Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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TOCANTINS SEM HIDROVIA FOGO DESTROI BELMUM JORNAL POLTICO oa Com razo, alguns dos lderes do golpe de estado de 1964, que levou ditadura, ressaltam que no se tratou apenas de um putsch militar. Nele, os civis tiveram participao decisiva. Um dos maiores smbolos desse brao civil golpista foi o todo-poderoso ministro Delm Netto, que chegou ao auge da sua inuncia no perodo do milagre econmico, na passagem dos anos de 1960 dcada seguinte. Apesar desses antecedentes, Delm se tornou um dos principais conselheiros do presidente Luiz Incio Lula da Silva e, por algum tempo, da sua sucessora, Dilma Rousse. Atravs das janelas que lhe abriram alguns rgos da grande imprensa, Delm, mais do que analisar os fatos econmicos e polticos, exerceu a funo de conselheiro e propagandista dos dois governos do PT. Era a face pblica projetada, com os naturais ltros da convenincia, da atuao de bastidores do intelectual e lobista que Delm personica com todo seu talento. At a reeleio de Dilma, Delm mais incensava do que criticava. Seus reparos eram mais retoques e complementaes de observaes elogiosas que fazia s decises das duas administraes, parte delas inspiradas por ele prCRISEO risco necessrioDilma Rousseff conseguiu se reeleger, mas o preo que lhe est sendo cobrado alto demais. Pe em risco o que o Brasil conquistou nos ltimos anos e o ameaa com uma crise institucional. Tudo isso pode ser resolvido sem que se abra mo do mais importante: a democracia.

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2 prio, na sua notria condio de eminncia parda. Da reeleio para c, os decibis nos artigos do ex-ministro da Fazenda foram subindo de nvel e, no por acaso, de contedo. Essa converso o levou a um artigo antolgico na sua coluna semanal na Folha de S. Paulo do dia 22, sugestivamente intitulada a hora. De um novo golpe de estado, como querem e preveem alguns (ou muitos)? No. Delm arremata seu texto citando Ulysses Guimares, o patrono da constituio de 1988, que, em circunstncias difceis, entoava o seu bordo pessedista (mais do que peemedebista): Olha, vamos sentar e conversar. Nada de decises cirrgicas, margem da lei. Se a nau est fazendo gua e o timoneiro perdeu o rumo (alm da liderana e at mesmo o respeito alheio), hora de negociar com vantagem. Para se manter, o governo, se no ceder tudo, ter que entregar muito mais do que os anis. A turma da qual Delm Netto representante legtimo (e dos mais categorizados), depois de se beneciar dos erros crassos dos petistas, quer se favorecer na tratativa das correes, remendos e purgaes. Vai assumir o comando, mesmo que no formalmente e at mesmo sem aparecer na proa do barco deriva e com gravssimas inltraes. At a reeleio do ano passado, ela podia at levar a srio iluses e fantasias. Mas toda essa irrealidade desmoronou. Pode ser at que seus inimigos e adver srios tenham dado alguma contribuio para resultados ruins, mas a parcela fundamental veio da incompetncia do seu governo e dela em particular. Alguns erros foram cometidos de boa f. Muitos outros, no. Pelo menos todos aqueles que serviram sua deslavada propaganda manipuladora na campanha eleitoral de 2014. Delm aponta as amostras do desastre no seu artigo: queda do PIB per capita da ordem de 0,7%; dramtica reduo dos investimentos; inao represada que ajudou a destruir os setores de energia e industrial; dcit em conta corrente de US$ 105 bilhes (4,4% do PIB). E, pior do que isso, dcit scal de 6,2% do PIB (contra 3,1% em 2013) e aumento de 6% na relao dvida bruta/ PIB, com um resultado primrio negativo de 0,6% do PIB (contra um positivo de 1,8% em 2013). A dose j seria paquidrmica se fosse formada s por esses ingredientes. Mas h outros to graves que o ex-ministro no citou, como o peso dos juros da dvida pblica, onerado por uma poltica que premia com remunerao extorsiva o detentor de papis ociais; a sangria de dinheiro do tesouro, que jamais retornar ao sistema circulatrio, a pretexto de criar empresas brasileiras capazes de competir em igualdade de condies no mercado internacional (e que esto quebrando ou sendo compradas); o m da era de ganhos salariais reais; o endividamento sem igual das famlias brasileiras; a eliminao de vantagens sociais dos trabalhadores, e etc. Com a gua chegando ao nariz e sem apoio poltico para convencer a sociedade da justeza do novo caminho que se prope a seguir, o governo tem que continuar a recorrer a artifcios e pedaladas, que so formas no convencionais, irregulares ou francamente ilegais, de manter o caixa do tesouro alimentado de qualquer maneira. Um exemplo. No ltimo dia 16 a Petrobrs pagou 1,6 bilho de reais de imposto Unio por dvida realizada em 2008. Esse valor ser lanado como perda no balano da empresa do prximo trimestre. Embora a condenao tenha sido imposta por um rgo administrativo do governo federal, o Carf, a estatal comunicou ocialmente no ir recorrer da deciso justia. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais entendeu em sua deliberao que o domiclio que determina se uma operao de crdito externo ou no para a incidncia do Imposto sobre Operaes Financeiras em transaes de mtuo entre uma empresa e suas subsidirias no exterior. Para a Petrobras, a transao era operao de crdito externo e no estaria sujeita incidncia do IOF. A cobrana da tributao nesse caso ofenderia o princpio da territorialidade. O relator do processo no Carf, Walber Jos da Silva, argumentou que como a Petrobras sediada no Brasil e no houve ingresso de recursos no pas nessas transaes de mtuo, a incidncia do imposto era devida e no haveria violao ao princpio da territorialidade. A mesma turma julgadora desse processo j analisara a questo em processo anterior tambm de interesse da Petrobras, e rejeitou o recurso da empresa. Por isso, a Petrobrs achou melhor esquecer o recurso perfeitamente cabvel e assumir o prejuzo? um procedimento estranho, se a empresa contestou a deciso do Carf por dispor de argumentos slidos e estar convicta das suas razes. No conheo a matria e no posso opinar a respeito. Um especialista poderia ajudar a esclarecer as divergncias e os fundamentos das duas posies. Mas uma pulga se instalou por trs da minha orelha: ao se submeter to docilmente a um rombo de R$ 1,6 bilho, nunca provisionado nas demonstraes contbeis sete anos depois do fato gerador da cobrana do imposto, a Petrobrs no est, indiretamente, mas com dinheiro vivo, ajudando o governo de Dilma Rousse a fazer caixa, apesar da precria situao econmico-nanceira da petrolfera estatal no momento? Fica a dvida para quem responder possa: no ser mais uma pedalada (agora um tanto estilosa) do governo? O governo tenta agora uma sada, convencido que a possibilidade de manipulao se exauriu. Dilma est ameaada de chegar (se chegar) ao m do seu segundo mandato como a mais impopular das presidentes de toda histria republicana do Brasil. Ganhar do general Figueiredo, o ltimo do regime militar, e de Jos Sarney, o primeiro na nova fase democrtica. Segundo a ltima sondagem de opinio da CNT, fartamente divulgada, sete em cada dez brasileiros desaprovam o governo Dilma e quase 80% desaprovam Dilma pessoalmente. A aprovao pessoal da presidente caiu de 18,9% para 15,5%. J a desaprovao subiu de 77,7% para 79,9%. 62% querem o impeachment da presidente e quase 45% acreditam que se Acio tivesse vencido, o governo seria melhor. Se as eleies fossem hoje, Lula perderia para todos os tucanos postulantes ao cargo Acio, Alckmin e Serra. Num segundo turno o resultado seria: Acio 49,6% x 28,5% Lula; Alck-

