Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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PARO Estado JateneO governador cria uma secretaria extraordinria dois meses depois de anunciar uma reforma administrativa profunda. E coloca a filha no cargo, indiferente ao significado do seu ato. Um momento de absolutismo republicano?JARI: PASSADO/PRESENTENDIO EXECUTADO EM 3 MILHESS CARAJS SALVA oa Simo Jatene foi assunto de O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo no mesmo dia, 19. Com destaque incomum, os dois jornais abriram espao para um fato noticiado anterior mente apenas pelo Dirio do Par: o governador criou uma secretaria extraordinria, dedicada a promover a integrao de polticas sociais, e nocontradio com os planos anunciados por Jatene de racionalizar e moralizar a administrao pblica estadual. Ao assumir o cargo pela terceira vez, Jatene decidiu cortar gastos, reduzindo de 26 para 18 o nmero de secretarias. A partir da, desencadeou uma autntica operao de desmonte de servidores remanescentes do governo de Ana Jlia Carepa, do PT (2007/2010), e, em seguida, centenas de funcionrios ligados ao senador Jader de Jatene e do tucano que o antecedeu, o mdico Almir Gabriel. A iniciativa causou perplexidade geral, inclu sive fora do Par, que costuma atrair ateno para esse tipo de acontecimento. Por uma lei de 2001, a

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26.378, o governador pode criar secreta ria extraordinria. Por que exatamente agora? Por que uma nica secretaria, se a lei abriga essa possibilidade em caso de necessidade e foco da poltica pblica? Quais os antecedentes que jussecretarias especiais, criadas com essa tornou alvo de denncias por alegado e revelado trs anos depois? Uma gravao telefnica foi apresentada como prova de que Izabela ro entre empresrios, usando como meio de convencimento a mquina uma lista das 300 maiores empresas preocupado com a denncia. A posio de Izabela no sofreu qualquer abalo aparente, nem junto ao gover no e nem ao pai. O programa Propaz, que ela dirigia, foi transformado em fundao, com o objetivo de atender crianas e adolescentes em situao de vulnerabilidade. Com a secretaria extraordinria ela d a volta por cima, num car que ocupava no Propaz, programa de assistncia a pessoas carentes. Passar a receber salrio de 21 mil reais por ms. Procurada pelo Estado, a assessoria do governador alegou que o novo rgo no acrescentar despesas, por no possuir oramento prprio. Os seis funcionrios subordinados secretria sero deslocados de outras funes, com custeio por conta da casa civil do governo. Mas o salfundiu sua condio pessoal com o cargo pblico que ocupa. Mesmo que a legalidade e a legitimidade da sua deciso pudessem ser aceitas, por que, depois de ter dado ao programa a condio de fundao, resolveu dar um passo maior no rumo da temeridade moral e poltica com a ascenso da tenta O Liberal convencer a opinio pblica (e o prprio governador, atrado para a operao caa-na coluna Reprter 70 proclamou: A como a voz do Norte entre lideranas e governadores. mento? Algum, em qualquer outro rado do governador do Par? H o eco da sua liderana no Amazonas ou no Acre? Qual a vez em que Jatene apareceu como porta-voz ou defensor de reivindicaes das demais unidades federativas regionais? Quando ele tratar de problemas locais, alguns de dreltricas do rio Madeira? A retrica do governador se cir cunscreve aos limites da sua jurisdio territorial e poltica. Mas mesmo os seus discursos cansaram. uma litania que esbarra na quadratura do crculo, demarcada por conceiram alm de papeis e palavras. Os tucanos assumiram o poder maior no potencial de riqueza do Par e a condio de pobreza da sua populao em nada diminuiu. Pelo contrrio: s fez aumentar e, diga-se, com a decidida colaborao do intervalo petista de Ana Jlia. A criao da secretaria extraor dinria e sua destinao a Izabela incio do seu 9 ano como governador do Par, s vsperas de passar frente do tempo de mando do tenente-coanos em dois mandatos, o economista do que no fez e mostrar-se iludido em doses dirias de falso elogio e indevida declarao de conquistas. Talvez por essas fantasias, ele j no se preocupe mais pelo que de fato, mas pelo que imagina ser. Retrato de um Par disperso e desencontrado.

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3 BALAIO DO REPRTERA Amaznia de pees e milionrios e a ao da censura sobre a imprensaOpinio, sediado no Rio de Janeiro, foi, para mim, a mais importante (e a melhor) publicao da imprensa alternativa brasileira republicana. A partir do seu primeiro nmero, que foi s bancas na primeira semana de novembro de 1972, o jornal de 24 pginas, em formato tabloide foi subindo como um foguete. Surpreendidos por sua qualidade, os leitores que queriam car mais bem informados, mesmo no auge da ditadura militar, corriam para as bancas atrs de Opinio. Em pouco tempo a sua tiragem comeou a se aproximar de Veja (em circulao desde 1968), que, para surpresa geral, se tornou sua competidora direta. Era como se o Gavio Parakatej se tivesse tornado preo duro para o So Paulo. Nessa progresso, o semanrio alternativo emparelharia e talvez viesse a passar frente da revista dos Civita, a um custo innitamente menor. Nunca qualquer publicao alternativa chegou a esse ponto nem antes nem depois. Qual o segredo de Opinio? Em primeiro lugar, ser feito por jornalistas prossionais e no por militantes polticos. Jornalistas comprometidos com seu ofcio, de encontrar a verdade (ou sua reconstituio mais el) e aprego-la para a sociedade, assumindo todos os riscos dessa opo. Todos os integrantes do jornal eram remunerados, graas ao caixa do empresrio Fernando Gasparian, o mecenas do empreendimento, mas ganhavam pouco proporcionalmente s suas habilidades ou biograas. Alguns tinham um p no pequeno semanrio e outro num veculo da grande imprensa. No s para manter a si e famlia: carreavam para o jornal pobre as informaes que s podiam ser obtidas com investimentos, aos quais uma publicao como Opinio jamais teria acesso. Quando todos estavam felizes e empolgados pelo sucesso do jornal, a censura comeou a agir. Inicialmente levada pelo compromisso ideolgico de sufocar as verdades incmodas. Quando, mesmo assim, o jornal resistia, graas delidade do seu leitor, a censura se transformou numa sabotagem explcita. O que ela queria era acabar com aquele jornal inconformado e resistente. Aos poucos, os cortes brutais feitos pelos censores comearam a descaracterizar e empobrecer o leitor. No valia mais a pena pagar para t-lo. Opinio j s publicava o que a censura deixava. E o que ela aceitava era o irrelevante. O jornal acabou, no sem antes passar por uma crise interna que o cindiu e transformou-o de rgo de informao e anlise de conjuntura em uma publicao de ensaios de bom nvel, mas apenas para um pblico mais reduzido. Fui colaborador ativo de Opinio a partir da minha base, em So Paulo, na redao de O Estado de S. Paulo. Com matrias com ou sem assinatura, s vezes mais de uma por edio. Outro dia, revendo a coleo, z uma descoberta: um dos meus artigos foi o primeiro a apresentar os sinais da tesoura do censor. CENSURA E AMAZNIA Foi na 20 edio, de 19 a 26 de maro de 1973, quando o general Garrastazu Mdici ostentava o basto de comando da repblica. Trs nmeros antes, o editor do jornal, o grande Raimundo Rodrigues Pereira, escreveu matria de pgina inteira, que foi a capa da edio, relatando a visita do presidente ao projeto Jari, o imprio do milionrio americano Daniel Ludwig no Par e Amap. Da sua experincia na coordenao da lendria edio especial da revista Realidade sobre a Amaznia, Raimundo extraa certa simpatia por Ludwig e entusiasmo por sua moderna empreitada capitalista na jungle. Parecia partilhar o entendimento dos que consideravam necessria a instalao desse foco de contemporaneidade numa regio primitiva para que ela pudesse se desenvolver mais rapidamente e melhor. Talvez, quem sabe, no futuro, se desfazendo do guia dos novos tempos. Uma verso ortodoxa do marxismo nascido na Inglaterra superdesenvolvida ao apreciar um cenrio remoto no mundo primitivo. No seu texto, Raimundo se desincumbiu da tarefa de desfazer as crticas da esquerda, vrias delas de fato improcedentes ou fantasiosas, presena do bwana americano numa parte estratgica da foz do rio Amazonas, na sada para o vasto oceano. Uma terceira das suspeitas analisadas por Raimundo era a acusao de ser estrangeiro e estar tentando tomar um pedao da Amaznia. Nesse caso, raciocinava o editor do jornal, a defesa de Ludwig colocada num condicional distante do autor da matria poderia ser feita por seus amigos ainda como no caso dos pees [que zeram um surpreendente protesto durante a visita de Mdici contra suas condies de trabalho]: ele o nico? Perto de suas realmente vastas terras, outros estrangeiros tm reas se no iguais pelo menos comparveis. E citava os exemplos, como os da Icomi, Bruynzeel, Georgia Pacic e Toymenka. A concluso de Raimundo era de que todas essas terras foram salvo talvez excees pouco expressivas adquiridas de acordo com a lei. Os estrangeiros, gente como Daniel Keith Ludwig, por exemplo, so talvez as que melhor a respeitem, com medo de perderem os seus favores. Raimundo ento arrematava a argumentao: O fato de todas essas terras formarem uma espcie de cordo de isolamento fechando a estratgica boca de sada do Rio Amazonas representa um perigo para o pas? Seria correto dizer como o falecido brigadeiro Haroldo Velloso, homem de passado pouco convincente, cujo m de vida