Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00359

Full Text



JANEIRO
DE 2011 Peal
1 QUINZENA A DE L F PINT

A AGENDA AMAZ6NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


NO 480
ANO XXIV
R$ 3,00


HANGAR


Escandalo previsivel

A Policia Militar cercou o Hangar e o manteve isolado por seis dias. Era a preparagdo
para uma pericia exigida pelo secretdrio de cultural para receber o centro de convenVoes
sem as irregularidades que diz existirem. Por trds de uma grande obra no Pard sempre hd
grandes interesses. Sobretudo os ndo declarados. E a moral da hist6ria.


& entdo governadora Ana Julia
Carepa e o secretario de cultu
Edilson Moura, foram os con-
vidados de honra da inaugurario da co-
zinha industrial do Hangar Centro de
Convenq9es, em junho de 2009. Ficaram
impressionados com as instalaq6es, ca-
pazes de fornecer 2,5 mil refeiq6es por
hora (ou at6 quatro mil, se necessario),
400 files a cada 12 minutes. Com inves-
timento de dois milhoes de reais, era a
melhor cozinha industrial do norte do pafs.
A governadora e o secretario anda-
ram pelo local e fizeram perguntas, mas


nao a principal: quem autorizou a Orga-
nizacao Social Via Amazonia a realizar
essa obra? A OS foi criada justamente
para administrar o Hangar, mas s6 po-
dia fazer alguma alteraqdo com autori-
zagqo do seu proprietrio, o Estado, atra-
v6s do seu 6rgdo competent, a Secre-
taria de Cultura. 0 contrato era apenas
de gestio. Nao permitia alterar as con-
diq6es do im6vel, cuja plant original nao
previa restaurant.
Quinze meses depois da festival inau-
guracqo, a OS cobrou do Estado uma in-
denizagdo no valor de tres milhoes de re-


ais pelas benfeitorias que realizou no cen-
tro de convenq6es. A16m dos R$ 2 mi-
lh6es do restaurant, R$580 mil num novo
audit6rio, R$ 268 mil na ampliagio do es-
tacionamento e R$172 mil numa climati-
zaqdo adicional. Total da conta: pouco
mais de R$ 3 milh6es. A president da
OS, Maria Joana Rocha Pessoa, fazia a
cobranqa corn base "no principio da rto-
ralidade e no principio geral da vedacio
do enriquecimento sem causa".
A conta foi apresentada no dia 23
de setembro do ano passado e respon-
CO.MU.NA J' PAU a


=TIUAL PUN WA? k 5 *A


r| ESC L DS 01,6/71






CONTMIAO D&CWA
dida cinco dias depois pelo pr6prio
procurador-geral do Estado, Ibrahim
rOCHA, a quem a questio foi direta-
mente repassada. Dois pareceres an-
teriores da Procuradoria haviam re-
comendado "a apuraqao para verifi-
caio de responsabilidades pelas
eventuais ilegalidades dos contratos
administrativos e da possibilidade de
indenizar o contratado".
Ao inv6s de seguir esse entendimen-
to, Ibrahim Rocha considerou o caso do
Hangar diferente. Admitiu que o con-
trato da Secretaria de Cultura com a
Via Amazonia "inclufa tao somente o
espago Hangar", mas que a OS "esta-
va na posse decorrente do contrato de
gestdo, logo, quando realizou as benfei-
torias no espago as realizou na condi-
9do de possuidora do Hangar". Entre-
tanto, "nao estava nas suas obrigaq6es
contratuais a realizagio de tais melho-
rias no im6vel".
A indenizaago, portanto, era inde-
vida e atd illegal? 0 parecer parecia
caminhar para esse desfecho. Argu-
mentou o procurador que se para o
funcionamento do centro de conven-
c9es era necessario contar corn as
obras que a OS realizou, o procedi-
mento legal da proprietiria do im6vel,
a Secult, era abrir licitacao pdblica
para contratar uma empresa que pu-
desse realizar as obras "sem excluir
as obrigaq6es das empresas que cons-
trufram o Hangar, dentro do prazo de
garantia da obra".
A Via Amaz8nia tinha direito A in-
denizaqio com base numa exceqio
aberta pelo C6digo Civil (no artigo
1.202) para "benfeitorias necessarias".
O construtor do Hangar Centro de
Conveng6es e Feiras devia ter previs-
to originalmente a construgqo da cozi-
nha industrial, de mais um audit6rio, da
climatizag~o adicional e de mais vagas
de estacionamento (as 800 do projeto
eram insatisfat6rias). Todos esses itens
seriam indispensAveis ao bom funcio-
namento do centro, conforme a OS
constatou. E tanto constatou que, mes-
mo sem autorizagio e violando o con-
trato com a Secult, realizou as obras.
Cabia ao Estado pagar e ir em cima
das empresas construtoras para rea-
ver seu dinheiro.
Por maior prudencia, por6m, o pro-
curador recomendou A secretaria ve-
rificar "os motivos pelos quais nio fo-
ram tomadas providencias para apu-


rar a realizagio de benfeitorias I re-
velia do 6rgo em bem de seu patri-
m6nio". Mas, contraditoriamente, pre-
sumiu a boa-f6 da OS, com isso auto-
rizando a secretaria a pagar-lhe os R$
3 milh6es cobrados e a dispensando "de
instaurar procedimento administrative
para verificar a conduta da OS". Ao
contrArio do que se podia esperar, as
conclus6es do parecer no casaram
corn as suas premissas.
0 Hangar foi inaugurado quando a
Via Amaz6nia comemorava seu 2* ano
como gestora do centro. At6 ento,
mais de dois milh6es de pessoas (o
mesmo public que acompanha a pro-
cisslo do Cfrio de Nazar6, na estatisti-
ca dos seus promotores) tinham circu-
lado pelos 24 mil metros quadrados de
area construida (num espago total de
65 mil metros quadrados), em 500
events realizados (m6dia de 4 mil pes-
soas por evento. Em 2008, a freqiien-
cia foi 123% maior do que em 2007,
primeiro ano dos petistas A frente do
Estado. Tudo isso sem a existencia de
uma cozinha, o que prova que ela nao
era "benfeitoria necessaria".

a trAs p' ginas que o
F procurador-geral do
stado gastou na bus-
ea tortuosa pela admissao
de unma ilegalidade foram re-
duzidas a um expediente
com 10 linhs atrav6s do qual o
agent juridico de control da Secult,
Marcelino Freitas Tavares, fulminou o
parecer do procurador Ibrahim Rocha.
Tavares recomendou, no dia 9 de no-
vembro, a devolugao, pela president da
Via Amaz6nia, Joana Pessoa, dos R$ 3
milh6es que lhe foram repassados, e a
"nao promover nenhuma alterago" no
Hangar. Em 16 de dezembro o novo
secretario de cultural, Cincinato Mar-
ques, cobrou a devoluqao (que acabou
sendo efetuada, mas apenas de R$ 2
milh6es, segundo fonte do novo gover-
no estadual).
Diante desses fatos, a especulagio
que se fez sobre a sdbita e estranha
mudanga de posiago 6 de que ela acon-
teceu porque Ana Julia Carepa nio con-
seguiu se reeleger. Se ela tivesse sido
vitoriosa, provavelmente o p6ssimo ar-
ranjo jurfdico seria mantido. Mas com a
ascensao do PSDB no lugar do PT, a
maquilagem nao encobriria o malfeito.
Ele 6 suficientemente desconexo para
ser logo descoberto.


Corn a eleiqao de Simao Jatene e a
indicaqao do arquiteto Paulo Chaves
Fernandes para o comando da Secult,
pela quarta vez em 16 anos, era previ-
sfvel que um escindalo fosse armado
em torno dessa e de muitas outras irre-
gularidades que surgiram na relacgo
promfscua da secretaria corn a Via
Amaz6nia na gestao do Hangar.
O (mais uma vez) novo secretArio,
que parecia definitivamente reincorpo-
rado A atividade privada, insistiu em se
oferecer para reassumir o cargo. Seu
prop6sito 6 retomar o control das
obras que realizou em Bel6m durante
seus 12 anos seguidos A frente da Se-
cult, das quais a mais cara e a iltima
da s6rie foi justamente o Hangar. E
a dnica dessas obras que nao p6de
inaugurar, embora o centro de conven-
q6es jA estivesse nos arremates finais.
O entio govemador Simao Jatene nao
quis fazer a festa de abertura, contra-
riando seu auxiliar (que ainda conse-
guiu promover uma visit final com
gosto de solenidade).
Ciente das muitas acusacfes que
foram feitas contra a OS e sua presi-
dente plenipotenciaria (que tamb6m foi
president do pr6prio Hangar), Joana
Pessoa, ex-tesoureira de campanha elei-
toral de Ana Jdlia, Paulo Chaves Fer-
nandes se recusou a receber as instala-
q9es sem a apresentaago da prestaqao
de contas. Alegando que tem prazo at6
28 de fevereiro para cumprir essa obri-
gagao, Joana lacrou o Hangar e deposi-
tou as chaves em cart6rio. 0 secreta-
rio tucano reagiu requisitando tropa da
Polfcia Militar para ocupar as instala-
96es do centro, mantendo-o em isola-
mento, que durou seis dias, at6 a reali-
zagdo de pericia para supostamente le-
galizar o recebimento.
Com menos emocionalismo, Paulo
Chaves podia ressalvar tudo que pre-
tende cobrar, p6r em ddvida e rejeitar o
passive sem deixar de ocupar de imedi-
ato o centro, nao interrompendo o seu
funcionamento regular. A principal pe-
ricia a realizar serd nas contas da Via
Amaz6nia e na apuracao dos fatos.
0 estardalhaqo armado pelo secre-
tario talvez tenha mais a ver com dis-
sens6es internal no novo govemo. Pau-
lo Chaves talvez pretendesse voltar com
os mesmos poderes que teve nos gover-
nos anteriores do PSDB, sobretudo nos
oito anos de Almir Gabriel, que referen-
dava todos os seus atos, mesmo os mais
extravagantes. Paulo acabava provocan-


a Jornal Pessoal JANEIRO DE 2011 1OUINZENA





do elevagqo exagerada e indevida dos
custos finals de seus projetos arquitet6-
nicos, mas o valor da obra era algo corn
que ele nWo se preocupava.
Como Almir Gabriel acabou derrota-
do, depois de ter apoiado todos os adver-
sirios ou inimigos do candidate do PSDB
(partido do qual se desligou), tomando-se
ele pr6prio o maior desses desafetos, uma
das marcas da volta de Jatene 6 se distin-
guir do primeiro governor tucano para im-
por a sua marca. Por ironia, para essa
definigao esta influindo muito o ex-depu-
tado federal Jader Barbalho.

