Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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BELMMistrio crescenteBelm uma cidade pobre, mas tem ilhas de riqueza de origem difcil de explicar. Esses osis so formados por uma economia subterrnea que s faz crescer, sombra da omisso do poder pblico ou de sua conivncia com uma prtica leniente e parasitria.PARAENSE USA DINHEIRO VIVOCELPA TENTA MUDAR IMAGEMBELO MONTE EM NOVEMBRO oa A populao de Belm de 1,4 milho de habitantes, oito vezes menor do que a de So Paulo, com seus quase 12 milhes de moradores. J o oramento da capital paraense 18 vezes menor do que o paulista, indicador da pobreza ainda maior da cidade, que completar 400 anos em 2016. O prefeito de Belm dispe de quatro reais por dia de receita pblica para aplicar em benefcio de cada um dos belenenses. menos do que gasta o trabalhador que precisa pegar dois nibus para ir e voltar do emprego. Enquanto So Paulo dispe de oramento anual de pouco mais de 50 bilhes de reais, o de Belm ca em R$ 2,8 bilhes. Com essa receita, fazer uma boa administrao municipal tarefa que desaaria o melhor, mais honesto e mais competente dos gestores pblicos. Com desperdcio, mau uso ou desvio de nalidade (sem falar na presena, cada vez mais agigantada, da corrupo), desao impossvel de ser encarado. So justamente essas as caractersticas dos ltimos governos da capital, incluindo o atual, de Zenaldo Coutinho, do PSDB. A jornalista Ana Clia Pinheiro, no seu blog, A Perereca da Vizinha, e em seguida o Dirio do

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2Par denunciaram uma situao chocante: o prefeito de Belm possui mais assessores (118) do que o de So Paulo (114). Daria um assessor para cada 114 mil habitantes de So Paulo e um para apenas 12 mil habitantes de Belm, com um exrcito de assessores 10 vezes maior do que o gestor da capital paulista, o petista Fernando Haddad. A assessoria de comunicao da prefeitura procurou relativizar a dramaticidade desses nmeros com argumentos sosmticos e insatisfatrios. De fato, parte desse pessoal aparece no gabinete de Zenaldo Coutinho, mas trabalha (ou pelo menos est alocado) em outros rgos da prefeitura. Foi assim que ele preencheu nada menos do que 68 cargos no Departamento de Administrao, 15 no Promazen (o programa andando a passos de cgado de saneamento da bacia da Estrada Nova, iniciado pelo seu antecessor, Duciomar Costa, do PTB) e 14 na Junta Militar. S 10 aparecem como lotados especicamente em seu gabinete. No entanto, 17 assessores lotados na Secretaria de Administrao foram deslocados para o gabinete do prefeito e da sua vice, que ainda tem espao para abrigar 25 em lotao direta. O abuso no s o quantitativo: tambm o da destinao desses assessores (como explicar que seis deles estejam no cerimonial e cinco no Amabelm?) e sua condio, parte deles da classe mdia alta e mdia, detentores de um QI especial, o de vaticinados pelo Quem Indica. So da confraria do prefeito e do seu principal auxiliar, o secretrio de administrao, Augusto Coutinho, seu irmo. E de famlias colunveis, provavelmente aparecendo mais nas colunas sociais do que nas sinecuras pblicas. um escrnio diante da situao de pobreza de Belm, 628 no ranking do IDHM (ndice de Desenvolvimento Humano Municipal), atrs, inclusive, de capitais sempre mal posicionadas, como So Lus do Maranho e Teresina (Piau), alm de cidades menores. No entanto, a assessoria do prefeito um longo cabide orido por gente que parece bem sucedida num meio no qual no falta a exibio de riqueza. Por Belm trafegam mais de 100 motocicletas Harley-Davidson, as mais caras do mercado, importadas dos Estados Unidos. Apesar dessa frota invejvel, ainda no h uma revenda dessa joia dos motoqueiros abastados. Para motos Mercedes (e carros) j h uma loja especca, que colocou muitos veculos num mercado no qual, antes, uma Mercedes era raridade. Um dos dois Porsches que serviram de carro-madrinha na Frmula 1, foi comprado no ano passado pela dona de uma franquia de produtos de beleza em Belm. A mquina custou 700 mil reais e mais 200 mil para blindar. Com a blindagem, diversos sensores foram desajustados. Mais servio e mais gastos. O lho de um magnata local resolveu exibir, na sede da Assembleia Paraense, um Audi importado que o pai comprou. Antes de chegar ao clube dito aristocrtico, passou por dentro de um alagamento ao lado da adutora da Cosanpa, na avenida Joo Paulo II. A gua cobriu o veculo e causou perda total do motor (o bloco explodiu). Como o jovem se apavorou e abriu a porta antes de chegar o guincho, a gua invadiu o automvel e molhou todos os sistemas eletrnicos. Com dois dias estava coberto de mofo. Se o dono do carro conseguisse comprar um motor usado na Espanha, teria que pagar 75 mil dlares, segundo um especialista no assunto. O dinheiro teria que sair do seu bolso porque o seguro no cobriu o acidente. O magnata removeu o automvel para seu stio, na rea metropolitana, onde a preciosidade pode ter virado pea de museu. Os dois exemplos mostram que a classe mdia est comprando carros de Primeiro Mundo para rodar em uma metrpole de Terceiro Mundo (ou abaixo). A esposa de um magistrado, que dirigia um Honda Civic, passou por um dentre as centenas de alagamentos que se formam ao longo da BR-316, em Ananindeua. gua entrou no motor e causou um calo hidrulico. O dono desse carro teve mais sorte: conseguiu que o seguro cobrisse as despesas da recuperao como se fosse um sinistro (com o tempo isso repercute nos prmios dos seguros). Em uma das ocinas que procurou, o seu carro era o quarto automvel que l chegava com esse problema. A tomada de ar ca a uns trinta centmetros do solo e alagamentos dessa profundidade so rotina ao longo da BR-316. O contraste visvel no dia a dia da cidade: uma infraestrutura incapaz de atender a demanda, que cresce. E por que cresce, se a cidade pobre? Certamente em funo de ilhas de riqueza e ostentao. De onde vem o dinheiro que as forma e mantm? S uma parcela menor da economia formal, organizada e legalizada. Esse submundo econmico existe e funciona rotineiramente, embora sem ser captado pelos indicadores econmicos e sociais. Um economista, que reconhece esse submundo, acredita que, em algum momento, ele se comunica com o mundo econmico visvel e mensurvel, da superfcie aparente. Por sua importncia, essa economia paralela precisa ser quanticada para se inserir no PIB de Belm e, dessa maneira, ser vista, analisada e se tornar suscetvel a uma interveno do poder pblico. A economia dos produtos piratas, por exemplo, j responde por boa parte do comrcio do centro da cidade. Os vendedores desses produtos, estabelecidos normalmente na avenida Joo Alfredo e algumas transversais, so organizados e protegidos por autnticas mas, que tm esquemas prprios de segurana, alm da cobertura policial, apesar de operaes de represso realizadas eventualmente. Os comerciantes tradicionais j foram deslocados. Muitos fecharam suas lojas, mesmo as tradicionais, abandonando o comrcio ou passando a viver do aluguel dos imveis para pessoas do comrcio informal. Vrios desses prdios, como o da Rofama, que vinha conseguindo manter seu armazm de ferragens por dcadas, at capitular, se tornaram depsitos de mercadoria de ambulantes. O economista observa que o grupo Yamada se adaptou a esse novo cenrio vendendo para a classe C e alcanando o mesmo pblico dos camels, que encorparam e se transformaram numa questo de difcil enquadramento e soluo. As sadas tentadas no deram certo ou caram comprometidas pela falta de seriedade e de persistncia, desfeitar a cada nova eleio. Esse mundo subterrneo no contudo, privilgio do pequeno ou micro comrcio. O maior grupo de comunicao do Estado (e do norte do pas) mais se esconde do que se retrata nos seus balanos anuais. Os nmeros no traduzem a grandeza visvel da corporao, o que leva o pblico a deduzir das suas demonstraes nanceiras que h uma economia paralela margem do grupo Liberal (como certamente do grupo

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3RBA, s que de perl ainda menos devassvel por no assumir a forma jurdica de sociedade annima da Delta Publicidade, responsvel pelo jornal O Liberal). notrio tambm que as empresas de transporte coletivo de passageiros tm parte de suas receitas desviadas para um caixa 2 que alimenta a corrupo e uma parte remunera os prprios trabalhadores (motoristas e cobradores recebem uma jornada em espcie, diretamente da gaveta do cobrador). Certa pessoa envolvida em um episdio de lavagem de dinheiro, em processo criminal que tramita at hoje, sem denio, pela justia estadual, adquiriu e mantm funcionando um resort de praia dentro da mais perfeita legalidade. Vai continuar assim, se depender do ritmo da tramitao do processo. Cada uma dessas histrias exemplares forma um complexo que, contado e medido, acredita o economista (que, obviamente, preferiu no ser identicado), explicaria essa exuberncia de Belm que no gera receita pblica. Uma concluso bvia que esse tipo de negcio narconegcios, pirataria, contrabando, corrupo, lavagem de dinheiro, boom imobilirio no gera receita pblica. Demonstrar isso o problema. Mas como o tamanho desse submundo gigantesco, ele no pode mais ser ignorado. Se no considerado, porque alguma coisa vai muito mal na administrao pblica, como todos sabem, mas raros esto dispostos a levar em considerao para alguma iniciativa prtica. Pior para o futuro de Belm do Par.Paraense prefere o dinheiro vivo?Os paraenses reagem a usar dinheiro de plstico: preferem andar com dinheiro vivo. Por isso, os bancos tm que estocar grandes volumes