Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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BELO MONTE: LINHA MAIS CARA O PROTESTO EM XINGUARAFERROVIA IR A BARCARENA? oa O russo Antonov 124-100 maior avio de cargas do mundo. Quando sua capacidade est completa, ele pesa 450 toneladas. No intervalo de oito anos, pousou duas vezes no aeroporto de Belm, a ltima no dia 18. Em ambas as ocasies, foi fretado pela Vale para trazer pneus e equipamentos destinados a Carajs, a maior provncia mineral do planeta, na regio centro-sul do Par, controlada pela ex-estatal. Sempre que o tema Carajs, os nmeros so assim grandiosos. Com todo seu enorme tamanho, que sempre atrai a curiosidade pblica, o Antonov apenas 50 toneladas mais pesado do que os caminhes fora de estrada para os quais ele trouxe pneus, de mais de 40 mil dlares a unidade (o preo de um carro de luxo), com capacidade de transportar at 400 toneladas (mas com modelos j de 600 toneladas). A frota de Carajs de 105 desses veculos, que podem custar seis milhes de dlares cada um. Os caminhes tm oito metros de altura e 15 metros de comprimento, mais altos do que um prdio de dois andares. Eles transportam o minrio das reas de lavra para o trem, que leva o produto por 892 quilmetros at o porto da Ponta da Madeira, CARAJSA mina e os mineirosTudo em Carajs, a maior provncia mineral do planeta, gigantesco. Menos a participao dos seus trabalhadores na renda da produo. Para que ela cresa, a Vale investe e inova. Mas s a justia tem compensado os danos que os mineiros sofrem.

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2 na ilha de So Lus do Maranho. Dali, 60% do minrio seguem para a China e pouco menos de 20% para o Japo, a 20 mil quilmetros, seus dois principais destinos. O cargueiro esteve na vez anterior no aeroporto de Val-de-Cans, em junho de 2007. Provocada a se manifestar, a Vale informou que o cargueiro ucraniano foi fretado tambm para trazer da China, onde foi fabricada, at Belm, uma nova pea para o britador primrio da Mina do Sossego. O equipamento, pesando 82 toneladas, responsvel por uma das etapas de reduo do tamanho do minrio de cobre. De Belm, a pea ser transportada at a sede da unidade de cobre da Vale, em Cana dos Carajs, no sul do Estado. A carreta ser acompanhada por carros batedores ao longo de todo o trajeto. A minerao de cobre do Sossego, a primeira da Vale, comemorou, em 2014, dez anos de operao. No perodo entre os dois voos do Antonov, a mineradora utilizou outro caminho para transportar 123 pneus para seus gigantescos caminhes fora de estrada, atravs de duas ferrovias e um trecho rodovirio, entre Pecm, no Cear (onde agora implanta uma aciaria, em sociedade com os coreanos), e Carajs, pela Transnordestina e a Estrada de Ferro Carajs. Essa alternativa possibilitou uma reduo de metade do custo logstico. Tambm aumentou a segurana no transporte das cargas, reduzindo a emisso de poluentes e usando carretas somente no trecho entre Parauapebas e Carajs. Mas agora ela preferiu recorrer ao cargueiro areo. Apesar de sua grande capacidade de carga, os caminhes fora da estrada foram eliminados da nova mina de Carajs, a S11D, que ca ao sul das duas jazidas em produo, as de Serra Norte e Serra Leste, e adicionar 90 milhes de toneladas s atuais 130 milhes, com pureza ainda maior. Os caminhes sero substitudos por sistemas de correias integradas para o transporte do minrio. O processo, chamado de truck-less, diminuir a quantidade de resduos e (em 77%) o consumo de diesel, alm de permitir a instalao de uma usina de beneciamento em uma regio de pastagem, fora da rea da oresta. O beneciamento do minrio passar a ser feito a seco, utilizando a umidade natural para peneirar o material. Por isso, no necessitar mais de barragem de rejeitos, usual em projetos convencionais.Com essa inovao, o consumo de gua ser reduzido em 93%, em relao ao processo de beneciamento mido. Tambm diminuir a demanda de energia. Um ramal ferrovirio com 101 quilmetros de extenso e a duplicao de 42 trechos da Estrada de Ferro Carajs, que quase a duplicam por inteiro, permitiro escoar a produo ampliada. esse o principal objetivo da tecnologia adotada pela primeira vez numa lavra de minrio de ferro: dar condies para que, a partir do prximo ano, a produo chegue a 230 milhes de toneladas por ano. Nessa escala, em quatro dcadas a fantstica jazida de Serra Sul estar exaurida. um ritmo frentico de trabalho, no qual mquinas e capital so privilegiados, em detrimento do trabalhador. Por isso, a Vale foi condenada a pagar 452 milhes de reais de indenizao aos seus funcionrios por danos morais coletivos e dumping social, que a explorao do trabalho. A deciso foi adotada, no ltimo dia 8, pelo juiz da 2 vara do trabalho de Marab, Jnatas dos Santos Andrade, da qual ainda cabe recurso. Em 2010 ele recebeu uma ao civil pblica atravs da qual o Ministrio Pblico do Trabalho pedia um milho de reais de indenizao por dano moral coletivo, a par tir de acidente que resultou na morte de um funcionrio da Vale. Depois o prprio MP reajustou o valor para R$ 10 milhes. Numa madrugada de fevereiro de 2008, Paulo Pimentel foi acionado pela empresa para acompanhar a desobstruo da ferrovia de Carajs no ptio de estocagem de minrio, localizado no distrito industrial de Marab. Paulo, que trabalhava numa empresa terceirizada da Vale e estava em perodo de descanso, foi atingido violentamente por um trilho enterrado, s cinco e meia da madrugada. Uma das suas pernas foi amputada, mas ele no resistiu e morreu no hospital no dia seguinte. Uma percia constatou a existncia de riscos no local por causa do trilho enterrado, por no haver anlise preliminar da tarefa, baixa iluminao, extrapolao de funo, plano de emergncia inecaz e no acionamento de um tcnico de segurana. O juiz do trabalho considerou a Vale, diretamente ou por suas terceirizadas, reincidente nos acidentes de trabalho. Um deles, na madrugada do dia 28 de julho de 2007, passou sobre o corpo do auxiliar de servios gerais iago Santos Cardozo, de 20 anos, morador de Marab, que trabalhava na jazida N4 Norte para uma empresa terceirizada. Ele foi esmagado quando alinhava um cabo de alimentao de uma escavadeira, sem a iluminao necessria, tambm em plena madrugada. Entre trs e quatro horas da madrugada, iago segurava um cabo eltrico, que transferia energia de um gerador para a rea de operao de uma escavadeira, situada atrs do local onde o caminho ia carregar minrio. iago no tinha lanterna nem rdio de comunic ao, e a visibilidade era deciente por falta de iluminao adequada. A operao foi considerada, pelos scais do Ministrio Pblico do Trabalho, prtica bastante arriscada e insegura. Eles estranharam, na percia realizada logo em seguida, que essa fosse a nica atividade no exercida por trabalhador contratado diretamente pela CVRD, apesar da relao direta com o processo produtivo. Essa atividade, de maior risco, foi transferida para o trabalhador terceirizado, muito jovem e provavelmente inexperiente. Alm de nativo. No registro policial, a morte foi classicada de triste fatalidade. Foi o acidente de maior impacto em Carajs at ento. Mas no o nico. E logo foi esquecido pela dinmica intensa das atividades no circuito. Todos os dias o trem, o maior trem de minrios do planeta, recebe 700 mil toneladas para transportar. Para que haja essa quantidade de minrio em condies de embarque, mquinas e homens, em turnos sucessivos de trabalho, que se estendem sem intervalos pelo dia inteiro, movimentam um milho de toneladas de

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3CONCLUI NA PG 4terra e rocha todos os dias. A presso gera tenso, que impe sacrifcios aos trabalhadores e d causa aos acidentes. Provavelmente eles so muito mais numerosos do que os registrados pela companhia e apontados pelo governo. Das 23 mil pessoas que trabalhavam em Carajs na poca do acidente com iago, apenas 10%eram de contratados diretamente pela Vale Mais de 20 mil trabalhadores foram recrutados por 175 empreiteiros, que terceirizaram a maior parte dos servios, sobretudo os mais pesados e menos qualicados. Havia turnos de seis, oito e 12 horas. Os intervalos para descanso e convivncia familiar cavam ainda mais reduzidos porque os empregados perdiam de duas a quatro horas indo ou voltando para suas casas. A distncia, no caso dos que moram fora do ncleo residencial de Carajs, passa de 30 quilmetros. Todas as causas somadas das queixas pelo pagamento da itinerncia, a empresa e suas terceirizadas teriam que pagar aproximadamente 70 milhes de reais. Esse valor equivalia receita de pouco mais de um dia de produo bruta em Carajs. Pagar em juzo se tornou um negcio mais rentvel do que cumprir no ato as obrigaes trabalhistas. E ainda possibilitaria a legalizao das infraes, pela via do acordo em juzo, apagando o passado. O sistemtico descumprimento de garantias legais e a recusa da Vale de conceder vantagens aos trabalhadores brasileiros contrasta com a postura que a empresa adotou ao adquirir a Inco, empresa canadense que detm as maiores jazidas de nquel do mundo e a segunda maior produtora. O governo do Canad imps vrias condies CVRD para aprovar a transao, realizada no mesmo perodo, dentre as quais impedimento a demisses por cinco anos, manuteno salarial e transferncia da sede das operaes de nquel para aquele pas. Dinheiro era o que no faltava ento ex-estatal. Ela faturara 11 bilhes de reais s no primeiro semestre de 2007 contra R$ 14 bilhes em todo o ano anterior. Promovia milionria distribuio de dividendos aos seus acionistas, com uma taxa de retorno, de 40%, que nem os bancos igualavam. Essa fantstica rentabilidade decorria da competncia da empresa, dos preos elevados das commodities no mercado internacional e do surgimento de novos compradores, ou, sobretudo, das taxas de crescimento da China. Mas tambm contribuam decisivamente para esse desempenho a iseno de impostos, os crditos favorecidos, a colaborao nanceira ocial e o baixo valor da remunerao do trabalho. Os compradores da Companhia Vale do Rio Doce foram favorecidos pela aquisio do controle acionrio por preo vil. Alm disso, a privatizao foi precedida de uma dispensa em massa de funcionrios, por conta da estatal, que no apropriou adequadamente esse nus. Foi igualmente ignorado o valor extrapatrimonial das informaes estratgicas em poder da companhia, o sistema logstico, o controle de grande parte do subsolo do pas (e, em particular, do Par) e as condies monopolsticas ou oligopolsticas que detinha, toleradas em funo da sua condio de empresa pblica. A tolerncia no foi alterada pela privatizao. Mas devia ter sido. Sem falar na coincidncia da entrada em vigor da famigerada Lei Kandir (proposta pelo deputado paulista Antnio Kandir, que no prejudicou seu Estado, como fez com Par, Minas Gerais e Esprito Santo), isentando a exportao de produtos primrios e semielaborados exatamente em 1997, ano da privatizao. At 2007, ano da morte de iago, s o que a Vale deixou de recolher de ICMS foi alm de quatro bilhes de reais, ou quase duas vezes o valor do investimento na fbrica de alumnio da Albrs, em Barcarena, aoitava maior do mundo. De 2000 a 2010, pelos dados ociais, mais de mil trabalhadores se acidentaram s em Carajs, onde a Vale tem a sua mais importante jazida de minrio de ferro, com cinco mortes, sem incluir os terceirizados. Numa estimativa que fez a partir de 1980, quando comeou a implantao da mima, o juiz Jnatas Andrade concluiu que nesses 35 anos aconteceram 8,3 mil acidentes de trabalho, 42 deles com morte, num dano de 12,5 bilhes de reais.

