon: qualquer acusao lanada contra ele prega e pega. Mesmo que seja inconsistente. A atual ainda inconsistente. Tem por origem o depoimento dado em delao premiada na Operao Lava-Jato pelo lobista Fernando Soares. Mais conhecido como Fernando Baiano, ele, na condio que se atribuiu e lhe foi atribuda de operador do PMDB junto a empreiteiros e fornecedores da Petrobrs para o pagamento de propinas por trco de inuncia em contratos com a estatal do petrleo, teria distribudo o equivalente a seis milhes de dlares a um poltico do PT e trs do PMDB, dentre os quais o ex-governador do Par. Qual a identidade histrica entre Jader, Renan Calheiros, o presidente do Senado, e Eduardo Cunha, o presidente da Cmara dos Deputados, alm de Silas Rondeau, que foi ministro das minas e energia e tambm liado ao PMDB, mas deve seus cargos ao ex-presidente Jos Sarney? E como entra nessa dana o senador Delcdio Amaral, que do PT de Mato Grosso do Sul? a primeira questo. Em 2006, data do pagamento da propina, Jader no era senador, ao contrrio do que disse o lobista, e estava auto-exilado nos bastidores polticos, ngindose de morto para no servir novamente de alvo fcil imprensa. pouco provvel mesmo que no impossvel, sobretudo diante dos seus antecedentes que tivesse fora e inuncia para participar da partilha desse butim no setor do petrleo, no qual ele no tem tradio. O elo concreto com ele outro lobista, Jorge Luz, que nasceu no Par, mas se criou no Rio de Janeiro. Em nota que divulgou hoje atravs da edio dominical do seu jornal, Jader armou que seu nico contato com Luz foi no incio do seu governo, em 1983, quando ele renovou um pequeno contrato de consultoria com a Cosanpa. Mas ainda teve algum contato com Luz depois, j que diz tambm ter tido com ele seu ltimo encontro 25 anos atrs, ou seja, em 1990, quando se elegeu novamente governador do Par. Luz foi visto a circular mais intensamente em gabinetes ociais ou par ticulares em Belm nos nove meses em que Carlos Santos assumiu o governo no lugar de Jader, que se desincompatibilizou do cargo para concorrer ao Senado, em 1994. Foi um perodo de caos e uma orgia de gastos, que o novo governador, Almir Gabriel, sentiu na pele ao receber a herana maldita. Jader no cruzou com Jorge Luz nesse perodo? mais uma pergunta cata de resposta. H lacunas, nebulosas e mistrios nesse enredo. Mas do que se conhece no h nenhuma prova concreta nem indcio convincente da participao do senador Jader Barbalho no petrolo, ao contrrio do que O Liberal vem apregoando. Convm apurar cada detalhe. O ex-ministro anunciou que tomaria a iniciativa de levar Baiano e Luz CPI da Petrobrs e outras providncias para esclarecer as acusaes que sofreu. No vou permitir que meu nome seja envolvido nesse lamaal, disse o senador ao Dirio do Par Desse, se novas informaes no surgirem, ele poder escapar. De outros, porm, no conseguiu. Por isso que seus inimigos atiram a esmo na direo dele, achando que alguma bala o atingir.

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4 Quatro dias depois, em reunio da Comisso de Constituio e Justia do Senado, o ex-governador voltou a declarar a sua inocncia, mas o tom de indignao mudara e ele deixou de cumprir o pedido de intimao, num local e numa ocasio bem propcios a essa iniciativa. Agora parece mais disposto a esperar que o judicirio e o Ministrio Pblico possam esclarecer os fatos. Mas no deixou de aplicar certa relativizao ao seu desmentido, antes enrgico e radical, para quase losofar: Estou com tranquilidade e posso dizer que no h nenhum envolvimento de minha parte. Quero saber qual o poltico de longo curso que nunca recebeu recurso para campanha, de qualquer partido. Nesse episdio, se algum recebeu dinheiro do petrolo em meu nome, est me devendo esse dinheiro. Espero que este assunto seja aprofundado e efetivamente esclarecido. Nunca tive participao nesse evento, garantiu Jader. Se no aparecer uma prova concreta de que ele esteve numa das pontas da linha da distribuio de seis milhes de dlares pelo lobista, vai car a palavra de Baiano contra a de Jader, um senador da repblica, com foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal. Vai dar em nada. Ou por ser nada mesmo, ou por que o novelo dessa corrupo maior do que aparenta. Espera-se, mais uma vez, que o tempo dirima essa dvida. Mas um tempo ativo, no o burocrtico uir de uma histria formal. Agora, a imprensa paraense, afogada em dios, mgoas e interesses contrariados, no tem mais condies de discer nir a verdade. O que ela quer destruir o inimigo mortal, lanando mo das informaes convenientes, da meia ver dade e da mentira, armas das quais no pode prescindir porque ambos os grupos se acham envolvidos completamente pela disputa do poder. Se os Barbalhos esto mais suscetveis por causa da sua participao direta na poltica, fonte direta da dose maior do seu poder, os Maioranas tambm tm seu enorme telhado de vidro. A rea mais exposta o das suas relaes incestuosas com o governo tucano do Estado. Por causa dessa aliana ntima, eles se consideram acima do bem e do mal, fora do alcance mesmo quando seus atos violam a lei. No por acaso, alis, o Par a terra onde a lei foi considerada potoca por algum que era a maior autoridade pblica no Estado, o mesmo Magalhes Barata. Romulo Maiorana Jnior, que descende de Barata pela famlia da me, pessoa poderosa. Faz questo de exigir esse tratamento. Com esse status, ele foi, na semana passada, sede da auditoria militar. Foi, por no ter conseguido evitar esse comparecimento. Por trs vezes seus atestados mdicos suspenderam as audincias nas quais seria ouvido sob dupla condio: ru num processo e testemunha em outro. Desmoralizado o recurso usual, que se vale do compadrio e da falta de prossionalismo de mdicos amigos, ele tentou a obstruo que a lei lhe facultava. Mas seus mandados de segurana para poup-lo da inconvenincia foram rejeitados em todas as instncias judiciais cabveis, inclusive, na vspera da audincia, no Superior Tribunal de Justia, em Braslia. Seria a total desmoralizao da prpria justia acobertar a fuga reiterada de algum chamado a depor em contencioso legal. Mas Romulo Jnior no chegou ao prdio da auditoria como um igual. Protegeu-se num carro importado, com pelculas negras e blindado, seguido por outro carro importado (que tambm estaria em dbito com a autoridade do trnsito, como o primeiro), com seus dois seguranas. Um deles deu causa a um dos processos. O subtenente Manoel Santana conseguiu passar para a reserva da Polcia Militar alegando ter problema de viso, mas continuou a atuar como guarda-costa e motorista dos Maioranas, podendo agredir desafetos deles, quando conveniente. No depoimento que deu, Romulo Jr. disse que o militar no seu capanga, mas seu amigo. Por isso era visto junto com a famlia em passeio por um shopping da cidade, conforme gravao feita por um jornalista e apresentada como prova da fraude na ao instaurada contra o subtenente. Se dissesse que atrs deles vinha um marciano, teria tido mais crdito. Os dois carros dos Maiorana receberam autorizao para car no estacionamento da auditoria, de uso privativo pelo pessoal da casa. Como o espao reduzido, foi necessrio abrir vaga para a comitiva retirando veculo de funcionrios da repartio pblica. Graas a essa ajuda, o empresrio no foi fotografado nem lmado. Favorecimento semelhante lhe fora concedido pela justia federal, quando ele l foi depor, em processo a que respondeu por fraude para obteno de colaborao nanceira da Sudam. Da garagem, subiu ao gabinete do juiz pelo elevador privativo dos magistrados. No depoimento, o principal executivo do grupo Liberal lamentou nada poder dizer sobre a acusao, de favorecimento em um contrato para a utilizao do jatinho da sua empresa de txi-areo pelo governo do Estado, no valor de 2,6 milhes de reais, que, segundo a denncia do Ministrio Pblico militar, estava fora dos padres mnimos da legalidade e moralidade administrativa. O empresrio argumentou que assinou o documento sem prestar ateno ao seu contedo e dele no tinha a menor lembrana, talvez porque envolvesse apenas o faturamento de R$ 2,6 milhes em um ano de serventia. Anal, justicou-se Romulo Jr., ele responsvel por 32 empresas. Cumprida a obrigao, embarcou no seu mastodonte sobre rodas e saiu, deixando para trs os jornalistas que esperavam trat-lo como a um igual e, mais uma vez, em outra instncia do poder judicirio, constataram que Romulo Maiorana Jnior do fechado clube dos mais iguais. Para os antagonistas desse duelo fechado, a que no tm acesso os pobres mortais, interesses de Estado, causas coletivas, temas candentes, no interessam. Como no ciclo de Magalhes Barata, envolto por uma pesada nvoa de mentiras e vilanias, a sociedade paraense mergulha nesse universo medocre e se dissocia da sua histria e do seu destino. Pensa ser um grande prmio o que no passa do velho recurso de entregar um boi s piranhas para que a manada passe inclume do outro lado do rio. O gasto enorme de energia em torno de Barbalhos e Maioranas aliena o povo de Carajs, Belo Monte, Trombetas, Bar carena e outros temas vitais do que realmente a histria e que se esvai nessa briga de predadores.