foi melancolicamente passado num quarto solitrio em vs batalhas polticas na cidade de Santarm [Raimundo revela desconhecimento sobre o m de Veloso, ferido pela polcia militar do Estado durante um conito em Santarm, vindo a morrer depois de complicaes causadas pelo ferimento de sabre] que a impresso tida ao examinar (as terras estrangeiras) num mapa a da formao de um cordo isolando a Amaznia do resto do pas? Isso talvez seja raciocinar como diria um ocial, com base na teoria conspirativa da histria. Conclua Raimundo a sua reportagem: O que parece seguro que, com uma regio estratgica como essa nas mos de grandes empresas e capitalistas internacionais como Daniel Keith Ludwig, para qualquer mudana que se queira fazer nos destinos dessa rea o pas no poder optar independentemente: esses homens e empresas tero de ser ouvidos. E difcil imaginar que Daniel Keith Ludwig, que conseguiu amealhar perto de 3 bilhes de dlares, seja um homem ingnuo. No gostei de alguns dos momentos mais relevantes da matria de Raimundo Pereira. Nossos divergentes modos de ver a Amaznia comearam a se chocar antes da concluso da edio de Realidade. Decidi escrever a minha matria a respeito. Como em outros momentos, tive que discutir com o editor antes que o meu texto fosse aceito. Para minha surpresa, ao ler a publicao, vi que em trs trechos houve supresso do que escrevi. No lugar, pontinhos entre parnteses, alm de um bloco negro com o ttulo do jornal, tambm o primeiro. Foi a sinalizao grca inaugural alertando o leitor para a interveno da censura, que evoluiria para uma agresso aberta integridade do contedo que lhe era submetido pela editoria. Reproduzo em seguida a matria tal como saiu em Opinio, com a participao do censor. instrutivo observar que, alm do rosto de Mdici ocupando toda a capa

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4da edio anterior do jornal, a matria de Raimundo no foi alvo da interveno do censor, como a minha seria. Qual podia ser a razo dessa dualidade? Naturalmente, o contedo do meu texto, como o leitor poder vericar. Por que republic-lo agora? Porque, mais de 40 anos depois, a situao no Jari se modicou dramaticamente. A rea no mais de propriedade de um estrangeiro. O sucessor atual de Ludwig o paulista Srgio Amoroso. Ele tinha todos os seus investimentos no interior de So Paulo. Hoje todo seu negcio se concentra no Jari. Amoroso quitou a dvida que Ludwig se recusou a pagar entre 1981 e 1982, quando passou em frente o projeto. A principal atividade econmica, a produo de celulose, sofreu uma transformao tecnolgica, deixando de ser destinar ao setor papeleiro e se tornando insumo principalmente da indstria de tecidos. A fase de mudana tem um componente de incerteza tanto em relao ao produto quanto ao mercado. E agora h duas outras atividades em crescimento na rea, que podiam ser complementares mas se tornaram antagnicas: a extrao de madeira, realizada por novos (e ocultos) personagens e o manejo orestal, desenvolvido pela empresa. A populao nativa, dedicada a agricultura de subsistncia e ao extrativismo, que foi reprimida e segregada na era Ludwig, agora assume papel ativo na histria. A migrao para o Jari se intensica, tanto pelo ingresso de extratores e compradores de madeira como por moradores do Xingu expulsos pela construo da hidreltrica de Belo Monte e o processo especulativo que a obra desencadeou. Essa combinao de fatores leva a uma ameaa e uma advertncia: a margem esquerda do rio Amazonas no territrio paraense, ainda dominada pela oresta nativa em grandes macios, pode ter o destino de destruio semelhante ao da margem direita a partir de agora. O primeiro e decisivo lance para a denio da tendncia est se constituindo no vale do rio Jari. preciso uma urgente interveno do poder pblico e o atento acompanhamento da sociedade para que esse novo captulo no seja igual ao massacre da natureza na metade meridional do Estado. Segue-se o texto, com os marcos grcos das garras da censura. OS PEES DEPOIS DE MISTER LUDWIG Depois que o Presidente da Repblica visitou a Jari Florestal e Agropecuria, o imenso projeto do bilionrio norte-americano Daniel Keith Ludwig na Amaznia, em ns do ms passado, e l assistiu a uma tmida mas eloquente manifestao de trabalhadores contra as condies de trabalho no projeto, investigaes ociais e outras medidas foram anunciadas com a aparente inteno de impedir a explorao dos 3.200 pees da Jari. Em vista da grande repercusso das crticas e do espanto da comitiva presidencial diante da precria situao dos trabalhadores, anunciou-se que o prprio Ludwig iria encontrar-se com Mdico no princpio da semana passada, no Rio. At o m da semana passada, contudo, a esperada audincia no tinha acontecido, por motivos que no foram revelados. Embora o projeto Jari seja um dos maiores empregadores de mo-de-obra na Amaznia, tudo indica que as condies de trabalho existentes ali no so muito diferentes das vigentes em dezenas de outros projetos, onde trabalha um nmero que pode situar-se perto de 100 mil pees, tambm contratados atravs de empreiteiros, sugestivamente conhecidos na regio como gatos. H tambm fortes razes para supor que essa situao no seja novidade nem na Jari, nem na histria da conquista da Amaznia, nem para o governo. o que mostra esta reportagem de Lcio Flvio Pinto.Desde que 1.500 ndios remaram durante mais de um ano pesadas canoas para que o portugus Pedro Teixeira assombrasse o mundo com uma viagem de ida e volta Belm-Quito, em 1737, vencendo sete mil quilmetros de rios e diculdades que separam o Par do Peru, a histria da colonizao da Amaznia tem sido tambm a histria da escravizao do homem que a desbrava. Talvez por isso os comandantes da colonizao de hoje, como o lendrio Pedro Teixeira do sculo XVII, no se espantem quando novas denncias de escravizao de trabalhadores saem de redutos amaznicos pioneiros e atingem todo o pas. Foi o que aconteceu h trs semanas, quando o presidente da Repblica se confessou espantado com as condies de vida dos pees que trabalham no projeto Jari e que realizaram, diante da comitiva presidencial, um pattico e quase desesperado protesto. De fato, esse espisdio pode ter sido a culminao de outras indignaes, mas nunca a primeira, provavelmente no a ltima. H mais de cinco anos, tmidas denncias tm procurado demonstrar que, se o modo de ocupar a regio mudou muito, as relaes de trabalho permaneceram as mesmas. As denncias foram se avolumando tanto que obrigaram o Ministrio do Trabalho a enviar Amaznia o prprio diretor do Departamento Nacional de Mo-de -Obra, Rmulo Marinho, em abril do ano passado. A visita de Marinho espantou as dezenas de inquritos que estavam arquivados na Secretaria de Segurana Pblica do Par e na delegacia da Polcia Federal (na delegacia do Ministrio do Trabalho no havia nenhum). Ao chegar a Belm, dizendo-se disposto a devassar tudo para chegar verdade, Marinho tratou logo de visitar o vale do rio Jari, de onde haviam partido as acusaes mais graves, segundo o entendimento dele. Os fatos, entretanto, foram circunscritos apenas a aspectos burocrticos. A delegacia do Trabalho em Belm descobriu que 184 carteiras foram expedidas irregularmente para trabalhadores da Jari. A questo era impedir que essas pessoas chegassem regio e descobrir o autor da fraude. Algumas horas depois de visitar as belas instalaes da Jari (limpo e arejado restaurante, moderno hospital e confortveis alojamentos aos quais s os tcnicos e o pessoal administrativo tm acesso) e conversado com os empreiteiros, Rmulo Marinho retorno a Belm anunciando nada ter constatado de irregular nas frentes de desmatamento do projeto. Estranhamente, cancelou a segunda parte da sua misso: inspeo tumultuada e hostil regio de So Domingos do Capim, no mais ao norte, onde est a plantao de gmelina e arroz do milionrio americano, mas ao sul, reduto de mais de 300 projetos agropecurios sulistas aprovados pela Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia (Sudam). Depois de car um dia sem programa em Belm, Romulo Marinho retornou a Braslia. Os resultados da visita no podiam ir contra o itinerrio percorrido. Um dia antes de voltar a Braslia, a 20 de abril, Marinho anunciou que nenhuma pessoa poderia ser contratada para os trabalhos ligados agropecuria sem contrato assinado regularmente na carteira prossional e que todas as empreiteiras (geralmente controladas por uma s pessoa, o gato) que atuam na regio e servem de intermedirias para os donos de projetos e os trabalhadores cam proibidas de usar contratos particulares para empregar os braais. A medida visava apenas abolir um impresso que as empreiteiras usavam como contrato de trabalho agrcola por obra certa. Entre suas exigncias mais absurdas, esse contrato fazia do trabalhador um autnomo e sem subordinao a qualquer outro vnculo empregatcio. Sujeitava ainda o contratado scalizao por parte do contratante, obrigando o trabalhador a refazer todos os servios que porventura no estivessem de acordo com as normas exigidas, sem que para isso tivesse direito a qualquer remunerao. Os embarques de trabalhadores para a Jari, feitos atravs de um porto particular em Belm, comearam a ser scalizados por soldados da Polcia Militar e a delegacia do Trabalho enviou um scal para Monte Dourado, onde est a sede da empresa, a m de vericar se todos os trabalhadores estavam com carteira prossional. A visita presidencial trouxe novas medidas bsicas que pretendiam acabar com o problema: a presena do Projeto Rondon e a scalizao atravs dos ministrios do Trabalho e da Sade.

