Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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CRISE NA IMPRENSA DO PARO FUNDO SEM FUNDOCORRUPO DOCUMENTADA oa Mais de um quarto dos ativistas ambientais e agrrios assassinados em todo mundo no ano passado foram mortos no Brasil. Das 29 vtimas brasileiras, nove estavam no Par, o Estado lder no pas nessa estatstica sinistra, divulgada, na semana passada, em Londres, pela ONG britnica Global Witness. Como as posies seguintes so as do Maranho e de Rondnia, com cinco mortes cada, a Amaznia foi o cenrio dos assassinatos de 19 dos 29 ativistas que sucumbiram no territrio brasileiro, quase 70% do total. Pelo quarto ano consecutivo, o Brasil lidera, esse ranking. Na posio seguinte est a Colmbia, com 25 mortes em 2014. Signica que se concentram nesses dois pases latino-americanos, que tm extensas fronteiras comuns na Amaznia continental, mais de 40% dos crimes cometidos em todo planeta. As Filipinas vm depois (com 15 mortes) e, em seguida, Honduras, que, com 12 mortes, tem a maior relao de assassinatos per capita do mundo. Desde que o levantamento comeou, em 2002, s em 2011o Brasil no liderou a lista. Durante esse perodo, 477 ativistas ambientais ou agrrios foram assassinados no pas, segundo a Global Witness. D a mdia de 33 assassinatos a cada ano. A ASSASSINATOSRecorde malignoFoi no Par que mais ativistas agrrios e ambientais foram assassinados no ano passado. O Estado o lder no Brasil, que o recordista mundial desse tipo de crime. Ele aniquila as lideranas populares e fonte de injustias na Amaznia, onde mais fcil eliminar esses personagens incmodos.

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2opinio pblica no informada adequadamente sobre esses fatos. No h nem mesmo o acompanhamento sistemtico pela imprensa para permitir que, atravs de uma viso de conjunto, se formasse uma conscincia sobre esse morticnio. A ONG britnica diz que um fator de agravamento da violncia no campo no Brasil a falta de documentos ociais da terra para comunidades indgenas ou de camponeses. Muitos dos suspeitos de (serem) mandantes desses crimes de 2014 so poderosos latifundirios, garantiu Billy Kyte, um dos principais autores do estudo, agncia de notcias BBC Brasil. A impunidade o fator mais citado no documento para justicar o alto nmero de assassinatos ligados a questes ambientais e agrrias no mundo. Mesmo quando alguma providncia ocial adotada, raramente resulta na priso dos executores ou dos mandantes. Nas distantes frentes pioneiras abertas na Amaznia, o que prevalece ainda a lei do mais forte. A matana priva o pas das suas lideranas mais prximas do povo ou mais sensveis a causas coletivas. Impede que esses lderes naturais, nas clulas mnimas de representao social, evoluam e possam atingir o topo da hierarquia poltica, mesmo que limitada ao parlamento, em funo do preenchimento das duas vagas atravs do voto direto e universal. H quanto tempo no h essa emerso de lideranas nas frentes pioneiras abertas pelas estradas? Observa-se que mesmo em reas de intenso conito agrrio, que acabam forjando lideranas pelo contnuo choque de posies antagnicas, a representao poltica, por ser conservadora e rotineira, contrasta com o grau de determinao, combatividade e conscincia dos grupos sociais. S que, na hora de votar, eles acabam sucumbindo aos esquemas viciados de eleio de parlamentares, desde os vereadores at os senadores. Da o sentido trgico e alarmante da liderana mundial que o Brasil, a Amaznia e o Par ocupam no levantamento dos assassinatos de lderes agrrios. As distncias, o isolamento e a estrutura de vida mais precria tornam mais fcil liquidar esses personagens incmodos aos poderosos locais. Os centros decisrios no acompanham esses acontecimentos nem lhes do a importncia que eles tm. O territrio ca livre para a ao desses autnticos senhores feudais, que controlam algumas das reas em torno de fazendas, serrarias, orestas ou atividades minerais, recorrendo a pistoleiros individuais ou organizaes armadas. Um exemplo recente d uma medida da escalada de audcia desses personagens.Os 30 integrantes da Operao Rio Dourado II tiveram que recuar na tentativa de fechar garimpos clandestinos que funcionam no interior da reserva indgena Gorotire, dos ndios kayap. Agentes do Ibama e da Funai, com a proteo da Polcia Militar, foram recebidos a tiros quando se aproximavam do garimpo do Santdio, em Cumaru do Norte, no sul do Par. Os disparos foram feitos por pistoleiros contratados pelos garimpeiros, que agem h vrios anos extraindo ouro nas terras dos ndios. A patrulha teve que recuar e aguardar por reforos para poder enfrentar os pistoleiros, o que d uma ideia do poder dessas organizaes em frentes econmicas na Amaznia. Com a valorizao do ouro, os garimpos se multiplicaram e se tornaram mais agressivos e destruidores. A selvageria, porm, no resulta apenas da agressividade desses poderosos. Para ela contribui tambm a inecincia, incompetncia ou insensibilidade da administrao pblica, seja aquela encarregada de defender a vida e manter a segurana de cada cidado como a que devia prevenir o surgimento de problemas ou, pelo menos, resolv-los. Outro exemplo ajuda a discernir essa atuao (ou sua falta). Na semana passada, como faz j h algum tempo, o Incra (Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria), publicou mais uma relao de cancelamento de ttulos de propriedade ou licenas de ocupao que concedeu. Numa das levas, foram 23 despachos do chefe da Diviso de Regularizao Fundiria da Amaznia. O texto padronizado desses atos evidencia o relaxamento do rgo ao tratar burocraticamente de questes essenciais para os destinatrios das suas decises. H ttulos de 1980, 1982 e 1985, que s receberam o despacho do burocrata em janeiro deste ano e foram publicados trs meses depois, com prazo de 15 doas para o recurso do interessado. Os conitos teriam que suspender sua incidncia e esperar no ritmo do rgo fundirio por uma deliberao. Como isso no acontece na realidade, a inao ou a lentido do Incra se traduzem por mais conitos e mortes, tentativa de resolver diretamente o problema pelo uso da fora. Leva a pior o mais fraco, evidentemente, de que exemplar a execuo de uma famlia inteira em Conceio do Araguaia, no sul do Par. O marido, a mulher, seus trs lhos e um sobrinho, todos eles menores, foram mortos na rea rural, na madrugada de 17 para 18 de fevereiro. O assassinato foi de uma violncia espantosa e chocante, que reconstituo com base nas informaes apuradas no local pelo Dirio do Par, sem incluir o pai, Washington Silva: o corpo da me, Lediane Souza Soares, apresentava sinais de uma violncia sem limites; Matheus de Souza Barros, de 14 anos, tinha leses traumticas mltiplas e seu abdmen foi dilacerado, deixando expostas as suas vsceras; Snia Letcia de Souza Muniz, de 12 anos, foi degolada a golpes de foice e seu estmago tambm foi aberto; Wesley Washington Souza Muniz, de 15 anos, possua leses violentas na parte posterior do crnio; Jlio Cesar Sousa Muniz, alm de todos esses mesmos golpes, teve seus braos cortados. As execues foram com tiros de revlver e golpes de foice e faco. Os seis membros da famlia foram obrigados a caminhar por aproximadamente cinco quilmetros at chegar ao local da execuo em que foram mortos. O corte feito na barriga de todas as vtimas tinha um propsito: no deixar que seus corpos boiassem; deviam afundas e car sepultados para sempre no fundo do rio no qual foram atirados. Os assassinos foram contratados pelos irmos Oziel e Oliveira Ribeiro de Moura. Eles ocupavam um lote

