Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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POLTICAO choque na energiaPor que a Rede Energia pagou apenas 400 milhes de reais pela Celpa em 1988? Por que o governo paraense estabeleceu a maior alquota de ICMS sobre energia do Brasil? Por que a tarifa de energia no Par to cara? So muitas as questes. As respostas so esquecidas.O CACH DO ESTADOCABANAGEM ESQUECIDAJURUTI E ALCOA oa Privatizar monoplio no capitalismo signica reinventar o demnio. Foi o que aconteceu com o setor de energia. Um monoplio estatal se tornou monoplio privado. Reclamava-se de uma empresa estatal, como a Celpa (Centrais Eltricas do Par), por ser cabide de emprego, servir a jogos polticos, se tornar ineciente por causa da sua burocracia pesada e ter abundantes canais de vazamento de recursos, que induziam a corrupo. Duas empresas estatais, a Celpa e a Fora e Luz do Par, sucederam uma concessionria inglesa cujos servios, ao nal do contrato, eram to ruins que deixou de ser Par Eletric para se tornar Paraltica, na voz do povo. Era porque cava mais tempo parada do que funcionando. A Celpa absorveu a Forluz e, bem ou mal (mais na segunda situao do que na primeira), formou uma cultura tcnica sobre energia e atendeu a demanda da populao, ainda que de forma limitada, at ser vendida, em 1988. A primeira proprietria privada da Celpa, a Rede Energia, s sobreviveu 18 anos e repassou, falida, a antiga estatal. A condio da Celpa era to crtica que a oferta vencedora da Equatorial Energia se resumiu a assumir o passivo da Rede, calculado ento em trs bilhes de reais. E o pagamento simblico de um real.

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2Como que a concessionria conseguiu quebrar tendo um monoplio ao seu inteiro dispor, sem qualquer concorrente na distribuio de energia? Hoje sabe-se que a razo da runa foi o canibalismo: a Rede alimentou suas outras empresas desviando para elas o lucro obtido no Par, investindo o mnimo e sem se preocupar pela manuteno da qualidade do servio. O nal infeliz desencadeou outra reexo retroativa, sobre o preo que a Rede pagou para car com a Celpa. Os crticos da privatizao feita durante o primeiro mandato do governador tucano Almir Gabriel consideraram inexpressivos os 400 milhes de reais pagos. Outros, mesmo admitindo que o valor era aceitvel, no conseguem identicar os benefcios da aplicao desses recursos, que teriam seguido ao menos residualmente um destino poltico, para subsidiar a campanha de eleio do novo governador do PSDB. H os que apostam na hiptese de que o valor do leilo da Celpa foi baixo porque a diferena entre o preo pago e o real foi para algum caixa dois, enquanto o Estado se ressarcia da perda relativa xando no valor mximo nacional, de 25%, o valor da alquota do ICMS cobrado sobre a energia no Par. Uma fonte ligada na poca ao governo garante que se algum dinheiro circulou por fora na venda da Celpa, foi irrelevante para a deciso de aumentar as alquotas porque no impactava as nanas do Estado. Sustenta que na poca da privatizao nenhuma denncia desse tipo foi apresentada e as que so agora suscitadas no apresentam provas concretas sobre o que especulam. Continuam a ser interpretaes, no fatos. Os R$ 400 milhes arrecadados com a Celpa tiveram aplicao concreta e visvel, acrescenta a fonte: foi com esses recursos que o governo construiu a ponte estaiada sobre o rio Guam, a maior e mais cara da Ala Viria, ligando Belm ao sul do pas e ao distrito industrial de Barcarena. Essa ponte era a menina dos olhos do governador Almir Gabriel. Certa vez declarou que gostava de ver as luzes da ponte do seu apartamento, no alto do edifcio Alhambra, no bairro do Umarizal, o mais valorizado de Belm. Era a sua pirmide, observa a fonte, que prossegue na especio da aplicao do dinheiro: Uma parte desses recursos o governador queria usar para fazer a rotatria do Entroncamento, mas esbarrou no que ele chamava de burrice de Edmilson Rodrigues, prefeito de Belm. Uma pesquisa de marketing eleitoral indicou que o uso mais rentvel, eleitoralmente falando, era concluir o estdio do Mangueiro, e assim foi feito. Na opinio insuspeita e bem informada da fonte (que s se disps a falar protegida pelo anonimato, dadas as suas vinculaes), o Par trocou sua estatal de energia eltrica por uma ponte estaiada e a segunda banda do Mangueiro. Lembra que, na mesma poca, Minas Gerais, tambm governada por um tucano, Acio Neves, no seguiu a mar montante das privatizaes a privataria tucana e manteve o controle da sua concessionria, a Cemig, que se tornou uma das grandes do setor de energia no pas. Essa mesma fonte acha que um pano de fundo mais correto para relacionar venda da Celpa o que ocorreu na mesma poca com a Cerpasa, a fbrica de cerveja instalada em Belm na dcada de 1960, e que deveria ser uma das maiores contribuintes do ICMS. A polmica histria envolvendo a indstria comeou quando, em uma batida em busca de pagamento clandestino de salrios (caixa dois), representantes da Procuradoria Federal do Trabalho e da Polcia Federal encontraram documentos registrando a entrega de dinheiro para a campanha eleitoral dos tucanos. Os documentos apreendidos nessa operao que a sonegao da Cerpasa era to gigantesca que se a prpria empresa fosse vendida, no arrecadaria o suciente para quitar o seu dbito tributrio. A dvida era de quase R$ 47 milhes de ICMS atrasado e uma dezena de autuaes por fraude e sonegao. Mas se a empresa quebrasse, o Estado deixaria de recolher o dinheiro j sonegado, no teria mais a possibilidade de continuar a receber o imposto a partir da e ainda caria sem os empregos, reagiu o governador. Nesse momento, os dois contribuintes substitutos mais bvios para compensar a perda com a Cerpasa seriam a energia eltrica e a telefonia (o gs veio depois). Na cabea de Almir Gabriel a preservao dos empregos mantidos pela cervejaria justicaria a manobra, legitimando-a socialmente. O governo pode ento adotar a providncia que salvaria a Cerpasa: a iseno de 95% concedida com base na lei dos incentivos scais arrancada a custo (e que custo!) da Assembleia Legislativa, graas contribuio para a campanha que levaria ao governo o difcil candidato Simo Jatene, considerado pelo seu prprio padrinho, Almir Gabriel, como pesado de carregar (venceu a candidata do PT por 51% a 48%). Nove meses depois da posse, Jatene assinou trs decretos num nico dia, 29 de setembro de 2003, concedendo Cerpasa um desconto de 95% no ICMS devido ao Estado e prorrogando seus benefcios scais por mais 12 anos, ao lado de outras 37 empresas. O favorecimento direto foi disfarado atravs de uma poltica de incentivos scais feita sob medida para beneciar a cervejaria. A ento deputada estadual Araceli Lemos tentou impedir a aprovao da lei. Derrotada na Assembleia Legislativa, representou perante o Ministrio Pblico da Unio e a lei foi suspensa pelo Supremo. Mas tarde demais: o benefcio j fora concedido. A ao, porm, no seria esquecida. Na campanha seguinte, Araceli Lemos foi trucidada por Almir em Castanhal e em todos os redutos eleitorais dela, por ter representado contra a lei estadual, traindo os supremos interesses do Estado (tempos depois, os dois se aproximaram). O ICMS incidente sobre setores oligopolizados (como o da cerveja) ou monopolizados (combustveis, energia e telefonia) muito produtivo. Ele cobrado de um contribuinte substituto e muito mais fcil controlar poucos contribuintes substitutos do que milhares de contribuintes diretos. O que o governador Almir Gabriel fez segundo a fonte foi compensar as perdas com a sonegao de um contribuinte substituto (a Cerpasa) com o aumento das alquotas incidentes em energia eltrica, telefonia e gs (e seus respectivos contribuintes substitutos, a Celpa inclusive). Quando isso foi feito nem O Liberal nem a OAB, hoje em campanha contra a Equatorial Energia, apontada como a vil das tarifas elevadas de energia, disseram qualquer coisa a respeito. Se os fatos ocorreram dessa maneira, Almir Gabriel substituiu a Cerpasa pela Celpa, com os aplausos de O Liberal e o silncio da OAB e de seu atual presidente deram um pio, Jarbas Vasconcelos, que nessa poca era advogado do ento combativo Sindicato dos Urbanitrios, que representa os empregados da concessionria de energia. Por essa interpretao, a alquota do ICMS sobre a energia, que tornou a tarifa cobrada no Par das mais caras do pas, foi aumentada para cobrir o rombo deixado pela sonegao da Cerpasa resolvida com um acordo por fora, como dizem os frequentadores dos ambientes onde esses fatos se realizam. Em 1999 parecia que no seria assim. Foi quando o governo estadual props uma ao judicial contra a Cerpasa. A ao foi suspensa a pedido do prprio Estado.