A aproximagao entire Ja-
A tene e Jader (Jatene
oi secret6rio de pla-
nejamento no primeiro
mandato de governador do
peemedebista) foi a causa
do distancamento e do rom-
pimento final dos dois tu-
canos, ainda que, no final da campa-
nha para o 1 tumo, Almir tenha se alia-
do a Jader em torno da candidatura de
Domingos Juvenil, do PMDB.
Na composigao da sua equipe, Jate-
ne tentou desviar Paulo Chaves da Se-
cretaria de Cultura exatamente para
mant8-lo A distAncia das j6ias da coroa,
o circuit do Hangar-Estagqo das Do-
cas-Feliz Lusitania-Mangal-Sdo Jos6
Liberto. Embora se declare verdadeiro
servidor pdblico, Paulo Chaves tem uma
relagdo personalista e possessiva comr
os "seus" projetos (nao ha a mesma
relagqo corn os empreendimentos que
nao sdo de sua autoria). 0 journal 0 Li-


beral anunciou varias vezes nos dltimos
dias que esses espaqos culturais passa-
riam da jurisdigio da Secult para a 6r-
bita da Paratur e, no future, para uma
Secretaria de Turismo a ser criada.
Dificilmente Paulo Chaves aceitaria
perder esses poderes. Se foi balao de
ensaio do govemo ou apenas mais uma
retaliaqao do grupo Liberal, por nao ter
sua vontade atendida, de vetar alguns
dos nomes aprovados por Jatene para
o govemo, o efeito foi a adogao de uma
media intermedidria. A Organizaqgo
Social Pard 2.000, que cuidava dos de-
mais espaqos, incorporou o Hangar, ain-
da subordinada A Secult. Com a interdi-
gio por seis dias do centro de conven-
96es, Paulo Chaves deu uma amostra
do que poderia fazer se rompesse corn
o governor e jA tio cedo.
Pode ter tirado dividends dessa es-
trat6gia, mas tamb6m nao 6 improvAvel
que seja uma vit6ria de Pirro. 0 novo
governor do PSDB 6 muito mais hibrido
e distinto dos anteriores, inclusive o do
primeiro mandate de Jatene, que ainda
estava sujeito as interferencias do seu
antecessor. Agora 6 nftido seu compro-
misso com Jader Barbalho, que ele pa-
rece disposto a sustentar, mesmo en-
frentando a animosidade do grupo Li-
beral (pelo menos por enquanto). 0 per-
sonalismo e o impetuosidade de Paulo
Chaves podem ser complicadores nes-
sa political de composiq6es. Mas nao 6
recomendavel ataca-lo ou cortA-lo nes-
te infcio de gestAo.
0 que nao deve ocorrer, por6m, 6 a
reedig5o das obras suntufrias que ele


realizou nos 12 anos seguidos como se-
cretrio de cultural. A primeira dessas
obras, da Estago das Docas, acabou
saindo tries vezes mais caro do que o
projeto original. 0 orcamento do Han-
gar, a dltima das suas realizaq6es, era
de R$ 75 milh6es. Quando Jatene o
passou a Ana Jdlia, estava por R$ 102
milh6es. A governadora do PT diz que
aplicou mais R$ 20 milh6es para con-
cluf-lo. Assim sendo, o acr6scimo foi
superior ao permitido legalmente, que 6
de 25% do valor original. Como em to-
das as obras de Paulo Chaves.
O luxo da construgao, que provocou
a elevaqgo dos custos, chocou a opi-
niao pdblica e esse espanto foi usado
pelos petistas para atacar os tucanos,
sem impedi-los, entretanto, de mudar
completamente de discurso em segui-
da, usando intensamente o local que con-
sideravam elitista.
O Hangar saiu pela metade do pre-
go da Alga Viiria (R$ 246 milh6es),
composta por 74 quil6metros de es-
trada pavimentada e quatro pontes,
com quatro quil6metros de extenso,
a maior delas, sobre o rio GuamA, ten-
do o maior vdo livre dentre todas as
pontes brasileiras. 0 valor do Hangar
equivaleu a um terqo dos R$ 343 mi-
lh6es aplicados em cinco hospitals re-
gionais implantados por Jatene no seu
primeiro govemo.
Todas essas obras tiveram hist6rias
polemicas. Por causa dos seus custos e
da enfase que receberam, foram consi-
deradas, pelo PT, como fontes de caixa
2 para as campanhas eleitorais do PSDB.
Os tucanos, por sua vez, sempre viram o
monumental Hangar como a caixa de
lavagem de dinheiro para o PT. Ironias
do bipolarismo da polftica paraense.
Os R$ 3 milh6es finais seriam ape-
nas mais uma das transferencias de di-
nheiro do govemo para as contas da Via
Amaz6nia, num circuit que foi intenso
durante os quatro anos de Ana Jdlia,
embora, oficialmente, os repasses do
Estado tenham sido reduzidos de R$ 451
mil mensais, no infcio do contrato, para
R$ 250 mil no seu final. 0 principal era
embutido nas transag6es corn sinais
evidentes de superfaturamento entire
a OS e os diversos 6rgaos estaduais que
utilizavam o Hangar como lugar cativo
para suas muitas promog6es.
O enredo 6 o mesmo, embora mu-
dem os autores e seus discursos. Moral
da hist6ria: tudo mudou; tudo vai conti-
nuar na mesma.


. 1'QUINZENA Jornal Pessoal a


Insistencia
Romulo Maiorana Junior devia consultar o Guiness para verificar se
algum hotel ji teve campanha de langamento tao intense quanto o
Radisson Maiorana-Braz de Aguiar. Embora o hotel esteja em fase de
acabamento e as peas de propaganda garantam que falta comercializar
poucas unidades, ha virias semanas os jornais do grupo Liberal publicam
andncio ditrio do empreendimento, que comegou como propriedade utnica
do principal executive das Organizagoes Romulo Maiorana e depois
recebeu a bandeira da Radisson.
Durante o perfodo de f6rias, a mensagem publicitAria tentou convencer
os detentores de poupanga a deixar de lado o farniente e aplicar seu
dinheirinho no hotel-residencia. Mesmo que com isso deixassem de esfriar
a cabega, com o just repouso, iam forrar o bolso. 0 neg6cio
proporcionaria lucro em dobro e rentabilidade de 10 a 12% ao ano. 0
comprador pode pagar 30% do valor em cinco parcelas sem juros e ter
70% financiado em at6 30 anos.
A insistencia nos anincios didrios em pleno arremate da obra parece
sugerir que os investidores precisaram ir al mare.


JANEIRO DE 2011







Palacete encalacrado


A hist6ria do palacete Pinho, cons-
trucqo centendria de grande valor his-
t6rico e arquitet6nico, localizada na Ci-
dade Velha, 6 exemplar de como as coi-
sas costumam acontecer na adminis-
traqco pdblica de Bel6m. Construido
em 1897 por um imigrante portugues,
Antonio Jos6 de Pinho, que depois con-
quistaria o titulo de comendador, foi ha-
bitado pelos seus descendentes at6
metade dos anos 1950. A familia jA nao
tinha condi96es de manter o pr6dio,
corn quatro pavimentos, incluindo o
pordo e a mansarda.
Depois de anos fechado, a sofrer os
efeitos do tempo implacAvel corn o
abandon, foi vendido ao grupo Y. Ya-
mada, Ao invds de restaurar o palacete
e dar-lhe um uso nobre, a empresa o
transformou em dep6sito, sujeitando-o
ao risco de deterioraq o ainda maior e,
no future, desabamento. 0 procurador
federal Jos6 Torres Potiguar interveio
para obrigar o comprador a preservar o
im6vel, tombado em 1986. Para isso,
determinou que 5% do faturamento bru-
to do maior grupo de varejo do ParA


fossem reservados is futuras obras de
restauracqo. Para isso, um representan-
te do Minist6rio Pdblico precisava ter
acesso & contabilidade dos Yamada.
Foi um corre-corre. 0 prefeito Au-
gusto Rezende apareceu em socorro
dos seus amigos: em 1992 desapropriou
o palacete Pinho, tirando o peso de cima
da empresa e poupando-a da verifica-
qdo das suas contas. E nada mais fez.
S6 em abril de 2003 o pr6dio comegou
a ser recuperado, mas o serviqo s6 du-
rou at6 dezembro de 2004: o prefeito
Edmilson Rodrigues, entAo no PT, nao
venceu a eleigio municipal daquele ano,
nao fez seu successor e se desinteres-
sou pela continuidade da obra.
Ao inaugurar o pr6dio restaurado, o
prefeito Duciomar Costa, do PTB, dis-
se que ao assumir e determinar a reto-
mada da construglo, o abandon ja du-
rava seis anos. Na verdade, a maior
parte desses seis anos, quase a sua in-
tegridade, aconteceu durante os dois
mandates (o segundo ainda pela meta-
de) do atual alcaide. As obras, de fato,
s6 foram continuadas a partir de abril


do ano passado, mais uma vez por inici-
ativa do MP Federal, que ameaqou o
prefeito corn uma pesada multa de um
milhdo de reais caso ele continuasse
o faz-de-conta.
Se os serviqos nio tivessem sido in-
terrompidos por tanto tempo e se seu
cronograma nao fosse tAo acidentado,
certamente o custo final seria menor
do que os 7,9 milh6es de reais anunci-
ados pela prefeitura e os R$ 6,8 mi-
lh6es calculados por outra fonte. A
demora, por6m, desautoriza a attitude
da administraqao municipal, que ainda
nao sabe o que fazer corn o belo pr6-
dio em estilo ecl6tico.
Talvez surpreendida pela finalizaqgo
do servigo, a PMB teve que encontrar
uma destinaqAo de dltima hora, que 6 a
de sempre quando falta um planejamen-
to s6rio: anunciou que ali funcionard um
centro de cultural. De que natureza, nin-
gu6m sabia dizer. De qualquer manei-
ra, melhor do que um desenlace previ-
sivel em tais situaq6es: o pr6dio conti-
nuar fechado enquanto se espera por
uma resoluqio do prefeito.