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3de terras que o Incra lhes entregou. Como no ocuparam a rea, ela foi repassada a Washington. Ele e sua famlia ainda estavam se instalando no terreno quando receberam um recado dos irmos, que moravam na cidade: a terra no estava ocupada, mas tinha dono. Os colonos decidiram no sair porque sua posse tinha cobertura ocial, fora legal. No houve segundo aviso. A sentena de morte foi assinada com fria. Os executores da condenao j foram presos, mas os mandantes ainda esto foragidos. E o principal responsvel por essa tragdia permanecer impune: brao fundirio do governo federal. O Incra entrou na histria quando as terras que deram causa chacina formavam uma fazenda chamada Estiva. O instituto a desapropriou para ns de reforma agrria. A consumao do ato, porm, ainda no aconteceu. Continua a rolar pela sonolenta e ineciente burocracia ocial, isolada no seu cubculo, insensvel aos dramas humanos. O que era uma fazenda virou uma invaso. O estgio seguinte, de assentamento, tambm no se consolidou. Sem isso, as situaes no local caram indenidas, comearam a se confundir e, em seguida, a entrar em conito, cada vez mais frequente e tenso, como o que resultou na extino de uma famlia de pretendentes propriedade de um pedao de terra na vasta e violenta fronteira amaznica. No dia 17, ao participar de uma manifestao pelo 19 aniversrio do massacre de Eldorado dos Carajs, com o saldo de 19 mortes praticadas pela Polcia Militar, o ministro do Desenvolvimento Agrrio, Patrus Ananias, assinou a desapropriao da fazenda Peruana, assentando 390 famlias do MST que ocupavam a rea e esperaram 12 anos para receber o seu lote. A situao se repete em vrios desses assentamentos, que se tornaram pontos de tenso entre interesses distintos, dando causa s exploses sociais e perda de vidas humanas. Mas que isso importa, se h tantas para serem sacricadas? Da as estatsticas macabras no vasto serto amaznico. Onde a eliminao das lideranas virou prtica rotineira.O fundo bilionrioArquivos inesgotveisA presidente Dilma Rousse sancionou o Oramento Geral da Unio de 2015 mantendo a emenda que triplicou de 289,5 milhes de reais para R$ 867,5 milhes os recursos destinados pelo tesouro nacional ao fundo partidrio. Em 20 anos, desde sua regulamentao, o fundo repassou aos partidos, at o ano passado, quatro bilhes de reais. Nesse perodo, de 1996 a 2014, o crescimento real da verba foi de quase 120%, descontado o IPCA. E no inclui o nanciamento da propaganda poltica atravs das emissoras de rdio e televiso. O fundo se destina manuteno das legendas. Elas so inteiramente livres para denir a utilizao da verba. Muitos partidos aplicam o dinheiro em campanhas eleitorais. Como as doaes de empresas privadas sofrero drstica reduo j nas eleies municipais do prximo ano, a importncia do fundo se tornar ainda maior. E seu peso sobre as desequilibradas contas pblicas. Mas poder se multiplicar. A triplicao do valor do fundo, chegando prximo de R$ 1 bilho, dever tornar concreta e imediata a discusso sobre o nanciamento pblico das campanhas eleitorais. Se essa mudana for promovida, calcula-se que o oramento desse fundo car entre R$ 5 milhes e R$ 7 milhes de reais. H duas semanas, como efeito da priso do seu tesoureiro nacional pela Operao Lava-Jato, Joa Vaccari Neto, o PT anunciou que no aceitar mais doaes de empresas privadas. A deciso ainda provisria, sujeita ao referendado pelo congresso do partido, marcado para junho. Atinge apenas os diretrios, no alcanando os candidatos individualmente. E s foi anunciada depois que o partido assumiu a liderana na arrecadao de dinheiro junto a empresrios, principalmente empreiteiros da indstria pesada. Eles so os mais notrios prisioneiros da Lava-Jato, no crcere da Polcia Federal, em Curitiba. J sem essa fonte, que buscou avidamente nos ltimos anos, e desgastado por seu envolvimento no esquema de corrupo dentro da Petrobrs, o PT resolveu engrenar de vez a campanha pelo nanciamento pblico de campanha. Na situao atual, signicar transferir a fonte de desvios polticos e corrupo das grandes corporaes privadas para os intestinos do poder. Quem o ocupar ter mais possibilidades de extrair dos cofres pblicos a fonte da renovao da sua permanncia no topo do mando. No bom para a pluralidade partidria, sem a qual a democracia ca fortemente comprometida. O linguista Lorenzo Turner localizou nos arquivos da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, uma preciosidade: um disco de alumnio no qual Mrio de Andrade interpreta cinco msicas folclricas. o nico registro da voz do grande escritor brasileiro. Ele gravou o disco em 1940, cinco anos antes de morrer, quando cumpria seu triste exlio no Rio de Janeiro. Os arquivos espalhados por todos os Estados Unidos so uma fonte inesgotvel de surpresas. Li pela primeira vez exemplares do jornal Brasil Urgente, publicao de esquerda que deixou de circular com o golpe militar de 1964, na coleo da Amrica Latina e do Caribe da Biblioteca da Universidade da Flrida, em Gainesville. S de livros, so 500 mil, alm de revistas, manuscritos e outros documentos. Nos Arquivos Nacionais, em Washington, consultei a correspondncia do cnsul americano em Belm na qual constavam alguns panetos que circularam na poca da cabanagem. Uma das misses culturais mais importantes para um pas como o Brasil seria enviar misses ao exterior para de l trazer documentos para a histria nacional que no existem mais no nosso prprio territrio.

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4 A la de caminhes e picapes trao nas quatro rodas levantam nuvens de poeira vermelha ao serpentear morro acima na larga e empoeirada estrada. Do alto, a oresta se perde no horizonte. Diante dela, um vasto quadriltero estava sendo cavado da encosta por um exrcito de mquinas, uma cicatriz de terra vermelha no morro verde. S11D, como o projeto vulgarmente conhecido, uma mina de ferro a cu aberto sendo cavada nesse canto da Amaznia, no Estado do Par. A gigante mineradora do Brasil, Vale, diz que a mina foi concebida para ter um impacto ambiental mnimo e o mximo de lucratividade. previsto para comear a operar no prximo ano e em 2018 estar produzindo aproximadamente 100 milhes de toneladas anualmente de um dos mais puros aos no mundo um pouco de sangue para a plida economia brasileira. Porm ambientalistas argumentam que a S11D pode destruir ecossistemas de savana raros em dois lagos no topo do rico depsito de ferro. Dezenas de cavernas, que potencialmente continham evidncias de povoamento, se perderam. Esse projeto grandioso de US$17 bilhes emblemtico de um dilema brasileiro muito contemporneo: capaz de o pas desenvolver seus ricos recursos naturais sem causar danos irreparveis ao ambiente e sua histria? Eu discordo completamente quando algum diz que no possvel se desenvolver com preservao e sustentabilidade, diz Jamil Sebe, diretor da Vale para projetos de ferro no Note do Brasil, responsvel pela mina. Sebe conta que um quarto dos seus 44 anos foi trabalhando no projeto, que emprega tcnicas inovadoras de minerao e engenharia importadas do Canad e Austrlia para reduzir impacto ambiental e custos. Este o ano para combinar tudo junto, ele disse. S11D ca a apenas 48,2 km ao sul da maior mina de ferro do mundo, tambm explorada pela Vale na mesma Floresta Nacional de Carajs. As atividades da companhia aqui, que inclui cobre, mangans e ouro, ocupa 3% dos 4.120 km2 desse parque nacional, to rico em natureza quanto em minerais. A Vale quer transformar tudo em mina. Depender dos rgos de meio -ambiente do governo brasileiro proteger essa rea diz Frederico Martins, um analista ambiental do instituto governamental Chico Mendes de Conservao e Biodivesdidade e gerente da Floresta Nacional de Carajs. Tem um monte de minrio de ferro a. A controvrsia est em torno de dois lagos ao leste da atual construo, mas no topo da parte de onde se concentra o minrio de ferro. Agncias governamentais negociaram uma rea de excluso de 499 metros em torno deles como proteo mas talvez no seja suciente. A savana metlica Levou 3 horas dirigindo pelas estradas sujas e traioeiras que cortam a Carajs: uma rivalidade de ricosA fotografia destacada a abertura da reportagem em espao amplo na primeira pgina atestavam a importncia que o Washington Post do dia 14 de abril dava a Carajs, no Par. Mandou regio o seu correspondente no Brasil, Dom Phillips. Fez o que faz cada vez menos a grande imprensa brasileira no seu prprio territrio (e a imprensa local, muito menos ainda): despachar um enviado especial para ver a realidade distante e isolada com seus prprios olhos, ao invs de se contentar com informaes secundrias e testemunhos suspeitos. Como o relato do correspondente do Post merece ser conhecido pelos leitores que no tiveram acesso ao original, ignorado pela mdia nacional e local, reproduzo-o, em traduo de Angelim Pinto, que trabalha atualmente em Washington. Phillips suscita questes que a imprensa brasileira prefere ignorar ou pelas quais no se interessa, mas que so vitais para o Estado no qual est a riqueza natural. Vale mesmo a pena incrementar em intensidade to grande a explorao do precioso minrio de ferro de Carajs, com muitos danos ecolgicos e arqueolgicos, alm dos problemas sociais, para vendlo por um preo em depresso? Deve-se aceitar a voragem da Vale sobre esses depsitos ou contingenciar sua extrao? Respostas sobre essas questes no so fceis. Se no houver debate, porm, elas nunca sero nem submetidas opinio pblica.