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5Os recursos legais Seriam as medidas ideais? A prtica parece indicar que no. A scalizao dos trabalhadores na hora do embarque duvidosa. (.......................) O scal do Ministrio do Trabalho um burocrata que, sediado no escritrio da Jari, cuida apenas do que chega s suas mos. Mas entre o escritrio e as frentes de trabalho, a muitos quilmetros dali, tudo acontece. Para evitar o controle das autoridades e as rebelies dos trabalhadores, as cinco empreiteiras da Jari renovam o pessoal todo a cada seis meses. Assinam as carteiras prossionais, mas o que ainda vigora so os contratos particulares. E os contratados continuam pagando a pssima comida (arroz e feijo bichados, carne seca e caf) e a assistncia mdica (dada por um enfermeiro). Mesmo quando os trabalhadores chegam at justia para reclamar dos salrios prometidos e nunca pagos (eles passam de cinco meses a dois anos trabalhando para conseguir saldo) e instaurado processo como o que existe em Belm contra a maior das empreiteiras, a Servios Florestais Ltda., movida por 300 empregados que querem uma indenizao de 120 mil cruzeiros as empreiteiras sabem que ttica adotar: no comparecem s sesses. Os braais, trazidos geralmente do Maranho, cam hospedados em penses dos subrbios, garantidos pelo dinheiro que esperam ganhar. Mas quando a questo comea a demorar, aceitam qualquer acordo para voltarem s suas terras, mais pobres do que quando delas saram. Se a furiosa investida das autoridades contra a Jari no tem impedido todas essas irregularidades, o que pode acontecer nas grandes e isoladas fazendas no sul do Par? O sistema de empreitada, usado por todos os projetos agropecurios na Amaznia, tem atravessado sem arranhes todos os ataques. Os donos das fazendas alegam que nada tm a ver com os homens que derrubam as matas e fazem as plantaes. Os empreiteiros esto inteiramente margem de toda a legislao e mesmo das inspees diretas das autoridades. (....................................) A Polcia Federal instaurou inqurito por causa das denncias de seis trabalhadores que, se apossando de uma das embarcaes que fazem o transporte entre Belm e a Jari, conseguiram fugir dali. Tudo como antigamente Os outros fazendeiros desmentem a escravizao de trabalhadores em suas terras, dizendo que a prpria Sudam faz scalizaes peridicas nelas. Mas difcil acreditar na seriedade dessas scalizaes. Os funcionrios da Sudam so transportados em avies particulares das fazendas, acertam antecipadamente o dia em que iro fazer a scalizao e at so recebidos com almoo. s vezes se recusam a sair da sede da fazenda e voltam imediatamente aps o almoo. Segundo o ex-secretrio-geral do rgo, Manoel Reis, os tcnicos na inspeo direta observam os dados relativos contabilidade, organizao, controle e implantao do projeto. O secretrio reconhecia que a scalizao tem preocupao maior pela parte nanceira e operacional, mas se defendia com a alegao de que as equipes tcnicas da Sudam nunca constataram irregularidades empregatcias que atingissem as propores de impor um regime de escravatura ou explorao ao trabalhador. O difcil saber o que a Sudam entende por trabalho escravo. O mesmo Manoel Reis dizia que a Sudam nunca recebeu uma denncia direta e o que sabemos atravs da imprensa. O que no faltaram foram oportunidades para comear a se preocupar um pouco mais com os problemas sociais criados pelos projetos que aprova com tanta rapidez e to pouco rigor (a ponto de reconhecer que 99% das terras do Par esto com ttulos de propriedade ilegais, embora at hoje nenhum dos rgos encarregados do problema Sudam, Incra e Secretaria de Agricultura tenha feito um cadastramento. A prpria Sudam tem aprovado projetos cujos ttulos de terras estavam ilegais e tiveram que ser reformulados em plena implantao. Em junho do ano passado, trs homens conseguiram fugir de uma fazenda em Conceio do Araguaia, onde trabalham seis meses sem pagamento e na qual eram vigiados por pistoleiros armados, que scalizavam as sadas. Os trs conseguiram fugir porque, doentes, foram levados para um hospital em Conceio. L, pedimos ajuda da polcia, mas ela no fez nada, dizendo que no queria encrencas. Resolvemos fugir num caminho pela Belm -Braslia, relatou um dos trabalhadores, Malaquias Abimael da Silva. Logo depois, mais seis trabalhadores fugiram da Fazenda Jabuti, em So Domingos do Capim, apavorados com o capataz, que matou um dos pees quando ele tentava fugir, e o enfermeiro, que aplicava injees para amansar os rebeldes. Em julho, outros cinco braais conseguiram fugir da Fazenda Reunida, em Ipixuna, e procuraram o major Hrcules Silva, delegado do Interior, pedindo garantias contra as ameaas de morte e maus tratos pelo capataz, conhecido como Zezinho (Zezinho tambm o nome do dono). As fugas de trabalhadores e aberturas de inquritos passaram a fazer parte da rotina. At hoje, apenas os padres da regio tm recusado as justicativas dos fazendeiros e tentado vericar no local a verdadeira situao. Mas, exceo do bispo de So Flix do Araguaia, d. Pedro Casaldliga, os outros preferem que suas investigaes no cheguem imprensa. (..........................................) novos trabalhadores conseguiram fugir da Fazenda Alacid, em So Domingos do Capim, depois de travarem tiroteio com os funcionrios, Francisco Pereira do Vale, um dos 39 maranhenses levados para a propriedade, contou que seu irmo j trabalhava ali havia bastante tempo, sob a vigilncia de homens armados, sem receber dinheiro, quando eles chegaram. O Raimundo, quando nos viu chegar, contou o que aconteceu. Meus companheiros disseram que iam voltar imediatamente. Tentei acalmar o pessoal porque havia empatado 500 cruzeiros para servir aos pees e precisava recuper-los. Desci para tentar um entendimento, quando algum atirou da margem do rio. Muitos trabalhadores procuraram se refugiar no barco e outros correram por terra. Com meu irmo e mais oito, invadimos o mato. Viajamos dias e noites e resolvemos nos separar para conseguir caa. No dia 3 (de fevereiro) avistamos um barco e zemos sinais para ele. Mas dentro tinha uma turma da fazenda. Tentei conversar com o topgrafo Francisco de Almeida em busca de entendimento. Foi quando saltou do barco o capataz Ferreiro e comeou a atirar. Meu irmo foi logo baleado e fugimos. No sei se meu irmo morreu. Os fazendeiros acham que a empreitada o nico sistema de trabalho para uma regio pioneira como a Amaznia. O representante geral da Jari no Brasil, Antonio Marinho Nunes, acha mesmo que os trabalhadores gostam desse sistema: A prova disso que os nossos colonos contratados durante o perodo de desmatamento retornam no ano seguinte para realizar um novo trabalho e, normalmente, trazem consigo parentes e amigos. O que ele esquece que esses trabalhadores so recrutados numa das reas mais pobres e miserveis do pas: s margens da Belm -Braslia e da Par-Maranho. Durante a poca da explorao intensiva da borracha, que transformou a Amaznia num Eldorado mundial (18701910) foram trazidos entre 300 mil e 500 mil nordestinos. Metade deles morreu nos seringais enquanto sonhava com os ricos salrios prometidos. Eles trabalhavam 15 horas por dia apenas para comer feijo e arroz bichados, carne seca e caf, e morriam de malria, beribri ou echados por ndios. O sistema de trabalho era o mesmo adotado atualmente: a empreitada.