de moeda em suas agncias, tornando-se mais expostos a assaltos. Os assaltos s agncias do Banco da Amaznia tm acontecido no Par com muito maior incidncia do que nos demais Estados da regio amaznica. Em alguns deles, o banco no sofreu qualquer assalto nos ltimos anos, em contraste com a grande quantidade de ataques no Par. A surpreendente informao foi dada em Santarm pelo presidente do Basa, Walmir Pedro Rossi. Ele garantiu que se o volume de dinheiro nas agncias fosse menor, talvez no tivssemos tantos assaltos assim. Agora, se numa agncia tem R$ 400 mil, R$ 500 mil, os bandidos se sentem motivados a agir. Enquanto a gente no reduzir a quantidade de dinheiro vivo nos bancos vai continuar convivendo com esse problema. Indo alm na observao, foi taxativo: As pessoas tm que parar de querer receber seus salrios em dinheiro vivo, de querer receber crditos em dinheiro vivo, aceitando usar meios de pagamento que o mundo inteiro reconhece, como o carto de crdito e o carto de dbito. Se a loja onde a pessoa zer sua compra no quiser aceitar o carto, ela est incentivando o assalto porque est obrigando o cliente a andar com dinheiro vivo. As lojas que no querem aceitar carto, porque no querem pagar imposto. Mas o imposto que ela deixa de pagar, s vezes o imposto que o Estado deixa de arrecadar e que deixa de investir em segurana por ter limitao de recursos, argumentou Rossi. Seu raciocnio causou espanto e provocou crticas. Em primeiro lugar porque o uso do dinheiro digital uente. Tambm porque h formas de desestimular o uso do dinheiro atravs de depsito em conta ou outras formas que facilitariam a vida de quem recebe pagamentos no interior do Estado, principalmente servidores pblicos. Para alguns observadores, o banqueiro omitiu um aspecto da questo: os altos custos cobrados pelos bancos pela prestao de servios aos clientes e simples usurios eventuais, que desestimula operaes bancrias. Tambm parecia querer transferir a responsabilidade pelo problema aos cidados, que j so vtimas dos custos e da ausncia de melhor tratamento nas agncias. Depois de terem transferido para o cliente funes que antes eram de responsabilidade dos seus funcionrios, atravs da internet (e que lhes permitiu economizar despesas pela demisso de pessoal), os bancos estariam querendo culpar ainda mais o cidado. Esses aspectos devem ser considerados, mas se o dado apresentado pelo presidente do banco da Amaznia real, essa insistncia dos paraenses em transacionar com dinheiro vivo, ao invs de adotar o mtodo universal do dinheiro de plstico, no teria tambm alguma coisa a ver com a sonegao scal e a origem ilcita dos recursos? uma hiptese complementar. A atividade subterrnea ou clandestina remonta, pelo menos na sua verso moderna, ao intenso uxo do contrabando no ps-guerra, at a derrubada do governo populista do PSD de Magalhes Barata. Fortunas tinham sua origem no movimento de exportao de caf e cacau e na importao de carros americanos (os cutias), perfume, usque e at sandlia japonesa. Arrematado em leiles que legalizavam a muamba, o contrabando ia parar nas mos dos contrabandistas e em suas lojas vistosas. Ou se materializava no cadillac que circulava pelas ruas, desaando o sco. Talvez o Par tenha a maior economia informal do pas, em termos proporcionais, e a maior taxa de sonegao, que forma um robusto caixa dois de muitas empresas. Elas se tornam poderosas dessa maneira, afastando a entrada de concorrentes em potencial, que no penetram nas fronteiras parauaras, por no ter acesso (nem poder adotar) aos esquemas de desvio. Agora, pelo que disse o banqueiro, o Estado pode reivindicar outro ttulo desse quilate: o de campeo de assaltos a bancos.CorreoNo oitavo pargrafo do artigo de Marly Silva, publicado na edio anterior, faltou um ponto de interrogao na frase E o que se apurou deste crime que atinge toda uma comunidade de trabalhadores e famlias que luta por direitos ancestrais, direitos legais e legtimos terra de negros descendentes de escravos trazidos da frica para trabalhar no Maraj, em Belm e outros stios. Na apresentao, o texto embrulhou a autora do artigo com o tema do texto, a irm Dorothy. A professora Marly no ativista catlica nem membro da congregao Notre Dame, qual pertencia a religiosa.

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4Os Maioranas contra ZenaldoO prefeito de Belm, Zenaldo Coutinho, no deve estar atendendo s vontades e caprichos do grupo Liberal. A prova so as matrias de crticas administrao municipal cada vez mais frequentes, espaosas e duras. Se o grupo tivesse uma linha editorial basicamente jornalstica, a iniciativa podia ser saudada como providencial e benca. At agora, a realizao mais evidente do tucano disputar com seu antecessor, Duciomar Costa, o ttulo de pior prefeito da capital paraense em tempos recentes (e concorrentes o que no falta, para infelicidade da cidade). A fase de preparao e ajustes j passou e a administrao, a meio caminho do nal do mandato, no estabeleceu qualquer marca ou diretriz. Com a nova eleio no ano que vem, o grupo Liberal deve estar esperando a retribuio pelo apoio dado a Zenaldo. Se h agora m vontade com o alcaide, em contraste com o tratamento de prncipe que lhe era dado at recentemente, porque h pretenso retida na cesta de exigncias do imprio de comunicao. Tanto h que o jornal O Liberal re percutiu uma devastadora matria do Fantstico sobre a situao arruinada ou ruinosa dos postos de sade na rea metropolitana, sobretudo em Belm. A pauta nacional da TV Globo no Par no se subordina s veleidades e caprichos da aliada, seguindo critrio muito mais jornalstico. Da os Maioranas no poderem usar sua prpria emissora de televiso como a arma mais ecaz para campanhas contra os que no atendem os seus pedidos e ordens. A Globo no deixa. E a Globo tem autoridade para tomar essa posio: se no tivesse intervindo na Liberal, a situao teria se tornado insustentvel. Hoje, a TV o veculo rentvel do grupo. Sem poder interferir nas matrias de rede da televiso, mesmo quando geradas em Belm, desta vez o jornal no cou omisso, repercutindo a reportagem do Fantstico, ao contrrio do que previu seu maior rival, o Dirio do Par. O jornal dos Barbalhos garantiu que o concorrente no ia dar nada. Subestimou a tenso latente da corporao com o prefeitoA Amaznia submerge, s Braslia que no vRio Branco, a capital do Acre, esteve ameaada de car novamente isolada por terra e praticamente deixar de funcionar por causa da cheia do rio Acre, que a banha. Trs das quatro pontes que fazem a ligao entre as reas da cidade chegaram a ser interditadas e a nica que resistiu j apresentava, sinais de fragilidade quando a gua comeou a baixar. Oito municpios foram atingidos no Estado. A cheia deste ano a maior da histria. O nvel das guas chegou a 18,40 metros. Na capital se concentraram 87 mil dos 183 mil atingidos pela cheia, contando com 26 dos 56 abrigos montados. Tudo de improviso e precrio. No ano passado, o recorde histrico foi do rio Madeira, em Rondnia, que ainda est enchendo. Foi uma verdadeira tragdia, que chegou a ameaar a hidreltrica de Jirau, uma das duas grandes barragens erguidas no leito do rio, que o principal auente do Amazonas. Porto Velho e outras cidades do Estado caram ilhadas. A cheia do ano passado se inseriu numa tendncia observada nos ltimos anos de menor intervalo entre as maiores enchentes na Amaznia, seguidas, em algumas regies, de perodos de secas tambm frequentes e rigorosas. Pode ser um fenmeno da natureza, independente da interveno humana, mas um fato concreto, quaisquer que sejam suas origens. No entanto, mais uma vez, nada foi planejado de forma decisiva para atenuar o padecimento das pessoas e minimizar os prejuzos materiais. Cheia de rio fenmeno cclico sazonal na Amaznia e extremamente positivo porque fertiliza o solo com os nutrientes que carrega. S se torna negativa quando se excede, avanando muito alm da calha para submergir extensas reas de plancie, algumas mesmo de depresso. A tecnologia e a cincia possibilitam prevenir a tempo e modo o movimento das guas na maior bacia hidrogrca do planeta, aproveitando o que ela tem de mais efetivo, que a renovao da fertilidade dos solos. No basta, porm, monitorar imagens de satlites: o governo precisa ter braos para atuar no cho, onde esto os seres humanos. O diagnstico pode ser feito e o receiturio existe, mas a decincia parece ser da vontade. que as vrzeas amaznicas, com extenso de 150 mil quilmetros quadrados apenas na calha do Amazonas (rea do tamanho do Estado do Cear), no so prioridades para os governos que, h meio sculo, promovem a ocupao da regio atravs de rodovias, dando acesso s reas centrais e mais altas. Com todas as distores, o imigrante (pessoa fsica e, principalmente, jurdica) prevalece sobre o nativo. Braslia no tem olhos para a realidade nas margens dos rios, ocupadas h sculos pelos moradores mais antigos, que no so o objetivo dos planos de integrao. V-se o contraste a olho nu, sem precisar de satlites, a ferramenta preferida dos amazonlogos de retaguarda: enquanto a parte tradicional da Amaznia vive uma cheia enorme, o governo federal lana seu programa de monitoramento do fogo para 2015, um ms antes de comear a temporada das queimadas em todo pas, extensivas a dezembro. Campe nos ndices de destruio da natureza, a Amaznia pilhada, saqueada e reduzida a terra arrasada por essa migrao intensiva e descontrolada, mas que o foco de todas as atenes. Afogado e vendo seu patrimnio desaparecer, o cidado do Acre pode gritar vontade por socorro. Sua voz no chegar ao trono republicano, na capital federal.