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4CONCLUSO DA PG 3Ferrovia pode at sair, mas quem ser o dono?O governo federal decidiu mudar, na semana passada, as regras do leilo de logstica, dividindo-o em lotes e no mais por inteiro. Assim espera ver concluda a Ferrovia Norte-Sul, inacabada 27 anos depois de ser iniciada, no controverso governo de Jos Sarney. Vai ser oferecido para operao pela iniciativa privada o trecho entre Palmas, a capital do Tocantins, e Anpolis, em Gois, inaugurado no ano passado pela presidente Dilma Rousse, mas que ainda no entrou em operao. O vencedor, porm, ser obrigado a construir o prolongamento da ferrovia de Aailndia, no Maranho, at Barcarena, no Par, com 477 quilmetros de extenso e custo estimado em 7,8 bilhes de reais. Tambm ter que assumir a responsabilidade pela extenso at Trs Lagoas, no Mato Grosso do Sul, com 250 quilmetros de trilhos e investimento previsto de R$ 4,9 bilhes. Desde 2012 o governo tenta, sem sucesso, atrair investidores para o trecho Aailndia-Barcarena, que passaria a ser um dos terminais de escoamento da produo da regio atravs de ferrovia. O problema era a falta de conana na Valec, a empresa estatal que o governo federal herdou da Companhia Vale do Rio Doce, usada na implantao da ferrovia de Carajs, hoje j conectada Norte-Sul. Agora acha que a oferta se tornar atraente porque as futuras concessionrias, recebendo trecho pronto, disporo de receitas imediatas para os novos projetos. Dois grupos j so considerados favoritos para vencer a licitao: a Valor Logstica Integrada (VLI), que tem a Vale no bloco de controle, e a Amrica Latina Logstica (ALL). A VLI tem mais cacife porque j opera o nico trecho privado da Norte-Sul, entre Palmas e Anpolis, que ca exatamente no meio do lote norte do futuro leilo. Se no for a vencedora, qualquer outro grupo se veria obrigado a negociar o direito de passagem dos trens com ela. A continuidade do projeto, porm, pode esbarrar em mais um escndalo na trajetria da Norte-Sul: irregularidades na licitao da Valec para a compra de trilhos. A encomenda, no valor de R$ 1,3 bilho, teria sido direcionada para os grupos BCM/Pangang e Trop Comrcio/ Comeport, que importao os trilhos da China. A China produz metade dos trilhos fabricados em todo mundo. S a Pangang responsvel por mais de 1 milho de toneladas de trilhos anualmente. O Brasil no produz trilhos de trem desde a dcada de 1990. Parte dos trilhos chineses usa o precioso minrio de ferro de Carajs, que vai na forma de matria prima e volta ao Brasil como produto acabado. O pas ganha menos na venda e paga mais na compra. Esse uxo costuma ter sempre uma intermediao ainda mais onerosa. No caso da Norte-Sul, vai sobrar trilho e faltar onde assent-lo j nem se considerando a ausncia dos trens. Isso Brasil. O valor parece alto, mas s no ano passado ele argumenta a Vale distribuiu R$ 13,3 bilhes em dividendos aos seus acionistas. Por isso, o juiz considerou nmo, desproporcional realidade e s leses perpetradas, os R$ 10 milhes requeridos pelo Ministrio Pblico. Assim, arbitrou em R$ 138,6 milhes os danos morais coletivos e em R$ 313,9 milhes o dumping social. Condenou ainda a mineradora a pagar 1% sobre o valor da indenizao como multa por consider-la litigante de m f no processo, por ter retirado documentos que compunham provas. O que tambm impressiona que, diante das dimenses e alcance desses problemas, sejam extremamente reduzidas as iniciativas do poder pblico em defesa dos trabalhadores. Ao menos em parte a explicao est na estrutura ocial, acanhada diante desse gigantismo econmico e social. O Ministrio Pblico do Trabalho, por exemplo, conta com quatro procuradoras, baseadas em Marab, para cobrir todo o sul e sudeste do Par, tristemente famoso pelas vrias formas de violncia que se espraiam por seu territrio continental. As procuradoras sempre so iniciantes na carreira e saem todas de uma vez na primeira oportunidade. No cam no lugar mais de dois anos. Tomam-no por porta de entrada, mas no se xam. Da, a alta rotatividade; Um analista do setor observa: Procuradoras inexperientes, desconhecedoras e sem vnculos com a regio, loucas pra ir embora, jamais levaro a cabo um procedimento srio contra a poderosa Vale, cujo epicentro nem est em Marab. Tm que se deslocar 170 quilmetros para ver o que ocorre nas minas de Carajs, que por si s j constituem outro universo. Coisa para um outro ofcio inteirinho. Resultado: os procedimentos no andam ou so mal conduzidos. O procedimento da terceirizao ilcita, que gera os acidentes mais graves, por exemplo, h anos no concludo. As condenaes do juiz Jnatas Arajo, consideradas excessivas pelos defensores da Vale, acabam tendo a funo de remediar os danos que nunca so repareados. Os trabalhadores de Carajs, que reivindicaram o pagamento pelo tempo que gastam na itinerncia das suas casas at a mina, pediram R$100 milhes. O juiz lhes deu R$300 milhes. No processo mais recente, sentenciado neste ms, o Ministrio Pblico do Trabalho calculou a ao em R$ 100 milhes. O juiz chegou a quase meio bilho de reais. As duas aes somam, assim, R$ 800 milhes Ao menos dessa maneira, o gigantismo de Carajs se transfere do minrio para os mineiros.

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5Hidreltricas amaznicas: elas so mesmo viveis?Durante vrios anos a Eletronorte, criada em 1973, justamente (e no por acaso) o ano do primeiro choque do petrleo, operou com prejuzo. Seu patrimnio lquido chegou a ser o mais negativo do Brasil. Ela era dona da quarta maior hidreltrica do mundo, a de Tucuru, no rio Tocantins, no Par. Mas seus dois maiores clientes, que eram tambm os maiores consumidores de energia do pas e as duas maiores fbricas de alumnio brasileiras (embora de composio multinacional), a Albrs, em Belm, e a Alumar, em So Lus do Maranho, que respondiam por 3% da demanda nacional tinham subsdio tarifrio concedido pelo governo federal. Recebiam a energia abaixo do custo de produo. A Eletronorte fechava as suas contas no vermelho, at que a Eletrobrs absorveu as suas dvidas e, em seguida, a prpria subsidiria. A um preo estrondoso. A hidreltrica de Tucuru comeou a ser construda com oramento de 2,1 bilhes de dlares. A prpria Eletronorte chegou a admitir que o custo subiu para US$ 7,5 bilhes (valor histrico). Pode ter ido alm de US$ 10 bilhes, mas o clculo cou difcil com a incorporao do remanescente da dvida pela Eletrobrs. O que se sabe que, no m, a conta foi bancada pelo tesouro nacional quer dizer, pelo contribuinte. Foi assim na era completamente estatal dos grandes projetos hidreltricos na Amaznia. E agora, em que o comando supostamente est com a iniciativa privada? Devia ser assim, mas a responsabilidade cou difusa. As estatais do setor energtico participam dos trs maiores empreendimentos hidreltricos em curso Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, em Rondnia, j em operao parcial, e Belo Monte, no Xingu, no Par, com previso de entrar em linha no incio do prximo ano. Tambm os fundos federais de penso partilham as despesas. E o BNDES o grande agente nanceiro, fornecendo crdito abaixo do custo de mercado. A cobrana no ser to ostensiva e pesada quanto durante o regime militar, que agia combinando (ou tentando conciliar) a aliana com as multinacionais e suas diretrizes geopolticas, mas sobrar novamente para o contribuinte, que j est recebendo uma das energias mais caras do mundo, num pas em que mais de dois teros da gerao vem dos rios, a fonte mais barata de todas. S que na Amaznia, mesmo com a ajuda do Estado, as coisas no s se tornam mais difceis como esto sujeitas a surpresas. Diculdades e imprevistos tm sido tais que uma questo que j devia estar perfeitamente denida ainda inquieta: essas usinas sero mesmo rentveis? Depois da travessia de problemas de vrias origens e caractersticas, elas ainda se mantero viveis economicamente? Para que sua construo no fosse interrompida (e o uxo de muito dinheiro necessrio para executar obras to pesadas pelas empreiteiras, fonte permanente de caixa dois), mudanas foram improvisadas nos projetos originais. O resultado dessa trajetria ainda no parece bem apurado. A margem de incerteza vai se revelando perigosamente alta. o que se pode deduzir da entrevista dada pelo presidente da Engie Brasil, Maurcio Bahr, revista eletrnica especializada Canal Energia. Ele reivindicou da Aneel um tratamento diferenciado para as hidreltricas do Madeira. Sustenta a necessidade de uma soluo equilibrada para resolver os atrasos das duas usinas. Para ele, o rigor na cobrana pode levar ao risco de se cobrar uma conta incapaz de ser paga pelo projeto. Diz que a implantao dos projetos talvez no tenha acontecido nem para o governo nem para os empreendedores da forma como se esperava, Os imprevistos exigiriam uma forma de tratamento que no iniba os futuros investimentos em hidreltricas. Esperamos que haja um entendimento de que esses projetos precisam ter um tratamento diferenciado para que continue havendo empreendedores com coragem de faz -los no futuro, declarou. A empresa por ele presidida, a Engie, ex-GDF Suez, uma das scias da Energia Sustentvel do Brasil, controladora da usina de Jirau. Dos seus 3.750 megawatts de capacidade nominal ( a stima maior do Brasil), ela j est gerando 2.100 MW em 33 das suas 44 turbinas bulbo. Mas seu cronograma est atrasado em relao ao que a empresa se comprometeu a cumprir quando venceu a licitao. Em abril, a Aneel negou aos construtores das hidreltricas Belo Monte, Santo Antnio e Jirau o reconhecimento de excludentes de responsabilidade pelo atraso das obras. O executivo defendeu uma abordagem de longo prazo para o acompanhamento dos projetos, que, sendo de mais demorada maturao, atravessam governos, precisando de continuidade e coerncia para que se estabelea um ambiente de conana para o empreendedor. Hoje a gente est vivendo, alm de uma seca, um conjunto de coisas que levaram a atrasos de obras de linhas de transmisso, causando esse desequilbrio. Esse desequilbrio precisa ser bem tratado pelos agentes, pela agncia reguladora, pelo ministrio. A partir do tratamento desses desequilbrios e de aprimoramento das regras do setor, a gente vai conseguir sair dessa situao e reabrir uma janela de investimentos, concluiu. Para alguns observadores, essas armativas no passam de uma tentativa de se livrar de responsabilidades, reduzir custos e aumentar o faturamento e o lucro. Se essa a regra do procedimento das empresas, impossvel, porm, ignorar a realidade. As grandes hidreltricas em andamento na Amaznia se desviaram do seu traado projetado. O ponto de chegada se tornou impreciso. Sem deixar de apurar e cobrar as responsabilidades e evitar os abusos, preciso encarar um fato: as hidreltricas existem, no podem ser implodidas e vo exigir um tratamento adequado para serem teis e proveitosas para os brasileiros (se possvel e de preferncia para quem mora na rea onde elas se localizam). Por m: uma vez resolvidos os problemas, que se aja preventivamente para que eles no se repitam. A Amaznia exige uma ateno e uma sensibilidade especiais para no se tornar vtima dos seus desbravadores.