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6Trinta anos depois, um estranho silncio Por que a data da redemocratizao do Brasil, depois de 21 anos de ditadura militar, passou quase em branco no dia 15 de maro? Muitos brasileiros devem ter-se feito esta per gunta. O socilogo paraense Orlando Sampaio Silva, em So Paulo, foi um deles. E foi buscar motivao para enfrentar o silncio quase generalizado no testemunho de um dos personagens principais do drama vivido em 15 de maro de 1985: o vice-presidente Jos Sarney (que o acaso tornou presidente nesse dia, em funo da doena do titular, Tancredo Neves). Orlando reproduz trechos de artigo escrito por Sarney para a que o grande pblico ignora, de Sarney escrita por Regina Echever ria. Alguns chefes militares, contrrios devoluo do poder aos civis, tenta ram um golpe de Estado, mas j no tinham foras para obstruir o avano da histria. Felizmente para o Brasil.H um quase total esquecimento recente, cujo aniversrio, no ltimo trinta anos, o Brasil deixou de ter um militar na presidncia da repblica, passou a ter no posto maior do presidencialismo um presidente civil, o assumir a Presidncia, nessa data, o ento deputado federal Tancredo Neda repblica em eleio indireta pelo Congresso Nacional. O pas atingiu a data da assuno, mas o presidente eleito se encontrava gravemente enfermo. O Vice-Presiden te, tambm eleito indiretamente ao lado de Tancredo, constitucionalmente, teve que assumir o cargo. O presidente que presidencial e deixou a palcio pela te no ritual da posse. A partir daquela data, o pas no estava mais governado por um general, por um presidente militar. Terminara a ditadura militarista, depois de quase vinte e um anos. desta data. Nos movimentos populares de rua, principalmente, nos que se esto gistram-se muitos apelos pelo retorno dos militares ao domnio do governo. Percebe-se a ocorrncia de esqueci da populao, de toda a desconstruo, o obscurantismo, o estado policial, as torturas, os embates armados entre governistas e os adversrios do sistema, o terrorismo, os justiamentos e tantos vitimados com a perda da prpria vida, durante a ditadura militar. No jornal O Estado de S. Paulo, fato. A Folha de S. Paulo, se, por um de qualquer pgina nobre ao tema, publicou, verdade, um caderno andino sobre a matria e, pelo menos, trouxe, nesta edio, um artigo, com o destaque do alto da 3 pgina, intitulado Para despertar a memria de muitos, acadmico (Academia Brasileira de Leo que estava em jogo naquela noite de tomar posse, o abdmen de Tancredo Neves, presidente eleito, comeava a ser aberto no Hospital de Base de Braslia. No se sabia que ali comeava o seu martrio e a sua agonia. atnito. Os polticos envoltos em per mobilizado. Reuniam-se improvisada tares organizados para antecipao da festa se transformavam em desorienta o e tristeza. [Ateno para os fatos que vm revelados a seguir!] O minisCasa Civil, Leito de Abreu, que iria voltar ao seu posto de comando e desencadear uma ao para interromper o longo processo de transio. mens apareceram, mostram grande esprito pblico e capacidade de gerir Gonalves. Quando, tomado de profunda emoo e saindo de uma depresso que escondi do pas durante vrios meses, voltado totalmente para o problema res com a nao. Um processo to longo de luta pelas instituies no pode morrer nas nossas indecises. aes concretas: Vamos ao Leito de Abreu, no para discutir a sucesdetermina a Constituio, ir prestar juramento perante o Congresso e assumir a Presidncia at o restabelecimento de Tancredo. te pelo presidente Cordeiro Guerra, Constituio. Quando me comunicaram as conque estavam frente. Passados 30 anos...

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7rar, retroceder, e manter a ditadura militar, depois de todas as lutas do povo brasileiro nas praas e nas ruas, dos esforos de lderes democrticos civis e presidentes Geisel, com a disten para o retorno da democracia? narrados por um personagem nos mesa ao de um general, Lenidas Gondo por Tancredo), no nico momento possvel, levando consigo polticos cicrtica prevalecesse. No prximo artigo, abordarei esse rm a partir da verso apresentada por vro O Improvvel Presidente do Brasil Recordaes (2014). Ver-sea dos, porm, com outros vieses.Unio executa ndio por 3 milhes de reaisUm nico ndio capaz de carregar consigo seu artesanato no valor de 75 mil reais, equivalente a um automvel de luxo? O Ibama de Braslia acha que sim. Foi nesse valor que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis arbitrou a infrao cometida por Timoteo Tayatasi Wai Wai, agrado ao transportar artesanato confeccionado com sub-produto da fauna silvestre. Eram peas fabricadas com penas de arara e papagaio, aves da famlia dos psitasidios, como adverte a certido da dvida ativa da Procuradoria Geral da Unio. Por no ter autorizao para a comercializao das peas, Timoteo cometeu infrao ambiental e foi autuado. A dvida venceu em 15 de outubro de 2013 e no foi quitada. A partir da o surreal vira nonsense absoluto. Os absurdos 75 mil reais de origem se multiplicaram ao passar pela Secretaria da Receita Federal e a Procuradoria-Geral Federal em Belm, para os clculos devidos. Ao valor da multa foram acrescentados R$ 1,5 milho de majorao, agravamento e amortizao; R$ 706 mil de taxa Selic; R$ 297 mil de multa moratria, e R$ 497 mil de encargo legal. O valor consolidado da dvida cou em R$ 2.985.517,18. Mas ainda pode crescer at o m do processo. Inscrita a dvida, em setembro do ano passado o procurador federal Aldenor de Souza Bohadana Filho solicitou a execuo da dvida, tratando de pedir o arresto prvio de valores existentes em contas bancrias de Timteo ou seus responsveis, a m de evitar possvel desfazimento de bens ou valores em depsito de instituies nanceiras aps a citao, o que caracterizaria fraude ao credor. Acolhendo o requerimento, em novembro, o juiz da vara nica de Oriximin, Daniel Ribeiro Dacier Lobato, instruiu o ocial de justia a fazer penhora dos bens do devedor, procedendo desde logo avaliao, devendo o valor constar do termo ou auto de penhora. Trs semanas depois desse despacho, o ocial de justia Humberto de Sousa Sarubi Jnior cumpriu o mandado, intimando pessoalmente Timoteo. Mas deixou de proceder penhora dos seus bens porque o executado s tinha um, a casa em que mora com a famlia, toda de ndios como ele, construo que o ocial de justia avaliou em 15 mil reais. Os bens de maior monta que guarneciam a casa eram um aparelho de televiso, uma geladeira pequena, um fogo, uma mesa pequena com cadeiras de madeira, duas camas, um micro sistem e uma cmoda de modulado. O ocial de justia no encontrou no imvel automveis, motocicletas ou bicicletas. Nesse momento os autos do processo eram formados por 13 folhas de papel. Nenhuma das peas continha a autuao de Timteo pelo Ibama, que no se deu ao trabalho de detalhar as peas e quantic-las. O pedido de execuo e o deferimento judicial se basearam numa raqutica certido de dvida ativa emitida pela Procuradoria Federal. Como Timoteo ndio da tribo dos wai wai, o mnimo de cautela imporia ouvir o rgo ocial que exerce a tutela dos ndios, a Funai, que, se foi consultada, no se manifestou. Nada h a respeito nos autos. Timoteo pertence a um grupo indgena que s estabeleceu contato denitivo com a sociedade nacional h meio sculo, enquadrando-se perfeitamente na relao de tutela com a Fundao Nacional do ndio. Como atestou o diligente ocial de justia, o executado pela Unio no tem bens de signicao para dar em garantia aos quase R$ 3 milhes da dvida que lhe foi atribuda, nem contas bancrias, dentro ou fora do pas. No pertence, portanto, ao cartel dos corruptos e corruptores identicados pela Operao Lava-Jato. Est muito longe de poder merecer uma investida punitiva como a que se materializou nos autos da execuo scal. Autos que certamente entraro para a histria contempornea da combinao de burocracia irracional atormentando a vida dos povos mais antigos do Brasil.