Alguma cidade brasileira estA
construindo mais prdios altos do que
Bel6m, guardadas as devidas pro-
pow,6es demogrificas? No sei, mas
duvido. Bel6m optou de vez por uma
version aindamais medfocre docres-
cimento urbano vertical made in
USA. A cidade ji tern dois prddios
de 40 andares e vArios acima de 30.
Outros corn o mesmo gabarito es-
tio em obras. 0 perfil urbano defi-
nido por arranha-c6us se acentua.
0 horizonte comega a desaparecer
em alguns lugares. Por serem os
mais valorizados, atraem novos edi-
ffcios monstruosos.
Qual a razio dessa prolifera-
cgo de paliteiros de concrete pela
cidade? L6gica, nenhuma. S6 a
busca do lucro maior, que se sus-
tenta numa visao daninha das nos-
sas elites e num gosto tipico de
classes m6dia que enriquece, pro-
jetando sua sombra sobre todo o
tecido social.
0 padrAo individualista e egofs-
ta se expand gragas ao encolhi-


mento do poder pdblico, que vira
uma extensio dos neg6cios imobili-
drios. Cada um por si e ningu6m por
todos. Vence o mais forte, o mais
poderoso. Em todos os segments
e stores da sociedade. Do misera-
vel transport pdblico & construgao
civil inclemente. Bel6m ficou uma
cidade hostile, drida, selvagem.
Diante dos desafios atuais, o
mero saudosismo 6 uma forma de
escapismo. Mas quando se pega
uma foto da Bel6m do infcio do s6-
culo XX e se olha para a cidade
dos nossos dias, A parte os proble-
mas humans, muitos dos quais
apenas se agravaram desde entao,
o que salta aos olhos 6 que antes
tinhamos um c6u, um horizonte,
uma perspective que permitia fu-
rar a obtusidade da urbanidade
equivocada e ver o rio e a floresta.
Essa cidade, cujo tropicalismo re-
sistia A insensatez dos seus gover-
nantes, estA sendo sepultada pelas
tumbas camufladas de concrete
dos nossos engenheiros.


Capital mais eara

No Para funciona a quarta maior hidrel6trica
do mundo, a de Tucuruf. No ano passado o au-
mento do custo da energia no Estado, o maior do
pafs, foi o item que mais pesou na formaqAo do
fndice Nacional de Pregos ao Consumidor Amplo,
o IPCA, que mede a inflaqao para a classes m6dia.
O reajuste da tarifa de energia foi de quase 16%,
embora sejamos o quinto maior gerador e o 3* Es-
tado que mais export energia no pais ou justa-
mente por isso.
0 outro grande peso no IPCA foi o dos alimen-
tados, que cresceram 10,39% em 2010 na capital
paraense, corn a grande contribuig o negative da
came, que encareceu quase 30%, seis vezes acima
da inflacgo annual. E o Pard possui um dos maiores
rebanhos bovinos do Brasil e o municipio que mais
tern gado, Sio F6lix do Xingu. Em funqo desses
dois itens, Bel6m se tornou a capital brasileira de
custo mais alto em 2010. S6 a cesta basica aumen-
tou 11%, o dobro da inflaqio national. Comprar uma
cesta de alimentos exige 1,3 salhrios minimos.
A conclusio 6 de que, corn todas as condig6es
para se tornar auto-suficiente ou pelo menos assegu-
rar parte do seu consume, Bel6m continue depen-
dendo de importaqges, inclusive de alimentos. t um
escmrnio A political federal de integraoao da Amaz8-
nia, integrada para ficar relativamente mais pobre.


1Jornal Pessoal JANEIRO DE 2011 1IQUINZENA


Cidade enclausurada







Juiza sera punida?


O Tribunal Pleno do Pard julgard no
dia 19 o procedimento administrative
disciplinary instaurado pela Corregedo-
ria Metropolitana contra a juiza Maria
Edwiges de Miranda Lobato, titular da
vara penal dos crimes contra o consu-
midor e de imprensa de Bel6m. Uma
das mais antigas magistradas do Esta-
do, que ji podia requerer a subida ao
desembargo pelo critdrio de antiguida-
de, a carreira de Maria Edwiges tern
sido marcada por decis6es polemicas.
Ou flagrantemente destoantes das re-
gras processuais e da praxe no exerci-
cio da fungqo jurisdicional.
Em 2010 ajufza foi punida pelo tri-
bunal corn a pena de censura por escri-
to, mas aplicada reservadamente, por
"procedimento incorreto no exercicio da
fungao". Ela liberou Jocicley Braga de
Souza, conhecido tamb6m como Doti,
considerado pela policia como um dos
maiores traficantes de cocaina do Nor-
te e Nordeste do pais. Beneficiou ainda
Cristiano Tavares de Souza, tido como
seu guarda-costa.
Os dois, mais Nilton do Nascimento
e Augusto de Souza, foram press por
uma equipe comandada pelo delegado
Eder Mauro quando safam de uma fes-
ta, em Bel6m, em 11 de fevereiro de
2009. O0 flagrante foi mantido, dois dias
depois, pelo juiz Eric Aguiar Peixoto,
que tamb6m decretou a prisao preven-
tiva dos acusados.
Imediatamente um advogado pediu
a revogagqo da prisao de Jocicley e
Adriano, negada pelo mesmo juiz. Dois
dias depois o mesmo advogado renovou
o pedido, requerendo sua extensdo aos
outros dois press. No mesmo dia, Ma-
ria Edwiges, que apenas respondia pela
vara, devido a ausencia do seu titular,
concede a liberdade provis6ria. Os al-
varis de soltura foram imediatamente
expedidos e entregues na mesma data
A Superintendencia do Sistema Penal.
Ao aceitar a reclamaqdo formula-
da pela policia civil contra ajuiza, a cor-
regedora Eliana Daher Abufaiad admi-
tiu que Maria Edwiges deixou de ob-
servar o principio constitutional da "du-
raqdo razoAvel do processo, decidin-
do "de forma imediata e c6lere", pro-
movendo a conduq~o dos autos "de
forma diferente da real praxe procedi-
mental administrative, pois a rapidez
com que despachou concedendo a re-


vogagdo da prison
preventive 6 de cau-
sar certa estranheza".
Assim, observou
ainda a desembarga-
doraAbufaiad, "surgi-
ram algumas indaga-
96es: a) nao foi acres-
centado no pedido de
reconsideraqAo ne-
nhum fato novo e mes-
mo assim a Juiza de-
feriu o pedido de pla-
no; b) esse mesmo pe-
dido, sem fato novo,
ressalte-se, pede a
extensdo do beneficio para dois outros
acusados, mas a juiza nao fez qualquer
refer8ncia quanto a isso no seu despa-
cho, inclusive citou nominalmente ape-
nas os acusados Jocicley Braga de Mou-
ra e Adriano dos Santos Ledo; c) acer-
ca ainda desse pedido, nao foi dada vis-
tas ao Minist6rio Pdblico para manifes-
taqao, como titular da Aqao Penal que
6, embora a magistrada, em sua con-
clusao, faga constar: 'com parecer do
Representante do Minist6rio Piblico, re-
considero o pedido'; d) embora a ma-
gistrada, no despacho que concede a
liberdade aos r6us, tenha estabelecido
algumas condicqes a ser cumpridas e
determinada a expediqao do competen-
te Termo de Liberdade Provis6ria, o qual
deveria ser assinado na unidade judici-
aria, essa providencia nao foi cumpri-
da; e) todos os acontecimentos que cul-
minaram corn a liberaqao dos dois acu-
sados se deram num dnico dia,
04.03.2009, e, em que pese a celerida-
de que a Vara de Inqu6ritos deve impri-
mir aos processes 1i em curso, isso nao
6 praxe habitual".

a ainda, como prova
contra a juiza, a de
gravagao de uma in-
terceptacao telef6nica, feita
pela policia no dia seguinte
a libertagao dos press, en-
tre um advogado de preno-
me Everton e o custodiado
Adriano, "o que faz presumir que o
causfdico tinha conhecimento dos acon-
tecimentos". 0 advogado comenta que
o traficante Doti teria pagado 50 mil re-
ais pela sua liberdade.


O traficante continue foragido, de-
pois de ter ficado preso apenas entire
11 de fevereiro e 4 de margo de 2009,
quando foi solto pela juiza Maria Edwi-
ges embora respond a quatro proces-
sos em Bel6m, inclusive por homicfdio,
e ji tenha condenaqao no Ceard e no
Amazonas, onde foi preso.
A juiza se defended, contestando as
acusaqoes, negando valor as provas e
defendendo a lisura do seu ato. Mas a
Corregedoria, diante dos fatos apura-
dos no procedimento preliminary, deci-
diu pela instauraqao de process ad-
ministrativo disciplinary contra magistra-
da, por considerar que ela "agiu, no mi-
nimo, com parcialidade na conduqao do
process criminal". Os autos foram
entao encaminhados ao president do
Tribunal de Justiga do Estado e a de-
sembargadora Diracy Nunes Alves es-
colhida como relatora. Agora a ques-
tao serb julgada pelo colegiado pleno
do tribunal.
Depois da censura por escrito, em-
bora o texto n5o tenha sido divulgado,
a puniqao, se adotada, poderd ser a de-
cretaqao da aposentadoria compuls6-
ria da magistrada, a media mais drAs-
tica prevista. A carreira chega ao fim,
mas ojuiz vai para casa com seus ven-
cimentos, os mais elevados do servigo
pdblico. Para a instauraqao do proce-
dimento administrative foram necessa-
rias quatro sess6es, nas quais seis de-
sembargadores se declararam suspei-
tos. Sinal de que o espirito de corpo
ainda 6 forte no judicidrio paraense, o
que talvez explique a circunstancia de
as iiltimas puniqces terem sido adota-
das por um 6rgao superior, o Conselho
Nacional de Justiga.


