Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00364

Full Text



MARQO
DE 2011 I D L IN
2 QUINZE- I | .

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


.~- -


DESENVOLVIMENTO


Caminho de said

No ano passado foi inaugurada no Pard uma das maiores obras de engenharia
hidrdulica no mundo. Os paraenses esperaram por ela durante tres dicadas. Agora,
parecem ndo se dar conta do seu significado e do quefazer corn ela em seu beneficio.
Pode ser mais um cavalo de Tr6ia.


Quatro meses depois de inaugu-
rado, o sistema de transposi
gao da barragem da hidrel6tri-
ca de Tucuruf ainda 6 um mist6rio para
os paraenses, que esperaram durante
quase 30 anos pela conclusio da obra.
Seu custo 6 impressionante: 1,6 bilhao
de reais. Equivale a maior obra de en-
genharia hidrAulica do mundo: as duas
portas de ago que protegem das gran-
des cheias do Mar do Norte o porto de
Rotterdam, na Holanda, o maior da Eu-
ropa. Mas ainda estA long de permitir
a navegabilidade da bacia do Araguaia-
Tocantins, que drena 10% do territ6rio


brasileiro, em seus 2,4 mil quilometros
de extensAo.
Pelo contrurio: as duas eclusas vio
tomar proibitiva a navegaio nesse tre-
cho para as pequenas embarca65es, que
fazem o transport no baixo Tocantins.
Para poder ter acesso aos elevadores hi-
drdulicos e ao canal de concrete, corn 5,5
quilometros de extensio (percurso que
seri feito em uma hora), a embarcaqAo
precisard contar corn defenses para se
proteger das muralhas laterais das cima-
ras, que tem 140 metros de extensao.
Terio que dispor ainda de cabos de
amarragao para ficar engatadas aos


cabegotes flutuantes, e ridio do tipo
VHF, necessArio para a comunicaqao
corn o operator da eclusa. S6 farao a
eclusagem as embarcaqGes legaliza-
das junto A autoridade maritima e cujo
condutor seja aquavidrio, devidamen-
te legalizado.
A esmagadora maioria das embarca-
96es em operaqao na regiao nio atende
a essas exigencias e nem possui condi-
96es para preenche-las, por seu custo,
proibitivo para esse tipo de neg6cio. As
providencias sao necessarias para pro-
teger tanto as embarcaqoes que atra
COinTIAt NA
p~o s


i REOT NA GRND OR k 3


NO 485
ANO XXIV
R$ 3,00


XII


7mZRTN3A NA JUST1AC3





cowGNTIWIA OACAPA
vessarem o sistema de transposiqAo
como as instalaq6es das eclusas.
0 problema 6 que ningu6m pensou
na navegaqio local, nem no habitante
nativo da area sob a influencia da bar-
ragem, que 6 visto apenas como ele-
mento decorative da paisagem. 0 obje-
tivo 6 tender grandes e poderosos cli-
entes, como os mineradores e os pro-
dutores de grAos.
Sempre foi essa a preocupaiAo dos
que projetaram os "grandes projetos"
na AmazOnia, a partir dos anos 1970:
identificar os locals onde estavam de-
positadas as riquezas naturais da Ama-
z6nia, como os mindrios, e viabilizar
meios de transport at6 o litoral, de onde
a produiAo seria levada para mercados
externos, cada vez mais distantes (em
princfpio, os Estados Unidos e a Euro-
pa; por fim, a Asia).
No caso de Tucuruf, a busca foi pelo
maximo de energia a ser gerada num
tnico ponto. Ao inv6s de tries ou quatro
barragens rio a montante, at6 Itupiran-
ga, que poderiam veneer sucessivamen-
te desnfveis m6dios de 20 metros, umrn
dnico represamento de alta queda, que
provocou desnfvel de 70 metros. Comr
isso, permitiu o maximo de energia, que
chegou a 8,4 mil quilowatts.
Em compensagio, foi precise
construir duas enormes eclusas e um
long canal intermediirio entire elas
para permitir a transposiqao, num dos
maiores sistemas desse tipo em todo
o mundo. 0 desnivel 6 do tamanho
de um pr6dio de 33 andares, como o
Real Class, que desabou em Bel6m
no dia 29 de janeiro, no maior aci-
dente da construqo civil na capital
paraense (embora corn menos vftimas
do que o outro grave epis6dio, de 24
anos antes).
Para se ter uma id6ia do que repre-
sentou essa decisAo, tomada na meta-
de da d6cada de 70 do s6culo passado,
basta compari-la corn a opIo adotada
pelos construtores das duas hidrel6tri-
cas em andamento no rio Madeira, em
Rond6nia. Juntas, elas que, juntas, vio
gerar 80% da energia produzida por Tu-
curuf. Os projetistas descartaram limi-
narmente a alternative de levantar uma
tnica barrage no Madeira, o principal
afluente do rio Amazonas.
Ao inv6s de uma s6 usina, corn bar-
ragem de 40 metros, formando um gran-
de reservat6rio, optaram por duas es-
truturas: Jirau, corn desnfvel de 12 me-
tros, e Santo Ant6nio, corn altura de
pouco menos de 20 metros, ambas for-
mando pequenos reservat6rios, em con-
junto equivalentes a um quinto da area
inundada pela represa de Tucuruf, corn
seus 70 metros.


Como a missio da Eletronortre, con-
cessionaria da usina, .era se responsa-
bilizar exclusivamente pela energia,
que iria tender os dois maiores con-
sumidores individuals do Brasil (a Al-
bras, em Barcarena, e a Alumar, em
SAo Lufs do Maranhio, responsaveis
por quase 3% de toda demand nacio-
nal), as eclusas foram entregues aos
parcos recursos da Portobras.
A empresa portuaria do Minist6rio
dos Transportes foi extinta durante o
acidentado percurso da obra e nenhum
successor deu-lhe andamento. Ela s6 foi
retomada em 2006. Por ironia, quando
o Minist6rio dos Transportes delegou a
tarefa A Eletronorte, que a descartara
25 anos antes.
O n6 g6rdio atado em 1979 foi des-
feito e a racionalidade ao menos a
formal foi restabelecida: quem bar-
rou o rio que Ihe restabelega a navega-
bilidade. Com a enorme vantagem, para
a Eletronorte, de executar o servico corn
recursos do govemo. E maior vantage
ainda para a Construtora Camargo, que
mant6m seu canteiro em Tucuruf ha 36
anos, talvez record national.
Corn dinheiro fluindo atrav6s do PAC
(Programa de Aceleraqio do Crescimen-
to), nio faltaram recursos para que a
empreiteira langasse mro de um bilhio
de reais atW levar A inauguraqco das eclu-
sas, em 30 de novembro do ano passa-
do. 0 ato teve as b8ngqos do president
que safa e da sua sucessora, ambos do
mesmo partido, o PT, constituindo o ca-
sal que gerou e acalentou o PAC: Lula e
Dilma Rousseff.
O sistema permitird a passage de
40 milh6es de toneladas de carga por
ano nas duas direq6es, atravds de com-
boios corn capacidade para 20 mil to-
neladas e calado maximo de 4,50 me-
tros. t quase 10% a mais do que a bar-
ragem da hidrel6trica de Tres Gargan-
tas, na China, que devera se tornar a
maior do mundo, quando (e se) alcan-
qar sua capacidade nominal de geracqo,
mas que conta com cinco eclusas, tries
a mais do que Tucuruf.
E uma poderosa via de transport de
carga. Mas para quem acha que s6 ago-
ra esta sendo corrigido o golpe traigoei-
ro dado no Para nos anos 1970, quando
foi decidido escoar a produgao de mi-
n6rio de Carajas por ferrovia at6 o lito-
ral do Maranhao, e nao pela costa do
pr6prio ParA, usando o Tocantins, 6 born
nao esquecer que a capacidade da fer-
rovia de Carajas ja ultrapassou 100 mi-
lh6es de toneladas e ainda podera ser
expandida. Ningu6m jamais previu tan-
to. Nem a Vale.
Fica cada vez mais claro que essa
decisIo estava coerente corn a razio
de ser do projeto: criar volumes cres-


centers de min6rio para exportagio com
o objetivo de chegar ao Japio e, em
seguida (o que nao foi cogitado inicial-
mente), A China, corn prego melhor,
graqas a exceptional qualidade do mi-
n6rio de Carajas (com teor de 66% de
hematita pura, o dobro do australiano)
e ao custo decrescente do frete ferro-
viario atW o porto (a partir da escala de
60 milh6es de toneladas, se tornou igual
ou interior ao frete hidroviario).
As eclusas de Tucuruf se enquadram
nesse modelo. Elas deverio escoar mi-
n6rios e produtos sidertirgicos (como
ferro gusa e chapas de aqo), al6m de
grios, no sentido sul norte, e os contei-
neres da Zona Franca de Manaus na
direqao contraria, no maior fluxo desse
tipo de carga em todo pais, al6m de ou-
tras possibilidades, como a do gas, que
dependem da evoluqao da pesquisa, da
produqao e do mercado. Mas tudo em
grandes quantidades, o que acarretara
o uso oligopolistico do sistema de trans-
posiqao, em condiq6es de receber 24
comboios diarios nas duas direq6es.
Essas perspectives s6 se consuma-
rao definitivamente se outras obras fo-
rem realizadas, a montante e a jusan-
te de Tucuruf. Uma das maiores 6 o
derrocamento dos 40 quil6metros do
Pedral do Lourengo, acima da barra-
gem, a dragagem do baixo Tocantins,
a ampliaqio do porto de Vila do Con-
de (ao custo de R$ 700 milh6es), o
porto de Maraba, e mais as eclusas
de Lajeado, no Estado do Tocantins,
e Estreito, no Maranhio. No final, tal-
vez o dobro do que se gastou nas eclu-
sas de Tucuruf.
Pode parecer exagero, mas, depois
de tantos anos de investimento, a hi-
drovia Tiet8-Parana ainda tern uma ca-
pacidade de carga que 6 uma oitava
parte do que pode ser utilizado em Tu-
curuf. Nao para o beneffcio da popula-
9ao local e das atividades internal, mas
como mais um caminho de passage
de riquezas naturais rumo ao exterior.
Essa 6 tamb6m a perspective do su-
perporto da ponta da Tijoca, em Curu-
0a, no litoral nordeste do Pard. Sera
um terminal de embarque e reembar-
que de commodities, caso realmente
seja exequiivel o projeto de construir
um terminal pr6ximo ao litoral (dois qui-
16metros e nio de 8 a 11, como se pre-
via), corn um canal de acesso profun-
do, protegido das fortes correntes ma-
ritimas e corn um fundo estavel: Seri
mais um ponto de langamento de rique-
zas para fora e nao, como se deseja,
um fator de indu9qo do desenvolvimen-
to para dentro. Nessa direcao, o desti-
no concebido 6 o do despejo dos res-
tos do banquet que esti sendo servi-
do a privilegiados comensais no Pard.