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6A bomba biolgica de Olacyr de MoraesO paulista Olacyr de Moraes comeou a fazer negcios e criar empresas quando tinha 19 anos. Fez muita coisa ao longo da sua vida movimentada, que chegou ao m no dia 16, em So Paulo, quando ele tinha 84 anos, abatido por um cncer de pncreas. Mas o ttulo que car da sua histria o de rei da soja. Conquistou-o a partir de 1973, quando comeou a plantar soja em Mato Grosso, se inltrando no novo negcio graas a uma enchente, que reduziu a safra americana e a oferta mundial do produto. Os Estados Unidos dominavam o mercado nessa poca. Mas a empreitada s deu certo porque Olacyr financiou para que a Embrapa desenvolvesse uma semente de alta produtividade adaptada regio. Nos anos de 19880 ele se tornou o maior produtor individual do mundo, ttulo que passou para Blairo Maggi quando Olacyr, o mais jovem brasileiro da lista de bilionrios da revista Forbes, comeou a perder dinheiro em iniciativas mal sucedidas. A mesma soja que o levou ao topo o derrubou. Tentando ir alm da plantao do gro, comeou a construir a Ferronorte, ferrovia que escoaria a soja para o exterior, com o apoio da Sudam e do governo de So Paulo. Ele aplicou seu capital, mas o governo no teria honrado seus compromissos com o projeto. As dvidas cresceram e para pag-las ele passou em frente grande parte do seu patrimnio. O dono de uma das maiores propriedades rurais do mundo, dedicada a uma nica cultura, acabou se valendo do Incra para dar um destino sua fazenda, a famosa Itamarati. Vendidas, as terras foram fatiadas e repartidas entre trs mil famlias selecionadas pelo MST para o assentamento. Olacyr no conseguiu mais retornar ao alto mundo dos negcios, o que no chegou a ser desastroso. Ele aproveitou o que restava da sua fortuna para se divertir. Vendeu a sua primeira e principal empresa, a Constran, para Ricardo Pessoa, um dos empreiteiros presos na Operao Lava-Jato. Seria o seu inevitvel destino se ele tivesse continuado suas relaes com grandes obras do governo, marca de todo empreiteiro no Brasil? Talvez. Sem esse risco, ele continuar a ser lembrado como o rei da soja, co-inventor de uma planta que se adaptou umidade amaznica e se tornou uma arma contra a floresta, posta abaixo para a formao de enormes campos de monocultivo como os de Olacyr de Moraes. Uma plvora biolgica que desencadeou um rastilho de queimadas sobre um paraso perdido.O massacre de So Flix que Belm ainda ignoraSo Flix do Xingu fica a mil quilmetros de Belm. uma distncia enorme. Ainda assim, no ultrapassa os limites do Estado, o segundo mais extenso do pas, com 1,2 milho de quilmetros quadrados. A rea do municpio (com 84 mil km2) equivale a 8% desse territrio, que abriga outros 142 municpios. So Flix j o 11 mais populoso. Mas continua a ser invisvel da perspectiva da capital, como se no fizesse parte do Par. Demonstra uma verdade cada vez mais evidente: Belm j no capaz de administrar todo esse imenso Estado. Mesmo fora da agenda de preocupaes do poder central do Estado, no nal de 2011, So Flix j detinha o maior rebanho bovino do Brasil, o equivalente a l% do total nacional, de 213 milhes de cabeas. Em seguida vinham os municpios de Corumb e Ribas do Rio Pardo, ambos no Mato Grosso do Sul. Altamira, em outra agressiva frente de expanso econmica, era o destaque na lista de maiores criadores desse ano, ao subir da 28 para a 12 posio. Graas a esses municpios paraenses, a regio Norte se tornou a segunda maior criadora de bois, com 20,3% do plantel, abaixo apenas do Centro-Oeste (com 34,1%) e acima do Sudeste (18,5%), Nordeste (13,9%) e Sul (13,1%). No ano seguinte, o rebanho bovino do Par cresceu quase 2%, chegando a 18,6 milhes de cabeas, assumindo o quinto posto no ranking nacional, atrs apenas do Mato Grosso do Sul (21,9 milhes), de Gois (22 milhes), Minas Gerais (24 milhes) e do Mato Grosso (28,7 milhes). So Flix do Xingu manteve o primeiro lugar por municpios, com seus 2,1 milhes de cabeas. Novo Repartimento tambm integrou a lista dos 20 maiores detentores de gado bovino, com 792 mil cabeas, seguindo-se Cumaru do Norte (749 mil); Novo Progresso (687 mil), Altamira (668 mil) e Marab (660 mil). Em compensao, So Flix o 2.816 municpio em ndice de Desenvolvimento Humano do Brasil e o campeo do desmatamento, que chegou a ndices assustadores na ltima dcada. medida que as fazendas se expandem, a oresta vai desaparecendo. No s a mata nativa, no entanto: menos de 1,5% das propriedades rurais se dedicam lavoura. Tudo vai virando pasto. O que era para ser uma decisiva histria da explorao da oresta tropical amaznica, na vocao natural da regio, est virando uma anti-histria orientada pela pata do boi, pssimo autor nas lides amaznicas.