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5oresta para chegar no Lago do Violo, o maior dos dois. No caminho, um javali selvagem cruzou a estrada, a caminhonete passou a centmetros de distncia de uma enorme cobra negra e o guia orestal Jos da Costa estacionou debaixo de um ninho de guia do tamanho de uma banheira, com a cabea da ave balanando para fora do ninho. A expanso do Lago do Violo era um mundo parte da densa e emaranhada oresta em torno dele um ecossistema separado situado em uma savana metlica formada por rochas escuras e arbustos. Gafanhotos de 15 centmetros de um verde vvido descansavam sob o sol. Caimes e tartarugas passavam atravs do lago. Mais de 40 espcies de plantas entre elas Ipomea marabaensis, com uma or lils so encontradas somente aqui na savana de Carajs, com seu meio ambiente formado pela mesma rocha, rica em minrio de ferro, que ameaa sua sobrevivncia. distncia, era possvel ouvir o zumbido das escavadeiras. Ano passado, estudantes universitrios locais formaram um SOS nas rochas ao lado do lago para protestar contra os estragos que eles acreditam que o Lago do Violo sofrer quando a minerao e suas exploses dirias comearem de verdade. Se sobreviver, perder todo o seu contexto, disse da Costa, que participou da manifestao. Voc no ter toda essa vida. A Vale tem discutido a reduo da zona de excluso com a agncia ambiental do governo brasileiro. Martins disse que nenhuma reduo iria comprometer a existncia da lagoa. Minrio de ferro foi encontrado pela primeira vez em Carajs em 1967 por um gelogo brasileiro prospectando mangans para a companhia U.S. Steel. Em 1985, a produo comeou na Serra Norte, hoje a maior mina de minrio de ferro no mundo. Uma cidade de 180.000 habitantes, Parauapebas, cresceu nas proximidades. A Vale e seus contratados empregam 46.000 pessoas no Par. Capitalismo de Estado e proteo caminham de mos dadas aqui. Em 1998, a Reserva da Floresta Nacional de Carajs foi criada tanto para isolar a rea da mina de posseiros quanto para proteg-la contra o desorestamento que tanto tem devastado essa regio sul da Amaznia. No fosse pela minerao, isso poderia ter sido bem pior disse Martins. O acesso controlado pela Vale e o Instituto Chico Mendes. O melhor minrio de ferro do mundo A mina da Serra Norte um enorme complexo industrial de cavas, esteiras rolantes e unidades de processamento encravado na oresta. Tudo de um vermelho escuro oxidado: o metal e a terra. Em uma manh recente, o gerente de operaes da mina, Evandro Eusbio permaneceu no mirante observando a mais antiga das cinco cavas da mina. Centenas de metros abaixo, caminhes gigantes engarrafavam as ruas empoeiradas, cada um carregando at 400 das 120 milhes de toneladas de minrio que a Vale produz ali todo ano. o melhor minrio do mundo, disse Euzbio. O minrio transportado 891 km por uma linha singular de trem para o porto de So Luis no Estado do Maranho. De l, navios cargueiros embarcam para China, que importa metade do que a Vale produz a cada ano. A ferrovia est sendo duplicada para escoar a produo da S11D. O preo do minrio de ferro tem baixado para cerca de US$55 a tonelada no curso do ltimo ano, mas a Vale insiste que o projeto ainda vivel. Ningum rasga dinheiro, disse o diretor da Vale para a regio Norte, Paulo Horta. A construo da S11D, com a expanso do porto e da ferrovia, emprega 30 mil trabalhadores. Quando a mina estiver funcionando, 2.600 trabalharo l. Com 7.000 em indstrias de servio relacionadas. Uma nova cidade, Cana dos Carajs, cresceu nas proximidades. Ao invs dos caminhes utilizados na Serra do Norte, 8 km de esteiras rolantes iro carregar o minrio para fora das valas para plantas de processamento situadas fora da rea da oresta. As plantas so formadas por mdulos, juntadas como peas de Lego, uma tcnica adaptada da indstria do petrleo, que requer menos trabalhadores no local. Companhias de engenharia alem, canadense e australianas projetaram muitos dos equipamentos, mas a maioria foi fabricada na China. O Brasil produz o material bruto, mas no o maquinrio. A cava da S11D sozinha de mais de 8 km de extenso. a maior fenda, a maior reserva que a Vale tem. No futuro a plataforma para o crescimento da companhia, disse Sebe. Mas tambm ir consumir uma parte do passado do Brasil. Arquelogos dizem que cavernas na rea escondem pistas que remetem a habitaes que eram desconhecidas at os anos 1980. Evidncia dessas cavernas sugerem que povos nmades viveram na Amaznia cerca de 9 mil anos atrs, cultivando mandioca e fruto do aa. Eles foram capazes de cultivar a oresta sem precisar derrub-la, con tou Marcos Magalhes, um arquelogo do Museu Emlio Goeldi em Belm, na capital do Estado do Par, que tem estudado as cavernas da regio. A Amaznia era o Jardim do den. Em uma das cavernas acima do lago, cacos de cermica se espalham pelo cho. Atravs de fotos, Magalhes contou que esses provavelmente datam de outra ocupao por grupos de nmades indgenas cerca de 500 anos atrs, antes da colonizao pelos portugueses. A caverna ser pesquisada este ano e no est marcada para destruio. Mas de 187 cavernas como essa em Serra Sul, 40 sofrero impacto irreversvel, disse Leonardo Neves, gerente de sustentabilidade ambiental da Vale. Magalhes e sua equipe pesquisaram e retiraram artefatos de cinco cavernas antes de elas serem colocadas abaixo. A Vale pretende compensar por cada caverna destruda preservando duas cavernas em uma rea similar vizinha chamada Serra de Bocaina. A equipe do Magalhes teria ainda que estudar qualquer caverna ali da regio. Mas encontrou traos de uma mina pr-histrica prxima a Serra Sul, onde rochas foram cavadas para gerar pigmento. A histria da regio, disse ele. Seu destino foi sempre a minerao.

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6Vale est certa? Vale est certa?A Vale extraiu 27,5 milhes de toneladas de minrio de ferro em Carajs entre janeiro e maro deste ano, uma alta de 17,8% na comparao com igual perodo do ano passado. A empresa produziu outros 37 milhes de toneladas em Minas Gerais, aumento de 4,9% em relao ao mesmo perodo de 2014 (somando 74,5 milhes de toneladas de produo prpria). Ambos os desempenhos so recordes absolutos para um primeiro trimestre na histria da mineradora, mas o feito de Carajs ainda mais destacado. e tambm foi recorde para um primeiro trimestre. Em seu comunicado, a Vale atribuiu esse recorde ao incio da produo da Planta 2 e de Serra Leste, ambas em Carajs, no sul do Par. Outro recorde foi na produo de cobre, de mais de 107 mil toneladas, crescimento de 21,1%, com destaque para a mina de Salobo, com 35 mil toneladas. Marca tambm alcanada na produo de nquel, de 69,2 mil toneladas, avano de 2,5%. Esses resultados mostram que a Vale continua a apostar no incremento da produo como forma de compensar a brutal queda de preo do seu principal produto, o minrio de ferro, que se desvalorizou 400% em relao cotao mxima alcanada nos ltimos anos, de 180 dlares a tonelada. A empresa no parece temer a formao de estoques nos pases compradores, sobretudo a China, como arma para manter os preos abaixo de US$ 40, equivalentes ao do incio da minerao em Carajs. Aposta na quebra de concorrentes, que no dispem de um produto to bom, a um custo de produo mais competitivo. Sobreviveria crise atual fortalecida na sua posio internacional. Se a Vale se diz segura, muita gente teme que essa seja uma cartada perigosa demais, sujeita a um risco que pode at comprometer o controle acionrio da companhia na hiptese de que suas projees no se realizem. Quem tem razo nesse confronto de posies? A opinio pblica no sabe. Est sendo mantida distncia dessa crucial questo.BNDES perdoa multa e MPF pede informao____________________ Os cachsO jornal O Estado de So Paulo revelou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social aprovou a alterao do contrato de nanciamento que assinou com o consrcio Norte Energia para no cobrar uma multa milionria, que a empresa teria que pagar por ter atrasado a obra da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par. O atraso de um ano em relao ao cronograma original, que previa o incio do funcionamento em janeiro deste ano. A multa podia chegar a 75 milhes de reais. Pelo contrato, assinado em 2010, o banco se comprometeu a nanciar 22,5 bilhes de reais dos R$ 28,5 bilhes do custo total do empreendimento, com juros favorecidos, um dos maiores da histria. At setembro do ano passado as liberaes alcanaram R$ 14 bilhes. No dia seguinte publicao da reportagem, o procurador Felcio Pontes Jr, Ministrio Pblico Federal em Belm, requisitou ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, cpias do termo aditivo ao contrato e os documentos que lhe serviram de suporte. Lembrou que o MPF est o nanciamento e no ano passado enviou informaes Agncia Nacional de Energia Eltrica sobre o pedido da Norte Energia para que no fosse punida pelo atraso nos cronogramas fsicos da obra. Para a Procuradoria da Repblica, no cabe perdo de multas e dvidas porque a prpria empresa a nica responsvel pelo atraso na emisso de licenas e autorizaes, por omisso ou inao em cumprir suas obrigaes. Pareceres de tcnicos da Aneel recomendam a aplicao de sanes, descartando os argumentos da empresa que atribuem a responsabilidade pelos atrasos no cronograma da obra ao poder pblico. A agncia, entretanto, ainda no decidiu a questo. Uma reunio marcada para decidir sobre o pedido no dia 3 de fevereiro no deliberou a pedido da Norte energia.Um leitor concordou com as crticas deste jornal s emendas parlamentares para a rea da cultura, na forma de cachs. Para ele, a soluo para o problema seria adotar o mesmo sistema da Unio: s aceitar emendas parlamentares para projetos includos no Plano Plurianual, o PPA (e cadastrados no sistema que processa o PPA e o OGU, o Oramento Geral da Unio). Assim, emendas em favor do Tonny Brasil ou do Festival de Msica Gospel s seriam aceitas se os respectivos projetos fossem includos pelo poder executivo no PPA e cadastrados no sistema que seria utilizado pelo executivo e pelo legislativo. Os mesmos deputados estaduais que faziam essas emendas e depois se elegeram deputados federais vo se enquadrar nas regras da Unio. Alis, j se enquadraram, porque com o atraso na aprovao do oramento deste ano, eles tiveram o direito de apresentar emendas parlamentares (os derrotados podem ter perdido suas emendas, o que o leitor no podia afirmar). Fica a sugesto para quem interessar possa.