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3 A poltica de Juruti e o dinheiro da AlcoaEm setembro de 2006 a Alcoa comeou a operar em Juruti, no oeste do Par, uma mina de bauxita compatvel com o seu porte de a maior produtora de alumnio do mundo. As jazidas de minrio existentes em trs plats somam quase 700 milhes de toneladas e constituem tambm um dos maiores e melhores depsitos de bauxita do mundo. O Par tem a terceira maior reserva mundial dessa commodity. A produo, que comeou com 2,6 milhes de toneladas, j de 3 milhes de toneladas por ano. No deve diminuir, apesar da crise atual do produto nal do ciclo, que o lingote de alumnio, porque a produo de alumina, o bem intermedirio, no baixou. Seu preo continua atraente porque h menos disponibilidade desse bem no mercado internacional do que do metal bsico. Para fazer o aproveitamento do minrio em local to distante do litoral e das melhores bases de apoio, a Alcoa construiu, alm das instalaes de beneciamento de bauxita, situadas a cerca de 60 quilmetros da cidade de Juruti, uma ferrovia de 55 quilmetros de extenso, na qual circula uma composio com 42 vages, cada um com capacidade para transportar 80 toneladas. O terminal porturio, a dois quilmetros do centro da sede municipal, s margens do rio Amazonas, tem capacidade para acomodar navios de at 75 mil toneladas, semelhantes aos que navegam no canal do Panam. Entre setembro de 2009 e dezembro de 2014, a Alcoa recolheu quase 55 milhes de reais em Compensao Financeira pela Explorao de Recursos Minerais (CFEM). O municpio ca com 65% desse valor, o que representou cerca de R$ 30 milhes para Juruti no perodo, ou R$ 500 mil por ms. H um processo em curso no qual o DNPM alega que o valor devido o dobro do pago. Devia ser recolhido no sobre o preo do minrio no porto de Juruti, que a origem, e sim sobre o colocado na Ponta da Madeira, em So Luiz do Maranho, onde a bauxita transformada em alumina pela prpria Alcoa. A empresa sustenta que faz o correto, segundo a legislao. Independentemente do resultado desse contencioso, graas minerao de bauxita Juruti se transformou na mais rentvel prefeitura do Baixo Amazonas, regio dominada pela inuncia de Santarm. Essa condio se materializou numa verso provinciana do famoso mensalo federal. Uma denncia em apurao pelo Ministrio Pblico sustenta que o prefeito Marco Aurlio do Couto estaria pagando um mensalinho no valor de R$ 2 mil em dinheiro vivo para literalmente comprar o apoio dos vereadores locais, a maioria deles do PT, que controla politicamente o municpio. A mensalidade incluiria ainda passagens, 100 litros de leo diesel e 100 litros de gasolina a cada um dos 13 vereadores. A transao vazou porque as parcelas atrasaram e os edis foram cobr-la pessoalmente. A conversa foi gravada e se tornou pblica. O episdio demonstra a necessidade de maior controle da administrao pblica pela sociedade para que os recursos criados pela extrao do minrio no sejam dilapidados ou desviados. A Alcoa mantm um programa com essa preocupao, os Indicadores Juruti, mas a iniciativa no parece ser suciente para atender da melhor maneira a comunidade. Recentemente, os ministrios pblicos federal e estadual apresentaram uma proposta oportuna: recomendaram a criao de uma fundao de direito privado para que os moradores de Juruti Velho, antiga Vila Muirapinima, recebam as compensaes pelos impactos da minerao. Lembra que a Alcoa de acordo com um Estudo de Perdas e Danos, deve indenizao em dinheiro comunidade, alm das compensaes ambientais. A indenizao deve ser paga em breve e o valor, ainda em discusso, ser repassado aos moradores de 45 comunidades que vivem s margens do Lago Grande de Juruti e do igarap Balaio, e so descendentes dos ndios munduruku, que antigamente viviam na regio. Os promotores de justia Raimundo Moraes e Lilian Braga e a procuradora da repblica Fabiana Schneider entendem que a melhor opo para gerenciar recursos de interesse coletivo a forma jurdica da fundao, entendida sinteticamente como um fundo destinado a um m. Recomendam que a Alcoa e a Associao das Comunidades do Lago Juruti Velho constituam a fundao com objetivos que j especicaram por escrito. Seu capital principal seria subscrito com o valor correspondente indenizao paga pela Alcoa, utilizando apenas os rendimentos para programas de interesse das comunidades impactadas pela minerao. Uma medida semelhante podia ser adotada para acompanhar a aplicao dos recursos da compensao nanceira pela prefeitura. Assim, seria possvel prevenir ou abortar mensalinhos em Juruti. O municpio merece destino melhor.O prefeito Marco Aurlio do Couto estaria pagando um mensalinho no valor de R$ 2 mil para comprar o apoio dos vereadores locais, a maioria deles do PT

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4Dinheiro pelo raloNas estatsticas que usou na sua apresentao ao Senado, o ministro Joaquim Levy retrocedeu, em geral, ao incio do governo Dilma Rousse, em 2011. Mas ao tratar das transferncias feitas pelo tesouro nacional ao BNDES, tomou como ponto de partida o ano de 2008, quando o valor foi de apenas 40 bilhes de reais. Em 2009, porm, ainda na administrao Lula, as transferncias da Unio cresceram para R$ 105 bilhes, patamar no qual se mantiveram em 2010. Baixaram para R$ 60 bilhes no primeiro ano de Dilma, seguindo nesse sentido nos dois anos seguintes (R$ 45 bilhes e R$ 41 bilhes). Em 2014, ano eleitoral, voltaram ao nvel do primeiro ano da presidente, R$ 60 milhes. A criao das multinacionais brasileiras, como a Friboi, custou ao caixa do tesouro, nesses sete anos de PT, R$ 426 bilhes, na forma de transferncia ao BNDES, o equivalente a quase 10% do PIB de 2013.Fundos errtico o destino do Fundo de Desenvolvimento da Amaznia, operado pela Sudam e o Basa. Em 2011 ele somou 405 milhes de reais contra R$ 494 milhes do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste. Subiu para R$ 1,6 bilho em 2012, enquanto o FDE desabava para R$ 194 milhes. Inverso em 2013: 518 milhes para a Amaznia e pouco mais de um bilho para o Nordeste, que passou a 2,7 bilhes no ano passado, enquanto ao FDA restaram R$ 131 milhes. No total dos quatro anos do primeiro mandato de Dilma Rousse, R$ 4,5 bilhes para o Nordeste e R$ 2,6 bilhes para a Amaznia. Recursos canalizados, sobretudo, para a infraestrutura. Melhor para o FNO, o Fundo Constitucional do Norte. Embora com a alquota xa de 20% (60% dos recursos vo para o Nordeste e 20% para o Centro-Oeste), o fundo amaznico recebeu R$ 7,3 bilhes no quatrinio de Dilma.Quadrilha na Receita Medida certaJ so bem visveis inltraes no palcio Antonio Lemos, sede da prefeitura e do Museu de Belm. O prdio chegou a uma situao lamentvel, anos atrs, quando passou por uma grande reforma. Se houvesse manuteno constante, os danos no evoluiriam. No evoluindo, porm, o servio seria de baixo custo. Parece que s os grandes oramentos interessam. Da a inrcia diante do avano do desgaste. Ter que atingir um ponto de interesse para quem gasta. Parece que atingiu: o governo anuncia a recuperao do prdio.Frase feitaH frases feitas sem sentido. Como a manifestao de psames sinceros e profundos. O segundo adjetivo tem sua razo de ser. O primeiro, no. H pesamos insinceros? Se h, no melhor silenciar do que mandar um telegrama com essa observao? No entanto, mesmo em momentos solenes ou graves, a frase repetida com a mesma desateno. Constou do telegrama de pesamos da presidente Dilma Rousseff ao governador de So Paulo, Geraldo Alkmin, quando ele perdeu o filho mais novo em um acidente de aviao. Em outubro do ano passado, Eduardo Cerqueira Leite, chefe de diviso da Receita Federal em So Paulo, conseguiu uma reunio com altos executivos do Bradesco, em Osasco. O fisco aplicara multa de trs bilhes de reais no banco, o segundo maior da rede privada brasileira. O servidor ofereceu seus prstimos para dar um jeito no dbito junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, rgo do Ministrio da Fazenda. Cobraria honorrios entre 1% e 1,5%. Na pior hiptese, faturaria R$ 30 milhes. Como o funcionrio conseguiria essa faanha? Graas formao de uma quadrilha, que pode ter desviado da cobrana pela Unio uns R$ 19 bilhes, apurou a Polcia Federal, na Operao Zelotes, desencadeada no dia 16 de maro em So Paulo, Cear e Braslia. A quadrilha tinha at uma tabela de honorrios, que podia ser fixa, indo de R$ 50 mil a R$ 500 mil, ou proporcional ao valor da multa submetida em grau de recurso ao Carf, de 1% a 3%. Considerando o que a polcia j apurou, a mdia dos 74 casos selecionados seria de R$ 260 milhes por recurso. Corrupo do tamanho da que est sendo investigada na Petrobrs. Ou maior, talvez. A histria pe em xeque a imagem de seriedade, honestidade e eficincia da Receita Federal junto ao pblico. Segundo um servidor, a instituio atingiu seu apogeu durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas tem sido esquecida desde ento. H uma dcada o salrio dos auditores no reajustado. As condies de trabalho se deterioraram. O que no justifica nem legitima a corrupo, mas pode ajudar a compreender o que se passa por trs das aparncias: a falta da ateno devida a uma tpica atividade de Estado, do mais alto interesse para a nao.