SJornal Pessoal MARCO DE 2011 2'QUINZENA






Quebra-quebra no Madeira:

grande como a hidrel6trica


Duas das maiores obras em anda-
mento no Brasil foram paralisadas na
semana passada. Se fossem localiza-
das no sul do pafs, a grande imprensa
national certamente daria o destaque
compativel com a gravidade do acon-
tecimento. Mas como os fatos se de-
ram em RondOnia, no extreme oeste, o
noticidrio foi pequeno e insatisfat6rio.
Quando concluidas, as hidreldtricas
de Jirau e Santo AntOnio, no rio Ma-
deira, terdo absorvido em torno de 30
bilh6es de reais, um custo equivalent
ao da hidrel6trica de Belo Monte, que,
se for construida mesmo, seri a se-
gunda maior do mundo ao menos em
capacidade nominal de geracgo de
energia. Como a usina do rio Xingu,
no Para, as duas barragens estio sen-
do levantadas depois de provocarem
extensos e apaixonados debates sobre
a inconveniencia de colocar duas es-
truturas de concrete sobre o leito do
rio que mais contribui em Aguas e se-
dimentos para o maior curso d'Agua
do planet, o Amazonas.
Tr8s anos depois de iniciadas, as
duas obras seguem uma tramitagqo
acidentada e conflituosa. Desde 2009
seus operarios fazem manifestaq6es
de protest e reclamam dos salArios,
dos maus tratos e das condiq6es de
trabalho. A tensAo veio num crescen-
do. Mas ao assumir sua forma mais
grave, no dia 13, surpreendeu a todos
por sua extrema viol8ncia.
Em dois dias de depredaqces, o can-
teiro de obras de Jirau foi quase todo
destruido e a os empregados desmobi-
lizados. Por cautela, os responsaveis
por Santo Ant6nio, rio abaixo, decidi-
ram tamb6m parar. Quase 30 mil pes-
soas empregadas nas duas obras tive-
ram que suspender suas atividades.
Incidentes term sido uma constant
nos "grandes projetos". Houve quebra-
quebra em Tucuruf, no Jari, no Trom-
betas ou em CarajAs. Mas nada na es-
cala do que houve no Madeira. Nemr
corn as caracteristicas que ali elas ti-
veram. Os operdrios estavam insatis-
feitos e at6 revoltados, mas a esmaga-
dora maioria ficou fora dos atos de des-
truigo, principalmente atrav6s de in-
cendios provocados. Muitos ficaram
apavorados com o que viram e preferi-
ram voltar aos seus locais de origem.
Segundo os responsaveis pela se-
guranga no canteiro, os lideres das hos-
tilidades adotaram uma tAtica original:
atacavam e depois se escondiam no
mato pr6ximo. Os representantes sin-


dicais nio aprovaram a virulencia em-
pregada. A policia foi violent, mas nao
eficiente: nao s6 nao evitou a destrui-
q&o como nao chegou a identificar os
que a provocaram. A decision de des-
mobilizar a frente de trabalho tamb6m
surpreendeu. Aparentemente, as auto-
ridades e a empresa se sentiram impo-
tentes para prevenir, remediar e reas-
sumir o control da situaq o o mais rd-
pido que fosse possivel.

ineidente tao grave,
a ponto de paralisar
U lpor eompleto as obras,
eontrastou com o ritmo inten-
so dos servigos at6 entao. Os
concessionarios das duas usinas mani-
festaram a disposiaio de investor dois
bilh6es de reais al6m do orqamento de-
finido para aumentar a capacidade de
geraqio de energia e antecipar os pra-
zos do cronograma. Jirau pretendia en-
trar em operaqao em setembro de 2015,
mas o cons6rcio Energia Sustentivel ja
trabalhava corn a data de margo do pr6-
ximo ano. Em relaqao A estimativa ori-
ginal, o custo atualizado quase dobrou,
para R$ 29,4 bilh6es.
As modificaq6es feitas na concep-
qao que foi aprovada pelo governor para
outorgar as duas concessoes parecem
determinadas por um fator fundamen-
tal: a subestimaqIo dos custos. 0 con-
s6rcio que ganhou o leilao de Jirau se
comprometeu corn um desAgio de 35%
em relaqao ao prego minimo fixado. TerA
que oferecer energia a 71 ou 78 reais
por megawatt/hora.
No dltimo leilao promovido pelaAne-
el (Agencia Nacional de Energia El6tri-
ca), no final de dezembro do ano passa-
do, o prego do MWh ficou em R$ 67,31,
o mais baixo de todos os leiloes de ener-
gia nova ja realizados. E nem toda a
energia ofertada foi arrematada.
Surpreendentemente, por6m, a con-
cessdo da hidrel6trica de Teles Pires, a
primeira das cinco usinas previstas para
o rio Tapaj6s, tamb6m no Para, foi obti-
da pelo cons6rcio Teles Pires Energia
Eficiente por apenas R$ 58,35 o MWh,
corn desagio de 33% em rela io ao va-
lor mfnimo estabelecido. Certamente a
redug o teve a ver com a dispute pela
concessAo, jA que, no mesmo dia, o ven-
cedor da licitarAo para a usina de Santo
AntOnio, no rio Jari, ainda no Park, ficou
no prego minimo, de R$ 140 (por se tra-
tar de uma hidrel6trica de baixa capaci-
dade, de apenas 300 MW), sem qual-
quer desigio.


O que se pode deduzir de fatos des-
conexos ou aparentemente irracionais
6 que o govemo abriu uma frente de
construgao de hidrel6tricas tao vasta e
pesada na Amazonia que nao consegue
mais controlA-la. As vezes sequer se
podem discernir as informaq6es exatas
para uma avaliaqco segura e confiAvel
do que ocorre.
Os cons6rcios que constroem as
duas usinas do Madeira, por6m, nao
desconhecem seus desafios e o signi-
ficado do que estio fazendo. Nao por
acaso assinaram os dois maiores con-
tratos de seguro em vigencia no Bra-
sil, no valor de quase R$ 17 bilh6es,
incluindo as fases de construgao e ope-
racional, al6m dos lucros cessantes por
interrupqAo do neg6cio, como deve ser
o caso dos incidents em Jirau (calcu-
la-se um prejufzo operational diArio de
R$ 500 mil, fora os danos no canteiro).
Os custos bilionirios das duas usi-
nas nao incluem os juros durante a
construcgo, as obras de transposigio
das duas barragens (pelo menos R$ 700
milhoes) e as linhas de transmissAo de
energia. Para alguns desses itens 6
muito provAvel que o governor federal
seja chamado a dar mais uma "cola-
boraqAo", que poderA crescer em fun-
qo de ocorrencias como a depreda-
qao do canteiro de Jirau, que se trans-
formou em caso de seguranqa pdblica
(e pode ser um rastilho de p61vora
numa regiao sempre conturbada, cuja
condiqAo a imigraqao intensive nos 6l-
timos tres anos agravou bastante).
O esquema societArio dos cons6r-
cios que receberam as concess6es 6
um fator de indugio a esse desdobra-
mento. Uma empresa estrangeira ou
uma empreiteira term o control do ca-
pital, corn mais de 50% das aq6es;
empresas estatais, do sistema Eletro-
bras, fazem grande aporte de capital,
subsidiadas pelo BNDES (que, em fun-
gqo das vultosas transferencias feitas
pelo tesouro national, se tornou maior
do que o Banco Mundial), e agents
financeiros internacionais completam a
quadratura do cfrculo.
Nao surpreende que, enfrentando
muitas e mdltiplas reaq6es, as obras
das grandes hidrel6tricas avancem
como se quisessem resolver suas difi-
culdades com seus bulldozers. Dis-
postas a passar por cima de quem
estiver na frente. Os acontecimentos
de RondOnia, por6m, indicam que a
barreira a superar 6 bem maior do que
se presume.


