Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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JP: 28 ANOS A HISTRIA E ALACIDAGORA LULA o a Quase todos os dias o Dirio do Par publica pelo menos uma notcia na qual o protagonista o senador Jader Barbalho. Nada a estranhar: o jornal de propriedade do lder do PMDB no Par. Ainda assim, at algum tempo atrs isso no acontecia. Por um motivo simples: no havia o que relatar sobre as atividades do ex-governador. Ele evitava apario em pblico e iniciativas que provocassem a ateno da sociedade. Preferia atuar sempre nos bastidores, sem aparecer no plenrio do Senado, muito menos ocupar a sua tribuna. Essa situao mudou. Agora, alm de manter correspondncia ativa com os integrantes do governo federal e de outras instncias do poder, procurando assumir a paternidade, a coautoria ou a ressonncia a causas populares, ele vai a solenidades pblicas, d entrevistas e at discursa. Abandonou a antiga estratgia, que executou por mais de 10 anos, de se tornar uma sombra ou simplesmente desaparecer. Agindo assim, evitava se expor a novas revelaes e crticas sobre o seu enriquecimento ilcito, tema monocrdio na imprensa nacional a seu respeito. Parece que Jader Fontenele Barbalho voltou a ser poltico em tempo integral e dedicao exclusiva, como antes de bater boca no SeJADER BARBALHOA volta por cima?Livrando-se dos muitos processos instaurados na justia, Jader Barbalho poder voltar ao topo do poder poltico no Par? Parece ser o objetivo da sua atual ofensiva pela notoriedade e a presena pblica.

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2 nado com Antonio Carlos Magalhes, derrot-lo numa disputa poltica e ter que renunciar em seguida para no ser cassado, em 2001. Ao longo desse inferno (e inver no) astral, que prenunciava o seu m, Jader foi preso, processado, ameaado por nova priso, atacado de forma inclemente e sistemtica pela imprensa e por seus adversrios, viu seu estoque de votos emagrecer e amargou derrotas de aliados e do principal candidato a suced-lo, o lho, Helder Barbalho, derrotado por Simo Jatene na eleio para o governo paraense, em 2014. A conjuntura mudou e, com ela, o proscrito de ontem. Mais uma indicao de mudana foi dada duas semanas atrs, quando o Supremo Tribunal Federal arquivou mais trs aes penais contra o senador. O ministro Edson Fachin reconheceu que essas aes foram alcanadas pela prescrio. A demora no seu processamento foi tal que chegou ao m o prazo para a aplicao da justia estatal. Em consequncia, o ru no poderia mais ser punido pelo devido processo legal. A denncia foi recebida em fevereiro de 2002, antes de Jader completar 70 anos. Logo, o recebimento da denncia ocorreu em momento no qual a prescrio ainda era calculada pelo prazo normal. Com a nova idade ele passou a ter direito ao benefcio da reduo do prazo prescricional metade. A ao foi aberta em Tocantins em 2002, mas chegou ao Supremo em 2004. Seu primeiro relator foi o ministro (j aposentado) Carlos Velloso. Depois, o processo foi remetido para Ricardo Lewandowski. Como ele assumiu a presidncia do Supremo, o caso foi para Fachin. No total, desde o ano passado, sete aes contra o ex-governador do Par chegaram ao m no Supremo devido mesma causa: a lentido na sua instruo em juzo. Nos trs ltimos processos arquivados, o ex-ministro era acusado de desvio e emprego irregular de verbas pblicas e de crimes contra o sistema nanceiro nacional. Ele foi responsabilizado por supostos desvios de verbas em projetos da iniciativa privada aprovados pela Superintendncia do Desenvolvimento para Amaznia nos anos de 1990, principalmente quando a chea da Sudam era ocupada por Arthur Tourinho Neto, indicado por Jader. Antes da deciso do ministro do STF, o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, tambm acatou o argumento da defesa de que os crimes de peculato, formao de quadrilha, estelionato e lavagem de dinheiro, pelos quais Jader foi denunciado pelo prprio Ministrio Pblico Federal, j estavam prescritos, no podendo mais ser punidos. Janot opinou pelo arquivamento dos autos. No ano passado, a motivao do arquivamento de outras duas aes penais e um inqurito, tambm relacionados a desvio de recursos da Sudam, foi de que Jader completou 70 anos em outubro. A partir dessa idade, o prazo de prescrio cai pela metade, o que automaticamente tornou prescritos os crimes que lhe foram imputados, ocor ridos no comeo dos anos 2000. Neste ano, mais aes perderam sua validade legal. Em maro, a ministra Rosa Weber determinou o arquivamento de um inqurito que, desde 2003, investigava o senador por trco de inuncia. Em maio, o ministro Gilmar Mendes tomou a mesma providncia em ao penal por peculato e lavagem que apurava suposto pagamento de propina para liberao de recursos do Fundo de Investimentos da Amaznia, administrado pela Sudam, a empresrios. J em agosto, a idade do ru levou a Primeira Turma do Supremo a mandar ar quivar uma ao na qual o senador era acusado de ter autorizado, em 1988, na condio de ministro da reforma agrria no governo Jos Sarney, pagamento em montante supervalorizado pela desapropriao de uma fazenda no municpio de Parintins, no Amazonas. A denncia foi formulada originalmente por este Jornal Pessoal. A idade mais avanada e uma justia seduzida pela lentido nos delitos de colarinho branco vo, dessa maneira, limpando o pronturio de Jader Fontenele Barbalho. Mais um pouco e seus assentamentos legais estaro inteiramente limpos. Seu retorno ao Senado, 10 anos depois da renncia sua cadeira, no ltimo teste eleitoral, em 2010, foi sofrido. Ele obteve 1.799.762 votos, mas no foi o mais votado desta vez, cando em segundo lugar, depois de Flexa Ribeiro, do PSDB. Sua posse foi bloqueada pela justia eleitoral com base na lei da cha limpa, por causa da sua condenao em instncia recursal. Mas em 2011 o STF o liberou para assumir o mandato. O senador pode argumentar em defesa da sua liderana que quase 1,8 milho de eleitores o escolheram, apesar de saberem que ele poderia perder o mandato. Por isso, sua votao no foi computada no boletim ocial da justia, cando espera de deliberao superior, que acabou vindo do Supremo. Certamente o voto til passou ao largo do seu nome. Esse fato poderia servir de garantia de que conseguir renovar o mandato em 2018, favorecendo-se do arquivamento de todos os processos instaurados na justia. Ele poderia fazer dobradinha com o lho, dando-lhe reforo especial para a conquista do governo, que lhe escapou no segundo turno da eleio de 2014, depois de ter vencido a primeira disputa. Ser ento que Jader Barbalho, aos 74 anos, dar a volta por cima? Mais uma vez, no ser fcil. Enquanto os processos em curso so extintos, surge a perspectiva de novos contenciosos judiciais. Seu nome comea a esquentar como suspeito de se ter beneciado da cor rupo na Petrobrs. A edio da revista poca desta semana diz que ele pode ter tido sua cota de dois milhes de dlares nos US$ 15 milhes de propina paga pela Odebrecht para conquistar a conta da reforma da renaria de Pasadena, nos Estados Unidos, junto com seu colega peemedebista Renan Calheiros, presidente do Senado, e o senador petista Delcdio Amaral. A informao teria sido prestada aos investigadores da Operao Lava-Jato pelo ex-diretor internacional da Petrobrs, Ernesto Cerver, que ainda no conseguiu fechar um acordo de delao para aliviar sua condenao, a 17 anos de priso. Isso porque Fernando Baiano, operador das bancadas do PMDB no Senado e, em menor grau, na Cmara, prometeu entregar as contas dos desvios de dinheiro de Pasadena e das sondas contratadas pela rea internacional da Petrobras. A estariam as provas contra Jader. O ex-governador negou tudo para a revista e sua argumentao tem sentido, mesmo que no seja suciente para assegurar sua inocncia. s vsperas da eleio de 2006, quando os negcios teriam sido fechados, ele era ainda um personagem oculto, que se candidatara apenas a deputado federal. Deixara de ser poltico da linha de frente. Teria prestgio e inuncia para prestar favorecimento e se credenciar propina, que estava sendo negociada na alta cpula? Por enquanto, os indcios contra ele so vagos, mas foram o suciente para coloc-lo negativamente na manchete de capa de O Liberal, que certamente vai fazer o assunto render. Anal, trata-se de Jader Barbalho, em quem esse tipo de matria gruda com facilidade. Ele conseguir se livrar desse estigma? o seu maior e mais difcil desao.