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5 Guerra civil nas ruas faz milhares de mortosThiago OliveiraO caso do bar 8 na Cidade Velha, foi exemplo de que aes de extorso ou corrupo praticadas por policiais so mais comuns que se pode imaginar, mas so pouco falados ou muito mal reportados pela grande imprensa. Os casos apurados de abordagens policiais so tendenciosos e no informativos. Tais prticas, como essas adotadas por este tipo de policiais como no caso do bar citado acima, mereciam um destaque maior e uma investigao mais criteriosa por parte da imprensa para melhor compreenso da opinio pblica, mas o que parece, o caso ser esquecido. Somado a esse cenrio, existem outros casos de prticas de extorso. Para que se que protegido das ms condutas da prpria polcia e vez por outra das dos criminosos, cidados se largam s presses. Em Belm, as festas populares de aparelhagens sonoras, movidas a tecnobrega, so alimentadas pelo trco e comrcio de drogas. Para que as referidas festas sejam executadas, os donos cedem s extorses, pagando propinas e alimentando esse terrvel ciclo vicioso. As drogas so o principal atrativo das festas. Os policiais, sabendo disso, recebem propina para deixar rolar, fazendo vista grossa e s vezes at facilitar a entrada dos ilcitos nesses eventos. A partir desses casos, outros cenrios mostram que o Brasil anda ausente da discusso temtica da Segurana Pblica. As denncias de prtica da tortura por policiais so recorrentes. As redes sociais j viraram palco de horror para se mostrarem episdios dessa natureza. Em exemplo disso, foi livremente mostrado um policial de Fortaleza, Cear, raspando as costas de um suposto criminoso com uma faca para a retirada de tatuagem de palhao. O vdeo mostrava que o policial, alm de agredir sicamente, tambm insultava o indivduo. O torturado ardia em sangue e dor. Pura crueldade e exagero. Segundo relatrio da Anistia Internacional, o Brasil possui a polcia que mais mata no mundo. O estudo diz que a nao tem o maior nmero geral de homicdios no mundo inteiro. S em 2012, foram 56 mil homicdios. Em 2014, 15,6% dos homicdios tinham um policial no gatilho. Segundo o mesmo relatrio, eles atiram em pessoas que j se renderam, que j esto feridas e sem uma advertncia que permitisse que o suspeito se entregasse. Em contraposio ao quadro, os policiais brasileiros so os que mais morrem no mundo. No perodo de cinco anos (2009 a 2013), 1.770 policiais foram mortos 490 apenas no ano de 2013. Os nmeros acima mostram que ser policial no Brasil lutar uma guerra, literalmente. Alm da alta perda em servio, cada vez mais sensvel o sucateamento, o mau treinamento e a no valorizao da carreira. Tanto que sob o olhar da populao, em pesquisa realizada pela Fundao Getlio Vargas. foi mostrado que, em 2013, 70,1% dos entrevistados dizem no conar na polcia. Isso talvez se deva tanto pelas ms prticas dos policiais quanto pela baixa aptido de responder de forma satisfatria contagem de crimes ocorridos. A prosso de policial difcil, em particular em Belm, porque entre outros fatores est o de que a cidade possui a proporcionalmente a maior rea de favela dentre as capitais do Brasil e a quarta nacional, onde 54,5% da populao moram em reas desse carter. Ananindeua a terceira do pas nesse nvel, possui 61,2% da populao morando em rea de favelas e Marituba a campe do Brasil nesse quesito: 77,2% da populao moram em favelas. Se a Regio Metropolitana de Belm possui uma massa gigantesca de excludos, aonde servios bsicos de cultura, lazer e educao no chegam, natural que o nmero de crimes seja alto e, por conta disso, que o efetivo policial no vena a demanda. Reexo de um quadro defasado de planejamento e conduo de polticas voltadas carreira do policial. O acesso a educao, cultura e lazer fundamental para uma mudana radical desse quadro de insegurana, principalmente a educao poltica. A ausncia de debate poltico faz gerar um vazio de ideias e lideranas. Nesse vazio, surgem candidatos a salvadores da ptria, que adotam carter messinico ou populista, tornando assim o debate bem rasteiro ou supercial, com pouca ou nenhuma soluo efetiva do problema, cando no mesmo discurso conservador, pouco progressista. A educao poltica ser necessria ao povo, face urgente situao em que se encontra a Regio Metropolitana. Fruns locais, regionais e estaduais precisam ser retomados para que o povo scalize as aes da polcia e atrair polticas que apoiem a Segurana Pblica. Outro ponto impor tante que pode ser tratado nos fruns o controle da impunidade dos maus policiais, sem a leitura dessa caixa preta do sistema de propinas ou torturas ser impossvel avanar na melhora da qualidade de vida, tanto do cidado, quanto do bom policial. Quais os policiais envolvidos em chacinas? Quais so os que extorquem a populao? Os que fornecem armas para o crime organizado? Sem essa investigao, com a populao conante e segura para denunciar, ser como chover no molhado ou enxugar gelo. O modelo repressivo de segurana pblica j no mais eciente, faliu. necessrio aproximar populao e polcia, incentivar aes participativas com apoio dos representantes eleitos, criando espaos para o debate aonde o cidado possa se expressar, contar suas angstias e sofrimentos. Os representantes do povo fugiram dessa misso e s vezes, no raro ouvir a boca mida, casos de polticos que encobertam aes de policiais corruptos. Com o debate e prticas ativas, os entes se sentem corresponsveis pela segurana de cada um. Achar a ponta desse novelo ser difcil, trabalhoso e complexo, requer coragem e atitude de todos os atores responsveis, principalmente da classe poltica e gestora, mas a participao segura e efetiva da populao primordial porque tornar as aes mais consistentes e assim afastar aventureiros oportunistas e cheios de populismo ralo como Ederes Mauros, Bolsonaros, Joaquins Campos e Datenas da vida.

