Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00361

Full Text




FEVEREIRO
DE 2011 P ssoal
laQUINZENA

A AGENDA AMAZ(NICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


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DESABAMENTO


Pagina virada


A queda do Real Class ainda ndo completou um mes e a cidade jd parece ter voltado a
sua rotina. Como se o desabamento de um prddio de 100 metros de altura, com 34
andares, levantado sobre terreno com 18 metros de testada, fosse normal. Belem vai
continuar a ser ocupada por espigoes de concrete?


BBel6m 6 uma cidade 6rfa e in-
defesa. S6 assim se explica
que, menos de um m8s depois
do desabamento do ediffcio Real Class,
a cidade parega voltar A sua normalida-
de, sem se dar conta da gravidade do
epis6dio e do seu significado como um
alerta. 0 reduzido nimero de vftimas
tornou muito menor o impact, se com-
parado A queda do "Raimundo Farias",
em 1987. Uma combinagio de circuns-
tincias favoriveis, um verdadeiro mi-
lagre, na interpretagqo dos mais cheios
de f6, acabou resultando em apenas tres
mortes no acidente do dia 29, contra 39


vftimas fatais e mais 17 feridos no caso
"Raimundo Farias".
Ao mesmo tempo em que 6 precise
agradecer As circunstincias (ou A in-
tercessio superior) pela reduzida per-
da em vidas humans, nao se deve es-
quecer que um pr6dio inteiro, com 34
andares, mais de 100 metros de altura
e 15 mil toneladas de peso, veio abaixo
em questAo de poucos segundos. Se o
pr6dio nao tivesse rufdo como numa
implos0Oo, desabando sobre si mesmo,
atingindo apenas duas casas laterais,
mas nao os pr6dios vizinhos; se nio fos-
se uma tarde chuvosa de sAbado; se os


operArios tivessem respondido A convo-
caCao para um plantAo naquele dia a
trag6dia teria sido de proporg6es inter-
nacionais.
Qualquer pessoa, em qualquer lugar
do mundo, deve ter tornado um grande
susto ao saber o que aconteceu em
Bel6m do Pard. Nao 6 comum desaba-
mento dessas dimens6es. Muito menos
comum que, passadas duas semanas, o
fato ji parecia incorporado A rotina.
Todos os dias os belenenses passavam
pela travessa 3 de Maio indiferentes A
circunstincia de um pr6dio de 34 anda-
o'm m.' pie'


*"I I 2ILH O P I


I1


ORN COFES 10-51


N 482
ANO XXIV
R$ 3,00





coiNUMMA DACAPA
res ocupar uma nesga de terra, corn 18
metros de testada, estendendo-se por
seus 60 metros de profundidade para
poder comportar tantos apartamentos
de 122 metros quadrados por unidade
(a 500 mil reais o custo).
Numa cidade com regras mais rigo-
rosas de ocupagqo do solo, o perfil do
Real Class inspiraria cuidados e provi-
dencias de quem de direito. A elevada
estrutura de concrete (da altura da bar-
ragem da hidrel6trica de Tucuruf) se
acomodava no tacanho terreno como se
fosse mais uma das estreitas casas ge-
minadas, caracteristicas do bairro do
Umarizal, antes de ele ser dominado
pela especulacgo imobiliaria.
Entregue aos apetites das constru-
toras, a paisagem do bairro estA sofren-
do brutal modificaqao: sucessivas des-
sas pequenas residencias t6rreas sao
postas abaixo e em seu lugar sobe um
espigdo, sem recuos, sem Areas de es-
capamento, sem a menor consideraqdo
por seus vizinhos e o modo de vida da
populagqo. JA 6 vasta a cr6nica dos pre-
jufzos materials e dos problems viven-
ciais que as obras dos palitos de con-
creto causam a quem tern a infelicida-
de de morar por perto. E a regra quase
geral dessas obras, que se repetiu no
caso do Real Class.
0 fator decisive 6 a vontade de quern
chega ao local para executar seus pro-
jetos de engenharia. Como a cidade nao
tem um plano de urbanismo ajustado As
suas condi95es geogrAficas e hist6ricas,
e as regras que possui, quando boas,
dificilmente sao cumpridas, porque ou-
tro poder mais alto se alevanta sobre a
sorte do cidaddo, quem estabelece como
tern que ser 6 aquele que refaz o espa-
qo pela r6gua e compasso do lucro. E,
As vezes, do alegado interesse superior.
Um exemplo singular 6 o da quadra
onde a justiqa federal se estabeleceu.
O embriao desse f6rum era uma dnica
casa, na avenida Generalissimo Deodo-
ro. Seu complement, o Minist6rio Pt-
blico Federal, se estabeleceu depois
numa rua transversal, a Domingos Mar-
reiros. Ao inv6s de os dois 6rgAos pd-
blicos se transferirem para um local
apropriado, foram engolindo todas as re-
sid8ncias no seu entorno, atrav6s de ne-
gociaqdo commercial comum ou pela im-
posigdo do seu peso institutional.
Privados dos seus lares por ato de
forga, da desapropriaqdo, virios mora-
dores se retiraram do local desgostosos
ou insatisfeitos. A necessidade de es-
paqo das instituiq6es, por6m, ainda nao
foi saciada: elas precisam de mais Area


para seu funcionamento e para servi-
rem de estacionamento, ainda insufici-
ente. Um piano director mostraria que
essa acomodaqdo de fungqo naquele
ponto s6 se faz pela contrariedade ao
interesse coletivo.
Qual 6 a melhor diretriz para Bel6m?
Esta 6 a pergunta que o acidente do Real
Class reaviva e A qual impoe a urgen-
cia que os donos da cidade s6 admitem
se tender aos seus interesses. E claro
que a engenharia atual disp6e de recur-
sos t6cnicos suficientes para permitir
que enormes estruturas de concrete
sejam levantadas sobre um solo fraco
como o da cidade e em qualquer ou-
tro lugar da Terra. Mas a que custo? E
com qual justificativa?
A primeira definicgo 6 sobre o tipo
de desenvolvimento urbano que que-
remos. 0 padrAo adotado pelas cons-
trutoras 6 o pior modelo de crescimen-
to vertical, que em raros lugares mes-
mo os americanos, pais do "arranha-
c6u" tipico, adotaram. Nao precisamos
construir pr6dios tdo altos, nem devia-
mos fazer isso. HA outro modelo, o
europeu, que estA na origem da nossa
cidade e foi completamente abandona-
do quando, durante a Segunda Guerra
Mundial, foi adotada sem mediaq6es a
cultural made in USA. Como sempre
acontece, a macaqueaqdo saiu muito
pior do que o original.
Deviamos estabelecer gabaritos em
funqao da qualidade de vida numa re-
giAo muito dmida, onde chove muito, o
calor 6 constant e 6 de baixa topogra-
fia, s6 alcanqando uns poucos metros
acima do nfvel do mar. 0 crescimento
vertical desenfreado, no qual nos acha-
mos, s6 serve aos especuladores. E
eles, para term lucros maiores, nao
compensam as circunstincias desfavo-
rAveis corn rigor na construqdo, uso de
melhores materials, fiscalizaqdo adequa-
da e outros procedimentos, raros de se
ver porque quem devia ver o poder
pdblico -, este nao sabe, nao ouve e nio
v8, deixando 6rfaos seus municipes.
Por causa do acidente do Real Class,
alguma iniciativa foi adotada, mas nao
6 para mudar nada em substancia, mui-
to menos corrigir o rumo absurdo do
desenvolvimento urbano de Bel6m, que
se desgarra da sua hist6ria e embarca
na canoa furada de um modelo contrA-
rio A intelig8ncia e ao bern coletivo.
A explicaqAo para a surpreendente
ruina do pr6dio da 3 de Maio virA, al-
gum dia, talvez corn a verdade, quern
sabe corn algum sofisma, mas sem se-
quer a providencia que foi adotada em
1987: contratar pericia externa indepen-


dente e qualificada para que nao haja
divida quanto ao seu resultado e ele seja
apresentado o mais rapido que for pos-
sfvel. Isso aconteceu com a queda do
"Raimundo Farias" e mesmo assim seus
construtores, mesmo tendo sido denun-
ciados como criminosos Ajustiga, esca-
param das sanq6es cabfveis (sobretudo
pelas tantas mortes causadas), reorga-
nizaram sua empresa e continuaram
suas vidas. 0 que se pode esperar ago-
ra, quando nem isso existe?
Cidade de pantano, Bel6m caminha
como seus outrora abundantes caran-
guejos, para tras?






Coincidencia
A construtora Quanta publicou (no dia
6) urn anincio nos jomais, enquanto as
demais se retrafam. Foi sobre o The One
Residence, "o residential que 6 coisa de
cinema". Corn 35 ou 36 andares, ficarA
na Gentil corn a 3 de Maio, a um quartei-
rdo do desaparecido Real Class. Coinci-
dencia nada proveitosa para as vendas.
Mas parece ter sido a senha para a volta
da propaganda imobilidria.


Vacas magras
Nunca dantes, como diria Lula, os
jornais fizeram tanta propaganda de si
mesmo em suas pr6prias pAginas, 0
Liberal bem mais do que o Didrio do
Pard. Na edigqo do journal dos Maiora-
nas do dia 7 a publicidade da "casa"
superava em muito os anincios pagos,
que eram raros. Escassearam ainda
mais depois do desabamento do Real
Class. As construtoras tinham aqueci-
do o mercado da publicidade com seus
constantes e espalhafatosos lanqamen-
tos, que se transformaram em aconte-
cimento social.
Corn o acidente, as visits aos es-
tandes de obras cafram pelo menos
70%, segundo uma fonte do setor. E as
empresas preferiram suspender as vei-
culaq6es at6 a mem6ria da opinido pd-
blica se aquietar. Para essa calmaria a
imprensa deu sua contribuigio, reduzin-
do em muito a cobertura do assunto e
evitando desdobramentos em extensdo.
Em 6poca de vacas magras, para
nao aumentar a sensagio de vazio de
suas pAginas, os jornais as enchem de
autopromoq6es, cada vez mais diversi-
ficadas. Nao s6 para atrair como tam-
bem para impressionar o leitor.


