Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00366


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Full Text





Pessoal


DENJNCIA


Justiga do Para acusada

Um cidaddo de 86 anos acusa o poderjudicidrio do Estado de acobertar o roubo de
um carro para proteger o sogro e o cunhado de um desembargador A denincia,
encaminhada ao CNJ, atinge tres desembargadores, seisjuizes e uma promotora, alem
da policia. E um libelo contra o poder public do Pard.


Mve integrantes do poder judi-
ciirio do Pard, incluindo tries
IN desembargadores e seis jufzes
(dos quais dois jA foram promovidos ao
desembargo), e uma promotora pdblica es-
tadual, foram denunciados ao Conselho
National de Justiga, na semana passada.
Ophir Alves da Silva os acusa de agirem
mancomunados para proteger e favore-
cer o sogro e o cunhado do desembarga-
dor Ricardo Nunes Ferreira, que tamb6m
6 president do Tribunal Regional Eleito-
ral, a manter em seu poder uma camione-


te que ele e seu filho furtaram, de propri-
edade do filho do reclamante, Luiz Gon-
zaga de Oliveira da Silva.
Mesmo com todas as provas junta-
das aos autos de dois processes pe-
nal e cfvel que tramitam ha quase 10
anos no foro de Bel6m, atestando os
m6todos ilegais adotados por pai e filho
para se apropriar do bem, o denuncian-
te mostra, numa reclamaqao com 77
pfginas e tr8s volumosos anexos, que a
justiqa do Pard praticou os maiores ab-
surdos atW arquivar a agao cfvel e pro-


telar o process penal, ainda na fase de
citag~o, tres anos depois da dendncia.
Ophir da Silva acusa os magistrados
de, ao deixarem "crescer e prosperar
os ladr6es", contribufrem para que a
image do judiciario paraense se tome
"a pior possivel", cabendo ao CNJ "lim-
pa-la ante os olhos da sociedade, pois o
Poder Judiciario 6 national, e tudo o que
aqui de podre se faz repercute em des-
prestfgio da magistratura brasileira".
Pede a aplicaqgo de diversas puniq6es
CONTiii i.A A &s


CIAD SUBERS a lm a


j FIM DO B'A' ORAHIHO






cowNdUACAO DaCaPA
aos acusados, inclusive a "pena" (que
aspeia no original) mais grave, que 6 a
aposentadoria compuls6ria, corn os pro-
ventos proporcionais.
A hist6ria comeqou em 23 de agosto
de 2000, quando o filho do denunciante
arrematou, em leilao da Justiga do Tra-
balho, uma camionete D-20, corn seis
anos de fabricagao, por oito mil reais.
Apesar de ter recebido no dia seguinte
a carta de arrematagio, s6 conseguiu
que o official de justiga Ihe repassasse o
vefculo sete meses depois. Durante esse
perfodo, o carro continuou a ser usado
pelo cidaddo que ajustiga executou por
dfvida trabalhista.
Luiz Gonzaga circulou durante ape-
nas um m8s corn o carro. Certa noite,
quando dirigia por uma das vias pdbli-
cas de Bel6m, "foi trancado por outro
veiculo e obrigado a parar". Alberto
Vidigal Tavares, "advogado que conhe-
cia de vista da Justiga do Trabalho",
contando corn a cobertura de "outros
desconhecidos", obrigou-o "a assinar um
recibo em branco e, em seguida, rou-
bou-lhe o veiculo".
Seis dias depois, com a confirma-
9ao da identidade do agressor, Gon-
zaga fez um boletim de ocorrencia na
delegacia de policia do Jurunas, mas
nenhuma providencia foi tomada para
Ihe restituir o autom6vel. Ao consta-
tar a lentidao da polfcia, Ophir, como
procurador do filho, ajuizou uma agao
de reintegragao de posse do bem con-
tra Alberto Vidigal e seu pai, Alberto
Otacflio Valente Tavares, que viria
a saber depois eram cunhado e so-
gro do future desembargador Ricar-
do Nunes, atual president do TRE.
Sem advogado, recorreu A Defenso-
ria Pdiblica do Estado.
Seis meses depois a juiza Elizabete
Lima Mendes, da 171 vara cfvel da ca-
pital, deferiu a liminar de reintegragio,
mas na semana seguinte revogou a
media, corn base nas provas juntadas
pelos contestants da acqo. Ophir en-
tao a procurou para entregar a chave
do carro. Ficou surpreso quando a juf-
za, ao chegar ao f6rum, o convidou a
acompanha-la e se dirigiu ao gabinete
do entao juiz Ricardo Nunes.
Como a porta ficou entreaberta, o
denunciante disse ter ouvido o diilogo
entire os dois magistrados. Ajuiza quis
entregar as chaves a Ricardo, mas o
juiz a instruiu a ficar com as chaves,
enquanto ligava para o cunhado, avisan-


do-o para ir ao f6rum e procurar Eliza-
bete para receber de volta o carro.
Como ajufza revogara a liminar sob
a alegagao de que havia provas da trans-
ferencia da propriedade da camionete,
Ophir pediu ao Departamento Estadual
de Transito que investigasse a documen-
tacao apresentada por pai e filho. 0
Detran atestou que nao tinha havido
qualquer transferencia de propriedade,
sendo falsos os documents. S6 entao,
um ano e meio depois da reclamacqo, o
inqu6rito policial foi instaurado. Afalsi-
dade estava provada por perfcia do Ins-
tituto Renato Chaves.

M esmo com a falsifi-
cagao dos docu-
mentos de transfe-
reneia, os dois Albertos ti-
nhamn um problema: a propri-
edade do veiculo resultara do
uma arrematacao judicial.
Eles tentaram conseguir um novo auto
de arrematagao, a pretexto de que Luiz
Gonzaga estava em local incerto e nao
sabido, por isso nao podendo lhes en-
tregar o document. 0 juiz da vara tra-
balhista de Ananindeua se recusou a de-
ferir o pedido: os atos negociais entire o
peticionante e o arrematante "nao po-
diam proporcionar qualquer onus ajus-
tiga do trabalho", decidiu.
Mesmo com a negative, os dois aca-
baram conseguindo uma via original do
auto de arremataqo. Nio pelo cami-
nho regular, conforme atestou a jufza
Paula Maria Soares: "nao consta nos
autos a entrega do original do Auto de
Arrematacgo para outra pessoa al6m do
arrematante, Sr. Luiz Gonzaga Oliveira
da Silva, at6 porque este nao 6 um pro-
cedimento correto", declarou ela. Se
Gonzaga continuava com a posse do seu
document, de onde fora extraido o auto
juntado pelos dois Albertos?
Do process ou do arquivo do juiza-
do. Obviamente, algu6m com acesso A
vara subtraira o document e o entre-
gara de forma ilicita. Ophir pediu a ins-
tauraqao de inqu6rito para a apuragdo
desse fato. Como nao foi atendido at6
hoje, apesar de reiterados apelos, recor-
reu A Defensoria Pdblica da Unilo, que
vai acionar a Justiqa do Trabalho.
Em novembro de 2002 o delegado
de policia Jorge OtAvio Novais de Sou-
za encerrou seu inqudrito. Considerou
procedente a dendncia de Luiz Gonza-
ga "de que as assinaturas apostas no
verso da DUT em questao e na Procu-


raqao outorgando poderes para MArcio
[o despachante Mdrcio Andrd da Sil-
va, que intermnnediou a fraude e jd ti-
nha antecedentes criminals corn esse
mesmo tipo de delito], sdo realmente
falsas". Indiciou os tr8s em crime de
falsidade ideol6gica, "esquecendo-se,
por6m, de que a falsificagqo das assi-
naturas do filho do reclamante na DUT
e na procuraqio outorgada ao despa-
chante se deu para acobertar os crimes
de roubo do veiculo e de falsidade ideo-
l6gica do recibo de compra e venda",
disse Ophir na longa e indignada repre-
sentagio ao CNJ.
De qualquer maneira, o inqu6rito
chegou A justiqa e foi distribuido para a
4a vara criminal de Bel6m. Mas a pro-
motora Ociralva de Souza Farias s6 ofe-
receu a denincia quase seis anos de-
pois, em setembro de 2008. "Por pouco
nao se verificou a prescriqao do crime
pela pena em abstrato", observou Ophir.
Passados dois anos e meio, por6m,
os r6us ainda nem foram citados. 0 ofi-
cial de justiqa alega nao encontrar Al-
berto Vidigal Tavares e sua advogada,
Aurora Lopes, embora ambos atuem
como procuradores na aqao civel de
busca e apreensao, circulando pelo f6-
rum de Bel6m. Por causa desse proce-
dimento, Ophir garante: "Se o CNJ nao
agir logo, a aqao criminal vai ser extinta
em razdo da prescrigao".
A a9ao de busca e apreensao do
vefculo parecia que teria melhor rumo.
Em 2003, diante das provas dos autos,
o juiz Jonas da Conceiqao Silva profe-
riu sentenga de m6rito em favor do fi-
lho do reclamante. Em janeiro do ano
seguinte o veiculo foi devolvido a Gon-
zaga. A decisao transitou em julgado,
mas a nova advogada constitufda pe-
los Tavares pediu a republicaqao do ato
e a devoluqao do prazo porque a rese-
nha nao inclufra o nome do represen-
tante dos r6us.
0 pedido foi atendido. Imediatamen-
te conseguiram suspender os efeitos da
sentenga atrav6s de mandado de segu-
ranga, concedido em liminar pela de-
sembargadora Izabel Benone. Ela de-
terminou que o vefculo fosse recolhido
ao dep6sito pdblico at6 a definiqao de
m6rito da questao.
Ao inv6s de serem contatados por
num official dejusti9a, Ophir e seu filho
foram surpreendidos pelos dois Alber-
tos. Eles repetiram o gesto anterior, se
apossando da camionete, desta vez con-
tando nao apenas com seus segurangas,