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5Belo Monte se antecipa. o melhor para o pas?O mistrio do cimentoO consrcio Norte Energia pretende recuperar parte do atraso nas obras da hidreltrica de Belo Monte, no Par. Para isso, programou o incio do enchimento do reservatrio para 15 de setembro. O represamento do rio Xingu inundar uma rea de 502 quilmetros quadrados (ou 50 mil hectares), seis vezes menor do que o reservatrio da hidreltrica de Tucuru, a quarta maior do mundo, tambm no Par, que ocupa 3 mil km2 e o segundo maior lago articial do Brasil. A Norte Energia quer iniciar a gerao na usina ainda em novembro deste ano. Mas para reduzir o atraso no cronograma original, que era de um ano (o incio da operao devia ter ocorrido em 28 do ms passado) para nove meses, o consrcio ter que concluir a desapropriao de mais de 2 mil imveis localizados na rea de inuncia direta, com mais de 20 mil pessoas atingidas. O reassentamento um dos itens mais atrasados da obra. Ele devia ter sido completamente executado em julho do ano passado. A gerao comear no pela casa de fora principal, que ca rio acima de Altamira, mas pela casa de fora complementar, instalada na estrutura do vertedouro principal, a partir do qual ser formado o maior dos reservatrios (os outros cam fora da calha do rio). A usina complementar ter seis turbinas de 38,85 megawatts cada, somando menos do que uma nica das 18 gigantescas turbinas Francis da casa de fora principal, na qual estaro 98% da capacidade instalada de energia da hidreltrica. um esquema de construo indito na histria das grandes usinas no Brasil. As turbinas suplementares, do tipo bulbo, funcionam com baixa queda de gua, ao contrrio das turbinas convencionais, que necessitam de um grande desnvel no rio para que um volume maior de gua (750 mil litros por segundo) acione seus pesados mecanismos de gerao. A antecipao dos prazos para a entrada da usina em funcionamento mais cedo podem prevenir problemas, alguns resultantes da apurao de corrupo na Petrobrs, pela Operao Lava-Jato, que se apresentam no horizonte de Belo Monte, com seus 28 bilhes de reais de custo, 80% garantidos pelo BNDES, agora tambm sob a discreta e ainda tmida mira dos investigadores federais. Executivos da Construtora Camargo Corra comearam, na semana passada, a dar informaes sobre a formao de cartel das empresas para a conquista das obras da usina, alm de Jirau, em Rondnia, e outras irregularidades em obras de estatais do setor energtico, como parte de um acordo de delao premiada com a Lava-Jato. A Camargo tem participao nas duas obras, cujo custo est estimado em quase 30 bilhes de reais. No ano passado, o Tribunal de Contas da Unio iniciou uma auditoria para investigar o repasse de 22,5 bilhes de reais do BNDES para o consrcio responsvel pela construo de Belo Monte. bom para o Brasil que a investigao se aprofunde e se estenda, saindo do universo da corrupo apenas na Petrobrs. Nenhuma obra no Brasil est utilizando mais cimento do que a hidreltrica de Belo Monte. Absorver 3,7 milhes de metros cbicos de concreto at o nal da obra, com custo total orado em 28 bilhes de reais (valor de novembro do ano passado). Esse um detalhe ao qual pouco se atenta. Quando a concesso foi vencida pelo consrcio Norte Energia, era de presumir que o produto viesse da Caima, a fbrica que o grupo Joo Santos construiu em Itaituba, tambm no Par, com incentivos scais da Sudam (10 anos depois de construir outra fbrica em Manaus, para l levando o calcrio extrado no Par). Mas a empresa perdeu a disputa para o grupo Votorantim, da famlia Ermrio de Moraes, de So Paulo. Embora a fbrica mais prxima da Votorantim casse em Xambio, no Tocantins, bem mais longe, a empresa ofereceu um preo pelo cimento a granel muito inferior ao que a Caima apresentou. Com a vantagem adicional de se comprometer a entregar o produto na porta da hidreltrica. Como a unidade tocantina no podia suprir toda a demanda, outras fbricas da Votorantim espalhadas pelo pas seriam acionadas, inclusive no Nordeste, sem alterar o preo de venda. J a empresa do grupo Joo Santos faria a entrega na fbrica, em Itaituba mesmo. E por um preo mais elevado: 474 reais pela tonelada a granel. A Caima exagerou na cotao ou a Votorantim ofereceu um preo seco, no osso, sem qualquer gordura de lucro? A dvida no foi respondida na poca da contratao, mas se a Operao Lava-Jato realmente chegar a Belo Monte, um bom tema para colocar na agenda da apurao.O Jornal Pessoal existe pela fora do leitor COMPRE E DIVULGUE

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6Celpa: a energia cara e a imagem negativaA Equatorial Energia inseriu, na semana passada, anncio de duas pginas nos dois jornais dirios de Belm, o Dirio do Par e O Liberal. Era a maior programao publicitria em impresso desde que a empresa assumiu o controle acionrio da Celpa, h trs anos. A pea faz parte de uma campanha iniciada no ms passado para tentar mudar sua m imagem junto opinio pblica. Esse anncio foi efeito da manchete de primeira pgina de O Liberal da vspera da publicao dos anncios: Celpa pede Aneel que autorize novo reajuste, proclamou o ttulo. O texto dizia: O pedido de reviso extraordinria, formulado pela Celpa, acontece dias depois da entrada em vigor de um aumento mdio de 5,5% para as unidades consumidoras da Regio Norte. De acordo com o Dieese-PA, a empresa foi beneciada por 16 reajustes nos ltimos 17 anos. Imediatamente a Celpa distribuiu uma nota informando que a reviso tarifria extraordinria do Par foi uma das menores do Pas. Enquanto a mdia nacional do reajuste ficou em 28,7%, o ndice da Celpa foi de 3,62%, o 5 menor em todo o Brasil. Lembrou que essa reviso de responsabilidade da agncia federal de energia e est sendo realizada para restabelecer o equilbrio nanceiro do setor eltrico, de forma que as tarifas passem a cobrir, dentre outros custos, a despesa com a gerao das usinas trmicas, j que a escassez de chuvas fez com que fossem acionadas as usinas termeltricas, cujo custo de gerao dez vezes maior do que o das hidreltricas. Ou seja, o valor arrecadado com o aumento da tarifa no ir para a Celpa, mas, sim, ser usado para cobrir o aumento das despesas de gerao e outros custos. Na informao principal, o comunicado garantia que no h previso e nem foi solicitada pela Celpa nova Reviso Tarifria Extraordinria. E que, atualmente, a tarifa de energia no Par no a mais cara do Pas, ocupando a 9 posio no ranking de tarifas da Aneel. A empresa j ocupou o penltimo lugar. Apesar da campanha sistemtica que tem feito contra a concessionria, desde que ela passou a cobrar 20 milhes de reais de dvidas antigas contradas por 150 unidades consumidoras sob a responsabilidade do grupo de comunicao da famlia Maiorana, O Liberal no respondeu ao caro anncio com uma matria jornalstica. Anal, a nota da Equatorial o desmentia diretamente, negando que j tivesse feito o pedido de reviso e assegurando que nem pretende requer-lo. Esse ato seria insensato, mesmo que o equilbrio nanceiro da empresa com a atual tarifa estivesse prejudicado ou comprometido. Em um ano, os reajustes em favor da Celpa chegaram a 40%, oito vezes mais do que a inao no perodo. um valor considervel, se no espantoso e inaceitvel para o consumidor, ainda que a questo seja mais complicada do que a verso simplista e tendenciosa de O Liberal. No texto da manchete, o jornal se referiu ao reajuste mdio de 5,5% dado s concessionrias da Amaznia, mas se esqueceu de ressalvar que para a Celpa o aumento foi de 3,6%, complementando o de 36% do ano passado. O objetivo claro: continuar jogando o povo contra a concessionria, mesmo que custa de inverdades sutis ou mentiras abertas. A campanha podia beneciar a populao em geral e os que pagam conta de luz se fosse jornalisticamente correta. Mas, como sempre, o comandante do grupo Liberal, Romulo Maiorana Jnior, colocou seus interesses pessoais acima de tudo. Por isso, deixou de prestar ao leitor as informaes que o desmentido da Celpa lhe impunha. Mas no deixou de faturar os anncios.Petrobrs: privatizao ou destruio por dentroO PT acusa o PSDB de querer privatizar a Petrobrs. De fato, o senador tucano Jos Serra defendeu a tese recentemente. Mas o que o PT tem feito destruir a estatal por dentro. Herdou problemas e irregularidades, como quase todos os governos a partir dos anos 1960. Mas os multi-plicou como ningum antes, para parafrasear o ex-presidente Lula. A dvida da Petrobrs chegou a 332 bilhes de reais, num grau to perigoso que a agncia de clas-sicao Moodys a rebaixou para a apreciao do mercado de aes e investimentos. S vai continu-ar a operar nanceiramente com a empresa quem cobrar muito mais do que vinha fazendo, porque o grau de classicao agora especulativo. Segundo a Folha de S. Paulo, de 19 milhes de reais por ano para auditar as contas da esta-tal, a consultora internacional Pricewaterhouse Coopers vai cobrar agora R$ 47 milhes o que d uma pequena medida da elevao de custos da Petrobrs. A PwC se recusou a assinar o balan-o do quatro trimestre do ano passado porque as demonstraes no excluam prejuzo por conta do chamado petrolo. O impasse ainda perdura. Nele, esto em jogo tanto a imagem da petrolfera quanto a da empresa de auditagem, uma das mais importantes do mundo. Para enfrentar essa mar ruim a Petrobrs anunciou ontem que pretende vender bens do seu patrimnio para arrecadar at 13,7 bilhes de dlares (R$ 39 bilhes) com as vendas neste e no prximo ano. Assim poder responder a co-branas no valor de US$ 11 bilhes, 25% a mais do que estava previsto no seu Pano de Negcios 2014-2018. De roldo, a liquidao vai engolir campos de leo e gs, renarias, dutos, terminais e a rede de postos de combustveis, alm de empreendi-mentos de gs e energia. Se conseguir reduzir seu elevadssimo endividamento, recompor a sua ca-pacidade de investimento e expurgar o prejuzo causado pela corrupo desenfreada, que criou a Operao Lava-Jato, a Petrobrs poder recupe-rar a sade. Mas quando? A que custo? Necessariamente, no poder mais manter o seu perl atual, minado pela promiscuidade entre seus dirigentes e executivos e os partidos polticos no poder. As ideias apresentadas por Serra no so exatamente de privatizao, expresso de-monaca que turva as discusses mais corajosas e profundas. Mesmo se polmicas ou equivocadas, elas formam uma boa agenda para a sociedade usar na discusso sobre a forma de renascimento que a estatal dever seguir para se reconciliar com seu passado glorioso.

