Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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POLTICAEdmilson d partidaCausou surpresa a visita de Edmilson Rodrigues, deputado federal eleito pelo PSOL, ao governador Simo Jatene, do PSDB. A iniciativa pode no dar resultados em benefcio de uma unio pelo Par. Mas pode ser o lanamento da candidatura de Edmilson. JARI: VIDA OU MORTE VALE SANGRA MAIS DORROTHY: 10 ANOS oa O deputado federal Edmilson Rodrigues, do PSOL, pode ter dado o primeiro passo da corrida eleitoral de 2016. Nesse contexto que se entende sua surpreendente iniciativa de atender convocao feita pelo governador Simo Jatene, do PSDB, para uma ampla unio poltica em torno dos mais urgentes temas do interesse do Par. S o ex-prefeito de Belm, isoladamente, se apresentou como interessado na matria. Ao sair da conversa, como de seu estilo, no esperou pela avaliao alheia: deniu seu ato como importante. Certamente para ele e Jatene, ainda que no haja qualquer desdobramento desse encontro. O deputado no tentou agrupar a oposio nem submeteu a sua iniciativa a qualquer entendimento. Foi por iniciativa completamente pessoal, para marcar uma posio: a de provvel candidato, pela terceira vez, prefeitura de Belm, antecipando-se at mesmo ao prefeito tucano Zenaldo Coutinho, aspirante reeleio. pouco provvel que Jatene troque seu correligionrio por Edmilson, salamaleques protocolares parte. A presena de Edmilson, o nico deputado federal do PSOL, evitou o esvaziamento da proposta do governador para uma frente suprapartidria. Ningum mais, do PMDB ou do PT, os

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2dois maiores partidos da oposio, se incorporou ao bloco do eu sozinho do parlamentar. Nem foi essa a inteno de Edmilson. Provavelmente pelo seu clculo, a companhia dos dois partidos pode no ser recomendvel. O PT vive a sua pior crise e dela sobra desgaste para o PMDB. Se a conjuntura no mudar, dever aumentar o repdio popular s duas siglas. O PSOL um partido de fraca estrutura, mas num colgio eleitoral mais restrito, embora denso, como o de Belm, pode ser vivel vencer sozinho a disputa, aproveitando a popularidade do seu candidato na periferia. Essa possibilidade tambm colocar em xeque a posio do senador Jader Barbalho como a segunda fora poltica e a nica que se mantm mesmo fora do poder. Seu apoio pendular tem sido decisivo para as vitrias em eleies majoritrias. Mas se conseguir voltar pela terceira vez prefeitura da capital contando apenas com o PSOL e outras siglas de esquerda, Edmilson Rodrigues poder estar em condies de ocupar esse lugar. E, nele, projetar at uma nova e mais alta candidatura, ao governo do Estado, j em 2018 ou quatro anos depois. Talvez assim at consiga atrair, se no o PT como um todo, algumas de suas alas, que pretendem romper a aliana de duas eleies com o PMDB. A expressiva votao que o ex-prefeito alcanou garante sua fora eleitoral na capital. Esse acervo pode ser multiplicada pelo rendimento negativo do correligionrio de Jatene, o prefeito Zenaldo Coutinho. O que no anula a possibilidade de que a iniciativa de Edmilson tenha sido precipitada por sua presuno de grandeza. Mesmo que sua aposta d certo, ela signicar uma mudana de fato e, nalmente, a quebra da polaridade de PSDB e PMDB no poder no Par? No signicou quando o ento petista chegou ao segundo principal cargo poltico do Estado. margem do populismo e do assistencialismo, ele repetiu os procedimentos dos seus antecessores. No conseguiu fazer o sucessor, voltando a ser uma fora individual na poltica. Conseguir reescrever essa histria mal sucedida de outro modo? a questo.Vale produz ainda mais contra a crise siderrgica Em 2014 a antiga Companhia Vale do Rio Doce deniu de vez a sua estratgia para enfrentar a crise do setor siderrgico mundial, a maior deste sculo: vai incrementar a sua produo para evitar queda signicativa no seu faturamento e afastar da disputa concorrentes que no podem partilhar essa estratgia. Agindo assim, a empresa vai aumentar os seus riscos imediatos, com repercusses sobre a cotao das suas aes na bolsa de valores. Alguns dos indicadores do seu desempenho sofrero abalos, mas a mineradora aposta num fator que lhe do maior possibilidade de ultrapassar essa conjuntura difcil: ela tem a melhor jazida de minrio de ferro do planeta e uma logstica sem paralelo em qualquer outro lugar. O l-mignon mineral est em Carajs, no Par, o diferencial da Vale em relao aos competidores. Por isso a empresa est executando ali o mais caro empreendimento da histria da minerao em todos os tempos, no valor de 22 bilhes de dlares, para que, a partir do segundo semestre do prximo ano, 90 milhes de toneladas sejam adicionados aos 130 milhes atuais que so escoados, especialmente para a China, maior cliente, e Japo, na sia. Com o mais alto teor de hematita contido na rocha e uma ferrovia duplicada, pela qual trafega o maior trem de cargas do mundo, que chega 12 vezes por dia a um dos portos com maior capacidade de exportao do mundo, em So Luiz do Maranho, Carajs tirar do mercado muitas empresas que, se aproveitando dos elevados preos das commodities at trs anos atrs, encheram o mercado de matria prima. Esse horizonte livraria do universo da Vale as nuvens carregadas de hoje. O preo atual do minrio de ferro o menor desde 2009 e neste ano, na China, principal consumidora, caiu pela metade. Alm disso, h excedente acumulado ao redor do mundo. Mesmo assim, a Vale decidiu no parar de bater recordes de produo. Em 2014 produziu quase 320 milhes de toneladas, 6,5% a mais do que em 2013, ultrapassando a sua meta de extrao, que era de 4%. Para este ano sua previso de crescer para 340 milhes de toneladas de minrio de ferro. A diferena, de 20 milhes de toneladas a mais, quase equivale ao que devia ser o mximo de produo do projeto Carajs. S que de 25 milhes de toneladas, a produo da jazida situada no Par j chega a 130 milhes e dever atingir 230 milhes em 2018, na escala mastodntica da antiga Companhia Vale do Rio Doce. Assim que a Vale divulgou os seus dados de produo, um analista do Citi Bank declarou imprensa que a agncia mantinha o rating de venda para a Vale, com preocupaes sobre os preos do minrio de ferro e o uxo de caixa, Podia falar tambm sobre o preocupante endividamento da empresa e o que a sua busca por recursos atravs do incremento desmesurado da produo pode representar para o pas e o Par. Prosseguindo na embalada, a empresa, a maior produtora global de minrio de ferro, agora tambm a maior produtora mundial de nquel, apesar de recente no ramo. A produo foi de 275 mil toneladas do produto, que utilizado para a fabricao de ao inoxidvel. Com esse resultado, que no chegou a alcanar a meta, de 289 mil toneladas, a Vale superou a russa Norilsk Nickel. No meio desse nquel todo, segue tambm o de Carajs. Cada vez mais, como de regra no prospecto da empresa. CONTRA A PRIVATIZAO Embora a opinio pblica se mantenha indiferente a essa situao, h aqueles que continuam a perseguir a sua modicao. Nove anos depois de subirem para Braslia, por exemplo, as aes populares contra a privatizao da Companhia Vale do Rio Doce, realizada em 1997, podero voltar apreciao da justia federal em Belm. Em julgamento realizado no dia 3, a 2a turma do Supremo Tribunal Fede-

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3ral, apreciou o ltimo recurso da Vale, que impedia o cumprimento da deciso da quinta turma do Tribunal Regional Federal da 1 Regio, publicada em outubro de 2005. Ao negar o recurso, os ministros determinaram que as aes contrrias privatizao fossem remetidas a Belm, para novo julgamento, que ir analisar as nulidades apontadas no edital de venda e proceder a uma percia sobre a realidade do patrimnio leiloado. Os autores da ao esperam assim denir o verdadeiro valor do acervo da CVRD, que havia sido xado em 3,34 bilhes de reais, em 1997, no leilo de venda. Se for conrmado que houve sonegao e subavaliao de bens, as decises pela nulidade da venda de 1997 ser coisa certa, acredita a advogada e ex-deputada federal, Clair da Flora Martins, autora de uma das aes, O acrdo de 2005 da 5 turma, elaborado pela desembargadora federal Selene Maria de Almeida, do Tribunal Regional Federal da 1 Regio, admite a procedncia das aes, mas no permite prever que o ato ser desfeito. A deciso se restringe a questionar o valor justo da desapropriao, que no teria sido o preo de venda do controle acionrio da ento empresa estatal. Diz o acrdo: em que pesem todos os alegados benefcios para o pas com a desestatizao da Companhia Vale do Rio Doce, e apesar de a privatizao estar consolidada, no se pode permitir que a mesma possa ter sido feita ao arrepio da lei, com a possvel subvalorizao de seu patrimnio a m de facilitar a venda. H irregularidades que, se existentes, repita-se, no sero atingidas pela passagem do tempo, ou consolidadas pela transferncia da empresa ao domnio privado, enquanto no ocorrente a respectiva prescrio. Os ns no podem justicar os meios. A privatizao, realizada em 1997, questionada em dezenas de aes populares que abordam vrios aspectos jurdicos, argumenta a advogada Clair Martins, em nota opinio pblica, entre eles a insero da Vale no Programa Nacional de Desestatizao (que visava a reduo da dvida pblica), a subestimao dos reais valores pelas quais foi leiloada (R$3,34 bilhes), tendo em vista as enormes reservas de ouro de Carajs, ento recm-descobertas. Outro fator para o qual ela chama a ateno que em maio de 1995 a Vale informou Securities and Exchange Comission, entidade que scaliza o mercado acionrio dos Estados Unidos, que suas reversas de minrio de ferro em Minas Gerais eram de 7.918 bilhes de toneladas. No edital de privatizao, apenas dois anos depois, a companhia disse ter somente 1,4 bilho de toneladas. O mesmo ocorre com as minas de ferro no Par, que em 1995 somavam 4,97 bilhes de toneladas e foram apresentadas no edital como sendo apenas 1,8 bilho de toneladas. Acrescenta Clair Martins outro ponto polmico, o envolvimento da corretora Merrill Lynch, contratada para avaliar o patrimnio da empresa e calcular o preo de venda. Acusada de repassar informaes estratgicas aos compradores meses antes do leilo, ela tambm participou indiretamente da concorrncia por meio do grupo Anglo Americano, o que comprometeu a imparcialidade da venda. Entre os rus das aes esto a Unio, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Eles so acusados de subvalorizar a companhia na poca de sua venda. A dvida interna, entretanto, no diminuiu: entre 1995 e 2002 ela cresceu de R$108 bilhes para R$ 654 bilhes, lembra a advogada. Mas h quem considere que essas aes populares ainda no sero devolvidas apreciao da justia federal de Belm, onde elas foram apresentadas originalmente. Em esclarecimento nota distribuda pela ex-deputada federal e advogada Clair Martins, que garantia j ser possvel a devoluo dos autos justia de 1 grau, o advogado Elo dos Santos Cruz, autor de outra das dezenas de aes, esclareceu em outra nota que a deciso tomada no dia 3 deste ms pela 2 turma do Supremo Tribunal Federal no processo principal ainda est sujeita a recurso e depende tambm do julgamento de outra ao. Esta uma ao cautelar que, apesar de ser acessria do recurso principal, ainda no foi apresentada em mesa pelo relator, ministro Gilmar Mendes, para o necessrio exame dos demais julgadores da turma. Justamente nessa cautelar que, em 2010, foi proferida a ordem liminar de 15/09/2010 para suspender o andamento de 70 aes populares, que ainda estavam retidas no mbito do Tribunal Regional Federal da 1 Regio. O tribunal, instncia recursal do juzo singular, examinava a admissibilidade de recursos especiais e extraordinrios protelatrios dos atuais controladores da CVRD, que venceram o leilo de privatizao de 1997. Elo lembra que no dia 13 encaminhou peties ao presidente da 2 turma do STF, ministro Teori Albino Zavascki, na forma de reclamao por erro de ata, a m de que alguma providncia seja adotada e o ministro Gilmar Mendes interrompa o injusticvel retardamento, apresentando em mesa a acessria ao cautelar para julgamento imediato de uns embargos declaratrios do BNDES e um agravo regimental em nome da prpria CVRD sob nova direo, a m de que possam de fato ser devolvidas as aes populares Justia