JANEIRO DE 2011 1QUINZENA Journal Pessoal U








L tcio Flvio Vilar Lrio 6 o author de
urma frase lapidar: policia 6 policia,
bandido 6 bandido. Ele sabia do que
estava falando: foi o bandido mais charmo-
so da cr6nica brasileira. Um dos raros bandi-
dos rebeldes, ou romAnticos. Nunca transa-
cionou corn policiais. Morreu cedo por isso.
Sua maxima pode servir de parafrase para a
relagco dos jomalistas corn os policiais. Am-
bos costumam andar pelos mesmos lugares,
usando m6todos semelhantes e se justifican-
do corn a defesa da lei e da verdade. Por isso,
convivem muito maise melhorcorn apoliciado
que os bandidos, ainda que nem sempre seja
possfvel distinguir quem 6 quem.
Certa vez, quando estava cercado de mi-
crofones e obrigado a responder a uma sarai-
vada de perguntas, sem tempo e folego para
pensar, o entio senador Jarbas Passarinho, que
sempre teve humor e raciocfnio rApido, recor-
reu a uma frase de efeito para amansar os re-
p6rteres selvagens A sua volta: "Se tiv6sse-
mos usado jomalistas nos IPMs [Inqudritos
Policiais Militares, utilizados pelo regime
military, a partir de 1964, contra os seus inimi-
gos], terfamos arrancado tudo que querfamos
saber dos indiciados". Ao lado do ex-ministro,
acrescentei minha frase: "E nao teriam precisa-
do torturar ningu6m". Passarinho ainda teve
presenga de espfrito para rir, embora num torn
palidamente amarelo.
0 poder de urn jornalista, diferentemente
de umrn bandido ou de um policial, que slo seus
interlocutores, deve derivar apenas da sua in-
teligencia, da potencia da sua dial6tica, dos
m6todos de investigagAo que utiliza e da 6tica
que delimita o seu campo de atuagco. Corn es-
sas caracteristicas, ele 6 um dos elements fun-
damentais da democracia.Tem a missiodecon-
frontar o poder, pondo em cheque as verses
oficiais, identificando os fatos, desmascaran-
do as farsas e tratando de transformar a infor-
magdo num bern do patrim8nio coletivo. Para
que cumpra esse papel, ojornalista 6, por defi-
niqAo, um outsider, um auditor dos poderes
constituidos, urn remador contra a mar6 do con-
formismo e da submissao, um fiscal do povo,
um auditor da sociedade.
Precisa se expor, corner riscos, quando ne-
cessArio, incluido o risco de errar. 0 que nio
pode 6 aceitar pratos feitos, verdades acondi-
cionadas em dossies formados por algum
agent do enredo, por grupos de pressio e,
muito menos, pelo govemo. Presta atenqAo
ao que ouve e procura reproduzir com fideli-
dade o que lhe dizem, quando funciona como
entrevistador. Submetendo, por6m, ao teste
de consistencia e A demonstragio todos os
dados que lhe chegam.
Claro que deve se resguardar dos equfvo-
cos, mas errare humanum est, diziam os lati-
nos, sempre ladinos na ret6rica. Mas se o pre-
go para anunciar uma novidade realmente rele-
vante e do interesse pdblico 6 arriscar-se ao
erro, que venha o cAlice amargo. Assim os inte-
ressados se manifestario, os prejudicados con-
testario e, talvez, os ratos saiam das suas to-
cas. O jomalismo que nao exerce o oficio de
provocar as manifestaQ6es da sociedade e a


Os velhos bandidoi


tarefa pedag6gica de se antecipar A consuma-
9ao dos fatos, ao mesmo tempo em que farejar
tendencias e perspectives, 6 cosm6tica.
Ao lidar corn todos os estratos da socieda-
de, em todos os lugares, em qualquer situagao,
atravessando cord6es de isolamento, pene-
trando os grossos volumes da burocracia, des-
tripando as contas e os c6digos, indo atras de
cada um dos personagens do acontecimento
da ocasiao, ojornalismo se toma uma via es-
pecificade conhecimento, urn caminho heuns-
tico pr6prio, a forma de poder mais democr6ti-
ca e eficiente ao alcance do cidadao. t assimrn
que se explica a frase aparentemente inconse-
qiuente de MillNr Femandes, o mais sAbio dos
s6bios humoristas: jornalismo 6 oposigio, o
resto 6 armaz6m de secos & molhados.

Journalist Ralmundo 0o-
Srigues Pereira deu
Jmais uma vez sua con-
tribuigao a esse jornalismo
com 0 eseondalo de Daniel
Dantas Duas investigag6es
(Editora Manifesto, 825 pigi-
nas), langado no final do ano passado e
que s6 nao passou em branqufssimas nuvens
porque a Folha de S. Paulo lhe dedicou uma
mat6ria. 0 desinteresse da imprensa contras-
ta corn a relevincia do tema ao qual Raimun-
do dedicou seu livro, em boa parte composto
por artigos que ele j publicara.
Antes dessa abordagem, a visAo predomi-
nante sobre o affaire era que o seu persona-
gem principal, o banqueiro baiano Daniel Dan-
tas, era o vilao dahist6ria. Ele formara um patri-
m6nio notavel, a partir de um mfnimo de capital
prdprio, aproveitando-se de informaQ6es pri-
vilegiadas e forms de pressao ilicitas para en-
riquecer corn a privatizaqio das empresas es-
tatais de telefonia.
Quando um justiceiro, o delegado da Po-
licia Federal Prot6genes Queiroz, corn o de-
cidido apoio de umjuiz e de um promoter de
Sao Paulo, comegou a investigar e desnu-
dou todas as maracutaias do banqueiro ines-
crupuloso, culminando por prende-lo, for-
gas ocultas se puseram em campo, soltaram
Dantas, afastaram Prot6genes da apurailo
e o transformaram de autor do inqu6rito em
r6u. 0 malfeito s6 nao se consumou por in-
teiro porque o delegado, afastado da PF, con-
seguiu se eleger deputado federal pelo Parti-
do Comunista do Brasil, na onda da enxurra-
da de votos do humorista Tiririca, um analfa-
beto funcional (como um tergo da popula-
qAo brasileira) que se tornou o mais votado
dos candidates A Camara Federal em todo
pafs, corn sobras suficientes para arrastar
consigo o cagador de bandidos.
A hist6ria que Raimundo Pereira reconsti-
tui 6 o oposto desse enredo. Ele argument
que Daniel Dantas foi escolhido para bode
expiat6rio (ou boi de piranha) de uma trama
iniciada em 1999, quando o president da re-


piblica era o soci6logo Fernando Henrique
Cardoso e o PSDB era o partido no poder.
Justamente nesse ano o PT mudou sua estra-
t6gia de conquista do poder, que resultara em
tries fracassos do seu candidate inico, Luiz
InAcio Lula da Silva.
Ao inv6s de bater de frente corn os tuca-
nos e contrapor ao program reformista da so-
cial-democracia A brasileira um program de
testada socialist, os petistas decidiram con-
tornar as diferengas e investor nas semelhan-
gas corn a prAtica que, desde o Piano Real, corn
a criagio de uma moeda estivel, levara A cria-
gio de empresas de porte international no Bra-
sil e de um mercado consumidor avantajado.
Ao inv6s de "Fora, FHC", o "Lulinha paz e
amor" do marqueteiro Duda Mendonga. Duda
recebeu pelo menos oequivalente a 10 milhoes
de reais, em dinheiro depositado numa ilha fis-
cal intemacional, pela sua nova criatura. O de-
p6sito foi feito no BankBoston nas ilhas Cay-
man. 0 banco teve como president mundial o
president do Banco Central do Brasil durante
todo o desenrolar dessa intricada novela, Hen-
riqueMeireles.
Justamente em 1999 um personagem sem a
menor parecenga com o perfil petista, o empre-
sgrio Luiz Femando Demarco, se aproximou de
um apparatchick petista, o nissei Luis Gushi-
ken, para aumentar seu poder de fogo contra
seu principal inimigo, Daniel Dantas.Aanimo-
sidade comegara nesse ano, quando Dantas
props uma acao contra Demarco em Cayman.
O contato nao parecia de imediato tao forte,
mas comegou a mostrar seu potential quando
o PT elegeu a maioria da diretoria da Previ, o
fundo de pensao do Banco do Brasil, o maior
dos funds de estatais, dono de um dos princi-
pais ativos de aplicaqces do pafs.
0 president do fundo passou a ser Sergio
Rosa, outro personagem que nao tern coerdn-
cia com o cat6logo pdblico de perfis do entao
Partido dos Trabalhadores. Gerente de um pa-
trim6nio de 70 bilh6es de reais, Rosa passou a
circular corn desenvoltura no circuit da gran-
de finanga, national e intemacional, que se ex-
pandia "como nunca antes na hist6ria" em fun-
gio da movimentagio de dinheiro provocada
pela venda das empresas estatais.
Essa dinheirama podia former um apendi-
ce de "recursos nao contabilizados" suficien-
te para irrigar caixa dois de campanha eleitoral
e vdrios outros escaninhos parasitarios. 0 PT,
o partido da 6tica, o dnico partido ideol6gico
no espectro politico brasileiro, passava a com-
parecer ao caixa dos funds paralelos para
crescer, se equipar e assim deixar de ser ape-
nas um concorrente olfmpico. Para a eleiqao
de 2002, a determinaqao era clara e jA nao
mais original: vencer ou veneer.
Nesse moment em que a origem do di-
nheiro deixou de ser verificada e tudo se toma-
va legitimo pela alquimia do discurso petista,
havia uma ordem, emanada de ningu6m outro
que nao Gushiken, o future home da comuni-