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7Menos ateno ecologia : nfase agora na produoDe 2012 a 2014 o governador Simo Jatene prometeu, com nfase, aos 170 integrantes do setor de reas protegidas, que funcionava na Secretaria de Meio Ambiente do Estado: criaria o Instituto de Biodiversidade e reas Protegidas, seguindo o exemplo da Unio, que criou o Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade. A equipe tcnica decidiu ento se preparar para assumir a tarefa: realizou seminrios com a participao de consultoria contratada junto ao governo de Minas Gerais, tambm controlado pelo PSDB, para elaborar um projeto de lei que pudesse fortalecer ainda mais o setor encarregado da gesto de unidades de conservao do Par. As consultorias custaram muito dinheiro aos cofres pblicos e os servidores empenharam horas extras de seu trabalho na esperana de viabilizar a melhoria dos servios pblicos voltados a gesto da biodiversidade de unidades de conservao. Recursos nanceiros no faltavam: eles vinham da compensao ambiental paga pelas empresas que intervm sobre a natureza. O problema, ao contrrio, no era de dinheiro, mas gastar os recursos. O entrave estava na inoperncia administrativa, da antiga Sema. Com um quadro muito pequeno de funcionrios, no conseguia atender as demandas de gastos do setor acrescidas das demandas em geral da secretaria. A esperana dos tcnicos estava na transformao em um instituto, que teria autonomia e um quadro tcnico administrativo ampliado e competente, capaz de realizar a misso institucional sobre as reas protegidas. A reestruturao da Secretaria de Estado de Meio Ambiente neste terceiro mandato de Jatene simplesmente extinguiu a Diretoria de reas Protegidas. No seu lugar criou o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade.O setor de proteo da diversidade biolgica e cultural foi atrelado ao setor de concesso orestal, que, assim, se apossou dos recursos da compensao ambiental. Hoje, eles somam mais 36 milhes de reais. Quando o governador anunciou a inteno original, os tcnicos sugeriram a ampliao do corpo tcnico para que cada uma das 21 unidades estaduais de conservao tivesse pelo menos uma gerencia administrativa. Ao contrrio do que prometera, porm, o governo extinguiu as gerncias, que j funcionavam precariamente. Dos 26 cargos comissionados, restaram 11, sendo 9 DAS4 para cuidar de todas as UCs do Estado e dois DAS3 para a gesto da biodiversidade do Estado inteiro, incluindo terras indgenas e territrios quilombolas. As consequncias da reestruturao foram desastrosas porque dos 70 servidores efetivos que a diretoria conseguiu treinar para fazer a gesto das UCs e tratar da biodiversidade, apenas 25 aceitaram ser cedidos para o Ideor-Bio (os mais velhos e os que tm cargo comissionados), j que no foram oferecidas vantagens salariais e prossionais para aqueles que se dispusessem a ir para o novo instituto e tambm por se sentirem trados pelo governo. O Tribunal de Contas da Unio publicou um relatrio que indicou que a Sema, para melhorar a gesto das UCS, deveria ampliar o quadro tcnico encarregado de fazer a gesto desses territrios. O governo se comprometeu em cumprir as determinaes do tribunal, mas parece ter esquecido o compromisso. A direo seguida a partir de agora parece ser no sentido de fazer prevalecer a posio do setor orestal,voltado para a atividade produtiva, sobre o setor ambientalista.No por acaso, empresrios e polticos de Paragominas dominam essa rea do governo e esto empenhados numa tarefa: fazer o sucessor de Simo Jatene no governo do Estado.Governo faz, governo tiraO sistema nanceiro nacional bloqueou qualquer operao com o setor de construo pesada, se ela envolver o governo federal como pagador. Os bancos querem agora distncia do Tesouro Nacional. Surpreendentemente, os primeiros a fechar as portas para a operao de desconto de duplicatas foram o Banco do Brasil e a Caixa Econmica Federal, controlados pelo governo. A denncia foi feita por Joo Santana, presidente da Constran, empresa de construo pesada, em artigo na Folha de S. Paulo. Alm de no poder mais operar com os bancos, sua empresa est sendo obrigada a recolher os impostos sobre a fatura emitida, que os rgos do governo deixaram de pagar. Santana, que foi ministro no governo de Fernando Collor de Mello (agora acusado tambm de se beneciar do pagamento de propina na Petrobrs), diz que a Constran tem dois contratos assinados com a Valec, empresa do Ministrio dos Transportes. Um deles referente a 150 quilmetros, na ferrovia Norte-Sul, em Gois (que se liga ferrovia de Carajs e, algum dia, deveria chegar a Belm). O outro por 170 quilmetros, na Fiol (Ferrovia Oeste-Leste), no interior da Bahia. Os pagamentos de ambos encontram-se atrasados. Em quase 60 anos de histria a primeira vez que no recebemos nem sequer para honrar a folha de pagamento da obra. lamentou ele, que faz a pergunta: a suspenso dos pagamentos se deve Operao Lava-Jato (a Constran controlada pela UTC, embora no integre a lista de empresas investigadas), ou ao ajuste scal iniciado pelo governo? Santana no considera as providncias anunciadas pelo ministro da Fazenda um ajuste scal de verdade. Em vez de propor cortes e eliminar linhas de despesas, o governo apenas no paga. Em outros pases, o nome disso calote e rompimento de contrato. No Brasil, batizamos de ajuste scal, argumentou ele no artigo. Historicamente, quando o governo tem planos de enxugar despesas, ele chama seus fornecedores e informa o que ser cortado, dando s empresas condies de se planejar. chato, ruim, mas honesto e transparente. O oposto manter, de um lado, o discurso de que nada ser cortado, que o PAC ser mantido, que os programas sociais no sofrero cortes e, de outro, reter pagamentos devidos por servios prestados, como se faz neste exato momento, observou o ex-ministro. E arrematou: Criou-se uma realidade discutvel. Enquanto o governo federal empurra para a sociedade o peso do ajuste, na forma de mais impostos e mais desemprego, no aplica ao Estado qualquer ajuste real. Quando executivo de empresa responsvel por obras pblicas assina artigo como esse, porque a situao est mesmo muito difcil.

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8CABANAGEM/180 ANOSA conquista do poder no gera um novo poderA cabanagem se distinguiu de outras revoltas que eclodiram durante o Segundo Imprio e mesmo antes e depois desse perodo por um fato singular: o povo realmente tomou o poder. Ao longo de mais de cinco meses a provncia do Gro Par foi governada por trs presidentes cabanos. O primeiro foi um membro da elite nativa, o proprietrio de terras Flix Clemente Malcher. No auge da violncia, assumiu o comando o lder dos moradores do interior, a parcela que hoje se diria camponesa da composio de foras, Francisco Vinagre. E, por ltimo, um quase citadino que mal sara da adolescncia, Eduardo Angelim. Nas escaramuas posteriores frustrada tentativa de implantao de um governo legal, com o marechal Manuel Jorge Rodrigues, os cabanos reassumiriam o controle do poder, mas sem modicar sua essncia e estrutura. Finda a cabanagem, as coisas no voltaram a ser o que eram, mesmo porque a economia estava arrasada e houve alarmante reduo na populao, efeito dos morticnios no uxo ascendente da revolta e durante a ao repressora do poder central. Tomado o poder, o que os lderes cabanos zeram para mudar o sistema de explorao vigente, estabelecer novas regras de convivncia ou reorganizar o governo em outras bases? Nada foi feito que pudesse ser associado a uma revoluo. A marca dos acontecimentos a partir de 7 de janeiro de 1835 foi a da progresso da violncia, num ajuste de contas sangrento entre as duas partes que se extremaram no cenrio da capital e do interior. Os cabanos no se prepararam para o dia seguinte. Queriam apenas se livrar das correntes da dominao, materializada na cor da elite e na sua condio social. O segredo da cabanagem morreu com o seu maior agitador, o padre Batista Campos, vtima de um acidente banal, ao se ferir no momento em que se barbeava e ser fulminado por uma gangrena que no pde debelar porque estava em fuga pela mata. A uma semana da irrupo da revolta, morria o homem que foi a ponte entre o perodo de agitao poltica e fermentao ideolgica, antes e depois da adeso do Par independncia nacional, que teve como seu vrtice Felipe Patroni, e a arregimentao para a luta armada. A liderana de Batista Campos incontestvel, mas que ele pudesse preservar um ncleo poltico e ideolgico no torvelinho de violncia do confronto entre os que tm e os que nada tm, levada ao paroxismo da matana, um ponto duvidoso at hoje. A anlise desse perodo, demarcada por mitologias e denies altissonantes, tem trazido pouca demonstrao em favor da denio da cabanagem como uma revoluo. Em geral, a anlise histrica, em tempo especco e espao delimitado, atropelada por conceitos transportados de realidades atuais para as situaes daquela poca. A cabanagem o que dela dizem esses intrpretes, no o que realmente foi. Dentre outros motivos pela falta de provas na forma de documentos primrios ou testemunhos de poca vlidos. Em 1971 muitas dessas questes tomaram forma ou foram suscitadas pioneiramente por um livro que tratava da cabanagem apenas lateralmente, mas que teve o impacto de uma autntica reviso do tema. Foi O Negro no Par, sob o regime da escravido, de Vicente Salles (Fundao Getlio Vargas, Universidade Federal do Par, 336 pginas). Vicente tinha acumulado tantos dados que o espao foi extremamente limitado para sua apresentao e tratamento analtico. Deixa a impresso de que aquela seria apenas a primeira abordagem do tema. A ele voltaria de forma denitiva. De fato, produziu ainda o Memorial da Cabanagem, quase to fragmentado quanto O Negro no Par, mas sem o tratamento sistemtico que o livro anterior prometia. Dessa tarefa Vicente se desincumbiu sinteticamente na entrevista que me