Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

Downloads

This item is only available as the following downloads:


Full Text

PAGE 1

Jornal Pessoal GOVERNOPara onde vai?Poucos apostariam que Simo Jatene se tornaria o primeiro poltico a ocupar por trs vezes o governo do Par eleito pelo povo. A faanha mrito pessoal dele ou produto de circunstncias favorveis? Agora o momento de responder.BELO MONTE MAIS CARA MAIORANA QUER DAR CALOTE HELDER SOBREVIVER? oa Aos 65 anos, o economista Simo Robison Jatene se tornou, no dia 1, o cidado que por mais vezes assumiu o governo do Par eleito pelo voto direto do povo. Nem Magalhes Barata, o homem pblico mais inuente da histria republicana estadual, nem Jader Barbalho, o lder poltico da transio da ditadura de 1964 para o mais recente perodo de democracia no Brasil, muito menos Jarbas Passarinho, o mais poderoso representante do regime militar, tm essa faanha nos seus currculos. Ao contrrio dos polticos da era democrtica, o tucano Jatene no galgou por etapas as posies polticas. Disputou a primeira eleio, em 2002, j diretamente para o governo. O governador Almir Gabriel, to primeiro a ser reeleito pelo voto direto, o escolheu como seu sucessor, porque Jatene foi o mais prximo e inuente dos seus secretrios durante os primeiros oito anos de permanncia do PSDB no poder. Foi necessrio recorrer a todas as armas do estoque que esse longo usufruto no topo do governo possibilitou para eleger o candidato, que, eleitoralmente, era pouco mais do que um poste. Almir achava que seu candidato no tinha vocao poltica e lhe devolveria o cargo quatro anos depois, quando ele e no

PAGE 2

outro conquistaria o trofu de o primeiro governador paraense eleito trs vezes pelo povo. Jatene tentou fazer valer seu direito reeleio do seu antecessor, mas Almir jogou pesado. Chegou a acusar seu ex-secretrio de o haver trado com Jader Barbalho. Pressionou tanto que Jatene desistiu, mesmo sabendo como qualquer observador mais atento que Almir no ganharia de Ana Jlia Carepa, do PT. A pssima administrao da petista, talvez a mais desastrosa da redemocratizao, devolveu o cargo a Jatene. O at ento considerado impossvel se materializou pela neutralidade de Jader, que se tornara o principal cabo eleitoral da eleio da senadora. Jatene aproveitou muito bem essa circunstncia, mas se apresentar para a disputa demonstrou que apetite para o poder ele tinha e realizava essa vontade com o aprendizado nos bastidores e sombra das maiores lideranas. A dele era menor, mas uma combinao favorvel de fatores externos e o uso intenso da mquina pblica o habilitaram a iniciar um terceiro mandato, enfraquecido em relao vitria anterior. Anal, perdeu para Helder Barbalho no 1 turno e, revertendo uma situao que parecia consolidada em favor do peemedebista, ganhou na nova eleio com menos de 52% dos votos vlidos. So indicadores de que o seu governo anterior foi fraco e contou com apro-2 vao apenas ligeiramente majoritria. Ele poderia preparar uma nova base para o terceiro mandato sem se preocupar com nada mais do que marcar o seu nome e deixar um saldo mais positivo do que o atual, j que no poder mais se reeleger. H sinais dessa disposio na reduo do tamanho do primeiro escalo e dos gastos em custeio para favorecer os fracos investimentos. Mas no h uma diretriz coerente e slida. Algumas mudanas parecem sem sentido e outras se mostram contraditrias. A direo do desenvolvimento econmico, com uma maquiagem de preocupao ecolgica e social. H uma secretaria agora com essa misso (que agrega minerao e energia) e uma companhia estatal com a mesma misso. O secretrio de meio ambiente deslocado para o planejamento mais como demrito do que reconhecimento da sua importncia. O ex-secretrio de segurana pblica, Lus Fernandes, ocupa o lugar de Colares e cede seu prprio espao para o general Jeannot Jansen. A troca de cadeiras parece seguir o princpio de que preciso mudar o que cada um titular vinha fazendo, mantendo esses auxiliares na equipe para cumprir a ordem de acelerar a economia, sob a batuta de quem est anado com essa linha, como o secretrio Adnan Demachki, lder do grupo de Paragominas, que penetrou ainda mais no corao do governo. Mesmo que no possa mais se reeleger, Jatene no perdeu a ambio poltica. A equipe que montou, mantendo ou remanejando a maioria dos que j estavam no seu sta, dever se esmerar em seguir as ordens do chefe, que devero incluir o apoio a quem ir suced-lo. O herdeiro mais lgico o vice-governador, Zequinha Marinho, dependendo das funtes que lhe forem delegadas. Uma alternativa plausvel o ex-vice-governador (e candidato derrotado ao senado) Helenilson Pontes, que cou com a estratgica Secretaria de Educao, que tem o maior contingente de servidores. Mas pode ser tambm o senador Flexa Ribeiro, por trs de algumas indicaes, nesse caso com um fator favorvel: ele no tentaria a reeleio, disputando o governo, enquanto Jatene faria o caminho inverso, compondo assim uma dobradinha perfeita, ou quase, se for capaz de inibir ou bloquear alguma insubmisso interna a esse traado. Se realizar a estratgia at o m do seu mandato, Simo Jatene poder acrescentar alguma consistncia ao ttulo que conquistou no dia 1. Caso contrrio, car a perplexidade diante dessa conquista: merecida ou produto do acaso incrivelmente favorvel a ele? Benca tambm ao Par? Resposta nos prximos meses.Cad o Alex?A Secretaria Especial de Proteo Social do Estado foi uma dessas ditas super-secretarias que o economista Simo Jatene decidiu extinguir em bloco no bojo da reforma administrativa que promoveu para o seu novo mandato de governador. Mas manteve no seu secretariado o cientista social Alex Fiza de Mello, que comandava as secretarias executivas agrupadas na promoo social. Alex assumiu a nova Secretaria de Estado de Cincia, Tecnologia e Educao Tcnica e Tecnolgica, com mais poderes. Mas O Liberal simplesmente excluiu do seu noticirio o nome de Alex e sua permanncia no sta de Jatene. Quem se informar sobre o anncio do governador apenas pelo jornal dos Maioranas vai pensar que o ex-reitor da Universidade Federal do Par foi excludo do terceiro mandato do tucano. A omisso foi tanto na relao dos novos secretrios quanto, na pgina anterior, na cobertura do anncio. E no noticirio da posse, no dia seguinte. Seria mera falha inadvertida ou atitude proposital? Ps-doutor por uma das ctedras da Unesco instalada na Universidade Politcnica de Madrid, Alex foi minha testemunha em processos dos irmos Maiorana (Romulo e Ronaldo) contra mim. A partir da passou a ser perseguido na UFPA de todas as maneiras. A perseguio, pelo visto, prossegue. Mas Alex resiste.Par de foraO Par o quinto maior produtor de energia do Brasil e o segundo maior minerador. Mas nenhum paraense consegue ocupar o ministrio das Minas e Energia. Para o segundo governo de Dilma Rousse o escolhido foi o senador Eduardo Braga, peemedebista de ocasio que foi governador do Amazonas, Estado importador de energia. Ele substituiu dison Lobo, outro peemedebista por adeso, do Maranho. O vizinho do Par recebe a maior parte da energia que consome da hidreltrica de Tucuru. No entanto, o Par tem tido participao decrescente na Eletronorte, a estatal federal que responsvel pela usina. Por mistrios do poder central, quem mandava no setor energtico era o senador Jos Sarney. Sem perspectiva, ele decidiu desistir gloriosamente da carreira poltica, derrotado no seu Estado e deslocado no reduto eleitoral de adoo, o Amap. Sem Sarney, o derrotado, Eduardo Braga avanou sobre o ministrio, sem qualquer base no setor ou familiaridade com o tema. No restar ao Par nem a Eletronorte? Ou s resta a Secretaria de Pesca em meio a guas turvas?