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3 A passagem de Alacid pela histria do ParAlacid da Silva Nunes morreu no dia 5 de setembro, de infarto agudo, a pouco mais de dois meses de completar 91 anos. Acompanhei sua carreira poltica, iniciada em junho de 1964 meio sculo atrs, portanto quase desde o incio, e pude testemunhar-lhe o m. Utilizarei o artigo que escrevi para o blog como fonte de testemunho pessoal e na prxima edio aprofundarei a anlise, que exige mais tempo e espao para situar o personagem no campo prprio em que ele se introduziu: o da histria. Quando do nosso primeiro contato pessoal, em 1966, ele iniciava o primeiro dos seus dois mandatos como gover nador, para o qual ascendeu atravs de eleio direta, no ano anterior, com 70% dos votos vlidos. Sua vitria sepultou a gura poltica do marechal Zacarias de Assuno, mais um militar na histria poltica do Par. Foi a ltima eleio direta para cargo de chea do executivo na escala descendente do regime militar at a escurido, que adquiriu sua colorao denitiva e, depois, foi sendo degradada at 1985, partindo do AI-5, no eclipse de 1968. Cobri uma solenidade qualquer, na qual a gura do homem mau, que Alacid ainda usava, se combinava com o dono de uma votao que lhe era prpria e legitimava a formao de um novo grupo poltico, dos alacidistas, em aliana com os adeptos de Jarbas Passarinho, os jarbistas, que subiram ao poder derrubando do topo os baratistas, em mais um movimento de sobe -e-desce da gangora paraense. Poucos meses depois meu pai, Elias Pinto, venceu Ubaldo Correa, com dois teros dos votos vlidos, na disputa pela prefeitura de Santarm, o segundo municpio do Estado. O partido do gover no, a Arena, prosseguiu no massacre eleitoral iniciado no ano anterior, mas essa vitria do MDB, a nica de porte, cou entalada na garganta de Alacid. Ele viu se frustrar seu desejo de dar uma demonstrao de fora maior do que a de Passarinho em 1965, que o elegera e assumira ascendncia sobre ele (agora na poltica, antes na carreira militar). Eleito, papai tentou uma coexistncia pacca com o governador. Alacid o recebeu em palcio. Parecia ter respondido bem iniciativa. Na verdade, porm, endossava as manobras comandadas por Ubaldo, que derrotara meu pai em 1958, para depor o adversrio. Uma inspeo do Tribunal de Contas e o afastamento provisrio do prefeito eram as senhas para o golpe, que nem uma reintegrao judicial no cargo foi respeitada. Uma tropa de 150 PMs, comandada pelo sanguinrio tenente (e delegado da polcia civil) Lauro Viana, impediu que cinco mil pessoas em passeata repusessem o prefeito na sua cadeira, que esquentou por apenas nove meses, at seu afastamento pela maioria da Cmara (nove dos 12 vereadores eram da Arena). Foi um combate sangrento, com trs mortes de pessoas do povo. A mais tardia delas foi a do brigadeiro (da reserva da Aeronutica) e deputado federal da prpria Arena, Haroldo Veloso, personagem histrico das revoltas de Jacareacanga e Aragaras (contra o presidente JK), que liderou a passeata, ao lado do meu pai. Ele s escapou dos tiros que lhe foram dirigidos porque um grupo de mulheres lhe deu cobertura, o mdico Valdemar Pena impediu a entrada dos militares em sua clnica de sade, onde papai se homiziara, e uma tropa da Aeronutica, comandada pelo futuro brigadeiro Paulo Vtor da Silva, o resgatou, apontando metralhadoras para os fuzis dos PMs. Tenho a transcrio de todas as mensagens de rdio trocadas entre Belm e Santarm, que documentam o que sempre se soube: a ordem era impedir que o prefeito reassumisse, de qualquer maneira, mesmo atravs da violncia. A primeira saraivada de tiros foi para o ar. A segunda foi na direo da massa. O soldado que feriu Veloso com o golpe de baioneta, dado quando a vtima j estava no cho, ferida, sem condies de defesa, gritou para o delegado Lauro Viana: misso cumprida. Outro soldado repetiu o aviso quando um popular foi morto. Ele se parecia com o meu pai. Muitos anos depois, cruzando com o tenente no frum criminal de Belm, parei-o, me apresentei e, sob seu olhar duro e hostil, cobrei-lhe uma verso. Ele me encarou e respondeu: ainda cedo. Virou-se e foi embora. Nunca cobrei esse depoimento de Alacid Nunes, nem quando conversamos em o, duas ou trs vezes. Ele achava que eu podia estar querendo me vingar. Tratava-me bem, mas sempre desconado. No cava vontade ao meu lado. Partilhava com meu pai a presuno de que eu estaria envolvido emocionalmente pelo episdio sangrento at o m. Mas a objetividade que me impus ao me tornar jornalista prossional falou sempre mais alto, algo que nenhum dos dois personagens, de cada lado do front, entendia e meu pai no aceitava. A objetividade, que o compromisso com os fatos, me ensinou a relativizar o discurso e mesmo a prtica dos polticos. Circulando entre eles, ouvindo-os e checando o que diziam, vi aumentar a distncia entre os dois planos. o que d dinamismo histria, ainda que contribua tambm para o oportunismo dos seus autores, que preciso mostrar para o distinto pblico. O golpe militar de 1964 permitiu que seus o tenente-coronel Jarbas Passarinho e o major Alacid Nunes saltassem de uma posio intermediria na tropa para o comando da poltica no Par. Passarinho j tinha ento no seu currculo uma participao assinalvel na poltica nacional, que faltava a Alacid. Mas ambos, a partir do impulso dado pela fora das armas, formaram seu prprio capital de votos, sem deixar de aproveitar as oportunidades que ainda tiveram graas s ferramentas excepcionais da ditadura. Em 1982 mediram foras, cada um sua maneira: Passarinho, com a for a federal; Alacid, com a mquina estadual. fruto da desateno creditar a Alacid protagonismo na abertura democracia. Ele s apoiou Jader Barbalho ao governo do Estado, contra o empresrio Oziel Carneiro, para derrotar o antigo correligionrio, que se tornou seu maior inimigo. Achava que, quatro anos depois, voltaria ao poder, mas Jader tinha contas a acertar do passado e descartou o aliado essencial, to logo pde. O alacidismo foi se desmilinguindo e o lder acabou sofrendo uma rasteira de um poltico iniciante, Vic Pires Franco, que lhe retirou a cadeira permanente na Cmara Federal, antecipando-lhe o m. Ao invs de desfrutar dos benefcios que o apoio a Jader lhe deviam proporcionar, Alacid contribuiu para o surgimento de um neobaratismo, com o qual a roda da histria voltou no tempo e o Par, na histria. Pode ser um epito justo para Alacid da Silva Nunes.

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4 H quase uma dcada e meia o sinal de alerta, intensamente amarelo e, logo em seguida, fortemente vermelho, acendeu para o Partido dos Trabalhadores. Quando do assassinato do prefeito de Santo Andr, Celso Daniel, em 2002, os sinais de promiscuidade entre poltica e negcios par ticulares, receita partidria e propina, atos administrativos e trco de inuncia, se misturavam e se confundiam. H uma hiptese de crime comum para o assassinato, transformada em verdade ocial. Mas a verso de atentado poltico tem ingredientes que obrigam a uma reviso luz dos fatos atuais. Celso Daniel tinha 50 anos, 10 dos quais como prefeito da importante cidade do ABC paulista, vizinha ao municpio que marcou a origem poltica de Lula e do PT, reeleito para um terceiro mandato. Era um dos mais antigos e experientes dirigentes polticos petistas a alcanar o poder executivo, deixando de ser apenas um oposicionista parlamentar ou militante social. Os documentos deixados por Celso Daniel, que era coordenador de campanha nacional do PT, mostram que ele investia justamente contra o desvio de recursos obtidos atravs de contatos junto a doadores potenciais de recursos para o partido. Ao invs de irem parar no caixa partidrio, vazavam para bolsos particulares. Dirigentes petistas comeavam a se corromper. A cpula desconhecia a formao desse fenmeno, de desnaturao das bandeiras de luta do principal e o mais ideolgico dos partidos de oposio no Brasil? A ttica de declarada alienao dos fatos subterrneos e dos bastidores da vida pblica, adotada por Lula com uma constncia e deter minao impressionantes, no convence, a no ser aos fanticos ou aos que por diversos motivos se recusam a ver os fatos. O crescimento do volume de dinheiro em circulao pelas engrenagens do partido, cada vez mais prximo do poder nacional, saltava aos olhos e transbordava do sigilo e da condencialidade dos personagens em episdios patticos, como o do dinheiro escondido na cueca. O erro monumental desses dirigentes partidrios em processo de corrupo foi achar que a bandeira do PT os ocultaria sempre. a sndrome de Harry Potter, o per sonagem da co que se tornava invisvel quando cava debaixo da sua capa mgica. Essa iluso fez os petistas corrompidos perderem o senso do perigo. Julgaram-se inatingveis. Sempre podiam alegar que estavam defendendo a causa. De escndalo em escndalo, de agrante criminal em agrante criminal, o brao institucional do Estado chega agora ao colarinho do seu principal lder, Luiz Incio Lula da Silva. quase inverossmil a forma de reagir que ele adotou, na sexta-feira da semana passada, ao ser procurado em Buenos Aires, onde estava, por jornalistas. Os reprteres queriam saber como ele recebia a informao, divulgada na vspera, atravs do portal da revista poca de So Paulo, de que o delegado da Polcia Federal, Joslio Azevedo de Sousa, pedira autorizao ao Supremo Tribunal Federal para ouvir o ex-presidente da repblica na investigao da Operao Lava-Jato. A razo da necessidade do depoimento: Lula pode ter sido beneciado pelo esquema em curso na Petrobrs. Eu no sei como comunicaram a voc e no me comunicaram. uma pena, reagiu Lula. Uma reao sutilmente inteligente: busca comprometer e tornar suspeito o autor da convocao, lanando sobre ele a suspeita de ter sido o responsvel pelo vazamento da informao e questionando o processo que o atinge, por ter possibilitado imprensa saber do fato antes que ele fosse citado. A ttica foi complementada pelo PT ao destacar que o pedido do depoimento foi feito por um delegado individualmente e no pela corporao.A estratgia v. A origem do vazamento da informao pode ser suspeita e deve ser investigada. Mas esse incidente de percurso no autoriza o ex-presidente a se declarar vtima de uma trama (ou conspirao). No curso do procedimento, a partir da chegada do ofcio ao STF, a incondncia podia acontecer de modo natural sem atropelar a tramitao regular do pedido. O relator do processo, ministro Teori Zavascki, submeter a solicitao ao Procurador Geral da Repblica antes de decidir se autoriza ou no a oitiva de Lula. Pode ainda desqualicar o pedido e remet-lo a uma instncia inferior da justia, j que, na condio de ex-presidente, Lula deixou de ter foro privilegiado. Quanto ao delegado, ele exerceu sua competncia quando enviou seu requerimento diretamente ao relator dos processos derivados da Operao Lava-Jato, sem submet-lo ao seu superior hierrquico. Como presidente do inqurito, um dentre tantos que esto sendo realizados a partir das aes judiciais em torno da corrupo na Petrobrs, ele tem autonomia para agir assim. Independentemente dos desdobramentos da sua iniciativa, que trato neste momento (sbado, 12), sem poder prev-los at a edio deste jornal, h um aspecto relevante no ofcio do delegado, a ressaltar o ineditismo da corrupo na qual mergulhou o PT em relao aos extensos e numerosos antecedentes semelhantes na histria brasileira (e universal). O delegado da PF, depois de analisar os volumosos autos do inqurito, concluiu estar diante de um esquema de poder poltico alimentado com vultosos recursos da maior empresa do Brasil, que durou uma dcada e abrangeu seis dos oito anos do governo Lula, alm de todo o primeiro mandato da sucessora que ele escolheu solitariamente e imps a todos, inclusive ao pas. No constitui nenhuma novidade sua observao de que, nesse perodo, s conseguiam ocupar cargos de direo na estatal as pessoas que contassem com respaldo poltico, do PT e dos seus principais aliados. Era um acerto de segundo ou terceiro escalo? o que os defensores do governo argumentam. O delegado Joslio de Souza, porm, diz que, dentro da lgica desse esquema, os indcios de participao devem ser buscados no apenas no rastreamento e identicao de vantagens pessoais por ventura obtidas pelo ento presidente, mas tambm nos atos de governo que possibilitaram que o esquema se institusse e fosse mantido, j que, na sua avaliao, no se trata apenas de um caso de corrupo clssico. um esquema global de poder. Ele assumiu um tamanho tal que o delegado informa ter comeado em 2011 um conito interno no governo Dilma entre dois grupos do Partido Popular, um dos mais ativos na base aliada do PT e dentro da Petrobrs, que disputavam a indicao para a diretoria de abastecimento da estatal: O objetivo seria concentrar o recebimento da propina extrada de concorrentes. No mesmo dia em que a revista poca divulgava com exclusividade o pedido do depoimento de Lula, o jornal Nacional da TV Globo vazava trechos do depoimento do chefe do cartel de 27 empresas que atuavam na Petrobrs. Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, disse que em 10 anos, a partir de 2004, pagou entre doaes ociais e entregas em dinheiro vivo 20,5 milhes de reais. At 2008, apenas a representantes dos partidos situacionistas e seus intermedirios. S a partir da, tambm a funcionrios da Petrobrs. Segundo o relato do empreiteiro, Joo Vaccari Neto, tesoureiro do PT, j ia conversar sobre os pagamentos com o conhecimento completo da situao, tendo detalhes da obra, do valor e tendo conhecimento de que a UTC havia vencido o contrato. Logo, com informaes e cobertura dadas a partir do alto, acima dele. Quem estava nessa altura? a resposta que a partir de agora a continuao da investigao ir buscar. Dependendo da sua fundamentao, ela ser o atestado de bito do PT como alternativa de verdadeira mudana no Brasil.A corrupo do PT chegar at Lula?

