Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00363

Full Text



MARCO
a A Nomal Pessoal
SUA AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


Fr')


POLITICAL



Tucanos no chao

As dificuldades deixadas pelos antecessores e sua composigdo heterogenea
ainda ndo permitiram que o governor Simdo Jatene imprimisse sua marca.
A previsdo e de que este ano seja consumido na arrumagdo da casa.
Mas logo em seguida haverd nova eleigdo. A perspective e critical.


Oprimeiro trimestre de 2011 aca-
bou e o governor Simdo Jatene,
do PSDB, a rigor, ainda nao
comeqou. 0 govemador pode alegar que
nem poderia ter comeqado para valer,
conforme ele pretendia: a heranga mal-
dita deixada por Ana Jdlia Carepa, PT,
vai pesar pelo menos durante todo este
ano. 0 acervo de contas a pagar, de
compromissos pendentes, de desorga-
nizagao na miquina estadual e outros
complicadores resultantes de uma das
piores administrag5es que o Estado jdi
teve absorverao toda a energia e inven-


tividade da atual gestdo. S6 em 2012
ela poderi mostrar sua face e colocar
em pritica os seus pianos e projetos.
0 problema 6 que 2012 seri mais
um ano eleitoral: estarao em dispute as
prefeituras. Mais uma vez, Bel6m sera
um campo de batalha. 0 conteido dos
candidates em potential ndo traz novi-
dade, mas a dispute deverd ser bemrn
maior do que nos iltimos anos. 0 PSDB
disp6e de alternatives expressivas para
se contrapor a nomes como Arnaldo
Jordy, Jos6 Priante, Edmilson Rodrigues,
Paulo Rocha (quern sabe, de novo), Ana


Julia Carepa, mas elas poderdo se des-
gastar at6 a campanha. E o caso de
Zenaldo Coutinho, que ocupou a estra-
t6gica chefia da Casa Civil, para se be-
neficiar dos dividends de estar tao pr6-
ximo do governador, mas tern se des-
gastado pela sucessao de problems e
incidents ao long do trimestre.
Descontados os discursos, at6 ago-
ra nao foi possivel descobrir diferengas
entire o derrotado (e desastrado) gover-
no que saiu e o que entrou. Talvez por-
que o que esteja prevalecendo seja o
CONTIu.A NA.PAG2


*,N.ITO NUNES mSiL 5


No 484
ANO XXIV
R$ 3,00


ALO:SONEGA4rPAyOFISCAL 12


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Ilkt





CONTINUACAO DACAPA
efeito residual da gestdo petista, a opi-
nido pilblica convive com situaq6es que
pouco ou nada diferem da fase anteri-
or. Nao s6 pela "heranqa maldita": re-
tomando o estilo que deixou em 2007
para a sucessora, Jatene repete os er-
ros do primeiro mandato.
A comecar por manter a rotina des-
gastante das assessorias especiais do
seu gabinete, um sorvedouro de recur-
sos pdblicos dilapidados para acomo-
dar interesses e servir a acordos poli-
ticos e de outra natureza. Esse setor
da administraqao ptiblica se tornou sim-
bolo do desmazelo e da conivencia corn
o uso dom6stico do governor para fins
que nada tem a ver com o bem coleti-
vo. Os tucanos garantem que nao che-
gardo ao limited de mais de dois mil as-
sessores especiais, record petista, tal-
vez ficando muito aqu6m. Mas o me-
canismo 6 o mesmo: falta de justifica-
tiva para as contrataq6es, sigilo nas
informaqoes a respeito e desprezo pela
opiniao ptiblica.
Embora pagando o preqo por suce-
der um governor fraco, os tucanos po-
dem ter que arcar com um custo muito
alto pela vit6ria, que s6 foi possivel gra-
gas a acordos politicos de todos os ti-
pos. Por isso, 6 visivel uma divisdo en-
tre uma parte t6cnica na administragao
e outra political, corn fortes caracteristi-
cas fisiol6gicas. Sem um comando com-
petente, capaz de resolver os muitos pro-
blemas do governor, Jatene nao desfard
os n6s que herdou. Mas ao ceder par-
cela considerivel do poder a politicos
empenhados apenas em obter dividen-
dos pessoais (e corn um passado nada
recomendivel), pode experimentar sur-
presas desagradiveis.
Uma delas ji veio corn a acusaqao
de que seu secretirio de assuntos es-
trat6gicos, o ex-prefeito de Paragomi-
nas, Sydnei Rosas, recorreu a trabalho
sob condigoes degradantes em uma fa-
zenda que possufa no Maranhdo. A ca-
bega do secretario esteve prestes a ser
colocada numa bandeja, mas parece que
ele conseguiu se explicar e superar o
problema. Mas pode ser uma vit6ria
parcial. Outras situag6es semelhantes
podem se repetir. Para tentar enfrenti-
las, o governador parece estar mais
empenhado em negociaqoes de basti-
dores do que em impor sua figure A fren-
te dessa equipe ainda desencontrada e
desigual. 0 governor, que ainda nao co-
megou, pode comeqar mal.


Nos dois primeiros meses deste ano
a receita do Estado corn os royalties dos
min6rios cresceu 321% em relagqo ao
mesmo perfodo do ano passado. Se essa
arrecadagao se mantivesse at6 o final
do ano, o total nao chegaria a 100 mi-
lhoes de reais, o equivalent a 0,3% do
lucro liquido da maior das mineradoras,
a antiga Vale do Rio Doce, em 2010.
Por que o desempenho tao notivel
nos royalties minerals no primeiro bimes-
tre de 2011 comparativamente a 2010?
E por que, apesar disso, o valor ainda 6
tao pequeno, desprezivel at6, conside-
rando-se a produqao mineral do Para, a
segunda maior do pafs?
Ao anunciar os nimeros, na sema-
na passada, o secretirio da fazenda
estadual, Jos6 Tostes Neto, tamb6m
revelou que um dos seus empenhos seri
detectar se hi fraudes no recolhimento
dessa compensacgo pela perda de uma
riqueza natural nao renovivel. Da mes-
ma maneira como algumas providenci-
as ji foram suficientes para que o ren-
dimento crescesse mais de tr8s vezes,
outras iniciativas certamente poderdo
retirar o valor desse patamar tao baixo
em que ele esta.
Inversa 6 a situagao dos royalties
hidricos, que encolheram 31% entire
2010 e 2011, baixando de R$ 3,7 milh6es
para R$ 2,5 milh6es, um valor indigno
de o Estado abrigar em seu territ6rio a
segunda maior hidrel6trica national e a
quarta do mundo, a de Tucuruf, no rio
Tocantins.
Quase todas as receitas da Sefa se
ampliaram neste bimestre, exceto suas
taxas. 0 que pode significar que a se-
cretaria tem condiq6es suavizar seus
custos administrativos para estimular o
pagamento de impostos sem prejudicar
o combat A evasdo fiscal, que, no Pard,
6 enorme.
Mesmo que a miquina arrecadado-
ra estadual fique azeitada e funcione
corn a maior correqao, a distancia en-
tre a riqueza gerada no Pard e sua tra-
duqgo tributaria continuard a ser a mes-
ma ou a crescer. Um estudo realizado
pelo Tribunal de Contas do Estado con-
cluiu que, por conta da Lei Kandir, que
livrou do ICMS as exportaq6es de ma-
t6rias primas e semi-elaborados, o Pard
deixou de arrecadar R$ 21,5 bilhoes em


14 anos, recebendo como compensaqao
pelo governor federal apenas 10%dessa
sangria, ou R$ 2,1 bilh6es.
S6 no ano passado, quando expor-
tou R$ 21,3 bilh6es e poderia ter reco-
lhido R$ 2,7 em impostos, o Estado foi
compensado pela Unido em apenas R$
185 milh6es. A desoneragao do Pard
correspondeu a mais de 10% do total
de impostos que foram perdoados por
causa da Lei Kandir, quando a partici-
paqio do Estado no PIB national 6 de
apenas 1,82%, na 13' posigqo (embora
tenha a 9a maior populaqao). Sem falar
nos cr6ditos que os exportadores acu-
mulam contra o Estado mesmo deixan-
do de pagar o ICMS.
t a conta do colonialismo, cada vez
mais alta e sem perspective de sofrer
reversao. Em janeiro deste ano a parti-
cipaqdo do min6rio de ferro no com6r-
cio exterior do Estado passou de 85%
para quase 91%, principalmente por
causa do grande consumo chins, que
responded por quase um tergo das ven-
das externas paraenses. 0 Pari, que 6
apenas o 13 na partilha da riqueza na-
cional, tem o segundo maior saldo co-
mercial do pafs, ji que suas importa9oes
sdo infimas, abaixo apenas de Minas
Gerais, o mais antigo e continue centro
de exploraqio colonial do Brasil.
Minas, por6m, graqas a um projeto
de long prazo, tem conseguido fortale-
cer sua economic agregando mais va-
lor aos produtos de origem mineral. 0
onus de ficar atrelado a uma velha fun-
9qo colonial foi transferido para o Pard.
At6 quando, nao se sabe e poucos, na
verdade, se interessam por saber.


I Journal Pessoal MARQO DE 2011 1 aQUINZENA


Movimento da receita:

soneganao e desvio






Belo Monte: transfusio

de energia da Amazonia


A maior obra do Brasil comegou
oficialmente no infcio do mrs com a
emissao da primeira ordem de servi-
go para a construgqo da hidrel6trica
de Belo Monte, no rio Xingu, no Para,
que seri a quarta maior do mundo.
Menos de um ano atris, quando a
concessio foi a leildo, o projeto era
no valor de 14 bilhoes de reais. Hoje,
6 de R$ 25 bilh6es. Ndo seri surpre-
sa se chegar a R$ 30 bilh6es, a pre-
visio dos critics do empreendimen-
to. Ou superar esse patamar.
Embora o projeto tenha duas d6ca-
das de existencia, ele chega A fase exe-
cutiva sem o amadurecimento devido.
Durante esse perfodo, os questiona-
mentos e as ddvidas se sucederam, A
media que o debate se aprofundou, e
deveri persistir nas arenas pdblica e
judicial. Mesmo corn um acervo de
milhares de manifestaqces escritas ou
orais sobre o tema, dentro e fora do
pafs, a sensacgo mais forte para quern
acompanhou a trajet6ria 6 a da insufi-
ci8ncia de dados e inseguranqa quan-
to as garantias dadas pelos executo-
res da empreitada.
O governor, por6m, ndo partilha es-
ses sentiments. A convicqao, ainda
rarefeita no governor Lula, se tornou
um axioma da administragqo Dilma:
a matriz energ6tica brasileira conti-
nuard a se basear na energia de fon-
te hidriulica; por consequ8ncia, as
novas adiq6es A produqao national
terao que vir da Amaz6nia, onde estdi
a maior bacia hidrogrifica do plane-
ta. 0 resto 6 circunstancias.
O governor federal jid anunciou umrn
piano de investimentos de R$ 210 bi-
lh6es para os pr6ximos 10 anos, algo
como uma usina de Belo Monte por
ano (claro, incluindo os outros itens,
al6m da geraqdo). Desse total, 40%
serao aplicados na Amaz6nia, em 20
novas hidrel6tricas, corn capacidade
para gerar 15% de toda a energia pro-
duzida atualmente no pafs. Em 2020,
portanto, a regiao responderd por qua-
se um quarto da energia national.
As resistencias a esse piano foram
crescentes e consistentes, mas o go-
verno, vencido o prazo de tolerancia,
que estabeleceu unilateralmente, para
as contestaq6es, decidiu passar por


cima dessas raz6es. Agiu como se fos-
se uma das quase 600 miquinas pesa-
das que comegarao a chegar nesta se-
mana ao canteiro de obras.
0 fino v6u da novidade foi rasgado
por essa decisdo. As novas mega-hi-
drel6tricas na Amaz6nia seriam de res-
ponsabilidade da iniciativa privada.
Corn seu interesse pelas concess6es
pxiblicas, os empresdrios garantiriam
que se tratava de neg6cio rent6vel, do
menor custo e da maior racionalidade.
O poder piblico se restringiria A fun-
9qo de ordenador, fiscalizador e co-
brador de resultados.
Nada disso aconteceu. 0 moment
mais definidor foi quando dois dos mai-
ores s6cios da concessiondria pularam
o balcao. Ao inv6s de bancar a obra e
explorer o seu produto, a energia, como
empreendedoras. a Construtora Ca-
margo Corr8a e a Odebrecht voltaram
A condiqdo traditional, de empreiteiras.
Deixaram de aplicar capital pr6-
prio ou emprestado para viabilizar o
projeto. Passaram a receber pelos ser-
viqos prestados na construgao. Con-
clufram que a hidrel6trica de Belo
Monte nao 6 um bom neg6cio, exceto
para os que vao ganhar para torni-la
uma realidade.
Mais do que qualquer outra emprei-
teira, a Camargo Corr8a sabia muito bemrn
o que estava fazendo. Foi ela que cons-
truiu a hidrel6trica de Tucuruf, no rio
Tocantins, tamb6m no Pard, ainda a
quarta maior usina de energia do mun-
do. E hi quase quatro d6cadas mant6m
um forte canteiro no local. Inicialmente,
empenhado na instalaqao dos equipa-
mentos eletromecanicos da usina. Nos
iltimos tempos, na construgao de uma
das maiores eclusas do mundo, para a
transposiqao da enorme barrage de
concrete, corn 70 metros de altura.
Motivos nao faltaram para a desis-
tencia. A energia firme de Belo Mon-
te sera de apenas 40% da sua capaci-
dade nominal, de 11 mil megawatts. E
rendimento abaixo da m6dia national,
de 55%. Os construtores tem mil e um
arguments para contraditar essa ver-
dade, mas 6 melhor dar atengqo a umrn
detalhe: o maior fator de carga entire
as grandes hidrel6tricas, de 70%, seri
o de Santo Ant6nio, em Rond6nia.