PAGE 3

3O JP e a diviso do Par Cintia Moura A matria que abre o JP n 574, intitulada A Grande Ciso, traz discusso mais uma vez a polmica questo sobre a diviso do Par. O tema vem sendo explorado pelo jornal nas ltimas edies, desde as eleies de 2014 para governador do Estado. Mas o processo eleitoral no j se encerrou? O tema no fora amplamente discutido em 2011, por ocasio do histrico e at ento indito plebiscito? Na penltima edio do ano passado, a agenda amaznica do jornalista voltou a debater o tema, destacando a posio, armada e rearmada, do belenense a favor da integridade territorial do Par, sem deixar, entretanto (como de costume), de provocar o seu leitor: Mas quantos belenenses estariam dispostos a se transferir para a regio do Baixo Amazonas e de Carajs? Quantos ao menos conhecem essas duas regies? Quantos incluem esse tema em algum momento do seu cotidiano?. Na busca por respostas decentes, o jornal ilustra a questo comentando o caso da nova Universidade Federal do Sul e Sudeste do Par (Unifesspa), com sede em Marab que teria se tornado a capital do Estado de Carajs, tivesse vencido a campanha separatista no plebiscito de 2011 e algumas de suas implicaes para os at ento funcionrios da UFPA lotados no campus universitrio do municpio. A UFPA decidiu, de cima para baixo, a favor da transferncia automtica dos recursos humanos do campus de Marab para a universidade recm-criada, sem a devida consulta nem discusso com os seus funcionrios (entre docentes e tcnicos) e estudantes. Disso decorreu ao do sindicato dos docentes (Adufpa) junto Justia para garantir aos professores universitrios o direito de escolher entre permanecer na instituio de origem ou integrar a Unifesspa. Para o jornalista, a ausncia do debate necessrio nesse caso ilustra o tipo de atitude que alarga e aprofunda o fosso que separa o sul e o oeste do Par da regio metropolitana e da rea de inuncia indireta de Belm, a nordeste e centro-oeste. De fato, a deciso no foi discutida democraticamente com a comunidade acadmica. Trabalhei na instituio por trs anos entre 2010 e 2013. Na maioria das reunies havidas no campus para se tratar da Unifesspa, antes de sua aprovao, a transferncia automtica do quadro de pessoal era uma das questes mais mal resolvidas nessas ocasies. Nas conversas informais, essa transferncia compulsria e aparentemente irremedivel trazia a reboque um velho problema: o uxo de servidores (principalmente docentes) nos campi do interior. Assim, independentemente dos argumentos sobre as desvantagens de se vincular a uma universidade sem histria e credenciais, de modo geral j era pressuposta a ideia de professores com razes em Belm quererem reivindicar sua permanncia na UFPA como uma estratgia oportuna para se desvincular do campus e, consequentemente, da cidade, da regio. No sem fundamento. Nesse sentido, o caso da Unifesspa ilustra mais do que a falta de debate e esclarecimento, que tem marcado o tema da criao de novas unidades federativas com o possvel desmembramento do Par. Ilustra tambm uma atitude comum do paraense em relao ao interior do Estado e, guardadas as propores, do brasileiro em geral em relao Amaznia. Uma atitude cultural construda ao longo da histria de ocupao da regio. No raro, esse docente lotado nos campi da UFPA no interior do Estado no quer abrir mo da sua condio de morador da capital. O interior (leia-se: a periferia) no lhe seduz, no lhe interessa. Ele prefere se acomodar no centro (ou, pelo menos, o mais prximo possvel dele), onde lhe caberia to-somente se dedicar ao seu trabalho privilegiado. Com certeza essa imagem no representa a todos os professores da UFPA que atuam fora da rbita de Belm, mas no se pode negar que uma realidade na instituio. A ao judicial movida pela Adufpa para garantir aos docentes o direito de escolha entre permanecer na UFPA ou passar a integrar o quadro de pessoal na universidade recmcriada pode ser interpretada tanto como uma atitude coerente e necessria na garantia de direitos trabalhistas e do debate democrtico no mbito da universidade pblica, quanto como um exemplo da indiferena desses prossionais em relao ao Par que existe para alm da capital e rea metropolitana, um momento oportuno para se levar a cabo atitude concreta e coletiva (portanto, fortalecida) na direo de se desvincular da regio. Assim, pode-se tentar responder as perguntas levantadas pelo jornal com estas outras perguntas: Como teria sido para a Unifesspa se essa opo tivesse sido dada a docentes e tcnicos? Quantos desses funcionrios teriam escolhido permanecer no campus (na cidade, na regio enm), perdendo seu vnculo com a consolidada e experiente UFPA e passando a integrar a novia Unifesspa? Talvez tenha-se tentado evitar uma evaso signicativa de funcionrios, para no se comear a universidade com um desfalque grande de pessoal, uma vez que o campus da UFPA em Marab j carecia de prossionais para a demanda que apresentava na poca, antes da aprovao da Unifesspa. Seria correr um risco muito alto dar o direito de escolha aos funcionrios. Isso faz sentido? Sim, porque essa atitude em relao ao interior do Estado no no vidade no Par, na Amaznia. O projeto da modernidade que se estendeu e se imps Amaznia e que se renova na sua histria contempornea, na condio de colnia de explorao, estabeleceu tambm aqui seus paradigmas dicotmicos to caractersticos, como, por exemplo, moderno versus atrasado, centro versus periferia, urbanizado versus rural. Isso fomenta posturas contraditrias acerca das questes polticas e socioculturais da vida na regio, que terminam por inuenciar o nosso papel e nossa participao em momentos cruciais da conjuntura. Eu mesma no estive e no estou imune a isso. Escolhi abrir mo do vnculo institucional que me colocava no cotidiano da regio do Carajs, para me ver novamente envolvida com as coisas e as pessoas da Amaznia em outro Estado. Para alguns leitores, o tema pode at parecer que est esgotado ou defasado. No entanto, alguns eventos recentes vm demonstrando que o tema pungente e est se revelando para alm da superfcie. Notadamente, as ltimas eleies para governador surpreenderam no 1 turno com a vitria do candidato do PMDB sobre o candidato reeleio. Mas Helder Barbalho acabou perdendo a disputa no 2 turno pelo mesmo motivo que o levou vitria no 1: o tema da diviso do Par. O JP 574 discute o tema mais uma vez, instigando a reexo com o caso da Unifesspa e alertando para as consequncias que as decises do governador reeleito em relao s regies do Estado que apoiam a onda separatista podem desencadear sobre a questo. Dadas as circunstncias, uma coisa parece certa: os interessados na emancipao territorial nas regies sul e sudeste e oeste do Par no devem abandonar o tema da diviso do Estado to cedo...

PAGE 4

4OBUSDMAN Benedito Carvalho FilhoUm debate necessrio, alm das brigas de galoA revista Carta Capital, n 830, de 17 de dezembro de 2014, publicou o resultado de um encontro promovido pela revista chamado. Dilogos Capitais. Dessa vez abordou a metrpole Belm na matria escrita pela jornalista Marina Teles. Como debatedores estavam Joo Coral, da Energia e Institucional da Cia Vale do Rio Doce, Joo Meirelles, diretor do Instituto Pearbiru e escritor, Sunia Souza, gerente do Centro Sebrae do Centro de Sustentabilidade, Dal Marcondes, mediador, e Jos Francisco. Neste evento foram discutidos vrios problemas enfrentados na cidade de Belm, como as comunidades ribeirinhas em dezenas de ilhas espalhadas pelo seu litoral, a necessidade de planejamento (coisa que no se faz h muito tempo), a denio de reas prioritrias para investimentos. Um dos conferencistas revelou que o Par importa 85% do que consome (a mesma realidade da cidade de Manaus). Falou-se em reas estratgicas de desenvolvimento, mas, como disse um dos debatedores, os planos de desenvolvimento aplicados regio poucas vezes tem continuidade e no existe uma real mensurao de seus impactos. Como aqui em Manaus, tudo feito na base do improviso, pois a cidade nem mesmo conhece a sua rea metropolitana. Os dados cartogrcos da prpria regio so imprecisos, como observa uma gegrafa da Universidade Federal do Amazonas. O mesmo debatedor alertou para a disparidade dos investimentos realizados na cidade, onde, segundo ele, foram destinados mais um bilho de reais para saneamento e menos de 20 bilhes para a mobilidade. Ou seja, a cidade incha, as ruas esto lotadas de veculos e o que vemos, como em todas as cidades brasileiras, a falta de infraestrutura para acolher seus moradores. Belm, com pouco mais de 1,4 milho de habitantes, vive a carncia de servios pblicos, como armou Sunia de Sousa, gerente do Centro de Sustentabilidade. A carncia de servios pblicos e trabalho formal cria distores e ilegalidades nas relaes de trabalho, como o caso da explorao do aa nas ilhas e territrios prximos capital paraense onde, segundo Joo Meirelles, milhares de crianas e adolescentes so obrigados a subir em palmeiras para coletar frutos. Um dado revelador denunciado nesse evento assusta. De acordo com os dados da Procuradoria do Trabalho em Belm, na Amaznia existem 500 mil crianas de alguma maneira foradas a realizar um trabalho considerado perigoso, muitas delas com menos de 16 anos, idade mnima para desempenhar uma atividade produtiva. Meirelles informa ainda que esse cenrio de risco avana sobre outros ramos importantes na regio, como a pecuria, que engloba cerca de 50 mil pequenos produtores. Segundo ele, a atividade com maiores registros de acidente do trabalho no Estado do Par. Ou seja, temos a repetio de uma modalidade de explorao que histrica na Amaznia: a utilizao de formas pr-capitalistas de trabalho, inclusive de crianas, como meio de enriquecer os donos dos negcios, que nem sempre vivem na Amaznia. O diretor institucional da Cia do Vale do Rio Doce, Joo Coral falou sobre as diculdades de gerar emprego, pela carncia de prossionais treinados na regio e arma, ao mesmo tempo, da falta da participao do Estado. Sunia de Souza armou que h demandas estruturais que atrapalham o caminho das solues, entre elas a m distribuio tributria e a informalidade de muitas atividades extrativistas. Para ela, Belm o centro irradiador de informao, formao e cultura na regio, e arca com a responsabilidade de ser um grande polo de atrao de trabalhadores. Mas, como diz Meirelles, nas comunidades ribeirinhas praticamente s tem crianas e velhos. O prefeito da cidade de Belm, Zenaldo Coutinho, armou que o problema deve ser entendido de maneira mais ampla. Diz ele: No possvel falar de desenvolvimento da Amaznia sem fazer relao com o restante do pas. A regio sofre com a desonerao das cadeias exportadoras de commodities, principalmente a Lei Kandir, criada nos anos de 1990 para facilitar a exportao e hoje foco de distores, importantes na distribuio tributria regional. Tambm somos grandes produtores de energia, mas a tributao do setor feita na ponta, e o Par ca apenas com o nus dos impactos ambientais. Ele d um exemplo, a cidade de Altamira, onde se constri a Hidreltrica de Belo Monte. Arma: a cidade teve que ser duplicada pouca causa das obras, e as contrapartidas no cobrem as decincias, principalmente em servios pblicos, como escolas, saneamento. E enfatiza: a regio no pode continuar como almoxarifado para o Brasil. preciso rever a tributao das cadeias de commodities originadas na Amaznia. Ao ler essa matria da revista paulista no pude deixar de relacionar com os dados fornecidos pelo Jornal Pessoal n 575 na matria A Belm no rabo da la, onde o jornalista nos mostra que Belm est em penltimo lugar dentre as 16 regies metropolitanas, de acordo com o critrio do IDHM (ndice de Desenvolvimento Humano Municipal). A capital, como arma o jornalista, s ganha de Manaus, sua rival do vizinho Estado do Amazonas. Os debates sobre a Amaznia e os problemas de suas cidades so muito importantes e deveriam ser mais constantes, conclamando todos os cidados para que participem. Isso faria com que olhssemos os nossos problemas mais de perto, pois enquanto o povo amaznico continuar sendo almoxarifado para o Brasil, fazendo a disputa no subsolo, ou na lama, jogando fezes um no outro, como vimos na matria de capa do JP, isso acaba desviando a nossa ateno para trivialidades e rixas corporativas. O Par no merece a imprensa que tem hoje. Somos uma provncia com uma classe dominante que s pensa nos seus interesses, que se aproveitar desse modelo de explorao colonial que vemos diante de ns. Os que pensam e se preocupam com o destino da regio tem sido cada vez mais reduzidos. Quem pensa ca cada vez mais solitrio, vendo o teatro de absurdo da poltica social e econmica paraense. As temporadas das baixarias vo continuar enquanto o povo se embriaga com as mediocridades, como se a poltica fosse uma briga de galo.

