Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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CARAJS: 48 ANOS OS POETAS ASSASSINADOS JORNAIS SO CONDENADOS oa Quem especula sobre o futuro do Brasil se divide em dois grupos principais. Um est tentando saber se a presidente Dilma Rousse ir at o m do seu mandato. O outro se interroga sobre como car o pas depois de Dilma. Para a primeira corrente, Dilma dicilmente chegar at o nal do ano, que se abreviar por fora do seu impeachment ou por sua renncia. A outra corrente quer apressar o desenlace porque j prepara o cenrio para uma nova etapa da histria republicana brasileira. A presidente est sendo sangrada por seus inimigos ou sangrando de moto prprio. No parece ser porque esteja deprimida ou venha se alheando da realidade, numa quase esquizofrenia voluntria. Ela reage, como se viu no programa do PT pela televiso. Mas continua a reagir com o uso da poo mgica do seu marqueteiro maior, Joo Santana. Acha que o retoque da imagem pode gerar efeitos concretos, o virtual comandando o real, quando o que acontece exatamente o oposto: o povo no acredita mais nela porque suas palavras no so acompanhadas por efeitos coerentes com o que diz. O efeito, na verdade, contrrio ao que ela declara. DILMACai ou sai?A presidente tenta reagir sua impopularidade recorde, mas novamente acredita que pode mudar o Brasil a golpes de marketing, transformando o mundo virtual em realidade. Essa iluso est saindo muito cara ao pas e pode ser fatal para Dilma.

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2 Nenhum presidente foi to impopular ao longo deste ltimo quarto de sculo quanto Dilma Rousse. Ela pode ter se tornado a mais impopular desde o incio do ltimo perodo de democracia da repblica (a sexta), em 1985. Mas no h provas sobre essa fase porque o instituto Datafolha, o responsvel pelos dados da mais recente pesquisa, divulgados na semana passada, s iniciou esse tipo de sondagem em 1990. E comeou exatamente com aquele que era, at ento, o campeo da desaprovao. Em setembro de 1992, pouco antes de sofrer o processo de impeachment que o afastaria da presidncia, Fernando Collor de Mello, atual senador pelo PTB de Alagoas e investigado pela Operao Lava-Jato como cobrador de propinas para exercer trco de inuncia junto Petrobrs, tinha 9% de aprovao e 68% de reprovao. Dilma Rousse chegou agora a 71% de reprovao e 8% de aprovao. Ela recebeu mais 10% de reprovao desde a pesquisa anterior, realizada na terceira semana de junho, quando 65% dos entrevistados classicavam o seu governo como ruim ou pssimo. Nesse perodo, sua aprovao baixou 20%, saindo de 10% para 8% entre os que consideram a sua atuao tima ou boa. Se 71% desaprovam o seu gover no, 66% so favorveis abertura do processo de impeachment contra ela no Congresso, um incremento de 5% comparativamente sondagem anterior, de pouco mais de um ms atrs. Um dado ainda mais importante o crescimento de 29% para 38%, de quase 30%, portanto das pessoas que acham que ela ser retirada do cargo, independentemente das opinies que tm sobre um eventual processo de impeachment. Ao proclamar Dilma Rousse como a presidente mais impopular do pas desde que as pesquisas do seu instituto comearam a ser feitas com a metodologia atual, a Folha de S. Paulo ressal vou que as aferies durante o perodo do governo Jos Sarney (1985-1990) eram feitas em dez capitais. Por isso, no podem ser comparadas com as sondagens seguintes. Ainda assim, um dado espanta: Sarney registrou 68% de reprovao em seu pior momento, em meio superinao, que subiu a 80% num nico ms. A situao atual do Brasil muito melhor do que a de ento, por quase todos os indicadores econmicos, nanceiros e sociais que se possa aferi-la. Mas h um dado que agrava a situao da presidente: parcelas cada vez maiores do povo brasileiro no s no acreditam mais nela como esto convencidas de que o pas vive uma inexo para baixo.Essa certeza tem um fun damento bvio e concreto: at a eleio, Dilma Rousseff garantia que o crdito farto, o consumo ascendente, o ndice de emprego elevado, os ganhos de salrios e rendas em cadncia fir me, as verbas sociais em expanso e outros benefcios em curso seriam mantidos por serem reais, sustentados pelo tesouro pblico, sem o risco de escassez. Esse mundo ruiu do dia se guinte eleio at es tes nossos dias.Tem sido uma queda constante e crescente. O carro se desgovernou na ladeira e segue incrementado para baixo. A motorista no d sinais de que pode control-lo. No consegue impor unidade ao seu governo. No apoiada pelo seu prprio partido, dividido entre uma remota coerncia ideolgica e programtica e um deslavado siologismo, que abriu uma cratera de cor rupo na administrao pblica e nos seus satlites. O crescimento avalizado pelo Ministrio da Fazenda a partir de ordem unida, gritada para Guido Mantega por Dilma Rousse, se esgotou. A presidente est afnica. Comea a parecer a rainha da Inglaterra enquanto os ratos pulam na gua e os predadores fazem seus conclios oportunistas com os olhos grudados na cadeira sem dono efetivo. Salta aos olhos, entre tantas especulaes e interpretaes desencontradas, alarmistas ou inteiramente alucinadas, um dado que clama por reconhecimento: se fracassou o modelo anterior, uma cocana realimentada pelo carisma de Lula, que Dilma no herdou nem podia herdar, a nova abor dagem no pode ser feita pela mesma equipe. Ela s conseguiu manter o barco navegando por ocultar dos passageiros os rombos no casco, provocados em grande medida por sua pattica incompetncia. Quando a embarcao comea a afundar, preciso contar com nova tripulao. Um novo processo de impeachment ter efeito traumtico para a nao, mas um instrumento constitucional disponvel. Neste momento, a frmula perfeita seria o parlamentarismo. O Congresso votaria uma moo de desconana e um novo primeiro ministro refaria o governo. Mas um parlamentarismo cado de paraquedas, como em 1961, s pioraria a situao. No se pode recorrer a um instituto srio e profundo para a ao de pronto-socorro. Se h pessoas, grupos, organizaes ou instituies com propsitos golpistas, querendo se aproveitar da crise para golpear no s a presidente, seu partido e seus aliados, mas a prpria democracia, nada indica que seja uma parcela preponderante. francamente minoritria. A existncia desses bolses sinceros, mas radicais, conforme o general Geisel deniu a linha dura das foras armadas durante a ditadura, no justica o apego ao atual governo como tbua de salvao para a manuteno da democracia. Para algum benefcio novo contribuiu a circunstncia de que o Brasil vive o seu mais longo perodo de democracia, que j completou 30 anos. O anterior, da IV Repblica, se ndou com 18 anos apenas. Sem chegar maioridade, portanto. Os brasileiros gostaram desse modo de vida em sociedade. Um golpe teria que ser muito mais bem preparado, e por um tempo bem mais longo de gestao, do que o de 1964. A crise de conana s no seria fatal se o governo Dilma adotasse medidas que restabelecessem a conana do povo. A srio, vistoriando um mtico cinturo das mil utilidades que pudesse estar ao alcance dos inquilinos do