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7Petrobrs: a corrupo demonstrada nas contas____________Li, durante trs dias, o balano de 2014 da Petrobrs, divulgado na semana passada, o mais esperado e polmico desses documentos em toda histria do Brasil. Talvez seja tambm o primeiro em qualquer lugar e em qualquer tempo a tratar de forma detalhada e longa do impacto da corrupo nas contas daquela que foi, at esse escndalo estourar, no ano passado, e corroer-lhe as nanas, a maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo. A estatal do petrleo admite que a corrupo, apurada pela Operao Lava-Jato, a obrigou a reduzir em 6,2 bilhes de reais o seu ativo, no que pode ser classicado como a maior corrupo j documentada na histria mundial. A leitura do balano no deixa dvida: as demonstraes nanceiras foram arrematadas s pressas, sem cuidado no acabamento e na argumentao, repetitiva e mal estruturada, para evitar o pior. Sem um balano auditado e aceito at o dia 30 de abril, 110 bilhes de dlares da dvida recorde da Petrobrs (de 351 bilhes de reais, 80% dela em moeda estrangeira) teriam sua cobrana antecipada automaticamente. A estatal brasileira quebraria. A auditora independente da Petrobrs, a PricewaterhouseCooppers, se recusou a assinar as demonstraes nanceiras do ltimo trimestre de 2014 se elas no inclussem os efeitos das fraudes investigadas na operao conjunta da Polcia Federal e do Ministrio Pblico Federal. O impasse durou quase um semestre e acarretou mais alguns bilhes de dlares de perdas para a empresa. Apesar do esforo de investigao, a Petrobrs admitiu na sua prestao de contas que no conseguiu identicar especicamente os valores de cada pagamento realizado no escopo dos contratos com as empreiteiras e fornecedores que possuem gastos adicionais ou os perodos em que tais pagamentos adicionais ocorreram. Com essa limitao, viu-se obrigada a desenvolver uma metodologia para estimar o valor total de gastos adicionais incorridos em decorrncia do referido esquema de pagamentos indevidos para determinar o valor das baixas a serem realizadas, representando em quanto seus ativos esto superavaliados como resultado de gastos adicionais cobrados por fornecedores e empreiteiras e utilizados por eles para realizar pagamentos indevidos. A empresa repetiu o procedimento dos investigadores da Lava-Jato: aplicou a taxa de 3% sobre o valor de cada contrato, conforme a indicao dos participantes do esquema em delao premiada. O resultado foram os 6,2 bilhes de reais lanados como baixa do ativo imobilizado. A apropriao era feita com base na supervalorizao dos contratos, criando um dinheiro extra, pago pela Petrobrs a empreiteiras e fornecedores, que o destinavam (atravs de vrios canais de vazamento por fora) a propinas pagas a trs ex-diretores e um executivo da Petrobrs, polticos e outros participantes da negociata. Havia duas frentes de corrupo. Uma era realizada atravs de um cartel formado pelas 27 empresas que tinham mais e maiores contratos com a estatal, intermediados pelos diretores, associados a representantes dos principais partidos polticos da base aliada do governo. Outra frente era de aes individuais, caso a caso, sem uma organizao fechada, como o cartel, tambm conhecido por o clube, com sede, rotina de funcionamento e tudo mais de uma autntica ma. O documento que materializa essa rapinagem voraz triste e vergonhoso, mas foi precipitada e falsa a reao da presidente Dilma Rousse, que acompanhou a prestao de contas dos dirigentes da Petrobrs, no Rio de Janeiro, no seu gabinete, no Palcio do Planalto, em Braslia.Apgina negra pode ser virada de fato se toda a engrenagem for reconstituda, desfeita e seus membros punidos. A presidente ajudaria a levar esse trabalho de prolaxia moral s ltimas consequncias se tivesse ido ao Rio presidir a sesso, conduzida com evidente constrangimento. No s pelo que a presidente como pelo que foi, como ministra das minas e energia e presidente do conselho de administrao da estatal, inclusive no perodo da ao do cartel, entre abril de 2004 e 2012. A pgina no foi virada, apesar da monstruosidade dos garranchos nela inscritos. H a sensao de que peixes muito mais grados esto escapando da rede lanada pelo juiz Srgio Moro, que cuida dos processos. Sua investida pode j ter passado do ponto mais alto e passar a inetir para baixo. Talvez por isso o juiz cometeu uma precipitao ao determinar a priso da cunhada do tesoureiro nacional do PT, Joo Vaccari Neto, com base numa prova frgil, a gravao de um vdeo que registrava a ida da cunhada ao caixa de um banco para sacar dinheiro, o que contraditava seu depoimento. Uma vericao mais acurada mostrou que a pessoa era a mulher de Vaccari, muito parecida com a irm. Os promotores do caso sustentam que apesar desse erro, a priso tem outros fundamentos, que demonstram a participao da cunhada do tesoureiro PT no esquema de desvio de dinheiro da Petrobrs. O episdio, de qualquer maneira, mostra que as prises dos implicados dispensam certas formalidades legais para serem usadas como meios de presso na busca por informaes que orientem as investigaes, j em estgio avanado, mas longe de estarem concludas. CONTA EM ABERTO O levantamento do prejuzo causado pela corrupo na Petrobrs foi apenas at 2012. Falta contabilizar os dois ltimos exerccios e acertar pendncias que caram em aberto, como a das aes propostas por acionistas nos Estados Unidos, recebidas e em instruo. Alm disso, o clculo sobre os nove anos abrangidos foi conservador. A explicao de que assim pode incorporar acrscimos claro, reduzindo, antes, o impacto que uma vericao rigorosa agravaria ainda mais. Certamente a empresa de auditagem no conseguiu concluir sua vericao, apesar do atraso de cinco meses na divulgao do balano, sequer aplicar uma metodologia rigorosa, compatvel com a situao das contas da Petrobrs. A dvida, a maior do setor petrolfero em todo mundo, vai cobrar caro da Petrobrs at pelo menos 2020, o horizonte de vencimentos mais crtico de parcelas medidas em dezenas de bilhes de dlares. A Petrobrs no ter caixa prprio capaz de honrar esses compromissos. Ter que se endividar ainda mais. S neste ano j foram mais R$ 30 bilhes, para poder continuar a trabalhar. Pagando mais caro para ter um dinheiro, agora arredio. Os personagens principais dessa histria deram sua contribuio para atenuar o enredo. Apresentado de forma realista, seria um choque na vontade nacional, um elemento poderoso a mais de descrdito e desestmulo para curvar o pas diante de uma crise cujo componente principal no externo, mas interno interno ao pas e quela que era, e j no mais, sua maior empresa. O presidente da Petrobrs, Aldemir Bendine, admitiu no ter clarividncia muito clara se a corrupo que vitimou a empresa foi de fora para dentro ou de dentro para fora. A confuso vernacular do cidado talvez o tenha impedido de ver essa dialtica mals de uma corrupo geral nas duas direes. O que ainda no se sabe qual delas foi a mais intensa. E onde esto os tubares escondidos por detrs da raia grada, mas, proporcionalmente, inexpressiva diante do volume da com perdo do leitor bandalheira devassa. Independentemente desta ltima certeza, no h dvida: um pas que foi submetido ao terrvel espetculo da apresentao do espantoso e ainda provisrio balano da Petrobrs, no voltar a ser o mesmo depois. Se voltar, no merece mais respeito, no vale mais a pena

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8Um jornalismo de verdadeEu visitei o lugar vrias vezes e, depois de meses vendo as provas espalhadas na cena do crime, de-cidi levar alguns fragmentos. Pelo menos trs deles estavam liga-dos a um mssil terra-ar, segundo espe-cialistas e analistas forenses. As vtimas vinham de vrios pases 196 eram holandeses, por isso o acidente causou grande comoo em meu pas. Os restos mortais desses passagei-ros estavam espalhados por uma rea de mais de 35 quilmetros quadrados e, quando cheguei pela primeira vez, as faces j haviam se colocado a postos para localizar os restos de corpos. No havia nenhum tipo de organi-zao, somente homens com armas de fogo. Mas ningum nos impediu de en-trar e gravar o que se chamou de a maior cena de crime do mundo. Havia restos mortais por todas as partes, o cenrio era desolador. Uma cena de guerra. Ningum parecia estar muito interes-sado em investigar o que havia acontecido; os restos da exploso caram mais de dois meses sem proteo no local onde caram. Na verdade, a entrada para a rea foi obstruda por barreiras que eram guar-dadas por rebeldes armados. Os investigadores holandeses chega-ram quatro dias mais tarde. No momento da chegada deles, bombeiros ucranianos j haviam recolhi-do a maioria dos cadveres e dos restos mortais que estavam ali e haviam colo-cado tudo em sacos plsticos, esperando um trem com vages refrigerados para transport-los. Mas a demora em apontar as causas do acidente causou grande frustrao. Em setembro de 2014, um relatrio pre-liminar indicou que o MH17 foi derru-bado por um grande nmero de objetos que atravessaram o avio em grande ve-locidade. No havia evidncias de erros tcnicos ou humanos. S que, trs meses depois do aciden-te, ningum havia recolhido destroos. No havia investigadores. Muito menos superviso policial. No incio de novembro, na minha terceira visita regio onde o MH17 caiu, tomei a deciso de procurar frag-mentos que no poderiam pertencer a um Boeing ou carga. Eu peguei 20 pe-as pequenas e suspeitas por ali. Minha principal suspeita foi um fragmento que parecia ser de restos de munio: oxidado, de metal pesado e com bordas aadas. Reconheci esse tipo de munio de outras regies blicas. Alguns dias depois que havia deixa-do a rea, os investigadores holandeses nalmente comearam a transportar as primeiras partes dos destroos de volta aos Pases Baixos. Tirar os fragmentos do pas foi um problema. Conseguir analis-los, foi outro. Havia duas possveis explicaes para a exploso do avio em pleno ar. Ele pode ter sido derrubado por ou-tro avio ou por um mssil terra-ar. Eu mostrei os fragmentos a vrios especialistas de diferentes pases. Todos descartaram a munio ar-ar. Ao menos trs peas que foram reco-lhidas no local teriam as marcas de um mssil superfcie-ar Eles estavam convencidos de que ao menos trs das peas que eu havia reti-rado do local tinham as marcas de um mssil terra-ar. Disparado de um lanamsseis BUK russo, talvez? A anlise forense de uma das peas revelou, nela, um inscrito em letra cir-lica (usada na graa de lnguas como o bielorrusso, blgaro, macednio, russo, srvio e ucraniano). A anlise desse fragmento meu principal suspeito revelou que era feito do tipo de metal usado na fabri-cao de msseis, com os tpicos danos de um fragmento metlico que atra-vessou outro objeto de metal em alta velocidade. Peritos forenses britnicos do IHS Jane identicaram o fragmento como parte de uma ogiva 9N314, arma dispa-rada por pelo menos um tipo de sistema de msseis russo BUK. O especialista em msseis da Alema-nha Robert Schmuker repassou todos os dados. Os dados, a velocidade, a altura e os fragmentos formam uma soma que leva a um mssil BUK, para mim matem-tica pura, ele me disse. A anlise vinculou os danos a uma ogiva 9N314, que pertence ao sistema de msseis BUK, de origem russa. Depois de quatro meses de investiga-o, pela primeira vez ramos capazes de apresentar ao pblico evidncias fsicas de um BUK. Mas necessrio dar passos maiores para descobrir a verdade do caso MH17. Quem responsvel? O caso ir para a Justia? Sinceramente, eu no seria muito otimista sobre isso. Mas ser que eu teria o direito de fa-zer o que z? A divulgao do meu trabalho gerou um debate pblico na Holanda sobre se um jornalista pode pegar provas da cena de um crime. Alguns disseram que sou um ladro rompendo as barreiras da lei. Eu vejo isso, no entanto, como uma obrigao jornalstica. A busca da verdade o meu traba-lho. Muitos concordam comigo. Um apoio inesperado chegou do vice-pri-meiro-ministro holands, Lodewijk Asscher, que disse em uma coletiva de imprensa: A RTL Notcias e Jeroen Akkermans so livres para fazer sua prpria investigao. Eu entreguei os fragmentos s auto-ridades holandesas. E eles faro parte da investigao ocial.Em julho de 2014, um Boeing-777 da Malaysia Airlines com quase 300 pessoas a bordo explodiu nos cus do leste da Ucrnia, uma zona de guerra entre separatistas e tropas nacionais. Dois meses depois, em um relatrio preliminar, foi revelado que o avio fora derrubado por um grande nmero de objetos que atravessaram a fuselagem. Mas as principais suspeitas, at hoje no confirmadas oficialmente, eram de que a aeronave tinha sido derrubada por um mssil. Essa verso parece ser confirmada pelas investigaes de um jornalista holands que teve acesso rea em que o avio caiu. Jeroen Akkermans relatou sua descoberta agncia de notcias da BBC de Londres. Reproduzo trechos do depoimento, por ser instrutivo para os jornalistas brasileiros e, em particular, paraenses. Mostra o modo de proceder de um jornalismo rigoroso e srio, mesmo e sobretudo ao tratar de um assunto rotineiramente abordado com impercia e sensacionalismo pela reportagem policial.