Nao s6 porque o rio Madeira tern
fluxo constant, ao contrario do Xingu,
sujeito a uma acentuada sazonalidade
do regime hidrico: 6 principalmente por-
que a montante esti sendo construida
outra usina de grande porte, Jirau, corn
energia firme de 57%, que garantird
mais agua para a hidrel6trica rio abai-
xo, a jusante. E assim que esti sendo
feito no Tocantins, com mais hidrel6-
tricas Tucuruf rio acima. Era assim que
devia ter sido feito tamb6m no Xingu,
at6 que os monumentais reservat6rios
alarmaram a todos, por seus efeitos
terriveis, e o debate ecol6gico estan-
cou o planejamento original.
No papel, nao mais sera assim. 0
governor construird apenas Belo Mon-
te e nenhuma outra usina a mais no
Xingu. Mas quem pode garantir se, na
hora do "vamos ver", aplica-se a po-
litica do fato consumado, como agora
em Belo Monte e um pouco antes em
Santo Ant6nio e Jirau? A cada fonte
de resistencia encontrada, um elemen-
to de cobertura do "novo modelo ener-
g6tico" foi se desprendendo. Afinal,
revelou-se o que era velho: o modelo
estatizante.
As empresas privadas sdo figuran-
tes do lado do risco do empreendimen-
to. As empresas estatais, s6cias am-
plamente majoritirias nas sociedades
que se formaram, responded pelo em-
preendimento, como a holding Eletro-
bras e suas subsididrias: Eletronorte,
Furnas e Chesf. Do lado do financia-
mento, a conta 6 bancada pelo BN-
DES, corn condicges suficientes para
suportar o element de surpresa do
"fator amaz6nico".
S6 quando e se o projeto se
firmar, A custa de muitos bilh6es de
reais e desafios socioambientais e
tecnol6gicos, o modelo seri retoma-
do. Mas para renovar outra velharia
hist6rica: a consolidagao da distant
Amaz6nia tamb6m e, sobretudo -
como uma col6nia energ6tica, ponti-
lhada de gigantescas usinas, que se
conectam aos centros de consumo do
outro lado do Brasil, o mais rico e po-
deroso, por extensas linhas de trans-
missdo. Uma esp6cie de transfusao
de sangue em forma de kilowatts.
Uma hemorragia,


I1QUINZENA Jornal Pessoal l


MARGO DE 2011







Imposto
da cidade

Nunca a prefeitura de
Bel6m props tantas execu- J
96es fiscais contra devedores |
da sua principal fonte de re-
cursos, o IPTU, quanto ago-
ra. Sao milhares em tramita-
9ao pelas varas da fazenda e .
em grau de recurso no tribunal.
A iniciativa parece ter estimulado um
ndmero incomum de contribuintes a
quitar suas dfvidas, retirando as aqres
da justiga por acordo entire as parties.
Em muitas delas, por6m, o cr6dito imo-
bilidrio foi extinto pelos juizes devido a
prescrigqo da ago, que perdeu seu pra-
zo de validade. Em vdrias, nem mesmo
as custas processuais foram cobradas,
corn 6nus para o poderjudiciario.
Ha d6bitos de IPTU ainda dos anos
de 1980, iniciando em 1984. A maioria
se situa na d6cada de 90, com 8nfase
nos primeiros anos. Com o langamento
dos inadimplentes na divida ativa e o
ajuizamento das execuq6es, o risco da
prescriqdo diminui bastante, se essa pro-
vid8ncia for completada pela eficiencia
na atuagao emjuizo da procuradoria fis-
cal do municfpio e sem os erros de pro-
cedimento, que eram freqilentes, sobre-
tudo quando se tratava de pessoas de
poder no local.
Estas continual se recusando a pa-
gar imposto, como se fossem cidadaos
especiais, acima do bem e do mal. Por
isso, a relagao dos faltosos 6 quase uma
coluna social, tantos notiveis e famo-
sos inclui. Enquanto isso acontecer, o
efeito demonstrative da aqdo fiscal serA
reduzido e a moralidade do IPTU con-
tinuard a ser uma meta.


A China cresceu a uma taxa m6dia
annual de 10% entire 2006 e 2010. A pre-
visao 6 de que cresqa menos no qiiin-
quinio de 2011/2015: 7%. No ano pas-
sado o saldrio minimo no pais subiu 20%.
Crescera mais 19% a partir de abril. Mas
ao anunciar o novo plano qUinqilenal, no
inicio do mes, o primeiro-ministro chines
Wen Jiabao, nao usou nenhuma expres-
sao superlativa. Admitiu, pelo contrdrio,
que o desenvolvimento da segunda na-
qdo mais rica do mundo "nao 6 bem ba-
lanceado, coordenado nem sustentivel".
Prometeu enfrentar as tr8s distor-
9qes combatendo a inflacgo, aumentan-
do o consume dom6stico cornn a intro-
ducqo de um indice de "felicidade" no
planejamento), incentivando a agrega-
9o de valor a produqao internal, redu-
zindo a depend8ncia das exportaqoes e
o peso dos investimentos, que leva o
governor a se endividar cada vez mais -
e o que tamb6m influi sobre a corrup-
ao "desmedida" nos orgaos ptiblicos,
outro alvo prioritirio.
Os chineses terao menos energia de
fontes f6sseis (a participacqo de ener-
gia limpa na matriz deveri passar de
8,3% para 11,4%), enquanto a partici-
pacao do investimento em pesquisa e
desenvolvimento subird de 1,8% para
2,2% do PIB. Dentre seus projetos es-
tao a conservaqao e pesquisa de novas
fontes de energia, proteqdo ambiental,
biotecnologia e vefculos movidos a ener-
gia alternative. 0 objetivo dessa nova
linha de acqo sern para garantir que as
pessoas "estejam contents com suas
vidas e empregos, a sociedade esteja
tranquila e ordeira e o pafs desfrute de
paz e estabilidade de long prazo".


Pode ser que boa parte dos compro-
missos e metas anunciados pelo primei-
ro-ministro chins no seu discurso de
tres horas perante o Congresso Nacio-
nal do Povo, em Pequim, seja pura re-
t6rica. Mas mesmo que tudo seja leva-
do a s6rio, o desafio 6 tdo vasto quanto
a pr6pria China. 0 "milagre chines" se
sustenta em suas reserves internacio-
nais, de tr8s trilh5es de d6lares, 10 ve-
zes maiores do que as do Brasil e do
tamanho de todo nosso PIB national.
A reserve 6 a base desse crescimen-
to estupendo, mas 6 uma base frigil por-
que se mant6m pela troca permanent
de d61ares obtidos atrav6s da exporta-
qao em yuans que sao retidos pelo go-
verno, graqas ao seu poder politico. Me-
canismos de mercado sao combinados
com instruments de coerqao pr6prios
de uma ditadura. At6 quando esses ter-
mos antit6ticos poderao ser mantidos?
Eles produzirao uma sfntese ou uma
crise, cujo abalo nao guardard a menor
relaqdo corn o que o mundo ji viu nos
61timos tempos.
Lula garantiu aos lideres chineses que
reconheceria a China como uma econo-
mia de mercado. Sua sucessora ji viu que
a declaraqao 6 apenas mais um exemplo
grave do tamanho da garganta do seu an-
tecessor, cuja ret6rica se inspira nas cir-
cunstancias do seu uso e nao na sua pro-
cedencia e fundamentagqo. A China 6 um
grande referencial que cumpre ao Brasil
observer e levar na devida consideraqdo.
Tanto porque compete alguns erros seme-
lhantes como porque a China ji 6 o seu
maior parceiro commercial, uma das fontes
da afluencia national de hoje e do efeito
Orloff de amanhd.


Blog: pra que?


Por que jornalista professional cria
blog, se jd tern onde escrever e publi-
car? Certamente para dar vazao ao que
6 impossivel divulgar atrav6s do 6rgdo
da imprensa no qual trabalha regular-
mente. Se nao faz isso, 6 melhor fe-
char o blog. Para cultivar abobrinhas e
dar palpite, deve deixar espaqo livre
para aqueles que nao sao jornalistas.
0 professional das informag6es que nao
as usa, que nao tem compromisso corn
sua utilidade pdblica, 6 um burocrata.


E nada mais antijornalistico do que a
burocracia. Jornalismo requer empe-
nho em informar bem e rdpido. Sobre-
tudo na internet.
Por isso, 6 de se lamentar que a re-
p6rter Rita Soares tenha aposentado o
seu blog. Ela tem um bom motivo: quer
dedicar seu tempo A carreira acad8mi-
ca em comunicaqao social. Nao conse-
gue dividir sua disponibilidade com as
exigencias de um blog nervoso, ativo,
em cima dos acontecimentos. Outros


jornalistas, por este motivo ou qualquer
outro, menos edificante, deviam seguir
o exemplo. Toda vez que surge uma
questao mais explosive, controversy ou
incomoda, some de circulaqao ou pas-
sam a indagar pelo sexo dos anjos.
Em mat6ria de blog jornalfstico,
capaz de oferecer suculentas doses
de fatos, interpretacges, andlises e
boas fofocas, estamos 6rfaos. 0 uni-
verso deles 6 miragem num desert
de coragens.


nJornal Pessoal MARQO DE 2011 -* 1QUINZENA


China: espelho partido






Benedito Nunes, o leitor precioso


Eu pr6prio me surpreendi e me
emocionei muito quando recebi a lon-
ga resposta que Benedito Nunes me
mandou em resposta ao questiondrio que
Ihe submeti, em 1991. Parecia que ele
esperava por uma simples provocacao,
como a que Ihe fiz, para abrir seu cora-
95o, sua alma e sua cabega numa con-
fissdo e numa rememoragao sobre sua
fecunda relagao com os livros.
Uma relacgo que comegou quando
ele ainda era menino de calqas curtas.
O livro preencheu a ausancia dos pais,
que morreram muito cedo. A ligagdo
com sua familiar desaparecida foi atra-
v6s dos livros da biblioteca do pai. Be-
nedito ndo s6 aprendeu com eles. Os
livros se tornaram parte da sua vida, urn
element orginico, um component na-
tural do seu ser, companhia plena.
Benedito leu como poucos. Como
raros, dialogou com o conhecimento
contido nos livros que leu, assimilados
como element vivo e permanent da
sua personalidade. S6 assim sejustifi-
cava saber tanto, lembrar tanto, fazer
referencias exatas, profundas e nume-
rosas sem parecer um rangoso erudi-
to. Quando falava sobre o conhecimen-
to, seus olhos ficavam ainda menores,
mas brilhavam intensamente, faisca-
vam de prazer.
Era a expressed da sua curiosidade
sempre insatisfeita e do dom sublime que
ele tinha, de querer partilhar o que sa-
bia, estimular aptiddes, cultivar talents,
desenvolver qualidades sempre nos
outros, mais do que nele mesmo, que
era auto-suficiente (e por isso foi sem-
pre autodidata).
Uma simples conversa com Bene-
dito ji marcava e transformava. Quan-
do o interlocutor exibia dotes de cria-
dor, ele se realizava na tarefa de tornar
conscientes esses dons,
ajudando o criador a
manejar melhor suas
pr6prias virtudes. Era assim
que Benedito exercia a condi-
qao de professor, de mestre. E tam-
b6m de co-autor. Em quantos textos
assinados por outros havia o seu toque
migico, ao mesmo tempo exa-
to e simples, coadjuvante
de uns, recriador de
outros. Um verda-
deiro homo faber
poundiano.