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4Federal em Belm e realizados em primeira instncia os julgamentos de mrito das aes populares, antecedidos da percia de reavaliao do acervo da CVRD. Dezoito anos depois da venda do controle acionrio da Vale, o questionamento judicial do ato ainda est muito longe de um desfecho, mas os autores das aes no desistiram. Esta ainda no uma pgina virada da histria contempornea do Brasil. DOCUMENTAO PERDIDA Os principais documentos da histria da antiga Companhia Vale do Rio Doce, de 1942, quando a estatal foi fundada, at outubro do ano passado, foram destrudos. O enorme material pegou fogo num galpo em Contagem, na rea metropolitana de Belo Horizonte. O galpo era de uma empresa responsvel pela guarda terceirizada do acervo de todas as empresas da Vale, incluindo a Salobo Metais e a Vale Mina do Azul, de Carajs, no Par. O incndio provocou a destruio de grande parte dos documentos das reas de Tributos, Recursos Humanos, Contabilidade, Jurdico, Suprimentos, Medicina, Segurana, Administrao, Comunicao, Engenharia, Engenharia, Patrimnio, Meio Ambiente, Infraestrutura. A Vale disse que apresentou uma notcia crime s autoridades e foi instaurado inqurito policial para apurar o incndio. Prometeu apresentar informaes logo que for possvel. A nota sobre o acidente foi publicada no jornal Estado de Minas. extremamente discreta e sumria. No tem qualquer logo marca ou sinal de autenticao, o que muito estranho porque a Vale sempre assinala os seus comunicados com a sua marca. Parece mais um documento apcrifo. E de uma pobreza inversamente proporcional sua extrema gravidade. Por que a imprensa, inclusive o jornal que abrigou a estranha nota, no apurou os fatos? Afinal, uma das bases documentais mais importantes da histria econmica do Brasil.O desao no Jari: renovao ou morteO chamado Projeto Jari, um dos empreendimentos econmicos mais polmicos da Amaznia, est beira de mais uma etapa do seu longo processo de quase 130 anos. Desde o nal do sculo XIX, o vale do rio Jari, entre o Par e o Amap, passou pelo domnio do coronel (de barranco) Jos Jlio de Andrade, de comerciantes portugueses estabelecidos em Belm, do milionrio americano Daniel Ludwig e de um consrcio de grandes empresas nacionais, lideradas por Augusto Trajano de Azevedo Antunes, do grupo Caemi/Icomi. Desde 2000 o Jari tem um nico dono, o empresrio paulista Srgio Amoroso, dono do grupo Orsa, de So Paulo, at ento restrito fabricao de embalagens. O BNDES, principal credor do antigo imprio de Ludwig, lhe repassou o controle da empresa pela quantia simblica de um real, desde que ele se comprometesse a pagar o banco, principal credor de 415 milhes de dlares aportados tambm por outros agentes, incluindo o Banco do Brasil. Esse era o valor remanescente do que o banco investiu no projeto a partir de 1982. Foi quando Ludwig se recusou a pagar os emprstimos japoneses contrados para a construo da fbrica de celulose, seu principal negcio na regio, e uma termeltrica. Como o tesouro nacional era o avalista da transao e o BNDES o seu agente, foi preciso honrar a prestao que vencera. Para no estatizar o Jari, o governo recrutou empresrios que no lhe poderiam dizer no (principalmente empreiteiros de obras pblicas), formou um consrcio e colocou-o como sucessor do extico milionrio. Mas o BNDES foi quem continuou a colocar dinheiro na empresa, depois com a suplementao do Banco do Brasil. Como o Jari no dava lucro, os bancos nada recebiam. Em dezembro de 2010 Amoroso quitou a dvida, mas viu-se diante de um problema: a queda do preo da celulose de fibra curta, a especialidade da fbrica. Alm disso, sua produo, mesmo sendo elevada de 250 mil para 450 mil toneladas, ficara aqum do ponto de equilbrio, calculado em um milho de toneladas, para viabiliz-la na conjuntura que se transformava no mercado internacional, destino da sua celulose. Depois de encomendar estudo a uma consultoria especializada, Amoroso decidiu mudar o processo produtivo: ao invs da celulose para papel, converteu a fbrica para celulose solvel. Depois de sofrer duas paralisaes por acidentes industriais, a indstria deixou de funcionar para se transformar. No ano passado, aps mais de um ano e meio inativa, ela voltou a operar, com capacidade para produzir 250 mil toneladas anuais desse novo tipo de celulose, destinada principalmente para a indstria txtil. Ao invs de papel, a celulose transformada em tecidos. Foi investimento de 600 milhes de reais, sendo R$ 350 milhes nanciados pelo BNDES, que, assim, continuou a dar crdito empresa. uma rea nova no Brasil, que conta com um nico produtor dessa matria-prima, a Bahia Specialty Cellulose, com capacidade para quase o dobro da Jari, 485 mil toneladas por ano, mas em poder da asitica Sateri Holdings. A sia justamente o mercado mais promissor, no qual a Jari vai comear a competir e, ao que tudo indica, com disposio. Amoroso abandonou o ttulo antigo da sua empresa, Orsa, pelo Jari, e se desfez integralmente do seu negcio de embalagens, transferindo-o para a americana International Paper. um grande desao. Os preos, que chegaram a atingir 3 mil dlares a tonelada em 2011, entraram em queda com a superoferta a partir da converso de vrias outras fbricas espalhadas pelo mundo para a celulose solvel. A China, principal mercado, passou a aplicar tarifa antidumping sobre o produto originado nos Estados Unidos, Canad e Brasil. Ainda assim, estudos encomendados pela Jari apontaram para um maior

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5potencial a mdio e longo prazo para a celulose solvel e seus derivados, que poderiam atrair investimentos em torno de US$ 2,2 bilhes no Brasil durante os prximos 15 anos. At que a fase mais rentvel chegue, a empresa se manter atravs da explorao de oresta nativa, um item que no fez parte da era Ludwig. Nesse perodo, a diretriz era de colocar a mata nativa abaixo e substitu-la pela oresta industrial, que ocuparia apenas uma parcela do todo. Mais recentemente, esse acervo de madeira nobre preservada tem sido o grande alvo de novos personagens na regio. Extratores de madeira tm se valido da populao antiga e de novos imigrantes para penetrar nas reas de propriedade da Jari ou de terras devolutas com o propsito de obter madeira pelo menor preo. Algumas vezes as causas esgrimidas so aparentemente nobres, mas por trs delas h interesses comerciais predatrios, sobretudo de madeireiros que se deslocaram de Paragominas, montando negcios combinados com grupos estabelecidos em Mato Grosso, que j no dispem de estoques locais em funo do intenso desmatamento no Estado para o plantio de soja e a pecuria. Depois de terem praticado uma poltica de terra arrasada, que chegou ao seu auge quando o municpio era o que mais serrarias possua no mundo (quase 400), alguns dos principais agentes desse processo trataram de mudar a sionomia de Pagominas. Recorreram a artifcios para dar maior dimenso a alguns exemplos limitados de recuperao de reas degradadas, apresentados na propaganda como demonstrativos da nova mentalidade ecolgica. A bandeira desse grupo o programa Municpios Verdes, que conta com a cobertura jornalstica (paga, naturalmente) de Romulo Maiorana Jnior, do grupo Liberal, que fatura a verba atravs da RM Graph, e o peso poltico de Sidney Rosa e Adnam Demarchki, dentro do governo de Simo Jatene. So quase invisveis os elos desse grupo com as frentes madeireiras no Jari, mas eles existem e atuam eficientemente. A empresa pode se contrapor a esses desmatadores com seu mtodo supostamente racional e sustentvel de explorao florestal, que, por estar certificado, se sujeita a controle externo, alm do acompanhamento pelos rgos do governo estadual. J os simples extratores de madeira no tm mediao alguma. Agem conforme velhos mtodos de derrubada e escoamento de toras, sempre danoso. A contraposio dos interesses da empresa ao da populao nativa um dado histrico, mas no insupervel. Pelo contrrio, depois de meses de atuao em campo, o Iterpa esteve bem prximo de resolver esse conflito. Todos os moradores foram cadastrados e j estava em curso sua titulao quando surgiram mais ofensivas de ocupao, com o apoio em organizao comunitria e na representao do Ministrio Pblico do Estado que participa da situao. Se a empresa frauda os planos de manejo ou pratica irregularidades na comercializao da madeira, essas questes podem ser apuradas e atacadas pela administrao pblica. algo muito mais ao alcance do aparato ocial do que a ao subterrnea de grupos j identicados, que fazem o velho jogo dos madeireiros, agora tendo como alvo a rea de maior potencial na margem esquerda do Amazonas, em territrio paraense. Uma interveno rme, decidida e esclarecida, dela expurgadas as manobras comerciais e polticas, poder estimular a consolidao da atividade produtiva no antigo reino de Mr. Ludwig, num momento em que a principal unidade econmica, a fbrica de celulose, se transforma e assume a posio de projeto exclusivo do seu controlador, numa aposta com o futuro, na busca por maior valor agregado produo. Ou ento o processo vai continuar a se desorganizar e sair do controle, provocando algo que a Amaznia bem conhece: a incerteza que precede o m.

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6Uma dcada sem Dorothy StangDez anos depois de cometido, o assassinato da missionria americana Dorothy Stang ainda impressiona pela brutalidade. Ela estava desarmada e sozinha no meio da mata. Ao perceber a ameaa representada pelo pistoleiro, puxou da sua Bblica e comeou a l-la. Estava assim quando recebeu seis tiros, dados queima-roupa. Apesar de vigorosa, era uma mulher com seus 73 anos. Por que tanta violncia, usada de uma forma fria, quase displicente, como se o pistoleiro Rayfran das Neves Sales estivesse praticando um ato banal? Permanece viva na memria dos que acompanharam essa morte a sensao de indignao, combinada perversamente com a impotncia. Muitas providncias foram tomadas em relao ao crime, exclusivamente em virtude da sua grande repercusso, inclusive internacional. Mas a mesma violncia que fulminou Dorothy continua a ser praticada nos ermos do Par e da Amaznia. No s em lugares distantes: nas cidades e na capital do Estado. H uma cultura militante contra as lideranas alternativas ao modo imperioso e categrico de ocupar a Amaznia, que mantm acesa a chama dessa violncia, como mostra o artigo escrito pela sociloga Marly Silva, publicado a seguir. Marly professora e ativista catlica membro da congregao Notre Dam e, a mesma Dorothy.O assassinato da ativista catlica Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005 inscreve-se num tipo de crime denido como crime poltico, uma modalidade de atentado contra a pessoa e a democracia porque os algozes escolhem suas vtimas e planejam suas execues por motivao de natureza poltica, ou seja, por materializarem decises de grupos da direita reacionria. Ela no tolera o lugar estratgico que certas lideranas ocupam na luta de resistncia opresso, explorao e dominao que vigora no capitalismo, e, portanto, constituem uma fora positiva na sociedade pelo m da desigualdade social. Esta tese foi defendida entre ns como uma espcie de crime seletivo por advogados de camponeses pobres, ndios e lderes catlicos na luta pela terra, por ocasio do Tribunal da Terra, realizado em 1986, no salo do Tribunal de Justia de Belm. At hoje s participei de dois encontros pblicos onde pude conhecer, pelo depoimento de testemunhas vivas ou de vtimas que sobreviveram a perseguies e atentados, os horrores praticados pelo brao armado do Estado ou pelo latifundirio contra cidados brasileiros. Um deles foi o Tribunal da Terra, onde camponeses, homens, mulheres e crianas, padres e sindicalistas relataram em detalhes como viram ou descobriram, em tocaias, covas rasas ou boiando no rio, parentes e amigos mortos, e de que forma eram perseguidos por capangas de fazendeiros criadores de capim e, posteriormente de boi, vidos por roubar terras pblicas ocupadas por posseiros, ndios, pescadores, ribeirinhos, quilombolas e retirantes pobres j expulsos de outras plagas em busca de um pedao de cho para matar a sede e a fome. O advogado dizia naquele Tribunal da Terra que julgava e condenava simbolicamente os crimes do latifndio e a omisso do poder judicirio, que uma liderana camponesa ou sindical leva anos e anos para se formar e se qualicar na prtica da luta por direitos humanos. Portanto, a morte de cada uma dessas lideranas signicava um baque profundo na luta camponesa pelo direito terra de trabalho e morada, permanecendo uma espcie de vcuo nessa trincheira poltica, pois at que uma nova liderana viesse a se formar levava sempre muito tempo de maturao. Produzir este vcuo, esvaziar o campo do movimento campons e seus suportes institucionais, era a meta dos latifundirios e fazendeiros-mandantes, para que eles pudessem agir livremente, violando direitos humanos. A eliminao sistemtica de vrias lideranas pertencentes a diferentes categorias sociais (ndios, posseiros, sindicalistas, missionrios, advogados militantes) de um mesmo corpo poltico, sem dvida teve profundas implicaes na congurao que assumiu no Par e na Amaznia a luta pela reforma agrria e a luta dos povos da oresta, fragilizando-a na sua correlao de foras com o latifndio e a moderna empresa capitalista que invadiu o mundo rural. Vejo a neste fenmeno dos crimes polticos seletivos uma das principais razes que levaram ao revigoramento do latifndio e privatizao das terras na fronteira, fazendo avanar a terra de negcio e do agronegcio contra a reforma agrria e o direito terra de trabalho e moradia. Chico Mendes, Paulo Fonteles, Padre Josimo, o deputado estadual Joo Carlos Batista, irmos Canuto, irm Dorothy e, mais recentemente, em julho de 2014, Teodoro Lalor de Lima, liderana quilombola, presidente da Associao Quilombola do Rio Gurup. Conheci padre Josimo no Tribunal, onde denunciou as ameaas de morte vinha sofrendo. Foi a primeira e ltima vez, para nunca mais v-lo, assassinado que foi dois anos depois, em 1988, um ano aps o assassinato de Paulo Fonteles. Teodoro integra uma nova frente de luta, a luta pela terra de negros remanescentes dos quilombos que ainda no estava constituda como tal poca do Tribunal da Terra. Pouco antes de seu assassinato ele havia denunciado a perseguio sofrida por fazendeiros do rio Arari, no Maraj, e chegou a car preso por dois meses sem acusao formal, a mando de fazendeiros que no toleram a demarcao de terras quilombolas. Ele tambm havia questionado prejuzos sofridos pelas famlias quilombolas devido expanso de arrozeiros na regio. Esta informao circulou nas redes sociais por ocasio do ocorrido. E o

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7que se apurou deste crime que atinge toda uma comunidade de trabalhadores e famlias que luta por direitos ancestrais, direitos legais e legtimos terra de negros descendentes de escravos trazidos da frica para trabalhar no Maraj, em Belm e outros stios. Sendo um crime poltico, merecia uma imediata manifestao pblica do governador do Estado e a tomada imediata de providncias que levassem captura e priso dos acusados de serem os mandantes e assassinos de Teodoro O que fez o governador do Estado do Par? Para no me alongar, encerro lembrando um fato singelo, mas no menos importante no registro miditico da morte de Dorothy, sobretudo porque foi amplamente repetido na narrativa jornalstica do acontecimento: que ela lutava pela preservao de um PDS. A primeira notcia que tive de sua morte, pelo rdio, dizia exatamente assim: a missionria norte-americana Dorothy Stang foi assassinada num assentamento do PDS no municpio de Anapu. A sigla soou estranha aos meus ouvidos, porque ainda no tinha assimilado de todo o contedo novo da velha sigla. Pensei que fosse engano do radialista, pois seria impossvel uma missionria recriando o partido da ditadura militar num assentamento de posseiros (ou seja, o Partido Democrtico SocialPDS, exArena, Aliana Renovadora Nacional) que, alis, teve como desdobramento o DEM, criado pelo fazendeiro Ronaldo Caiado, primeiro presidente da Unio Democrtica Ruralista-UDR, cuja misso dispensa comentrios no quesito conitos fundirios e violncia no campo. Isso nos mostra o quanto o PT foi displicente nas escolhas simblicas do que ele denia como uma nova poltica. Como se as palavras, e, no caso, as siglas, fossem ocas, portadoras de signicado nenhum no modo pr-PT de governar, ou seja, como se ele tivesse passado uma borracha na histria das lutas ideolgicas do passado entre direita, a ditadura, e a esquerda... Se a teoria que sustenta o chamado desenvolvimento sustentvel sugere ou induz a este estranho apagamento da histria, ento, o diagnstico da doena que nos afeta muito pior do que possamos imaginar. J num outro sentido, literal mesmo, o jornalismo tambm descuida muito das siglas, como se as pessoas tivessem a obrigao de saber qual foi o mais recente programa econmico ou assistencial lanado pelo governo ou de decorar as siglas dos partidos recm-nascidos no frenesi dos registros para a ltima eleio. ______________ Todas as mulheres que lutaram na rme esperana de que um dia frutos seriam colhidos das sementes lanadas na luta pela terra liberta morreram um pouco na morte de Dorothy. Neste sentido, sua morte foi um assassinato coletivo Ver o seu corpo forte e saudvel tombado na terra crua como a grande sumaumeira abatida a golpes duros da mquina, um dos registros mais doloridos que guardo dentro de mim. E eu nem tive a oportunidade de conhec-la, mas, ao sab-la, senti a fora de seu amor por seus amigos lavradores que em situao de profundo desamparo no campo, alimentam a capacidade de sonhar e vibrar na luta pela vida Velemos por Dorothy em algum lugar de ns. Um poema para os que resistem num cho chamado Esperana de Anap. O tempo chegar da palavra invisvel transformada em pssaro e que acorde lembranas h muito esquecidas no corao sepulto. O tempo anal vir, o tempo sem limites em que os enforcados mortos e vivos. e uma lua romntica das noites da infncia voltem a danar no ar da manh. (Cano Azul, Paulo Plnio Abreu) O P S XX A seleo dos dois primeiros livros da srie Memria do Cotidiano (a seo preferida dos leitores do Jornal Pessoal), j no 8 volume.

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8CABANAGEM/180 ANOSA revolta nos manuais e numa melhor histriaA data dos 180 anos da cabanagem podia ter servido de motivao para uma tarefa que ainda no foi completada: inserir a revolta popular desencadeada em 7 de janeiro de 1835 na histria nacional. inacreditvel que um fato dessa grandeza seja ignorado, minimizado ou deturpado gravemente pela historiograa brasileira, sem falar nos usos e abusos de vrios dos que tratam localmente desse fato com um sentido utilitrio, para se apossar do acontecimento. Foi o caso de Jader Barbalho no exerccio do seu primeiro mandato como governador do Estado. A cabanagem foi reduzida a concreto num monumento que Oscar Niemeyer apenas esboou, sem lhe dar a forma nal, para atender a uma encomenda compulsria. Mal posicionado no espao do entroncamento da cidade, o monumento subsiste mngua. Foi o caso tambm de Edmilson Rodrigues, que levantou a Aldeia Cabana para carnavalizar de vez a cabanagem numa rota interpretao marxista, que situou um fato da primeira metade do sculo XIX como se tivesse ocorrido na segunda metade do sculo XX. Sem compreender a sublevao popular em sua poca, a transposio para um contexto muito posterior serve a um propsito ideolgico, mas desvia o leitor fascinado da verdade. Iniciei esta srie imaginando poder atrair outras e melhores iniciativas para criar um debate mais amplo, capaz de repercutir junto opinio pblica nacional. Mal consegui algumas (embora excelentes) respostas de leitores. Assim jamais se conseguir interessar pelo tema a intelectualidade dominante. Nem mesmo pela revelao das informaes contundentes dos documentos ingleses, que foram o elemento de maior relevncia do dossi que publiquei sobre a cabanagem. Ainda com a esperana de manter vivo o interesse, continuarei com esta seo pelas prximas edies dedicando ateno ao que dizem sobre a cabanagem os livros didticos e alguns trabalhos de maior profundidade. Sem uma sequncia cronolgica nem hierarquia temtica. A abordagem ser feita medida que for encontrando as fontes da pesquisa numa biblioteca catica. Ao nal, talvez se possa formar uma antologia cabana. EM 1929 A primeira delas Compndio de Histria do Brasil, de Mrio Vasconcelos da Veiga Cabral, que era professor da Escola Normal no Rio de Janeiro quando a 6 edio do seu livro (de 366 pginas) foi publicada, em 1929, por Jacinto Ribeiro dos Santos Editor. Nessa poca, o engenheiro agrnomo doubl de historiador j escrevera 18 obras. O seu compndio tpico dos manuais ento usados, o dele adotado no Colgio Pedro II, nos colgios militares, escolas normais e em muitos outros estabelecimentos de ensino secundrio. Por isso, formava opinio. este o trecho dedicado cabanagem: No Par, as tropas j corrodas pelo cancro da indisciplina, sublevaram-se em 14 de Abril de 1833, durante essa revolta, conhecida pelo nome de Cabanada, trs anos e pouco. Os revoltosos assassinaram o governador Bernardo Lobo de Souza e o comandante das armas, major Silva Santiago, cujos corpos foram sepultados na mesma cova, em 7 de Janeiro de 1835. Para substitu-los, foram nomeados, respectivamente, o tenente-coronel Flix Antonio Clemente Malcher e Francisco Pedro Vinagre. Dentro de poucos dias, em 19, desavieram-se, porm, os dois, e o resultado foi a luta entre os partidrios de ambos, sendo Malcher batido e obrigado a se refugiar no arsenal de guerra, de onde se passou para bordo de uma embarcao brasileira, cujo comandante, o primeiro tenente Jos Eduardo Wandenkolk, o entregou aos partidrios de Vinagre, que o assassinaram e arrastaram pelas ruas da cidade. Estava assim Vinagre senhor da situao, quando ao Par chegou, em Julho, o marechal Manoel Jorge Rodrigues, encarregado de pacicar a provncia. Fingiu Vinagre a princpio estar disposto submisso, mas, em breve, recomeou a luta. No dia 14 de Agosto de 1835, 2.987 cabanos iniciaram, nas ruas de Belm, renhidos combates, que se prolongaram at a madrugada do dia 23. Em Abril de 1836, j ento durante a regncia de Diogo Feij, sendo nomeado governador e comandante das armas o brigadeiro Francisco Jos de Souza Soares de Andra, a este passou Rodrigues o comando, retirando-se para o Rio. a tpica histria episdica, de fatos isolados, sem conexo, entre datas e personagens. No h preocupao em buscar a especicidade de cada acontecimento, da a cabanagem virar cabanada, de um ano antes, no Nordeste. A narrativa no tem coerncia nem sequncia lgica: o autor parte dos conitos de 1833 diretamente para a segunda etapa da cabanagem, sem citar sequer o movimento da ecloso, em 7 de janeiro.EM 2008Oitenta anos depois, h mais informaes e alguns compndios abrem espao um pouco maior para a cabanagem, em parte devido orientao marxista de parte dos historiadores. Invariavelmente, citam como fonte de inspirao o paulista Caio Prado Jnior, autor de uma abordagem mais slida, sem, no entanto, demonstrar conhecimento especco dos fatos. A anlise marxista ortodoxa tende a impor conceitos mais gerais e categricos, como

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9se eles fossem perfeitamente aplicados realidade da Amaznia. O trecho deste exemplo de Histria, volume nico, de Gislane Campos Azevedo e Reinaldo Seriacopi, publicado em 2009 pela Editora tica (em 552 pginas). Os autores reconhecem a importncia da cabanagem, com seus cerca de 30 mil mortos, numa populao de 150 mil habitantes, sem sair do tratamento amorfo. E cometem um grande chute: atribuir a Angelim a proclamao da repblica antecipada. Segue-se o trecho do livro: A provncia do Gro Par viveu, na primeira metade do sculo XIX, grandes conturbaes internas. Em 1822, sua Junta Governativa se levantou contra a Independncia. Nos anos sucessivos, a provncia tornou-se palco de constantes disputas pelo poder entre o governo imperial e as elites regionais. Em 1832 a tenso era to grande que o presidente da provncia, nomeado pela Regncia, no conseguiu assumir o cargo. No ano seguinte, a Regncia nomeou Bernardo Lobo de Souza para a provncia do Gro Par, mas um grupo de fazendeiros e pequenos proprietrios passou a hostiliz-lo. Em novembro de 1834, Lobo de Souza mandou prender diversos opositores. Um deles, o pequeno proprietrio rural Manuel Vinagre, foi assassinado pelas tropas governamentais. Era o que faltava para a provncia entrar em convulso. Em janeiro de 1835 o irmo de Manuel, Francisco Pedro Vinagre, frente de um grupo de sertanejos, negros e indgenas armados, invadiu Belm, a capital da provncia. Como grande parte dessas pessoas era pobre e morava em cabanas, na beira de rios e igaraps, o movimento cou conhecido como Cabanagem, e seus integrantes como cabanos. Os cabanos instalaram um novo governo tenho o senhor de engenho Flix Malcher como presidente e Francisco Vinagre como comandante de armas. Entretanto, como Malcher se recusava a romper com o governo regencial, os cabanos o depuseram em fevereiro de 1835 e colocaram Vinagre em seu lugar. Francisco Vinagre tambm procurou manter uma poltica conciliatria com o governo central. Mais uma vez, os cabanos se rebelaram. Seis meses depois de empossado, Vinagre foi deposto e substitudo por outro lder rebelde, Eduardo Angelim. Em agosto de 1835, Angelim declarou o Par independente do Brasil na forma de Repblica. Em maio de 1836, o regente Diogo Feij enviou a Belm uma esquadra com o objetivo de retomar o poder local e reintegrar o Par ao Imprio. Os revoltos retiraram-se da capital, mas continuaram controlando boa parte do interior por quase trs anos. Somente em meados de 1940 que foram dominados e a provncia foi reintegrada ao Imprio. Cerca de 30 mil pessoas morreram durante o conito. Para o historiador Caio Prado Jnior, a Cabanagem uma das revoltas mais importantes de nossa histria, pois foi a primeira em que a populao pobre conseguiu, de fato, ocupar o poder em uma provncia.Onde comea o mau exemplo? O sinal acabara de car vermelho, mas o motorista nem reduziu a velocidade: avanou assim mesmo, ignorando a proibio. No carro iam algumas pessoas, dentre elas provavelmente seus lhos. O que eles aprendero desse exemplo, que se tornou rotineiro na vida da cidade? Que a lei no merece respeito? Um dia avanar o sinal de trnsito. O que pode vir em seguida? Pode se materializar em algo como o que fez o ex-diretor de abastecimento das Petrobrs, Paulo Roberto Costa, um dos principais personagens no escndalo do pagamento de propinas e desvio de recursos da estatal na Operao Lava-Jato. Ele instruiu sua lha, Arianna, a preparar contratos ctcios e a emitir notas frias para esquentar o dinheiro ilcito em empresas ctcias no exterior. Essa operao deu destino clandestino a mais de 8,8 milhes de reais que o pai roubou da Petrobrs, depositados em 19 contas abertas em nove bancos suos. Sabe-se agora que outros brasileiros como Pedro Paulo depositaram numa agncia sua do HSBC mais de 7 bilhes de dlares somente entre 2006 e 2007, em 5.549 contas secretas desse banco. O nome do diretor corrupto da Petrobrs j conhecido, mas e os outros cinco mil e tantos? E os demais ladres espalhados pela Amrica Latina, cujos depsitos na mesma agncia passam de US$ 31 bilhes? A criminalidade pode comear com um prosaico mau exemplo de um pai que no pensa na boa educao dos seus lhos. Pode terminar onde? Onde o Brasil est se acabando, por falta de princpios ticos e morais? Ao violar a lei, por mais elementar que ela seja, pense nisso.

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10O poder e o jornalismo, jornalismo contra o poder?Benedito Carvalho Filho Neste comeo de ano surgiram duas publicaes abordando a relao da imprensa com o poder. Primeiro, o livro do jornalismo Bernardo Kucinski, Cartas a Lula (o jornal particular do presidente e sua inuncia no governo do Brasil), Edio de Janeiro. O outro livro, do jornalista paraense, Lcio Flvio Pinto, Uma arma letal a imprensa do Par, publicado em janeiro deste ano. Conheci Bernardo Kucinski primeiramente numa palestra promovida nos anos 70 em Belm do Par, quando foi convidado pelo Sindicato dos Jornalistas. Posteriormente, o revi no jornal Em Tempo, no bairro de Pinheiros, So Paulo. Era um dos melhores quadros atuando naquele jornal, no meio de uma diversidade de jornalistas e outros intelectuais que lutavam contra a ditadura militar. Tempos difceis aqueles. No anexo do seu livro, Bernardo Kucinski publicou num editorial a ltima Carta Crtica escrita na sexta-feira, 30 de junho de 2006, onde cita o Jornal Pessoal, editado por Lcio. Na verdade, o JP con tinua vivinho da silva, pois j chegou na 578 edio. Como analisar essas duas publicaes? No que elas se diferenciam? A leitura do livro de Kucinski, nos mostra como o poder, seja de direita ou de esquerda, intolerante e resistente a qualquer observao crtica que se faa s suas decises polticas. Nas pginas do livro, em vrios momentos. Kucinski revela as irritaes do presidente Lula quando lhe enviava algumas cartas cidas, como dizia. Percebe-se ao ler o livro do jornalista, que, mesmo quando se tem alguma anidade com o poder, difcil desenvolver um jornalismo crtico dentro do poder, porque, por mais liberal que seja o governante, ele tem muita resistncia em aceitar pontos de vista diferentes, principalmente quando as crticas so feitas com fundamento por um jornalista competente, como o caso de Kucinski. Ele trabalhou muitos anos no que se chama de imprensa alternativa, que, por ser alternativa, signica dizer que crtica com relao s informaes ociais vindas das diversas esferas do poder. Anal, o poder como j observava Maquiavel, que foi assessor de um rei no tolera quando se diz coisas que no quer ouvir, mesmo quando a sua sabedoria ensina que, no poucas vezes, o pior amigo o bajulador, o amigo mais prximo. Isso aparece com frequncia nas narrativas de Bernardo Kucinski, sempre enfrentando, como ele diz na ltima Carta, as borrascas e suas frias. O livro do jornalista Lcio Flvio Pinto nos mostra um percurso diverso. Ao ler as 130 pginas do seu livro, percebe-se que sua perspectiva muito diferente, porque ele v o jornalismo e a imprensa como guardis da sociedade, contra o poder e mais perto do cidado. Sua tarefa no atuar como conselheiro do rei, mas manter sob vigilncia as aes dos governantes (uma espcie de ouvidor do povo, como ele costuma dizer), que, naturalmente, tende ocultar as suas decises, principalmente nos regimes autoritrios, como ocorreu na histria recente do pas e ocorre agora, como podemos ver. Por isso, prefere atuar como um outsider, que caminha no sentido inverso do jornalismo dominante. Isso no deixa de ser uma tarefa penosa e difcil de levar a cabo, pois as borrascas e suas frias, apontadas por Bernardo, so grandes demais. s ler os 44 artigos que compem o livro do jornalista paraense para perceber os seus embates com a venal imprensa paraense, que, da boca para fora, se diz neutra, mas, na verdade, mantm relaes promscuas com o poder judicirio e o executivo. Percebe-se logo, ao ler o livro, que o jornalismo praticado na imprensa paraense h muito tempo deixou de ser jornalismo para se tornar mercadoria de verbas publicitrias, tanto do Estado, como das empresas instaladas na regio, misturando o pblico e o privado. O que logo se percebe no Par uma imprensa subserviente, cujo interesse no informar o cidado, possibilitar uma viso crtica e abrangente dos fatos, como deveria ser o seu papel numa sociedade moderna em pleno sculo 21. O que temos o contrrio, como arma o jornalista, uma arma letal, usada, muitas vezes, como meio de presso quando v seus interesses privados contrariados. Essa arma letal no tem escrpulos e chega a usar o poder judicirio como aliado para conseguir seus objetivos, como ca muito claro no livro. incrvel o que se l nesse sentido. Juzes, advogados, promotores parciais nos julgamentos, as diversas tentativas de calar o jornalista, os julgamentos suspeitos de parcialidade e tantas outras coisas que imaginvamos no existir nos tempos de hoje. Parece at que assistimos os horrores narrados pelo escritor Franz Kafka no O Processo, onde se v, com toda nudez, a estupidez, a degradao e a imundice travestida de justia, como a violncia da qual o prprio jornalista foi (e est sendo) vtima porque ousou enfrentar os poderosos da terra, sempre prontos a repetirem as carraspanas dos sobas provinciais em cima de jornalistas incmodos, sejam eles homens ou mulheres, e tantas coisas mais. Ser jornalista neste pas, onde os sobas provinciais exercem seu poder com uma violncia inaudita, no fcil e nem para qualquer um. No Brasil se mata jornalista como se mata mosquito, porque quando ele exerce com abnegao e competncia a sua prosso se torna um ser incmodo para as elites do lugar. Basta uma denncia, uma matria bem apurada, mostrando a trama dos poderosos, para logo a vida do jornalista entrar numa zona de perigo, o que pode signicar a sua morte e, tambm (se sobreviver), a impossibilidade de exercer seu ofcio, como acontece com o Lcio, cujo nome est proibido de ser citado no jornal dos Maioranas. Mas, na outra ponta, enquanto alguns jornalistas resistem heroicamente e fazem seu infatigvel trabalho de investigao, tem havido, como mostram algumas anlises, uma progressiva descaraterizao da categoria. Como arma o jornalista Leandro Fortes, no seu livro Jornalismo Investigativo, (Editora Contexto), a profuso de assessores de imprensa e, atualmente, de dubls de jornalistas-consultores terceirizados a peso de ouro por polticos e grandes empresrios, criou um ambiente, de fato, exageradamente prossionalizado de conduo da pauta, apurao e, em alguns casos, de edio do material jornalstico. s observar o que est acontecendo no pas nesse momento.

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11Lcio Flavio Pinto na pgina 29 de seu livro mostra o outro lado do problema, quando revela, por exemplo, o encalhe dos jornais num domingo em Belm. Hoje se l muito menos jornal do que muitos anos atrs. Cita o caso do New York Times e a sua reduzida tiragem e arma que a imprensa escrita ter que se acostumar a um pblico mais restrito mais seleto e mais exigente. Para mant-lo diz ele ter que oferecer algo que ele no encontrar em veculos mais apressados e superciais: a explicao sem sentido dos fatos. Produtos que s prossionais mais qualicados podem criar. Ser? Quando leio o texto do jornalista Leandro Fortes, que cita Noam Chomsky, percebo que a formao de jornalistas mais qualicados nos tempos de hoje no to simples assim. Esse analista, por exemplo, fez um levantamento sobre a relao da mdia americana e o poder nos Estados Unidos e chegou a um nmero aterrador. Os dados, publicados no livro A manipulao do pblico revelaram a existncia de mais de 20 mil agentes de relaes pblicas e assessores de imprensa trabalhando em territrio americano com o nico objetivo de distorcer notcias ainda no nascedouro para beneciar seus patres e nanciadores. Arma em seguida: Desconheo pesquisa semelhante que tenha sido feita no Brasil, mas basta trabalhar seis meses em uma redao brasileira qualquer uma para perceber que esse modus operandi universal. H sempre um assessor de imprensa tentando interferir nas reportagens investigativas, sobretudo as de contedo bombstico, de modo a proteger seus chefes ou simplesmente, manipular as informaes de maneira a deixa-las mais brandas. Isso vale para polticos e magistrados e representantes de grandes corporaes. Se essa pesquisa fosse feita no Par, no encontraramos todo esse peloto de agentes, como nos Estados Unidos, mas veramos como forte essa manipulao do pblico pelas duas maiores empresas jornalstica no Par. Distorcer notcias, beneciar patres e nanciadores o que se v por aqui, parafraseando o bordo da onipotente TV Globo, que possu os seus tentculos em todos os estados brasileiros, como no Par, onde o grupo Maiorana sua retransmissora. Na apresentao do livro, o historiador paraense Vicente Salles, nega que Lcio Flavio Pinto seja crtico destrutivo, como muitos armam. Na provncia, quem ousa fazer qualquer crtica logo visto como destrutivo. Construtivo, para muitos, so os que querem negar a realidade, os bajuladores, que arrotam um iluminismo retardado e anticultural tpico de quem raciocina por espasmos e impulsos volitivos de caprichos e veleidades, observa o jornalista. Lcio Flvio Pinto, como arma Vicente Salles, vai deixar um material para a histria futura do Par, e os futuros vo saber avaliar melhor do que eu. Ele est construindo uma obra, no s seu cotidiano de jornalista, como tambm de analista, com livros publicados. Ele mais conhecido pelo Jornal Pessoal, mas h outra literatura dele, mesmo reunindo material do Jornal Pessoal, altamente interpretativa dos problemas que estamos enfrentando, principalmente os econmicos, dos grandes projetos. Talvez, o jornalista e socilogo Lcio Flvio Pinto esteja mais perto do que o velho Marx chamou de destruio criativa, lutando com seus prprios recursos e talentos contra uma elite atrasada e pouco interessada com o futuro de sua regio e do pas. Raymundo Faoro, com aquele seu jeito irnico, ao se referir a essa elite, se perguntava: Quem a elite? Ento um homem marginal que representa uma elite marginal? (...) um universitrio que no se realiza com a universidade; um empresrio que acaba sendo no mais que um subconcessionrio. um homem que dana em Canapi e sonha jantar na Casa Branca. Ento, ele est diante de dois espelhos que transmitem duas imagens que no so a imagem dele. Ou a imagem depressiva do homem que se frustrou, caracterizando a Casa Branca. (Ver Raymundo Faoro, in Democracia Trada, Editora Globo, p. 181) compreensvel que Lcio seja visto como destrutivo, frente a uma sociedade marcada pela herana portuguesa patrimonialista, que reforou os mecanismos de dominao e represso, criando um Estado centralizado e privatizado. esse Estado que vai estabelecer a dominao de classe, tendo como base a escravido, presente no Brasil por mais de trs sculos. O que foi a Cabanagem seno uma revolta contra essa dominao em pleno perodo Regencial? uma sociedade em que a ideia de cidadania e participao sempre esteve ausente, prevalecendo, na maioria das vezes, o interesse particular, em que a classe dominante reproduziu o seu poder atravs das eternas alianas familiares, formando redes no apenas compostas por parentes de sangue, mas padrinhos e alhados, protegidos e amigos, no existindo padres de conduta baseados na impessoalidade e respeito lei, mas em critrios de lealdade. Destrutivo quem tenta quebrar esse pacto de dominao. O jornalismo do Lcio deve ser visto pela elite como destrutivo porque revela o que a elite tupiniquim no quer e no pode ver: a sua brutalidade, a soberba e a incapacidade de compreender os efeitos de sua dominao. Por isso se cala, agride, cerceia a liberdade e faz guerra com quem pensa diferente. Os jornais, arma o jornalista no artigo da pgina 20 A verdade, um produto em falta no Liberal , no tm o menor pudor de violentar a integridade dos fatos conforme sua vontade e convenincia. Privam a opinio pblica de saber o que realmente acontece. Fornece-lhe a mais nefanda das informaes: a informao truncada, manipulada, a meia verdade, que distorce mais do que a mentira assumida, aberta e escancarada. Isso uma violncia, na maioria das vezes no percebida por diversas camadas da populao local. Muito porque no leem jornais e esto mais preocupadas com sua sobrevivncia fsica, pois vivem da mo para a boca, como se diz. Outros, mais aquinhoados, ignoram e preferem acreditar ufanisticamente que o jornal O Liberal o maior do norte e nordeste, como martelam seus donos nos seus sonhos bovarianos, sem olharem mais de perto a sua prpria realidade. Enquanto isso o povo goza com as exibies escancaradas das matrias policiais, que, como arma o jornalista, vulgarizam e banalizam a violncia, anestesiando a conscincia e amolecendo as vontades. o que a lsofa alem, Hannah Arendt chamou a banalizao do mal, a insensibilidade que permeia a sociedade em que vivemos, onde os psicopatas e abutres comandam os circos dos horrores, manipulados pela sociedade do espetculo, como dizia Guy Debord. Anormal e destrutivo quem denuncia essa tragdia, onde, queiramos ou no, todos ns estamos envolvidos na mesma trama.

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12 Memria dEM 1957PROFESSORA Quem conheceu a professora Mariana da Silva Chuva sabia da sua valentia e determinao. Deu exemplo em 1957, quando lhe foi apresentada portaria assinada pelo governador Magalhes Barata, que a tirava da chea do Instituto Lauro Sodr (cuja sede passou para o domnio do Tribunal de Justia do Estado) e a colocou disposio da Secretaria de Estado de Educao e Cultura. A portaria era de 9 de janeiro, mas a professora s a assinou no dia 23. Alm disso, portou-se de modo desrespeitoso e com manifesta indisciplina. Ao dar o seu ciente, o fez de maneira provocadora e desrespeitosa, acentuando dessa maneira seus propsitos de desacato e de indisciplina determinao da autoridade superior. Em consequncia, foi suspensa por oito dias, com perda total dos seus vencimentos, devendo esse ato constar nos assentamentos da mesma serventuria. S no foi dito uma coisa: o que a professora Mariana Chuva escreveu na portaria para merecer a punio. TTULOS As autoridades se sentem melindradas pela menor crtica que recebem de jornalistas, mesmo quando devidamente fundamentadas? Pois leiam o que escreveu (sem sua assinatura, mas identicado pelo estilo inconfundvel) o jornalista Paulo Maranho na coluna Vozes da Rua da Folha Vespertina, que diz muito sobre o seu desafeto, mas, independentemente disso, sobre os vcios do processo eleitoral no Par de ento (e s de ento?): O desermbargador Slvio Plico, apesar de aposentado, rompendo as tradies peculiares preguia real, como lhe chamam, continua a prestar a sua colaborao imoral ao P. S. D.. Slvio Plico mora, atualmente, em Peixe-Boi, e na sua Cpua bragantina continua a fornecer ttulos em branco quele Partido datados do ano em que foi juiz eleitoral. A tinta da assinatura reconhecidamente fresca como ores orvalhadas. Essa circunstncia serviu de alerta no T. [Tri bunal] Eleitoral, onde se buscou identicar os ttulos com os canhotos, vericando-se a misticao. Flagrado o embuste, os ttulos caram ali retidos para ulteriores providncias. Os ttulos em branco assinados pela mo criminosa daquele magistrado ascendem a milhares. Recordamonos de ter visto nas mos de um deputado trabalhista cerca de 700. Como estamos vendo, trasladou a sua indstria para Peixe-Boi. PROPAGANDANa companhia de livrosEm 1957 a volta s aulas ainda era risonha e franca. Uma das grandes editoras da poca aproveitava a data para fazer um anncio, distribudo por todo pas, da srie de livros tendo como personagem principal Pedrinho, o melhor amigo da professora e dos alunos. Escrito por um importante pedagogo, o professor Loureno Filho, era tal sucesso que a Melhoramentos se dispunha a enviar imediatamente os volumes aos professores que quisessem examin-los e, se aprovassem, adot-los como leitura graduada. Pickerell Representantes era representante em Belm da Melhoramentos. CONTRABANDO Milton Ponciano da Silva foi quem arrematou 196 garrafas de usque da marca Amabassador que a Alfndega colocou venda num dos seus constantes leiles. Pagou 82 mil cruzeiros e mais 6% sobre o preo da arrematao e o imposto de consumo, razo de Cr$ 52,80 por garrafa. Compensava, claro. Os maiores leiles de fevereiro foram dos automveis Chevrolet Belair, modelo 1951, arrematado por Joo Castanho Braga (por 230 mil cruzeiros, uma verdadeira barbada comparado aos usques), e modelo 1956, por Joo Queiroz de Figueiredo (por Cr$ 521 mil).

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13 Cotidiano oAUTOMVEL O que Belm tinha de mais representativo em sua elite social e no seu mundo ocial compareceu ao coquetel de inaugurao, em fevereiro, das novas, luxuosas e modernas instalaes da sucursal paraense do Automvel Clube do Brasil, no ltimo andar do recm-inaugurado edifcio Palcio do Rdio, na avenida Presidente Vargas.Naquele ponto privilegiado da cidade, houve de tudo, principalmente festas danantes e recepes, mas provavelmente nenhuma tratativa automobilstica. Nem por isso o governador Magalhes Barata, num discurso que destoou do tom festivo dos oradores que o antecederam, deixou de tratar de poltica. Ele pediu a colaborao do Automvel Clube para a soluo do problema de uniformizao dos motoristas de praa, os quais se vm obstinando contra o cumprimento de instrues emanadas do Executivo, levados por inuncias polticas. O registro do acontecimento no se referiu a qualquer resposta. O governador queria porque queria que os condutores de veculos de passageiros de aluguel ou frete fossem obrigados a usar uniforme conforme modelo que a Delegacia de Trnsito estabeleceria. O Sindicato dos Condutores de Veculos Rodovirios de Belm no concordou e recorreu justia. LEILO O que continha a residncia de uma pessoa de posses de Belm desse ano? Uma ideia do contedo dos lares mais bem servidos era dada pelos leiles, como o realizado no majestoso e confortvel prdio, na travessa D. Pedro I esquina da Municipalidade, onde morava Fara Sadala Filho, que se retira para o Sul do pas. Entre os bens postos venda estava uma guarnio para sala de jantar estilo colonial mexicano em imbuia macia, outra em estilo Chipendale, harmonioso piano Pcceyer, atracao de ao, eletrola Garrard, com rdio de 9 vlvulas e 6 faixas adaptada em lindo mvel, faqueiro de prata portuguesa, refrigerador Frigidaire, mquinas de costura Elgin de gabinete e bobina central, aparelho para ch e caf em porcelana polonesa com 41 peas, servios para bolos e saladas de cristal tcheco e porcelana, abajur de opalina, pratos de parede em faiana e porcelana pintados mo e muitos outros objetos de serventia, que a conceituada agncia de Lopes Pereira apregoou. APARTAMENTOS Os prejudicados pagaram uma nota na imprensa pedindo aos moradores do edifcio Palcio do Rdio que se portem com o mnimo de educao necessria moradia em prdio de apartamentos. Atualmente h alguns pavimentos onde a residncia insuportvel porque h apartamentos que permanecem o dia inteiro com a porta aberta, crianas correndo e gritando pelos corredores, numa algazarra que d ao prdio o ambiente de uma estalagem. preciso que os moradores saibam que o que lhes pertence no edifcio apenas o interior de seus apartamentos e no os corredores. Prdios residenciais ainda eram uma novidade na cidade. Os problemas que continuam, embora de outros tipos. APROVADOS Dentre os candidatos com maiores notas aprovados nos exames de admisso, em 2 poca, do Colgio Moderno, estavam Paulo Roberto Fernandes, mdia 8,6; Otvio Augusto Chaves, 8,1; Adlia Salomo, Alosio Chaves, Antonio Maria Cavalcante e Carlos Alberto da Silva, 7,8; Clvis Miranda e Maria Lcia Calumby, 7,7. FOROGRAFIACarnaval de antesEra mixuruca o carnaval de 1957? Pelo aspecto quantitativo, sem dvida. Mas no qualitativamente. Um tpico bloco de sujo caminha em direo ao local de concentrao dessas legies de pequenos e animados grupos de folies, a praa da Repblica. Bastava meia dzia de integrantes capazes de tocar para reunir gente efetivamente carnavalesca, que queria se divertir da melhor maneira possvel. Aparncia era o que menos importava para os sujos, exceto para os mascarados fobs, que assustavam mesmo a crianada que, alis, circulava livremente e sem receio pela turba.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal A agonia das horas por Carlos CoimbraRemonta a dom Antonio de Macedo Costa, um dos mais importantes bispos da histria eclesistica do Par, a tradio segundo a qual todos os anos um sacerdote faz a pregao da sextafeira santa na capela do Colgio Santo Antonio, em Belm. O sermo que o padre Carlos Coimbra pregou nas trs horas da agonia, em 1965, provocou grande interesse, to humana e dolorosa foi essa voz do Senhor falando por seu ministro a homens dolorosos e humanos, que seus ouvintes pediram e alcanaram a edio do sermo, observou o cnego pio Campos, na orelha da publicao. Agonia nas Horas, invertendo o ttulo do sermo para atrair a reexo criativa, foi publicado exatamente h meio sculo. um livro esbelto, com 81 pginas, impresso pela Grca Falangola Editora, de Giorgio Falangola. Tem uma bela capa, tapearia criada por Eduardo Falesi, que obteve o 2 prmio em desenho no 2 Salo de Artes Plsticas da Amaznia, realizado pela Universidade Federal do Par. a gura de Cristo estilizado em vitrais, tcnica caracterstica do artista. Eduardo morreu cedo. Mortos esto todos os personagens envolvidos no livro, o mais recente deles o autor. Mas a obra est viva e atual. Talvez contenha o mais profundo de todos os sermes j pronunciados na linda capela. Pela data redonda dos 50 anos, merecia ser reeditado. Os leitores de hoje certamente iriam se impressionar pela erudio e a vivacidade das reexes de Carlos Coimbra. O prprio arcebispo de Belm, dom Alberto Ramos, que algumas vezes divergiu da ao pastoral de Carlos Coimbra, admitiu na abertura do livro: Se considervel foi o efeito destas palavras vivas, do alto do plpito, na ambincia da Sexta-Feira Santa, acreditamos que bem maior poder ser o seu proveito, numa leitura tranquila e meditada. E recomendava, indo alm da autorizao formal do superior: Imprimam-se, difundam-se. Na introduo, Carlos informa que decidiu dar forma escrita s suas notas a pedido de ouvintes e no ouvintes. Na reviso e ordenao das notas, teve o cuidado de conservar rigorosamente o sabor verbal e a estrutura original. O resultado sua mensagem a todo este povo annimo que escuta, procura, situado na paixo da vida, a vida da paixo e, procurando, age na agonia das horas, construindo, juntos, o que falta para completar as horas de agonia da Paixo e da Ressurreio do Cristo Total. preciso considerar o momento em que estas palavras foram escritas, 22 de fevereiro de 1965, a menos de um ano do golpe de Estado de 1964. O sacerdote no se reprime nem se exime de fazer anlises que se confrontam com o ato de fora que mudou os rumos do pas, sustentando-se em pensamentos profundos e na cultura popular. Em certo trecho chega a citar o poeta e diplomata Vincius de Morais, atravs da voz de Nara Leo, interpretando o tudo consumado que o povo sente na quarta-feira de cinzas, vivendo o Mistrio da morte e da Ressurreio do Corpo Mstico de Cristo, e intuindo a alegria imensa da ltima Pscoa, que antecipada sacramentalmente na F, Esperana e Caridade pelas Pscoas histricas da histria do povo. E reproduz trecho da letra da msica de Vincius e Carlos Lyra, uma das mais bonitas marchas de carnaval: a tristeza que a gente tem, qualquer dia vai se acabar todos vo sorrir voltou a Esperana o povo que dana contente da vida feliz a cantar seu canto de paz. Para ser vir de convite a quem se disponha a reeditar o livro, especialmente nesta fase apropriada do ano, transcrevo parte dos comentrios que Carlos Coimbra fez primeira das sete palavras pronunciadas por Jesus na sua agonia. Sua vasta cultura lhe permite transitar com lucidez pelo mundo da literatura, do teatro, da msica e da conjuntura para tratar de questes teolgicas, recorrendo at a um autor ateu, como Jean-Paul Sartre. Na reproduo, suprimi as citaes e atualizei o texto, que se segue:TRECHOQuais so as palavras e as atitudes que encontramos na Igreja Martirizada? E quando, no meio da turba enfurecida, levantaram-se clamores e as pedras da lapidao, o jovem Estevo clamava em voz alta: Senhor, no lhe imputeis este pecado e orava dizendo: Senhor Jesus, recebe o meu esprito. No meio da pompa pag, do luxo, das disputas, dos dios, da sensualidade brilhante e erudita da Renascena que se anunciava no declnio da Idade Mdia, anotai a orao de um outro Cristo, estigmatizado, livre e amante: Senhor, faze de mim um instrumento de rua paz. Onde h dio, faze que eu leve o Amor; Onde h ofensa, que eu leve o Perdo. Onde h discrdia, que eu leve a Unio; Onde h dvidas, que eu leve a F; Onde h erros, que eu leve a verdade; Onde h tristeza, que eu leve a Alegria; Onde h trevas, que eu leve a Luz! Mestre! Faze que eu procure menos ser consolado, do que consolar; Ser compreendido, do que compreender; Ser amado, do que amar... Porquanto dando, que se recebe; perdoando que se perdoado; morrendo que se vive para a Vida Eterna. Observai, hoje, a atitude do Conclio [Ecumnico Vaticano II], quando asLEIA E DIVULGUEJornal Pessoal

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15sistindo espantados talvez ao degelo da liturgia das instituies cannicas, dos atos e costumes clericais fossilizados e confeitados por aquilo que Joo XXIII chamou a poeira do imprio, e pressentimos e construmos ao sopro vitalizante do Esprito Santo o que nas atas do Conclio foi denominado de nova primavera ou em linguagem teolgica o que chamamos no incio, o primado da vida e da caridade, que so fundamentalmente pastorais, pastorais porque alicerados no ide e no perdoai de Cristo morrendo e ressuscitante. Da abrirem-se as fronteiras em nossos tempos, quando mais de conscientiza a Primeira Palavra de Cristo na Cruz, para o respeito e a liberdade religiosa de cada homem e de todos os homens. Da porque depois de um perodo de antissemitismo agudo, espalhado em inmeras regies sob uma forma de violncia e crueldade extrema (quem no se lembra de Auschwitz e Dachau sob a inspirao do Nacional Socialismo Uma das antteses da primeira palavra?), a preparao do esquema do decreto sobre os judeus, onde o Conclio, reeditando a epstola aos Romanos de S. Paulo, sistematizada nas palavras do Cardeal Bea, presidente do Secretariado para a unidade dos cristos, relembra a grandeza e a dignidade do povo judeu, de quem a Igreja de Cristo recebeu no s os orculos de Deus como tambm a glria, a Aliana, a lei, o culto e as promessas, e o prprio Cristo segundo a carne. Neste sentido, ns somos tambm israelitas, no segundo a carne, mas segundo as promessas, e uma ofensa ao povo judeu uma ofensa famlia dos Profetas, dos Patriarcas, da Virgem, do Messias, uma ofensa aos ancestrais da Igreja, aos nossos ancestrais. Por que atribuir a condenao a um povo inteiro, quando apenas a minoria, os chefes do povo, os maiores, agindo por ignorncia, como atestam Pedro e Paulo, repetindo as palavras de Cristo, foram os responsveis da morte do Salvador? No estais lembrados que os chefes do povo no quiseram que Cristo crucicado num dia de festas, a m de no sublevar o povo? Ento no se pode em justia condenar todos os judeus de Jerusalm, nem menos ainda todos os da Palestina, nem a fortiori os judeus dispersos na dispora pelo Imprio Romano, e muito menos os judeus de hoje dispersos por todo o mundo. A questo judaica, como modernamente vemos reetida no comovente Dirio de Anne Frank, representada no Teatro Ocina atravs do Andorra1, de Max Frisch, iluminada no cran atravs do inesquecvel Romeu e Julieta nas Trevas, e discutida porque dubiamente colocada no Vigrio, de Rolf Huchhuth, ou da discusso recente em torno do sermo quaresmal de Paulo VI, na anlise profunda de Sartre um problema mal colocado e um pseudo-problema, porque se o judeu no existisse o antissemita invent -lo-ia. O antissemita um homem que tem medo. No dos judeus, certamente de si prprio, de sua liberdade, de seus instintos, de suas responsabilidades, da solido, da modicao da sociedade e do mundo; de tudo, salvo dos judeus. um covarde que no quer confessar sua covardia; um assassino que recalca e censura sua tendncia ao homicdio sem poder refre-la, no entanto, s ousa matar em efgie ou no anonimato de uma multido. O judeu no no caso, seno um pretexto: em outra parte ser utilizado o negro, em outra o amarelo (e acrescentaramos ns em outra o vermelho). O antissemitismo em suma o medo diante da condio humana. O antissemitismo o homem que deseja ser rochedo implacvel, torrente furiosa, aio devastador tudo menos homem. Convergentemente, do outro lado do Atlntico, Richard Wright, o escritor negro, dizia H pouco tempo: No h problema negro nos EE UU, h apenas o problema branco. No vos parece que na nossa Amrica Latina, e muito em particular em nosso Brasil to brasileiro, o problema do anticomunismo tambm, como o antissemitismo e como o racismo, um pseudo-problema? Pois em ltima anlise no existe um problema comunista. Existe sim o nosso problema, o problema do nosso egosmo, de nosso comodismo, e tantos ismos mais estruturados em mentalidades e situaes. O problema de uma sociedade que se fecha no radicalismo estreito de posies extremadas, no medo e na insegurana que gera apenas atitudes de defesa e de condenao, em vez de pronunciamentos construtivos, palavras e gestos cristos que se antecipem ao desespero das massas.BIOGRAFIANo dia 17 a morte de Carlos Cardoso da Cunha Coimbra completou um ms. Ele morreu em Belm, aos 83 anos. Quem for saber dele consultando o Google ter apenas uma tela de material. Deduzir que o biografado pouco fez e errar quadradamente. No por culpa prpria: pelo silncio que costuma se abater na provncia sobre personagens que mereciam muito mais ateno. Carlos era um deles. Foi um padre atuante na parquia da Trindade, dividindo seu tempo entre seu ofcio Carlos Coimbra dando entrevista em 1966, um ano depois do sermo

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religioso e mltiplas atividades paralelas, incluindo servio social. Ao abandonar a batina j possua uma longa carreira como professor, pensador e escritor de rara erudio entre ns, alm de animador e organizador da cultura. Participou da criao da Universidade do Estado do Par. Seus ltimos anos foram de recluso por causa da doena que o abateu e acabaria por mat-lo. Em sua homenagem, reproduzo a biograa publicada no livro, certamente escrita por ele. Era o que queria que fosse registrado at essa poca, com suas informaes e ao seu estilo: O Padre Carlos Cardoso da Cunha Coimbra nasceu, em Belm do Par, a 6 de Dezembro de 1928. Terminados em 1946 seus estudos Gerais e Cientcos no Colgio Nazar, ingressou na Faculdade de Direito do Par em 1947, tendo recebido o grau de bacharel em 1951. Logo depois viajou por vrios pases da Amrica do Sul, e foi no regresso dessa viagem que, vencendo uma srie de consideraes de ordem puramente humana, abandonou seu emprego e as boas perspectivas temporais de uma carreira em incio, para ingressar no Seminrio Metropolitano de Nossa Senhora da Conceio [onde est hoje o Museu de Arte Sacra, no Largo da S], poca sob a reitoria do Monsenhor Milton Pereira, hoje bispo-auxiliar. Aqui em Belm, fez seus estudos de losoa, transferindo-se, a seguir, para So Paulo, onde cursou a Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assuno, tendo obtido a licena em Teologia na Pontifcio Universidade de S. Paulo. Ordenou-se sacerdote no dia 19 de outubro de 1958, e viajou no mesmo ano para Roma, tendo feito o curso de doutoramento em Teologia, na Faculdade Gregoriana. A tese que defendeu para obter o grau de doutor cum laude, subordina-se ao ttulo: A Transgurao do Senhor, nos comentrios e na Pregao da Igreja Patrstica. Aps voltar a Belm, dedicou-se ao trabalho entre a juventude, tendo sido reitor do Seminrio Metropolitano Nossa Senhora da Conceio, capelo do Colgio Santa Maria, assistente de equipes de casais e de setores diversos da Ao Catlica. Ingressou, posteriormente, no corpo docente da Faculdade de Filosoa da Universidade Federal do Par, onde leciona a disciplina Histria e Filoa da Educao. Desempenha, atualmente, as funes de vigrio-cooperador da Parquia da Santssima Trindade.Gente que se vai, mundo que acabaFrancisco Paulo do Nascimento Mendes, mestre de vrias geraes, no teve lhos. Bastava, porm, que atravesse a comunicao entre a sua casa e a casa geminada do vizinho para encontrar 11 lhos. As criaturas de Inocncio e Celina Machado Coelho foram adotadas por Chico, tambm tratado por Ratinho, pelos mais ntimos, por seus traos sionmicos nos, inquisitivos e, s vezes, inquisitoriais. Mas, sobretudo, Clia, talvez a que mais identidade tivesse com o professor de literatura, esttica, losoa e tudo mais. Clia morreu na semana passada, aos 74 anos, deixando inconsolvel o marido e companheiro de tantos anos de um casamento completo, anado na diversidade do par. O marido o fsico Jos Maria Filardo Bassalo, que se encaixa harmoniosamente no mundo em que trafegaram Chico Mendes, Machado Coelho e todos os satlites dessa constelao fulgurante, como Clia, da gerao seguinte. Um universo que cultivava o esprito, expresso que incorpora uma amplitude sem m de interesses, convergentes e divergentes na busca pelo conhecimento e o saber, o prazer e a dedicao, o em si e os outros, a felicidade pessoal e a causa coletiva. Tudo isso com sede em algumas das casas que funcionavam, antes do surgimento da universidade e mesmo depois dela, com maior ecincia, como centros de cultura, academias da formao intelectual, frum de debates a despeito das tormentas externas eventuais ou das calmarias de pasmaceira. Circulei pelos dois casares da avenida So Jernimo (agora, Governador Jos Malcher) e, antes mesmo, pela casa de Machado Coelho na Assis de Vasconelos, antes da unio imobiliria ombro a ombro dos compadres. Quando papai se elegeu prefeito de Santarm, apadrinhei o projeto de criao de uma Faculdade de Filosoa, para a qual propus a incorporao da esplndida biblioteca de Machado Coelho, que seria mantida na ntegra, deslocando um pouco do saber da capital para o interior. Os entendimentos foram iniciados, mas a permanncia de Elias Pinto no cargo no foi alm de um semestre. Afastaram-no da prefeitura e o cassaram. Teria sido uma boa providncia levar os livros para Santarm? Agora duvido. Clia assumiu a fuso da biblioteca do tio Chico, como o tratavam os Machado Coelho, do pai, formando um acervo como poucos h na cidade, ao qual deviam ter acesso os interessados, aproveitando o patrimnio formado pelos dois amigos, de envergadura rara. J no acompanhei mais essa fase. Como muita coisa de que o jornalismo me privou, a distncia de amigos de longa data e muito querer das que mais lamento. Espero que algum, algum dia, inventarie e descreva as residncias que foram fontes de fomento intelectual (e da boa fofoca) em Belm, como as de Machado e Chico, Benedito Nunes, Edwaldo Martins, Joo Fernandes ou Maurcio Coelho de Souza, esta, de todas, a mais tonitruante. Quando se aproximava o 31 de maro (o sempre destacado lado positivo da data infeliz), a lha, Maria Alice, intimava os convivas a se apresentarem no horrio certo para a tertlia com o antrio e aniversariante. E, l, ele nos mantinha entretidos (ou assustados) por longo tempo, dando-nos a oportunidade de jogarmos conversa fora sem perder conversa alguma. Porque conversar com Bassalo e Clia, dois dos convidados sempre presentes, foi um privilgio, uma ocasio de tal valia que aumenta a sensao da perda e o sentimento de melancolia pelo progressivo m de uma era que foi nossa e j no