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5Por que no se matam presidentes no Brasil?O texto a seguir marca a estreia de Antonio Duval neste jornal (rima e uma soluo). Dentre outras qualidades, como se ver pelo que escreveu, ele tem a de ler muito e usar a leitura em proveito de uma posio irnica, sarcstica e muito criativa. Alm de corajosa.No h democracia no mundo que tenha tido mais presidentes assassinados do que os EUA. Estudiosos chegam a dizer que, justamente por causa dessas mortes, a democracia l indestrutvel. Estes so os mesmos que dizem que pases s atingem maturidade, independentemente de seus regimes, depois de enfrentar uma guerra. Citam o abundante sofrimento enfrentado por pases como Alemanha, Japo, Frana, Inglaterra e os prprios EUA, com sua sempre lembrada Guerra da Secesso, para chegar ao topo da civilizao. E o Brasil? Ser que no amadurecemos porque no matamos nenhum de nossos presidentes ou porque no entramos pra valer numa guerra? No vale contar essa guerra civil permanente que temos nas periferias ou mesmo no centro de nossas capitais entre tracantes e drogados inadimplentes ou entre grupos de tracantes, nem a tal guerra no trnsito em que motoristas bbados matam e aleijam impunemente. Por esse ngulo, estamos at bem de guerra, pois temos a guerra do trco e a do trfego, que parecem disputar palmo a palmo o maior nmero de mortos. Fora essas guerras, difcil a essa altura o Brasil entrar em uma guerra convencional, usando o peso de suas Foras Armadas. J somos decientes para guardar nossas fronteiras, imagine o pas inteiro. Para esse tipo de guerra melhor usar a velha diplomacia, anal somos bom de papo, no? Ser que se passarmos a assassinar nossos presidentes atingiremos a to sonhada fortaleza de nossas instituies, e, como aqueles pases, podemos ser top em civilizao? Sempre tomando como exemplo os EUA, a histria mostra que os presidentes l foram mortos por motivos ideolgicos. Alis, nem sempre. Os assassinos em geral eram politicamente contrrios ao pensamento do inquilino da Casa Branca. John Wilkes Booth era ator de teatro e contra a abolio da escravatura. No que Lincoln fosse a favor, mas, por via das dvidas, Mr. Booth achou melhor despach-lo, fazendo-o em 1865. Charles Guiteau, advogado americano, louco de pedra, disse que Deus o enviou para matar James Gareld, e o fez com eccia em 1881. Guiteau estava to empolgado com sua misso que percorreu o pas fazendo conferncias sobre a determinao divina. Foi a primeira vez no direito que se discutiu a srio a inimputabilidade de um doido varrido, mas o instituto no funcionou e Guiteau foi prestar contas com seu chefe. Depois de ser enforcado, claro. J Leon Czolgosz, assim como Booth, tinha motivos ideolgicos para livrar-se de William McKinley, pois era anarquista inveterado. Tirou a vida presidencial em 1901 e no mesmo ano foi para a cadeira eltrica. Mas o charme do acontecimento no foi a celeridade da justia americana e sim o registro em vdeo da execuo no assento de alta voltagem feito por no menos que omas Edison, ele mesmo, o inventor da lmpada eltrica. Mas o assassinato mais badalado do sculo XX foi sem dvida o de John Kennedy, cometido pelo marinheiro Lee Harvey Oswald, que unia loucura e ideologia, e at hoje desperta interesses. Uns dizem que Lee era comunista de carteirinha, outros que era um simples luntico complexado. Outros, ainda, citam-no como um mercenrio a servio da ma. O tiro que atingiu o presidente foi lmado de todos os ngulos ento possveis e sempre mostrado em reportagens televisivas e repetido em lmes que ainda especulam sua motivao. Mas a cena mais pungente do momento do atentado no foi a do tiro que jogou a cabea de Kennedy violentamente para trs. Foi a atitude da primeira dama que, num momento de desespero apaixonante, levanta-se e, ainda com o carro em movimento, tenta segurar os miolos presidenciais ento cuspidos da caixa craniana. Ainda os segurava quando chegou no hospital para onde Kennedy foi levado e os entregou a uma enfermeira que estava ao lado da maca em que jazia o presidente. O outrora odiado e hoje queridinho dos economistas Ronald Reagan sofreu um atentado poucos meses aps a posse, em 1981, em que teve o pulmo perfurado por um tiro disparado pelo tambm maluco John Hinckley, at hoje internado numa instituio psiquitrica. A justicativa do ento jovem delinquente para o ato extremo teria sido o amor no correspondido que nutria pela bela atriz Jodie Foster, ainda no armrio. Hinckley recentemente teria pedido para ser tratado em casa de sua disfuno psquica, o que as autoridades lhe negaram. O Brasil nunca teve uma galeria de personagens como essa. No seria honroso para o Pas que um nacional atentasse contra a vida da atual presidente. Apesar de todos os seus defeitos, entre eles ter sido do Conselho de Administrao da Petrobras na poca do golpe de Pasadena e quando o achaque petroleira virou clusula ptrea, no seria elegante torcer para que ela tivesse os miolos tirados do lugar por um rie, hoje seria fuzil, disparado por um doidivanas. Anal mulher, me, av e lutou contra o regime militar, tendo sido inclusive presa e torturada. Divorciada, no teria quem corresse atrs de seus miolos. Mas como o Brasil um pas que sempre surpreende, talvez pudssemos inaugurar a era de assassinatos de presidentes de outros poderes. Hoje os fortssimos candidatos a ter sua morte como contribuio a uma puricao institucional seriam os viles assentados nas presidncias das duas casas parlamentares, e, last but not least, o vagalume que atualmente ocupa o tapete do chamado quarto poder. Esses tm quem busque seus miolos.

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6 O 15 de maro (II)Orlando Sampaio SilvaH uma semana publiquei, neste jornal, sob este mesmo ttulo, um artigo no qual abordei um fato histrico importante, tal seja o aniversrio do m da ditadura militar. No nal desse meu texto anterior, prometi que, no artigo seguinte, eu transcreveria um testemunho de outra personagem dos acontecimentos, que exibem os fatos imediatos da passagem do governo militar para um governo civil, no dia 15 de maro de 1985. Segue-se a transcrio de um trecho do livro de autoria de Fernando Henrique Cardoso (o socilogo e ex -presidente da repblica) intitulado O Improvvel Presidente do Brasil Recordaes (Ed. Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 2014). FHC narra fatos dos quais ele foi testemunha e partcipe. Notar para detalhes desses acontecimentos que, nesta narrativa, apresentam diferenas e revelamaspectos insuspeitos frente apresentada por Jos Sarney, conforme meu artigo anterior. Lendo FHC: Desmoronei numa cadeira com o olhar xo naquelas portas de um branco impecvel, perguntando-me se o que restava de esperana democrtica no teria desaparecido por trs delas. difcil expressar com palavras a perplexidade que ento senti. Temia pelo personagem e temia pelo pas. Ns achvamos ter encontrado em Tancredo o homem ideal para sair da ditadura. Ele realmente era nico, um milagre, um estadista aceitvel tanto para os militares quanto para a oposio. E agora, na vspera daquela que deveria ser uma nova era, fora derrubado por uma misteriosa doena. Eu me perguntava, e no era a primeira vez em minha vida, se o Brasil no sofria de alguma terrvel maldio. Fui vagarosamente at a sala de espera no andar de cima. L se encontravam algumas das mais importantes guras da poltica brasileira, numa lgubre viglia. Jos Fragelli, o presidente do Senado, conversava sussurrando com Ulysses Guimares, presidente da Cmara dos Deputados. O general Lenidas Pires Gonalves, que acabava de ser nomeado ministro do Exrcito, estava a um canto, apoiando os comentrios com a cabea e com gestos. A certa distncia, parecendo deprimido, via-se Jos Sarney, que no dia seguinte devia tomar posse como vice-presidente de Tancredo. Sarney era um caso especial. Durante a ditadura, integrara foras polticas que apoiavam os militares. S recentemente se havia desligado do partido, e sua parceria com Tancredo nas eleies de 1984 fora das mais polmicas; destinava-se acima de tudo a equilibrar a chapa no sentido conservador para obter mais votos no Colgio Eleitoral. [Atentar para o detalhe conservador nesta preocupao a expressa.]Na poca, ns o aceitamos entre ranger de dentes, pois no Brasil tradicionalmente o vice-presidente no tem grande importncia institucional. Ningum imaginava que Sarney seria mais que um smbolo. Mas e agora?. Uma multido se aglomerava em frente ao hospital, numa viglia improvisada, e seu rudo melanclico ecoava pela sala de espera. Sarney acercou-se por um momento, ouviu a conversa e sacudiu a cabea. No tenho a menor inteno de assumir a presidncia. No vou assumir murmurou Sarney, como se falasse consigo mesmo. Algum aqui pelo menos sabe como ser a sucesso se Tancredo car incapacitado? Ns todos nos entreolhamos, dando de ombros. Ficamos remoendo a pergunta por algum tempo, mas no chegvamos a uma concluso sobre o que dizia a Constituio. Como Sarney ainda no prestara juramento como vice-presidente, havia quem achasse que o presidente da Cmara Ulysses era o prximo na linha sucessria para a presidncia. O que, no entanto, poderia representar um grave problema, pois Ulysses h muito era um implacvel crtico da ditadura. Havia a possibilidade de que os militares no o aceitassem na presidncia. [Veja-se o poder dos militares, ainda; os lderes civis os temendo.] Estvamos absolutamente perplexos. Finalmente, desistimos, decidindo consultar aqueles cuja opinio era de qualquer maneira mais abalizada. Enquanto Sarney permanecia a espera de notcias de Tancredo, Ulysses, o senador Fragelli, o general Lenidas e eu samos pela porta dos fundos do hospital, esquivandonos multido de reprteres. Entramos no sed do general e zarpamos pelas ruas de Braslia. Depois de cruzar no poucos sinais vermelhos, chegamos casa de Joo Leito de Abreu, chefe de gabinete de Figueiredo, o presidente militar que passaria o cargo. Leito de Abreu era o principal jurista e coordenador poltico do governo, e achvamos que seria o mais indicado para nos esclarecer ao mesmo tempo sobre as questes jurdicas envolvidas e a realidade poltica vale dizer, o que os militares estariam ou no dispostos a aceitar. [Note-se: os lderes do sistemademocrticoa ser implantado reconhecendo e aceitando que cabia aogoverno militar a deciso sobre quem deveria governar o pas aps a ditadura militar!] Leito de Abreu veio a sala de terno preto, esfregando os olhos. Olhava para ns como se fssemos um bando