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5 O m do extrativismo: uma terra devastadaO livro que a jornalista americana Naomi Klein acaba de lanar pela prestigiosa editora Simon & Schuster (This Changes Everything) serviu de mote para uma das melhores matrias que li recentemente na grande imprensa, que Amelia Gonzalez escreveu e o portal de notcias G1, da Globo, publicou, sob o ttulo Crise do clima pe em xeque o modelo do extrativismo. Nauru uma ilha com apenas 21 quilmetros quadrados no Oceano Pacfico. No pode ser comparada ao Brasil, um dos maiores pases do mundo, com 8,5 milhes de km2, nem Amaznia, com dois teros desse territrio. Mas serve de alegoria fantasmagrica e assustadora para questes que se distinguem profundamente, mas sob o mesmo contexto: a explorao desenfreada e empobrecedora dos recursos naturais da regio, em especial o minrio e, em particular, a exausto do minrio de ferro de Carajs. A escala dessa explorao j gigantesca, de 130 milhes de toneladas, mas vai quase dobrar a partir do prximo ano, quando entrar em operao a mina de Serra Sul, o ferro mais precioso da coroa de rochas mineralizadas dessa regio do Par, rica e abandonada, atrasada e na vanguarda do colonialismo mundial. As distores e bizarrias de Nauru, a ilha da Micronsia, se assustarem os leitores, talvez tenham o efeito pedaggico de faz-los se interessar o que est a 550 quilmetros de Belm, mas parece estar a anos-luz da capital dos paraenses. As condies especficas de Nauru diferem totalmente, na escala e na qualidade, das que prevalecem em Carajs. Mas, guardadas as diferenas, essa histria, que j se aproxima de um final infeliz, serve de alerta ao que nos espera, se continuarmos a esperar as decises que tomam por ns e em nosso nome. Compactei o texto de Amelia Gonzales para destacar os aspectos do modelo extrativo que se aplicam aos dois mundos e a todos os mundos nos quais ele prevalece. Mas recomendo a leitura da ntegra do artigo, de rara densidade nos tempos atuais. Nauru a menor repblica do mundo. uma ilha que ca na Micronsia, banhada pelo Oceano Pacco, e tem cerca de dez mil habitantes espalhados em 21 quilmetros quadrados. Os moradores de Nauru ostentam hoje o primeiro lugar num ranking que no traz nenhum orgulho: so as pessoas mais gordas do planeta. H vrios males que podem acontecer por causa da obesidade. E a populao adulta de Nauru est sofrendo com um deles, a diabetes 2, doena causada por excesso de alimentos ricos em corantes, conservantes e outros compostos necessrios para conservar comida. Os nauruenses comem, basicamente, produtos importados e processados Nas dcadas de 70 e 80, quando Nauru tornou-se independente da Austrlia, a ilha estava esbanjando riqueza. Era mais ou menos o que hoje Dubai para o mundo, e tinha o maior Produto Interno Bruto entre todas as naes. Seus habitantes tinham atendimento mdico gratuito, educao, e no havia sem-tetos. Os lares tinham ar condicionado e o povo, muito festeiro, costumava dar presentes exticos e caros, muito caros, como almofadas cheias de dlares, para crianas. Toda essa riqueza derivava de um estranho fato geolgico. Algum descobriu naquele territrio pedras feitas de fosfato. Os compostos de fosfato so constituintes naturais de quase todos os alimentos e sua importncia fundamental para o processamento de determinados produtos alimentcios. Com a descoberta, vieram as empresas interessadas em lucrar com o recurso. Foi quando Nauru comeou a se desenvolver numa velocidade fora de qualquer parmetro razovel. As empresas continuaram minerando fosfato de forma gananciosa durante 30 a 40 anos. Parecia mesmo que o objetivo de Austrlia e Nova Zelndia era tirar todo o composto da ilha at que ela se transformasse praticamente numa concha vazia, escreve a jornalista. No que os dois pases tivessem algum tipo de inteno genocida. Era apenas o fato de que a morte de uma ilha, que poucos sabiam sequer que existia, parecia um sacrifcio tolervel em nome do progresso representado pela agricultura industrial, conta Klein. Em 1968, os nauruenses decidiram tomar conta de seu pas, tornaram-se independentes da Austrlia e puseram uma grande soma da receita de suas mineraes em um fundo, de empreendimentos imobilirios, que os governantes da poca acreditavam ser estvel. No deu certo, e a riqueza da minerao do pas foi desperdiada. Enquanto o governo tentava segurar um pouco a riqueza das mineraes, dcadas de dinheiro fcil acabaram por minar a conscincia dos polticos, e a corrupo se alastrou. Ao mesmo tempo, a populao passou a beber muito e o alcoolismo foi, durante muito tempo, a primeira causa de morte. A obesidade veio como resultado de uma nutrio baseada apenas em alimentos processados, j que grande parte do territrio do pas estava sendo absor vido pela minerao, praticamente no havia terra para plantar. Nos anos 90, Nauru estava to desesperado por moeda estrangeira que perseguiu alguns esquemas de enriquecimento fcil distintamente obscuros. Muito ajudado pela onda de desregulamentao nanceira, o pas tornou-se um paraso para lavagem de dinheiro, escreve Klein. Tudo isso resultou que atualmente Nauru vive uma falncia dupla: 90% de seu territrio foram degradados pela minerao, o que uma falncia ecolgica; e tem uma dvida de pelo menos 800 milhes de dlares, o que o leva a uma falncia nanceira. No caminho para tentar se livrar, ao menos, da falncia nanceira, o governo de Nauru fez um acordo com a Austrlia em 2000. O acordo envolvia

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6 os refugiados, que j naquela poca vinham mostrando ao mundo que no se pode tratar seres humanos como se fossem lixo, sem consequncias. Assim que essas pessoas desembarcavam na Austrlia, elas eram levadas para Nauru e, l, depositadas num campo que, em 2013, foi considerado pela Anistia Internacional como o mais cruel e degradante jamais visto. Com tudo o que aconteceu, os lderes da Ilha teriam direito de culpar no s seus colonizadores, como os investidores e at os pases ricos, cujas emisses agora ameaam a pequena nao de desaparecer, j que o nvel dos oceanos vai subir. Muitos zeram isso. Mas a maioria da liderana de organizaes do pas decidiu que Nauru seria uma espcie de alerta contra o aquecimento global. Escreve Klein: A maior lio que Nauru tem para oferecer ao resto do mundo sobre a mentalidade que permitiu, a ns e a nossos ancestrais, nos relacionarmos com tanta violncia contra o planeta. No s cavando e minerando tudo o que achamos necessrio como deixando para trs todo o lixo desta produo. Esta falta de cuidado o centro do modelo econmico que alguns cientistas polticos chamam de extrativismo, termo usado para descrever economias baseadas em remover sempre mais matrias primas da terra, geralmente para exportar aos colonizadores, que vo agregar valor. Tornouse um hbito acreditar que modelos econmicos baseados em crescimento sem fim podem ser viveis. Todos os governos, mesmo os no capitalistas, abraam o modelo de empobrecimento baseado na extrao de recursos e esta lgica que as mudanas climticas pem em questo. Deve haver algumas outras histrias parecidas com a da ilha Nauru. So casos que valem a pena serem explorados com mais profundidade, porque ilustram muito bem a extenso dos desaos da crise climtica. So desaos que atingem no s o modelo capitalista, mas os discursos que embasam o crescimento-a-qualquer-custo e o progresso, dentro dos quais estamos todos, de uma maneira ou de outra, ainda presos.Os difceis negcios paralelos do empresrio da comunicaoA nica marca que destaca o Angelina Maiorana, prdio de 19 andares localizado na travessa Piraj, no bairro da Pedreira, que promoveu a maior campanha publicitria da histria de um lanamento imobilirio no Par, talvez no Brasil e, provavelmente, no mundo. Muitas dezenas de pginas foram usadas para anunci-lo em dois jornais dirios. Nenhum outro concor rente poderia acompanhar esse exem plo. E quem o deu s pde fazer essa campanha sem igual porque no pagou um centmetro de espao publicitrio. Romulo Maiorana Jnior, o dono da incorporadora (a Roma) responsvel pelo edifcio residencial, tambm um dos proprietrios do grupo de comunicade sua emissora de televiso, a Liberal, Rede Globo. No se sabe como essa enxurrada de anncios foi contabilizada nos livros de escriturao dos jornais O Liberal e Amaznia, mas ambos no receberam um tosto do anunciante. Como a Roma apenas de Romulo Jnior, os quatro dos seus seis irmos que ainda possuem aes da empresa (dois j comercializaram suas cotas com o prprio Jnior) no tiraram nenhum proveito desse favorecimento individual. Nenhum dos integrantes do mercado imobilirio reagiu a essa evidente concorrncia desleal, certamente por receio de represlias nos veculos de comunicao que uma atitude dessas poderia provocar. Mas se aceitaram passivamente serem lesados de tal forma, encontraram sua compensao indiretamente: mesmo com uma cam panha de promoo recorde, Romulo Jnior ainda no conseguiu comercia lizar todas as unidades do seu primeiro empreendimento imobilirio. Muitos anncios depois, ainda restam dois apartamentos por vender h meses.Se o sucesso no foi pro porcional ao investimento, j existem comprado res passando em frente seus imveis antes da inaugurao do prdio. o caso de Mrcio Holanda, que desde 27 de julho tenta transferir seu belssimo apartamento. O valor da transferncia, que era de 128 mil reais, baixou, em menos de dois meses, para R$ 125 mil, ainda sem bre essa falta de nimo, alm da crise imobiliria, o fato de que os 87 metros quadrados de rea til do imvel, com trs quartos (um deles sute) do direito a apenas uma vaga de garagem. Mas tambm h um fator para explicar o contraste entre a abundncia promocional e o efeito discreto das vendas depois de tanto tempo: um nmero crescente de pessoas mostra-se temerosa de fazer negcio com o maior empresrio da comunicao social do norte do Brasil. Romulo Jnior no se tornou famoso exatamente por ser um bom pagador. Essa marca complementada por seu arraigado hbito de impor permutas de publicidade a quem negocia com ele, como faz com anunciantes poderosos, como a Unimed e a Celpa. Alm disso, usa seus jornais para atacar quem o desagrada ou contraria, mesmo que seja custa de ofender os fatos, ou de logo se contradizer, se vier a ser atendido e se sentir satisfeito. o que explica o sucesso ainda mais opaco com o segundo e maior empreendimento imobilirio, quase na orla da cidade, no valorizado bairro do Umarizal. As lajes do edifcio sobem lentamente, mas nem assim as adeses seguem esse ritmo. Parece que, mais uma vez, pode se apresentar no horizonte de Romulo Jr. o estigma de que o negcio que para ele d certo o que o pai, fundador do imprio de comunicao, Ao invs de cuidar bem dessa galinha dos ovos de ouro, o principal herdeiro a sujeita ao risco de negcios paralelos sem a dimenso do empreendimento original de Romulo Maiorana.