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3 min 39,9% x 32,3% Lula; Serra 40,3% x 31,8% Lula. 44,8% acreditam que se Acio Neves tivesse vencido as eleies, o governo dele estaria melhor do que o da petista. Quase sete em cada dez brasileiros que acompanham o noticirio consideram Dilma culpada pela corrupo na Lava-Jato; 62,8% so a favor do seu impeachment. Metade da populao tem medo de car desempregado por causa do desaquecimento da economia; 53,9% tm alguma dvida vencida ou a vencer; seis em cada dez pessoas ouvidas creem que o ajuste scal no ajuda a economia; 60,4% consideram que a crise mais grave a econmica e 36,2% acreditam que a poltica; mais de 84% acreditam que Dilma no est sabendo lidar com a crise econmica; para 75,9%, o custo de vida vai aumentar ou aumentar muito; 70,1% so favorveis reduo da maioridade penal, para 16 anos. Alm de tudo isso, a entrada no cenrio como protagonista da corrupo, que sempre houve e foi perniciosa no Brasil, mas agora est tomando dimenses sem paralelo e se revelando em toda a sua malignidade at recentemente silenciosa, como um cncer invasivo e cruel. Graas mais bem sucedida apurao de corrupo que j houve no pas, a da Operao LavaJato, armrios, bas, stos e pores tomados por ladres e produtos do seu saque ao dinheiro pblico esto sendo desvendados. Os intocveis esto sendo chamados s barras da justia ou colocados na cadeia. O campo de manobra diminuiu tanto que, com a sua autoridade de ministro da justia, o deputado federal Jos Eduardo Cardozo, do PT, mudou o tom monocrdio do governo que integra e deu sua contribuio ao aprofundamento das investigaes. Ao depor, ontem, na CPI da Petrobrs na Cmara Federal, ele desfez a balela sustentada pelo seu governo e o seu partido. Para eles, basta que as doaes de campanha sejam aprovadas na prestao de contas dos partidos justia eleitoral para que estejam legalizadas. O ministro admitiu que se o dinheiro tem origem ilcita, no pode ser legalizado pelo seu reconhecimento no destino. Mas Cardozo atenuou essa posio. Entende ser necessrio que o recebedor dos recursos tenha cincia da origem delituosa para que se caracterize o crime. Assim, alm do fato concreto da origem espria, a comprovao do crime exigiria a demonstrao da cumplicidade de quem recebe o dinheiro, sua cincia de que a doao ilcita. At agora o PT e o governo tm se defendido das acusaes de recebimento de dinheiro ilegal, proveniente de superfaturamento e desvio nos contratos de 27 empresas com a Petrobrs, alegando que as doaes das empresas investigadas foram legais e registradas na justia eleitoral. Talvez o ministro da justia tenha dado um passo na direo dos argumentos dos delatores da corrupo porque vem sofrendo fritura por parte de petistas, se veja ameaado de demisso e esteja cata de uma sada honrosa. Qualquer que seja a motivao, agora uma nova porta se abre para a investigao. Ela d diretamente em salas e antessalas do poder. Era um ambiente indevassvel, impenetrvel. Mas comearam a cair ou ser ameaadas muitas cabeas coroadas. Alarmadas, elas procuram dar s suas situaes especcas o delineamento de uma crise muito maior, que pe em risco o pas inteiro. Os chefes do poder legislativo nacional (Eduardo Cunha, que preside a Cmara dos Deputados, e Renan Calheiros, presidente do Senado, ambos do PMDB, o mais antigo e mais forte partido poltico do pas) declararam que h uma crise institucional no Brasil e a democracia est ameaada porque os dois so alvos de investigao judicial e administrativa por corrupo. exatamente o contrrio, felizmente. Como raras vezes aconteceu na histria republicana brasileira (se que realmente h um antecedente igual), as instituies esto funcionando e a democracia resiste crise. Mas inegavelmente elas passam por um momento grave e delicado. O preo a pagar por tantos crimes e abusos praticados em rgos pblicos, com dinheiro desviado do errio, alto e dever ser prolongado. No tamanho do prejuzo est o enigma da questo. Pelo menos a sociedade est sabendo que os delitos esto sendo apurados, os responsveis so identicados, a punio est a caminho e ao menos parte dos recursos roubados poder retornar aos cofres pblicos. uma situao indita no Brasil. Se for at o m, exemplar mesmo no mbito da histria universal. Mas uma via crucis formidvel. Vai continuar a provocar intenso sangramento e atrair a ao de abutres. Eles tm at um papel salutar quando o corretivo previsto em lei no aplicado em tempo razovel. Com tanta sujeira se acumulando, algum mecanismo tem que ser acionado para a assepsia moral, tica, nanceira e econmica, alm de poltica. Um novo sinal de alerta vem de novo dos Estados Unidos. Escritrios de advocacia esto sondando ou induzindo investidores a se lanarem sobre a Eletrobrs, depois de terem investido com cinco aes coletivas (depois agrupadas) e vrias outras individuais de indenizao contra a Petrobrs. Querem ser ressarcidos pelos danos que sofreram ao decidirem investir na empresa baseados em informaes falsas ou falhas, e no serem informados sobre os danos causados pelo desvio criminoso de dinheiro para o pagamento de propina a executivos, empresrios e polticos brasileiros. Em abril, a empresa estatal do setor eltrico comunicou bolsa de valores de NY que no publicaria seu balano nos Estados Unidos porque suas contas estavam contaminadas pelas fraudes detectadas pela Operao Lava-Jato. Segundo o noticirio da imprensa neste m de semana, depois desse anncio, os recibos de aes da Eletrobrs caram 8,24% at o nal do ms passado. A Petrobrs levou cinco meses para fechar o seu balano, que a auditora independente se recusava a chancelar. Ao apresentar suas contas, admitiu prejuzo de 6,3 bilhes de reais com a ao da quadrilha que agia dentro e fora da empresa para superfaturar o valor dos contratos com 27 prestadores de servios da estatal do petrleo. O atraso da Eletrobrs j de trs meses e dever se prolongar. A empresa est ajustando os seus nmeros s informaes prestadas justia pelo ex-presidente da Construtora Camargo

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4 Corra Dalton Avancini. Ele disse ter ouvido que as empresas do consrcio de construo da usina nuclear Angra 3 pagaram propina ao almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, subsidiria da Eletrobrs. Quanto custar esse atraso e a sonegao de informaes? Certamente mais alguns bilhes de reais. O saco de sujeiras parece sem fundo. Agora mesmo o ex-presidente da Sete Brasil, Joo Carlos Ferraz, admitiu pela primeira vez que recebeu quase dois milhes de dlares em propina dos estaleiros que trabalham para a companhia na construo de sondas de explorao do pr-sal. No esclarece ainda quem pagou e quem o pressionou. A Sete foi criada em 2010 pela Petrobras para administrar as sondas que atuam ou atuaro na camada do pr-sal, em sociedade com um grupo de bancos e fundos (BTG Pactual, Bradesco, Santander, fundos de penso estatais e o FGTS). um novo caminho abrir uma fonte de corrupo de grande valor. A empresa calcula que as propinas somaram US$ 224 milhes. dois teros dos quais teriam sido pagos para o extesoureiro do PT, Joo Vaccari Neto. O restante foi dividido entre diretores da Sete e da Petrobras. Tanto Ferraz quanto Pedro Barusco, ex-diretor de operaes da companhia, foram indicados para seus cargos pela direo da Petrobras, onde os dois trabalharam juntos. Eles montaram um esquema atravs do qual os estaleiros contratados pela Sete pagariam de 0,9% a 1% do valor de construo de cada sonda, em troca dos contratos. A previso era de construo de 28 sondas, no valor de US$ 22 bilhes. Depois de prontas elas seriam alugadas Petrobras. Por causa do seu envolvimento nesse amplo esquema de corrupo, a Sete foi paralisada e cou impedida de empresa de receber um nanciamento de US$ 9 bilhes do BNDES. Est agora em processo de reestruturao. uma histria srdida, mas est sendo destrinchada e levada em frente. No importa se passando por cima de tanta autoridade pblica de expresso, mas que no honrou o cargo concedido pelo povo brasileiro. Se todos os corruptos carem, as instituies e a democracia caro mais fortes e saudveis.JORNALISMO DE MEIO SCULONo olho do furaco amaznicoNo dia 6 de maio de 1966, A Provncia do Par publicou meu primeiro texto jor nalstico na grande imprensa. Na vspera eu entrara pela primeira vez na redao de um jornal organizado. Tinha 16 anos. At ento zera jornalzinho de escola e de clube de jovens. No dia 5 fazia meu percurso entre a Livraria Econmica (mais conhecida por sebo do Dudu) e a Martins, a melhor livraria de Belm da poca, entre um e outro quarteiro da rua Campos Sales. S ento percebi a vistosa entrada da sede de A Provncia Por um impulso, entrei e acabei sendo recebido pelo diretor de redao, Cludio Augusto de S Leal. Ao saber do meu interesse por histria, ele me disse para ir para casa e voltar logo depois com o texto, que ele colocou por inteiro na primeira pgina do jornal. Reproduzo esse artigo mais adiante. Dele destaco a busca por um novo estilo, sob a inuncia do novo jornalismo americano, tendncia ainda bem recente de aproxim-lo da literatura. Por isso abri a matria narrando uma situao, ao invs de adotar o lide, que procurava resumir o mais importante do texto no seu primeiro pargrafo (podendo se estender ao pargrafo seguinte). Eu j lia Norman Mailer, James Baldwin e outros craques desse porte. Com esse escrito inaugural quero iniciar uma espcie de antologia do que saiu da minha produo nesse meio sculo de jornalismo prossional, a se completar no prximo ano. So textos expressivos das etapas desse processo, que coincidiu com o perodo mais importante (porque denitivo) da histria da Amaznia, como mostro no artigo seguinte, que escrevi em 2009, para ser lido (por um dos meus lhos) durante a homenagem que a Abraji (Associao Brasileira de Jornalismo Investigativo) me prestou, em So Paulo. Em 1966, no mbito da Operao Amaznia, comandada pelo ento ministro do Planejamento, Roberto Campos, o governo federal substituiu o Banco de Crdito da Amaznia (BCA) pelo Banco da Amaznia (Basa); a Superintendncia do Plano de Valorizao Econmica da Amaznia (SPVEA) pela Superintendncia do Desenvolvimento (Sudam); regulamentou os incentivos scais que tinham sido criados em 1957 e normatizadas em 1965, dando prioridade pecuria de cor te como atividade econmica a ser subsidiada pelo Estado. Foi em 1966 que o Museu Emlio Goeldi realizou o Simpsio da Biota Amaznica, para comemorar seu centenrio. E Romulo Maiorana se tornou dono de jornal, adquirindo O Liberal, que era o rgo do PSD, o partido do baratismo, para coloc-lo frente de um imprio das comunicaes. No dia em que meu artigo saiu publicado, A Provncia publicava o anncio fnebre de Frederico Barata. Homem culto e de um vasto campo de interesse (da arte arqueologia), Barata tentou abrir um caminho prossional novo para A Provn cia no campo minado da guerra da Folha do Norte com o baratismo. Pretendia dar consistncia, seriedade e objetividade ao seu jornal, reaberto por Assis Chateaubriand, depois de anos de hibernao. Esperava por m impreciso, amadorismo e passionalismo da imprensa paraense, que se portava como um partido poltico (regresso a que se submete agora). Cludio Leal tambm tinha essa preocupao. Trabalhamos intensamente juntos porque, na linha de frente, eu realizava o que ele concebia na retaguarda. Tivemos muitas discusses e brigas, nunca a ponto de comprometer a amizade, a admirao mtua e o sentido do que fazamos atravs do jornalismo. Foi meu primeiro e maior mestre. A ele e aos que se seguiram, como o grande Raul Bastos, em So Paulo, dedico esta srie de racontos. MEU PRIMEIRO TEXTO PUBLICADO EM JORNAL Vinte e um anos depois da pior guerra mundial o homem ainda procura paz s 2,41 horas da madrugada de 7 de maio de 1945, numa escola de Reims, na Frana, representantes do comando supremo alemo assinavam a capitulao incondicional do III Reich. Hitler se matara no dia 29, nos subterrneos da destruda Chancelaria, com os soldados russos j a poucos quarteires de seu refgio. Mais seis dias durou ainda a guerra, mas