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7de crianas barulhentas que acabava de acord-lo. Que desejam? Havia na casa um nico exemplar da Constituio, um livrinho surrado de letras to midas que mal parecia legvel. Enquanto a noite avanava, cada um de ns lia e relia o documento nos mnimos detalhes, com os olhos vermelhos de cansao e estresse. O general Pires Gonalves e eu no ramos advogados nem tnhamos conhecimento de direito constitucional, de modo que basicamente ouvamos enquanto Ulysses, Fragelli e Leito de Abreu discutiam a questo. Para surpresa nossa Ulysses argumentava calorosamente que o cargo caberia ao vice-presidente eleito, Sarney. Era o contrrio do que eu esperava, pois Ulysses nunca zera segredo do seu desejo de governar o Brasil. Mas a suposio crucial era que Tancredo se recuperasse; nenhum de ns podia imaginar seno uma presidncia interina. Ulysses considerava que no fazia sentido pr em risco a democracia ocupando a presidncia por breve perodo.[Ainda o medo dos militares!]Com o passar das horas, convencemo-nos de que era o melhor a fazer. Nada disso foi dito abertamente. Os argumentos eram jurdicos e foi na exegese da Constituio que Ulysses nos convenceu de sua interpretao. Estamos ento de acordo? perguntou Leito de Abreu, satisfeito. Ns assentimos, despedimo-nos e samos exaustos de sua casa s trs da manh. Ainda no sabamos, mas acabvamos de decidir o futuro do Brasil. Algum de ns ainda perguntou se o presidente Figueiredo passaria a faixa ao sucessor. Leito de Abreu respondeu rpido e lacnico: Um presidente s passa a faixa a outro presidente (pp. 194-197). Os lderes civis, temerosos da reao dos militares, em pleno processo de reconquista da democracia, consultaram o poder vigente sobre qual civil poderia assumir a presidncia da repblica. Mesmo estando participando das aes para pr m ditadura militar, achavam que o presidente civil deveria merecer a conana dos militares. Processo negociado. No havia restrio do sistema posse de Sarney. Estava decidido como seria a histria...O dinheiro alheio O m do HiltonFoi denitivamente formalizada a dissoluo da sociedade entre um grupo empresarial paraense e a Hilton Internacional com a publicao no Dirio Ocial do Estado, do dia 7, da ata da assembleia geral extraordinria da nova empresa, que passou a se chamar apenas Belm Hotis e Turismo. O hotel deixou de ser Hilton, recebendo o nome de fantasia de Princesa Lou. Na assembleia foi aprovado o balano de 2013, com a ressalva de que esto sendo procedidas vericaes nas contas especcas na operao do hotel Belm Hilton, de propriedade da companhia e organizado como sua lial, face s despesas corporativas, cujas faturas foram emitidas pela prpria administrao do hotel e imputadas contra o Belm Hilton, onerando os seus resultados. Os integrantes do conselho acrescentaram que os autos da ao movida contra o Hilton Belm contm a prova pericial que conrma as reclamaes apontadas. Por isso, a aprovao das contas deveria ser procedida considerando a ressalva apresentada, cando pendentes de aprovao as contas em vericao. Depois desse nal litigioso, e ainda em curso, os Carneiros e os Coelhos so os nicos donos do hotel. A Fundao Cultural do Estado do Par substituiu a Fundao Cultural Tancredo Neves na reforma administrativa promovida pelo governador Simo Jatene, mas herdou uma prtica que devia ter sido abolida na mudana: a destinao de cachs artsticos segundo determinao feita por deputados atravs de emendas parlamentares. O dinheiro sai dos cofres pblicos e vai parar em bolsos particulares sem qualquer critrio denido ou sem se submeter a um rgo colegiado. O compositor Nilson Chaves, o ltimo presidente da extinta fundao, se justicava alegando ser mero repassador de recursos, que j chegavam carimbados pelos parlamentares atravs das suas emendas. Mas ele como, agora, a artista Dina Oliveira era o ordenador da despesa, o responsvel legal pela sua correta aplicao. Se o dirigente da entidade no pode impedir a execuo da ordem (no pode mesmo?), pode se resguardar. No s funcionalmente, pela lisura no uso do dinheiro do povo, como para dar uma diretriz cultural ao ato. Todos os cachs so pagos com inexigibilidade de licitao. Teria que haver um processo pblico para fundamentar essa liberalidade. Alm disso, a inexigibilidade se deve condio nica (e, por isso, de reconhecido valor pblico) daquele a quem benecia. Exemplos: quem Antonio Luz do Carmo Conceio, o Tonny Brasil, para receber trs mil reais por sua apresentao em dois dias da malhao de Judas em Belm? Ou as bandas Levitas, gape, Acordes de Sio, Som do Cu e Dilea Maia, que receberam R$ 43,6 mil por sua participao no II Festival de Msica Gospel, por trs dias, em Xinguara? Ou por que pagar R$ 50 mil para as bandas Alternativa e Orlando Pereira tocarem no carnaval deste ano? Dina Oliveira, que respeitada e admirada, podia propor a regulamentao dessa ao entre amigos com dinheiro do contribuinte para que o Estado, e no apenas os felizardos pelas emendas parlamentares, fosse beneciado. Do contrrio, os recursos continuaro a escoar pelo ralo da conivncia ocial.

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8Caixas pretas PT issoA Secretaria de Defesa dos Direitos Humanos, vinculada Presidncia da Repblica, tem sido usada pela presidente Dilma Rousse para colocar seus aliados quando precisa desaloj-los de outros lugares, informa a agncia de notcias da Folha de S. Paulo. Foi o que aconteceu de novo na semana passada. A presidente tirou Ideli Salvati, do PT, da secretaria para colocar no seu lugar Pepe Vargas, tambm do PT, que foi substitudo (sem sequer ser informado previamente a respeito) na coordenao poltica do governo pelo vice-presidente Michel Temer, do PMDB. O cargo to importante que Pepe, aodado, anunciou publicamente sua nova posio antes que a presidente pudesse comunicar o remanejamento prpria Salvati, que costuma (ou costumava) ter pavio curto. Por isso, o novo secretrio teve que suspender por trs horas o anncio (ou desanunciar) at ser liberado pelo Planalto. PT era isso na oposio: um partido que ia fazer valer os direitos humanos. No poder, o lugar virou cabide.O Yamada fundadorConversei mais longamente uma nica vez com Junichiro Yamada, que morreu no dia 3, aos 89 anos. Um amigo, Bernardo Lerer, me pediu para entrevistar o maior vendedor de mveis do Norte e Nordeste para uma revista do setor que ele editava. Ao me receber, a primeira pergunta do entrevistado foi sobre o preo da matria. Disse-lhe que era de graa, tanto para ele como para mim, que dispensei o pagamento de Bernardo. No acreditou muito no incio. Depois, relaxou. Enquanto conversvamos, ele despachava e ainda recebeu dois clientes do credirio. Durante muitos anos Junichiro fez esse controle corpo a corpo, olho no olho, para surpresa e honra dos clientes, quase sempre de baixa renda, que precisavam contar o dinheirinho para manter as parcelas em dia. Toda deferncia no contato direto e rigor prussiano na recuperao dos bens vendidos se a inadimplncia estourasse o limite acordado. Foi a chave para o sucesso do primeiro credirio do comrcio de Belm, iniciado em 1955. Hoje o carto de crdito diz ter dois milhes de usurios cadastrados. Se o saldo acumulado, sem as depuraes do tempo, talvez seja crvel. Mas no como ativo em uso. impossvel. De qualquer maneira, a venda a crdito, em parcelas to longas que o pagador perde a viso do tamanho da dvida, foi um dos grandes feitos de Junichiro para o grupo Yamada, o lder do varejo no Par e um dos grandes na regio e no pas, vendendo mais juros do que produtos. A voz mansa, o olhar projetado alm do interlocutor, falando pausadamente e sugerindo mais do que dizia, Junichiro conversou amavelmente comigo. No nal perguntou se era verdade que eu tinha escrito na minha coluna em O Liberal contra a Yamada e o artigo no saiu. Neguei. Ele riu e entendeu, sem precisar acrescentar mais nada. Junichiro reunia em si as qualidades do oriental adaptadas ao cenrio amaznico, um caboclo com razes mais longnquas. No surpreende, assim, que montou seu imprio enfrentando imprios de outros caboclos, de razes mais prximas. Uma parte da histria recente dos negcios no Par foi escrita por poucas mos por eles. Uma histria ainda em busca de um autor. O senador Ronaldo Caiado no merece muito crdito, mas as trs CPIs que ele est tentando criar seriam de extrema utilidade para a limpeza do pas: uma sobre o BNDES, outra sobre os fundos de penso e uma terceira a respeito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministrio da Fazenda, local do mais recente dos grandes escndalos brasileiros. Todos trs so caixas pretas, blindadas com muito dinheiro pblico. Em quatro anos, o tesouro nacional transferiu mais de 400 bilhes de reais ao BNDES. Parte desse dinheiro foi mal aplicada, outra parte no retornar e em muitos casos se desconhecem os critrios de seleo dos benecirios. J os fundos de penso movimentam bilhes de reais de seus associados com uma liberdade (e liberalidade) incompatvel com a natureza da sua funo. Transformaram-se tambm em instrumentos de poltica paralela. A CPI do BNDES estava com suas 27 assinaturas mnimas garantidas para sua instalao, mas seis senadores voltaram atrs. Dentre eles, Fernando Ribeiro, em nome de Jader Barbalho, do qual suplente, o que at se entende, pela relao do senador com o governo federal; e Fernando Flexa Ribeiro, do PSDB, j a de forma surpreendente. Essas caixas pretas vo continuar lacradas?