SJornal Pessoal FEVEREIRO DE 2011 1 QUINZENA






Hidreletricas na Amazonia: ontem, como hoje, iguais


Em 1975 a hidrel6trica de Tucuruf
comegou a ser construfda no rio To-
cantins, no Para, 350 quil6metros a su-
doeste de Belem. Viria a ser a terceira
maior usina de energia do mundo. A
Construtora Camargo Correa foi esco-
lhida para instalar o primeiro canteiro
de obras. Uma vez instalada no local,
ganhou a concorr8ncia principal. E la
permanece at6 hoje, sempre faturan-
do, passados 36 anos.
O orqamento inicial de Tucuruf era
de 2,1 bilhoes de d61ares. Quando che-
gou em US$ 7,5 bilh6es, 10 anos de-
pois, a rubrica especffica desapareceu.
Foi remetida das contas da Eletronor-
te, subsididria da regiio norte, para a
contabilidade da sua enorme controla-
dora, a EletrobrAs. 0 prego final pode
ter chegado a uns US$ 15 bilh6es, sete
vezes mais do que a previsdo na larga-
da da obra. Mas pode ter ido al6m, nin-
gu6m mais sabe ao certo.
O que a Camargo Corrfa ganhou
entire 1975 e 1984, quando a usina co-
megou a funcionar, permitiu ao seu pro-
prietArio, Sebastido Camargo, se tomar
o primeiro bilionArio brasileiro na lista-
gem dos mais ricos do mundo. Sua for-
tuna pessoal dobrou no perfodo: de US$
500 milhoes para US$ 1 bilhio. Cor-
respondeu ao lucro lfquido acumulado
nesse dec8nio, A boa m6dia de US$ 50
milhoes a mais por ano. Sem atualiza-
g9o monetAria.
Ningu6m protestou quando o can-
teiro secundario virou principal. Nem
quando o contrato original foi seguida-
mente aditado. Ou dele derivaram ou-
tros contratos, na usina ou em uma de
suas principals dependencias, o siste-
ma de transposigio da enorme barra-
gem de concrete, corn mais de 70 me-
tros de altura correspondente a umn
pr6dio de 17 andares), que custou R$
1,6 bilhio, o maior do pafs.
Nem quando o Tocantins, o 25 maior
rio do mundo, com 2.200 quilometros
de extensao, cuja bacia drena 10% do
territ6rio national, comeqou a ser ater-
rado para que do seu leito fosse ergui-
da a represa, a obra pdblica que mais
concrete absorveu no Brasil at6 entao.
Com o fechamento do rio, a Agua subiu
e inundou uma Area de tr&s mil quilo-
metros quadrados, afogando milh6es de
metros cdbicos da floresta que havia
em seu interior.


A legislaqdo ambiental brasileira s6
comeqaria a nascer seis anos depois.
Mas a Eletronorte sabia que Tucuruf
causaria profundos danos a natureza,
acima e abaixo da represa, por pelo
menos 200 quilOmetros a montante. Tra-
tou de fazer um levantamento ecol6gico
das consequ8ncias da hidrel6trica.
A tarefa foi realizada por uma dnica
pessoa, em 1977, o americano Robert
Goodland. Ele era o autor, com seu com-
patriota Howard Irvin, de um estudo
extremamente critic sobre a ocupaqao
da Amaz6nia durante o regime military.
O tftulo do livro, embora equivocado, di-
zia tudo sobre o seu conteddo: "Amaz6-
nia: do inferno verde ao desert verme-
Iho". Da tradugqo para o portugues foi
expurgado todo um capftulo, sobre a
matanqa de indios pelos projetos de "de-
senvolvimento", embora a editor da
publicagio tivesse o selo da honoravel
Universidade de S. Paulo, a USP.

O levantamento que
Goodland fez sobre o
impact ambiental da
hidrel6trica de Tucurui podia
ser considerado apenas como
um exaustivo roteiro para
uma pesquisa muito mais
ampla, complex e detalhada
- que nunca foi executada (talvez por-
que o estudo tenha sido contratado ape-
nas para tender a uma exigencia do
Banco Mundial). Problems que eram
visfveis mesmo a olho nu s6 foram con-
siderados pelos "barrageiros" quando se
materializaram. Efeitos danosos que
podiam ser evitados ou prevenidos fo-
ram deixados a pr6pria sorte.
De Tucuruf, no Tocantins, para Belo
Monte, no Xingu, caminhando para oeste
do Brasil, como sempre, na sina (e sa-
nha) dos sempre bandeirantes, muita coisa
mudou mas, talvez, nao o substantial.
Na semana passada, um grupo de mani-
festantes levou a Brasilia um abaixo-as-
sinado de 500 mil nomes contra a cons-
truqio da usina, que ocuparA justamente
o lugar at6 agora de Tucuruf no ranking
das maiores hidrel6tricas do mundo.
A caudalosa adesdo de subscritores
do manifesto dificilmente sensibilizarA
aqueles que, 20 anos depois de comeqa-
rem a tratar da hidrel6trica, nao tem mais
ddvida alguma de que ela precisa ser
construfda. De qualquer maneira.


A correlagqo de forqas nao 6 a mes-
ma de 1975. Por tras do selo de autori-
zaqio nao ha uma ditadura, como en-
tdo. Mas o Estado (no caso, personifi-
cado na Uniao Federal) pode muito.
Talvez ainda mais do que a sociedade.
A norma processual do licenciamento
ambiental foi violada para dar passa-
gem a uma figure que o c6digo ecol6-
gico desconhece: a "licenqa de insta-
lagio parcial".
0 que ela 6 senao a versao atualiza-
da ao mundo juridico da figure concrete
do canteiro secundArio de Tucuruf em
1975? A obra pode nao comeqar (ou
jamais vir a ser legalizada), mas seu
canteiro jA estarA pronto. Os 19,5 bi-
lhWes de reais de financiamento de lon-
go prazo do BNDES (num orqamento
global de R$ 24,7 bilh6es, ainda incon-
solidado) podem nio sair, mas at6 o fi-
nal do pr6ximo m8s um bilhao de reais
do "empr6stimo ponte" jA tera sido apli-
cado para executar a licenqa parcial. E
o fato estara consumado, assim como
consumatum sunt Santo Antonio e Ji-
rau, bem mais a oeste (ji quase no fim
da rota dos bandeirantes em torrao pi-
trio), no Estado de Rondonia e no rio
Madeira, o mais caudaloso afluente do
oceanico rio Amazonas.
Nio por acaso, os homes que deci-
dem sao os mesmos ou 6 o mesmo
quem os patrocina, mesmo quando apa-
recem novos nomes: o mais uma vez
president do Senado, o ex-presidente
da reptiblica, Jos6 Sarney.
As tr8s mega-hidrel6tricas previs-
tas para a Amaz6nia (sem contar ou-
tras cinco ainda em conjecturas para
o vale do Tapaj6s/Teles Pires) repre-
sentam capacidade instalada de 17,4
mil megawatts (20% a mais do que
Itaipu), ainda que apenas metade des-
se potential constitua energia firme
(disponfvel ao long do ano), ao custo
de R$ 43 bilhbes.
Esses ndmeros soam como poesia,
para quem disp5e do poder decis6rio,
por various angulos e perspectives, en-
quanto as crfticas e reaq6es a esses
projetos lhes chegam aos ouvidos
como cacofonia irrealista, absurda. 0
Brasil nao 6 o mesmo de 1975. Mas
para esses cidadios 6 como se fosse.
Ao menos quando se trata da Ama-
z6nia. Para eles, a hist6ria se escreve
com bulldozers.


FEVEREIRO DE 2011 1'QUINZENA. JornalPessoal











Os cinco integrantes de uma quadri-
lha que tentou roubar 2,3 bilhoes de re-
ais do Banco do Brasil jA estUo press.
As duas magistradas, que quase permi-
tiram a realizagao desse golpe atrav6s
da justiga do Pard, continuam a traba-
lhar normalmente. Desde que a mano-
bra foi desfeita, pela intervengqo direta
- e, do ponto de vista da formalidade
legal, indevida da corregedora nacio-
nal de justiqa, Eliana Calmon, a inica
provid8ncia do TJE foi iniciar um Pro-
cedimento Disciplinar Preliminar.
S6 depois dele 6 que pode vir a ser
promovido um Procedimento Discipli-
nar Administrativo contra as duas ma-
gistradas. 0 percurso at6 uma puni-
qao prenuncia-se tio long que a Or-
dem dos Advogados denunciou: a pro-
vid8ncia dojudi-
ciArio paraense
pode, mais uma
vez, terminar
em pizza. Por
forga do espiri-
to corporativo.
Para o presi-
dente da OAB
do Pard, Jarbas
Vasconcelos, o
Tribunal de Jus-
tica do Estado 4
nao tern "isen-
gio de animo"
para julgar tan-
to a juiza Vera de Aradjo Souza quanto
a desembargadora Marneide Merabet,
que acolheram a pretensio de tres dos
membros do bando e bloquearam o di-
nheiro numa conta em favor deles no
Banco do Brasil. 0 TJE tentou reali-
zar uma sessao secret para instaurar
o PDP (que s6 nao se consumou por-
que a desembargadora Eliana Abufai-
ad nao concordou, exigindo que a reu-
niao fosse aberta), nao levou em con-
sideragio a representagao da Ordem
por um procedimento mais rigoroso, o
PDA, e tentou cercear a manifesta-
gao da Ordem e do Minist6rio Pdblico
na apreciaqao da mat6ria.
Para a OAB, em vez de agir dessa
maneira, o tribunal devia ter determina-
do o afastamento preventive das duas
magistradas que atuaram no process em
1 e em 2 grau. Mesmo que fosse pro-