* 2'QUINZENA Jornal Pessoal


MARQO DE 2011








Debate: pouco saber e muita intolerancia


Quatorze leitores, de diferentes
parties do Brasil e de diversas
qualificaVdes, se manifestaram sobre
o meu artigo "Os intelectuais e o
poder," quando ele foi reproduzido
pela revista eletr6nica Observat6rio
da Imprensa. Decidi trazer o debate
para as pdginas deste journal porque
retrata o padrdo da controversial
intellectual no Brasil atual. Mesmo
quando sabem pouco sobre
determinado assunto, as pessoas
nao se constrangem em manifestar
opini6es categ6ricas, conceitos
absolutos, sentencas finals. E
enquadrar a divergencia em bitolas
ideol6gicas e partiddrias. 0 Brasil
democrdtico estd long de ser
tolerante para com o oposto. E sem
tolerancia ndo hd verdddeira
democracia nem civilizacdo. 0
Brasil estd ficando rico. Mas
(ainda) ndo democrdtico e
civilizado.
Ricardo Pereira, Campinas-
SP quimico 0 sr Lucio
Flavio tern algumas verdades
pr6-estabelecidas em mente e com fer-
ro e fogo quer que sejam verdade. Qual
a correlagio entire servir um governor e
pensar criticamente? Por acaso, o gran-
de Vaclav Ravel, deixou de ser o bri-
lhante intellectual quando se tomou pre-
sidente? Talvez o augusto detrator do
Sader esteja pensando no FHC, que
pediu para esquecer o que ele tinha es-
crevido [sic] ao se tornar president.
Mas se me permit uma v8nia, o sr FHC
nao foi necessariamente um grande in-
telectual ao long de sua trajet6ria us-
piana. A prop6sito disso, vale ler um tex-
to do Millor Fernandes publicado no
blog do esquerdopata (reproduzido pelo
Azenha no Viomundo http://
www.viomundo.com.br/voce-escreve/
o-pensamento-de-fhc-analisado-por-
millor-femandes.html). No mais, a pos-
tura de defesa do Vargas Lhosa [quis
dizer Llosa] pela president Kirchner
na verdade foi para evitar acusag6es
de nio ser capaz de ouvir as critics do
falastrio. 0 sr Vargas Lhosa, indepen-
dente de sua habilidade como escritor,
6 representante de um pensamento
monotonico [sic] e radical e jA declarou
mais de uma vez seu desprezo pelos
Kirchner. No fundo, a president indica
que as posiq6es polifticas do sr Lhosa
slo opinido de sapo de fora, e como to-
dos sabem, sapo de fora nao chia.


Max Suel SP-SP Eng Exce-
lente artigo. Parab6ns ao autor.
Arist6teles Lima Santana, Paulo
Afonso-BA Professor Uma das
maiores bobagens 6 achar que o poder
se resume ao poder de Estado. Vargas
Llosa, que 6 realmente um grande escri-
tor, estA long do poder do Estado (qual-
quer Estado), mas esta muito pr6ximo
(sempre muito pr6ximo) do poder do
grande Capital, do poder financeiro, que,
alias, manda nos Estados. Nao 6 capa-
cho de Estado nenhum, mas 6 capacho
dos grandes financistas. Nao estou con-
cordando corn nenhum boicote a ele, in-
clusive estou lendo "Pantaledo...", mas
a sua anAlise limita o poder ao poder de
Estado e este 6 um equfvoco que jA pre-
senciei em outros textos. Fica aqui mi-
nha critical amigAvel.
Ricardo Pereira, Campinas-SP -
quimico Nao ti acostumado corn
critics, sr FlAvio? Quando era com-
batido pela justiqa paraense naqueles
processes absurdos, tiveste meu
apoio, por acreditar na democracia.
Mas seu telhado 6 de vidro. Nao pu-
blicou meu post discordando porque,
como todos seus colegas, se acha ab-
soluto demais para admitir outros pen-
samentos. Vergonhoso.
Helio Santos, Cuiaba, MT His-
toriador Ainda vou mastigar o texto
um pouco mais para poder comentar.
No entanto, uma indagaqio para come-
gar: por que Ana Buarque de Holanda
6 "chefa", enquanto Cristina Kirchner
e Dilma Roussef ndo sao presidentsas?
Licio Flivio Pinto, Belim-PA -
jornalista Prezado Ricardo: nao exer-
go qualquer interferencia sobre as pos-
tagens do Observat6rio. Nada sei so-
bre o fato a que voc8 se referee. Se qui-
ser, made a crftica para
jomal@amazon.com.br. Gosto da criti-
ca. Sem ela, nao haveria polemicas.
Sem polemicas, o jornalismo como
toda atividade intellectual fica sem
graga. Quanto h contradigao apontada
por H61io, ela existe. Talvez se explique
por ser mais comum haver chefas do
que presidents, jA que Dilma 6 a pri-
meira. Sou tentado a dar mais valor A
eufonia neste caso. Um abrago.
Sandro Vaia, Sio Paulo-SP jor-
nalista Um notAvel artigo, corn a dig-
nidade e integridade intellectual de tudo
que Ldcio FlAvio Pinto escreve.
Jorge SA de Miranda Netto, Sao
Paulo-SP Jornalista Excelente seu
artigo; como se dizia no tempo do born


e velho Pasquim: vAlido, lcido, autenti-
co, inserido no context.
Rafael Palomino, Araraquara-SP
- professor Como esquerdista, Sr.
Ldcio Flavio, posso dizer que acho es-
sas critics detratoras que os esquer-
distas fazem o pior veneno contra a es-
querda. Para critical 6 precise ponde-
ragqo, crit6rio. 0 embate de ideias nao
6 ruim, mas deve-se prezar, sempre, por
um born embate. E sinto dizer que seu
texto nao faz isso. Dizer que Sader 6
egoc8ntrico, que ele se consider icone
da verdade, que ele agiu de mi f6 (coi-
sa que o senhor nio pode provar) para
"abrilhantar seu curriculo", etc., isso
tudo 6 fazer o que o senhor pretendeu
repudiar: uma crftica ferina, deselegan-
te e a6tica. E nao pretend defender
Sader com isso que digo.
Ale Gennari, Sao Paulo-SP ro-
teirista 6timo artigo, atesta que o
fantasma das patrulhas ideol6gicas
continuam a assombrar as artes, inde-
pendentemente de sua orientaqao.
Hoje, ao ler Graciliano Ramos (meu
autor brasileiro predileto), nio faz a
menor diferenqa saber se ele era ou
nao comunista. Seu texto continue bri-
lhante, como o de Llosa.
Alexander Reis, BH-MG Ser-
vidor Confesso que nao conhecia
esse Ldcio Flavio Pinto. Pensa com in-
depend6ncia, logo serd acusado de re-
acionArio ou a servigo do capital... esse
tipo de coisa. Critica apurada, texto
muito bem escrito, mas que nao costu-
ma fazer muito sucesso por aqui, por
raz6es explicitas no texto: o autor nao
se coloca a servigo da political partidi-
ria, nem quer legitimar a todo custo a
posigdo dos nossos intelectuais.
Pedro Costa, Recife-PE Ca-
pitalista Ricardo Pereira vive obs-
curecido pela sua ideologia esquerdis-
ta: o comunismo ji morreu faz tem-
po! Viva Vargas Llosa. Leia 0 ma-
nual do perfeito idiota e voc8 vai
aprender muito.
Ricardo Dias, Rio de Janeiro-RJ
- A dinamica do poder nao prescinde
do investimento e da coreografia. Estar
"A esquerda" e investor nos milh6es de
zeros tamb6m A esquerda os e-leito-
res 6 o que importa. Depois, 6 s6 des-
frutar o retorno (e seus muitos zeros fi-
nanceiros A direita) corn muita danqa.
Atualizando a frase atribufda a Delfim
Neto, "a 'esquerda' demorou, mas
aprendeu". E, falando em "desconvites",
o que dizer do seu acdmulo sobre e-lei-


aJornal Pessoal MARQO DE 2011


. 21QUINZENA






Isto tambem 6 Amaz6nia,

que nao se mostra la fora


As regioes metropolitanas de Bel6m
e Manaus, as duas maiores cidades da
Amaz6nia, se aproximam de dois mi-
lhoes de habitantes, a capital paraense
A frente da amazonense. Com seus cin-
co municfpios, a Grande Bel6m ja est
com dois milh6es de moradores. Para
Manaus atingir essa marca falta pouco
mais de 200 mil habitantes. As duas ci-
dades ocupam o 9" e o 10 lugares no
ranking national.
Com esse tamanho, sdo cidades
grandes em qualquer lugar do mundo.
Mais ainda na Europa, cuja urbaniza-
qAo se espraiou muito mais do que no
pals que adotamos como modelo para
quase tudo, os Estados Unidos. Nao
chegam a duas dezenas as regioes me-
tropolitanas europ6ias com mais de dois
milhoes de habitantes. S6 um exemplo:
com uma extensio territorial 28 vezes
menor do que a do Brasil, a ItAlia tern
um tergo da populacgo brasileira. E sua
maior regiao metropolitan, a capital,
Roma, tem 3,4 milhoes de habitantes.
Manaus e Bel6m, somadas, represen-
tam quase um quarto de toda a populaiao
daAmazonia, que se estende por 60% dos
8,5 milh6es de quil6metros quadrados do
territ6rio national. E uma concentraqao
demografica expressive. Manaus abriga
metade da populaqio do Estado do Ama-
zonas, o maior da federaqao, com seus
1,5 milhio de km2, al6m de concentrar
quase 90% do seu PIB (Produto Interno
Bruto). Nao hi nada igual no Brasil.
0 Para, com seus 1,2 milhao de km2
(do tamanho da Col6mbia), s6 6 um
pouco menor em extensao, mas Bel6m
tern apenas um quarto da populacao do
Estado, que, por sua vez, abriga meta-
de da populagAo amazonica, de 15 mi-
lhWes de habitantes, e nao mais que um
tergo do PIB estadual.
HA outra diferenqa entire os dois
grandes Estados. A segunda cidade do
Amazonas, depois da capital, 6 Parin-
tins (onde ha a famosa dispute dos bo-
tos do folclore), corn 102 mil habitan-


tes. Segue-lhe Itacoatiara, com 86 mil.
A segunda cidade paraense 6 Ananin-
deua, que fica no ambito metropolitan,
com 456 mil moradores.
Mas ha outras cidades de porte m6-
dio A distfncia de Bel6m: Santar6m (291
mil), MarabW (224 mil), Castanhal (168
mil), Parauapebas, o segundo munici-
pio que mais export no Brasil, por cau-
sa do min6rio de ferro da Serrade Ca-
rajas, o melhor do planet (149 mil),
CametA (120 mil) e Braganga (112 mil).
Por causa da incrivel concentraqao
demografica e econ6mica em Manaus,
o Amazonas pode falar com algum con-
tetdo de verdade numa agenda verde
para o Estado. Ao menos enquanto pu-
derem ser contidas as frentes de ex-
panslo econ6mica, que caminham de
sul para norte, o espaqo dominant ain-
da 6 o da floresta. HA a possibilidade,
ao menos em tese, de o Estado ser ino-
vador na implantaqao de uma economic
florestal, o ideal da utopia amazonica.