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7 JORNALISMO DE MEIO SCULOO maior bandeirante da AmazniaFinalizo o ABC de Pedro Teixeira, iniciado na edio passada. texto de uma edio especial de A Provncia do Par de 1966, dos 350 anos de Belm e da inaugurao da esttua do bandeirante portugus.FAMLIA Pedro Teixeira era casado com Ana da Cunha. Tinha dois irmos. Em deles se tornou religioso no Par e o outro permaneceu em Portugal. Guerra Na jornada de Francisco Caldeira Castelo Branco para a conquista do Gro-Par, Pedro Teixeira o posto de alferes. Combatendo os invasores hereges, se sobressai contra os ingleses, tomando-lhes o forte de Torrego. Teve o mesmo sucesso contra os redutos do Xingu, em Mandiutuba e no Cajari. Em todas as suas exploraes, trouxe trofus das vitrias. Tambm a ele foi atribuda a primeira batalha naval em guas do Amazonas. Investiu contra o invasor e o dominou, trazendo para o forte portugus os canhes e suas munies. Assim fortale ceu a defesa da povoao do Mairi. Honrarias Em 1640, Felipe IV, da Espanha, como prmio pela sua bandeira a Quito, concedeu-lhe o ttu lo de marqus de Aquilla Blanca. Mas no chegou a us-lo porque a revoluo portuguesa livrou a sua ptria da submisso a Castela. Sendo um patrio ta portugus, jamais aceitaria tal distino dos opressores de Portugal, em nome do qual anexara a Amaznia. ndios Outra distino importante recebeu Pedro Teixeira no mesmo ano. Esta representava, na poca, uma ver dadeira fortuna: foram-lhe dados 300 casais de ndios de administrao, que lhe pertenceriam por mais trs vidas, isto at os seus bisnetos. Pedro Teixeira recusou a doao, que representava a escravizao desses 300 casais. Jesutas Para comprovar sua estada na expedio, o padre Cristoval de Acuna pediu e obteve de Pedro Teixeira uma certido que, passada em Belm, em 3 de maro de 1640, de Sua Majestade, e por particular proviso despachada pela Real Audincia de Quito, veio em minha companhia desde a dita cidade, at o Par, o Reverendo Padre Cristoval de Acuna, Religioso da Companhia de Jesus, com seu companheiro o Reverendo Padre Andrs de Artieda, em cuja viagem cumpriram ambos, no tocante ao servio de Sua Majestade. O original foi escrito em espanhol. Acuna fez um precioso relato sobre a viagem. Lder Pedro Teixeira possua qualidades inatas de grande lder, alm de vastos atributos morais. Seu domnio sobre as massas era enorme. Um grande exemplo dessa liderana pessoal a prpria viagem expedicionria a Quito. Nela tomaram parte mais de mil pessoas, viajando em grandes canoas, durante 24 meses, tempo dispendido na ida e na volta. Durante todo esse tempo, Pedro Teixeira comandou os expedicionrios, no permitindo que, mesmo diante das condies adversas da viagem (falta de alimentos, embarcaes rsticas, demora na viagem e sem o prenncio da chegada ao destino), os viajantes se amotinassem, como chegaram a pretender. Enfrentando todos os problemas da dura expedio e as reclamaes da tripulao, e chegando a Quito sem qualquer motim, ele demonstrou sua condio de formidvel comandante. Missionrios O retorno de Pedro Teixeira de Quito, em fevereiro de 1639, trouxe para Belm o mercedrio Pedro de La Rua Cirne e Joo da Merc, sua primeira capela, em 1640, de onde se originou, posteriormente, a igreja das Mercs. interessante notar que os prprios soldados de Teixeira tomaram a iniciativa de pedir ao seu comandan te que interviesse junto aos superiores das Mercs, em Quito, para permitirem a vinda de missionrios dessa Ordem, a Nascimento No h notcias a respeito do desbravador entre a data do seu nascimento e a sua chegada ao Maranho. Sabe-se que nasceu em Cantanhede, vila prxima a Coimbra, em Portugal. J aparece no Brasil compondo a expedio milagrosa de Jernimo de Albuquerque, no posto de alferes. Desde a batalha de Guaxenduba at o seu regresso da conquista do rio Amazonas, jamais sofreu uma derrota, mas de nada se vangloriava. Era enrgico, embora simples e de bom corao. Olvido Morto h 325 anos [completados em 1966], permaneceu no esquecimento, tanto de brasileiros como de portugueses por muito tempo. No houve, durante todo esse perodo, qualquer graa ou comenda digna dos seus grandes feitos na Amrica. Em Belm, a igreja das Mercs lembrava o heri, levantada que foi em homenagem aos expedicionrios de Quito, que trouxeram consigo padres mercedrios construtores de templos. Par-Maranho Foi Pedro Teixeira quem organizou o primeiro roteiro ou traado de uma estrada entre Belm e So Luiz do Maranho. Tomou essa iniciativa por ordem de Bento Maciel Parente, que temia sua concor rncia quando o ilustre militar perma neceu na sede da colnia. Quito Quando da chegada de Pedro Teixeira e sua expedio cidade cativa homenagem por parte do povo castelhano, que nele reconheceram o conquistador do grande rio, sob o reino de Castela, embora a caravana fosse portuguesa e sediada no Estado do Maranho. O novo capito foi levado ao templo mais importante da cidade veludo carmesim, recebendo na solenidade a patente de descobridor da Amaznia, sob a gide dos Filipes. Relato Cristovam de Acuna, jesuta, diretor do colgio de Cuencas, por ordem do vice-reinado do Peru, acompanhou Pedro Teixeira na sua viagem de retorno ao Gro-Par, juntamente com o colega Andrs de Artiega. Tambm da Companhia de Jesus. Ao primeiro se deve o relato Nuevo descobrimiento del gran rio de ls Amazonas, publicado em Madrid, em 1641. No livro, descreve em detalhes a longa travessia de Quito a Belm. Acuna, logo depois da sua chegada, em 12 de dezembro de dar conhecimento coroa das suas observaes sobre o rio-mar.

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8 Sepultamento Nascido em 1570, Pedro Teixeira faleceu em Belm, em 4 de junho de 1641. Foi sepultado sob a capela-mor da antiga igreja de Nossa Senhora da Graa. A pedra que marcava o seu tmulo, segundo alguns bigrafos, serviu de marco fundamental atual catedral metropolitana. Sobre a existncia dessa pedra nica coisa que teria restapor inexistir qualquer documento que a descreva ou prove a sua existncia. Trofus Dois canhes e uma caravela holandesa, afundada por Pedro Teixeira durante uma batalha naval em que os seus inimigos foram completa mente derrotados, ainda subsistem: esto (ou devem estar) no Museu Imperial do Rio de Janeiro. Esses canhes, de alto poderio para a poca, foram recolhidos das guas por Teixeira, levados para o forte do Castelo e depois enviados para o Rio. ltima pelos integrantes da expedio, Pedro Teixeira dividiu a caravana em duas: frente uma parte, comandada por Bento Oliveira, seguida por outra, dirigida pelo prprio Teixeira. Mantendo sempre uma boa distncia, o grupo da frente chegou primeiro ao rio Napo, no Peru. Violncia Na regio dos ndios encabelados, tribo que dizimara a caravana espanhola de Juan de Palcios, Pedro Teixeira deixou, garantindo o avano, um grupo militar sob o comando de Pedro da Costa Favela e Pedro Baio de Abreu. Ao regressar, soube do morticnio cometido pelos ndios. Mandou reconstruir as embarcaes, inutilizadas nos combates, e avanou contra essa tribo, quase a dizimando, com violncia e barbrie. Alguns cronistas afirmam que essa atitude foi uma ndoa na biografia do navegador, Xenofobia (1) A viagem de Pedro Teixeira a Quito demorouse ainda mais porque, alm da grande distncia a percorrer e da reduzida ou s vezes nula a velocidade das grandes canoas, o navegador penetrava em n ou furo do rio Amazonas para balizar todas as zonas marginais. Xenofobia (2) Pedro Teixeira sobrepujou os bandeirantes paulistas, to decan tados pela histria. Alm de suas viagens terem um fundo essencialmente terri torialista, isto a conquista de novas terras, pela expanso das fronteiras, ele tambm no buscava escravizar ou matar o habitante nativo, como fariam os paulistas, que provocavam no ndio o sentimento de xenofobia, de averso completa ao colonizador.Jornal Pessoal: 28 anosO Jornal Pessoal completa 28 anos nesta edio, sua 592 (sem contar as edies extras) quase igual ao do primeiro nmero: sem publicidade, sem fotograas (exceto as da memria do cotidiano), sem cor, sem mulher nua, sem coluna social, sem recursos grcos especiais, apenas com ilustraes do Luiz Pinto. tiragem de dois mil exemplares, 16 pginas (quatro a mais, acrescentadas para justicar certa elevao do preo de capa, cujo valor a inao de dona Dilma, como bicho do mato feroz, engoliu) e no olho do furaco. To ameaado quanto a grande imprensa pelas novas mdias sociais, a nova cultura, os novos (e lamentveis) tempos. O preo do papel voltou a subir, as pessoas esto menos dispostas a ler textos impressos em papel, a se deslocar at as bancas para comprar o exemplar da sua leitura, a pagar mais do que pela informao pelo direito de no serem embromadas, manipuladas, desrespeitadas a pagar por uma fonte convel de informaes. A lei do menor esforo, a praga do jeitinho, a cultura do narcisismo e da supercialidade, a antitica do farinha pouca, meu piro primeiro, a lenincia e conivncia com a corrupo tudo isso e muito mais nos fazem assistir e participar de um espetculo que no nos agrada. Pior do que no agradar no cor responder ao que foi e continua a ser a nossa razo de existir como elemento da sociedade. O jornalismo, como eu o pratico e comigo, alguns companheiros de viagem est em extino. Estamos no alvo dos caadores de crticos, daqueles crticos que s falam sobre os temas que dominam se no em profundidade, o sucientemente bem fundamentado para suportar um entrevero, quando dilogo no h. Devem desaparecer para no engolir os embromadores, os enganadores, os fraudadores, qualquer que seja o tamanho do seu poder e da sua recusa a serem contrariados. Num mundo informtico e perfor mtico, por paradoxal que parea, cada vez mais fcil vender iluses e fantasias, anestesiar conscincias, forar covardias, atemorizar e calar. Os exemplos se multiplicam observao diria. Por constat-los, vi que o intervalo quinzenal deste jornal constitui vcuo demasiadamente extenso. O cotidiano se tornou uma guerra no declarada. preciso montar trincheira no dia a dia, oferecendo alternativa ao cidado. Meu blog de notcias ( parte os que criei para abrigar a cabanagem, a mineradora Vale e uma enciclopdia amaznica, alm do site deste JP, no momen to inerte) completou um ano. S agora comea a se constituir num frum de debates travados com respeito, seriedade, argumentos e informaes, nos quais o anonimato rara exceo. Para manter o periscpio acima da linha dgua, pedi que o leitor do blog o mantivesse com doaes, por mnimas que fossem. No mais fecundo dos meses, o de agosto, a soma das contribuies cou em 800 reais. esse o valor que os leitores consideram suciente para viabilizar o espao? Alm de no cumprir essa funo, ele avilta ainda mais o efeito negativo da informao sria porm gratuita na internet: reduziu sensivelmente as vendas deste jornal. Sem a receita do leitor, o JP chegar ao m. Com trs edies no vermelho, ele se aproxima desse desfecho. Assim como a imprensa convencional e tradicional, este veculo alternativo dar seu ltimo suspiro, pedir passagem, e ir cata do seu lugar no campo santo da histria. At que isso acontea, resta o consolo de chegar aos 28 anos com o seu produto mais nobre: a dignidade.