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6 Polcia na pesca. E os tubares?Fraudes no setor de pesca no Par so conhecidas h quase 10 anos. Finalmente, na semana passada, a Polcia Federal comeou a prender os participantes de uma quadrilha que desviava dinheiro pblico para si e para projetos polticos. O surpreendente, porm, a ausncia de personagens que sempre foram apontados como os verdadeiros tubares da histria. Os atingidos so mais a pescada mida, conforme j apontava uma carta annima enviada ao ento senador Mrio Couto, em 2009, por algum que dominava integralmente esses negcios ilcitos com recursos do governo federal. A mesma carta foi encaminhada tambm ao Ministrio Pblico Federal e Polcia Federal. Aparentemente, no teve consequncias e s agora deixar de ser indita. Apesar de no ter a assinatura do autor, decidi revel-la, depois que me foi enviada por uma fonte jornalstica, pelo seu carter proftico: tudo que anunciou se concretizou e os fatos apontados foram confirmados. Por que o resultado da ao policial foi menor do que a dimenso do problema apresentada pelo documento? a pergunta que fica, ao final da sua leitura.Rearmando as noticias publicadas pela imprensa atravs de jornais, e pelo depoimento do Senador Mrio Couto no Senado, encaminho esta carta para fundamentar mais um pronunciamento e o pedido de investigao pela Policia Federal e Ministrio Publico Federal. Abaixo, relato o esquema de fraude do seguro defeso e o uso da mquina do governo federal atravs da Superintendncia Federal de Pesca e Aquicultura no Par. Senhor Senador, todo o esquema comandado pelo superintendente Paulo Sergio (Chico), que, atravs do uso maquina, em beneficio prprio e em prol da sua pr-candidatura a deputado estadual, vem destruindo com a imagem da pesca tanto industrial quanto artesanal no Estado do Par. A fraude comeou a partir do ano de 2003, tendo como gerente regional o Senhor Esmerino Neri Batista Filho, que, quando assumiu a SEAP (Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca), tinha cadastrado cerca de 40 mil pescadores e tinha como seu assessor, com status de chefe de gabinete, o atual superintendente Paulo Sergio (Chico), que foi o coordenador da sua campanha para deputado estadual em 2006, sendo eleito com uma votao expressiva do setor pesqueiro, principalmente a pesca artesanal. Com isso o Sr Paulo Sergio ( Chico) assumiu a Gerencia Regional, aproximadamente em abril de 2006, quando deu incio pororoca do defeso e das licenas de pescas provisrias. Na gesto do Sr Paulo Sergio (Chico), que abrange o perodo de 2006 at os dias atuais, a superintendncia tem cerca de 130 mil pescadores cadastrados no Par. Visando a campanha eleitoral de 2010, para eleger o atual deputado Miriquinho Batista a deputado federal e eleger o atual superintendente Paulo Sergio (Chico) a deputado estadual, o nmero de pescadores cresceu de forma proposital, pelo esquema de atuao da quadrilha em vrios municpios, que tm ligao poltica e nanceira com o superintendente (Chico) e com o deputado (Miriquinho Batista). Discrimino a seguir o esquema executado por municpio. Ponta de Pedras: Colnia de Pescadores Z 24, com o seu presidente, principal articulador junto com o superintendente, funciona da seguinte maneira: o presidente pega os documentos de pessoas que so pescadores e tambm de pessoas que no tm nenhum vinculo com a pesca, com o objetivo de tirar a carteira de pescador ou a certido provisria, para ter direito a receber o seguro defeso, com a seguinte condio: que a metade do dinheiro ser para providenciar a carteira; essa metade para pagar a fraude, quando no pago a metade para o presidente a carteira cancelada ;pelo superintendente para o ano seguinte. Moju : Colnia de Pescadores Z 81 tem relao direta com o deputado estadual Miriquinho Batista e com o superintendente da pesca Paulo Sergio (Chico). Foi criada no ano de 2007 e at hoje ela serviu para fazer campanha, tanto verdade que o prprio presidente da Colnia, Jos, Ccero foi candidato a vereador nas eleies passada e agora quer eleger o deputado estadual Miriquinho a federal e o superintendente da pesca a deputado estadual. Hoje, com apenas trs anos de existncia, tem mais de 2 mil liados aptos a receber o seguro. Limoeiro do Ajuru: Colnia de Pescadores Z 46, presidente, Raimundo Cavalcante, apoiou a candidatura a deputado estadual Miriquinho Batista trazendo aproximadamente 2.000 votos nas eleies de 2006, com isso, as suas demandas so prioritrias, e o principal cabo eleitoral do dep. Miriquinho Batista e coordenador da candidatura do pr-candidato Paulo Sergio (Chico). Breu Branco : Colnia de Pescadores Z 53, com seu presidente, Edson Figueira, a colnia que possui cerca de 8.000 pescadores cadastrados na superintendncia e desses oito mil, 70% so falsos pescadores. Por exemplo, moto taxista, dona de casa, estudante, comerciante e pessoas de outros municpios, que tambm no tm vinculo com a pesca. Exemplo: Tucurui, Camet, Baio. O esquema o mesmo: o presidente traz os processos diretamente para o Chico e ele manda confeccionar as carteiras com datas sempre retroativas, de 1 a 2 anos atrs, em troca de apoio sua candidatura a dep. estadual e a candidatura a dep. federal do Miriquinho Batista. Tucurui: Colnia de Pescadores Z 32, presidente, Tio Beb, secretrio da Colnia o Sr. Oneildo, acontece o mesmo esquema de troca de favores. A colnia, que possui cerca de 7.000 pescadores cadastrados na superintendncia e desses sete mil, 40% so falsos pescadores. Por exemplo: moto taxista, dona de casa, estudante, comer ciante. O esquema o mesmo: o presidente traz os processos diretamente para o Chico e ele manda confeccionar as carteiras com datas sempre retroativas, de 1 a 2 anos atrs, em troca de apoio a sua candidatura a dep. estadual e a candidatura a dep. federal do Miriquinho Batista. Abaetetuba: Colnia de Pescadores Z 14, presidente, Joaquim. A colnia, que possui cerca de 8.000 pescadores cadastrados na superintendncia e desses oito mil, 50% so falsos pescadores. O esquema o mesmo. Igarap Miri: Colnia de Pescadores Z 15, presidente, Raimundo Velho. A colnia possui cerca de 6.000 pescadores cadastrados e desses, 30% so falsos pescadores. O esquema o mesmo, E mais o ex-presidente da colnia de pescadores de Igarap-Miri, o Sr Raimundo Pureza, atualmente trabalha na superintendncia da pesca e um dos coordenadores da candidatura a deputado estadual do superintendente da pesca do Sr. Paulo Sergio Souza (Chico). Chaves e Muan: Colnias de Pescadores Z 22 e Z 59 contrataram um despachante com o nome de Jos Alberto Santa Brgida, que dono do Palcio dos Bares, tem livre acesso na superintendncia da pesca e ainda amigo pessoal e coordenador da campanha do Sr Paulo Sergio (Chico), por isso suas demandas tm prioridade. A relao to direta com o Chico e com o Miriquinho que este cidado montou um

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7 escritrio em sua residncia, que ca situada na travessa Timb, no condomnio Ser gio Cardoso N 1348, no bairro da Pedreira, para agilizar os processos de seus interesses polticos e nanceiros. O mesmo cobra de pescadores e falsos pescadores uma quantia para tirar a carteira de pescador. Associao Aspam (Associao dos Pescadores Artesanais de Muan), que representada no Ministrio da Pesca pelo Sr. Alberto. Camet: Associao Apamuc, foi criada com a nalidade eleitoral, tanto ver dade que o despachante Cleidinho Teles foi candidato a vereador nas eleies passada e agora quer eleger o Miriquinho e o superintendente da pesca. Com apenas dois anos de existncia tem mais de 3.000 liados aptos a receber o seguro. Mocajuba: Associao Aspam foi criada com a nalidade eleitoral, tanto verdade que o despachante Edno foi candidato a prefeito do municpio na eleio passada. Com 4 anos de existncia tem mais de 4 mil liados aptos a receber o seguro. Pedimos encarecidamente que o senador faa um pronunciamento no Senado o mais rpido possvel, para que outras informaes de acordo com a reao dos fatos, sejam encaminhadas, pois essas informaes citadas so apenas relacionados ao seguro defeso. Se for necessrio, encaminharemos outra carta relatando fatos relacionados a improbidade administrativa, abuso de poder e assedio moral, cometido pelo superintendente da pesca Paulo Sergio Souza (Chico). Sem mais para o momento, espero que o setor pesqueiro possa a partir desses fatos abominar essas praticas, que tm feito com que o setor no avance. Juza vira desembargadora, mas no recebe punioValber Luiz Barbosa Duarte, Reginaldo Lima e Laero Cruz de Aquino foram presos pela polcia em 2009, acusados de terem roubado joias no valor de 100 mil reais pertencentes a Regilena Lopes Pinho. A polcia recuperou parte das joias em poder dos ladres e convenceu o juiz Jorge Luiz Sanches, titular da 6 vara penal do frum de Belm.a manter a priso. Regilena cou indignada quando soube que dois dos trs ladres tinham sido soltos. Ela se revoltou principalmente porque Laero Aquino foi o assaltante que lhe apontou um revlver. A liberdade provisria foi concedida pela juza Maria Edwiges de Miranda Lobato, que assumiu interinamente a vara quando Sanches entrou em frias. Ela ignorou a manifestao desfavorvel ao pedido de liberdade do representante do Ministrio Pblico. Ao chegar ao frum para saber a razo da soltura de seu carrasco, Regilena Pinho observou que um dos advogados dos assaltantes era Lauro de Miranda Lobato, irmo