vada a inexistencia de dolo nas decisoes
que tomaram, tomou-se evidence a di-
gamos assim falta de bom senso e equi-
lifbrio na apreciaqao do pedido.
Corn base em dois comprovantes de
dep6sito (o primeiro de 900 milhoes de
reais e o segundo de R$ 1,4 bilhao), su-
postamente de cinco anos atrAs, o advo-
gado, em nome de Francisco Pereira, se
declarou com direito a sacar o dinheiro
corn base no usucapido especial, que re-
conhece o domfnio depois de ocupaqao
por quinquenal sem contestaqao. Mas
quern concederia media liminar, que an-
tecipa a apreciaqao do m6rito da ques-
tao, corn base em documentagao tao fri-
gil, referente a um valor tao alto, no que
pode ser classificado como o mais grave
golpe do vigario (ou do magistrado) de
todos os tempos.
Nao adiantou
o Banco do Bra-
sil juntar provas
da fraude ou
pedir cautela A
jufza Vera Sou-
za. Ela manteve
o bloqueio do di-
*a fnheiro na conta.
Sua decisIo foi
confirmada, em
grau de recurso,
pela desembar-
gadora Marnei-
de Merabet. A
reincidencia num erro tao grave afasta,
na prAtica, a hip6tese de ingenuidade ou
desatenqao na apreciaqao da mat6ria.
Os golpistas, depois de terem sido bar-
rados em tries Estados, acabaram con-
seguindo apoio na justica do ParA.
O que mais se pode esperar dos
magistrados paraenses depois desse
epis6dio? A que nfvel o judiciArio do
Estado pode descer mais na apreci-
agao national? 0 que ainda serA ne-
cessArio para que casos tao graves
como esse tirem da letargia da coni-
vencia a alta direqao do tribunal, as
outras instAncias da justiga e seus
6rgaos auxiliares?
O TJE precisa ter consciencia do
descr6dito em que se afunda e reagir.
Antes que o alerta venha por meio da
prisaio de um magistrado. JA 6 s6 o que
esti faltando.


Criminosos sao press.

E a justiga: o que faz?


I Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2011. 1'QUINZENA


A volta

Sao muitas as anAlises, interpreta-
g6es e suposiq6es na comparaqco en-
tre os estilos de Dilma Rousseff e Luiz
InAcio Lula da Silva no exercicio do
cargo de president do Brasil. HA ter-
reno para todo tipo de germinaqao. S6
uma coisa 6 certa: Lula deixou uma
heranqa maldita para a sua sucessora.
Gastou demais, nAo gastou certo, camu-
flou o que fez de ruim e deixou dfvidas.
Dilma jA inventariou a heranga, mas nao
pode abrir a boca para dizer o que re-
cebeu e a razao de estar adotando um
estilo duro, silencioso e de recuos.
Final, Lula Ihe deu de present um
poder que ela, por seus pr6prios meios,
jamais podia alcanqar. Se conseguir
contornar as armadilhas contida nesse
present sem precisar denuncia-las e
fizer o melhor que precisa ser feito, en-
tao seri uma grande president. E sera
muito mais problemAtico para Lula en-
contrar o caminho de volta. 0 miolo de
pao que ele espalhou terA sido comido
pelos passarinhos. Ou os corvos.

Exposigao

t uma lastima a pequena freqii8ncia
A exposiqao Pedra & Alma, que assinala
os 30 anos do Iphan (Instituto do Patri-
m6nio Hist6rico e Artistico Nacional) no
Pard. Todo paraense devia ir v8-la. E
uma das melhores e mais substantivas ja
realizadas entire n6s. Apresenta o insti-
tuto, ainda pouco conhecido, e o associa
A cultural da cidade e do Estado como
obra, como realidade viva e como proje-
to. Das restauraqoes e conservagoes ao
mercado do Ver-o-Peso, das figures no-
taveis aos protagonistas ocultos mas es-
senciais. Um roteiro bem selecionado da
cultural paraense, hoje, que se tomarA
fonte de consult e referencia gracas ao
excelente Album da exposiqco.
As visits podem ser feitas na sede
administrative do Iphan, na Governador
Jos6 Malcher com a Rui Barbosa, pela
manhi e A tarde, sem interrupcao. Tal-
vez assim o institute prorrogue como
deve a mostra al6m do dia 12 de mar-
go. Vale a pena.
De minha parte, sugiro aos organi-
zadores editar, em format grande e
papel adequado, na forma de mapa, o
projeto grifico de Luciano Gemaque
para a Area urbana de Beldm. No seu
g8nero, o melhor que jA vi.






Ronaldo confess. "Rominho" viaja


Pela terceira vez seguida o empre-
sArio Romulo Maiorana Jdnior faltou a
uma audiencia do process a que res-
ponde por crimes contra o sistema fi-
nanceiro national, perante a 4' vara ci-
vel dajustiga federal, em Bel6m. As duas
primeiras audiencias de instrug~o foram
adiadas a pedido dele, por se encontrar
ausente de Bel6m. No dia 1, data mar-
cada com quase cinco meses de ante-
cedencia para ouvi-lo, o principal exe-
cutivo do grupo Liberal estava em Mia-
mi, nos Estados Unidos, onde tem resi-
dencia, adquirida recentemente. S6 vol-
tou a Bel6m na madrugada do dia 6,
depois de quase um mes em f6rias.
Seu irmdo, Ronaldo Maiorana, dire-
tor editor-corporativo do principal jor-
nal do grupo de comunicagqo, foi A au-
diencia, junto corn Fernando Nascimen-
to, director da TV Liberal, e Jodo Poju-
cam de Moraes, director industrial de 0
Liberal. Todos estio indiciados no mes-
mo process por crime previsto no arti-
go 19 da lei 7.492, de 1986 (mais co-
nhecida como lei do "colarinho bran-
co"): "Obter, mediante fraude, financi-
amento em instituiqdo financeira".
A pena prevista 6 de reclusdo, por 2
a 6 anos, e multa. A pena poderd ser
aumentada de um terro "se o crime 6
cometido em detrimento de instituigio fi-
nanceira official ou por ela credenciada
para o repasse de financiamento", como


6 o caso. 0 que significa que a pena ma-
xima ira a oito anos de reclusao.
Condenado por me agredir fisica-
mente, em 2005, Ronaldo Maiorana s6
voltou a ser r6u primdrio no ano passa-
do, quando decorreu o prazo de cinco
anos de suspensdo da execuqdo da
pena, por acordo que fez com o Minis-
t6rio Piblico do Estado. A aplicaqo da
pena foi substituida pela doagao de ces-
tas basicas a instituiq6es de caridade.

K onaldo confirmou a de-
ninuncia felta pelo Mi-
n aist6rio Puiblico Fede-
ral, de que ele e o irmAo mais
famoso fraudaram o capital
pr6prio da Tropical Industria
Alimenticia nomee original
da atual Fly, que ja foi Bis)
para receber dinheiro dos
incentives fiscais da Sudam,
o mesmo crime que atribuem ao ex-de-
putado federal Jader Barbalho, por ter
indicado dirigentes da Sudam acusados
de desvio de dinheiro pdblico, do qual ti-
rou proveito. Com o dinheiro pdblico, os
Maioranas implantaram uma fabrica de
sucos regionais (que se transformou emrn
refrigerantes artificiais do tipo pet) no dis-
trito industrial de Icoaraci. A Sudam li-
berou 3,3 milh6es at6 1999, quando co-
megou a investigagqo da fraude. 0 pro-
cesso ja dura mais de uma d6cada.


A fraude era simples: os dois irmaos
s6cios depositavam um valor referente
A contrapartida de recursos pr6prios
num dia e o sacavam no dia seguinte,
quando a Sudam autorizava a liberacgo,
pelo Banco da Amaz6nia, da colabora-
9go financeira da Unido, atrav6s de re-
n(incia fiscal. Ronaldo se defended ale-
gando que nao sabia que essa 6 uma
conduta ilicita. Sua defesa argumentou
que, uma vez descoberta a fraude, o
dinheiro da Sudam foi devolvido e o pro-
jeto implantado a partir daf apenas com
recursos pr6prios.
A ressalva, por6m, nao atenua a con-
fissAo de culpa: a doutrina e a jurispru-
dencia dos tribunais brasileiros sdo pa-
cificas, ao caracterizar esse tipo de pro-
cedimento como delito formal. Para que
ele se consume, basta que seja utilizado
um meio fraudulent para acessar re-
cursos puiblicos, independentemente de
haver ressarcimento posterior. A cor-
reqao do ilicito nao elide a culpa. Logo,
Ronaldo Maiorana 6 r6u confesso des-
se crime. 0 empresario chegou a cho-
rar ao ser questionado pelo represen-
tante do MPF no interrogat6rio.
Esse foi o moment de maior pres-
sio sobre ele. As perguntas feitas pelo
juiz Ant6nio Carlos de Almeida Cam-
pelo foram gen6ricas e nao se relacio-
navam diretamente com os fatos impu-
tados. Ele se interessou por quest6es
laterais, como saber quantos empregos
o empreendimento gera e se o r6u pos-
sui outras empresas.
O tom da audi8ncia foi tao cordial
que no inicio da sessao o magistrado
perguntou ao r6u se poderia cham6-lo
de doutor. Ao final, se levantou para
cumprimenta-lo e aos seus advogados.
Essa afabilidade contrastou corn os ter-
mos do despacho do juiz em 23 de se-
tembro do ano passado, quando, desig-
nando nova data para a audiencia, ele
escreveu que a instrugao do process
"vem sendo postergada por raz6es di-
versas. A pedido dos r6us".
O retardamento tern um objetivo cla-
ro: protelar o andamento do process, re-
cebido pelo juiz em agosto de 2008, a par-
tir de dentincia do Minist6rio Publico Fe-
deral, depois de oito anos de apuraqao,
para que o crime prescreva e seus auto-
res permaneqam impunes. E o que ajus-
tiqa precisa evitar que aconteqa. Este 6
o seu papel, nio o contrario.