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9 A cobertura da imprensa na Amaznia: ainda exticaEstive em So Paulo para participar de uma discusso sobre a reportagem. Ao invs de relatar eu mesmo como foi o acontecimento, prefiro reproduzir a matria escrita por correspondentes universitrios da revista eletrnica Comunique-se, publicada no dia 4. Fiz algumas ligeiras correes e mais esta, que mais relevante. No debate, ao ser indagado sobre o assunto, disse que trabalhava num jornal, A Provncia do Par, que fazia oposio ao meu pai, Elias Pinto, quando prefeito de Santarm, e a crise poltica em que esteve envolvido, entre 1967 e 1968, o ltimo grande episdio poltico antes do AI-5, de 13 de dezembro desse ano. Nunca procurei interferir na linha editorial, mesmo quando ocupei temporariamente o cargo de secretrio do jornal, e mesmo sabendo que os inimigos do meu pai estavam por trs de algumas dessas notcias. Reconheci serem procedentes certas crticas administrao de Elias Pinto, que proporcionou ao MDB, a oposio ao ainda iniciante governo militar, a sua maior vitria eleitoral no Par. Mas ressaltei que no foi por elas que ele foi afastado do cargo, impedido de a ele retornar e cassado, mas sim pela faanha de ter impedido o ento governador Alacid Nunes de vencer no segundo maior municpio do Estado. Jornalistas participaram na quar ta-feira, 2, da segunda edio da srie Reprter, realizada no Ita Cultural, na Av. Paulista, regio central de So Paulo. Organizada pela jornalista e escritora Eliane Brum, o evento tem como objetivo homenagear e registrar a memria de reprteres do pas, no formato de entrevistas abertas, que contam com a participao e interao de profissionais da comunciao e do pblico. O grande homenageado da edio foi Jos Hamilton Ribeiro, considerado o Reprter do Sculo, por ter vivido coberturas histricas, como a da Guerra do Vietn (quando perdeu uma perna, depois que pisou em uma mina), e ter mais de 60 anos de repor tagem. O evento, porm, foi aberto com uma entrevista com outro jornalista: Lcio Flvio Pinto. Nascido em Santarm, no oeste do Par, Lcio Flvio, 65 anos, passou pelos jornais Correio da Manh (Rio de Janeiro), O Estado de So Paulo, O Liberal (Par) e A Provncia do Par. Formado em Sociologia, abriu o encontro revelando que optou pelo curso porque j trabalhava h muito tempo com jornalismo. Hoje, o reprter segue com seu Jor nal Pessoal, publicao criada e dirigida por ele h 28 anos, na qual faz anlises profundas do contexto poltico e social da Amaznia. um trabalho independente e de muita coragem e per severana, j que o reprter no conta com anunciantes e se dedica a apontar as mazelas da regio. Alm de Eliane Brum como mediadora, a roda de conversa contou com as presenas de Leonencio Nossa (reprter do Estado em Braslia), Paulina Chamorro (apresentadora da Rdio Estado) e Claudiney Ferreira (jornalista e gerente do Ncleo de Audiovisual e Literatura do Ita Cultural). Para se ter ideia do esprito combativo de Lcio Flvio, os jornalistas par ticipantes da entrevista lembraram que o reprter, no incio de sua carreira, fazia oposio ao seu prprio pai (Elias Ribeiro Pinto, prefeito de Santarm), no jornal A Provncia do Par. Em relao histria, ele contou que, apesar de ter sido um bom prefeito, as crticas foram merecidas. Por causa de suas matrias cidas e engajadas, denunciando nomes fortes da elite amaznica, Lcio Flvio coleciona desafetos. Ele j respondeu a 33 processos na Justia, o mais conhecido foi o caso envolvendo Ronaldo Maiorana, diretor da Comisso de Defesa Liberdade de Imprensa pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Par. Aps ser citado no texto intitulado O rei da Quitanda, Maiorana agrediu o jornalista [o citado foi o ir mo, Romulo Maiorana Jnior ]. Acredita que ainda fui processado por ter dito que fui espancado?, indagou o reprter, em tom irnico. O jornalista guarda mgoa pela for ma como o fato foi noticiado na mdia. A agresso foi horrvel, mas o pior foi o dia seguinte. O jornal no qual trabalhei por mais de 18 anos [Estado], sabendo do ocorrido, escreveu um notinha dizendo que eu havia me envolvido em uma briga. Eu no tinha brigado com ningum, fui agredido, desabafou. No sou heri, mas tambm no sou covarde, completou. Ainda sobre os desafetos do colega, Eliane Brum fez questo de lembrar a vaquinha feita para o comunicador arrecadar dinheiro para um processo. Uma empreiteira me processou no valor de R$ 28 mil. No me restou escolha. Tive que fazer uma vaquinha pela internet e arrecadar essa quantia para colaborar ainda mais com o enriquecimento da famlia da empreiteira, salientou. Mesmo tendo convivido com os horrores da ditadura militar, Lcio Flvio questiona o perodo democrtico atual e v a mesma diculdade de atuar como jornalista. De todos os processos que tive, apenas um foi na poca da ditadura militar. Os demais foram todos na poca da democracia. Eliane tambm recordou o choro compulsivo do jornalista ao se deparar com uma barragem construda no Rio Tocantins, no Par, que se tornou a Usina Hidroeltrica de Tucuru, e comparou a situao s agresses ambientais que esto sendo feitas para a implementao da Usina de Belo Monte. Emocionado, ele enfatizou. Chorei e ainda choro, pois estou vendo o homem inter rompendo a natureza. Sobre o Jornal Pessoal, Lcio Flvio armou que j pensou em matar o jornal diversas vezes, mas sempre que vinha com essa ideia, acontecia

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10 algo para noticiar e a edio vendia muito bem, ento, por ora, desistia. Ele ressaltou que a cobertura que a imprensa paulista faz da Amaznia muito deciente. A imprensa paulista ainda faz uma cobertura extica da regio, que em nada colabora com a populao local. Isso porque para cobrir a Amaznia no d para ser a distncia e nem ir l uma ou duas vezes. preciso realmente conhecer a regio. Ele complementou dizendo que o problema do jornalismo hoje est no fato de existirem poucos reprteres que vo a campo. Esta faltando vivncia no jornalismo, estar prximo de onde os acontecimentos emergem. O reprter de retaguarda, de computador, no faz tanta falta como o que ca na linha de frente. Lcio Flvio Pinto apontou outros grandes pecados cometidos pelos novos jornalistas, dentre eles, a falta de objetividade. Sem objetividade no tem jornalismo. Tenho obsesso em jamais contrariar os fatos. Ele tambm lamentou a covardia de boa parte dos reprteres. Nada me deixa mais triste do que jornalista que no publica uma matria para no se comprometer. No nal da entrevista, foi categrico ao responder pergunta do jornalista Leonecio Nossa sobre os motivos de ele continuar trabalhando como reprter, ao contrrio de muitos colegas da mesma poca, que hoje atuam em reas administrativas e polticas. Sou da linha de frente, porque o jornalista o nico que pode dizer que viu, ento quero continuar sendo testemunha ocular dos acontecimentos. *Por Kaique Dalapola, Katia Barre to, Gigi Pavanello e Vincius Vieira. Estudantes da Faculdade do Povo de So Paulo (Fap-SP) e integrantes do projeto Correspondente Universitrio do Portal Comunique-se. Comentrio de Paulo Srgio Aguiar Pelo visto Lcio Flvio antes de tudo um forte. Por ser um jor nalista que optou pelo trabalho independente, e ainda como ele relata um trabalho de campo, de linha de frente. Por ser uma testemunha dos fatos e poder dizer o que viu e denunciar as mazelas. S ns os jornalistas que denunciamos as prticas irregulares daqueles que se acham senhores do lugar, sabemos como o modus operandi: enfrentamos a intimidao, a ameaa, e os processos forjados, que buscam a criminalizao do prossional como retaliao. Prossional esse cuja atividade infor mar o que de interesse pblico. E realmente de se lamentar a covardia. E condenar a dissimulao de certos(as) Jornalistas. Que zeram par te de um projeto (eco) ambiental na TV, e se descobre que no esto nem a para a questo do meio ambiente. Mas para os que no fogem luta, bom saber que existem colegas na linha de frente.Joel Rufino dos SantosEm 1961, com 19 anos, Joel Runo dos Santos, lho de pernambucanos nascido no subrbio de Cascadura, no Rio de Janeiro, foi estudar histria com Nelson Werneck Sodr. Mesmo sendo general do Exrcito e de uma tradicional famlia carioca, Sodr era comunista, Sob o amparo da democracia de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, dirigia o ISEB, um rgo ocial de pesquisa histrica. Dois anos depois, Joel assinou com o mestre e outros discpulos a Histria Nova ou o incio de uma nova abordagem da histria brasileira, ainda em dois dos quatro volumes prometidos. Os restantes nunca saram. Nelson Werneck Sodr foi preso e processado pelos autores do golpe militar de 1964. O ISEB foi extinto e seus alunos e pesquisadores seguiram uma dispora. Tambm esquerdista, Joel trocou de nome para fugir da polcia. Adotou o de Pedro Ivo, personagem da histria que, desde ento, ele se empenhou em ajustar aos seus principais protagonistas, questionando a verso sancionada pelas elites escrevinhadoras. Joel j era clandestino quando nossos caminhos e de muitos outros se cruzaram em So Paulo. Formvamos legies de cidados que transitavam pelo mundo cultural, intelectual e profissional com um p fora da margem sancionada e um olho na represso, enquanto o restante do corpo convivia com a ilegalidade perseguida e a vida normal. Moramos algum tempo sob o mesmo teto, numa repblica paraense avanada sobre o reduto pau listano. Apesar do perigo sempre espreita, tentvamos ignor-lo. Eu, por exemplo, sabia da condio de Joel, mas no da sua ligao ALN de Marighela. No sabia porque no me interessava saber, o que podia me custar caro se o acaso me colocasse ao alcance da turma do delegado Srgio Paranhos Fleury. Meu libi seria suficiente? Talvez no. Mas at o teste, o melhor que se podia fazer era participar das peladas na praia, em Santos, ou no campo do IPT, na USP. Ou fazer as constantes viagens entre So Paulo e o Rio, parando numa lojinha da fbrica de Ovomaltine na via Dutra para o caf da manh e de entrada na Cidade Maravilhosa, onde ele me apresentou ao seu grande mestre, no apartamento/academia em que Sodr morava, em Botafogo. Ramos e brincvamos, alm de aprender. Quando Joel foi preso, em 1972, eu estava em mais uma temporada belenense. A partir da tive notcias dele por via oblqua. Sabia-o subindo em cargos institucionais, comandando projetos culturais e escrevendo, escrevendo muito: foram 50 livros, muitos deles de saboroso gosto infanto-juvenil, que filtravam o lado educacional e paternal do historiador, dando-lhe prmios por sua qualidade literria e acento humano. Joel Rufino dos Santos morreu de complicaes cardacas no dia 4, no Rio, aos 74 anos. Soube da notcia em So Paulo, no cenrio da nossa intensa e inesquecvel convivncia, mais as de Palmrio Dria e Aurlio Delgado, os outros membros da nossa repblica papachib. O abalo causado pela triste revelao no chegou a me fazer chorar, mas fiquei um pouco mais velho pela perda de mais um amigo querido, ainda que distante h tempos. Joel foi especial. Essa condio o manter na memria dos que tiveram a honra e o prazer de t -lo por companheiro.