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7Como defender a vida?A crise da segurana pblica pela qual passam Belm e todo Par no resulta apenas da quantidade de ocorrncias cri-minais, que j assustadora em si mesma. O que a agrava a qualidade dos acon-tecimentos, a selvageria e a brutalidade dos atos praticados. Os criminosos esto assumindo um poder que a sociedade bra-sileira no delega nem mesmo aos poderes institucionais constitudos, nem ao Esta-do, j que no adota a pena de morte. Matar se tornou prerrogativa reivindi-cada pelos assassinos. Os tipos criminais mais frequentes, os atentados ao patrim-nio, so acompanhados por morte, em es-cala crescente na forma mais srdida, a da execuo. O latrocnio se transforma em homicdio qualicado. A vtima no perde apenas o direito de se defender: est can-do sem referncia para agir. Est merc dos donos do poder de vida e morte, os criminosos. Foi o caso da execuo de uma pro-fessora e do seu cunhado por dois ho-mens que os mataram no nal do expe-diente dela no local de trabalho, diante de crianas, jovens e adultos que saam da escola. A dupla de assassinos agiu sem se preocupar em esconder o rosto. O aparente latrocnio foi, na verdade, uma queima de arquivo. No arquivo ruim: nenhum dos dois mortos tinha antece-dentes criminais. Eram, pelo contrrio, pessoas trabalha-doras. Seu crime seria o de testemunhar num processo de homicdio praticado contra o lho do cunhado da professora. Esta, morreu no lugar de quem era o ou-tro alvo dos bandidos: a sua irm. O ser-vio de inteligncia dos assassinos falhou. Deve ser rudimentar, como comuns e, de rotina, invisveis so os participantes desse drama pungente, mas j esquecido pela imprensa sensacionalista de Belm. Nem O Liberalnem o Dirio do Parcon-tinuaram a tratar do crime. O interesse apenas pela venda de jornal, no pelo des-tino das pessoas. J tinham outro acontecimento para aproveitar: o assassinato, ontem, de Fl-vio Souza de Moraes Cardoso, de 55 anos. Ele personagem mais qualicado do que a professora e o vigilante: era auditor con-cursado do Ministrio Pblico do Traba-lho, cedido para o Ministrio Pblico Fe-deral. Dirigia seu carro, um Honda Civic, s oito e meia da noite, pela avenida Pedro lvares Cabral. Para passar pela ponte do Barreiro (que j foi do Galo), teve que reduzir a velocidade do carro. H um desnvel acentuado entre a pista de circulao e o tablado da ponte de concreto, que o tempo se encarrega de acentuar. Quatro homens se aproveitaram dessa circuns-tncia para assalt-lo. Tentando fugir, o auditor acelerou e investiu contra os assaltantes. Atrope-lou um deles, mas outro o atingiu com dois certeiros tiros de revlver. Uma bala atingiu o peito e outra a cabea do motorista. No volante, ele ainda seguiu por 300 metros, at o carro sair da pista e parar no muro de uma residncia. Foi socorrido, mas morreu antes de chegar ao pronto socorro. A orientao da polcia para que a vtima da abordagem no resista e cum-pra as ordens do criminoso. Mas quantos agiram exatamente dessa maneira e ainda assim foram mortos? Mesmo estando in-teiramente merc do agressor, cedendolhe os bens que ele quer, so sumariamen-te executados. O que fazer ento? Em nmero crescente de casos, resis-tir parece, pelo menos, to incerto quanto se submeter. O instinto recomenda ento tentar defender a vida para no perd-la ao arbtrio de uma pessoa que no tem o menor respeito pela vida alheia e os va-lores sociais. Por que essa maldade deliberada, que fez o latrocnio sair do seu lugar na tipo-logia criminal, passando a homicdio qua-licado, se no na letra da lei, na prtica cotidiana? A resposta, mantida na ponta da lngua de muita gente de boa inteno, de que por necessidade de sobrevivncia, para escapar fome, j no explica toda a realidade. Muitos desses criminosos no matam porque no tm o que comer ou lhes falta a renda mnima para a subsis-tncia. As estatsticas sobre o avano de milhes de brasileiros alm da linha da misria no autoriza mais essa cega gene-rosidade dos que racionam com a culpa na conscincia histrica (a consciense mauvai-sedos franceses). Bandidos se tornam assassinos por revolta, porque no tm uma camisa de marca, no conseguiram uma moto ou um carro, tm que voltar para uma casa que no mais lhes agrada e etc., itens de uma sociedade de consumo compulsivo e status compulsrio Cada motivao tem que ser rigorosamente apurada para ser adequadamente enquadrada penalmente e assim motivar a pena cabvel na senten-a condenatria, no devido processo legal, com direito ao contraditrio e ampla defesa mas numa instruo acelerada e rme para impedir a caracterizao da impunidade, um dos produtos mais noci-vos do judicirio. Sim, porque at um tempo atrs os criminosos que atacavam personagem mais destacado na sociedade, provocando a pronta e, em geral, eciente reao da polcia, se recolhiam aos seus esconderijos, saam de circulao e esperavam a situao acalmar. Hoje, continuam sua faina crimi-nosa diria, talvez por estarem seguros de que a cadeia no ser demorada, se cadeia houver. E que, no retorno s ruas, tero de volta seus esquemas e circunstncias. No encontram do outro lado um poder pblico presente e eciente, como regra. A mesma regra que faz os cidados se assustarem tanto ou mais com a po-lcia do que com os bandidos. O mesmo fenmeno que est inibindo ou fazendo desaparecer as testemunhas, que fogem da polcia e cada vez mais de uma im-prensa mimtica, inconvel, aproveita-dora. Um fator prejudicial ao processo na justia, s parcialmente compensado pelo telefone aberto s denncias annimas. O auditor foi cercado e morto numa das principais avenidas da cidade, em horrio movimentado. Todos sabem que aquela ponte, muito mal construda e nunca corretamente corrigida, um dos pontos mais favorveis aos assaltos. A Polcia Militar faz ronda pela rea. Ela observada pelos bandidos, que entram em ao quando a viatura sai. Agem rpido e fogem para as vias marginais avenida, um dos muitos pontos vermelhos da capi-tal paraense. Diz-se que a presena da polcia mais intensa quando h aulas da Unama, a universidade particular prxima. Mas as aulas j estavam chegando ao m do semestre. Pior para a vtima, que agora vi-rou nmero nos registros ociais, imper-meveis dor dos que caram e ao dano maior de quem perdeu seu bem essencial e insubstituvel: a vida.

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8Era 1979 e o povo foi rua protestarChovia pesado, mas ningum se preocupava com isso. Cansados, caminhvamos sem pressa. Acabvamos de testemunhar, naquele dia de outubro de 1979, um ato histrico: a primeira manifestao de protesto do mundo rural amaznico desde o golpe militar de 1964. Seis mil pessoas se reuniram em Xinguara, que era distrito do municpio de Conceio do Araguaia, para protestar contra a violncia. Todos com medo, observado por espies e agentes de segurana, alm de pistoleiros e grileiros de terras, mas decididos e esperanosos.Foi um dos dias mais felizes das minhas coberturas do que acontecia pelo interior amaznico. Desde 1967 eu fazia viagens para o sul do Par. Muitas pessoas me conheciam e me tinham por referncia. Pelas ruas de Xinguara eu encontrava fontes e conhecidos. Constantemente eu era enviado pelo meu jornal, O Estado de S. Paulo, para cobrir fatos importantes. Minhas matrias saam no Estado e em O Liberal, onde eu tambm trabalhava. Eram reportagens vivas, publicadas em cima dos fatos, acontecessem eles onde fosse. Por mais distante e difcil o lugar, ainda assim l eu chegava, mesmo que sozinho. Voltava a Belm satisfeito, rejuvenescido e com a certeza de ter feito uma expedio de utilidade pblica. Esse tipo de cobertura escasseia. No s na imprensa local como na mdia nacional. As coisas acontecem e a sociedade no informada, no acompanha as informaes. A histria perde testemunhos e registros, como este, que reproduzo a seguir, para que esse momento histrico no se perca na desmemoria coletiva. Farei o mesmo com outras reportagens relevantes, se o leitor se interessar por essa iniciativa.No era vspera de eleio nem dia de distribuio de ttulos de terra. Tambm nenhuma grande autoridade pblica estava visitando o local. Mas desde cedo Xinguara passou a viver um clima de festa. Dezenas de pessoas chegaram de vrias pontos do municpio de Conceio do Araguaia, de Belm e de outros Estados para se juntarem aos moradores do povoado, 700 quilmetros ao sul de Belm. Iam participar da maior concentrao popular realizada no interior da Amaznia nos ltimos 15 anos. No encerramento dessa manifestao, noite, sob forte chuva, seis mil pessoas a maioria lavradores sem terra haviam realizado seu protesto contra a indiferena do governo, a violncia dos proprietrios e a insegurana da populao pobre da regio, tema constante dos oradores. E pediram o atendimento da sua principal reivindicao: um lote de terras para trabalharem.TERRA DE POUCOSA ideia de reunir lavradores num ato pblico vinha sendo examinada j h algum tempo por instituies que atuam no interior amaznico, como os sindicatos rurais, a Comisso Pastoral da Terra, as prelazias e sociedades de defesa dos direitos humanos. A causa bsica dos problemas da regio era o contraste entre o grande nmero de famlias buscando um lote e a quase inexistncia de reas vagas. Em 1970, quando o IBGE fez seu ltimo cadastramento, 67 fazendas, representando 3% dos imveis, detinham 76% da rea ocupada do municpio, enquanto dois mil imveis 90% do total eram obrigados a dividir entre si 1% da rea. Em 95% dos imveis, os ocupantes eram posseiros e no proprietrios. Desde ento a situao no parou de piorar. Em 1970 a populao no chegava a 30 mil habitantes. Hoje, calcula-se que ultrapassou 150 mil, 70% dos quais so lavradores que vieram de outros Estados, especialmente de Gois, Maranho, Piau, Esprito Santo e Minas Gerais esperando encontrar na regio o seu pedao de terra. Xinguara comeou a se formar em agosto de 1976, como ponto de atrao de posseiros. A Secretaria de Agricultura do Estado, que anunciava um projeto de colonizao para o local, entrevistou e cadastrou em 1977 quase 1.500 pessoas em apenas 15 dias. Selecionou 522 colonos para receberem lotes de 100 hectares na beira da estrada que estava sendo aberta na direo de So Flix do Xingu, a oeste. Mas a Sagri se retirou quando soube que as terras estavam sob a jurisdio do Incra e nem deu satisfao aos colonos. O Incra chegou tambm garantindo o assentamento de um nmero idntico de colonos, selecionou para eles uma rea de 81 mil hectares, ao lado de Xinguara, e deu-lhes dois documentos: a Autorizao de Ocupao e a Carteira de Identicao de Colono. Mas o Incra logo percebeu que havia ttulos incidindo sobre a rea que registrara em cartrio em nome da Unio. Mesmo sem questionar a validade dos ttulos, tratou de retirar os colonos que j assentara. Conseguiu enganar facilmente alguns. Outros resistiram e at hoje vivem sob permanente tenso, ameaados de ser expulsos pelos fazendeiros ou pelo prprio Incra. Os conitos se repetem em pelo menos 50 locais diferentes de Conceio do Araguaia. O municpio mais parece uma enorme frente de trabalho, movida principalmente pela cobia de uma rvore grossa e alta, de uma cor vermelha viva, o mogno. Muitas pastagens e rebanhos so apenas o contrapeso da caa ao mogno, cujo metro cbico j ultrapassou 1.400 dlares. Por causa dessa madeira e da terra na qual ela cresce so desmatados anualmente 18 mil hectares de oresta no sul do Par para abastecer dezenas de caminhes que todos os dias carregam, no rumo sul, em toras ou serradas, o que, ao m de um ano, soma 1,8 milho de metros cbicos. Mas se a violncia contra a natureza, contra os homens, contra tudo faz parte do cotidiano, na semana passada ela chocou todas as pessoas que lidam com a questo da terra. Trs posseiros Antonio Costa, Antenor Alves Moreira e Manoel Conceio chegaram a Xinguara dizendo que foram espancados por pistoleiros da fazenda TuCiret, auxiliados pela Polcia Militar; e que depois foram obrigados a fazer uns