n Jornal Pessoal JANEIRO DE 2011 1IQUINZENA







os novos bandidos


caqao do governor Lula (que convocara De-
marco para trabalhar no comite eleitoral): nada
do dinheiro de Daniel Dantas, que nao era 6ti-
co. Uma diretriz estranha num colegiado quejA
possufa de tudo, menos anjos e inocentes.
A prevenwo a Dantas pode ter umajustifi-
cativa: ele tinha sua origem associada ao baba-
lorixa da Bahia e eminencia parda do Brasil, o
senador Ant6nio Carlos Magalhaes. Ou ao fato
de ser um empresario predador. Mas Lula bei-
jou a mio de Jader Barbalho, saudando-o como
seu mestre em polftica. E empresarios com f6ria
devastadora maior do que ado dono do Oppor-
tunity passaram a ser tratados como amigos
da casa. Menos Dantas.
Raimundo Pereira sustenta que jA entao
estava tragado um projeto que seria posto em
execu9io pelos 10 anos seguintes, comecan-
do ainda na gestao de FHC, gragas A conquis-
ta da Previ pelo PT: modificar a correlagqo de
forgas da situagio criada depois da venda das
estatais das telecomunicag6es. Espanh6is,
portugueses, mexicanos e americanos ficaram
com suas suculentas fatias do neg6cio monta-
do no 5* maior mercado mundial desse setor.
Os italianos chegaram tarde, mas queriam re-
cuperar o tempo perdido.
Como abrir uma brecha na nova divisAo?
Nao podia ser investindo contra inimigos po-
derosos, como a Telef6nica, a Portugal Tele-
com, o CitiBankde Carlos Slim. O neg6cioera
partir para cima de Daniel Dantas, o parceiro
mais fragil desse conglomerado. Fragil em fun-
95o da participaio societaria ou do patrim6-
nio pr6prio. Mas poderoso porque, tendo tio
pouco de seu, administrava tanto dos outros.
Raimundo Pereira explica o paradoxo di-
zendo que se trata de urna situacAo que se ge-
neralizou quando os Estados Unidos libera-
ram a atuaqAo dos bancos, permitindo-lhes
combinar func~o commercial corn fomento, atra-
v6s de funds, como oque Dantas criou. Mes-
mo que nao tivessem operacAo de massa, po-
deriam lidar com pequeno ndmero de clients
dotados de elevado capital para investor. Eramr
os "gestores de recursos", que cresceram a
hipertrofia tal que provocou a explosio do sis-
tema financeiro international em 2008. Os"deu-
ses do universe" mostraram o que eram.
No entanto, no caso do Brasil, indepen-
dentemente desse novo ator, havia um elemen-
to especffico: os tucanos consideravam Dan-
tas seu aliado preferencial. Enquanto para os
petistas ele era suspeito como premissa, o pres-
suposto dos tucanos era que ele era o escolhi-
do. Dem6nio para os primeiros, anjo para os
segundos. Na verdade, A parte suas qualida-
des pessoais, Dantas era quase nada no pesa-
dojogo em que ele se meteu.
Os contendores eram faixa preta. A Tele-
com Italia, para enfrentA-lo e vencelo, alem da
pr6pria forga (tendo atras de si a Pirelli e o go-
verno italiano), contou corn o apoio da Previ,
do Banco do Brasil, do Minist6rio da Fazenda
e dojA entao president Lula.


Uma das virtudes de Raimundo estA na
meticulosidade, na paciencia em buscar pro-
vas e juntar peas isoladas. Gragas a essa ca-
pacidade, ele desvenda outro paradoxo: como
6 que o governor Lula, posto no poder em nome
dos trabalhadores e da nacionalidade, acabou
favorecendo uma multinational italiana e, de-
pois dela, arrematou a desnacionaliza*ao da
telefonia, iniciada pelos tucanos?
Nao 6 simples montar a equalao que leva
a esse resultado. Afinal, Lula abriu mais uma
vez as burras do BNDES, fazendo-o liberar R$
13,6 bilh6es, a pretexto de dar a oportunidade
a dois grupos nacionais, o da Andrade Guti-
errez e o de Carlos Jereissati, de criar uma tele
"verde-amarela". Uma vezjuntadas as parties
na constituigio da nova "super-tele", a Oi,
vem exatamente a Portugal Telecom e aboca-
nha a mal-nascida tele canarinha, numa con-
juminagao que expurga tudo que 6 national
para s6 deixar em campo espanh6is, portu-
gueses, italianos americanos e mexicanos.

al metamorfose, obrada
por um especialista na
mat6ria, ao 6 fruto de
um estalar de dedos. Result
de multa espionageml, coaqao,
maquiavelismo, jogo sdjo, cor-
rupao e fraiude. 0 delegado Prot6-
genes Queiroz nao 6 o cavaleiro imaculado
nessa epop6ia f6tida. Ele 6 um element da
engrenagem, embora incompetent e eg61a-
tra. Por isso 6 que Raimundo Pereira contra-
p6e o que o delegado da PF apurou ao que o
pr6prio jornalista levantou, justapondo as
duas investigao6es, que dao tftulo ao livro.
Pode parecer presunqAo e excess de confi-
anga do jornalista, que, assim, se toma tao
personagem da hist6ria quanto o delegado.
Jornalista nunca 6 personagem: 6 o reporta-
dor de fatos, o escrivao da frota, o arauto
das novidades.
No entanto, 6 convincente o recurso me-
todol6gico que Raimundo adotou. Pode ser-
vir de li9Ao parajornalistas que se viciaram
na mera reprodugao de dossies, preparados
por determinadas fontes para tender ape-
nas as necessidades delas e nAo aos inte-
resses da opiniao pdblica. Raimundo leu os
milhares de pAginas da documentaao ofi-
cial, mas as analisou e criticou. E nio ficou
no gabinete de leitura: foi aos cenarios dos
acontecimentos fazer verificag6es.
Pode-se argumentar, como fez S6rgio
Rosa, que ele foi tendencioso, ouvindo mais
- e, em alguns casos, s6 a Daniel Dantas.
Pode-se tamb6m lamentar que ele tenha dado
atenqAo menor As participag6es do advoga-
do Luis Eduardo Greenhalgh, ex-deputado
federal do PT de Sao Paulo, e Jos6 Dirceu, o
poderoso chefe da Casa Civil de Lula, que
seria aliado de Dantas, cuja participaago,
mesmo quando jA estava fora do governor,
parece ter sido decisive.


De fato, numa leitura apressada ou pre-
venta, o livro tern o gosto de obra de enco-
menda, feita para salvar a pele da fonte das
informaq6es. Daniel Dantas sai bem melhor
do livro de Raimundo do que de qualquer
outro texto ji escrito a respeito. Contudo,
todas as afirmaq6es do livro estio docu-
mentadas e demonstradas. Ha provas dos
dois lados da contend, inclusive uma car-
ta do atd pouco tempo atrAs todo-podero-
so president da Previ, S6rgio Rosa, que
acusajustamente Raimundo de ter trocado
o chifre demonfaco de Dantas por uma au-
r6ola beatificante. Mas quem disser o con-
trArio terA que se dar a trabalho igual ou
maior do que o do jornalista.
Ao contririo da maioria do que aparece
na imprensa escrita ou na internet, nao ha
ddvida que o trabalho de Raimundo 6jorna-
lismo e da melhor qualidade (embora, tal-
vez pela press na producgo do livro, haja
escorreg6es na escrita). Pode estar errado,
pode at6 ser tendencioso (se 6 desonesto, a
questao deve ser bemrn apurada antes de virar
especulagAo A base da deduqgo em tese),
mas ele obriga a repensar a privatizaqgo das
teles e, a partir desse tema, nas mudangas
que estAo ocorrendo no Brasil. Sem os es-
quemas explicativos do passado, que se de-
fasaram e s6 term valor retrospective.
Se policia, bandido ejomalistas sao perso-
nagens essenciais da trama national, ha ou-
tros que surgiram e se agigantaram ao mesmo
tempo em que o pais cresceu de forma acelera-
da, gracas, sobretudo, a entrada de dezenas de
bilh6es de d61ares, "como nunca antes", fa-
zendo a reserve international se aproximar de
um registro record: US$ 300 bilh6es. Sio fi-
nancistas, conselheiros, agents de informa-
qio, delegados federais e burocratas.
Alguns deles j estavam no palco. A novi-
dade 6 que safram do fundo de cena para a
posilao principal. E nao de forma convenci-
onal: o segundo home de Daniel Dantas,
Carlos Rodemburgo, pode estar um momen-
to em Nova York e no outro em Redengao,
no sul do Para, combatendo a invasao das
enormes fazendas do Oppotunity ou nego-
ciando corn financistas internacionais. E de-
legados de polfcia, envergando ternos de
corte refinado, podem circular por capitals
do mundo como se fossem neo-007, sem o
mesmo charme, mas com a presungco de mais
carisma, como Prot6genes, o primeiro polici-
al federal a se eleger politico federal, rom-
pendo a tenue linha que ainda demarca as
diferengas e os campos pr6prios.
0 escdndalo Daniel Dantas nao pode per-
manecer nos bastidores. Tern que vir a pdblico
e ser destripado para que de suas parties sur-
jam nao as verses utilitarias e montadas, como
a da TV Globo, num dos mais tristes moments
de cumplicidade a6tica dojomalismo brasileiro
nos iltimos tempos, montando um "flagrante"
de corrupgo, mas aquela verdade que resistir
ao teste de consistencia da sociedade. Nio se
comega ura corrida assim corona verdade. Ela6
alcangada no fim. E o fim desta hist6ria ainda
estA muito long.


JANEIRO DE 2011 1AQUINZENA Jornal Pessoal
















*No pr6ximo ano o pre-
dio na esquina da 15 de No-
vembro corn a Campos Sa-
les fard meio s6culo de exis-
tencia. Foi inaugurado em
1962 para ser a sede da
Alianqa do Pard, cujos es-
crit6rios foram decorados
pelo arquiteto Felipe Farah.
Depois abrigou o Banco de
Londres, o Unibanco e, ago-
ra, o Itadi. E uma constru-
qao s61lida e de estilo, que
merece comemoraqao.