PAGE 5

5A Secretaria de Pesca e Aquicultura (com status de ministrio) conseguir preservar alguma forma de poder institucional para Helder Barbalho? A inteno justamente essa. A presidente Dilma Rousse renovou a aliana com Jader Barbalho, que herdou do seu antecessor, Luiz Incio Lula da Silva, ao garantir uma posio de inuncia para o lho do senador do PMDB no seu novo governo. O posto de baixa categoria e difcil. Por ele, nos oito anos da sua existncia, j passaram seis chefes. Assim, a deferncia proporcional ao peso do beneciado na poltica nacional, que mnimo (no pela pesca em si, mas por seu tratamento desleixado que lhe d o governo). Ainda assim, tem sua importncia, quando nada pela sua funo de representao. Um paraense volta ao ministrio da repblica quase 20 anos depois da ltima passagem de um nativo, Fernando Coutinho Jorge, que foi ministro do meio ambiente de Itamar Franco entre 1992 e 1995. E passa a ser o quinto paraense na cpula do governo federal em 29 anos de redemocratizao, proporo bem menor do que na Repblica Velha. No posto, Helder poder dar continuidade sua campanha por um novo mandato poltico, j em 2016, para uma prefeitura, ou preparandose para nova tentativa ao governo do Estado, dois anos depois. Apesar do insucesso em 2014, por muito pouco ele no venceu no primeiro turno; acabou derrotado no segundo turno por ter relaxado a sua participao e ter perdido a orientao direta do pai, absorvido pelos seus graves problemas de sade. Em 2018, mesmo que apoie a candidatura de um correligionrio para Dilma d sobrevida a Helder Barbalho?seu sucessor no exerccio do cargo, Simo Jatene no poder mais se reeleger, o que enfraquecer um pouco o PSDB. Alm disso, pouco provvel que os tucanos consigam evitar uma desunio maior do que a de 2014. Essa conjuntura poder favorecer Helder, se ele no for apenas ministro decorativo. E se tiver um desempenho na Secretaria de Pesca melhor do que na prefeitura de Ananindeua. Em 2018 ele no dever contar com a mesma retaguarda que o pai, tendo que tratar da sua instvel sade, ainda lhe proporciona. Ter que provar se capaz de segurar sozinho o basto do poder ou se fogo-ftuo na poltica do Par. De qualquer forma, Dilma Rousse permitiu uma sobrevida para os Barbalhos no Par. PT e PMDB continuam de mos dadas no Estado, sob o comando de Jader. At quando? O Reprter 70, a principal coluna de O Liberal, surpreendeu a todos ao anunciar que o juiz federal Antonio Carlos de Almeida Campelo fora convidado pelo governador Simo Jatene para assumir o comando da Secretaria de Segurana Pblica do Estado. Segundo o jornal, o governador encaminhou a solicitao ao CNJ, que tambm j recebeu o pedido de licena do prprio magistrado. Jatene estava certo que Campelo aceitaria o convite, tanto que no pensou em nenhum outro nome. Ficar apenas faltando a deciso do CNJ. Como era previsto, o Conselho Nacional de Justia no autorizou o juiz a se licenciar da 4 vara criminal da justia federal em Belm, da qual titular, para ser o chefe da Segup. Imediatamente Jatene, embora no tivesse cogitado de alternativa para o magistrado, na informao do jornal da famlia Maiorana, apresentou como novo secretrio o general Jeannot Jansen da Silva Filho. Seria um indito e mau exemplo, caso o CNJ permitisse que um juiz, ao qual a constituio confere prerrogativas excepcionais no servio pblico para exercer sua funo com independncia e autonomia, se tornasse um subordinado do chefe de outro poder, o executivo, demissvel a qualquer momento, por exercer cargo de conana. Assumir um lugar desses impediria o juiz de retornar ao judicirio, pela perda da sua condio de imparcialidade, mesmo que apenas em tese. Por que o juiz, que no desconhece a situao, ainda tentou obter a liberao junto ao CNJ? Acreditou que o seu padrinho teria fora suciente para demover o conselho ou recorrer a inuncias ainda mais poderosas para alcanar seu objetivo, que criaria um precedente perigoso para a magistratura nacional e o prprio poder judicirio? Mais do que isso. Ao incorporar a iniciativa do jornal, admitindo o patrocnio, no se expunha ao desgaste de se tornar suspeito por essa relao? que o juiz concedeu regalias ao principal executivo do grupo Liberal, Romulo Maiorana Jnior quando, em 2011, ele foi depor, como ru, na 4 vara federal, O juiz que quasevirou secretrioacusado de fraude para obter recursos dos incentivos scais da Sudam. Romulo Jnior pode entrar com seu carro no estacionamento privativo de juzes e funcionrios da justia militar e subir no elevador privativo, protegendo-se assim do assdio dos veculos de comunicao do seu principal inimigo, o senador Jader Barbalho. Gentilezas foram dadas a Ronaldo Maiorana, tambm ru no processo, durante o seu depoimento. Se o patrocnio tivesse vingado, haveria ainda outro inconveniente: Campelo passaria a ser chefe da sua atual esposa. Ela acabou de concluir o curso de formao de delegado de polcia. Pela praxe, devia ser designada para um posto no interior do Estado, onde o policial inicia a sua carreira, como outros servidores pblicos. Se assumisse a secretaria, Campelo a mandaria para o interior? Se a convocasse para a capital, iniciaria com o p esquerdo a sua gesto. Por essas e outras, foi melhor que o CNJ no lhe permitir virar auxiliar do chefe do poder executivo estadual.

PAGE 6

6Meio sculo depois, um general volta a ser secretrio de segurana pblica do Estado do Par: o general Jeannot Jansen da Silva Filho, ex-comandante militar da Amaznia. O anterior foi tambm um general de diviso da reserva do exrcito, Jos Manoel Ferreira Coelho, nomeado pelo coronel Jarbas Passarinho, o primeiro militar a assumir o governo depois do golpe de 1964, eleito, por via indireta, pela Assembleia Legislativa. A indicao de Ferreira Coelho era coerente com a conjuntura da poca: a segurana estadual era controlada por bacharis e delegados vinculados ao baratismo, a corrente poltica liderada pelo caudilho Magalhes Barata. A polcia era usada contra os inimigos e adversrios do governo, e tambm como guarda pretoriana, dando suporte a atividades que geravam fontes de renda ao poder estabelecido, como o jogo do bicho e o contrabando. O general Ferreira Coelho devia atacar esses redutos, aproveitando o regime de exceo. A escolha de um novo general (a patente mxima desde ento foi a de coronel, do prprio exrcito ou da Polcia Militar) contrasta com o regime democrtico atual, mas pode ter duas explicaes. Uma, para efeito interno: estabelecer um poder de mando verticalizado na Segup, que enquadraria os focos de resistncia interna e as inltraes da poltica oposicionista especialmente ligadas ao senador Jader Barbalho, do PMDB na estrutura de segurana. Ao mesmo tempo, marcar posio do PSDB do Par, que traz para um lugar de destaque um militar que foi para a reserva criticando o governo do PT e suas extenses. Quando ainda estava no comando da 8 Regio General na Segup 50 anos depoisUm ministrio de ficha marcadaA lei da cha limpa vale para selecionar pretendentes a mandatos polticos no Brasil. Por que no haveria de valer para o preenchimento de cargos de conana na cpula do poder executivo? No so cargos polticos por excelncia? Ao invs de criar mitologias e teratologias, bastava presidente da repblica estabelecer esse critrio: para o preenchimento das vagas no primeiro escalo do governo o critrio de admisso o mesmo seguido para os cargos eletivos: a lei da cha limpa, conforme a jurisprudncia e doutrina da justia eleitoral e o mandamento constitucional. Quem no pode se candidatar a poltico tambm no pode ser ministro. Se, para os efeitos legais, algum s perde a primariedade ou ganha nova punio nos antecedentes se a sentena condenatria transita em julgado, para a convenincia da administrao pblica bastaria que tivesse deciso contrria em rgo colegiado da justia. Talvez fosse at mais acautelatrio estender o veto a sentena de juzo singular. Uma vez constatada a incidncia desse nus, em pesquisa simples da assessoria da presidente, ela agradeceria pela indicao e lamentaria no poder faz-la em funo desse princpio, que atingiria tanto a gregos quanto a troianos, sem precisar recorrer a subterfgios ou escamoteaes. Mas a a formao do governo passaria a ser mais sria e rigorosa. Diminuiria a margem de adequao a convenincias e fraquezas, que, mais uma vez, acabaram por denir a substncia do novo ministrio, de 39 cadeiras. Governar transigir, negociar, negar o dito, refazer o feito, se desmilinguir e liquefazer, quando a chefe de governo, se sentindo fraca, precisa da conivncia do parlamento, cheio de culpas, para transform-lo em cmplice do objetivo comum: a impunidade de ambos. Por isso Dilma voltou atrs do compromisso e aceitou comandar uma colcha de retalhos mal alinhavada. Um exrcito Brancaleone.EdioMilitar, o general Jansen, em pblico, classicou a cesta bsica, o principal programa de incluso social do PT, como demaggica e produtora de vagabundos. A partir da, foi preterido nas promoes no exrcito e passou para a reserva na patente de general-de-diviso. Ele tambm fez crticas atuao do governo federal na Amaznia durante visita de cortesia sede da Federao da Agricultura do Estado do Par. Suas crticas visaram o oramento do governo federal, os movimentos sociais, a atuao de rgos ambientais do governo, que estariam coniventes com algumas ONGs, e a omisso com relao soberania nacional, referindo-se internacionalizao e ocupao desordenada e ilegal da Amaznia. Manifestou perplexidade com o oramento do governo federal em curso, que reservava 24 bilhes de reais para o Ministrio do Desenvolvimento Social e Combate Fome, enquanto que para o exrcito foram destinados apenas R$ 1,2 bilho. Atribuiu a disparidade ao objetivo poltico do programa social: A cesta bsica venceu a tica e o bom senso, declarou. Opinando sobre uma questo de grande importncia na regio amaznica (e na jurisdio da secretaria que ir comandar), apontou como a causa maior dos conitos de terras a falta de organizao fundiria, por culpa do prprio governo federal. E tambm pela existncia de organizaes sociais que no querem alcanar benefcio social e, por isso, estamos atentos, silenciosos, mas acompanhando os assentamentos e as invases em todo o pas, porque h ideologias muito estranhas nossa. O novo secretrio de segurana, que sergipano, mas morava em Braslia, dever continuar a falar e dar o que falar. Absorvido pela edio especial sobre a cabanagem, que j est circulando, fechei aos tapas esta edio para no deix-la atrasar, o que prejudicou o acompanhamento de alguns temas do cotidiano. Em compensao, foi significativa a contribuio de leitores. Que eles compaream ainda mais em 2015, o que desejo.