FEVEREIRO DE 2011 1QUINZENA Journal Pessoal l


Jornal marabaense
Era raro chegar a MarabA e ndo encontrar no aeroporto o Mascarenhas
Carvalho. Ele estava sempre atrAs das novidades trazidas pelos passagei-
ros, mas tamb6m era vitima da curiosidade de quem sabia que ele era uma
fonte privilegiada de informaq6es. Corn base nessa condiqio e diante da
sua impetuosidade, era previsivel que logo ele tivesse o seu pr6prio veiculo
de comunicaq~o.
No mes passado esse veiculo completou 28 anos de circulagdo ininterrup-
ta. 0 Correio do Tocantins conseguiu a invejavel marca provavelmente
record no interior do Para de quase 2.200 ediq6es. E certamente ird al6m,
sobrevivendo ao seu criador, ainda que ele viva pelos longos anos que sua
calma e humildade sugerem. Afinal, a empresa jA tern seu parque grAfico,
esta treinando os sucessores e se atualiza corn a tecnologia, ingressando na
rede digital de computadores.
Como velho leitor e usudrio das informaq6es de Marcarenhas, espero que
ele mantenha o compromisso inaugural do seujornal com "a informagqo ver-
dadeira, s6ria, interessante e imparcial". Menos sangue e violencia nas agita-
das piginas policiais representaria uma contribuiqao do Correio e seu dono,
um verdadeiro reporter, com o present e o future melhor de Maraba e toda
a sua Area de influencia.






CEPC: escola de lideres


Durante meu curso classico (o ensi-
no m6dio de hoje, mas especializado em
ciencias humans e sociais) no CEPC,
na segunda metade dos anos 1960, fui
colega ou contemporineo de gente
como Jader Barbalho, Jose Arthur Tou-
rinho e Hamilton Guedes, que iriam jun-
tos para o mesmo rumo politico. Tam-
bem de Frederico Coelho de Souza,
Milton Nobre, Geraldo Mrtires Coe-
lho, Haroldo Silva, Ronaldo Vale, e Fran-
cisco Monteiro e muitos mais. Fernan-
do Coelho de Miranda, filho da escrito-
ra Lindanor Celina, seria meu mais
constant parceiro de leitura e trabalho.
Corn ele, peguei um atalho para a lite-
ratura, a filosofia e a arte. Economiza-
mos anos estudando juntos madrugada
afora. Embalamos na nossa formaqo.
Grande parte das pessoas que agora
mandam ou influem nas decisoes circu-
laram pelo velho Col6gio Estadual Paes
de Carvalho. Talvez tenhamos sido uma
das dltimas gerac6es da elite da socie-
dade. Varios eram da elite mesmo, in-
cluindo o patrim6nio material. A maioria,
por6m, iria para o topo pelos pr6prios
m6ritos, apesar da falta de recursos e de
nobiliarquia para conferir credenciais.
O CEPC era entdo uma escola mo-
delar nao apenas pelos bons professo-
res que tinha. Nem principalmente.
Embora os verdadeiros mestres com-
pusessem uma minoria e apesar de atra-
frem discfpulos, o principal fator de sus-
tentacqo da qualidade era a presenga
dos bons alunos. VArios deles eram hu-
mildes e sem posses. Mas se ombrea-
vam corn representantes das "melhores
families" era porque tinham m6ritos.
Podiam at6 sofrer algum tipo de discri-
minago, mas na hora do "vamos ver",
tinham a oportunidade de se impor por
serem os melhores.
Os "riquinhos", que haviam chega-
do ao CEPC por apadrinhamento, ti-
nham que prestar as honras devidas a
quem as merecia por sua inteligencia,
aplicaqdo, assiduidade e estofo intelec-
tual. Frederico era uma refer8ncia para
todos n6s nao por ser filho do doutor
Daniel Coelho de Souza, mas por ser
um excelente aluno. S6 corn o nome, o
moment de se beneficiary dele seria no
recreio e nao na sala de aula. 0 m6rito
suplantava todos os demais crit6rios de
avaliaqo, inclusive os favorecimentos
dos professors e dirigentes da escola.


Por saber disso, que haveria um mo-
mento em que o duelo seria A base dos
dotes pessoais e nao dos titulos exterio-
res, aqueles que pretendiam trilhar o ca-
minho do conhecimento buscavam um
lugar no CEPC e acabavam poro btS-
lo. JA para os professors havia uma
ameaga: nao se imporiam apenas pela
autoridade, que era acatada de fato, mas
nao era tudo. Precisariam se estabele-
cer pela compet8ncia. Ou entao corriam
o risco de um belo dia serem desmorali-
zados em plena sala de aula por um da-
queles alunos chatos, tdo bem prepara-
dos que podiam se descobrir corn mais
saber do que o mestre. E sem inibiq6es
para desmascarar falsas notoriedades.

E sse CEPC acabou. As
melhores eabegas nao
o procuram mais. Sa-
bem que serA perda de tem-
po. Os professors nao sao
testados, no inieo tested que
interessa a escola: o do co-
nhecimento. Na minha 6poca de
estudante no Col6gio Andr6 Maurois, no
Rio de Janeiro, no barracdo das ci8ncias
sociais, em Bel6m, ou na Sociologia e
Polftica, em Sao Paulo, foi assim que
afastamos das salas de aula antigos pro-
fessores que haviam se deitado na cama
e esquecido de renovar as bases reais
de sua fama. Seleciondvamos colegas
para se aprofundarem em determinados
temas e confrontarem os professors que
se haviam desinteressado pelo conteddo
das disciplines que ministravam. A mai-
oria tentava resistir, mas jA nao conse-
guia retomar o control do mando de-
pois de flagrada no delito de desatualiza-
gqo, despreparo ou incompetencia. Ou-
tros, conscientes do acerto da iniciativa
dos estudantes, em defesa de um ensino
vivo, acabavam entregando os pontos.
0 caso mais exemplar foi o do pro-
fessor OtAvio da Costa Eduardo. Era
uma celebridade da antropologia. Aos
poucos, passou a se dedicar quase in-
tegralmente sua empresa, como al-
guns outros, que se deram muito bemrn
como empresArios. Mas ia as aulas,
sempre de palet6 e gravata, com suas
velhas escoras cientificas, como Ral-
ph Linton, Malinowsky ou Herskovits.
Volumes enormes dentro de uma bela
pasta de couro. Imponencia e presun-
qdo de respeito.


Ele me escolheu como seu monitor,
abrindo-me as portas para uma relacgo
marcante na minha vida: a de Herbert
Baldus. A partir daf, sumiu. Talvez esti-
vesse num moment de muita absorgao
na empresa. Passei a dar aulas segui-
das no lugar do titular, que, nas apari-
9qes cada vez menos freqiientes, apre-
sentava o tema, indicava a bibliografia
e me incumbia de assumir a pauta. S6
que a minha era outra, atualizada pelas
pr6prias origens do meu conhecimento,
na Amaz6nia, corn nfase na etnologia.
A turma pressionou o c61lebre profes-
sor e ele, com altivez, admitiu que sua
hora soara e foi embora, sem ressenti-
mentos, creio eu.
Era assim que procurAvamos melho-
rar a nossa escola, nao ameaqando fisi-
camente professors, simplesmente fa-
zendo manifestaq6es de protest ou ten-
tando impor nossa posicqo pelos decib6is
ou algum golpe baixo. Se o professor sa-
bia menos do que algum aluno, o que 6
que ele estava fazendo ali, sobre o estra-
do? A prova dos nove era no teste de co-
nhecimento, nao por professarmos a ide-
ologia da revolugqo ou pertencermos ao
partido (ou A tend8ncia) "progressista".
Faqo essas reminiscencias porque
outro dia me perguntei: por que o CEPC
nao pode voltar a ser o que era? 0 ve-
Iho casario esta lA, sobrevivente de re-
formas nada inteligentes. A localizacqo
continue a ser privilegiada. 0 que falta
6 o enchimento: bons alunos e bons pro-
fessores. Dito melhor: motivacgo para
que aparegam uns e outros. Aos mes-
tres, boas condiq6es de trabalho, sali-
rio decent, reconhecimento. Aos alu-
nos, a certeza de que as boas cabegas
sempre terAo seu lugar reservado. Para
isso, transformar o CEPC num col6gio
de aplicaqio.
Como? As f6rmulas precisam ser
pensadas. Uma nova organizaqio jurf-
dica, atrav6s de fundagao, por exemplo
(ou outra mais apropriada), que possa
pagar melhor os professors e apare-
lhar adequadamente a escola. Serieda-
de nos concursos e recrutamentos. Fis-
calizagqo e control de qualidade. A
vontade de voltar a ter um centro de
conhecimento que forme lideranqas
para uma sociedade que necessita de-
las. Um projeto para que a escola pd-
blica tenha no que se espelhar e se ins-
pirar. Por que nao?


I Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2011 1IQUINZENA






Direito de imprensa e a palavra do leitor


Todos que se interessam pela rela-
qao da imprensa com a sociedade devi-
am atentar para a questio que reported
na ediqio anterior, sob o titulo "A sone-
gagqo fiscal: o papel da imprensa". Trata
de uma aqio de indenizagqo por dano
moral proposta pelo auditor fiscal Ro-
gdrio Dantas Reis, chefe da equipe de
vigilancia aduaneira da alfandega do
porto de Bel6m, contra ojomalista Mau-
ro Bonna, do Didrio do Pard.
A aqio foi proposta no dia 16 de
dezembro do ano passado. No dia 17
de janeiro deste ano ajuiza da 1a vara
civel de Bel6m, Rosana Canela Bas-
tos, sem julgar o mdrito do pedido, an-
tecipou a tutela judicial para que Mau-
ro Bonna publicasse em sua pigina
dominical no caderno Neg6cios, do
Didrio, a carta que o servidor pdbli-
co lhe enviou, no exercfcio do direito
de resposta.
Bonna recorreu dessa decisao atra-
v6s de um agravo de instrument, pro-
posto no dia 26 de janeiro. 0 desem-
bargador Leonardo Tavares, da 1a ci-
mara civel isolada do Tribunal de Jus-
tiqa do Estado, sorteado para relatar
o process, deferiu no dia 3 o pedido
de efeito suspensivo da sentenqa de
1 grau, "e o cumprimento da media
no plantao". Assim, sua deliberaqio
entraria em vig8ncia antes que Mau-
ro Bonna se visse obrigado a publicar
a carta do auditor fiscal. Afastada a
antecipagqo de tutela, agora o m6rito
sera examinado.
Certamente o jornalista argumenta-
rA que ji atendeu ao objetivo da acio
contra si interposta, deixando-a sem
objeto. No mesmo dia em que Rogdrio
Reis ajuizou o pedido de indenizaqio
por dano moral, dizendo-se ofendido por
duas notas publicadas na coluna de
Mauro Bonna (nos dias 28 de janeiro e
5 de dezembro), o jornalista publicava
entrevista com Eduardo Badar6, supe-
rintendente adjunto da Receita Fede-
ral em Bel6m.
0 tftulo da mat6ria j dizia muito so-
bre o seu objetivo: "Lei e lei". Num tre-
cho da apresentagio da entrevista, Bon-
na admitiu que a media adotada pelo
auditor, exigindo que os turistas de um
transatlantico chegado a Bel6m passas-
sem por um armaz6m alfandegado do
porto e ndo pela estaqio das Docas,
como pretendiam os responsiveis pela


excursao, "prejudicou o turismo, mas
atendeu a uma determinacqo legal".
Como ji diziam os romanos, pais fun-
dadores do nosso direito: sed lex, dura
Lex (a lei pode ser dura, mas 6 para
todos e tem que ser cumprida).
Uma semana depois Mauro Bonna
voltou ao assunto para anunciar que a
Receita Federal fizera um acordo com
a Paratur (a empresa estadual de turis-
mo) para permitir o desembarque de
turistas tanto no trapiche de Icoaraci
quanto na Estacio das Docas, e nio
apenas no armaz6m quatro do cais do
porto, que 6 alfandegado. "Este espago
sente-se honrado em ter colaborado para
este fim", comemorou o colunista.
Assim, al6m de se ter retratado de
eventual ofensa ao auditor, Mauro Bon-
na podia dizer que saira por cima do
contencioso, abrindo caminho para um
acordo, que abrandou os rigores da lei
para apoiar o de-
senvolvimento do
turismo, sobretudo
de um ramo que e O icial
tao promissor quan-
to pouco explorado Parab6ns a dir
entire n6s: o dos ImprensaOfici
cruzeiros maritimo- conseguiu mell
fluviais. DiArio Oficiali
E verdade. S6 ediiaoficoum
que at6 agora a organizada. Es
carta do auditor, governo,esti
anexada aos autos substincia aos
da aqio civel de in- informando me
denizagdo por dano sociedade. 0
moral, nao foi pu- aconteceu.
blicada na inte-
gra e no mesmo es-
paqo das notas que o levaram a recor-
rer A via judicial para a defesa dos seus
direitos. Na sustentaqio do acolhimen-
to que deu ao agravo de Mauro Bon-
na, o desembargador Leonardo Noro-
nha registrou a colisao de dois direitos
- o de resposta e o de liberdade de
informagio e expressao que resol-
veu apoiando o segundo, sob a alega-
9do de que agora poderd haver a dis-
cussao sobre o cabimento ou nao da
resposta do auditor.
No meu entendimento, nao hi confli-
to. 0 jomalista noticiou, opinou e exer-
ceu seu direito de critica, mas unilateral-
mente. Nio ouviu o personagem que tan-
to atacou, por supostamente agir sob a
bitola da lei contra o bom senso e o inte-


resse coletivo. Nem admitiu o direito de
resposta que ele tentou exercer, reme-
tendo a carta com os esclarecimentos e
as retificag6es. 0 direito de resposta 6
tao sagrado quanto o de informaqao e
opiniao. Se eles entram em conflito 6
porque uma das parties exorbitou. Nesse
caso, nao ha colisao de direitos, mas abu-
so de um sobre o outro.
Falo disso h vontade. Este 6 um jor-
nal de informaqio, andlise, interpreta-
gqo, critical e opiniao, direitos exercidos
at6 o seu limited. Mas tamb6m public
na integra as cartas das pessoas que
sao aqui referidas. Quando o tema exi-
ge, abre-se espago para a pol8mica, a
controversial, o debate. Todos tem o
mesmo direito aqui: o jornalista e o ci-
dadao, que 6 leitor do journal.
Nenhum daqueles que me proces-
saram exerceu o direito de resposta.
Mesmo os Maiorana, que receberam de
brinde dojuiz Fran-
cisco da Chagas a
tutela que a douto-
ra Rosana Canela
concede ao audi-
lo da tor da Receita, ja-
,que mais me manda-
rar a leitura do ram uma dnica car-
Estado. A ta em resposta ao
i limpa e que aqui foi publi-
.ra-se que o cado a respeito
ado, ed mais deles. Na sua aqio
,us atos, de indenizaqio, ti-
or a veram o direito de
W at6 agora nao resposta mesmo
sem juntar A sua
petiqio inicial a
carta que queriam
ver reproduzida neste journal. Era mais
um dos muitos absurdos com os quais a
justiqa os tern mimoseado, passando por
cima da lei e dos meus direitos.
Mauro Bonna pode achar que o
contencioso desapareceu com as su-
cessivas publicaq6es em sua coluna,
mas Rog6rio Reis pode continuar a se
sentir insatisfeito. Tudo seria simples
de resolver: bastaria publicar a carta
que ele escreveu e mandou para o jor-
nalista, sem v6-la inserida no journal.
Esta devia ser uma regra de ouro para
uma imprensa verdadeiramente demo-
critica e responsivel: a voz do povo,
quando no exercicio do direito de res-
posta, 6 a voz de Deus. Quem a des-
respeita deve ser punido.


FEVEREIRO DE 2011 1'QUINZENA. Journal Pessoal


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FEVEREIRO DE 2011


SlaIQUINZENA- Jornal Pessoal U














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HIDROTERAPICO
Foi em 10 de junho a inau-
guragqo do Centro de Reabi-
litagdo D. Luiz I e seus de-
partamentos anexos: o Hidro-
terdpico, Instituto de Trauma-
to-Ortopedia e Instituto de
Neurocirurgia, na avenida
Generalissimo Deodoro, ao
lado do Hospital da Benefi-
cente Portuguesa. 0 convite
para a inauguraqo foi dos
m6dicos Guilherme Chaves,
Manoel da Silva Braga, Jofre
Moreira Lima e Joao Mara-
dei Pereira. A nota publicada
na imprensa trazia tudo em
letras mindsculas, inclusive os
nomes pr6prios. Era o visual
vanguardista de entdo.
O hidroteripico resistiu at6
um incendio, atribuido as fo-
focas quentes dos maledi-
centes freqilentadores da
sauna que funcionava no lo-
cal, com algum consumo de
iguas ardentes, prAtica de
uma incorregqo polftica hoje
intolerivel.

LIVROS
Os livros mais vendidos em
outubro, segundo Carlos Ro-
cque, que assinava a coluna
Literature em Foco, em A
Provincia do Pard, eram:
na Livraria Martins, Banho
de Cheiro, de Eneida, Gan-
ga Zumba, de Joao Felicio
dos Santos, e 0 Castelo do
Homem sem Alma, de A. J.
Cronin; na Dom Quixote
eram Luta pela Amazonia,
de Lufs Osires, A Marcha
do Amanhecer, de Jusceli-
no Kubitscheck, e Brasil
para Principantes, de Pe-
ter Kelleman; e na Loyola os
lfderes de vendas eram os
romances de trico Verissi-
mo e Jorge Amado. Rocque
ndo especificava quais.


PROPAGANDA

Na chuva


Lembro os meus
dias de crianga
indo para a es-
cola debaixo de
aguaceiro pesa-
do, mas me sen-
tindo protegido
pelas galochas
que encapavam
meu sapato qua-
se impermedvel
Vulcabrds (como
o deste antincio,
de 1959), e capa
de chuva. As ve-
zes conseguia me
manter absoluta-
mente seco du-
rante o percur-
so sob as dguas
do "inverno"
belenense.
Hoje ndo e tdo
marcante a pre-
senna de crian-


Vas com essa indumentdria. Nas dreas imobiliariamente
mais nobres da cidade porque a febre do automdvel trans-
formou o paraense num centauro motorizado, desde pe-
queno. Ningugm anda, a ndo ser nas caminhadas atleti-
cas, a cdu aberto ou em academias (para estas, indo e
vindo de carro). Na periferia, talvez pelo custo proibitivo
desses components.
A perda dupla. Para as criancas, que se molham muito. Para
a cidade, que perdeu esse colorido acrescido a chuva, ele-
mento da paisagem que, pelos erros do adensamento huma-
no no sitio geogrdfico, estd se tornando o motivo de preocu-
pacoes e mesmo da firia dos moradores prejudicados por
suas inundacges.
Enquanto ndo se corrigem as distorVoes desse process cons-
trutivo, por que o poder ptblico ndo estimula a instalagdo
de pelo menos uma fdbrica de galocha e capas de chuva?
Ainda temos um residuo de produCdo de borracha native.
Com estimulos justos e honestos e o apoio do governor para
a formaVdo de hdbitos de consume, uma indtistria poderia
se sentir estimulada a responder a convocagdo feita pela
administraado pdblica. E o cidaddo redescobriria a funcio-
nalidade (e ati o prazer) de continuar as suas atividades
normais durante a estaCdo das chuvas, sem a qual Belim se
tornaria mais hostile do que estd ficando.