da juza que soltara os assaltantes, scio no escritrio Bentes, Lobato & Advogados. Diante dos fatos constatados, a vendedora formalizou reclamao Corregedoria de Justia da Regio Metropolitana de Belm. S depois dessa iniciativa a priso de Laero foi novamente decretada. O relator do processo contra Edwiges, desembargador Leonam Gondim da Cruz Jnior, observou que no podia deixar de constatar que o scio do irmo da magistrada s funcionou nos autos, exclusivamente, para pleitear a liberdade provisria do ru e, diga-se, com xito, justamente no perodo que a Dra. Maria Edwiges respondia pela 6 Vara Penal. A juza alegou que no percebeu que o nome de seu irmo constava na procurao e que no foi ele que atuou no caso, mas seu scio. No entanto, alm da demonstrao de desateno e falta de exao na instruo do processo, seu procedimento revelou um inslito interesse pessoal pelo caso. Maria Edwiges saiu da sua sala, na 16 vara, e foi secretaria da 6, onde nunca estivera pessoalmente, buscar o processo, acompanhada pelo irmo. Levou os autos para sua casa e, no dia seguinte, devolveu-os com a deciso concedendo a liberdade provisria, em uma celeridade incomum ao seu comportamento, conforme observou o desembargador-relator, No seu depoimento, a juza admitiu seu empenho para decidir o processo. Primeiro pediu por telefone que os autos lhe fossem mandados, mas em face da urgncia declinada pelos advogados, por se tratar de ru preso, que mereciam prioridade. Como a remessa demorasse, dirigiu-se at a secretaria e pegou os autos, levando-os para sua casa, conforme seu depoimento. Admitiu que, com o af de obter os autos para anlise, seu irmo, Lauro, per maneceu do lado de fora, eis que estava carregando a sua pasta, ressaltando que tem problema de coluna e no pode car regar peso. Ao retornar ao frum do dia seguinte, a juza trouxe, j prontos, os alvars de soltura. Giselle de Castro Leo, diretora de secretaria da 6 vara, disse ter sido esta a primeira vez que presenciou o procedimento de um magistrado se dirigir at a secretaria para retirar o processo a m de despachar. E que Edwiges no despachou nenhum dos processos de rus presos durante o perodo em que respondeu pela 6 vara penal, de um ms. Os testemunhos de funcionrios do cartrio levaram o desembargador-relator a concluir que o processo do interesse do escritrio do irmo da juza obteve tratamento diferenciado com relao aos outros processos de rus presos, demonstrando, sem dvida, o comprometimento da imparcialidade de Maria Edwiges Lobato. Ora, se o comando impingir celeridade aos feitos, que sejam todos tratados de igual maneira, observou o desembargador Leonam Gondim Jnior. Concluiu ele: No se pode dizer que a magistrada adotou procedimento correto quando, incontestavelmente, demonstrou o seu interesse pessoal em despachar exclusivamente o processo daquele ru preso, Laero Cruz de Aquino e, segundo ela, no percebeu que seu irmo gurava na procurao como advogado da parte. Ressalvou a circunstncia de que a atitude da juza no causou prejuzos irreparveis, at porque, posteriormente, a custdia do ru foi restabelecida, mas reconheceu a caracterizao da falta de iseno de nimo da julgadora para atuar no processo. Na concluso da anlise, sugeriu a aplicao, por escrito e reservadamente, da pena de censura a Maria Edwiges de Miranda Lobato, tendo em vista o seu procedimento incorreto no exerccio da funo. O tribunal decidiu por unanimidade, com a aprovao do Ministrio Pblico, adotar a sugesto do relator, em acrdo publicado em 2010. Mas foi necessrio realizar quatro sesses para conseguir quorum. Seis desembargadores se declararam suspeitos. De posse do processo administrativo, o Ministrio Pblico do Estado ajuizou ao civil pblica contra a juza, que era titular das varas dos crimes de imprensa, de consumo e tributria. Ontem, o juiz Elder Lisboa Ferreira da Costa, da 1 vara da Fazenda Pblica no frum de Belm, extinguiu a ao por considerar que no cou caracterizada a improbidade, por no ter havido dolo da parte da juza nem prejuzo para o errio. E que ela no podia ser julgada outra vez pelo mesmo delito, pelo qual foi punida com a censura, alm de a deciso anterior ter transitado em julgado. Da proposio da ao pelo MP at a deciso de 1 grau, a juza foi promovida a desembargadora e por merecimento. Seu irmo, que estava sempre ao seu lado em seu gabinete e nas audincias, inclusive quando ela no estava presente, morreu.

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8 MEIO SCULO DE JORNALISMOAmaznia: um imenso almoxarifado nacionalComo conseguir escrever matrias realmente crticas, que traduzissem a realidade do que acontecia na Amaznia, em plena ditadura? Essa pergunta foi feita muitas vezes ao longo do perodo em que o governo censurou a imprensa brasileira, principalmente depois da edio do AI-5, no nal de 1968. Para mim, a resposta foi encontrada na apurao direta dos fatos, enquanto eles estavam acontecendo, e na documentao ocial ou legal: nos dirios ociais, nos balanos, nos relatrios e nos estudos com patrocnio ocial. Aprendi a ler, traduzir e interpretar nmeros, situando-os em contextos humanos. Como o governo podia interditar matrias que reproduziam dados produ zidos pelo prprio governo? Louve-se a manuteno de uma burocracia pblica que levava a srio a sua misso, manifestando-se atravs de trabalhos com rigor cientco e tcnico, imunizados simples interdio poltica. Ou era preciso contraditar esses estudos ou impedir que eles fossem realizados. Uma vez existentes, estavam no mundo. A questo era encontrar esse material, geralmente arquivado ou ocultado. Alguns dos dspotas do regime militar queriam preservar a sua memria, distinguindo-a das atrocidades da ditadura. Da apadrinharem uma conscincia crtica no estamento tcnico, do qual o mais expressivo era o Ipea, que cresceu com maior nfase na poca em que Joo Paulo dos Reis Velloso foi o ministro do planejamento. Este texto, escrito em 1978 para a revista especializada CJ Arquitetura, de So Paulo, exemplicativo desse mtodo e da existncia de reportagens crticas sob a censura estatal, especialmente quando tratavam de temas polmicos, como a ocupao da Amaznia. Reproduzo a seguir uma primeira parte da ntegra, que, por sua extenso, ocuparia muito espao. Pode-se dizer que a Amaznia uma espcie de almoxarifado nacional: dela tudo se retira e pouco se repe.. Seus recursos, por isso, so permanentemente dilapidados. Embora receba signicativos investimentos pblicos (10 bilhes de cruzeiros no quinqunio de vigncia do II PDA Plano de Desenvolvimento da Amaznia), suspeita-se que da regio saia mais dinheiro do que entra. Em cinco anos, entre 1969 e 1973, a Amaznia exportou duas vezes e meia mais do que importou e ainda assim teve um dcit de quase um bilho de cruzeiros. Segundo os dados do Anurio Econmico-Fiscal do Ministrio da Fazenda, que cobrem esse perodo, a Amaznia importou quase 3,2 milhes de toneladas de produtos vindos do exterior, que lhe custaram 3,4 bilhes de cruzeiros, e exportou 7,5 milhes de toneladas, com os quais s conseguiu 2,4 bilhes de cruzeiros. Ao bilho de cruzeiros de dcit acumulado na balana comercial em apenas cinco anos, seria necessrio acrescentar os prejuzos existentes nas relaes de troca entre a regio e as reas mais desenvolvidas do prprio Brasil. Mas essas estatsticas inexistem. Sabe-se, contudo, atravs de dados for necidos pela Sunab (Superintendncia Nacional de Abastecimento), que o Par detentor de saldo no comrcio exterior gastou todas as divisas ganhas com as exportaes na compra de nove gneros alimentcios em outras regies brasileiras. De acordo com levantamento realizado pelo Banco da Amaznia em 1975, o movimento de mercadorias da regio com o resto do pas, no perodo entre 1960 e 1970, registrou dcit acumulado de 1,1 bilho de cruzeiros. Todas as precrias estatsticas disponveis mostram que, apesar dos fantsticos investimentos feitos ou programados, a regio est cada vez mais pobre e desigual, com uma acentuada concentrao da riqueza. Dos 600 estabelecimentos comerciais que existiam no Estado do Amazonas em 1970, 263 estavam em Manaus. A capital concentrava 80% do pessoal ocupado, 93% do valor total de salrios pagos e 94% do valor da produo. Tudo por causa da Zona Franca, que tambm a causa do prejuzo da Amaznia entre exportao e importao. Entre 1950 e 1970, a taxa de ocupao econmica da regio baixou de 31,5% para 28%, indicando um nmero crescente de pessoas fora do processo produtivo. A populao potencialmente ativa subiu de 975 mil em 1950 para 1.915.000 duas dcadas depois, mas a populao economicamente ativa (isto aquela que realmente est trabalhando), apesar de crescer a taxa ligeiramente maior, de 379 mil para 859 mil, no representou incremento do processo produtivo capaz de responder aos novos desaos da economia. Em 1972, a renda per capita do habitante da Amaznia era de aproximadamente mil cruzeiros, menos da metade da mdia nacional. Entre 1955 e 1968, o crescimento dessa renda foi de 2,1% ao ano, contra 2,4% 2,4% entre 1949 e 1958, ainda segundo o relatrio do Basa. Mesmo quando se analisa um caso mais especco, as estatsticas no se mostram favorveis, como no Par, apontado como o Estado de melhores perspectivas na Amaznia. nele que esto sendo implantados 73 dos 169 projetos industriais que recebem incentivos scais da Sudam (Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia), representando investimento de 3,7 bilhes de cruzeiros. Tambm no Par que se localizam 94 dos 334 projetos agropecurios aprovados pela Sudam, com investimento previsto de 2,2 bilhes de cruzeiros. O Par abrigar, igualmente, alguns dos maiores projetos de minerao do pas, como o de Carajs, para a expor tao de 20 milhes de toneladas de minrio de ferro por ano. Como o de