PAGE 7

7 Atraso de Belo Monte pode custar 4,5 bilhesO incio do funcionamento da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Par, projetada para ser uma das maiores do mundo, est atrasado um ano. A primeira das 20 turbinas devia comear a gerar em fevereiro de 2015 ou menos de um ms, portanto. No novo cronograma, isso s dever acontecer no primeiro trimestre de 2016. O concessionrio e a Aneel, a agncia federal de energia eltrica, discutem sobre a responsabilidade por esse atraso. Se for sua, a Norte Energia ter que comprar de terceiros a energia que ser obrigada a fornecer aos consumidores com os quais assumiu compromisso para 1 de fevereiro de 2015. A conta de 370 milhes de reais ao ms. Se for conrmado o atraso de um ano, o encargo adicional somar quase R$ 4,5 bilhes, o equivalente a 15% do custo total da usina. A preos de hoje, ela passaria a quase R$ 35 bilhes. O valor do prejuzo em virtude do atraso supera a correo do quanto ela custaria quando o contrato de concesso foi assinado, em abril de 2010, e hoje, que foi de R$ 1,5 bilho. um acrscimo impossvel de ser absorvido pelo concessionrio se ele no puder repass-lo para a tarifa ou se no dispuser de capital novo para arcar com o prejuzo at poder ser ressarcido. esse o maior desao imediato da obra. Quem leu a manchete de O Liberal da semana passada sobre o assunto e a matria distribuda pela agncia de notcias de O Estado de S. Paulo, usada pelo jornal paraense, deve ter pensado que se trata de mais um derivativo do escndalo da Petrobrs. O acrscimo feito ao oramento da hidreltrica tratado como rombo. Se um rombo, trata-se de desvio de dinheiro pbico atravs de roubo, propina, maracutaia. E como est em causa a maior obra do PAC (Programa de Acelerao do Crescimento), rombo que no ca a dever corrupo na Petrobrs. Por ora, pelo menos, no isso ou ainda no O nus de R$ 370 milhes ao ms surgiu porque a usina no cou pronta na data estabelecida no contrato de concesso para comear a fornecer energia ao Sistema Integrado Nacional, com seus compradores contratados. O concessionrio atribui o atraso a fatores externos, que vo desde as manifestaes de protesto at demoras nas liberaes e autorizaes de responsabilidade de rgos pblicos. Sem essas interferncias vindas de fora do canteiro, as obras teriam evoludo no tempo previsto e Belo Monte cumpriria os seus compromissos. E ainda poderia comear a gerar com lucro, segundo a Norte Energia, porque os preos no mercado de energia esto superiores aos assumidos em 2010. Seus argumentos, entretanto, no foram aceitos pela Aneel, que decidiu impor empresa as despesas extras pelo uso de energia de terceiros. O contencioso ainda est sujeito a discusses ou reviso e a Norte Energia, na nota que distribuiu para esclarecer a matria, acredita que poder mudar a posio da Aneel. Um dos motivos para o atraso s pode estar na complexidade dos canais de aduo de gua do reservatrio principal para a casa de mquinas, uma inovao temerria em relao ao projeto original. Se for mantido o entendimento do rgo governamental, como essa nova conta ser paga, se puder ser paga (o que parece impossvel no oramento da hidreltrica)? Mantidas as regras atuais, pelos acionistas da Norte Energia. Seus controladores so empresas estatais de energia, frente a combalida Eletrobrs, e fundos federais de penso. Ou seja, o governo. Em ltima instncia, o contribuinte, Sem capital prprio, porm, o consrcio poder recorrer a emprstimo. O BNDES manteria sua disposio de nanciar 80% de tudo que Belo Monte gastar, como vem fazendo com o cronograma nanceiro regular do empreendimento? Parar a obra, no estgio avanado em que ela est, parece fora de cogitao. Por isso, uma coisa certa: a hidreltrica do rio Xingu passar logo do limite de R$ 30 bilhes. o momento para submeter o projeto a um teste de consistncia e a uma vericao de planilhas. Quando o leilo da hidreltrica foi decidido, as empreiteiras integravam o consrcio formado para produzir a energia. Quando as obras se iniciaram, pularam o balco e assumiram o seu lugar tradicional, de empresas de engenharia e construo. Foi um imprevisto ou um jogo de cartas marcadas? Se as cartas estavam marcadas, os parceiros sabiam que isso ia acontecer e que o BNDES se apresentaria para salvar o oramento da obra, acolitado pelas estatais de energia e os fundos federais de penso? Se a resposta for positiva, o esquema que era usado na Petrobrs tambm se aplicava no sistema Eletrobrs. preciso checar essa histria antes dos ltimos fatos se consumarem.No calor da horaFeito em cima da hora para circular no dia 7, data dos 180 anos da cabanagem, o Dossi Jornal Pessoal n 9, que j est nas bancas, formado por matrias j anteriormente publicadas e tambm inditas, fruto de longas pesquisas sobre o tema. Uma das suas contribuies uma relao de livros que ajudam a saber mais e entender melhor um acontecimento to decisivo para a histria do Par quanto do Brasil.

PAGE 8

8 pesaroso e ainda inconformado, devolveu cada item ao frigobar. J escolado, em outra viagem, esta para Marab, adverti meu companheiro de excurso, outro fotgrafo, que ele no podia retirar nada daquela penso, a melhor da cidade, que levava o nome da famlia Mutran. No s por ser vetado. Era tambm pela fama da proprietria, que a tudo scalizava da sua cadeira de vime de balano, porta da entrada, com olhos de guia e nimo belicoso. Mais afoito ainda, o fotgrafo ignorou meu alerta. Quando deixvamos a penso, a meticulosa dona exigiu que abrssemos nossa bagagem. A minha foi aprovada. A do meu companheiro provocou um turbilho acusatrio: l estava uma das toalhas do quarto. A gritaria foi tanta que decidi resolv-la moda da casa: comprei a toalha usada pelo preo de uma nova. E assim fomos liberados. Por essas e muitas outras, no imerecida a m fama de jornalistas em geral nas suas misses externas, sejam viagens como meras coberturas locais de acontecimentos. A dos fotgrafos, em particular, ainda mais nefanda: como dom Jos Cavaca dizia dos goleiros, onde ele pisa no nasce mais grama. Os fotgrafos so (ou eram) indceis, irrequietos e, quase por derivao, inconsequentes, irresponsveis, incmodos. Por que um deles decidiu subir em determinada cadeira para pegar um ngulo (diferente, conforme sempre se justicam, a posteriori) da bela e enorme sala na residncia do engenheiro Paulo Maluf, que dava entrevista coletiva imprensa, ungido que fora pelo general-presidente Costa e Silva (na verdade, por sua esposa, dona Yolanda), naquele ano nada glorioso de 1969? Pois costumava ser sempre assim. Um dentre os muitos fotgrafos em ao sempre encontra uma maneira de se distinguir (e valorizar) dos demais a partir de uma perspectiva original ou indita para o seu clique na mquina. O dito cujo levantava o p para se rmar na cadeira quando dona Slvia, a esposa do novo prefeito binico de So Paulo, levantou-se da sua e saiu como echa a tempo de dar um empurro no fotgrafo, que desabou do outro lado. Sem perder o aplomb, a nova primeira dama da maior cidade da Amrica do Sul se explicou, sem pedir desculpa: Essa cadeira tem 150 anos. O prossional da fotograa, umas quatro vezes menos idade. Alexandre Garcia conta ainda no livro portos internacionais pelo mundo inteiro. So aquelas pessoas que no respeitam a faixa amarela que atravessa a rea frontal aos pontos de atendimento das companhias areas. As demais se mantm atrs dessa faixa, que protege e d intimidade a quem est fazendo check-in e despachando bagagem. Quando em grupo, ento, os brasileiros se tornam mais selvagens. E quando a turma de jornalistas, a selvageria ultrapassa qualquer padro de barbrie. O que tem impedido o Brasil de dar certo que nenhum projeto de governo acompanhado por um projeto de civilizao. A riqueza que se acumulou em vrios perodos da sua histria, como agora, acaba evaporando como perfume barato. A gerao dos abonados no pensa nos sucessores. Gasta tudo, dilapida. Mais do que o dinheiro, a civilidade e a cultura. Alexandre Garcia relata no seu livro Nos bastidores da notcia, de 1990 (Editora Globo, 358 pginas), episdios dessa falta de modos e de educao dos jornalistas brasileiros que zeram a cobertura da visita do general-presidente Ernesto Geisel a Tquio, em 1976. Os exemplos que cita, margem da jornada, so ilustrativos. O nal da permanncia da horda no hotel deixou um saldo impressionante: os brasileiros haviam levado no apenas bblias e garrafas trmicas dos quartos mas tambm yukatas trajes para dormir nos quais o hotel punha uma etiqueta, informando que um yukata como aquele estava disposio do hspede numa das lojas do trreo, por um preo baratssimo. Pois alm disso levaram tambm cortinas do hotel e at uma torneira do banheiro. O testemunho de Garcia puxou da minha memria cena parecida. Mal entramos no apartamento no hotel So Francisco, em So Lus do Maranho, onde iramos car para uma cobertura jornalstica, o fotgrafo que me acompanhava abriu sua enorme valise e comeou a colocar dentro dela todas as garranhas de bebidas que estavam sobre o frigobar e o contedo do aparelho, deixando-o zerado. Fiz minhas contas e o alertei que naquele momento ele estava em dbito na gerncia em determinado valor, que no era nada pequeno. Como?, reagiu ele, estupefato. Porque aquela despesa no estava includa na nossa conta e eu no ia poder justic-la para a contabilidade do jornal na prestao de contas. Era nus pessoal dele e ponto nal, inclusive porque o hotel tinha a relao de tudo que havia no apartamento. Depois de algum protesto, o fotgrafo, B ALAIO DO REPRTERJornalistas em ao como hordas de hunosque estava se justicando para a companheira de voo a Tquio em funo da barulheira dos jornalistas brasileiros a bordo, quando chegou um deles para conversar. E ps o p descalo sobre o meu joelho. Eu nunca havia viajado com um grupo de jornalistas. A partir daquela noite passei a evitar a repetio de um tal vexame. Tambm tive minha experincia similar. Estava na companhia do ministro da sade do mesmo general-presidente Geisel, Paulo de Almeida Machado, numa mesa ao ar livre no hotel do Incra em Rurpolis. Era, em 1975, um osis de ostentao e conforto no rstico cruzamento da Transamaznica com a Santarm-Cuiab, que depois para no variar no servio pblico brasileiro se arruinou. Conversvamos descontraidamente porque j nos conhecamos do tempo em que ele dirigiu o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia), em Manaus. Chega o fotgrafo, outro, ainda mais novo, vindo do jantar. Senta, levanta as pernas e a deixa car sobre a mesa, para espanto do ministro e horror do seu segurana, um discreto e excepcionalmente (para aqueles tempos) afvel agente da Polcia Federal. Rapidamente dou uma bicuda por baixo da mesa no fotgrafo, que retira as pernas menos em funo de sbita recuperao de modos, inexistentes, do que pela dor do golpe. Ainda se vira para dizer alguma coisa para mim, mas, felizmente, compreende meu olhar irado. Algo como a noo da idade e da hierarquia numa viagem o calam. O ministro e o agente me agradecem com outro par de olhares. Conto essas histrias sem que elas comprometam a minha gratido por alguns fotgrafos que me acompanharam nos momentos em que atuei como enviado especial, dentro e fora do Par, principalmente quando iniciava na prosso. Foram muitas as ocasies em que Porfrio da Rocha, Ayrton Quaresma, Emanoel de Almeida ou Tolentino Martins, na velha A Provncia do Par, meu primeiro emprego na carreira, supriram minhas falhas e faltas, me orientaram na apurao em campo (ou redigindo o texto na redao) ou me protegeram. O problema, nas viagens, que a maioria dos fotgrafos faz o seu servio mais rapidamente do que o reprter. A partir da quer ir embora, fazer outro servio ou ir anar. Aps vrios desentendimentos, decidi que iria viajar sozinho, munido da minha Pentax velha de guerra (hoje dignamente aposentada num escaninho da biblioteca). No era uma atitude muito prossional e merecia o repdio de colegas. A viagem,