l I


I


. 2'QUINZENA


Jorna Pessoal ABRIL 1






mas com o auxflio de uma nova advo-
gada, Ana Carla Murrieta de Oliveira,
filha da desembargadora Ana Sereni
Murrieta, "bem conhecida do CNJ por
atos de corrupgAo", observa Ophir.
Murrieta foi aposentada compulsoria-
mente por ter-se apropriado de dinhei-
ro depositado em contas da justiga em
fun9fo de litigios sob suajurisdigio.
Ophir comunicou A desembargado-
ra que os r6us "fizeram a busca e apre-
enslo, usurpando fungao pdblica, em
proveito pr6prio". Praticaram various
crimes ao se apossarem do carro de
forma violent, sem mandado, e cons-
trangendo pai e filho dentro de sua
casa, enquanto fugiam, aproveitando-
se da idade avangada de Ophir e de
sua limitaqio, depois de ter feito ci-
rurgia cardiac. Os dois Tavares con-
tinuaram a circular corn o carro, sem
nunca o recolherem ao dep6sito pdbli-
co, embora tivessem se comprometi-
do corn o official de justiga a cumprir a
ordem judicial.
Ophir representou contra os advo-
gados Alberto Vidigal e Ana Murrieta
ao entao president estadual (hoje, na-
cional) da Ordem dos Advogados,
Ophir Cavalcante, que o tratou, "a prin-
cipio, corn cortesia". Procurou-o depois
vdrias vezes, "mas nunca foi atendido
por ele, como ele havia prometido". A
OAB do Pard concluiu "pela inexisten-
cia de elements na dendncia que com-
provem infragio 6tico-disciplinar".
Ophir da Silva continuou a sustentar sua
posigdo: os dois advogados "nio s6
cometeram desvios 6ticos, mas tambem
ilicitos penais: furto, calinia, usurpagio
de funcio pdblica e coaqio no curso
do processo. Mas nAo foi atendido.
"JA no desespero", o chefe da De-
fensoria Puiblica de Entrancia Especi-
al, Jdlio De Masi, responsAvel pela cau-
sa, denunciou a conduta criminosa dos
dois advogados ao entao president do
Tribunal de Justiga do Estado. 0 de-
sembargador Milton Nobre (atualmen-
te integrante do CNJ) responded que a
presid8ncia do TJE nao tinha compe-
tencia para tender o pedido, remeten-
do o caso ao jufzo da 17" vara cfvel.
O process da busca e apreensao
prosseguiu na sua tramitaqao aciden-
tada. Atendendo a um apelo dos dois
Albertos, que requereram a nulidade da
sentenqa, ajuiza MariaAntoninaAthay-
de do Carmo desconstituiu a decislo
do juiz Jonas para que os r6us pudes-
sem se defender das acusa6es, o que


eles acabaram nio fazendo. Nio che-
garam nem a apresentar testemunhas.
A unica, indicada pelos autores, s6
foi ouvida como informant porque a
juiza nio deixou que prestasse juramen-
to, alegando que seria amiga das par-
tes. Valendo-se de algumas contradi-
96es do depoimento dessa testemunha
(mas nio das contradig6es dos reus) e
ignorando as provas oficiais que existi-
am nos autos, a jufza considerou im-
procedente a agao de busca e apreen-
sao, "por falta de provas".
0 process subiu para o tribunal
apreciar o recurso de Luiz Gonzaga
contra a decision. Dois desembargado-
res se declararam suspeitos, por moti-
vo de foro fntimo, obrigando a Defen-
soria Pdblica a peticionar ao vice-pre-
sidente do TJE para que o feito fosse
redistribuido "a um magistrado que pu-
desse realmente julgA-lo".
A desembargadora Carmencin Ca-
valcante devia ter assumido a causa, mas
observou que a desembargadora Luzia
Nadja Nascimento estava prevent para
receber o process, por ter relatado o
ac6rdio do mandado de seguranga.
Como Luzia safra da 3" para a 5" cama-
ra civel isolada, pela norma regimental
do TJE os autos deviam ser entregues A
magistrada que a substitufra.
Ao inves disso, a desembargadora
Luzia Nadja recebeu o process e, "corn
violag o ao principio do devido proces-
so legal", em abril do ano passado pro-
feriu sentenga monocratica (individual),
extinguindo a apelagdo de Luiz Gonza-
ga sem julgamento de m6rito, sob a ale-
gaqao de extemporaneidade do recurso
da Defensoria Puiblica.
Nos autos constava uma certidio da
diretoria de secretaria da 17' vara civel
atestando a tempestividade do recurso
e, por isso, o recebendo. Mas a desem-
bargadora argumentou que havia uma
data (28 de maio) na papeleta do proto-
colo do recurso, outra (tI de abril) na
certidao de intimagao pessoal do defen-
sor pdblico e uma terceira (24 de abril)
na juntada do mandado aos autos. Con-
cluiu de imediato que estava evidencee
a extemporaneidade do recurso", que,
assim, se tornou inadmissivel, por estar
fora do prazo legal.
No entanto, nos pr6prios autos estA
anotado que o mandado foi juntado em
27 de abril e nio no dia 24, como certifi-
cou a diretora de secretaria, por erro de
redagao, do qual nao se apercebeu, tan-
to que atestou que o recurso era tem-


pestivo e o recebeu. Argumenta Ophir
que, diante da ddvida, a desembarga-
dora Nadja deveria ter pelo menos con-
vertido ojulgamento em diligencia para
que a diretora de secretaria se pronun-
ciasse, "e naojulgar na incerteza, como
o fez". Se verificasse a prova contida
nos autos, constataria que o dia 27 foi
uma sexta-feira e o prazo s6 comegou
a contar na segunda-feira, 30, sendo
tempestivo o recurso.
A decisao individual da desembar-
gadora Nadja nao foi contestada por-
que o advogado Bruno Vasconcelos
havia pedido vista nos autos e teve seu
pedido deferido pela desembargadora,
sem o conhecimento do filho do recla-
mante ao CNJ. JA A Defensoria Publi-
ca, que vinha atuando no process, era
expedido "um offcio sem nexo";
Bruno nio fez carga do process e
a Defensoria, julgando que Gonzaga
constitufra novo advogado, deixou de se
manifestar. Bruno havia sido indicado
como advogado apenas no process
penal, isso porque a Defensoria se re-
cusou a patrocinar Gonzaga por nao
atuar no process penal no p61o ativo,
funqao desempenhada pelo Minist6rio
Pdblico. Assim, Gonzaga perdeu a cau-
sa cfvel, que transitou em julgado.
Ophir Souza invested contra o atual
president do TRE, acusando-o de ter-
se valido dos seus poderes para prote-
ger Alberto Vidigal antes mesmo que a
questio chegasse ao judicidrio: "A visi-
ta do juiz Ricardo Ferreira Nunes ao
delegado de polfcia encarregado de apu-
rar os fatos teve o prop6sito de barrar a
instauraqao do inqudrito e impedir a re-
alizaqao das investigag6es", garante. A
policia nada fez ate receber o inqu6rito
do Detran, obrigando-a a processi-lo,
"o que indica que realmente o juiz Ri-
cardo Ferreira Nunes esteve na Polfcia
e convenceu o delegado a abafar o
caso", relata Ophir ao CNJ.
Diz que o desembargador Ricardo
Nunes "influenciou os seus colegas ju-
fzes para que decidissem o litigio so-
bre a propriedade do veiculo em favor
dos seus parentss. A primeira medi-
da judicial foi em favor de Gonzaga,
garante seu pai, porque a juiza a con-
cedeu sem ouvir a parte contruria. Mas
a liminar caiu uma semana depois,
quando os dois Albertos, "ap6s toma-
rem ci8ncia do process, maquinaram
juntamente corn o juiz Ricardo Ferrei-
ra Nunes uma forma ilicita de recupe-
rarem a posse do veiculo".


2QOUINZENA Jornal Pessoal


ABRIL DE 2011








Helio Gueiros: o (iltimo


Corn a morte de H61io Mota Guei-
ros, no dia 15, aos 85 anos de idade,
em Bel6m, de insufici8ncia renal, fe-
cha-se a sepultura derradeira no ce-
mit6rio do baratismo no ParA. Nenhum
outro baratista foi tdo long na rota do
poder, exceto o chefe do maior agru-
pamento politico que se formou no Para
republican.
0 coronel (general na reserve do
Ex6rcito) Joaquim de Magalhdes Car-
doso Barata foi o eixo da dispute pelo
poder no Pard de 1930, quando chegou
como tenente revolucionario, a 1959,
quando morreu, de cancer, aos 71 anos,
no exercicio do cargo de governador do
Estado (pela terceira vez, a primeira
atrav6s de eleigdo direta, as outras na
condiqgo de interventor federal).
Durante esse period, permaneceu
com o mando direto em suas mdos por
11 anos. Nos outros moments usou de
todos os meios para voltar a ser o
"Caga-Raios Palacio", nome literArio
que lhe deu Haroldo Maranhao, neto
do seu maior inimigo, o jornalista Pau-
lo Maranhao, no romance Rio de Rai-
vas, fonte preciosa de informaqao
(al6m de prazer), A falta de uma biblio-
grafia A altura dessa saga meio tra-
g6dia, meio farsa.
H6lio Gueiros ensaiava se tornar
advogado, aos 29 anos, dando uso ao
diploma que obteve na Faculdade de