deu, publicada originalmente no jornal O Liberal, num suplemento que editei. Para avivar o debate, decidi reproduzir os trechos que me parecem os mais pertinentes de O Negro para retomar as armativas e dvidas de Vicente Salles sobre a cabanagem, a maioria delas ainda em aberto. Acho que suas restries sobre Felipe Patroni, embora corretas, no so inteiramente justas nem adequadamente contextualizadas. Vicente atribui precocemente demais uma insanidade mental que s tomaria conta de Patroni tempos depois, sem, contudo, imobiliz-lo. Na reproduo dos trechos selecionados, corrigi erros de digitao ou de reviso e deilhes uma forma mais jornalstica para uma maior uncia na leitura por aqueles que quiserem uma boa provocao para a compreenso da cabanagem. Segue-se, Vicente Salles. FORMA DE LUTA Naturalmente, essa forma elementar de luta contra o regime [por parte dos negros escravos], por sua prpria natureza [a fuga para a formao de mocambos], seduzia mais facilmente o escravo. Mas pouco a pouco a forma superior, a luta poltica, e desta para nvel mais elevado, a luta armada. Ganhou uma parcela dessa populao. Entretanto, s um poderoso partido, consolidando poltica, orgnica e ideologicamente, teria condies de conquistar a hegemonia naquela etapa da revoluo social paraense. Esse partido, aguerrido, com carter de massas, existiu em funo de alguns poucos lderes sem preparo e incapazes de compreender a grandeza do movimento. E quando aconteceu o irremedivel, a guerrilha predatria desempenhou importante papel, cresceu, desenvolveu-se, transformou-se progressivamente e, num dado momento, os revolucionrios conquistaram o poder. As lideranas que souberam ganhar as massas no puderam, entretanto, atender suas justas reivindicaes. E para a grande maioria dos escravos o engajamento signicava apenas a supresso do senhor. Ela sabia que esse partido, que tantas vezes lhe acenara o congraamento das raas, tambm era constitudo de senhores, como o prprio Batista Campos ou Malcher, fazendeiros e latifundirios, e tantos outros. Que perspectiva poderia oferecer o partido de Batista Campos, cujo jornal, O Publicador Amazonense, na vspera da cabanagem, incitava a diviso das classes populares, lembrando colocar os ndios e os caboclos contra os negros? [Segue-se o texto do artigo, que aqui no ser citado, por ser mais ilustrativo do que Vicente Salles armou.] O texto no da responsabilidade de Batista Campos, mas o jornal o era, sendo impresso na Typographia Philantropica, Rua do Esprito Santo, 28, sede da revoluo planejada que se iniciou com as pregaes irreverentes de Lus Zagalo e que acenou, com Felipe Patroni, o smbolo da fraternidade entre as raas. Mas na cabanagem uma outra coisa extraordinria acontece: o negro, que at ento fugia para os mocambos distantes, aderiu em massa ao movimento, pretendendo alcanar a liberdade. Esta no lhe foi concedida, porm. E o negro, na sociedade de classes, reprimida a revoluo, teve de voltar aos mtodos tradicionais para a busca da liberdade no consentida: a fuga e posterior agregamento nos mocambos que, a partir de ento, se multiplicaram em quase toda a Amaznia. Nas bacias de certos rios, como o Acar, o Moju, o Capim e

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9o Guam predominavam desde os tempos antigos as lavouras da cana, tendo havido, em todos eles, numerosos engenhos reais engenhos completos, que se distinguiam dos rsticos molinetes para o fabrico de mel-de-cana, da garapa ou mesmo da cachaa. A lavoura canavieira exigiu, como em toda parte, mo-de-obra escrava e nela se concentrou o maior contingente de negros importados pelo Par para os trabalhos do campo. Esta regio foi, portanto, a de maior importncia econmica e a se localizou um dos maiores mocambos paraenses: o de Caxi, cujos negros, comandados pelo preto Flix, aderiram na sua totalidade cabanagem. Foi destroado pelas foras de Andra. Os negros que escaparam no se entregaram facilmente e buscaram outro local para se reagruparem. Num relatrio de Andra, diz-se que foram presos mais de 600 escravos. Mas a regio de atrito no foi pacicada inteiramente. Em diferentes pontos os escravos criaram sociedades fechadas com sua autonomia administrativa e importantes lavouras. PATRONI (...) A frico social, fermentada longos anos, ganhou expresso poltica quando a massa da populao identicou seus anseios com o jogo de uma das faces, engrossando suas leiras. Politicamente, esta foi a vitria da faco que representava um ideal poltico brasileiro, nacionalista, mas essa vitria foi, alm disso, a geratriz de uma atitude poltica nova em nosso meio. Embora os objetivos fossem os mesmos, a faco cheada por Batista Campos transformou-se qualitativamente, passando a expressar, no comeo com algum atrevimento, depois com audcia, os anseios gerais da populao. Foi forada a modicar-se no dia a dia dessas lutas e, de fato, modicou-se rapidamente: adquiriu certo corpo ideolgico, agitou ideias ao mesmo tempo em que lutou pela tomada do poder. Quem primeiro, e mais agudamente, formulou os princpios ideolgicos do movimento foi sem dvida Felipe Alberto Patroni. Mas sua posio nos acontecimentos singular pela projeo que teve em contraste com a alienao de esprito demonstrada desde o incio. Suas atitudes caracterizaram-no mais como oportunista, s vezes audacioso, como no episdio da sua fala na corte portuguesa, dirigindo-se ao monarca em termos candentes e agressivos episdio saboroso para os seus bigrafos. Tambm se nota certo oportunismo no seu plano apresentado s cortes constituintes, sobre o modo prtico de se procederem s primeiras eleies na provncia do Gro-Par. (...) Patroni, na sua ao poltica, tinha qualquer coisa de caudilhesco, imperativo e atrabilirio. A causa era superior sua personalidade. Assim, foi fcil multiplicar os sectrios. Mas estes logo perceberam seu oportunismo e a liderana escapou do seu controle. No Par, sua ao desastrosa, inconsequente, individualista. A introduo da imprensa, iniciativa dele, tambm passar logo para outras mos. Associado ao tipgrafo portugus Daniel Garo de Melo, e com a ajuda nanceira de outros correligionrios, adquiriu e transportou para Belm uma tipograa, onde fez imprimir O Paraense, considerado o primeiro jornal editado em Belm. Como redator desse peridico foi levado crista dos acontecimentos. Houve, porm, desacordo e a sociedade que seria a publicao do jornal se desfez. Patroni entregou-se ao oportunismo e obtendo emprego pblico abandonou praticamente a arena das lutas. BATISTA CAMPOS [ Batista Campos] no representava exatamente o revolucionrio capaz de tentar, ou de levar ao termo, a modicao das estruturas. No poder, no demonstrara abrir esse jogo. Escapava talvez ao seu pensamento poltico a mudana radical do status quo. Ele prprio estava profundamente comprometido com os interesses da classe dominante e, sob certos aspectos, era to reacionrio quanto os componentes da outra faco; apesar representava um dos setores em que a mesma classe se dividira na disputa do poder. Seu liberalismo chega a parecer bastante duvidoso. [ Vicente comenta um libelo apresentado contra Batista Campos em 1832.] O libelo contrasta com a maioria dos documentos conhecidos sobre os acontecimentos que precederam exploso da cabanagem. Essa todavia, uma das muitas tentativas de enquadrar num corpo ideolgico a atuao de Batista Campos: algumas acusaes procedem, como a de o cnego ter entre os seus mais chegados colaboradores, alguns negros que, alis, eram seus escravos; que estes propalassem doutrinas subversivas era compreensvel, mas que essas doutrinas incluam ideias de igualdade social ou de nivelamento de fortunas, ou seja, uma ordem social comunista, algo que nunca se chegou a esclarecer denitivamente. Na cabea dos negros e dos ndios essas ideias no poderiam andar muito longe, mas na sua forma simples, primitiva, de organizao social e econmica, reminiscncia da vida tribal. Handelmann tambm encontrou na cabanagem luta de classes e no de raas e admitiu que o levante de 1835 tinha deveras essa caracterstica, uma feio comunista. Na verdade, nesse perodo conturbado da histria paraense pouco se fala da abolio do cativeiro. Para os negros, a liberdade tinha ou parecia ter signicado especial e muito limitado: escapar das garras do cativeiro, fugir para os mocambos e ali integrar-se ou reintegrarse, melhor dizendo no tipo de organizao social que trouxeram da frica e que entre ns pouco se modicaria, apesar de Tavares Bastos ter enxergado nos mocambos de bidos uma reproduo da organizao social dos brancos. (...) No estudo da revoluo paraense, temos de assinalar a gura contraditria do Padre Batista Campos. Raiol, que fez nos Motins Policos o recenseamento mais completo dos episdios que determinaram a exploso da cabanagem, foi extremamente escrupuloso na anlise do pensamento poltico e da atuao partidria desse lder da revoluo. O padre foi essencialmente homem poltico. A sotaina pesava-lhe e restringia-lhe os movimentos. Como poltico, engajou-se num processo que ajudou a desenvolver, mas do qual perdeu o controle. Assim a revoluo, ao se generalizar, acabou inuindo nele mais do que ele, como mentor intelectual, sobre ela. Preparou-a, mas verdade que, com sua morte prematura [uma semana antes de eclodir a rebelio], no chegou a conduzi-la. Da, talvez, ter ela tomado rumos imprevisveis totalmente entregue a lideranas despreparadas para o exerccio do poder, arrebatada pelos homens do campo, que se foram eliminando sucessivamente, para terminar nas mos de um quase adolescente: Eduardo Angelim. Pouco a pouco as causas do movimento tomaram forma e o padre foi tragado pelos acontecimentos. As aparncias de luta religiosa e as de restaurao naufragaram completamente. Os fatores de ordem social emergiram no mesmo contexto onde havia uma estrutura econmica desorganizada e decadente, uma ordem social injusta e retrgrada, um governo desptico e cruel.