PAGE 9

9Campanha contra Celpa pelo calote do LiberalO Par, com oito milhes de habitantes, tem um milho a mais do que o Maranho, com seus sete milhes em nmeros redondos. No entanto, o Maranho possui 30 mil unidades consumidoras de energia a mais do que o Par. Pelos dados da Aneel, a agncia federal de energia eltrica, as UCs atendidas pela Cemar somam exatamente 2.278.898. J as da Celpa so 2.148.720. A discrepncia, que no nada misteriosa, pode ser resolvida. que agora a Celpa (com a totalidade das aes) e a Cemar (com 65%) so controladas pela Equatorial Energia, empresa com ativo de 15 bilhes de reais e que tem entre os seus acionistas o Burger King, Unidas, PDG. Le Biscuit, Inbrands e outros scios. Tanto a Cemar quanto a Celpa estavam em situao de insolvncia quando a Equatorial as assumiu. A concessionria maranhense j passou a vizinha do Par em todos os ndices, da qualidade dos servios reduo de perdas e de inadimplncia, faturamento e rentabilidade. O desao, agora, a Celpa. Pelos nmeros comparativos dos dois Estados, d para constatar que se a Celpa se tornou a pior empresa do setor eltrico brasileiro, chegou a essa situao por pssima gesto da concessionria e m superviso pelo governo. Depois de passar pela recuperao judicial durante os ltimos dois anos, sob o peso de uma dvida de 3,8 bilhes de reais, se no se tornar solvente s lhe resta falir de vez e perder a concesso. Ao governo, a partir da, a interveno e novo leilo atrs de algum grupo interessado, em reprise negativa. O momento delicado. Precisa da ateno e da ao do novo concessionrio, da populao e das autoridades. J seria uma tarefa ingrata por si no fora a campanha iniciada em outubro pelo grupo Liberal. Seria uma campanha meritria, tantos so os motivos de queixa e as razes de insatisfao da populao se a iniciativa no se devesse a capricho e interesses pessoais contrariados do principal executivo do grupo Liberal, Romulo Maiorana Jnior. O Liberal prestaria um excelente servio populao se preparasse uma equipe de reprteres para ouvir as queixas da populao, fazer ronda nos rgos pblicos que tratam do problema, inventariar as aes na justia e penetrar nos labirintos do processo de recuperao judicial para reconstituir os motivos da precria situao em que a Celpa acabou cando, alm de manter um acompanhamento rigoroso da evoluo do novo controlador, a Equatorial Energia, frente da ex-estatal paraense. Ao invs disso, o jornal passou a acolher sem qualquer critrio ou rigor tudo que diz respeito conta de luz, de forma negativa, sensacionalista, sem apurar os fatos e sem ouvir adequadamente a parte contrria. A presso no para melhorar o servio, mas para impor a vontade de Romulo Maiorana Jnior. Ele simplesmente no quer pagar sua conta de luz. Essa conta tem um dbito acumulado de 20 milhes de reais e aumenta R$ 700 mil por ms. Ela abrange 150 unidades consumidoras, que vo desde as instalaes do jornal, da televiso e de outros negcios das Organizaes Romulo Maiorana, at residncias particulares, algumas delas luxuosas, como a de Romulo Jnior. Se a Celpa concordar em transformar seu crdito em permuta, promovendo uma hemorragia de publicidade nos veculos das ORM, a campanha cessar de imediato. Como num passe de mgica, o mesmo que beneficiou a Celpa mais de 10 anos atrs, e tambm o Banco da Amaznia e a Vale. De inimiga pblica, a empresa passar a ser exemplar. Nunca mais uma crtica perturbar essas relaes celestiais. Ou algum constata um tisnar de tinta vermelha sobre a Vale, que oferta anncios sem fim ao grupo Liberal? Ao insistir na campanha, Romulo Jnior quer mostrar para a Celpa que cumprir a ameaa que fez a dois diretores da concessionria de energia, interrompendo a negociao que eles faziam com diretores das ORM: quebrar a Celpa se ela no se dobrar aos seus interesses e caprichos, Uma fonte ligada empresa garantiu, porm, que ser mantida a cobrana do dbito da corporao. Os devedores tero que quitar o passado e assumir a conta mensal de energia, que Maiorana quer transformar integralmente em permuta de publicidade para os seus veculos de comunicao. Se sua vontade for atendida, a Celpa, que teve oramento de R$ 3 milhes de publicidade em 2014, teria que programar, s para o grupo Liberal, R$ 8 milhes. Alm de bonificar o calote, dando pssimo exemplo para os consumidores sem privilgio, um absurdo diante da carncia de recursos da empresa para suas despesas prioritrias.alm de signicar o momento de maior aprendizado, era tambm a oportunidade de faturar dirias, passear e ter acesso a coisas e gente inacessveis at aos mais endinheirados turistas, ainda que tambm houvesse uma face nada desejvel: conitos, ameaas, sacrifcios, desgastes, riscos graves e, eventualmente, mortes. Sem um fotgrafo, minha expedio perdia na qualidade das ilustraes para o texto, mas a apurao cava melhor porque dispunha de mais tempo para se diversicar e aprofundar. Zanzei pela Amaznia durante vrios anos como reprter solitrio em lugares ermos, naqueles pontos em que a Amaznia mais interessava aos novos donos da terra, que faiscavam suas riquezas com ferramentas tecnolgicas mais sosticadas e comeavam a explor-las como um novo almoxarifado de mercadorias para o mundo. Sem fotgrafo e tambm sem a companhia de qualquer outro reprter por companhia ou como competidor, fui pioneiro em quase todas as frentes que se abriam atrs do novo eldorado: minrios, madeira, terra, especulao, saque. Histrias s vezes nicas, que esto disposio nos arquivos dos jornais e, ainda maiores e mais detalhadas, em dezenas de cadernos de viagem que me acompanham como histria, desao e assombrao.