Direito do Ceard, onde nasceu, quando
Barata o convocou para uma mission.
Sob a aparancia de iniciaqio em carrei-
ra auxiliar do poder judicidrio, era aci-
ma de tudo incumb8ncia political: ser
promoter ptiblico em Santar6m.
Como muitosjovens de hoje, Guei-
ros nao queria ir para o interior (nun-
ca quis, at6 o fim da vida). Preferia a
vida citadina. Mas seu pai, o pastor
protestante Antonio Teixeira Gueiros,
o advertiu: recusar um "pedido" do
coronel Barata era candidatar-se ao
seu ostracismo pessoal; nunca mais
seria lembrado.
Embora tenha sido o autor de uma
das frases mais tristemente c61lebres
da hist6ria do Pard ("lei 6 potoca"), o
entio governador constitutional cer-
cava-se de advogados e bachar6is.
Mandava-os para a policia e as co-
marcas do interior, dois dos seus prin-
cipais instruments para impor suas
decisoes e imobilizar os adversarios e
inimigos, alguns dos quais, como Pau-
lo Maranhio, dono da Folha do Nor-
te, eram implaciveis.
0 lugar escolhido para Gueiros era
o segundo col6gio eleitoral e o segun-
do p6lo economic do Estado (ji per-
deu ambas as posiq6es), mas ele, mal-
acomodado nas vestes talares, demo-
raria pouco tempo em Santar6m. At6
fincou raizes uma das fontes do anti-


baratismo, o notivel advogado Alarico
Barata, que transferiu esse patrimonio
ao filho, o advogado beletrista Ruy Gui-
Iherme Paranatinga Barata, poeta des-
de o nome.
Logo H61io Gueiros estava de volta
a Bel6m e para cumprir uma tarefa
ainda mais important, ou pelo menos
mais ajustada as suas qualidades: assu-
mir a chefia de 0 Liberal, um journal
que os amigos do rei compraram, coti-
zados, e transferiram para o nome do
soba, tornando-se seu dnico bem patri-
monial quando morreu, jA sem as fero-
zes inimizades de antes.
Era para que Barata pudesse res-
ponder a outros raios, disparados na
sua direqio do alto do Folharal por
Palma Cavalao. Era o outro nome li-
terdrio que Haroldo Maranhao encon-
trou para o temido avo nas leituras de
Eqa de Queiroz, um dos clAssicos por-
tugueses que estavam na origem da
boa escrita dos personagens belenen-
ses dessa 6poca, uma 6poca que, pelo
padrdo atual da educacqo brasileira,
ndo volta nunca mais. Antes, ofendia-
se em linguagem casta. Hoje, a lin-
guagem 6 a pr6pria ofensa, indepen-
dentemente daquilo a que sirva.
0 jornalismo foi a seara na qual
H61io se sentia mais intimamente rea-
lizado. Escrevia com facilidade e gra-
9a, com humor e ironia, inteligivel a 10


O alvo das maiores critics 6 a juiza
Maria Antonina do Carmo, que negou a
agao de busca e apreensdo do carro por
falta de provas. Ophir, por6m, diz que
"todas as provas do mundo foram apre-
sentadas no process demonstrando o
roubo do vefculo, a fraude no recibo de
compra e venda, a falsificacqo das as-
sinaturas do filho do reclamante, a fal-
sidade ideol6gica de Alberto Otacilio
Valente Tavares no requerimento apre-
sentado ao juizo do Trabalho de Ana-
nindeua, etc.".
Ophir pede ao CNJ que puna exem-
plarmente ajuiza com a pena maior pre-
vista, que 6 a aposentadoria compul-
s6ria. E a mesma puniqAo que requer
para o desembargador Ricardo Ferreira
Nunes, que tambdm deveria responder
a inqu6rito policial "para apurar os atos
criminosos que ele teria cometido, "no


intuito de auxiliar o seu sogro e cunha-
do a se livrarem da responsabilidade
penal pelo roubo do veiculo do filho do
reclamante e a tornar seguro o provei-
to do crime, isto 6, a posse do veiculo
roubado".
Aposentadoria compuls6ria solicita-
da tamb6m para as desembargadoras
Maria de Nazar6 Gouveia dos Santos,
Maria de Nazard Saavedra Guimaraes
(que eram juizas quando atuaram no
process) e Luzia Nadja Guimaraes,
mais os juizes Altemar da Silva Paes e
Elizabete Lima Mendes, por ndo reu-
nirem "condiq6es morais para o exer-
cicio do cargo".
Quanto aos desembargadores Mil-
ton Nobre, entao president do TJE, e
Maria Izabel de Oliveira Benone, ja
aposentada, acusa-os de terem deixado
de comunicar A policia os crimes prati-


cados pelos advogados Alberto Vidigal
Tavares e Ana Carla Murrieta, mesmo
sendo informados dos fatos. Ao ignora-
rem a comunicaqio, "se omitiram no
cumprimento do dever para favorece-
rem, ou pelo menos para nio prejudica-
rem, os parents do colega magistrado
Ricardo Ferreira Nunes, e, por isso, tam-
b6m incorrem em ato incompativel com
a dignidade e honra da magistratura".
Diz o reclamante que por causa des-
ses magistrados, ao deixarem "crescer
e prosperarem os ladr6es, que a ima-
gem do judiciArio paraense 6 a pior pos-
sivel, e cabe ao CNJ limpi-la ante os
olhos da sociedade, pois o Poder Judici-
Ario 6 national, e tudo o que aqui de
podre se faz, repercute em desprestigio
da magistratura brasileira".
A palavra agora estA com o Conse-
Iho Nacional de Justiga. Mais uma vez.


Jfornal Pessoal ABRIL DE 2011 2aQUINZENA







suspiro do baratismo


qualquer um e fazendo sua a voz das
ruas (titulo, alias, de coluna criada na
ddcada de 50 para abrigar as verrinas
do velho MaranhAo na primeira pAgi-
na da sua Folha Vespertina). Guei-
ros foi de uma geraqAo de jornalistas
para os quais o estilo importava mais
do que o fato. JA a versdo, porque
acrescida de todos os components
possfveis para a seduqgo do leitor,
devia prevalecer sobre a verdade, em
geral prosaica, pedestre, cansativa de
procurar.
Entendia-se esse tipo de jornalis-
mo numa era de lutas polifticas violen-
tas e em fun9Ao de uma caracteristi-
ca marcante no Para: a busca inces-
sante pelo poder plebiscitArio. A quem
nao lia pela cartilha do baratismo s6
restava se tornar antibaratista. Como
nao havia duelo de id6ias, justaposi-
9ao de programs e confront de vi-
s6es do mundo, o que contava eram
os instruments de poder, os mecanis-
mos para chegar ao topo e, uma vez
atingida essa posiqgo, favorecer os
parents, amigos e correligionArios.
Para que um grupo pudesse subir, ou-
tro tinha que ser apeado.
Aluta politiea sempre
foi uma dissipaqio de
energies e oportunida-
des no ParS. Nao surpreendo
que o modo do erescimento
do Estado se assemelhe ao do
rabo de cavalo: quanto mats
cresee, mais vai param baixo.
Os donos do poder se dedicam a sa-
quear o patrim6nio pdblico e a destruir
os que se antepuserem em seu cami-
nho, reprimindo ou bloqueando no nas-
cedouro as novas liderangas. Com mai-
or ou menor sofisticaqao, sempre foi
assim. Continue assim.
Durante os nove anos em que pas-
sou pela mdquina do judicidrio, posta a
funcionar para abrir as excegoes da lei
em favor dos amigos, da policia (por via
do pai, o pastor Teixeira Gueiros, uma
estampa de respeitabilidade indispensi-
vel para carimbar as arbitrariedades dos
baratistas) e da imprensa (onde se ades-
trou na polmica e na panfletagem),
H1lio cultivou os elements que Ihe iri-
am ser vitais no novo caminho que as-
sumiria, aos 33 anos: a polftica.


Embora com o apoio do ainda po-
deroso padrinho, ele ficou na supl8n-
cia de deputado estadual em 1958, pelo
dominador PSD (Partido Social Demo-
critico). Apenas na eleicqo seguinte,
de 1962, conseguiu integrar a hegem6-
nica bancada pessedista. Destacou-se
como orador, gragas ao seu raciocinio
ripido e o tom zombeteiro nas expres-
s6es, tornadas ainda mais caricatas
pelo timbre agudissimo da sua voz (so-
bre o qual seu filho, Hl1io Gueiros Ji-
nior, daria um testemunho histri6nico
no livro que escreveu sobre a campa-
nha de 1994 como candidate a vice-
governador, num lance de oportunismo
pelo qual Almir Gabriel pagaria caro
quando o Gueiros menor o substituiu
na interinidade). E assim se tornou If-
der da bancada.
Foi preso em conseqdiencia do golpe
military que dep6s o president Jodo
Goulart, em 1964, apoiado nacionalmen-
te pelo PSD em alianqa corn o PTB
getulista. Mas nao foi atingido por qual-
quer outra puniqAo, talvez pelo seu com-
portamento ambfguo na Assembl6ia
Legislative. Nao atacava frontalmente
os novos donos do poder e at6 apoiou a
cassaq~o do mandate do deputado Be-
nedito Monteiro, acusado de subverso.
Nessa 6poca H61io jA contava com um
cart6rio judicial, que Barata Ihe conce-
deu, e que viria a ser sua principal fonte
de sobrevivencia durante certo tempo,
sobretudo durante as vacas magras da
ditadura military.
Em 1965 foi candidate a vice-gover-
nador na chapa do marechal Zacarias
de AssunqAo, que impusera a maior
derrota ao baratismo, em 1950, quando
a oposicqo se uniu (como nao mais vol-
taria a repetir) em torno da Coligaqco
DemocrAtica Paraense (CDP) e nao
permitiu o retorno de Barata ao maior
cargo pdblico do Estado. Sempre utili-
zando a bandeira do antibaratismo, o mi-
litar se elegeria senador ao fim do seu
mandate de governador. Mas nao se
vexou em juntar-se aos inimigos do pas-
sado para tentar novamente o governor,
em 1965, na u1tima eleicqo para esse
cargo pelos pr6ximos 17 anos.
0 military vencedor, o coronel Jarbas
Passarinho, conseguiu dar ao seu can-
didato, o major Alacid Nunes, a quem
nomeara prefeito bi6nico de Beldm,


uma vit6ria arrasadora sobre o ex6rcito
Brancaleone de baratistas e antibara-
tistas. Mas Hl1io cumpriu seu mandate
de deputado estadual at6 o fim. Em 1967
assumiu como deputado federal, eleito
pelo MDB, o partido da oposicgo con-
sentida no regime bipartidario imposto
pelos militares com o fim da IV Repd-
blica, iniciadaem 1946.
H61io sobreviveu at6 o Ato Institu-
cional n 5, que p8s fim ao que restava
de liberdades e garantias democriticas,
estabelecendo a ditadura plena. Seu
mandate foi cassado e seus direitos
politicos suspensos, como centenas de
outros politicos e personalidades pdbli-
cas. Parecia que entdo ele realizaria
sua vocaqao de jornalista, da qual se
distanciara em 1965, quando deixou a
direqAo de 0 Liberal. 0 journal ja nao
era mais o porta-voz partidArio do ba-
ratismo. Por uma das muitas ironias
toscas da political paraense, foi com-
prado pelo empresArio Ocir Proenga
para promover a candidatura de Ala-
cid Nunes, ja que a Folha do Norte,
ainda na lideranga, pulara o muro para
aderir ao hibridismo inconvincente da
candidatura de Assungqo.
Quando voltou a 0 Liberal, H61io la
encontrou um novo dono: o comercian-
te e colunista social Romulo Maiorana,
que assumiu 0 Liberal quando ningu6m
o queria, cumprida sua missio corn a
eleiqao de Alacid. Proibido de exercer
sua profissAo, H61io teve que se valer