Um sibio, disse-o a certo intelectu-
al muito pr6ximo de Benedito, que nao
concordou corn a minha classificagao.
Eu exagerava, protestou, embora admi-
rasse Benedito. A expresso costume
ser usada sem crit6rio, a toa. Mas nao
6 excessive no caso de Benedito.
Sua maior sabedoria, a de um ver-
dadeiro sabio, ainda que conforme um
modelo j fora de moda, no nosso mun-
do de especializag6es e segmentag6es,
estava em colocar seus interlocutores
diante de referenciais rigorosos e bemr
definidos, nos quais eles podiam se es-
pelhar, mas numa versdo melhorada
pelo aprimoramento, pela critical que
amolda atrav6s do exercicio da escul-
tura intellectual, ora agregando valores
ora excluindo-os.
Sem ser um verdadeiro artist (seu
rigor logo Ihe vedou o acesso a poe-
sia, que praticou muito rapidamente -
e sem qualquer pericia), formou ar-
tistas, sobretudo poetas, o que, no fun-
do, era o que Ben6 foi por outras vias,
embora desejasse realizar essa voca-
qao em versos.
Em alguns dos seus livros, 6 percep-
tfvel essa capacidade de manejar a so-
noridade das palavras, sem prejuizo -
muito pelo contrario do seu significa-
do rigoroso, mas tamb6m sem os vin-
cos da cientificidade, do formalismo
academico. Ao vagar no puro pensa-
mento ou referido a alguma fonte, ele
levava ao extremo o prazer de pensar,
de especular, de indagar.
0 que o distinguia da maioria dos fi-
16sofos era que, sendo essencialmente
um pensador, Benedito se espalhava
pela literature, a est6tica, a hist6ria e as
coisas triviais da vida. 0 brilho de curi-
osidade e atenqao nos seus olhos nao
mirava apenas as ciencias: tinha um
foco sensivel sobre todas as coisas hu-
manas, incluindo as de domfnio popular,
como a mdsica ou a televised.
> Sem excluir os faits-divers que ali-
mentam a boa fofoca, os divertidos


detalhes e divertissements. 0 munda-
nismo feito por pessoas de came e osso,
como ele. A hist6ria das estruturas de
par corn mis6rias e grandezas humans,
como as que um Salman Shama captou
no dia a dia da gloriosa (e feroz) revo-
luqgo francesa. Partilhar uma refeigio
com Benedito era experimentar a ele-
vagdo de uma ceia da came e do espf-
rito. Como se comia! E como se fala-
va! Nada mais platonico e socritico. A
torre de livros se harmonizava com os
jardins da rua da Estrela.
Nos iiltimos anos poucas vezes fui
at6 Id. As mis6rias do subdesenvolvi-
mento e da condicao colonial da nossa
terra me mantiveram atado aos capri-
chos e malignidades de mediocres po-
tentados paroquiais. Meu mundo pas-
sou a ser de engrenagens juridicas, que,
se me amarguram a vida, me fazem
buscar sua superagAo naqueles que ins-
piram o mais-al6m, como Franz Kafka,
um p6 na trag6dia e outro na comicida-
de. Sem o humor, como resistir se hi-
de (as batatas o 16xico da Academia
Brasflica-Portucalense)?
Meu primeiro contato pessoal com
Benedito foi em 1972: uma entrevista
sobre o cinquentendrio da Semana de
Arte Moderna de Sao Paulo.Precedida
por uma provocagdo a que ele nao res-
pondeu. Usando como plataforma con-
versa gravada com o arquiteto Paulo
Chaves Fernandes para o suplemento
Bandeira 3, de A Provincia do Pard,
questioned o fil6sofo que nao se envolve
com o seu tempo local, sua terra. Cla-
mava por uma manifestagao de Benedi-
to sobre os insensatos "projetos de im-
pacto" do governor military na Amazonia.
0 fil6sofo se manifestou pouco so-
bre esses temas. Jovem impetuoso, eu
tentava uma comparag~o de p6 quebra-
do com Heidegger e o nazismo. Bene-
dito nao era Heidegger e a ditadura mi-
litar nao chegou ao totalitarismo hitle-
rista. Havia uma fumaga de paralelos,
mas nosso Ben6 nao estava isola-
do em sua torre de pap6is im-
pressos nem coonestava
as violag6es aos direitos
do cidadio.
Sua repulsa era
modulada pelo seu
jeito de ser e pelas
exig8ncias do seu off-
cio e mister daquele


MARCO DE 2011 14QUINZENA Jornal Pessoal l


11






entire nosostros que foi mais al6m do que
todos os demais. 0 resto foi uma pedra
no meio do caminho. Nela tropegamos
n6s, os series de v6o mais rasteiro, como
jomalistas em luta com suas circunstan-
cias rasteiras e mesquinhas da domina-
qao exercida por liderangas nefastas, pig-
meus num tempo a clamar por gigantes.
Quando Helio Gueiros, tres meses
depois de ter deixado o govemo do Pari,
em 1991, me enviou aquela terrivel carta
pomogrifica, Benedito foi uma das oito
pessoas a quem consultei para decidir o
que fazer com aquele lixo. Ben6 leu a pri-
meira e escatol6gica linha e me devolveu
o papelucho com um "me poupa". Foi um
parecer eloqiiente, de um verdadeiro pen-
sador. Entendi onde Benedito estava. E
em que mundo eu me conduzia.
Ativo, inquieto e insatisfeito, Bene-
dito Nunes criou e produziu at6 o fim
dos seus 82 anos. Foi tao cativante que
o tempo Ihe concede o privil6gio de ser
reconhecido pelos contempordneos, re-
ceber as homenagens devidas e prepa-
rar um successor, Victor Sales Pinheiro,
que Ihe esta reeditando a obra corn o
sopro de uma nova geraqao, mais exi-
gente e tamb6m mais satisfeita corn o
legado. Benedito avanqou o maximo
antes de passar o bastao. Sua mente
prosseguia a plenos pulmoes, como no
verso de Maiakovski, quando a doenga
o mandou para o hospital, tao distant
de suas preocupaq6es e rotinas, e daf
para a dimensdo dos sonhos, da razao,
da saudade e da mem6ria cativa.
Decidi reproduzir a entrevista de 20
anos atras a pedido de Mauro 6 de Al-
meida. Ele foi um dos felizardos que re-
cebeu a separate da entrevista, publica-
da originalmente em A Provincia do
Pard. Tive a id6ia de sugerir A direqdo
da Universidade Federal do Pard que a
publicasse em folheto e o distribuisse aos
calouros que estavam chegando e a quemr
mais estivesse na 6rbita (Mauro foi um
deles, mas emprestou o seu exemplar e
nunca mais o recebeu de volta).
Foi o mais brilhante convite a entrar
no mundo dos livros e, por eles, ao me-
lhor acervo da criagao humana. E um
guia das luzes que nos presenteia um
dos mais iluminados dentre os brasilei-
ros destes tempos de tons cinza sobre a
inteligencia. Meu irmdo, Elias Pinto,
publicou parte da entrevista em sua pi-
gina dominical no Didrio do Pard. A
versdo integral 6 reproduzida a seguir,
num encarte especial.
Obrigado, Benedito.


0 Liberal fugiu do IVC (Instituto
Verificador de Circulagqo) para nao ser
flagrado pela segunda vez fraudando
seus boletins de auditagem. A venda-
gem do journal dos Maioranas era, no
melhor dos casos, 50% inferior ao que
declarava sob juramento, que se reve-
lou falso. Nos mais graves, a circula-
qdo era ainda menor.
Para nao ficar sem uma fonte de
referencia para seus anunciantes, em
especial os nacionais e o governor, a
empresa contratou a Ernst & Young,
uma consultora international. Mas as
vendas devem ter continuado em baixa
porque agora nem a Young audita mais
a tiragem do journal, servigo que prestou
at6 o ano passado. Ao menos nas ban-
cas, o encalhe de 0 Liberal varia em
torno de 70 a 80%.
O concorrente, o Didrio do Pard,
assumiu a lideranga, mas suas vendas
nao atingiram um patamar que fizes-
se aos Barbalhos divulgar um inico
boletim do IVC em quase tres anos.
0 journal prefer recorrer ao Ibope, que
nio 6 a fonte adequada nem a mais
acreditada sobre circulaqdo paga de
journal.
Era o que 0 Liberal fazia quando
ainda nao tinha o respaldo do IVC.
Na ediqdo dominical de 18 de agosto
de 1988, por exemplo, respaldado em
pesquisa do Ibope do 1 trimestre


desse ano, o journal dizia que era lido
por nada menos que 96,7% dos que
compravam journal, enquanto a j de-
saparecida A Provincia do Pard e o
Didrio do Pard empatavam em tao-
somente 4,9%.
Quando passou a desfrutar do IVC,
0 Liberal alardeava os resultados em
andncios de pigina inteira. Como o de
12 de junho de 2005. Proclamava que
o institute "6 o atestado de idoneidade
do journal que, no Pard, s6 o journal e
seu irmao mais novo, o Amaz6nia, ti-
nham. Em abril desse ano, a tiragem
dominical de 0 Liberal seria de
103.378 exemplares (hoje deve estar
em um terqo disso) e a do Amazonia,
22.001. Nao citava a do Didrio do
Pard porque o journal dos Barbalhos
nao era filiado ao IVC.
E explicava:: "Quando umjornal diz
que a sua tiragem 6 de tantos mil exem-
plares, voc8 pode acreditar ou nao.
Mas quando 6 o IVC quem diz, Voc8
s6 pode acreditar. Porque o IVC 6 o
dnico institute verificador de circulaqio
independent do Brasil e o dnico acre-
ditado em todo o mercado brasileiro.Por
isso todo journal sdrio, que respeita a in-
teligencia do leitor, 6 filiado ao IVC. Mas
tem journal que prefer nao ter o IVC.
Questao de opqao. Assim como 6 uma
opao sua acreditar ou nao nas infor-
maqces desse jomal".
Quando 0 Liberal
se desfiliou do IVC no
dia anterior ao inicio
de uma nova audita-
gem da sua circulacgo,
attitude in6dita em meio
s6culo de existencia da
instituigqo, o que ojor-
nal dos Maioranas di-
zia de ruim do diario
dos Barbalhos se vol-
tou contra eles. Afinal,
agora 6 apenas o Did-
rio filiado ao IVC.
Mas por que cargas
d'agua a folha dos
Barbalhos nao divulga
seus ndmeros
Os anunciantes
estao em v6o mais ou
-.W menos cego nesse
Jj segment. Os leitores
Snao estao mais bem
_"-- orientados.


jonIrssa.MRO E21 1QIZN


Quem e o Pinoquio


. 1-QUINZENA


Journal Pessoal MARGO DE 2011







0 roteiro

dos livros


de um sabio


paraense


Os livros continuam sendo uma for-
ma indispensivel de conhecimento, ainda
a melhor. E uma fonte de prazeres inisus-
peitados pelos que, nariz empinado e des-
d6m ensaiado, desprezam-nos, em refe-
rencia aos cones do future, os aparelhos
eletr6nicos de armazenamento de infor-
maqoes. Numa de suas muitas pesquisas,
Bruno Bettelheim notou criangas que re-
constitufam as hist6rias de livros infants
por suas belas ilustraqges. 0 enredo esta-
va substancialmente ali, mas nao o prazer
do texto, a voragem da narrative, o mist6-
rio da hist6ria. A visualizaqao, nesses ca-
sos, 6 um complement fundamental, 6
claro, mas complement. Quem e1 viaja,
recria, revoluciona e quem nao 18 mal
fala, mal ouve, mal v8, como insisted a pro-
paganda inconvincente dos livreiros.
Os jovens sao os menos convencidos,
os mais inconvencidos, para emprestar
uma expressao que Lewis Carrol assina-
ria, o Carrol da muito vista Alice no pals
das maravilhas, em tela cinematogrdfica,
raramente lida no texto deslumbrante.
Mais do que os jovens em geral, os que
chegam agora a Universidade, vitoriosos
nesse decatlo chamado de vestibular, tem
seus motivos para desconfiar dos in foli-
os. Foram treinados para o reflexo condi-
cionado do xis, das quadrfculas em bran-
co, da resposta por impulso el6trico, nao
por reflexao, nao pela ruminancia do pen-
sar, que faz as delicias de quem pensa.
Livro, al6m de dar cultural, dd prazer,
um prazer tao deslocado dessesfanzines
modernos que faz, de quem 6 capaz de
aprecid-lo, membro de uma confraria
secret. Os que gostam de livros de ver-
dade, entretanto, nao querem ser dnicos.
Querem 6 alargar as fronteiras desse pra-
zer pessoal, estende-lo ao maior n6mero
possfvel de pessoas.
Eis a razao deste pequeno livro que a
Universidade Federal do Pard aceitou edi-
tar. Serd fdcil de ler, mas quem 18-lo tal-
vez tenha uma sensaqgo semelhante A que
tive quando, depois de ter passado pelo
"Nome da Rosa", li o dirio minimo que
Umberto Eco, escreveu A margem do
romance medieval. 0 menor era o me-
lhor, contingencia compuls6ria para os
que nao querem ser apenas "mais um".
Benedito Nunes dd aos calouros que
chegam A Universidade a possibilidade,
por essa apurada selecAo de livros, de se
tornarem academicos sem segundos sen-