*A filial de Belim das
Lojas Brasileiras (Lobrds),
mais conhecidas como
4.400, era a que mais fa-
turava em todo pals, quan-
do foi anunciado que re-
ceberia uma melhoria ino-
vadora: escadas rolantes.
No Norte e Nordeste, sd a
loja de Fortaleza tinha
uma. A belenense nunca
existiu, apesar das promes-
sas. A 4.400 era tdo forte
que o footing da juventu-


PROPAGANDA

Perfumaria paraense
Neste anuncio de 1955, toda a pujanga da Phebo (ou
Perfumarias Phebo do Pard, seu nome complete de
entdo), com seus sabonetes (Pard e das rosas),
col6nia Desejo,p6 de arroz, petr6leo Oxfor (shampoo
para os cabelos masculinos, sem o "d" final da
universidade inglesa), brilhantinas e talcos. A Phebo
era uma potincia.


de aos sdbados, na Jodo
Alfredo, era em frente a
loja. Mogas e rapazes se
juntavam, conversavam e,
as vezes, namoravam.
*Jorge Cruz fez a viagem
de SAo Paulo a Bel6m por
terra, dirigindo, sozinho,
seu Aero-Willys cor gelo.
No percurso, nao se depa-
rou corn nenhuma situagao
de perigo, "nem intranqiii-
lidade, coisa que muita gen-
te alardeia encontrar cons-
tantemente na BR-14, a
Beldm-Brasfilia
*Jd Jose Nicolau Viana
da Costa, o poderoso em-
presdrio (era um dos do-
nos da AlianFa), circula-
va pela cidade dirigindo
a sua Rural Willys novi-
nha em folha. 0 carro de
Nelito Pinto da Silva, fi-
lho do construtor do prd-
dio mais alto do Norte e
Nordeste (ate a Village
levantar seu espigdo, um
ano atrds, na Doca de
Souza Franco), era um
Simca, representado em
Beldm pelo seu pai, Ma-
noel Pinto da Silva.
*0 filme A Doce Vida,
um dos mais famosos do ci-
neasta italiano Federico Fe-
llini, teve bilheteria fraca
durante os dias em que foi
exibido no Cine Palacio.
Seu substitute, 0 Rei dos
Piratas, avangou nos dias
lotando o salo e levando
gente para o balclo, na par-
te superior, que s6 era aber-
to quando o primeiro piso
entupia.
*0 industrial Wady Cha-
miP anunciava que iria
construir um prddio de
luxo na avenida Braz de
Aguiar, onde funcionou o
Tgnis Clube. Um dos seus


atrativos era a garagem,
que poderia abrigar de 50
a 60 carros.
*Epoca do Cfrio, como
sempre, serve para a visit
dos paraenses "que vence-
ram no Sul". MArio Santiago
era um deles. Depois da pro-
cissio, da festa e do pato no
tucupi disse que a filial da
Phebo em Sao Paulo ia mui-
to bem. Acabara de lanqar o
talco Seiva de Alfazema.
Continuaria na capital paulis-
ta, mas de olho em Belem.
*Uma nova placa apare-
cia no complicado terreno
na esquina da avenida Pre-
sidente Vargas corn a Aris-
tides Lobo. 0 Banco de
Crddito da Amaz6nia que
ali construiria sua sede
prdpria (que acabou sain-
do em outra esquina da
avenida). Antes, o local foi
tido por sede do paldcio da
prefeitura e da Casa do
Estudante, que a Uecsp (a
entidade representative dos
estudantes secundaristas)
pretendia levantar. Como
ndo conseguiu, vendeu a
drea para o atual Basa.
Hoje, sem qualquer cons-
truado, ela abriga as bar-
racas de um dos camel6-
dromos da capital da in-
formalidade.
*Uma das grandes recep-
q6es do ano foi realizada na
sede do Clube do Remo, en-
tao um ponto chic, para co-
memorar os 15 anos de No-
emia Lobato, de uma das
mais tradicionais families da
terra. Foi do arromba.
*Umberto Calderaro,
dono do journal A Critica,
de Manaus, detinha os
direitos sobre o segundo
canal de televisdo de Be-
lim (o outro, jd em ope-


WJornal Pessoal JANEIRO DE 2011 1QUINZENA






raCdo, era o da TV Ma-
rajoara, dos Didrios As-
sociados, de Assis Cha-
teaubriand, o Roberto
Marinho da dpoca) e o
Unico canal de Manaus.
Calderaro tambdm era
descendente de italianos.
0 8xito da montagem da
"Gata Borralheira" creden-
ciou Waldir Sarubby de
Medeiros a ser o realizador
do teatro infantil na TV
Marajoara, apresentado a
partir de outubro, As segun-
das-feiras, no infcio da noi-
te. Teatro televisado, mas
"ao vivo", a desafiar a cri-
atividade e a improvisagao
de todos. Sarubby realiza-
ria depois uma carreira de
sucesso como pintor.
As criangas comeqavam
a dispor, nesse mesmo m8s,
de uma das series america-
nas de maior popularidade
entire o pdblico infantil:
"Aventuras de Rin-Tin-Tin",
o esperto cdo pastor alemdo
enquadrado em regime mi-
litar. E os adults se deixa-
vam fascinar por "Peter
Gunn", tele-filme de quali-
dade, que a Marajoara exi-
bia depois das 10 da noite e
reprisava nas tardes de do-
mingo. Inesquecfvel. Um
"B" dos melhores.
Ji Raimundo Mario So-
bral, na ativa at6 hoje (man-
t6m sua coluna humoristica
no Didrio do Pard), foi o
responsAvel pela version
para a TV de "Ressurrei-
gao", antol6gica obra lite-
rdria do russo Leon Tolst6i,
dentro do program TV de
Romance.
Na s6rie Caminhos da
Vida, quem brilhou foi Maria
Sylvia Nunes, adaptando para
o vfdeo o conto "A confissAo
da VWspera de ano novo", de
Hermann Sudermann. A es-
posa de Benedito Nunes
tamb6m trabalhava na dra-
matizagdo de "A dama de
espadas", de outro grande
autor russo, Alexandre
Pushkin. Enquanto Maria
Helena Coelho adaptava "Os


tr8s desconhecidos", de Tho-
mas Hardy.
Outro program da
Marajoara, 0 Contador
de Hist6rias, completou
seu primeiro aniversdrio
corn "Os homes querem
paz", original de Pericles
Leal, o director da emisso-
ra. Lindolfo Pastana,
sempre suado e sofrido,
encarnou o terrivel can-
gaceiro Boa Morte, que,
na primeira versdo, esti-
vera sob a responsabili-
dade do competent Da-
niel Carvalho.
0 program mudou de
tftulo. Era "Patrulheiros To-
ddy" e virou "LegionArios
Toddy", patrocinado pela
multinational de alimentos.
Mas o comando continuou
com Miguel Cohen, devida-
mente paramentado para
enfrentar os bandidos do
Velho Oeste.
Terezinha Vieira tinha
um program seu, tamb6m
"ao vivo". Em horirio no-
bre, As nove da noite, inter-
pretava arias de 6peras fa-
mosas. Tao bem que era
obrigada a reprisar na se-
mana seguinte.
Desde entdo, a televi-
sao evoluiu, mas s6 tecni-


FOTOGRAFIA

Avenida das mangueiras
Uma cena caracteristica de Belgm em 1927: a poda
das mangueiras na avenida Generalissimo Deodoro,
entire Nazard e Governador Jose Malcher (Sao
JerOnimo de entdo). Como o trdfego de veiculos era
pequeno, o servigo era continue, atingindo todas as
drvores e deixando sobre as caladas os restos
acumulados. 0 espacamento das drvores era menor
do que agora, formando um tunel vegetal mais
compact do que o atual. As mangueiras ainda
estavam em fase de desenvolvimento.
Observe-se que em toda fotografia hd apenas uma
carroca puxada a cavalo. A pavimentacdo d feita com
pedra de granito importada (o paralelepipedo), na
qual foram assentados os trilhos dos bondes, que
eram o principal meio de transport da populafdo.
Numa via larga e valorizada, a convivincia pacifica
de construVoes de luxo e modestas habitaVoes. Ndo
havia estratificagdo social homogsnea nem guetos. A
Generalissimo cortava ruas do Umarizal onde
residiam descendentes de escravos, dentre eles o
mortal T6 Teixeira, compositor de mdo cheia,
violonista dos bons e eficiente encadernador. Pode-se
ate ver a casa na qual, 22 anos depois, nasceria o
famoso Josd Maria Toscano.


camente. Em contefido,
ndo. Algudm guardou es-
ses roteiros? Quem os ti-
ver, que os apresente.
Quem sabe, ndo podem
former um volume de
grande interesse? Onde


mais a televisdo contou
com colaboradores desse
porte? Pena que as hist6-
rias escritas atd agora so-
bre a TV no Pard sejam
pouco mais do que histd-
ria de almanaque.