NParA essa Hngagem
s6 so mant6m por des
considerar a realida-
de. 0 Estado 6 o tereeiro alvo
doe imgraq6es no Brasil. Elas
buscam os locais de implantagao de
grandes empreendimentos econ6micos,
como foram a hidrel6trica de Tucurufi e
as minas de Carajds, e comega a ser a
hidrel6trica de Belo Monte.
Chega gente de todas as parties, mas
a maioria nao tem qualificarao para ser
empregada nesses "grandes projetos".
Seu destino acaba sendo as cidades de
beira de estrada, a economic informal e
a criminalidade. Dos 10 municfpios mais
violentos do Brasil, quatro ficam no
Para, incluindo a capital. A violencia 6
generalizada. 0 crime se torna um meio
de vida. Proliferam os pistoleiros. Um
assassinate pode ser encomendo por
menos de 100 reais.
Problems que normalmente seriam
considerados rurais se urbanizam. As


periferias de Bel6m e Manaus lembram
campos de refugiados: 6 onde se en-
quistam os migrants do campo, que sao
exclufdos do mercado formal urbano. A
maior favela horizontal 6 o Paar, com
mais de 150 mil habitantes, na periferia
da capital paraense.
Crimes ocorrem ali corriqueiramen-
te. Bandos se formam para agir no cen-
tro da cidade, onde moram os "bacanas",
e se esconder em suas tocas. Mas tam-
b6m hA bairros mais pr6ximos das areas
enriquecidas nos quais os policiais pen-
sam duas vezes antes de entrar, quando
entram por suas vielas e esconderijos.
Se puderem, preferirao ficar ao largo.
E um process social complex e,
As vezes, assustador quando rompe as
cadeias da segregaqao. Como aconte-
ceu quando o prefeito de Manaus foi
vistoriar uma area perif6rica onde tinha
ocorrido deslizamento de terra e tr8s
pessoas morreram. Diante de uma mo-
radora relutante em sair do local, consi-
derado de alto risco, o prefeito reagiu
com uma frase que o tomaria tristemen-
te c6lebre: "EntUo morra, morra".
Ao saber que a recalcitrant era
paraense, Amazonino Mendes, filho
de paraense, completou a fraseolo-
gia infeliz: "Entao estA explicado". 0
Pard, terra de imigrantes, comega a
se tornar tamb6m ponto de fuga, ape-
sar das riquezas que o tornaram o
quarto maior exportador do Brasil e
o segundo em saldo de divisas,s6
abaixo de Minas Gerais.
Um bairro de Manaus 6 praticamen-
te ocupado apenas por paraenses, vfti-
mas de uma dispute bairrista entire os
dois Estados e do preconceito da terra
de adogio, o que at6 recentemente pa-
recia impensavel. Sao realidades com-
plexas que comp6em um conjunto mul-
tifacetado do que muitos consideram ser
a Amaz6nia, como se ela fosse una e
correspondesse A id6ia dos que se pro-
clamam seus int6rpretes ou salvadores.
Ledo e amargo engano.


tores, p6s-festas digitais-cidadis das ocasilo de declarag6es intempestivas lhas anenc6falas. Esquegam esse so-
eleig6es? Parab6ns pelo artigo, preza- estapafdrdias. Debitou-se ao Iftio que ci6logo (assim como esquecemos o
do Licio Flavio. nio tomara. outro), vamos falar de MillOr Fernan-
Dante Caleffi, Rio de Janeiro-RJ Antonio Carvalho, Fortaleza- des, Vargas Llosa, Gabriel Garcia Mar-
- Publicitario E o Peru deixou de CE advogado Bom artigo. Pare- ques, Machado, Monteiro Lobato, Eu-
ter o seu Sarney... Emir Sader nesse ce que algu6m pensante resolve rom- slides da Cunha e tantos outros que
epis6dio lembrou Ulisses GuimarAes por per a barreira da hipocrisia das patru- honram a humanidade.


MARQO DE 2011 2AQUINZENA Jornal Pessoal







Os velhos casaroes da


Corn carradas de razdo, Maria Ldi-
cia de Medeiros observou: "A riqueza
de Bel6m o luxo, eu diria eram os
grandes e generosos espagos de morar
com seus jardins e quintais, s6tAos e
pores, varandas e alpendres". Nenhum
desses magnificos casar6es, em ndme-
ro cada vez menor, A media que passa
o tempo, foi tio bern descrito quanto em
Uma casa chamada 14, livro que re-
cebeu o Premio IAP (do Instituto de
Artes do Pard) de Literatura de 2002.
E uma preciosidade, que faz jus ao
ditado popular, segundo o qual os me-
Ihores perfumes estdo nos menores fras-
cos. A descrigao finica que Maria Lii-
cia fez do casardo em que se criou, na
travessa 14 de Margo, coube em 74
pAginas, em format pequeno, da pou-
co divulgada edig~o do IAP. A velha
construgdo jA foi toda desfigurada, mas
teve pelo menos a felicidade de virar
mem6ria e literature, das boas.
Ha algum tempo insuflei meus leito-
res a apadrinharem uma casa, sua ou
de terceiros, e mandarem sua descri-
cgo, se possivel acompanhada de foto,
para que este journal tentasse pelo me-
nos salvar-lhe a imagem, ou a pr6pria
existencia. 0 paliteiro de concrete que
vai dominando o espago da cidade se
estabelece nao s6 nem principalmen-
te sobre terrenos vagos: substitui os
velhos casar6es destacados pela sau-
dosa escritora bragantina.
Quando seus donos, ocupantes ou
cobigosos podem, p6em tudo abaixo
sem o menor constrangimento. Sem d6
nem piedade. Quando hi alguma vigi-
lancia, vao destelhando aos poucos a
casa e derrubando paredes internal at6
que dela reste a fachada. Sao cupins
vorazes e eficientes, que disfargam sua
aqao solerte mantendo as aparencias
por algum tempo.
Um dia, quando se percebe, um
quarteirdo vein abaixo, casa ap6s casa.
t o destino que algumas ruas tiveram e
outras se encontram na iminancia de ter,
como a bela avenida 16 de Novembro,
com sua sucessdo de casas ocas, sem
entranhas, prontas para o abate da es-
peculagao imobiliAria.
Apenas Lopo de Castro Jr. atendeu
ao convite, mandando um relato e uma
fotografia da mansdo que foi residencia


da sua famflia e hoje abriga uma ag8ncia
bancaria, num dos "largos do redondo"
da cidade, na conflu8ncia da Nazar6 comr
a Quintino Bocaidva, onde, na continui-
dade, hi um magnifico conjunto de ca-
sas, em parceria corn o palacete da es-
quina, na mira dos cupins imobilidrios.
Quero renovar o apelo para os aman-
tes desta infeliz cidade adotarem uma
casa e se interessarem por sua salvaqao
e mem6ria. Mesmo que nao consigam
fazer algo de concrete em proveito da
construqao, podem chamar a atengqo e
interessar outras pessoas. Por isso deci-
di reproduzir um dos trechos do livro de
Maria Lucia, irma do rec6m-falecido
desembargador Ricardo Borges Filho.

M esmo morando no-
Rio de Janeiro hA
muitos anos, ela
nao perdeu a intimidade
com o casarao que se entra-
nhou na sua vida. Sua reconsti-
tuiqao 6 minuciosa e viva. Nao s6 da
casa, mas do universe do qual ela fazia
parte, components de uma cidade corn
caracterfsticas pr6prias, convict das
suas propriedades (e originalidades).
Quem tamb6m viveu numa dessas
velhas residencias, muitas das quais se
tornaram ou estao se tornando cente-
narias ao long destes anos do s6culo
XXI, vai rever epis6dios da sua vida e
do modo de viver nesses elements fun-
damentais do que foi a Bel6m agora em
mutagdo forgada.
Logo na primeira pigina do livro,
Maria Ldcia reconstitui a varandinha,
element basico da estrutura da casa,
onde sempre estava A sua espera "o
copo d'Agua, a escova de dentes corn
pasta pousada em cima dela, a bacia no
trip com Agua temperada para lavar o
rosto". Em seguida, o caf6 da manhd,
em mesa posta corn louga branca, "bei-
ju alvo, pao grelhado, torradas fininhas
onde a manteiga Real era passada corn
pena de galinha para nao quebrar, e eu
ali, rainha em aprendizado".
Era a casa-grande urbanizada, trazen-
do para a cidade relaqdes sociais, obje-
tos, hibitos, costumes e cultures do inte-
rior e do Estado da Europa, os mundos
do servo (ainda que nao mais escravo,
dependent, extensao da familiar) e do se-


nhor, antit6ticos, mas nao necessariamen-
te antag6nicos, sobrevivencia anacroni-
ca, mas nao uma forma de exploraqao
as claras ou definida. Diferenqas atenu-
adas e que formavam simbioses e sin-
cretismos em funqao do patriarcalismo,
corn suas regras mais difusas do que as
da plena urbanizaqao. Em certo trecho,
Maria Ldcia chama de "cria", por ser
uma pessoa realmente criada na casa da
sua familia, algudm que, em outro con-
texto, seria apenas criada, servente. A
carga de sentiments 6 mais complex
do que pode admitir uma andlise ortodo-
xa de classes sociais.
Um mundo composto de elements
como o filtro de barro para a agua fria
(sem ser danosamente gelada), os pesos
de papel, a lata de biscoitos Aymor6, o
purgante, o urinol (chamado de capitao),
o saquinho de pano amarrado na boca
da torneira para filtrar a ferrugem da
agua (como ainda hoje, infelizmente), o
p6 de bucha usado na limpeza junto com
o sabao (de cacau), a lavanderia fora da
casa, as roupas lavadas corn galhos chei-
rosos acrescentados na secagem, as cru-
zetas para transportar os trajes passa-
dos a ferro a carvao, as panels de fer-
ro, os cheiros, sempre presents (os ru-
ins, como pitid, pix6 e catinga; os bons,
predominantes, com as ervas japana, uri-
za e pataqueira; ojasmim dojardim), os
abanos, as tdbuas corridas de acapu e
pau amarelo no assoalho, a torta de avid,
a pescadinha da mar6 vendida em "fi-
eiras" seiss ou oito delas enfiadas pela
guelra numa tala dura), a came com-
prada nos talhos e embrulhada em fo-
lha de guaruma, a baunilha enrolada em
papel de seda, carogos de cacau ou
cupuaqi que eram colocados ao sol em
tabuleiros para secar e virar chocolate,
a sentina (ou retrete) separada do ba-
nheiro, a telha va usada na cobertura,
por ser mais fresca, os penteados (pito
ou coque), o cafun6 depois do almoqo,
a miquina de costura (e seus dedais e
complementos). Caracterfsticas da to-
pografia e da toponimia de uma cidade
portuguesa nos tr6picos, como o Mar-
go da Ldgua. Expresses pr6prias da
fusdo colonial, como canto, cobrinha
filaa), agarro (vinculaqao afetuosa). Ex-
press6es que a autora enfileira ao final
do livro, no "Dicionario da 14".