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11 Fernando Coutinho Jorge e o incio do planejamentoResolvi transformar em artigo a carta que Rose, a esposa de Fernando Coutinho Jorge, enviou ao jornal a prpopsito de artigo sobre ele publicado na edio passada. H informaes inditas em seu testemunho, que precisam ser registradas e destacadas para uma melhor reconstituio da histria do planejamento no Par.Em nome de Fernando e no meu e de meus lhos, quero agradecer-te pelo artigo que publicaste recentementesobre Fernando e sua postura de vida. Realmente me emocionou muito.... por tuas palavras e pelas recordaes de um tempo to feliz de nossas vidas.Tomei a liberdade de public-lo nas pginas do meu Face pois muito pouco esta atual gerao tem conhecimento da histria do nosso passado recente.Tomo a liberdade de esclarecer alguns pontos que venham te auxiliar nos teus registros. verdade que foi a coragem e a viso do Professor Aloysio Chaves que conseguiu em seu governoimplantar o Sistema Estadual de Planejamento no Par, se responsabilizando pessoalmente por um jovem de 32 anos perante o Governo Federal e os rgos de informaes, nos quais este jovem no tinha uma cha aceitvel, e quejhaviam barradoanteriormente,quando Fernando passou na primeira colocao nacionalde um concurso no Basa noo deixaram assumir. Mascom o empenho e determinaodo Governador Dr Aloysio,ele foi empossado primeiro como presidente do Idesp, para a formar a equipe que seria asemente da futura Seplan. A indicao de Fernando para essa misso foi do nosso querido Armando Mendes, que ao ser convidado para tal empreitada se achou impossibilitado por j ter assumido o compromisso com o ento Ministro da Educao, Ney Braga, para ser seuSecretrio Geral. Para nossa grandesurpresa,o nome que ele indicou para substitu-lo foi o de Fernando, que j estava fazendo parte de um grupo preliminar para pensar na futura implantao do planejamento no Para. Entresoutros, fazia parte desse grupo o grande economista Marcelino Monteiro da Costa, nosso grande amigo e padrinho de casamento, que era dado como certo como o futuro Secretrio. Podes imaginar a nossa surpresa quando Fernando foi chamado pelo Dr. Aloysio para assumis a pasta! Ele era o mais novo da equipe, inclusive tinha dado algum trabalho ao Prof. Aloysio como Reitor e ele comoPresidentedo Diretrio de Economia! Estava longe de passar pela nossas cabeas tais inspiraes! E o pior era que, como era dadacomo certa a indicao de Marcelino, j havia comemoraes e brindes pelo fato. Ao ser convidado e aceito, foi feita uma nica exigncia: no podia vazar a informao de forma alguma. Pensa numa sinuca de bico! Continuaram as reunies do grupo eMarcelino como o futuro quase certo Secretrio e o Fernando, que, a meu ver cou como um Joo sem Brao... O que resultou desse imbrglio? Marcelino cou abor recido com Fernando, que na opinio deleo tinha trado. Se o Fernando nunca me traiu, o que mais comum no mundo masculino, ia trair um amigo? Essa uma histria que com certeza no conhecias. Mas o intuito maior dessa mensagem, alm de agradecer-te,de evitarpraticares umainjustia com o Coronel Alacid. Oprocesso de implantao do Sistema de Planejamento,continuou com o mesmo ritmo e s vezes com maior liberdade, porque os tempos j estavam mudando um pouco, mas tambm foi muito importante a ajuda do GeneralMoraesRego no governo do Coronel Alacid para a consolidao da implantao do planejamento, como vinha se processando no Para, que, inclusive, exportou o modelo para vrios Estados do Brasil. Quando Fernando se afastou para concorrer a uma cadeira de Deputado Federal, cou em seu lugar o seu subsecretrio, Roberto Ferreira, que fazia parte do grupo original,que ele trouxe deseus melhores alunos da UFPAe do NAEA.O Jatene foi,nessa segunda administraodo Fernando,o Coordenador das Polticas Municipais, Com a eleio de Jader para Governador, Jatenefoi colocado no lugar do Roberto e estefoi para a Sefa, o Fred Monteiro paraadministrao. Acredito que dai em diante estejas mais a par do que veio acontecendo no PlanejamentodoPardo que possa acrescentar. Rose Jorge

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12 memriado C otidianoIMPORTADORA Quando o ltimo ano de durao da Segunda Guerra Mundial comeava, em 1945, a Importadora de Ferragens era uma das maiores rmas do Par e das mais expressivas do Brasil no seu setor, que ia de ferragens em geral a automveis e caminhes. Representava 29 grandes rmas, quase todas americanas, da General Motors General Eletric, incluindo a Caterpilar e a Fairchild, de aviao. Tinha seis lojas espalhadas por Belm: os armazns ncora, Cosmopolita, A Domstica, Pgo, Mascote e Bragantina. Uma potncia realmente. Como nunca mais houve igual. COSTURA Ficava na avenida Cear, na Terra Firme, a Escola de Cortes Geomtricos Santa Rita, dirigida pela professora Joana Martins Rodrigues. Em 1953 ela formou 11 novas professoras nessa atividade, todas posando em seu traje de gala para a meia pgina publicada pela Folha do Norte, depois de serem aprovadas pela examinadora Teresa Cndida daSilva. Costurar era coisa sria. ENGENHEIROS A turma de engenheiros civis formada pela Escola de Engenharia do Par em 1954 tinha 30 alunos, dos quais apenas uma mulher, Clia Cunha e Silva. Ela chegou a exercer a prosso? O orador foi Renato Christo Mendes Leite. Dentre os diplomados estavam Ocyr Proena, Guilherme Athayde, Isaac Barcessat, Evandro Bonna, Flvio do Esprito Santo, Paulo Borges Leal e Ramiro Nobre e Silva. Foram homenageados os professores Lima Paes (estabilidade das construes), Lourival Bahia (higiene geral e saneamento), Angenor Pena de Carvalho (por tos de mar, rios e canais) e Raul Pereira (astronomia de campo-geodsia). CONTRABANDO Em 1962 o contrabando estava no auge, sendo o responsvel pelo destaque nacional (e at internacional) de Belm. Lojas vendiam produtos importados ilegalmente e pelas ruas da cidade circulavam carros estrangeiros. Apesar da origem, essas mercadorias eram legalizadas por um processo engenhoso: depois de apreendidas, eram levadas a leilo e arrematadas, inclusive pelos autores do contrabando, que, em alguns casos, eram tambm as pessoas que denunciavam aos scais da alfndega a chegada dos produtos ilicitamente introduzidos no pas. Quando eram carros, os bens mais valorizados, tiravam uma pea essencial do veculo, de modo que s esses contrabandistas podiam se interessar pela mercadoria. Os leiles eram realizados na sede da Alfndega, com a presena das autoridades e dos interessados, vrios dos quais vinham de outros Estados, atrados pela perspectiva de um excelente negcio, para concorrer com os pretendentes locais (em geral, os vencedores ou intermedirios nas transaes). Num dos leiles de 1962, um dos mais fracos, W. M. Costa arrematou 1.080 garrafas do muito apreciado (e forte) usque Cavalo Branco (White Horse). A. Severino (que tinha loja no trreo do edifcio Palcio do Rdio) cou com 205 garrafas de White Horge, McLeans, Grants e Queen Anne. Foram leiloados ainda pares de sandlia japonesa, aparelho de rdio e 2,5 mil bicos para canetas esferogrcas, sugestivamente arrematados pela rma Canetas Bic. CAIXINHA Em 1962 todas as balanas do mercado de peixes do Ver-o-Peso eram fraudadas, os pesos eram irregulares e dicilmente os peixeiros obedeciam aos preos tabelados. Um grupo de ocupantes de boxes no mercado fez a denncia porque, decidindo suspender o pagamento de propina aos scais, estavam sendo perseguidos por eles e pela polcia, que lhes dava cobertura. Rigoroso inqurito foi instaurado, mas teve o m de sempre: nada apurou. E hoje? PROPAGANDAA era do laquEm 1962 danava-se agarradinho. O cavaleiro, mais alto, encostava o nariz no volumoso cabelo da parceira. Volumoso porque ela usava laqu. E essa nvoa mgica, mesmo quando fabricada pela nossa querida Phebo (de ento), fedia e grudava, apesar da promessa do fabricante de que o cabelo da cliente caria deliciosamente perfumado com o suave odor da Seiva de Alfazema. Devia ser assim apenas no moderno vaporizador que ia para o Ablio Couceiro mirar e se nele se inspirar para criar a pea na sua saudosa Mercrio Publicidade. No tutano, era preciso amor para encarar a amada na casa de caba do laqu.