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9 Trombetas, que, at o nal desta dcada, estar exportando cinco milhes de toneladas de bauxita. E o da Albrs/ Alunorte, que colocar no mercado internacional 320 mil toneladas anuais de alumnio metlico e mais 1,1 milho de toneladas de alumina. Juntos, esses trs projetos representam investimento de cinco bilhes de dlares, quase 90 bilhes de cruzeiros. No deixa de ser paradoxal que todo esse esforo econmico tenha representado to pouco at agora. Houve apenas uma espcie de rearranjo, que apenas agravou ainda mais os problemas regionais, sobretudo quanto tendncia para a monocultura. Os 167 projetos industriais e agropecurios destinados pela Sudam ao Par, aos quais foram incorporados quase 3,5 bilhes de cruzeiros de incentivos scais (dinheiro oriundo da renncia do governo ao imposto de renda dos investidores), no representaro mais do que 24 mil empregos diretos. E os resultados dos projetos de minerao devero ser ainda mais concentrados. Um estudo realizado pelo Idesp (Instituto do Desenvolvimento Econmico e Social do Par, pertencente ao governo do Estado) mostrou que enquanto a taxa de crescimento anual da renda interna, entre 1965 e 1973, foi de 6,5% (passando de 6,4 bilhes parta 10,6 bilhes de cruzeiros), a populao deve ter crescido 3,5%, admitindo ento o incremento da renda anual per capita de 3%, ritmo que considera ainda baixo. Caso persista, o Par levar mais de 25 anos para apenas dobrar a renda mdia dos seus habitantes, notoriamente baixa. A taxa de 3% no chega a alcanar metade da atingida pelo Produto Interno Bruto per capita do Brasil em 1970 (de 6,4%, constata o Idesp). Esses nmeros so a consequncia lgica do modelo de desenvolvimento adotado na Amaznia? Aparentemente, sim. At o nal dos anos 60, os tcnicos e as autoridades acreditavam que a melhor forma de promover o desenvolvimento seria atravs da substituio das suas importaes, incentivando a industrializao das matrias primas locais. Assim, dos 121 milhes de cruzeiros liberados pela Sudam at 1968, Cr$ 66 milhes se destinavam s indstrias. Em 1970, exatamente 20 anos depois de um discurso histrico pronunciado pelo presidente Getlio Vargas, lanando as sementes da Spvea (Superintendncia do Plano de Valorizao Econmica da Amaznia) e do planejamento regional no Brasil, o presidente Garrastazu Mdici anunciava, em Manaus, o m da antiga concepo sobre o desenvolvimento da Amaznia, via substituio de importaes. Advertiu que o atraso e a pobreza dessa regio assim como o Nordeste tm repercusses negativas que chegam a prejudicar fortemente a produo e a economia do Centro-Sul.Segundo a nova tica revelada pelo general Mdici, a Amaznia precisaria ser transformada em mercado consumidor com efetivo poder de compra para que assim: 1) participasse substancialmente do mercado interno brasileiro; 2) contribusse para a diluio dos custos de produo industrial; 3) incrementasse a sua produtividade a fim de fornecer matrias primas indstria do Centro-Sul.O governo federal no poderia mais esperar que os trabalhos de revelao cientca dos recursos naturais e potencialidades econmicas da Amaznia fossem concludos: precisava integrar imediatamente a regio ao pas, para ampliar o mercado consumidor das indstrias do Centro-Sul e garantir-lhes o fornecimento de certas matrias primas ou insumos bsicos existentes na Amaznia. A traduo mais ntida dessa nova orientao s surgiu quatro anos depois, atravs do segundo Plano de Desenvolvimento da Amaznia, o captulo regional do II PND. Ele definia a Amaznia como uma fronteira tropical destinada a fornecer matrias primas (madeira, carne, minrios) para a regio moderna do pas ou exportar produtos j aceitos no mer cado internacional (castanha, pimenta-do-reino, guaran, madeira, pescado), contribuindo assim para acelerar a industrializao da regio moderna (e no a sua prpria) e o ingresso de divisas no pas. A Sudam foi encarregada de por em prtica essa poltica. Em 11 anos, ela aprovou 548 projetos para a Amaznia, sendo 334 agropecurios e 169 industriais. Comprometeu com eles e os demais de servios bsicos, agroindustriais e setoriais Cr$ 11,7 bilhes, dos quais Cr$ 5,7 bilhes j liberados. Os privilgios dados agropecuria desencadearam imediatamente uma corrida s terras da Amaznia, que provocou elevao de mais de 500% nos preos das terras (ainda assim, baratas). Essa corrida fez com que poderosos grupos econmicos adquirissem terras, principalmente no Par e Mato Grosso, como Volkswagen, Bradesco, Bamerindus, Liquifarm, Swift, e pessoas como o ex-ministro Severo Gomes, o ator Tarcsio Meira e o milionrio americano Daniel Ludwig, apontado como o homem mais rico do mundo. Imensas propriedades, como a do prprio Ludwig, no vale do rio Jari, que se estende por 3,6 milhes de hectares, surgiram em poucos anos.

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10 Curi depe sob varaO Par ser cada vez mais colnia energtica do paisO Programa de Investimentos em Energia Eltrica vai consolidar a posio do Par como a principal provncia energtica do pas. Prev investimentos de 186 bilhes de reais, ao longo de 28 meses, entre agosto deste ano e dezembro de 2018, data do encerramento do mandato da presidente Dilma Rousse, que dessa forma manifesta a inteno de se manter no cargo at o m. Mesmo que a crise antecipe sua sada, porm, dicilmente o planejamento feito durante o seu governo, que se materializou no PAC 2, a segunda etapa do Programa de Acelerao do Desenvolvimento, vir a ser modicado. Em relao regio norte, as alteraes feitas na diretriz central, estabelecidas no governo do general Geisel, so apenas cosmticas desde o II Plano de Desenvolvimento da Amaznia (PDA) para 1975/79. A Amaznia continua a ser uma plataforma de lanamento de recursos naturais para o exterior, com funo colonial. Do total do plano energtico, R$ 116 bilhes se destinam a obras de gerao de energia e R$ 70 bilhes a transmisso. Em ambos os setores, o Par lder. O governo federal pretende executar os projetos das hidreltricas de So Luiz do Tapajs, que seria a quarta maior do Brasil e a sexta do mundo, com oito mil megawatts, e Jatob, a 10 maior do ranking nacional, com quase 2,4 mil MW. Essas duas usinas, que colocaro o rio Tapajs na condio de principal fonte de energia nova no pas pelos prximos anos, exigiro investimento de quase R$ 60 bilhes, mais da metade do que est previsto no programa at 2018. Assim, Belo Monte, So Luiz e Jatob, todas no Par, iro bater em R$ 100 bilhes de investimento. Nunca um Estado brasileiro recebeu investimento em gerao de energia desse porte. Onde ir parar toda essa energia? No centro-sul. Dos R$ 70 bilhes or ados para a transmisso de energia por todo pas, R$ 20 bilhes sero gastos para levar a energia do Tapajs e do Xingu at Minas Gerais e So Paulo. Apenas um volume residual car no Par. Mesmo porque no h nenhuma poltica federal e, muito menos, estadual para o uso local dessa enorme adio de energia nova. O Par se tor nar o maior produtor de energia e o maior exportador de energia bruta do Brasil (com escala mundial pelo seu volume). Mais colonial impossvel. A juza da 1 vara federal de Braslia, Solange Salgado, no aceitou o atestado mdico que lhe enviou de Marab o coronel da reserva do Exrcito Sebastio Rodrigues de Moura como justicativa para no comparecer audincia na qual devia depor, no dia 14, para falar sobre a guer rilha que o Partido Comunista do Brasil instalou no Araguaia, nos anos 1970, combatida e extinta pelo governo militar. Sem qualquer contemporizao, a juza expediu mandado de conduo coercitiva contra Curi, que foi levado a Braslia pela Polcia Federal. Diante da magistrada, o militar da reserva, que se celebrizou como o major Curi, na represso guerrilha e na organizao do garimpo de ouro de Serra Pelada, aguentou um depoimento de 10 horas, que se encerrou s 11 da noite. No parecia abalado ao confessar que matou Antnio eodoro Castro, codinome Raul, e Cilon Cunha Brun, o Simo. Tambm indicou o local onde os corpos foram enterrados por um capataz, que escolheu para executar o servio. Sustentou que no executou os dois guerrilheiros. Matou-os porque tentavam fugir. Suas declaraes reavivaram a busca pelos corpos ainda desaparecidos de guerrilheiros, que dever ter desdobramentos nas prximas semanas. Nada haveria se a juza do caso se sujeitasse a aceitar atestados mdicos graciosos e se deixasse imobilizar pela lenincia. Felizmente ainda h integrantes do poder judicirio que se limitam a cumprir a lei, sem identificar a quem. o procedimento que d dignidade justia. Tive exemplo dessa altivez quando indiquei o ento presidente da Vale, Roger Agnelli, como minha testemunha em processo instaurado contra mim pelos ir mos Ronaldo e Romulo Maiorana Jnior. Agnelli, o executivo que por mais tempo (10 anos) dirigiu a mineradora, fugiu das audincias, mas a juza de uma vara cvel do Rio de Janeiro ameaou recorrer conduo forada se ele faltasse a mais uma audincia. Ele acabou indo, embora tenha negado a verdade dos fatos. Importa menos. O importante foi ter sido constrangido a descer da sua pompa e circunstncia para depor, como qualquer mortal.