SJornal Pessoal MARQO DE 2011 2"QUINZENA







Belem que desaba


Reproduzo a seguir um pequeno tre-
cho do livro, o mais especifico sobre a
casa e sua rua. Espero que sirva como
motivagdo para os leitores.

A CASA DE LUCIA
A "14", como chamAvamos, ficava
na 14 de Margo e esse era um hrbito
engragado na minha famflia: as casas
tomavam o nome da rua. A de vov6
Janina era a Sdo Jer6nimo e hoje, muito
embora a rua haja mudado de nome,
continuamos a chamA-la assim. A da
mamae era a Benjamin, a da Dinda a
Mauriti e assim por diante. A "14" era
uma casa puxada como parte das ca-
sas de Bel6m. Ndo sei se era constru-
go portuguesa adaptada A terra. S6 a
parte nobre, que geralmente tomava
toda a largura do terreno, tinha o teto
forrado. JA a puxada, resguardada por
um reposteiro, era, assim como os quar-
tos, de telha vd. Havia tamb6m diferen-
qa no assoalho, que at6 a varanda era
de largas tabuas de acapu e pau ama-
relo. Da puxada em diante, todo ele era
de acapu. A casa ficava assentada so-
bre pilares de talvez 50 cm, que se cha-
mavam "castelo". Isso refrescava e
evitava o apodrecimento das tibuas. Na
frente da casa eles eram encobertos por


uma parede, tendo geralmente abaixo
da janela uma abertura em circulo corn
grade de ferro trabalhada. Quando a
gente passava pela frente tinha sempre
um ventinho bom, pois o ar ficava en-
canado, como se diz.
Havia muitas casas de pordo alto, ha-
bitAvel, onde se passava a roupa ou as
estendia em dias de chuva e em que at6
alguns empregados dormiam, mas na
frente sempre essas r6tulas. Na 14, tal-
vez tres ou quatro fossem assim, o resto
guardava uma simetria. Casa com quemr
dividiamos as paredes e o sagudo era da
D. Isaura, senhora muito amiga e sim-
pAtica, que sofria crises de espirro, as
vezes logo pela manha, o que fazia mi-
nhas tias dizerem: "D. Isaura hoje co-
meqou cedo!" Tinha filhos e um tocava
lindamente piano, o que dava A rua um
ar de festa, de vida leve e alegre. De-
pois vinha uma casa mais alta, corn tres
janelas (com cinco se dizia que era no-
bre), onde tivemos vizinhos diferentes, jr
que era de aluguel. Um dos dltimos fo-
ram os Caqulo de Melo, gente boa e agra-
davel. Ap6s, vinham os Rego Barros,
corn muitas filhas, regulando algumas
comigo e 6ramos muito amigas. Quando
vinham em bando chamar-me, vov6 Ma-
rocas dizia: La vem as borboletinhas".


Brincdvamos de roda, de pam-pam-pam,
chicote- queimado e uma infinidade de
brincadeiras. Na rua, onde s6 passava
carroga e as portas eram sempre aber-
tas, mesmo assim, na janela, uma cria
tomava conta de n6s. Junto A casa dos
Rego Barros, moravam os Virgulino ain-
da aparentados nossos. Dona Tet6, mui-
to amiga da vov6 Marocas, pois regula-
vam a idade, todas as manhds ia A missa
e na volta entrava para um dedo de pro-
sa, ndo sem antes gritar: "Marocas, pren-
de a Manon!", pois havendo sido mordi-
da por cachorro uma vez, mesmo a pe-
quena e inofensiva Manon, cachorrinha
vira-latas que era da tia Nina, Ihe metia
medo. Depois vinha um grandejardim e
pomar com uma bela casa recuada. LA
morava Dona TatI, que vez por outra nos
presenteava corn os mais deliciosos aba-
cates que ja comi na vida. Vinham sem-
pre num prato coberto corn paninho ren-
dado ejamais voltava vazio, pois era fal-
ta grave faz8-lo. Terminando o quartei-
rao, esquina corn a S. Jer6nimo (a 14 fi-
cava entire esta e a Nazareth), ficava a
farmAcia do seu Veiga, nos funds, dan-
do, portanto, para a 14, a casa de mora-
dia de D. Miloca, mulher dele, era muito
bonita e passou a beleza para as quatro
filhas como tamb6m para o finico rapaz.


Endividamento geral


A margem de mais um escindalo que
estourou na Assembl6ia Legislativa por
causa de fraudes praticadas na folha de
pagamento de pessoal, ha uma questdo
de gravidade national. 0 problema saiu
dos gabinetes e corredores a partir da
constataqAo de que uma servidora tem-
poraria, que, apesar dessa condigqo,
chefiava a segqo, nao s6 conseguia
empr6stimo com desconto em folha,
apesar de nao ser servidora estdvel. Ia
al6m dessa irregularidade: os empr6sti-
mos superavam e muito o permissi-
vo legal, que 6 de no maximo 30% do
valor dos vencimentos.
Antes que o assunto chegasse as
manchetes da imprensa, um graduado
integrante de um dos tribunais da terra
havia garantido que, depois de investi-
gar o tema, chegara A constatagao de


que 85% dos servidores p6blicos, em
todos os niveis, esto endividados, por
conta do desconto em folha, o empr6s-
timo consignado, que o governor Lula
transformou em farra e 6 uma das ori-
gens de outro escfindalo, muito maior: o
do "mensalao" dos parlamentares.
Segundo a fonte, o percentual de
comprometimento do salArio vai de 30%
a 70% do que esses gastadores deveri-
am receber. A compulsdo pelo consu-
mo e as despesas descontroladas leva-
ram os bancos a oferecer cr6dito em
100 meses. Acontece que alguns dos
devedores, depois de fazer o contrato,
fecham a conta num banco e a abrem
noutro, criando problems para o res-
sarcimento dos empr6stimos.
Por isso o Itad e o Santander, ainda
de forma cautelosa, iniciaram uma cam-


panha subliminar em favor do consume
consciente. Sabem que, a se manter a
progressed, vai estourar tudo. Varios
ministros das altas cortes dajustiga, tanto
as estaduais quanto as federais, estao
endividados, embora recebam saldrios
altos. Tamb6m ministros do poder exe-
cutivo. E daf pra baixo. Muitos jd estao
nas mros de agiotas.
A independencia e autonomia do ser-
viqo pdblico estao ameaqadas por essa
corrosao por dentro, como "nunca dan-
tes" na hist6ria do Brasil. Foi para ga-
nhar contas para empr6stimos consig-
nados que alguns bancos se dispuseram
a pagar "por fora" para politicos e ou-
tros agents graduados do poder pdbli-
co. E um virus corrosive que lavra, in-
controlAvel, nas entranhas do serviqo
pdblico. Nao s6 no legislative do Pard.


MARCO DE 2011 2AQUINZENA Jornal Pessoal a


_C II -1 -111
















ADVOGADOS
Quatorze estudantes con-
clufram sua graduagio pela
Faculdade de Direito do Pard
em 1949. A data era especi-
al: comemorava-se entio o
centendrio do nascimento de
Rui Barbosa, considerado a
maior gl6ria da advocacia no
Brasil (dentre outros tftulos).
Formaram-se advogados:
Alberto Bordalo (advogado
militante, Alice Antunes
(que se tornaria professor
e political), Artemis Leite da
Silva (que iria para o Minis-
t6rio Pdblico do Estado),
Antero Sizudo (que se mu-
daria para SAo Paulo), Ajax
Carvalho d'Oliveira (prefei-
to de Bel6m), Benedito Pa-
dua Costa (polftico e jorna-
lista), Celia Segtowich Pam-
plona (que morreria cedo),
Guilherme Vaneta (funcio-
nArio pdblico), Jdlio Lira
Neiva, Jos6 Alberto Couto
da Rocha (advogado), Os-
valdo Melo (politico de lon-
ga carreira), Paulo Cdsar de
Oliveira (advogado), Pedro
Bentes Pinheiro (auditor do
Tribunal de Contas do Esta-
do) e Rudi Frade Palmeira
(advogado).