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9CABANAGEM/180 ANOSMonumento abandonado e esquecidoPerguntaA ONU se empenha em combater a criminalidade preventivamente, atravs de aes sociais, alternativa para a ao repressiva, posterior prtica dos crimes e baseada na violncia. O governador Simo Jetene foi convidado a apresentar a experincia do Par nessa rea em Doha, no Qatar, e em Cambridge, na Inglaterra. A ida Doha acabou cancelada ltima hora. O Liberal, que apregoa as virtudes reais ou ctcias do governo tucano, lutar pela instalao em Belm da Universidade Mundial de Desenvolvimento e Segurana Social, usando como instrumento de convencimento o Propaz. Mas porque o programa eciente mesmo ou porque quem o comanda sua lha, Izabela, que ele transformou recentemente em secretria extraordinria do Estado? O que tem prevalecido no Par o confronto direto entre a polcia e os criminosos e destes com a populao, transformada em sua vtima. No por acaso Belm uma das cidades mais perigosas do mundo. Com a contribuio da poltica ocial de segurana pblica, em suas diversas modalidades. O ponto alto da comemorao do sesquicentenrio da cabanagem, em 1985, foi a inaugurao do memorial em homenagem grande revolta social irrompida em Belm, em 7 de janeiro de 1835. O governador Jader Barbalho e o historiador Carlos Rocque, integrante da sua equipe, conseguiram arrancar do arquiteto Oscar Niemeyer um esboo do monumento, de 15 metros de altura por 20 de comprimento, todo em concreto, instalado no entroncamento da capital paraense. A construo composta por uma rampa elevada em direo ao cu com uma inclinao acentuada apontando para um ponto sem m, tendo no meio uma 1fratura, um pedao do monumento que jaz no cho, de acordo com a explicao ocial. Essa ruptura com a continuidade histrica seria a cabanagem. Os 30 anos de existncia do monumento foram completamente ignorados, inclusive por seus patrocinadores. Desde ento, a circulao no complexo virio do entroncamento se intensicou. Quem passa por ali mal percebe o monumento e raramente capaz de interpretar o seu signicado. Ficou sendo um bloco de concreto no meio do caminho. O museu est fechado visitao pblica h bastante tempo, vedado o acesso ao interior da cripta dos heris da cabanagem por uma parede de tijolos. Por fora, o monumento abandono, maus tratos e objeto de vandalismo. Virou propriedade de um grupo de moradores de rua. No ser surpresa se algum sugerir a demolio da construo. Talvez ela se salve por ser a nica obra de Niemeyer no Par. Mas preciso que alguma autoridade se disponha a redenir o entorno do monumento, agora cercado por outras obras de concreto, totalmente incompatveis com ele, para que no seja tido apenas como um estorvo para a circulao dos carros e um depsito de mendigos, vagabundos ou criminosos. A funo museolgica, porm, ter que ser instalada em outro local, mais apropriado. Naquele ponto de intenso trfego, cercado por todos os lados, impossvel. Volto a sugerir que o centro de memria da cabanagem seja instalado na antiga residncia do mdico Deoclcio Correa, na praa de Nazar, a mais bela construo de toda a rea, ou no casaro onde moraram as professoras de histria e geograa Maria Anunciada e Paula Chaves. Nenhum eco para esse apelo? O Dirio do Par deve ria apoiar um movimento com esse objetivo, em funo da participao do seu proprietrio na histria. A sociedade de maneira geral devia se interessar pelo tratamento desrespeitoso e negligente que d s tentativas de xar sicamente acontecimentos importantes no espao urbano. sintomtico que o abandono seja o destino cruel da cabanagem tanto quanto o monumento a Magalhes Barata. Independentemente do juzo sobre o signicado do caudilho na repblica paraense, sua presena um fato acima das controvrsias apaixonadas em torno do seu nome. Em dois extremos da mesma avenida, a Almirante Barroso, cabanagem e Barata so testemunhos da dissociao entre o povo e a sua histria, separao incentivada por suas pssimas elites dirigentes.

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10Na matria que escrevi sobre meu tempo de estudo no colgio do Carmo, z referncia ao meu amigo mais constante nesse perodo, o Chico (mais a presena do Agostinho e do Jair na formao de um quarteto do barulho), que foi tambm um dos alunos mais brilhantes entre todas as turmas. Francisco de Assis Toshio Ichihara era o nome completo desse nissei, que nasceu em Capanema em 3 de outubro de 1949. Estudou o primrio no colegio So Pio X, de Capanema mesmo, at 1960. Veio para Belm para estudar o ginsio no Carmo, em 1961. Fez vestibular para medicina em 1968 na UFPA, concluindo o curso em 1973. Em 1974, recm-formado, foi trabalhar em So Paulo, onde cou at morrer, em 2009, antes de completar 60 anos. Trabalhou na Petrobras, em Cubato, at se aposentar, e na Delegacia Regional do Trabalho paulista por muitos anos. Deixou viva Shirley Heldt Ichihara e uma lha, Tomie Heldt Ichihara, tambm mdica, radiologista, j casada. A propsito da referncia, Ambrzio Hajime Ichihara, irmo mais novo de Chico, mandou esta mensagem: O Chico, meu irmo mais velho, estudou no Carmo, a partir de 1961 em diante, para iniciar o curso ginasial. Vindo de Capanema, veio morar na casa do tio Joo, irmo do papai, localizada na 25 de Setembro, bem longe do Colgio do Carmo. No inicio, sem conhecer a cidade e ainda sem amigos, por um motivo que no lembro mais, teve que ir andando do Carmo para casa. Veio pelo caminho mais longo, porm, conhecido: o trajeto da linha do nibus que pegava todo o dia. Tinha 11 anos. Uma criana, mas sempre foi danado. Saudades dele. O burro e MalufPaulo Maluf estaria disposto a desistir de se apresentar mais uma vez como candidato a prefeito de So Paulo na eleio do prximo ano. No por falta de sade, que a sua, diz ele, est tima, mas porque a cidade precisa de um prefeito mais jovem. No entanto, se passar o burro arreado na minha frente, posso colocar o p no estribo, disse ele a Mnica Bergamo, colunista da Folha de S. Paulo. Como todos sabem, o ditado popular se refere a cavalo. Mas, convenhamos, no caso de Maluf, o burro, simbolicamente falando, mais pertinente.EnsinoO professor da rede pblica de ensino no Brasil ganha 6% a mais do que a remunerao paga pela rede privada, segundo levantamento feito pelo jornal O Globo. Ento os professores pblicos, que vivem em greve, esto reclamando de barriga cheia? No exatamente: que o nivelamento feito por baixo e os valores no asseguram uma formao adequada nem um exerccio minimamente eciente do ensino. Prova disso que o Par paga o 5 maior salrio nacional e a educao no Estado uma calamidade. Roraima, terceiro colocado, abaixo apenas do Distrito Federal e Gois (talvez pela proximidade da burocracia federal), paga mais na Amaznia.Jorge MorgadoComo nunca fui bom em matemtica, exceto pela lgebra da segunda srie ginasial, tinha que recorrer ajuda extra de um professor particular. O melhor de todos foi Jorge Morgado, que morreu na semana passada. Ele dava aulas na rua Doutor Assis, na Cidade Velha, nos altos de uma fbrica de sapatos da famlia. Para alcan-lo, era preciso subir uma escada ngreme. As instalaes eram espartanas. Mas a aula era fascinante. Jorge tinha cabea de um verdadeiro matemtico. Depois nos desligamos. S fomos nos reencontrar no entra e sai da sala do Albano Martins, que ele frequentou mais intensamente quando lanou seus dois livros sobre matemtica nanceira. Fiz um comentrio neste jornal, que ele valorizou com sua recepo. O que devia ser destacado mesmo eram as duas publicaes, simples na aparncia, exemplares no contedo. Sou grato a essa pessoa. Ela me mostrou que matemtica era lgica e quase simples. Alm disso, Jorge Morgado era gente de primeira. Chico

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11Pedro e a onaTroca ruimOs chineses esto usando suas enormes reservas nanceiras internacionais para garantir seu suprimento de matrias primas e a venda dos seus produtos industrializados. Por estar cada vez mais encrencado no mercado nanceiro mundial, na iminncia de perder o grau de investimento das agncias de risco, o Brasil se tornou um alvo prioritrio. Em 2009 o Banco de Desenvolvimento da China emprestou 10 bilhes de dlares ao Brasil em troca da compra de equipamentos produzidos na China. Mesmo asxiada pela Operao Lava-Jato, a Petrobrs obteve nanciamento de US$ 3,5 bilhes em troca da reserva de petrleo bruto para os chineses. Garantia de relaes de troca desfavorveis. Para o Brasil, claro, que paga juros e taxas mais onerosas e ainda movimenta o parque industrial da China.Educao instvelO lsofo Renato Janine Ribeiro, um intelectual de respeito e prestgio, o quinto ministro da educao em quatro anos e meio de Dilma Rousse. Foram trs em quatro anos e dois nos trs primeiros meses do segundo mandato, que a presidente abriu para transformou o Brasil no pas da educao. D para conar?Na edio 575 deste jornal, de dezembro do ano passado, publiquei uma foto de 1976, que registrou uma cena que hoje seria impossvel: eu dando leite com uma mamadeira a uma ona em plena margem da rodovia BelmBraslia. Um morador da localidade mantinha uma ona pintada, de grande porte, para quem quisesse passar posteridade colocando a mamadeira na boca do animal, conforme se pode ver pela reproduo da fotograa. Curioso, como sempre, meu irmo, Pedro Carlos de Faria Pinto, vasculhou pelo local e identicou a mesma casa que serviu de cenrio para o reprter a caminho de mais uma aventura. Pedro me mandou o seguinte texto, que vai acompanhado da foto para comparaes:Viajar pela Belm-Braslia, formada, em territrio paraense, pelas rodovias BR 316 e 010, tem sido uma saga da famlia. Meu pai, porque prefeito e deputado. Meu irmo, porque jornalista e socilogo. Eu, pelo ofcio do servio pblico estadual. As viagens nas duas primeiras dcadas eram marcadas pela pitoresca penetrao na oresta; 55 anos depois, a paisagem diferente. Fruto da ingrata troca entre o Norte e o Sul. Mas, trago agora a imagem do mesmo local onde Z da Ona deixava o felino para o registro dos forasteiros. Foi a que 40 anos atrs LFP desaou a sorte e ganhou notoriedade. A propsito, na localidade de Ligao o DNIT renovou as placas quet identicam o local onde a oresta matou o engenheiro Bernardo Sayo, construtor da rodovia.Fim do ciclo Em 2013 as exportaes de soja para a China ultrapassaram as de minrio de ferro pela primeira vez, rendendo (em nmeros redondos) 18 bilhes de dlares, um bilho a mais. O fato se repetiu no ano passado. Embora cada um dos produtos tenha experimentado queda, a soja fechou a conta da venda China em US$ 17 bilhes, enquanto o faturamento do minrio de ferro cou em US$ 13 bilhes. O grco foi apresentado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, na sua exposio na Comisso de Atividades Econmicas do Senado, no dia 31 de maro. Para Levy, no h dvida; chegou ao m o super-ciclo das commodities, que permitiu ao Brasil uma receita expressiva no comrcio exterior, em particular com os chineses. Ele disse que o objetivo do governo agora reorientar a economia para essa nova situao. Mas no deixou claro como isso vai acontecer. Para o Par, o maior exportador de minrio de ferro para a sia, no uma boa notcia.