tidos, depreciativos. Teoricamente, ao
campus protegido pelo muro universit&-
rio chegaram os melhores. Na realidade,
na relagqo corn este inventario de leituras
6 que serd media a qualidade desse tftu-
lo. Titulos 6 fdcil ganhar, ou comprar.
Conquistar 6 outra coisa.
0 que Benedito Nunes pretendeu, ao
responder ao questiondrio que lhe fiz, foi
prevenir-nos contra o triste fim profetiza-
do por Ray Bradbury para uma sociedade
sem livros, inculta e feia, triste e vazia.
Quem receber este livrinho precioso po-
derd, ao sair da Universidade, medir seu
grau de civilidade, no melhor e imorredou-
ro significado que os greco-romanos lhe
deram, pelos livros desta seleqao que ti-
veramr lido, nao como se tivessem baixa-
do um taxfmetro sobre sua mente, mas
como se a elevassem ao nivel realmente
human da nossa vida: o da ddvida que
question e da busca que responded.
Alguns sabios foram sdbios sem te-
rem lido muitos livros, como Kant, cuja
biblioteca abrigava apenas uns 300 exem-
plares, pequena mesmo para os padres
da 6poca. Mas leram para valer e nao
como atletas de orelhas de livro, esp6ci-
me de larga difusao no mercado. Benedi-
to Jos6 Viana da Costa Nunes, o Bend da
Rua Estrela, 6 desses sibios que leram
muito e 18em bem. Talvez nenhum para-
ense tenha lido tanto quanto ele, nao para
guardar para si o que aprendeu.
Na acolhedora casa que abriga Bend,
Maria Silvia, Angelita, um beagle que ji
teve seu retrato publicado no prestigioso
"Jornal do Brasil", e gatos variados, sem-
pre hd um lugar para um amigo nio anun-
ciado que, bem acomodado, em algumas
dezenas de minutes aprenderd mais corn
a prosa endiabrada do Ben6, os comentd-


rios apropriados de Maria Silvia e as pon-
tuagqes refinadas de Angelita do que em
anos em bancos escolares. Bend sabe por-
que sabe. Nao precisa demonstrar, nem
esbanjar. E um sAbio de quilometra-
gem in folios insuperAvel. Cabe-lhe
uni titulo que tern se desgastado na
aplica~io sem mdrito: 6 mestre.
0 depoimento que Benedito Nu-
nes me deu, provocado por um risti-
co questiondrio, 6 a melhor bibliogra-
fia que um journal brasileiro provavel-
mentejA publicou. Deveria sair no "Ban-
deira 3", abrindo uma s6rie que ficou
apenas na protofonia porque o journal
morreu no ndmero zero, antes de che-
gar ao ndmero um. Mas sai em A Pro-
vincia do Pard, engrandecendo o jor-
nal e despejando sobre cada um de
n6s r6stias de luz geradas na cen-
tral de coinhecimentos que Bend
carrega na cabega, democrati-
camente acessivel aos que que-
rem saber mais. A nostalgia do
mestre que ele diz ter, autodi-
data confesso, n6s nao temos.
Afinal, Benedito Nunes 6 nos-
so grande mestre.
A desenvoltura de Benedito na andlise
da filosofia do alemao Heidegger transfe-
re-se para a prosa podtica de Guimaraes
Rosa e se estende A mtisica, erudita ou
popular, sem perder em profundidade e
graga, caracteristicas que geralmente se
excluem nos intelectuais brasileiros, As
vezes s6rios, mas cacetes, enfadonhos.
Bend cresceu entire livros, que lhe fi-
caram como o didlogo que nunca teve com
o pai, falecido muito cedo. 0 livro 6 o seu
parafso e por isso nao precisa de fichas
para lembrar o que o acompanha, um ca-
tilogo na mem6ria. E um privil6gio t8-lo a
mao numa cidade que cresceu fechando
livrarias e abrindo locadoras de videos,
forma mais sofisticada e inodora de cum-
prir a g61lida profecia de Ray Bradbury no
"Farenheit 451". Se defender de Benedito
Nunes, sAbio, o melhor de todos n6s, esta
serd sempre apenas uma ameaga.

Qual o primeiro livro que se lembra
de ter lido?
Dizem que aprendi a ler com quatro
anos de idade. Mas com certeza minha
primeira leitura deu-se um pouco mais
tarde. 0 livro foi-me presenteado por um
mendigo jd idoso, barba branca, que As
quartas-feiras, pela mahha, vinha buscar
sua esmola certa que lhe proporcionavam
minhas tias. Achavam-no parecido com
a traditional image de Sdo Jos6 Car-
pinteiro, reverenciado no orat6rio da ca-
tolicissima familiar. Nesse dia, depois de
sentar-se na escada de madeira no vesti-
bulo da casa, como costumava fazer, o
velho retirou de sua tosca sacola um pe-
queno livro, capa dura, de cor esverdea-
da, visivelmente restaurado, conforme de-
nunciava a tira de pano grudada A lomba-






da: A Capada da Onga, de Monteiro Lo-
bato. Era para o menino da casa. Mas s6
pude folhear o volume ap6s o tratamento
profilhtico a alcool a que o submeteram
as tias prudentes, receosas dos possfveis
germes escondidos entire as piginas.
Lembro-me ainda da gravura central so-
bre duas dessas paginas abertas: os he-
r6icos caqadores do sitio do Pica Pau
Amarelo, Pedrinho A frente, rebocando a
onqa ji morta.

Qual o primeiro livro que the cau-
sou grande impact?
O primeiro de impact, que me pre-
cipitou num mundo estranho de nomes
ressoando diferentemente dos comuns,
de series extraordindrios, de imagens
mentais pregnantes, duradouras, foi a
Odiss.ia de Homero, publicado pela Ate-
na Editora de Sao Paulo, em traduqao de
meu tio, Carlos Alberto Nunes, num me-
tro long, inabitual, para imitir o ritmo
do original grego.

Os primeiros livros que voce leu
eram de biblioteca dafamfia? Era boa?
Esse tio, fixado em Sao Paulo, que mui-
to mais tarde traduziria Shakespeare, Go-
ethe, Platao e Virgflio para o portugues,
mandava-me muitos livros, quase todos
de present: Poesias Completas de Gon-
qalves Dias (2 vols., Ed. Gamier), David
Balfour, de Robert Louis Stevenson, Os
Irmios Karmazov e Os Possessos, de Dos-
toievski, Teatro de Lope de Veja, Os Dii-
logos do Limbo, de Santayana, e tantos
outros, que vieram chegando, ano ap6s
ano, por via maritima, em pacotes do
Correio dos pequenos volumes de niet-
zsche da colegao Tor, em espanhol, como
Genealogia da Moral, 0 Crepisculo dos
Idolos, 0 Anti-Cristo, at6 o encadema-
dos de certo porte, Guide to Philosophy,
de Joad, 0 Retorno do Nativo, de Tho-
mas Hardy. Mas os primeiros livros, an-
tes desses, e excetuando Os Argonautas,
de Gustav Schwab, que me mandou um
irmAo de duas amigas de minhas tias, o
Prof. Francisco Paulo do Nascimento
Mendes, eram da estate de casa, alta,
de madeira amarela envernizada, cinco
prateleiras, com discretos ornamentos
florais gravados, e um gavetdo na part
inferior. Pertencera a meu pai, que ndo
conheci. Estava abarrotada de Machado
de Assis, Jos6 de Alencar, E4a de Quei-
roz, Shakespeare em volumes portugue-
ses avulsos da Lelo, capa de pano com a
effgie do dramaturge, Monteiro Lobato
para adults, Urupes inclusive, Joaquim
Nabuco (Minha Formaado), Oliveira Vi-
ana (Evolugfo do Povo Brasileiro, Po-
pulaVfes Meridionais do Brasil), Lima
Barreto quase integral; Taunay, Afranio
Peixoto (o romance Fruta do Mato),
Dante (A Divina Comidia, em traduqio
do Barao de Vila da Barca) e de outros
autores prestigiosos na ddcada de 20,


quando foram comprados, como Assis
Cintra, Oliveira Lima, Ant6nio Torres,
Mario Pinto Serva e Alberto Torres.
Criei-me A sombra dessa estate, se-
gao belenense da biblioteca de familiar; a
outra, que a completava, era de meu tio,
em Sao Paulo.

Algudm orientou-o nasprimeiras lei-
turas? Que orientafdo lhe deu?
Tive e nao tive um primeiro orienta-
dor. Os livros da estate amarela eram, de
qualquer modo, a materializaqao simb61i-
ca da voz patema suprimida pela morte,
que nao lhe suprimiu a presenqa. Ou, se
quiserem, a autoridade, para o filho p6s-
tumo que fui. Vista a questdo desse angu-
lo, a primeira orientaqgo veio do pai, lou-
vado seja Freud. Mas como os livros es-
tavam ali A minha escolha, gradualmente
vencida a resistencia matema (havia-os
"fortes", perigosos, anticlericais, etc.), e
como jamais me veio dele, do pai, qual-
quer indicaqAo express em sentido con-
trdrio, a orientagio se fez ao acaso, em
parte devido A minha curiosidade, talvez
estimulada por aquela resistencia, em part
porque, filho dnico, menino solitirio, des-
cobri na leitura o meio de me divertir so-
zinho. Autodidata nato, sempre fui nostAl-
gico de um mestre. Depois da professor
primAria, minha tia, tive muitos mestres,
sem, atW hoje, fixar-me em nenhum. Mas
isso 6 mat6ria para outra hist6ria.

Q uero apenas acreseen-
tar que na epoca de
form go, da infiania
para a juventude, os meus
sucessivos mestres tambem
foram amigos, quase sem-
pre muito mais velhos do
que eu: Augusto Serra, fundador do
Col6gio Modemo onde fiz o Gindsio,
home de superior cultural literdria e ma-
temitica, que me franqueou a Biblioteca
do estabelecimento, da qual me veio a
revelaq~o dos clissicos franceses e in-
gleses (Molibre, Racine, Corneille, la
Burybre, La Rochefoucauld, Swift, Wal-
ter Scott); meu primo Ribamar de Mou-
ra, inteligencia pura e nobre carter, a
quem devo o empurrio definitive para a
Filosofia (ele repartia com os dois ir-
mdos, Silvio e Levy Hall de Moura, a
propriedade da Critica da Razdo Pura,
de Kant, e de 0 Mundo como Vontade e
Representafao, de Schopenhauer em
frances, belos volumes encademrnados
que freqUientei assiduamente); C6cil Mei-
ra, a quem devo o empr6stimo de uma
versdo resumida do Wilhelm Meister, de
Goethe, e Orlando Bitar (deu-me, antes
das Obras Completas de Virgflio, uma
Eneida traduzida em prosa para o portu-
gues, que ainda tenho esperanqa de re-
cuperar das mios arrependidas daquele
que indevidamente a ret6m). Como es-
quecer a gravura de Jean Valjean ajudan-


do a pequena Cossete a carregar um bal-
de d'igua que parecia bem maior do que
ela, na migica ediqao gigante ilustrada
de Les Miserables, de Victor Hugo, que
Orlando Bitar, meu professor de latim,
no Moderno, nao hesitou em confiar aos
meus quatorze anos de calqas curtas?
Cedo entrei, assim, no circuit bibli-
ogrifico infinito, o tinico verdadeiro moto
perp6tuo que conheqo. Pela leitura de um
s6 livro, pode-se chegar a todos os ou-
tros, com tempo e disposigio. Quase
sempre, os amigos ajudando, obtive, na
hora certa, aqueles de que precisava,
movido por uma esp6cie de "faro" ou de
"senso frontal", at6 hoje em pleno funci-
onamento. Ainda nos tempos do Moder-
no, socorreu-me Anunciada Chaves, na
lista dos mestres-amigos, com o seu sun-
tuoso Daudet (Tartarin de Tarascon) e
com alguns volumes de Moliere, capa ver-
melha de pano, cheirando a naftalina, le-
tras douradas na lombada. Artur C6sar
Ferreira Reis, meu professor de Hist6ria
das Am6ricas, que deslumbrou nossa tur-
ma falando-nos dos aztecas,
emprestou-me Casa Grande &
Senzala. Aos 19 anos, recebi de
Paulo Mendes, o Chico Men-
des, uma avultada proviso de
Goethe, Kierkegaard, Rilke,
Kafka, Sartre, Paul-Louis Lan-
dsberg, que alentou o sopro do
primeiro long ensaio que es-
crevi, A Morte de Ivan Ilicht,
publicado no Suplemento Lite-
rdrio da Folha do Norte, fun-
dado e dirigido por Haroldo
Maranhao. Antes, muito antes
disso, jA se me abrira a grande
mina da biblioteca de Haroldo,
que crescia nos altos da Fo-
lha, acima do lugar onde fica-
va a do velho Maranhao. Entre n6s tra-
vara-se uma singular relagao de amiza-
de: 6ramos dois viciados em literature,
que as vezes liam os mesmos livros, e
que se exercitavam, ele aos 14 e eu aos
13, imitando A Barca de Gleire, de Lo-
bato e Godofredo Rangel, nos labores
da epistolografia: escreviamos cartas em
que resumfamos, um para o outro, s
obras lidas durante a semana.