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5 no dia 6 de maio cessaram virtualmente as hostilidades. Nas primeiras horas do dia seguinte, a Alemanha sepultou, com rendio incondicional, o desvario do III Reich, que Hitler pretendia que fosse durar um milnio e se extinguia aps treze anos de horrores. A paz descia nalmente sobre a Europa exausta, depois cinco anos e oito meses de carnicina e barbarismo, nos quais o povo europeu (e o mundo inteiro) conheceu o que h de mais horroroso e dantesco pode conceber a mente humana. Naquele dia 7, o homem, aps tanto tempo disfarado em verdadeira besta humana, voltava a ser realmente humano. Deixava, naquele instante, de ser seu prprio carrasco, aquele que matava sor rindo e destrua gritando: arrancou de seu corao o dio e as maldades acumuladas durante todos aqueles anos de horror. O homem, enm, podia agir racionalmente. O CUSTO DA GUERRA A Segunda Grande Guerra se transformou no maior genocdio da histria. Ela possui tristes dados estatsticos: 40 milhes de mortos; dezenas de milhes de feridos e mutilados; milhes de vtimas das tiranias; mais de seis milhes de civis e prisioneiros exterminados em campos de concentrao. Vastos territrios da Europa e da sia itinerante arrasados. Fome e caos. A Segunda Guerra Mundial, alm de ser uma perda humana irreparvel, foi um grande desperdcio de dinheiro. O seu custo total, de um trilho e quatrocentos bilhes de dlares, seria suciente para custear o seguinte: uma casa de 16 mil dlares para cada famlia nos Estados Unidos, Gr-Bretanha, Frana, Blgica, Espanha e Portugal. Uma biblioteca de 10 milhes de dlares para cada cidade de 200 mil habitantes ou mais nos Estados Unidos, Gr-Bretanha e Rssia. Uma universidade de 50 milhes de dlares em cada uma dessas cidades. O APS GUERRA E O PRESENTE O mundo viu-se completamente modicado quando cessou o ltimo tiro da mais dura de todas as guerras: o nazismo e o fascismo foram extintos. O comunismo expandiu-se na Europa, na sia e na frica, com extino dos imprios coloniais da Gr-Bretanha e da Frana. Houve a substituio da Liga das Naes pela ONU. Foi editada a Carta dos Direitos Fundamentais do Homem. Aumentou a separao Ocidente-Oriente. As terrveis armas de guerra sofreram notvel aperfeioamento. Surgiu a bomba nuclear, cujos exemplares de menor potncia foram usados contra o Japo. Aparece a guerra fria e explodem mais 20 conitos localizados. A inao nos pases subdesenvolvidos sobe assustadoramente. Hoje, aps o trmino da mais sangrenta guerra de todos os tempos, o homem volta a temer um novo conito. Suas mais poderosas foras se acham em oposio umas s outras e se chocam continuamente. As guerras nacionais, com participao internacional, mas localizadas, proliferam e a tranquilidade do mundo, depois das duas grandes guerras mundiais, abalada a cada dia na perspectiva de uma nova e mais avassaladora hecatombe. Vinte e um anos depois da grande guerra de 1939, na Europa, o mundo contempla o conito do Vietnam, a um passo da perigosa expanso territorial e blica da China Vermelha, que cultiva, no continente asitico, o grmen da intranquilidade mundial. Vinte e um anos aps ter assassinado, destrudo e mutilado impiedosamente, o homem procura paz. UM PANORAMA EM 2009 (Texto escrito para a Albras) Devo sensibilidade de Marcelo Beraba o melhor tema que j me foi proposto desenvolver. Meu maior paestado no lugar certo na hora certa na Amaznia durante duas dcadas, pelo justamente nesse ano? O Estado de S. Paulo anos seguidos. At dois ou trs anos antes dessa data, nenhuma proposta minha de viagem foi recusada ou sequer posta em quis, pelos dias que quis, at que se conOrgulho-me de ter estado na origem do compromisso que o Estado assumiu com a sorte da ltima grande fronteira de Esse compromisso comeou a ser tecido Maravilha e a jungle decidi mais uma vez voltar a Belm. Ia interromper meu antiga das escolas de cincias sociais do que ecoava pelas minhas entranhas de nas margens alvas do mais belo rio do planeta, o Tapajs. A Transamazni ca avanava e a Amaznia (enquanto a lhia, desaparecia. Era preciso ver, ouvir, ecoar, propagar. enquanto entrevistava o engenheiro Eduardo Celestino Ribeiro para uma Realidade, da Editora Abril, comandada com maestria por Raimundo Rodrigues tora Cetenco, Ribeiro era fazendeiro no e outros redivivos bandeirantes paulistas estavam criando. Onde havia mata, for base intermediria, que foi estabelecida de avano da fronteira econmica nacio nal, a corrida para Oeste. Tudo ia vimaior do que a outra parte do Brasil, Amaznia. se armar se quisesse entrar ali. O redemoinho da motosserra, do trs-oida suposta modernidade entrariam em sua Amaznia, de pastos, gado, estradas, hidreltricas, bandeirantes modernos iriam destruir a minha Amaznia. habitantes estavam muito mal informa dos sobre essa nova, decisiva e irreme divel histria. Eu tinha que tentar aler

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6 gionais, especialmente Belm e Manaus, ainda encantadas pelo canto da sereia de O melhor combate precisava ser travado diretamente nos fronts criados no traste com a enorme vrzea inundada, da Amaznia, o trao que a distingue Zlia, minha colega e mulher de LaJornal da Tarde, me colocou em contato com Raul Martins Bastos, que comandava as sucursais e correspondentes do Estado. Acertamos para eu assumir como correspondente do jornal na capital paraense. Raul garantiu seu respeitado endosso para as viagens que eu comearia a fazer, produzindo quantidades industriais de matrias, que iriam se alastrando pelas pginas do Estado, ocupando espaos cada vez maiores, pulando para o topo gia, o curso pelo qual optei, jornalista quando ainda era estudante secundarisEstado a melhor rede de sucursais e correspondentes sobre os acontecimentos em todo territrio nacional. chegavam aos leitores, bloqueadas a meio caminho pela censura prvia estaproduzir, todos os dias, um retrato coms os censores e, atravs deles, os seus tamente sequestradas das pginas a serem impressas e remetidas aos leitores. a algum destino, tornando-se matria de Talvez esse mecanismo explique um O Estado de S. Paulo Torquemadas fardados, de matrias que atingiam o todo-poderoso governo atra desse modelo de desenvolvimento viria a se caracterizar como o maior deseles podiam considerar como abuso do uma unidade elementar entre os senhores do barao e do cutelo quando se tratava de Amaznia. Grupos nacionalistas, temendo que a cpula do governo o que de fato acontecia, embora integrassem o governo. A Amaznia ainda era uma incgnita. E em nenhum lugar nas pginas do Estado. Esse periscpio tinha que permanecer acima da linha da censura. E permaneceu. Montamos a primeira sucursal verdadeiramente regional da imprensa brasileira. as matrias nascidas na Amaznia. O honorvel servio de reescrita (o copydesktedo dos despachos, se eles atendessem os critrios editoriais da empresa, extico, colonial, empobrecedor, que caracteriza as abordagens espasmdicas feitas pela imprensa brasileira da quesBelm comandaria uma rede de cor respondentes espalhados por toda Amaznia Legal, quase dois teros do territ rio brasileiro. Em cada capital amaznica de dois movimentos emancipacionistas, bom jornalista, com contrato de trabamentos exigissem. A palavra dessa rede era a verdade at prova em contrrio. E assim foi por algum tempo, at que uma srie de fae entrechoques entre o que os patronos A rede comeou a ser desfeita, a independncia encolheu, o espao nas pde romper de vez com a grande impren liliputiano Jornal Pessoal, que j estava com dois anos de atividade. clava do Golias com o estilingue de um David sem a certeza da parceria divina favorvel. Graas aos meios do Estado e tambm do jornal ao qual me associei localmente, O Liberalformado em refm dos interesses mer com meus prprios olhos e pude anotar, com riqueza de detalhes, tudo de relevan te que aconteceu na Amaznia ao longo com um resultado chocante e brutal para no qual se acha concentrado um tero da riqueza nacional. vi a prpria histria em processo, uma histria como poucas houve e, espero, cores dramticas e infamantes. Com os olhos de um adolescente de 16 anos, vi cientistas de todo mundo reunidos em Belm, no centenrio da mais antiga ins-