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9Demisses no grupo Liberal: a crise da imprensa paraenseO jornal Amaznia completou 15 anos de existncia no dia 19 com uma novidade: pela primeira vez o nome do diretor de redao, Antonio Carlos Pimentel, no apareceu no expediente da publicao. No cargo desde que o Amaznia comeou a circular e havia 28 anos no grupo Liberal, Pimentel foi demitido de sbito, 10 dias antes. Chamado ao departamento de pessoal, no foi avisado previamente nem recebeu a comunicao dos dirigentes da empresa, que presidida por Romulo Maiorana Jnior e tem como conselheiros apenas um dos seus seis irmos, Ronaldo Maiorana, alm de Joo Pojucam e Walmir Botelho. Com o afastamento do principal integrante da redao, o jornal cortou o maior salrio da folha de pessoal. Mas outros oito jornalistas teriam o mesmo destino no dia 20. Os cortes se restringiam ainda ao dirio mais novo da corporao, sem atingir, ao menos nessa primeira leva, O Liberal. Na sua pgina no Facebook, Antnio Carlos Pimentel informou sobre o seu desligamento das Organizaes Romulo Maiorana, empresa onde estive por 28 anos 13 na redao de O Liberal, como reprter, redator, editor-assistente e editor-executivo, e 15 como editor-chefe do jornal Amaznia, da edio nmero 1, em 10 de abril de 2000, at a de nmero 5.429, de 8 de abril de 2015. Pimentel agradeceu a colaborao de todos que passaram pelas redaes sob meu comando nessa difcil misso de fechar um jornal dirio. No deixou de se referir tambm aos diretores que conaram no meu trabalho, na minha dedicao e na minha lealdade por tanto tempo. Manifestou a esperana de que esse processo de reduo de quadro, sempre doloroso, seja passageiro e o menos traumtico possvel para os prossionais e suas famlias. Toro para que o jornal sobreviva crise. minha sada certamente sobreviver, graas competncia de uma equipe dedicada, sria e responsvel. Apesar das palavras de otimismo e de gratido do editor, o destino dos jornais do grupo Liberal comea a preocupar. O sindicato dos jornalistas declarou em nota que vem acompanhando, com preocupao, o desenrolar do processo demissionrio em veculos de comunicao. O contato direto com os trabalhadores vtimas dos cortes tem sido constante, com a disponibilizao de assessoria jurdica para a orientao e o possvel ajuizamento de aes futuras. Garante tambm seu acompanhamento em relao s demisses nas Organizaes Romulo Maiorana, atento a todas as manobras da empresa, que sob a justicativa de enxugar o quadro e reduzir custos, tem aumentado o ndice de desemprego, provocando a explorao e a sobrecarga de trabalho dos colegas de prosso que permanecem empregados, precarizando o mercado de trabalho. Alm disso, o sindicato formalizou, por meio de ofcio protocolado junto empresa, o pedido de reunio a m de obter explicaes acerca das seguidas demisses, bem como sobre as garantias aos trabalhadores que permanecero no emprego a m de evitar a sobrecarga de trabalho e explorao dos prossionais. Com as demisses, acrescenta a nota, o clima de tenso predomina nas redaes, prejudicando o desempenho dos trabalhadores, que cam apreensivos com o que pode acontecer ao chegarem para novo dia de trabalho. Essa tambm, uma perversa maneira de intimidar os jornalistas. DISPUTA INTERNA Os 15 anos do Amaznia no deixam de ser uma faanha. O jornal foi concebido para tirar leitores do maior concorrente do grupo Liberal. Com muitas cores, notcias rpidas, cobertura de polcia e esporte, mulheres nuas ou em trajes sumrios, colunas sociais, sees de entretenimento e formato de mais fcil leitura, realmente comeou a se estabelecer avanando sobre o pblico do jornal dos Barbalhos. Mas o Dirio fechou a porta ao manter o seu preo de um real nos dias de semana e dois reais aos domingos, metade dos praticados por O Liberal, e ter uma diretriz editorial semelhante do Amaznia, com um caderno inteiro de noticirio policial e outro de esportes. O efeito dessa concorrncia foi o crescimento do Amaznia custa do irmo mais velho, um indesejado efeito canibalesco, j agora, porm, inevitvel. Fechar o Amaznia pode ser perigoso, prejudicando ainda mais o jornal de maior prestgio da casa. Como o nico jornal liado ao IVC, o Dirio, no publica os dados do instituto sobre a vendagem, e O Liberal se desliou do mais importante rgo de aferio da vendagem de impressos (porque a manipulava escandalosamente), enquanto o Amaznia nunca teve auditagem, no se sabe ao certo quais as posies dos concorrentes. Mas levantamentos empricos do liderana ao Dirio e se dividem sobre quem o segundo, se o Amaznia ou O Liberal. Nos domingos, provavelmente, o segundo, por causa do alto preo do irmo mais velho. Como trs jornais dirios conseguem se manter num mercado pouco expressivo como o de Belm? Uma resposta pode ser extrada das pginas da edio especial de aniversrio do Amaznia: 17 delas eram anncios de rgos ociais: nove de prefeituras municipais (Belm e Ananindeua com duas pginas; Castanhal, Tucuru, Marab, Abaetetuba e Moju com uma pgina cada), quatro do governo do Estado, uma do Banco da Amaznia, Tribunal de Contas dos Municpios, da Assembleia Legislativa do Estado e da Cmara Municipal de Belm. Despesa que esses rgos fazem por imposio poltica ou presso direta do prprio veculo, na busca pela renovao de alianas oportunas para momentos necessrios, no para informar o pblico que, no Par, nesse quesito, tratado a po e gua, se tanto.

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10Cabanagem: uma revolta, mas no uma revoluoA Cabanagem foi o nico dos movimentos insurrecionais que alcanou o poder sem o recurso ao republicanismo ou ao separatismo, diz Manoel Maurcio de Albuquerque neste trecho, extrado da 2 edio de Pequena Histria da Formao Social Brasileira (Edies Graal, 1981, 728 pginas). Esse texto tudo que ele reservou para a insurreio que irrompeu em Belm, em 1835, mas a observao pertinente e constitui a contribuio original que ele deu compreenso desse acontecimento. a concluso de uma anlise comparativa rigorosa entre todas as vrias revoltas que marcaram a transio do primeiro para o segundo imprio no Brasil, com as regncias pelo meio. A formulao de Manoel Maurcio traduz a sua concluso de que faltou contedo ideolgico e poltico que daria cabanagem um sentido revolucionrio. Ela foi a exploso de uma revolta dos excludos do sistema dominante e dos explorados por ele que, no auge, se transformaria em um ajuste de contas de negros, ndios e caboclos contra os brancos, de nacionais contra reinis (portugueses ou mesmo brasileiros) e dos que nada tinham contra os que dominavam a economia local. Mas os cabanos no tinham qualquer programa de governo nem ideias a aplicar depois da tomada do poder. O historiador brasileiro cita uma frase, j tornada clebre, do alemo Heinrich Handelmann, que apreendeu o sentido mais profundo do movimento, ao declarar que a cabanagem foi uma guerra de ndios contra os brancos, dos destitudos de bens contra os que possuam bens. de certa forma perturbadora a circunstncia de que Handelmann fez suas anlises sobre a cabanagem sem ter vindo uma vez sequer ao Brasil. Escreveu sua histria quando tinha 33 anos, apenas 20 anos depois do fim da rebelio, em 1860, somente em alemo. A traduo para o portugus s foi publicada em 1931, por iniciativa do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Handelmann conseguiu tirar maior proveito da documentao original do que a grande maioria dos historiadores nacionais, talvez pela acuidade da pesquisa nas fontes primrias quando feita por autnticos historiadores. Essa capacidade permite uma viso mais profunda mesmo falta de matria prima historiogrfica em volume adequado, do que a cabanagem se ressente at hoje. Segue-se o texto de Manoel Maurcio de Albuquerque:Este movimento insurrecional localizou-se no Gro Par, designao que tambm compreendia o atual Amazonas. A Independncia no modicara a estrutura econmica nem as relaes de poder no Extremo Norte. O elemento portugus continuou dominante, quer no setor agroexportador, quer no controle do comrcio urbano. A maneira como se efetivara a incorporao da provncia ao imprio no satiszera os que se opunham aos representantes da antiga Metrpole aos nveis econmico e poltico. A abdicao de D. Pedro abriu um perodo de lutas em que os exaltados ou lantrpicos entraram em conito com os restauradores e moderados. A morte do primeiro imperador levou os caramurus a engrossarem as leiras dos moderados para se manterem no poder. Alm do conito entre o poder central e a oposio provincial, existe tambm na Cabanagem uma luta entre a Comarca do rio Negro e o Gro Par, desejando a primeira libertar-se da tutela de Belm, que concentrava a dominao econmica e poltica do Vale do Amazonas. A produo regional, baseada na grande propriedade agro -manufatureira e no extrativismo das drogas do serto, entrara em declcio a partir das reformas executadas sob a administrao pombalina. Essa decadncia agravara a explorao locais, indgenas ou caboclos, embora a escravido do ndio fosse proibida em 1755. Por isso, essas populaes marginalizadas intervm na luta com prticas que escapam direo dos chefes cabanos mas que expressam tentativas para encontrar solues para os seus problemas com certa autonomia. Da a violncia antilusitana e, ocasionalmente, antibranca de que se revestiram certos episdios da luta. Em sua Histria do Brasil, Henrich Handelmann apreendeu o sentido mais profundo do movimento: Todavia, essa feio primitiva apagou-se, quando os chefes da revolta chamaram s armas as populaes ndias meio selvagens, os tapuias (nomes locais dos caboclos) e a sublevao apresentou-se como uma guerra de ndios contra os brancos, dos destitudos de bens contra os que possuam bens. A insurreio iniciou-se em Belm com o assassnio do presidente da provncia e do Comandante das Armas. Tomando o poder, os cabanos colocaram na chea do governo Flix Clemente Malcher, que entrou em conito com outro dirigente rebelde, Francisco Pedro Vinagre. Assassinado Malcher, Vinagre ocupou a presidncia e o comando das armas. Um novo presidente nomeado pela Regncia Trina Permanente no conseguiu dominar a situao. Vinagre foi preso, mas a luta prosseguiu, inclusive com uma nova ocupao de Belm pelo cabano Eduardo Francisco Nogueira Angelim. Em 1836, Feij nomeou Presidente da Provncia e Comandante das Armas o futuro Baro de Caapava, Soares de Andra. Angelim foi vencido e preso, mas a luta prosseguiu ainda at 1840, quando ocorreu a derrota do movimento, sob a presidncia de Bernardo de Souza Franco, depois Visconde de Souza Franco. A Cabanagem foi o nico dos movimentos insurrecionais que alcanou o poder sem o recurso ao republicanismo ou ao separatismo.