Com quantos anos voci comprou o
seu primeiro livro? Qual era?
Como os livros minassem ao meu re-
dor, somente aos 14 anos, por inconti-
nencia de appetite, comecei a comprar,
corn o parco dinheiro fornecido pelas tias,
a obras custosas da Editora Vecchi, exi-
bida nos balc6es da atulhada e simpAtica
Livraria Vit6ria, de propriedade do Rai-
mundo Saraiva de Freitas, distribuidor de
romances em fasciculos, tiltima apariqao
dos Folhetins para assinaturas. Ainda
guard as duas primeiras compras: Cha-
mfort, Caracteres e Anedotas; Benjamin
Franklin, Brevidrio do Homem de Bern,






vols. 7 e 8 da Coleqao de pequeno for-
mato Os Grandes Pensadores.

De seus livros escolares, qual o que
marcou ou dele voci ainda se lembra?
Dos livros escolares retive na mem6-
ria a forma e a cor das capas, algumas
gravuras e certas frases, principalmente
aquelas da Lifdo de coisas, de Felix Pe-
dro Pantoja, que era a Quinta-essancia
da Fisica de Arist6teles deluida em cate-
cismo ("Qual a diferenqa entire objeto na-
tural e objeto artificial? 0 objeto natural
6 feito pela mao de Deus, o objeto artifi-
cial 6 feito pela mao de Deus, o objeto
artificial 6 feito pela mao do homem".
O mesmo m6todo do Primeiro Catecis-
mo da Doutrina Crista, que estudava As
quintas-feiras, de tarde, na Igreja da San-
tfssima Trindade ("Sois Cristao? Sim,
sou Cristao. Fazei o sinal da Cruz. Que 6
ser Cristio?" etc., etc.). Para mim, os
melhores livros sempre foram os extra-
escolares. Nos anos de instrugao religi-
osa, tamb6m rezava pelo catecismo de
Dona Benta, porta-voz do pen-
samento liberal, c6ptico, alta-
mente politico, no sentido da
afirmaq~o de uma consciencia
ptblica de carter 6tico, de
Monteiro Lobato: Hist6ria do
Mundo para Crianqas, Dom
S Quixote de La Mancha, Robin-
son Cruso6, Robin Hood. Dom
Quixote trazia gravuras de
Gustav Dord. S6 algumas ce-
nas dos filmes Kurosawa me
trouxeram cenas tao comoven-
tes quanto a da imagem de San-
cho Panqa que, rosto contra
focinho, chora, abraqado, num
gesto de despedida, ao burro
que vai abandonar.

Quantos livros tern atualmente na
sua biblioteca? Qual e o "forte" dela?
Quais os livros mais valiosos nela exis-
tente? Quanto tempo levou para for-
md-la? Como ela funciona? I aberta
ia consult? Quem cuida dela?
Nao posso precisar-lhe quantos livros
tenho. 0 dltimo catilogo que tentei orga-
nizar data de meus vinte anos.Convencido
de que era uma prAtica sorvedoura de tem-
po, deixei, desde entao, de contabilizar mi-
nha biblioteca. Trato dela sozinho, seu for-
te 6 Filosofia e Literatura quase em parties
iguais. S6 uma concessao A burocracia:
procuro manter, a duras penas, um re-
gistro de empr6stimos; safdas nao sao
raras para estudantes e colegas. Algumas,
infelizmente, tornam-se atestados de 6bi-
to: indmeras as reposiq6es que tenho fei-
to. Pelo que disse at6 aqui, ji se adivi-
nhou quanto tempo levei para juntar es-
ses livros, que somados aos anos de Ma-
ria Sylvia eAngelita, ocupam mais de qua-
tro compartimentos da casa. Tem a bibli-
oteca mais do que a minha idade, porque


surgiu antes de mim. Sou seu funciondrio
tnico, e at6 agora pude controld-la impe-
cavelmente. t certo que Ihe impus uma
ordem pessoal; sei onde encontrar cada
livro de acordo corn o assunto (Hist6ria
da Filosofia, Filosofia da Ciencia, Religiao,
Psicologia, Critica Literdria, Romances
Brasileiros, Romances Estrangeiros, Poe-
sia e assim por diante). Nao trago a biblio-
teca na mem6ria. Ela 6, de certo modo, a
minha mem6ria, feita de perdas, lembran-
gas e recuperag6es. Gostaria de recuperar
alguns dos meus antigos h6spedes, como
certas obras da Colecgo Terramarear (Mo-
wgli, o menino lobo, Jacala, o crocodile,
de Kipling; Tarzan, o Rei das Selvas, de
Edgard Rice Burroughs; Pinochio, de Co-
lodi) ou a Poesia de Manuel Bandeira edi-
tada pela Casa do Estudante do Brasil. Nao
sofro da obsessao de querer renovar o
alumbramento da primeira leitura, embora
persista a nostalgia da experi8ncia passa-
da. Cada qual tem o paraiso perdido que
merece. 0 meu 6 livresco. Se fosse rico
compraria a Bibliotheque de la Pleiade in-
teira, todos os volumes da ColeNio Bud6 e
dos clAssicos Loeb; tamb6m colecionaria
edig es de Shakespeare assim como os
novos-ricos colecionam santos barrocos.
Mas long estou do traditional bibli6filo,
com o gosto de edicoes raras, A busca de
obras finamente encadernadas ou de luxo.
No entanto, o livro, instrument de traba-
lho para riscar e anotar, adquire a meus
olhos identidade ffsica, corn a sua capa, o
cheiro do papel, o format, a posiqgo da
estate. Nesse ponto pareqo-me com D.
Pedro II, para quern cada livro era um es-
timulante dos sentidos da vista, do tato e
do olfato. Assim 6 que os guard na me-
m6ria, catdlogo dnico, compulsado onde
quer que esteja.

Os mais valiosos sao os
que melhor me ser
vem, me ajudam, me
aeompanham: Frkagmente der
Vorsokratiker, de Hermann
Diels; Kant complete, 18
vols., na Edigao de 1921 da
Academia de Berlim; Fichte,
tamb6m complete, em 6 vols.,
EdigAo de 1911; Schopenhau-
er, idem, em 6 vols. Reclam; His-
tdria da Filosofia, de Uberweg, 4 volu-
mes, Berlim, 1906; Suma Teoldgica, 16
vols. Latim/Frances, 1853 presente de
Chico Mendes); La Philosophie de la Na-
ture, de J-Del. de Sales, Paris, 1804, 10
vols. (obtido numa troca corn Machado
Coelho); os livros de poesia (Pound, Dylan
Thomas, Cummings, etc.) que pertence-
ram a Mario Faustino.

Se tem fdihos: eles gostam de ler? Se
ndo tem filhos, parents?
Os filhos tinicos, adotivos, nossos ga-
tos e cachorros, d6ceis e inteligentes, nao
se interessam por essas coisas. Mas os


meus primos, que cresceram na mesma
casa onde nasci e me criei, gostam de ler;
tivemos a mesma professor primAria,
nossa tia de verdade, e nao a postiga das
escolas de hoje, e que contribuiu para isso.

Quais os dez livros mais importan-
tes na sua vida?
Prefiro mencionar textos, como livros
ou parties de livros que estao estranha-
dos A minha vida pessoal: 1- Apologia
de S6crates (Platao); 2 El sentimiento
trdgico de la vida, de Miguel de Unamu-
no; 3- Josd e seus Irmdos, de Thomas
Mann; 4 A Morte de Ivan Ilicht, de
Leon Tolstoi; 5 Kant, Crftica da Razdo
Pura; 6 Proust, La Recherche du Temps
Perdu; 7 Guimaraes Rosa, Grande Ser-
tdo: Veredas; 8 Os Poemas elegiacos
de Carlos Drummond de Andrade (em A
Rosa do Povo e Claro Enigma); 9 A
Paixdo Segundo GH., de Clarice Lispec-
tor; 10 Ser e Tempo, de Heidegger.

Que livros sdo essenciais para um
leitor?
Teria que escrever um livro sobre os
livros como resposta a esta pergunta. Na
impossibilidade de faz8-lo agora, apresen-
to-lhe algo simples, nao no genero de Ce
qu' il faut lire dans la vie, obra de autor
frances que encontrei, quando cursava o
gindsio, na biblioteca dos irmaos Viana
(Garibaldi, Camilo, Raimundo e Antonio
Pedro), por eles herdada do pai, Prof.
Josino. 0 que adiante se vai ler 6 uma
lista com as seguintes especifica9es e
utilidades: a) sujeita a muitos acr6sci-
mos sem que dela possa ser suprimido;
b) vai do s6c. VIII a C. ao inicio do
s6c. XX d.c., at6 por volta de 1903; c) -
nao serve para o Vestibular; d) pode
denominar-se "o que 6 precise ler A mar-
gem do ensino universitdrio enquanto se
estuda na Universidade e depois", e) enu-
mera os livros e autores que podem ser
recolhidos numa Arca salvadora, em caso
de Dildvio antilivresco, precipitado pelo
eventual e possivel agigantamento, como
maremoto de certa duracgo, da onda de
estupidez intellectual, est6tica e 6tica, que
jA castiga o Pais.
Upanishada e Bhagavad-Gita; Ra-
mayena; classicos chineses, Taote-King
inclusive; textos budistas e zenbudistas;
Hesiodo, Teogonia; Homero, Illada e
Odissdia; trag6dias gregas & Esquilo,
S6focles, Euripedes); Her6doto, Hist6-
ria; Tucidides, A Guerra do Peloponeso;
Obras de Platao, como Apologta de S6-
crates e Os Didlogos Banquete, Phedro,
Phedrdo, A Reptblica, 0 Sofista e Par-
menides; Arist6teles, Organum, Podtica,
Etica a Nic8maco; Virgilio, Eneida; Ovi-
dio, As Metamorfoses; HorAcio, Odes;
fontes do estoicismo e do ceptismo (Mar-
co-Aur61lio, Epicteto e Sexto-Empirico);
De Rerum Natura, de Lucr6cio; Petr6-
nio, Satiricon; Apuleio, Asno de Ouro;






Luciano de Samosata, Didlogos. Eclesi-
astes e Cdntico dos Cdnticos: Os Evan-
gelhos (inclusive os Ap6crifos); Livros
de Pseudo-Dionfsio Aeropagita; As Con-
fiss5es. de Sto. Agostinho: Abelardo, His-
tdria de minhas calmidades; Tristdo e
Isolda; 0 ciclo do Rei Artur; Tomds de
Aquino, Suma Teol6gica; I Fioretti, de
Sao Francisco de Assis; Dante, A Divi-
na Comddia; Eckardt, Sermcies; Poesi-
as, de Frangois Villon; Nicolau de Cusa,
De docta ignorantia; Boccacio, Decame-
ron; Rabelais, Garantua e Pantagruel; Les
Essais, de Monteigne; Shakespeare, Tra-
gddias e Comidias; Camies, Os Lusta-
das e Sonetos; Fernmo Mendes Pinto, As
PeregrinagOes; Sao Jodo da Cruz, Subi-
da do Monte Carmelo; Cervantes, Dom
Quixote de La Mancha; Calderon de la
Barca, La Vida es suehio; Descartes, Dis-
cours de la Mdthode e Meditar6es Meta-
fisicas; Pascal, Les Pensdes; Spinoza,
Etica; Molibre, Le Tartuffe, Le Medicin
malgre lui, Le Malade imaginaire; Raci-
ne, Phidre, Esther, Andromaque, Brita-
nicus; La Rochefoucauld, Maximes; La
Bruyere, Les Characteres.
Locke, Essay concerning the Human
Understanding e Segundo Tratado sobre
o Governo; Montesquieu, 0 Espirito das
Leis; Hume, Tratado sobre a anatureza
humana; Berkeley, Didlogo entire
Hylas e Filonous; Leibniz, Monado-
logia; William Blake, Os Livros pro-
fiticos (principalmente 0 Casamen-
to o Ciu corn o Inferno); Rousseau,
Ensaio sobre a origem da desigual-
dade, Les Confessions e Les Reveri-
es d'un promeneur solitaire; Voltai-
re, Contos Filosdficos (sem esque-
cer L'Ingenu e Candide); Diderot,
Jacques le Fataliste e Suplemento at
viagem de Bougainville; Goethe, Wilhelm
Meister e o Fausto (10 e 2*); Schiller,
Poesia ingenua e Poesia Sentimental e
as Cartas sobre a Educaado Estftica;
Correspondencia Schiller/Goethe; Kant,
A Crftica da Razdo Pura, Filosofia da
Hist6ria do Ponto de vista Cosmopolita
e Critica do Juizo; Richardson, Tom Jo-
nes; Novalis, Hinos a Noite; Holderlin,
Elegias e Hinos; Kleist, A Marqueza d'O;
Buchner, Woyzzek e A Morte de Danton;
Heinrich Heine, Livro das CanVoes; As
Mil e Uma Noites.
Chateaubriand, Atala e Memoires
d'Outre-tombe; Sterne, Sentimental Jour-
ney e Tristram Shandy; Odes, de Shelley
e Keats; Coleridge, Biografia Literdria;
Leopardi, Cantos; Hegel, A Fenomelo-
gia do Espirito e Lir6es de Estdtica; Karl
Marx, 0 Capital e 18 Brumario; Scho-
penhauer, 0 mundo como vontade e re-
presentafdo; Kierkegaard, Migalhas Fi-
los6ficas e o Tratado do Desespero;
Balzac, A Comidia Humana; Stendhal,
0 Vermelho e o Negro e Crdnica Italia-
nas; Victor Hugo, Les Contemplations,
Notre Dame de Paris, Les Miserables; Mi-