2"QUINZENA Jornal Pessoal


ABRIL DE 2011







11 de pseudonimos e de estratagemas de
Romulo para ter seus escritos publica-
dos. Logo ele encontrou um novo ins-
trumento de poder na coluna Rep6rter
70, para a qual mandava notas invaria-
velmente apimentadas, ao gosto de to-
dos. Contava corn a co-autoria de
Newton Miranda, ex-vice-governador
de Aur6lio do Carmo, ambos tamb6m
cassados.
H6lio voltou a ter influencia e pres-
tigio, mas agora em funio do apoio que
recebia do dono do journal. Romulo con-
seguiu se equilibrar em dois p6los de
sustentacgo: os remanescentes do ba-
ratismo, que ainda controlavam deter-
minados stores da vida local, e os mili-
tares e seus associados, cujo dominio
se expandia. Permitiu que o Rep6rter
70 se tornasse uma das caixas de res-
sonincia de um politico novo, filho de
um dos mais destacados baratistas, o
ex-deputado estadual La6rcio Barbalho.
Presenga constant na coluna, Ja-
der Barbalho teve fulminante carreira
como vereador, deputado estadual e fe-
deral, consolidando-se como lider da
oposicqo institutional ao regime. Mas
em 1982, quando se apresentou como
candidate ao governor, na primeira elei-
cqo direta para esse cargo desde 1965,
Romulo foi pressionado a se definir. Do
outro lado estava Jarbas Passarinho,
disputando a reeleigqo para o Senado,
e o empresario Oziel Carneiro, candi-
dato ao governor.
Pela primeira vez o general de plan-
tdo no PalAcio do Planalto, Jolo Figuei-
redo, nio contava corn a adesdo do go-
vernador do partido official. Alacid Nu-
nes rompera corn seus companheiros de
arma porque nao queria devolver o po-
der estadual ao seu ex-padrinho, Jarbas
Passarinho, como acertara perante o
president da repdblica. Preferiu apoi-
ar o adversdrio da v6spera. Brasilia teve
que apelar para todos os recursos, que
inclufam o grupo Liberal, muito refor-
gado pela concessdo, em 1973, de um
canal de televised, que passaria a inte-
grar a Rede Globo de Televisao, a fa-
vorita do rei castrense.
Desta vez Romulo nao p6de se aliar
aos seus companheiros baratistas de
viagem, com os quais se juntara des-
de que chegara a Bel6m, em 1953,
como um livre atirador no com6rcio,
e dos quais se tornara mais intimo ao
casar corn D6a, sobrinha de Barata.
H6lio Gueiros abandonou 0 Liberal
e montou sua trincheira num novo jor-


nal ainda precario, o Didrio do Pard,
que o governador de So Paulo, Ores-
tes Qu6rcia, proporcionara ao seu cor-
religiondrio paraense para a campa-
nha de 1982.
Apesar dos ataques furiosos que
desfechou contra Romulo, H6lio Guei-
ros se reconciliou com ele. 0 acerto
de contas aconteceu num restaurant
na Cidade Velha. Numa entrevista A
jomalistaAna C61lia Pinheiro, em 2009,
H6lio disse que Romulo s6 o aceitou
de volta por ter sido "a dnica pessoa
que brigou comigo e nao me chamou
de contrabandista". Referendando
essa declaraqio, da qual foi a tnica tes-
temunha e A qual nunca se referira at6
entdo, Gueiros garantiu que, nos seus
virulentos artigos no Didrio, "nao bati
no passado".
Qualquer pessoa que leu essas co-
lunas na 6poca ou delas tomou conhe-
cimento depois sabe que isso nWo 6 ver-
dade. H6lio visou principalmente D6a
Maiorana, a quem Romulo precisou
convencer a aceitar a reaproximaqao.
Ela se sentia tdo insultada que s6 apro-
vou a iniciativa do marido quando ele
jurou que H6lio nao fizera o que lhe
era atribufdo.

A pacificaqao era neces-
& saria porque Gueiros,
Sffeito senador por obra
e graga de Jader Barbalho
em 1982, seria seu sucees-
sor no governor, como ma-
neira de consolidar uma
nova versao do baratismo.
A adesao do poderoso grupo Liberal
afastaria qualquer risco de derrota,
poupando o candidate de fazer o que
detestava: participar da campanha, ir
ao interior, trabalhar.
S6 havia uma pequena pedra no meio
do caminho: o distanciamento que 0
Liberal foi ampliando ao long da pri-
meira gestAo de Jader, sobretudo a par-
tir de 1984, quando comecei a denunci-
ar a corrupgao no governor na minha
coluna didria e, freqiientes vezes, no
Rep6rter 70, do qual passei a ser o prin-
cipal redator.
Por isso mesmo me tornei o alvo
ndmero um dos ataques da corte jade-
rista. Como eu sempre retrucava e con-
tra-atacava, o embate se tornou duro,
agressivo. Corn a mudanga dos seus
interesses e em virtude da grave doen-
qa que o acometeu, Romulo nao supor-
taria a ofensiva dos antigos baratistas e


dos seus sucessores. Tomei a iniciativa
de pedir demissdo para poupA-lo, mas
ele a recusou. Garantiu que manteria
minha liberdade em seu journal e aceitou
que eu nao partilhasse a reconciliagqo
com H6lio Gueiros, a quem eu dirigira
uma longa carta pouco antes da posse,
em 1987, alertando-o sobre as respon-
sabilidades que ia assumir, do alto dos
seus 60 anos.
Mas Romulo censurou um dos meus
artigos, justamente sobre Jader Barba-
lho. Nao aceitei e saf da empresa. Como
parecia que eu estava disposto a uma
medigio de forgas pessoal com Jader,
Hdlio imaginou me usar para atacar
aquele a quem tanto devia e que trata-
va por estadista de pdblico.
Ao contrArio do que ele disse a Ana
C61lia, era fundado o receio de Jader
de que seu successor acabasse por cri-
ar urn novo eixo de poder, fechando as
portas para seu planejado retorno ao
governor, em 1990. H61lio tinha um can-
didato no bolso do colete: o m6dico
Henry Kayath, um dos mais brilhantes
baratistas, o dltimo secretario estadual
da fazenda do velho PSD.
Jader trouxe Kayath de volta do Rio
de Janeiro, onde o m6dico se estabele-
cera numa clinica conceituada, mas o
queria no seu redil, sob o seu control.
Kayath tinha pianos mais ambiciosos,
que seu amigo governador podia viabi-
lizar. Enquanto a dupla se preparava
para romper corn o patrono, Jader se
antecipou: conseguiu que o ministry do
Interior, Jolo Alves, dernitisse Kayath,
a bem do serviqo pdblico, da superin-
tendencia da Sudam, onde Jader o ha-
via colocado, cortando-lhe a ascensdo.
Vendo sua estrat6gia fracassar, H6lio
decidiu escancarar sua oposiqo a Ja-
der, mantida at6 entio nos bastidores, e
patrocinar a candidatura de Sahid Xer-
fan, junto corn o grupo Liberal.
Seguiu-se uma das mais violentas
campanhas eleitorais da hist6ria para-
ense. Ao final, Jader foi o vencedor.
Seu carisma superou a mdquina official
e a forqa dos vefculos de comunica-
9do da familiar Maiorana, esquecida das
migoas profundas e recentes para
combater o maior dos seus inimigos.
Sem mandate, Hlio comprou um es-
paqo no Jornal Popular, de Silas As-
sis. Aproveitou-se mais uma vez do
anonimato para atacar inimigos de sem-
pre e amigos de ontem.
Quando rompeu corn Silas, este nao
hesitou em reproduzir os artigos de


SJornal Pessoal ABRIL DE 2011 2QUINZENA






H61io com o nome do seu verdadeiro
autor, que nao poupou nem o seu candi-
dato ao govemo. A mordacidade em
relagio a Sahid Xerfan tinha uma ex-
plicaqao: encerrada a campanha, corn
os credores A sua porta, o ex-prefeito
cobrou a participacqo do ainda gover-
nador na conta. Hl1io respondeu-lhe
com outra plrola da fraseologia polftica
ao tucupi: dfvida de campanha nao se
paga. E nio pagou. Coube a Xerfan se
desfazer do seu patrim6nio para honrar
os compromissos. Foi o fim da sua car-
reira de empresario.
Quanto a Hl1io, tratou de abrir ca-
minho para a sua volta. E assim deci-
diu se vingar de mim, que nio servira
aos seus prop6sitos de minar a ima-
gem de Jader, jd associado a enrique-
cimento ilfcito em cargos pdblicos. Ao
me dar informagqes privilegiadas so-
bre os maus feitos do seu antecessor,
o govemador atirava pedras pelas mi-
nhas maos e escondia as mios. Acon-
tece que eu descobri que seus filhos,
amigos e apaniguados enriqueciam A
sombra do seu poder, tal como aconte-
cera corn Magalhles Barata. E isso ele
nao tolerou, principalmente por ser a
pura verdade, indesmentivel. Foi para
publicar verdades incomodas como
essa que criei este journal.
Apenas um mes depois de deixar o
governor, em maio de 1991, H61io me
mandou uma carta de 65 linhas, em lin-
guagem chula e pornogrhfica, para me
ofender. 0 almirante Mario Jorge da
Fonseca Hermes, que comandara o IV
Distrito Naval quando Gueiros gover-
nara o Para, ao ler aquele texto, con-
fessou que jamais vira um document
pdblico tao nojento. Recomendou ao
povo do ParA que nio mais concedesse
qualquer cargo pdblico ao autor daque-
la "coisa". Mas o povo preferiu agir de
outra forma, elegendo H61io Gueiros
prefeito de Bel6m dois anos depois.
Acreditando nas suas fantasias, na
revisao distorcida do passado que fa-
zia constantemente, o prefeito se con-
venceu que podia eleger um successor
qualquer que fosse a pessoa. Nao con-
seguiu: o PT, que nunca fora competi-
dor. real em eleigqo majoritAria, che-
gou finalmente A vit6ria corn Edmilson
Rodrigues.
0 problema era o candidate, Rami-
ro Bentes, pesado demais, reagiu o pre-
feito. 0 papudinho, o doutor H61io, o
home do povo, este era imbatfvel. E
por isso Gueiros quase nWo fez campa-