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11 Acidente do boiadeiro: a justia se manifestaDesta vez foi providencial a ao da justia para conter os absurdos e desencontros de mais de duas semanas aps o naufrgio do navio libans Haidar no porto de Vila do Conde, que provocou a morte de 4.900 bois e reteve em seus pores 730 toneladas de leo diesel martimo. O enquadramento de tantos acontecimentos veio com a sentena (do dia 19) do juiz Ruy Dias de Souza Filho, titular da 6 vara da justia federal em Belm, mas respondendo pela 9 vara. Ele no aceitou interditar todos os peres do porto, responsvel por 80% da receita da CDP, a empresa federal que o explora, e a principal via de exportao da Amaznia. Os ministrios pblicos federal e estadual mais a defensoria pblica estadual queriam essa medida drstica para prevenir a ampliao da poluio do rio e servir de presso sobre a CDP e as duas empresas privadas responsveis pela car ga e o seu transporte para que tomassem medidas mais rpidas e ecazes. Mas era o tpico caso em que o remdio podia matar o paciente. O juiz agiu com muito maior bom senso, prudncia e rigor com as ordens que expediu. Ele exigiu que os trs rus retirem em 48 horas (a partir da intimao da sentena) as carcaas dos animais que se desprenderam do Haidar e, ainda esto espalhadas pela regio. Cobrou, no prazo de trs dias, que comprovem a definio e aprovao de plano e cronograma, nos moldes apontados pelo Ibama, para a salvatagem do leo ainda armazenado na embarcao e para a remoo do leo j espalhado pela regio; e tambm para a salvatagem (o salvamento, na linguagem nutica) das carcaas ainda contidas na embarcao. Determinou ainda o incio imediato do fornecimento, s famlias atingidas pela agresso ecolgica, de 80 litros de gua mineral por ms, para consumo direto e, em 72 horas, o fornecimento de mscaras contra p e odores, abastecimento que dever ser mantido pelo prazo mnimo de 60 dias, ou at que as trs empresas acionadas logrem demonstrar, mediante estudos tcnicos, que as guas e o ar impactados retornaram s suas caractersticas naturais, a ser comprovado em juzo ou at ulterior deliberao. Ruy Dias xou multa diria de 5 mil reais em caso de descumprimento das providncias ordenadas. Foi um conjunto de providncias satisfatrias para a emergncia, que se agravou porque ningum dispunha de um plano de ao para o caso de acidente com carga viva. Quantos milhares (ou milhes) de bois j no foram exportados pelo Par em 14 anos de atividade crescentemente intensicada? Ao que se saiba (e no se sabe tudo nesse setor), nunca houve acidente de expresso. Essa normalidade, mais produto do acaso do que da adoo de providncias acautelatrias, parece ter anestesiado a ateno e anulado a conscincia dos rgos pblicos com atuao porturia e no controle do meio ambiente sobre o risco potencial dessa atividade. Quando o desastre se consumou, numa escala chocante, todos trataram de sair atrs do prejuzo e, alguns, da reparao da conscincia pesada. O que levou a certos exageros, irracionalidades e preciosismos no tratamento do gravssimo acidente. Como privar de receita o rgo que, independentemente da apurao das responsabilidades e das culpas, teria que dispor de recur sos para se antecipar nas providncias at ser ressarcida no que for obrigao alheia (do dono da carga, do operador do embarque e da seguradora). Felizmente o juiz federal reps a situao num padro lgico e ecaz para que, uma vez indenizados os prejuzos, reparados os danos e restabelecida a sanidade geral no ambiente e nas pessoas, nalmente se decida transformar em lei um plano diretor srio e competente, que tarda de h muito, para o perigoso distrito industrial de Barcarena. Pode no parecer, mas ele j um dos mais importantes do Brasil.

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12 memriado C otidianoANUNCIANTESDos 9.948 centmetros de espao total com que O Liberal circulou pela primeira vez, em 15 de novembro de 1946 (completar 70 anos, portanto, em 2016, se seus donos no atrapalharem a cronologia), com seis pginas, 3.055 centmetros eram de publicidade. Era uma boa mdia, devida, sem dvida, ao poder do seu dono, o caudilho Magalhes Barata, em torno do qual gravitou a poltica paraense entre 1930 e 1959 (e, como resduo de poder, sobrevive sua morte at hoje). Os produtos comercializados nessa poca evidenciavam a dilapidao, pelo governo do marechal Dutra, das reservas em dlar que o Brasil acumulou durante a guerra, na ditadura de Getlio Vargas, com importaes de supr uos e gastos exagerados, sem a menor preocupao pela produo industrial nacional. A maioria das empresas ainda era controlada por portugueses e descendentes, mais de um sculo depois da cabanagem. Eram os anunciantes: 15 de novembro, a Wall Street de Belm. funcionar em 1842, grande importadora de material de construo e eletrodomsticos. No anncio, as geladeiras oferecidas eram Kelvinator, os rdios e toca-discos Zenith. Vendia bicicletas inglesas e americanas. tembro, revendedor das mquinas de escrever Underwood. fredo, importadores e exportadores (na realidade, o comrcio era feito mais com o sul do Brasil do que com e exterior), que diziam ter grandes armazns de fazendas e miudezas. Dispunham dos vapores Parintins e Simo Bitar para o transporte das mercadorias. tal, de Zeno Ferreira. Era telegrco: Passe suas tardes no Balnerio Cristal. E nenhuma outra informao. Provavelmente um pessedista querendo ajudar o partido, o PSD, do qual o jornal era o porta-voz. to ao cinema ris), especializada em cremes, sor vetes, refrescos e picolets. Aceitava encomendas a preos mdicos. a Cidade Maravilhosa est usando em tecidos de alta moda. Antonio), que possua bolsas de crocodilo, cintos, pastas, porta-notas e outros artigos em couros de rpteis. Tambm vendia couro de crocodilo por atacado e a varejo. o do Norte do Brasil, com sete lojas em Belm e uma lial no Rio de Janeiro. Garantia ter conseguido rmar-se no conceito do pblico, pelo seu sistema de comerciais. Comprando diretamente nas fontes produtoras, obtm descontos e bonicaes, os quais distribui com sua numerosa clientela, vendendo mais barato do que quaisquer outras casas. Era a nica distribuidora de fabricantes como Hild Floor Machine, Sun Oil, e Charlock Packing, e Eletric Storage Battery e outros fabricantes americanos.FESTACarlos Gonzaga, o rei do twist (a dana da moda), se apresentou na sede da sucur sal paraense do Automvel Clube do Brasil (nos altos do edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas), em 1962. Ao som da orquestra de Orlando Pereira e com Guilherme Coutinho ao vibrafone, que era novidade.ABUSADOSNo nal de 1960, a polcia decidiu iniciar uma rigorosa represso contra os indivduos que comparecem s casas de espetculo com a nalidade exclusiva de abusar de senhoras e senhoritas que ali vo, principalmente s vesperais. Uma turma especializada de investigadores seria enviada a todos os cinemas, com ordens de agir contra os Dons Juans, que sero presos e removidos para a Central de Polcia, cando disposio da Chea. PROPAGANDAEfeitos da cervejaCerveja da famlia, servida no almoo caseiro? Pois era o caso da Malzbier da Brahma, neste anncio de plena poca de guerra, em maro de 1945. Era uma cerveja com baixo teor alcolico, doce, gostosa e altamente nutritiva, por causa do malte puro. Mas o que tem a ver com a piscadela da esposa para o cavalheiro que passa ao lado e a sugesto maliciosa, Voc no sabe o que est perdendo... (no tomando as refeies)? Pois tempos de sub e mal entendidos.