chelet, A Revoluado Francesa; Tocque-
ville, 0 Antigo Regime e a Revoluiao
Francesa; Alexandre Dumas, Os Tres
Mosqueteiros; Jos6 de Alencar, 0 Gua-
rani, Iracema e As Minas de Prata; Al-
meida Garret, Viagens na minha Terra;
Alexandre Herculano, Lendas e Narrati-
vas, Histdria da Origem e do Estabele-
cimento da Inquisicdo em Portugal; Di-
ckens, David Copperfield, Pickwick Pa-
pers; Emily Bronte, 0 Morro dos Ventos
Uivantes; Charlotte Bronte, Jane Eyre,
Jane Austen, Pride and Prejudice; Bau-
delaire, Les Fleurs du Mal; Rimbaud, Les
Ruminations; Verlaine, Romances sans
Paroles; Mallarm6, Poesias; Edgar Allan
Poe, Contos Extraordindrios; Emily Di-
ckson, Poems; Lautr6aumont, Chants de
Maldoror; Omar Kayyan, Rubayat.
Samuel Butler, The way of all flesh;
Robert Loouis Stevenson, The Treasure
Island; Thomas Hardy, Judas o Obscu-
ro; Flaubert, L'Education Sentimentale,
Trois Contes; Jules Verne, Viagem i Lua;
Joseph Conrad, Nostromo; Lewis Carro-
ll, Alice no Pais das Maravilhas; Camilo
Castelo Branco, 0 Amor de Perdicdo;
Machado de Assis, Mem6rias P6stumas
de Braz Cubas, Quincas Borba, Dom
Casmurro, Joaquim Nabuco, Minha For-
marco; Ruy Barbosa, Contra o Milita-


rismo; Euclides da Cunha, Os Sert6es;
Tolstoi, Guerra e Paz e A Morte de Ivan
Rich; Dostoievski, Crime e Castigo, Os
Irmdos Karamazov, Os Possessos, 0 Idi-
ota; Chekov, Contos, As Trds Irmis; Ib-
sen Solners, 0 Construtor; Strindberg,
0 Sonho; Thoreau, Walden e Desobedi-
encia Civil; Walt Whitmann, Leaves of
Grass; Kipling, 0 Livro da Jangal; Hen-
ry James, A volta do parafuso; Mark Ta-
wain, Huckleberry Finn; Ega de Queiroz,
A Cidade e as Serras, 0 Primo Basilio;
Bergson, Les Donndes Immddiates de la
conscience; Nietzsche, Assim falava Za-
ratustra; Husserl, InvestigaVdes L6gicas;
Freud, Interpretaado dos Sonhos; Proust,
La Recherche du Temps Perdu; Val6ry, Po-
esias e Varidtds; Andr6 Gide, Os Moedei-
ros Falsos, Le Fils Prodigue; Gorki, Mi-
nhas Universidades; Apollinaire, Alcools
e Calligrames; Eliot, The Waste Land;
Joyce, Dubliners, Ulisses; Pound, The
Cantos; Jorge Guillen, Cdntico; Rilke, Ele-
gias de Duino e Sonetos e Orfeu; Trakl,
Poemas; Lorca, Romancero Gitano; Fer-
nando Pessoa, Guardador de Rebanhos,
(Alberto Caeiro), Odes (Ricardo Reis),


Grandes Odes (Alvaro de Campos); Hei-
degger, Ser e Tempo; Jacob Wassermann,
Process, America, 0 Castelo, A Colonia
Penitencidria; H.O. Lawrence, 0 Homem
que morreu, A Serpente Emplumada; Vir-
ginia Wolf, As Ondas e Orlando; Hermann
Broch, Os Sondmbulos; Musil, 0 Homem
sem Qualidades; Oswald de Andrade, Po-
esia Paubrasil; Mdrio de Andrade, Macu-
naima; Poesias de Carlos Drummond de
Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes,
Manuel Bandeira; Karantzakis, Ascese, Sal-
vatores Dei.

Que livro causou-lhe a maior
decepdfo?
O Baudelaire, de Jean-Paul Sartre, que
culpa Baudelaire porter sido Baudelaire.

Dos livros que escreveu, qual o
que mais lhe agrada? Qual o menos
satisfatdrio?
O que me agradou, dando-me prazer
quando o escrevi, foi 0 Tempo na Nar-
rativa. 0 menos satisfat6rio 6 ainda um
dos primeiros, Introducgo h Filosofia da
Arte, que deveri ser revisto e ampliado
nos pr6ximos anos.

Que livros sobre a Amazonia devem
constar de uma boa biblioteca?
Alexandre Rodrigues Ferreira, Vi-
agem Filos6fica; Bates, Um Natura-
lista no Rio Amazonas; Gastdo Cruls,
A Hildia Amaz6nica; todos os que
Eidorfe Moreira escreveu sobre o as-
sunto; Curt Nimuendaju, OsApinayd;
SEdson Soares Diniz, Os (ndios Ma-
cuxi de Roraima; Frederico Barata,
Andlise estilistica da cerdmica de
Santardm; Armando Mendes, Viabi-
lidade Economica da Amazonia e 0
Mato e o Mito; Licio Fldvio Pinto, Cara-
jds, o Ataque ao coraado da Amazonia e
Jari (as relaroes entire o Estado e as mul-
tinacionais na Amazonia); Vicente Salles,
0 Negro no Pard. Ainda: 0 Coronel san-
grando, de Ingles de Sousa; 0 Turista
Aprendiz, de Mario de Andrade; Moron-
guetd, de Nunes Pereira; Antonio Bran-
ddo deAmorim, Lendas em Nheengatu em
portuguis; o ciclo ficcional de Dalcidio Ju-
randir, comegando por Chove nos cam-
pos de Cachoeira; Batuque, de Bruno de
Menezes. E mais: a poesia de Rui Barata
(Anjo dos Abismos, A Linha Imagindria);
a obra po6tica de Paulo Plinio Abreu; 0
Homem e sua hora, de Mario Faustino;
Verde vago mundo, de Banedicto Montei-
ro; Galves o Imperador do Acre, de Mar-
cio Souza; Cabelos no Coradfo, de Ha-
roldo MaranhAo; 60/38, de Max Martins.
Lembramos tambem Luis Bacellar, Sol de
feira; Elcio Farias, Romanceiro; Jorge Tu-
fic, Poesia reunida; Paes Loureiro, Can-
tares AmazOnicos; Age de Carvalho, Ror;
S6rgio Wax, Trinta e tris experiments e
uma Suite; Milton Hatoum, Relato de um
certo Oriente.






Os intelectuais e o powder


O peruano Mario Vargas Llosa 6
um dos maiores escritores de todos os
tempos na Am6rica do Sul e um dos
mais importantes em atividade no
mundo. Seu premio Nobel de Litera-
tura foi just e merecido. Escreveu
muito, sempre em alto nfvel de quali-
dade e com muita diversidade. Desde
Conversa na Catedral a Pantaledo
e as Visitadoras, Batismo de Fogo
(na traduqdo da la edigqo em portu-
guis) at6 A Guerra no Fim-do-Mun-
do, que muito critico desdenhou, mas
esti A altura do seu principal perso-
nagem, Euclides da Cunha. Isto em
ficqdo. Em ensaios nao desce um pa-
tamar sequer, ainda quando emite opi-
ni6es controversas ou duvidosas. Sabe
escrever como poucos e dar grande-
za aos temas que aborda. Como a
maravilhosa cronica sobre um aristo-
crata peruano decadente que frequien-
ta livrarias em Paris. Uma elegia ao
livro e Aqueles que o cultivam.
Nada mais natural do que Llosa ter
sido convidado para a abertura da Feira
International do Livro de Buenos Aires,
que serd realizada no pr6ximo mrs. Sua
presenqa dignificaria a promoqdo. Feito
o andncio, por6m, comeqaram a agir os
censores ex-officio de esquerda. Llosa
deveria ser "desconvidado" porque nao
6 adepto da "corrente que abriga a soci-
edade argentina", por ser messianico,
antiperonista e critico da dinastia Kirch-
ner no poder. Al6m disso, 6 um fracas-
sado: foi derrotado na eleiqgo para pre-
sidente do Peru, em 1990.
Santa derrota. Talvez Vargas Llosa
nao viesse a ser um bom president. Mas
um excelente escritor ele continuou a ser
depois do "fracasso". Seu mais recent
livro de ensaios, Saber e Utopias, 6 umrn
primor. Aprende-se at6 discordando fron-
talmente dele, por sua inteligencia, seu
conhecimento e seu estilo.
0 "desconvite" foi feito por ningu6m
menos do que o president da Bibliote-
ca Nacional da Argentina, que devia ter
discernimento sobre o significado do li-
vro. Felizmente para a tradiqao intelec-
tual argentina, a president Cristina Kir-
chner teve um gesto de grandeza: can-
celou a mesquinha e burra iniciativa do
president da Biblioteca, fazendo-o des-
fazer o ato infquo. Kirchner ia se juntar
aos militares da ditadura, que em 1970
censuraram os livros de Llosa.


A principal fungqo do inte-
lectual hoje e sempre 6
estar long do poder e o mais
pr6ximo dos series humans,
dos cidadaos comuns, seus cli-
entes e patroes. Da humani-
dade, em sentido gen6rico,
para nao condicionar sua cri-
acao as expectativas de con-
sumo e aceitaqdo. 0 grande
desafio para o intellectual 6jus-
tamente a postura em relagdo
ao poder, quando o lugar 6 ocu-
pado por companheiros de vi-
agem. Ha a tendencia a se sa-
tisfazer com a realizaqao dos
sonhos de chegar ao topo do
process decis6rio, ensarilhar
as armas (sempre configura-
das em id6ias) e se entregar
ao usufruto.
Foi o que aconteceu corn
os intelectuais de esquerda a
partir da chegada de Lula ao poder.
Varios deles, alertas para o olho clfnico
do tempo, quiseram manter estandartes
e fantasias de independents e critics,
mas com um bastao de comando nas
maos ou uma sinecura no bolso. Para
manter os critics verdadeiros e os co-
bradores de posig6es A distancia, usamrn
os antigos conceitos morais da esquer-
da, monopolista do direito de uso das
bandeiras 6ticas, como metralhadora gi-
rat6ria. Procuram atingir quem estiver
do outro lado, mas no raio de acgo dos
seus conceitos.
E o que faz o soci6logo Emir Sader.
Idolo de certa faixa da esquerda e de
uma ala do PT, ele se consider um ico-
ne da verdade. Antes de assumir a pre-
sidencia da Casa de Rui Barbosa, de-
pois de nao ter conseguido ser ministry
da cultural, criticou sua chefa, colocada
no cargo pela turma de Dilma Rousseff
e nao pelos remanescentes de Lula),
Ana Buarque de Holanda, cujo maior
atributo 6 ser irma de Chico, aquele um.
Crftica ferina, deselegante e a6tica. De
tao im6vel, a ministry seria "quase au-
tista", sentenciou Emir.
Nao havia outro caminho que nao o
do "desconvite". Ao contrario da gros-
seria praticada contra Llosa por arbitrio
de um Torquemada portenho, no caso
brasileiro era a inica provid8ncia a ado-
tar. Se aceitasse a afronta, a ministry
encolheria e o seu agressor cresceria a


tal ponto que podia at6 cometer a incon-
seqii8ncia de mudar a razao de ser da
Casa de Rui Barbosa, hi mais de 80 anos
centro de acumulaqao e processamento
de documentaqao, de acervos e cole-
q9es, orientados para uma pesquisa es-
pecializada de profundidade e amplitu-
de, para o direito pdblico e a literature.
Sader queria transformar a Casa de
Rui numa versao refinada do Teatro Casa
Grande. Garante ele que foi num debate
que coordenou no ano passado no Casa
Grande, no Rio de Janeiro, que a campa-
nha em favor de Dilma Rousseff deslan-
chou de vez, graqas ao apoio de artists e
intelectuais que ali compareceram. Al6m
de um atestado de egocentrismo sem fun-
damento, 6 uma afronta aos fatos. Quem
elegeu Dilma foi Lula. A conta da vit6ria
ji foijogada sobre os peitos da president
- e ela esti podendo avaliar agora como
essa conta pesa. Nao tern nada a ver corn
intelectuais e artists.
Se estivesse corn bons prop6sitos e
de boa f6, Emir Sader teria procedido
de outra forma. Talvez ele tenha pre-
tendido mesmo 6 abrilhantar seu luzidio
currfculo, nao enfrentar o trabalho que
ia Ihe ser entregue se fosse empossa-
do, se credenciar A reparaqao da agres-
sao e continuar na posiqao iconoclasta
bem arrimada(e arrumada). No poder,
6 claro. Quanto mais pr6ximo esti do
poder, menos intellectual o intellectual 6.
Os dois casos comprovam.