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12 MemriaJOGOAtravs da coluna Boca da Cidade (de curta durao), a Folha do Norte registrou um momento de usos e costumes da Belm de 1957: Segunda-feira pela manh, o chefe de Polcia foi surpreendido com a instalao de uma baiuca do jogo do bicho exatamente em frente sua casa, travessa Piedade. Ficou indignadssimo. No lhe tiramos a razo. Ato contnuo, determinou que lhe trouxessem presena o sr. Paulo Viana, que o testa de cobre, de ferro, de ao ou de que metal for, da jogatina no Par. No se localizou, porm, o afortunado hoteleiro, com a presteza que o Sr. Medrado Castelo Branco reclamava. Por essa razo lhe apareceu no gabinete, esbaforido, um tal Ubirajara, que pessoa da maior conana de Viana, uma espcie de gerente ou subgerente do criminoso negcio. Para resumir: em quinze ou vinte minutos era a baiuca fechada. Mas deve ter sido reaberta nas imediaes....CONTRABANDODalila Ohana foi a companheira do caudilho Magalhes Barata durante 21 dos seus 71 anos de vida. Quando ele morreu, em maio de 1959, Dalila foi praticamente expulsa da casa que dividia com o ento governador para que sua famlia legal ocupasse o seu lugar nos momentos nais. Humilhada e ofendida, Dalila reagiu ao lanar, no ano seguinte, o livro Eu e as ltimas setenta e duas horas de Magalhes Barata O subttulo dizia muito sobre suas intenes: Para os historiadores que amam a verdade. O lanamento do livro foi um dos maiores sucessos nesse tipo de acontecimento em todos os tempos. O acerto de contas no cou por a. Em 1962 o lder que sucedeu Barata no comando do PSD (Partido Social Democrtico) e do baratismo, Moura Carvalho, foi advertido pelo comandante militar da Amaznia, Taurino de Rezende (que viria a comandar a Comisso Geral de Investigaes, uma espcie de inquisio armada depois do golpe militar de 1964), a no usar o ttulo de general. Sua patente real era a de coronel. Dalila especulava: talvez o ento prefeito de Belm se defendesse alegando que no reivindicara o ttulo nem se intitulava como tal. O povo que lhe conferira a divisa por t-lo na mais alta conta. Se recorresse a essa explicao, ele teria que dizer que a discutida patente lhe outorgada, no por servios prestados ao Exrcito, seno pela sua atuao direta no contrabando do caf e seus congneres, isto desde o seu passado e desastroso governo, at agora mesmo frente da Prefeitura Municipal. Como prova irrefutvel da sua armativa poderia citar sua colossal fortuna, meteoricamente surgida aps o falecimento do Gen. Magalhes Barata, seu cabrestador na vida pblica, e sob cujo pulso honesto no conseguiu juntar um s vintm de mel coado porque encontrava a resistncia ferrenha do homem de carter impoluto. E a ser tachado de chefe do contrabando, que grosseiro, muito melhor a galanteria de general do contrabando. Pois no?. Dalila Ohana escreveu isso na Folha do Norte, de Paulo Maranho, o maior inimigo de Barata. PROPAGANDAComunicaes multinacionaisEm 1956 a Radional (Cia. Rdio Internacional do Brasil) completou 25 anos a servio das comunicaes no Brasil. Sua agncia em Belm cava no trreo do edifcio Bern, na esquina da Presidente Vargas com a de Almeida (prdio desativado h muito tempo, para prejuzo da coletividade). Era o endereo de quem queria passar telegramas e tentar por horas uma ligao telefnica interurbana, rara e sofrida, apesar da modernssima rede telegrca e telefnica. A alternativa, para telegramas, era a Western, na esquina da Castilhos Frana com a Frutuoso Guimares. Ambas as empresas subsidirias de multinacionais americanas. A Radional da poderosa ITT, personagem inuente na derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973.

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13 ESCRITORAEm 1965 a escritora cearense Rachel de Queiroz veio a Belm visitar os amigos, Driano Santos e Orlando Bordalo, e seu mais velho colega de jornalista, Paulo Maranho, na redao da Folha do Norte. A Autora de As Trs Marias e O Quinze lembrou que assistiu ao primeiro espetculo, a operete A Gueisha, aos oito anos de idade, no Teatro da Paz. Desde esse tempo de meninice nunca esqueceu a praia do Murubira, no Mosqueiro. Ficaria horrorizada com a situao de hoje.PELESEm 1966 o Departamento de Receita do Estado apreendeu, no aeroporto de Val-de-Cans, um fardo contendo 15 peles de ona, 15 de ariranha e oito de peludo ou pintado. A caa ainda era risonha e franca. As peles foram levadas a leilo e arrematadas, depois de legalizadas.TEATROEm 1971, quando ainda era o Grupo Studio Sesi, seus integrantes comearam o trabalho de pesquisa histria com o espetculo Sesi conta Tiradentes. No ano seguinte, j como Grupo de Teatro Stdio, foi a vez de Zumbi, adaptao da pea Arena conta Zumbi, que alcanou grande sucesso nos palcos de So Paulo e Rio de Janeiro, sobre a escravido do negro africano. Dp elenco participavam Nilson Chaves, Cludio Barradas, Haroldo Melo, Ivan Tenrio, Jos do Nascimento, Francisco do Carmo, Helma Martins, Rosa Carmina e Juarez Viana. As msicas, de Edu Lobo, foram interpretadas por Nilson Chaves e Vital Lima no violo.ACARAt 1972 a viagem de Belm at o Acar e Santana do Capim s podia ser feita por barco. Durava 12 horas. Em maio desse ano a empresa Boa Esperana fez a primeira viagem por terra, com durao de cinco horas. Vencedora da licitao pblica, colocou no servio modernos nibus Mercedes monobloco, de luxo. O veculo seguia pela Belm-Braslia e pegava a PA-01 at o rio Acar, atravessando antes o rio Capim por balsa, com capacidade para 160 toneladas. Levou convidados especiais na viagem inaugural. Foram recebidos com festas pelos acaraenses lendrios da poca da Cabanagem, de onde saiu a maioria dos cabanos.REVISTASEm 1972 o Conselho Estadual de Cultura comeou a formar a maior coleo de revistas editadas no Par. Seu objetivo era reunir as principais publicaes, que eram: Terra Imatura, publicada entre abril de 1938 e dezembro de 1940, sob a direo de Clo Bernardo. Novidade, dirigida por Otvio Mendona e Machado Coelho. Belm Nova. Guajarina, que circulou de 1918 a 1920, com a colaborao de Eneida, Peregrino Jnior e Osvaldo Orico. Revista Amaznica, de 1883 a 1884, editada por Jos Verssimo. Revista da Sociedade de Estudos Paraenses, de 1894 a 1895, em cinco volumes. A Escola, revista ocial de ensino publicada de 1900 a 1903. Magazine Ilustrado, em 12 nmeros, a partir de 1898. Revista do Instituto Histrico, Geogrco e Etnogrco do Par volumes I, II e III, em 1900. Revista Paraense, 1909 a 1910. Revista Caraboo, 1914 a 1916. A Semana, 1910 a 1921. Revista do Norte, 1901 a 1903. Arena, 1897. Onde foi parar a preciosa coleo? FOTOGRAFIAA cidade que mudouAltamira em 1967, antes da Transamaznica, que comearia a ser construda trs anos depois, e da hidreltrica de Belo Monte, ainda em andamento, era uma tpica cidade de beira de rio no caso, o belo Xingu. Em menos de meio sculo, profunda transformao. Virou cidade de beira de estrada, de frente pioneira, violenta, catica. Est valendo a pena, Andr Nunes?Cotidiano d o