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8Salvao da Vale est em CarajsAo longo deste ano a Vale no inivolver apenas os empreendimentos j aprovados, mas seus investimentos de reais. No prximo ano a dieta ser ainda mais rigorosa: investir quatro pagos em 2011, os dividendos do ano A receita bruta em 2014 foi de 38,2 do minrio de ferro, que atingiu os nveis mais baixos do mercado, mas pela neladas. A dvida bruta da empresa foi A Vale est apertando fortemente sas que pode, inclusive as de pessoal, com a demisso crescente de funcionrios, sobretudo em Minas Gerais. Vende todos os bens e ativos que no que os prximos trs anos sero de vacas muito magras. Mas, a julgar pela exposio de uma das suas analistas, rea de minerao), acredita no futuro. dendos da maior mineradora brasileira e das maiores do mundo alcanar nveis sem precedentes, prev ela no da na ampliao das minas de Carajs, no Par, que contribuir decisivamen te para que a produo atinja 460 miem 2019. O investimento original no est mais adiantado, com a realizao enquanto a concluso na ferrovia de A elevada qualidade do minrio de Carajs far a diferena tanto em relao ao preo mais baixo do ferro no mercado como em relao aos competidores. O custo de produo da nelada. dos seus problemas em 2018 como a mais poderosa mineradora de ferro rando as graves dificuldades atuais, a antiga CVRD ter voltado ao seu perfil original, de mineradora: mais de dois teros da sua receita originada de minrio de ferro e pelotas, complementados por nquel, cobre dois dos mais invejveis portos do mundo. Tudo isso graas a Carajs, ao que parece, por mera casualidade, localizado no Par.Igreja do Carmo reabre para o povoMuito sugestiva a plateia durante o ato de reabertura da igreja do Carmo, 23. Raros integrantes do poder pblisecretrio de turismo, Adenauer Goes. Da prefeitura, a presidente da fundao guns outros gatos pingados, invisveis no conjunto de promotores da solenidade, convidados e muita gente do povo annimo. muito se tivessem ido festa, na maDiscursos breves, alguns bem ponderados. Um lindo coro de crianas, uma vigoroso comando do seu jovem maescnios culturais da maior mineradora do pas, o Programa Vale Msica, sob a inspirao da incansvel e sempre inovadora Glria Caputo. Um programa que podia ser bem York ou Paris, algo incomum numa Belm barbarizada e submetida a nivelamento por baixo, a comear pela obtusidade dos seus dirigentes. O gocompositor e cantor. Por que no foi? O restauro da mais que bissecular igreja foi um presente precioso para a cidade e por onde andava o seu prefeito? rio de cultura que por mais tempo ocude o novo Landi pelo governador Almir Gabriel. O exagero, evidente e inapropriado, no de todo improcedente diante de tantas intervenes como secretrio. Logo, sua presena na reinaugurao da igreja do Carmo o arquiteto Antonio Landi que, na segunda metade do sculo 18, deu forma praticamente no mesmo local, tem a mesma idade da capital paraense, menos 10 anos. Quem no registrou seu nome no livro de presenas do dia 23 deixou de co. O restauro da igreja custou seis micofres da Vale, e competncia gover

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9O P S XX A seleo dos dois primeiros livros da srie Memria do Cotidiano (a seo preferida dos leitores do Jornal Pessoal), j no 8 volume.O ginsio do Carmonamental, associada participao dos administradores religiosos da igreja. material de divulgao, das quais pginas, quando bem que podia ser Belm. Provavelmente a rubrica engordou para abrigar a formao de monitores recrutados na universidade e no bairro, que atuaram nas visitas orientadas e agora podem se tornar defensores da conservao da igreja. tcnico de primeira qualidade e que seguiu uma diretriz mais ilustrada, valorizando a dimenso religiosa, espiritual e social da construo como O valor da igreja do Carmo foi destacado quando ela se tornou monucia a partir da foi assinalada pelo confronto entre o desgaste imposto pelo tempo, o abandono geral e o esforo limitado de paroquianos e amigos, que venes restritas. Nada sequer parecido restaurao que culminou no dia 23, reapresentando ao pblico uma religiosas do Brasil. como polo de turismo cultural e fonte de informao para seus prprios moradores. O livreto abre com um desenico dos templos destrudos, restando da arquitetura de poca no bairro onde Quem voltou igreja na sua reabertura deve ter observado que o rescumulativa, respeitando cada etapa desse percurso, sem buscar uma pureza impossvel e castradora, sob pena de 1626, marco de uma trajetria difcil, mas que evoluiu at o ato festivo do dia 23. Fiz todo meu curso ginasial (o fundamental de hoje) no Colgio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, entre 1960 e 1964, incluindo um ano do curso de admisso. A cada ano fui em conjunto ou isoladamente quase todos os dias igreja, agora com sua restaurao concluda. Para rezar, para datas festivas ou mesmo para reunies, como quando presidi o Grmio Domingos Svio. Tambm para atuar como coroinha, ajudando os padres nas missas dominicais ou mesmo em dias de semana. Nunca fui carola, muito pelo contrrio. No ltimo ano, fui suspenso 10 vezes. O padre conselheiro, o mineiro Egnio Passos, queria me expulsar. O diretor, o italiano Guido Tonelotto, no deixava. Quando eu era colocado para fora da sala de aula pelo Egnio perseguidor e mandado para o imenso ptio, deserto naquele momento, o diretor, se abria o seu gabinete e me via, mandava me chamar. Seu escritrio era confortvel e tinha um aparelho de televiso Philco, giratrio, ainda raro nessa poca. Puxava uma conversao em francs, sua paixo, e depois me deixava vendo TV, at o conselheiro aparecer e me arrastar de novo. Na semana de Dom Bosco, havia consso coletiva na igreja, com direito a indulgncia plenria. O diretor, ao microfone, de costas para o belssimo altar, lavrado em prata, ia incitando os alunos a se manifestar intimamente sobre cada pecado ou ato indigno que tivesse cometido, em silncio. De cabea baixa, como os demais, eu fazia traquinagens, respondendo com besteiras. P sobre p, o conselheiro se aproximou. Ouviu pelo tempo necessrio para caracterizar o agrante delito. Avanou na minha direo e me tirou do banco pela orelha, me arrastando at chegar ao diretor, onde me deixou como um rprobo. Foi uma risada geral quando mirei o padre Guido com um ar angelical de injustiado. S o conselheiro no riu. Homem brabo, aquele. Histrias e mais histrias que eu sempre reconstitua mentalmente nas visitas ocasionais ao colgio e sua igreja. Junto com o passado, a viso do presente inquietadora na sua materializao mais ameaadora: as graves inltraes nas paredes por causa do telhado entregue prpria sorte. As manchas negras avanando a cada nova visita e destruindo as pinturas. Foi isso o que primeiro observei na reestreia da igreja do Carmo. Tudo foi meticulosamente restaurado. Do outro lado do colgio pude contemplar a slida cobertura construda, que dever ser duradoura se a inrcia for substituda pela ateno operativa. At a torre do sino est recomposta. Certa noite, depois do ensaio para a opereta Marcos, o Pescador, dirigida pelo incansvel Egnio Passos (que me tirou um papel de destaque e me reduziu a trs telegrcas frases do enredo), avancei pelo madeirame podre para chegar ao campanrio. Francisco de Assis Ishihara, o Chico, sabiamente, preferiu car entrada. Havia luar no cu advertindo, talvez, para as consequncias da aventura. Tent-la, porm, foi algo triunfal. Agora, felizmente, coisa prosaica na igreja do Carmo. Ela est plenamente viva de novo

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10 A co histricaA editora da Universidade Federal do Par anuncia para o prximo ano uma nova edio, a terceira, dos Motins Polticos, de Domingos Antonio Rayol. Precisa ser bem organizada para afastar a pedregosidade da primeira edio, mantida na seguinte, de 1970. As notas de p de pgina se alongam e ultrapassam os limites da pgina a que se referem. Com idas e vindas, a leitura deixa de ser uente, prejudicando a inteligibilidade do texto, que primoroso. Uma edio didtica e crtica pode combater ou prevenir os males de um tipo de abordagem que empobrece a cabanagem. o caso de Mario Furley Schmidt, autora de uma Nova Histria Crtica do Brasil (So Paulo, Nova Gerao, 1999, 392 pginas). O subttulo do livro didtico, destinado aos alunos do ensino mdio, 500 anos de Histria mal contada. Sobre a cabanagem, a autora tambm contou pessimamente a sua. No s por fatos ou nomes errados, mas porque criou verdadeira co. Imaginando estar realizando uma anlise marxista, na verdade ela transportou a cabanagem para a atualidade e lhe aplicou conceitos irreais, sem contedo concreto, tirados do armrio das capitulaes e adjetivaes esquerdistas. Um tipo de anlise dualista e maniquesta: os bons de um lado, os maus do outro; trabalho e capital; revoluo e reacionarismo. Apertados nesses moldes explicativos, os alunos de manuais como esse esto prontos para julgar e denir os fatos histricos sem precisar conhec-los. Os rebeldes so revolucionrios, conhecem o sentido da histria. Os cabanos, que no conhecem a histria por serem analfabetos (num comprometedor preconceito da autora, que ignora a fertilidade da histria oral, como a saga de Carlos Magno e os sete pares de Frana), a tm no corao. Ao escrever essa frase gloriosa, Mario Schimidt pode estar fazendo poesia ou epopeia, mas nunca histria. Para estimular uma reedio mais