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3 Palcio do Planalto e arredores, factvel essa transformao radical e sbita? Claro que no. Milagre exige malabarismo, truques e farsas, alm de um pblico suscetvel hipnose coletiva. Pois foi justamente essa combinao espria de elementos de fantasia e iluso que conduziu o Brasil crise em que se encontra. O pas quer continuar a amadurecer e no se expor a apodrecer. Se em 1964 a pregao moralista dos golpistas rendeu frutos, nunca demais lembrar que a esquerda contribuiu signicativamente para esse sucesso com seus muitos erros, vrios deles crassos, primrios, inacreditveis. Dentre eles, a presuno arrogante de sapincia e domnio histrico, que colocou na boca de Luiz Carlos Prestes a frase de pera bufa: J estamos no governo. Agora, conquistaremos o poder. Ou algo assim irreal. Para um aprendiz das lies da histria, j no impressiona a retrica da esquerda em torno da manuteno, a qualquer preo, do governo Dilma apregoada pelas redes sociais da inter net. Os mais realistas j especulam sobre o Brasil ps-Dilma. Quem pensa no bem da ptria deve tratar de subir na onda da histria para que essa antecipao no seja manipulada novamente pelos espertos, oportunistas, ladres e benecirios de sempre.A pesquisa Datafolha no deixa mais dvida alguma: a reprovao presidente homognea nacionalmente, se espalhando por todas as regies do pas e camadas sociais, com ndices em semelhantes em todas elas.A maior taxa de reprovao, de 77%, foi registrada na regio Centro -Oeste. No Sudeste e no Sul, 73% dos entrevistados responderam que o governo ruim ou pssimo. Mesmo no Nordeste, reduto tradicional do PT, apenas 10% dos consultados pelo Datafolha esto convencidos de que o governo timo ou bom. Outros 66% acham que a administrao ruim ou pssima. Esses ndices se mantm na margem de erro por idade, gnero, prosso. A concluso, neste momento, de que a presidente Dilma Vanna Rousse car cada vez mais isolada no seu trono, vegetando no exerccio do poder. S lhe restar ser protagonista, falta de frmulas mgicas para rever ter o nimo dos brasileiros, se tiver um gesto que a dena como o que ela no conseguiu demonstrar ser at agora: uma estadista. S os dogmticos e fanticos se recusam a reconhecer que o Brasil, mantido como est, caminha para o abismo. O desvio de rota inevitvel. A base da pirmide social conseguiu comprar roupas, televiso, geladeira, carro e dentre outros bens de consumo, graas ao maior grau de endividamento que a famlia brasileira j teve, com a maior inadimplncia dos devedores. Mas mora em bairros ruins, sujeita criminalidade, sem o atendimento mdico devido, a escola de qualidade a civilizao, enfim. O Brasil tem o 7 PIB do mundo e continua brbaro, injusto e, agora, desequilibrado. Criou uma bolha de fantasia e ela agora est explodindo. Como ser o dia depois?O Liberal e Dirio do Par so condenados pela justiaDe uma s penada, a desembar gadora Edina Oliveira Tavares, da 3 cmara cvel do Tribunal de Justia do Estado, condenou os dois principais jornais do Par. Atravs de uma das decises, condenou o Dirio do Par a pagar 10 mil reais (acrescidos de juros e correo monetria) de indenizao a Nilton Washington Alves de Paiva, por danos morais. O jornal o apontou como integrante de uma quadrilha que assaltou o Banco do Estado do Par, quando ele apenas conduziu em seu txi um dos assaltantes, que o fez parar e subiu no veculo como simples passageiro. Alguns quilmetros depois de iniciada a viagem, na BR 316, o motorista foi interceptado por uma viatura da polcia civil, que deu voz de priso a seu passageiro, reconhecido como membro de uma quadrilha de assaltantes de banco. Nilton foi ento conduzido delegacia para prestar esclarecimentos, mas na qualidade de testemunha, tendo sido liberado logo em seguida. O Dirio porm, publicou no dia seguinte, em 2007, no seu tabloide de polcia, a foto do motorista e o nome dele, citando-o como membro do grupo de assaltantes. Esse noticirio veio a lhe causar prejuzos de ordem moral e patrimonial. A desembargadora no acolheu as razes do recurso do jornal dos Barbalhos contra a deciso de primeiro grau nem aceitou reduzir a indenizao para R$ 1,5 mil, como a empresa queria. Mais uma condenao decorrente de notcia muito mal apurada, o que frequente no caderno de polcia, devia levar a direo do Dirio do Par a re ver a cobertura do setor. Ela incompetente, leviana, irresponsvel e desrespeitosa. Sua inspirao francamente comercial, para fazer o jornal vender mais. Pratica o jornalismo marrom (ou amarelo) h muito tempo, mas de for ma cada vez mais grave. A pretexto de fazer campanha contra o governador Simo Jatene, do PSDB, a quem mais o jornal agride ao seu leitor e aos pobres e humildes, objeto constante do seu noticirio tendencioso, que nunca atinge os ricos e poderosos, exceto se so inimigos da casa ou seus desafetos. A importao de um nome do jor nalismo nacional, como Klester Cavalcanti, para diretor de redao do jornal, alm de no mudar essa diretriz, parece t-la agravado, como se o jornalista per nambucano tivesse vindo para Belm

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4 com essa misso. No dia 3, o tabloide sanguinolento circulou com mais pginas, 16 (equivalentes a oito pginas no formato padro), pelas quais foram distribudos 12 cadveres. Um deles ocupou quase uma pgina e meia. Foi a maior fotograa de presunto da histria da imprensa paraense, talvez da nacional, quem sabe, da mundial. O Dirio est conseguindo transformar o seu caderno policial num Instituto Mdico Legal impresso em papel. Mas com a mesma quantidade de sangue. J a condenao de O Liberal foi ao pagamento de indenizao por dano moral, no valor de 20 mil reais (igualmente acrescido de juros e correo monetria), juza eleitoral de Ananindeua. A juza Andra Cristina Ribeiro alegou que scalizou ativamente as movimentaes dos candidatos durante todo o perodo eleitoral de 2008, tendo, contudo, sido alvo de difamaes e injrias por parte do jornal da famlia Maiorana. O Liberal publicou notcias inverdicas relacionadas aos seus servios, atentando, desta forma, contra sua honra e dignidade, o que a levou a propor a ao de indenizao por danos morais. Ao examinar o recurso do jornal contra a deciso na instncia anterior, a desembargadora Edina Tavares, como relatora da apelao, disse ter verificado que as notcias reiteradamente veiculadas no se limitam a divulgar fatos que entendem irregulares ou articular dados que denotem falta de lisura no trato da coisa pblica. Pelo contrrio, as reportagens s o de cunho inteiramente tendenciosos, de modo a fazer com que o pblico leitor crie uma imagem pejorativa da magistrada, permitindo, inclusive concluir que ela possui envolvimento poltico partidrio, capaz de trazer parcialidade ao servio pblico prestado, na condio de juza eleitoral. Embora reconhea o direito constitucional liberdade de informao, a desembargadora se declarou convencida de que no caso deve ser reconhecido o abuso do direito de informao. O jornal acusou a juza de tendenciosa e parcial, muito embora no haja indcios de que ela possua envolvimento com qualquer ato ilcito. No caso do Dirio o erro foi de apurao incompetente e medocre dos fatos. J em relao a O Liberal o jornal se tornando personagem dos acontecimentos, editorializando, com o uso de juzos de valor prprios de uma opinio ou de um julgamento, o que devia ser apenas um relato dos fatos. Os dois casos de abuso se repetem nas edies dirias, mas poucos dos ofendidos vo justia porque tm medo de represarias. Jornalismo, decididamente, no isso.Descobridor de Carajs refaz fato 48 anos depoisO gelogo paulista Breno Augusto dos Santos voltou ao local, uma clareira da Serra Arqueada, onde, 48 anos antes, fez um pouso de helicptero no primeiro dia de campo de uma campanha exploratria. Ali coletou amostras de uma rocha que atraiu a sua ateno e a remeteu para anlises. Quando veio o resultado, a intuio do jovem ferro de alto teor, o mais puro existente na crosta terrestre. Era o comeo da histria da provncia mineral de Carajs, no sul do Par, um dos principais captulos da histria geolgica mundial. A viagem tambm de helicptero fez parte de uma srie de homenagens que a concessionria da jazida, a antiga Companhia Vale do Rio Doce, prestou ao gelogo em comemorao aos 30 anos do primeiro embarque de minrio de ferro extrado das jazidas de Carajs, em maro de 1985. Ao caminhar pelo local, agora ao lado da esposa, Yolanda Santos, Breno disse que a descoberta que voc visita e percebe que est tendo sucesso. Fiquei pouco tempo afastado de Carajs e, mesmo depois de aposentado, voltei vrias vezes. Por isso, no me sinto um estrangeiro, mas algum que faz parte deste territrio. Tanto que espero que as minhas cinzas sejam jogadas entre as serras Norte Provocado a se manifestar sobre o futuro de Carajs num momento de queda dos preos do minrio de ferro, Breno reagiu com sua tradicional ciclos. Mas em termos de minrio de ferro, Carajs imbatvel. Tem o que chamamos de robustez, que o potencial de resistir, mesmo em perodos de crise. A robustez de Carajs est na qualidade do produto e na competncia da Vale em trabalhar com minrio

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5 de ferro. Por isso, acredito que Carajs pode at Carajs dever resistir a todas as adversidades do mercado internacional de commodities e da indstria siderrgica, especialmente a A estratgia da Vale, como se ver a seguir, de incrementar ainda mais a produo para provocar a inviabilizao da maioria das mineradoras, que tm minrio mais pobre e custos de produo mais elevados, assegurando o seu mercado atravs do deslocamentWo de concorrentes. Mais dia, menos dia, o reequilbrio entre a oferta e a procura levar recuperao dos preos e ao aumento da margem de rentabilidade da empresa, que dever avanar no ranking mundial. A perspectiva pode ser mesmo factvel e a Vale age corretamente como empresa privada. Mas A falta de mediao do poder pblico diante da ao da empresa evidente, constituindo grave lacuna na composio entre o microcosmo econmico e o contexto nacional e regional. Se a empresa prosseguir com seus objetivos, a jazida estar exaurida mais cedo do que seria sensato e til. Ao mesmo tempo, o grande volume de produo para da matria prima. O Par continuar colonial, no usufruir da sua riqueza natural e ter direito apenas Para atrair a ateno da opinio pblica para essa questo, aproveito a data e reproduzo o relato que Breno Augusto dos Santos fez para o livro Pelas Pedras do Caminho Mineral sobre o dia da descoberta histrica.Era uma manh radiosa, daquelas que ocorriam no incio do vero amaznico, quando as queimadas ainda no enegreciam tudo com a sua bruma seca. O temor em voar pela primeira vez de helicptero era contrabalanado pelo entusiasmo de, nalmente, iniciarmos os nossos trabalhos de explorao geolgica. Estvamos comeando a desvendar o desconhecido da regio, depois de mais de um ms de montonas atividades, restritas construo do acampamento na ilha de So Francisco do Xingu, ou relacionadas logstica de apoio. Terminvamos o perodo de cio forado, com suas pescarias, visitas aos seringais da ilha ou, simplesmente, de contemplao dos fulgurantes crepsculos do Xingu. Tudo comeara quando, em meados de julho, ao recebermos as fotos areas do Projeto Araguaia, constatamos que, apesar das facilidades da base de So Francisco, o local era imprprio para os objetivos do nosso programa de explorao. A geomorfologia das redondezas, ao alcance do helicptero, no sugeria a possibilidade de depsitos de mangans. Para leste havia serras bem orientadas, fantsticas, com grande potencialidade, alm de enormes clareiras, que despertavam a nossa curiosidade geolgica. A pista do Castanhal do Cinzento, que acabara de ser aberta pelo seu proprietrio, transformara-se em excepcional ponte para penetrar na regio, pois estava no centro de toda a rea de interesse. Conseguida, com alguma diculdade, a autorizao de seu proprietrio, tornava-se urgente a mudana da base de apoio, para que o programa de explorao pudesse ser iniciado. Tudo teria que ser levado para l: a equipe, suprimentos, equipamentos e, tambm, os helicpteros. Aproveitaramos o seu deslocamento para comear a conhecer a geologia da regio. Nos dias anteriores tnhamos sofrido o primeiro grande susto. Havia sido estabelecida uma ponte area, entre a base de So Francisco e o Castanhal do Cinzento, utilizando o pequeno avio do Ado. Em cada viagem iam mercadorias e equipamentos, e um ou dois empregados. Como havia necessidade de abastecimento de combustvel, alguns vos eram triangulares, com escala at Altamira, para encher o tanque do avio e transportar gasolina de reserva para So Francisco. Numa dessas viagens triangulares, que havia transportado o gelogo Erasto, o pequeno monomotor do Ado no retornou at o nal do dia. No tnhamos dvida de que algo grave acontecera, mas onde?... Em qual dos trs trechos?... No dia seguinte tambm no houve retorno... Para aumentar a nossa ansiedade, o mecnico ao tentar fazer o abastecimento do helicptero, notara a falta do combustvel j preparado em bujes, com um aditivo especial conhecido pela sigla de TTP. Os helicpteros Bell eram de um modelo muito antigo que utilizava gasolina de aviao com 80 octanas. Esse aditivo, na dose adequada, adaptava a gasolina disponvel de 100 octanas para que pudesse ser utilizada. As primeiras concluses, de que o abastecimento do Cessninha do Ado houvesse sido feito com o combustvel batizado, no chegaram a ser por demais alarmantes, pois se avaliava que no mximo poderia causar apenas algumas engasgadinhas no monomotor. Entretanto, no dia seguinte a situao tornara-se trgica. O mecnico, ao tentar preparar o combustvel para o helicptero, descobrira que por engano haviam utilizado tambm um bujo de 20 litros do aditivo TTP. No havia mais dvida de que a dose havia sido cavalar para o pequeno Cessna 170, e de que em algum momento o motor cara totalmente travado. Mas onde?... No havia outro avio na base, e nem equipamento de rdio para solicitarmos informao e ajuda. Ficamos angustiados e impotentes, sem nada poder fazer, e nada fazendo, s espreitando o horizonte, na expectativa de que algum milagre ocorresse. Qualquer zumbido nos cus j nos alentava com uma esperana.