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7 CONCLUI NA PG 8 mineral do mundo. Aprendi que a riqueConheci muitos bravos personagens da histria amaznica que perderam seu papel nesse drama por terem sido assassinados, como Chico Mendes, Gringo e armas dos poderosos e pelo trator da hislitria, de acontecimentos nicos, como o ingresso, no rio Jari, da fbrica de depelo bilionrio americano (o maior ducrescendo e meu desejo de intervir nessa em todos os lugares que se me ofereces sem. Tambm bradava aos quatro ventos, num circuito de palestras dentro e fora do Brasil, que se expandiu em espirais. Tanto escrevi e tanto disse que meu texto se tornou lido e minha voz, ouvida. verdade, no desempenho tcnico da mique eu divulgava. Cometi o pecado mortal de incomodar os manipuladores da verdade e os dncia, em plena democracia, me tornei um dos jornalistas mais processados e condenados, principalmente por outros jornalismo, j que possuem empresa jor para contrapor a elas suas verdades, em tcnica do silncio, combinada com a enquanto fora pretoriana a servio dos seus objetivos e caprichos, o instrumento para me esmagar e destruir. O que ainda as como Marcelo Beraba impede que a gicas bicadas dirias de magistrados e falsos jornalistas se consume, embora minha permanncia em Belm, a perda camento nestes ltimos longos e sofridos anos, 19 deles promovidos por trs dos oito sucessores de Romulo Maiorana pai no imprio do grupo Liberal, indique que aceitar essa moral depravada e apostar na utopia de que o jornalismo, como aconteceu nas pginas do Estado entre as da ser o retrato sem retoques da AmazA polcia descontrolada: uma ameaa sociedadeA polcia do Par precisa de urgente controle. Seus atos de desmando e abuso de autoridade esto se multiplicando, parte a j temida e constante truculncia. O antagonismo entre os dois principais grupos polticos, do PSDB e do PMDB, estimulado ou insuado pelos dois maiores grupos de comunicao, que polarizam a disputa pelo poder, agrava esse clima de violncia. Sem providncias adequadas, o desfecho vai ser sangrento. O que um grupo de seis policiais militares fez neste ms um exemplo dessa situao. Flagrados quando espancavam dois menores, um de 16 e outro de 17 anos, na praia do Amor, em Outeiro, os policiais se voltaram contra o fotgrafo do Dirio do Par que documentava a cena. Os PMs, dentre os quais uma mulher, estavam com as armas nas mos e plenamente cientes do que estavam fazendo. To cientes que retiraram da farda as suas identicaes. Detiveram o fotgrafo Fernando Arajo, de 45 anos, e o conduziram delegacia de Outeiro, onde retiraram da mquina fotogrca o carto, s devolvido duas horas depois, com as imagens veladas. Ao reagir, um dos PMs fotografou o fotgrafo e o ameaou: Se o seu jornal publicar essas imagens, eu pego voc. J conheo a sua cara. Antes do encerramento do episdio, pela internet, numa tela sob o ttulo Amigos do Sgt. Silvano Cabo Danny Sousa, CPC [ Delegado da Polcia Civil ] Emanuel, circulou o seguinte dilogo: Esses 2 acabaram de ser presos na praia do amor em Outeiro. E um reprter do dirio lmando um polcia dando uns qsi [cdigo de fonia] nos 2 o reprter esteve escondido. Querendo prejudicar a polcia bando de fdp. Vou mandar a foto do reprter. Manda logo ele apaga essa porra Barbosa. O advogado do grupo RBA, Antonio Neto, na matria publicada pelo Dirio disse que os policiais estavam sem nomes em suas fardas, conduziram o fotografo delegacia sem motivo e apagaram as fotos que o profissional fizera. Podem ser enquadrados nos crimes de abuso de autoridade e constrangimento ilegal. E ainda ser acionados para indenizar os danos que causaram. J o delegado de Outeiro, Roberto Sawber, em cujo gabinete o fotgrafo ficou detido, pode ser acusado pelo crime de omisso. A assessoria da Secretaria de Segurana Pblica informou ao jornal que as polcias militar e civil j haviam instaurado procedimentos administrativos para apurar as condutas dos agentes na Diviso de Crimes Funcionais e na Corregedoria da PM. Convinha que o governador se pronunciasse para inibir retaliaes e agresses queles que so considerados seus adver srios ou inimigos por subordinados seus que pretendam ser mais realistas do que o rei. E para assegurar que diferenas e divergncias no serviro de pretexto para violar os direitos e garantias do regime democrtico. Os bons policiais devem ser estimulados. Os maus, rigorosamente punidos. E ambos devem ser colocados sob controle externo. Os seis PMs que constrangeram o fotgrafo estava numa camionete Hilux, que custa mais de 90 mil reais. Por que, ao invs de investir em carros caros, no comprar microcmeras e impor seu uso por todos os policiais quando em servio? Essa medida reduziu a violncia policial nos Estados Unidos, inibindo a ao dos maus agentes e oferecendo toda contribuio operacional que um bom agente pode dar. Est na hora de adotar esse controle antes que o descontrole resulte em coisas ainda piores do que as que esto acontecendo.

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8 Sete bilhes de dlares (mais de 25 bilhes de reais) foram depositados na agncia sua do HSBC em Genebra, na Sua, por 8.667 mil brasileiros em 5.549 contas secretas, suspeitas abertas para a lavagem de dinheiro de origem ilcita. Os dados foram revelados graas ao vazamento de documentos do banco que originou o escndalo SwissLeaks. Foi o maior vazamento bancrio da histria, a partir da lista de mais de 100 mil clientes do HSBC em 203 pases, com depsitos estimados em mais de US$ 100 bilhes. Uma Comisso Parlamentar de Inqurito do Senado foi instalada para apurar o caso e identicar esses brasileiros e a origem do dinheiro. A investigao sobre os seis primeiros depositantes chegou a ser autorizada pela CPI num dia. No dia seguinte, porm, sete senadores decidiram voltar atrs da deciso anterior e optaram por bloquear qualquer investigao sobre os dados bancrios e scais de seis dos agrados com depsitos no declarados. Paulo Rocha, do PT do Par, foi um desses senadores arrependidos. Essa volta atrs foi adotada um dia depois da deciso do Supremo Tribunal Federal, de manter a quebra de sigilo em contas secretas do HSBC. A CPI morreu hoje, lamentou o senador Randolfe Rodrigues (do PSOL do Amap), autor da proposta de criao da CPI, instalada em maro. Ele foi o nico a manter o voto pela quebra do sigilo dos depositantes brasileiros que constam dessa lista. Uma das CPIs mais importantes do parlamento acaba de ser assassinada num dos momentos mais vergonhosos da histria do Congresso Nacional, protestou Randolfe diante dos jornalistas, logo aps a reunio da CPI, um dia antes de o Senado entrar em recesso, que ir at o incio de agosto. A morte da CPI comeou com a reverso da quebra de sigilo, que j fora aprovada pelos senadores, de Paula Queiroz Frota, uma das executivas da famlia que dirige o maior conglomerado de comunicao do Cear (TV Ver des Mares e Dirio do Nordeste ), o grupo Edson Queiroz. Paula, junto com Lenise e Yolanda Queiroz, tambm membros do conselho de administrao da corporao, tinha em 2007 um saldo de US$ 83,9 milhes na conta 5490 CE aberta em 1989 no HSBC de Genebra. A pedido do senador Paulo Bauer (do PSDB de Santa Catarina), a quebra de sigilo j aprovada de Paula Queiroz foi revogada, sob o argumento de que ela diz no ter conta no HSBC. Uma CPI que no investiga, que tem medo de investigar, no tem razo de ser, lamentou Randolfe. Na vspera da reunio, o Supremo Tribunal Federal, por deciso do ministro Celso de Mello, tinha rejeitado mandado de segurana do empresrio Jacks Rabinovich, ex-dirigente do Grupo Vicunha, que teve seu sigilo quebrado no nal de junho. A CPI se sentiu agredida pela resposta seca do empresrio, recusando-se a dar qualquer informao sobre os US$ 228,9 milhes registrados no SwissLeaks em 2007. Seu argumento foi de que a prova da CPI (a lista do HSBC) no lcita. At o relator, senador Ricar do Ferrao, sentiu-se atingido: Precisamos elevar o tom e armar a autoridade da CPI, disse ele, que acompanhou os arrependidos na ousadia. O Supremo reforou esse sentimento, declarando que a CPI tinha pleno direito em quebrar o sigilo de Rabinovich. O senador Ciro Nogueira (PP do Piau) apresentou o requerimento que anulava a quebra de sigilo de Rabinovich, desfazendo da deciso da mais alta corte do Pas. A CPI, graas a esta deciso do STF, nunca esteve to forte. E, apesar disso, est desistindo de exercer seu direito reconhecido na plenitude pelo Supremo. Isso um absurdo, reagiu Randolfe, mas cando sozinho nesse entendimento. Em quatro votaes sucessivas, todas decididas por 7 a 1, a maioria acabou revertendo a quebra de sigilo de Jacob Barata, e trs familiares. Conhecido como o Rei do nibus no Rio de Janeiro, onde a famlia tem participao em 16 empresas de transporte municipal (e tambm em Belm), Barata aparece nos registros do HSBC de 2007 com um total de US$ 17,6 milhes. O dinheiro foi depositado em conjunto com a mulher, Glria, e os trs lhos Jacob, David e Rosane. A conta 1640BG, aberta em 1990, passou a ser operada em 2004 por uma empresa o shore, a Bacchus Assets Limited, baseada no paraso scal de Tortola, nas Ilhas Virgens Britnicas, territrio ultramarino do Reino Unido, conforme apurao do Portal Uol e do jornal O Globo Segundo comunicado do prprio senador, Randolfe estava especialmente irritado porque identicou Barata como piv das presses pessoais que recebeu, na condio de vice-presidente da CPI. Em Braslia e at na capital do meu Estado, Macap, os emissrios do sr. Barata tentaram me assediar, exercendo um cerco a que nunca me submeti. Nunca chegaram a mim, graas blindagem de meus assessores. Se estava assim to preocupado, o que tem o Sr. Barata a esconder da CPI? Sem investig-lo, jamais saberemos, lamentou Randolfe, em pronunciamento sem eco no plenrio da CPI. O clima de desnimo e a m-vontade da CPI para investigar cou ainda mais evidente com a proposta do senador Blairo Maggi (ex-governador e do PR de Mato Grosso) de paralisar a CPI, agora, enquanto o Senado aprecia um projeto do senador Randolfe Rodrigues, que repatria dinheiro de brasileiros depositado sem controle no exterior. Vamos parar a CPI e esperar a repatriao. incongruente fazer as duas coisas ao mesmo tempo: dar um doce, de um lado, e castigar com um chicote, de outro. Ningum vai se sentir estimulado a trazer seu dinheiro de volta, se a CPI continuar investigando, alegou Maggi. Com prazo de encerramento estipulado para 5 de outubro, o senador Ferrao alegou que no teria tempo para concluir seu relatrio e sugeriu uma prorrogao de quatro meses. Randolfe desdenhou: Quatro meses mais para no investigar nada? Do jeito que est, o melhor mesmo acabar agora, para no prolongar a humilhao. Essa CPI do HSBC j morreu... O lobby dos advogados venceu, o Parlamento perdeu. Isso pior do que os 7 a 1 da alemanha, finalizou o senador. Um nal realmente melanclico. Os brasileiros devero continuar a ignorar quem so os donos das contas secretas. Mas sabem que eles so poderosos: anal, representam quase 10% desses depositantes suspeitos do BSBC suo.Senado mata a CPI das contas secretas