PAGE 10

10Os PM que esto na rua a servio de particularesA hidreltrica sem reservatrioA Agncia Nacional de Energia Eltrica autorizou, no ms passado, o incio da operao comercial da quarta e ltima unidade geradora da hidreltrica de Santo Antnio do Jari, que ca na divisa do Amap com o Par. Essa a menor das mquinas. Instalada na segunda casa de fora, sua potncia de apenas 3,4 megawatts. Ela ir complementar a gerao das trs turbinas principais e permitir que a usina opere com sua plena capacidade, que de 373,4 MW, o suciente para atender o consumo de trs mil pessoas. A potncia rme durante o ano de 217,7 MW. Essa energia j faz parte do Sistema Integrado Nacional, podendo ser comercializada no prprio local ou em qualquer ponto de consumo do pas. A energia da usina entrar no mercado livre j a 1 de janeiro. A proprietria da usina a multinacional EDP, que atua em 12 pases e a terceira maior produtora de energia elica do mundo. No Brasil, est presente em nove Estados. A hidreltrica do rio Jari, a maior sob seu controle, exigiu investimento de 1,4 bilho de reais. Originalmente, foi concebida para suprir de energia a fbrica de celulose que o milionrio americano Daniel Ludwig implantou na regio, hoje de propriedade do empresrio paulista Srgio Amoroso. A hidreltrica opera a o dgua, com pequeno reservatrio, de 31,7 quilmetros quadrados, formado acima da cachoeira de Santo Antonio, uma das mais bonitas da Amaznia, que ao menos em tese ser preservada. O rio foi desviado na margem esquerda para ser utilizado como fonte de energia, num curso articial. As guas, depois de turbinadas, voltam ao leito natural do Jari, abaixo das quedas dgua. O Par do Sculo XXLBUM DA MEMRIAA seleo dos dois primeiros livros da srie Memria do Cotidiano (a sesso preferida dos leitores do Jornal Pessoal), j no 5 volume.O governador Simo Jatene provavelmente nada far. Tanto porque refm da pessoa citada pela na notcia, como porque a fonte da informao j no lhe merece qualquer crdito. Mas se realmente ainda governasse para os paraenses, teria que mandar apurar a denncia feita h duas semanas pelo Reprter Dirio. Um informante disse coluna do Dirio do Par, o jornal da famlia Barbalho, que um militar fardado estaria na direo de um carro com a logomarca do jornal O Liberal na porta do condomnio Lago Azul, s 23,20 do dia 23 de dezembro, tendo ao seu lado segurana particular do proprietrio do jornal, por sinal militar da reserva. O personagem referido Romulo Maiorana Jnior. Apurar a denncia no seria fcil, mas era pelo menos necessrio tentar. Em 21 de janeiro de 2005 (h quase 10 anos, portanto), quando davam cobertura agresso contra mim pelo seu patro, Ronaldo Maiorana, no incio da tarde de uma sexta-feira, o sargento Manoel Santana e o subtenente Edson Nazareno de Carvalho, ambos pertencentes aos quadros da PM, mas que prestavam servio de segurana particular ao empresrio, apareciam no controle informatizado da corporao como se estivessem no quartel. Sempre foi assim. Para todos os efeitos eles desempenhavam suas funes no servio ativo da Polcia Militar enquanto acompanhavam o ento diretor corporativo (hoje, jurdico) do grupo Liberal. Nesse dia, 500 militares estavam fora dos seus lugares de trabalho pblico para atuar como agregados, em disponibilidade ou de forma inteiramente ilegal. Quantos seriam na noite de ontem? Dez anos atrs o mesmo Dirio do Par publicou a seguinte matria a propsito da agresso de Ronaldo com seus dois policiais militares, que ainda merece ateno das autoridades e, agora, do general-secretrio de segurana pblica, se realmente quer impor a aplicao da lei no setor sob a sua jurisdio O juiz togado do Tribunal Regional do Trabalho, Vicente Jos Malheiros da Fonseca, diz que a conduta dos policiais que prestam servios para particulares ilcita e imoral. Ex-presidente do TRT, Malheiros fundamenta sua avaliao na quantidade de aes que o Tribunal recebe envolvendo policiais que fazem bicos e no nal da relao de trabalho com empresa ou empresrio reivindicam direitos trabalhistas. Ele defende que nesses casos policiais e empresrios sejam penalizados, os primeiros por suas respectivas corregedorias e os segundos pela Delegacia Regional do Trabalho, com multa. Vicente entende que no h relao de emprego entre contratante e soldados e a conduta dos policiais abre um precedente para a desordem pblica. Muitos se aproveitam do treinamento da corporao e at de uniformes e armamentos para complementar os salrios. Ao invs de fazerem uma luta justa por melhor remunerao, procuram essa vlvula de escape para conseguir um complemento salarial atravs da segurana particular, constata. ESCNDALO O juiz arma que este no um problema sem importncia. Trata-se de um problema de segurana pblica muito grave, porque policiais, pagos pela sociedade, abandonam seus postos para proteger pessoas ou empresas individualmente em detrimento do interesse coletivo. J soube de caso inclusive de bombeiros que saram do cumprimento do dever pblico para atender a particulares. Infelizmente preciso que aconteam situaes da gravidade da ocorrida na ltima sexta-feira para que as providncias sejam tomadas. A prestao de servios por policiais a empresrios e empresas escandalosa e ocorre com muito mais frequncia do que se imagina, denuncia.

PAGE 11

11Nova Olinda: do petrleo que no deu catarata ruimLi, emocionado e triste, matria que saiu na edio do dia 21 de dezembro da Folha de S. Paulo. O enviado especial Lucas Reis denunciou a maldade praticada contra moradores de Nova Olinda do Norte, no vizinho Amazonas. Essas pessoas perderam a viso aps serem atendidas num mutiro contra a catarata, em 2011, e nunca foram indenizadas. Nova Olinda entrou para o meu imaginrio atravs do meu pai, que esteve na base da Petrobrs, logo em seguida ao grande fato: em 13 de maio de 1955 pela primeira vez jorrou petrleo na Amaznia. Ainda criana, vi as fotos do meu pai em instalaes que mais pareciam cenograa de lmes de Hollywood. Papai era deputado estadual pelo PTB do Par, eleito por Santarm e o Baixo-Amazonas, em incio de mandato. Acompanhou, a convite, a comitiva do governador amazonense, Plnio Coelho, tambm do PTB (igualmente o partido do presidente Getlio Vargas). Aquele parecia ser o primeiro captulo da redeno da regio depois do m da explorao da borracha. A Amaznia, como detentora da maior bacia sedimentar do planeta, estava vocacionada, por sua geologia, para acumular hidrocarbonetos. Nova Olinda era a prova dos nove. Da o entusiasmo de todos, incluindo meu pai, que o transmitiu famlia. Todos queriam ver o leo jorrar e cair sobre os mais afoitos, que tratavam de trazer sua amostra do ouro negro, inclusive na roupa. Nos dois anos seguintes cinco novas perfuraes foram feitas em torno do poo pioneiro. O petrleo voltou a subir pelas sondas, mas os poos no foram desenvolvidos porque um gelogo americano, Walter Link, contratado pela Petrobrs, garantiu que o volume contido no era comercial. No compensaria o investimento. E com isso os poos foram lacrados e nunca mais a armativa do terrvel Mr. Link foi testada em campo. O episdio cou como mais um captulo da teoria conspirativa contra a Amaznia. No caso, colocada em prtica por um emissrio dos Rockefeller para sabotar a busca de petrleo pela Petrobrs. Anos depois do meu pai, fui a Nova Olinda, que ca a 150 quilmetros de Manaus. Fiquei emocionado por estar l e triste pelo abandono em que a deixaram depois de tanto otimismo. Abandono atestado pela excelente reportagem da Folha. Como z no meu blog, reproduzo aqui tambm o texto a seguir. Ele que devia ser lido por todos. exemplo forte do escrnio pela gente do interior.Se eu saio de casa sozinho, no sei se voltarei vivo, diz ao reprter um dos 18 pacientes que sofreram as sequelas Seu Antnio, 73, mora perto do rio Madeira, mas no come mais peixe. Dona Senhorinha, 64, precisa se escorar em varais para chegar ao quintal. O carpinteiro Seu Raimundo, 95, aposentou-se h trs anos e foi obrigado viver trancado em casa. A histria de 18 idosos da pequena Nova Olinda do Norte (a 135 km de Manaus) mudou radicalmente em abril de 2011, quando um mutiro de cirurgias de catarata do governo do Amazonas terminou em cegueira permanente. Quase quatro anos depois, os idosos tentam sobreviver com a ajuda de parentes e amigos em uma cidade de 34 mil habitantes, acessvel apenas pelo rio, com pouca infraestrutura e nenhum respaldo do poder pblico. espera de justia, ao menos 5 dos 18 idosos j morreram desde ento, um deles aps complicaes em decorrncia da cegueira: aps um tombo, precisou amputar uma perna e denhou. A nossa vida acabou. No conseguimos fazer mais nada direito. O que eu posso fazer agora? S morrer, diz o carpinteiro Raimundo Barros Neto, 95. MUTIRO Em maro de 2011, o mutiro do governo do Amazonas desembarcou em Nova Olinda do Norte para realizar 36 cirurgias de catarata. Horas depois, metade dos operados cou com os olhos vermelhos, com dores lancinantes, calor, secrees e, nalmente, viso turva e cegueira. Dias depois, os idosos foram levados a um hospital de Manaus, mas o quadro era irreversvel. Eu enxergava e trabalhava como mecnico. Fiquei cego de um olho, e agora estou com problema na outra vista tambm. Entrei em depresso, isso foi o m da minha vida, conta Edmilson Freitas, 71, ao lado da ocina em seu quintal, abandonada. Depois de quase duas semanas internados e recebendo colrios, contam os idosos, foram levados de volta a Nova Olinda, mas nunca mais receberam qualquer explicao ou satisfao sobre o caso. Diziam que a gente iria voltar a enxergar em um ms, arma Freitas, que at hoje sente dores no olho. Meu olho estava cheio de bactrias quando procurei outro mdico. Ele disse que o olho parecia um algodo molhado, diz Antnia Reis, 70. Naquele momento, todos eles comearam a descobrir o que era viver no escuro. Eu no como mais peixe por causa do espinho. Era o que eu mais gostava de comer, conta Antnio Aureliano da Silva, 73. E no saio mais sozinho de casa. Os idosos sofrem com tombos constantes e ferimentos nos ps, no conseguem se alimentar sozinhos e muito menos andar pela cidade sem apoio de algum. Se eu saio de casa sozinho, no sei se voltarei vivo, diz Francisco Rolim, 81, que tambm foi obrigado a parar de trabalhar, a exemplo de Railde Lima, 65. Jandira Lemos, 79, que j tinha problemas em um olho, cou totalmente cega. noite, reclama de dores. Quase nenhum deles consegue distinguir um rosto. Eu vejo apenas vultos, e s consigo reconhecer meus lhos por causa da voz, conta Senhorinha da Silva, 64. Alguns procuraram advogados e ensaiaram uma ao coletiva de indenizao, mas o processo no foi adiante. Voltar a enxergar, no vamos. Nossa esperana que seja feita justia, diz Freitas.