1 QUINZENA Jornal Pessoal


MARQO DE 2011















SOCIALISTS
Menos de um m8s antes
da eleigqo de 3 de outubro
de 1958 a Juventude Socia-
lista se instalou no Pari,
como brago do Partido So-
cialista, presidido pelo advo-
gado C16o Bernardo.Na so-
lenidade de fundagdo fala-
ram os estudantes Acyr
Castro,Jos6 Ubiratan e Ra-
imundo Arinos.Os outros
fundadores foram Raimun-
do Freitas de Almeida, Ar-
temis Vasconcelos, Amindio
Souza, Pedro Galvio de
Lima,Ldcio Amaral, Deolin-
do Santos, Vivaldo Reis Fi-
Iho, Heraldo Mau6s, Janud-
rio Maciel,Jodo MAximo e
Ant6nio Vasconcelos.

TEATRO
Pouca gente foi ao "audi-
torium" da SAI (Sociedade
Artistica Intemacional) as-
sistir A primeira encenagao
teatral de "Morte e Vida Se-
verina", o auto de natal per-
nambucano do poeta Joao
Cabral de Melo Neto, em
agosto de 1958 (quase uma
d6cada antes da famosa ver-
sdo do Teatro da PUC de Sdo
Paulo). 0 colunista das No-
tas Artisticas da Folha do
Norte, Elmiro Nogueira, la-
mentou o vazio no saldo.
Elogiou a qualidade do
texto e o desempenho dos
atores Carlos Miranda, Ma-
ria Brigido e Aita Altman
(que continue ativa em SAo
Paulo), mas ressaltou:
"Nada valeriam a profunde-
za emotional do texto e o
quase impecavel desempe-
nho se ndo tivesse havido
valioso e imprescindivel co-
mando". Comando exercido
por Benedito e Maria Syl-
via Nunes, os criadores do


Norte Teatro Escola do
Para, corn a participagao de
Francisco Paulo Mendes e
Alonso Rocha (este, recen-
temente falecido).


A encenagqo pioneira na
SAI (onde hoje esti a Aca-
demia Paraense de Letras)
foi patrocinada pela UAP
(Uniao Acad8mica Paraen-


PROPAGANDA

Canastrio no Jurunas
Ronald Reagan, quem diria, foi ao Cine Aldeia do
Rddio, no Jurunas. Ndo em came e osso, mas na forma
de celuldide. Era o principal personagem do filme "A
revolta dos Apaches", contracenando com Rhonda
Fleming, exibido em maio de 1958. A populaado do
Jurunas se divertia na Aldeia do Rddio, que era, ao
mesmo tempo, atracdo local e centro de difusdo da
programagdo da Rddio Clube. Nunca mais voltou a
haver algo igual em Belem.


I Cine ALDEIA DO


--JURUNAS -


Um


Umn






min
A


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I"A Revolta Dos Ap


RADIO-



O0MENTE HOJE I

Sm o 20 horas

Sdas males renhidu


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Prumnount apri

Scor Ro" aid Ru-

Rhonda Fleming.
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ry.


aches"


ZI~~~' J U T I


aJ ornal Pessoal MARQO DE 2011 1aQUINZENA


se), mas Elmiro achava que
o espetdculo "deveria rece-
ber, no Teatro da Paz, as pal-
mas dos professors e dos
homes de pensamento".

QUERMESSE
Um dos programs fre-
qtientes e obrigat6rios da 6po-
ca eram as quermesses be-
neficentes. Em 1959 as alu-
nas e professors do muito
famoso Gindsio e Escola Tdc-
nica de Com6rcio PAtria e
Cultura fizeram um desses
convescotes, "em beneffcio
desse estabelecimento", co-
megando as 8 da manhn e
indo at6 as 10 da noite. Apega
de resistencia eram as
comidas.O cardapio apresen-
tado espelhava a culindria de
entio: pato assado corn faro-
fa, pato no tucupi, galinha com
farofa, arroz paulista, galinha
guizada, casquinho de muqud,
casquinho de caranguejo, por-
co assado, vatapi e a inevi-
tAvel salada de camarjo. Era
de se esbaldar.


m





CINELANDIA
Menos de um ano depois de
inaugurar o ediffcio Palacio do
Ridio e, em seu t6rreo, o Cine
Teatro Palacio, na avenida
President Vargas, o engenhei-
ro Judah Levy anunciou,no fi-
nal de 1960, empreendimento
semelhante, que executaria no
largo de Nazar6, a praqa Jus-
to Chermont. No t6rreo de um
ediffcio de apartamentos en-
tdo considerados de luxo, o
Rainha Esther, ele instalaria o
Cinelandia. Em relagqo ao
Palacio, o Cinelandia s6 nao
teria o balcao nobre, mas con-
taria corn mais poltronas es-
tofadas: 1.400. Seria um dos
mais belos cinemas do como
ji era o Palicio, pafs, mas
acabaria nao saindo. S6 o pr6-
dio de apartamentos residen-
ciais vingaria.

ENERGIA
No final de novembro de
1960 o governador Moura
Carvalho foi A Europa. 0 ob-
jetivo inicial era tratar da sai-
de. Mas a agenda tamb6m
inclufa quest6es polfticas e
t6cnicas. Ele voltaria como
candidate a prefeito de Be-
16m e um dos seus acompa-
nhantes, Aurdlio do Carmo,
como o nome A sua sucessao,
com o apoio do PSD, que con-
tinuava a ser o partido mais
forte, mesmo depois da mor-
te de Magalhaes Barata.
No Rio de Janeiro, que era
a capital federal, antes de
embarcar para a primeira
escala,em Portugal, Moura
disse que iria tratar na Ale-
manha da construgqo de uma
usina nuclear para abastecer
Bel6m, "uma vez que no Pard
nao existem quedas d'agua".
A usina nuclear nao sairia
das pranchetas da Celpa.
Quanto As inexistentes que-
das d'dgua, elas apareceri-
am. E muito.

JARI
Em 1969 poucas pessoas em
Bel6m jd tinham ouvido falar
na Jari. Dois anos antes o ex-
centrico miliondrio americano


FOTOGRAFIA


Hospedaria do diabo
Registro raro da terrivel Hospedaria do Tapand, em Belim, tambdm conhecida como
"hospedaria do diabo" (titulo de um livro escrito pelo advogado Valmick de
MendonCa). Primeiro serviu de abrigo para os imigrantes nordestinos,
principalmente cearenses, que chegavam para participar da "batalha da borracha",
o esforCo durante a Segunda Guerra Mundial para suprir as forcas Aliadas do
produto. Depois, quando a guerra terminou, na volta dos altos rios amazonicos dos
maltratados, desiludidos e doentes "soldados da borracha" e seus familiares, que
tentavam regressar a terra natal. Uma histrria de dor, sofrimento e misdria.Um
capitulo da ultima conflagragdo bdlica mundial a espera de uma hist6ria melhor.


Daniel Ludwig comprara uma
grande extensdo de terras no
Pard e no Amapd e ali come-
9ara um grande empreendi-
mento para produzir celulose,
arroz, mindrio e gado. Para re-
alizar grandes desmatamentos
e outros serviqos na drea era
precise contratar muita mao-
de-obra, aos milhares.
Em maio de 1969 a Policia
Rodoviiria Federal apreendeu
um caminhao cheio de traba-


lhadores, que estavam sendo
levados para a Jari. A firma
responsivel pelo transport
era a Desmatadora Amaz6-
nia, que recebera da Fazen-
da Serra Grande a tarefa de
recrutar 120 mil peoes ao lon-
go da rodovia Bel6m-Brasi-
lia. Chamada a se explicar, a
Jari disse que seu contrato era
exclusivamente corn a Serra
Grande, que estaria proibida
de sub-empreitar a tarefa. E


que a responsabilidade da
empresa americana era em
relagdo ao desmatamento e
nao A mdo-de-obra, que fica-
va por conta do empreiteiro.
Tres anos depois,quando os
peoes da Jari fizeram uma
manifestaqao de protest du-
rante visit ao local do presi-
dente Garrastazu M6dici, fi-
caria provado que a hist6ria
nao era bem essa. Era uma
hist6ria muito mais cabeluda.


MARQO DE 2011 1-QUINZENA Jornal Pessoal l







Politicos de ontem,

as copias de hoje


Voltou a ser moda falar mal de Car-
los Lacerda. E o satands da esquerda,
o politico reaciondrio, capaz das maio-
res vilanias, o matador de presidents,
o golpista. Lacerda foi umrn pouco de tudo
isso. Mas tamb6m foi muito mais. Ti-
nha carisma, idWias na cabega, auddcia
e coragem pessoal. Os que hoje lhe ati-
ram pedras, como ontem, costumam
manter a devida distancia. Nao era fi-
cil enfrentar pessoalmente o "corvo".
Um dos mais proveitosos e delicio-
sos depoimentos jd prestados por um
politico no Brasil 6 a longuissima entre-
vistas que ele concede a rep6rteres do
Jornal da Tarde (o vespertino de 0
Estado de S. Paulo, sob o comando
de Ruy Mesquita, o mais lacerdista da
famnlia) e publicada pela Editora Nova
Fronteira, do pr6prio Lacerda.
E dificil manter os estere6tipos ar-
mados contra ele depois dessa leitura.
Mas principalmente depois de ver a foto
em que Lacerda aparece cercado por
todos os lados por presidiarios rebela-
dos na penitencidria Lemos de Brito, no
Rio de Janeiro. 0 entdo governador da
Guanabara nao mandou ningu6m nem
se cercou de seguranqas. Debelou a re-


beliao na conversa, olhando os press
diretamente nos olhos.
Qual politico faria isso hoje, papari-
cado e guiado por legi6es de assesso-
res e marqueteiros? Antes de qualquer
movimento, os politicos profissionais dos
nossos dias consultam pesquisas, estu-
dos e conselhos de p6 de ouvido. Nao
hi mais espontaneidade e quando ela
emerge por cima de todos os controls,
6 um desastre.
Como a do prefeito de Manaus,
Amazonino Mendes, mandando para o
quinto dos infernos a moradora recalci-
trante de uma area de risco da capital
amazonense, ameagada de ruir.
A mulher tentava argumentar corn
suas condicionantes e mis6rias para
nao sair do local. Ao inv6s de continu-
ar o didlogo e oferecer-lhe alguma coi-
sa real para comeqar nova vida, o al-
caide, irritado, explodiu: "Entao morra,
morra". Ao saber que Laudenice Pai-
va, separada, desempregada, com tr8s
filhos para criar, morando em ocupa-
qao irregular, era paraense, Amazoni-
no, filho de pai paraense, terminou de
entornar o caldo da maledicencia: "En-
tao estd explicado".


Ainda n5o. 0 Pard sempre foi mais
local de atraqao, destino de imigrantes.
Nos filtimos anos assumiu um novo pa-
pel, o de local de saida, de fuga da po-
pulagqo, sobretudo a do oeste do Esta-
do, mais ligada atualmente a Manaus
do que a Bel6m. Um dos mais novos
bairros da capital manauara tem 80%
de paraenses, em sua grande maioria
santarenos. Eles agora experimental
na pele o que muitos imigrantes sofri-
am no Pard.
A discriminaqao aos paraenses no
Amazonas (e em toda a Amazonia Oci-
dental) tem causes hist6ricas, a partir
da fungao sub-colonial de Bel6m duran-
te a exploraqao da borracha. Um pou-
co do sangue espalhado pelos altos rios
na busca do ldtex ficava nos bancos e
casas aviadoras da rua 15 de Novem-
bro, que costumava ser implacdvel com
os devedores, cumprindo com rigor as
ordens superiores. Hoje a rivalidade vi-
rou misto de ressentimento e raiva pela
competiqdo.
A attitude do prefeito, por6m, nao
tem origem tao profunda. Ela traduz o
cinismo dos politicos profissionais ao
lidar com o cidadao fora da 6poca de
colheita de votos. P um desprezo que
parecia s6 existir na recriaqao literi-
ria. Quando se via Chico Anysio na pele
de Justo Verissimo, sempre desejoso
de ver o povo explodir, dava-se de tro-
co o exagero. Hoje, 6 uma pdlida re-
produqao da realidade de Amazoninos
et caterva.
Falta grandeza e sensibilidade aos
politicos nos nossos dias. 0 direitista
Lacerda foi A massa de presididrios
endurecidos bancado apenas por sua
orat6ria e raciocinio. 0 governador Si-
mao Jatene podia ter pegado um aviao
e ido a Manaus buscar sua conterri-
nea desfavorecida e traz8-la de volta
A sua terra, oferecendo-lhe algo me-
Ihor do que a sentenqa de morte do
prefeito de Manaus. Mas este tipo de
politico estA fora de cogitaqao. S6 exis-
te na mem6ria de quem ainda a culti-
va, ainda que erroneamente.