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13 FOTOGRAFIAA histria omitidaEm 1983, pouco depois das 10 da noite, eu apresentava, ao vivo, um programa de entrevistas na TV Liberal, que levava o meu nome e durava mais de meia hora, num buraco aberto na programao da TV Globo por Romulo Maiorana. Havia chamadas na prpria televiso e no jornal, que tambm reproduzia as principais declaraes dos entrevistados, geralmente trs. Aqui, o secretrio municipal Paulo Elcdio Nogueira (j falecido) e o advogado (agora desembargador) Milton Nobre. No d para identicar o terceiro personagem nem me lembro dele, mas talvez seja o advogado Antonio Nogueira. Registro o fato porque ele foi totalmente ignorado no lbum que a TV Liberal produziu da sua histria, apagando dela um momento importante, mas incmodo aos sucessores de Romulo, no muito eis ao legado do pai.PLANTONISTASVeja-se s a qualidade dos mdicos que davam planto no pronto-socorro da 14 de Maro em um dia de maro de 1945: lvaro Nascimento, Vladimir Santana, SaintClair e Odmar Barata, auxiliados pelos internos Almir Pereira, Car los Costa e Leonel Boga. Nesse mesmo dia eram plantonista na Central de Polcia os delegados Poti Fernandes e Reis de Carvalho. Clio Lobato estava na ronda, com o comissrio Eimar Machado. Na perm anncia, o comissrio Matos Guerra e o escrivo Salazar.COMCIOO Partido Trabalhista Brasileiro realizou, em 1947, uma imponente marche-aux-flambeaux (em francs mesmo, apesar do trabalhismo), saindo do Largo de So Braz e percorrendo as avenidas Independncia (Magalhes Barata) e Nazar, at o Largo da Plvora (praa da Repblica) para um comcio monstro, com o qual encer rou a campanha eleitoral. REMOO Clube do Remo, ameaado de perder parte do terreno do seu estdio de futebol, por causa de dvida com a justia do trabalho, em maro de 1955 bateu a cumeeira da sua nova sede, na avenida Nazar, ainda imune aos passivos do clube. Foram madrinhas do ato as rainhas Marly Braga Rodrigues, Las Farah e Nelma Age.ENERGIACom constrangimento, a diretoria da Fora e Luz do Par, empresa estadual, anunciava, em 1965, que iria submeter a populao de Belm a um racionamento de energia. Teria que dar manuteno em uma das suas usinas termeltricas, que funcionava ininterruptamente desde 1946. Seu rendimento estava cada vez menor: seu consumo de leo aumentara 42% e prenunciava o colapso da mquina, que, de 420 gramas que precisava para gerar um quilowatt, agora estava exigindo um quilo. Belm ainda dependia de mquinas velhas e desgastadas para ter energia precria e insuciente.CNCERNo dia 17 de setembro de 1965 o navio Spencer, da companhia inglesa Booth Line, atracou no porto de Belm trazendo uma carga preciosa: uma bomba de cobalto, com a qual o Hospital Or Loyola (j ento Hospital dos Servidores do Estado) iniciaria o tratamento do cncer.Era o nico instrumento que faltava ao Hospital para dar incio ao tratamento de uma das doenas que maiores controvrsias tem provocado no mundo cientco e para a qual no foi descoberto um remdio preventivo. O aparelho foi comprado no Canad de uma firma local que venceu a concorrncia pblica internacional. O processo de legalizao da operao levou 10 anos e no perodo o valor do aparelho triplicou. Mesmo assim, a Spvea (antecessora da Sudam) assegurou os recursos necessrios para a aquisio. A bomba foi recebida no cais do porto pelo mdico Jean Bitar, diretor do hospital, Cauby Cruz, assessor jurdico da Spvea, e Coaraci Cruz e Edmundo Alcntara.

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14 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone 091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao Luiz A. F. Pinto Jornal Pessoal Miele, o artista alienadoJornalista e escritorOs jornalistas da minha gerao, quando em atividade prossional, dicilmente iam alm dos textos publicados periodicamente nos veculos em que trabalhavam. Pareciam exauridos pela tarefa de acompanhar o cotidiano e, nele, identicar as novidades que emer giam na rotina dos acontecimentos. Uma vez em casa, atividades outras, menos a escrevinhao. E uma vez aposentados, pernas pro ar que ningum de ferro. lvaro Martins exceo. Em 2011 ofereceu sociedade um livro de pesquisa histrica meticulosa, Moedas para a revoluo do povo: a soluo cabana para o meio circulante. Agora penetra, pela primeira vez, na seara da co com Fale com Celestina Para ler, meditar e chegar concluso antes chegada uma bem cuidada edio da Empreo (135 pginas). O subttulo sugere o que o romance: um jogo inteligente com palavras e enredos por um autor que leu muito (e ainda l) e quer partilhar sua inventiva. O que esperar agora de lvaro? Muito. A lamentar, seu irmo, o grande jornalista lvaro Rodrigues, no estar mais entre ns para apreciar o livro e se emocionar com o tributo que lvaro lhe prestou, justo e dignicante. Luiz Carlos Miele dizia de Walter Avancini, seu amigo de infncia e companheiro de carreira artstica, que era o mais temido diretor da TV brasileira pela esquerda (festiva). Podia usar essa denio para si. Prossional que criou um campo prprio para atuar e nele brilhou intensamente, nunca teve esse talento reconhecido pela esquerda. Era alienado, dedicado apenas a viver a vida, sem uma mensagem poltica. De certa forma foi tratado assim at a morte, no dia 14. No entanto, teve papel destacado nas origens da televiso no Brasil e no mun do do espetculo, onde, dentre as muitas virtudes que exige, nem sempre o carter est entre as necessrias. Miele se valeu do seu bom humor, da excelente memria, da vida intensa e do bom gosto, para escrever Poeira de estrelas, livro publicado em 2004, com histrias de boemia, humor e msica. Delas selecionei estas, simples e hilrias, dos primrdios da TV, para homenagear o autor e brindar meus leitores com causos que me levaram s gargalhadas e me fizeram agradecer a Deus por ter sido contemporneo de alienados maravilhosos, como Miele: Teledrama Trs Lees apresenta Orfeu do Carnaval, direo de David Conde. No nal, Eurdice Maximira Figueiredo morre. Sonoplastia sobre msica de Tom e Vincius: Mulher amada, martrio meu. madrugada, sereno dos teus olhos j correu. Eurdice devia estar completamente morta, como convm aos que morrem. Mas no. Na queda da nossa herona, parte das suas lindas coxas caram [cou ] mostra. E, enquanto a cmera avanava para o nal emocionante, Eurdice, morta, mas preocupada com a censura da poca, ajeitou a saia para cobrir aquele pingo de erotismo. No teledrama seguinte, tivemos o cuidado de encerrar o programa com um cadver que usasse calas compridas, e o escolhido foi o Francisco Negro, grande praa, grande amigo, timo ator, pssimo dentista. Pois no que, no nal da apresentao, depois de permanecer o mais morto possvel, no momento em que entraram os crditos de encerramento, o cadver simplesmente se levantou, limpando a poeira da roupa e perguntando: Ento, como que eu fui? Foi para onde todo mundo o mandou, claro. Novo corte para o canal 5 de So Paulo. A TV Paulista apresenta Hit Parade direo de Leonardo de Castro. A msica colocada em terceiro lugar Babalu na interpretao de Johnny Mathis. claro que no havia grana para os cachs internacionais, a ngela Maria estava em Portugal, o negcio era algum dublar a msica. Eu fui o escolhido.Escolhido e maquiado de mulato, vestido com aquelas blusas com as mangas bufantes. Cubano, pero no mucho. Como eu conhecia tudo de Mr. Mathis, foi mole. E eu l: Babalu, babalu ay. No m daquela maravilhosa inter pretao, algum me puxa pelo brao e me ena numa Kombi: Vai direto pro Pacaembu, que faltou um locutor comercial. O jogo era Brasil e Argentina, estreia do Pel na seleo. Assim que eu chego na cabine, me avisam: garoto, cada vez que a bola sair pela linha de fundo, voc l o seu texto. E eu l, maquiado de mulato, vestido de rumbeiro e dizendo: Pneus Goodyear, triple temperados 3t. Mas a torcida, que j me viu a cabine pertinho do pblico no perdoa: fala, veado. De volta aos estdios. No dia seguinte, foi a vez da apresentao de um drama de guerra, que mostrava a campanha brasileira na Itlia. Numa das cenas de batalha, eu, que fazia uma pequena participao como ator, tive que matar um nazista. O rie falhou na hora, quer dizer, eu mirei certinho, mas o tiro, cujo rudo deveria vir de fora da cena, no pintou. O jeito foi improvisar: Meu capito, o inimigo foi abatido. A coronhada, mas foi. Foi melhor do que aconteceu em outra srie, quando, depois de falharem faca e revlveres, um dos atores deu um pontap no bandido, que brilhantemente retrucou enquanto desabava no cho: Maldito tu que me mataste com tua bota envenenada.