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11 A participao popular, que foi to importante no momento, no chegou a control-lo a ponto de o transformar numa proposta revolucionria. A luta contestatria pde ser, assim, enfraquecida por recursos imediatistas, utilizados pela represso, como ocorreu quando Soares Andria buscou ampliar o exguo mercado de trabalho, entendendo corretamente que esta soluo era muito mais econmica e objetiva do que a violncia. Por outro lado, os setores proprietrios e comerciais recalcavam suas divergncias diante da possibilidade da Cabanagem alcanar uma dimenso incontrolvel. BIBLIOGRAFIA Destinado a ser um manual de histria sob uma viso crtica, com fundamento na teoria marxista, o livro de Manoel Maurcio oferece aos seus leitores uma bibliograa sumria comentada. Sobre a conjuntura que antecedeu a ecloso da cabanagem, como no podia deixar de ser, ele considera que ainda o melhor trabalho o de Domingos Antonio Raiol, o baro de Guajar, Motins Polticos, cuja edio mais recente, a segunda, publicada pela Universidade Federal do Par em 1970, clama por uma reedio. Suas indicaes: A objetividade crtica de Gottfried Heinrich Handelmann, Histria do Brasil, Rio de Janeiro, Instituto Histrico e Geogrco Brasileiro, 1931, no valorizar os determinantes sociais mais profundos da Cabanagem, no foi ainda aprofundada. Nlson Werneck Sodr, Caio Prado Jr. e Arthur Csar Ferreira Reis, embora aceitem, a partir de pressupostos metodolgicos diferentes, a tese de Handelmann, no chegaram a dedicar nenhuma obra ao movimento que conagrou o Vale Amaznico. A mesma insucincia bibliogrca prejudica o conhecimento da Balaiada, outra manifestao de base popular que se desenvolveu no Maranho. Ernesto Cruz se ateve principalmente aos aspectos polticos em Nos Bastidores da Cabanagem, Belm, 1942; h tambm bons subsdios em Jorge Hurley, A Cabanagem, Belm, 1936; Baslio de Magalhes, Estudos da Histria do Brasil, So Paulo, Companhia Editora Nacional, 1940.A voz de foraA corrupo na Petrobrs teria chegado ao estgio em que se encontra se no houvesse presso e cobrana internacional sobre a empresa? Este um dado novo imprevisto e desconsiderado do esforo feito pelo governo, principalmente nos oito anos da administrao Lula, de dar dimenso multinacional a algumas empresas selecionadas (ou privilegiadas) pela parceria ocial. Viciadas na dependncia de dinheiro pblico e assistncia governamental, elas no se prepararam para enfrentar o forte jogo competitivo internacional nem as formas de controle por outros governos no exterior, A revelao das fraudes nas contas da maior empresa brasileira provocaram a forte reao de seus investidores nos Estados Unidos, os detentores da parcela mais expressiva das aes preferenciais da empresa e de uma frao da sua dvida. Entre dezembro de 2014 e janeiro de 2015, cinco aes coletivas foram propostas contra a Petrobrs perante a corte nos Estados Unidos por pessoas ou entidades que compraram aes da empresa negociadas na Bolsa de Nova Iorque, ttulos de dvida emitidos pelas suas controladas em trs ofertas pblicas ocorridas nos Estados Unidos, aes da Petrobras no Brasil e tambm valores mobilirios da estatal brasileira nos Estados Unidos. O autor constitudo como lder das aes alega, dentre outros questionamentos, que a companhia, atravs de fatos relevantes e outras informaes arquivadas na SEC (a bolsa de valores americana), teria reportado informaes materialmente falsas e cometido omisses capazes de induzir os investidores a erro, principalmente com relao ao valor de seus ativos, despesas, lucro lquido e eccia de seus controles internos sobre as demonstraes contbeis e as polticas anticorrupo da Companhia, em funo de denncias de corrupo, o que teria supostamente elevado articialmente o preo dos ttulos da Petrobras. Adicionalmente, trs aes foram propostas por investidores individuais tambm em Nova York com alegaes similares quelas apresentadas nas aes coletivas. Estas aes individuais foram consolidadas em um nico juzo. Essas aes no especicam o montante do suposto dano e ainda esto em um estgio bastante preliminar. Por isso, ainda cedo para saber o peso da sua repercusso nas nanas da Petrobrs.

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12 MemriaSORVETERIAO leiloeiro Manoel Bouth oferecia para venda o prdio onde funcionava a Sorveteria Flor de S. Braz, na esquina da ento avenida Braz de Aguiar e a travessa Dr. Morais. O ponto, com terreno medindo 10 por 18 metros, era timo para edicao nova. E foi mesmo. Quem frequentou essa sorveteria, das muitas de que a cidade j no tem tanto?CAADADe um lado, a turma do Bacurau. De outro, o pessoal do Sabonete. Os primeiros eram policiais especializados em caar arrombadores. Os segundos eram os prprios, tambm especializados em fugir da polcia, embora sujeitos a temporadas no presdio So Jos (atual Polo Joalheiro). Era uma caada constante, em 1957, quando esse tipo de gatunagem raramente resultava em morte. O crime ainda engatinhava.JUTAOs oito scios acharam por bem recorrer a uma nota pblica atravs da imprensa para anunciar, em 1957, que constituram a rma Indstrias de Fibras Amaznia Limitada, com sede na Estrada Nova (avenida Bernardo Sayo). Seu objetivo era a explorao da indstria fabril da juta, malva e acima, alm de outras operaes lcitas convenientes aos interesses sociais. Os scios proprietrios daquela que viria a ser a Cata (Companhia Amaznia Txtil de Aniagem) eram Valdemiro Martins Gomes, David Lopes, Francisco Correia da Silva, Manoel Martins Nogueira, lvaro Domingues Correia, Germano Jos de Melo, Amlio Marques Paixo e Manoel de Oliveira Barbosa. A Cata seria a maior empresa do setor no Par.PALMEIRAOs produtos de pastelaria, doceria e confeitaria da Fbrica Palmeira no encontram rival no pas, garantia o redator da Folha do Norte, ao registrar o agradecimento do jornal pelo envio de uma coleo dos seus doces nos, constituindo um testemunho da sua alta capacidade industrial, em 1959. Atribua essa qualidade aos cuidados e mestria do conceituado tcnico Fenocchio, que deslocou a sede da sua atividade da Confeitaria Colombo do Rio para servir nossa grande Fbrica Palmeira, onde no se poupam esforos para manter o nome considerado e a fama de que goza. Quem provocou os produtos da Palmeira concorda: todos os adjetivos so merecidos.FREUDO centenrio de Sigmund Freud, o pai da psicanlise, foi comemorado em Belm, em 1960, um tanto estranhamente, pela Sociedade Paraense de Estomatologia (parte da medicina que trata das doenas da boca). No programa, uma palestra de cinco minutos que o professor Eldonor Lima deu atravs dos microfones da Rdio Clube do Par, a PRC-5, lder de audincia. PROPAGANDAObras da GualoEm 1962 a Construtora Gualo anunciava para julho do ano seguinte a concluso do edifcio Gualo, com 18 pavimentos, na avenida Presidente Vargas, de frente para a praa da Repblica, que comeou a ser construdo dois anos antes. Era o seu maior empreendimento imobilirio desde que se iniciou nesse ramo de negcios, vindo da construo de estradas de rodagem. Mas j prometia dar partida a obra ainda maior, com 20 andares, o Conjunto Guajar. No portflio do anncio, a Gualo exibia suas maiores realizaes, a partir do terminal do aeroporto de Val-de-Cans, em 1954: a sede campestre da Assembleia Paraense e a sede do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), atual Secretaria de Transportes, ambas na avenida Almirante Tamandar e os dois no estilo funcional. O vendedor exclusivo era o corretor Urubatan DOliveira.