rpida da obra clssica do baro do Guajar, segue-se o texto do manual de histria: CABANAGEM EXTICA Cabano era o pobre do Par. Morava num barranco de madeira e bambu, em cima do pntano, entre cobras, mosquitos transmissores de doenas, vermes e fome. Trabalhava muito, mas vivia mal. Porque os frutos do seu trabalho iam quase todos para os latifundirios e para os grandes comerciantes que dominavam a provncia. Em todos os cantos, os pobres sussurravam entre os dentes: terra para o povo, liberdade e igualdade. Analfabetos, no tinham a revoluo francesa na cabea. Mas certamente a tinham no corao. A regio estava agitada desde o tempo em que mercenrios ingleses, a mando de D. Pedro I, assassinaram patriotas brasileiros no poro de um navio. Bandos armados de justiceiros atacavam os fazendeiros e levavam os bens para ser distribudos entre os carentes. Um padre ligado aos exaltados, o cnego Batista Campos, era muito querido por pregar o Evangelho da Revoluo. Nos sermes costumava benzer as armas dos rebeldes. Da o apelido de Padre benze-cacetes. A revolta adquiriu enormes propores. Uma multido, em Belm, invadiu o palcio do governador. O homem tentou fugir, mas acabou morto a golpe de tacapes. Seu corpo foi arrastado pelas ruas para que o povo em festa cuspisse nele. Alguns latifundirios, querendo se aproveitar do movimento, usaram seu prestgio e fora para assumir a liderana da revolta. Mas, chegando ao governo da Provncia, procuraram negociar com a Regncia: foi o caso de Malcher e dos irmos Vinagre. Traio atrs de traio! Os lderes populares comearam a perceber isso. Eram homens e mulheres de quem a memria histrica, to maltratada pelas classes dominantes, s conservou os apelidos: Domingos Ona, Negro Patriota, Me [e no Mo] de Chuva, Joo do Mato, Gigante do Fumo, Piroca Cana, Chico Viado, Maria da Bunda, Zefa de Baixo e tantos outros. Para eles, no houve esttuas, nem praas ou nomes de escolas. Muitos no tiveram sequer direito a uma sepultura. Porque sua luta apavorava os ricos. Os pobres falavam em distribuir terras e acabar com a escravido. E havia at quem levantasse a possibilidade de arrancar o couro delicado dos brancos. Tropas do Rio de Janeiro e mercenrios ingleses foram enviados. Muita fora militar. A represso foi feroz. Os cabanos se refugiaram na oresta e promoveram guerrilhas. Para a tranquilidade (dos latifundirios, claro) voltar, aldeias de ndios foram arrasadas, cabanas incendiadas e quase 40 mil camponeses assassinados. Segundo o historiador paulista Caio Prado Jr., a Cabanagem foi o nico movimento regencial em que as camadas mais inferiores da populao conseguiram ocupar o poder de toda uma Provncia com certa estabilidade. Talvez a melhor imagem seja a do destino de Vicente Ferreira de Paula, um dos comandantes dos bravos cabanos. O governo o perseguiu implacavelmente, mas s conseguiu captur-lo em 1850, quando j era um velhinho. Apesar disso, foi levado a ferros para a ilha-presdio de Fernando de Noronha. Depois de arrebentarem-no de pancadas, vestiram-no com uma camisa de couro molhada apertadssima. Amarrado, cou exposto ao sol. O couro ia secando e encolhendo. Ele, ento, vomitava sangue. Assim morrem os camponeses no Brasil.

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11Uepa adere ao Enem sem ouvir interessadosPublico a seguir o texto que me foi enviado por um aluno da Uepa. Mantivemos seu anonimato para preserv-lo da reao interna. O tema dos mais importantes para a comunidade universitria.A Universidade do Estado do Par, que possui o dever de primar pela responsabilidade social e pela manuteno de suas identidades culturais, aderiu de forma arbitrria, no dia 17 de dezembro do ano passado, ao Exame Nacional do Ensino Mdio e ps m aos respeitveis Prise e Prosel (sendo o 1 realizado em trs etapas, uma em cada ano do ensino secundrio), fato que causou e ainda causar vrios transtornos comunidade acadmica e externa. Apesar do sucesso do vestibular regional, a Uepa aderiu ao exame nacional sem sequer consultar os principais interessados no assunto, que so os estudantes secundaristas. A aprovao (ocorrida a portas fechadas e quebrando o regimento em vigor captulo IV, artigo 33) no decidiu qual ser o novo critrio de ingresso, deixando tais pendncias para futuras reunies do Conselho Universitrio. Mesmo com o adiamento, ca explcito que a inteno de seus verdadeiros interessados extinguir os conceituados Prise e Prosel e manter unicamente o Enem, que desde 2009 deixou de ser apenas um exame avaliativo do ensino mdio para se tornar um dos maiores vestibulares do mundo, obrigando, assim, todo e qualquer brasileiro a realiz -lo para poder ingressar em uma instituio de ensino superior. O Prise, alm de ser uma prova respeitvel, possui real funo avaliativa do ensino mdio por ser realizado em trs etapas. O Enem, por sua vez, apesar de usar seus dados para tal funo, no convel por uma srie de fatores. Entre eles est a forma de aplicao e o tempo disponibilizado para os dois dias seguidos de prova (de apenas 10 horas para 180 questes e mais uma redao), que chegam a ir alm das capacidades da maioria dos candidatos e beneciam principalmente os que dispem de recursos para se manter em cursinhos preparatrios. Em 2014 foram registradas mais de 95 mil inscries no Prise e Prosel, sendo as provas realizadas em 27 municpios paraenses. O Enem, sem dvida, contempla uma quantidade maior de municpios em relao ao tradicional vestibular da Uepa e tal fator foi uma das justicativas para legitimar a adeso da instituio ao Exame Nacional do Ensino Mdio. Mas no se pode negar que o Estado do Par possui um dos mais baixos ndices de Desenvolvimento Humano do pas e consequentemente uma das mais baixas mdias na prova. Foi assim em 2013, quando o Par cou com trs escolas entre as 15 com piores mdias da Federao. Esses resultados dicultaro em demasia o ingresso dos estudantes de baixa renda aqui residentes. Outra justicativa apresentada pela Uepa de que, com o Enem, mais estudantes da rede pblica teriam acesso s vagas oferecidas, o que uma grande inverdade. Na UFPA, por exemplo, uma aprovao considervel de alunos de escolas pblicas s possvel graas ao sistema de cotas e no prova defendida pela Uepa, que apresentou em seu ltimo vestibular (atravs do Prise e do Prosel) o ingresso de 55,31% da mesma rede. Precisa de Enem? O Prise, criado em 1997, pode ser considerado como o processo seletivo mais democrtico, j que ocorre em cada fase do ensino mdio e proporciona maiores chances a quem dicilmente conseguir se preparar em um cursinho. No que tange informao, a Universidade do Estado do Par falhou ao tratar precariamente um tema de tamanha magnitude, restringindo as discusses em dois nicos eventos (que ocorreram na EGPA) voltados majoritariamente para a gerncia da instituio, excluindo, assim, os principais interessados na adeso ou no desta universidade ao Enem. No houve a apresentao do projeto e to pouco a realizao de consultoria para saber a opinio da populao, que mantm viva a universidade atravs de seus impostos. Por isso, alm de equivocada, tal adeso foi arbitrria e contrria aos princpios democrticos que tanto defende. A resoluo 2784/14, do Consun, publicada no Dirio Ocial do Estado em 22/12/2014, aponta que o Prise deixar de ser ofertado a partir de 2016, mas o processo 2014/520494, aprovado pelo mesmo conselho, indica que o Prise poderia ser mantido e apenas o Prosel seria substitudo pelo Enem. Por qu? Alm do conito citado, a prpria Uepa deixa claro no documento de adeso que a nova forma de ingresso s seria denida futuramente, atravs de edital elaborado pela Pr-reitoria de Graduao. Se no tinha um projeto pronto, qual a necessidade de se aderir ao vestibular nacional? Considerando a falta de argumentos que justicassem a troca do vestibular regional pelo nacional, a falta de debate, a quebra do regimento interno, as vrias contradies presentes no documento de adeso, alm de outros problemas, ca claro que os interesses polticos mais uma vez passaram por cima dos interesses sociais, que sero duramente afetados. O maior nus, sem dvida, ser a ampliao da desvalorizao dos estudos voltados para a Amaznia, que mais uma vez se rma como colnia ao abdicar da prpria cultura. As disciplinas de Letras, Geograa e Histria sero amplamente afetadas, assim como os futuros docentes que a Uepa lanar sociedade, que deveriam integrar os saberes amaznicos com outras realidades e no se desfazer dos primeiros. Nada disso foi levado em considerao pelo Consun no ato da adeso, que por incrvel que parea composto majoritariamente por docentes da prpria universidade. Que tipo de educador capaz de atentar contra quem deveria ajudar a libertar? uma pergunta que ca sem respostas, mas ao mesmo tempo com muitas, j que tais docentes, em sua maioria, so frutos do trgico acordo MEC-Usaid, que reformulou a educao brasileira na poca do regime militar e tornou a mesma menos crtica e mais mecanizada, conforme os interesses do capital internacional. O Enem uma herana desse acordo, implantado na Uepa (assim como na poca da ditadura) de forma arbitrria; mas no signica que os estudantes aceitaro calados essa deciso, j que, mesmo com a adeso ocorrida a uma semana das frias, os estudantes continuaram com as discusses e hoje o caso tramita no MP e na Defensoria Pblica, sem descartar a realizao de atos populares. Que a populao local (que no foi consultada sobre o assunto) se manifeste a respeito.