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6 Na tarde do terceiro dia, quando o desnimo da pequena equipe era total, um braal de Altamira, o Franciner, que possua uma escolaridade acima da mdia e era dotado de uma audio fenomenal e que s vezes tinha at vises , entra correndo no acampamento, gritando que o Comandante Ado como era conhecido pela populao da regio -, estava voltando. Como nada ouvamos, julgamos que fosse uma de suas alucinaes. Mas aos poucos, cada um de ns tambm comeou a ouvir o suave ronco do motor, mais doce do que nunca. Os gelogos Ritter e Erasto, que j se encontravam no Cinzento, sofreram a mesma angstia, pois o Ado no retornara no dia seguinte, conforme combinado, com o restante da mudana. O Cessninha-170 (PT -AOV) realmente tivera uma pane sria. O motor simplesmente havia parado, com os cilindros emperrados, mas quando Ado, com grande sorte, j tocava a pista de Altamira. Foram necessrios quase dois dias para que o mecnico resolvesse o problema, limpando cada cilindro do motor. Apesar do susto, os deuses comeavam a jogar do nosso lado... Mas, nesse clima de muita emoo que estvamos dando incio ao BEP-Brazilian Exploration Program na Amaznia. A reunio da noite anterior havia sido um pouco tensa. O piloto de helicptero, Aguiar, com toda a sua experincia, argumentava que seria muito ar riscado tentarmos atingir o Castanhal do Cinzento, no rio Itacainas, voando em linha reta, e sem possibilidade de reabastecimento. Estaramos no limite da autonomia de duas horas do helicptero, com o agravante de que certamente pegaramos vento de frente. O piloto Ado, pioneiro no vale do Xingu, e que j comeava a integrar-se nossa equipe, tudo ouvia e dava alguns palpites, tentando contribuir com o profundo conhecimento que possua da regio. Eu procurava disfarar a minha insegurana, ante a misso de ter que coordenar tal programa de explorao geolgica, sem nunca sequer ter voado de helicptero. Tolbert, quando partira para o Rio, tinha procurado deixarme tranqilo, ao armar que no me preocupasse, que a companhia estava pagando para que aprendesse, pois ningum havia feito isso na Amaznia. Mas, na hora de comear, a tranqilidade desaparecera e muitos eram os fantasmas que me atormentavam. A lembrana do mapa da sala do Tolbert, no escritrio da Anlo de Carvalho, onde a Meridional tinha sua sede no Rio de Janeiro, fez com que eu arriscasse um palpite. Na parede havia um grande painel com antigos mapas do IBGE, na escala de 1:1.000.000, com destaque para a regio Tocantins-Xingu. Trs meses antes, por ocasio da entrevista de admisso, ao ser informado sobre onde seria o projeto, bem como da utilizao do helicptero, quei assustado com o vazio da regio e a falta de apoio para os voos, onde os rios apareciam como nico guia para a orientao. Tambm chamou ateno o fato de que dois pequenos auentes, de rios secundrios das duas bacias o igarap Carapan, no Fresco, e o rio Catet, no alto Itacainas , quase tocassem as suas cabeceiras, indicando o nico caminho natural entre as duas bacias. Assim, acabou sendo aceita, pelo piloto Aguiar, a rota: So Francisco rio Xingu So Flix do Xingu rio Fresco igarap Carapan rio Catet Aldeia Xicrins rio Catet rio Itacainas Castanhal do Cinzento. Toda a equipe saberia por onde voaramos, o que poderia facilitar as buscas se o pior acontecesse. Alm da segurana, apresentava uma vantagem geolgica, pois na serra, que separava as cabeceiras do Carapan e Catet, havia uma pequena clareira, semelhante s maiores, e que fora selecionada para pouso de reabastecimento. Poderamos, ento, comear a desvendar os seus mistrios. Como o voo total previsto era da ordem de quatro horas, quase o dobro da autonomia do helicptero, cou decidido que levaramos combustvel em bujes plsticos nos bagageiros exter nos do helicptero. Ado nos aguardaria em So Flix e na aldeia dos caiaps, com combustvel adicional. Aguiar determinou que a partir de So Flix, por medida de segurana, pousaramos sempre que possvel para reabastecer o helicptero, o que nos daria uma hora adicional de autonomia, que jamais deveria ser ultrapassada, para termos chance de retorno. Estvamos sobre o Xingu, no rumo sul, e aos poucos o apavoramento do primeiro voo foi-se dissipando, e comecei a apreciar a aventura. O velho helicptero Bell-G (PT -CAX), possua como cabina apenas uma bolha plstica, sem portas e, como cauda, uma estrutura metlica tubular, para suporte do pequeno rotor, que compensava o torque do rotor principal e garantia a direo do voo. Aguiar, apesar do maior risco, gostava de voar baixo, ao redor de 100 metros, e a experincia era fantstica. Com muita emoo observvamos a copa das rvores, os pedrais no rio e, por vezes, bandos de araras que voavam abaixo de ns. A ausncia das portas permitia que curtssemos a natureza amaznica na sua plenitude, inclusive sentindo os seus cheiros. At So Flix foi um passeio, sempre sobre o Xingu. Ado nos esperava, conforme combinado, para o reabastecimento. Com o At os Xicrins!... nos despedimos, ante os olhares espantados de alguns moradores. O rio Fresco era repleto de pedrais, permitindo que Aguiar, aps uns 15 minutos, escolhesse um bem favorvel para o pouso teramos mais 15 minutos de autonomia. Aproveitei para coletar a minha primeira amostra no projeto, de uma rocha vulcnica comum na regio. Nova decolagem e, aps alguns minutos, atingimos a boca do Carapan. Agora o voo tornava-se mais crtico, pois o igarap era bastante estreito, muitas vezes desaparecendo sob a copa das rvores, dicultando at a prpria orientao. Depois de algum tempo, Aguiar identicou um pequeno pedral, e sob os meus protestos, com um malabarismo areo, conseguiu pousar o pequeno helicptero, com o rotor principal cor tando as folhas de uma pequena embaba. Segunda amostra coletada, de outra rocha vulcnica. Com toda a sua percia, Aguiar novamente nos colocou no ar e, aos poucos, o Carapan tornou-se por demais estreito, desaparecendo sob a vegetao. A serra que correspondia ao divisor de guas j era bem visvel no hori-