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal LEIA E DIVULGUEJornal Pessoal C OMENTRIOS Matrias do JP 581 que comento. 1. Na pgina 6. Trinta anos depois um estranho silncio, h um erro histrico na reproduo feita pelo Dr. Orlando Silva: Deveria assumir a Presidncia, nessa data, o ento deputado federal Tancredo Neves. O Dr. Tancredo foi eleito em 1982 Governador de Minas Gerais; antes, at 82, era Senador. 2. A Fico histrica mostra que a escritura da Histria, de um modo geral, transformou-se, sob a tica dos marxistas, em estrias, que comprometem a autora, Maria Furley Schmidt. Na realidade, alm da miopia desonesta, parece estar a autora criando roteiro para um lme de quinta categoria. Sem mais me aprofundar, transcrevo uma frase tua, que dene toda a farsa monumental: Ao escrever essa frase gloriosa, Maria Schmidt pode estar fazendo poesia ou epopeia, mas nunca histria. 3. Memria do Cotidiano, sob o ttulo Clo, registras um fato histrico aps a soltura de Clo Bernardo, em 1964, e o belo e nobre gesto do ento Governador Jarbas Passarinho, levando Clo no carro ocial, para almoar na casa governamental. Em matria ao lado, sob o ttulo Teatro, reproduzes a situao do Teatro da Paz em penria e decadncia. Era eu Chefe de Gabinete e sou testemunha viva da situao catica do TP. Na inspeo, foi constatado pelo Newton Barreira, Presidente da Fora e Luz, pelo Dr. Angenor Pena de Carvalho, Presidente da Celpa, a iminncia de um incndio pelas pssimas condies do sistema eltrico. O fosso serviria para armazenar produtos contrabandeados, especialmente caixas de usque. O Governador imediatamente deu ordens ao Dr. Dilermando Menescal, Secretrio de Obras, para proceder a restaurao do nosso belo documento. Assim foi feito e na reinaugurao do TP, o bal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro marcou a data com sua presena, com recital que levou o povo paraense ao delrio. As duas bailarinas principais eram Sandra Dickens e Eleonora Oliosi, e o diretor geral era o Orlando Miranda, que posteriormente (1975) foi diretor geral da Funarte. Outros trs espetculos abrilhantaram a reinaugurao: a pea teatral Meu querido mentiroso, que James Pitt, colecionando as cartas trocadas entre George Bernard Shaw e Beatrice Stela Campbel, ele na Inglaterra e ela nos EEUU. Os atores eram Srgio Brito e Natlia imberg, que elogiaram publicamente, em entrevista, a beleza do nosso TP. O terceiro espetculo foi de responsabilidade dos Jograis de S. Paulo, constitudo por Ruy Afonso, Ruben de Falco, Armando Bogus e falta-me o nome do ltimo integrante. Memria de velho! O ltimo foi da Orquestra Filarmnica regida pelo maestro Belarmino e um magnco bal paraense. Em todos os espetculos, lotao mxima. Estendi-me, pois, ao ler a magnca obra da Histria do Teatro da Paz, fui surpreendido sem qualquer referncia citada restaurao. Soube depois que o ento Secretrio P. Chaves achou um horror de malfeita. Pena que na poca no pode o Governador contar com a magnca colaborao do nosso gnio. Por ltimo, o registro que zeste da restaurao da Igreja do Carmo e do teu tempo de estudante do Colgio do Carmo. Tambm l estudei de 1952 a 1957, quando conclu o ento curso cientico e fui orador da turma. Tenho histrias gostosas da poca. Saliento a presena do Padre Belchior Maia DAthayde, notvel educador e intelectual, e do Padre Conselheiro Martinho Pine. Os dois professores citados eram to queridos pelos alunos, que ns, concluintes de 1957, os homenageamos com o dstico Homenagem lial ao Pe. Belchior Maia DAthayde e Pe. Martinho Pine encimando nosso convite. importante citar que ambos j no estavam mais frente do Colgio do Carmo, transferidos, pela Congregao Salesiana, para outros Estados. Ronaldo Passarinho MINHA RESPOSTA Quem frequentou ou ainda frequenta a companhia de Ronaldo Passarinho tem a garantia de histrias enleiradas por horas. No qualquer histria: histria de fazer rir, de aprender, de se admirar. legendrio o repositrio de causos do formidvel arquivo mental que Ronaldo carrega na cabea. Mesmo doente e j tendo que escrever a mo, com uma letra distorcida da boa forma de anos atrs, ele brinda este jornal com esse texto informativo, sentimental e, como no podia deixar, com aquela pitada de pimenta que d o gosto ao que se escreve. Gosto de querer mais. Manda outra, Ronaldo. LEITURA H muito no me dava o prazer de ler, de ponta a ponta, uma edio do JP. Em geral, cava com o que conseguia ler e com o que a minha me me reportava. Da profcua leitura que o JP sempre me proporciona, inquietaes emergiram. A matria de capa, por exemplo, me fez pensar que, se no podemos negar sua abordagem, outra possvel: por razes que a poltica explica, as plataformas do PSDB e do PSOL acabaram se aproximando e cito um exemplo: o combate aos deletrios efeitos da Lei Kandir. O Estado do Par ajuizou uma ADO [Ao Direta de Inconstitucionalidade por Omisso] no STF [Supremo Tribunal Federal]. Edmilson [Rodrigues, deputado federal do PSOL] tem publicado em sua pagina do Facebook oportunas consideraes sobre o tema. Os conceitos de ttica e estratgia que se podem apreender de Gramsci nos mostram que uma aproximao pontualmente programtica, nesse aspecto, ttica, pode revelar uma opo estratgica que talvez tenhas entrevisto antes de todos, como habitual do teu certeiro poder especulativo. Quanto s matrias sobre a Vale e sobre a Jari, percebe-se como tmido o acmulo informativo sobre os efeitos dos grandes projetos sobre a vida do paraense, em boa medida pelo que detectaste, com preciso, sobre o tratamento que recebe a Cabanagem na manualstica e nas interpretaes oportunistas de seu signicado (nos mandatos executivos Jader e Edmilson), que no cuidaram de traduzir o signicado desse movimento popular mpar e de consequncias singulares, limitando-se a campanhas publicitrias de fogo-ftuo, que, se valeram algo, importaram apenas por indicar a existncia do valor da Cabanagem, embora sem dizer em que consistia de forma consistente. Reexos dessas consequncias como as investidas criminosas contra aqueles que lideram movimentos de reivindicao de direitos nos atormentam at hoje, como indicas com a publicao do texto da sociloga Marly Silva, sobre o assassinato, de fundo poltico, da missionria Dorothy Stang. E aqui, cabe dizer algo a mais: conheci Teodoro Lalor. Lder quilombola que, conforme sugesto do texto de Marly, teve sua vida ceifada em funo de seu ativismo relacionado causa quilombola. O homem que lhe tirou a vida foi recentemente condenado, mas isso nem de longe deve servir para afastar a especulao que o texto prope, com a qual concordo. Afrontar interesses poderosos leva necessariamente ao revide conservador e violento em muitos sentidos, sendo o fsico, o mais prosaico. Pensar sobre o verdadeiro leitmotiv da morte de Teodoro Lalor necessidade que se impe. Ana, h mais coisas entre o cu e a terra do que supem os autos de um processo penal derivado de assassinato poltico alis, no foi assim que comeou o JP? , parafraseando indigentemente Shakespeare. O texto sobre Carlos Coimbra, que traz uma plula de seu notvel Sermo, fantstico e demonstra que o JP cumpre uma misso difcil numa terra sem memria de sua intelectualidade vicejan-CART@S