nha (e, desta vez, nio tinha um Barata
ou um Jader para carregA-lo), quando
se candidatou ao Senado, em 1988, ten-
do o filho, Helinho, como suplente.
Sofreu entao a maior das suas der-
rotas, num bisonho terceiro lugar, corn
apenas 25% dos votos. 0 eleito cornn
36%) foi seu ex-aliado, Luiz OtAvio
Campos, que se mudara para o reduto
de Jader, autor da ordem de prisio ve-
xat6ria que sofreu em 1991, por ilega-
lidades apontadas na Secretaria dos
Transportes, no govemo de Gueiros.
Ana Jdlia Carepa ficou em segundo lu-
gar, corn 34%. A polftica fechava as
portas para o ex-prefeito.
Para arrematar, em 2008 Gueiros foi
condenado pela justiga federal A sus-
pensao dos seus direitos politicos por
cinco anos e multa equivalent ao valor
do prejuizo que causara por irregulari-
dades na prestaqgo de contas de 24 mil
reais do fundo partidario como presiden-
te do PFL (hoje, DEM). Tamb6m ficou
proibido de contratar corn o poder pdi-
blico e de receber beneffcios ou incen-
tivos fiscais. 0 dinheiro fora gasto ile-
galmente corn gratificacqes natalinas e
festas de final de ano, ou em despesas
nao especificadas, com notas fiscais
rasuradas e fora de validade.

Talve ele nem so im-
portasse com Isso.
Lei, final, nao era
potoca? H6lio Mota Gueiros
nunea teve compromisso
s6rio com ela, nom com a
verdade histories, nem comn
o seu curriculo. Podia permitir-
se dar as mos ao ex-amigo que acusa-
ra pouco antes de ser ladrdo, ou voltar
A conviv8ncia de algu6m cuja familiar
denegrira. Tudo isso eram detalhes, fo-
gos fAtuos numa girandola de interes-
ses mais duradouros: os seus.
Pai atencioso, amigo dos seus ami-
gos, Hl61io era uma companhia adorAvel
para conversas sem tempo certo de
duraqao. Seus olhos brilhavam quando
seu interlocutor anunciava que tinha uma
novidade para lhe contar, sobretudo se
era um fato secret, reservado uma
boa fofoca. Durante o tempo em que
ele me abria as portas do PalAcio Lau-
ro Sodr6 para conversas a dois, eu 6
que precisava lembrA-lo de que havia
gente na ante-sala com audiencia mar-
cada A espera do seu chamado. Se de-
pendesse apenas do que ele queria, fi-
cariamos ali por horas a paper sobre o


present e o passado, os acontecimen-
tos e as pessoas. E As vezes ficAvamos
mesmo por muito tempo nessa conver-
sa dejornalistas bem informados.
O diabo 6 que ele tinha poder para
exercer e o fazia com base na alquimia
de golpes e tramas aprendidos na esco-
la de poder do baratismo, um laborat6-
rio inesgotAvel dessas artimanhas e in-
civilidades. H61lio Gueiros nunca devia
ter ido al6m de uma redagqo de journal,
que era o seu espago por excelencia e
sua arte maior (embora nao necessari-
amente melhor). Ao menos se podia
combate-lo tamb6m corn palavras, ar-
gumentos, raciocfnios e estilo, sem os
danos acarretados pelo desempenho de
cargos pdblicos, em especial o maior
deles, o de governador.
O que H61io Mota Gueiros aprontou
graqas a esses poderes exigiria, para ser
relatado, um grosso volume de hist6ri-
as. Centrado em si, ele prejudicou pes-
soas e instituiq6es em todos os lados do
espectro e as vezes tamb6m as benefi-
ciou, ficando-se sem saber qual o saldo
da acqo dessa metralhadora girat6ria.
Sintomaticamente, fez o bem e o mal
aos dois grupos que dominam a comu-
nicaqdo (e a political do Estado), em tor-
no de 0 Liberal e do Didrio do Pard.
0 Didrio, ao qual sua vinculago era
mais recent, abriu quatro paginas ao seu
necrol6gio, com uma chamada mais des-
tacada na capa. JA 0 Liberal, do qual
chegou a ser director e corn o qual sua
relagqo era mais antiga, deu-lhe apenas
uma pAgina e chamada mais discreta na
capa. Ainda devia ser travoso o gosto de
alguns epis6dios, como no final do man-
dato de prefeito, quando deixou para
Edmilson Rodrigues dfvida de mais de um
milhao de reais corn os vefculos de co-
municaqdo da framflia Maiorana.
Hlio se foi, arrastando consigo os
dltimos vestigios do baratismo, mas os
Barbalho e os Maiorana prosseguem
a dispute polarizada e plebiscitAria, que
tern sido a marca e a principal fonte da
trag6dia do ParA, como se vivessemos
na Florenca dos M6dici ou na Sicilia
dos mafiosos.
Requiescat in pacem, 6 o que se
desejaria ma non troppo, como
acrescentaria o italiano, tao persona-
gem no enredo quanto o cearense que
se mimetizou na alma dos paraenses e
saiu desta aclamado pela versao que
deixou plantada na mente dos que sa-
bem da hist6ria pelo que foi dito e nao
pelo que foi feito.


* 2'QUINZENA Jornal Pessoal


ABRIL DE 2011


















Belem- 1925


PROPAGANDA

A forga do radio
Em 1957, no auge da era do rddio, a Marajoara dos
Didrios e Emissoras Associados, de Assis
Chateaubriand apresentava nas noites de terVa-feira
o Show Gelomatic, nesta edifdo corn a participagdo
das cantoras Carmen Silvia e Selma Lopes. 0
patrocinio, naturalmente, era do refrigerator
"fabricado no Brasil... para o clima do Brasil". 0
revendedor no Pard era a Ibesa, que garantia o primio
do concurso: a devolugdo do dinheiro usado na
compra do aparelho. 0 program cantava e encantava
todo o ptblico, sintonizado na Rddio Marajoara.


A Lista dos Assinantes de
1925 da Pard Telephone
Company, Limited, corn 148
piginas, em format de livro,
impressa na Papelaria Suis-
so (grafado assim mesmo),
que encontrei nas minhas
garimpagens de papeis, 6
uma fonte preciosa de infor-
maq6es sobre a Bel6m do
entre-guerras. Serve de ro-
teiro informal e prntico sobre
a mecanica da cidade, qua-
se 90 anos atras, na fase de
declinio p6s-borracha.


HOJO L TODAS AS TERMAS FMtRAS AS 105S

"SHOwGelomatf

EN tM LVIA
& SLLMA LOPES


Aman s. Iamm P_
Ab\odw A" CGROM4-
miifta Autr.do... Av.
PrmsdUato Vaqpsr A.
Ia m1 n EdM.e .

contOndo encone ndo todo a pMbootl
Urn preWotu do. Mvemdedoqe


rdr6d as AWL .POM caeI& do.
ATENCAO PARA 0O GRAND! CONCUSO.GLOMATIC 17 -
ADOUIA 0 SBU MEFGERADO R ATE 0 DIA S DE ABRML
E PODUA ECEBIR DB VOLTA A IMPORTANCIA PAGA NA COMPRA
(la Pa. PIB. 61


INDUSTRIES
Na capa, anincio da Ga-
rage Alliados, com serviqo
permanent de autom6veis,
atendendo chamadas a qual-
quer hora pelo telefone 155.
Tamb6m os ndmeros de ur-
g8ncia: Assistencia Pdblica,
176; Bombeiros Municipais,
166; Bombeiros Voluntarios
(algo impensAvel na Bel6m
dos nossos dias), 352; Esta-
9ao Central de Policia, 31.
Tres andncios na primeira
capa internal. De Pires Guer-
reiro & Cia., armazenistas,
exportadores, importadores,
industrials e representantes,
que mantinham dep6sito de
tabaco em grande escala na
sua sede, na rua 15 de No-
vembro (a Wall-Street bele-
nense). Eram tamb6m pro-
prietArios da Usina Bel6m,
que fabricava o arroz de
marcas Cecy, Bel6m e Pag6,
"e do acreditado Lola, co-
nhecido em todo o Brasil e
estrangeiro". Tamb6m bene-
ficiavam outros cereais, al-
godo e trituravam sal.
Outro andncio era da Ma-
nufatura a Vapor de Fumos
GuarA, que ficava na Cidade
Velha, na rua Dr. Malcher.
Fabricava os cigarros de su-
pra-mistura Celtas e Cecy; os
fortes e aromAticos Guard,
Guerreiros e Lolita; os sua-
ves 7 V e Manolito.
Tamb6m havia propagan-
da do Curtume Maguary, que
fabricava selas, vaquetas,
correias e outros produtos de
couro, no ramal do Pinheiro
(Icoaraci) da Estrada de Fer-
ro de Braganca.