IDENTIFIQUE LOGO SE E


VULCABRAS
0 ONICO
CALADO
VULCANIZADO
PELO
EMR

PROCE//-








-- llll- : N.a **s


--- : -i
j~t __ tCAMAIK


SJornal Pessoal FEVEREIRO DE 2011 laQUINZENA


TERRINHA
Ant6nio Gomes dos San-
tos, proprietdrio da fibrica e
perfumaria Orion (firma em
plena atividade at6 hoje),
cumpriu o protocolo de en-
tao. Subiu as longas escadas
do predio da Folha do Nor-
te para o abraqo de despedi-
da ao dono do journal, Paulo
Maranhdo, amigo de meio
s6culo. No dia seguinte em-
barcaria num aviao Conste-
llation da Panair para Recife
e de lA para Portugal, sua
terra natal, para ever "a lin-
da Viana do Castelo, onde
vagiu sob o sol daquele ceu
resplandecente", anotou o in-
candescente Paulo Mara-
nhao nas Notas Mundanas da
Folha. Informando que o
dono da Orion s6 estaria de
volta um mes e meio depois.

DEBUTANTES
0 Clube do Remo ainda
era tdo chique que se permi-
tia sortear entire as suas de-
butantes do ano, homenage-
adas com um "grande baile"
na sede azulina, duas passa-
gens de ida e volta A Guana-
bara (o atual Rio de Janei-
ro). Elas embarcariam no
voo inaugural do Caravelle (o
mais belo dos jatos que o
home ji fabricou) da Cru-
zeiro do Sul, em outubro.
Para abrilhantar a festa, ha-
via a apresentagio da can-
tora Elizete Cardoso, a "mag-
niffica". 0 traje obrigat6rio,
naturalmente. era a rigor.

FESTA
Um sucesso a festa reali-
zada pelo colunista social Pi-
erre Beltrand na sede social
do Clube do Remo. Apresen-
tou A sociedade 10 "new fa-
ces", sua promogao annual,
que foram Vera Maria Bae-
na, NAdia Moraes Rego,
Vera Brito Pereira, Helena
Maria Meira, S6nia Lucia
Barbalho, Maria Jos6 Teixei-
ra, Maria Helena de Andra-
de, Silvia Maria Fernandez,
Sonia Maria Malcher e Vera
Maria Lima.





VER-O-PESO
0 rico registro de um dnico dia (no
final de dezembro) da entrada de em-
barcaq6es a vela e de motors na doca
do Ver-o-Peso mostra a importAncia que
esse mercado sempre teve na vida de
Belem e a intense relacgo da capital
com o interior do Estado (e o vizinho
AmapA), corn enfase no Maraj6, atra-
v6s da via fluvial, que hoje se tornou
menos perceptivel ou foi marginaliza-
da da percepcKo social e das polfticas
pdiblicas. Era urnm transport ainda do-
minado pelas vigilengas, que escoava a
produqAo extrativa, incluindo a borra-
cha, e certas manufaturas, como a ca-
chaqa de Abaetetuba e Igarape-Miri.
Chegaram a Beldm nesse dia:
- Canoa Recordagao de Jesus, proce-
dente de AfuA, com diversas qualida-
des de frutas.
- Canoa Maria Milca, vinda de Chaves,
transportando diversas cabegas de gado,
consignadas ao Matadouro do Maguari. .'
- Canoa Milagrosa, de Breves, corn di-
versas ddzias de madeiras, consignadas A Estfncia 9 de Janeiro.
- Canoa Igaruana, de Afut, com diversas qualidades de frutas.
- Motor Industrial II, de MacapA, com ddzias de madeiras,
consignadas A Estincia de S. Jos6 de Ribamar.
- Canoa freteira Rosa da Conceicgo, de MacapA, corn diver-
sas mercadorias.
- Canoa Feliz, de Abaetetuba, corn 150 frasqueiras de ca-
chaga, consignadas A firma Cunha, Capela & Cia.
- Canoa Pompeu Filho, de Camett, com diversas sacas de
arroz, consignadas A FAbrica Diana.
- Canoa Rainha do Adro, de Chaves, corn sementes oleagi-
nosas, consignadas A fAbrica de sabres e 6leos Lealdade.
- Canoa S. Maria do Vieira, de Afua, corn sementes oleagi-
nosas, consignadas a fabrica de sabres e 61eos Santa Maria.
- Canoa freteira Alegria de Fatima, de Macapa, com carre-
gamento de diversas mercadorias.
- Canoa Auxiliar, de MuanA, com diversas toneladas de bor-
racha, consignadas A Usina Bitar & IrmAos.
- Canoa Nazard da Conc6rdia, de Igarap6-Miri, com 150 fras-
queiras de cachaqa, consignadas A firma Cunha, Capela & Cia.
- Canoa D. Leidinha, de Araticu, com sementes oleaginosas,
consignadas A fabrica de sabres e 61eos Lealdade.
- Canoa Cidade de Araticu, de Araticu, descarregada;
- Canoa S. Miguel, Cametd, corn diversas sacas de arroz,
consignadas A Fabrica Diana.
- Canoa Invencivel, de Afua, com diversas qualidades
de frutas.
- Canoa S. Benedito, de Igarap6-Miri, corn carregamento
de lenhas.
- Canoa Muanense, de Muana, corn diversas ddzias de ma-
deiras, consignadas A Estancia de S. Jos6 de Ribamar.
- Canoa Cristolito, de Mocajuba, descarregada.
Canoa N. S. Auxiliadora, de Chaves, corn diversas cabegas
de gado, consignadas ao Matadouro de Maguari.
- Canoa Tupiara, de S. Sebastiso da Boa Vista, com diversas
dizias de madeiras, consignadas A Estincia S. Jos6 de Ribamar.


FOTOGRAFIA

Futebol made in Par
Como era simples, pobre, digno e bom de ver o futebol
paraense de 1957. Tudo aparece nesta fotografia. 0 lo-
cal do jogo 6 o estddio da Tuna, que ficava no distant
bairro do Souza. Era quase zona rural, como atestam as
grandes drvores ao fundo. A Tuna Luso ainda era time
incontestavelmente grande, que disputava de igual para
igual (nesse ano vivendo uma das suas melhores fases)
corn seus dois maiores rivais. Neste caso, o Remo. No lance,
o jovem goleiro Piedade, um dos melhores da hist6ria
azulina, vai Id em cima buscar a bola, sob a fiscalizagao
do grande zagueiro Soc6. Ao fundo do cendrio, a ristica
cabine da imprensa. Era uma caixa de madeira caloren-
ta, mas incapaz de prejudicar o brilho de grandes locu-
tores, como o mestre Edyr Proenga. Ndo d para dar sau-
dade mesmo?


- Canoa Lindomar, de Macapi, com diversas qualidades
de frutas.
- Canoa Otolina, de Afua, corn diversas qualidades de frutas.
- Canoa Recordaqio, de Muand, com diversas toneladas de
borracha, consignadas A Usina Bitar & Irmaos.
- Canoa Flor do Comrerio, de Macapl, corn diversas mercadorias.
- Canoa Cantora de Afua, de Afua, corn sementes oleagino-
sas, consignadas A firma Soares, Carvalho Sab6es e 6leos.
- Canoa Acreana, de Muand, com diversas toneladas de bor-
racha, consignadas A Usina Bitar & Irmaos.
Canoa freteira P6rola das Flores, de Macapd, com diversas
mercadorias.
- Canoa Berlinda de Maria, de Macapa, corn diversas
mercadorias.
- Motor Pedrinho, de Abaetetuba, com 200 frasqueiras de
cachaqa, consignadas A firma Cunha, Capela & Cia.


FEVEREIRO DE 2011 1'QUINZENA Journal Pessoal a








d

AO EDITOR


DZeSAAM NTO
Muito pertinentes suas
consideragoes sobre este aci-
dente que ocorreu no ultimo
fim de semana. Eu, que sou
leitor de seu journal, sou tes-
temunha das inumeras repor-
tagens feitas por voc&, cha-
mando a atenglo para esta
questio dos grandes prddios
em Beldm. Pena que nossa
cidade tenha como prefeito o
D. Costa, uma pena.
Sobre a cobertura dada pe-
las emissoras de Beldm ao
acidente, valia tudo, at6 forgar
pessoas convidadas pelas
mesmas a dar uma causa ime-
diata sobre o que foi que cau-
sou o acidente. Um total des-
preparo das nossas "empresas
jornalisticas".
FlAvio dos Reis

SONEGAQAO
Sempre leio o teu journal. Na
edigio da 2! quinzena de ja-
neiro de 2011, ha tres mat6ri-
as de suma importAncia para
a cidade de Belmrn e para o
Estado do Pard: "Ameaca da
Altura", "Cidade e a Agua" e
"A sonegaclo Fiscal: o papel
da imprensa". Pois bem: que
tal organizarmos para lutar
contra esse desrespeito a
n6s paraenses?
HA anos reclamo da ocupalio
do solo sem o conhecimento das
vaz6es dos igarapds no period
chuvoso com mars de quadra-
tura e de sizigias, impermeabi-
lizacies corn espig6es em locals
inadequados numa cidade sem
saneamento bAsico.
Corn relaoio h sonegacao
fiscal hd casos hilariantes. Umrn
exemplo: a loja Liliani, vende
um produto h vista por um pre-
co e, dois dias ap6s, quando
entregam a mercadoria com o
cupom fiscal, o valor que cons-
ta no mesmo 6 inferior ao que
se pagou. A Pharmapele da va-
rias desculpas para nao entre-
gar o cupom fiscal, por isso
deixei de comprar nessas duas
lojas, e oriento as pessoas nlo
comprarem nas mesmas lojas.
Quando exijo o cupom fiscal,
travam o sistema do computa-
dor para que eu perca minutes
esperando, pensando que vou
desistir. Pergunto: onde estio
os 6rglos responsAveis para
coibir esses desmandos?
Odete Santos


MINHA RESPOSTA
As observoages do leitora sado
muito boas. Suas informagoes po-
dem ser aproveitadas pelo secre-
tdrio do Fazenda, Jos6 Tastes. Ele
prometeu, como uma das suas pri-
oridades, combater a enorme so-
negaBdo fiscal no Pard.