Jomal Pessoal
Editor: LOcio Flavio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: Ifpjor@uol.com.br jornal@amazon.com.br Site: www.jornalpessoal.com.br
Diagramagqo e ilustragOes: Luiz Antonio de Faria Pinto luizpe54@hotmail.com *
luizpe54@gmail.com chargesdojornalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.com


*Jornal Pessoal MARQO DE 2011 1aQUINZENA


Mem6ria do

Cotidiano 3

Jd estd a venda nas bancas
e livrarias da cidade o
terceiro volume da colegdo
emformato de livro da
Memdria do Cotidiano, a
segdo fixa deste journal.
Com diagramagdo mais
leve e limpa, para permitir
a melhor leitura e o maior
prazer dos leitores. Agora,
e ir atrds e comprar 0
editor agradece.


I


ilpI4E
FAiO 1,
PINTI|O]
DOl [OIDIA! g]






Central de flagrantes


A primeira central de flagrantes da
policia civil comegou a funcionar no dia
20, em Bel6m, na seccional de Sdo Braz.
Parece que comeqou mal: congestiona-
da e inibindo as queixas. Precisa ser
reformulada no nascedouro. Improvisa-
gqo na pritica e falta de planejamento
parecem ser seus males de origem.
Outro dia, passando em frente ao
Edificio Bern, pioneiro do crescimento
vertical na Presidente
Vargas, cogitei de a cen-
tral ser instalada ali. 0
velho pr6dio esti sendo
reservado para a destrui-
9o: abandonado, sujo,
em ruinas. Assim ficard
por tempo imprevisivel
porque a area, que j foi nobre, hoje esti
desvalorizada. Quem derrubasse o Bern
iria querer levantar um espigao. Mas
para que? Dificilmente seria um neg6-
cio rentivel.
Reformado e adaptado para as no-
vas funq6es, o edificio de cinco anda-
res ficaria muito bem como sede da
central de flagrantes. Seria todo ele uti-
lizado para essa dnica finalidade, corn
todos os espagos requeridos. 0 terre-
no ao lado, que abrigaria uma ag8ncia


nunca construida do Banco da Ama-
z6nia, poderia ser usado como estaci-
onamento. Para isso, os ambulantes
teriam que ser remanejados para umrn
espaqo adequado.
Podiam reclamar, mas acima de tudo
estaria o interesse coletivo. Haveria
mais seguranga no velho centro comer-
cial de Bel6m. A area seria valorizada
ou, pelo menos, teria um uso mais in-
tenso. A populado pode-
ria ser atendida por um
centro especializado por-
que sempre haveria via-
turas policiais para aten-
der os chamados, al6m
da rede de patrulhamen-
to normal da cidade.
A funqao policial em nada prejudi-
caria as outras atividades porque a en-
trada e saida serial a partir de um bom
estacionamento lateral. E adotando
como modelo o centro de flagrantes de
Portland, no Estado do Oregon, nos
EUA, claro que ajustado As condiq6es
belenenses, o padrdo seria correto. E
certamente a central contribuiria para
reduzir o indice de criminalidade na ca-
pital paraense.
Esti lanqada a ideia.


Danga das cadeiras

Enquanto a administracqo pdblica
nao for profissionalizada no Brasil es-
taremos condenados a assistir a esse
lamentivel espetdculo de exonera-
q6es e admiss6es as pencas sempre
que um governante for substitufdo por
outro. E assim que sao pagos muitos
dos votos conferidos ao vencedor. A
moeda de troca 6 o cargo comissio-
nado. Lateralmente, sao punidos os
servidores que apostaram na candi-
datura derrotada.
Poucos escapam a essa razzia, que
6 o ajuste de contas p6s-eleitoral langa-
do A rubrica das contas a pagar. Assimrn
serd at6 que nao houver mais esses pen-
duricalhos funcionais. Ingresso, s6 atra-
v6s de concurso. Progressao por m6ri-
to ou ancianidade at6 o dltimo posto da
carreira de cada setor da administracqo
piblica, que assim prestari seus com-
petentes services a quem 6 sua razao
de ser: o cidadao.


Paraense vencedor


Renato Navarro Guerreiro foi um
daqueles personagens que a Folha do
Norte certamente incluiria entire "os
paraenses que venceram no Sul".
Corn discriqao e humildade, fazendo
do seu talent e da sua larga visao os
meios para realizar carreira como en-
genheiro de telecomunicaq6es e um
dos principals atores na passage da
telefonia brasileira do dominio estatal
para o control privado. Foi uma das
mais dificeis, pol8micas e profundas
transformaq6es na vida do pais nas
duas dltimas d6cadas.
Muitos tomaram parte nessa his-
t6ria, mas Renato, A distancia dos re-
fletores, foi a grande refer8ncia t6c-
nica e o maior inspirador para as me-
didas adotadas a partir do governor
de Fernando Henrique Cardoso. A
criatura concebida esta af, exposta
as criticas, mas funcionando. Ndo
existiria sem que uma pessoa tives-


se na cabeqa uma visao maior do
que a de um executor de ordens e
seguidor de manuais. Renato Guer-
reiro foi um criador, sem nunca per-
der a condiqao de caboclo de Orixi-
mind, onde nasceu em 1949. Mor-
reu em Brasilia.


IMQUINZENA Jornal Pessoal


Saude precaria

Da porta de suas sedes para
fora, as instituig6es oficiais desen-
cadearam uma guerra A dengue.
Sempre retardada e carente dos
recursos adequados. Mas 6 inter-
namente que se percebe melhor o
despreparo. Enquanto os guards de
sadde andam pelas ruas e casas
inspecionando, borrifando e notifi-
cando, os doentes morrem inclu-
sive da forma hemorragica, um
atestado da incompet8ncia do go-
verno por nao encontrarem m6-
dicos ou enfermeiros nos postos de
saidde e hospitals.
Foi o que aconteceu com Jose
Oliveira, de 46 anos. Seus pa-
rentes o levaram a tempo de ser
assistido e salvo. Mas depois de
ir e voltar duas vezes a unidade
de emergencia do distrito indus-
trial de Ananindeua sem ser
atendido, foi transferidoji no de-
sespero ao Pronto Socorro Mu-
nicipal do Guami, onde morreu
de dengue hemorrigica.
0 quinto caso confirmado de
morte em dois meses na capital
africana do Para.


MARCO DE 2011







Monstrengo
A Companhia das Docas
do Pard conseguiu cons-
truir, na praga Waldemar
Henrique, uma das edifica-
96es mais feias de Bel6m.
A contrastar corn a caixa
marrom, As proximidades, a
elegant sede da Porto of
Para, deixada pelos coloni-
zadores estrangeiros para os
colonizados tupiniquins dos
SNAPP, Enasa e, final,
CDP. Se de portos ela en-
tende, de construgao civil o
que sabe 6 errado.


IgTeja
Uma simples limpeza
mudou para muito melhor a
fachada da bela igreja do
Carmo. Ela agora esti pre-
cisando de uma revisao. Mas
esti precisando principal-
mente que se ataquem as in-
filtraq6es. Sao muitas e ji
profundas. Algumas das pin-
turas na parede comegam a
ficar ameagadas. Espero que
quem de direito nao espere
pela consumagio da amea-
9a para tomar providencia,
ja, urgente.


Livros
A Big Ben anunciou, comr
todo alarde possivel, no mes
passado, que venderia "tudo
pelo menor prego do Brasil",
na sua promogao de duas
semanas, at6 o dia 20. Pelo
menos em relacgo a livros,
foi propaganda enganosa. Os
descontos variaram de 5 a
15%, numa faixa m6dia de
reduqgo que algumas (das
poucas) livrarias da cidade
praticam regularmente. Para
uma promogao tao espalha-
fatosa, foi frustrante.
A Visao, anos atris, fazia
liquidaq6es verdadeiras, que
atrafam muitos compradores,
virios deles precisando de
caixas para levar as suas
compras. Mas para esse tipo
de promogao 6 precise que
por tris esteja quem real-
mente conhega livro, tenha
contato corn a clientele e seja
ousado. A Big Ben at6 jai


teve esse tipo de pessoa, mas
se desfez desse capital. Em-
bora consiga vender muito
rem6dios e outros produtos,
em mat6ria de livros se dai
sempre mal quando realize
promoq6es de fachada,
como foi mais esta. As ven-
das devem ter sido muito
baixas, a julgar pelo que se
p6de ver no tltimo dia da pro-
mogdo. Imperdivel, s6 na pro-
paganda. Imperdivel mesmo
6 a atual promogqo da Livra-
ria da Universidade, coman-
dada por Simone Neno.


CEPC
Algumas pessoas estra-
nharam, ao ler a mat6ria da
semana passada sobre o
Col6gio Paes de Carvalho,
que nao tenham encontrado
as mesmas caracterfsticas
aqui relatadas sobre a insti-
tuigqo, como formadora de
liderangas para a vida pdbli-
ca e local de converg8ncia
de todos os segments da
sociedade, no qual conviviam
pessoas pobres e represen-
tantes das families mais an-
tigas ou ricas da cidade. 0
crit6rio do m6rito prevalecia
sobre os demais, permitindo
que realmente os melhores se
destacassem, como os que
citei e virios outros que dei-
xei de relacionar, como Fer-
nando Moreira de Castro Jr.
e seu colega de gabinete go-
vernamental, Constantino
Tork Barahuna.
Ao entrarem depois dessa
fase, os novos alunos depara-
ram corn um CEPC esvazia-
do e de pouca atracqo para os
estudos. Perguntam entAo so-
bre o que teria ocorrido no


perfodo. E ficil de explicar: o
AI-5, que pos fim A liberdade
e A democracia no Brasil. E
avalizou a repressdo a alunos
do CEPC que tentaram pro-
testar contra a ditadura, inti-
midando os demais.
Corn liberdade e democra-
cia, ja se pode experimentar a
ressurreiqao do CEPC como
um col6gio de aplicaqo?


Homenagem
Minha sugestao para ho-
menagear Benedito Nunes:
dar A travessa onde ele mo-
rou por todos anos, que era
da Estrela e virou Mariz e
Barros, um novo nome: Es-
trela do Ben6. Assim, al6m de
cultivar o intellectual, retoma-
va-se o hibito da poesia na
toponimia da cidade. Acho
que o Benedito ia gostar.


Presenga
Para beneffcio de todos e
alegria geral do Estado, inclu-
indo oponentes, o ex-gover-
nador, ex-ministro e ex-sena-
dor Jarbas Passarinho reocu-
pou o lugar nobre da pigina
de opinido da edicqo domini-
cal de 0 Liberal do dia 20,


depois de vencer complica-
q6es graves de sadde. Agra-
deceu a Deus pela prorroga-
$qo do seu tempo de existen-
cia. Agradecemos n6s tam-
b6m pela sua presenqa, que
valorizou a pigina. Pena dela
tersaido Nagib Charone.


Nas ruas
Um exemplo de como as
associaq6es de rua podem
ser eficazes. A Marques de
Herval esti, finalmente,
prestes a ser conclufda. Mas
todas as places de sinaliza-
9o foram arrancadas. Res-
taram, os postes. Moradores
atentos e conscientes nao
permitiriam o vandalism. Se
inevitAvel, providenciariam a
reposigdo. Em virios desses
postes sobreviveu apenas a
marca do patrocinador, sem
as indicag6es aos transeun-
tes. 0 patrocinador que pro-
mova a reposigqo.
Alias, com a expansao de
Bel6m, ji era para terem sido
criadas as administraq6es
regionais, formadas pelos
pr6prios moradores dajuris-
diqao, em fungao considera-
da relevant pelo governor.


Mansio
A mansdo no condomfnio
residential Lago Azul que
esti A venda na seiAo de
classificados de 0 Liberal
nao 6 a do principal executi-
vo da empresa, Romulo Mai-
orana Jdnior, mas de sua mae,
Lucid6a Maiorana. A do filho
6 muito maior e mais requin-
tada. D6a voltou a morar no
apartamento de onde safra,
algum tempo atris, para ficar
ao lado de Rominho e de
Angela, a filha que tamb6m
mora no Lago.


Prestigio
Algumas construtoras
nacionais passaram a atuar
em Bel6m sem sequer insta-
lar na cidade um escrit6rio
pr6prio para responder por
elas. Outras transferem to-
dos os encargos aos associ-
ados paraenses.