"Jornal Pessoal ABRIL DE 2011 21QUINZENA







































TELEFONIA
Em outra capa, a pr6pria
Pard Telephone anunciava
que se encarregava de ins-
talag6es telef8nicas particu-
lares, internal e ligadas A
rede geral, instalaq6es de
campas e tudo concernente
A telefonia, "a pregos convi-
dativos". Seu escrit6rio gera
ficava na ma da Inddstria.
A empresa avisava aos
seus assinantes que "nio
constam desta lista muitas
firmas ji extintas, cujos su-
cessores nio vieram fazer
nesta Companhia a compe-
tente transferencia para as
firmas novas; al6m dos assi-
nantes que nao querem figu-
rar na mesma".
Na dltima capa, a Garage
do Com6rcio oferecia autos
de luxo e conforto, e contra-
tos especiais para casamen-
tos, batizados e outros acon-
tecimentos. Os preros podi-
am ser consultados pelo te-
lefone 83, que ficava no pon-
to de chamada, no Largo da
P61vora (a atual praga da
Repdblica).


Tamb6m um reclamee"
especial da Papelaria Suisso,
de Gongalves Barros & Cia.,
que ficava na Padre Eutiquio,
bem pr6ximo do Ver-o-Peso.
Dispunha de servigos de ti-
pografia, encadernaq o, pau-
tag o e douragio. Oferecia
impressos para alfandega e
recebedoria, postais, papel
em bloco "e tudo quanto seja
necessario em um escrit6rio
ou repartigao".

AVISOS
A companhia telef6nica
dava "avisos importantes"
aos seus clients. Como re-
comendar-lhes que nio usas-
sem palavras desnecesshri-
as na comunicaqio com a


telefonista para pedir uma li-
nha, que prejudicavam o
atendimento a outras pesso-
as. Nao deixar o fone mal
colocado, era outra adverten-
cia; a empresa se via obri-
gada a desligar os aparelhos
ap6s algum tempo sem uso,
"impedindo o pr6prio assi-
nante de pedir ou receber co-
munica95es". A falta era
atribuida ao servigo, quando
a culpa era geralmente do
assinante.
A companhia tamb6m so-
licitava que nio se gritasse
no telefone ou se virasse a
manivela muitas vezes, o que
apenas causava cansago indi-
til: "Habitue-se a falar sem-
pre corn calma", aconselha-
va, garantindo que assim se-
ria possivel obter "melhores
resultados". Se por acaso
surgisse um problema, o me-
Ihor nio era atribui-lo A tele-
fonista, mas a um defeito de
ordem material. As ocorren-
cias, em qualquer caso, de-
viam ser feitas ao n 3. E, se
nio fossem atendidos, dirigir-
se por escrito A ger8ncia.


FOTOGRAFIA

Filosofia do
aterro

Um raro document
hist6rico: em 1929 o
igarapd do Reduto era
aterrado e as autoridades
julgavam dar um passo a
frente na drenagem da
drea atrav&s de uma rede
de tubuloes de ferro de
diametro maior, mas com
uma capacidade de vazdo
incomparavelmente
inferior ao do c6rrego
natural. Era o paroxismo
da filosofia do
aterramento da cidade,
que remonta as suas
origens e ate hoje ndo foi
superada. As enchentes
cada vez maiores e os
problems mais graves
resultam, ao menos em
parte, desse equivoco. 0
leito do igarape teve que
ser reaberto para abrigar
o crescente volume de
dguas da bacia. Ainda
assim, incapaz de dar
conta da demand
quando coincide a chuva
forte com a mare alta.


ABRIL DE 2011 2'QUINZENA Jornal Pessoal f








Belem afogada por aua e lixo


Belem, a 10V maior cidade do Brasil, cornm
1,5 milhao de habitantes, tem 40% da sua area
urbana abaixo da cota 4 do nfvel do mar. Em dois
dias de margo, as famosas mares altas chegaram
a 3,80 metros. Por sorte da capital paraense,
nos moments de Agua maxima nlo choveu, o
que 6 raro para esse perfodo. Mesmo assim,
grande parte da cidade ficou debaixo d'Agua. Umrn
fato que chega a ser ins61lito: inundagAo sem chu-
va, por efeito da mare.
A coincid8ncia de mare alta e chuva intense
tomou-se a maior fonte de preocupagao panico
mesmo para os belenenses. Qualquer chuva mais
forte, mesmo que seja rapida, 6 suficiente para
provocar estragos imediatos e problems que
perdurarao depois que as Aguas reflufrem para
seus cursos normais, como as doengas. Condigao
que se toma mais grave porque Bel6m 6 uma das
cidades mais sujas do pafs, tomada cada vez mais
pelo lixo, que se transformou numa endemia.
Por mais que surja um governor honest, se-
rio e competent, como nao tern havido jA hA
bastante tempo, a cultural da sujeira impregnou
tanto na mentalidade dos belenenses que sua
correao ou extingao demandard tempo, talvez
gerag6es. A tolerancia ao lixo, em todas as suas
formas, inclusive as mais duradouras, como em


sacos pl4sticos, que podem levar s6culos para
se degradar, jA se tomou calamidade piblica.
Esse agravante faz cornm que o sinal de nuvens
no ar e os primeiros respingos provoquem catar-
se coletiva. t uma situagao inteiramente oposta a
uma tradigao que caracterizava a vida em Belim
do Pard: o acerto das agendas conforme as chu-
vas. Elas eram regulars e, assim como cafam,
safam, sem maiores estragos. Podia-se marcar en-
contros seguros para antes e depois delays.
As chuvas nio eram um problema pdblico,
como hoje se tomaram. Talvez o maior proble-
ma de Belem, justamente notabilizada por estar
cercada de Agua por todos os lados, inclusive
por cima. I uma das capitals onde mais chove
no mundo, com precipitac6es mddias anuais aci-
ma de tres mil milfmetros.
Mas achuvaerabem-recebida. Lavavao chlo,
limpava o ar, refrescava a cidade de uma canfcula
desgastante, em virtude da combinagao de forte
calor corn grande umidade. Apassagem das chuvas
intensas por Bel6m tamb6m era sinal de sadde eco-
16gica, j que metade das precipitagces pluviais na
AmazSnia 6 contribuigao do mar (a outra metade
tern origem na evapotranspiracao das plantss.
De alguns anos para cd o que era folclore e
charme foi se transformando em pesadelo, cornm


inundagoes cada vez mais peri6dicas e intensas.
O adensamento human, o crescimento vertical,
o aterramento das muitas drenagens na Area pan-
tanosa da cidade e algumas outras imprevidenci-
as e descasos, como a falta de manutenalo nas
obras do Programa de Macrodrenagem das Bai-
xadas, tratada na ediglo anterior, tornaram o
problema tAo s6rio que foi preciso enfrent6-lo
coam maior decisao e competencia.
Repassei essa situacao a um piblico maior na
coluna quinzenal que tenho no portal do Yahoo.
Os brasileiros precisam saber que o problema das
inundafces nao atinge apenas as regimes do centro-
sul do pals. Depois de publicado meu artigo, hou-
ve 108 mensagens de pessoas que moram em v6ri-
as parties do Brasil, das quais 58 safram de Bel6m.
Um debate intense e amplo, como nao se ve na
grande imprensa local, atada aos seus compromis-
sos polfticos e comerciais e, por isso, geralmente
impossibilitada de promover esse tipo de discus-
sao. Tao necessaria quanto urgente. Ainda mais
quando o governor municipal ap6ia integralmente
uma das causes fundamentals dessa situaao, que
6 aespecula&io imobilidria. Como naextinqAo vir-
tual da outorga onerosa, que abre as porteiras para
espig6es sem a limitago de gabaritos.
Pobre Bel6m.


CONSTRU9AO
Sou leitor do seu journal e te-
nho percebido sua preocupac;o
coam a ocupa;go do espa;o da
cidade, inclusive devo parabe-
nizA-lo pela lucidez da reporta-
gem sabre o desabamento do
Real Class, principalmente pela
observavCo do abuso que foi ter
sido aprovado um projeto de umrn
edificio daquele porte em umrn
terreno de 18m de frente.
Tenho acompanhado cornm
muita aten;go e apreensbo a
maneira acintosa como as
construtoras estio invadindo
todos os espagos, sem nenhu-
ma preocupacio cornm o future
da nossa cidade. Cometem-se
as maiores abusos, acintosa-
mente, mas a maioria da po-
pulagio nao percebe, poals a
legisla;go 6 tio confusa, que
mesmo gente da area, como
eu, nbo consegue entender as
critdrios utilizados para apro-
vacbo dos projetos que estio
sendo realizados.
Gostaria que voce observas-
se nas fotos anexas, se 6 que
vocA ainda nao percebeu, a que
ponto chegou o abuso. Esse
edificio fica localizado na Av.


Pedro Alvares Cabral, pr6ximo
A D. Pedro. Nao tive condi5es
de medir, mas acredito que o
pr6dio tenha um recuo frontal
de aproximadamente 1,00m.
Como faltou espavo para o
jardim, eles resolveram se
apossar de quase toda a cal-
;ada, sobrando apenas uma
pequena passage para o
pedestre. 0 que mais me as-
susta 4 o fato de saber que
nem o vizinho reclama, que
aparentemente estd prejudica-
do coam essa situacio.
JS soube que o galplo ao
lado foi vendido para uma cons-
trutora. Serd que tambdm vai
querer fazer a mesma coisa?
Acho que essa situacbo esta fi-
cando tao critical, que seria o
caso de se mover uma a;go con-
tra a autoridade que permitiu
que isso fosse feito, pois den-
tro da lei nio estd, com absolu-
ta certeza. Se nao estd dentro
da lei e as autoridades permi-
tiram, significa que tmrn algum
interesse no assunto.
Estou escrevendo pra voc6
por saber que 6 a Onica pessoa
que tern capacidade de enfren-
tar esta situa;go com isen;ao,
e que poderia abordar cornm
mais profundidade esse assun-
to, a fim de esclarecer a popu-
la;to a respeito dos danos que
isso vai causar no future.
Se voce pesquisar a legisla;go
vigente, vai atestar a quantida-


de absurda de cons- -
truOses fora da lei a
nos agredir todos os
dias. Se for do seu
interesse, estou h
disposi;io para apro-
fundar esse assunto,
que no meu enten-
der, deveria ser alvo
de uma campanha,
para o bern da nossa
comunidade.
Francisco Barbosa