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15 MEU SEBOOs livros e suas circunstnciasAt hoje, no z uma compra sequer pela Estante Virtual, o imenso portal de livros usados do Brasil na internet. Mesmo quando chego a um sebo da vida real, mantenho-me a distncia prudente da seo relacionada Estante Virtual. Sei que ali os preos sero mais de antiqurio, que comercializa livros raros, cobrando mais caro exatamente por isso, do que de um ponto de venda de livros usados. A Estante Virtual, ao congregar a quase totalidade dos sebos do Brasil num supermercado virtual, passou a prestar um servio de utilidade pblica. Gerou efeitos positivos, com seus quase inevitveis danos colaterais, como o nivelamento pelo alto dos preos, e semeou certa confuso nos critrios de avaliao dos livros. Para mim mais uma referncia, uma fonte de informao. No s porque ir pessoalmente a um sebo permite encontrar preos melhores, sobretudo ao negociar descontos com o dono, e desencavar raridade perdida no meio (ou, melhor ainda, na confuso) de livros amontoados, mas examinar sicamente o volume. Um livro que ui de uma famlia para um local de venda traz consigo a sua histria, seja da prpria famlia, se ela foi a nica proprietria do bem, como das que se sucederam na trajetria daquele volume. Ele contm ainda informaes preciosas para uma ampla pesquisa, como as anotaes margem do texto, dedicatrias, marcadores e outros objetos deixados entre folhas. Quanto mais antiga mais importante se torna essa marginalia. Provavelmente jamais realizarei um projeto que imaginei muitos anos atrs: escrever uma histria do livro atravs dele prprio, como materializao do que o circundou durante a sua peregrinao entre os homens. Mas espero, nesta seo (mais uma?!), ao menos partilhar certas descobertas com meus leitores. A primeira est contida no livro de Leila Cravo, Passagem secreta, livro memorialstico (de 105 pginas), publicado em 1979 pela editora Rocco, do Rio de Janeiro. O exemplar que comprei foi dedicado (tambm baiana) cantora Maria Bethnia, irm de Caetano Veloso: Papai [o artista plstico Mrio Cravo] a descreveu como doce, meiga e colrio dos olhos dele. Por isso que este livro alivie tambm seus olhos e acentue sua meiguice. Um grande abrao. KOESTLER O zero e o innito foi publicado (com 191 pginas) pela Editora Globo, de Porto Alegre (com liais em So Paulo e no Rio de Janeiro) num ano caprichosamente bem propcio: 1964. O principal per sonagem desse romance, escrito pelo hngaro Arthur Koestler, N. S. Rubachov, uma das vtimas dos processos de Moscou, farsa judiciria que Stlin forjou para se livrar de toda oposio e liquidar com milhares de pessoas, talvez na maior perseguio poltica da histria humana. Em 1964, quando Koestler tinha 59 anos, o Brasil daria partida a um processo semelhante na sua forma, embora sem a mesma dimenso da catstrofe stalinista. Os simulacros de julgamento, transferidos da justia comum para a militar (o tribunal especial da Rssia), sob a espada da doutrina de segurana nacional, foram idnticos. Li O zero e o innito com a mesma sofreguido febril de O iogue e o comissrio para mim o melhor de Koestler (no mesmo nvel de A Con sso de Arhur London). A edio da Globo gacha (hoje absorvida pela Globo do Jardim Botnico) saiu na excelente Coleo Catavento, em formato menor, bem cuidada, com texto integral e traduo el, confor me garantia o selo. O livro que tenho foi adquirido na Livraria Manduri, que cava (porque no existe mais) na rua da Consolao, 265, em So Paulo. Tem dedicatria para Dulce, datada de 23 de dezembro de 1982, ano da volta das eleies diretas para os governos dos Estados. Diz: Este livro o relato do conito interior que todos vivemos. Sua histria (ou estria) talvez, uma das causas principais do meu no desnimo em no ter sido vitorioso nestas eleies. Anal, o que a vitria fora de ns mesmos? Feliz Natal e Prspero Ano Novo, so os votos do (seguindose a assinatura, ininteligvel, mas com um K no sobrenome). Quem ter sido o candidato derrotado em So Paulo, que recorreu a Koestler? Sem dvida ele sabia do que estava tratando. Nascido em Budapeste e criado em Viena, Koestler foi jornalista no Oriente Mdio, depois de ter exercido vrias atividades, de agricultor a vendedor ambulante, dos dois lados do conito, dos dois lados do conito, em brasa at hoje. Em seguida foi combatente na guerra civil espanhola, resistente contra o nazismo em Paris e integrante da frente informativa das naes aliadas contra Hitler. Nunca foi da academia. Um tipo de intelectual que se tor nou ave rara no mundo atual. Retirei um pequeno trecho do livro dele na esperana de que estimule o leitor a procur-lo, mesmo que seja nos sebos: Ocorreu-lhe uma inscrio que havia lido no porto do cemitrio de Errancis, onde jaziam Saint-Just, Robespierre e seus dezesseis companheiros decapitados. Constava de uma palavra: Dormir .

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Maria Jos: poetaMaria Jos Vasconcelos Carepa atribui remotamente sua poesia ao pai, promotor pblico em Monte Alegre, onde nasceu. Ele proporcionava filha e a toda famlia constantes audies de msica clssica ao piano, assim como comentrios sobre poesias. Sempre leu e escreveu poesias, mas s se dedicou a uma atividade constante e com alguma inteno de publicao quando j tinha mais de 66 anos. Em 2008 publicou Voz e silncio, que rene, em 90 pginas, o que ela produziu entre 2001 e 2007. Embora durante esse perodo tenha submetido seus textos a especialistas da rea, felizmente essa reviso no teve o efeito de prejudicar o que mais cativante nos versos de Maria Jos: um tom espontaneamente confessional, apurado por uma sensibilidade cultivada desde a infncia. A me da ex-governadora Ana Jlia Carepa foi uma das mulheres mais bonitas do Par. uma beleza de boneca, de padro europeu, como se pode constatar pela fotograa da primeira comunho, aos oito anos, e j mulher feita, em idade no identicada. Mas no anexou essas imagens por vaidade. O livro traz tambm uma foto da velhice, que, como no ditado popular, no comprometeu a beleza de origem da personagem. Alm dos 80 anos, o que se pode esperar de uma criatura inteligente e madura que esteja em paz com o seu tempo. Com sua condio atual, Maria Jos parece estar de acordo. Seus ver sos, porm, so a manifestao da sua insatisfao com a prpria histria e suas circunstncias. Ela ama, admira, observa, vive intensamente, mas com intensidade maior nos sonhos e atravs da escrita. Certamente inibida pela condio da mulher numa sociedade patriar cal e conservadora, seus idlios se confinaram na sua cabea e no seu corao. Os melhores momentos da sua poesia so na vivncia do que foi proibido ou reprimido, na desbragada nsia de uma mulher linda e apurada por um canal de expresso adequado, que no veio ou veio tarde, ainda que no tardiamente.A atrizYon Magalhes gurou numa das mais belas cenas do cinema que vi na minha vida. Como Rosa, ela beija o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), do bando de Lampio, enquanto a cmera gira em torno deles, num trilho improvisado para que por ele corra a cmera na mo e ideia na cabea de Gluber Rocha, ao som de Villa Lobos, no lme Deus e o Diabo na Terra do Sol. O lme cou pronto exatamente em 1964 e foi exibido pela primeira vez alguns dias antes do golpe milita Algumas das vezes em que vi o lme foi para me encantar de novo pela cena intensa e lrica, forte e sublime, suja e pura. Dois grandes atores em cena e um diretor cuja imaginao cresceu tanto que tirou seus ps da terra antes que sua alma o acompanhasse. Yon morreu no dia 20, aos 80 anos, sempre bonita e irradiante. Uma das maiores atrizes brasileiras.Tia MarizaLembro cada detalhe daqueles momentos, que caram inesquecveis. Sentado ou deitado no cho, ouvia as transmisses dos jogos da Copa do Mundo de 1958 pelo rdio. Ao lado das irms Mariza e Marlia, que costuravam ou faziam alguma coisa, no sem olhar para mim e perguntar se eu queria alguma coisa, se estava bem e gentilezas outras. Eu estava no cu ao lado das duas mulheres, Mariza bem mais velha do que Marlia, sem aparentar a diferena. Era intenso meu amor platnico por elas, por sua beleza, pela ateno que tinham por mim. Eu caminhava duas quadras e meia pela rua Veiga Cabral, onde moravam a meio caminho da Padre Eutquio, dobrava esquerda, na ainda deslumbrante avenida 16 de Novembro, com suas altas palmeiras imperiais (todas derrubadas), caminhava mais um pouco e chegava ao sobrado do tio Carlos Cunha, tal qual at hoje, exceto por um muro que lhe foi adicionado. Ainda ia fazer nove anos, mas a paz daqueles tempos me permitia ir a p para todos os lugares prximos. E o melhor era aquela casa cheia de vida, alegria e carinho. Tio Carlos era um homem plural, sempre alegre, generoso, acolhedor, que o golpe de um acidente com o navio da sua empresa de navegao matou. Marlia casou e morreu cedo. Tia Mariza Leite Cunha sempre foi a viva do marido que tanto amou, independente, decidida e bonita at o m dos seus dias, abreviados na quinzena passada. Por esses caprichosos desencontros da vida, s soube da sua morte pelo convite para a missa de stimo dia, que li no jornal retardatrio algumas horas depois da celebrao. Ela se foi mansamente, como do seu estilo, mas a memria dos dias encantadores de 1958 me acompanhar at que toque a chamada para mim.