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10O detestvel Hugo Borghi personagem desconhecidoNa maioria dos livros sobre o ciclo de Vargas (1930-1954) o nome de Hugo Borghi, um descendente de italianos, associado a oportunismo, prticas escusas, manipulao. Os adjetivos depreciativos gravitam em torno do queremismo, movimento que ele liderou querendo prolongar a sobrevida de Getlio Vargas no poder, pouco antes da sua deposio por um golpe militar, em 1945. Os queremistas defendiam a eleio de Vargas, o ditador do Estado Novo ao longo de sete anos, junto com a retomada da democracia com uma nova Constituio (Constituinte com Getlio era a palavra de ordem). Finalmente consegui ler A fora de um destino (Forense Universitria, 1995, 413 pginas), sua autobiograa. Seu depoimento devia modular, se no alterar, nos casos extremos, os juzos que so feitos dele. Certamente ele escondeu alguma coisa, mas abordou todas as acusaes que lhe foram feitas e deu-lhes respostas convincentes. Borghi a gura rara de empresrio e poltico. Foi primeiro empresrio, mas a intensa carreira poltica no o desligou completamente dos seus negcios, que nunca foram poucos, graas sua vivacidade, criatividade, persistncia e virtudes comerciais. Foi o catalisador do queremismo sem conhecer pessoalmente o presidente da repblica. S teve um contato com ele, na noite do golpe que o derrubou. Borghi se apresentou armado no palcio Guanabara, residncia ocial, para defender Vargas, se ele assim o quisesse. Mas no foi necessrio. Dessa vez, Getlio preferiu renunciar. Nove anos depois seria diferente: ameaado pelos mesmos golpistas, deu um tiro no peito para no ser humilhado. Borghi foi ao exlio voluntrio do ex-presidente, na fazenda Santos Reis, no Rio Grande do Sul, para estimul -lo a voltar presidncia na eleio de 1950. Colocou a servio da candidatura as trs emissoras de rdio, na poca de grande audincia, das quais era dono. Aplicou energia e dinheiro para organizar o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) para sustentar a campanha eleitoral, anal vitoriosa. Credenciou-se a uma posio de prestgio quando convenceu o presidente Eurico Gaspar Dutra, que fora ministro da guerra durante o Estado Novo, a desfazer um plano dos inimigos para sequestrar Getlio e mand -lo para o exterior. No s protegeu Getlio como abriu uma ponte para Dutra, transitando com desenvoltura entre os dois. Mas diz (e parece ser verdade) que no fez qualquer indicao para o novo governo. A grande sacada de Borghi, que certamente custou aos adversrios de Getlio e ao seu candidato a perda de uma enxurrada de votos, foi destacar a frase infeliz do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN (Unio Democrtica Nacional) a declarao de que dispensava o apoio dos marmiteiros, trabalhadores humildes que guardavam sua comida em marmitas para ir ao trabalho. O estigma no saiu mais, apesar de tantos esforos dos udenistas, que imaginavam ser fcil a vitria do heri da rebelio dos do forte de Copacabana. Borghi estabeleceu sua base em So Paulo. Por duas vezes foi candidato ao governo do Estado. Teve boa votao, mas foi derrotado nas duas tentativas. Elegeu-se deputado federal, porm, por trs legislaturas, j ento por um partido menor, o PTN, depois de se desentender com a cpula do trabalhismo segundo alega, por tramas tecidas por Alzira Vargas, a lha do presidente, e seu marido, Amaral Peixoto, um dos caciques do PSD (Partido Social Democrtico). Borghi desistiu da poltica desencantado com Joo Goulart, a quem critica muito, inclusive por motivos pessoais: Francisco Julio, criador das Ligas Camponesas no Nordeste, com apoio de Jango, teria insuado a invaso das terras em que Borghi desenvolvia um moderno projeto agroindustrial, no cerrado de Gois. Ele reivindica para si o ttulo de pioneiro no desbravamento dos cerrados brasileiros, revalorizados e utilizados mais intensamente depois. Muitos outros ttulos ele pode querer numa vida agitada, intensa e muito interessante. Borghi detalha manobras, transaes e iniciativas de bastidores polticos nos quais poucos penetram e os que esto dentro preferem nada falar. Mesmo declarando-se vtima de golpes polticos que lhe abalaram as nanas, conseguiu se recuperar e partir para novas empreitadas, mesmo quando j no tinha com a poltica seno a posio de observador atento e muito interessado. Seus negcios comearam pelo plantio e reno de algodo em So Paulo (lutando contra as multinacionais do setor), armazenagem, fbrica de leo de babau no Maranho, projeto turstico em Portugal, transporte de carga atravs do Lide Areo Nacional. Por isso seu livro, rico e ilustrativo dos intestinos do poder no Brasil a partir da revoluo de 1930, merece ser lido. Talvez por isso, ele seja to criticado ou caluniado. Ao encerrar sua atividade poltica, em 1968, ele admitiu que s ento percebera o que at ento no soubera avaliar devidamente: a circunstncia de ter sido sempre um estranho no ninho, uma presena nova, incmoda e perigosa entre os prossionais da poltica. Da os dios que atra, a inveja que provoquei, os boicotes e retaliaes que sofri. REVELAES Para os que quiserem ter uma viso por dentro da histria desse perodo, reproduzo alguns dos trechos do livro, que provavelmente s encontrvel em sebos. Eles mostram a poltica anelada aos negcios e a um submundo de interesses poderoso naquela poca como hoje. (...) voltei ao Ministrio da Fazenda e dei conta a Souza Costa [o ministro ] dos passos dados [em 1945] para socorrer o governo Vargas no campo da comunicao, que alm da aquisio das emissoras [de rdio] de [Alber to ] Byington, tambm incluam um acordo poltico-nanceiro com Georges Galvo, dono do popular jornal O Radical, que circulava no Rio, para que o veculo ampliasse a defesa que vinha fazendo do governo Vargas. Antes de me despedir, tambm entreguei ao mi-

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11nistro um cheque de Cr$ [cruzeiros] 3 milhes, montante da contribuio que pensara oferecer antes que me fosse sugerida a com a compra das trs emissoras de Biyngton. O grande erro dos lderes udenistas, assim como dos jornais que apoiavam o Brigadeiro Eduardo Gomes, foi a avaliao pretensiosa que os levou a julgar o queremismo como um movimento assentado em bases articiais, quando na realidade tratava-se de um fenmeno poltico de razes profundas. Caio Dias Batista caria famoso por ser o homem que manipulava a no menos famosa caixinha do governo estadual [de Ademar de Barros], subsidiada por fornecedores e empreiteiros. Sua fama aumentou mais ainda quando resolveu sumir com a caixinha e seus recursos, para irritao de Ademar. (...) Vargas recebeu a visita do nosso embaixador na Argentina, Orlando Leite Ribeiro, gura singular na vida pblica brasileira, que desde a agitada dcada revolucionria de 20 [1920] [nal dos anos 1940] conseguira o quase milagre de merecer a conana simultnea de Lus Carlos Prestes e Getlio Vargas. (Leite Ribeiro, exilado em Buenos Aires, fora gerente e testemunha da nica passagem de Prestes pelo capitalismo empresarial, na rma Lus Carlos Prestes Importacin y Exportcion, na qual o lder comunista revelou-se um eciente negociante de caf. Pela combinao feita, a cartacompromisso [que o Partido Comunista Brasileiro endossaria em apoio candidatura de Borghi ao governo de So Paulo] seria assinada na minha residncia, na ocasio em que seria entregue o cheque de Cr$ 500 mil cruzeiros. [Do acerto participaram os dirigentes comunistas Cayres de Brito, Digenes Arruda Cmara, Pedro Pomar e Jos Maria Crispim.] Quanto aura de honestidade que ele [Jnio Quadros] capitalizou s custas dos dotes histrinicos, o passar do tempo se encarregou de desmoraliz-la, ante a discrepncia entre seus gastos e as ridculas explicaes sobre as fontes que os nanciavam, alquimia denitivamente desmascarada aps o seu falecimento, quando disputas judiciais entre os herdeiros desvendaram o grande patrimnio de Jnio: imveis diversos, moeda estrangeira na Sua, na Inglaterra e at no Japo, ttulos, obras de arte, etc., no montante de uma invejvel fortuna.Onde comea o mau exemplo?O sinal acabara de car vermelho, mas o motorista nem reduziu a velocidade: avanou assim mesmo, ignorando a proibio. No carro iam algumas pessoas, dentre elas provavelmente seus lhos. O que eles aprendero desse exemplo, que se tornou rotineiro na vida da cidade? Que a lei no merece respeito? Um dia avanar o sinal de trnsito. O que pode vir em seguida? Pode se materializar em algo como o que fez o ex-diretor de abastecimento das Petrobrs, Paulo Roberto Costa, um dos principais personagens no escndalo do pagamento de propinas e desvio de recursos da estatal na Operao Lava-Jato. Ele instruiu sua lha, Arianna, a preparar contratos ctcios e a emitir notas frias para esquentar o dinheiro ilcito em empresas ctcias no exterior. Essa operao deu destino clandestino a mais de 8,8 milhes de reais que o pai roubou da Petrobrs, depositados em 19 contas abertas em nove bancos suos. Sabe-se agora que outros brasileiros como Pedro Paulo depositaram numa agncia sua do HSBC mais de 7 bilhes de dlares somente entre 2006 e 2007, em 5.549 contas secretas desse banco. O nome do diretor corrupto da Petrobrs j conhecido, mas e os outros cinco mil e tantos? E os demais ladres espalhados pela Amrica Latina, cujos depsitos na mesma agncia passam de US$ 31 bilhes? A criminalidade pode comear com um prosaico mau exemplo de um pai que no pensa na boa educao dos seus lhos. Pode terminar onde? Onde o Brasil est se acabando, por falta de princpios ticos e morais? Ao violar a lei, por mais elementar que ela seja, pense nisso.

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12 Memria d o AMBULANTES Em 1957, juiz (futuro desembargador e presidente do tribunal) Agnano Monteiro Lopes, um dos primeiros negros na magistratura paraense, pediu para a polcia banir da porta do frum, pela entrada atravs da praa Felipe Patroni, os vendedores de pupunha, tacac, mingau, pasteis e outras guloseimas. A presena dos ambulantes no local recomenda mal, alm de atravancar o trnsito, principalmente nos dias de casamentos. O chefe de polcia, Medrado Castelo Branco, recomendou aos delegados, quando de planto, que efetuem uma ronda naquele local, mandando dali se afastarem os vendedores. Todo o judicirio da capital cabia em um dos extremos do palcio Antonio Lemos, sede da prefeitura de Belm. TEATRO A Folha do Norte registrou, com satisfao, o sucesso alcanado no Rio de Janeiro (que ainda era a capital federal), em 1957, pelo Teatro Amador do Par. frente do grupo estavam S Leal (irmo do jornalista Cludio Augusto de S Leal), Cludio Barradas, Bernardett Oliveira e a professora Margarida Schivazzarpa (segundo a sempre polmica graa do sobrenome da mestra). Os paraenses exibiram a pea No poo do falco. A atriz Mara Rbia, paraense que se estabelecera no Rio e conquistara grande fama no teatro-rebolado, patrocinou uma recepo aos jovens da troupe teatral. PROPAGANDAA maravilha eltricaDiante de uma mquina de datilografia como essa, do anncio da IBM do longnquo ano de 1963, a netinha, impressionada e surpresa ao ver a mquina em funcionamento sobre uma folha de papel, declara ao av: esse computador incrvel, j vem at com a impressora dentro. Mais de meio sculo atrs, essa mquina eltrica era o ltimo grito em matria de escrever, produto de mais de 23 realizaes tcnicas, que davam mais qualidade ao trabalho datilogrfico. A IBM anunciava em Belm, mas no tinha ainda representao no Par, onde essa maravilha era raridade. BICHO Uma nota das Vozes da Rua, coluna da Folha Vespertina, descreve com sua verve ferina o ambiente em Belm durante a fase urea do jogo do bicho, em 1959: Um espetculo que constrange a alma desdobra-se vista de todos os olhos, s horas em que o bicho vai dar (13 e 17 hs.). Enquanto as casas de negcios nas cercanias das baiucas onde o jogo campeia se acham s moscas, s portas destas se aglomera uma multido de mulheres e crianas espera dos acasos da sorte. O Sr. Juiz de Menores devia fazer uma promenade de inspeo s proximidades das baiucas. Mas no ser preciso que deixe a comodidade caseira para ir ver o que lhe indicamos: vizinhos da sua residncia so numerosos os antros onde os humildes vo deixar uma parte do po de cada dia. Debruado da janela, os seus olhos agraro tudo. Como em casa de ferreiro o espeto de pau, a Folha publicava diariamente o resultado das duas extraes do bicho, uma e s cinco da tarde. VESTIMENTA A Delegacia Estadual de Trnsito avisava aos interessados que a partir daquele dia, 20 de fevereiro de 1959, iria exigir que todos os taxistas passassem a se apresentar com o seguinte traje: palet, camisa e gravata; com cala do mesmo tecido ou diferente, sendo considerado ainda por esta Delegacia o uso do informe e da camisa caqui de qualquer tecido (no ou grosso), com gravata azul marinho, como tolervel, por ser do gosto de muitos motoristas de praa da cidade de Belm, considerado mais econmico. O governador, que era Magalhes Barata, a trs meses da sua morte, queria que os prossionais do guidon se apresentassem dessa forma, mas encontrou resistncia, que chegou s barras da justia, criando celeuma. Atenuando o rigor inicial do vesturio, a nota pblica pretendia evitar controvrsias, mal entendidos ou exploraes por parte de pessoas ou em comentrios da imprensa local. Assinava a manifestao o superintendente da DET, que atendia por Maravalho Narciso Belo, nome bem apropriado para o personagem.