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7 zonte, e por ela nos orientvamos. Mas no tnhamos a menor suspeita sobre o que nos esperava. Logo nos aproximamos da sua extremidade oeste e passamos a sobrevoar o seu anco norte, onde se localizava a clareira. De repente, l estava ela, bastante ngreme nas proximidades do topo da serra, mas aplainada mais abaixo, o suciente para permitir o pouso do helicptero. Entretanto, quando nos preparvamos para descer, Aguiar chamou a ateno para a cobertura vegetal, pois havia uma espcie parecida com uma pequena palmeira, pouco maior que um metro, que poderia dicultar o pouso. Anos depois, camos sabendo que essa espcie recebe a denominao de canelade-ema na regio Centro -Oeste. Depois de escolher o melhor local, enquanto pousava o helicptero, Aguiar pediu-me que olhasse para trs e controlasse a cauda, avisando-o se houvesse risco de choque do pequeno rotor com a vegetao. Mas, meu olhar foi atrado para a cober tura negra da clareira, distra-me na inspeo de segurana, e o Aguiar soltou um sonoro palavro quando houve o choque do rotor. Aguiar decolou o helicptero, escolheu novo local e pousou com segurana, sem a minha eciente ajuda. Imediatamente sa do helicptero, tendo o cuidado necessrio com os dois rotores, bastante baixos nesse tipo de equipamento. Apesar do risco de incndio, o reabastecimento era sempre feito com o motor ligado. Os magnetos utilizados na partida costumavam falhar, e havia o risco maior de carmos isolados na oresta, sem a possibilidade de socorro imediato. Tinha a esperana de que poderia ser uma crosta de minrio de mangans. Enquanto Aguiar comeava o reabastecimento, meu martelo quebrava os primeiros blocos. O p marrom-avermelhado indicava que a crosta da clareira correspondia canga de minrio de ferro. Tirei as primeiras fotos do minrio de ferro de Carajs, cando como documento histrico da descoberta o agrante do helicptero pousado na clareira, enquanto Aguiar ainda cuidava do seu reabastecimento. Foi um momento de grande emoo, com conflitos entre o entusiasmo e a dvida. Contemplando o horizonte comecei a sonhar com a possibilidade de que as grandes clareiras tambm fossem devidas mesma causa. Mas essa ideia me assustava pela sua grandiosidade... Sempre que dou alguma entrevista ou fao alguma palestra sobre Carajs, comum a pergunta: O que de mais importante ganhei com Carajs?... Mesmo reconhecendo que o estigma de Carajs acabou contribuindo para a minha carreira prossional, no tenho dvidas em armar que foi a chance de ter vivido aquele momento, quando pude sonhar, antes que qualquer outro mortal, com a possibilidade de que a natureza nos tivesse sido to generosa. Coletei minha terceira amostra. Era muita sorte para a United States Steel. O programa praticamente ainda nem comeara... (as amostras da Meridional, quando do encerramento de suas atividades, devem ter sido doadas ao Curso de Geologia da Universidade Federal do Par). Aguiar acabara de reabastecer o helicptero, e, ao aproximar-me, falei com entusiasmo: tudo ferro!... Aguiar no estava preocupado se havia muito ou pouco ferro, mas se chegaramos, ou no, com segurana aldeia dos Xicrins. Explicou-me que o choque poderia ter afetado com gravidade o sistema de direo do helicptero eixo e rotor de cauda , mas que preferia no desligar o motor para a devida vericao. Se o dano fosse grave, caria sem condies psicolgicas para prosseguir o voo. Mesmo que no houvesse nada, os magnetos eram sempre uma ameaa. No havia possibilidade de socorro de outro helicptero em prazo razovel, no tnhamos alimentos, e desconhecamos os perigos que poderiam nos cercar. Seus argumentos pareceram bastante razoveis, e concordei com o prosseguimento do voo. Teramos que voar mais que uma hora nesse clima de ansiedade. O trecho mais crtico seria sobre a serra, pouco mais que 10 minutos, onde no teramos locais para um pouso de emergncia. Com alegria e alvio atingimos o Catet. Agora o helicptero serpenteava sobre os meandros do rio, pois queramos ter sempre um espao livre para qualquer emergncia. Para nos distrairmos e espantarmos o medo, cantvamos a plenos pulmes: Vamos passear na oresta enquanto o seu lobo no vem... Quem diria!... Felizmente, e mais rpido do que pensvamos, chegamos aldeia, aps o total de trs horas e quarenta minutos de voo. Com alegria fomos recebidos pelo Ado, pelo mecnico do helicptero e pelos poucos ndios que estavam na aldeia era poca de caa. O motor pde ser desligado, e a vericao feita pelo Aguiar e pelo mecnico, que constatou que, aparentemente, no havia nenhum dano srio. Apenas um pequeno sinal da batida no rotor de cauda. Reabastecido o helicptero, tapeamos a fome com alguns biscoitos, pois j passava do meio-dia, e prosseguimos para o Castanhal do Cinzento. A aldeia no cava muito longe da desembocadura do Catet, e estava ansioso para conhecer a geologia que encontraramos nos pedrais do Itacainas. Mas mal atingimos o Catet, o motor comeou a ratear, o helicptero balanou, e perguntei ao Aguiar: Vamos Breno e eu, h mais de 30 anos, en Serra Sul, amais rica jazida, condenada a acabar em 40 anos

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8 voltar?... Tive a resposta imediata: J estamos voltando!... Felizmente o motor ainda teve potncia suciente para atingirmos a aldeia. Recebi o meu batismo com o pouso de emergncia, o primeiro de uma srie bem maior do que poderia suspeitar. Prosseguimos a viagem com o avio do Ado. Logo que cheguei ao Cinzento, chamei Ritter e Erasto, para que vissem as amostras coletadas. Erasto tambm estava entusiasmado, pois encontrara, em pedrais do Itacainas, aoramentos de rochas mcas com mineralizaes de magnetita. Posteriormente, camos sabendo, j nos tempos da Docegeo, que essas rochas fazem parte da seqncia Pojuca-Salobo, mineralizada a cobre, ouro e magnetita. Ao comentar que as outras clareiras poderiam ser iguais, logo elaboramos o raciocnio de que isso seria praticamente impossvel, pois teramos os maiores depsitos de minrio de ferro do mundo. Mais impossvel seria que depsitos to grandiosos, aorantes na superfcie, ainda no tivessem sido descobertos, quando o homem j se preparava para pousar na Lua. Apesar do absurdo, nosso raciocnio quanto impossibilidade estava er rado. De fato eram as maiores reservas de minrio de ferro de alto teor encontradas na Terra!... No dia seguinte, Ritter e Aguiar foram apanhar o helicptero, j recuperado, na aldeia dos Xicrins, para executar o reconhecimento do Itacainas at o Cinzento. Ado ficou aguardando at que decolassem, mas no chegaram at o final da tarde, conforme previsto. No dia 2 de agosto, bem cedo, Ado partiu em busca do helicptero. Logo retornou para nos tranquilizar, informando que avistara o helicptero sobre uma pedra no meio do rio, e que parecia que os dois estavam bem. Providenciamos um saco emborrachado com alimentos e remdios, e parti com Ado para fazer o lanamento no rio. Mais tarde, ficamos sabendo que o eixo do rotor de cauda se rompera, deixando o helicptero sem dirigibilidade, como consequncia do choque do rotor no pouso desastrado na clareira. Por que s agora acontecera?... Uma equipe foi organizada para o resgate uvial, o que acabou levando um dia e uma noite, mas com todos bem. No mesmo dia segui com Ado para Belm, para comunicar ao Tolbert o incio dos trabalhos e a descoberta. Depois de quase duas horas de espera no posto telefnico da antiga Radional, consegui informar o que acontecera. Para bem comunicar o local do pouso, levei uma foto area da serra, e pedi que Tolbert, obser vando o seu nmero, pegasse a duplicata no Rio. Ento, para simplicar a comunicao, disse: Est vendo a clareira nessa serra arqueada?... E, a partir desse momento, Arqueada passou a ser o nome da serra do descobrimento, assim sendo conhecida em todos os mapas da regio. Apesar de comentar a possibilidade de que as outras clareiras tambm pudessem ser devidas canga de minrio de ferro, a reao de Tolbert foi bastante fria, acabando com o meu entusiasmo: Tem muito ferro no mundo... Continuem procurando mangans. Em agosto, entre os dias 17 e 20, participei com Tolbert de voos com magnetmetro na regio, a partir da serra do Sereno, bem como ao redor de Serra do Navio, no Amap, na tentativa de se encontrar alguma camada guia dos depsitos de mangans, com resposta magntica, que pudesse orientar as futuras buscas. Nada foi conseguido, mas, quando o DC-3 da LASA sobrevoava as clareiras, a agulha que fazia os registros magnticos endoidava. Na segunda quinzena de agosto, com os dois helicpteros da Helitec em condies de vo, os trs gelogos da equipe zeram o reconhecimento das grandes clareiras, logo depois batizadas como N1, N2, N3, N4 e N5 na Serra Norte -, e S11 na Serra Sul -, conr mando a hiptese inicial. No incio de setembro, o engenheiro de minas Francisco Sayo Lobato, consultor da Meridional, visitou a rea e cou profundamente entusiasmado com o que viu. Em decorrncia da descoberta do mangans de Buritirama, na mesma poca, Tolbert veio visitar a regio, mas deixando as clareiras para o segundo dia. Isso comprova que a descoberta do ferro de Carajs no foi um jogo de car tas marcadas, como muita gente chegou a suspeitar. Assim, somente na manh de 17 de setembro, sob a neblina segui de helicptero com Tolbert para a N3, uma pequena clareira de Serra Norte. Logo ao descer, seu olhar brilhava de felicidade, rindo como criana. Caminhava pela clareira, quebrando com o seu martelo os blocos de canga que encontrava. Comparou o que via com a jazida de ferro de guas Claras, nas proximidades de Belo Horizonte, per tencente MBR. Entre outros comentrios, um mar cou-me para sempre: Quantos gelogos trabalham a vida toda sem ter a alegria de participar de uma grande descoberta... Voc est comeando a sua vida prossional e j teve essa sor te!... Depois de deix-lo curtir todo o seu entusiasmo com o que via, por mais de uma hora, disse-lhe que para mim aquilo no representava nada. Ante seu espanto, pedi que entrasse no helicptero. A neblina j se dissipara e solicitei ao piloto que subisse bastante. O dia estava bem claro, e na nossa altura era possvel contemplar a regio em sua plenitude, a Serra Norte e a Serra Sul, com suas clareiras. Tolbert comeou a entender o que queramos dizer quando armvamos que havia muito ferro. Que tudo no era apenas uma iluso, fruto do entusiasmo de trs jovens gelogos brasileiros. Aos poucos, a alegria quase infantil, que Tolbert sentira na primeira clareira, foi sendo substituda por uma expresso compenetrada de preocupao. Comportou-se com seriedade prossional quando visitamos as grandes clareiras, sem as suas brincadeiras habituais, tornando-se mais grave a cada pouso. No nal da tarde, quando retornamos ao Cinzento, ante o seu mau humor, Erasto perguntou-me se havamos brigado. Respondi que no, que estava novamente de paquete... como na poca nos referamos popular TPM de hoje. Eram frequentes as alternncias de humor de nosso chefe e amigo, e usvamos esse cdigo para alertar os companheiros. Tolbert comentou comigo: tudo muito grande e minha companhia no vai ter competncia poltica para ficar com isso... E a histria seguiu o seu curso...