BELIM
Sua reportagem "A rua 6 sua
casa: cuide bem dela" apre-
senta uma proposta corn
grande potential de mobili-
zaglo popular. Topo o desa-
fio de trabalhar em prol de
um novo rumo para essa ci-
dade, acreditando que mes-
mo que as respostas que voce
venha a receber nao sejam
muitas, um pequeno grupo
poderh desencadear um pro-
cesso que tender a atrair
novos participants.
t important agregarmos
contribuigves e conhecimento
de outros grupos que ja tmrn
um trabalho de enfrentamen-
to de alguns problems cruci-
ais em Bel6m, a exemplo
do lixo. Nesse caso, acho que
uma aproximag~o cornm o Gru-
po de Combate ao Lixo de Be-
l6m seria proveitosa para
pensarmos numa ampliagio
das propostas que ja estio
sendo efetivadas e em meca-
nismos de pressio ao poder
publico.
Lembro, ainda, que ao Ion-
go de 2011 o IBGE divulgarS
uma sdrie de estatisticas re-
ferentes ao Censo 2010, o que
represent um arsenal ampio
e atualizado de dados sobre
o Municipio de Belim. Entre as
inovag es desse ultimo Cen-
so Demogrdfico estao o levan-
tamento de dados urbanisti-
cos, que foi realizado pelos
supervisors no moment de
cadastramento de enderegos
e atualiza~io dos mapas dos
stores censitdrios, e a pos-
sibilidade de obteng~o des-
ses dados de forma mais de-
sagregada, gragas ao georre-
ferenciamento dos mapas uti-
lizados no levantamento. Po-
deremos, por exemplo, ter
acesso a algumas estatisticas
em nivel de logradouro.
Corn essas informag6es, enxer-
garemos melhor a cidade e seus
problems (arboriza~io, ilumina-
g o publica, lixo, calgamento, pa-
vimentag5o, presenga de esgoto
a c6u aberto, etc), elaborando
propostas que ajudem Bel6m a
comemorar seu aniversdrio de
400 anos corn um cendrio mais
positive.
Maria Angela Gemaque Alvaro


Mem6ria do Cotidiano 3
Jd estd a venda nas
bancas e livrarias da
cidade o terceiro
volume da colepdo em
format de livro da
Mem6ria do Cotidiano,
a sedo fixa deste
journal. Corn
diagramaCao mais leave l o
e limpa, para permitir
a melhor leitura e o
maior prazer dos
leitores. Agora, i ir
atrds e comprar 0
editor agradece.



Transarao
Em maio do ano passado a Vale transferiu de uma s6 vez A
norueguesa Norsk-Hydro o complex de alumina e alumfnio de
Barcarena, acrescido da jazida de bauxita de Paragominas, al6m do
projeto de uma nova fibrica de alumina do tamanho da Alunorte, a
CAP. 0 neg6cio foi no valor de cinco bilh6es de d61ares, pagos
pela multinational norueguesa, e a cessio, pela Norsk, de 22% das
suas pr6prias aq6es a Vale.
A transagio devia ter sido consumada at6 o final do ano pas-
sado. Mas por "quest6es burocriticas", segundo uma fonte, a
data para a finalizagio da operago foi transferida para o final do
pr6ximo mbs.


Nossa gente
Uma das melhores relag6es custo/be- a.
neficio que a Vale consegue nos seus in-
vestimentos no Pard 6 a Orquestra Jovem
Vale Mtisica. A aplicagdo, feita pela lei de
incentives, com ren6ncia fiscal, 6 de urn
milhn o de reais. Ao completar um ano de
existmncia, a orquestra se apresentou no
Teatro da Paz e langou um below CD, prazer
para o gosto e bilsamo para a consci8n-
cia. t um conjunto de mtsicos, com idades entire 14 e 23 anos (o
spalla tem 14 anos), que iri renovar e garantir a perenidade da
pr6pria orquestra sinf6nica do Teatro da Paz, num trabalho de
f6l1ego e profundidade.
Por tr6s dessa obra estd Gl6ria Caputo. Ela demarcou uma nova
era na mdsica no ParA quando assumiu o Conservat6rio Carlos
Gomes. Al6m de tonificar a qualidade pedag6gica e artistica da
instituigAo, agregou-lhe a populag~io pobre. Garantiu para essas
criangas a oportunidade de mostrar seus talents e encontrar um
caminho para a profissionalizagAo e a realizaqdo.
Gl6ria saiu do governor sem perder a ligag~io com sua obra.
Inventou um novo lugar para si e o seu projeto de formaqio de
jovens m6isicos corn base no talent, sem pr6-condigAo alguma, a
ndo ser no m6rito. Felizmente conseguiu apoios e agora conduz
seus m6sicos, em orquestra e coro, pelos virios cen6rios de Be-
16m, do Pard e do Brasil. Chegar a outros pauses ndo seri quest
de hip6rbole, mas de tempo.


Jomal Pessoal

Editor: Licio Flavio Pinto


Contato: Rua Aristides Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: Ifpjor@uol.com.br jomal@amazon.com.br Site: www.jomalpessoal.com.br
Diagramagio e ilustrag6es: Luiz Antonio de Faria Pinto luizpe54@hotmail.com *
luizpe54@gmail.com chargesdojomalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.comrn


Mjornal Pessoal FEVEREIRO DE 2011. 1aQUINZENA
















Paraense nao sobe escada,
nao entra em galeria e nio cum-
primenta. Quanto aos dois primei-
ros (maus) hdbitos, o problema
costuma ser apenas commercial.
Quern quiser vender que atente
para esses detalhes. Se pudesse,
o paraense iria montado no seu
carro (que maneja nas ruas como
se fora uma canoa: buscando o
canal de passage) at6 o ponto
de destino, qualquer que ele fos-
se: dentro de uma loja, no altar da
igreja, no supermercado.
Quanto ao tltimo, 6 uma ques-
tao social relevant. Em suas ori-
gens mais remotas, 6 possivel que
essa not6ria falta de educaqao seja
mais uma das evidencias sobre a
desigualdade social no Brasil, que
desafia o crescimento econ6mico.
Os parias sociais nao podiam to-
mar a iniciativa de se dirigir A pes-
soa considerada superior. Precisa-
vam esperar por uma provocaqio,
que podia se materializar numa
pergunta ou numa ordem. At6 esse
moment, deviam guardar silencio
ou se manter em alerta para a ma-
nifestagqo do doutor.
Acho que essa 6 a matriz do
inconsciente coletivo, do silencio
ao cumprimento das pessoas da
base da pirimide social desta ter-
ra profundamente injusta. Nio
saddam porque nao lhes compete
a primeira palavra. Respondem,
mas em geral em voz baixa, sur-
preendidas, certas do "seu lugar".
Liberadas, revelam sua amistosi-
dade, prestatividade, solidarieda-
de, seus dons naturais. Por isso
mesmo, perdem preciosas opor-
tunidades de relacionamento por
essa pratica de cruzar corn as
pessoas como se elas nao estives-
sem ali ao lado.
Essa teoria nao se aplica aos
donos do topo da estratificagao
social. Estes costumam ser mal-
educados, arrogantes, indiferen-
tes, daquela indiferenga mortal


que ojovem Alberto Moravia ca-
racterizou no seu primeiro roman-
ce, justamente corn esse titulo (Os
Indiferentes). Mesmo que sem
se dar conta, esses senhores ain-
da querem manter a diferenga de
berqo (o herdado ou, cada vez
mais, o roubado).
No fundamental, esse hibito 6
um estorvo para a civilidade, a
regra bAsica da convivencia na
cidade, que ameniza os inconve-
nientes da vida coletiva e finca
normas de aplicaqdo comum. Por
isso, cabe como luva a uma das
necessidades de Bel6m: uma
campanha para estimular as pes-
soas a se cumprimentarem, rom-
pendo preconceitos individuals ou
condicionantes hist6ricas subter-
rineas. Uma campanha que po-
dia ter um titulo parecido corn
"Fale: a vida serb melhor.
Sera mesmo. Nas minhas ca-
minhadas, ji fiz esse teste vdrias
vezes. Cumprimento as pessoas que
cruzam comigo, mesmo aquelas de
aparencia indiferente ou hostile. 0
resultado 6 altamente superavitA-
rio. Hi os que sempre estio de mal
corn a vida, mas sAo minoria. Olho
para trAs e constato um rio de sa-
tisfarqo no meu rastro.
Algumas pessoas demoram a
reagir, mas reagem, mesmo quan-
do jS dei alguns passos no outro
rumo. Parecem sentir-se valori-
zadas. Sua surpresa 6 agradAvel.
Imagine-se se outdoors estives-
sem espalhados pelas cidades e
suas emissoras de radio e televi-
so veiculassem a mensagem de
incentive ao cumprimento. 0 prin-
cipal: folhetos, historinhas e brin-
cadeiras nas escolas demonstran-
do que a boa convivencia, mes-
mo que rApida ou dnica, 6 um dos
caminhos para a cidadania positi-
va. Sem a qual a nossa cidade ndo
se libertarA das amarras do mau
humor e da agressividade.
Custa tentar?