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13 Cotidiano CARESTIA Atravs das Vozes da Rua, o jornalista Paulo Maranho demonstrava ser um atento acompanhante da vida na sua cidade. Em nota publicada em 1959, ele observou um fato que podia ser de hoje: Um leitor, crescentemente assombrado pelo custo exagerado dos gneros alimentcios, conta-nos que foi ontem, beira da praia [o tratamento peculiar que os mais antigos davam ao litoral de Belm, sobretudo ao Ver-o-Peso], comprar pupunhas cozidas. Recuou espavorido do inocente propsito. Os vendedores da frutinha silvestre no lhe quiseram vender por menos de cinco cruzeiros cada trs pupunhas. Das pupunhas transladou-se o informante para o stio da praia onde estavam a vender ervas, legumes e verduras. Abriu-se-lhe o apetite de uma salada de alface. Pediu ao vendedor um p. Quanto ? Dez cruzeiros. O p de alface escapuliu-lhe automaticamente das mos e o comprador teve que ser amparado para no cair. FOTOGRAFIANa aldeia GavioEsta foto de 1976. Foi tirada na aldeia dos ndios Gavio, margem da ento PA-70 (agora BR-222), estrada que liga a Belm-Braslia a Marab. A aldeia fica a 30 quilmetros da capital paraense do vale do AraguaiaTocantins (e do Estado de Carajs, se ele vier a ser criado algum dia). Abrao um indiozinho que ficou meu amigo, ao lado do chefe de posto da Funai, Saulo Petean, da minha idade mais ou menos (26 anos naquele momento). Ao fundo, observador, Cutia, que, dizamos, era uma espcie de Delfim Neto da tribo, o todo-poderoso zelador das finanas tribais (sob o olhar judicioso do cacique Kohokrenum). Os Gavies foram os primeiros ndios que, se libertando da tutela da Funai, comercializaram diretamente sua produo de castanha-do-Par e passaram a depositar o dinheiro arrecadado numa agncia bancria. Tornaram-se assim, tambm, o primeiro povo indgena a aplicar no mercado financeiro. A receita lhes permitiu levantar nova aldeia, mais longe da estrada, no formato original, redondo, sem acertar, contudo, na qualidade da construo. Continuam l, ativos e altivos. Eu que h muito tempo no volto l, como no retorno mais s minhas saudosas peregrinaes pelos distantes rinces da Amaznia. PADRE Foi em Paris, em dezembro de 1964, que morreu o padre Dubois, clrigo da Congregao de So Paulo, dos barnabistas, que se tornou gura central na baslica de Nazar, em Belm. No seu necrolgio, Jos Rainha destacou as polmicas do religioso, que foi tambm jornalista, autor de crnicas publicadas pela imprensa local, entrando na peleja jornalstica quando estava em causa a Religio Catlica Apostlica Romana. Dubois lutou contra o protestantismo, atacando de rijo o pastor, poeta e homem culto, dr. Severino Silva. Travou batalha contra o espiritismo, isto contra Nogueira de Faria, desembargador tambm. Investiu muitas vezes contra a maonaria. SUBVERSO Em fevereiro de 1965 o promotor pblico Edgar Lassance Cunha pediu ao juiz da 10 vara criminal de Belm o arquivamento da ao proposta contra os militares Joo Pinheiro da Silva, Vander do Vale, Salomo Lopes Azular, Luiz de Holanda Moura e o advogado Clo Bernardo de Macambira Braga, dentre outros, acusados de subverso. Lembrou que nem o promotor nem o auditor militar identicaram na acusao a comprovao da prtica dos crimes contra o Cdigo Penal Militar e a Lei de Segurana Pblica, apesar do volumoso contedo do IPM (Inqurito Policial Militar), instaurado logo depois do golpe de 1964. Em julho, o Superior Tribunal Militar mandou soltar os acusados que estavam presos por inexistir crime a punir. Apesar da solicitao de arquivamento, o promotor no deixou de ressalvar que as sindicncias procedidas tornaram-se necessrias. O IPM seria um imperativo da prpria Revoluo de 31 de Maro. Louvou a atitude das Foras Armadas, procurando responsabilizar os inimigos da Ptria. S que no caso no surgiram provas capazes, robustas, fartas ou convincentes de subverso ou incitamento ao crime, que se pudessem imputar aos indiciados num enquadramento justo e legal. Mesmo funcionando sob constrangimento, a justia ainda era uma fonte de sobrevivncia do que restava da democracia de 1946.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal LEIA E DIVULGUEJornal Pessoal Cabanagem H pouco menos de um ano deixei de ser leitor intermitente de seu Jornal Pessoal para l-lo continuamente, o que tem me oferecido bons momentos de reexo, incentivados por suas anlises e provocaes. E nesse novo compromisso de leitura que decidi assumir, vem me satisfazendo muito suas publicaes sobre a cabanagem, sobretudo o Dossi n. 9 deste JP, lanado na recente data dos 180 anos da revolta. Em um pargrafo da matria A revolta nos manuais e numa melhor histria (JP n. 579, 2. quinzena de fevereiro de 2015), voc se refere ao Memorial da cabanagem, construdo durante o primeiro mandato de governador de Jader Barbalho, em comemorao ao sesquicentenrio da revolta. Ler isso me lembrou de um fato: no dia 12 de janeiro de 2012, aniversrio de Belm, saa de casa para ir ao trabalho, quando passei em frente a tal monumento, diante do qual quei parado por conta do engarrafamento, comum naquela rea, na qual este termo e o termo como o local conhecido infelizmente tornaram-se intercambiveis. Na ocasio, notei o abandono em que o monumento se encontrava (e ainda se encontra), e utilizei uma rede social para expressar minha indignao pelas condies do local, acrescentando-lhe observaes sobre o fato de que tal obra uma das poucas em que o famoso arquiteto teve algum tipo de atividade direta no norte do Brasil. Dias depois, resgatei esse desabafo em um blog no qual lano notas, acrescentando-lhe um poema escrito por Niemeyer. Passado algum tempo, em novembro do ano passado, recebi um comentrio de Kadu Niemeyer, neto de Oscar, no qual agradece pela admirao que demonstrei por seu av e lamenta o estado da obra, mas arma no conhecer pessoalmente o monumento, falha minha que como fotgrafo que desde 1973 vem fotografando os projetos do meu av e realizando exposies pelo Brasil e mundo a fora. Quem sabe um dia desses vou at a para registrar o projeto e ou mesmo realizar uma exposio. Tal comentrio me instigou, embora no tenha me deixado surpreso, porque j havia vericado a ausncia do monumento em alguns registros da obra do arquiteto, mesmo que seu registro conste, inclusive com esboos, na pgina eletrnica dedica a Oscar. Ainda assim, procurei um pouco mais sobre o assunto, que poca era um interesse mais lateral, apesar de sua importncia, e deparei-me com uma notcia publicada na pgina eletrnica de Jader Barbalho em dezembro de 2012, na qual o atual senador diz que [...] nesse momento, em que o mundo todo comenta a morte de Oscar Niemeyer, eu registro o episdio sobre o monumento Cabanagem, que ele projetou e doou ao nosso Estado. a nica obra erguida, de Niemeyer, em todo o Norte do Pas. Eu o conheci no momento em que quando fui governador o Par se preparava para festejar o sesquicentenrio do movimento da Cabanagem. Eu e o jornalista e historiador Carlos Rocque estabelecemos contato com ele e zemos muitas reunies no Posto 6 da Avenida Atlntica, no Rio de Janeiro. Levamos a Niemeyer extenso material sobre o assunto. Quando o projeto cou pronto, perguntei qual era o custo e ele me disse haver se encantado com os cabanos e que se sentia devedor depois ter conhecido a histria da nica revoluo no Brasil e na Amrica Latina, na qual o povo havia tomado o poder. E explicou a sua obra, que a representao de um dedo da mo da histria. Um dedo fracionado, justamente quando os cabanos so derrotados. A mo ca embaixo e o dedo aponta para o innito, porque a histria no termina. Abaixo da mo, est a cripta que guarda os restos mortais de lderes do movimento. Nesse ponto, cautela necessria, anal voc j destacou em sua matria o uso utilitrio dado ao acontecimento da cabanagem. Em minha resposta, dada por e-mail e em comentrio no blog de Kadu, sugeri sua vinda a Belm para realizar o registro e tentar uma exposio, que, se no momento me escapou a lembrana dos 180 anos da cabanagem, sugeria para os 400 anos de Belm. Recentemente, li nO Globo que, com a falta de patrocnios para suas exposies e para publicar um livro sobre o av, Kadu vem trabalhando como taxista, o que tem lhe afastado um pouco da fotograa, apesar de armar que pretende seguir expondo e vir a lanar o livro. Ainda espero que o fotgrafo venha a Belm registrar esse monumento e expor, e quem sabe possa trazer informaes que, dentre as tantas brumas que rodeiam a cabanagem, nos permitam dissipar as que rodeiam o monumento feito em sua homenagem. E, claro, melhorar a situao em que se encontra. P.S: compartilho da opinio da ombudsman Cintia Moura dada na edio de n. 573 do JP (1. quinzena de novembro de 2014) da satisfao em encontrar notcias sobre temas distintos, como cultura, por exemplo, do que o quinzenrio habitualmente mais destaca. Creio que isso enriquece ainda mais o peridico. Tambm confesso que, devido importncia e o destaque que o JP deu durante o perodo de gestao da reforma administrativa promovida por Jatene, no m do ano passado, venho esperando com certa ansiedade, embora sem saber se vir, a anlise do editor do jornal sobre os termos e consequncias de tal reforma. Ademais, tambm caria feliz se, caso possvel, a seo Memria do Cotidiano pudesse trazer algum registro da concentrao dos girandeiros com seus brinquedos de miriti, tema que me caro, durante os antigos Crios ocorridos em Belm. Amarildo Ferreira Jnior, mestre em Planejamento do Desenvolvimento/Doutorando em Desenvolvimento Sustentvel do Trpico mido (PPGDSTU/NAEA/UFPA) MINHA RESPOSTA Realmente, faltou completar a anlise sobre a reforma do governo Jatene. Alm da falta de tempo para tanta coisa que preciso fazer, estava esperando pela sua matu-CART@S