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12 Memria d oFOLCLORE Em 1950 foi fundada a Comisso Regional de Folclore por Jos Coutinho de Oliveira, Armando Bordalo da Silva, Bruno de Menezes, Bolvar da Silva, Paulo Maranho Filho, Levi Hall de Moura, Jacques Flores, De Campos Ribeiro, Washington Costa, Joo Viana, Raimundo Viana, Pedro Tupinamb, Nunes Pereira, George Colman [do consulado americano], Csar Pereira, Margarida Schivazzapa, Maria Brgido e tala Silveira. Durante certo tempo a comisso se reuniu no casaro de Paulo Maranho Filho, na esquina da Nazar com a Rui Barbosa. Quando ele morreu, sua biblioteca foi saqueada aos poucos. O poeta Max Martins, que trabalhava na Sucam, localizada na transversal, testemunhou as invases cuidadosas de quem saa carregado de livros. Uma pilhagem e uma pena. BARATA Depois de dois meses em tratamento de sade no Rio de Janeiro, Magalhes Barata reassumiu o governo do Par em novembro de 1956. Recebeu o cargo de um antigo adversrio poltico, o deputado estadual Catette Pinheiro, que ocupou interinamente a funo por ser o presidente da Assembleia Legislativa. Nesse perodo, Cattete foi tratado como traidor por seus correligionrios por se ter recusado a mudar a administrao pblica, afastando os baratistas. Catette se disse vtima de ataques dos que j se acostumaram a fazer a indstria do antibaratismo. Prometeu continuar lutando para que o Par no volte aos tormentosos dias do passado. Barata tambm se considerou alvo dos que se uniram para combat-lo, s vendo em sua pessoa o soldado que, durante o Estado Novo, recebeu o governo do Estado, em mudana de regime, como verdadeira prebenda. Garantiu que nunca foi violento e arbitrrio e sempre recebeu os chaves com sorriso: classicavam como violncia a maneira como fazia cumprir as leis e regulamentos. Em mais uma armativa desconcertante, Barata disse que o baratismo foi criado pelos seus adversrios racorosos, interessados em explorar a indstria do antibaratismo. Admitiu que no podia trabalhar sozinho, dispondo-se a deixar as portas do palcio sempre abertas e a sua ateno sempre voltada para as crticas construtivas e sugestes que possam, de algum modo, evitar erros. Barata morreu dois anos e meio depois, antes de concluir o seu mandato. CONTRABANDO A Folha do Norte de fevereiro de 1957 registrou que, na vspera, a alfndega de Belm, cumprindo mandado de segurana concedido pela justia estadual, entregou um automvel Ford apreendido ao seu reclamante, Oscar Steiner, observando: No sabemos se foi essa medida amparada pela lei Oliveira Brito, que determina o depsito ou cauo no valor de 150% em casos dessa natureza. Naquele momento ainda estavam retidos no ptio da aduana, como contrabando, um automvel Chevrolet e outro Mercury, alm de um jeep. O jornal previa que os proprietrios desses caros naturalmente iro tratar de conseguir a mesma medida, de vez que as situaes irregulares so as mesmas em que estava o Ford liberado. Isso foi um incentivo salutar para aqueles que, possuidores de carros, com a sua entrada irregular no Estado, agora podem us-los sem medo de ser molestados pela scalizao do imposto de consumo, como tambm dar uso entrada de muitos outros em situaes idnticas. A previso se cumpriu. BOMIA O intelectual amazonense Ramayana de Chevalier (pai de Roniquito, o famoso personagem da boemia de Copacabana e Ipanema) foi homenageado na sede do sempre festivo Par Clube, quando era na avenida Nazar. Ao voltar sua terra, escreveu sobre a instituio que era ento o clube. E em certo trecho fala de uma Belm que se foi, com seus personagens e cenrios: Sobe o dia, o sol ferve para os lados do Ver-o-Peso, o Barbinha [bar que cava no incio da rua Campos Sales] est cheio. Comea o tumulto. Os casquinhos de caranguejo inigualveis. O Baratinha, tambm. Onde exista um telefone e uma oportunidade, a est o Baratinha. Fino, elegante, sensitivo, equacionado para o triunfo como um avio a jato. Dali a turba investe para o Par Clube. As horas passam e o conforto espiritual se eterniza no salo da Academia Bomia. Belm tem estradas largas e belas, tem a mouraria e a alfama das ruas estreitas, onde se vende o amor sem preconceito, tem a zona bancria, sempre azafamada, as esquinas do tacac e do aa. PROPAGANDAIr e vir dois motores a exploso, como o deste anncio, era muito mais demorado do passageiro em tempo, mas perdeu no atendimento. A Real Aerovias Nacional (em consrcio com a Aeronorte) grandes e macias poltronas reclinveis, com atendimento por uma modelar aeromoa. Os trs da boa viagem. A agncia era na avenida Presidente Vargas, que ainda era a mais importante de Belm.

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13 Cotidiano CLO Um leitor que leu o registro feito nesta seo sobre a priso, em 1964, do advogado e ex-deputado estadual Clo Bernardo, na edio anterior, lembrou um fato. No dia em que Clo foi solto, o ento governador Jarbas Passarinho, no carro ocial, com direito a bandeirinha que o identicava, foi na hora do almoo buscar o recm-libertado preso poltico em sua casa (que cava na Alcindo Cacela) e o levou para almoar na casa governamental onde hoje o Parque Residncia. O gesto emocionou o lder socialista. Os dois eram amigos. O episdio d razo a Gilberto Freire: no Brasil, s vezes as relaes de amizade, familiares ou de compadrio superam as diferenas polticas, os conitos ideolgicos e a luta de classes. MULHERES em Belm foram a Braslia para uma audincia com o presilivrou o Brasil do movimento comunista. Quando soube que da audincia, Castelo, que foi comandante do exrcito em Bepara uma visita ao Palcio do Planalto. Integravam a comitiva as esposas de Cludio Dias, DoMedeiros, viva Ana Guerreiro, Gilda Medrado, Maria Ldia Mendona e Carmlia Palmeira. FOTOGRAFIAJnio em campanhaJnio Quadros discursa em comcio realizado em Belm durante sua campanha para a presidncia da repblica, em 1960. Seria eleito com a maior de todas as votaes obtidas por pretendentes ao cargo mximo do poder pblico. Seria o presidente mais fugaz e controverso tambm. Ao fundo, o deputado federal Gabriel Hermes Filho (depois senador e que presidiu a Federao das Indstrias do Par por 40 anos) e ao lado o futuro prefeito de Belm e deputado federal Stlio Maroja. Jnio deixou a nao rf da sua tentativa de golpe branco. TEATRO que respondia a notas da imprensa atribuindo ao governaProena. A nota garantia que ele continuava a merecer mentado e fora constatada pelo prprio governador. Prova da decadncia era o desaparecimento dos lusdas portas esto ali para documentar que uma prtica dessa ordem s levada a cabo quando o arrancamento das desnaturam a clamorosa realidade dos fatos. REMO H derrotas que so gloriosas, como a que o Clube Pel & Cia., o maior time de futebol do mundo na poca. Mas colocou quatro gols na rede santista. O que quase guiu na comitiva o treinador, o ex-craque Danilo Alvim. apenas um curioso.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal LEIA E DIVULGUEJornal Pessoal S A DE [A carta a seguir de uma brasileira residente nos Estados Unidos, que quis manter seu anonimato nesta importante mensagem.] Passei a vista no Uol e me deparei com uma noticia que certamente ser sem importncia para a maioria das pessoas e sobre a qual no tenho como resistir em comentar: faltam vacinas (muitos tipos) nos postos da rede publica de sade e at nos estabelecimentos privados no Brasil. A razo: o Ministrio da Sade reduziu o suprimento! Seria um problema de produo, no explicado, mas o que parece ser, na realidade, uma tentativa de economizar! Qual o custo de um paciente com um simples sarampo para o sistema? Um pas que se livrou da plio, tem poucos casos de meningite e ttano e tem sob controle a febre amarela, agora no tem vacina suciente. Imagina se o pessoal com menor condio vai car retornando aos postos/ hospitais para se vacinar. Vejo isso como o sinal mais concreto ate aqui da falncia deste governo. No sei j pararam para pensar nas implicaes disso at fora do pas e os problemas de imagem que isso vai gerar. Imagina que eu e meu marido, depois de uma viagem Amaznia, sejamos questionados pela imigrao (Estados Unidos/Europa) onde fomos e a gente fale a verdade: Marab, Belm ou qualquer ponto na Regio Norte. Qual a chance de que vo pedir o carto de vacinao contra febre amarela? Altssima. Ando com o meu na carteira. O mesmo para o meu marido. E