LICENCIOSIDADE (1)
Em 1953 o deputado esta-
dual Armando Mendes (o
tnico ainda vivo), o despa-
chante Jovelino Coimbra e o
universitArio (e future minis-
tro do Tribunal Superior do
Trabalho) Orlando Costa fo-
ram ao gabinete do director da
seguranga pdblica, major
Waldemar Alexandrino Cha-
ves. Em nome da Ag o Ca-
t61ica, que representavam,
pediram providencia h auto-
ridade contra a "licenciosida-
de" que estaria campeando


nos teatros Poeira, Nazar6 e
Variedades, "principalmente
nos trajes das artists e nas
hist6rias que sAo apresenta-
das A plat6ia". Tudo por con-
ta das festividades do Cfrio
de Nazar6, que se prolonga-
vam durante duas semanas


na praga Justo Chermont, em
frente A basilica.
0 major chamou o dele-
gado Diniz Ferreira para
explicagqes. 0 future s6-
cio de Otivio Mendonqa
em important escrit6rio de
advocacia de Bel6m disse


PROPAGANDA

Nas asas do credit
Em 1959 o marketing ainda era rastico, mas a Y Yama-
da jd fazia da venda a credito o seu maior apelo comer-
cial. Uma entrada suave, a dispensa do fiador, presta-
Voes longas (embora ndo tdo quilomitricas quanto as de
hoje, nem tdo caras), instalagdo gratuita em domicilio e
assistincia durante 10 meses, "tambdm gratuita". E a qua-
lidade do produto. No caso, um fogdo Philips a gds de
querosene, "que tem a chama mais quente". Ainda ndo
havia o dinheiro de pldstico, mas Junichiro Yamada con-
trolava pessoalmente os carnms de cridito, que fariam a
empresa passar da loja mnica, na Manoel Barata, esqui-
na corn a Campos Sales, para a extensa rede atual.


que "nio houve e nio hA
necessidade de fazer uma
censura pr6via, como era
de seu prop6sito, em virtu-
de de o pessoal ter chega-
do no dia da estr6ia, e nao
haver um program traqa-
do de representaqoes".
0 major-secretArio tam-
b6m se explicou. Confessou
para os iracundos membros
da comissdo ter estado no
largo de Nazar6 e observa-
do "que tudo estava muito
livre, nao tomando qualquer
attitude para que a sua polf-
cia nao fosse taxada de vi-
olenta e perseguidora".
Mas que, corn a queixa dos
membros da A~io Cat61ica
ia procurar o secretArio de
Interior, Daniel Coelho de
Souza, para Ihe transmitir o
pedido.

LICENCIOSIDADE (2)
Se dependesse da Folha
do Norte, tudo continuaria
como estava porque esta-
va muito bem. 0 pr6prio Pau-
lo Maranhao deve ter escri-
to a nota de encerramento da
mat6ria a respeito da ira
moral dos lideres cat61licos,
sem a assinar:


JLornal Pessoal MARQO DE 2011 2-QUINZENA


--COIN A N 40 J. r








IS FIADORI







/t I r,4l eSoSo.Z 4j t e, a clarnT mAse 9U/
Euj PHILIPfI...S....:..d6rr..St...

fM^Vll \^/ ^SS~AMIfMSBa'^^0*^


\6o/w w EOSSSESBE


I





FOTOGRAFIA


Anos dourados
Conta a lenda que ao passar diante
de uma tela da (ltima Ceia, Maria
Eunice Dantas Ribeiro se virou para
o marido e comentou: "Deusdedith, 3
ndo estou nos vendo at. Nao fomos 71
convidados? ".
Claro que a histdria foi inventada,
mas serve para dar uma media do
que o casual representou para a socie-
dade paraense na segunda metade do
sdculo passado. Ninguim recebia mais
e melhor do que os Dantas Ribeiro,
ela filha do banqueiro e empresdrio
Ant6nio Josd Cerqueira Dantas (que
tambdm era primo de Deusdedith),
herdeira de uma das maiores fortunes
de entdo. 0 palacete da Padre Euti -
quio, projetado e constru do no mais
apurado estilo funcional por Camilo
Porto de Oliveira (hoje ocupado pela
familiar do tambi m ex-banqueiro e
empresdrio aldm de politico Oziel
Carneiro), era um pontos de gravita-
fdo social de Belem.
Menino, morando perto, Os vezes pas-
sava por ali e ficava no belo gradil, ad-
mirando o saldo oval de maisica, corn
teto de vidro, sobre o qual se esparra-
mavam galhos de um belo flamboyant.
As vezes podia ver Dona Eunice dedi-
lhando o piano, como se estivesse en-
cenando para um filme de Hollywwood
da dpoca, corn glamour e requinte, nela
components perfeitamente naturais.
Muitos anos depois, quando jd dra-
mos amigos e ela ndo podia mais tocar,
eu colocava umn disco e ouviamos uma
mtisica que tinhamos em comum nas
nossas prefergncias: o concerto ntimero 2 de Rachmaninov. Ela se emocionava e chorava, despedindo-se de umn
mundo no qual pontificou como grande dama.
Dama que abria caminho para as filhas. Nesta foto, Lena Vdnia, embora a carter, como deusa grega, preferiu ndo
desfilar. Jd Maria da Graga, mais brejeiramente como india, alegre e faceira, abiscoitou como se dizia o titulo de
princess do carnaval de 1957. Anos dourados de verdade. Lembranfa rejuvenescedora para quem os viveu tdo
intensamente como Eunice, Deusdedith e sua familiar.



"Ha exagero na reclama- bdm ji assistiu a espetAcu- CIRURGIAO Maraj6], sofreu grave aciden-
qdo. O pr6prio Sr. Chefe de los nesses mesmos teatros Nota tfpica de Paulo Mara- te nos campos onde pastam
Polfcia esteve sozinho as- sem acusar ofensa A sua nhdo na coluna "Vozes da seus quadrdpedes. Algumas
sistindo, h6 dias, a umrn dos sensibilidade. Rua", da Folha Vespertina, v6rtebras quebradas exigiramrn
espetdculos no Poeira e on- E completava com teste- em 1959, que retrata a Bel6rn que lhe fosse colocado umrn co-
tern 16 voltou em companhia munho pessoal: "N6s tam- pequena e dom6stica (de mu- lete de gesso. Vimo-lo umrn dia
de sua famflia. Ndo com- bMm 1I temos estado e nada ros baixos e onde todos se co- destes a guiar autom6vel nes-
preendemos, portanto, a sua observamos que possa ferir nheciam) de entAo: "O Dr. Ar- sas condig6es, e 6 bemrn possf-
restriqio. A famflia do Sr. o decoro da assistencia". mandoMorelli, eminentecirur- velque a suamdointr6pida no
general Assumpqgo [go- Era a Tradicional Familia giioe,comotodossabem, tam- tarde, assim mesmo, a mane-
vernador do Estado] tam- Paraense (TFP) em aqgo? bmrn fazendeiro [na ilha de jarodestrobisturi".

MARCO DE 2011 2AQUINZENA Jornal Pessoal












GOVERNO
Desta vez Ihe escrevo para
me manifestar sobre o seu ar-
tigo "Tucanos no chio", publi-
cado em sua edigio da 10 quin-
zena de margo deste ano.
E um fato que jA estamos
adentrando no 3*. mfs do atu-
al governor e ainda nao temos
um norte do que efetivamente
o mesmo de concrete vem a
fazer e por consequgncia ja-
mais vai imprimir a sua marca
se nio ousar tomar attitudes
que demonstrem a que veio.
De fato, o que ouvimos s5o
rumors de que o governor pas-
sado deixou a casa bern desar-
rumada. 0 que 6 uma grande
verdade. Pois grandes foram as
mazelas deixadas pela ex-go-
vernadora Ana JOlia Carepa. A
pior governadora do Estado do
Pard, desde a proclamacio da
Repoblica. Corn direito a publi-
ca-io em primeiro lugar como
a pior governadora do pals na
revista Veja, tal a incompetdn-
cia demonstrada.
Todavia, o atual governor ain-
da nio demonstrou o que
vai fazer efetivamente para se
corrigir tamanho desmazelo.
Assim, nao adianta o governor
ter o conhecimento das falhas
havidas se nio aponta essas
falhas com exatidio, cobrando
judicialmente corre;5es e reque-
rendo puni;6es para mostrar a
populagio que nio 6 compla-
cente com as attitudes de mal-
fadadas e que realmente o cri-
me nio compensa.
Estamos cansados de falaci-
as e de complacencias. As leis
estio ai para serem aplicadas,
desde que o jurfdico seja cha-
mado, pois, por natureza, 6
inerte, devendo os valores
apropriados indevidament se-
rem devolvidos corn juros e cor-
reqio ao erArio pdblico. E os
crimes sejam punidos inclusi-
ve corn pris6es.
Todavia, infelizmente, fico
desesperancada em ver que
parece que estamos entrando
em uma falacia. Que ningu4m
vai responder por todas as pe-
nalidades que a populagio so-
freu. Pois foi deixada A mingua
em todos os sentidos, havendo
indicios que houve apropriacao
indevida, entire outros. Pois
muitos ate morreram pelo des-
caso na saide publica e segu-
ranpa. Alem das p6ssimas con-


dioSes ofertadas nas escolas
publicas. Um desddm terrivel.
As acusaS6es insidiosas que
fizeram ao secretdrio Sidney
Rosa e apenas uma das mui-
tas que o PT vai fazer enquan-
to estiver apeado do poder. E
isso tudo nio justifica a com-
placencia que o governor Jate-
ne vem mantendo cornm relaIio
As falcatruas ofertadas. Isso
tudo nio s6 Ihe dd descr4dito
como desgasta a todos. Inclu-
sive jd compromete as eleicSes
de 2012. Pois nio basta s6 pas-
sar o ano de 2011 tentando ar-
rumar a casa, mas efetivamen-
te arrumd-la e cobrar de quem
deve e fez esta casa estar de-
sarrumada.
Tal indolencia, cornm certeza,
sera cobrada nas urnas. Ade-
mais, a populagio quer trans-
parencia, inclusive nas contra-
tac6es. Chega de contratar pes-
soas simplesmente por indica-
co. Mas que se demonstre que
sio pessoas capazes. Que es-
tao comprometidas cornm o tra-
balho ofertado e tern capacida-
de tecnica para ocupar o cargo
que Ihe 6 ofertado. Se nio,
mesmo que nao cheguemos
aos 2.500 assessores da gover-
nadora, chegaremos a 1.000,
mas onde efetivamente, s6
10%, no mdximo, estario aptos
para exercer a funvio que ocu-
pam. I muito melhor 100 profis-