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13 PROFETA Em sua coluna Periscpio, publicada em A Provncia do Par, Carlos Rocque deu destaque a algumas das profeciasque o jor nalista e deputado estadual Hlio Gueiros, baseado na sua grande tarimba poltica, fez no programa que tinha na TV Marajoara: a No haver eleio direta nos 11 Estados onde os Governadores tero de ser renovados no ano em curso [houve e o PSD de Hlio foi derrotado ]; b O Prefeito de Belm contar com forte oposio na Cmara Municipal, no sendo poucos os atritos (alis, atritos j h, em surdina) entre o Executivo e o Legislativo da Cidade [a grande maioria dos vereado res aderiu aos novos donos do poder ]; c) Catette Pinheiro pode at ser apoiado pelo PSD, se Alacid tentar se candidatar a Governador [Alacid foi candidato e o futuro senador Catette o apoiou ]; d O xadrez do CPOR passar o ano cheio (uma indireta venenosa ao autoritarismo do comandante da corporao, coronel Jos Lopes de Oliveira, um dos lderes fardados do movimento militar que ps m, do Par, ao domnio poltico do partido de Gueiros, que tambm nunca foi um bom profeta). FOTOGRAFIA Subrbio belenense Assim ainda eram os subrbios de Belm apenas 40 anos atrs. Em 1974, a Cosanpa implantava nova rede de distribuio de gua na Marambaia. Nova, sim, mas com capacidade para vazo reduzida. Boa parte das casas era de madeira e palha. As ruas no tinham saneamento b sico nem pavimentao (como os carros podiam passar?). Valas faziam as vezes de canais. Os postes de luz eram poucos e de madeira. Os terrenos ocupados pelas construes rsticas no eram legalizados. Ao fundo, a vegetao sobrevivia. Algum consegue identicar qual essa rea no bairro? COMRCIO Prossigo na identicao dos imveis de Belm h 50 anos, em 1965, no elo da principal via do comrcio da cidade nessa poca. Depois da rua Santo Antonio, a vez da Conselheiro Joo Alfredo, que comea na avenida Portugal (onde o seu estado atual lastimvel: abandonada, suja, com mato crescendo, a terra j exposta, sem a cobertura dos paraleleppedos, talvez num plano ardiloso da prefeitura sobre os ambulantes) e termina na praa Visconde do Rio Branco, mais conhecida por largo das Mercs. No primeiro trecho (at a travessa 7 de Setembro), segundo as Pginas Amarelas da Lista Telefnica, estava, a Farmcia e Drogaria do Povo, Casa Corcovado, Hotel Amrica, Loja Pires Franco, A Vencedora, Casa Pinheiro, N. Fraiha & Cia., Bazar Sta. Terezinha, Sapataria da Moda, Loja Machado, Escritrio de Ferreira DOliveira (tambm de comrcio e navegao), Casa Zig-Zag, Joalheria e tica Moderna, Loja 4400 (nos trs andares do ento concorrido prdio estavam os escritrios de Brasil Luizileno, F. Esprito Santo, F. G. S. Moreira, Egdio Sales, Armando Mendes, Importadora e Exportadora Jabras, Accio Centeno, Elias Hage, Octvio Leite, Cludio Santos, Bernardo Koury, Jos Luiz ferreira, Carlos Platilha, Domingos Silva, Jos Arajo Moura e Pedro Moura Palha), Durval Lobato Paes, Joalheria Porta de Ouro, Casa MontAlto, Cia de Engenharia Jos R. Ferreira, Casa O Crio, Joo Francisco Lima, Loja Primavera, escritrio de advocacia e contabilidade Moacyr Gonalves Pamplona, Raymundo Noleto, Bar Sporting, Galeria Paulista, Foto Amaznia, Tecidos Carvalho, Mundo Elegante, F. Flexa Ribeiro, Casa Silva, Casa do Linho Puro, Casa Par e Sapataria Leo de Ouro.

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14 Editor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone 091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao Luiz Pinto Jornal Pessoal Passarinho s um jornalista, socilogo, com inteligncia privilegiada e vasta cultura. H pessoas que acompanham cegamente as tuas opinies e por isso fazem juzos apressados com base nas tuas colunas: eis o caso: No JP n 591, sob o ttulo Delegado Rafael Bezerra, abres a matria narrando um episdio relativo a uma entrevista dada pelo ento Senador Jarbas Passarinho ao chegar em Belm. Algum jornalista, vido de colher informaes encostou o microfone nos lbios dele. Dizes que acuado em meio ao interesse da imprensa sobre ele em mais um momento de crise republicana, saiu-se com uma boutade: Deveramos ter nomeados jornalistas para arrancar informaes nos IPMs dos presos em 64, completaste dizendo: assim no precisariam haver torturas. A pergunta, fruto da impetuosidade da tua juventude, no te criou nenhum problema, apesar de ser agressiva. No foste chamado a nenhum rgo de segurana, nem te cobraram a armao. Como salientaste no teu termo, foi uma boutade (tirada espirituosa, engraada...), e no deveria ter sido mal analisada, e digo isso, porque algumas pessoas de reconhecida m vontade com Jarbas, o que acho que no o teu caso, podem interpretar a tua per gunta como se o mesmo fosse torturador ou, poca, tivesse conhecimento de prticas to deplorveis. Sabes bem que, em relao a Jarbas, nem os seus inimigos, e nem falo em adversrios, atriburam a ele tortura ou malver sao do dinheiro pblico. Leva uma vida modesta, que, desgraadamente, para ns, parentes, amigos e admiradores, est chegando ao m. No que isso seja verdade absoluta, pois no conhecemos o nosso destino e podemos morrer antes dele. Mas, a lgica diz ao contrrio. Diversas vezes o entrevistaste e j declaraste publicamente atravs da tua trincheira que o JP, que em momento algum foste molestado. O nico defeito de Jarbas ter sido coerente com os seus pensamentos e suas atitudes, o que gerou respeito e at amizade de adversrios do quilate de Paulo Brossard, Pedro Simon e Mrio Covas. O ento deputado Paulo Paim, hoje senador, sem qualquer simpatia pelo movimento de 64, declarou em uma sesso da Unilegis em que Jarbas foi homenageado com o ttulo de Doutor Honoris Causa: Jarbas Passarinho na Constituinte era o elemento que fazia o meio de campo para as emendas de nossa iniciativa, que seriam rejeitadas pelas nossas posies ideolgicas. Fernando Henrique Cardoso, Mrio Covas, Pedro Simon e eu, diz ele, levvamos as nossas emendas Jarbas. Discutamos, mas ele jamais se negou em apresent-las. Ao contrrio da Rede Globo, que em pungente arrependimento, lido no Jornal Nacional pelo William Bonner com muita solenidade, e publicado no jornal O Globo pediu publicamente desculpas sociedade por terem apoiado a revoluo de 1964. Sabes bem, que poucos se beneciaram tanto do regime militar, quanto a Rede Globo. Jarbas inexvel nos seus conceitos, e por isso paga um preo caro dos historicidas, que resolveram reescrever os fatos que se passaram antes de 64, movidos pelo dio. Deveriam contestar Daniel Aaro Reis Filho, notvel professor univer sitrio, Jacob Gorender e tantos outros que com honestidade mostraram o clima que antecedeu o 31 de maro. Ronaldo Passarinho MINHA RESPOSTA Como o prprio Ronaldo Passa rinho deixou claro, nunca atribu ao ex-senador Jarbas Passarinho participao ou conivncia com a tortura praticada durante o regime militar, na sua fase mais aguda entre 1969 e 1975 (do AI-5 ao assassinato no crcere do jor nalista Vladimir Herzog). Minha crtica mais extremada ao ex-governador foi sua adeso ao Ato Institucional nmero cinco com o acrscimo da frase infeliz de se desfazer dos escrpulos da conscincia para apor sua assinatura no nefando documento, um dos mais tristes, soturnos e malcos da histria brasileira. Durante a ditadura e depois dela, conversei muito com Passarinho em o. Foram conver sas proveitosas e terem se repetido, apesar das minhas crticas constantes a ele, a comprovao da sua tolerncia e do seu esprito pblico. Algumas vezes o incio dessas conversas foi difcil e doloroso. Nunca, porm, o seu encerramento. Devemos essas oportunidades de dilogo com uma agenda elevada ao respeito mtuo, que continua inalterado. Ladainhas Alm daqueles adjetivos grandiosos que lhes so, por justia, peculiares, a Amaznia tambm sofre o assdio das tantas ladainhas que se escutam e se reverberam pas afora. Palavrrios vazios que se intentam tornar em verdades, repetidas que so tantas vezes mas isso talvez j se faa por pura inrcia dos ouvintes. Ajudadas pela viso ainda bem distorcida que grande par te dos prprios brasileiros tem a respeito de seu pas, principalmente das regies mais afastadas do centro administrativo e decisrio, as ladainhas ganham sua fora retrica. Ao ignorar o nosso mundo local e real, em contraponto, h um outro imposto devidamente fabricado por interesses difusos e pouco (ou nada) palpveis em justos e produtivos retornos para todos. quando saem do forno, ou melhor, dos gabinetes refrigerados, ou de outros cantos no identicados, percepes outras do que possa ser considerado como progresso e bem estar. E para que isso fique bem entendido, impem-se tais com fora e coero de um poder bem mais acima, inquestionvel em sua pretensa infalibilidade. quando dado o sinal verde para entrar em cena aqueles nossos modelos mais visveis carvoarias, pastagens, plantations agrobusiness e extensos latifndios multiplicados via grilagem Sob uma capa moderna (relativamente), as bnos dos poderes omissos do uma sobrevida pra l de insidiosa a velhos propsitos de dominao. Nesse espao generoso, as ladainhas vo enriquecendo o leque de abstracionismos tpicos emulados de um centro de decises distante, connado em seus guetos, apartado dos interesses mais concretos relacionados ao pas que proclamam administrar pelo bem comum. E at hoje, assim tantas repblicas depois. Luiz Otavio Cardoso Antagonismo Parabns pelo merecido convite para participar de mais uma edio do Ita Cultural. Seus leitores aguardam uma resenha do evento. Antecipo as minhas felicitaes pela passagem dos 28 anos do nosso Jornal Pessoal. Aproveito o ensejo, para encaminhar, anexo, um comentrio sobre o assunto em destaque.cart@s