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9 com os outros atos sexuais da maneira como homem faz com mulher. Enquanto os trs posseiros iam a Braslia, junto com o advogado da Comisso Pastoral da Terra, Paulo Fonteles, o sindicato e a Igreja se mobilizavam para realizar em Xinguara ato de protesto contra uma violncia que temem v romper todas as barreiras e se ampliar ainda mais. Na fazenda TupCiret, 30 mil hectares que o banqueiro paulista Flvio de Almeida Pinho diz serem seus, j foram despejados nove posseiros, mas outros 400 continuam dentro da mata e garantem que s sairo se o Exrcito for retir-los. A qualquer outra investida, esto dispostos a resistir a bala.O DIA DO ATOOs convites comearam a ser distribudos cinco dias antes da data marcada para o ato pblico. Todos os lavradores que apareciam em Xinguara voltavam com o convite impresso em mimegrafo. A CPT fez contatos no Brasil inteiro para atrair senadores, deputados federais e estaduais, dirigentes de sindicatos e jornalistas (que no compareceram por falta de tempo e diculdade de transporte). O objetivo estava no convite: um protesto contra a violncia da polcia e dos jagunos que esto querendo expulsar todo mundo das terras. No domingo, desde cedo, comearam a chegar carros, caminhes e alguns nibus aos dois prdios que a Igreja possui em Xinguara: a capela de madeira pintada de rseo e azul, onde tambm funcionam os crculos bblicos, e a residncia paroquial, de alvenaria, recentemente construda e que ainda est em obras. Agentes pastorais, freiras e padres recebiam os visitantes, faziam sua inscrio e arranjavam lugar para que eles almoassem e dormissem. J havia grande movimentao, duas grandes faixas prximas estrada denunciando as violncias, murmrios de que o destacamento da Polcia Militar fora reforado e de que havia espies pelo povoado. Os lavradores iam chegando e formando grupos ao redor de jornalistas que estavam em Xinguara para contar suas histrias, como se o ato pblico tivesse comeado antes da hora prevista. Francisco Lobo Filho, cego de um olho, contou como foi expulso da fazenda Tup-Ciret, que ca a apenas 12 quilmetros de Xinguara. Os pistoleiros me pegaram e me zeram correr quatro quilmetros com os meus terns na cabea, enquanto me batiam. Um deles me jogou uma motosserra cheia de gasolina nas minhas costas. E na delegacia um soldado me fez beber urina. A mulher do posseiro Joo Moreira Mesquita chegou para almoar, mas nem tocou no prato, o olhar perdido. Narra o seu drama entre lgrimas: fazem quatro dias que o corpo do marido foi encontrado perto da chcara que ele ocupou quatro anos atrs. H algum tempo o dono de uma serraria vinha tentando expuls-lo da roa que Joo formara perto da sua casa. Dias antes, ele explicou que no podia sair de uma hora para outra, tinham que esperar. Joo foi caar e no voltou. A polcia insinua que pode ter sido acidente, mas a mulher acha que foi assassinato. Ela cou com oito lhos, o mais novo com trs anos, a mais velha com 22. Quer apenas uma indenizao para voltar a Gois. Estava casada h 24 anos. Floriana Marques Amorim perdeu dois lhos, dos 16 que colocou no mundo, quando a malria grassou no patrimnio de gua Azul, povoado que s tem um ano de existncia. Mas Floriana e seu marido, Loureno, no desistiram de tentar conseguir um lote naquela rea doentia. Para eles, pior do que a malria o fazendeiro Roberto Carlos, que quer expulsar todos os 40 posseiros da terra que pretende adquirir do Incra. Floriana acredita que agora vai poder permanecer na terra. Essa a crena da maioria dos lavradores que foram se agrupando numa rua que termina em frente pequena igreja de madeira. Quando trs bispos Toms Balduno, de Gois Velho, Alano Pena, de Marab, e Celso Almeida, de Porto Nacional junto com nove padres subiram na carroceria de um caminho e comearam a se vestir para celebrar uma missa campal, j havia quase mil pessoas assistindo. D. Celso disse, logo na abertura, que o ato era de paz e que s elementos estranhos teriam interesse em causar tumulto. Uma jovem protestante leu ento uma orao que ela mesmo escreveu, pedindo a Deus terra e paz para os lavradores. D. Toms fez, a seguir, a predao. Lembrou aos posseiros que eles no devem se curvar quando se trata de defender seus legtimos interesses. Quem se acovarda faz o papel de Caim, o mesmo Caim que se encontra no meio de ns. Olhando bem para a multido, D. Toms disse que reunio no um encontro de subversivos, de ladres e de invasores, mas um encontro pacco de um povo que quer os seus direitos. Terminou sob aplausos: Todos devem se unir nessa luta porque Deus no atende pessoas isoladamente, mas a todos em conjunto. Os organizadores do encontro j notavam a ao de vrios fotgrafos que no eram jornalistas e pessoas com gravadores nas mos. Mas a missa prosseguia tranquilamente e houve apenas certa desordem durante a comunho, quando a procura foi to grande que consumiu todas as hstias, e quando todos decidiram rumar em passeata at a Feirinha, um bairro pobre do povoado. A multido foi engrossada no caminho pelas ruas irregulares e esburacadas e quando chegou ao local convencionado j era de mais de seis mil pessoas. Novamente um caminho serviu de palanque. Foram abertas vrias faixas alusivas violncia e ao problema de terras. Os lavradores levantavam constantemente suas enxadas e faces para manifestar apoio a algum orador. Alm de observadores, chegaram tambm dois pistoleiros e grileiros, que observavam a certa distncia e no foram incomodados.OS PROTESTOSO primeiro protesto foi contra o subprefeito de Xinguara, que, ao lado do prefeito Giovanni Queiroz, assistia ao comcio da sua casa, a melhor do povoado, ocupando uma grande rea no descampado onde foi montado o palanque. Em frente casa do subprefeito moram 42 famlias que ele quer despejar para construir uma praa, mas os moradores, que j haviam sido remanejados da beira da estrada, no querem sair. Dizem que o subprefeito quer apenas se apossar de mais um terreno. Vrios oradores falaram nesse local: o ex-deputado estadual Benedi to Monteiro, ressaltando o direito de posse consagrado na legislao brasileira; o presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, CONCLUI NA PG 10

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10 Humberto Cunha; o representante da Contag [Confederao Nacional dos Trabalhadores na Agricultura], Accio Fernandes dos Santos; o representan te da UNE, e vrios posseiros. O bispo de Porto Nacional, Celso Almeida, aproveitou para manifestar meu mais profundo nojo pelas atrocidades policiais, referindo-se ao caso da fazenda Tup-Ciret. Enquanto continuarem as torturas, ampliaremos o nosso protesto, disse ele. Foram lidos 19 telegramas de deputados federais (16 do MDB, que prometeram uma visita regio no dia 29), dos bispos de Chapec, Conceio do Araguaia e Itacoatiara, de comisses de defesa dos ndios e dos direitos humanos, de sindicatos e instituies de Braslia. Nessa ocasio, foi informada a priso de um posseiro, Laurindo Lopes da Silva, solto antes que o advogado da CPT chegasse delegacia. at a sede do Sindicato dos Trabalhado res Rurais de Conceio do Araguaia, te, Bertoldo Siqueira. At ento ele no participara da manifestao, embora chamado constantemente (era um dos promotores do encontro). Bertoldo comeou o seu discurso se defendendo da acusao de pelego e medroso. Disse que est pronto a defender os posseiros em todas as ocasies. Acabou sendo bastante aplaudido. J era noite quando o poeta Expedito Ribeiro, um lavrador de Rio Maria, leu os seus versos e um grupo de posseiros da fazenda Santa Rosa cantou e tambm recitou versos, que diziam: Amigo preste ateno/ agora eu vou falar/ O fazendeiro est com tudo/ Que tem o Incra pra apoiar/ Mas ns estamos de parabns/ Que o nosso pai Supremo/ Nos no vai desprezar. O grupo que ouvia o ltimo orador, o advogado Paulo Fonteles, se disper sou sob forte chuva. O ato pblico durara quase cinco horas, desde as trs da tarde, sem incidentes. Dos seis mil par ticipantes, uns 85% eram de Xinguara mesmo, mas houve lavrador que ainda andou alguns quilmetros no meio da noite, sob a chuva que marca o incio do rigoroso inverno, capaz de deixar Xinguara isolada quando carem as barreiras da estrada. Padre Clemente Montagne, francs de Lille, que est em Xinguara h dois anos, depois de 16 na sia, de onde foi expulso pelos comunistas, estava alegre. Ficara chocado pelas violncias praticadas na regio, onde pessoas que se dizem crists so muito mais brbaras at do que os comunistas ateus do Laos, O padre no fazia mais desobrigas em nenhum dos pontos da sua parquia sem encontrar pessoas marcadas pela violncia. Com o ato, chamamos a solidariedade do pas para a triste situao do sul do Par, dizia ele, satisfeito. Os posseiros tambm retornaram esperanosos. Uma senhora magra, trada, s estava preocupada com uma coisa: em saber se tanta gente que chegara a Xinguara para participar do ato pblico voltaria outras vezes para estar ao lado dos posseiros. Agora que os te, dizia ela, se referindo aos donos das terras. Em Xinguara, era uma dvida que sobrevivia ao dia seguinte manifes tao, realizada no domingo mais concorrido da histria do municpio.Hidreltrica avana sem respeitar direitosO Ministrio Pblico Federal quer que o governo paralise imediatamente as demolies e violaes de direitos das populaes que esto sendo removidas das margens do rio Xingu, em Altamira, para a formao do reservatrio da hidreltrica de Belo Monte, no Par. Quase 80 mil hectares sofrem interferncia da barragem, de onde esto sendo retiradas quase duas mil famlias, s na rea rural. Uma das primeiras medidas deveria ser a paralisao da chamada balsa da demolio, que h meses percorre o Xingu fazendo a remoo dos ribeirinhos e pescadores que esto nas reas a serem alagadas por Belo Monte. Os pedidos se baseiam no relatrio parcial da inspeo feita entre os dias 1 e 3 deste ms por diversos rgos pblicos, entre os quais o MPF. Eles zeram 55 constataes sobre o descumprimento das obrigaes da usina e violaes dos direitos dos atingidos. A verso denitiva do documento est sendo concluda e a ela se agregaro outros