Karl Marx nunca deu mui-
ta atengao A natureza. Pes-
soalmente, sabia da sua im-
portAncia e a cultivava em
longos passeios corn a famf-
lia pelos maravilhosos par-
ques de Londres. Mas quan-
do se sentava por longas ho-
ras de trabalho em sua casa
ou no Museu BritAnico, fu-
mando, bebendo ou tomando
caf6, queria era saber da his-
t6ria humana. Era, etimologi-
camente falando, um huma-
nista pleno. Seu prop6sito era
libertar a grande maioria dos
homes da tirania de poucos
homes. A natureza era pano
de fundo dessa luta titinica -
e a ela se devia amoldar.
Nio surpreende que os
paises que o adotaram por
inspiragio tenham acumula-
do desastres ecol6gicos,


sionais com DAS elevado ,mas
competentes, do que mil, mas
incapacitados e levados pelo
Q.I. simplesmente. Devendo,
em tudo isto, ser levada em con-
sideraqio a opinion pdblica.
E, nesta luta sua como intr4-
pido jornalista, me junto para
clamar por mudanqas positivas
neste Estado. No sentido de que
se despertem enquanto ainda
L tempo. Pois, nlo posso acei-
tar que este governor se mante-
nha omisso perante tantos des-
calabros. Ou vou comeCar a pen-
sar que os acordos para a elei-
cio foram tantos que se tem
que empurrar tudo para baixo
do tapete. Desta forma, ou o
governor se desperta ou tudo
ir6 por Agua a baixo e teremos
que aceitar que tudo nio passa
de farinha do mesmo saco. E,
como protest, tenhamos que,
nas pr6ximas eleic6es, como
protest, votar em nulo, pois nio
aceitamos nenhum candidate
ofertado, pois todos se demons-
tram uma perfeita nulidade.
Solange Mota

BENEDITO
Minha manhi de sAbado
nio poderia ter comegado
mais bela: recebi o JP e, sem
passar pelas "miserias e ma-
lignidades" que tens o dom de
tornar inteligiveis, fui direto As
palavras luminosas que dedi-


como a Uniio Sovi6tica, a
China ou as naq6es do leste
europeu. Ou que assim raci-
ocine um dos tiltimos exem-
plares dessa raga em extin-
qao, o Partido Comunista do
Brasil. Aldo Rebelo, deputa-
do federal do PC do B, 6 o
autor do projeto do novo C6-
digo Florestal.
0 que hA de mais pol8mi-
co no seu conteddo 6 a dis-
posiqio de permitir a amplia-
qdo da drea passfvel de des-
matamento naAmaz6nia. Ele
acha que assim regularizarA
situag6es que se estabelece-
ram A margem da lei, mas se
tomaram irreversfveis, e des-
travard a tranca que impede
o desenvolvimento da peque-
na agriculture ou de unidades
que, embora maiores, slo al-
tamente produtivas.


caste ao Bend. Teu texto me
concede moments preciosos
de reflexao, a grata alegria de
meditar sobre ele, sobre a sua
vida e sobre a responsabilida-
de que temos em te-lo conhe-
cido. Essa responsabilidade,
marca saliente dos teus textos,
e generosidade de sdbio. Nao
sou menos herdeiro do que tu,
nesse sentido. Fico lisonjeado
pela proximidade do meu
nome ao lado daquele que
mais estimo.
Victor Sales Pinheiro



Correi6es
Pensei no Simon e escre-
vi Salman Schama, no artigo
sobre os intelectuais da edi-
qao passada. Devia estar
corn a cabeqa na Libia.
Escrevi trimestre no lugar
do bimestre tucano. 0 go-
vernador deve estar achan-
do que quero subverter o
calendArio dos seus dias de
governor, para abreviA-lo.
E a barra, que estA muito
pesada.
Perdio, leitores. Por es-
ses erros e outros mais.


No entendimento do de-
putado comunista, as entida-
des ambientalistas que se
op6em ao novo C6digo utili-
zam arguments suposta-
mente cientificos em favor
da preservaqio da natureza
ou humanitarios para escon-
der o que interessa: impedir
a concorrencia international
da agriculture brasileira, que
jA assustaria os principals
controladores do mercado de
alimentos. E por isso que es-
sas ONGs recebem dinheiro
dos Estados Unidos e da
Europa para o seu proselitis-
mo. A ecologia seria apenas
um disfarce para o interesse
commercial.
JA as ONGs devolvem o
mesmo tipo de raciocinio
para dizer que por trAs do li-
der do PC do B esti o agro- ||


Jomal Pessoal

Editor: Licio FlIvio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: lfpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br
Diagramagio e ilustrag6es: Luiz Antonio de Faria Pinto luizpe54@hotmail.com *
luizpe54@gmail.com chargesdojomalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.com


Ejornal Pessoal MARQO DE 2011 .2QUINZENA


Cavaleiro da destruigao


--






Conseguira a justiga fazer Romulo Junior compareeer?


Desde janeiro de 2009 ojuiz federal
tenta ouvir, sem sucesso, o empresario
Romulo Maiorana Junior, principal exe-
cutivo do grupo Liberal, em uma aco
penal proposta pelo Minist6rio Publico
Federal, por crimes contra o sistema fi-
nanceiro national, a partir de "medidas
investigat6rias sobre organizaq6es cri-
minosas" da Receita Federal. Ele devia
ter prestado depoimento no dia 2 de fe-
vereiro deste ano, mas s6 seu irmio, Ro-
naldo Maiorana, e mais dois diretores
da corporaqAo, Fernando Nascimento e
Pojucan de Moraes, tamb6m denuncia-
dos pelo MPF, compareceram a 4A vara
federal, em Bel6m.
Na v6spera, o official de justiga de-
volveu os quatro mandados de intimaq~o,
um dos quais no foi cumprido,justamen-
te o de Romulo Jdnior, que estava de f6-
rias em seu apartamento em Miami, nos
Estados Unidos, recentemente adquiri-
da. S6 regressou cinco dias depois da
data da audiencia.
Em 22 de novembro do ano passado,
quando seria realizada a terceira audien-
cia, marcada desde que a acao foi rece-
bida pela justiga federal, em agosto de
2008, o juiz Antonio Campelo observou
em seu despacho que as sess6es desig-
nadas vinham sendo "postergadas por
raz6es diversas". Mesmo assim, aceitou
marcar nova data, para o dia 10 de feve-
reiro deste ano, a pedido dos r6us.
No dia seguinte o Didrio do Pard
publicou mat6ria dizendo que o juiz an-
tecipara a audiencia de um dia para que
os r6us pudessem comparecer A justi-
ca sem estarem expostos A possibili-
dade de serem fotografados pelo jor-
nal do ex-deputado Jader Barbalho,
concorrente e inimigo dos Maioranas.
Um reporter do Didrio, que foi ao f6-
rum federal com a informagdo errada


sobre a data da audiencia, sentiu-se lo-
grado e o journal deu uma nota critican-
do o procedimento.
Nesse mesmo dia o juiz Antonio
Campelo mandou um oficio esclarecen-
do que a data previamente marcada,
quatro meses antes, era mesmo o dia 1
e que ele nao a alterara para proteger
os r6us ou impedir o trabalho da impren-
sa. Mas nio informou nesse offcio que
declarara o process sob segredo de
justiga. S6 revelaria esse detalhe impor-
tante quando, no dia 22, remeteu umrn
oficio a este jomal proibindo-o de publi-
car qualquer noticia sobre o process,
sob pena de prisAo em flagrante, pro-
cesso criminal e multa de 200 mil reais
(ver Jornal Pessoal 483).
Tres dias depois ojuiz voltou atras e
revogou parcialmente a decision anteri-
or, mantendo o sigilo apenas sobre da-
dos bancArios e financeiros, admitindo
que sobre o resto prevalecia o direito
de informag.o e a liberdade de impren-
sa. Determinou que o despacho fosse
publicado na fntegra e informados a res-
peito "os principals peri6dicos desta
capital". 0 oficio foi enviado ao Didrio
do Pard, a 0 Liberal e ao Jornal Pes-
soal, o tnico que noticiou sobre o que
ocorreu na audiencia, quando os tries
r6us depuseram.
Na ocasiao, Ronaldo Maiorana con-
fessou ter praticado fraudes para con-
seguir receber recursos dos incentives
fiscais da Sudam (Superintendencia do
Desenvolvimento da Amaz6nia) para a
implantaqao de uma fibrica de sucos
de frutas regionais na Area metropolita-
na de Bel6m.
Al6m de revogar parcialmente sua
decisao anterior, ojuiz Antonio Campelo
ordenou que fosse aguardada "a conti-
nuidade da audiencia de instruqao e jul-


gamento", iniciada no dia 10, designan-
do-a para o dia 17 de maio. Determinou
a intimaqio pessoal de Romulo Maiora-
na Junior, "por mandado com urg8ncia".
At6 o dia 21 a ordem no havia sido cum-
prida, quase um mes depois.
A primeira audiencia do process,
marcada em 22 de janeiro de 2009, de-
via ter ocorrido em 17 de fevereiro.
Como Allan Marcel Warner, testemu-
nha indicada pelos r6us, mudou de do-
micilio para o Rio de Janeiro, a audien-
cia foi suspense para que ele fosse ou-
vido atrav6s de carta precat6ria.
Acartafoi devolvida em junho, corn o
depoimento. Os Maioranas pediram c6-
pia do document, o que levou a novo adi-
amento da sessao, para 23 de margo do
ano passado. Os r6us recorreram entAo a
um habeas corpus e a um mandado de
seguranqa para trancar a aqao, mas nao
foram bern sucedidos junto ao Tribunal
Regional Federal da 1" Regiao, que ne-
gou os pedidos. GraCas a esse incident,
por6m mais uma audiencia fracassou.
Em 2 de setembro do ano passado o
juiz Campelo, considerando "a necessida-
de de reorganizaqAo da pauta", redesig-
nou a audiencia para o dia 23 do mesmo
mes. No dia 20, por6m, fez nova alteracqo,
agora para o dia 28 ainda de setembro. Ro-
mulo Maiorana Jinior, por6m, pediu que a
sessao fosse adiada e foi atendido: a data
ficou para 22 de novembro. Mas, exata-
mente nesse dia, houve nova deliberagqo,
para 1 de fevereiro deste ano, quando, afi-
nal, tres dos quatro r6us apareceram na
vara.Falta agora o personagem principal,
Romulo Maiorana Jdnior. 0 official dejus-
tiqa conseguira intimA-lo desta vez? E, em
assim sendo, o r6u irA ao f6rum federal
prestar o depoimento sucessivamente adi-
ado hA mais de dois anos?
Aguarde-se.