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15 O ttulo da matria de capa do Jornal Pessoal n. 590, de agosto/15, deve ter sido desagradvel para muitas pessoas, posto que ele designa extremos. Mesmo aquelas identicadas com a oposio ao governo atual no devem concordar com a polarizao, porque o tipo de atitude que gera violncia, e da para a insanidade total um passo s. No preciso ser versado em cincia social para perceber que uma multido tomada pelo dio apenas, sem liderana e sequer munida de proposta conciliatria, pode levar para uma situao insustentvel de caos, aonde as que jogam pedras hoje sero apedrejadas na sequncia dos dias. Caminha-se para aquilo que um estudioso chamou de niilismo passivo: quando no existem lideranas, h somente o rebanho desordenado. Disto resulta um ambiente que algum denominou de fascismo do bem, isto a gente joga bomba em nome do bem, espanca em nome do bem, mata em nome do bem. Os mais antigos conhecem e viveram essa estria de quem pensa no bem, e os mais novos cidados certamente foram instrudos dos fatos nos bancos escolares. Espera-se que as lideranas apaream e possam mudar estes ventos agoureiros. De qualquer forma, a dialtica da exposio no consegue esconder os acenos favorveis ao contedo das iniciativas predadoras da oposio, antes e depois das eleies. Embora recebendo a adver tncia de prolixidade da carta anterior, ainda assim, pretende-se abordar os principais itens do JP citado, pela ordem de importncia: 1) as pesquisas da Folha (Datafolha) so suspeitas, identicam-se com aquela do Paran que deu o candidato tucano eleito, uma semana antes do pleito; 2) por que a implicncia com o ndice de popularidade, governo eleito pelo voto, pode se dar ao luxo de ser impopular, ademais o direito brasileiro e o internacional no abrigam a tese de afastamento sumrio diante de uma frequncia negativa de apoio momentneo; 3) no h crise de conana, existem sim, espasmos de insatisfao devidos aos trs perodos que esto fora do poder; 4) os grupos minoritrios, particularmente aquela imprensa que incitam a populao insatisfeita, por conta dos problemas econmicos, a pregar a animosidade selvagem, que grassa nas redes sociais e nas manifestaes de ruas; 5) no existe retrica de esquer da para a manuteno da Presidente, trata-se de defender um mandato outorgado por 54% da populao brasileira. Muitas outras conquistas sociais foram realizadas e canalizadas para a base da pirmide e que sero preservadas desde que se mude a poltica scal, procurando onerar a renda dos que tm mais. Seja atravs dos depsitos compulsrios, seja pela taxao das grandes fortunas, previsto na Constituio de 1988 e no regulamentado at o dia de hoje. O caminho para viabilizar receitas amplo e diverso, sem que o peso e o tempo da recesso venham a atingir os mais carentes. Os ajustes podem seguir caminhos variados, dependendo dos atores que iro discuti-los e execut-los. A cer teza que o pas no est falido, como sugere o artigo do Jornal Pessoal. O ltimo relatrio do FMI indica 19 pases ligados ao euro, com ndices de crescimento de 0,3% no primeiro semestre deste ano, incluindo a Alemanha, Itlia e Frana, sendo que a ltima est com a economia estagnada. A oligarquia nanceira pretende erigir um muro de conteno para impedir o acesso dos trabalhadores s melhores condies de bem estar. Um dado interessante, considerando o tamanho da dvida pblica bruta de 16 pases, a do Brasil (58,9%, do PIB), o menor. Nas naes da zona do euro, o ndice de 91,9%, do PIB, nos EUA 101,5% do PIB e no Reino Unido 51,5%, do PIB. A comparao no almeja justicar a situao brasileira, comprova-se que a crise econmica sistmica. Haveria mais indicadores econmicos para melhorar a imagem negativa que muita gente teima em vender, porm isso levaria tempo e espao desse JP. De qualquer forma, embora acanhadamente, criou-se uma imagem do Brasil diferente do que a modelada no texto de capa. Para terminar, no se discute as razes da direita conclamar as foras armadas para combater a insurreio de comunistas, em especial a pregao moralista dos golpistas. Qual a moral deles? O que urge esclarecer, como foi levantado na citao de Luiz Carlos Prestes, que o Partido dos Trabalhadores ganhou as eleies em 2002, mas no assumiu o poder. As velhas oligarquias caf-com -leite, apodrecidas, mantiveram-se ilesas, s que com nova gerncia. Como no conseguiram retornar, at hoje, a gerncia do poder, pela via legal, tentam pelo golpe. O Brasil tudo isso. O prximo partido popular que sair vitorioso de uma eleio tem de assumir o governo e o poder. Rodolfo Lisboa Cerveira Lucros para poucosNo ms passado a Austrlia bateu um novo recorde de exportao de minrio de ferro para a China: vendeu quase 40 milhes de toneladas, 14% a mais do que as remessas de julho. At o nal do ano as exportaes australianas devero atingir 748 milhes de toneladas. Em 2016 o volume poder ser ainda maior: 824 milhes de toneladas. So dois os objetivos e so os mesmo da Vale. Primeiro, tirar do mercado os competidores que tm jazidas menores ou mais pobres e com custos de produo mais elevados. Em segundo lugar, forar a prpria China a fechar suas minas, que se enquadram nessas caractersticas: so obsoletas e caras. Assim, so induzidos a comprar mais minrio da Austrlia, que tem um produto menos nobre, mas est muito mais prxima, e do Brasil, que distante, mas desfruta do melhor minrio do planeta, o de Carajs. Os tcnicos acreditam que a China deixar de produzir neste ano 120 milhes de toneladas, o equivalente produo de Carajs. Isso tambm significa que por longo tempo o preo do ferro para a China gravitar em torno de 50 dlares a tonelada, que foi a mdia do ltimo ms e o fator que levou os australianos a incrementarem suas exportaes, juntamente com os brasileiros. Para quem produz abaixo de 30 ou mesmo de 20 dlares por tonelada, ser um grande lucro. Mas eles so poucos, o que aumentar a oligopolizao do mercado internacional de minrio de ferro. Com uma questo lateral: quanto desse lucro ficar para os verdadeiros donos dessa riqueza?

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Belm no mais a capital?O amigo do reiRomulo Maiorana Jnior criou a ORM Air Txi Aereo em 2000. A empresa s dele. Talvez para se proteger, incluiu sua me, Lucida Batista Maiorana, na sociedade. No se preocupou com esse detalhe, que poderia colocar a viva de Romulo Maiorana em diculdades se alguma irregularidade fosse praticada. Irregularidades foram cometidas e Da s no responder por elas porque j ultrapassou a faixa dos 70 anos. Mas a ORM j foi denunciada pelos ministerios pblicos federal e estadual em aes recebidas e em tramitao pelas justias estadual e federal. Apesar de estar sendo processada por evaso de divisas, sonegao fiscal e outras capitulaes cveis e criminais, a empresa de txi aereo continua a receber o amparo do governo do Estado. Ele o seu nico grande cliente. Diga-se, a bem da verdade, que o favorecimento remonta ao incio da empresa e se constitui na sua prpria razo de ser. Os tucanos tm sido os principais parceiros de Maiorana Jr., mas a petista Ana Jlia Carepa, depois de anunciar o fim dos contratos, tambm, usou o jatinho executivo da ORM Air. No seu terceiro mandato, Simo Jatene mantm sua delidade empresa, apesar das investidas do Ministrio Pblico e da justia do Estado pela renvogao dessa relao, considerada irregular. O patrimnio da companhia, como os dos PMs que respoondem pelos contratos na Casa Militar, foram declarados indisponveis at o limite de 123 mil reais por causa dos erros na contratao dos servios, que rendeu mais de dois milhes de reais entre 2012 e 2014 e dever gerar outros R$ 774 mil se o novo contrato, assinado no nal do prximo ano, no for derrubado. Essa receita garantida talvez tenha servido de estmulo para Romulo Jr. praticar fraudes na importao do seu atual jato executivo e mantenha uma empresa com apenas dois funcionrios. Assim, enquanto fatura junto ao governo o suciente para existir e ter lucros, das meores empresas pra quantidade de empregos que oferece do Par. Graas ao governo Jatene? A rediviso territorial do Par est se tornando mesmo uma fatalidade, uma tendncia inevitvel. Belm continua a se esvaziar economicamente e demograficamente, perdendo posio no conjunto nacional e internamente. o que mostram as Estimativas da Populao para Estados e Municpios, publicao do IBGE divulgadas no ms passado. O Par se mantm como o 9 Estado em populao do Brasil, mas Belm caiu para a 11 posio. O crescimento da sua populao entre 2014 e julho deste ano foi de 0,47%, enquanto o crescimento nacional foi quase o dobro, 0,86%, e o estadual atingiu 1,25%. A populao de Ananindeua, de 505 mil habitantes, superou um tero da populao da capital, que no chegou a 1,5 milho (1.439.561, segundo os clculos do IBGE). O que impressiona, porm, o deslocamento de populao internamente e a migrao para o interior do Par. Marab, na 4 posio, com 292.500 habitantes, est encostando em Santarm, a 3, com 262.050. Impressionante o crescimento de Parauapebas, de 3,58%, que a fez subir para o 5 maior municpio paraense, com 189.921, frente do seguinte, Castanhal (189.784). Proporcionalmente ainda mais expressivos so os incrementos demogrcos de So Flix do Xingu, de 4,3%, fazendo-o subir para 11 lugar (116.181 habitantes) e Cana dos Carajs, de 3,9% (32.632). Todos eles em reas pioneiras, por onde h a expanso da fronteira econmica em dinmicas que independem de Belm e, por isso, rejeitam o seu controle e jurisdio. a congurao de uma espacialidade nova, que desaa Belm. Se a cidade quiser manter sua condio de capital desse territrio em uma dinmica nova, vai precisar responder ao desao que a histria atual lhe impe. Ou ser atropelada pelos fatos. o que j est acontecendo. As situaes se estabelecem e os conitos se precipitam inteiramente revelia da capital, que no consegue mais se apresentar como mediadora, interlocutora e, menos ainda, como autora do que acontece no Par. O drama da UnimedA Unimed tem 350 mil clientes no Par e de propriedade de 1.800 mdicos. uma das maiores comunidades de interesse do Estado. Interesse que se traduz em dezenas de milhes de reais todos os meses. Clientes, scios e familiares ultrapassam um milho de pessoas. Elas caram sobressaltadas quando a Agncia Nacional de Sade interveio na Unimed de So Paulo. Temeram pela sorte da unidade paraense, que est sob regime de interveno branca, ameaada de per der a sua clientela se no atender as exigncias impostas, a principal das quais se capitalizar em quase 50 milhes de reais nos prximos meses, para continuar a funcionar nor malmente. de alto interesse pblico que a Unimed Belm, organizada sob a forma de cooperativa, prossiga nas suas atividades. Mas s com boa informao os interessados podero saber os rumos que a entidade est tomando para se livrar do risco de desaparecer. O intrigante constatar que, apesar de sua campanha de anncios e informes publicitrios, a Unimed no merece a ateno editorial da imprensa local. A imprensa paraense quer faturar, informar ficou secundrio. Por isso a desorientaa geral impossibilita os interessados de saber se a entidade estq no eumo certo ou nqo. Um debate mais profundo se torna urgemte.