estudos individuais e coletivos. Os inspetores apresentaram suas observaes em reunio com a Secretaria Geral da Presidncia da Repblica e outros rgos governamentais. A principal concluso da inspeo de que a concessionria da obra, a Norte Energia, descumpriu a premissa do Projeto Bsico Ambiental da hidreltrica, elaborado pela prpria empresa e aprovado pelo Ibama, que deveria ser rigorosamente cumprido pelo empreendimento. Essa premissa de que a condio do atingido no deve ser observada do ponto de vista unicamente territorial e patrimonialista, e sim reconhecer uma situao onde prevalece a identicao e o reconhecimento de direitos e de seus detentores, evoluindo signicativamente na amplitude com que procura assegurar a recomposio, e mesmo melhoria, das condies de vida das populaes afetadas. Os agricultores, pescadores, extrativistas e ribeirinhos, se o PBA fosse obedecido, deveriam ter recebido o necessrio para recompor as condies em que sempre viveram. Em vez disso, de acordo com os dados ociais da Norte Energia, citados pelos inspetores, % deles receberam to somente indenizao em dinheiro, demonstrando que a opo que deveria ser a principal, a de reassentamento, praticamente inexiste. Os moradores so praticamente induzidos a optar pelo recebimento da indenizao que lhes atribuda pela empresa, em valores desiguais para as mesmas situaes. As alternativas de reassentamento no tm qualquer relao com o modo de vida que tinham beira do rio Xingu, nem lhes d condies de prosseguir na sua atividade econmica. A mudana completa e desfavorvel, segundo o MPF. O Ministrio Pblico aguarda, aps a apresentao das constataes ao governo, uma resposta formal sobre a paralisao das remoes e sobre as providncias que sero adotadas para resolver os problemas apontados, diz a nota distribuda imprensa. A hidreltrica de Belo Monte est com quase 80% das suas obras concludas. Seu cronograma ocial est atrasado um ano. S dever comear a gerar energia no incio de 2016. Seu custo se aproxima de 30 bilhes de reais, que poder ser onerado pelo cronograma defasado. Ser a terceira maior usina do mundo em capacidade nominal.CONCLUSO DA PG 9

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11S Belo Monte ser construda no Xingu?Trinta anos atrs, cada megawatt/hora da hidreltrica de Belo Monte (que era ento Carara) devia custar de incio 12 dlares. Mas quando a barragem de Babaquara fosse construda, rio Xingu acima, adicionando mais gua ao reservatrio de Carara, o MWh da usina cairia para 8 dlares. Esse seria o custo de gerao, ao qual se acrescentariam de 12 a 15 dlares o MWh pela transmisso da energia. O resultado, entre US$ 23/27 o MWh, valor bastante atrativo se comparado com os 32 US$/MWh, correspondentes de alguns dos aproveitamentos considerados viveis na Regio Sudeste. Foi o que disse o ento presidente da Eletronorte, o engenheiro Miguel Rodrigues Nunes, em palestra que proferiu no auditrio da Sudam, em Belm, em 30 de setembro de 1986. um documento que serve de alerta para a situao atual. Embora todas as autoridades do governo garantam que Belo Monte ser a nica hidreltrica a ser construda no rio Xingu, os tcnicos sabem muito bem que s a viabilizaro economicamente se pelo menos mais um barramento for feito rio acima, como deixou bem claro o presidente da Eletronorte 30 anos atrs. Ele ressaltou a importncia dos dois aproveitamentos, Carara e Babaquara, que, numa distncia de 50 quilmetros entre si, iriam gerar 75% do potencial hidreltrico do Xingu, inventariado em 1979 em 22 mil MW. Cinco barragens seriam construdas no prprio Xingu e O detalhe mais importante na palestra, que aconteceu quando o Brasil recomeava a sua caminhada democrtica, depois de 21 anos de regime de exceo, era mostrar que Carara seria praticade 6 m, sendo o ltimo aproveitamento antes da foz do rio Xingu. J seria ento como agora? No: a atual Belo Monte seria hidreltrica quase sem reservatrio porque 50 quilmetros antes dela, rio acima (um tero da distncia que separa Jirau de Santo Antnio, no rio Madeira), Babaquara formaria um reservatrio regulador de guas. Seu lago teria o dobro do tamanho do de Tucuru (que chegou a 3 mil quilmetros quadrados, a partir de uma previso inicial de 1,16 mil) e superaria o maior lago artiSobradinho, com 4,2 mil km2 Como agora, o vertedouro principal de Carara (a primeira a ser construda, comeando a operar em 1998, enquanto o incio de Babaquara seria em 2001) mquinas (com 21 turbinas de menor potncia do que as 18 de hoje, mas com o mesmo resultado: 11 mil MW) em outro, o Carara. O barramento, porm, seria pequeno, com 35 metros de altura, porque a gua seria aduzida para as mquinas, rio abaixo, atravs de canais naturais formados com auxlio de uns poucos diques de conteno. um desenho radicalmente diferente do que est sendo posto em prtica. As obras foram tantas e to profundas, utilizando mais concreto do que no canal de Panam, que formaram o reser vatrio dos canais, obra sem paralelo na histria da engenharia nacional (e mundial?) porque foi cancelado o represamento de Babaquara, que seguraria no mento das turbinas no vero, o que no acontece mais. Em Carara, a casa de fora e o ver tedouro estariam separados (como acaquilmetros entre um extremo e o outro da Volta Grande do Xingu, permitindo a construo da casa de fora principal fora da calha do rio, em terreno seco, sem precisar fazer o desvio das guas. J de Tucuru. Teria vertedouro em salto de tros (contra 90 em Carara), criada pelo barramento do rio. Com 18turbinas, Babaquara teria potncia de 6,5 mil MW. Em conjunto, as duas usinas superariam, com quase 18 mil MW, Itaipu, que tem 14 mil, tornando-se nesse arranjo a segunda maior fonte de energia hidrulica do mundo. Desse total, 12 mil MW iriam para a regio Sudeste (a US$ 25 o MWh) e 4,8 mil MW para o Nordeste (a US$ 20 o MWh). Restariam 1,2 mil MW para o Par e o Norte. Miguel Nunes ressaltou em sua palestra a economia de escala que a proximidade dos dois aproveitamentos possibilita no item referente a infraestrutura, que, normalmente, bastante oneroso para qualquer empreendimento a ser construdo na Amaznia. O investimento em ambas somaria 10,6 bilhes de dlares, sendo de US$ 6 bilhes em Babaquara, a mais cara.Nova linha car 115% mais caraA Agncia Nacional de Energia Eltrica decidiu realizar em 17 de julho o leilo para a concesso do segundo circuito de transmisso da energia da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu. A Aneel decidiu tambm reduzir em 10% a previso de investimento na obra, que era de 7,7 bilhes de reais e cou agora em R$ 7 bilhes. Quem vencer a licitao ter que aceitar trabalhar com uma receita anual permitida mxima de R$ 1,2 bilho. O segundo bipolo vai escoar energia de Belo Monte para a regio sudeste. Essa segunda linha comea no Par e passa pelos Estados do Tocantins, Gois, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que ser seu ponto nal, com mais de dois mil quilmetros de extenso. O leilo, inicialmente marcado para o dia 26 deste ms, mas foi adiado para que a Aneel zesse os ajustes recomendados pelo Tribunal de Contas da Unio. Mas a agncia decidiu no acatar a sugesto do TCU de reduzir a taxa de retorno do empreendimento. Em compensao, fez adequaes nos custos estimados que resultaram na diminuio do custo. O tribunal registrou que o teto do novo leilo 115% superior ao da primeira linha de transmisso da usina. At agora niungum explicou a razo desse expressivo aumento. O prazo de entrada em operao da linha foi reduzido de 60 para 50 meses aps a assinatura do contrato de concesso porque o Ministrio de Minas e Energia assumiu o compromisso de atuar junto aos rgos participantes do licenciamento ambiental para facilitar o andamento do processo. O sistema nacional de energia precisar da linha pronta em janeiro de 2019.

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12 MemriaAMERICANOS Registro da presena americana em Belm durante a Segunda Guerra Mundial este anncio, publicado em A Provncia do Par de maro de 1947: Gneros alimentcios de propriedade do Exrcito norte-americano sero vendidos em Val-de-Cans pela melhor oferta. Propostas para a compra do lote inteiro sero recebidas at as 12 horas do dia 18 do corrente [trs dias depois da publicao]. Demais informaes sero prestadas pelo capito Braun em Val-de-Cans, ou pelo telefone 3300, ramal 73.PALMEIRAs vsperas do natal de 1954, a Palmeira comunicava ao pblico que, apesar do extraordinrio movimento das suas lojas nesse perodo, se empenharia em apresentar, diariamente, com a habitual perfeio, a sua rica variedade de frios, salgadinhos, assados, coxinhas de galinha, croquetes, bolinhos de bacalhau, pasteis, empadinhas, pudins, tortas e bolos (de todos os tipos. No entanto, para maior ecincia do servio e completa satisfao mtua, agradecia se as encomendas nos fossem conadas com a possvel antecedncia. Panicadora e confeitaria como a Palmeira, nunca mais houve igual. TELEVISO Em outubro de 1961 a TV Marajoara (a nica em funcionamento), dos Dirios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, lanou um dos seriados de maior sucesso dessa poca: os Patrulheiros Toddy, que defendiam os fracos contra os fortes. As aventuras semanais eram exibidas s 19,30 horas. Dentre ns, o jornalista Ivo Amaral foi patrulheiro para apresentar o comercial (ao vivo) do programa, junto com Miguel Cohen, que se tornaria banqueiro em So Paulo. Nessa poca, a programao da Marajoara era curta. Comeava s 18,30 com a exibio do padro da emissora em tela xa, seguindo-se a abertura, meia hora depois, e Todos os Esportes, patrocinado pela Importadora Braga. Terminava s 21,20 com as Imagens do Dia (patrocnio do Banco Moreira Gomes e da Importadora de Ferragens, que ia at 21,50. No meio, Tapete Mgico, Jet Jackson (patrocnio da Philco), Reprter Marajoara (Banco Comercial do Par), TV de Romance (O morro dos ventos uivantes, patrocnio de Santoni) e a Msica de Cleide (Ciemaq). Havia ento mais televizinhos do que donos de aparelhos de televiso.CONDECORADOSEm 1961, o ditador Francisco Franco condecorou com a Cruz de Ocial da Ordem do Mrito Civil, por relevantes servios prestados coletividade, trs membros da colnia espanhola no Par: Jos Melero Carrero, presidente das Indstrias Jorge Correa S/A; Avelino Enriquez Santalice, funcionado dos Snapp (servio federal de navegao); e Jos Perez Guerrero, diretor presidente da rma Comrcio e Indstria Perez Guerreiro S/A. LIVROS Em 1962 a Livraria Dom Quixote anunciava as ltimas novidades que recebera: A Marcha do Amanhecer, de Juscelino Kubitscheck; Obra Bolas, de Arapu; Amado Imortal, Kurt Pahlen; o segundo volume de Meu Filho Meu Tesouro, do dr. Spock; Os Sertes, Euclides da Cunha; A Cabea do Papa, Macedo Miranda; Cadernos do Povo ns 1, 2, 3 e 4; Obras Completas, Paulo Setubal: O Pequeno Prncipe, Sant-Exupry; O Livro de Etiquetas, Hamy (Amy) Vanderbilt; Catecismo Eleitoral Catlico, pio Campos; e Guia de Boas Maneiras, Marcelino Carvalho. PROPAGANDAPepsi em Belm distribudo pelos Produtos Vitria. A Pepsi nunca pegou.