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9 Aa: ainda sem atenoNo dia 18/07/2015 tive opor tunidade de conversar com o empresrio da indstria de palmito em Vila Maiaua t, Sr. Jos Neto, paulista que mereci damente j foi agraciado com o ttulo de cidado de Igarap-Miri. Nesse encontro, ele me pediu que registrasse o tempo de 15 anos que sua indstria de palmito contribui para o desenvolvi mento da economia de Igarap-Miri e a localidade de Vila Maiauat. Questionei sobre os avanos da indstria de palmito em relao s questes ambientais. Ele explicou que adquiriu mais rea de terra no entorno da fbrica para avanar com depsito de resduos e cascas de palmito. Olhando para o local onde jogam os resduos e casca de palmito, o acmu lo transformou-se em montanhas arti naturais da regio sudeste do pas. Por um momento pensei que no estava na Amaznia. Lembrei-me do passado, quando trouxe o dr. Paulo Ivan, gerente de relaes institucionais da Albrs para conhecer a realidade da questo ambien tal do resduo do palmito em Maiauat, antes da inaugurao da Usina de Compostagem de lixo urbano no municpio, localizada na estrada da Vila. Ento, a Usina de Compostagem abria a expectativa de que poderia posteriormente expandir para o reaproveitamento dos resduos industriais do palmito e do aa, os dois principais produtos da economia do municpio de IgarapMiri. Lamentavelmente isso no ocorreu. Pelo contrrio, hoje, o local da Usina de Compostagem um lixo a cu aberto que est degradando o meio ambiente e infringindo a legislao pertinente. Se o poder pblico no cuida do lixo, muito menos a empresa cuidar. Cabe informar que, em 2011, alunos e professores da escola de Vila Maiauat apresentaram projetos em cional, com premiao pela importncia do assunto: Farelo do resduo do palmito; Compostagem: produo de adubo orgnico a partir de resduos slidos encontrados em Vila Maiauat. Se o papel da escola mais do que ensinar, resolver ou inovar solues dos problemas do cotidiano, por que parece que a escola ainda est distante da realidade que a cerca? Pesquisa aponta que o resduo gerado na indstria de palmito produz muitas toneladas; 90% so materiais descartados do processo industrial e depositados em terreno urbano, prximo da fbrica. um material rico em na-se um passivo (*) ambiental. Estou em sintonia com o Papa Francisco, que pediu urgncia para o meio ambiente. preciso proteger as verdejantes palmeiras do aa e do palmito s margens dos barrentos igaraps de Igarap-Miri. Zelar pelo solo, pela terra que est sendo muito maltratada pelo homem. De acordo com a Encclica do Papa, o meio ambiente um bem comum, uma herana coletiva de toda a humanidade, e somos todos responsveis por ele. Quando ser que a indstria de palmi to da Vila Maiauat assumir o papel de sustentabilidade ambiental com reutilizao dos resduos, as cascas de palmito, de forma a recicl-las, evitan do, com isso, o acmulo em qualquer lugar, que prejudica danosamente o meio ambiente e os moradores do bair ro do Araua? ________________ do como qualquer obrigao da empre sa relativos aos danos ambientais causados por ela, uma vez que a empresa a responsvel pelas consequncias destes danos na sociedade e no meio ambiente.O aa um dos produtos mais importantes do Par, com valor multiplicado por sua condio de matria prima nativa. O incremento do seu aproveitamento econmico at a ltima etapa de transformao, que pode ser expandida por pesquisa, tecnologia e inovao, possibilitar benefcio relativamente muito superior ao de outros produtos, de maior valor bruto, como o minrio de ferro, mas de rentabilidade inferior. Os investimentos na economia do aa, porm, so insuficientes. Mais at do que isso: insignificantes. O poder pblico no lhe d a ateno devida, nem mesmo em escala menor, como podia acontecer em Igarap-Miri, conhecida atualmente como a terra de aa. Justamente de l veio um artigo de rara acuidade, escrito pelo professor Rosrio Pantoja e publicado no blog da Gazeta Miriense. A preocupao do autor o lixo resultante da extrao do palmito. Mas ela pode ser igualmente aplicada ao aa, que gera grande quantidade de resduos, na forma de caroos, ainda sem melhor aproveitamento econmico, exceto servir de aterro. Pela importncia do tema, reproduzo o artigo de Rosrio Pantoja.

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10 Expedito Ribeiro de Souza: quando os poetas so mortosQuem chegasse modesta casa de Expedito Ribeiro, em Rio Maria, no sul do Par, tomava um choque: a parede da acanhada sala dividia seu espao entre um cartaz do Partido Comunista do Brasil e imagens das chagas de Jesus Cristo e de passagens da Bblia. Expedito era profundamente religioso e comunista (ou pensava ser). Essa incongruncia cabia harmoniosamente na alegoria que Giovanni Guareschi traou entre Don Camillo e Peppone na srie de romances que retratam o clima de aggiornamento da Itlia, na substituio do fascismo pela democracia do psguerra. No serto do Par, prenncio de morte.Comunista e religioso, Expedito traduzia sua alegria em versos, meio para expressar o que lhe ia pela alma e para usar como bandeira das lutas sociais pelas quais tanto se empenhou. Tanto que acabou assassinado, em 1992, pelos covardes desafetos da sua maneira de ver (e querer transformar) o mundo. S depois da sua morte seus anigos conseguiram publicar um livro dele, O Canto Negro da Amaznia. Convidado, escrevi o prefcio com muita honra. Conheci Expedito em Rio Maria e o encontrei algumas vezes em Belm. Um autntico homem do povo sincero, trabalhador, generoso. Reproduzo o texto do prefcio, a seguir, como homenagem a tantos outros personagens cuja grandeza foi mantida annima pela fora das armas daqueles que no querem que o povo escreva a sua prpria histria. No interior da Amaznia, sobretudo no Par, essas lpides so o testemunho da barbrie e um amortecido grito de revolta pela falsa histria que prevaleceu com suas execues. Ainda assim, Expedito vive. Quando a fora prevalece, os poetas so a primeira vtima, mas tm uma capacidade que escapa truculncia dos seus inimigos: ressuscitam atravs da memria da esperana e da utopia.Em 1990, Expedito de Souza Ribeiro selecionou poesias no vasto acervo de literatura de cordel que produzira e as inscreveu num concurso promovido pela Fundao Cultural Tancredo Neves, em Belm. Conseguiu honroso tercei ro lugar. Se tivesse sido o primeiro e a fundao agisse rpido, Expedito teria tido a alegria de ser pela primeira vez um livro seu publicado. Mas o prmio no veio, o livro no saiu, e Expedito foi morto com trs tiros, perto de sua casa, em Rio Maria, no sul do Par, no dia 2 de fevereiro de 1991. O livro saiu pouco depois, j como um livro pstumo. Nada a reclamar da comisso, que no deu o primeiro lugar ao alegre Expedito. As poesias dele no so obra prima, nem mesmo se circunscritas ao mbito do cordel nacional. Como todo poeta popular, ao contrrio dos fmulos e dndis das avenidas formais do verso, Expedito sabioa muito bem das suas limitaes e as expunha de pblico. Versejar, porm, era a maneira de projetar sua esperana, realimentando -a. Maravilhosa essa condio humana, que no prescinde da poesia como forma de conhecimento, emoo, prazer, mistrio, surpresa e alegria no sangrento serto como na sangrenta cidade. Em meio violncia e aridez que o campo cobra dos que nele sobrevivem, tvel capacidade humana. Imigrante, lavrador, preto, pobre, religioso, lder comunista e poeta. muito ttulo para uma pessoa to humilde. Um ttulo no nada, um ttulo apequando necessrio. A pessoa de Expedito Ribeiro de Souza transcende a etiqueta colocada no seu corpo inerte para o inevitvel assenque nasceu no meio do asfalto, amarela gre humano, percebido pelo grande poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Expedito, mineiro como o mago do serto, Guimares Rosa, ciranda de mineiros que no se passaram ao passarem pela vida deixando sua marca. Quanto capital humano penosamente acumulado desperdiado, em frao de instantes, pela estupidez dos homens, pela conivncia dos homens, pela insensibilidade dos homens por trs do gatilho do revlver de um pistoleiro. Expedito foi assassinado porque pensava pelos seus, brigava por eles, queria que fossem menos desiguais do que os mais iguais da sociedade. Porque h uma liturgia dessa palavra e uma confraria desse rito. Expedito se tornou militante do Par tido Comunista do Brasil, que, em Rio Maria, tenta manter sua mstica de Araguaia (mais mito do que mstica, alis). Na sala da pobre casa em que morava, e agregados dividirem, Expedito mantinha um cartaz do PC do B e imagens bblicas, alm do retrato das chagas de Cristo. Isto Brasil. Quem entende de serto sabe, aprende, suspeita. Quem de serto tenta fazer mares nunca dantes navegados, em papel ou celuloide, naufraga e arrasta consigo aquele forte que s em cabeas grandiosas rebrota por inteiro (nas de Rosa e Euclides, por exemplo).

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11 Os poetas costumam ser doces, mas da sua natureza ir ao fundo dos homens, trazendo-lhes as razes no espanta que os violentos tomem os poetas por alvo preferencial. Garcia Lorca, um sertanejo andaluz, sucumbiu aurora fascista na Espanha. A Maiakvski no restou alternativa seno o suicdio, que Eisenstein poeta da imagem bebeu em goles lentos, inodores, imorais (na imoralidade de escapar ao fatalis mo planejador de Pap Stlin). No serto amaznico, nem mesmo o docemente. Mesmo que divino, ele que se arme e se acautele, como est escrito nos versculos do redas. Pessoas do povo, como Expedito, se tornam poetas porque os grandes transcender a prosaica comunicao de de Rio Maria fechada a cada dia sem considerar uma morte, ou um anncio premonitrio de morte (a lgubre lista dos marcados para morrer), como a de Expedito, ou a dos Canuto (pai e dois gumas das poesias de Expedito, o tema quase proftico. Infeliz do pas em que os poetas so infalivelmente profticos e as autoridades incompetentes, cmplices. No podendo preservar a vida de Expedito, de muito listada para ser consumida, se salvam os seus versos, na tentativa talvez v, mas necessria de que eles permaneam no ar, como o perfume a que aspirava ser outro poeta do povo, o maranhense Joo do Vale, de mais sorte por no ter mexido nos mortferos assuntos de terra, razo da vida de milhes de brasileiros desterrados, razo tambm das suas mortes. Alm das poesias, o livro divulga a ltima entrevista de Expedito, concedida a Marcionila Fernandes. Aluna do curso de mestrado do Plades, no Ncleo de Altos Estudos Amaznicos da Universidade Federal do Par, Mar cionila conversou vrias vezes com Expedito, em funo da sua dissertao de mestrado, sobre a atuao dos fazendeiros no Par. Tornopu-se ami ga do lavrador. Foi ela quem recolheu as poesias que selecionei para o livro, com o qual se espera, tambm, ajudar na difcil sobrevivncia da famlia do lder sindical assassinado. O livro foi o registro da voz do poeta que fala pelo povo, e, como diz o povo, empresta a voz de Deus. Que muitos poetas do povo no inaugurem sua literatura postumamente, o que esperamos, e pelo que continuaremos a lutar.O deputado da motosserra, a arma da violncia rural Foi por pelo uso (ou abuso) da sua condio de coronel da Polcia Militar do Acre que Hildebrando Pascoal conseguiu os mandatos de deputado estadual e federal pelo j extinto PFL (atual DEM). Em 2009, ele foi condenado a mais de 130 anos de priso, 10 anos depois de ser preso. Nesse perodo passou a ser conhecido como o deputado da motosserra. Praticou muitos crimes, frente de um grupo de extermnio e como integrante do crime organizado para trco de drogas e roubo de cargas. Dentre os crimes estava a morte de um homem que, ainda vivo, teve braos e pernas cortados por uma motosserra. Na semana passada, aos 63 anos, depois de cumprir 26 anos de pena ininterrupta, Hildebrando passou a ter direito de progresso ao regime semiaberto. Ficar preso na cadeia apenas noite. O Par tem alguns homens da motosserra, nenhum deles identicado e muito menos condenado. O Par um dos Estados mais violentos do Brasil e do mundo. O mais selvagem da Amaznia. Por que, ento, tanta impunidade? Alguns executores de crimes de encomenda foram presos. O mesmo destino tiveram os intermedirios. Os mandantes encarcerados, porm, so exceo, raros. Seu nmero quase cabe nas duas mos do corpo. O saldo dos assassinatos de personagens incmodos tem sido extremamente positivo para os incomodados no meio rural. O pomo da discrdia quase sempre o domnio da terra, o que torna muito desiguais os confrontantes. A partir de certo momento os esquemas das mortes anunciadas se tornaram mais sosticado, na base de consrcios mais amplos com teias tecidas entre os participantes para apagar pistas ou estabelecer barragens de conteno. Chico Mendes no teria criado a sua fama no Par. Morreria provavelmente antes de estabelecer grupos de proteo no exterior, como conseguiu no Acre. So muitas as lideranas que pereceram no nascedouro, antes de poder escapar ao crculo fechado dos bares da terra no vasto interior do Estado. Por isso decidi publicar meu texto sobre o poeta Expedito Ribeiro. Pelo menos um registro deve sobreviver a essa sanha de destruio. Alis, sugestivamente, um revendedor de motosserra se instalou em prdio histrico na primeira rua de Belm, a atual Siqueira Mendes, que liga o largo da S ao largo do Carmo. Metfora sobre o quanto velha essa violncia assustadora e a omisso chocante de quem devia combat-la?

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12 memriado C otidianoPROPAGANDAA era das canetasEm 1956 e pelos anos seguintes o comrcio de Belm ainda inclua lojas dedicadas exclusivamente venda de canetas, lapiseiras e acessrios, como a tradicional Casa das Canetas, que cava na Manoel Barata. A rma oferecia gravao e assistncia grtis aos seus clientes, que iam de operrios a doutores. No rstico anncio, um escorrego gramatical do adquerir, de responsabilidade da agncia, a Holdridge Propaganda.AGASSIZNo dia 11 de agosto a chegada a Belm do naturalista suo Louis Agassiz, acompanhado da esposa, Elizabeth, completou 150 anos. Um dos mais importantes naturalistas estrangeiros a percorrer a Amaznia no sculo XIX, Agassiz aportou capital paraense num dia de temporal, com chuva forte, raios e trovo (como agora, num vero que surpreende os desavisados por ser to molhado). No dia seguinte se acomodaram na rocinha de Jos Antonio Pimenta Bueno, mais tarde marqus de So Vicente, na estrada (atual avenida) de Nazar, onde cariam hospedados. Madame Agassiz fez observaes interessantes no livro que escreveria, Viagem ao Brasil (1865-1866), mas que o marido assinaria. Ela se refere aos hoje celebrados frutos do aa, do tamanho dos da amoreira de espinho e de cor castanho muito escuro. Depois de fervidos, so espremidos e do um suco abundante de cor prpura anloga do suco de amoras. Depois de passado na peneira, esse suco tem a consistncia do chocolate. O gosto enjoativo, mas d um prato muito delicado quando se lhe ajunta um pouco de acar e farinha dgua, espcie de farinha dividida em grossos fragmentos, fornecida pelos tubrculos da mandioca. A estrada de Nazar foi o local que mais impressionou o casal. Agassiz e a mulher cavalgavam ou caminhavam entre seis e oito horas da manh, apreciando o clima, para eles surpreendentemente agradvel nesse horrio e depois das quatro da tarde. Os quatro ou cinco quilmetros dessa via, ligando a cidade oresta, j estavam com suas laterais ocupadas por mangueiras muito antes da administrao do intendente Antonio Lemos, portanto.BARATASeis anos depois da morte de Magalhes Barata, no exerccio do cargo de governador do Par (ocupado, pela primeira vez, atravs do voto popular), seus mais antigos seguidores decidiram criar a Brigada Baratista Livre. Aproveitaram o 11 de novembro de 1965, quando a ascenso de Barata ao poder como tenente da revoluo de 1930 completou 35 anos, para uma programao comemorativa. Houve foguetrio, missa na igreja dos Capuchinhos, visita ao tmulo do caudilho no cemitrio de Santa Isabel, seguida pela inaugurao de um busto de Barata no boulevard Castilhos Frana, ao lado de onde havia o Clipper de Icoaraci. Sugestivamente, a caravana terminou sua caminhada no palcio do governo, saudando outro coronel, Jarbas Passarinho, de outra autoproclamada revoluo, a do ano anterior, por identic-lo ao lder morto, que tambm chegou ao governo por eleio indireta. Passarinho foi saudado por lvaro Paz do Nascimento, com o qual disputaria uma vaga ao Senado, vencendo-o por uma margem de votos menor do que a esperada. E retribuiu a visita elogiando a iniciativa dos baratistas, que homenageavam o chefe quando dele j nada podem esperar de benefcios materiais.TECEJUTAEm 1965, Joo Malato anunciava, pelas pginas de A Pro vncia do Par, que circulavam rumores sobre a venda da Tecejuta, a fbrica de fiao e tecelagem de Santarm, que era a mais importante indstria do interior do Par, a mais bela estrutura industrial do Baixo -Amazonas, segundo ele. Recordou o jornalista que a fbrica comeara a funcionar cinco anos antes, com um acervo de mquinas modernssimas, que representava investimento de trs bilhes de cruzeiros (a moeda da poca). No entanto, cara faltando a verba suplementar de 200 milhes de cruzeiros para a compra de bras regionais e para a liquidao de alguns ttulos na Inglaterra. Sem esse complemento, todo esse imenso e custoso aparelhamento fabril de achava paralisado enquanto os seus responsveis batiam a todas as portas. Conrmada a venda, perguntava Malato: Ser que os seus compradores dispem daquela varinha de condo que faz abrir conscincias e cofres?. Independentemente da resposta, a Tecejuta acabou e nunca mais apareceu na regio uma indstria do seu porte.