Cidade cordial


FEVEREIRO DE 2011 1QUINZENA Jornal Pessoal 1


Agao imobiliaria

JA comeqa a dar sinais de profunda deteriora-
qao o casarao do m6dico Deocl6cio Correa, a mais
bela edificaqio remanescente no Largo de Nazar6
e uma das mais importantes da cidade. Pelo jeito,
caminhard para a ruina sem qualquer gesto de inte-
resse por sua salvaqio. Neste moment 6 que se
mostra a importincia de uma empresa imobiliaria
municipal, como a que sugeri varios anos atras e s6
interessou A entao vereadora Ana Jdlia Carepa. Ela
apresentou um projeto de lei nesse sentido, mas seus
companheiros de cimara ignoraram a iniciativa. Por
que nao reeditA-la?
A prefeitura teria 51% do capital da empresa,
que ofereceria o restante das suas aq6es ao pdblico
para subscriqao, conforme o modelo do novo capi-
talismo popular. Para tornar inicialmente atraente a
sociedade, os contribuintes que pagassem em dia
seus impostos poderiam transformar o valor da qui-
taqao em subscriqao de aqces da empresa imobilid-
ria municipal, tornando-se acionistas minoritArios.
Nessa condiqio, al6m de poder receber divi-
dendos, caso a empresa se torne lucrative, pode-
rao escolher um dos tres membros da diretoria
da empresa piblica, cuja principal missao serd
evitar que a cidade fique coalhada de pr6dios
velhos sob o risco de desabamento, areas inser-
viveis e locais desvalorizados (que atraem a mar-
ginalidade para dentro de si e no seu entorno),
al6m de promover a recuperaqao do perfil hist6-
rico e arquitet6nico de Bel6m.
No caso do solar dos Correa, por exemplo, a
empresa terd agilidade pr6pria da sua condiiao jurf-
dica e econ6mica para restaurar o im6vel e dar-lhe
uma destinaqio compatfvel. Antes, a prefeitura de-
sapropriari o pr6dio, depositando o valor em juizo
para eventuais questionamentos (neste, como em
numerosas outras construq6es antigas, nao hA her-
deiros, os proprietirios ji vivem fora de Bel6m ou
se desinteressaram pelo patrim6nio, em funqao dos
complicadores de uma litigancia najustiqa).
A prefeitura repassard o bem para a empresa
imobiliiria municipal, na forma de subscriqio de
suas agoes ou como financiamento (uma linha de
cr6dito especifica e especial, de fomento, serb
aberta em complement ao que ji existe ou ino-
vando). A empresa poderd, ao final da restaura-
gao, assumir o control do im6vel ou levA-lo a lici-
taqio pdblica para que a iniciativa privada, sob
comodato, execute o projeto estabelecido para
aquele bem. No caso do casarao de Nazar6, podia
ser um verdadeiro museu do Cfrio, com todas as
condiq6es para formaqao de acervo, visitaqao, con-
sulta e induqao a pesquisas.
Corn o tempo, competencia e seriedade, a em-
presa municipal poderA ajudar Bel6m a se salvar da
destruiqio cultural a que vem sendo submetida. Se
os danos jA sao imensamente altos, a perspective 6
de ficarem muito maiores. E ningu6m fara nada?







Elite

motorizada

Na noite de inauguraqAo do
maravilhoso Teatro Municipal de
So Paulo, em 12 de setembro
de 1911, houve um congestiona-
mento de veiculos em torno do
novo ponto de encontro da elite
da cidade: de 100 a 150 diferen-
tes tipos de veiculos (dos tilburis
aos autom6veis) levavam seus
passageiros at6 a porta da casa
de espeticulos. Ningu6m queria
descer e andar, nem que fosse
uma dezena de metros. Para ir e
para voltar, todos queriam se exi-
gir sobre as escadarias e mos-
trar aos demais suas condug6es
e seus emperiquitados chau-
ffeurs e cocheiros. Por causa
dessa exig8ncia, houve quem s6
conseguisse chegar ao teatro no
final do espetAculo. Nao impor-
ta. Tudo pela imponencia, a apa-
r8ncia e a comodidade.
Quem chega para a missa do-
minical das 11 da manha na igre-
ja de Santo Ant6nio de Lisboa,
na praqa Batista Campos, tem,
"ao vivo", a reediqco do espeti-
culo paulistano de um s6culo
atrAs. Formam-se filas duplas e
at6 triplas dos carries dos baca-
nas e poderosos, que nao acei-
tam estacionar seus transportes
(com ou sem motorist) senao
bem perto da igreja. Se possivel
(e mesmo que impossivel), bemrn
na porta, evitando a exposicgo do
condutor (ou passageiro) por
meia ddzia de metros de chao. E
a nata da sociedade, num preten-
dido moment de espiritualidade,
desprezando a lei, o bom senso e
os principios de civilidade e edu-
cagqo. Um p6ssimo exemplo
para os considerados menos ilus-
trados, abastados e privilegiados
da sociedade.
Uma equipe de televisAo po-
dia dar uma passada pelo local
para documentary essa desfeita A
cidadania. Quem sabe, agents
do transito nao sao mandados
para esse plantao em nome da
boa vida em coletividade, resta-
belecendo seus parimetros ou
inaugurando-os? Pelo menos dei-
xarfamos de manter essa regres-
sdo secular.


2


Poeta s6 0 ouvidor


HA pessoas que sdo maravilhosas A dist&ncia (ainda
me permit a crase, que nio foi feita para humilhar nin-
gu6m). A americana Elizabeth Bishop, cujo centenArio de
nascimento foi lembrado (se tanto) no dia 8, era uma delas.
Sua volumosa correspondencia, que s6 guard paralelo corn
a da inglesa Katherine Mansfield, 6 minha leitura perma-
nente. Cada vez que volto as suas cartas descubro uma
novidade, vejo as coisas por um enfoque diferente, perce-
bo melhor a mim e ao mundo.
Mas pelo que consegui saber de madame Bishop, o me-
lhor relacionamento com ela 6 esse mesmo. A pessoa que
mais a amou, Lota Macedo Soares, sua companheira duran-
te os 15 anos em que a poeta americana viveu no Brasil, se
aproximou demais e se queimou. Ao tentar se reconciliar
corn a amante, que voltara para os Estados Unidos, deu co a
cara numa parede de gelo, ficou desconcertada e se entupiu
de barbitdricos at6 morrer, ao lado da amada, em Nova York.
A aparente indiferenqa de Bishop para corn a desespera-
da Lota a tornou execrAvel para os amigos brasileiros e mais
alguns americanos. Nao havia, por6m, maldade ou mau-ca-
ratismo na attitude. Elizabeth Bishop era uma solitAria radi-
cal, uma 6rfa plena (perdeu o pai com meses e a mle enlou-
queceu pouco depois). Seu contato mais fntimo era com ani-
mais, o ar, a Agua, os elements da natureza, a geografia.
Com os series humans, a melhor via era a escrita. E
como escrevia! Dava aos seus leitores a oportunidade de
penetrar em sua mente e a partir dela olhar o mundo em
torno corn a acuidade e a sutileza de uma crianga intelectu-
almente poderosa. Sua poesia 6 simples, exata, quase natu-
ralista, pura. Um despojamento que s6 se estabelece nos
corpos bem servidos de perceplao, como o dela.
Parece facil escrever quando a lemos. 0 problema 6 quan-
do se tenta escrever algo parecido. Na criagqo universal,
ningu6m se parece a Elizabeth Bishop em suas excurs6es
invisfveis por Ouro Preto ou Miami, Santar6m ou Boston.
Ela nao era algo externo ao que via. Era como se estivesse
em cada coisa, autora e personagem ao mesmo tempo. Teve
grandes interlocutores na sua vasta correspondencia, como
Robert Lowell e Marianne Moore. S6 nao teve amigos de
came e osso. Por isso, um s6culo depois que veio ao mundo,
Elizabeth Bishop 6 um present inesquecivel para os que a
conheceram de long.


O governor faria um
bem a si e h sociedade
criando uma ouvidoria,
na tradiqAo sueca do
ombudsman. Nao se
confundiria com a Audi-
toria Geral do Estado,
voltada para a atividade
internal. Seria a voz e os
ouvidos dos cidadaos,
fazendo o diAlogo soci-
al, mas tamb6m Ihes
prestando services. Ou-
tro dia liguei para todos
os quatro telefones de
uma important instan-
cia da administraqao es-
tadual. As ligaq6es caf-
am e ningu6m atendia.
Ou os n6meros dos te-
lefones estao defasados
ou os servidores pdbli-
cos nao cumprem sua
obrigaqgo.
0 ouvidor checaria os
telefones, para atualizar
o catAlogo (ao menos o
do DiArio Oficial), e tra-
taria de colocar em exe-
cuqao uma regra que
nem virou exceqgo, tor-
nou-se mesmo letra mor-
ta nos habitos e costu-
mes da burocracia ofici-
al: tender telefone em
repartipqo pdblica 6 obri-
gag o sagrada. Ignorar
essa norma constitui ir-
regularidade funcional.
Passfvel de rigorosa pu-
nigdo. Para valer, nao
para apenas constar.