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9 Dirio do Par: o jornal sai da rota do jornalismoPublico a seguir, como dossi, artigos que escrevi sobre o Dirio do Par, a propsito da demisso de um dos seus reprteres especiais, Carlos Mendes, e a reao do autor do ato, o novo diretor de redao Klester Cavalcanti, principalmente para o conhecimento dos leitores que no acompanham meu blog www.lucioflaviopinto.com, onde os testos aparecem originalmente1Uma jornalista amiga me mandou a seguinte mensagem: Estava fora do Brasil, estudando. Abri a TV e vi um furaco na poltica. Rapidamente ela cou mais bem informado sobre esse tornado do que o leitor do Dirio do Par o jornal de maior tiragem do Par. O peridico do senador Jader Barbalho e do seu lho, o ministro Hlder Barbalho, tem mantido longe da sua capa a maior crise poltica nacional desde a ascenso do PT ao poder, em 2003. E uma das maiores da repblica desde a redemocratizao, em 1985. O caldo entornou quando cou claro que o procurador geral da repblica, Rodrigo Janot, dever pedir o afastamento do deputado Eduardo Cunha da presidncia da Cmara Federal e o seu processamento pelo Supremo Tribunal Federal. A principal prova para essa denncia a declarao feita pelo lobista Jlio Camargo ao juiz Srgio Moro, no processo da Operao Lava-Jato, de que deu cinco milhes de dlares de propina a Cunha para obter contrato na Petrobrs. A reao da terceira autoridade na linha sucessria da presidente foi de quem est ciente da gravidade da ameaa, pretende morrer atirando e quer levar outros com ele para a sepultura. Passou a atirar para todos os lados. Articula pedidos de impeachment contra Dilma Rousse aprovao de duas CPIs que atingiro mortalmente o governo, se devassarem as contas do BNDES e dos fundos federais. Nesses redutos h a suspeita de ilicitudes de tamanho muito superior s da Petrobrs, alcanando mais gente e instituies. Ser o golpe nal na atual administrao federal, que atualmente vegeta. A maioria dos integrantes do PMDB preferiu se esconder para no ter que se denir entre seu (ainda) poderoso correligionrio e o governo que lhe rende frutos. Espera a evoluo (aceleradssima at agora) dos acontecimentos para ver qual o galho mais forte e nele se acomodar. A situao claramente embaraosa para os Barbalho. Depois de investir abertamente contra Eduardo Cunha, na defesa do governo que cedeu um espao vital (embora desprestigiado) no ministrio para o seu herdeiro, Jader Barbalho recuou para evitar um confronto de desdobramentos imprevisveis. Com o rompimento de Cunha e sua hostilizao direta a Dilma, os Bar balho teriam que proteger a presidente para garantir a Helder a continuao no ministrio da pesca e aquicultura. A defesa, porm, tem que ser cautelosa. Da o jornal expurgar o assunto da sua primeira pgina e abrir um pouco mais o noticirio apenas em uma pgina interna, na procura por um equilbrio quase impossvel. Mas certamente de grande desgaste junto ao leitor, que v o contraste brutal com o tratamento dado ao tema por O Liberal, o grande adversrio do Dirio No por amor ao jornalismo que o jornal dos Maiorana abre espaos generosos grave crise nacional, como de praxe. Mas para o leitor o que importa poder acompanhar melhor o que acontece em Braslia e satlites. Essa atualizao tem seu lugar ideal na imprensa, mas quando um jornal vira estandarte e bumbo poltico, ele deixa de praticar jornalismo, que o seu negcio. Se virar uma quitanda, estar abrindo caminho para um destino certo, mesmo que demore a se concretizar: a morte.2Klester Cavalcanti completou um ms como diretor de redao do Dirio do Par H dois fatos mais destacados dessa gesto. Uma, mantida hoje, desde quinta-feira, aceitar que o Dirio talvez seja um dos raros se no o nico jornais brasileiros que no d a crise poltica nacional na sua primeira pgina. um fato espantoso. H cinco dias as atenes do pas se voltam para Braslia. Finalmente, os processos judiciais derivados da Operao Lava-Jato, que apura corrupo na Petrobrs, atingem a cpula do poder institucional do pas, tanto do executivo como no legislativo, com farpas ainda leves para o judicirio e suas extenses. Diretamente, ameaa derrubar o presidente da Cmara Federal e terceiro na linha sucessria da presidente da repblica, o deputado Eduardo Cunha, do PMDB. Um acusador assumiu integralmente o ato de pagar propina de cinco milhes de dlares a Cunha. muito grave. Ao connar o noticirio a uma pgina interna, o Dirio do Par renunciou a fazer jornalismo de verdade e voltou, desta vez incondicionalmente, sua funo de instrumento poltico dos seus donos, o senador Jader Barbalho e seu herdeiro, o ministro da pesca e aquicultura, Hlder Barbalho. O negcio do jornal informao, mas informao se tornou secundria porque os donos querem garantir a posio do delm da famlia no ministrio de Dilma Rousse. Para isso, expurgaram o assunto, manchete em toda imprensa, da capa do jornal. Klester Cavalcanti, que veio de So Paulo, onde morava e trabalhava h 15 anos, para ocupar o lugar de Gerson Nogueira, aceitou, como diretor de redao do Dirio praticar esse antijor nalismo a servio de interesses polticos dos proprietrios. No faz bem sua biograa. Pelo contrrio, a ameaa de mcula, mais uma vez. O outro ato marcante desse seu primeiro ms como o chefe da redao do jornal mais vendido do Par, a demis-

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10 so do jornalista Carlos Mendes, ato praticado por telefone, sem considerao pelo tempo de servio desse prossional no jornal dos Barbalho e no jornalismo brasileiro. Surpreendido no s pela forma incivilizada do seu desligamento unilateral como pelas justicativas apresentadas, Mendes tentou e no conseguiu acesso a quem o contatou diretamente para que trocasse O Liberal pelo Di rio : Jader Barbalho Filho, o principal executivo do grupo de comunicao, tambm lho do senador, encontrou pretextos para no devolver sua ligao nem atend-lo. Se a resciso acontecer na tera-feira, como foi anunciado, Mendes deixar o jornal de uma forma que enodoar no a ele, mas ao jornal e ao responsvel por sua demisso. Se a inteno foi humilhar e desgastar o prossional junto sociedade paraense, a frustrao ser grande. Os paraenses conhecem sucientemente Carlos Mendes para deduzir do ato o conceito verdadeiro sobre os personagens dessa cena ruim. triste constatar que, em apenas um ms, um prossional trazido de fora na presuno de que pudesse contribuir para o avano no padro de qualidade do Dirio do Par e na cor reo dos seus erros, certamente em troca de um contrato que justique seu deslocamento de So Paulo para Belm, empreste o seu nome e use o seu servido para um novo retrocesso do jornal dos Barbalho. O Dirio no volta a ser apenas o jornal de campanha de 1982, pobremente editado, mas uma reedio Dorian Gray de um passado em ver so piorada. O que seus donos veem no espelho da vaidade no a imagem desgastada que tm os paraenses, cada vez menos esperanosos numa alternativa de qualidade ao mau jornalismo do jornal dos Maiorana. Tudo muda para car tudo igual. Ou pior.3O jornalista Carlos Mendes comunicou aos seus leitores da imprensa diria paraense, fontes jornalsticas espalhadas por todo o Estado, amigos pessoais e seguidores do Facebbok e Twitter que no fao mais parte do jor nal Dirio do Par Informo ainda que estou tinindo para encarar novos desaos prossionais. E mais: continuo ligado ao jornal O Estado de So Paulo, do qual sou correspondente h 19 anos, na condio de reprter especial. Mendes um dos mais antigos jor nalistas paraenses em atividade e em franca atividade. Passou por vrios jor nais, antes de ir para o Dirio saindo do concorrente direto do peridico dos Barbalho, O Liberal. Sua comunicao lembra a que recentemente Jos Menezes fez, num tom de melancolia e protesto: deixava o jornal dos Maiorana, depois de 45 anos de trabalho, no como queria (e devia), mas por no receber o seu salrio.Duas demisses, dois sinais da crise que vive a imprensa paraense. A parte Maiorana desse quase-oligoplio por problema de liquidez. A dos Barbalho pela inter ferncia da poltica nos destinos dos veculos de comunicao.As duas empresas podem exercer seu direito de demitir ou admitir quem quiserem. Mas h atos que desabonam. Como a demisso de um jornalista do porte de Carlos Mendes feita por telefone pelo novo diretor de redao, o pernambucano Klester Cavalcanti, no cargo h apenas um ms. Um dossi completo do caso est no blog do jornalista Augusto Barata. Ele mostra que a imprensa paraense afunda em funo de seus interesses mar ginais ao jornalismo e mesmo antijor nalsticos. No car impune por esse desvio de sua funo.4Para mim, o melhor cargo que um jornalista pode querer o de repr ter especial. Especial porque no tem horrio nem convenincias. A qualquer momento pode ser acionado e enviado (a vira enviado especial) para qualquer parte do mundo, tratando-se de uma publicao internacional ou nacional, ou do Estado, num rgo local. Esse jornalista (pau-para-toda-obra) tem experincia, conhecimento, vivncia, maturidade e qualidades outras sucientes para desempenhar qualquer misso e realizar o que dele se espera. o jornalista da linha de frente, em contato permanente com os fatos mais relevantes do dia a dia, que constituiro a histria logo depois. H poucos reprteres especiais na imprensa paraense. Alguns tm apenas o ttulo e nada mais. Uns poucos merecem o qualicativo. Carlos Mendes um deles. At hoje, ele integrava o diminuto quadro de reprteres especiais do Dirio do Par Foi chamado na semana passada ao setor de recursos humanos do jornal, onde, hoje pela manh, fez o exame demissional. No dia 27, tarde, a resciso contratual ser homologada no sindicato dos jornalistas. Demitir um direito da empresa. Infelizmente, as demisses acontecem sempre, agora com muito maior constncia. So tempos de difcil transio para o jornalismo, a cobrar seu preo em cabeas humanas. A demisso de Carlos Mendes foi executada de forma to sbita e sumria que surpreende e assusta. Enoja e enjoa. Parece que a empresa quis puni-lo, como se pudesse tal coisa. Seu principal executivo, Jader Barbalho Filho, deu um jeito de no receber Mendes, mesmo provocado a um encontro. Cer tamente no pensou em ter o gesto de cavalheirismo e de justia de dar pessoalmente as despedidas ao prossional que contratou tambm em pessoa para fazer parte do grupo reduzido de reprteres especiais do seu jornal. E que, at robusta prova em contrrio. honrou o convite, tantas foram as matrias assinadas por ele que o Dirio pu blicou, invariavelmente com destaque. O prprio Mendes, reconstituindo o inslito dilogo que teve apenas pela internet com o novo diretor de redao do jornal da famlia Barbalho, o pernambucano Klester Cavalcanti, atribui a sua demisso cirrgica a dois fatos: no compareceu a uma reunio convocada pelo chefe (plenipotencirio?) e esse chefe considerou mal apurada uma matria do subordinado. No o quer no quadro de jornalistas que agora comanda. Qual a autoridade tcnica de Klester para julgar uma matria de Mendes? Claro, o diretor de redao do Dirio nome nacional, tem livros publicados, trabalhou em Veja (mas tambm