JANEIRO DE 2011 1'QUINZENA Journal Pessoal U










AO EDITOR


ALUNORTZ
Vi seu artigo no Jornal Pessoal
do dia 9/01/2011, sob o titulo
indicado acima e gostaria de
tecer alguns comentarios ao
mesmo.
Ha cerca de 30 anos, bem no
inicio dos trabalhos de implan-
tago dos projetos Albras e
Alunorte, passei um dia cornm
voc& na Area das plants, quan-
do tive a oportunidade de ex-
plicar-lhe todo o conceito de
control ambiental que esta-
va previsto para a Alunorte e
pude constatar sua capacida-
de de absorver as informacSes
e sua honestidade no trato das
mesmas. Aprendi entio a res-
peita-lo como jornalista e a dar
muito valor As suas andlises.
Tambbm agora na sua andli-
se do livro Alunorte Uma Histd-
ria de Sucesso, pude perceber o
mesmo espirito de honestida-
de e a mesma capacidade de
apreenslo das informa6es
ali contidas e de analise das
mesmas.
Contudo discordo de algu-
mas colocavies e principal-
mente da sua conclusio de
que "o Pard nao participa do su-
cesso em que a Alunorte se trans-
formou, para melhor usufruto de
estrangeiros". Espero que cornm os
comentarios abaixo voce pos-
sa ter uma outra visSo e vir a
concordar em que o sucesso da
Alunorte 6 tambem do Para e
do Brasil, mesmo consideran-
do que o control da empresa
esta passando para a Hydro.
Em meu entendimento a Alu-
norte nio seria um sucesso se
o Para ficasse A margem do
mesmo, ou seja, se os interes-
ses paraenses nio estivessem
devidamente contemplados
neste sucesso. Mas para tan-
to, 6 precise entender e acei-
tar que o malor beneficio que
um Estado detentor de rique-
zas minerals pode obter cornm
as mesmas 6 o investimento
em infraestrutura, a geraoSo de
empregos e de rendas, o de-
senvolvimento human, a ca-
pacitavio professional da po-
pulaoio para a mais ampla
gama de atividades t6cnicas e
econ6micas requeridas pelas
sociedades modernas. Ora, to-
dos estes beneficios jA estio
assegurados e incorporados
na economic e na vida para-
ense videe entire outros o pro-


grama Trainee do Futuro, par-
ceria da Alunorte corn a UFPA).
Lucros e dividends slo per-
tinentes aos acionistas que ar-
riscam seu capital e se disp6em
a trabalhar essas reserves e a
faz6-lo cornm absolute obedian-
cia As exigencias emanadas
pelas autoridades locais, tan-
to em terms de control ambi-
ental como das legisla8es tra-
balhistas e fiscais.
0 interesse de capitals es-
trangeiros por projetos como os
da Alunorte e da Albras deve
ser visto cornm bons olhos, pois
vem produzir desenvolvimento
e toda a gama de beneficios
descritos acima. Muito melhor
do que capitals especulativos,
estrangeiros ou nacionais, que
entram e saem do pais, bus-
cando altos rendimentos, semr
se preocupar se estio deixan-
do quaisquer vantagens para
a sociedade local.
Se a Vale, mesmo cornm o su-
cesso da Alunorte e cornm a pers-
pectiva de crescimento que o
mesmo propiciou nao se deci-
de a perseguir este crescimen-
to, que passe o neg6cio adian-
te, para algudm que realmen-
te esteja interessado nesse
crescimento. Isto e melhor para
a sociedade, voce nao acha?
Vict6rioSiqueira

MINHA BESPOSTA
0 livro escrito par Vict6rio Si-
queira nos foz admirar o trabalho
que ele e a pessoal da Alunorte
realizou para p6r a f6brica de alu-
mina parafuncionar. t umfeito de
engenharia e uma demonstragdo
da alto capacidade criativa dos
seus tdcnicos. t muito dificil nao
se impressionar cornm as grandes
obras realizadas na Amoz6nia,
como Alunorte, Albrds, hidreldtri-
ca de Tucurulou Mineragoo Rio do
Norte. Essas realizacges contaem
uma histdria grandiose, que cum-
pre respeitar. Mas podem ndo ter
as efeitos sociais positives que seus
executores imaginavam ou ideali-
zavam. t a minha opinido, mani-
festada na resenha do livro. Espe-
ro que a artigo, a carta do autor do
livro e a pr6pria obra consigam
atrair a atenqgo do opinion pdbli-
ca paroa a Alunorte. Sobretudo ago-
ra, que se consumou a transferen-
cia do seu control aciondrio para
uma empresa estrangeira.

SALENAS
Venho aqui enfatizar sobre
um assunto que me causou
extrema preocupagio. Resido
em uma Area privilegiada por
bela paisagem floristica tipica
de ecossistema costeiro e por
encantador movimento faunis-


tico de vida silvestre, a qual se
disp6e diariamente a realiza-
glo de diversos estudos de cu-
nho cientifico dos apreciado-
res da natureza, bern como de
simpatizantes da dinimica
dos mangues. Tal ecossistema
nao 6 privildgio apenas de
onde resido, Braganga-Para, o
mesmo se distribui ainda ao
long de todo litoral norte.
Humildemente essa parte da
natureza amaz6nida, nos cau-
sa orgulho quanto A presenga
dos manguezais mais preser-
vados do mundo, assim tam-
bdm como do maior berAgrio de
guards do mundo, bern como
das maiores amplitudes de
mares do mundo. Tudo A tio
grandiose, inclusive a nossa
atual inquietaCio quanto aos
passivos dessa natureza, que
aldm de exposta aos modos de
uso e ocupagio humana, tam-
bdm est6 na iminAncia de gran-
des projetos da Agencia Naci-
onal Petrolifera (ANP), por meio
da representagao de empresas
como a OGX (uma empresa do
grupo EBX).
A AudiAncia Publica que ocor-
reu no domingo passado in(-
cio de ano, plena Apoca de fnri-
as nlo se constituiu de nenhu-
ma caricature da esfera estadu-


al. A mesa foi presidida por se-
nhora distinta, que ainda conti-
nua desconhecida da nossa so-
ciedade local. A mesma nos in-
formou que a "discussao" se tra-
taria dos Estudos de Impacto
Ambiental, que foi feito no nos-
so municipio sem sequer con-
sultar os inumeros especialis-
tas que residem em Braganga.
Mas na verdade, a referida "dis-
cussao" foi somente para nos
conscientizar a respeito da fa-
tia que nos resta da implemen-
taglo do empreendimento, no
caso, o compartilhamento da
tens5o sobre a dita "insignifi-
cante probabilidade" de um
event accidental de derrama-
mento de 6leo. Haja vista os re-
passes econ6micos e benefici-
os sociais, ou seja, a melhor fa-
tia, mais uma vez estA indo para
o Estado do Maranhao.
Aqui no Norte, n6s tambdm
acreditamos em um Brasil do
future, que trarA progress,
mas que seja depositArio des-
sas esperangas por meio do
bom senso e do respeito para
corn as pessoas e, principal-
mente, para cornm a natureza.
Por fim, gostaria de Ihe agra-
decer pela atengio a este an-
gustiante desabafo.
Fernanda Atanaena Andrade


Jomal Pessoal

Editor: Licio FlAvio Pinto


Contato: Rua Aristfdes Lobo, 871 CEP: 66.053-020 Fones: (091) 3241-7626
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Diagramanio e ilustrag6es: Luiz Antonio de Faria Pinto
luizpe54@hotmail.com chargesdojomalpessoal.blogspot.com blogdoluizpe.blogspot.com


MJornal Pessoal JANEIRO DE 2011 1QUINZENA


Mem6rIa do Cotidiano 3

Jd estd t
venda nas
bancas e
livrarias da
cidade o
terceiro
volume da
colepdo em
format de
livro da
Mem6ria do
Cotidiano, a
se!do fixa
deste journal.
Com
diagramaado
mais leve e
limpa, para
permitir a
melhor leitura e o maior prazer dos leitores.
Agora, j ir atrds e comprar 0 editor agradece.






A rua 6 sua casa: cuide bem dela


Cheguei a Bel6m em 1955, corn cin-
co anos, vindo de Santar6m. Tirando
sete anos de domicflio em outros luga-
res, vou fazer meio s6culo de vida na
capital paraense no pr6ximo ano. t o
bastante para dar alguma autoridade ao
falar sobre a cidade, mas tamb6m me
tornei seu cidadao honorfrio, um titulo
que fui buscar corn orgulho na Cimara
Municipal por me parecerjusto. Depois
de tanto tempo vivendo em Bel6m 6
quase impossivel nao ter uma relacgo
de amor e 6dio com ela.
A cidade continue a merecer nos-
sos bons sentiments porque resisted A
sua destruiqao cultural e descaracteri-
zacio fisica, intensivas durante esse
period. Mas 6 tamb6m irreprimfvel a
sensagdo de perda e indignaqco que a
constataqAo do resultado desse pro-
cesso hist6rico desencadeia. Que-
remos nos empenhar na defesa
da cidade, mas As vezes temos
o impulso de cobri-la corn mais
uma pi de terra para seu se-
pultamento. Sem sequer o do-
bre de finados.
Temos agora a oportunidade de
testemunhar uma data de grande digni-
ficado: o 4 centenArio da capital do
Para, em 1916. Ainda falta um qilin-
qii8nio para chegarmos a esse mar-
co, mas ele nao 6 tao distant
quanto parece. Dentro de pou-
co mais de um ano elegeremos
o prefeito sob cuja gestao a ci-
dade se tornarg quatrocentona.
AparecerA um alcaide pior do que
os dltimos que, por tao equivocado im-
pulso, escolhemos? Ou os c6us brinda-
rdo os belenenses com um administra-
dor competent, A altura do aniversario
secular? Os municipes virdo surgir at6
a eleigio de 2012 uma lideranga nova
ou terdo que escolher entire os nomes
de sempre?
Os candidates jA comegam a se de-
linear. Nomes como os de Zenaldo Cou-
tinho, Edmflson Rodrigues, Arnaldo Jor-
dy e alguns outros indicam que o Ambi-
to das alternatives sera modesto; em
alguns casos, mediocre. Diante desse
panorama, o que parece melhor 6 pen-
sar em programs e projetos. Talvez se
a sociedade civil conseguir consolidar
um conjunto de iniciativas para corrigir
os erros acumulados na gestao da cida-
de e indicar os novos caminhos atrav6s


dos quais chegarA a um novo rumo, po-
deremos impor ao prefeito que surgir
da competiqAo pelo voto do pr6ximo ano
uma agenda que ele precisard cumprir,
mesmo que obrigado.
JA tentei esse jogo no passado e as
respostas foram poucas. 0 belenense
se acomodou ou se desinteressou pelo
enredo coletivo, pela condigao de cida-
dao. Isola-se no seu apartamento num
dos muitos espig6es de concrete, no seu
carro blindado e escurecido por gros-
sas pelfculas, na academia de mtsculos
e imagindria sadde e, sobretudo, na fuga
para outros recantos. Naturalmente,
esquemas acessiveis apenas aos que
podem. Os que nio podem, imensa
maioria da populagqo, que se sacudam,
como diz o ditado popular.