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15rao para checar a hiptese que levantei. Em midos, como diria um aougueiro: trocar seis por meia dzia. A inteno de acrescentar mais racionalidade e ecincia com menor custo foi anulada pela distncia entre a teoria e a prtica, uma caracterstica marcante no PSDB. Loquaz e de boa voz, o governador parece se encantar com suas teorizaes, vrias delas oportunas e promissoras. Mas ao praticar a administrao no dia a dia, o que prevalece o interesse poltico e a busca por mais poder ou, ao menos, manter o que ele j detm. At agora, o governo o mesmo neste terceiro mandato. Registro a importncia das informaes do Amarildo sobre o monumento da cabanagem. um exemplo de como um intelectual, com as ferramentas que a academia lhe fornece, especialmente para lhe dar rgua e compasso, se interessa pela realidade incluindo-a no processo do conhecimento. Histrias I timo o JP 579! II uma pena que a UFPA viva perdendo uma oportunidade atrs da outra, de reeditar o Motins Polticos. Perdeu os 180 anos da Cabanagem e, pelo andar da carroa, parece que vai perder o quarto centenrio de Belm. Se eu tivesse a quem falar sobre o assunto, proporia que a reedio fosse coordenada por Lcio Flvio Pinto. Para a UFPA, seria como saldar uma dvida e, ainda por cima, ganhar (e muito) com isso. Para Belm e o Par, seriaumbaita presente quatrocento! III Foi mesmo, perseguio poltica, a exonerao da professora Mariana Chuva da direo do Instituto Lauro Sodr, em 1957. Era notria a ligao da professora com o ento prefeito de Belm, Lopo de Castro, opositor ferrenho de Magalhes Barata, governador que exonerou a professora Mariana, e a colocou disposio da Secretaria de Estado de Educao. Mas quem pensou que a Mariana Chuva fosse se acomodar, estacionou e dormiu naquele enganochamado ledo... Pouco tempodepois da exonerao, a incansvel educadorarecebeu convite do prefeito Lopo de Castro, para criar o primeiro Ginsio Municipal de Belm. Ela topou o desao e a comenda saiu melhor que a encomenda: em 1959, sob a direo de Mariana Chuva,j estava funcionando o Ginsio Municipal Alfredo Chaves. Em seu ano inaugural, o Alfredo Chaves funcionousomente no turno da noite, no mesmo prdio em que, pela manh e tarde, funcionava o Grupo Escolar Estados Unidos, hoje Escola Municipal Prof. Benvinda de Frana Messias, em So Brs (junto ao Conjunto Residencial do IAPI). Em 1960, o Alfredo Chaves ganhou prdio prprio:a atual sede da Codem (com a Cinbesa no fundo do quintal), que, dcadas antes, j abrigara o Grupo Escolar Baro do Rio Branco (depois transferido paraa Generalssimo, canto com Brs de Aguiar). Em 1961,com a implantao do Ensino Mdio, o Alfredo Chaves deixou de ser Ginsio Municipal e passou condio de Colgio Municipal. A marca do Alfredo Chaves era a qualidade do ensino.Suas instalaes eram excelentes.O laboratrio para aulas prticas de qumica em forma de anteatro matava de inveja a esmagadora maioria dos colgios de Belm. Na equipe de professores, entre vrias outras feras, um outro Chuva, o Jos Maria, irmo de Mariana, tido e havido como um dos melhores professores de portugus, na Belm daqueles tempos.Parece que ocorpo docente do Alfredo Chaves fora escolhido a dedo, tendo comoevidente propsito fazer com que oestabelecimento desbancasse oPaes de Carvalho, ento um cone do ensino pblico de alta qualidade, na capital paraense. Infelizmente o Colgio Municipal Alfredo Chaves teve vida curta. Morreu de morte matada, assassinado pelo regime militar. Antes disso, a professora Mariana Chuva j fora exonerada da direo do colgio. que, ao m do mandato de Lopo de Castro, foi eleito prefeito de Belm o general Moura Carvalho, herdeiro do baratismo, que j vencera a eleio para governador do Estado, com Aurlio do Carmo. Os tempos caram brabos para os opositores do baratismo, como cedo descobriria o prprio Lopo de Castro, que tevedepredados os transmissores da sua Rdio Guajar, a golpes de machado emarreta, e tiros de metralhadora, tudo com as digitais do PSD. Mas isso j outra histria, certo? Elias Granhen Tavares

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BALAIO DO REPRTERGalvo: o antroplogo que sofreu com os ndiosEduardo Enas Gustavo Galvo morreu em 26 de agosto de 1976, no Rio de Janeiro, onde nasceu 55 anos antes. Dois meses depois, a viva, Clara Galvo, me deu um exemplar de Os ndios Tenetehara, escrito pelo seu marido e o tambm antroplogo americano (seu grande amigo) Charles Wagley. O exemplar, na edio do Servio de Documentao do Ministrio da Educao e Cultura, de 1961 (em 237 pginas, formato grande e clssico), pertenceu ao prprio Galvo, que o rubricou. Foi dupla dedicatria. Na relativa irresponsabilidade dos 27 anos, no dei ao ato daquela mulher maravilhosa o signicado que ele teve. Eu circulava no Museu Goeldi entre a sala de pesquisador, ocupada por Galvo, e a rica biblioteca, comandada com carinho e competncia por Clara. O matrimnio j era formal, mas os dois se gostavam, se respeitavam e se queriam bem, permanecendo juntos por toda vida, sem lhos. Eram duas pessoas excepcionais. No gesto de desprendimento e generosidade, talvez a doutora Clara (como a tratvamos) tivesse pretendido assinalar o seu reconhecimento boa relao que mantive com Galvo at o nal dos seus dias. De nada adiantou ele ter sido o primeiro antroplogo brasileiro a se doutorar pela prestigiosa Universidade Columbia, de Nova York, com uma tese que se transformaria no livro Santos e visagens: Um estudo da vida religiosa de It, Amazonas, de par com o livro de Wagley, Uma Comunidade Amaznica, dois dos grandes ttulos da antropologia amaznica, brasileira e universal. Com o golpe militar de 1964, ele, que nunca tivera atuao poltica direta, foi um dos 300 professores expulsos da Universidade de Braslia, a criao de Darcy Ribeiro, igualmente antroplogo. As portas passaram a se fechar para ele, abrindo-se apenas a do Goeldi, para onde voltou, aps rpida passagem pelo museu, em 1955. ao Goeldi, em 1957, na Universidade Federal do Par. Galvo ainda pode realizar o que mais o entusiasmava, as excurses de campo a tribos indgenas, de que resultaram seus livros e dirios. Mas voltava dessas jornadas desanimado. Nas conversas informais que tnhamos, ele confessava seu desalento pela sorte dos ndios com a abertura das grandes estradas de penetrao s reas isoladas da Amaznia, que testemunhou pessoalmente. Era a mesma conscincia crtica de Charles Wagley, manifestada na terceira edio do seu grande livro, quando os efeitos destruidores da rede hidroviria j estavam claros e cada vez mais ameaadores. Como servidor pblico, porm, Galvo tinha que participar da ao do governo, o que lhe causava ainda maior incmodo e problemas de conscincia. Sentia a impotncia da antropologia e se perguntava se ela no teria, na Amaznia, o papel que desempenhou na ofensiva das grandes potncias sobre a frica e a sia. Nessa poca a antropologia era um dos meus principais focos de interesse. Havia sido monitor do professor Otvio da Costa Eduardo na Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo, a primeira do pas, da qual Darcy Ribeiro foi um dos mais brilhantes alunos. Aproximei-me do alemo Herbert Baldus, da mais importante gerao de etnlogos brasileiros. A pedido de seus amigos e discpulos, morei com ele, na praa Benedito Calixto (depois local da famosa feira de artesanato e cultura dos sbados), na condio de acompanhante, at a sua morte, desfrutando das longas conversas que tnhamos. Meus encontros com Galvo eram verdadeiras aulas, mas serviam tambm aos seus desabafos, que se tornavam cidos quando, fora do Goeldi, nos sentvamos no bar do Central Hotel. Ele manifestava seu ceticismo e desencanto entre doses de gim, o que assinalei em matria de pgina inteira em O Estado de S. Paulo, provavelmente com a ltima entrevista que ele deu. Ele no gostou da indiscrio sobre seu hbito de beber, que se reetia no seu nariz avermelhado e grande, mas no reclamou. Continuamos a nos ver, at que a sade abalada lhe imps o retorno ao Rio de Janeiro. A pesquisa que ele e Wagley realizaram entre os tenetehara do Maranho um exemplar da melhor antropologia que um pesquisador de campo pode realizar para documentar a vida de povos distantes de ns, apesar de contemporneos em cronologia. Entes de um mundo que devamos exaltar e preservar, mas que destrumos sem parar, como Eduardo Galvo viu e, sem poder mudar a histria, padeceu-a junto com os ndios.