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11 no extremo oposto, a revista de fofocas Contigo ), foi enviado especial e tudo mais. Ainda assim, para o Par e para a Amaznia, sua folha de servios est muito aqum do currculo de Mendes. O mnimo de ateno que o chefe devia conceder ao cheado seria discutir seus pontos de vista em cima do texto. Se demonstrasse seu veredito, o chefe podia dar mais uma oportunidade ao cheado de melhorar o seu trabalho. O comportamento mercurial de Klester sugere que se tratou de um ajuste de contas de uma punio. Por qu? Ningum sabe. Talvez s o chefe e o seu chefe, que se quedaram mudos e indiferentes cobrana da opinio pblica, reconhecida pelas contribuies e o acervo acumulado de informaes produzidas em favor da coletividade por Carlos Mendes. Escrevo isso no por ser amigo dele. Distingo o amigo do prossional. J discordamos algumas vezes, mas isso secundrio. O importante o valor do material jornalstico que ele produziu durante pelo menos quatro dcadas de jornalismo de front Esse passado impe respeito, exige respeito. O que me decepciona e entristece ver executivos pelos quais tenho (ou tinha?) apreo, como Jader Filho e Camilo Centeno, se comportarem de forma discrepante com o que me costumei a observar neles e se reinventarem, como se diz. Talvez por osmose com o que regressivo, um retrocesso nas boas prticas prossionais, humanas e civilizadas do que foi a boa imprensa paraense. Pode parecer incrvel, mas novamente o jornal do senador Jader Bar balho, que o fundou em 1982 para t-lo na campanha para o governo do Estado, em 1982, da qual saiu vitorioso, regride no caminho da to esperada prossionalizao.5O radialista paraense Jorge Reis, destacado prossional da rdio Liberal at alguns anos atrs, reproduziu no seu facebook artigo meu publicado neste blog. No artigo, registrei o primeiro ms de Klester Cavalcanti na direo de redao do Dirio do Par. Jorge acrescentou seu comentrio: Do orculo: aposto que o Cavalcanti no vai durar um Klester na redao do Dirio. Os dois primeiros pargrafos do meu texto dizem: Klester Cavalcanti completou um ms como diretor de redao do Dirio do Par. H dois fatos mais destacados dessa gesto. Uma, mantida hoje, desde quinta-feira, aceitar que o Dirio talvez seja um dos raros se no o nico jornais brasileiros que no d a crise poltica nacional na sua primeira pgina. um fato espantoso. H cinco dias as atenes do pas se voltam para Braslia. Finalmente, os processos judiciais derivados da Operao Lava-Jato, que apura corrupo na Petrobrs, atingem a cpula do poder institucional do pas, tanto do executivo como no legislativo, com farpas ainda leves para o judicirio e suas extenses.Diretamente, ameaa derrubar o presidente da Cmara Federal e ter ceiro na linha sucessria da presidente da repblica, o deputado Eduardo Cunha, do PMDB. Um acusador assumiu integralmente o ato de pagar propina de cinco milhes de dlares a Cunha. muito grave.Klester reagiu com a seguinte obser vao: No h o que esperar, meu caro. O texto do blog que vc postou diz uma coisa e a capa do jornal da sexta passada prova que a verdade outra. Simples. Reis observou:Esperemos, pois ... Klester retornou: Meu caro, poucas coisas so mais antijornalismo do que no obedecer a regra bsica de ouvir o outro lado. Pior do que isso, talvez, s escrever algo sem fazer a mnima apurao necessria. Segue a capa do Dirio do Par da sexta-feira passada, que prova o erro grotesco de quem diz que o jor nal, desde a quinta-feira passada no coloca o assunto Petrolo na capa. No s colocamos a notcia super quente (a declarao do Eduardo Cunha tinha sido dada perto da meia-noite) como fomos um dos poucos jornais do pas a colocar a briga do Cunha com a Dilma na capa da edio da sexta-feira. Cada um pode ter a opinio que quiser. Mas contra FATOS no h argumentos. Ta a capa pra vc ver. De fato, h uma chamada na capa dessa edio do dia 16, a primeira da crise, que diz: Guerra poltica Eduardo Cunha anuncia rompimento com Dilma. A partir da, o assunto sumiu da primeira pgina do Dirio do Par conrmando inteiramente o que eu disse no meu artigo. No voltou uma nica vez, apesar de a crise s ter crescido e se agravado desde ento. Exceto por uma simulao arrumada no dia seguinte ao da publicao do meu ar tigo neste blog. Foi por constrangimento incontor nvel que o jornal noticiou o rompimento anunciado do presidente da Cmara Federal com a presidente do poder executivo. A partir da, o interesse jornalstico foi soterrado pelo interesse poltico dos donos do jornal. E Klester cumpriu a ordem recebida, mesmo que violentando o sentido de ser de uma empresa jornalstica. E haja manchete sensacionalista e campanha contra os adversrios polticos dos Barbalho. As manchetes do Dirio desde ento: Dia 18: Sequestro em Belm Escapou de ser executado porque se ngiu de morto. Dia 19: Deciso do governo Jatene d R$ 6 bilhes de iseno scal s empresas de alumnio. Dia 20: Preso em Salinpolis Policial Militar detido por atirar em diversas pessoas. Uma pequena chamada, publicada no dia seguinte ao aparecimento do meu artigo no blog, do dia 19, diz: TV Senado Renan apoia Cunha e ataca ajuste scal. Crticas ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, no a Dilma, que mantm Helder Barbalho no seu ministrio. Dia 21: Corpo foi achado no canal Jovem morto com 21 facadas. Hoje: Em Icoaraci Samu leva 3 horas para chegar e homem morre. Onde, pois, a comprovao do que Klester armou? Ele parece ter aprendido de tal maneira manipular que j no sabe lidar com a verdade dos fatos. Quem tem razo o Jorge Reis. O que falta denir na sua previso qual dos dois vai acabar primeiro: Klester ou o Dirio

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12 memriado C otidianoDECLARAODaniel Coelho de Souza, um dos maiores advogados e juristas paraenses, de expresso nacional, j falecido, viu-se na circunstncia de publicar uma declarao na Folha do Norte de 1953, nos seguintes e sugestivos termos: O comentrio annimo das ruas, perseverante, insidioso e responsvel, coletando dios disfarados e despeitos pusilnimes, incumbiuse de divulgar contra minha pessoa uma calnia gratuita, que serviu de pasto maledicncia dos desocupados. No me cabia a mim descer sarjeta onde tais comentrios proliferaram, enquanto no houvessem servido, como serviram, de pretexto inspirao canalha que deles se valeu para utiliz-los em manifestao pblica recente. Numa satisfao s pessoas cuja amizade me honra, jamais aos retaliadores contumazes de todas as reputaes, para os quais meus votos so continuem a se revolver no excremento que desla de sua maledicncia, transcrevo, a seguir, a carta que, a respeito, ontem recebi e que pe um ponto nal no assunto. Na carta, Carlos Alberto Rebelo Pereira diz ao destinatrio, que o mesmo Daniel: Em ateno ao pedido de informaes que me dirigiu, cumpre-me declarar a V. S. que no se entendem, direta ou indiretamente, com V. S., as razes determinantes de meu desquite. ta, Belm!MARAVILHASO monumento a Lauro Sodr, na praa de So Braz, foi considerado a maior maravilha de Belm, num concurso realizado em 1959 pelo departamento de relaes pblicas do denominado Cr culo Cultural dos 30. Os seis mais votados na pesquisa foram, pela ordem, a baslica de Nazar, Teatro da Paz, Museu Emlio Goeldi, bosque Rodrigues Alves, palacete Bolonha e a doca do Ver-o-Peso. Foram ainda votados a Catedral de Belm, praa da Repblica, Escola de Agronomia da Amaznia, Forte do Castelo, runas do Murutucu, monumento repblica e edifcio Manoel Pinto da Silva. Nem muitas nem tanto maravilhas.TELEVISOOs paraenses puderam assistir, em 1962, por kinescpio, a grande luta de peso galo entre o brasileiro der Jofre e o mexicano Joe Mendel, num oferecimento da General Motors do Brasil. Alguns dias depois da realizao do combate, claro.PRSTIMOSManoel Pinto da Silva, o construtor do edifcio que leva o seu nome, na praa da Repblica, e dono de A Automobilista, de revenda de carros, publicou nota na imprensa, em 1962, comunicando ao distinto pblico que se encontra em Lisboa, Portugal, oferecendo os seus prstimos aos clientes e amigos no seguinte endereo:> Av. Casal Ribeiro, 46 5 andar.PERSEGUIOEm maio de 1964, o governador Aurlio do Carmo nomeou uma comisso, presidida pelo secretrio do Interior e Justia, desembar gador Augusto Borborema, para apurar as atividades subversivas entre o funcionalismo pblico estadual. As primeiras providncias adotadas pela comisso foram entrar em contato com o Comando Militar da Amaznia para solicitar instrues; requisitar secretrio e datilgrafo para os trabalhos rotineiros; promover reunies dirias na sede da secretaria, divulgar nota pela imprensa, esclarecendo sobre as denncias, que sero recebidas de qualquer pessoa pela comisso, desde que o denunciante apresente provas do que diz; e requisitar relao de funcionrios das diversas reparties estaduais para confronto com os fichrios da Delegacia de Ordem Poltica e Social, o famigerado DOPS. Apesar desse estmulo delao e ao esprito de perseguio, o governador Aurlio do Carmo no conseguiu salvar o prprio pescoo: foi cassado pelos novos donos do poder, agora fardados, um ms depois. Seu lugar foi ocupado pelo coronel Jarbas Passarinho.SUBVERSIVOBenedito Serra era considerado um subversivo perigoso: pertencia ao Partido Comunista Brasileiro e presidia a Unio dos Lavradores na zona bragantina. Foi perseguido depois do golpe militar de 1964. Preso em Castanhal, foi transferido para um quartel do Exrcito em Belm. Dias depois, levado para o Hospital Militar, morreu. O motivo, segundo as autoridades militares: hepatite aguda.FALTAEm maro de 1964, uma semana antes do golpe militar, a Folha Vespertina divulgou uma carta que, embora provavelmente inventada, retrata um pouco da situao na poca: Um dos nossos leitores tem amigos em Portugal e um deles est prestes a regressar a Belm. Daqui lhe foi enviada esta carta, que traduz elmente a triste realidade em que vivemos: Amigo Manuel. Tudo por aqui vai indo bem. Deus louvado. Mas no temos caf, nem acar, nem trigo para o po. Sei que ests de volta a estas plagas to queridas. V se podes meter na tua mala de viagem um quilo de cada um desses artigos, mas toma cuidado que no os apanhe o Fiscol; do contrrio, l se vai tudo para Paramaribo. Abraos do amigo Raimundo Pahceco.