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13 Cotidiano d oEMPRESAS A Mendes Publicidade, de Osvaldo Mendes e Carlos Diniz, conquistou em 1962 seu 15 cliente: Produtos Vitria, que fabricava o popularssimo Guarasuco. A lista dos clientes da agncia um guia das empresas dessa poca: Amaznia Turismo, A. Pinheiro & Cia., Banco Comercial do Par, Camilo Nasser Engenharia, Indstria e Comrcio, Escritrio Alberto Bendahan, Eccir (Empresa de Construes Civis e Rodovirias), Empresa Soares, Franco Sabes e leos, Indstrias Qumicas Diamante (em organizao), Martins Construes e Comrcio, Odalisca Modas e Perfumarias, Paraense Transportes Areos, Pires Carneiro e Supermercados (ainda se grafava Super-Mercado) Paraense. FESTA Wilkens, colunista social da Folha Vespertina, realizou, no ltimo dia de 1966, o rveillon adeus aos 350 anos de Belm, sob a batuta musical da orquestra de Waldemar Teixeira. A festa comearia s 10 e meia da noite, com ritmo de boite. Uma hora depois seria escolhida a melhor toalete e escolhida a morena 350 e a senhorita 1966. zero hora, a execuo da valsa da despedida e cumprimentos, seguindo-se a dana em ritmo de i-i-i. Rei Momo chegaria uma hora, determinando o incio do carnaval. Wilkens advertia: A qualquer hora ser exigido o traje de passeio completo para ingresso no salo da AABB, na atual avenida Governador Jos Malcher, onde o rveillon aconteceria.CONFUSOSem possibilidade de destronar Roberto Carlos do trono de rei da Jovem Guarda, Ronnie Von adotou o ttulo de prncipe. Como tal, veio se apresentar em Belm, em 1968. Fui entrevist-lo no hotel Gro-Par, o melhor de ento na cidade. Na sada, houve um acidente, que Walbert Monteiro relatou na coluna Informe Especial, de : Verdadeira multido de mocinhas, a maioria das quais estudantes dos colgios da nossa capital, postouse entrada do Hotel Excelsior Gro-Par, onde estava hospedado o famoso cantor Ronnie Von, espera de um autgrafo ou apenas um aceno de seu dolo, o que no aconteceu. Mas um fato compensou essa decepo: nosso companheiro Lcio Flvio Pinto, ao encerrar a entrevista com Ronnie Von, em seu apartamento, encaminhou-se sada do Hotel para apanhar a conduo de volta redao, quando algum o confundiu com o artista. Foi o tambm, violentos puxes dos seus vastos cabelos. O reprter foi salvo pela conduo, que se ps em movimento, enquanto dezenas de pessoas corriam na esperana de ver FOTOGRAFIAO canal e o igarapEsta foto (que Rodolfo Gerhardt fez, a meu pedido, alguns anos atrs) descortina um cenrio exemplar de Belm. esquerda, o canal revestido na baixada (ou baixa) da Gentil Bittencourt, nos coves de So Braz. direita, o igarap prossegue, mas no seu ambiente natural, sem a canalizao, que foi a forma adotada pela administrao pblica para sanear as reas alagveis da muito baixa capital paraense (40% do permetro urbano abaixo da cota do mar). Dos dois cenrios, qual o melhor, o mais apropriado e mesmo o mais no igarap s pode levar a esses caCom a palavra, o leitor.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz PintoEditor: Jornal Pessoal LEIA E DIVULGUEJornal Pessoal LITERATURA responder. No por desateno ou correspondncia merece ser lida. Tomei a liberdade de incluir a resposMeu nome Ademar Ayres do Amaral, sou paraense de bidos, engenheiro civil e morador de Belm desde 1964. Na minha adolescncia o curso ginasial no Colgio Dom Amando. Depois de graduado engenheiro passei quase 3 anos trabalhando em Manaus, de 1974 a 1976, para onde fui transferido no meu primeiro emprego. Da minha estada na capital bar s guardo grandes e boas recordaes, pois l tive a ventura de conhecer e casar com uma amazonense neta de libaneses, da famlia Lasmar, nascida na Foz do Juta. Casamos na igreja de So Sebastio e no mesmo dia viajamos para morar em Belm. Ela me deu trs todos paraenses. Quando conheci minha esposa ela morava na rua Lima Bacuri, com fundos para o Igarap de Manaus (da casa dela se avistava o Palcio do Governo) e, aos domingos, ainda namorados, costumvamos frequentar de Nossa Senhora dos Remdios. Neste 2014 [data original da carta] vamos festejar 38 anos juntos e, por tanto, nem seria necessrio dizer que tenho um carinho todo especial por Manaus e pela famlia amazonense que o destino me legou. Quando estou em Manaus sinto-me como na minha casa de Belm. Minha me, hoje com 90 anos, se diplomou em professora normalista em Manaus, em 1942. E meu tio, Manuel Ayres, pai do meu primo Mrcio Ayres (cientista criador do projeto Mamirau) estudou o ginsio no Pedro II. Bom, depois desse introdutrio, esclareo que estou enviando esta mensagem graas ao meu amigo, jornalista Lcio Flvio Pinto, pessoa admirvel a quem recorri para conseguir teu email, aps ler a matria que ele publicou a teu respeito, no excelente Jornal Pessoal. Outro esclarecimento: sou um engenheiro metido a escritor. Arrisco crnicas, contos e j publiquei dois livros aqui em Belm, tudo edies do autor patrocinadas pela generosidade de amigos e que saram do forno com no mais de 500 exemplares cada. So livros praticamente inditos que no foram muito alm dos arredores de Belm e a maioria deles acabou nas mos de conhecidos, amigos e familiares. O primeiro, Catalinas e Casares, teve prefcio do Lcio Flvio Pinto (uma bondade dele) e orelha da professora Graa Salim, l da Unama, onde estiveste recentemente, participando de uma semana literria. Eu tinha agendado para assistir tua palestra, mas por motivo de viagem a servio, no pude comparecer. Trabalho na Sotreq SA dealer Caterpillar (aquela marca de tratores) h 34 anos, onde fao consultoria para empresas de minerao. No fui na Unama, mas li tua entrevista no O Liberal e concor do plenamente contigo sobre essa arenga de rivalidade, estimulada por alguns idiotas sobre nossas duas principais cidades. Nada traz nada de bom, muito pelo contrrio. Da minha parte, resolvi logo essa bobagem, casando e sendo feliz com a minha amazonense. Da professora Graa Salim tambm recebi a informao que teus livros estavam na livraria da Fox Vdeo. Passei l, adquiri todos os ttulos disponveis e j conclu as leituras de e de Dois Irmos, tudo sem muita pressa para aproveitar as nuances do teu excelente texto e o roteiro dinmico. Um modo dinmico de conduzir o enredo, que lembra o roteiro de idas e voltas de Pulp Fiction tentei aplicar nos meus dois livros, na base da intuio. No sou do ramo. Da leitura de Espreita, uma curiosidade: numa bem construda crnica, narras sobre uma misteriosa vizinha da rua Joaquim Nabuco, que era apaixonada por um comandante de avio. Pois no meu Catalinas e Casares, eu falo desse mesmo comandante, minha primeira viagem num Catalina da Panair. Depois ele passou a voar nos Constellations e aconteceu aquela tragdia (at hoje inexplicada) a 30 quilmetros de Manaus. Em Dois Irmos, na pag. 165, outra curiosidade que eu tambm escrevo em Catalinas e Casares: assim como Zana, minha av detestava peixe liso, xingava toda uma gerao de quem mandasse peixe liso pra ela e, s vezes, mandavam mesmo de sacanagem s pra ver a reao da velha. Meu segundo livro, uma primeira tentativa de romance e nele tento contar sobre a saga da nossa juta, a qual, como bem sabes, teve origem na colonizao japonesa da Vila Amaznia, ali pertinho de Parintins. Na verdaquase uma salada amaznica com alguns temperos da regio. Milton, dada tua agenda, certa mente cheia de muitos compromis sos, sei que talvez seja uma ousadia da minha parte dizer que gostaria de te enviar esses meus dois livros. Caso possvel, basta me informar o endereo para aonde devo despach-los. O cenrio de ambos a regio do Baixo Amazonas, mais um pedao esquecido deste Brasil, que antes serviu de cenrio para O Cacaulista e obras antolgicas do mestre Ingls bidos. Na expectativa da tua ateno, envio um cordial abrao e votos de um 2014 cheio de realizaes. Ademar Ayres do Amaral RESPOSTA DE HATOUM Peo-lhe desculpa por ter demorado tanto tempo para lhe responder. Sou um pssimo internauta. Muito obrigado pela leitura dos livros e pelas histrias que me contou. Gostaria de ler Catalinas e Casares. Voei num Catalina e morei num casaro da avenida Joaquim Nabuco, um casaro que era uma espcie de cortio familiar. Meu de Rio Branco a Manaus. Uma par te da minha famlia acreana. Sim, essa rivalidade entre as duas capitais uma grande besteira. Fui agraciado com o ttulo de Cidado Paraense. Belm a minha cidade preferida. Oxal seus casares permaneam de p. P ATRONI Muito oportuno ter lembrado ni e o seu duplo literrio, magisMaranho em Cabelos no Corao (1990). O que importa dizer sobre este livro? 1) A extraordinria criao ver bal alcanada por Maranho, no sentido preciso da lstica, equiparvel a meu ver a (1936) de Louis-Fer dinand Cline e a (1902) de Euclides da Cunha. 2) Se um dos traos mais notveis do barroco enquanto estilo o excesso, o exagero, a desmedida, a hiprbole, a repetio, a profuso, Patroni um personagem eminentemente barroco. Como pensou o romancista fazer jus a tal personagem, ao seu barroquismo? Ora, tratando-o barrocamente! Exagerando o exagerado, excedendo o j excessivo. Levando a sua expresso prpria (o idioma portugus) s raias da inventividade e do delrio verbal, provocando em ns um riso libertador. Uma pequena observao: qual romancista consegue me fazer rir, no ato da leitura? Um riso puramen, diretamente suscitado pela inveno verbal? Somente os maiores: Rabelais, Cervantes, Cline, Maranho. Salve, Haroldo! Patrick Pardini CART @ S