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13 FOTOGRAFIAUm jornal por dentroImagem que tem o genuno valor de raridade. Em 1971, Joo Maranho conduz pela redao da Folha do Norte o tenente-coronel Alacid Nunes (que fora para a reserva como major do Exrcito), no nal do seu mandato como governador do Par, o ltimo eleito pelo voto direto no ciclo que se seguiria, de eleio indireta pela Assembleia Legislativa. Cinco anos antes morrera Paulo Maranho, que durante meio sculo comandou o jornal e combateu a candidatura de Alacid, conduzida pelo governador Jarbas Passarinho, na sua ltima participao poltica. Seu lho mais velho, Clvis, graduado funcionrio federal, que morou por longos anos fora de Belm, afastou seu irmo, Joo, do cargo de diretor-gerente da empresa, ignorando os longos anos em que ele acompanhou o pai. Ao invs de ser o restaurador da grandeza da Folha, seria o principal condutor ao nal da sua histria gloriosa. A Folha acabaria comprada, em 1974, por Romulo Maiorana, que ocupou o prdio slido, projetado e construdo por Francisco Bolonha, um dos homens mais ricos na poca. Colocou o seu O Liberal no lugar do jornal que fora o maior inimigo de Magalhes Barata, tio da sua esposa, Dea. Ironias da histria. Atrs de Alacid, meio escondido, seu brao direito, o jornalista Aldo Almeida, que se tornaria deputado estadual. Atrs dele, o advogado Fernando Moreira de Castro, que mantinha uma coluna sobre assuntos internacionais no jornal.E reprteres, que ainda tinham de usar palet e gravata no dia a dia. Romulo manteve as feies externas bsicas do prdio, mas o modicou profundamente por dentro. Agora que um grupo educacional de fora do Par o proprietrio desse imvel, podia restabelecer as suas belas marcas, como o piso e as paredes pintadas. MUSEUNo ser apenas Belm que ter data redonda em 1966. O Museu Goeldi chegar a 150 anos como a mais antiga instituio de pesquisa cientca. E completar meio sculo o Simpsio sobre a Biota Amaznica, realizado em Belm para assinalar os 100 anos do museu. Seria interessante publicar uma edio revista dos sete volumes das atas dos encontros realizados na ocasio, com artigos escritos por alguns dos mais importantes estudiosos da Amaznia na poca, como Djalma Batista, Varwick Kerr, Joo Mura Pires, Rui Simes, Aziz AbSaber e muitos outros. Foram 24 conferncias e 90 comunicaes originais em antropologia, botnica, zoologia, conservao da natureza e recursos naturais.PREFEITOO senador Almir Gabriel desistiu de ser candidato a prefeito de Belm trs meses antes da eleio de outubro de 1992. Ao chegar a Braslia e se refugiar num local ao qual ningum teve acesso, divulgou uma nota para explicar sem detalhar sua renncia candidatura a prefeito de Belm, que causou perplexidade geral, tanto entre adversrios quanto aliados. No trecho mais incisivo da nota, o senador explica seu gesto sbito e surpreendente pelo excesso de esperteza de alguns, a vaidade de outros, a omisso de vrios e a paixo de muitos, que o teriam impedido de levar adiante a honrosa misso de disputar o mandato popular para administrar a Prefeitura de Belm nos prximos anos. Almir, que fora prefeito nomeado (por Jader Barbalho) da capital paraense em 1985, tinha o apoio da Aliana Popular, integrada por PSDB, PTB, PC, PC do B, PPS, PST e PV, nunca indicou quem eram esses espertos, vaidosos, omissos e passionais. Um dos mistrios da poltica paraense.

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14 AmazniaCostumo ser um rato de sebo, daqueles que quando entram nesses lugares s saem ao peso das portas estarem cerrando. Acreditem, ainda acabaria de bom grado contente se trancado casse nesses antros do antanho, decerto tudo ali reviraria Ainda no cheguei a tanto, mas foi numa dessas frenticas mas pacientes buscas que logrei por achar um exemplar da extinta publicao Reali dade Editada pela Abril, era um daqueles nmeros especiais volumosos dedicados to somente a um assunto. Neste exemplar destinava-se uma grande reportagem Amaznia e era datada de outubro de 1971. Foi uma edio que at recebeu o prmio Esso de reportagem, capitaneada que foi pelo jornalista Lcio Flvio Pinto [na verdade, por Raimundo Rodrigues Pereira, do qual eu era ento aprendiz], em sua capa estampava-se a foto de uma ndia sorridente. Adquirido o raro exemplar, tratei de l-lo aos cuidados e sem aquela pressa que costuma abreviar bons raciocnios e concluses. Ali, mais que repousado, estava um texto conciso, que procurava ser instigante e fazer despertar a nossa letargia pelas coisas que no costumavam estar em nossa pauta diria. Foi uma das primeiras grandes repor tagens efetuadas na regio, estruturada em uma logstica at certo ponto audaciosa, bem como as diversas fontes de informao utilizadas. Sequer poupou-se em estabelecer algumas previses que, de certa forma, acabaram por acontecer, das poucas boas s tantas ruins e trgicas E eram tempos promissores de tantas euforias em que se prometia a redeno, com um futuro grandioso, sob a batuta de ferro do todo poderoso Estado intervencionista capitaneado pelos Generais -Presidentes, tempos de projetos elaborados em gabinetes refrigerados, avalizados sem critrios e a fundo perdido, anal, na mordaa do AI-5. Vivia-se ao limite da tolerncia (ou abaixo dela). A Amaznia, o dito pulmo do mundo dos ingnuos sonhadores, o inferno verde do slogan ocial de fcil aceitao e que, segundo a practice dos condutores daquele novo Brasil e dos novos business partners tinha que ter uma vocao scio-produtiva. E, portanto, sendo um vazio de homens e de muita terra, nada mais justo que ocup-la ante uma assanhada cobia internacional pelas suas riquezas escondidas e at de ns ignoradas. E estava dada a largada ocial para que poucos privilegiados com as benesses e hordas de excludos para o trabalho pesado tratassem de faz-lo sob as beno daqueles clebres ditos ufanistas, que to s serviriam para mascarar uma tragdia em andamento. A referida publicao propalava sobre um mundo pouco conhecido de todos ns (e ainda o ), mas impingindo-o com as tintas da realidade observada. At levava em conta aquela grandiosidade geogrca se ligando uma possvel grandiosidade futura sob os aspectos econmicos, sociais e humanos qui um novo Eldorado institudo em bases slidas e, sob a mirade de um imediatismo, os bulldozers rasgaram os primeiros sulcos barrentos no verde tapete, seria a futura rodovia de integrao chamada Transamaznica, a convidar brasileiros sem hoje de todos os recantos para um encontro marcado com um amanh A publicao ressaltava a ainda ingnua alegria dos seus primitivos habitantes, seriam os ltimos guerreiros que mal sabiam seriam logo desalojados de seu cho; ressaltava a esperanosa felicidade do migrante candidato a algo, mal sabia de seu infer no a longo prazo; ressaltava a ainda exuberncia da oresta, mal sabia que esta logo se transformaria em pasto e carvoaria; ressaltava a riqueza da fauna, mal sabia que logo formaria uma extensa galeria de ameaados de extino; ressaltava promessas de uma grande provncia mineral, mal sabia-se dos pouqussimos dividendos scio econmicos que iria legar. Anal, que integrao seria essa, cara-plida? Aquela colcha verde de aparncia innita escondia em seu manto as diculdades que logo ascenderiam superfcie, seriam os primeiros de uma serie de malogros que minariam um projeto que no escondia seu carter salvacionista (ou escamoteador?). Imposto e no discutido seriamente em seus tantos aspectos, desde ento tem gerado um efeito multiplicador de pequenas, mdias e grandes tragdias tanto ambientais como sociais questes mal ou no resolvidas que subsistem e se retroalimentam at nossos dias. Trs dcadas e meia depois dessa volumosa, detalhada e premiada reportagem, o cenrio j no to verde e alentador. O ar est mais pesado e fumarento; as riquezas subtraem-se a uma velocidade espantosa na buca da nuite dos empreendimentos extrativistas; algumas daquelas agrovilas que conseguiram subsistir tornaram-se caticos ambientes que a muito peso de imaginao pode-se dizer que sejam polos urbanos. De uma longa noite de silncio imposto e consentido, o sorriso esperanoso do migrante (e de seus descendentes, caso l ainda estejam pelejando) desfez-se e l foi abandonado pelo scio majoritrio; o sorriso ingnuo do indgena foi sequestrado pelas enfermidades biolgicas e sociais de derme branca; o ento abastado e generoso cofre a fundo perdido (nosso cofre !) exauriu-se em outras tenebrosas transaes E fechou-se assim uma cortina de atos impensados. Mas ser mesmo? Apesar de tudo, ainda creio que no tenhamos aprendido que, diferente da primeira impresso do escriba do nosso descobrimento e dos marqueteiros ociais, nem tudo se plantando, tudo se dar anal, as promessas so volteis ante realidades antagnicas. Luiz Otvio CardosoEditor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone 091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br jornal@ amazonet.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao Luiz Pinto Jornal Pessoal cart@s cart@s