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13 FOTOGRAFIAO ciclo de JaderFoi uma autntica festa baratista, talvez das ltimas, o lanamento do livro do jornalista e historiador Carlos Rocque, A formao revolucionria do tenente Barata, em 1983. A noite de autgrafos foi na sede da Fundao Romulo Maiorana, que funcionava no prdio ao lado do jornal O Liberal. A saudao a Rocque foi feita pelo coronel Moura Carvalho, que destacou ter recebido dois legados de Barata, quando ele morreu, em 1959: o governo do Estado e a direo do PSD, o Partido Social Democrtico. O autor da obra, que integrava sua srie O ciclo de Magalhes Barata, aproveitou para passar a caneta que Barata usou, uma Parker-50, durante o seu ltimo mandato de governador, para sua sobrinha, Lucida, esposa de Romulo. Antes de entregar a relquia, Rocque usou-a duas vezes para dois autgrafos: um a Romulo e outro ao governador Jader Barbalho, presente ao ato, para quem escreveu: Quem sabe no escreverei o ciclo de Jader Barbalho?. No escreveu por dois motivos: morreu antes. E Jader no chegou a formar um ciclo, rigorosamente falando. Ainda um caso isolado de liderana poltica no Par.COMRCIO RMEm 1961, Romulo Maiorana decidiu fechar uma das duas lojas que possua na rua Joo Alfredo, ento a mais impor tante do comrcio de Belm. Em 30 dias, anunciou que faria a maior queima do ano, liquidando todos os seus produtos: roupas e sapatos masculinos, alm de centenas de outros artigos. Cinco anos depois se transferiria para as comunicaes, encerrando a rede de lojas que montou. DECLARAO

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14 PolticaLi, como de costume, o Jor nal Pessoal e, sem querer tecer marajoaras seja bem mais complexa que a narrativa sugere ou que eu, humildemente, tenha acerca da violncia, que ela grande, assustadora, crescen cionista vem transformando dro parea bem pior do que que ponto isso favorvel politicamente, eis que, dentre os que percebem, o sentimento de repulsa, pois o nervosismo tem sido impulsionado e a conta com o terapeuta aumentada. complexa do que possamos atores dispostos a enfrentar tal gerenciar e levar na concoragem. Eliaquim Jniorcart@s cart@sEditor Lcio Flvio Pinto Contato Rua Aristides Lobo, 871 CEP 66.053-020 Fone 091) 3241-7626 E-mail lfpjor@uol.com.br jornal@ amazonet.com.br Site www.jornalpessoal.com.br Blog Diagramao/ilustrao Luiz Pinto Jornal Pessoal O papa e o populista: o que a foto revela do Osservatore Romano o porta-voz ocial do Vaticano, a foto que eu escolheria como a imagem do ano. o registro instantneo do momento em que o presidente da Bolvia, Evo Morales, entregou ao papa Francisco, em La Paz, a imagem de madeira de um crucixo adornado com o smbolo da foice e martelo. Morales ostenta um sorriso de ironia, quase deboche, como se estivesse possudo pela certeza de ter colocado o papa em xeque-mate. J o pontce no reprime uma expresso de surpresa, susto e certa ojeriza. Mas que diabo isto?!, parece dizer. O belzebu, no caso, invocado como o mais tosco dos termos de que podia lanar mo para sintetizar seu estado de esprito. No movimento seguinte ao inicial, planejado pela certeza de que a iniciativa deixaria o destinatrio da oferenda imobilizado pelo impacto da surpresa, Morales contra-atacou: aquele crucixo comunista era obra do sacerdote espanhol Luis Espinal, assassinado em 1980. Tornara-se um smbolo, por recordar as perseguies aos seguidores da Teologia da Libertao, considerados comunistas pelos donos dos regimes ditatoriais da Amrica do Sul. O papa reagiu imediatamente para escapar armadilha. Lembrou a Morales que o autor daquela pea fora assassinado por que pregava o evangelho, e isso incomodava. No foi um recurso retrico, tirado da cartola de mgico, que polticos de diferentes matizes e ideologias costumam se armar. O papa deu de presente a Morales algo que ele disse ser mais simples, procurando se fazer entender por essa parbola na forma de imagens. uma imagem bizantina da Virgem Maria com o Menino Jesus, das origens do cristianismo, instalada na baslica de Santa Maria Maior, em Roma. Imagem maravilhosa, a pouca distncia do modesto quarto do hotel Santa Marta, onde o jesuta argentino 9ver dadeiro franciscano como nenhum outro da ordem) decidiu continuar a morar, dispensando os luxuosos palcios vaticanos. Evo Morales seria capaz de tanto, como ato de profundo signicado simblico, ainda que modesto diante dos desaos que tem diante de si quem dirige pases explorados h sculos, como a Bolvia e demais naes do continente latino-americano? A est um elemento de diferenciao entre o atual presidente boliviano e o papa de hoje: Morales ainda recorre a expedientes envelhecidos e desacreditados, na presuno de que um golpe de malandragem pode transformar o outro lado em mera escada para uma propaganda involuntria em favor do seu anfitrio, o verdadeiro dono da situao. No entanto, o que deu destaque mundial e dimenso histrica a Francisco, desde o incio do seu ainda breve papado, se deixar guiar por princpios ticos, morais e mesmo polticos capazes de devolver a Igreja, em especial a sua mais alta hierarquia, aos seus compromissos de origem com os mais pobres e mais necessitados. Como guia nessa peregrinao, o papa dispensa ajuda externa. Ele tem o evangelho, a mesma origem da teologia da libertao, que ele agora est reconhecendo. por isso, um papa da esperana, como poucos houve no extenso passado da Igreja catlica. Joo XXIII e Paulo Vi foram dessa genealogia. Mas Francisco os superou nesse elemento, o que persiste de mais humano nesses nossos difceis tempos de desumanizao. E-mailUm dos meus e-mails, o jornal@amazonet.com.br sair do ar neste dia 3, quando a provedora Amazon encerrar suas atividades. A partir de agora os contatos podem ser feitos apenas pelo lfpjor@uol.com.br.