eu achava, at aqui, que umas das maiores leviandades das administraes do PT, era o fato de a Ana Julia Carepa ter proibido a Seduc a receber milhares de documentos escolares (como o meu) dos ex-alunos do Cearense e que no foram colocados em meio magntico, comprar o prdio para a Seduc e mandar retirar os documentos do prdio e que foram jogados num grca em Ananindeua e o qual me levou um ano e meio correndo atrs, inclusive com a ajuda da Corregedoria do MPF, em Braslia, para que fossem levados Seduc. S quero ver quando vo comear a nova vaquinha para ajudar os novos heris da Lava Jato. muito abuso! C ABANAGEM No resta dvida que o tema palpitante e deveria suscitar aos paraenses nos estudantes de um modo geral, nos estudiosos da Academia e nos leigos o interesse pelos primrdios com efeito de uma obrigao, tanto do estudante, em proporcionar aos seus alutos to importantes que iro balizar a suas formaes cvica e intelectual. Com este propsito, no se pode perdoar a incria e o desleixo que a sociedade civil e o poder pblico vm tratando de assunto to importante. De nossa parte, durante a passagem pelos bancos escolares desde os primeiros anos at o curso superior, os ensinamentos sobre o tema cientes, que nem mesmo para despertar a curiosidade serviram. Na mesma sequncia posso assegurar que meus tratamento diferenciado. No obstante os percalos, ao longo da vida, tive um razovel acesso ao assunto atravs dos autores (todos recida pelo editor deste JP) les e Pascuale Di Paolo. Coo Baro de Guajar, porm confesso que no tive flego para vencer as suas intermi nveis 2.300 pginas, peja das de notas explicativas e remissivas, conforme esse editor j registrou. Preferi ler o livro do Pasquale Di Paolo que, no tem o tutano do Batomada das leituras esparsas sobre o movimento rebelde, sobressaindo o livro Cabanagem Documentos Inglesessas informaes do ponto da privilegiada posio da armada inglesa na costa patos cabanos. caso mais escabroso foi o com as autoridades france sas e inglesas para enfrentar a sedio local arregimenta da pelos cabanos, mas que os estrangeiros teimavam nativos, celerados, ple be armada, conspirao de ndios, desordeiros, populao de cor e que tais. No tiro o mrito de o grosseiramente, lesa-ptria. os franceses e ingleses j atuavam nas atividades de guerra e defesa da provncia desembaraadamente, com a inclusive reclamaram e denunciaram ao Presidente do Andrea, em correspondncia de 09.09.1836) ... a ocupao pelo governo francs de uma parte do territrio da Guiana. O pano de fundo da intriga inglesa era que o assento dos franceses no a plena navegao e os inteAlbion. Percebe-se, no s pelos pequenos fatos venti lados antes, que a alienao do Imprio com relao s suas Provncias era quase total, elas viviam merc da ajuda dos navios mercantes CART@S

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15e de guerra que freqentavam e navegavam no litoral brasileiro. Aqui no Par agravou-se mais a dependn cia devido que, no frigir dos ovos, os ingleses j agiam com desenvoltura, como mostra esta convocao pelo prprio Presidente da Provncia, com a missiva ao Vicede 27..07.1837, que ter mina assim: ...para que unidas as deste Governo se salve esta malfadada Propela longevidade do gover isolamento e omisso, como se dizia, do Governo Central com as suas Provncias. expulsar os renitentes por tugueses que ocupavam seu territrio, com a colaborao e mercenrio, com larga experincia de lutas no continente americano e que aqui de primeiro almirante da ckrane. A sua contratao foi feita a peso de ouro, afora o cometia aos bens dos venciLuis. Como a ao de Lord aps a proclamao da Indenos Documentos Ingleses, uma vez que eles (ingleses) j andavam e mandavam tempo. Desse modo, considero que o enfrentamento dos insurretos nas terras paraen ses deu-se com a decisiva e direta participao dos estrangeiros (preponderando os ingleses), algo que pode das correspondncias troca das pelos altos funcionrios de Janeiro e do almirantado, impregnadas de notcias relevantes, como por exemplo, alm das j citadas: ... so baseadas em relato mandado comandou as foras legalis por isso que no concordo que se deva cruciiniciativa de conjurar ato lesivo Ptria em construo, por dois motivos: 1) a Monarquia Constitucionalista atribua ao Imperaderador, disto resulta que, mesmo no aprovado pela Assemblia, a ltima palavra era do Monarca, e ele era o representante do dito principais adversrios dos cabanos, porque possuam o domnio da situao e manrevoltados, conforme esclarece a carta do Presidente da Provncia, datada de 27 socorro para combater os desordeiros, movimentos anrquicos, que pretende envolver todos os pretos, em o especioso pretexto de que que serviria um documenpela Assembleia? J estava tudo dominado, como se diz prosaicamente. compromissados com a realidade nada de academi possvel a crueza dos vidos entre os nativos, os negros e os estrangeiros, assim como as razes das insurgncias, se de consistncia poltico ideolgica, ou de desigualdades sociais e raciais, ou simplesmente porque se recusaram a aderir a independncia, nos termos que foram sacramentados no Rio de Janeiro. dissidncia de opinies sobre o regime a ser adotado, uns pugnavam pela simples reunio Brasil/Portu gal (Reino nico), e outra ala pregava a Monarquia Constitucional, que acabou prevalecendo. Qual era a ris cabanos? Aqueles que de um modo geral estiveram tos foram imolados na luta, uma pequena parte mesmo estropiada conseguiu soinsurreio. Todos indistin e sabiam por que estavam guerreando? aproveite a iniciativa do Jornal Pessoal, divulgando o assunto e emitindo a sua apreciao crtica, usando Dossi 9/Jornal Pessoal Cabanagem 180 anos A guerra de um povo, como instrumento para as prximas diligncias sobre to controvertido assunto. Rodolfo Lisboa CerveiraCorreoA revenda citada na matria de capa da edio passada de motocicletas e automveis BMW. Por lapso, o texto citou motocicletas Mercedes.

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O desenho que Delm no pendurou na paredeNo ano passado escrevi sobre o perl de Delm Netto publicado na revista Piau. Um dos fatos que destaquei foi a coleo de 20 caricaturas dele feitas por artistas conhecidos, que ele mandou emoldurar e pendurou como trofus no seu escritrio. Aprisionadas dessa maneira, elas se pareciam aos animais empalhados com os quais os caadores decoram suas salas. Por mais que tivessem a inteno de criticar o personagem, os cartunistas acabaram sendo mais leves no trao, deixando-o domesticvel. Delm Netto merecia essa deferncia. A coleo, entretanto, no incluiu o cartum reproduzido nesta pgina, desenhado pelo argentino Luz Trimano para o quarto nmero do semanrio Opinio, de dezembro de 1972. Trimano, que se tornou um dos mais importantes ilustradores da imprensa brasileira, inigualvel na colagem, nunca mereceu a ateno devida ao seu talento. \Em 1972, quando virou cartum de Trimano, Delm era o mais poderoso ministro no governo do general Emlio Garrastazu Mdici, no auge da ditadura militar. No s por ocupar a pasta da Fazenda, de tradicional destaque, mas pelo seu estilo imperial e agressivo de agir. Ele posava como o mago do milagre econmico brasileiro e nessa condio recebeu em Braslia, nessa poca, um dos principais representantes de outro milagre, o do Japo. Saburo Okita, ministro do comrcio exterior, era mais discreto, embora no menos enftico. Ele, Delm e mais alguns tecnocratas, dentre os quais com papel especial o engenheiro Eliezer Batista, da Companhia Vale do Rio Doce (e pai do futuro empresrio Eike Batista), estavam promovendo a intensicao (como nunca antes nem depois) dos dois milagres. O Japo comparecia com capital, tecnologia e mercado. O Brasil, com as matrias primas de que os japoneses, a partir da crise do petrleo, se tornariam cada vez mais carentes. Para intensicar a parceria, brasileiros e japoneses passaram a circular intensamente entre os dois pases, a ponto de Eliezer se tornar o no residente que por mais vezes foi ao Japo, em para mais de uma centena de viagens. com seu captulo especial no Par, que forneceu minrio de ferro e alumnio para as indstrias japonesas. Como grande Trimano para advertncia dos que glamourizam agora aquele perodo de crescimento econmico to intenso quanto frgil, enquanto a mo pesada da represso sufocava a liberdade, sem a qual nada vale a pena numa