PAGE 12

12GUERRA J s proximidades do m da Segunda Guerra Mundial, em julho de 1945, o coronel Ney Peixoto, chefe da seo de abastecimento, distribuio e controle de carnes verdes, pescados e mariscos do Estado comunicava ao pblico que a carne de mamote e suas vsceras seriam vendidas exclusivamente em quatro talhos: na avenida So Jernimo (atual Governador Jos Malcher), entre Rui Barbosa e Quintino; na Benjamin Constant canto com de Almeida; na 14 de Maro canto com Boaventura da Silva, e na Manuel Barata canto com a Frei Gil de Vila Nova. Advertia que tais talhos iam vender livremente a carne e as vsceras de mamote, isto fora do racionamento, ao preo de Cr$ 8,00. Qualquer um podia comprar essa carne, independente da quota a que tenham direito pelos cartes de racionamento destinados aos mercados ou talhos de rua. IMPORTAO Na mesma poca, Pickerell Representaes S/A oferecia oramento a quem quisesse fazer importao direta das fbricas de artigos que representava, como cimento cinzento americano Hercules, farinha de aveia Quaker, farinha de trigo Northern King e Granada, azeites nos para mesa (Bela Albion e A Andaluza), usque Balmoral, aguardentes John Bull e Juzo, ou linotipos da Mergenthaler, de Nova York. Tambm aceitavam assinaturas para as revistas Time, Life, Architetural Frum e Fortune. CENSURA Uma pequena e vaga nota publicada na Folha do Norte de 5 de julho de 1945 informava que a circulao da revista A Semana, que estava sendo editada por nova direo, fora suspensa por determinao do DEIP, a verso estadual do famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado por Lourival Fontes (o Golbery do Couto e Silva do Estado Novo) para censurar a imprensa, sob a ditadura (que j agonizava) de Getlio Vargas. Segundo a explicao do censor, a revista estava circulando fora da lei. Seus responsveis j estavam entrando em entendimento com as autoridades do sul da Repblica para tentar liberar o semanrio, que voltaria a circular, com uma edio especial, assim que que resolvido o impasse. CRIO Durante a quadra nazarena de 1964, 13 pessoas (do Par e do Maranho) venderam bales no Largo de Nazar, utilizando 28 cilindros de gs. Gastaram 228 latas de soda custica e 342 quilos de alumnio, enchendo 54.864 bales, comercializados entre os frequentadores do animado arraial do Crio (naquela poca, balo custava algum dinheiro). Nenhum acidente foi registrado, segundo o relatrio do responsvel pela scalizao da atividade, Amlcar Cabral, perito toxicologista da polcia. Em 10 anos nessa misso, ele registrava taxa zero de acidente. PROMOO Jair Rodrigues e Dalva de Oliveira animaram a festa organizada pelo colunista social Pierre Beltrand (Ubiratan de Aguiar) para proclamar Iza Neyde Moreira como a Miss Belm 1964 e apresentar as new faces daquele ano. Na Assembleia Paraense, com traje passeio completo. GUARAN S Alguma cidade do mesmo porte no Brasil teve mais marcas de refrigerantes do que Belm? Como a pergunta nunca foi feita, a resposta jamais foi dada. Mas essa uma questo na qual vale a pena pensar. Para estimular investigadores, publica-se nesta pgina anncios de algumas dessas marcas, em circulao entre a segunda metade da dcada de 50 e os anos 60. De algumas quase no h mais registro, como os trs produtos (guaran, kola e, naturalmente, a rainha das aguardentes de cana, preferida do Oiapoque ao Chu) da Fbrica Igarap-Mir, de Pereira & Arajo, que funcionava na Travessa So Francisco, bem no centro de Belm. To antigo e ainda competindo no mercado o Guaran Soberano, que continuou a ser produzido at recentemente, na rua Siqueira Mendes, a primeira aberta em Belm. Mereceu verso, como este, meio de p quebrado: Tua frmula o mgico segredo,/ que refrigera, d sade, anima,/ e quem te bebe vive forte e ledo. J o sucesso de pblico fez o Guarasuco deixar de ser estritamente refrigerante para ser uma expresso de gria. Algum era chamado de Guarasuco porque estava em todas. Para reforar a imagem, o refrigerante patrocina-MEMRIA PROPAGANDADas ferragens ao esporteEm plena expanso, a Importadora de Ferragens inaugurava sua lial da praa Amazonas, em 1970. O local est agora sem uso. A prefeitura ou o governo podiam desapropriar essa rea, enorme e estratgica, e transform-la num centro de esporte para os jovens das escolas pblicas, muito bem equipado, protegido e com uma equipe de professores e instrutores. Para proporcionar lazer e formar atletas em vrias modalidades esportivas.

PAGE 13

13va um campeonato colegial atravs da rdio e televiso (a Marajoara ainda era a nica). E tinha tambm o Sacy, que, talvez por se apresentar como guaran mesmo, se julgava do outro mundo. Um brinde aos nossos muitos guarans, neste clima que clama por um, desde imemoriais eras indgenas. SENADO A terrasse do Grande Hotel abrigou um dos maiores e mais antigos senadinhos de Belm, que l se reunia para jantares de confraternizao. O de comeo de ano, em janeiro de 1966, porm, foi no restaurante do aeroporto de Val-de-Cans, numa longa mesa decorada com ores em castiais. No cardpio, o previsvel l de peixe ao molho de camaro e l de carne com batatas francesas, tendo o pudim como sobremesa, tudo acompanhado de vinho e champanhe. O brinde foi puxado pelo advogado Joo Baptista Klautau de Arajo, seguindose uma homenagem ao presidente, Adriano Guimares, e breves palavras como seria de desejar do ento universitrio e corretor Eliezer Athias. Tambm estiveram nesse banquete os comerciantes Oswaldo Gurjo de Carvalho, Alrio Serruya e Armando Favacho Pereira, o industrial Ronaldo Romariz, o fazendeiro Oscar Bentes, o vereador Aldocir Cordeiro, os advogados Almrio Serruya e Geraldo Dantas, os universitrios Srgio Mattos e Srgio Couto, os secundaristas Jos Abrao Benchimol, Jos Alberto Ohana e Carlos Alberto Ohana, mais os funcionrios Francisco de Assis Farias e Rubens Oliveira. Todos democraticamente unidos pela amizade e o gosto pela palestra inteligente. Como tem que ser com senadores honorrios. DIRETA S As notas a seguir deviam ter sado na seo Em Poucas Linhas da coluna Reprter 70, de O Liberal de 1984. Mas Romulo Maiorana as vetou. Quando ia jogar a lauda fora, pedi para guard-la. Com 30 anos de atraso, divulgo-as para o leitor. Continuam a ter interesse. Alguns lances de paraenses na sesso de ontem do Congresso, quando de discusso das diretas, j. A deputada Lcia Viveiros fez declarao de votos a favor das diretas. ---Disse a deputada paraense que ia votar a favor das diretas porque o Governo deu sinal verde ao governador Jader Barbalho, no Par, para obter emprstimo de 60 milhes de dlares. ----Os deputados FOTOGRAFIACalouros em troteAssim foi o trote dos calouros do curso de direito de 1950 em frente sede da faculdade, ento unidade isolada de ensino superior (a UFPA s seria instalada oito anos depois). No local, est hoje a OAB do Par, no largo da Trindade. O prdio perdeu boa parte das suas linhas originais. Sebastio Curi, do PDS, e Ademir Andrade, do PMDB, trocaram um dilogo violento. Curi estava justicando-se sobre o porqu da sua posio contrria s diretas, j, quando foi aparteado pelo deputado Ademir Andrade, que censurou sua posio. ----Na rplica e da tribuna, Curi chamou seu colega de esquerdista de usque e grileiro de terras. A no prestou mais, com um bate-boca de baixssimo nvel, com interferncia da turma do deixa disso e suspenso ligeira dos trabalhos. ----Da galeria, dava-se para ver nitidamente trs paraenses que aplaudiam as colocaes de Ademir Andrade contra Curi. Eram os deputados Paulo Fonteles de Lima e Romero Ximenes e o lder sindical Raimundo Jinkings. ----A posio que a deputada Lcia Viveiros adotou em plenrio, na discusso das diretas, j, provocou a pronta reao da alta direo do Incra. Chegou a ser transpirado ontem tarde que o presidente do Incra, Sr. Paulo Yokota, telefonou para o Incra vrias vezes. Queria o apoio de Jlio Viveiros, o marido da deputada Lcia, para que tentasse persuadir a parlamentar no sentido de votar com o Governo, contra as diretas, j. ---Mas ontem tarde, o engenheiro Jlio Viveiros resolveu no ir ao Incra, porque tinha compromisso em sua fazenda em Curu e l no h telefone, tendo cado ilhado, no tendo recebido, assim, o telefonema do presidente do Incra, Sr. Paulo Yokota.

PAGE 14

14 JORNALISMO Nesta semana de dezembro, quase perto do lismo Bernardo Kucinsk chamado Cartas a Lula (o Conheci Bernardo primeiramente numa palesdirigente. Nos anos 80, com mais idade, em plena mente se sustenta, porque o Rei, por mais bondoso frias. Infelizmente, os conselheiros dos reis nos temna corda bamba e com grandes riscos para quem se o poder, tambm. lidade, claro, a segunda a melhor. Mas, como disse, tem, tambm, seus riscos e no para qualquer Benedito Carvalho Filho C ONFRARIA todas as noites, de domingo a domingo, a escadade um de seus membros, Fernando Lcio Coelho turbulentos companheiros surrealistas. atores e autores de teatro, turistas, sulistas, inte tambm porque de pronto se afastou da estreiteamigos nem parentes nem aderentes dentro das CART@S Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 6.053-020 Fone: (091) 3241-7626 lfpjor@uol.com.br jornal@amazonet.com.br www.jornalpessoal. com.br Luiz PintoEditor: Pinto Jornal Pessoal Isto sem contar um sem nmero de grandes lou das escadarias e seus integrantes se dispersae de trabalho. Os Tropicalistas, por exemplo, que dado dali, anos mais cedo, compulsados por dissenmuito unidos. po algum se sentaram na escadinha com a turma certeza que muito o teria honrado. Nem tampouco Trindade, logo ao chegar, fundamos tambm um clube de xadrez, mas em menos que sessenta dias bra e seus conselheiros, porque numa reunio sode ento fomos agregando pessoas. malmente passada em local distante da escadaria, sentar-se na escada com o pessoal da Confraria, Nazareno Tourinho, isto foi Lana caprina, at por Confraria. Outro ponto de que me obrigo a comentar Lima foi um desses que nasceu para ser muitas coi Joyce, Thomas Mann ou mesmo a Guimares