JA 6 hora de chacoalhar a conscian-
cia para que dela surja alguma luz de
serventia conjunta. Bel6m nao saird de
seu melanc61ico crescimento sem uma
nova consci8ncia da vida em comuni-
dade, sem uma mentalidade que vA al6m
do umbigo de cada um e do nariz de
todos. Ao fazer o convite ao leitor para
mandar para ca sua mensagem corn
propostas, id6ias, observaqges ou criti-
cas, gostaria de proper um slogan para
os 400 anos: a rua 6 a sua casa.
A rua virou um campo de batalha,
um terreno baldio, a lata de lixo da ci-
dade. E desprezada, vilipendiada, mal-
tratada. Nao me sai das retinas a cena,
no Jurunas, de uma senhora que sai da
sua casa e joga o lixo solto no terreno
baldio bem ao lado, esparramando-o
sobre o capim. E a aqao bumerangue
do belenense: ele atira o que nao lhe


JANEIRO DE 2011


serve para fora dos limits da sua resi-
dencia, que 6 o seu local de confina-
mento, 1 no alto, quando pode, ou toda
gradeada, se r6s-do-chlo.
Claro que num moment qualquer
esse objeto atirado A rua poderA voltar
na forma de ataque, como um instru-
mento letal: doenqa, sujeira, inundaqAo,
ladrAo ou assassino. t impossivel lim-
par as mdos, A maneira de Pilatos. A
alienagqo e a omisso jamais serdo
meios de assepsia em Bel6m. Para fa-
zer, 6 preciso meter a mAo na lama e
moldA-la para que se metamorfoseie em
algo positive.
H1i um lixo moral e simb61lico que se
infiltra pela cidade, mas ha, antes, um
lixo fisico, que se expand, torna-se in-
controlivel, multiplica a pobreza, induz
a criminalidade, do ponto de recolhimen-
to ao despejo, num submundo que de-
grada as pessoas e ameaga a coletivi-
dade. Dos quase 390 mil domicilios da
cidade, 43% sao isentos do pagamento
do IPTU, o tributo principal do condo-
minio municipal.
A isengdo foi desbragadamente am-
pliada no governoro popular" de Edmil-
son Rodrigues, quando no PT, a pretex-
to de traduzir a enorme pobreza da ci-
dade. A desobrigagao de contribuir para
a receita municipal abrangeu tanto as
residencias quanto os estabelecimentos
comerciais, o que jA ndo 6 inteiramente
just. Pior do que isso foi isentar tam-
b6m o pagamento da taxa de lixo, que 6
um serviqo terceirizado.
Sempre sao apresentadas d6vidas ou
mesmo acusaqoes quanto A lisura da
relaqco entire o poder pdblico e a em-
presa contratada, mas 6 inegAvel que o
servigo 6 prestado. Se nao 6 muito efi-
ciente, parte da culpa 6 da pr6pria po-
pulagqo, que descarta seu lixo, qualquer
lixo, sem o mais leve sopro de culpa na
consciencia. Bel6m vai se tornando
cada vez mais uma cidade suja moral
e fisicamente.
Para que pelo menos ela tenha uma
oportunidade de corrigir esse vicio, pode-
se iniciar uma ampla campanha de mobi-
lizag o em tomo dessa id6ia: a ma 6 a sua
casa, cuide bem dela, seja seu dono, im-
ponha seus direitos e obrigan>es sobre
tudo que 6 abrangido pelo espago piblico,
o verdadeiro local da felicidade numa vida
coligada como a das cidades.
Quem topa?


* 1QUINZENA Jornal Pessoal







As arvores e a cidade


A ventania do dia 6 derrubou uma
mangueira na avenida Presidente Var-
gas, em frente A superintendencia do
Banco do Brasil. Felizmente nao hou-
ve vftimas a lamentar, apenas prejuf-
zo econ6mico. Por seus pr6prios mei-
os, a Arvore teria resistido ao vento e
As chuvas. Mas suas rafzes foram
cortadas para dar passage a uma
tubulagqo de fios. Sem sua forga na-
tural, tombou. Mais uma vitima da ur-
banizacgo selvagem.
Quando more em Gainesville, na
Fl6rida, minha casa ficava numa rua sem
saida, arborizadfssima, com um c6rrego
passando atrAs. Certo dia, fui tender a
quem batia na porta e me deparei corn
o serviqo municipal de eletricidade. 0
t6cnico precisava podar umas Arvores
no meu quintal (nao o nosso tipo de
quintal: minha area no era murada e a
casa ficava no centro de um mini-bos-
que). Relatou-me o que faria, pergun-
tou se eu concordava,' concordei e ele
me mandou assinar um termo de auto-
rizaqAo. Foi fazer seu servigo, enquan-
to voltei A minha tarefa.
Algum tempo depois, estava de vol-
ta o t6cnico para me pegar, conduzir
ao local onde estavam as Arvores po-
dadas, me exibir o croquis dos cortes
que fez para que eu verificasse a cor-


relagio do que foi programado ao que
foi executado, me passou outro term,
este de aprovaqio, para que eu assi-
nasse. Eu queria ficar corn os restos
da Arvore? Nao? Pois entAo que assi-
nasse outro papel doando aquela ga-
lharia ao municfpio (ou condado).
De vez em quando relembro o epi-
s6dio, principalmente ao deparar com a
destruiqio da cobertura vegetal de Be-
16m. Todas as vezes em que chega a
temporada da queda das mangas ou das
chuvas mais fortes do "inverno", volta-
me outra das id6ias que tive a prop6si-
to. Aqui jA a repeti diversas vezes e at6
ja a apresentei verbalmente a certas
autoridades. Indiferenqa total, como se
eu estivesse a tratar do impossivel. Mas
o que proponho me parece simples: umn
servigo florestal urbano, conduzido por
meninos e adolescents, entire 12 e 17
anos. Uma turma de 50 deles seria se-
lecionada para se adestrar no trato corn
as Arvores da cidade, podando-as, lim-
pando-as dos parasitas e coletando os
frutos antes que eles caiam ao chao ou
atinjam pessoas e objetos, com os da-
nos de sempre. As frutas seriam distri-
buidas entire os pr6prios guards mirins,
suas famflias e instituiq6es de caridade.
Esses guards atuariam uniformiza-
dos, corn apoio e supervisor para tra-


balhar conforme normas t6cnicas e dis-
por de auxiliares para os servigos mais
pesados. Trabalhariam todos os dias
tteis num periodo, nao s6 circulando
pela cidade para executar as tarefas
especificas, como para ter aulas de bo-
tanica, treinamento para escaladas e
outros conhecimentos. No outro fariam
curso regular. Teriam uma sede para
abrigA-los, alimentacgo e medicamen-
tos gratuitos e uma bolsa razoavel.
Os melhores nesses cursos, atingin-
do a maioridade, integrariam um servi-
qo florestal urban permanent, pro-
fissionalizado, que passaria a transmi-
tir os conhecimentos aos aprendizes e
a comandA-los e supervisionA-los. Os
melhores dentre esses t6cnicos seriam
indicados para cursos e estAgios em ou-
tros Estados ou fora do pafs. A eles
seria conferida autoridade para deci-
dir como proceder em situaq6es como
a do corte das raizes da mangueira que
tombou, evitando que as necessidades
humans entrem em choque com as
exig8ncias da natureza, em busca de
um ponto de equilibrio e compatibiliza-
qAo. Ao mesmo tempo, contribuiriam
para livrar Bel6m de uma contradiqAo
chocante: em meio A mais exuberante
floresta do planet, 6 um oasis de con-
creto. E insensatez.


Charge melhor


O visitante chega ao aeroporto e pega um tAxi, dirigido
por um japones. 0 primeiro sinal de transito que encontram
estA vermelho. 0 motorist segue em frente sem titubear.
No segundo, verde, ele para, olha para todos os lados e s6
entAo continue. 0 terceiro sinal 6 vermelho e ele repete o
procedimento cauteloso. Intrigado, o passageiro pergunta por-
que ele avanga no sinal vermelho e para no verde. Responde
de imediato o motorist japones: "E que pode vir do outro
lado um zaponds maruco, non?".
Bel6m foi tomada pelo motoristajapones da piada. Outro
dia vi uma cena que jamais imaginara um dia vir a presenciar:
o motorist de um carro de passeio que vinha pela Boaventu-
ra da Silva passou sem sequer reduzir a velocidade pelo sinal
vermelho, enquanto o furgao, na 9 de Janeiro, parou no sinal
verde. Em outro dia, o motorist de um carro que vinha pela
Serzedelo Correa entrou direto na Pariquis corn o sinal hA
algum tempo vermelho e corn pedestres na faixa de passa-
gem. la falando ao cellular.
Onde esta a Ctbel? Por onde se esconde a autoridade
municipal? Cade o prefeito? 0 que 6 feito do poder pdblico?
Bel6m estA se tornando a capital mais incivilizada, selvagem
mesmo, do Brasil. E ningu6m faz nada. Talvez por estar fa-
lando ao telefone. Ou circulando em Brasilia.


O Pard tem qualidade mundial quando se trata de humor
grafico. Depois de Ubiratan Porto, Luiz Pinto, S6rgio Bastos,
J. Bosco, Paulo Emmanuel e various outros, 6 a vez de Ator-
res confirmar esse indi-
ce apurado. Alm de
consolidar seu conceito
corn um pr8mio interna-
cional, ele langou seu pri-
meiro livro, cujo titulo 6
simples e brilhante: An-
tes charge do que nun-
ca, coletanea de charges
publicadas no Didrio do
Pard. Torres temn a feli-
cidade de combinar um
traqo bem popular com
um raciocinio sutil, mas
tamb6m claro o bastan-
te para ser captado de
pronto, o que constitui a
maior virtude do humo-
rismo diArio, como o que
ele pratica.


Caos geral