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13 Cotidiano d oBELEZAEm 1962 a Cannes Cabeleireiros, que ficava na Assis de Vasconcelos, mandou buscar no sul do pas a Mme. Dorothy, a qual diplomada e autorizada por Dorothy Gray do Brasil, para executar o servio de limpeza de pele e maquilagem, atravs de modernos aparelhos. A esteticista atenderia exclusivamente com hora marcada. Era difcil e custoso fazer ento o que hoje est ao alcance em qualquer esquina da cidade.PSIQUIATRIAA Folha do Norte saudou a invejvel robustez fsica e mental consolidada nos anos de estudo e neo exerccio da clnica em que estava o professor Antnio Porto de Oliveira, catedrtico aposentado da Faculdade de Medicina, ao chegar aos 80 anos, em 1965. Baiano de nascimento, se formou em medicina no Rio de Janeiro, em 1909. Voltou ento ao Par, onde se estabelecera seu pai, o professor de matemtica Tito Cardoso de Oliveira. Especializando-se em psiquiatria, foi assistente de Juliano Moreira e interno do Hospital Nacional. Dirigiu por muitos anos o hospcio de Belm e foi professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina, da qual s se aposentou pela compulsria, ao chegar aos 70 anos. Chegou a militar na poltica, da qual se afastou com a revoluo de 1930, que extinguiu o seu partido, o Republicano Federal. Uma histria pioneira que merece ser lembrada.TELEVISOEm 1961, ainda engatinhando, a TV Marajoara (canal 2) tinha programao no sbado das 18 s 23 horas, mas que acabava mesmo s 10 da noite porque a partir da eram s imagens do dia, xas na tela. E o primeiro programa, Todos os Esportes (patrocnio da Importadora Braga), s vinha 40 anos depois da exibio do padro e da abertura. Seguiam-se Atualidades Artsticas (patrocnio da Radiolux), Patrulheiros Toddy, A vem o Circo (A Automobilista), Reprter Marajoara (Banco Comercial do Par), Sesso de Cinema, O Contador de Histrias (Victor C. Portela) e as Imagens do Dia (Banco Moreira Gomes e Importadora de Ferragens).CINEMAO consrcio Lvio Bruni, de atuao nacional, controlava em Belm os cinemas Moderno, Independncia, pera, Art e Vitria. Em 1962 solicitou COAP, rgo estadual que controlava preos administrados, o reajuste dos preos dos ingressos. Os que custavam 15 cruzeiros deviam ser majorados para 25 e os de 30 para 50. Inao alta ou grande cobia? Provavelmente as duas coisas. Cinema ainda era a maior diverso. Ou a melhor? FOTOGRAFIACultura vivaEm 1982, quando ainda tinha vida, o Conselho Estadual de Cultura homenageou o maestro Waldemar Henrique pelo seu 77 aniversrio, comemorado no Teatro da Paz, que ele ento dirigia. O homenageado aparece numa extremidade da foto, com a sua proverbial simplicidade, seguindo-se, encoberto, o ento governador Alacid Nunes, a professora Anunciada Chaves (presidente do conselho), o secretrio de turismo, Olavo Lyra Maia (e sua esposa, a pianista Lenita), o escritor Inocncio Machado Ceolho, o desembargador Slvio Hall de Moura e o mdico (e ex-reitor da Universidade Federal do Par) Jos da Silveira Neto. O conselho era acadmico e beletrista, mas funcionava e era ativo. Deixou uma lacuna, que podia ser preenchida pela sua reativao.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal LEIA E DIVULGUEJornal Pessoal Cach Leitor assduo do seu Jornal Pessoal e de outras publicaes suas, me causou surpresa a citao do nome da banda Orlando Pereira como se tivesse recebido 50 mil reais juntamente com a banda alternativa para tocar no carnaval da Fundao Tancredo Neves neste ano ( matria O dinheiro alheio, pg 7, JP n 582 da 1a quinzena de abril/2015). Da maneira como foi colocado, cou parecendo que recebemos 25 mil reais pelo show, o que no verdade. De acordo com o recibo anexo, nosso contrato foi de 8 mil reais brutos, que, depois de todos os descontos, sobrou um lquido de 5.800,00. No discuto se houve engano ou no nos valores que lhe foram informados pela sua fonte, quero apenas esclarecer a parte que me diz respeito at porque so raros os eventos contratados pelo Estado. A banda Orlando Pereira tem 74 anos de existncia, tem reconhecido valor pblico e fez seu trabalho com dignidade e prossionalismo. Fica parecendo pela matria publicada que houve ao entre amigos com o dinheiro do contribuinte no caso em tela, relacionada banda, que leva o nome do meu falecido pai, maestro Orlando Pereira. Defendo neste email o nosso trabalho, nossa honra e a correo do que nos foi proposto e pago pela fundao Tancredo Neves, conforme o recibo anexo, no entrando em maiores detalhes sobre os outros valores pagos aos outros prossionais, at porque no tenho ingerncia sobre todo o processo contbil e poltico. Em um evento como este existem outras despesas, s quais no tenho acesso e cabe Fundao Tancredo Neves responder e deixar claro a todos os seus leitores toda a logstica envolvida no evento contratado. Paulo Pereira MINHA RESPOSTAA informao foi extrada do Dirio Ocial do Estado, exatamente como foi reproduzida na matria. Tenho grande respeito pela longa e rara histria da banda, criada pelo maestro Orlando Pereira e mantida pela sua famlia. Sei que ela adota um padro prossional compatvel com sua reputao. Jornal A satisfao e o acmulo intelectual que decorrem da leitura integral do JP so estimulantes. Por isso, penso que a resposta instigao que as matrias do jornal trazem um dividendo que lhe cabe, e, sendo possvel, deve ser repassado, o que passo a fazer. Iniciei a leitura de um livro do socilogo polons Zygmunt Bauman que se chama Para que serve a sociologia? Dilogos com Michael Hviid Jacobsen e Keith Tester (Zahar, 2015). Esse livro resultado de entrevistas entre Bauman e estes dois outros socilogos, na qualidade de entrevistadores. Na introduo ao texto, eles identicam no trabalho de Bauman algo que me parece muito claro, desde que passei a ler, com alguma maturidade, o JP: a impregnao das tuas anlises pelo conceito de imaginao sociolgica, tal como o deniu Charles Wright Mills, extremando-o da ideia de sociologia, como cincia. A imaginao sociolgica assegura ao intrprete de fatos sociais que sua anlise alcance a aderncia entre a perquirio terica e a realidade social estudada, porque o socilogo se arma de dois aparatos: ele consegue ler a cena em que se desenvolve o fato e o fato lido, em si, como experincia isolada, para ao nal realizar a anlise conjunta dos dois dados. precisamente o que se d com as anlises da matria de capa desta edio (1 quinzena de maro de 2015), com a matria sobre a nota da Celpa em O Liberal, com o texto sobre as relaes entre Zenaldo e os Maioranas, mais marcadamente, mas tambm com as notas da Memria do Cotidiano, com texto sobre a enchente no Acre, com a matria sobre o cimento utilizado em Belo Monte. Em todos esses textos, o que se v so cenas da vida cotidiana, muitas delas disseminadas em mdias sociais as mais diversas, objeto de toda sorte de anlises, por acadmicos ou no. O que essas anlises podem no trazer, e certamente algumas adrede no trazem, exatamente o to planejado pelo socilogo norte -americano: estimular a percepo de quais sejam o papel e o signicado da experincia particular num cenrio mais amplo, instncias que estabelecem um intercmbio de informaes e sentidos que no so muita vez percebidos e apropriados pelos sujeitos a quem mais interessam ou impactam, mas que so seguramente apreendidos por uns poucos que detm poder, porque obtm informao e a ela do tratamento qualitativo superior. O que JP faz h mais de 27 anos justamente oferecer a seu leitor que, em p de igualdade com esses poucos, tenho acesso a essa compreenso qualitativamente elevada. Penso que esse importante instrumento de interpretao da realidade cotidiana sirva, em outro nvel, para compreender textos como os referentes Cabanagem, pois voc trata, ali, de por em dvida exatamente a leitura que se pretende fazer de um conjunto de fatos histricos que continuam a dizer muito sobre o dia a dia paraense, to bem retratado na matria de capa da edio. Finalmente, o texto sobre Eduardo Galvo mostra algo que se pode identicar na introduo do mencionado livro de Bauman: a produo e o exerccio do saber desvencilhados, no que possvel, das esferas de poder que tendem a coart-los, portanto, a identicar tuas prticas reexivas com o trabalho do famoso antroplogo do Goeldi, que no estando seduzidos pelo poder, viam-se iluminados e marcados pelo exerccio da imaginao sociolgica. Marlon Aurlio Tapajs Arajo CART @ S OMBUDSMAN/ BENEDITO CARVALHO FILHO Estranho capitalismo No n 580 do JP, do ms de maro, o jornalista escreveu sobre a nossa querida Belm do Par, uma cidade, como ele constata, pobre, mas que tem ilhas de riqueza de origem difcil de explicar. Em seguida, revela que esses osis so formados por uma economia subterrnea que s faz crescer, sombra da omisso do poder pblico ou de sua conivncia com uma prtica leniente e parasitria. Lembrei-me de ter lido nos idos de 1989 o trabalho de Hernando de Sotto que muito contribuiu para um melhor entendimento da funo das instituies polticas no crescimento dos setores informais, essa mistura entre legalidade e ilegalidade, a que se refere Lcio Flvio, onde aparece a venda de produtos roubados, a fraude e o contrabando, uma velha prtica muito conhecida no Par desde segunda metade do sculo passado, mas que agora assume novos contornos. Hoje, com a globalizao nestes tempos de capitalismo nanceiro, o Estado perdeu o controle dos uxos econmicos. O poder pblico no tem mais (se que algum dia teve) a capacidade de regulamentar esse mercado. As receitas que esse mercado ilegal controla so imensas e desconhecidas. Os oramentos dos Estados so innitamente inferiores ao que circula nesse mundo subterrneo, como nos mostrou o

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15incrvel livro do jornalista Roberto Saviano, no seu livro impactante chamado ZeroZeroZero editado pela Editora Cia das Letras. S no Mxico arma ele , o mercado das drogas movimenta hoje entre 25 a 50 bilhes de dlares por ano, e est corroendo a Amrica Latina desde seus alicerces. A crise econmica, as nanas devoradas pelos derivativos e pelos capitais txicos, o enlouquecimento das Bolsas em quase toda parte esto destruindo as democracias, destroem o trabalho e a esperana, destroem o crditos e vidas. Mas o que a crise no destri ao contrrio, fortalece so as economias do crime. O mundo contemporneo comea ali, nesse big bang moderno, origem dos uxos nanceiros imediatos. Choque de ideologias, choque de civilizaes, conitos religiosos e culturais so apenas captulos do mundo. Mas se olharmos atravs da ferida dos capitais criminosos dos cartis, todos os comentrios e as interpretaes da crise parecem se basear num equvoco. Esse poder, temos de olh-lo nos olhos, encar-lo bem para compreend-lo. Ele constitui o mundo moderno, gerou num novo cdigo (p. 42). Tanto Belm, com seus 1,4 milho de habitantes, quanto So Paulo, com quase 12 milhes de moradores, no podem ser entendidos somente pela grandeza e os limites de seus oramentos. Os gestores pblicos, por mais competentes e criteriosos que sejam, no so capazes de responder s demandas dos Estados, hoje cheios de problemas, que vo da educao e sade pblica at o saneamento. Isso sem levar em conta a corrupo, que, desde muitos anos, vem adquirindo uma magnitude impressionante, como estamos assistindo neste momento no pas. O exemplo mais emblemtico que presenciamos aqui no Amazonas, por exemplo, o que est ocorrendo no municpio de Coari, que, por ano, arrecada s em royalties da explorao de petrleo e gs R$ 90,2 milhes. Por ms so 16 milhes a 10 milhes de receita. Em alguns meses chega a 20 milhes mensais, como constatou um promotor pblico. E para onde vai esse dinheiro? Para a construo de hospitais, equipamentos mdicos, para o sistema escolar municipal? Neste momento a populao est indignada (e com razo) com a precariedade dos servios pblicos. 680 professores da rede municipal da zona rural esto sem trabalhar. No h dinheiro nem mesmo para pagar os combustveis, conforme informa o jornal A Crtica do dia 16 de abril. A suspeita que toda essa dinheirada est indo para os bolsos de polticos e os que esto nas bordas do poder. No de estranhar, como comenta Lcio Flvio Pinto, que os lhos dos que se enriquecem com o saque no errio pblico ou no lucrativo comrcio de drogas corram atrs dos sonhos de consumo, com suas motocicletas importadas, seus Porches e Audis carssimos e outros objetos de desejos. Temos uma classe mdia e muitos outros endinheirados que vivem numa ambiguidade irnica, como mostra o jornalista nessa reportagem, possuindo carros de Primeiro Mundo para rodar em uma metrpole de Terceiro Mundo, o que um paradoxo, no qual temos o contraste visvel no dia a dia da cidade: uma infraestrutura incapaz de atender a demanda que cresce, mesmo para os novos e deslumbrados ricos com seus sosticados veculos. E por que cresce? pergunta Lcio Flvio. E responde: Certamente em funo de ilhas de riqueza e ostentao. De onde vem o dinheiro que as forma e mantm? Essas e outras perguntas, tenho feito frequentemente aqui na cidade de Manaus, hoje experimentando uma exploso na construo civil, com o surgimento de condomnios fechados. Observo as estatsticas ociais sobre a distribuio da renda na regio metropolitana e as contas no batem e fao a mesma pergunta: de onde vem o dinheiro que as forma e mantm? Enquanto isso, os de baixo, como assim caracterizava os pobres o velho Florestan Fernandes, vo para o mercado informal, ou seja, para a virao e a clandestinidade, sob o comando das mas, que tem esquemas prprios de segurana, alm da cobertura policial e que entram, tambm, na virao. No possvel compreender a vida urbana num pas como o nosso imaginando que somente o Estado atue como sndico desse conturbado condomnio, principalmente nesse estado cartorial que temos hoje no pas, produto de nossa prpria formao histrica. Para quem deseja montar um negcio neste pas, o poder imensamente desigual, pois se, de um lado, temos grupos poderosos que agem atravs de uma economia paralela, com a cumplicidade dos agentes do Estado, por outro, temos os que lutam pela sobrevivncia embalados pelo sonho de consumo rpido e fcil. Crescer, car rico no Brasil, no necessariamente passa pelo trabalho duro e persistente. Quem j rico, o que mais deseja aumentar seu capital, nem que para isso tenha que burlar o sco, como acontece desde sempre no pas, como temos visto nas denncias recentes, segundo as quais os milionrios lavam dinheiro nos parasos scais. por isso que os donos de grandes empresas, como a Delta Publicidade, do grupo Liberal, permanecem impunes sob a proteo de um judicirio cmplice, como mostra a reportagem. Temos os ilegalismos, tambm, nas empresas de transporte coletivo de passageiros com suas receitas desviadas para um caixa dois, muitas vezes com a cumplicidade de muitos. assim que funciona a economia brasileira, fora das regras que o prprio capitalismo criou. Hedonismo, consumismo e um mais gozar para poucos e o desejo dos que querem, por todos os meios, entrar na festa do consumo, mesmo que seja de forma breve. verdade, o tamanho desse submundo gigantesco, no s no Par, mas em todo pases subdesenvolvidos, assim como nos bolses de misria criado no chamado primeiro mundo. Compreender as suas complicadas redes no to simples e, s vezes, pode ser perigoso. Por isso o medo dos que ousam dar os nomes aos bois, como esse economista citado, que conhece um pouco esse submundo e que prefere o anonimato.

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Viva Luis Trimano!Luis Trimano no tem lugar na grande imprensa porque um bravo. Alguns dos seus companheiros na arte da ilustrao e discpulo tinham da expresso bravo a interpretao de brigo, criador de caso, rebelde, que no se deixa enquadrar por chefes e patres. O que era entendido por defeito na verdade, virtude, como mostra a jornalista Elizabeth Lorenzotti neste artigo dedicado ao grande ilustrador da imprensa alternativa no Brasil, expurgado da grande imprensa. Beth, atualmente residindo em Minas Gerais, atuou em redaes de So Paulo e do Rio de Janeiro, onde conheceu Trimano e o acompanha at hoje com grande interesse e admirao. So tambm os meus sentimentos e de todos que admiram o grande artista.Eu o conheci quando foi fundado o jornal alternativo Opinio, editado por Raimundo Pereira no Rio de Janeiro, em 1972. Eu trabalhava como reprter, incio de prosso, na sucursal do jornal O Globo, em So Paulo, uma equipe das mais valorosas, e era nosso colega o tambm iniciante Cssio Loredano. Ele desenhava, conheceu o pessoal da Editora Abril via Elifas Andreato, colaborou para a coleo de MPB [discos da Msica Popular Brasileira, publicados junto com fascculos], onde tambm conheceu Luis Trimano, que se tornou o grande mestre de toda essa gerao que apareceu na imprensa alternativa porque nos jornais no havia espao para eles, como hoje. Apenas historias em quadrinhos norte-americanos. Loredano foi para o Rio, trabalhar com Elifas, o chefe de arte, Trimano e outros ilustradores. Foi quando conheci os admirveis desenhos desse argentino que veio para c em 1968, foi contratado por Claudio Abramo, na Folha, e se destacou na imprensa alternativa. E que, portanto brasileiro, como ele sempre diz. Eu cheguei aqui com 25 anos, tenho 72, meu trabalho foi todo feito aqui, ou seja, sou brasileiro mesmo tendo nascido em outro pas. Alm do mais, creio que ptria onde a gente vive e trabalha, armou. O Cludio foi quem me deu o primeiro trabalho no Brasil da ditadura, em 1968, na Folha de S. Paulo. O diretor de arte era o Zlio Alves Pinto, memrias sentimentais, me conta o artista via conversa virtual. Era 7 de abril, dia do jornalista, e eu me lembrava dos que me inuenciaram, famosos e annimos. Trimano disse: Como empregados de jornal no somos respeitados em absoluto, somos jogados no lixo com nosso trabalho. Os crpulas donos do jornal me tiveram por 10 anos na geladeira, para me pagarem uma grana miservel. E acrescentou: Se fosse por esses patres e pelos falsos amigos, poderia ter morrido na indigncia. No entanto, te chamam de mestre. Sim, Trimano um mestre, infelizmente sem o devido reconhecimento no seu meio natural, inicial, que foi a imprensa escrita. Por suas ideias e por sua coerncia, no existe mais lugar para ele. Enquanto isso, seus pupilos esto na primeira pagina de O Globo, nas pginas de Veja e etc. E ningum se rma na primeira pagina desses veculos durante dcadas sem vender a alma, isto certo. Uma vez, em uma exposio de desenhos de um desses discpulos para a grande imprensa, eu perguntei: Por que Luis Trimano no tem lugar na imprensa?. Me respondeu o discpulo: Porque ele muito bravo. Que continue sempre bravo Luis Trimano. Que dos 27 aos 72 prosseguiu coerente, mesmo vivendo com diculdades. No faz parte da turma que diz: preciso levar o leite pras crianas e por isso se vende. Muitos levam o leite para as crianas com diculdades, mas preferem assim. A integridade. No fcil, mas ainda existe. O editor deste Jornal Pessoal outro exemplo. Historias assim provam que no viemos a este planeta a passeio, que temos deveres a cumprir e ideias que no tm preo. E no toa, Lucio se lembrou de Trimano com o belo texto da edio 581: O desenho que Delm no pendurou na parede. Pura sincronicidade, porque eu sempre penso nesse episodio quando o nome Trimano me vem mente. Ele nunca foi ao palcio entregar seu livro de desenhos ao poderosos de planto, como aconteceu com outros desenhistas. Mesmo porque no se trata de desenhos diluidores, engraadinhos, aqueles que podem ser pendurados na parede para cultivar ainda mais o ego dos poderosos. Que ele tenha seguidores.