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15 No dia 5 de maio uma empresa de logstica de Marab, que comeou a funcionar no incio do ano passado, desembarcou no porto de Vila do Conde, a 50 quilmetros de Belm, oito mil toneladas de mangans extrado na mina de Carajs pela Minerao Buritirama. A carga foi transportada ao longo de 500 quilmetros, pelo rio Tocantins, em uma composio uvial, com seis barcaas. At 2014 esse transporte era feito por caminhes. Para igualar a viagem do comboio uvial de maio, a terceira realizada neste ano, os caminhes teriam que fazer 350 viagens, sem carga de retorno. No ano passado o escoamento pela hidrovia foi de 20 mil toneladas. O volume dever ser duplicado em 2015. Pela forma tradicional, exigiria duas mil viagens de caminho, a um custo de transporte cinco vezes mais caro, com todos os nus sobre as rodovias. Segundo os clculos das empresas, se a hidrovia estivesse funcionando sem limitaes o ano inteiro, a economia de frete seria de 650 milhes de reais por ano. Para isso acontecer, necessrio remover as gigantescas pedras que bloqueiam o leito do Tocantins numa extenso de 43 quilmetros, no municpio de Itupiranga, entre Marab e Tucuru. menos de 10% da extenso da hidrovia, no trecho de 500 quilmetros entre o porto exportador de Vila do Conde, o mais importante complexo industrial e porturio do litoral norte do Brasil, e Marab, para onde gravita a produo da regio central do Par e de parte do pas. A obra custaria 750 milhes de reais. Seria paga em pouco mais de um ano com a economia de frete, tornando mais competitivos os produtos dessa regio, principalmente minrio, gros e carne. Mas ningum se interessa por ela. uma constatao espantosa diante de evidncias to claras e simples da vantagem do transporte por gua. Quando se aprofunda a anlise, porm, as questes e os problemas emergem quase com a for a das pedras que atravancam a navegao do mdio Tocantins. O Tribunal de Contas da Unio vem contestando o custo do empreendimento. Em um ano, ele subiu 73%, passando de R$ 450 milhes para R$ 750 milhes. A alegao de que ningum se interessou pela obra na primeira licitao, realizada no ano passado, por no compensar o investimento. Ela teria que se tornar mais atraente. O segundo edital est previsto para agosto, o que permitiria concluir o servio em 2017. Mas nem o governo parece interessado na hidrovia (como, de resto, em nenhuma outra do pas). Ela foi retirada do PAC (Programa de Acelerao do Crescimento) em 2011. No consta do programa de investimento em logstica, no valor de 200 bilhes de reais, para rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Mesmo de volta ao PAC, o projeto do pedral do Loureno continua empacada em inmeros detalhes. Como o uso do projeto tcnico. A Universidade Federal do Par preparou um projeto e conseguiu seu licenciamento ambiental, mas seu estudo foi abandonado. O ministro Helder Barbalho garantiu que no s o edital ir ao mercado no prximo ms como o prazo de um novo licenciamento ambiental ser encurtado de dois anos para um ano e meio. Apesar de j estar autorizado, per mitindo assim essa economia de tempo, o projeto da UFPA parece que continuar preterido pelo da Universidade do Paran. Ainda que todos esses empecilhos pudessem ser superados em tempo e as lideranas polticas do Par se unissem, criando um movimento interestadual pelo derrocamento do pedral do Loureno (o que no conseguem fazer, cada poltico puxando a brasa para a sua sar dinha), a falta de empenho do governo parece acompanhado pelo desinteresse das empresas. Elas do a impresso de considerar mais atraentes outras vias de transporte, tanto entre leste e oeste quanto entre sul e norte, principalmente as ferrovias. A Vale, que produz muito mais mangans do que a Buritirama, sua nica concor rente (se que assim pode ser considerada) em Carajs, transporta o seu minrio pela sua prpria ferrovia at o porto da Ponta da Madeira, em So Lus. Pela qual os concorrentes no encontram porteiras abertas ou atitudes receptivas. A Vale chegou a lanar ocialmente, em 2010, o projeto de uma siderrgica no valor de R$ 5,8 bilhes, a Alpa (Aos Laminados do Par), em Marab, que seria o fator decisivo para a realizao da desobstruo do rio. Mas essa atitude sempre foi para ingls ver. Sem um scio majoritrio, a antiga estatal nunca entraria no negocio, mesmo tendo gastado algum dinheiro na terraplenagem do terreno doado pelo governo, numa transao apontada como irregular na origem para a implantao da usina. O scio nunca apareceu em Marab. Os coreanos, que se interessaram pelas placas de ao, foram para o Cear, onde implantam a siderrgica que lhes dar o controle acionrio da empresa. Parece haver o entendimento de que, precariamente como est, apenas com as eclusas de Tucuru superdimensionadas em sua capacidade (de 30 milhes de toneladas nos dois sentidos) para o estgio atual da movimentao de carga, a hidrovia do Tocantins cumpre plenamente sua funo entre quatro e seis meses do ano. No precisaria funcionar pelos 12 meses. Isso porque ningum est pensando em investimentos que acrescentem volumes de cargas compatveis com a dimenso do sistema de transposio da barragem da hidreltrica de Tucuru, promovendo verdadeiro desenvolvimento e no apenas uma nova forma de extrativismo. Essas eclusas so das maiores do mundo para permitir a passagem das embarcaes por um desnvel de 70 metros criado pelo represamento do rio. Levaram um quarto de sculo para serem concludas, ao custo de R$ 1,5 bilho. O derrocamento do pedral do Loureno exige metade desse valor, sendo apenas um complemento do sistema. Se a histria no mudar, levar tanto tempo quanto a obra principal para se tornar realidade. Se isso vier a acontecer algum dia. As eclusas levaram 35 anos para serem concludas. Mas, incompletas, ainda so mais um elefante branco do que um efetivo meio de desenvolvimento regional.Hidrovia incompleta ainda no desenvolve o Tocantins

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Uma Belm dos sonhos que o fogo reduz a cinzaForam dois grandes incndios em menos de 24 horas, na semana passada, em Belm, que irromperam em dois pontos distintos da cidade: no perifrico bairro da Cremao, onde destruiu a maior parte das casas de uma passagem tpica dos subrbios, e no centro comercial velho, nalmente liquidando dois dos seus mais belos prdios, de valor histrico irrecupervel. Viver cada vez mais perigoso na capital paraense. A cada dia sua histria anda para trs. O futuro uma incgnita que a desaa. Seu habitante um detalhe no enredo. No incio da tarde do dia 22 comeou o fogo na passagem Bugarim, uma viela que sai da rua 3 de Maio, na baixa da Cremao, a partir de onde a renda decresce acompanhando o desnvel da topograa, que deixa essa par te do stio urbano altura ou abaixo do nvel do mar. So as baixadas, que exercem um poderoso fator de atrao porque proporcionam moradias mais baratas em reas s quais a populao pobre s tem acesso porque os mais afortunados ainda no as incorporaram especulao imobiliria mais rentvel nos terrenos mais elevados. Nesses autnticos guetos, os moradores que conseguem resistir s presses feitas para expuls-los para periferias mais distantes tm que se acostumar s tragdias constantes. Elas surgem na forma de enchentes, sobretudo pelo transbordamento de canais que no conseguem dar vazo ao volume de gua, e pela combinao de chuva mais intensa com mar mais alta ao mesmo tempo. Ou com os incndios, sempre iminentes pela precariedade das instalaes eltricas e pela falta de cuidado no seu uso. A promiscuidade em que vivem os moradores das ruelas transversais tal que, mesmo no rescaldo do incndio, os bombeiros no sabiam informar quantas casas tinham sido destrudas, se nove ou 11. Elas so geminadas ou um nico teto se estende por vrios imveis. Tudo para reduzir o custo de levantar paredes e cobertura para uma vida no limite da exposio s intempries. Os bombeiros chegaram atrasados, mas esse dbito, que ajudou a agravar os resultados do fogo em to pouco tempo, no pode ser lanado na sua conta. Seus carros tiveram diculdade em atravessar um dos muitos canais que serpenteiam penosamente por Belm. Havia veculos estacionados doida pelas margens do curso dgua, dicultando ou impedindo o trnsito, outra caracterstica da antiga metrpole da Amaznia. A reina o caos gerado na precariedade, improvisao, anarquia e abandono. As passagens so derivaes insalubres e inumanas das vias principais, que se destacam apenas por sua largura e asfalto vagabundo. Casas de madeira e alvenaria, a maioria delas inacabadas, abrigam cinco, seis ou mais pessoas em dois ou trs raquticos cmodos, construes e seres humanos aglomerados. Pela geminao dos imveis minsculos, o fogo, que comeou como um acidente domstico, privou 50 pessoas de 15 famlias de todos os seus bens materiais, completamente torrados um uma hora. H a suposio de que o acmulo de tomadas numa mesma central tenha ocasionado um curto-circuito. Os bens materiais se superpem num espao insuciente ou inadequado. Consome-se (a crdito) sem ateno para a forma de uso. Justamente a uma da madrugada desse mesmo dia comeou outro fogaru, muito maior, que destruiu, em seis horas de durao, dois prdios que abrigavam trs lojas de confeces no que um dia foi das ruas principais do centro comercial. As lojas estavam vazias e ningum se feriu. Um dos casares se assemelhava bastante ao vizinho, com o sugestivo nome de Au Bon March, atestando a inspirao parisiense de quase sculo e meio atrs daquela que pretendia ser como a capital francesa dos trpicos (loja igual ainda resiste em Manaus). Felizmente, este ainda resiste. Mas o que o incndio atingiu, na outra esquina, dificilmente poder ser integralmente restaurado: pelas dificuldades tcnicas, pelo custo e pela falta de interesse para tal, embora seus ocupantes tenham dito que recomearo suas atividades comerciais. Esse casaro j estava, h muito tempo, com fraturas expostas. O fogo penetrou por elas e colocou abaixo grande parte da construo, como se ela tivesse sido atingida por um bombardeio. O que no deixa de ser verdade, em termos simblicos: era a partir dali que o prefeito Edmilson Rodrigues, ento no PT, pretendia restaurar a rua Leo XIII, um dos pontos mais bonitos de Belm. Seus oito anos passaram, em dois mandatos sucessivos, e a nica coisa que aconteceu foi o crescimento da vegetao predatria e de outras for mas de depredao, naturais, acidentais ou criminosas, como os incndios e toda a fauna acompanhante que est destruindo a Belm do Gro Par, s vsperas dos seus 400 anos. Felizmente, a fachada do outro prdio, onde funcionou por mais de um sculo a farmcia Cezar Santos, se manteve em p, enquanto sua par te interna sumiu, consumida pelo fogo. Era um dos testemunhos arquitetnicos mais valiosos do conjunto Santo Antonio/Joo Alfredo, para se ver e apreciar, enquanto se compravam remdios, inclusive os caseiros e regionais. Trabalhando no comrcio por 23 anos, justamente no perodo em que essa rea foi se deteriorando e entrando em decadncia, cruzava frequentemente com dona Zara Cezar Santos Passarinho, a dona da farmcia. Ela vinha em trajes requintados, debaixo de uma sombrinha sosticada, como se andasse pelas ruas de Paris, cumprimentava quem conhecia e lhe concedia alguns dedos de prosa. Trazia-nos o arqutipo irrealizado, mas procurado, de um mundo que tentamos importar, mas o bicho (sobretudo na materializao em incndio) comeu porque, na verdade, no era do homem. Era de uma Belm que cada vez existe menos, reduzida ao p das cinzas do fogo e da desme2moria coletiva.