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15te e muita vez sem cultivo desses poos abissais de saber: a de no permitir que ela seja esquecida, sem luta. Marlon Aurlio Tapajs Arajo REPBLICA O JP 581, da segunda quinzena de maro de 2015, informa os leitores sobre um fato que parece irrelevante no atual contexto poltico em que vive a sociedade brasileira: a nomeao da filha do governador paraense, Izabela Jatene, para dirigir uma secretaria extraordinria dedicada integrao das polticas sociais. Lcio Flvio usa expresso irnica para caracterizar a nomeao da filha: absolutismo republicano, termo que faz os estudiosos da cincia poltica ficarem estupefatos. Como associar o absolutismo (lembremo-nos da Revoluo Francesa) com a Repblica? No essa Repblica do faz de conta em que vivemos, onde a elite veste a mscara de democratas, mas, no fundo, o Estado uma cosa nostra. Para quem dvida, s observar o que est acontecendo no pas da ordem e progresso, que, na verdade, a ordem a que se referia Tomasi de Lampedusa, protagonista de um romance de um dito que se tornou memorvel: mudar tudo para car como est. Isso vale para o Brasil e, muitos mais do que se imagina para nosso imutvel Par, para a felicidade dos donos do poder e a desgraa dos que so por eles governados. Ontem, ao ler o jornal O Globo fui informado que um pesquisador estrangeiro descobriu nas fontes primrias estrangeiras que mais de 2 milhes de negros africanos chegaram ao Rio de Janeiro. Somos uma sociedade escravista. iluso imaginarmos que um dia seremos uma repblica moderna. O gesto de Jatene, ao nomear a filha para uma secretaria de Estado para lidar com as polticas sociais faz parte de uma cultura secular. Os sculos de latifndio de que nos falava Alberto Passos Guimares. Os cabanos continuam cabanos, alojados hoje no mais nas suas casas de palha, mas nas minhas casas minha vida. Os governos do PSDB, nos seus monocrdios discursos, sempre esto batendo na mesma tecla da racionalidade, do enxugamento e tantas balelas repetidas exausto. Mas o povo est cada vez mais lascado, como dizem os nordestinos. Ontem aproveitei o belo sol carioca e fui praia de Copacabana, que no mais aquela que conheci nos anos 70, em plena ditadura. Muita beleza, muitos turistas, muito samba e conversas para jogar fora. Pensei no JP, no Par, no Amazonas, nos caboclos dessa terra to distante e pensei com meus botes: ora, o governador paraense escolheu uma filha para um rgo pblico. Enquanto isso o sol reluzia e fiquei pensando na tal da Operao Zelote. E o povo da praia, nem ai. E o Brasil isso. A indignao sumiu do pedao e o negcio gozar e viver o momento. Quem vai lembrar-se de uma obscura Izabela Jatene? Bela tem de mais por aqui. Secretrias do samba e do amor. Benedito Carvalho Filho CLUBES Sou torcedor do Paissandu, ede fato,esse clube temmais sucesso que o Remo nos ltimos anos, mas mesmo assim, aos trancos e barrancos. Acho que falta de uma gesto adequada; alguns dirigentes s querem se dar bem e o clube que se lasque. Observo que o Remo est custando a se recuperar, ainda mais sendo um grande clube paraense. Observoque dirigentes e torcida bicolor tm mais atitude, so mais exigentes para fazer mudanas. S me resta dizer um fato bvio: o Paissandu o clube menos ruim do norte. Do ponto de vista administrativo e empresarial, qual seria a soluo para os dois principais clubes do Par? Leo Keuffer EDUCA O No seria nenhum exagero dizer que a educao pblica no Estado do Par, h tempos, clama por socorro! Aes polticas capazes de apontar solues e melhorias para este quadro deprimente parecem ignorar cada vez mais aquilo que visvel a todos: as pssimas condies fsicas das escolas, problemas srios de infraestrutura, pior ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (Ideb) do Norte do pas, no ensino mdio, falta de qualicao prossional e formao continuada satisfatrias a tcnicos e professores, entre outros. Talvez porque os pensamentos que levam s aes polticas desejadas no tenham acompanhado a dinmica desse organismo mutvel a cada dia: a educao. Analisando o discurso recente feito pelo atual Secretrio de Educao do Estado do Par, Helenilson Pontes, segundo o qual contedo, o aluno t a um clique do Google, ele no precisa de um professor pra aprender proporo, pra aprender razo, pra aprender o que revoluo francesa, porque ele clica no Google, e ele tem de contedo o que ele encontra no Google, dentre outros absurdos proferidos, observa-se que, provavelmente, o Secretrio desconhea a lei 9.394/96, a qual estabelece as Diretrizes e Bases da Educao Nacional, haja vista que, em seu discurso, ele a ignora em todas as dimenses, tampouco demonstra conhecer acerca da funo social da escola na formao do cidado (discurso disponvel em vdeo no: https://www.youtube.com/ watch?v=Jqkw0N8neac). Nesse sentido, cabe lembrar que, na perspectiva da referida lei, compete escola formar cidados crticos, reexivos, conscientes dos seus direitos e deveres, cidados atuantes, capazes de compreender a realidade em que vivem e igualmente preparados para intervir e participar de forma efetiva da vida social, econmica e poltica de seu pas; cidados aptos a contribuir para a edicao de uma sociedade mais justa e igual. funo basilar da escola, pois, nesses termos, garantir a aprendizagem por meio do domnio de contedos culturais bsicos como a leitura, a escrita, as cincias, as artes. Conhecimentos que devem ser devidamente sistematizados e, nesse processo, absolutamente indispensvel a presena do professor, como facilitador e mediador do processo de ensino-aprendizagem, uma vez que formar diferente de informar, e isso no est a um clique do Google, como pensa esse senhor. E, se assim fosse, no seria exagero armar que seramos todos mestres e doutores, j que as melhores universidades do mundo disponibilizam seus currculos e contedos na rede mundial de computadores. Entretanto, qualquer ser de inteligncia mediana sabe que a formao no se adquire de forma to simples assim e que o Sr. Google no representa essa varinha de condo do conhecimento, embora seja a internet uma ferramenta complementar no processo de ensino-aprendizagem iniciado no contexto da sala de aula. Somos a sociedade do Saber, do bom senso, da criticidade; precisamos, assim, questionar pensamentos sem conhecimento de causa e que no agregam valores positivos, sobretudo quando vm de quem nos representa, pois, uma sociedade que pensa, valoriza o professor e se desenvolve de forma mais dinmica. A propsito do referido vdeo, cabe a pergunta, qual seja, que cidado se quer formar: aquele que estabelece a lei supracitada ou o que melhor convm ao Estado? Podres poderes. J dizia o poeta! Cabe ento recorr-lo: Ser, ser, que ser? Que ser, que ser? Ser que esta minha estpida retrica Ter que soar, ter que se ouvir Por mais zil anos... Ser?! Adailton Santos, professor O P S XX A seleo dos dois primeiros livros da srie Memria do Cotidiano (a seo preferida dos leitores do Jornal Pessoal), j no 8 volume.

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Custo de pessoalApenas nove dos 17 Estados (includo o Distrito Federal) reduziram o peso da folha de pessoal no seu oramento. O Par foi um deles. O gasto, que foi de 47,89% em 2013, baixou para 45,86% em 2014. O limite estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal de 49%. De quinto Estado que mais comprometia sua arrecadao com o salrio dos seus funcionrios, o Estado passou para 12. Continua a ser um dos maiores percentuais, como destacou o Dirio do Par na sua campanha contra Simo Jatene, mas, ao contrrio do que disse o jornal da famlia Barbalho, o desempenho foi positivo e no negativo. Uma coisa que os tucanos sabem fazer cortar o salrio dos outros.Crtica de humorA caricatura de Lus Trimano de Delm Neto, publicada originalmente no semanrio Opinio, em 1972, e reproduzida na edio anterior, pode ser um bom mote para denir com clareza o humor verdadeiramente crtico da verso edulcorada que circula atualmente pela maioria da imprensa ou a sua faceta quase anarquista, como a do famoso Chalie Hebdo, que provou tanta polmica a partir do assassinato da maioria da redao em um atentado terrorista. O desenho de Trimano, alm de fazer uma crtica direta, tem um forte contedo poltico, alm de se valer da cultura do autor como base de sustentao. Informado sobre a reproduo do seu desenho e da nota que escrevi a respeito, do Rio de Janeiro, onde mora, ele mandou a mensagem que se segue: Esse desenho, inspirao do Raimundo Pereira, surgiu bebendo um chope e fabulando em como caricaturar o Delm Neto, que na poca era tido como o economista da ditadura, muito inteligente, mas muito ditadura. Ento, nesse sentido, o Delm segurando o dinheiro todo e os pobres e esquelticos lhe subiam pelo corpo como insetos. Eu no sou humorista, que um gnero que exige fasca: se v isso, no se inventa, assim como tem gente simptica ou engraada. E essa foi uma das poucas vezes em que z um desenho tentando a veia humorstica... e quei marcado um monto de tempo como o cara que tinha desconstrudo o Delm no Opinio. Ironias...Jornalismo de ocasioA guerra travada entre osgrupos de comunicao dos Maioranas e dos Barbalhos, agora concentrada na batalha em torno da Celpa, levou o exdeputado estadual Jos Carlos Lima a um problema de princpio tico,referente ao conito de interesses doleitor em ter acesso a notciascom imparcialidade e as vantagens que a utilizao da notcia pode trazer aos proprietrios do meio de comunicao. Em artigo publicado no jornal eletrnico O Estado do Tapajs, ele lembra que os jornais, as revistas e os peridicos, embora no sejam obrigados a uma licena de funcionamento,no esto livres de seguir padres ticos, at porqueutilizam-se de prossionais que esto sujeitos a um cdigo de tica. O jornal O Liberal est sendo acusado de fazer campanha contra a concessionria estadual de energia simplesmente por no querer pagar uma dvida de 20 milhes de reais por consumo de energia no quitado at hoje. A campanha prosseguiria at a empresa aceitar a transformao do dbito em permuta de publicidade nos veculos de comunicao do grupo. Se a acusao for verdadeira, argumenta o presidente estadual do Partido Verde, ca claro que o jornal violou os princpios ticos previstos no Estatuto da Fenaj. Mas ele prprio admite que ai que mora o problema. Apurar e punir uma empresa de comunicao ou o jornalista que produziua matria no um tarefa fcil, sobretudo por no sermos a favor de censura e defendermos uma imprensa livre de amarras. Reconhece que o que O Liberal diz em relao Celpa verdade e tem respaldo popular.A sociedade no suporta pagar um servio pblico to caro, de pssima qualidade e ainda mais morando num Estado produtor de energia. O problema no est na veracidade das informaes, mas no seu uso para atender aos interesses do grupo de comunicao, numa atitude anttica. Se isso for verdadeiro, surge muitas perguntas: Quem poderia investigar, provar e punir o infrator? A Fenaj? O Ministrio Pblico? Os leitores? Ou a empresa diretamente atingida? Tanto os personagens citados por Jos Carlos quanto outros, como o quedo e mudo sindicato dos jornalistas e outros prossionais da imprensa, ou mesmo simples cidados, que se escondem e se omitem quando uma questo sria como essa se apresenta. No se v a repetio da frequente impetuosidade dos internautas quando o tema se relaciona a poderosos grupos de comunicao. No os distantes, mas os locais, ao alcance dessas pessoas, ao menos de sua indignao e protesto. O silncio alimenta a audcia da manipulao da informao pelos donos dos grupos de comunicao, que usam seu poder em benefcio prprio. Na edio do ltimo domingo, por exemplo, a Celpa publicou um anncio em O Liberal e no Dirio do Par explicando didaticamente que cumpre sua obrigao legal de cobrar o ICMS, o clculo do imposto autorizado pela legislao federal, com amparo constitucional, e que no ca com um tosto do recolhimento. Repassa todo o tributo para o Estado. Por ocupar meia pgina de jornal e ter um texto curto e direto, o anncio deve ter sido lido por todos com acesso aos dois jornais. Foi completamente ignorado, no entanto, por O Liberal no seu noticirio a respeito, como se as informaes inexistissem. O jornal dos Maioranas continua a dizer o contrrio sem desfazer as armativas da Celpa. Martelar, assim, at ser perdoado da imensa dvida. Que jornalismo esse?