MINHA RESPOSTA
Diante do importdncia do ques-
tOo, reproduzo a fotografia que a
leitor enviou, abrindo-lhe o espago
de que precisorpara oprofundarsua
judiciosa e atenta andlise. Obser-
ve-se no image que a prefeitura
fez oa caloda, inclusive comn a trilha
para deficiente visual, e ignorou a
violoa~o dos postures municipaois.
Como se esquecesse dos suas res-
ponsabilldades e deveres. A omis-
sdo do poder pdblico, alids, 6 uma
dos caracterlsticas mais marcontes
em Belim e no Pard. Quando ndo
se tern uma situaao ainda pior: a
conivinciao do poder pdblico cornm a
transgressdo a regras elementores
do vidao em coletividade.
Um desSes problems d criado
pelos prddios construldos cornm a
previsdo de apenas uma garage
por apartamento. Sobretudo nos
edificios mais caros, as compro-
dores, cornm maior poder aquisiti-
vo, tMm sempre maois de urn corro


porfamilia. Sem garage pr6pria
suficiente, ocupam as ruas, atra-
vancando o trdnsito e a passage
do sofrido pedestre.
0 espantoso 6 que novas edifica-
V5es so aprovadas sem serem sub-
metidas a novas regros. t o caso,
por exemplo, do "Angelina Malora-
na'" que a Roma Incorporadora, de
Romulo Maiorano Junlor, promote
construirna rua Pirajd, noa Pedreira.
Corn 18 andares, a prddio terd 78
apartamentos. Embora considera-
dos de luxo, tim apenos 87 metros
quadrados de drea dtil e uma nica
garagem, embora venha cheio de
penduricolhos, corn um espaco
gourmet. Tudo para encarecer o
prego e atrair adquirentes de clas-
se mrdia, impressionados par es-
ses ingredients acessdrios, en-
quanto a coletividade arcoa corn a
6nus desso especulacOo.
Graoas 6 indrcia, omissdo ou
conivincia do prefeitura, essoa erva
daninha nao pdra de crescer.


Jomal Pessoal

Editor: Licio FlAvio Pinto


Contato: Rua Aristfdes Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
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MJornal Pessoal ABRIL DE 2011 2aQUINZENA


I.[M Jornal Pessoal ABRIL DE 2011 2=QUINZENA








As hist6rias de futebol, comunicagao e political


Em tres dias de julho de 1969, tries das prin-
cipais emissoras de televisao do Brasil pegaram
fogo. Primeiro foi o estddio Paramount da TV
Record, o quinto inc8ndio em duas d6cadas da
terceira mais antiga emissora do pais. No mes-
mo dia, pegou fogo o estddio paulista da TV
Globo, em seu quarto ano de existencia. Dois
dias depois era a vez da Bandeirantes, de pro-
priedade do ex-govemador Adhemar de Barros,
que fora ao ar apenas dois anos antes.
Mera coincidencia ou os tries sinistros re-
sultavam de atentados politicos? As tries em-
presas de comunicacgo apoiavam o regime mili-
tar. Sete meses antes, o governor de excegio ha-
via endurecido de vez corn a proclamaqao do Al-
5, pondo fim ao que restava de liberdades pdbli-
cas ainda permitidas pelo golpe de 1964.
A resistencia A ditadura trocara o parlamen-
to e a tribune pela luta armada, a guerrilha rural
e os atentados urbanos. Paulo Machado, que
pertencia "A elite empresarial de Sao Paulo",
apoiara discretamente o golpe military de 64 "e
tinha pavor de comunistas". Podia, pois, ser visto
como um alvo.
Por considerar fragile a seguranqa nas empre-
sas de comunicagao, a FederaqAo das Inddstrias
langou um comunicado pedindo "a uniio das
Forgas Armadas corn o empresariado paulista
em torno da luta contra o terrorismo. Seria "o
primeiro grande passo para o fortalecimento da
Operaqao Bandeirantes", a Oban, o brago arma-
do da repressao A esqueda e toda e qualquer
forma de oposigao.
Por ironia (e tamb6m por acaso?), essa nova
situag o favoreceria muito um delegado de quin-
ta categoria da policia civil, que assumira dois
anos antes a chefia da seguranga da Record e
dava proteiao particular ao detentor do maior
salArio de entao, o cantor Roberto Carlos.
S6rgio Paranhos Fleury ja dera um pulo na
hierarquia ao criar o Esquadrao da Morte, para
eliminar sumariamente bandidos comuns. 0 sal-
to foi maior quando se especializou na policia
polftica, tomando-se o policial mais temido e vi-
olento. Teve que deixar o "bico" na televisao para
dedicar-se por inteiro A caga aos esquerdistas. Na
Record, pordm, "ningu6m reclamou". Esteve pre-
sente aos "acidentes" por mera circunstancia, ou
haveria algo mais nessa coincidencia?
Surpreendentemente, essa hist6ria ins61ita
6 pouco lembrada. Ela reaparece no livro 0
Marechal da Vit6ria (A Girafa, 362 paginas,
2005), dos jornalistas Tom Cardoso e Roberto
Rockmann. Mas corn uma superficialidade e ra-
pidez incompativeis corn a importancia do epi-
s6dio, mal explicado at6 hoje. Mesmo assim,
demarcou uma das transiq6es mais importantes
na mutagao do regime military, que durou de 1964
a 1985.
As aparAncias foram consideradas sugeres-
tivas de que que os incendios nao foram aciden-
tais e que resultaram de uma represalia dos gru-
pos de esquerda contra a grande imprensa, on-
tern como hoje associada a golpes militares (ul-
timamente, mesmo durante o perfodo de mais
longa democracia de toda Repdblica, apelidada
de PIG Partido da Imprensa Golpfsta). Mas


se a intenqao foi abalar o suporte de comunica-
qao de massa da ditadura, seu efeito foi distinto
- e at6 imprevisto.
Para a Record, o quinto incendio em 20 anos
e o terceiro no intervalo de apenas seis meses,
foi fatal. A empresa ainda sobreviveria por al-
guns anos, mas desbancada da lideranqa para
posiq6es cada vez mais baixas. Talvez a deca-
dAncia ocorresse independentemente dos sinis-
tros. Radicalmente familiar, as Emissoras Uni-
das nao se profissionalizaram nem se renova-
ram para enfrentar os novos tempos.
Desde 1931, quando Paulo Machado de
Carvalho comprou a Radio Record, que fora ao
ar tres anos antes e cinco depois da primeira
emissora radiof6nica brasileira, a Radio Socie-
dade do Rio de Janeiro, de. Roquette Pinto, tudo
dependia do talent e das decisoes do dono. Ele
costumava acertar, com seu faro para contratar
talents e impor um padrao de qualidade A radio
e, a partir de 1954, A sua televisao, a terceira.
Mas tinha idiossincrasias dificeis de explicar e
muito menos ainda de aceitar.

A superstig o e a teimosia ex-
plicavam a resistencia de
Paulo Machado contratar
seguro para suas empress, de-
pois da freqie6ncia preoeupante
dos inefndios. Como fora enganado uma
primeira vez, aboliu essa proteqao das suas con-
sideraq6es. Muito mais racional e pragmatico,
Roberto Marinho se acercou de cuidados em
torno da sua engatinhante TV Globo. Por isso.
quando as chamas devoraram o esttidio paulis-
tano, ele tinha motivos para ficar satisfeito pelo
incident: o seguro iria capitaliza-lo num mo-
mento dificil.
"Ningudm abriu champanhe publicamente,
mas a diretoria da TV Globo sabia que, com a
fortune paga pelo seguro, a emissora poderia
dar mais um grande passo para desbancar de vez
a concorrencia". Admitiu Walter Clark, na auto-
biografia Campedo de audidncia. Quase 7 mi-
lhMes de d6lares entraram nos cofres esvaziados
da Globo. Ji a Record nao tinha como acompa-
nhar o salto da sua competidora.
Em 1 de setembro de 1969, quatro anos
depois de entrar no ar, a Globo transmitiu para
todo pais, via sat61lite, o Jornal Nacional, o pri-
meiro program verdadeiramente national, "ao
vivo". As Emissoras Unidas estiveram bern pr6-
ximas dessa faganha, mas ficaram privadas por
uma snrie de circunstfncias, inclusive a falta de
apoio do governor, que, a partir daf, nao faltaria
a Roberto Marinho.
Ele seria escolhido para falar pelo regime e
regiamente recompensado por essa missao. So-
breviveria aos pioneiros da radiodifusio, que
desapareceriam a partir daf, junto corn suas emis-
soras. Pipa Amaral e sua TV Rio (Ihe restaria a
Radio Jovem Pan). Assis Chateaubriand, que
morreria em 1968, depois de longa doenqa, pre-
cipitando a decad8ncia dos seus inconfiaveis
Didrios e Emissoras Associados. MArio Wallace
Simonsen, que pagaria caro (com a TV Excelsior
e a Panair) por suas relaq6es corn o president


JoAo Goulart, cuja eleigao financiara. Victor
Costa, morreu em 1960 sem testemunhar a de-
cadencia da TV Paulista.
Rufa tamb6m o imp6rio de comunicaq6es
que Paulo Machado de Carvalho constitufra,
"valendo-se basicamente de duas de suas mai-
ores virtudes: a capacidade de lideranga e a co-
ragem". Logo ele ficava atras do SBT, criado
por Sflvio Santos em 1981. Descapitalizado,
em 1988 vendeu a Record para a Igreja Univer-
sal do Reino de Deus, "a mais bem-sucedida
arrecadadora de dizimos do planeta, por 45
milh6es de d61lares. Quatro anos depois mor-
ria, aos 91 anos, no ostracismo.
Para a minha geraqio, pordm, Paulo Macha-
do foi uma legend. Tanto por sua atuaqao na
area de comunicacao como pela sua condigao de
cartola do futebol, um raro eja extinto espdcime
de dirigente de clube esportivo e comandante da
seleqao brasileira, a pAtria em chuteiras, como
dizia N61son Rodrigues. Depois de ter dado ao
decepcionante Sao Paulo quatro titulos nos anos
de 1940, foi o marechal do bicampeonato mun-
dial (1958 e 1962), dando a impressAo de ndo
passar de torcedor, ao lado dos outros torcedo-
res e dos jogadores.
Um medalhao, em todos os sentidos (inclu-
sive da nobiliarquia familiar, filho de uma baro-
nesa de quatrocentona estirpe paulista), que era
tamb6m povo numa 6poca de futebol alegre e
desprendido. Na qual nao havia o politicamente
correto e o fabuloso Didi podia tomar calmantes
receitados pelo mddico e De Sordi fumar um
cigarro atrds do outro sem ser repreendido.
Imaginava encontrar um perfil A altura do
personagem e respostas As muitas dtividas que
gravitavam em torno de Paulo Machado de Car-
valho e suas realizag6es. Como bons jornalis-
tas, os autores do livro juntam muitas informa-
96es e o que escrevem pode ser lido corn pra-
zer. Mas sua obra nio incorpora as conquistas
academicas de jornalistas que foram al6m da
cr6nica dos fatos para examiner contextos e
sondar interpretag6es, como tmr feito nos dl-
timos anos. Graqas A facilidade na narrative dos
acontecimentos, deram um tom mais saboroso
ao ritmo pedestre e pedregoso da historiogra-
fia national.
Tom Cardoso, corn 33 anos, e Roberto Ro-
ckmann, corn 28 na 6poca em que o livro foi
publicado, limitam-se As qualidades do jornalis-
mo cronol6gico e restaurador de epis6dios. Sua
pesquisa se limitou a consult bibliografica e
entrevistas pessoais, sem maior aprofundamen-
to, o que pode explicar erros grosseiros, como o
cometido com a revolta tenentista comandada
pelo general Isidoro Dias Lopes, em 1924. Di-
zem que em um mes, "os tenentistas foram ex-
pulsos da cidade pelas forgas de Getdlio Var-
gas", seis antes de o caudilho gadcho tomar o
poder, corn a revoluqio de 1930, efeito da agita-
9ao tenentista iniciada em 1922.
0 livro de Tom e Roberto 6 um avanqo na
reconstituigio da hist6ria combinada das comu-
nicag6es e do futebol no Brasil. Onde ficou, en-
tretanto, ainda 6 um ponto distant do conheci-
mento adequado sobre o tema.


2"QUINZENA Jornal Pessoal


ABRIL pE 2011 .








Grande Alcione Vicente


Alcione foi um encantamen-
to que se desfez. Quando a ouvi
pela primeira vez, num vinil, la
pelo fim dos anos 1960, fiquei
maravilhado. Sua voz grave eco-
ava como o som de um sax, inti-
mista e ao mesmo tempo Ifmpi-
da. Mas a sucessio de repert6-
rios ruins, concedidos ao suces-
so commercial, me levou ao desin-
teresse. Perdi de vista a cantora.
Outro dia, mexendo nuns CDs
usados, encontrei "Nos bares da
vida", gravago de um show que
ela fez, "ao vivo", no Garden Hall,
em 2000. Finalmente uma trilha
musical a altura da grande voz,
corn Johnny Alf, Jobim, Vanzoli-
ni, Pixinguinha, Dolores Duran,
Baden Powell e outros composi-
tores que nio cabem no pobre
roteiro que Alcione seguiu por
tantos anos. E duas mdsicas do
esquecido (e apesar disso, eter-
no) Joio do Vale.
No acompanhamento, mdsi-
cos de primeira, como Joao
Lyra, Crist6vao Bastos, Rildo
Hora, Mircio Montarroyos,
Dori Caymmi e Vitor Santos. A
Alcione que emerge desse dis-
co, dirigido por Jos6 Milton, 6
uma das grandes cantoras do
Brasil, num intervalo sem con-
cess6es. Para aproveitar. Mes-
mo corn atraso. Porque depois
ela voltou ao que se tornou.


Real
O tempo foi passando e
ainda nao encontrei tempo
para resenhar o seu livro de
mem6rias, A beira do Sena,
que li corn prazer e proveito.
A resenha agora terd que ser
p6s-morte. Reali Jdnior se foi,
aos 71 anos, depois de peno-
sa doenga, muito antes do pra-
zo que merecia para viver. Foi
um grande correspondent no
estrangeiro da imprensa bra-
sileira e urn amigo incondici-
onal de todos que o procura-
vam. Varios desses amigos,
permanentes ou de ocasiAo,
sentiram sua morte em parties
diferentes do pals e no exteri-
or. Era dessas pessoas que fa-
zem falta. Muita.


SaUes:



anos

de fe




Vicente Salles
fard 80 anos em
novembro. Id
possui o tftulo de
doutor honors
causa pela
Universidade da
Amaz6nia, a Unam,
concedido em 2002.
Nao sei por que a
Universidade Federal do Pard ndo partilhou essa merecida
honraria. A oportunidade para redimir o erro se apresentard
em novembro, quando d de se prever que os paraenses
comemorardo a data para agradecer a tanta coisa boa
produzida em nosso favor por esse historiador, folclorista,
musicista e humanista.
Incansdvel, apesar das doenFas, e sempre curioso e atrds
de novidades, Vicente esteve em Beldm para falar sobre "As
raizes da cultural mestiga na Amaz6nia, durante o VIII
Coldquio Luso-Brasileiro de Histdria da Arte e II Reunido do
F6rum Landi. Antes dele, Victor Sales Pinheiro leu um
comovente testemunho sobre Benedito Nunes. Ofil6sofo,
critico, professor e ensalsta, falecido recentemente, tambdm
recebeu o tftulo honorffico da Unama. Mas tambdm o da
UFPA, que, por todos os tftulos just, falta a Vicente. 0 detalhe
d que, sendo verdadeiramente sdbios, Benedito e Vicente
cresceram como autodidatas e sua formagao academica se
limitou & graduafdo, um anticlimax ao fervor dos curriculos
Lattes. Uma afirmacao do saber livre.
Durante sua palestra, Vicente fez mais uma generosa
referencia a este journal, que muito me emocionou. Reproduzo o
trecho que me diz respeito ndo por vaidade, mas em
reconhecimento ao gesto de coragem do velho e admirado
amigo. Vicente fez questdo de enxertar a referencia na sua
palestra para dizer o que pensa a respeito de um personagem
anatematizado pelas elites poderosas da terra. Uma forma de
tambem estimular os que se oferecem a sociedade para ser seus
defensores. E, porfim,dizer que ndo estd preocupado corn esses
Torquemadas. Seu lugar na hist6ria estd de hd muito garantido,
corn ou sem tftulos em papel.
Segue-se o texto de Vicente Salles, a partir do paralelo que
ele trafou entire as obras dos miliondrios americanos Henry
Ford, no Tapaj6s, e Daniel Ludwig, no Jari.
Tal como Ford, Daniel Ludwig devastou grande parte da flores-
ta native para um projeto de plantio de esplcie uniform, cor inevi-
tiveis alteraqoes no ecossistema. 0 projeto contou mais uma vez
comr generosa ajuda official no tempo da ditadura military. Quando
Ludwig se convenceu do insucesso da empreitada, saiu da Amaz6-
nia, deixando o resultado de aqoes empresariais analisadas pelo
espfrito investigative do jornalista Licio FlAvio Pinto, que acompa-
nhou o empreendimento em todas as suas fases. A bibliografia
desse jornalista-escritor cont6m o grito de alerta que poucos term
ouvidos para ouvir. Um dos textos mais vigorosos Amaz6nia, a
fronteira do caos, data de 1991. Sua primeira palestra sobre a Ama-
z6nia data de 1970. Exatamente 40 anos de lutas e de enfrentamento
com os poderosos.


0 pastor
dos Jovens
Meu primeirojornal de cir-
culagio externa foi 0 Social,
de 1964. Como o tftulo era um
tanto ambfguo, pretendendo
abordar tanto as "quest6es so-
ciais" quanto o mundanismo
social no Clube de Jovens da
Par6quia da Trindade, que eu
entio freqiientava, troquei-o
para 0 Combate. As duas ver-
s6es eram impressas num mi-
me6grafo a tinta do Centro de
Letras da Universidade Fede-
ral do Pard.
Ja era um avanqo tecnol6-
gico em relagio ao mime6grafo
a Alcohol, que eu cheguei a usar.
Corn maior disponibilidade de
papel, pude aumentar a tiragem
para 100 exemplares, distribuf-
dos gratuitamente aos distin-
tos leitores, graqas a generosi-
dade do director do curso de
letras da UFPA, c6nego Apio
Campos.
Nao bastava sua autoriza-
qao, por6m: era preciso que
"seu" Alonso se dispusesse a
ir aos sAbados a sede do curso,
na praga Coaracy Nunes (mais
conhecida por "Ferro de Engo-
mar"), que hoje se restringe a
paredes, a esconder uma ins6-
lita quadra de esportes, nesta
Bel6m sem miolo, sem contedi-
do, sem essencia. E l1 ficAva-
mos quase toda a manhi, fora
do expediente, para nao preju-
dicar as atividades regulars da
instituigao.
Sempre em disponibilidade
para os jovens, o c6nego ainda
aparecia nas sess6es de sabado
a tarde na Trindade, dedicadas
as palestras, quando nao tfnha-
mos uma festa do arromba,
mora! 0 c6nego era uma alma
tolerante, parcimoniosa e fecun-
da. Seu casaro na Rui Barbosa
nao s6 estava aberto aos ami-
gos como se tornou abrigo de
gente inteligente que Apio Cam-
pos promoveu, instruiu e enca-
minhou para a vida, cumprindo
sua missAo de pastor.
Cumpriu-a enquanto teve
forgas e lucidez, at6 um tempo
atrAs, quando imergiu em dra-
mas pessoais que se sucede-
ram at6 o dia 15, quando mor-
reu, aos 84 anos. Carregou con-
sigo a estima, a admira~io e o
reconhecimento de centenas
de jovens, para os quais sua
luz e aquele seu sorriso de
aprovaqAo serviram de guia e
inspiragio.