neg6cio, os latifundiarios e
outros agents da devasta-
Ao da Amaz6nia. Uma coi-
sa 6 certa: mesmo que nao
haja combinagdo, hA uma afi-
nidade entire o que Rebelo
defended e o que querem es-
ses senhores do campo. Um
absurdo? Nao: a matriz te6-
rica de Marx permit a com-
posigao com o capitalism.
Primeiro implantA-lo e faze-
lo desenvolver as forgas pro-
dutivas. Isto post, as con-
tradig6es entire capital e tra-
balho aflorarAo. 0 terreno
estara adubado para a sinte-


se: a revoluqao. Sem pertur-
baq6es ambientalistas.
0 discurso do parlamen-
tar, qualquer que seja a pers-
pectiva de quem o analisa,
deixa escapar um exotismo
em relaqao a Amazonia. Por
parte de quem ouviu falar
dela, aprendeu-a nos manu-
ais, mas no apalmilhou. Ou,
se a percorreu, no entendeu
o que viu.
Ele saiu em defesa de um
dos pontos do seu projeto que
mais reaq6es provoca: a ma-
nutengqo das Areas desma-
tadas as margens dos rios,


despidas das suas matas ci-
liares, fundamentals para o
equilibrio ecol6gico. "Como
expulsar da Amaz6nia quem
plant na beira do rio hA 200,
300 anos de forma sustenta-
da, como se estivessern co-
metendo um crime ambien-
tal?", argumentou.
0 conceito de ribeirinho 6
estranho ao deputado, mas 6
pertinente A hist6ria regional.
0 habitante das varzeas sabe
muito bem que derrubar as
Arvores enfraquece o solo e o
sujeita A erosao. A natureza
lhe ensina essa liqio corn o


fen6meno das "terras caidas",
em margens que sofrem com
a subida e a queda acentuada
da fimina d'fAgua nas estaq6es
de cheia e vazante. As mar-
gens descobertas sempre fo-
ram assim ou estio consoli-
dadas. S6 quem nao sabe dis-
so 6 o imigrante, personagem
estranho ao ambiente, ou
quem interpreta a Amaz6nia
a partir de referencias artifi-
ciais e A distancia. Como 6
o caso do deputado Aldo Re-
belo, arauto de uma visdo co-
lonial para os tr6picos com
discurso de libertAria.


MARQO DE 2011 2"QUINZENA Jornal Pessoal U


I






Rejeigio
Ao assumir a chefia do
Minist6rio Pdblico do Esta-
do do Pard, na semana pas-
sada, o procurador Ant6nio
Eduardo Barleta disse que o
atual quadro do MP, corn 320
membros, 6 insuficiente para
dar conta da sua missAo. Umrn
concurso pdblico foi realiza-
do recentemente, mas dos 28
aprovados, apenas 15 se
apresentaram para assumir
seus cargos.
O elevado indice de absti-
nencia, de quase 50%, certa-
mente nao se deve ao saldrio.
A carreira jurfdica 6 a mais
bem remunerada do servigo
pdblico e 6 alta se comparada
aos valores praticados no mer-
cado de trabalho pela iniciati-
va privada. Ainapetencia pode
ter como causa a recusa dos
jovens bachar6is de ir para o
interior do Para, que tem tres
das 10 cidades mais violentas
do pafs, de enfrentar as adver-
sidades e se afastar das co-
modidades da capital.
Um problema s6rio nio
s6 para o MPE, mas para
todos que precisam de pro-
fissionais qualificados nos
vastos e sangrentos sert6es
paraenses.


Decision
O Supremo Tribunal Fe-
deral estd decidindo, em vo-
tagio suspense pelo pedido
de vistas do seu mais novo
integrante, ministry Luiz Fux,
se o Conselho Nacional de
Justiga pode ou nao investi-
garjufzes antes de conclufda
a apuraqio de suas condu-
tas pelas corregedorias lo-
cais, suprimindo assim essa
instincia administrative. Se
os casos de procedimentos
administrativo-disciplinares
contra magistrados paraen-
ses servir de parametro, o
STF admitird que o CNJ apu-
re diretamente as dendncias.
Ou elas levam tempo dema-
siado para chegar a uma con-
clusao, ou a eventual puni-
6qo 6 branda. Ou nem sAo
levadas em consideragio,
por espfrito corporativo.


0 herpet6logo
Com riaquela
matdria de
1972, provavel-
mente foi a pri-
meira vez que
os leitores de
Veja encontra-
ram a expres-
sao num texto
da revista, en-
tio no apogeu
do seu prestf-
gio: herpet6lo-
go. O herpet6-
logo era o para-
ense Osvaldo
Rodrigues da
Cunha, pioneiro
e o principal
pesquisador de serpentes na Amaz6nia. Fora do Museu
Emilio Goeldi, por6m, poucos o conheciam.
Ele era avesso a entrevistas. Tinha conscirncia do seu va-
lor e da importincia que jd na 6poca representava para as
ciencias naturais, mas era humilde. Faze-lo falar sobre o
seu trabalho s6 foi mais fAcil do que convence-lo a se dei-
xar fotografar. Mas gostou da mat6ria e da sua image
na revista. Tornamo-nos amigos, embora s6 por acaso nos
encontrAvamos. Podia ser numa livraria ou quando cruzA-
vamos pelas ruas. Gostivamos de livros e de caminhar,
dois dos vbrios pontos em comum que alimentavam nosso
di rplogo.
Ao passar por sua bela (mas maltratada) casa, quase
sempre hermeticamente fechada, na qual vivia sozinho, per-
cebi novos inquilinos. JA doente, ele fora morar corn uma
parent, deixando algurm da famflia em seu lugar no ca-
sarao de azulejos da rua Rui Barbosa, entupido de livros,
discos, objetos de arte. No dia 11, Osvaldo Cunha morreu.
Recebeu as devidas homenagens da instituiq o A qual de-
dicou sua vida, mas continuava um ilustre desconhecido
para o grande pdblico.
Seu valor para o estudo dos r6pteis e, em particular,
das cobras, 6 incontestavelmente reconhecido. O trabalho
que mais lhe dava prazer, entretanto, era escrever sobre o
Museu Goeldi. Podia combinar sua forma qio cientifica corn
sua inclinago cultural mais ampla, numa figure que mis-
turava a condigio de naturalist, A moda antiga, A de um
intellectual recatado.
Os estranhos o consideravamrn sisudo, fechado e at6 hos-
til As aproximag6es dos desconhecidos. Mas era a delicia
das vendedoras das livrarias, especialmente da extinta Ponto
& Virgula, que virou seu pouso por uma caracterfstica sin-
gular: as atendentes eram todas do belo sexo e atencio-
sas, pacientes e divertidas. Corn elas, o carrancudo pes-
quisador ria, contava e ouvia piadas, e partilhava o born
humor e o saber corn quem estivesse pr6ximo. O solitirio
se tornava uma boa companhia, saudado pelas mogas, que
Ihe davam tratamento especial.
Era corn esse Osvaldo que eu dialogava entire livros,
um fundo musical, cafezinho e a atengio prestativa das
atendentes. Foi a dltima image que ele deixou, arrema-
tando corn graga sua fecunda bibliografia pioneira.


Liberdade
Quem estiver sofrendo
algum cerceamento no seu
direito a livre expressao, que
tern garantia constitutional,
pode tirar o cavalo da chuva
(ao menos no Para) se es-
pera por algum apoio institu-
cional. Parece que nenhuma
instituiqRo estA disposta a
brigar por essa liberdade
quando ela 6 constrangida
por um poderoso. S6 pesso-
as ffsicas se manifestam.
Quando se manifestam.

Memoria
HA muitos anos eu nao
recebia um telegrama envi-
ado atrav6s dos Correios. A
iniciativa tinha que vir do
coronel reformado da PM
Claudomiro das Neves, que
mora distant de mim umas
seis quadras. Ele agradeceu
pela dedicat6ria que Ihe fiz
no iltimo volume da Mem6-
ria do Cotidiano, que con-
tinua A venda em bancas e
livrarias.
Com sua proverbial gen-
tileza, o coronel diz: "A
exemplo do que habitual-
mente leio no Jornal Pes-
soal, foi mais uma oportuni-
dade que tive para apreciar
a coragem e o brilhantismo
corn que o ilustre jornalista
trata quest6es de grande im-
portancia social".
Sob sua dirego no Presf-
dio Sao Jos6, seus filhos ado-
lescentes e eu disputavamos
corn os detentos renhidas par-
tidas de basquetebol na qua-
dra do velho casarAo, que hoje
6o So Jos6 Liberto, merca-
do de j6ias e centro de folclo-
re. Nunca nenhum dos presi-
didrios nos molestou ou pla-
nejou alguma violencia con-
tra n6s. E no quinteto adver-
sdrio havia homicides, como
o Sangue Novo, cujo apelido
6 mais do que sugestivo. 0
jogo era bom e a conviv6n-
cia, sem qualquer reparo. Si-
tuagqo imaginAvel nos dias de
hoje, em que uma pessoa
como o coronel Anastacio 6
personagem da memrn6ria.
Muito afetiva