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15 Erro desastroso de Veja atinge toda a imprensaOs jornalistas no podem deixar de aproveitar as lies de um dos maiores erros j cometidos pela imprensa brasileira. Esse episdio grotesco comeou quando, trs semanas atrs, a revista Veja publicou matria de trs pginas acusando o ex-jogador de futebol Romrio de ter uma conta secreta na Sua, cujo saldo seria de 7,5 milhes de reais. Romrio no teria declarado esse patrimnio Receita Federal, que precisa ser noticada pelo dono do dinheiro porque acima de 100 mil reais qualquer dinheiro de brasileiro no exterior tem que pagar imposto. Como jogador, Romrio de Souza Faria foi um craque. Como pessoa, deixa muito a desejar. Ainda assim, o povo do Rio de Janeiro o elegeu deputado federal e, agora, senador por um partido dito socialista, o PSB. Ao revelar o que seria mais uma mancha no currculo do personagem, Veja estaria sugerindo que ele mau carter mesmo. Transferiu dinheiro clandestino para o exterior e mau pagador no Brasil. A prova do crime era a cpia xerox de um extrato bancrio em nome de Romrio no banco suo BSI. A prova, porm, era uma fraude. O senador foi Sua e de l voltou com uma declarao de que a conta apontada pela revista no era dele. Simples assim? Simples. Mas Romrio tem dinheiro e determinao para ir imediatamente Sua e provar sua inocncia. Por que Veja no fez a mesma coisa? Por que no consultou o banco? Na eventualidade de uma negativa, podia prestar essa informao aos seus leitores. Cumpria assim o dever de ouvir o outro lado, incluindo o categrico desmentido de Romrio. Para a revista, ele mentia. A prova era slida, sustentava, na sua forma tosca, toda uma matria de denncia e com o ntido propsito de atingir a imagem do senador carioca. Se Veja acreditou na fonte que lhe entregou o documento, essa pessoa merecia o crdito. Ou o que levou a revista a publicar a matria foi a busca atabalhoada e incompetente de acerto de contas com Romrio, como frequentemente faz com outras guras pblicas? Um jornal de Pindamonhangaba (em homenagem ao jornalista Luiz Salgado Ribeiro) teria tido mais prudncia, tato e rigor. Veja se permitiu uma leviandade surpreendente e espantosa por arrogncia e traio ao seu compromisso de ofcio. Agora, a nica dvida saber quanto ela ter que pagar de indenizao. Romrio quer 75 milhes de reais, valor do dano moral que alega ter sofrido. Veja j r confessa. De pblico, admitiu: falso o extrato da conta, que reproduziu em fac-smile com tanto destaque. Alm da indenizao, Romrio disse que na sua ao requereu o direito de responder matria ofensiva. Uma indenizao no valor reivindicado certamente ter efeito desastroso e, talvez, at fatal sobre a revista, que, como toda a editora Abril, vive uma situao delicada. Mesmo que a justia reduza bastante o valor do pagamento, o desfalque ser sentido pelo caixa de Veja. Desde j, porm, o efeito desastroso sobre a sua credibilidade. Como entender erro to grosseiro por ela cometido se no por predisposio a atacar a imagem do senador? A associao entre a conta secreta e as tropelias de Romrio pode ser fatal presuno de boa f da revista. Provavelmente orientada por advogado, Veja tratou de apregoar essa condio na matria da edio da semana passada, na qual pediu desculpas ao craque, como destacou. Veja garantiu que continuar apurando o episdio em duas frentes. Internamente, est revisando passo a passo o processo que, sem nenhuma m-f, resultou na publicao do extrato e nos cercando de ainda mais cuidados para que esse tipo de erro nunca mais se repita. suspeita uma investigao que parte do pressuposto (como uma espcie de clusula ptrea, que no sujeita a questionamento) no ter havido m-f. Pode ter havido ao menos como uma hiptese de trabalho. Se a revista quer que seu leitor acredite na lisura de uma apurao interna, tem que sujeitar-se a todas as alternativas. A m-f indiscutivelmente, uma delas. J na frente externa, os reprteres da revista continuaro tentando descobrir de que maneira e com que objetivo o extrato do BSI foi adulterado. A conduo dessa frente ainda mais desastrada. A revista no deve ter forjado o extrato. Recebeu-o de algum. Essa fonte tinha acesso a rgos ociais, como o Ministrio Pblico Federal, que estaria investigando o caso. Por ter mentido e, provavelmente, tentado usar a revista, a fonte perdeu o direito de ser respeitada e mantida annima. Veja j devia t-la identicado ou, pelo menos, descrito o processo de produo da desastrada reportagem. Mesmo que se recusasse a adotar essa atitude saneadora, inadmissvel que seus reprteres no consigam, em uma semana, descobrir como foi feita a adulterao do documento e com que objetivo. Com tantos erros, em relao a Veja modica-se o princpio de direito: perdendo a presuno de inocncia, a revista tem que provar no ter agido de m-f. do que se descona at agora deste grotesco episdio, que mancha profundamente a imagem da imprensa brasileira, num dos dias mais tristes da histria recente da imprensa brasileira. O episdio faz lembrar, localmente, a barriga cometida pelo Dirio do Par ao divulgar como sendo da Santa Casa de Misericrdia de Belm uma imagem tirada num hospital em Honduras para denunciar as ms condies de atendimento no local e atribuir a culpa ao governo do Estado. O jornal dos Barbalhos tambm pediu desculpa a todos e prometeu a mesma rigorosa apurao da qual desdenha quando prometida por um esbirro qualquer do poder pblico, sobretudo se inimigo ou adversrio. Nunca mais o jornal prestou contas nem ningum foi punido. Isso m f e desrespeito. um momento triste para os jornalistas em geral porque essa lama atinge a todos, inclusive aos que fazem muitas e graves restries a uma revista que se avacalhou e, s vezes, se acanalhou. Com seu procedimento leviano, ela expe todos os jornalistas sua sanha.

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Fim de uma eraOs executivos japoneses do grupo Nikkei admitiram, na semana passada: pagaram 1,3 bilho de dlares para car com o Financial Times e seu produto mais nobre; a credibilidade. O Nikkei to grande na imprensa que empresta seu nome ao principal ndice de aes da Bolsa de Tquio. Foi criado em 1876. Ainda assim, no associado credibilidade, embora venda informaes nanceiras sobre matrias primas. Deduz-se da transao que o grupo britnico Pearson Group, frente do maior jornal de economia do mundo h 60 anos, acredita que a transferncia pode salvar o FT com o capital japons disposto a investir. No seguimento da tendncia de penetrao de empresrios asiticos na Europa e nos Estados Unidos. Porque investir no jornal j no era mais interessante para os britnicos. Eles decidiram concentrar os seus negcios na rea de educao, que virou negcio muito mais atraente, com os 70 bilhes de dlares faturados no ano passado. Um duplo movimento pendular: a imprensa de qualidade abre mo dos seus valores e a educao vira negcio. Pior para a civilizao e a democracia. Os prossionais de verdade, contudo, devem aprender mais essa lio. Precisam reprimir os impulsos primrios, como os de vingana, a precipitao na busca por furos (as informaes exclusivas), o vedetismo, a megalomania, a arrogncia e a vaidade para se portarem como servidores pblicos informais, auditores da verdade, porta-vozes da sociedade, contrapontos ao poder institucional ou de fato. Perguntaram certa vez a Millr Fer nandes (que sobre o tema podia falar da boca para fora, apenas em tese) se ser honesto era difcil. No, fcil. No h concorrncia, respondeu o sbio do Meier. J ser jornalista de verdade, para valer, se no difcil, tambm no fcil. A informao no produto que se leve ao forno micro-ondas para que logo esteja pronta. Requer cuidado, ateno, aplicao, acuidade, competncia e uma srie de outras condies. Dou dois exemplos provincianos, que, justamente por essa sua condio, revelam o tamanho do erro de uma publicao do porte de Veja e seu desprezo por seus compromissos ao lidar com informao a ser apresentada ao pblico. Quando voltei de So Paulo, todos comentavam sobre corrupo na venda de terras do Estado em Carajs Companhia Vale do Rio Doce. Consegui uma cpia integral do processo, que estava sendo examinado pela Assembleia Legislativa. Precisei ler duas vezes centenas de pginas para descobrir o ardil montado para desviar par te do dinheiro que a empresa ento estatal pagaria ao Iterpa por mais de 400 mil hectares. Outro dos mistrios mais falados era em torno do custo da PA-150, a maior das estradas estaduais, de mil quilmetros, ligando Belm divisa com Mato Grosso, ao sul, que mereceu matria de capa da edio de O Liberal de dois domingos atrs para atingir seu arqui-inimigo Jader Barbalho. Ouvi informaes de muitas fontes sem ter convico sobre os valores. At que a Construtora Andrade Gutierrez ajuizou uma ao de cobrana contra o Estado para receber um valor no includo no pagamento que o governo lhe zera. Um procurador de justia, que examinava o processo para dar o seu parecer, me franqueou acesso aos seis volumes dos autos. Depois de vrios dias de leitura no gabinete do procurador, j falecido, que era irmo de um desembargador, apurei os nmeros fornecidos pela prpria autora da obra e o publiquei na primeira pgina do Jornal Pessoa l, aps sete anos no rastro dessa informao. H muitos outros exemplos, que no constituem nada de fantstico ou excepcional. a rotina no jornalismo, investigativo por princpio, no por opo ou luxo. Rotina que Veja no seguiu, desviando-se por uma senda que a desmoraliza. Para piorar, ela leva consigo a prpria credibilidade do jornalismo, to necessria para alimentar a tenra planta da democracia no Brasil. Causa um prejuzo enorme causa da verdade.Belo Monte avana sobre o rio XinguO rio Xingu voltou denitivamente ao seu leito nesta tera-feira, 4, depois de ter sido desviado para a construo do vertedouro principal, junto com a casa de foras secundrias, na regio do stio Pimental, em Altamira. As guas agora esto passando pelas comportas da barragem num volume que dever garantir o restabelecimento das condies normais de vazo do rio. Para obter a licena ambiental, a Norte Energia, responsvel pela construo e operao da hidreltrica de Belo Monte, se comprometeu a manter um uxo mnimo naquele ponto de 700 metros cbicos por segundo durante o ms de setembro, que um dos mais secos do ano. Em perodos crticos, a descarga natural do Xingu chegou a metade desse valor. Signica que a usina ter que manter, todos os meses, vazo controlada superior aos valores normais. a garantia de que ser preservada tanto a navegabilidade como a produo de pescado na rea. Os 18 vos do vertedouro na barragem do stio Pimental, que de baixa potncia em comparao com a casa de fora principal, rio abaixo, tm capacidade de vazo de at 62 mil m por segundo. Esse volume corresponde previso de uma cheia decamilenar e praticamente o dobro da vazo mxima registrada no Xingu, de 32 mil m por segundo, em mais de 30 anos de medies. A usina de Belo Monte, a terceira maior do mundo em capacidade instalada de energia, dever comear a produzir no prximo ano.