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15Enquadramentos do JP em sua linha de tiroMarlon ArajoH, entre historiadores e jornalistas, uma identicao quanto ao desempenho de seu mister: ambos lidam (ou deveriam lidar) com fatos e fontes. Nesse caminho que devem fazer para atingir o resultado que deles se espera, no podem violentar os fatos e devem estar bem rentes s fontes. O abandono, consciente ou no, de fontes e fatos compromete a qualidade do que produzem. Se o resultado de seu trabalho se preordena ao pblico, como comum dos casos, esse abandono torna-se ainda mais grave. No exatamente pela inevitvel mancha que provoca na biograa do que assina texto sem fonte ou descompasso com a realidade, mas pelas deletrias consequncias que acarreta para aqueles que consomem informaes em desalinhadas dos pressupostos inerentes sua adequada produo. Exemplos do correto proceder jornalstico esto estampados nas matrias do Whashigton Post sobre Carajs e na matria do jornalista holands sobre o acidente com aeronave da Malasya Air Lines, publicadas no JP (edies nos 583 e 584), Os dois textos no-orgnicos, acima mencionados, mas certeiramente compatveis com a proposta do JP de debater o como-se-deve-fazer da prosso jornalstica so a luz com que se deve ler o caldeiro em ebulio animado por dois textos da edio n 584, em que LFP pe em debate, mais uma vez, o papel da imprensa, agora em sua relao com o poder constitudo, especialmente com as guras polticas de Lula e Dilma, com destaque para o que se convencionou chamar petismo. De fato, no h qualquer rano elitista no texto de Lcio sobre Lula. Tambm z a operao: li, reli e tresli e nada vi ou entrevi acerca do indicado preconceito em relao queles que no seriam cultos o suciente para liderar. Seja como for, h de se manter a linha de Lcio: a divergncia bem-vinda, quando formulada com seriedade e de forma elevada, marca de praticamente todas as manifestaes relativas ao turbulento texto. Todos tm o direito de dissentir e so responsveis pelos termos em que o fazem, alguma vez com comprometimento da racionalidade do que articulam... A crtica a Lula a crtica ao no-dito, repetidas vezes mais letal que o que se diz com todas as letras, porque frequentemente carrega consigo uma nalidade por poucos notada. O recado no discurso do primeiro de maio foi claro, ao menos para os leitores do JP: No ponham as manguinhas de fora. Temos negcios. Posso exp-los. LFP chega a dizer em seu texto o que gostaria de ouvir de Lula. Mas o estilo do ex-Presidente no o de dizer tudo. Carismtico, tem pouca pacincia com a divergncia, o que parece comprometer o PT desde 2003 no que parecia ser seu corao: a democracia interna. A pretexto de combater inimigos do partido, resolveram calar companheiros de partido que divergiam da linha de atuao assumida pelo Governo eleito em 2002. Lula hoje, como ontem, a personicao dessa intolerncia divergncia. Interna e externa. bem verdade que sua histria justicaria em alguma medida tal postura, porquanto a falsicao de itens de sua vida privada foi decisiva para sua carreira. No entanto, isso no autoriza episdios de autoritarismo, nem de desinformao do povo do qual se diz servidor. Se efetivamente o for, precisa mudar de postura em relao ao que diz. O texto de capa do JP n 584 harmoniza com o que Benedito Carvalho Filho arma em seu artigo sobre tese de doutoramento que tem a atuao de Lcio como objeto de pesquisa: a verdade incmoda aparece de maneira contundente em tudo o que se publica no JP e fruto do trabalho de ourives que LFP realiza, a despeito de tantas diculdades que tentam objetar a seu labor jornalstico. O trabalho que o JP tem empreendido de resgate das fontes que tentam, embora sem muito sucesso, discutir a Cabanagem, fomenta naqueles que se interessam pela histria do Par e do Brasil a busca por outras fontes mais que iluminem as reexes que Lcio tem feito e provocado. Assim, interessante notar o texto de Renato Guimares, que, embora preciso no diagnstico sobre o estado da arte da literatura referente Cabanagem, no consegue escapar do lugar de fala em que se encontram: aquele que tenta ver na Cabanagem mais que uma energia revolucionria para lhe conferir um ttulo que no diz muito e talvez no diga nada sobre esta insurreio do perodo regencial brasileiro: A anlise do episdio esbarra, porm, num obstculo quase intransponvel: a diculdade de obter-se uma reconstituio dos fatos que seja digna de conana. Essa reconstituio tem pontos de semelhana com o trabalho de restaurao das obras-de-arte em igrejas barrocas em Minas Gerais. Ocorre com frequncia, ali, que estejam superpostos vrios desenhos diferentes, sobre a pintura original de um teto ou de uma parede. A cada gerao, o gosto da classe dominante repudiava a pintura deixada pelos artistas da gerao anterior. Encomendava-se ento uma pintura mais moderna, mais ao gosto do dia, para cobrir a velharia estampada nos altos e nas laterais da nave da igreja Para ele, a Cabanagem seria uma extraordinria demonstrao de energia revolucionria do povo trabalhador do Par. Traz um diagnstico da fortuna crtica de Domingos Antnio Raiol que vale registrar: No obstante o mau humor que a ideologia escravista e o ressentimento pessoal impunham a Raiol, em relao aos rebeldes, sua obra guardou um mnimo de respeito pelos fatos. Deu guarida verso catastrco-bestial com que a Cabanagem se agurou classe dominante, mas no fez nenhuma apologia das foras da ordem. Foi o que bastou para que a histria ocial a desprezasse. Com os anos, virou raridade bibliogrca, que os respeitveis autores de histria evitavam. S recentemente [o texto de Guimares de 1978], em 1970, a Universidade do Par reeditou -a, em trs volumes. Temas de Cincias Humana n 04. Orgs.: NOGUEIRA, Marco Aurlio; BRANDO, Gildo Maral; CHASIN, j.; SODR, Nelson Werneck. Cabanagem a revoluo no Brasil.

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CirculandoPequeno e quase artesanal, o jornal Cir culando, escrito e editado por estudantes do ensino mdio, realizou uma faanha: foi admitido como participante do projeto Incubadora de Linguagens Digitais de Economia Solidria da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Par. O Circulando foi aceito porque atendia a um dos requisitos fundamentais: a incluso social e digital dos discentes do ensino mdio, estreitando os laos da universidade com a etapa anterior do processo educativo. Esto de parabns os responsveis pelo pequeno grande jornal, que, em formato ofcio, com oito pginas, alcanou seu nono nmero. Presente no mundo digital, no abandonou a impresso em papel. Um exemplo para os jovens que querem seguir esse caminho.ColonialismoO cargueiro Antonov foi fretado pela Vale para transportar por via area (e muito mais cara) a nova pea para o britador primrio da mina do Sossego, equipamento responsvel por uma das etapas de reduo do tamanho do minrio de cobre, em Carajs. A pea, pesando 82 toneladas, foi compradana China. Seu valor representa quantas toneladas a mais em minrio de ferro que segue daqui para l?Dvida do governo cresceCom o ajuste scal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quer que a Unio economize 55 bilhes de reais neste ano para reduzir a sua dvida monumental. Mas o governo federal vai precisar de quase R$ 60 bilhes para cobrir os adiantamentos que recebeu de forma irregular dos bancos pblicos e do FGTS. Em junho do ano passado esse dbito era de cerca de R$ 40 bilhes, segundo auditoria do Tribunal de Contas da Unio. Hoje, segundo atualizao feita pela Folha de S. Paulo, se aproxima de R$ 60 bilhes. Equivale a mais de trs vezes o oramento do Estado do Par deste ano. Os bancos federais tiveram que tirar do seu prprio caixa dinheiro para pagar benefcios sociais ou nanciar investimentos com juros mais baixos, porque o tesouro nacional atrasou os repasses com esses ns. Assim, nanciaram o seu scio controlador, que a Unio, o que proibido por lei. A irregularidade, apelidada de pedalada (em referncia s acrobacias do inconstante Robinho), foi constatada na execuo do oramento de 2014. Mesmo com a advertncia do TCU e a ameaa de rejeitar as contas de Dilma Rousse, a prtica est sendo repetida em 2015, de acordo com matria publicada hoje pelo jornal paulista. O texto diz que s no primeiro trimestre deste ano, a dvida do governo com a Caixa, pagadora de programas sociais, e o Banco do Brasil, nanciador do crdito agrcola, cresceu mais de R$ 2 bilhes e chegou a R$ 19 bilhes no m de maro. O tesouro devia ainda, no nal de 2014, R$ 26,2 bilhes ao BNDES para subsidiar emprstimos. A previso de crescimento em 2015. Explica o jornal que em 2012 o ministrio da Fazenda publicou portarias assinadas pelo ex-ministro Guido Mantega e pelo atual ministro do Planejamento, Nelson Barbosa (na poca nmero 2 da Fazenda), permitindo ao governo adiar em ao menos dois anos o pagamento de dvidas com o BNDES. Durante 24 meses, os valores no seriam contabilizados pelo tesouro como devidos, embora constem como dvida no balano do banco, sujeito a normas mais rgidas de contabilidade. Como o prazo pode ser prorrogado de acordo com as disponibilidades oramentrias e nanceiras do tesouro: na prtica signica que o governo pode pagar a dvida quando quiser. O TCU, no entanto, interpretou a portaria como uma operao de emprstimos entre BNDES e Tesouro. No caso do FGTS, o Tesouro reteve cerca de R$ 10 bilhes referente multa adicional de 10%. J com o Minha Casa, Minha Vida o dbito era ento de R$ 7 bilhes e no foi negociado. Mais complicaes para o governo Dilma. Alguns podero dizer que so articiais, engendradas pelo PIG, o Partido da Imprensa Golpista. claro que a grande imprensa brasileira no gosta de Dilma, de Lula nem do PT. Mas se no inventar fatos, manipular informaes e conspirar contra o governo, tem o direito de fazer oposio ao governo. As irregularidades podiam ser consideradas meramente formais de puro efeito contbil, se no houvesse dinheiro vivo saindo de uma conta para cobrir buraco em conta alheia, como acontece. Mais dinheiro ter que surgir para repor o adiantamento. Sair do tesouro, que sofre a queda da arrecadao, consequncia da reduo da atividade produtiva e da circulao de riqueza, alm de ser encolhido por ato superior, adotado porque j h um buraco em franca expanso nas contas pblicas. No por outro motivo que, no dia seguinte reeleio de Dilma Rousse, o Brasil entrou em sucessivos choques de realidade sem que, at agora, tenha chegado plenitude do mundo real. S a partir desse encontro que os desajustes podero comear a ser superados. Compartilhe isso: