Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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GUAO Brasil a descobreFoi preciso que So Paulo, uma das maiores cidades do mundo, fosse ameaada pelo colapso no fornecimento de gua para que o Brasil descobrisse que esse recurso vital precisa ser tratado adequadamente. A Amaznia, com a maior bacia hidrogrfica, precisa aprender essa lio. O BRASIL E O PETRLEO O REINO DE MR. LUDWIG H OPOSIO NO P AR? oa O brasileiro descobriu a gua pela pior lio: a da sua falta. Foi preciso que as duas maiores cidades do pas, So Paulo e Rio de Janeiro, cassem sob a ameaa de colapso no fornecimento para que a grave realidade se impusesse negligncia e incompetncia do governo, e insensibilidade da populao. Em ritmo de crise, como nunca antes, para lanar mo da frase clebre de Lula, o pas toma conhecimento da extenso do problema e sua complexidade. Normalmente auto-suciente, beirando a arrogncia, o paulistano passou a se interessar pela Amaznia no mais como um tema extico e distante, mas como um elo da cadeia das suas diculdades e temores. De forma cada vez mais constante, o boletim do tempo nas emissoras de televiso incorpora informaes sobre o uxo de nuvens carregadas que saem da Amaznia na direo sul. Rios voadores passou a ser expresso do dia a dia dos moradores de So Paulo, literalmente despejados diante de uma circunstncia nica dentre as grandes cidades do mundo: o racionamento drstico de gua. Essa conjuntura tem, como uma das suas principais causas, a rigorosa estiagem sobre as reas dos reservat-

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2rios da capital paulista, provocando uma seca recorde. Mas a diminuio das chuvas no um fenmeno recente. A tendncia para a reduo se apresentou em 1999, mantendo-se contnua a partir de ento. Mas a vida continuou normal, indiferente a esse aviso da natureza. Por comodismo ou oportunismo, que se acentua em temporada de caa aos votos, as administraes pblicas conaram numa providncia divina aleatria. Sem ela, a corrida agora contra o tempo para evitar que se consume a ameaa indita de privar de gua milhes de pessoas por dias seguidos. Nesse ponto, os paulistanos passaram a se interessar por um fenmeno muito bem mostrado atravs de um documentrio (Dana da Chuva), realizado pela Fapesp, a fundao de pesquisa de So Paulo. O lme explica um enigma: como que uma rea situada no centro-sul do continente, mesmo estando nessa faixa do planeta, no tem caractersticas semelhantes s dos grandes desertos, localizados na mesma posio. Nesse quadriltero, que tem So Paulo como o seu centro, destinado naturalmente a ser uma rea desrtica, se concentra 70% do PIB da Amrica do Sul, com a regio sul-sudeste do Brasil e a Argentina. onde se produz mais energia, esto as maiores indstrias e a principal agropecuria. A regio pulverizada de gua abundante por nuvens trazidas pelos ventos da Amaznia. So os rios voadores, expresso que passou a gurar no cotidiano das reas ameaadas pela falta de gua. So 17 bilhes de toneladas de aerossis atmosfricos desviados na direo sul, um volume de gua comparvel do rio Amazonas, o maior de todos, com seus 20 bilhes de toneladas despejados no Oceano Atlntico. Esse incrvel deslocamento de massa de vapor em suspenso causa chuvas torrenciais e eventualmente tragdias, mas no tem conseguido estancar a progressiva estiagem em alguns pontos da regio. Seria o efeito do desmatamento na Amaznia. As grandes rvores amaznicas so que retm o vapor vindo dos oceanos, que so a maior fonte de chuvas na Terra, alm de lanar gua ao ar pela evapotranspirao, funcionando como bombas de captao e lanamento atravs das suas copas e razes. Sem as rvores, esse processo se desfaz. A derrubada da oresta nativa da Amaznia j se aproxima de 800 mil quilmetros quadrados, o equivalente a trs vezes a extenso de So Paulo. O tamanho dessa alterao teria que modicar os processos da natureza. Alguns fazem essa armativa de maneira categrica. Outros a suscitam ainda como hiptese, carente de uma plena conrmao cientca., Outros negam a relao causal. Ningum pode negar o fenmeno, qualquer que seja a explicao para a interferncia humana nele. Mnica Porto, gerente de gua da Escola Politcnica de So Paulo, uma das entrevistadas do documentrio da Fapesp, argumenta que o desmatamento alterar o volume de gua em circulao entre o vero e o inverno, mas em funo da prpria natureza, no da participao humana. Ela diz que a gua que escoa pelas razes das rvores pode ser barrada quando as drenagens para as quais ela se dirige esto cheias, mas liberada quando o nvel dos cursos dgua baixa. Mas haver sempre gua circulando. A diferena estar no seu aparecimento supercial. O esquema ignora que a supresso da cobertura vegetal acarreta o aquecimento do solo, que reduz a umidade e interrompe o ciclo da gua, alm de desencadear outros processos, como a compactao do solo e a eroso. Ainda que o efeito dessa ao humana sobre a natureza no esteja cienticamente demonstrado em todas as suas etapas, ele se evidencia na prpria regio. perceptvel empiricamente a mudana de microclimas e at alm deles nas reas que perderam a sua vegetao original. parte essas complexidades, observadas h muito mais tempo do que podem sugerir os estudiosos de hoje, diferenciados dos mais antigos por sua parafernlia tecnolgica contra a percepo a olho nu (e inteligncia ultra-aguada), o conhecimento autoriza o pesquisador Antonio Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de So Paulo, a dizer que a Amaznia uma usina de servio ambiental. No quer dizer que a regio deva cobrar uma taxa por seus rios voadores, seguindo a cmoda prtica dos governos estaduais de reduzir as questes cobrana de tributos e derivados. Esse um servio prestado pela natureza. Mas h um ingrediente humano nessa histria: a destruio do bem mais nobre da regio, e que a dene como tal: a oresta. Se til ao quadriltero mais rico do continente que a gua continue a seguir sua rota natural de norte para o sul, o pagamento pode ser feito pelo apoio s pesquisas capazes de esclarecer esse processo e por medidas que no s inibam o desmatamento como disseminem uma nova cultura em seu lugar, a do uso da oresta. Por sua nobreza, esse bem deve ser destinado a mais do que madeira slida ou ser substitudo por plantios de soja e pastagem de gado. Deve ser o fundamento do precioso servio ambiental que a Amaznia presta parte mais rica do Brasil e da Amrica do Sul. Se as guas circulam numa direo pelo ar, por terra pode e deve ser feita a contrapartida de recursos materiais para sustentar esse ciclo e reduzir as desigualdades econmicas e sociais. Para que esse enunciado no se torne uma utopia boba, as autoridades responsveis pela questo devem utilizar sua competncia e seu dever de ofcio para conferir a autonomia que a questo da gua merece e exige. Ou ento a incrvel crise hdrica que a regio mais rica do pas est vivendo (e sofrendo) no deixar as lies necessrias. A gua um bem vital. Isso todos aprendem nos primeiros manuais escolares, mas poucos o transportam para suas vidas. Esse desligamento deixou de existir. Deve-se aproveitar o interesse, os sacrifcios e o sofrimento de centenas de milhares de pessoas para dar um sentido prtico a esse saber essencial. No se pode mais continuar a maltratar a gua no Brasil. Ela a companhia diria de todos, nas suas muitas serventias. A principal delas deriva da sua potabilidade. Captar, tratar e distribuir gua devia ter a prioridade que no lhe dada no Brasil. Um novaiorquino abre a sua torneira e bebe uma das melhores guas do mundo. Mas paga todos os anos para que os mananciais, em sua forma natural, sejam mantidos em condies de uso

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3a uma distncia de at 200 quilmetros da cidade. Por ser justo, um pagamento que atrai os donos das terras onde esto essas fontes hdricas. Em muitos casos, preservar a gua se tornou a principal fonte de faturamento desses proprietrios rurais. O suprimento de gua potvel no Brasil uma calamidade pblica. Talvez o impacto atual, especialmente em So Paulo, consiga mudar esse panorama. A conta do descalabro ser cobrada de qualquer maneira e agora os maus administradores pblicos j no contaro com o alheamento (em alguns casos, ignorncia) da sociedade. Gesto de gua dever ser a nova qualicao prossional requerida pelo mercado. No uma gesto fracionada, esgotada em cada especialidade. Uma gesto multidisciplinar. A sociedade precisa estar bem informada (e formada) para no deixar mais que um assunto de tal gravidade seja conduzido apenas pelo governo. O chamado controle social indispensvel. Na Amaznia, que abriga a maior bacia hidrogrca do planeta, essa deve ser uma funo de Estado. No so apenas os rios voadores que migram do norte para o sul: tambm a energia, extrada dos cursos dgua e conduzida por longas e caras linhas de transmisso. A Amaznia tem sido apenas a base fsica desse processo. As decises sobre onde, como e para quem destinar essa energia so tomadas fora da regio e ignorando-a. Aos nativos cabe apenas as rusgas da resistncia, exercidas atravs de manifestaes de protesto que paralisam ocasionalmente as obras e retardam o seu cronograma fsico e nanceiro. Mas no as inviabilizam. Nem, eventualmente, modicam o seu perl. A Amaznia provncia colonial para todos os usos da gua. Mas no inevitavelmente tem que ser assim. Essa funo uma exigncia de entidades mais poderosas, dentro e fora do pas, que precisam de muita energia para sua produo. Tal premissa elide qualquer considerao que ameace essa demanda. Mas a posio amaznica podia estar melhor exercida se pudesse se consolidar com os conhecimentos e as informaes adequadas. A hidreltrica de Belo Monte exemplica essa tenso. Ela foi concebida originalmente como uma rplica de Tucuru, projetada, construda e posta para funcionar no perodo do regime militar (sua inaugurao ocorreu em 1984). Com a democracia, a hidreltrica do Xingu foi submetida a questionamentos e contestaes. O desenho original foi modicado para atender a principal crtica: a inundao de uma rea extensa para a formao do reservatrio. O lago articial foi reduzido a um tero da sua previso inicial, que era de 1,6 mil quilmetros quadrados. Dos 503 km2 que restaram, 228 km2 correspondem prpria calha do rio Amazonas e seu transbordamento durante o perodo de cheias. Assim, a submerso de rea nova ser de 275 km2. gua que d apenas para acionar as seis turbinas bulbo que sero instaladas no vertedouro principal e manter a vazo mnima do rio Xingu na Volta Grande, que ca abaixo (a jusante) do barramento, em 700 metros cbicos de gua por segundo, acima da mnima normal, de 400 m3. Se mantido esse compromisso, poder haver menos gua na cheia nesse trecho, porm mais na seca. Ainda assim, as populaes ribeirinhas de ndios e caboclos temem prejuzos da nova situao do rio. Apesar de a, no stio Pimental, estar o principal vertedouro do complexo hidreltrico, sua estrutura abrigar apenas as turbinas de baixa potncia, que funcionam com desnvel de quatro metros, produzindo 2% da energia total do sistema. Da se dizer, com certa impropriedade, que se trata de usina a o dgua, capaz de produzir com vazo corrente, sem precisar de reteno da gua. As 18 grandes turbinas, que sero responsveis por 98% dos mais de 11 mil megawatts de potncia instalada, estaro a 140 quilmetros de distncia. Sua grande vantagem (como do stio escolhido pelos engenheiros para o aproveitamento energtico) o desnvel de 90 metros nessa curta distncia, que garante a velocidade da gua, suciente para acionar as imensas turbinas, que exigem quase 800 mil litros por segundo. Parte substancial da vazo do Xingu ser desviada do seu curso normal por canais de derivao para um reservatrio complementar, que car fora da calha do rio. Esse lago, que aproveitar drenagens naturais e tambm reas novas que sero inundadas, ter suas margens garantidas por diques de concreto. Eles tero mltiplas funes: reter gua, manter a vazo controlada, drenar o excesso de gua de volta ao rio e proteger os igaraps. Ningum jamais concebeu um esquema desses para uma hidreltrica no Brasil (e, talvez, no mundo). A movimentao de terra para a construo do canal de derivao, que ter 20 quilmetros de extenso, 200 metros de largura e at 20 metros de profundidade, ser bem maior do que a da construo do canal do Panam (126 milhes e 95 milhes de metros cbicos, respectivamente). Esses nmeros do uma ideia da grandiosidade da obra. E tambm da sua complexidade, sobretudo porque nada igual foi construdo antes. Tudo isso para eliminar o aspecto mais vulnervel de uma grande hidreltrica na bacia de rios de baixa declividade natural e muita diferena entre o mximo e o mnimo de vazo durante o ano: o alagamento de extensas reas, inclusive as cobertas por densa vegetao. Mesmo com a compensao representada pelo reservatrio complementar e o canal de derivao, no haver gua suciente para acionar todas as 18 turbinas principais de Belo Monte durante trs ou quatro meses do ano, quando a usina car parada. Por isso, sua potncia efetiva o ano inteiro ter apenas 40% da capacidade nominal, de mais de 11 mil MW, que a coloca como a terceira maior hidreltrica do mundo. Vale a pena gastar tanto dinheiro e expor a natureza e a populao local aos riscos dessa intensa interveno humana para ter uma usina de gerao rme to inferior da sua potncia de projeto? Os engenheiros no hesitam em responder armativamente, mas seus clculos no esto ao alcance da sociedade para avaliz-los agora. E estavam ainda menos acessveis quando a deciso de construir Belo Monte foi tomada. Espera-se que isso nunca mais se repita para que os custos da atual crise hdrica do Brasil rico sirvam de lio para todo o pas. Em especial, sua maioria pobre.

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4O Fundo Amaznia: para remediar ou transformar?Seis anos depois do seu incio, o Fundo Amaznia ultrapassou, em dezembro em 2014, o primeiro bilho de reais de aplicaes. O dinheiro, que a fundo perdido, sem retorno, foi destinado a 69 projetos de combate ao desmatamento e uso sustentvel de recursos da oresta. O fundo considerado uma das iniciativas mais importantes no mundo atualmente para reduo das emisses por desmatamento e degradao orestal (da sigla em ingls REDD), segundo press release do BNDES, que o seu agente nanceiro. Os dois principais setores beneciados pelo fundo foram sistemas de monitoramento e controle do desmatamento, com 495 milhes de reais (48% do total apoiado), e projetos de desenvolvimento de atividades produtivas sustentveis que valorizam a oresta em p, destinatrios de 26% do montante aprovado. Os demais recursos foram investidos em projetos de ordenamento territorial (12%) e de desenvolvimento tecnolgico (14%). Dos 69 projetos j aprovados, 31 foram propostos pelo terceiro setor, 21 pelos Estados amaznicos, sete por municpios, seis por universidades, trs pelo governo federal e um, internacional, apresentado pela Organizao do Tratado de Cooperao Amaznia, abrangendo os pases da Amaznia sul-americana. Quatro projetos do apoio exclusivo a povos indgenas (R$ 66 milhes). As principais aes visam ao desenvolvimento de atividades produtivas sustentveis e a proteo de povos indgenas contra grupos envolvidos em aes predatrias da oresta, diz o comunicado do BNDES. Outro destaque so os R$ 200 milhes para 13 projetos de implementao do Cadastro Ambiental Rural, importante instrumento de regularizao ambiental das propriedades. A carteira do fundo composta de 94 projetos que somam R$ 1,7 bilho, em fases distintas de anlise. O valor equivale quase totalidade dos recursos j doados, atualmente em R$ 2 bilhes; 97% de todo o dinheiro vem de contratos de doaes assinados entre o BNDES e o governo da Noruega. O banco de desenvolvimento da Alemanha (KfW) e a Petrobras tambm zeram doaes. Fui uma das fontes entrevistadas por tcnicos que participavam da criao do fundo. Disse-lhes que evitassem pulverizar o dinheiro em projetos de dimenso restrita e alcance limitado. Deviam escolher um objetivo mais amplo para obter resultados de maior expresso do que simples efeitos atenuantes ou compensadores dos muitos e graves estragos que vm sendo feitos na Amaznia. Apresentei-lhes ento uma sugesto: o apoio ao kibutz amaznico, ideia que venho desenvolvendo h muito tempo e que nunca conseguiu apoio. Na verdade, nem mesmo mereceu a ateno dos rgos de deciso na administrao pblica voltados para a Amaznia. Os tcnicos se declararam impressionados pela proposta e prometeram examin-la, por consider-la consistente e interessante. Nunca deram retorno. E o Fundo Amaznia se tornou mais um exemplo de aes corretivas que, mesmo com efeitos positivos, no alteram em substncia o modelo predatrio de ocupao da Amaznia. Confesso que acreditei na sinceridade e competncia dos tcnicos do BNDES. Foi a motivao para lhes propor o projeto do kibutz amaznico (ou cientco). Mas a macrocefalia do poder, que acaba impondo decises tomadas de cima para baixo e de fora para dentro, com isso conrmando o processo fechado dessas iniciativas, frustrou minhas expectativas. Alis, minhas poucas experincias de contato direto com o BNDES sempre conrmaram a suspeita de que o banco, como outras instncias do poder central brasileiro, tambm padece de exotismo intelectual quando trata da Amaznia. No seu trato com a Noruega, origem da ideia do fundo, no se constituiu em interlocutor permevel s vozes da regio, estabelecendo um dilogo fora do alcance dos representantes locais. H inspirao e propsitos humanitrios por parte da Noruega, mas, talvez no exatamente por coincidncia, ela se tornou a principal controladora do polo de alumnio do Par, o maior do pas, no lugar da antiga Companhia Vale do Rio Doce. No portanto, participante desinteressada na saga amaznica. O balano do Fundo Amaznia respeitvel, mas a boiada predadora dever continuar a passar, mesmo que deixe alguns anis para contornar as melhorias no acompanhamento e controle das frentes econmicas. E j que tratei do assunto, aproveito a oportunidade para reapresentar meu projeto, na esperana de que algum se interesse por ele, ao menos para dizer que ele no serve, irreal, inaplicvel ou sem valor algum. O KIBUTZ AMAZNIC O O governo federal, como o principal agente no processo de ocupao da Amaznia, criou mecanismos de apoio a diversos atores no cenrio dessa fronteira: grandes empreendimentos de minerao, metalurgia e siderurgia, projetos de infraestrutura, assentamentos de colonos, fazendas de gado, garimpos, cultivos agrcolas ou seja, atividades produtivas convencionais e seu suporte. Alm do incremento de indicadores quantitativos, o principal efeito dessa ofensiva de meio sculo foi a destruio dos recursos naturais da regio, traduzido, principalmente, pela derrubada de oresta numa escala jamais experimentada at agora em qualquer outro pas, em qualquer poca. Feito um balano de todas as parcerias at agora experimentadas, resta uma, que no indita apenas em relao expanso da fronteira nacional na Amaznia, mas em todo mundo: o assentamento da cincia e dos cientistas. O governo colocaria nos pontos de vanguarda do espao amaznico ncleos de formao de mo de obra cientca e de experimentao da cincia, os kibutz cientcos. A denio dos locais obedeceria a diretrizes extradas do zoneamento ecolgico-econmico federal, em combinao com os zoneamentos estaduais. As atividades a serem desenvolvidas se compatibilizariam com as principais demandas de conhecimento nos diversos locais nos quais a frente econmica toca nas reas ainda no ocupadas, ou

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5onde os conitos, produzidos tanto pela tenso entre os grupos sociais como pela incapacidade de utilizar os recursos adequados para a penetrao nessas reas, exigem a presena do poder pblico, como agente arbitrador e normatizador. Vejamos um exemplo. A Terra do Meio, no vale do Xingu, no Par, hoje, a principal zona de tenso entre a frente desmatadora oriunda do sul e a populao nativa ainda em equilbrio (mesmo que imperfeito) com a natureza. Seriam criados campi para abrigar um instituto de oresta, um centro de estudos agrrios, um instituto de guas (tendo como referncia a polmica em torno da hidreltrica de Belo Monte), um instituto de agricultura da terra rme, um ncleo de antropologia e outras entidades a examinar. Esses campi dariam cursos de graduao e ps-graduao, recrutando tanto os candidatos iniciao no ensino superior quanto os que j esto em condies de se dedicar a pesquisas. As vagas seriam limitadas, para possibilitar o melhor rendimento possvel. Os alunos teriam aulas convencionais, mas, j na graduao, teriam que desenvolver teses que se desdobrariam para a ps-graduao. Mas no apenas enquanto trabalhos acadmicos. Um estudante de engenharia orestal receberia, a partir do momento da aceitao da sua candidatura, por comodato, um talho de mata nativa para nele realizar suas ideias. Alm de uma bolsa de valor signicativo, ele receberia um emprstimo para desenvolver operacionalmente seu lote, emprstimo que se tornaria a fundo perdido com a aprovao da tese de doutorado, no nal do curso integrado (no caso de no aprovao, o pagamento seria feito em forma de prestao de servios na rede pblica de ensino, computandose o valor subsidiado do emprstimo). Esse aluno receberia permanente assistncia e superviso de tcnicos de notria qualicao, nacionais e estrangeiros, submetendo-se ainda a auditagens contbeis e nanceiras. Os campi, instalados nos pontos de tenso e transio da presena humana, seriam bases para a circulao e atuao prtica dos graduandos, ps-graduando e cientistas, tanto pelos ambientes acadmicos como na interao com a populao local. O objetivo seria fazer a demonstrao da cincia para os habitantes nativos, ao mesmo tempo em que absorver seu conhecimento. Da mesma maneira como os alunos e seus orientadores realizariam atividades junto populao, esta seria recebida em cursos nos campi. Uma boa realizao dessa diretriz acabaria com o velho e cruel ditado brasileiro, segundo o qual quem sabe, faz; quem no sabe, ensina. Tambm e principalmente faria a cincia ter participao direta e imediata no drama amaznico, ao invs de ser ferramenta de retaguarda ou fonte de referncia remissiva, sobretudo sobre os erros cometidos. Ela passaria linha de frente dos acontecimentos, tornandose protagonista da histria. No uma cincia qualquer, mas a melhor que seria possvel constituir com base nas qualicaes nacionais e no intercmbio internacional. Para orientar os kibutzim seria elaborado um plano de desenvolvimento cientco da Amaznia, com horizonte de 20 anos, tendo como principal suporte os zoneamentos e recursos sucientes para enfrentar um desao que poucos empreendimentos cientcos representam hoje no mundo. Evidentemente, os recursos nacionais no sero sucientes. Acredito que todo um plano, como o que agora se quer iniciar, caso a proposta venha a ser considerada pelo menos como merecedora de apreciao, teria que ser dedicado integralmente a essa iniciativa, pelo menos para poder atrair outras fontes de nanciamento. O oramento dos kibutzim cientcos ser pesado. Ter que possibilitar construir campi confortveis em locais distantes e isolados, dar-lhes o melhor que a cincia e a tecnologia pode oferecer em cada um dos ramos do saber utilizado, oferecer aos alunos e pesquisadores remunerao capaz de mant-los nesses locais por pelo menos oito anos e verba de investimento para seus projetos executivos ou produtivos. Tudo isso para colocar a cincia e os cientistas onde esto as frentes pioneiras ou alm delas, no esforo para impedir que cheguem at esses locais, se tal necessrio,m ou faam melhor do que j vinham fazendo. Conciliando a inteligncia com a natureza, enquanto h Amaznia para permitir essa utopia.Os nomesDas 21 candidatas neste ano a rainha do carnaval paraense, a maior promoo do grupo Liberal, oito tm os nomes de Ynara, Izabelly, Sirdlenne, Karyne, Kelen Valdelice, Karen, Dayane e Gesica. J a segunda colocada no concurso de Miss Amazonas, que atacou a primeira colocada, chama-se Sheislane Hayalla. Ao escolher nomes com letras dobradas, y e k, ou fazer combinao inslita com outros nomes, seus pais provavelmente buscaram distingui-las, nos dois sentidos: diferenciando-as das demais e dando-lhes distino, na presuno de que nomes complicados podem aparentar origem nobre. Na verdade, alm das complicaes com a graa, que podem acarretar problemas permanentes, a consagrao do kitsch desde o nascimento.CriseEm poca de crise, funda-se um bar escreveu o grande poeta ingls W. H. Auden. No Brasil, toma-se remdio. A indstria farmacutica instalada no pas cresceu 12% no ano passado comparativamente a 2013. E agradece hipocondria nacional.CorreoO computador andou endemoniado na edio anterior. Talvez por ter gostado muito do artigo Uma vida perdida, decidiu bis-lo. Assim, nenhum leitor escaparia de, ao menos, passar uma vista dolhos pelo texto. Faminto, essa mquina infernal tambm engoliu o trecho nal da homenagem que prestei ao socilogo francs Maurice Duverger (Dvida), na qual escrevi: na correria do dia a dia, deixei de assinalar minha gratido por Duverger, que morreu no nal do ano passado, aos 97 anos. Perdo, Duverger. Perdo, leitores.

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6PENS ATA: BELM/400 ANOSUm roteiro de destruioDecidi transformar em artigo a carta que Mauricio Sombra me enviou, pela relevncia dos temas que tratou. E, com o artigo, abrir uma seo para os leitores se manifestarem sobre Belm, dando maior densidade caminhada da cidade rumo aos 400 anos, em 2016. Um espao para observaes, crticas, sugestes e reivindicaes em torno das principais questes da capital paraense e sua rea de influncia.Pequeno Prncipe e que tambm j sofria a ao das picaretas e marretas. Conve-nientemente, o prdio menor teve sua parte dianteira poupada e restaurada, ao mesmo tempo em que se erguia uma torre atrs. O Palacete cou l esperan-do a restaurao da sua dignidade, que jamais ocorreu e jamais ocorrer. Tem certas coisas engraadas em Belm: parece que o prdio no mexia com ningum, ningum se importa-va com ele, ou melhor, parece que no existia mais Escrevi mais de uma vez para os jornais da cidade, o Elias Pin-to publicou na coluna dele uma dessas cartas, no me lembro de comentrios posteriores repercutindo o fato, mandei mais de uma vez e mails para a Secult e nunca tive resposta, postei uma foto com um pequeno texto no Facebook e nada, at para a Revista de Histria da Biblioteca Nacional, seo Patrimnio Histrico em Perigo, mandei a mesma foto e um pedido de socorro e nada, nem publicaram. Quando o Teatro So Cristovo, bem prximo, veio abaixo, motivado pelo abandono, muita gente levantouse. Quando vndalos, canalhas, destru-ram os soberbos azulejos do Palacete Dr. Vitor Silva, na Praa Ferro de En-gomar, deu polcia, processo, projeto de restaurao que no sei se andou e outras coisas mais. Lembra o caso dos galpes do cais do porto de Belm que a CDP queria desmontar? Poucas ve-zes vi tamanha indignao; a muralha histrica do Forte do Castelo, mandada construir por D. Pedro II, se no me en-gano, em 1869, despertou algumas dis-cusses, mas o Sr. Secretrio de Cultura no estava nem a e ps abaixo e cou por isso mesmo. Ou seja, talvez em fun-o da ao da imprensa, da repercus-so que ela d aos eventos, a resposta da sociedade vai da indignao apatia, como ocorre agora. Ningum destri mais o patrim-nio histrico do que o poder pblico em Belm, por obras prprias ou pelas que de uma forma ou de outra autori-za. Basta olhar a desgraa que zeram nos casares da ngelo Custdio, na Cidade Velha, nos prdios que demoli-ram ou modicaram no mesmo bairro, nas reformas malucas feitas no centro da cidade, como o prprio Projeto Fe-liz Lusitnia, cou aquela coisa super-cial, bem acabada, mas no restaurada de fato, dos quais o melhor exemplo a igreja de Santo Alexandre, que foi transformada exclusivamente em casa de recepes matrimoniais e perdeu a originalidade. Na administrao do Sr. Duciomar Costa no s houve um completo des-calabro nessa questo, como tambm uma destruio sistemtica de Patri-mnio Histrico Tombado: o caso, por exemplo, das caladas de cantarias de lioz, das ruas, praas e demais logra-douros pblicos de Belm. Est dessa forma na publicao da Secretaria Exe-cutiva de Cultura, Departamento de Patrimnio Histrico, Tombamento Lei Estadual n 5629 Srie Informar para Preservar 2. Ora, as caladas fo-ram arrancadas em muitos lugares do centro da cidade pela prpria prefeitura, substitudas por lajotas vagabundas de cimento, feitas sabe-se l por quem e porque preo. Na restaurao do Mercado Fran-cisco Bolonha, no seu entorno ainda estavam as pedras de lioz, elas foram trocadas por lajotas. Em vrios trechos foram retiradas, cimentadas, tudo de acordo com as convenincias do mo-mento e vontade dos proprietrios onde ainda existem essas caladas. Fiscaliza-o e punio no existem. Cad aquela lei municipal que probe placas de pro-paganda cobrindo a fachada dos pr-dios? Me faz lembrar de uma msica do Billy Blanco: O que d pra rir d pra chorar. de rir da estupidez desses administradores mas de chorar com Um misto de tristeza e raiva o que sinto neste momento: j fazia al-guns dias que no passava pela avenida Magalhes Barata. Ontem [domingo, 25 de janeiro], resolvi passar por l e como fao sempre tentei evitar olhar para o Palacete Dr. Corra, ali em frente ao Parque da Residncia. No consegui e tomei um susto: ele est sendo demo-lido. J no tem mais o telhado e vrias outras partes foram retiradas e o tapu-me que l est h tantos anos impede que se veja melhor, mas no h erro, in-felizmente. Como no tenho lido com assiduidade os maravilhosos jornais locais, pode ser que eu tenha perdido alguma notcia sobre a sua demolio. claro que isso era previsvel por todos os antecedentes que temos nas questes de patrimnio histrico-ar-quitetnico, onde as perdas so tantas que perderia tempo enumerando o que j se foi. O Palacete Dr. Correa, exem-plar nico em seu estilo, pertence fase mais rica da histria da Amaznia, lo-calizada entre os anos nais do sec. XIX e iniciais do sec. XX: a poca da borra-cha ou a Belle poque amaznica. Sua grandiosidade era representativa da sua poca e no tive, infelizmente, o prazer de conhec-lo internamente, mas, alguns ex-alunos funcionrios da Secult que l estiveram avaliando suas condies, anos atrs, me deram informaes precisas sobre sua riqueza interna e beleza. Tam-bm me informaram sobre o processo de demolio que j estava sendo feita quando a Secretaria de Cultura, atravs do Departamento de Patrimnio Hist-rico, conseguiu sust-la. Havia um proje-to de tombamento em curso. Na mesma ocasio, o embargo de-molio atingiu o prdio vizinho, no qual funcionou durante muitos anos a Escola

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7 as consequncias. A ltima piada de mau gosto pode ter sido a esperana que muitos tiveram quando houve a susta-o da demolio do palacete em ques-to, mas ela no pior do que o tomba-mento do Chal de Ferro da Imprensa Ocial, lembra dele? O que existe de restos dele, se que ainda existem, um amontoado de ferro enferrujado guar-dado pela UFPA que nada pode fazer depois que foi desenterrado do Bosque Rodrigues Alves. Quem enterrou? No sei, mas no difcil descobrir o nome do autor. E j que estamos falando de crimes contra a histria, vou lembrar um que passou despercebido de quase toda a populao: anos atrs o Colgio Ide-al comprou uma casa contgua ao seu terreno na Mundurucus. Era uma casa simples e antiga, muito antiga, e para provar isso estava l a data da sua cons-truo, cravada no porto 1822, isso mesmo, incio do sculo XIX, ano da Independncia do Brasil. E o que ze-ram os diretores, todos professores de vasta experincia e cabedal? Primeiro retiraram da grade a data e depois a demoliram. Colocaram abaixo talvez a mais antiga casa do bairro de Batista Campos, exemplar nico da arquitetura daquela poca. Para que? Para fazer um estacionamento que est l para provar a imbecilidade desses educadores. Alm de administradores srios, ho-nestos e competentes, falta uma poltica sria de Patrimnio Histrico que resol-va de vez uma questo, entre tantas ou-tras: qual ou quais so os critrios para tombamento? O que justicou a salva-o do Palacete Faciola (que um dia ainda vai cair) ou do stio Bem Bom, da mesma famlia, na Almirante Barroso? Por que aquelas runas na esquina da 28 de setembro com Assis de Vasconce-los esto amarradas? Vo restaurar? Se vo, porque no aplicaram os mesmos critrios para evitar a demolio do Pa-lacete Dr. Correa, que estava em muito melhor estado para restaurao? Que que claro que no sou con-trrio ao tombamento e restaurao de nenhum desses prdios. Creio que a resposta, a ser dada por quem autori-zou essa calamidade, passa pelo poder, inuncia e grana do seu proprietrio. E pensar que no ano que vem a cidade completar 400 anos de vida, com essa mesma espcie de gente no poder. A nova era do petrleo e a posio do BrasilO Brasil um agente poderoso no mercado do petrleo, reconhece o americano Daniel Yergin, um dos mais respeitados especialistas no assunto no mundo, em entrevista Veja. Mas ele alerta que essa posio privilegiada, inimaginvel poucos anos atrs, no denitiva: Achar que tudo pode continuar como est ser suicdio. O pas tem boas reservas de petrleo e a vantagem de que % de sua energia de fonte hdrica, enquanto a mdia mundial de 16%. Isso signica que, para o Brasil, ter gua imprescindvel. Mas tambm preciso planejamento e diversicao das fontes de recursos para que o pas no que no escuro. No pode faltar energia num pas que precisa crescer tanto quanto o Brasil. Alm disso, o pas precisaria adotar como imperativo produzir petrleo a custo cada vez menor para ter competitividade, sem o que car em posio inferiorizada na nova era do petrleo, de custo abaixo de 50 dlares o barril. Para ingressar bem nessa nova etapa o Brasil precisa reduzir o custo de produo de petrleo, que muito alto, prejudicando a competitividade internacional, e rever suas regras scais e sua poltica de contedo nacional. Para o Brasil, h um outro problema: se tornou o pas mais dependente da China, cujo crescimento do consumo acarretou grande elevao na demanda por petrleo (e outras matrias primas), enquanto ocorria um fato paralelo desaador: o incremento na extrao de xisto nos Estados Unidos, que assumiu, assim, o papel de principal inuenciador nos preos internacionais, antes desempenhado pelos pases da Opep. Yergin acha que o superciclo de crescimento da China se encerrou dois anos atrs e no voltar a ser o mesmo. Ningum sabe melhor que o Brasil o poder de trao do mercado chins, observa ele e com razo. O grande desao, portanto, como, em meio a crise poltica e moral, o Brasil se reposicionar num mundo sob essa grande e rpida mudana.A seleo dos dois primeiros livros da srie Memria do Cotidiano (a seo preferida dos leitores do Jornal Pessoal), j no 8 volume.O P S XX

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8CAB AN A GEM/180 ANOSUma histria ainda obscura precisa ser mais bem contadaBenedito Carvalho Filho A data dos 180 anos passou, mas podemos aproveitar ainda todo este 2015 para manter vivo o interesse pela cabanagem. o que pretendo fazer aqui. Com mais artigos meus e contribuies de outras pessoas, como este ensaio escrito por Benedito Carvalho, socilogo paraense radicado em Manaus, professor na Universidade do Amazonas. Espero que o eco das boas causas no tenha sido extinto no Par.Em primeiro lugar quero parabenizar a iniciativa de publicar um Dossi sobre a Cabanagem (1835-1840) e os acontecimentos pouco conhecidos que ocorreram na Amaznia na poca da falncia do projeto colonial portugus, quando a profundidade do dio pessoal entre as duas faces de elite, ambas escravocratas, ambas privilegiadas economicamente, e ambas demonstrando uma absoluta falta de astcia e de vontade de negociar, provocaram uma conagrao que era (e ) sem precedentes na histria do Brasil, como sintetizou o professor e pesquisador David Claeary, na entrevista surpreendente e elucidativa que o jornalista fez com ele. Pofessor visitante do Departamento de Histria da Universidade de Havard, Cleary pesquisou documentos inditos que revelam as tentativas do regente Diogo Antnio Feij, em 1835, de negociar com a Inglaterra uma invaso no Par, que contaria com a aprovao de tropas portuguesas e francesas. Lcio Flvio Pinto tem razo em armar que a Cabanagem um fato histrico ainda pouco estudado e compreendido, por razes talvez fceis de explicar, uma delas o isolamento cultural da Amaznia e a impossibilidade de nossos pesquisadores terem a chance de (e se interessarem por) buscar novas fontes de informaes e serem incentivados pelas instituies culturais que hoje, no Amazonas e no Par, vivem num sono letrgico. Os acadmicos esto mais preocupados com seus papers do que mergulhar com paixo na busca de conhecimento, o que lamentvel e que, talvez, seja responsvel por essa anorexia intelectual, geradora de tanto silencio, e, no poucas vezes, letal para a cultura, ou para aquilo que o escritor amazonense chama de leseira bar, para ele um sinal de resistncia para mim, de impotncia. Para alguns conservadores, a revolta dos cabanos foi como uma anarquia das massas incultas. H, portanto, uma espcie de disputa de narrativas, todas com a inteno de se tornar a nica Verdade, (com V maisculo). Uma delas que, com arma o jornalista, tem uma verso heroica, que pode ser simptica e til como smbolo de contextualizaes atuais, mas bastante simplista, reduzindo luta de classes, como se houvesse um fundamento poltico e ideolgico que lhe daria expresso de uma verdadeira revoluo (40 anos antes da Comuna de Paris) (citado no artigo A Cabanagem no palco, p. 27). Isso me faz lembrar a leitura do livro dos historiadores Erich Hobsbawm e Terence Ranger, chamado A Inveno das Tradies (Editora Saraiva), que mostram como algumas narrativas acabam se naturalizando na forma de interpretar e conceber a realidade Mas eu me pergunto: ser que nos dias de hoje no fazemos a mesma reduo, quando, por exemplo, ainda idealizamos a guerrilha do Araguaia e tantas outras lutas populares, como marcos das lutas de classe que vo desembocar numa imaginria revoluo, sem analisar o contexto e a correlao de foras ali travadas? evidente que naquele contexto de vanguardismo havia fatos que indicavam a possibilidade de lutas vitoriosa, como a revoluo cubana, o mito de Guevara, as lutas anticoloniais etc. e mal sabamos que nos bastidores se organizava uma violenta represso sob o comando da CIA e outros rgos de represso. Falta de informao, certamente, mas uma grande dose de voluntarismo esquerdista infantil, no deixa de faltar em todas as revoltas. Talvez isso seja parte de um componente humano, que, como dizia o personagem Don Quixote, preciso sonhar um sonho impossvel, mas que pode ser tornar um delrio, que custa muitas vidas humanas e, tambm, um pesadelo, ou uma miragem. Mas, ao ler e meditar sobre o Dossi, um dado me chamou a ateno na pgina 5, na primeira matria chamada Cabanagem: a revolta de um povo maltratado. L o jornalista, sem revelar a fonte, arma que dos 12.417 habitantes de Belm 5.643 eram brancos e 5.719 eram escravos. Ou seja, tnhamos uma populao constituda de 46,05% de escravos. O Par, portanto, era uma capitania escravista (at Batista Campo possua escravos). O que isso signicava? Existem documentaes que relatam as condies de vida desses escravos? Os ndios tambm eram escravizados? Qual era sua procedncia? Pergunto isso porque nas narrativas dessa rebelio s aparecem as interpretaes dos personagens principais e ca na obscuridade o que os cabanos (negros e ndios) que vivenciaram aquele conito. O que ter signicado para eles aquilo? Segundo informaes do escritor Mrcio Souza, os ndios maw, tomaram de assalto a Misso de Maus e mataram todos os brancos, queimaram a Misso e, a partir de ento, organizaram na regio do baixo Amazonas uns focos de resistncia rebelde durante todo o movimento da Cabanagem. Existem fontes que indicam que em 1831, sob presso inglesa, o Brasil aprovou lei para proibir o trco negreiro, que, no entanto, ainda vicejou por dcadas no pas. No Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos e no Haiti, o comrcio de escravos prosperou simbolizado pelo navio negreiro, misto de feitoria e priso. Na vspera da independncia, em 1820, dois teros da populao eram constitudos de escravos. Em termos econmicos, eles representavam dois teros de todas as importaes brasileiras. Existe pouca documentao sobre as revoltas desses escravos, que, junto com a populao indgena, do Brasil e da Amaznia, resistiram, lutaram, mas no aparecem na histria do Par nem do pas. Por qu? Os documentos citados pelo Dossi armam que os navios de guerra do Comando das Foras Navais de Sua Majestade nas ndias Ocidentais, fundeados na Jamaica e em Barbados, foram deslocados para o Par. Estavam preocupados em investigar se naquele lugar estratgico poderia estar se repetindo um motim semelhante ao de Santo Domingo, que tinha uma longa tradio de luta, desde 22 para 23 de agosto de 1791, quando eclode uma violenta insurreio contra os franceses. Escravos negros e alforriados exigem liberdade e igualdade de direitos com os cida-

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9dos brancos. Era o comeo de uma longa e sangrenta guerra que levaria independncia da ilha: a maior das revoltas de escravos da histria e a nica que foi vitoriosa. Teriam os ingleses, imaginado que Angelim seria um novo Toussaint, libertador de So Domingos, numa colnia que contava com cerca de 600 mil habitantes, dos quais 40 mil alforriados e 500 mil escravos negros regidos pelo Cdigo Negro? Uma pergunta no se pode deixar de ser feita: por que o embaixador tinha receio de que o sucesso de uma insurreio como a Cabanagem teria consequncias terrveis? Porque so menos avanados em relao civilizao do que os negros de So Domingues? Por que uma provvel vitria dos cabanos poderia ser considerada perdida para o mundo civilizado, armando que os cafuzos esto entre as mais inteis variedades das espcies humanas, segundo o embaixador Fox? As consequncias terrveis no deixaram de acontecer. No Dossi, na pgina 13, citando Arthur Cezar Ferreira Reis, o jornalista nos mostra que, nos clculos dele, 20% dos 150 mil habitantes da Amaznia naquela poca foram mortos pelos rebeldes ou principalmente pelas tropas imperiais, no perodo de pacicao. Nos clculos do jornalista, se isso tivesse ocorrido atualmente, nas mesmas propores, a cabanagem teria produzido dois milhes de mortos em cinco anos. Isso signicaria a atual populao de Manaus, aproximadamente. Um verdadeiro morticnio, portanto. Os ingleses eram prudentes, experientes e sabiam avaliar e tirar lies das suas prticas colonizadoras. Eram hbeis, pacientes e pragmticos. Anal, tinham colonizado continentes inteiros, e, como Lcio Flvio arma na pgina 11, eles perceberam que era melhor atuar na regio atravs de um governo ttere (fantoche, diria), mas nacional, do que enredar-se nos trpicos amaznicos, tendo tantas diculdades do outro lado tropical do mundo. No foi por acaso que eles, mais tarde, eram donos da economia mais avanada da regio, fundada na explorao da borracha, quando comeou, em 1870, o extrativismo da borracha, e j em 1910 ocupava um quarto das exportaes brasileiras. Os produtores do ltex no perderam a oportunidade de lucrar com o produto enquanto durou, pois foi um dos ciclos mais efmeros ocorridos no Brasil. a poca da expanso do sistema capitalista em escala mundial sob o comando da Inglaterra e, assim, criar um novo sistema de escravido. Cerca de meio milho de nordestinos vieram para a Amaznia, tangidos por uma seca que se prolongou entre 1877 e 1880, 42 anos depois da Cabanagem, para se embrenharem na selva num regime de semiescravido. interessante observar as ideias que predominavam na Europa sobre a escravido. Eles achavam que ela existia desde a Antiguidade e no era condenada pela Bblia; que eles tinham que converter os cativos ao cristianismo, pois a escravido da Amrica era melhor do que a vida na frica; os negros seriam mais adaptados ao trabalho no clima dos trpicos e outras ideias bizarras. O ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850) argumentou em 1843 que os africanos tm contribudo para o aumento ou tem feito a riqueza da Amrica e que a riqueza sinnimo de civilizao a Amrica. Para ele, a diminuio dos nmeros de escravos levaria os brasileiros barbrie (diz Parron, no livro citado abaixo) Quatro livros publicados no Brasil em 2011, de historiadores brasileiros e norte -americanos, mostram as aes o que esse mundo civilizado fez com essas inteis variedades das espcies humanas. Um desses historiadores chamava-se Marcos Rediker, que escreveu Uma histria Humana, Editado pela Cia das Letras, traduzida por Luciano Machado, (464 pginas). O segundo mostra que o destino mais lucrativo para os negreiros era o Brasil, escrito por um estudioso do trco, chamado Gerald Horne, que mostra que o lucro com o trco de escravos variava de 600% a 1.200%. Seu livro O Sul Mais Distante, o Brasil e o trco de Escravos Africanos, editado, tambm, pela Cia das Letras, (488 pginas). Horne revela ainda que de 1500 a 1800, chegaram s Amricas mais africanos do que europeus. De 1600 a 1850 (a revolta dos cabanos ocorreu em 1835), 4,5 milhes de escravos desembarcaram no Brasil, dez vezes a quantidade levada para a Amrica do Norte. Ele enfatiza, ainda, que a maior parte da riqueza dos grandes pases da Europa e da Amrica do Norte foi acumulada graas escravido: a fase mais intensa e lucrativa do trco foi nanciada por capitais dos Estados Unidos, em navios norte-americanos, com tripulao e bandeira ianques. Outro livro, mais antigo um dos que primeiros que li chamado Capitalismo e Escravido, publicado em 1964 e republicado em 2012 pela Cia das Letras, de Eric Williams (1911-1981), nascido em Trindad e Tobago, um dos mais inuentes historiadores da escravido moderna e do trco atlntico, mostra as razes da potncia escravista (a Inglaterra) ter se tornado abolicionista. Quem aprofunda mais essa ideia um autor chamado Tmis Parron, que escreveu A Poltica da Escravido no Imprio do Brasil 1826-1865, editado pela Civilizao Brasileira. Mestre em histria social pela USP mostra como a expanso do cativeiro foi simultnea formao do Estado nacional. O dinheiro do trco e dos senhores de escravos nutria o oramento estatal e formatava a poltica. Foi com esse suporte que Pedro II, por exemplo, conseguiu abafar as revoltas regionais que eclodiram no sculo 19 (Farroupilha, Sabinada, Balaiada, Cabanagem). Avalia que, de inicio, a norma de 1831 (para ingls ver), que tentou proibir o trco atividade que chegou a estar concentrada em 29 famlias , no foi to incua como se imagina: muitos a abandonaram para investir em imvel no Rio diz ele. Arma que o Estado incorporou a defesa dos interesses dos senhores de escravos, especialmente os do eixo Rio de Janeiro-Vale do Paraba-Minas Gerais, que entre 1831 e 1850 concentrou 78% do contrabando negreiro. Eu concordo que a pesquisa sobre as fontes primrias poder desfazer as brumas da mitologia da compreenso da cabanagem. No s da cabanagem, diria, mas de todos os movimentos insurrecionais ocorridos ao longo da histria do Brasil e nos outros pases colonizados. Os arquivos guardados nas bem organizadas fontes de informao dos pases da Europa e dos Estados Unidos devem ser estudados e se tornarem acessveis aos pesquisadores brasileiros, o que no parece impossvel nos dias de hoje. Mas preciso estabelecer conexes entre as informaes ociais e os trabalhos de vrios estudiosos, historiadores, antroplogos, socilogos (como Cleary) para que a realidade venha tona, como suas mltiplas determinaes, como fazia o velho pensador alemo. Se isso no ocorrer no ser possvel nos aproximarmos da realidade que temos diante de ns. Acho, tambm, que a Cabanagem no se encaixa em qualquer modelo terico. Debruar-se sobre ela exige, como disse Lcio no seu Dossi, pacincia e humildade, e um esforo imenso. O trabalho pode ser semelhante ao trabalho da Prefeitura do Rio de Janeiro, quando descobriu vrios monumentos arqueolgicos escavados do Cais do Valongo (o nome refere-se aos

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10escravos da regio africana de Valongos), onde desembarcavam os negros sobreviventes das longas viagens. Em 1808, com a chegada da corte portuguesa, quiseram retirar os horrores dos navios negreiros que chegavam da frica para o Brasil, com o tpico exemplo do o que os olhos no veem o corao no sente. Algumas fontes nos informam que quase um milho que por ai chegaram trouxeram a sua cultura, religio e principalmente sua dor.Quantos negros, caboclos, ndios e negros no morrem nesses motins na Amaznia? O escritor amazonense Mrcio Souza, no seu livro Histria da Amaznia, (Editora Valer), arma que para os que se preocuparam com os condicionamentos histricos que montariam as diversas cenas polticas da regio, debruar-se sobre a Cabanagem fundamental. Porque segundo ele no bastam as explicaes contingenciais que enfatizam a impotncia generalizada das foras polticas locais a sucumbirem perante os poderes avassaladores vindos de fora, tanto nacionais como internacionais. Os efeitos da represso Cabanagem e a consequente rarefao populacional esto na origem de tudo, at do siologismo poltico das lideranas da Amaznia. A destruio da iniciativa poltica da sociedade cabocla gerou uma impotncia que a matria-prima e ao mesmo tempo o produto de uma poca de horrores e frustraes. A tragdia da Cabanagem conclui e o seu esmagamento por foras de ocupao vinda de fora explicam a suposta passividade poltica regional dos dias atuais. Ainda, para ele, no foi apenas isso. O silncio imposto pela desiluso e pela represso matou no nascedouro a cultura solidria, meio portuguesa e meio indgena, que era a civilizao cabocla, e permitiu o surgimento de uma cultura pragmtica e alienada sobre o qual os polticos formaram suas bases, sobre a qual se elegem e podem estabelecer seus contatos com os eleitores e lhe dar satisfao em suas aspiraes e necessidades. Por outro lado, como uma poltica representativa tem um aspecto demogrco, a despopulao da Cabanagem contribuiu para reduzir a densidade demogrca eleitoral da Amaznia, resultando no relacionamento desvantajoso da regio com o ncleo do poder do pas. (p.219). Mas isso uma mera hiptese que precisa ser comprovada. Relao entre desmatamento e grilagem na Amaznia Publico a seguir a parte final da apresentao de Rosa Elizabeth Acevedo Marin ao meu ltimo livro, O Fim da Amaznia, desmatamento e grilagem (UEA Edies, 170 pginas, Manaus, 2014). Tive que cortar grande parte do texto, por sua extenso, que no caberia neste jornal. Os interessados podem l-lo na ntegra no prprio livro, que foi obra de Rosa, Alfredo Wagner Berno de Almeida, Ruthane Saraiva, Daiana Brito dos Santos e Stefany Coelho. O livro integra o projeto mapeamento social como instrumento de gesto territorial contra o desmatamento e a devastao: processos da capacitao de povos e comunidades tradicionais. O acervo dessa empreitada estupendamente extenso e de alta qualidade, graas a esses pesquisadores. Uma realizao indita e significativa no cenrio amaznico.Lcio Flvio Pinto discorre em vrios argumentos sobre o desmatamento como uma economia irracional e destaca a necessidade de romper com o colossal etnocentrismo que empareda os caminhos de acesso Amaznia. Desde uma perspectiva econmica, escreve: O mais trgico, no entanto, que o desmatamento signica simplesmente a queima de oresta, sem qualquer relao com um processo produtivo em bases racionais, portanto, associado verticalmente ao modelo de desenvolvimento esto o desmatamento, a especulao, a grilagem, a ilegalidade e a violncia. Os empreendimentos da soja, dend, arroz irrigado, accias, eucalipto, de explorao do carvo e madeira na Amaznia tm um rastro de destruio recursos e formas de existncia de povos e comunidades tradicionais. Na contra mo so produzidas as alegorias do arco do desenvolvimento sustentvel que aparenta ser uma luta de posio com os desenvolvimentistas de turno. Dessas reexes marca o socilogo o que observava visvel no horizonte, o m da oresta. As relaes entre desmatamento e grilagem so da ordem das formas e mecanismos de apropriao dos recursos naturais e da posio dos agentes sociais, econmicos e polticos envolvidos. O Plano de ao para a Preveno e controle do Desmatamento na Amaznia Legal (2004) destacava a fora dessa relao: Desmatamento e grilagem de terras pblicas: Em muitos casos, o desmatamento recente tem se relacionado a prticas de grilagem de terras pblicas. Este fenmeno reete uma srie de fatores, como: i) a falta de superviso adequada do Poder Pblico sobre cartrios de ttulos e notas, que frequentemente reconhecem transaes fundirias ilegtimas, ii) fragilidades nos processos discriminatrios e outras aes de averiguao da legitimidade de ttulos, e iii) interesses polticos-eleitorais, tipicamente com apoio de funcionrios de rgos fundirios, em que ocupaes por posseiros so incentivadas com promessas da concesso futura de lotes. Frequentemente, a grilagem de terras se relaciona a outros atos ilcitos, como o porte ilegal de armas, trabalho escravo e outras violaes dos direitos trabalhistas, evaso de impostos, garimpagem ilegal de madeira, lavagem de dinheiro do narcotrco, etc. 6. O papel da indstria madeireira: A abertura de estradas clandestinas por madeireiros em lugares isolados da Amaznia tem facilitado a entrada de grileiros e posseiros, que praticam derrubadas para estabelecer a posse da terra. Em muitos casos, a explorao madeireira realizada de forma intensiva sem prticas de manejo, gerando um expressivo aumento de biomassa seca que torna a oresta altamente vulnervel invaso do fogo, oriundo de pastagens e roados em reas vizinhas. Estima-se que a explorao madeireira no-sustentvel chega at 90% de toda madeira extrada da oresta amaznica. Nesta observao dos agentes sociais envolvidos Lcio Flavio Pinto relata o encontro com o senhor Jos de Ribamar de Souza, maranhense, de quem ouviu o relato dos seus sofrimentos, em anos de migrao compulsria, Amaznia adentro. O artigo tem o ttulo Os deserdados da terra: a fronteira como tragdia. Em 1976, ocorreu em Xapuri, Acre o encontro de ambos, no ltimo PIC Projeto Integrado de Colonizao, de tal forma que se avanasse mais, passaria para o lado da Bolvia, como muitos

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11brasileiros j haviam feito e fariam ainda mais nos anos seguintes. A narrativa continua: Mal se instalava, porm, e alguma causa de expulso tambm se estabelecia. Na maioria das vezes, na forma de um jaguno que chegava para lhe dizer que aquelas terras j tinham dono. E quando ele exigiu a apresentao do papel que comprovasse a propriedade. O jaguno lhe mostrava como resposta um trs oito engatilhado. A descrio arguta sobre a violncia, frequente das expulses de terra praticadas pelos grileiros. O Senhor Souza havia conseguido terra em um lote e estava na iminncia de vender a um fazendeiro. Como outros, trabalhou em uma rea de terra com oresta derrubada. O jornalista acompanhou em diferentes direes da Amaznia o desmatamento e a grilagem. Neste livro l-se uma frase que insurgente: por que os ladres de terras e de madeiras so bem sucedidos? Eles contratam bons e espertos advogados, a justia tem sido imponente para bloquear lhes o caminho, a lei omissa, a indiferena e a conivncia dos magistrados. Aponta, em seguida, que Os madeireiros realizam outras manobras para consumar seus propsitos especulativos. O processo de expropriao apoiado na grilagem est enraizado na Amaznia. Diferente de uma ao sem sujeito, Lucio Flvio Pinto observa, acompanha os casos e indica explicitamente os nomes envolvidos na forma de uma cadeia intrincada e complexa, de dispositivos e chama ateno do Estado, pois a grilagem no seu entendimento uma ao sem vigilncia, processo e ao obnubilado, produzida entre redes de reconhecidos e protegidos. Com essa segurana indica a denio formalizada: A apropriao ilegal de terras pblicas, fenmeno a que se d a qualicao de grilagem, simples, embora de aparncia complexa para os no iniciados nos seus meandros. Ainda mais porque lendas so criadas em torno da artimanha dos espertos e passam a ser representadas como verdade. Lcio Flvio Pinto dir que a expresso grilagem de origem romana, caracteriza a terra usurpada que serve especulao imobiliria e formao de latifndios improdutivos... torna-se pasto para grilos. Uma maneira de estigmatizar de forma popularizada o roubo de terras pblicas, que tantos danos causa nao. Em 2002, foi realizada a CPI Federal sobre Grilagem e no mesmo ano divulgou-se o Livro Branco da Grilagem de Terras no Brasil, pelo Ministrio de Desenvolvimento Agrrio. Segundo o relatrio o Brasil possui um total de 93.620.587 hectares griladas. No Par so 422 imveis que somam 20. 817.483 hectares. A grilagem possui uma srie de denies, publicaes, instrumentos de contagem. O estudo A Grilagem de Terras Publicas na Amaznia Brasileira (Ipam, 2006, p. 11, 12) dene como sendo A apropriao privada irregular ou ilegal de terras pblicas, detendo-se na discusso sobre o carter irregular ou ilegal que alm de estruturar os mecanismos de apropriao privada dos bens pblicos e a violncia agrria e ambiental. Em diversas oportunidades a deciso foi o cancelamento do cadastro das propriedades. A Comisso Parlamentar de Inqurito para investigar a Grilagem no Brasil deslocou-se de Braslia a Belm em junho de 2000 e, segundo Lucio Flvio Pinto, ocorreram aes quase simultneas: a) a frente que investia ilicitamente sobre o patrimnio fundirio brasileiro estava muito ativa e agora lanava-se no crescente mercado de uso da terra para ns ecolgicos; b) o relatrio ocial dos trabalhos da CPI no foi aceita por parte dos seus integrantes que decidiram apresentar outro. c) O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que estava cancelando 4511 imveis rurais irregularmente constitudos e anunciou novas medidas de represso grilagem. d) a fazenda da Incenxil e a operao de grilagem realizada por Ceclio Rego de Almeida e Roberto Beltro de Almeida continuava intocada pois o imvel jamais foi cadastrado junto ao Incra. e) no governo seguinte foi editada a Portaria Conjunta Incra/MDA no 10, de 1 Existe discrepncia de informaes entre os dados de Lucio Flvio Pinto e o estudo realizado pelo IPAM, que informa que o MDA, por meio do INCRA conrmou o cancelamento do cadastro de 1.899 grandes propriedades rurais com rea equivalente a 62,7 milhes de hectares.1 de dezembro de 2004 determinando que os proprietrios com mais de 400 hectares de terra, na Amaznia Legal tinham at o dia 30 de janeiro de 2005 para o recadastramento do imvel com os documentos probatrios da posse da terra. Ate 31 de marco, cou estabelecido o prazo para os que tinham rea de 100 at 400 hectares. O grupo com rea inferior a 100 hectares estava livre desta norma. De acordo com essas anotaes existem dispositivos legais para combater a grilagem, conforme atesta a viso ocial. O Ipam em suas recomendaes e formulao de critrios para regularizao fundiria em terras pblicas, de ocupaes com at 500 hectares retoma a questo da utilizao da ao discriminatria; igualmente menciona critrios para utilizao da Ao Discriminatria no Processo de Regularizao Fundirio, justicando que esse instrumento jurdico pode ajudar na resoluo dos conitos fundirios e agilizar o processo de regularizao. a Ao Discriminatria prevista na Lei n 6.383, de 07 de dezembro de 1976. Na esteira de acelerar a regularizao de ocupaes informais em terras pblicas federais na Amaznia Legal foi primeiro promulgada a Lei 11.952/2009 e em seguida o Programa Terra Legal para implementar essa lei e beneciar at 300 mil posseiros. O objetivo inicial do programa era emitir ttulos de terra em at 60 dias por meio de cinco fases principais: cadastramento de posses, georreferenciamento, vistoria, titulao e monitoramento ps-titulao. As criticas ao Programa por parte do MPF relaciona-se prioridade das titulaes de terras indgenas e territrios quilombolas, alm da critica dispensa de vistoria de reas inferiores a 4 mdulos scais. A Ao Direta de Inconstitucionalidade (Adin) Lei 11.952/20091 depende ainda de julgamento. A questo que se distingue neste livro como o Estado est estruturado para produzir a proteo do sujeito da ao de grilagem. Lcio Flvio Pinto descreve o caso da Fazenda Incenxil (inicialmente matriculada como terras da Fazenda Curu). De acordo com os procuradores, a operao fraudulenta teve trs etapas: a primeira de falsidade ideolgica praticada em 1984, no Cartrio Moreira de Altamira; a segunda, outra falsidade da mesma natureza e no mesmo cartrio, que data de 1993, que ultimou a grilagem, e a terceira, em negocio que encerrou a falsidade ideolgica ocorrido em 1995. No havia novidade nos cartrios como centrais da grilagem, que nesta operao facilitou superpor 2,7 milhes de hectares do Estado do Par, 2,5 milhes de hectares do Incra, 2,7 milhes do Estado Maior das Foras Armadas (EMFA) e 200 mil hectares da Fundao Nacional do ndio. Aponta igualmente que realizaram um dos maiores roubos de madeira no Par (7.200 toras de mogno, com 18 metros cbicos de madeira). O processo de grilagem arquitetado se desenrola grotescamente em 1996, quando o juiz, a pedido do Iterpa, mandou a escriv do cartrio de Altamira averbar uma advertncia margem do registro imobilirio da fazenda Curu. A nova ao, deferida por um desembargador, suspende em 1999 a deciso do juiz. No total esto citados pelo autor deste livro 19 autoridades do judicirio estadual, mais quatro procuradores e uma lista de advogados, os mais caros do Estado do Par e de Braslia, e a dona do cartrio. Lcio Flvio Pinto escreve sobre o caso de grilagem de Ceclio Rego de Almeida, que urdiu uma trama contra o jornalista. O processo tem outra questo particular. Lcio Flvio Pinto foi denunciado pelo desembargador Joo Alberto Castelo Branco de Paiva com base na Lei de Imprensa (5.260 de 1967) e condenado. Ainda, o desembargador entrou com uma ao ordinria de indenizao por danos morais perante o foro cvel, por ofensa. Como produzir a leitura da ao do Estado para a Amaznia? Parece que o ponto de partida compreender a intrincada rede de sentidos da ao, os atos da burocracia, dos agentes, das tramas de poder, dos dispositivos e os atos de resistncia, de um jornalista, de povos e comunidades tradicional.

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12 Memria dPROP A G AND ASonho de rainhaA rainha do lar sonhava com um fogo a gs Butano, com o qual a comida seria preparada com mais higiene e ca pronta mais depressa. Com esses atrativos. O ambicionado fogo permitia maior economia e podia ser adquirido, em 1962, com inditas facilidades de pagamento. Para melhores informaes, pergunte a quem tem um.POLCIADurante vrios anos um dos espaos mais lidos na Folha do Norte era a coluna Na Polcia e nas Ruas. Uma das suas sees dava os nomes das pessoas que eram colocadas em liberdade na Central da Polcia, que cava no centro da cidade, e aquelas que, em sentido contrrio, eram recolhidas ao xadrez. Em certo dia de 1952 foram liberadas sete e trancaadas, quatro todos indivduos.CAP ASA iniciativa foi considerada um acontecimento na vida intelectual da cidade, em 1952. Tratava-se de exposio das capas de livros especializados, distribudos por 24 sees, em ingls, francs e espanhol. Organizado pelas Livrarias Editoras Reunidas (Ler), do Rio de Janeiro, era esforo sem paralelo na histria cultural do pas. A exposio j passara por outras capitais e, em Belm, foi montada na Livraria Martins, na rua Campos Sales. Com base no mostrurio de capas, o representante da editora atenderia os pedidos. Coisas de um Brasil grande e isolado.NORDES TINOSFoi formado em Belm um Comit de Assistncia aos Nordestinos, para dar assistncia aos agelados da grande cheia do rio Amazonas de 1953 e de mais uma seca no Nordeste. O presidente do comit, Lopo Alvarez de Castro, publicou nota para convidar todas as pessoas que ainda possuem em seu poder listas angariadoras de fundos a devolv-las ao tesoureiro da instituio, Custdio de Arajo Costa, a m de que se possam recolher ao Banco as ltimas contribuies e serem aplicados ditos recursos no plano de assistncia aos necessitados.ADVOCACIAO escritrio Mendona-Bitar era, em 1954, um dos mais poderosos de Belm, comandado por Orlando Bitar, Otvio Mendona, Orlando Costa e Abel Guimares. Dispunha de todo um declogo de carteiras especializadas: cvel, cobrana, comrcio, constitucional, consultas, criminal, imobiliria, legalizaes, recursos e trabalhista. Ou seja: um curso completo de direito. A sede era no incio da rua 13 de Maio.SOCIAISA coluna social oficial diga-se assim da Fo lha do Norte eram as Notas Mundanas, que saam na terceira pgina. Eram eclticas e democrticas, alm de rebarbativas. Aos amigos da casa, todos os adjetivos. Aos demais, o registro. Alguns exemplos de 1955: Aniversariam hoje os garotos Joaquim Incio e Maria das Graas, diletos lhos do Sr. Mendezil de Oliveira Pessoa, segundo comissrio do vapor Sobralense, da lma Jari Ltda. e de sua digna esposa, senhora Jacira de S Pessoa. Decorre hoje o aniversrio natalcio da graciosa senhorinha Mariza Almeida, lha do Sr. Solon Almeida, piloto, e de sua esposa, d. Benedita Barros Almeida. Inteligente e meiga, a nataliciante, que uma das risonhas esperanas do lar, enchendo de alegria os coraes de seus pais, viver hoje horas festivas em meio s homenagens de sua avozinha, tios e demais parentes, que lhe iro apresentar votos de felicidades. Est aniversariando, hoje, sendo isso motivo de alegria para quantos privam de sua amizade, a nossa prezada companheira de redao, senhorinha Helena Messias Cardoso, que com sua personalidade inconfundvel aliada brilhante inteligncia encanta os que aqui trabalham. Seu lar estar, por isso, em festas, de que participaro seus admiradores e colegas, numa homenagem afetuosa e profundamente sincera. [ Helena foi pioneira no jornalismo paraense.] A data de hoje registra o aniversrio natalcio do deputado Elias Pinto, lder trabalhista, possuidor de prestgio no municpio de Santarm, que representa, na Assembleia Legislativa. Na data de amanh aniversaria o Sr. Manoel Carneiro, auxiliar do Snapp Bar e pessoa bem relacionada no comrcio da capital.

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13 Cotidiano oFO T OGRAFIAMobilizao estudantilEm julho de 1968 os alunos da Faculdade de Filosofia deram incio ao ciclo de manifestaes de protesto no ano que no terminou (porque o AI-5 o fulminou prematuramente). Foi com uma palestra do padre Silvrio Maia sobre o tema Participao do estudante na vida nacional, seguida de assembleia geral para decidir sobre as atitudes seguintes, inclusive passeata, para a derrubada deste governo ditatorial que se imps no Brasil. Estudantes universitrios e secundaristas compareceram, junto com professores, freiras e padres, da ala jovem avanada da Igreja no Par, atendendo ao convite da presidente do diretrio acadmico de filosofia, Lase Salles, que aparece na mesa dirigente da reunio, na sede da faculdade, dirigida pelo professor Orlando Sampaio. Para formar um fundo, os estudantes cobraram pedgio durante duas horas na avenida Generalssimo Deodoro. Esse dinheiro seria usado no perodo de ocupao das faculdades pelos estudantes, que viria em seguida. Antes de o ano terminar com o AI-5.RECEPONelson e Jorge voltaram de uma viagem Europa, em 1960, e o pai deles, o muito conhecido Jorge Age, patrocinou categrica recepo na sua residncia, que cava (e a casa ainda l permanece) na avenida Nazar. O colunista social Wilkens, da Folha Vespertina, anotou a presena de um grupo de graciosas jovens, formado por Lena Vnia Ribeiro, Nilma Age, Maria do Carmo Silva e Maria da Graa Dantas Ribeiro. Tambm estavam os casais Edgar Proena, Carlos Costa, Deusdedith Moura Ribeiro, Jos Carvalho, Ubiratan Aguiar, Elias Age e Miguel Age, alm de Moacir Cordeiro, Srgio Bernardes, Paulo Guilherme Moura Ribeiro, Roberto Jares, Luis Fernando Pinheiro e Mrio Leite.ANN CIOSAlguns dos Pequenos Anncios da Folha do Norte de 1962: VENDE-SE Uma carroa nova para burro e outra para boi, rua Jernimo Pimentel, 54, canto com a Doca Sousa Franco. VENDE-SE Ou troca-se por carro Kaiser modelo 50. Tratar com o Sr. Raimundo, na Garagem So Braz. VENDE-SE Por Cr$ 60.000,00 uma casa de tbuas, com uma armao ligada mesma, faltando pouco para terminar, na Visconde de Inhama, 70, entre Vileta e Humait. Terreno da Prefeitura [s a benfeitoria era particular]. VENDE-SE nibus Chevrolet, modelo 1951, chapa 9696, em prefeito estado de conservao, lotado na linha Santa Isabel-Castelo. Tratar na Baro de Igarap-Miri, 51. VENDE-SE Uma sorveteria e penso, localizada rua Dr. Malcher, 104. Tratar na mesma. VENDE-SE Uma casa estilo funcional, completamente nova, sita rua 14 de Maro, 202, prximo Bernal do Couto. Tratar na mesma. VENDE-SE Um casal de porcos da raa alem branca. Tratar rua do Fio, 43, entre passagem So Pedro e passagem Brotinho. VENDE-SE OU TROCA-SE Um bangal por um automvel ou mercearia. Facilito o pagamento. Fao qualquer negcio. Travessa Numa Pinto, 41, entre 25 de Setembro e Duque.

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14 Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com. br Site: www.jornalpessoal.com.br Blog: http:// Diagramao/ilustrao: Luiz A. de Faria PintoEditor: Jornal Pessoal B AL AIO DO REPR TERNo reino de Mr. LudwigDuas empresas anunciaram na revista Veja a realizao de uma faanha: transportaram, da Espanha para o Brasil por uma distncia de oito mil quilmetros no Oceano Atlntico, 11 caixes de concreto armado que instalaram no quebra-mar do porto de Au, em construo no Rio de Janeiro, um dos maiores portos do mundo. Cada caixo tem 1.682 metros quadrados, com altura equivalente a um prdio de 10 andares. Lembrei-me de uma faanha ainda maior, a que o milionrio Daniel Ludwig realizou em 1978. Trouxe do Japo, por uma distncia quase trs vezes maior, pelo mar, uma fbrica de celulose e uma usina termeltrica, construdas no Japo sobre plataformas utuantes. A fbrica tinha capacidade para produzir 220 mil toneladas de pasta de celulose e a usina podia gerar 55 megawatts de energia eltrica, alm do vapor necessrio ao processo industrial. As duas enormes estruturas, pesando 30 mil toneladas, podiam muito bem ser fabricadas no Brasil mesmo. Mas precisariam de mais tempo do que Ludwig estava disposto a lhes conceder. Ele tinha muita pressa. Tornarase dono de uma rea de 1,6 milho de hectares na foz do rio Amazonas, entre o Par e o Amap, que fora do famoso coronel (de barranco) Jos Jlio de Andrade, que a constitura com o seu poder econmico e poltico. Dela pretendia extrair celulose e arroz, convencido de que nos anos 1980 o mundo teria fome de bras e gros, sem encontrar produo suciente. Em 1967, ao adquirir a antiga propriedade, j sob o controle de um grupo comercial local, Ludwig tinha 70 anos de idade. No veria a maturao dos plantios orestais nem da estrutura industrial se no se apressasse. Conseguiu a aprovao do governo brasileiro, na poca do regime militar (de resto, sempre seu parceiro), e foi buscar a resposta sua urgncia nos estaleiros da Ishkawajima, em Kure, no Japo. Ludwig foi dono dessa instalao quando o general MacArthur, interventor militar dos Estados Unidos no ps-guerra, lhe concedeu os estaleiros. Com a devoluo do poder ao derrotado Japo, Ludwig restituiu o controle acionrio IHI, mas manteve parte das aes. Ao encomendar as duas plataformas utuantes para que navegassem pelo alto-mar com as duas estruturas industriais nos costados, impulsionadas por quatro poderosos rebocadores cada uma delas, era cliente e ao mesmo tempo benecirio. Durante 80 dias, as duas inusitadas embarcaes atravessaram o mar da China, os oceanos Pacco, ndico e Atlntico, subiram o rio Amazonas at a sua conuncia com o Jari, e, por m, penetraram no Jari at a localidade de Munguba, onde foram assentadas sobre 3.600 estacas de maaranduba, a madeira resistente da Amaznia, que formou sua base dentro de um lago articial, que, em seguida, foi drenado e aterrado. Em 1979, em tempo recorde, a fbrica e a usina entraram em funcionamento, mas os planos grandiosos de Ludwig comearam a degringolar. Erros primrios de projeto foram cometidos, tambm por causa da pressa, os juros subiram, a crise do petrleo encareceu o custo da energia e ele acabou ameaado de perder sua fortuna. Preferiu passar em frente os empreendimentos do seu imprio na jungle amaznica. Em 1982, o Jari foi nacionalizado a toque de caixa, sob o comando do ministro Delm Neto. Era a sada para a alternativa ruim: a estatizao do projeto. Anal, o emprstimo internacional, de 260 milhes de dlares (valor da poca), para a implantao da fbrica e da usina, foi avalizado pelo tesouro nacional. Como Ludwig se recusou a pagar as prestaes, sob a alegao de que no estava conseguindo ser atendido, o governo teria que pagar a prestao vencida e executar o seu parceiro modelar. A soluo de ento, como a de hoje, em tempos de Petrobrs corrompida, a mesma: o Banco do Brasil e o BNDES pagaram e as empreiteiras, dependentes do governo, no qual tambm tinham sua principal fonte de receita, se tornaram as donas da empresa. Socializao do prejuzo e privatizao do eventual lucro. Mesmo que sem ele, sem o vexame da estatizao por um governo pr-capitalista. Acompanhei de perto toda a trajetria de Ludwig no Jari. Quando as duas fbricas entraram no rio, rumo ao distrito industrial de Munguba, as acompanhei de teco-teco. No momento em que as plataformas chegaram ao dique, pedi para o piloto circular em torno do local. O avio estava sem os bancos e sem as portas, e eu era o nico passageiro. Comecei ento a fotografar. Fiquei entusiasmado pela cena. Esqueci que no estava preso a nada. Perdi a noo do espao por estar fotografando com uma lente zoom. S senti o impacto da mo do piloto me puxando pela gola da camisa e me atirando para o fundo do avio. Ele pressentiu que, naquela posio, diante do espao aberto, eu podia cair e agiu rpido. S ento me dei conta da temeridade da minha situao. Nessa poca meu ingresso no projeto estava proibido por ordem de Ludwig. Tentei entrar aproveitando uma viagem do ento ministro de minas e energia, Shigeaki Ueki. Acertei com ele, em Braslia, acompanh-lo. Sua secretria me avisou na vspera para eu estar no aeroporto militar, onde ele trocaria o jatinho da FAB pelo DC-3 da Jari. Quando desceu do avio o abordei. Meio constrangido, disse que o milionrio vetara a minha participao na excurso. Lembrei Ueki da sua condio de ministro do governo brasileiro em territrio nacional. Desconversando, ele res-

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15ngremes, numa foto que z no meu retorno. Para assinalar a data, houve um jantar na Jariloca, o clube do sta do projeto, no acessvel aos pees, que tinham seu prprio crculo (com uma categoria intermediria entre os dois nveis). Quem sentou ao meu lado foi Elmer Hahn, a pessoa mais prxima de Ludwig, seu homem de conana. Nossa conversa foi interrompida para a exibio de um documentrio recente feito pela BBC de Londres, ainda indito no Brasil. Quando as cenas comearam, pressenti o problema. Logo apareci numa entrevista MAL RIA No Jornal Pessoal nmero 577, segunda quinzena de janeiro, pgina 8, na matria Amaznia: uma histria escrita com garrande trabalho na Amaznia. Fala em epidemias frequentes de malria e encontrar a malria como acontecino municpio, que tambm no tem s 14.000 habitantes e sim 37.314, continuarmos o mesmo trabalho no enfrentamento da malria iniciado no estado mais colunistas sociais nos jornais do Para do que casos de malria. Eu at acho que o carapan e os plasmdios causadores da malria at defendem a Amaznia de predadores mais do que algumas polticas empreendidas por aqui!!! Quanto ao nmero de pescadores... Hlio Franco ( Depois dessa mensagem, veio uma nova, que tambm reproduzo: A questo da malria na Amaznia sempre ser de controle. No h possibilidade de elimin-la, a no no transmissor. O que temos que fazer, sempre, ser diminuir proliferao do anofelino e fazer diagnstico precoce e tratamento rpido. H doente para a adeso ao tratamento completo. Hoje, o municpio com por conta dos garimpos em especial os clandestinos.) MINHA RESPOSTA Acolho os dados e a contradita do mdico Hlio Franco, que, infelizmente, no pde prosseguir frente da Secretaria de Sade do Estado. Espero realmente que o trabalho iniciado prossiga e o resultado seja alcanado, sem repetir alguns esfor os anteriores, comprometidos pela descontinuidade. A malria acabou voltando e isso, algumas vezes. Minha palestra foi dada em 2012 e essa era minha expectativa ento. Os dados da populao de Muan so de 1966. Espero voltar ao tema. C A B A N A GEM (1) Obrigado por sua dedicao e jornalismo de combate! Obrigado por sua incessante fonte de pesquisa e de historicamente explorados, e de mados grilhes que fazem do Par, extremamente pobre (eufemismo O seu Dossi 9 precisa ser lido, conhecido, no s pelos ditos eruditos ou intelectualidade. Ele carrega preciosas informaes sobre o quebra-cabea de nossa histria. E como historiador em acabamento, fontes, fundamentais documentos 1840) e as esprias medidas do Remais do que nunca! Estamos juntos! Marcus Benedito C A B A N A GEM (2) seria como o foi, de fato para do, anotando, e ela no gosta de lileitura que me foi agradabilssima quirir mais alguns exemplares, para presentear alguns amigos. Foi uma textos da antologia de artigos esto plar em cada estabelecimento de ensino de Belm. Nossa Histria to menosprebem difundida e estudada. E teu trasim o espero) para difundi-la, torn -la mais conhecida e estudada, pois rica e digna da maior ateno... seu merecimento, pois que ns, os paraenses, ainda no aprendemos zamos de sua importncia. Elogio a ser, semelhana do Batista, nas ma no deserto. responde. Fico muito grato por meus cumprimentos pela bela participao dele nos trabalhos de encmios Parabns e que tenhas uma lvaro Martins CAR T@Spondeu que era apenas convidado. O antrio era Ludwig. Eu devia conversar com ele, mas a resposta foi a mesma: eu no podia embarcar no velho aparelho da Segunda Guerra Mundial, que era o mais constante meio de transporte ao Jari. Acabei cando. Mas logo depois denunciei o abuso ao ser convocado para depor na CPI das terras da Cmara Federal, em Braslia, a convite do deputado Jorge Arbage. Apesar de apoiar o capital estrangeiro e o prprio Ludwig, O Estado de S. Paulo publicou com destaque a matria que escrevi. No sei se ela inuiu para a minha liberao no reino de Mr., Luwig, mas j estava em curso no projeto uma mobilizao de tcnicos para que eu pudesse voltar. Um dos lderes do movimento era o americano David Carmichael. Ele aparece aqui num tanque da Segunda Guerra, transformado em trator para arrastar madeiras por solos desancando o Jari. Quando as luzes foram acesas de novo, todos os olhares se dirigiam para mim, surpresos, incrdulos ou indignados. Hahn, porm, nada disse, eumtico ou contido. Passei vrios dias circulando por todas as reas do projeto, mas sempre havia uma pessoa da empresa por perto para saber o que eu fazia. Era discreta. A partir da, no houve mais veto. O audacioso empreendimento de Daniel Keith Ludwig j estava no plano declinante. Em 1982 ele se retirou denitivamente do Brasil. Morreu uma dcada depois, aos 95 anos. Suas ligaes o Jari estavam todas desfeitas.

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David Carvalho: mestre da economiaDavid Ferreira Carvalho construiu um monumento intelectual, talvez a maior realizao de um prossional da economia na histria do Par e, quem sabe, do Brasil recente. Macroeconomia monetria e nanceira da produo capitalista, lanado no ano passado pelo Instituto de Cincias Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Par, se estende por quatro volumes e 2.663 pginas. Do ponto de vista estritamente fsico, ningum h de duvidar que se trata de uma obra de peso. um aspecto menor, mas no pode ser negligenciado. Para produzir essa quantidade de pginas, o autor no recorreu ao j clebre processo do corta-e-cola, que virou praga no mundo acadmico graas aos recursos da informtica. David pensou e escreveu cada parte dessa sua magna opera. No deixou nenhum tema econmico de fora. Abordou cada item levando em conta o que aprendeu de Keynes, seu mestre, e dos seus seguidores ou interpretadores do grande economista ingls, cujos ensinamentos balizaram o mundo depois da grande crise nanceira de 1929. A alta densidade terica dos quatro volumes no permaneceu connada ao questionamento em profundidade de cada questo econmica. tese de doutoramento, que constitui um dos ncleos da coleo, David juntou anlises conjunturais do mundo, ressoando no Brasil, aplicando teorias explicao dos fenmenos. Abre assim janelas para a compreenso de problemas que so complexos e densos, mas no indecifrveis nem acidentais. H um o condutor consistente na vastido de abordagens de David, como nota o autor do prefcio, Fernando Nogueira da Costa, da Universidade de Campinas, de quem o autor foi aluno no doutorado. Ele sintetiza em cinco as hipteses ps-keynesianas que do suporte ao monumental ensinamento de David Carvalho: 1. A da moeda no-neutra e endgena; 2. A do ambiente de riscos e incerteza; 3. A do investimento como sendo a varivel mais instvel da economia; 4. A da instabilidade imanente do sistema capitalista; 5. E, nalmente, a hiptese da fragilidade nanceira causada pelo crdito em excesso. O apresentador conclui: Dinheiro farto e barato bom. Mas leva a vcio, descontrole e falncia. Essa observao j suciente para estimular o leitor, e particularmente o economista, a se interessar pelos raciocnios e lies que David acumulou em 20 anos de estudo, que desembocaram nessa tetralogia, uma combinao de anlise sistemtica, de ensaios de ocasio e anotaes para aulas. Ele demonstra como, a partir do mximo de abstrao terica, pode-se estar mais bem preparado para abordar os temas mais imediatos, ainda na forma embrionria de crises, que constituem o elemento constante no capitalismo, a cujo entendimento ele se dedicou. Dedicao que parecia fora de cogitao durante os cinco anos em que ele foi, sucessivamente, diretor do estratgico e polmico Departamento de Incentivos Fiscais e diretor geral dos Setores Produtivos da Sudam, sob a gesto de Hugo de Almeida. Foi o quinqunio do PDA, o Plano de Desenvolvimento da Amaznia, que abriu a regio ao mundo, integrando-a numa condio colonial. A Superintendncia do Desenvolvimento da Amaznia era o instrumento dessa estratgia, mas, ao mesmo tempo, permitia o debate interno e a crtica tcnica. Graas a essa tolerncia, David deixou a funo executiva e se lanou na aventura acadmica. To bem sucedida que conquistou o primeiro lugar, na categoria livro de economia, do 20 Prmio Brasil de Economia do Conselho Federal de Economia do ano passado. O reconhecimento s qualidades de David e possibilidade de haver vida inteligente e do mais elevado nuvel fora do centro dominador da cultura (e no s da cultura) no Brasil.Um poder tericoA Assembleia Legislativa iniciou, no dia 3, sua 18 legislatura. Em 126 anos de vida republicana, o parlamento estadual funcionou por 72 anos. No uma boa marca. Revela a fraqueza da democracia no pas e em cada uma das suas unidades federativas, no mesmo tom ou com alguma modulao para mais ou para menos. No Par, certamente para menos. Os 41 deputados que tomaram posse exercero o mandato at 2019. Nesse perodo sero realizadas duas eleies: a do prximo ano, municipal, e a de 2018, geral. Como a renovao das cadeiras na AL foi de 56% (s 18 deputados mantiveram os seus lugares), seria de se esperar mudanas e alimentar esperanas. Mas melhor no apostar nessa renovao. Ela troca seis por meia dzia. E revela paradoxos desanimadores. O PMDB, que oposio, possui a maior bancada, com oito deputados. Mas a oposio, que ele lidera, ter apenas 13 dos 41 parlamentares. O partido do governador, o PSDB, ficou com a segunda bancada, de seis deputados, mas Simo Jatene contar com a maioria folgada de 28 aliados, a maior base situacionista desde o fim do regime militar, quando a maioria era estabelecida fora. Talvez nunca tenha havido uma reeleio to tranquila quanto a do presidente Mrcio Miranda. Ele recebeu 40 votos a favor e nenhum contra; s no arrastou para si um voto, dado em branco. Houve chapa nica para a formao da mesa diretora. Dos sete cargos, quatro foram ocupados por deputados que j faziam parte da cpula da assembleia. PMDB e PT caram com seus lugares na direo da casa. Nada menos do que 18 partidos tm representantes no legislativo. a maior disperso de bancadas da histria. Sete desses partidos contam com um nico deputado, que ser lder de si mesmo, com direito, entretanto, a todas as mordomias do cargo. H apenas quatro mulheres e todas fazem parte do PSDB, onde s h dois homens. Todos os demais partidos so integralmente masculinos. Desses dados fcil deduzir que a polarizao e radicalizao marcantes na eleio do ano passado, especialmente na disputa entre o tucano Simo Jatene e o peemedebista Helder Barbalho (que, como prmio de consolao, virou ministro da pesca de Dilma Rousse), no se reetir no parlamento. A pulverizao partidria e a renovao, com mais reas do interior representadas, indicam que o governo ter ampla maioria e poder, quando quiser, esmagar a oposio e impor a sua vontade. Mesmo se a oposio venha a ser aguerrida como apregoa o PT, reduzido a trs deputados, mesmo nmero dos situacionistas PSD e Solidariedade ser impotente numericamente. Com um detalhe importante: no quadro de siologismo ainda maior, que dever caracterizar a nova legislatura, para usufruir dessa vantagem quantitativa recorde, talvez o governador tenha que pagar e caro para no perd-la. Pagar, talvez menos, porm a mais gente. Negociar com as bancadas de um sozinho, como a do mdico Luiz Sefer, que conseguiu retornar ao legislativo depois de ser afastado, sob a acusao na justia de pedolia. O que esse varejo de poltica rasteira significa de substancial para o Estado do Par? Absolutamente nada. No h a menor perspectiva de novidade e de mudana no horizonte. O Par vai continuar como est: desconectado da sua histria, correndo atrs do trem do futuro, que passa clere e devastador pelo seu territrio.