PAGE 15

15Rosa, mas publicou pequenas prolas perfeitas ele foi seu fundador e presidente. desprezou como ningum os bens materiais em faMarco Antnio Rodrigues de Oliveira PETROBR S ponderados naquilo respeitante a autoria, responassalto aos cofres pblicos. No estou defendenRodolfo Lisboa CerveiraSobre o que a campanha de O Liberal nada noticiaIAP at o fimNos ltimos quatro anos Tito Barata foi de uma pontualidade rarssima no Par e, em especial, no setor pblico: presenteou-me com as edies anuais promovidas pela gerncia de literatura do Instituto de Artes do Par, pela qual foi responsvel. Dessa maneira criou uma poltica consistente de publicao de livros e atualizao literria, provada em nmeros. Nesses quatro anos, a gerncia foi responsvel pela edio de 52% de todo o acervo do instituto desde 1999 quando foi criado efetivamente. Tito e equipe publicaram mais do que todas as gestes anteriores somadas. Um feito que podia ter garantido a perenidade do IAP, mas, fundido a outros rgos para dar lugar nova Fundao Cultural do Par, comandada por Dina Oliveira, atesta a fecundidade do IAP. Morreu gloriosamente. A venda da Celpa, em 1998, na administrao Almir Gabriel, do PSDB, constitui o mais nefando captulo da histria das privatizaes das concessionrias estaduais de energia eltrica. parte o valor irrisrio da transao e dvidas e suspeitas em torno da negociao, a troca de comando fez com que uma empresa mediana no setor, enquanto estatal, se transformasse na pior de todas, depois de privatizada. A pssima gesto pelo grupo Rede resultou na inviabilizao da Celpa e seu ingresso no regime de recuperao judicial como o nico meio de salvao. Quando isso ocorreu, em fevereiro de 2013, a empresa estava praticamente insolvente, quebrada. Sua dvida bruta era de 3,35 bilhes de reais. Seriam necessrios 15 anos de faturamento s para saldar a dvida lquida. O custo operacional real da companhia superava, em R$ 80 milhes ao ano, o custo que a Aneel (a agncia federal reguladora) reconhecia. As perdas no consumo eram de 35%, enquanto a Aneel s admitia reconhecer na tarifa 28%, acarretando novo prejuzo de R$ 80 milhes. O valor nal de perdas da Celpa em 2012 foi o maior j registrado no setor eltrico brasileiro. A inadimplncia real era de 4,12%, enquanto o limite da Aneel era de 0,9%. O ndice de satisfao da populao era de 44% para um padro nacional de 78%. A empresa deixava cada paraense sem luz durante quatro dias inteiros ao longo do ano. Depois de dois anos de processo, a Celpa saiu da recuperao judicial para buscar uma recuperao de fato e voltar a funcionar saudavelmente. Saiu a Rede e entrou o grupo Equatorial. Seu maior trunfo ento era ter mudado o perl e a atuao da concessionria estadual do vizinho Maranho. A Cemar era considerada caso perdido e agora a 3 do ranking nacional do setor eltrico e a 18 empresa preferida para o trabalho. O terceiro captulo da histria da Celpa, que o segundo controlador privado comeou a escrever, interessa diretamente aos dois milhes de consumidores do Par e ao prprio Estado. Os resultados ainda so modestos, mas parecem positivos, principalmente em virtude da situao agnica em que a deixou o grupo Rede. Houve melhora em todos os indicadores, embora, em relao a alguns, o avano deva provocar reaes contrrias, sobretudo no combate s altssimas perdas e ruinosa inadimplncia. Surpreendentemente, porm, o principal front no foi estabelecido na linha de frente, na relao entre o distribuidor de energia e os consumidores, entre o devedor e seus credores, ou viceversa, mas numa guerra de imagem. A Celpa est menos ruim sob a nova direo, mas ainda est batante ruim. O melhor caminho para acompanhar sua recuperao, que ser inevitavelmente gradativa, e impor-lhe as exigncias corretas tno seguir o autista de Hammelin encastelado no seu gabinete luxuoso atrs do bosque Rodrigues Alves. exigir transparncia, cobrar explicaes, melhores servios, respeito, cordialidade e honestidade do concessionrio, recorrendo s instituies de controle e scalizao, quando necessrio. O governador Simo Jatene foi um dos atores da privatizao da Celpa, em 1998, como todo-poderoso secretrio de Almir Gabriel. Sua biograa est maculada por esse captulo, que levou criao da pior empresa estadual do setor eltrico brasileiro. O perigoso estgio alcanado pela campanha do grupo Liberal impe ao governador, como porta-voz, mediador e lder da sociedade, que opte: ou cresce ou se apequene de vez, deixando que uma questo grave e vital vire moeda de troca em circuito fechado. Os paraenses, j cticos ou desesperanados, sonham com uma boa surpresa. Ela podia vir na inaugurao do novo mandato do tucano.

PAGE 16

Ameaa ao Tapajs, o mais belo dos riosTnhamos a resposta na ponta da lngua quando algum perguntava qual o mais belo rio do mundo: o Tapajs. Essa ainda uma crena slida entre os habitantes do grande vale, capitaneado, a partir da sua foz, pela cidade de Santarm. Era tambm a convico de Joaquim Rodrigues Lopes, que expe em Mundurucnia, o livro que escreveu e nunca conseguiu publicar. Seus filhos me deram, anos atrs, a verso original manuscrita. Eu a li e guardei. Fui busc-la quando me veio a ideia de apresentar aos habitantes das outras reas do Par e do Brasil uma descrio ao mesmo tempo ntima, apaixonada e exata do nosso rio, no qual fui banhado quando ainda era beb, para que suas guas cristalinas penetrassem no meu corpo e se transformassem em lago sereno na minha alma, onde esto at hoje e me acompanharo at o fim o meu, no o do Tapajs. O rio precisa continuar a viver em sua beleza e pujana, condies ameaadas por um plano obtuso de transform-lo em fonte de energia, para isso represando suas guas e deformando-as. O autor deste texto, por profisso engenheiro agrnomo, mas, acima de tudo, um humanista singelo e sbio, foi meu padrinho de batismo. Papai o escolheu por t-lo na conta de o homem de maior sabedoria que ele conhecia. Talvez ele pudesse iluminar a mente do seu afilhado. E, ps-morte, a iluminou mesmo, com o patrimnio de conhecimento que gerou e deixou para as geraes seguintes. Como, infelizmente, pouco do que ele escreveu foi publicado, achei que um pequeno trecho de Mundurucnia, em que ele penetra nas entranhas do rio e o descreve solidariamente, talvez ajude os paraenses a se interessarem pela sorte do Tapajs diante dos projetados aproveitamentos hidreltricos que o governo federal pretende lhes impor. Mais cuidado e mais respeito com esse rio. Pois ele o mais belo da Terra.Da juno do rio Juruena, que nasce na serra dos Parecis, no Estado de Mato Grosso, com o rio So Manuel, ou Teles Pires, que nasce da conuncia do rio Paranatinga, na altura da Cachoeira dos ndios, no mesmo Estado, tem a sua origem, a partir da barra do So Manuel, um dos mais soberbos rios do Brasil e do mundo o Tapajs. Dessa forma o majestoso rio no apenas existe dentro da opulenta natureza que o contm, como acontece com muitos outros, que egoisticamente nascem por si prprios, em uma determinada regio, a dominam em toda a sua extenso e lanam-se solitariamente em outros maiores, ou, ento, ao mar. O Tapajs um rio que se originas da existncia de outros no menos soberbos e lindos, com os quais passa a coexistir at o nal da sua declinao geogrca, que contribuir para a grandeza do maior rio do mundo o Amazonas. O seu curso total de 1.240 quilmetros, aproximadamente, e os seus principais auentes so, pela margem esquerda, Cururu, Tropas, Crepori, Jamanxim e Crepori, e, pela esquerda, Au, Anuri e Arapiuns. Desde o local da sua formao at um pouco acima da vila de So Luiz do Tapajs, no municpio de Itaituba, o seu curso interrompido por diversas quedas e cachoeiras majestosas e lindas. Parece que a natureza, ao criar tais obstculos no mencionado trecho, teve por objetivo retardar, pelo maior espao de tempo possvel, o domnio do homem sobre o imenso potencial de riquezas nele existentes, a m de que o mesmo no viesse a ser dilapidado antecipadamente a um processo de explorao racional em proveito de muitos. Enquanto a borracha no havia despertado nenhum interesse econmico nos nativos da regio, as seringueiras ali disseminadas pela mata eram guardadas pelos referidos acidentes geogrcos, para uma utilizao futura que viria marcar uma poca de prosperidade para os habitantes da regio e de grandes benefcios para toda a humanidade. Enquanto isso, em outras regies mais acessveis, essas mesmas rvores eram destrudas pela ignorncia do homem a respeito do seu valor econmico para a implantao de uma emprica e incipiente agricultura de subsistncia. A importncia da seringueira como riqueza escapava, pois, do conhecimento dos nativos da regio, que utilizavam o seu ltex exclusivamente para a impermeabilizao de tecidos, preparo de sapatos rsticos, bolsas para transporte de lquidos, sacos para depsitos de roupas e outros pertences, e bolas para diverses esportivas. A partir da vila de So Luiz do Tapajs para jusante, o aspecto do rio se modica totalmente. Desaparecem por completo as quedas e cachoeiras e o leito se vai alargando cada vez mais, at alcanar, em frente vila de Alter do Cho, situada a trs horas de barco a motor, a partir de Santarm, a largura de vinte e quatro quilmetros, para, em seguida, comprimir-se at trs quilmetros de largura, aproximadamente, na foz, percurso esse compreendido entre a referida cidade e a Ponta Negra. Nesse percurso existem vrias ilhas cobertas por vegetaes arbrea e arbustiva, prprias de vrzeas inundveis, e lagos inferiores que abrigam muitas espcies da fauna aqutica, algumas das quais em vias de extino, em consequncia da caa predatria que h mais de sculo e meio vem sendo praticado pelos nativos da regio. Dentre elas as mais atingidas so a tartaruga, o peixe-boi, a lontra, a ariranha e o jacar. As guas so lmpidas em todas as pocas do ano, permitindo a visibilidade perfeita do fundo do leito s proximidades das margens, at mesmo a profundidades relativamente grandes, durante os momentos de intensa radiao solar, quando a colorao oscila entre o verde junto s praias e o azul nos lugares mais profundos. Em alguns trechos do rio, no perodo da vazante, existem extensas praias formadas por areia muito alva, que estabelecem o limite entre a gua e a mata ribeirinha. Essas praias desaparecem completamente no perodo da enchente, quando a gua sobe e se encosta mata das margens altas ou ento inunda vrzeas e ilhas baixas. H, assim, um verdadeiro contraste entre ambos os perodos dentro de um cenrio de grandeza e harmonia extasiantes.